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Pe.

Louis Claude Fillion

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO


SEGUNDