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1.

A Démarche CientíÍica e as
Linhas Diretrizes do
Pensamento Filosófico
Moderno

Nós nAo podemos compreender senão um Uni-


verso moldado por nós mesnos.
NrETzscHE

Se a evolução do pensamento filosófico está em estreita


correlação com a transformação das perspectivas característi-
cas da ciência atual, seriâ imprudente afirmar que esta é a
causa daquela e procuraremos mostrar no curso do presente
trabalho que o mecanismo mesmo da criação científica repousa
estreitamente sobre a "atmosfera intelectuaÌ" da época. A
melhor hipótese é a de uma espécie de oJmose entre pensa-
mentos filosófico e científico, que assinalam uma tendência
já forte para se confundirem. Tentaremos pois primeiramente
expoi em suas relações com a ciência, o âspecto positivo da
presente evolução do pensamento filosófico naquilo que tem
de geral, de independente das questões de doutrina.

$ t. - cnÍrrce. Do DETERMINTSMo
Ao fim do século XIX reinava de maneira quase exclu-
siva no meio científico a doutrina materialista de um Univer-
so real, concreto, do qual nossos sentidos nos forneciam uma
imagem defoÍmada, confusa e fragmentária, sendo o papel da
ciência essencialmente o de rasgar as cortinas sucessivas que
dissimulavam esse universo real. Ela o conseguia, sabendo
que ele era regido por leis da lógica formal e pelo postulado
de um determinismo universal cuja melhor expressão se man-
tém ainda na mais que célebre fórmula de Laplace, que con-
vém todavia relembrar aqui, em vista de sua extraordinária
importância heurística:
\ 16 a cllr^çio cr!Ndl,rc^ ,r otiu,rttttll, crtl'rirrcr, rr LINH^S DI{[rRlzr:s l1
^s
tì q "Unur intcligência que por um instante dado conhecesse todas ircinra das ìnlluências observáveis, qualquer que seja a prc-
1', \] ll'r lìrrçrrr (lc que a nâturezâ é animada e â situâção respectiva dos cisÍio das observações.
"' ] sclcs quc a üompõem. se além disso ela fdsse bastante largâ para
- ,ì \lrbnìeter esses dados à análise, âbrângglia em uma mesma fórmula Sc esta restrição de importância parece um ponto doÌa-
.i os movimentos dos maiores corpos do Universo e os do mais ligeiro vïnte firmado, tudo indica que ainda não se chamou sufi-
nada seria incerto para ela e o futuro, assim, como o passado
3 -\- átomo: pÍesente cicntementc a atenção pâÍa o fato de que este ser infinita-
,\ estaria a seus olhos, Todos os esforços do espírito humano
V na pesqoisa da verdade tendem a apÍoximáìa incessantemente da mcnte inteligente, de que Laplace fala, é contrâditório nos
inteligência que acabamos de conceber," termos da lógica formal. Com efeito, qualquer que possa
t ser â estmtura do referido ser infinitamente inteligente, Íosse
Em notação mais modema, diremos que o conhecimento csta a mais extraordinária de todas as máquinas de calcular.
das posíções e das velocidades de todos os átomos (atopo ) dcveria ele, por definição, explorar, em um instante dado, as
do Universo deveria bastar a um set suscetível de calcular suas seis variáveis que definem cada átomo elementar de todo o
interações parâ deduzir deste instante toda a evolução do Universo, fosse apenas certificando-se de que certo número
Universo em seu pormenor. A extraordinária clareza dessa possui valores idênticos, para armazenâlos em umz memória
fórmula de Laplace, que foi a causa de seu êxito, conduzia qualquer, pois nenhuma "codificação" dos resultados pode
a ciência em seu conjunto a considerar-se, senão como esse efetuaÍ se, salvo após uma exploração que devc ser no caso
ser "assintótico" rumo ao qual deve evoluir o espíÍito huma- instantânea, e ele deveria efetuar o cálculo de todas as suas
no, pelo menos como a prefiguração sempre imperfeita que interações fazendo-as intervir simultaneamente. A lógica ele-
melhor podia dar a idéia dele, e o reino dessa definição do mentâr exigiria, portanto, a intervenção, no sistema de cál-
dctcrminismo durou até a recente crise da Física ocasionada culo, de un número de elementos superior ou pelo menos
pclos quanta e pelo princípio da incerteza. Este, estabele- igual ao dos elementos explorados, pois- é preciso no mí-
cendo que, no conjunto dessas coordenadas, a metade apenas nimo -um elemento, portanto um átomo, compreendido no
é conhecível corn precisão indefinida ou, mais geralmente, sentido etimológico, para representar 1a posição de um átomo.
que a precisão de nosso conhecimento do Universo é limi- Em outros termos, a única solução do problema seria que os
tada pela gra deza da. constante de Planck, afirma de fato átomos representativos coincidissem com aqueles mesmos do
haver um "jogo" no determinismo e em conseqüência um Universo descrito, supondo assirn uma "autoconsciência uni-
limite nas interações das partes do Universo umas sobre as versal", o que resulta em divagações gratuitas sobre a cons-
ouras, sendo a "fronteira" precisamente um distanciamento ciência do Universo, desprovidas de seriedade. A simples
tal que a influência de cada ser elementar sobre outÍo desce lógica formal proíbe pois imaginar semelhante seÍ.
abaixo de um "limiar de sensibilidade", medido pela cons-
Que nos importa, ademais, conceber um ser indefinida-
tante de Planck. Ela introduz como corolário desse fato e mente capaz de síntese, um deus matemático que abrangesse
no princípio a noção bem conhecida em ceÌtos domínios em si mesmo as posições e as velocidades de todos os átomos
da Física de "ruído- de fundo" como limite paÍa a apÌeen- do Universo mesmo a menos da incerteza de Heisenberg
-
são dos fenômenos materiais, por qualquer sistema que seja, - nos é grahrito e incomunicável, poÍquanto
se este deus
ruído "de fundo" constituído pela soma provável dos resíduos -teria de nos alçar às dimensões de sua própria inteligência
erráticos dos fenômenos longínquos, soma indeterminável com para que pudesse transmiúr-nos uma mensagem qualquer? Não
precisão ilimitada, e que vem formar o ceruírio sobre o qual pde tÍatar-se no caso senão de um modo de ver do espírito,
se salientam com um contraste mínimo os fenômenos oáser- de um "mito da razão" cujo verdadeiro valor é o de inflamar
vrívefu. Assim, desse "jogo" dos fenômenos na escala ele- a imaginação do cientista ou do Íilósofo portanto, de
mentar, desse cimento fluido entre os tijolos da construção, ordem estética. O que nos importa de tato é-a única imagem
resulta uma limitação no espaço e no tempo numa escala szpe- do mundo suscetível de ser contida no espírito humano e
rior à escala inicial ern que se cÕloca o princípio de inceÍteza nenhuma outra, Essa imagem não pode ser senão um esque-
do determinismo dos fenômenos: quândo levanto um braço, ma de aproximação, seÌecionando o espírito no mundo da
não incomodo a Ìua, pois o conjunto dos movimentos dos percepção uma diminuta quantidade de informação que lhe
poquenos corpos da superfície terrestre cria uma espócie de chega e construindo com esta um esquema ao mesmo tsmpo
ügitação estatística cujo valor quadnítico médio çntmanece inteligível e limitado. Assim, o conceito de determinismo
ll{ ( Rl^çÃo (rttNllrrlc^ r oíru,rtrcttt, ctuxrírtc,r ti LINHÀs DIRI:'lRlzls l9
^ ^s

Il)roluto, lll conìo foi formulado por Laplace, pcrdeu nâ ciêrì. nhecimento do nrundo, uma atitude inspirada pela fenontc-
(rin rtull o pirpcl dc catalisâdor da pesquisa que desempenhoir nolosi dc Heeel: o cientisla está no mundo mas lambém
duÌontc nì is tlc um século. em ãposição a-ele, quer conquistá-lo pelo pensamcnto c-a
N 2. * RESSURGIMENTO DO IDEALTSMO ciência nasce do deselo de transformar o mundo em funçãtr
do homem.
O recuo do determinismo formal foi naturalmente acom- O homem é reintroduzido neste mundo onde, na coÍÌ-
panhado de um declínio do interesse pelo Número concebido ccpÇão antiga, desempenhava um papel âbsolutamente passivo
como valor únlco, expressão última da verdade científica. de õbieto testemunha, pois essa visào global exaustlva' so e
Relativamente menos e menos cientistas se interessam por essa constiuída através de olhos do sábio e nào pode destacar-sc
metrologia de alta precisão, busca da quinta decimal, que da estrutura mental deste. "De Íato, nosso problema é adap-
constituía o triunfo do físico de há quârenta anos, para orien- tar o mundo a nossas percepçòes e nào nossas peÍcepçÓes
tar-se, seja para determinaçóes quantitativas mais grosseiras, ao mundo", diz Bachelarcl.
porém mais necessárias, seja para o aspecto inteligível e O conhecimento científico estabeÌeceu-se entao por uma
coordenador do mundo dado pela ciência teórica, o que, de lutiì, por uma oposição do indivíduo ao mundo exterior' t'
fato senão de direito, é indício de abandono de um certo oor uma série de còntradições dialeticas entre o que cslci
materialismo quantitativo que enxerga na precisão ilimitada istabelecido. formando a imagem do lJnivcrso aqui e hoje
um fim em si: o papel do físico que era outrora o de medir e o oue o cientista vai estabelecer. opondo-se ao que !i'
o Universo tornou-se, bem maìs, inteirament€ diverso, o de Ele uliraparsa ussim o ponto de vista existente. com o risctr
"compreender o lJniverso", isto é, o de o "prender", de o
de combater em um estágio ulterior o que ele - ou unì
"apreender". Sua tarefa essencial parece ser então a de outro já estabeleceu, para completar uma nova etapa
fornecer uma boa representação dêle, uma imagem inteligi -
no *""tturn"nto da imagem do mundo em uma rede racio-
veÌ, amiúde muito distante aÌiás desse modelo mecânico quc nal: todo o real é a cada instante o racional, logo tem direito
contentava Lorde Kelvin. "A Ciência suscita um mundo por a um lugar no universo teórico O mundo científico não nos
um impulso racional, ela constrói o mundo à imagem da ra- é presenie senão por sua racionalidade: é a tese de Brunsch-
zão." (Bachelard. ) uiËg "q"" a ciênóia moderna não se coloca no ser absoluto
Além disso, o florescimento das ciências humanas pro- mas se move no pensamento"' que encontra numerosos ecos
curou pôr sob o jugo da razão e por isso mesmo da medida ''Assim. a históriã do Egito d antes de tudo a da Egiptt.r-
um imenso domínio que escapava à âpÍeensão racional, mas losia: o real nâo está dè todo feito anteriormente a nossa
essa medida, desde seu princípio (psicologia experimental iniestigação" (Aron). De um Ponto dc vista estrilamentc
ou sociometria, por exemplo), não pÍetende de modo algum ,roeracïonal somos leconduzidos à fórmula de Hamelin: "o
a precisão indefinida e conhece, em sua criação mesma, seus oue existe das coisas, sào us idéias que o espírito dclas pos-
-i", 'o mundo é uma criaçâo malemática do espirito
limites em um jogo de variações indíviduais imprevisíveis. cien-
Nascidas em um quadro estatístico (Galton, Pearson), as rílico" ( Bachelard).
ciências humanas prosperaram sobre a evidência da dialétic:r
\ 3. PRINCÍPIO DE CONTRADIçÃO
indivíduo/coletivo e a conquista do pensamento científico pelo - E FILOSOFIA DO NÃO
aleatório, encetada logicamente aÍavés dos tÌabalhos já anti-
gos de W. Gibbs, lhes é devida na maior parte.
Para o cientista, a verdudeira mola da sua apreensáo
Foi nesse campo racional que a evolução da filosofia se do mundo é portanto, menos que a crençc gtutuila em wtt
produziu. Criticando a concepção kantiana da coisa em si mundo real que ele desvelaria, a contadiçAo.que emerge
que faz da ciência uma teoria da revelação discursiva do real, esoontaneamente do exame "objetivo" o que' observa Aron,
como o "mito do real", denunciado por Hegel, ela denuncia
-
nã'o sisnifica "imparcial" maJ "universal". Esta apreensão
a$ imagens tradicionaìs do progresso científico: dilaceramento far-se-í por interàédio de dipolos díaleticos que assumirão
clos véus de aparências que nos separam do "mundo real", o lugar âos conceitos unitários da filosofia tradicional'
cxplorações sucessivas de peças de um edifício etc... A superaçào dessas oposições dialétìcas na criação dc
como inadequadas e adota explicitamente em relação ao co- - tuis su...ràes d'e dipolos, constitui o modo efelivo de redução
f
,r, cnrrçio ctrNrírtcl A DúM^rctlr crr]NTÍflc^ s LINHAS Drnrrntzrls 2l
2ô ^s

do mundo das sensações ao mundo teórico que é o Universo


na ciência a ambigüidâde fundamental entre experiência c
raciocínio de onde jorram as oposições dialéticas em lugar de
ã; Ciê*i. nà fenoáenologia hegeliana como -na concepção empenhar-se em combatê-la à força de idéias claras
de Brunschvicg. A "descoberta do fato" unitario' lsolado c
tarefa
de tais dipolos -
peÍtencente propriamente à enciclopédia ou ao redator de
;ú;üi;A;ïg"r à colocação em evidência e a ciência teórica manuais de ensino, mas não ao pesquisador: "a observação
iiiiliiiãt "^ im{em de nosias sensações
do que :ientífica é sempre polêmica". Em outros termos, rìão es-
,".à- i"i.t" Jdifi.u, rn"no. uma física unitária
".i
um aìustamento lógico das contradições' tando o edifício acabado, não há interesse em recobrir com
que cstuque dos silogismos as falhas, as lacunas, os defeitos da
São inúmeros os exemplos de tais dipolos dialéticos construção, mas ao contrário deixálos ber.r em evidência para
recente:
se i-pú- manifestamente ã atenção na ciência mais
atrair a atenção sobre eles e incitar a preenchêJos. Ray-
Um dos mais típicos é o dipolo ordem/desordem' que figurolr mond Aron disse igualmente: "a vida não tem como essência
nu o.i*rn'ã-'i-"t"rúeiação proüatitista do segundoàteore-m-a
medida
da e como objetivo a reconciliação total, mas uma ação incessan-
ii""iili"-áÀr*, .ó.t..pottã""dó
-ã"i"ú"ndì-se a noção de entropia da temente renovada, um esforço jamais remâtado", e encontra-
àïjãia"- a evolução do universo cornú uma d€gÍa-
remos aqui o germe de uma classe de "métodos heurísticos'
"
ãu.ao-ir.or".* de Carnot). ou como uma luta {papeÌ da Vida' que serão estudados mais adiante em pormenor (Capítr:los
iËÀãaì"*.tl ã" oÍdem contra a de<ordem É o conceiro de desor- 6 e 7\.
;;;;:;;.;; .d51ais ltu.acos ou descontinuidades no edifício
íShoc-
.tii*iràr oue regeu a teoria dos semicondutores eÌetrôn;coselc )' 54. A CIÊNCIA APLICADA E Á REINTRODUÇÃO
iì.ìj ãu'4"'-ptuin dos sólidos (smekal. Joffé de Andrâde - DO HOMEM NO UNIVERSO
Seria facil 'cotocar em lorma dialética' a evoluçào de A evolução da ciência que se efetuara duÌante o século
Lodos os capítulos da ciência como: o par ondasT corpúsculos dezenove de maneira senão distante, ao menos "desligada"
;.;;;i;. Drincípio de complementaridade ) i a dialética ma- da aplicação industrial, sofreu importantíssima influência: a
iJriá/.".t*'" em fisica nuclèar; a oposic.ào figura/fu-ndo em
em lislca dir
ciência aplicada, melhor ainda, a técnica que parte para a
p'icologia da percepçào: as relações sinaì,/ruído conquista do mundo material a fim de sujeitáìo ao homem,
ìnensagem etc. . .
aplica a um objeto os mesmos métodos de princípio e não
O conceito fundamental de oposiç'to ao mundo racíonal se separa portanto na sta démarche da ciência pura. Na cria-
,rr"""nr" ouru conslruir o mundo imediatamente futuÍo Ìea- ção científica, não hú diïerença entre ciência pura e ciência
'.i"".^l'r" ï -"n,"lidade do homem de ciência Este' até cerca aplicada. Ora, o desenvolvimento de objetivos novos aliás
i" iõio. na ciência uma filosofia do "como se'" Newtott recentes provoca mudanças na forma dessa evolução- em
"i"
dizir Drudentemente: "Tudo se passa como s? os corPos so- - plano cumpre colocar o indivíduo humano.
cujo primeiro
ma.ssa e
iratt.a ,tu atraçâo reciProca proporcional âdistáncra
-sua O primeiro aspecto em que a ciência aplicada modificou
inveÍsamenle proporcional ao quadrado de sua ' re- nosso conceito científico do mundo, é a noção de complexi-
lurãnJol.. nesse"'como se' a tomar parlido quanto a estru- dade. km dúvida, o mundo natural revelado ao cientista se
rura real do Universo. O idealismo contemporâneo' .venot) lhe aparece complexo desde que ele desprende de um ime-
racionais'
n úniu"rro Íeal tão-somente através das construções diato que não é percepção simples e inteira salvo como fruto
ì"ii ái..Lá."nt. a lei numérica -- F kmm"/d'l' deixa de de um longo hábito (análise de Husserl), mas em "ciência
i;J; :;;;- àespida de inrcresse essa resuiçào dogmatica- pura", o estudicso se isolou sistematicamente no estudo do
."*"-trpZ.fit", mas, concebendo cada verdade estabelecida fenômeno simples, artificialmente destacado da complexidade
.àro umâ cadeia ilimitada de contradições,.o cie.ntista do real, e rínico suscetível de ser julgado pelo método carte-
"lotA"
;;;;;;;;;'; próPria atitude uma verdadeira ÍìtosoÍia do siano em sua pureza. Existe aí um amor à simplicidade, uma
il;o t.*nOo a Ëxpiessão de Bachelard que salienta. notu- virtude do simples que reflete o temperâmento do pesquisador:
p"p.f e ó valor da atitude polêmica como dãmar- boa parte das eïperiências da física ou da química tem por
".rr"*.-"
cÍc de nosso progresso racional como regra da etlca Ôo fim abstrair do mundo real um "belo" fenômeno bem sim-
ponsamento. ples, bem puro, que sorá estudado à vontade. A análise hç-
Daí a observaçao feita por Bachelard em O Novo Espí- geliana que coloca tão fortem€nte eln evidência a complexi-
aìitiii", que ionvém còntervat pÍeciosamente e cultivar dade do real exerceu ainda pouco efeito sobre a ciência puta,
,it,
,\ DdM^R(rllti (rtnl.ir,rc,r ti LtNfl,\s DtRtil.Rtzt,s ],1
22 cnt^çÃo clüNTírlc^ ^s
^
gundo o mesnro modo de raciocínio corn que concebia uma
Em compensaçào, a récnica descobriu rapidarncntc c laminadora à qual o homem era destinado e o refe-
u io.pt"tiauO". primeiro como soma de elemcntos
consr;i;-i"Liieí"l,ls, rido telefone- refletia, por exemplo na preponderância
- da geo-
sirorlr""rn depoís'como
'
um todo e, tomando con- nretria sobre seu aspecto externo, os caracteres "hereditários"
ii""i" .i,' ri*ou-se ousadamente na organização de sis- da laminadora concebida, por sua vez, como um ser racie
temas comDlexos aos quais ela desde o início recusou
o ol-
quc nal destinado a desempenhar uma lunção em um ciclo de
.ãì. a i"iri". Foi pelã canal das aplicações técnicas a
lenomc- produção, a seu turno racional.
ciência foi obrigada a descer da torre de marfim dos O objeto industrial exigia ponanto do "usuário" que
e a encontrar a complexidade como um dos ele-
nos Duros
elabora- -
haveria de multiplicar-se rapidamente até tornaÍ-se o homem
;;,;; ã; mundo modemo, primeiro nas estruturas
à;;';ã;it.;"^, depois na Natureza onde ela estava todavia
para fa-
moderno
-- umà dqptação
muita freqüência
às normais racionais que com
não tinham nenhum caúter de- neces-
ia" J"ú^Ërã",ì c pouco,.armou-se
in'scrita. Pouco - para o homem quanto para a máquina.
sidade funcional tanto
zerJhe frente; o cáÌculo matricial, as máguinâs de câlcullr'
a
a multiplicação q9t t:i11-11- Assim, o mundo humano tomava contato através da tecnG
:entralizaçào de informações. logia com um mundo "científico" (ou que pretendia sêJo)
ttcnarros
dores técnicos qualificados, as grandes bibliogratras' dotado de suas próprìas normas.
àoertórios, oi modos de contÍoles globais' as aproxrmaçoes
"suce'ssiuas el.c. . figuram dentre os instrumenlos que â.clen- Não foi senão aplicando os inventos à criaçào de novos
;i;;;j."- " [im de enfrentar a complexidade de organismos objetos industriais, automóvel, telefone, rádio etc..., que a
como os radares. a televisão. as grandes redes de lnterconÜ- vida do homem se viu modificada em sua estrutura através
xão, os circuìtos telefônicos, a íisiologia humana' do contato com um novo mundo racional e que ele precisou
vìver em simbiose com a mdquina', esse desenvolvimento não
Parece no entânto que o cérebro humano não fez
quasc
data de quarenta anos.
*onr.t"o-ãa base na pesquisa do complexo enquanto .tal c
sobre o
ã;;.;i" àí um problóma'incompletamente resolvido a não vagas
Os exemplos dessa mudança de ponto de vista no do-
nral a Íilosofìa nàda nos tíaz até o PÍesente ser mínio da morfologia dos objetos industriais são numerosos:
il,Jicucõ"t sobre o vaìor e o papel da síntese' Não há arnda escolheremos um em um domíno algo mais complexo que
'Ëiãàiíi
a" Complexìdaàe i i tuttu de um tal instÍumento mostra como se desenrola atualmente a penetrâção, primeiro
ìntete"tuat adequaào começa a fazer-se sentir' da ciência aplicada, depois da ciência pura, pela psicologia,
exemplo que evidencìará um dos traços mais notáveis da
A entrada do homem como "sujeito" na ciência eferuou- evoluÇão atual da ciência aplicada.
-se há muito Pouco tempo com o desenvolvimento de uma
irãiri.io o" ibietos rte ôorsumo co"ent" baseada nas apli- Desde que a Eletrônica teve pcrmissáo de reaÌizar as primeiras
là.ã.1 ..nriri.át. Esta é bem mais recente do que se ima- tiansmissões através do espaço e do tempo da pâlavra ou da música:
ieini.u do século XIX era a das comunìcações' da aquilo que denominamos "çanal sonoro" (radiodifusão, música gra-
""riirl-*it,
"i,ìu, ^ das manufaturas, que como seu nome indica vada et'c. . . ) os técÍicos, formados exclusivamente nas disciplinas das
corn máquinas -
óbletos que antes eram fabrica- ciências exatas e da físicÈ, preocuparam-se com melhorar sua ..qua-
lidade" e a démarche de pcnsamento que âdotaram é assaz curiosa
-'frú;Ë;"rt
dos a mào etc. . . mas impoÍtava muito pouco ao- consumldor
quando a destacamos de sua ambiência tecnológicâ. Começaram por
que o obieto tradicional saísse da máquina ou das maos oo fornecer uma definição dogtnática da "qualidade" decretando s€m
ãp"rário;'tO o operário tomava contato com meios de pro- prova algufla que a perfeição de uma transmissão importava- em
-
reprodúzir exatamelte na orelha do ouvinte o sinal sonoÌo emitido
ã'uiao tu.gu."nt" inumanos (as grandes máquinas)' dìante do úicÍofone, tomando poÍtanto no caso uma condiçáo rzti-
O contato íntimo e generalizâdo do homem e da máqui- ciezte, no senúdo úatemático do termo, por uma coldição necersíiriid
na ctaia de algumas décad-as quando a própria máquina -dispõe {e que não em absolutamente ncc€ssária). Foriaram portanto com
bas€ Íessa condição um conceito aÍbitrário, mas Íacionalmente cô.
de uma "herãnça" de quase dois séculos na grande Indüstna' modo, o de "alta fidelidadq", quc iria reger como dogma quass
ior isso nao é ãe espantar que ela tenha refletido primeiro quais-lão
os
Íeligioso toda a técnica das comunicações pelo canal sonoro. Duiante
arú"i"."t procedentes dos que a conceberam, os ceÍca de vinte anos, uma considerável soma de esforços foi consa.
iiu* rtoÃ"it,, porêm engenheiros formadossuma' por uma tradição grada à.realizâção do mencionado dogma que os físicos interp(ç.
o engenheiro taram, ainda mais gidamente. por uma expressão matemática prc.
ii-l;;;; ã" raËionalismo- mecânico. Em
crsa: a constància da resposta em função da freqüència do som_om
ïc l9i0 concebìn um telefone destinado ao homem se-
- -
,r uíiu,rxcut, ctLNl it-tc^ l' LtNHÀs DttaF-'[ntzLs 25
24 crlÀçio clENrÍFK^ ^s
^
baseada na aplicação do imDortante teorema n$ tornìaçáo dc um discípulo das ciências exatas mais tradicionais:
toda a !âma audível sc o matemático profissional lem ainda pouquíssimas relações com
ãi;"tï; relativo à -decomposição das sérics periódicas'
-- - -50 ì"pols de haverem conitatado o malogro parcial do esforço o sociólogo ou com o fisiólogo, o engenheiro de telecomuniçações
vô-se na necessidade de conhecer simultâneamente as funções de
oara a melhìria da "qualidade'do canal sonoro - esforço que aliãs Itessel, as grandes enquêtes da sociologia econômica c a anatomia
lã" r"i-piiaia" paía outros domínios da ciênçia das comunicações
ponto (lo ouvido.
viram-se os !àcnicos compelidos a alargar um pouco seu
-o" uiiã'" lniroautiram outr;s grandezas, em particulaÍ a de- "dinâ-
mica" a fim de delinir a "alta fidelidade"; mas, sem consicleraçao
5. E CLASSIFTCAÇÃO DAS CIÊNCIAS
EVOLUÇÃO
"s
-NA PERSPECTIVA DA PESQUISA
o.lu eipJún"i" cotidiâDa de milhões de ouvintes - infelizmente
il;;.*i;;d; nenhum deles colocou a "questão prévia" de definiÍ É pois pela técnica que se produz a osmose entre os
racionàlmentc -o que convinha denominar "qualidade" de um canal ramos distintos do saber mais do que pelo apelo que uma
sonoro. Só muito recentemente diversos trabalhos, bas€ados na teorra ciência faz à outra, pois a especialização, necessária mas
ãu intormaçao. mostraÍam que o papcl que ai -assümiam as p€rtur-
bacões erráiicas eÍa essencíttl e que o dogma d "resposta em tre- abusiva, dos pesquisadores os toma em gera.l incapazes de
ãüància constante = alta fidelidade" era crrôneo na medida em que saber com quais recursos podem reciprocamente contar.
ionoiçao matematicamente suficiente e condiçâo psicolo- Essa osmose deve, segundo parece, causaÍ uma dissolução
"'"niunai" ntçetü.i". Tinham simplesmcnte esquecido que o "recep-
"i""Ã"ni"
ior" do canal sonoro era um ser humano dotado de propriedades das fronteiras da "especialidade" ainda tão perfeitamente
específicas do qual o psicólogo poderia ter dito imediatamente - se talhadas há trinta anos, conduzindo a um campo contínuo
^- quá o hábito a um meio dado, oposto à reação'- de conhecimento onde, não só os nomes das ciências se mis-
o iòniufinrt"rn
a um estímulo inesperado sempÍe renovado (perturbação brusca) é turâm uns com os outros (Psicofisiologia, biofísica etc. . . )
uma caraçtçrística essencial. mas onde as interconexóes entre ciências afastadas (psicolo-
gia e estatística, biologia e matemática etc..,) dispõem as
A ciência das comunicações evoÌui cada vez mais no diversas ciências, nâo mais em urn leque contínuo de conhe-
sentido de uma âdaPtação entie o indivíduo humano e o sis- cimentos, lembrança da classificação de A. Comte, mas em
ierna.ecâni"o a el; dêstinado, mas é notável que se fizesse uma representação polidimensional de núcleos de conheci-
-iiia, urn prazo de uma vintena de anos Para. que semelhanle nrcntos ou de técnicss mentais interconectadas por múltiplos
evidêmia ie impuse"te. Há na posição.de- partida aqut
liames.
àenunciada um êxemplo tíPico de uma ciência incompleta-
que
mente aplicada a impor ao ser humano leis cartesianas Assim. a teo.ia da linguagem, impelida pelas nccessidades da
si;plesmente poÍque.as pessoas que^a fa- ciência âplicada, é lcvadâ a apelar simultaneamente para os núcleos
i't á-ìáo èrtt"ntrur. de téçnicas mentais do cálculo das probabilidades, da filologia dâs
zem, formadas nas disciplinas exatas e lgnoranoo as clenclas
línguas antìgas, da soçiologia, da fonética e da física da m.nsâgem:
f,urnunur, vêem o mundo gncerrado em uma rede abusiva- a r€pÍesentação adequada dessâs ligações discordantcs seria impos-
À"nìe tá"loout; precipitam o devir humano e edjficam um sível em uma classificação linear.
.undo a" máquiias sôb o imÉrio de uma "necessidade" que Parece portanto que, sob a influência das aplicgções,
inserem em uúa est^tuta que desejam coeÍente a todo
preço'
o mais poderoso agente da fecundidade científica, o estilo do
ainda que seja de maneira artiÍiciâl' edifício que a pesquisa erige esteia em vias de mudar nota-
A técnica mais recente evolui precisamente Para Íeagir velmente.
contra esse- retardo de adaptação da ciência ao homem' Nao T:ú evoluçâo encontra-se apenas em seu começo: muitas
ã-pàì.iuãr t"putu. no muido rnoderno ciência aplicada, téc- ciências, como. a química ou a física, pretendem construir-se
niáa e ciênciâ pura, pois uma reage demasiado -estreitamente seguindo uma linha de pensamento autônomo, sem relação
sobÌe a outra e o movimento da técnica PaÍa a humamzaçao' com as outras. Entretanto, é notável que noções tais como
lisado à extraordinária expansão das ciências humanas - "população", "recenseamento", "individualidade dos corpús-
oãt.*"mplo, da psicologialxperimental é uma das carac-
- culos", "perda desta individualidade e multidão" etc, . .
iJtiilãr-'..rLn.iáis do iensamento moderno: é pela técnica introduzidas por Langevin e tomadas às ciências humanas pelo
il;;;-Í; a ligaçáo êntre ciências teóricas e ciências do canal da estatística se tomem cada vez mais freqüentes nos
homem. tratados teó.ricos.
O programa das grandes escolas de en8cnheiros. q": ,t:l!3: Em química, o estudo dos seres de razão que seo os
,lo ouc ãua'ique. out.o iigno, é um panorama da ciéncia estabeleclda átomos. de sua filiação, de suas famílias, de seu agrupamento
muii rccinte' é típica n6te s€ntido dâ invasão das ciènclas humanas
2ô (]tìt^ç^o crt,N'Ì1fl(ì^ ,r oÉv,rrcst ctt NTírtc^ li .r1
^ LtNHAs DtRB.rRIzl_s
^ti
ont nroléculfls c dc sua sociabiÌidade (aÍinidade química) quc Um4 (classe horizontal) é a dos métodos racionais. ba.
constitui o cssencial das preocupações dos <1uímicos, participn scada no algoritmo lógico utilizado: classificação, teoria do
dc conccitos extremamente distantes das "receitas" dos alqui- campo, cá.lculo aritmético, estatÍsticas etc. . .- futes serão
mistas, ou mcsmo das leis de proporções definidas de Dalton- IiÌnçados em colunas sucessivas, em uma ordem insoirada nor
Proust. A pesquisa química tende a constituir-se como ra- uma classificação linear das ciências, a de A. Comte .
mo da física molecular que manipula seres racionais obedien- exemplo (cf. Cap. VII), isto é, segundo as formas .a"ionãi".
tes a leis simples que fazem pensar em uma sociologia mole-
cular de preferência à espécie de botânica dos corpos que a .. . A 9u,r1 (classe vertical) é a das récnicas experimentais:
tecntca do vácuo, técnica das ultrapressões, técnicas metroló
química do último século Ìepresentava. Parece que a cco-
nomia política, a lei da oferta e pÍocura, a sociometria de gicas, técnicas das correntes fracas, repartidas segundo as
Moreno possuem, quanto às démarches mentais do pesqui. grandes divisões eficazes da tecnologia.
sador, parentescos estreitos com a química que quase nâo Em semelhante classificação, todo ..departamento,.
apareciam há cinqüenta anos. .
trabalho científico colocar-se-á ponanto em uma casa na
do

É fácìl convencer-se disso lançando os olhos sucessiva- inters€cgão de uma linha e uma éoluna Oe ,m quuaro ,ãtu;
mente sobre as figuras de um livro de biologia malemática, gular.
como o de Kostitzin, sobre um tratado de Física moÌecular
ou sobre um estudo de socìometria dos microgrupos, em que
as mesmas figuras aí reaparecem, ilustrando os mesmos con-
ceitos: influência, reatividade, estrutuÍação, que pâÍecem per-
tencer a um fundo comum a todas as ciências, uma ciência
teórica das associações, ramo do corpo geral das funçoes ra-
cionais e que rompe as classificações antigas, em particular a
de Comte, para substituí-las por uma Física do objeto <lualoucr Técnicas biná.ias
(Gonseth) acompanhada de uma técnica de aplicação. Des-
cartes em suas "Primeiras regras para a direção do espírito" Técnicas dc
já punhâ fortemente em ÍeÌevo a unicidade do método cientí- amplificação
lico através dos ramos do saber: Tecnicas dê
reÊistro
"Todas as ciências reunidas não são outra coisa senão â inteli-
gênçia humana que permânece sempte uma, sempre a mesma, por I
vaíiâdos que sejam os objetos aos quaìs se aplica e que não recebe
desle faio maiores mudanças do que as trazidas à luz do sol pela
variedade dos objetos que ela ilumina." Excmplo.: a eletroenccloloRtaÍia (que a ciéncia acabada
clas-
srrrca.na Ftstotogia
.neÍvos ) (lepcnde, do ponto dc vista das técnicas
qe apncaçâo, da lisica
Toda ativídade cientí{ica tem dois aspectos: o dos mé- das coracútcs fracas: do ponio de vista !eóri;
cla depcnde dos f.nômcnos dç elevado gr", aáïii.O"i;"ã"ïïlii
todos racionais, dos algorümos, lógicos ou matemáticos em suÈita à jurisdição dc atgoritmos tais ómo
um estágio bastante âvançado, âos quais recorre, e o das ; ffi;.", ã;;;:;1
técnicas de manipulação dâ matéria com as quais ela está Ë:"'"" ï::l','i":^""ifu lïi"",lf l*0"*ã,ãol'T"lï,b"ïì:",*ï*
sr8nrrrca crzêr quc-um pgquissdor, scm
cm contato. Somos levados a encarar, ao lado da classifi- altlraÌ nern
sua fónúdô-,
nêm s€us hábitos mentais, poderó passâr quasc imeaiatamenã'ã
cação dos conhecimentos que formam o edifício rematado da clctroençcfaloeÍafia à Físici io Gtobo. o qu€ a çrpcriência
ciência, uma classificação operacional das atividades cientí- verifice-
_Ele re€ncontrârá aí instanrancarÌrcntr iaiiitïi;;;ïdiilil:
ficus para o uso do pesquisador, cujas preocupaçóes foco, misro-lismos, pré.ondas ctc...) e""çô;;
o.aspecto proprianrcnú? fisiológico ou pópri"rcnt *.
são aprccndcrÁ - aìií.iiá"ìi'
clifcrcntcs. g.oiôôË-i-u'.
lchârá cxpostos (ciência acâbada) nos rrãla(los-
Esta deveria ser a duas dimensóes a fim de responder a Ootto exemplo: a química biotóg.ica- comporta um
Ë$0e$ dois aspectos não sobreponíveis da atividade do ho- _,-_
nc{, que pcícnoc à ciência das associaçõc!, colocando-aaspccio acó_
coluna que a socioÍDetÌia dos micÌogrupos (.tgo.id;; ;" m;;;
nrenr du ciência: *.iu'Ë;ïï
c um aspecto êxpcrimental quc a IígJ l-linni a-a, õi"ç;eï"al*i*rrci

bè''
crìr^çÃ0 crEN1{!rcÀ ,r ol,tnlttcttt, ctttttltrcr t: Lll{HAs DIRItRtzls )9
^ ^s

conccntÍâção, quc é também a da química da água do mar, depcn' ticamente. Em contrapartida, encontra-s€, quanto ao domí-
dendo esta em compensação dos aÌgoritmos da teotia iônica e Ía' nio de aplicaçâo destes, em certa tÌisponibílidade perante os
tÊndo das leis de reações expolenciais (Guldberg c Wasge). fatos, que suscita um sentimento de gratuitlade, fato ncvo na
história das ciências.
Assim somos levados:
Enquanto que antigamente o cienüsta tinha a impressão
a) a estabelecer uma distinção de princípio, essencial, enlre', de se achar em üm caminho que definia a cada instante o
ciência acabada, edtÍicïo científico, visão do mundo passo ulterior e possuía por este fato um caráter coercitivo,
-das relações etc. agora parece que, devido à transcendência dos modos do
ciência que se
laz, pesquisa e criação científica, rné- pensamento racional fora da distribuição dos domínios pró,
-todo do pesquisador; prios, não hla mais caminho, não há senão meios de hansporte
variados que o homem de ciência escolherá de conformidade.
b) a rejeitâr, visto que nem sua estnttura, nem seus mé-
senão com suas preferências, ao menos com suas âptidões.
todos, nem sua meta, são semelhantes, servindo uma
para criar a outrâ, as classificações estabelecidas pela EIe se acha desde logo colocado diante de uma multiplicidade
.:iência acabada, e a apresentar uma classificação da pes- de caminhos divergentes, até opostos, diante de uma seqúência
t;uisa cientílica que comporte duas dimensões: tlc ancruzillndas que sugerem a imagem dos labirintos enr
rede emalhada (mesh) que os especialistas da psicologiu
experimentais,
- técnicas
algoritmos mentais.
animal fazem seus pacientes percorrerem, como muito mais
adequada. ao andamento da ciência atual do que a de um
-Esta distinção subsistÍrá ao longo desta exposição toda caminho único, reto ou toÍtuoso. Nesse labirinto todos os
que se prenderá sobretudo à ciência que se faz, aquela onde caminhos escolhidos conduzem a aìguma parte e se recofl..uÍÌ
a filosofia desempenha por essência um papel criador, de- indefinidamente uns aos outros (Fig. I I ).
preendendo da primeira apenas as regras de estrutura essen-
-
ciais.

5 ó. _ MARCHA DO PENSAMENTO CRIADOR


E CRÁTUTDADE
A FILOSOFIA DO POR QUE NÃO?

A percepção, através da complexidade dos dados cien-


tíficos, da unicidade fundamental dos modos de pensamento
que sublinhamos acima constitui verdadeiro ressurgimento da
atitude idealista expressa por Brunsehvicg. Trata-se, coÍl
efeito, mais das "idéias puras" do que dos algoritmos lógicos
ou matemáticos tão gerais quanto a classiÍicação, ou a teoria
das estruturas. Constituem as formas p€rmanentes atra-
vés da diversidade das disciplinas do- pensamento racional
e se aplicam em conseqüência a- todos os domínios indis-
tintamente, dependendo sua escolha apenas do avanço destc
e do tipo de dipolos dialéticos que o exame aí revela.
Esta transmutação de vaÌores que é o novo espírito cien-
titico reage sobre a própria posição do pesquisador diante do Ii(. I 1: A rede emalhada do conhecimento. No plrno
-
horizootal dcscnvolve.se uma rede emalhada, espécie de labirinto
edifício em que colabora. Os algoritmos da razão são com virtual onde o pesquisador percorre um tnjeto que ele alualiza. Se
efeito seus modos de apreensão essenciais, mas cada pesqui- possui dessa rede horizontal uma visão limitada, tcm em compen-
sador, por sua formação, PoÌ seu sentido estético pessoal, sação üÍÌìa vista extensiva da rede emalhada dos çoohecim€ntos
possui uma feição de espírito que o toma mais familiar a fiÍmados reprasentada por um pÌano vertical e cujos nós mais visíveis
alguns desses algoritmos qu€ ele tenderá a pÍeÍerir sistema- \iìo os Erandçs teorenìas e fórmulas.
l0 À cN^ç^o crlNTltslc^ DúM^xcHli c tNTÍrrc^ ri LIN{^S DIa}iïRIzt,$ 3t
^ ^s

A conseqüência imediata é a redescoberta da escolha Este processo de criaçã.o que implica, uÌtrapassando-as,
oelo oesquisador. escolha muito mais extensa do que ima- as Íegras fundamentais da lógica hegeliana, renova-se indefi-
ginavà o'século anterior que via na descoberta da verdade nidamente, sendo cada etapa marcada por uma reposição na
uma coação exterior proveniente de uma estrutuÍa exteÍna ordem de discussão do ponto de vista adotado e eventual-
ao pesquisador e criadora de uma sujeição de seu pensamento mgnte uma bifurcação deste. O pesquisador progride por
a um caminho existente fora dele. rodeios, por vezes fortemente errátlcos, onde cruzz. freqüente-
mente com outro pesquisador que seguiu uma marcha dife-
Ìmpregnado do novo espírito cienúfico, o pesquisador,
rente na mesma região da rede ( processo de redescoberta ).
mais do qu! descobrir "a verdade", constrói o edifício, a re-
presentação de seu domínio próprio: o murdo é realmente sua É por uma mudança de plano, a passagem ao pÌano da lógica
formal que é a "formalização", clue o pesquisador, quando da
iepresentação. Não é entretanto ârbitrário, mas são as ne- publicação, integÍa seu trabalho no edifício.
cessidades ri.arernc,v do pensamento do pesquisador que definem
o seu estilo; a estrutuÌa da evidência independe do domínio Tentemos dar uma imagem simplista deste processo:
ao qual se aplica (Husserl). seja portanto o edifício da ciência estabelecidâ, em urn ins-
o que nos apraz' mas tante dado, 1, 2, . . ., t, representado na Figura I sobre
Em suma, nós não constuímos - dotada
planos verticais P,, Pr, . . ., Pt por uma rede emalhada
esc<>lhemos o que nos apraz consouir.
de nós importantes (princípios das grandes teorias) e nós
A démarche intelectual do cientistâ aproxima-se então mais finos (fatos estabelecidos), cujo conjunto forma os do-
notavelmente da do artista, ela se baseia na grotuidade q]j3 mínios D1, Dr, - . ., D" das "disciplinas", e sejam um ou
é ao mesmo tempo disponibilidade perante o tato (segundo vários pesquisadores se desloeando em um plano horizontal
a doutrina hegeliana) e liberdade de ação. É o conceito da P sôbÍe uma rede emalhada de bifurcação que desenhamos
litosoÍìa do Pòr que não? de Bachelard, "filosofia" que é to- em pontilhado, pois não é apreensível a priori, uma vez que
mada aqui no sentido de ética do pensamento. Cumpre notaÍ pertence ao incógnito. As peregrinaçóes dos pesquisadores
que selã precisamente a da escola estética do realismo que no labirinto da descoberta cada qual com seu andamento
uemos emergir na mesma época na ciência, o que nos forne- próprio correspondente a seu - estilo individual serão re-
cerá urn guia precioso para desenredar as complexas relações presentadas pelo traçado em linha cheia (explorado - por-
entre criação científica, as quais parecem participar, como tanto .real) sobre a rede pontilhada do plano Po e seus cru-
veremos mais tarde, de um mesmo andamento do espírito, zamentos seÍão os casos de redescoberta.
reflexo por sua vez da atmosfera de uma época.
É a passagem desse plano horizontal da pesquisa ao
$ ?, DÊMARCHE GERAL DO PENSAMENTO CRIADOR plano vertical da "ciência -estabelecida" que Íepresenta â ope-
- ração de formalizar considerada tão importante sob o nome
Assim o pesquisador se afasta do procedimento hegeliano de demonstração ou mostração e liga "ciência feita" à "ciên-
clássico. Col,ocado diante da totalidade do mundo dos fe- cia que se faz".
nômenos, suscita a emcrgência de uma démarche autônoma,
Seria fácil complicar esse esquema para colocar aí em
larsamente arbitrária, um dipolo dialético que ele Põe em con-
um lundo Íormado pela complexidade do fenô- evidência a partida de pesquisadores variados em diferentes
truit" etâpas da rede já estabelecida, mas não convém atribuir I
meno, "orn
reforça mediante o artifício da "experiência" a opo-
uma imagem mais importância do que a de um pÍocedimento
sição figura/fundo assim estabelecida e projeta sobre essc
de racionalização e mostração.
dipolo dialético urna estÍutura lógica, uma rede doutrinal de
alsoritmos racionais que a encera e a sustenta' rede que Em um instante dado, todo pesquisador tem uma visão
foinecerá, segundo o estado de avarço do domínio em que cxtensiva de seu domínio pelo menos, e de alguns outÌos,
trabalha, "mõstrações" ou-"demonstraçÓes", e só se ligará em em geraÌ adjacentes, nos planos v€rticais da ciência estabe-
rcguida à rede de conjunto do universo teórico assumindo lecida. Ële tem mais do que uma visão limitada do plano
icú lugar naquilo que denominaremos ciência estabelecìda por horizontal no quaì evolui, aderindo estreitamente a seu pró-
oposição à c1êncin em vias de fazer-se que nos interessará a prio andamento. É essa visão do pesquisador que constitui
rr.lguir. sua "situação no campo de conhecimento".
cRl^çio clrirriÍìl( À DúM^xcHt crerrlrrcr Ë LtNÍAs DtaÈTalZLs 33
32 ^ ^ ^s

ciência ncsse olhar sobrc o mundo que é o ponto de partida de


O oosicionzrmenro não é mais do que a "experiência para sul atividade racional (Berger).
ver" dc Claude Bemard, mas este pôr em situação excedc
larsarnente a artificialidade desta. da qual conserva apenas Ora, esse ponto de partida está, esperamos mostrá-lo,
a s-ratuidade. A extensão imensa do campo das técnicas faz na origem do pensamento ciontítìco assim como de todo
qu" o pesquisador, Por menos que se encontre em con- outro tipo de pensarnento. Mude-se o referido ponto de
tuto iorn a ciência aplicada' o que é geÍalmente o caso' -ou
"o-In partida, mude suâ perspectiva e o "sistema", que o pesquisa-
mesmo com as aplicáções de seu domínio científico na vida dor faz profissão de desenvolver a partir de sua experiência
corrente, se ache situada quase perrnanentemente em um cam- internâ sobr€ a qual projeta um racionalismo, mudará tam-
po de percepçao científicà. Uma vez criada a idéia inicial' bém.
ãú..-ie'umu'Àottta elementar do raciocínio que cega seu espí- Se isso parece evident€ na psicologia do indivíduo, te-
iiio pu- a extensão imensa das possibilidades: ele esco.lheu remos ocasião de veÍ, concentÍando nossa atenção sobre as
isìo é- renunciou. Mas o que nos interessa sobretudo: o perspeetivas de paÍida na origem da pesquisa, que estas são
-conceito inicial, nasce, amiúde ao estágio da quase incons- largamente independentes do dominio de uma ciência parti
iiiniia, a" vmiações elementates levadas à experiência. ime' culaÍ: o objeto científico, ainda que fcisse um elétron, é
diata âe uma disponibilidade em uma situação. variaçõcs também um objeto, sendo o papel da formação do pesqui-
muito comparáveii à "redução eidética" da fenomenologia sador justamente o de the dar tanto caráter quanto à folha
de Husserl. de papel. A passagem do plano científico ao plano eidético
não é unilateral mas oscilató'rio (Fig. I 2) e teremos de
fazer uso da atitude fenomenológica no que- ela tem de mais
simples.

$ 8. - CONCLUSÃO

4
-_ì 1) Em sua Íecente evolução, a filosofia cientílìca rc-
futa como inadequada e paradoxal a definição do determi-
nismo de Laplace e se contenta com um determinismo apro-
ximativo válido em grande escala. Ela distingue portânto
as leis causais segundo a escala do fenômeno: "É a escala
que cria o fenômeno" (Guye).
2) O papel da ciência se acha modificado, não é mais
o de prever a marcha do universo em sua minúcia, mas o
de construir tm modelo ínteligível que sirva à apreensão da
ODcÍãção dc Natureza pelo homem.
3)Rejeitando como enganador o mundo das sensa-
ções, o
pensamento científico manifesta um retorno parcial
do materialismo a um idealismo objetivq dando a primazia
Fis. I 2: É no plano da visao eidétiça que o pesquisadoÍ aos conceitos abstratos, à conquista do real pelo poder da
-
.n"ont.i o obieto da percepção. É no plano cienrifico que ele o idéia (Platão).
toÍna explícito e o a$simila mçntalmente' Ële oscila nessa operação,
de um i outro plano, conforme a démorche do 'ïuleiamêrto". 4) Uma importância cada vez maior é concedida pelo
pensamento criador aos dipolos dialéticos que tendem a su-
Se a posição do fenomenólogo pretende "pôr entre pa- prir os fatos unitários e que são destâcados pela inteligência
rêntesis" ó mundo físico e psicofísico em que vivemos, do fundo de complexidade dos fenômenos.
em umâ palavra' todas as manifestações da-cultura, e se por 5) A atitude do cientista no pÍogresso científico par-
cãnseoiiêàcia ela se coloca fora do campo cientíl-tco, não está
ticipa de uma ética da negaçãq de uma filosofia do NÃO,
de máneira alguma excluindo que a Partida do campo de
que sublinha o valor do método polêmico.
oxperiência traiscendental não possa influenciar o homem de
34 ctìl^çÀo çlrN1Íl(
^ ^
2. Estudo Psicológico do
6) A ciência aplicada é unì elemenlo fundamental do
pÍogresso científico moderno, ela nos faz descobrir a com- Raciocínio Gientífico
plcxidade essencial que o pensamento filosófico está bastante
mal armado para apreender.
7) A influêncìa da ciência aplicada, o desenvolvimento
das ciências das comunicações reintroduzem o indivíduo hu-
nl-ano e suas propriedades no quadro do pensamento cien-
tífico.
Não existcrL divers4s ciêhcias com fontes dis_
8)
Cumpre sepâraÍ nitidamente quanto à estrutuÍir. tintas dê conhecimêhto, ,ui ap"nas A Ciêncid.
quanto aos métodos, quanto ao modo de classificação, a Todos os conhecimentos encòntram nelo
o
cíêncía acabada formalizada, constituída em uma rede rami- lugat e êsse, coihecimentos são todos da ""u
mes_
ficada de fatos ligados por procedimentos que serão o objeto Ìrla notureza, sua diversidade aparente nào
é
de nosso próximo capítulo, da ciêncìa que se lax: ds ps3qÌrisg senão o efeito da diversidade ias linguagens
e de seus processos próprios. empregadas nos diferentes ramos do sâbelr

9) Uma classificação das ciências acabadas não pode R, CÂRNAP


ser linear mas deve pôr em evidência ligações díspâres entre
riisciplinas distantes em um?ì estrutura polidimensional,
10) Uma classificação das ciências no seu aspecto S I. - CIÊNCIA FORMALIZADA E CIÊNCIA
criador Íaz apelo a duas dimensóes:
QUE SE FAZ
a) a dos algoritmos lógicos aos quais elas Íecorreram;
b) a das técnicas expe mentais que fazem apareceÍ os No presente,capítulo, tomaremos a palavra .,ciência,,
latos, como mais particularmente sinônimo de Unìv".r" ci""ìiiì"ã,
Uma tal classiíicação é por essência perpetuamente pro-
de ìmagem de um mundo reórico, deixanãf
;;;"ì;ìil;;;
visória- de lado a questão de sua coincidênãt";;
com.o mundo das sensações imediatas ou
;;;;ã;;;;il;;
I l) A atitude do cientista ante a complexidade dos u. u'niu!r.o-
-:lr ,Cy" é apreendido através dessa"o,
só imagem teórica.
fçnômenos é uma atitude de escolha: não constrói apenas o EmDoraJamals esteJam presenües em totalidade eà nosso
que lhe apraz, mas escolhe aquilo que lhe apraz construir. po oe vlsao, pols este é demasiado resftito. nenhuma
cam-
l2) Esta liberdade acrescida condiciona úma gretui- les desse universo teórico é em princípio
das nar_
cã;ì;;àft;ã;;
.lqde essencìal na démarche cientíÍica que participa da filo- oulra. È, o produto de uma síntese que ultÍapassou
sofia do Por que não? o estásio
da contradição.e representa o adqui;dr, q;'. p;;"ã;;;;:
13) Quando da criação científica, o pesquisador parte "
ro ctentittco cna d€ deÍìnitivo, é ponanto um "
coniunro de co-
da rede ramificada constituída pela démarche criadora a partir nnecrmentos ltgados, oÍganizados, classificados
de maneira
de vma situaçAo, de uma perspectiva no campo de visão da lnrellglvel por uma.,física teórica no sentido mais geral
do
complexidade dos fenômenos que é essencial para a desco- termo: uma teoria da natureza (g!or) _ não iro*iu
ã ã". _i
berta. possa pensaÍ tta realidade dessa natureza-
O,pota1o.s nos capítulos que seguem o adquirido
,
--, te aquisição:
mooo
a seu
o universo cientÍfi.o no procódirnenro áu"
o.constrói, mas examinaremos em primeiro iug.,
o-ooii" ,riri,
visÍvet desse procedimento: o raciòcioio cieniiri;Ë;-d;ïi:
vo que prepara debaixo de nossos ottros o eaiticio parìir
a ãã.
e s al ienraremos ; ;õ;Jt;
iii::'1..i:
rogtco oo 9: T: :a sensação
mencronado raciocínio poÍ contÍaste com a dbutri-
;;t;;:
na estabelecida, definitiva, formalizìaa, tar
comã a encJnirãïãs
À cRl^çÀo clËNTI!-rcÀ
LsIuDo pslcolóctco Do RAclocíNto ctENTíFlcCì 31
36
$ 2. ES'TRUTURA DA DEMONSTRAÇÂO
nas oublicaçõcs científicâs, nos tÍatados
e nas bibliotecas' -
ËõJúú";;"t PoÍ meio de exemPlos: O que é a demonstração? Demonstrar um lalo é cons-
truir um sentimento de evidência deste em um indivíduo
os 707 decimais de Í' o mapa.'cel::!e'
tì A rptsção da terra,i"ngu"' receptor, comunicando-lhe uma mensagem cujos elementos
no nêrtencem ao universo cÉnürrco
' quaisquer que possam-- seÌ as formam uma série de evidências elementares.
"êstabclecido
"-"-iàio-ãJãi"o,"
- definido mals âclma'
estÍutuÍa oo
iËìïiiiãi" a"- doutrina ou de .pontos dc vista sobre ' Notar-se-á que essa definição aplica-se indistintamente
Univarso e a explicação cienÌitlca' às matemáticas e às ciências: ela inclui tanto a "demons-
as decimais desconbecidas dc n' a -oT- tração" de um teorema quanto a "mostração" pela expe-
2) Em compçnsação,
riência de um fato até então não evidente, operação que
::#l.tn'::là1.1;nt'*::*.:i"lnr#:""tïl"ii':''r'is
ã-.iú Lpéó-ies de "persu.-ntas parâ . sentc Íresmo
s€ Ì8zer substitui o "gratuito" pelo "necessário" no sistema mental
ìiàìjiãá:' cm Ícsêrva e que e um do receptor I que é costume denominar "estabelecer um fato",
Ïï;;"ì;a d.l homens de. ciênçiadatçm
ciência cm devir' mas nao A este título, cabe rejeitar a distinção entÌe demonstração
ãË! i'rï"ìiiiï.ri."ntos psicológicos científico mais do quc or--pro- "teórica" e "€xperimental" e substituíla por uma distinção
;ïtï;;;';td pertence portanto
aõ universo
atualmente inexist€ntes' mas lornec€
Ër.ïïïnaã-"oriüaos' entre demonstração que utiliza a lógica formal e as que uti.
perm"nentc dessc ediÍÍcio'
;1"':ïhil;.;;-;;nsirução
-' -'ll Iizam outros sistemas "lógicos" conforme a natureza das evi-
G maodos de çálculo de Í, .os Pro.cessgs "fl-qTl-q:- dências elementares.
au çspJtro."opi" soìar, osProccssos,da"tÏiil""tË;ï"ï"Ï:'ff';,iï Assim. os conceitos que servem para ediÍicar a demons-
que aqui nos inteÍcssam como ooul
tração como evidência final são:
Nunca é demais insistir na difeÍença entre
a-ciência 'l) as evidências elementares: como "evidente" significa "qLte
cursos' das publicações' e' a
br^ì;r;;;, ã aìt'-i*tuaot,
jàrn-'r,
dos
heurísúcos do Íacio- leva à convicção", evidência é sinônimo de necessidade.
'i:;;:":;;;'"i;d; o" pnocessos
Esta necessidade podo resultar de ordens psicológicas va-
ï;
Hil;': .rãçã. i"t"r""ú"l' \ao só a escala de valores é riadas:
;'íïril; ifup"r oo tigot' por exemPlo). mas t ryop1t: tll-1-
coerção ìógica elementar baseada na nãGcontÍâdição
;i#;il ìã"io"i"iot,-o sentido atribuído aos terÍnos: veÍ- -dc três termos simultaneamenlepresentes no campo cla
ãua-". a"aoçao, crença etc' ' é aí diferente
Esta diferença
que o público consciência;
úeditando os cientistas
;:ï;;i'Jil;il;' ,- coerção sensorial: que decorre da contemplâção dc
;ui;'ü;; - isto é, muitas vezes entretenha a forma dos-outros
seus colegas
acabada e urna figura ou da percepção de um fenômeno físico;
iilt"ii,n*iãr-ae especialidade - e deixando entre prova interna proveniente de uma crença intuitiva in-
;;;:ffi;;ì;'ã; "onttt"it"nto formalizado opiniões' as subes- -clusa no indivíduo;
ffiï[$;ïï, i" ãiu"i!en"i"t' o papel das
criação Íacional ou, dos I .- valor extraído da tabela de valores do indivíduo rc-
truturas provisórias, as gunada; áa ceptor;
;;;;; dos quais nem semPre eles tem consciêncl lllol:
os objetos colocados a priori: o daúo (deÍinição por
õ;;i;Ã brotar a descoberta, e aos quais consagraremos ïl -exemplo)
capítulos seguintes. etc. . .
Se o que nos inteÍessa aqui precisamente
é' bem menos -"A evidência não é essencialmente revelação psicoló-
do que a cìência acabada, os. Processos de cnaçao o: P"l::'
do cientista e que tem por- gica da verdade jungida a um julgamento" (Berger). . .
-.nt., ou" se passaln no espírito
"a evidência é coisa totalmente outra, ela é um modr>
il,tÏ#-;Ë;; pui"oregi"ìt essencial' devemos estudâr
-em
da cléncla' especial da relação intencional que liga o sujeito a seus
ptl-À"it fogar o mais aparente dos procedimentos fato tal qual pensamentos" (Husse )... "ela é uma modalidade par-
o da demonstração ou do estabelecimento do
penetraÍ,no ticular da posigão de um objeto" (Husserl);
ele nos é fornec'rdo em seu aspÊcto e'tel'ú.' le1l 2) as lógicas A operação elementar' da demonstração é
ou estabelecido' mas insistindo nos
-
iuio demon.t 'valores a de enganchar um elemento de evidência a um outro
"do
d*;" psicologia da demons-
;;.iã;ì;; Pr@edimento: na mediante um procedimento que pertence à linguagem,
tração,
IsruDo lstcolóctco rro r^croclNto ctENTit,tco 39
3tl cRlÀçÀo ctENl'íÍlc^
^
Psicologicamente, €sta última reside menos no rigor d<r
tlircmos de um modo mais geral uT "ì9J.0! uT.u,l:gi: processo força constrangedoÍa externa ao indivíduo re-
" ceptor se -este não é lógico por essência do que na evidên-
;;" ;i;;"i.. É de uso bastante generaliz{g,lt:tt'lcl' -
cia da estrutura apresentada em seu conjunto, Reencontra-
"loglca
ou pelo menos a oa-
" -r;"i""" à "lósica formal" Parece-nos pre-
mos ainda a noção de evidência, faculdade essencial da per-
;."à;;;"Ëit"""i.r
piinciõio oe nào-contradicão" cepção mental, mas aplicada aqui ao segundo grau: é a evi-
iirrlt mais próximo ãa realidade imediata dência de uma estrutuÍa, é o conceito de boa forma bem
,-r. lindrâoêm nã.ì exclurndo do termo "lógica' qualquer visível (conspícuo).
;;;ï;?ì;;os;. aceirando assim-nào. só 3 tó.etca 0eu'l::
911 "Como a evìdênciâ não acompanha todos os nossos conbeci-
làuniauo. dó tipo estudado por Reichenbach.tu: nìentos, a maÍcha progressiva e disct ísivâ deve suprir o caso e trazer
ãi *ocot de pensamento os mais opostos à lo.gl:u l:tT:'' por meio deste relé a cvidência às pÍoposições que antes pareciam
iuii .orno o modo contraditório' o de contrgurdlo", lll ^
qa qescu-
rlesprovidas dela" ( BergeÍ ).
rCao. Vtl). O estudo ulterior dos mecanlsmos A emergência de uma boa forma está condicionada fi-
;:# ;tn,ti:;á f ttcisat esses modos de construção
nalmenle poÍ valores estéticos: simetria, progressâo. conver-
"*
d;;;;;ìJ;;ì;.xáustiva: a lógica nào passa de uma
gência, simplicidade da Íorma, contraste etc. . . como no-lo
iâ;i:ï'#;;ii;;;t;'ãã psicot"giu-com''".q'll!'" ï:ï"^ï!
clencla' pols era sugere a arquitetura, e é fácil ver que o valor psicológico, isto
eia nào pode pretender regulamentar a é, comunicativo, de uma demonstração varìa em râzão direta
uern dePãis e nào antes da ciència: de seu valor estético: basta paÍa tanto pensar no reduzido
'ìì é cons-
n conceito de corctruçao - Toda demonstraçào podem razer
valor de convicçãc e na reduzida simpatia que os estudantes
;;;;;; ;;i;;t; reunir elementos como dedicam ao raciocínio por absurdo, lipo mesmo da lógica
ate os chimpanás ao assentar tijolos com argamassa'
constrangedora substitutiva da evidência convincente, reparo
È- oi."ito que haia constnrçào com vistas
a um lrm que nos deve causar inquietações quanto ao valor dos funda-
quando se
linienção), fim que aparece e que :1"?I'": i"-::: mentos dâ matemática onde o raciocínio por absurdo é um
monst;açào em seu conjunto '" Justlrlca a rra5ç' dos procedimentos mais freqüentes.
:;ïà" ãJÀo".,tut que .uma
umâ construção é f-or-
oantut"nt" e uma boa construçâo é uma boa tor-' Demonstre-se, por excnrplr :r.lrrrnrula tlc Moivre:
-"? da Gestslnheorie assim como de KoÍs- (cos d + jsen d)n
-à no'sentido = cos m 0 ì- jsinm0
.itì.ft. S. não há construções' náo há. demonstração'
dispares' especre
P t i n e i ru I e rìú ns I Ìaç tìo:

mas simptes afirmação de evidências p(cos d + j sen) refÍesenl rrlÌr vclor V de ígumento ú e
ele- módulo p, sabe-se (?) que .' .cror \' ( rrm vclor do módulo p', que
Ë"p";Ëil;çá" ;t;áìicu e- ,'m campo de verdades
mentares. fizemos girar de uor ângulo n0.
Temos portanto:
tsse conceito de construçào implica o de compl'e'tidadc pelos C[1cos 9; 1 i sen 61n = pn(cos n d + j sen nú)
ãu" ttao pat"ce ter sido suticientemente realçado todos de oíde, se p: I
ì'lï''i..ii IËt"ãt làngas tud"i"s de raciocínios'
(cos d + j sen d)n n í, + i s€on
-t" "i áiti" Descartes' nocada =
Discurso do co$
:"':';Ët . rãõi,. tijolo do
ól
Cabe observar que se intÍoduziu aqui (nos cursos tradicionais)
Ì#Ë;.' õã, *à" elo da cadeia - su- um nródulo p que, para o fim aqui pers€güido, é eliminado em
e fácii de por no lugar, é Preciso .realmente seguida e portanto não nos inleressa.
"ãitti",
úii-nú.'qu" o próprio edifício não parÌicipa forçosa-
Segunda .lemonstruç,õo:

íent" Oa tacitiOaO e e da clareza de seus elementos' (e, )n = eJ0' )
ïi- uà p"*o essencial que condiciona o processo de

dcmonstração e seu valor' eJ'=cosx+isenx


convicção realizada
O valor de uma demonstração é o da de ond€
no espirito do recep(or; ela depende portanto: (cos dJ j sen d)n =cosnúl .+ isenn í/
Neste úliimo caso, recorÍeü-se À umâ pÍopíiedadc elementâr
a) áa qualidade dos elementos de evidência empregaoos' (l&s potências e "traduziu-se" simplesmente a equivalência fundamen-
b) da solidez da constÍugão feita'
|,9TUDO pStCOLóOrCO DO R1CIOCíNrO CrENTÍfiòo 4t
(lll'\(À(t
40 ^ 'ltlNÏí!( ^

funçào tri8onométriuir A Matriz de comunicqção pedagógica


tul crtubclccldÉ cntrc exponencial imaginária e
ü;tagém de matérias esrudadas (métodos de reco'
ili"'ì;;;il;ï;
Jificrrçio) que Íinalmentc
Nns Ju,ìs demonstrs\oes nàio sc le/ nìais do
mas aí está precrsamenì' .9
.r"àÌ aËi'á.,,', àiiic"ìàud" dt âbsrração
" essenctal e e i\to que toÍna a segunda demonstração uT:dilí*oe
I s€.e
.2õç
o o 'e9;
-";. 'imoles e mais simé(rico (na acepção pÍoprla oâ pa-lavraì qô"
urn" pral, de outra do signo = aplica-se a mesma operaçao menÌar a-õ
"
de tradução)
oÈÉ

$ 3. LEIS PSICoLÓGICAS DA DEMONSTRAÇÃO aluno


-
A transmissão dessa mensagem constituida.de .cádeias
de evidéncias reunidas por uma lógica-' com
o intulto de paJle técnico
um lato desconne-
ãá iruntrnit.ot de construir a evidência de
.tpitito do receptor' obedece às leis gerais
;üi'ãu;;ì;ììo-;o panicular' o papel do
da comunicação de mensagens Em estudante
:;.;.;iã;;" àe conhecimentos conhecidos a príori ao mesmo
que ct ns-
,Ë"ioo-o.lã transmissor e receptor é essenciall-é ele professor
asslm comír c do
ritui' o ìoniunto das evidências elementares ensino
da estrutura necessária secundário
:Ë'";.-;t','"b.ú;-ã cÀmplexidade .à

Ìà'l";;tikì;ã; ;; ã.toniuuçao' ou a certeza no estabeleci- engenheiro


mento do fato. especiâÌizado
ora. esse repertório de conhecimentos ou de conceitos
.t".;;;;.;ã;;;.iããt de indivíduo para indivÍduo professor
'-iu
fato de, na comunicação humana' intervirem dois
il;iú universitário
úài.,Íduor"; pelo menos: o lransmissor e o receptor' e teo-
esp€cialista
,"ìta"" estabelecer uma matriz dos conhecimen-
',;;;;;;;;rtnïa.rrario reconhecido
llal'll entre o indivíduo i e
o indivíduo l' no a5sunlo
E,ru.utri, cujo princípio é bem co-nhecìdo t" 1P':t:l-
rará como um quadio que traz horizorrtalmente as,catego-rìas rização, ou de documentaçâo científica, repousa em um esfor-
à" iodioíduot trãnsmissòres i, verticalmente as categoÍrxs
conjunto qo\'oe ço permanente para evitar esses defeitos. Cornparem-se por
indivíduos receptores f e cada caso il^contém 9 eremplo, em Bruhat, Rocard, Fallou, Faivre-Dupaigre, as
cànhecimentos'comuns a i e a l
(Quadro abalxo )
demonstrações feitas da reversibilidade do dínamo, que dife-
Por exemplo, a explícaçào. a mosttâção' a demonsttaçáo rem segundo o público ao qual se dirigem.
ou o comentário o termo varia segundo o caso .- que PratiÇamente, é ceÌtamente possível simplificar esse qua-
-
um técnico a outro técnico, um engenheiro a um Jovem
'ÌaÌa
atulìo
dro matricial._ Se, por exemplo. se pode admitir que as co-
nã-tiànt"urs" de uma visita. um especialista a outro
esPecla-
lunas e Ìinhas do quadro se dispoem não em uma ordem arbi-
lista durante um congÍesso sobre' digamos' as lentes oe
gra-
trária, mas em uma ordem de conheclmentos crescentes, sendo
cada qual sobre as- bases
duadas de faróis, se ãpoiarão cada indivíduo de uma categoria considerado conhecedor do
que e bastante
partida de conhecimentos comuns distintos' que o indivíduo da categoria precedente conhece, caso de fato
fácil enumerar grosselramenle sabe-se,qr're o"
d:: :]:ì:'
,'T,t*1t muito raro. mas freqüentemente admitidq por exemplo, quan-
.áiì liìqút"t"d" urn "o'io, 're-uma série do as cat€goÍias sucessivas Íepresentam os graus sucesiivos
"L-1"
um com;ntiârio de visitas de fábrica ou construçao
( !re's
de um ensiíamento, existem rclações de Íecorrência do tipo:
dos
de comunicação interPessoal) é a ignorància
"t"ì"t "aiút
li"rn"n,o, conhecidos comuns àquele que transmite.e àquele crt+tt:Ett+Pt+l
de vulga-
que recebe. Grande parte da atividade humana c.lj+l:íriJ+pt+l
42 À cRr^çÀo (rtN rll.l( lìsTUDo l Blcolóolco Do tacrccÍNto
^ clENTIFrco 43

Com cÍeito, essa maÌriz cx é arbitrariamente simplifi- É.freqüente que a demonstraçào ou o esrabelecimento do
oada, no mais das vezes de maneira implícita, admitindose "..
raro seJam uma dessas ,,jongas cadeias de raciocínio.,
'Jã""-á-i.rt,l;iï
de oue ,
uma normalização dos quocientes intelectuais, amiúde espe- fala Descartes, e cujo aspecó mai, notanet
/
cificada a priori pelas situações resPectivas dos dois indiví-
duos em comunicação: um curso no Instituto Henri Poincaré
Nèsse caso,.a teoria da inror-afao ;;;;# ii"'ã'ìâË:;: I

:19eta,não-é
apreensívet salvo em certas
ell
.;;ài.Ë;;;.,;;;;ï i
aão é feito para ouvintes que saem da escola primária. Sem Pr-'rs ela poe Jogo no Íeceptor co6o no transmisso.- 1,
dúvida, é possível simplificar ainda mais, admitindo-se que
íïÌ_l_u _11.u,d1de
-
de atençào,Iaculdade que apresenra um
toda demonstração se endereça em princípio a indivíduos de umraÍ oe saturação temporal, baixíssimo na- maiòrìa dos ho_
quociente intelectual 100, mas é demasiadamente conhecida
a falência operacional da noção de "homem médio", devido
T-ïÌ.^3"" det:ae a cepacidad.e de apreensão Oo ,.."pio., lu_
Facroaoe medrda em princípio pelo consumo de infiirn',"i^
à multiplicidade dos fatores em iogo na inteligência, no saber orrgrnat por unidade de tempol e que não deve;;; ;Ë;_
ou no modo de percepção, para que possamos nos demorar passada sob pena de desperdìciô dúa ini;r;;;;";",i;;ï
nessa simplificação que não passa de uma vue de l'esprit, de Ìma :1luÍaçâo do recepior. Assim a reunião à"
uma idéia quimérica. ::_.lo:l"lu ongrnais não pode impunemente exc.ae, "ú.ir"l
ciiio
sem que.o rcceptor perca essa sensação
Exemplor PaÍ! demonstrar a existência de um novo metal, o ::T^?:T:ltg
sencra que e o essencial da demonstração, de evi_
químico sentiu, por mtÌjto 19mpo, a necçs$idadc da ÍüePaÍar umâ ete .,peìae o f6.ì.
quantidâde visívcl e ponderável destêl foi o estágio essencial da ::t-,:':gï: .. expressões todas que trã..'u pãrai
uc arençao T?.,1,1:_:,:,
rnvoluntâfla.
"revelação" dô novo corpo. A maioria dos elementos transuranianos
Íoram estudados sobre quantidades infinitesimais, por processoç (es- Daí.resulta que, no raciocinio teórico (de lósica
formatì
pectroscópicos e sobreludo propriedades radioativas) que se baseavam ou experimentaì, não há demonsrraça",t"ìã" iàã?jiìá"i."ï",.
em uma propriedade que eles deviam possuir a pri:oti, portânto admi- demonstrações quantas forem as categoÌias
tindo sua existêÍrcia como a hiÉtese mais cômoda para explicar o O"
conjunto dos fatos. Existe aí demonstração verdadeira para o profis- 1...1T_tTi::"1 - recepror. cada um 0..õ, ""rìï;i
pio""rro,'inìËË"_
sional. DuraÍte muito tempo, paÍa o grande públicô cúlto, ruars e uma construção mais ou menos elaborada
esses u núrai
elementos sem que chegass€m ao ponto de serem míticos, pois o darle de se restringir a construçôes dotadas de " u_ nr"u
- confiânça inesgotável rtâ autoridade das competências
público tem mãximo de complexidade limita de tuto o
permaneceram ornados de uma auréoÌa de sonho, tinham um
-âspecto algometafísico de seres de rarÁo e ã fotografia publicada nltecim.ento-s reais paÍa esie ou aquele "*pì")""'ã
receptor, denominãn_
em üma revista de grande tiragem de alguns miligramas de deter- do-se "conhecimentos reais" do indivíduo
q"; J;-;à.
minâdo €lemeoto noyo (o reptúnio) fez mais para impor um ele- deve ao princífo da autoridade _ no caso, "qfr"f"l
mento transuraniano do que todo o conjunto de irrefutáveis deduções ao respeito das
que lhe criÀvâm a existência no circulo inágico dâ química nuclear, competências.
Essa análise psicológica sumárìa da demonstração
Existe aí uma mentalidade que, por elementar que seja, .
pois em relevo como essencial a mencionada
coÌoca .

iá ó superior àquela que recoÍre a "forças da natureza", não ãrrl


"oçã"-a" 'e-
dêncìq, visto que demonstrar ou estabelecer aia"túi""."rr"
é tão diferente da atitude do grupo dos melhores estudantes no fim ce contas. construrr a evidência O. urn futo -
de química aos quais o professor dá uma aula: "O tungstênio. u o".ti;
de evidências elementares. A Evidência ,ão é ;"^tr;;id"
Senhores, é um metal cinzento de densidade 19... eilo.", e
como_ o desejaria a lógica formal, mas sendo
que vêm, ao fim da aula, ver de perto, tocar, para se c.onven- um acordà do
uni"*r?;. é percepção, -,ao rc,iã",i), é
cerem mais intimamente da verdade teórica. Essa mentalida-
de, que o estudante deverá ultrapassar no exercício de sua pro-
::jï1:
auronoma ::ll,-o-
lselbstverstqendlìch, coisa que se comDreende oor si
fissão de químico, constitui justamente a primeira etapa do
mesma). "( A Evidêrrcia) não é intiusão na ònscien"]" .Ë
coúecimento objetivo. ür-se-á, por exemplg que o estu- uma realidade que lhe seria totalmente estranha, seu coÍre_
lativo não é a verdade, mas a objetividade"
dante que deseja tocü a NmostÍ de demonstração está menos lHusserl). Éia
faz passar do dito gratuito: .. o ferro funcle a 1450ú;
capacitado para a físicequímica ou para a análise espec- não
vejo nisso inconveniente", ao lato necessário: ,,se o ferm fú_
troscópica que lhes servirão mais tarde para sup€rar a simples
disse a 600oC e não a l450oC a face inteira do mundo e,
percepção? A percepção não deixa de ser'süperior à ilusão
cm panicular, da metalurgia seria por isso alterada,,. Há
ou à crença.
44 l\ ( Rl^(À1, ( ll:N I llrl( IsluDo pst(r)r.óútco Do L^ctoclNlo clLN, nco 45
^

irìtcg rçiìo cocren(c do fato cientiÌico Du naturcza das coisas pcsr]uisatlor é, ao oontrário do que nos pretende tazer acre_
c rcjciçiìo da gratuidadc. "Podemos apreciar as evidências dit.ìr .o dogmatismo científico, ãleatória, difícil de efetuar,
rriro mais de acordo com seu caráter mais ou menos adequado, amiúde delicada c sutil, muitas vezes difícil de reproduzir,
mas dc acordo com as garanüas de certeza que elas nos ofe- por. exemplo por motivos financeiros (experiência de fUictret-
recem. Desse ponto de vista sua perfeição será o serem âpo- son) ou por variação das condições de ensaio; basta lembrar
díticas, isto é, excluírem de antemão toda dúvida imaginável os reptros pertinentes de Mcyerson st_rbre a dificuldade das
como desprovida cie sentido" (Husserl). cxpcriências de cursos que visam ..demonstrar,', isto é, mos_
Nunca é demais insistir na delimitação do papel da de- trar a principiantes fatos ,,puros" que, por motivos pôdagó_
monstração, ou do estabelecimento do fato experimental no gicos ou outros,- não se thes quer fo;necêr .. norne áo prï_
edifício científico. A demonstração é feita para criar a q,i- cípio da autoridade.
dência e não para substituí-la, ela não cxiste por si mesma, Na realidade, o valor de uma experiência dc pesquisu
ela é destituída de valor intrínseco. Pode-se dizer, segundo repousa bem mais freqüentemente do que se diz ná auïori_
uma observação de Souriau, que a demonstração serve parâ dade Íeconheclda J,or seus pares do peiquisador que a rea_
-"7,- mostrou que..." e nenhum outro pËsquisador
propagar à evidência de um ponto a outro da rede cognitiva, lizpu:
para contaminar de evidência o "teoÍema" a partir de seus refez desde então suas experiências, pois cada ua tËrn auu,
mate riais. ocupaçóes"e seus trabalhos próprios. O valor das experiên_
Em sua notável obra'de Matemática destinada a não- cias de Z fundamenta-se, pois. no tim de contas, durante um
matemáticos que tiverem de lazer uso dela, Brillouin diz: prazo
.considerável, amiúde muitos anos, no crédito que lhe
concedem. Estando por definiçâo na vanguarda do progresso,
''A logica laz a beleza da màlemâlica € seu alrarivo paÍa u\ nir ona oa Ìerra rncognlta, essas experiências nào podem oar_
espíritos dedutivos, sensíveis à perfeição de um ordenamento metó- ticipar da solidez dos conhecimentoì estabelecidos e sua labi_
dico. Mâs nen'Ì todos os cérebros são construídos segundo o mesmo lidade constitui muitas vezes o des€spero dos pesquisadores
modelo, felizmente, e muitos espíritos são rebeldes ao método lógico,
raciocinam rnais por intuição. DeteÍminada proposição lhes parcce
sem por isso reagir notavelmente sobrt a Íede dd idéìas, semi_
evident€ e para que, então, demon$trála! uma outra os desgosta, a Ceduçòes. induçôes de probabilidades que levou seu autòi a
demonstração de suâ exaÌidão não os convencerá. pois a convicção adqulnr uma ceneza que só lhe resta partilhar com o público
Dâo se encoín€nda, é um fato psicológico. Um exemplo, umâ expli- cientíÍlco, adotando o papel de tm adlogado. Aà con_
câÇão, podeÍão dirimir â dúvidâ. lá onde uma deduçâo fÍiamente
lógica deixava o ouvinte insensível..."
trário, o fato estabelecido integÍa-se sem a menor ditìcul-
dade na rede dos conhecimentos adjacentes, eles se susten_
A demonstração exerce na construção cientílica a mesma tam um ao outro, e a ,.mostração,, laboriosa, esta cons_
função que os pilares, as vigas e a ossatura do editício quc rrução lora de prumo. se reduz pouco a pouco ao papeì de
não têm interesse ser'ão pqrq suporlar e põr no lugar algumu experiência de curso para desaparecer completamente nã mo-
.oi.ra, sem o que o edifício ficaria desprovido de significação. merìto em que a técnica e as aplicações se apoderaram do
e cujo papel e tanto melhor cumprido quanto se dissimulam, "lenômeno" para convertê-lo em um elemento de evidência:
ou melhor, desaparecem, diante da substância do edifício. assim nenhuma experiência será fomecida por um eletricista
Não sendo em si mesma senâo um meio de acesso à evi- a fim de "demonstrar" a lei de Ohm.
dência, de assimilação de uma "verdade", ou de uma "propo-
sição", o objetivo próprio da demonstração, o signo de sua .. BÌuh
tiiz:
(Tratado de ElelÍicidade). a propósito da tei
'Nào indicaremos nenbuma lei .^pËrinientat J; i;i de Ohm_
eficácia, será seu ulterior desaparecimento em face da pt'o- ã; õï;:
posição que ela contribuiu para estabelecer. O fato integrado É. a lei íundamenral que está na base dá todas À"".uìuãr- lii_
na ciência pertence a um campo discursivo de evidências nc
"" sem d;.;ú";;
tricâs e o Jato de, se poder efetuar essas medidas
em contradiçôes fornece uma verificâção permanente dt i;i, ;;;
qual a demonstração que seÍviu para pôJo no lugar se eli- podemos coosiderar como extremamente preóisa, dada pr""i.aã
tii
mina em um estágio suficientemente acabado, pois o fato per- medidas elétricas"; ^
manece sustentâdo pelo conjunto de fatos conexos. A propósiro dos íenômenos de induçào (loc. cir,, D. 3j0).
reloma o mesmo ponto de vista: ..Não indicâremos verificacão exnc_
Isto é particularmente visível nas ciências físicas e quí- ftmental da lei ÍundamenhÌ da indução. Eta é constantemcnto ritì.
rrricas:a experiência heurística tal como se apÍesenta âo liza<\a para o cálculo dos geradores áe eletricidadc,
in,
"rii.- "ã*ã
a ( NtÀ( Ào (l|NIít.t(^
tsttIxr t,srtotócrro tx) R^(.l()ciNt() ctt,r.,lì.írtco 47
lrtlì grun c núnÌero de medidâr das qtìais est(rdarcnìos âlgulì1lri cs\r\
cÍrlcülos c cssas m€didas fornecem ünìa veriíicaçiio permanentc d:Ì lci '

A aplicação técnica, prova da eficácia das leis do Uni-


verso teórico na modificação do Universo scnsível. é iì nclhor
tlemonstração possível dos fatos: clinÌina, como supérflua r
dc qualidade psicológica duvidosa, a denonstração propria-
mente dita no sentido heurístico orr no scntido didático c
acentua u coerência universal teórica como valoÍ fundanrcnÌal

s 4. PAPEL DA DEMONS'rRAÇÃO NAS ( rÊN( tAS


- 'rfióRlcAs
Poder-se-ia retom:ìr, com restrições superficiais. a mcs-
ma análise em uma ciência de pura lógica fornral como a gec>
melria ou a álgebra. A separação efetuuda por unÌ cefto
modo de pensamento matemático entre "Teorenra" c "dc-
monstraçãri'conservi.r nruitas vezes unì aspccto artificral qu," , I tt. ll _)j UnÌa inìir8enì nìal\ ariequ:lda rla etììon\lrâciô é
não re€ncontÍamos quase nas matenìáticas "em ação", poÍ
(rirLIâpol lrnìa rede emhlhada nìultrdiDrcn\ional cLrjo. nós s:.io con.
ceitos-encÍuzilhâdâ\
exemplo em uma teoria física onde se apela mais freqüente-
mente paÍa uma fórmula: "A Íórmula de Green aplicada iì Ëles podenì constituir pontos dc partida de um novo
cquaçâo (6)..." do que a um "teorema" formalizado. O sua.imponância, em todo c;rso, sc estabeleccu
oériolo:
corte na continuidade tÌuente do raci<.rçínio lógico que faz o Aliás.,o..fato. dc_um fio Íornpcr-se (uma demonsiraçào
"U;"tiuãrneïÀ.
"teorema" escrito em itálico à testa de sua denìonstnìção. falsn
ou ntal teita) não pòe de modo algunr em p€riqo o coniunto
significa discernir aí nós de importância desigual que na rea- Lia ÌÌama nem o valor dos ..rcorcrias...
lidade se apresentam mais como etapas didáticas preciosas do ql. i.t.,i"o"1"nì.
o citso. "
que como elementos do real mais "importantes" que os outros;
afinal, se a demonstração é uma cadcia, todos os seus elos . Assim, a denronstraç.ào reveste unì aspecto ocasional, dc
circunsrância ("casual") de segunda ordcm com r."aoi;tu'oá,
devem ser igualmente inìportântes do ponto de vista da ló- Ììos rci s que.furmam o importante, da construção lógica;
gica formal, visto quc a falência de um deles basta para ronr- ela
c. aqur também, um motlo dc rcaliz;rção rla evidêriciu e é
tlinrinada ou passa ao segundo pl no de uira" n".ãifti"
ucrrnrtrvo. As denlonstraçòcs dos casos de igualdade dos triln_
gulos dcsaparccenr no espírito do gcônìetrü enÌ facc
dos casos
mcsmos de ìguilldade, que acabanr por ser conhcciclos intui_
I ix. ll lr A inì genì clri\sicâ dl denìonslrâçaìo a aìsirÌÌllir livamente: serviran apenas para cultivar e desenvolvel a
a uma çadeia-cu.ios elos, se não sâo igúalnìente grândes, são igual" ''intuição de evidência" do caso dc figura.
mente importantes, Se ,. p"tlc ao
geômetra para demonstrar um <jelcs pìra algunra upfi"oçaà
per â cadeia. Eis por que essa imagem de uma cadeia ra.. pedagógica, ele inventor.i na bora uma d"màn*.nçao
quot_
cional, tão amiúde empregada (Fig. ll-l) nos parece infiel: quer, nem sempre rigor.osa aliás, e cuja qualid dc.
como o
lrata-se bem mais de uma rcdr emslhada onde os "teoremas" disscnros nrais acima, re mecliró por ,,ìn oìí"qroç.6u
n6 s3pi_
formam os nós da rede (Fig. II-2), isto é, sítios onde, rito e aos conhecimentos do jndjvíduo an quui s.i dirige. Iito
quuk;uer que seja o fio seguido, a gente passa com mais fre^ significa que a evidência estabelecida do fato se ttestacou Oas
qüência do que outros, pois fios distintos da dedução neles evidências elementares com as quais fora construída para
llc cntrccruzam; os teoremas são aí verdadeirâs encruzilhad s adquirir una autononía que marca sua intportância: ent
do pcnsamento lógico e das etapas estÍulurais que emergcnr sua visão interior do campo discursivo. o lógico vé melhor
$nltonl nctlmente para a atenção na complexidade da rede. os nós do que os fios que os liganr.
48 À cRr^çÀo crEÌ{TíFlc^ t.sruDo pstcolóGtco Do f,,tctocíNto cIEN.tÍrtco
49

$ 5. QUALIDADES INTRÍNSECAS DE UMÂ rlc. falrrcìosas demonslraçô€s de lruísmos evidentes que


-
DEMONSTRAçÃO PSICOLOGICAMENTE CONVINCENTE cìtrcrn du geomerria de Eucìideç, o lcilor deveria .". -.-- conslitui a
e ".iì";""I
ItllÌar lrulor|zâdo a._pressupor a verdade de tudo o que
As considerâções que precedem e em particular o bos- \c oevena ênslnâr-lhe a demon\trâção de leoremas "uia.nL
noÌáveis e fáceis de verificar por urÌìa Ìlqura
aò mcsmo tempã
quejo do ponto de vista que consiste em considerar estabe- reat r ì Á\.ih
faz_se constâtâr que o raciocíiio poa"
lecimento do fato, mostração ou demonstração como uma ï::;Ì.
cllrsoes ir:.:
notáveis e enlretanto vcrificadas pelos iatos..."""arii, , ãrl
mercagen, submetida às leis gerais da Teoria das Comuni-
nicações levam a enunciar algumas regras relativas ao que Esse.esquema
se pode considerar eomo boa ou nd demonstraçío, de um , sua olusao e psicológico do conhecimento cienrífico c
(rc
ponto de vista estritamente psbológico, estândo a lógica for- multo diferente daquele _ mais ou menos
sLrbenlendido que. nos sugere a própria
mal no caso fora do assunto. - acessível a todos, universal il;-';;
Como seu pap€l é o de criar a evidência, é pela quali-
ilpresenta como e "iên"iu
universaÍmente
"il;:
dade e solidez dessa evidência que se julgará seu valor. vt:rificável, perfeitamente inteligível . ."ndiç;.
Uma boa demonstração seÍâ curla, partirá dos pontos "t" simplesmente um
(lc fato, nunca são satisfeitâs e representam
rnais próximos definitivamente estabelecidos na rede dos co- alvo, um. ideal de princípio, uma tendência qu"'Aa
,",, ..tìio
nhecimentos do Íec€ptor, sem considerar se o fomrn pela in- c seu valor a essc modo de conhecimento. 'tfe miniiniza
papel do conceito de ,,verdade" que passa J
tuição, pela experiência ou pela lógica dedutiva. Como a do g.u; à;';;o;
qualidade dos elementos de evidência que ela empregará irbsoluro aquele. majs modesto. da'percepçào
reage diretamente sobre o valor convincente do conjunto, a oo oa controntação do mundo Ieórico e do rnundo
ur; ,;;.;;;_
ãas'sen_
boa demonstração há de ser muiÍo esttulurada, isto é, sua sações, O-acento é posto sobre a coerência
uniuearul, ,oúr"
estÍutuÍa seÍá imediatamente perceptível, pois as sinuosidades a concordância dos eÌementos de convicção .otr"
de raciocínios, lemas e outros ramos adjacentes ou supoÍtes as. noções de ordem e de construção,
,i; ;;;;
em ãetrimento áo-con_
demonstÍativos exercem sempre o mais deplorável efeito so- ccito de.verdade que não tem quase valor
bre a convicção. Ela será portanto imediatamente assimilá- A introdução de uma,,taxâ de coerência,,,operaciona.l sério.
anál"g; à-;;;;
vel e memorizável, ela se ligará diretamente por aplicação, dc autor.ìrrelâção, entre duas proposições ou
contigüidade ou transposição da linguagem ou das formas
1'reposiçóes penencentes ao edifício cienrifico "*ïnio;ì;
de equações, a fatos conhecidos de outra parte para se in- no esrado atual da ciência. um interesse aupe,io,
oprar"nturiu_
tegÍâr nesses em uma textuÍâ homogênea. Ela será enfim, uo ao
na medkÌa em que isto nõo seja coníraditório com o item
ccjln ds Essa taxa que seria próxima de I "on_
-yça4r6..
crencras trslcas decresceria nas cjências biológicas,
nas
aeima, a mais geral possível (papel das grand€s teoriâs e dos tornando_
teoremas da termodinâmica, o da densidade da energia, por -<c muito reduzida. por exemplo. cm sociologìa
ou economia
exemplo). Só quando preenchidas lodas essas condições ê lìortlca onde, no momento atual. duas teorias incoerentes ou
que ela manifestará o cuidado do rigor, tradicional por exem- rììcsmo contraditórias sobre a mesma questào podem ser
plo entÍe os matemáticos, e ao qual o princípio de autori- igualmenre proveitosas para o desenvolvirnanr, jarr."rurnì
dade supre facilmente no ensino: não há nada mais desorien- do saber e portanto subsistir lado a lado. Di.-.;-;";ì;;
tador paÍa o jovem estudante que a demonstÍação de fatos qur zr sociologia é menos .,verdadeira,, que a tisica
teOricãi
que ele considerava já evidentes e parece às vezes preferível Hii aí uma espécie de medida da .uotrçao Je ;;
deixar a preocupação com o rigor formal e o exame das bases
:jã;;.
Seremos pois levaclos a retÕmar assim a idéia
desenvolver-se espontaneamente no indivíduo receptor. de W.
James:-a "verdade" é a cotação do valor de um
Em sua forma mais perfeita, a demonstração está des- conceito
tinada a ser eliminada do campo de visão do receptor para ncssa Bolsa das ações científicas que a técnica ,.pr..an,o,
dar lugar à evidência que èla criou; por isso o lugar deixado 1:ois csta, em sua açâo com vistas a modificar nor,á, ,rn.ul
à demonstração é exagerado na maioria das obras cienúficas. çôcs, coteja permanentemente a concordância Oo ÍnunOo- t"ã_
B. Russell diz a propósito: rìco e do mundo das sensações. A verdade é u percepfao
r.lcssa concordância
e mede o valor do ato
'Â9 dcúoDslra!ócs ltão devcdam scr apÍÊsçnt das com tods a peto'àò-
rrica segundo o esqucma do universo "ietuado
sus plenitude pcdaíte. Ém Geometria, 9m lugar do aparclho lrnoso teórico.
50 (Rr^(^() (lLNlIl:lÇ^
^

6. coNcl-usÂo
N
-
l) A ciência âcâbada, o Universo científico existentc,
apresenta-se à nossa visão interior sob o aspecto de uma rede
emaÌhada de conhecimentos coerentes, fortemente estrutura-
da, cujos fios são a "demonstração" ou a "mostração": o
estabelecimento dos fatos.
2) Há grande diierença entre essa ciência acabada e
sçus modos de edificação, ao mesmo tempo diferença de
ccerência interna e diferença psicológica sobre a importância
relativa da demonstração ou da experiência.
3) O quanlum dessa estrutura é a evidência que brota
do interior de nós mesmos como um acordar com o Univer-
so e que não é jamais coerção externa, ló8ica ou outra coisa'
É também o fin.r dessa cstrutura: a evidência é o estágio úÌ-
timo do conhecimento, o objetivo do conhecimento cientítico
é o de integrar o real mais complexo na evidência.
4) A demonstração é a construção da evidência de
um fato a partiÍ de evidências elcmentares possuíclas pelo
receptoÍ, ela se âpresenta como uma mensagem de unr in-
divíduo a outro e deve levar em conta seu rePertório comím
de conhecimentos.
5) A demonstração não tem valor por si mesma. ela
é reabsorvida no campo discursivo quando desempenha seu
papel e cria a evidência.
6) A verdade é o sentimento de concordância que nasce
da confrontação do mundo teórico e do mundo das sensaçóes
ao instante em que se quer agir sobre este por meio daqÌ'ele.
Ela exprime o valor operacional do conceito assim colocado
em ação.
7) A c'oerêncìa interna que é a superação da contm-
diçâo é a medida do estâdo de acabamento de uma ciência
quaÌquer.
8) Enfim, o acento deve ser posto no valor psicoló-
gico da demonstração que está em estreita ligação corn seu
valor estético. Há sempre várias demonstrações intercam-
biáveis, só o pedagogo ou o lógico reconhecem nestas uma
"melhor" não ê aliás a mesma em geral.
-
Esse estudo psicológico da ciência acabada nos permi-
tirá abordar o da criação científica que é o objeto própric
da presente obra.

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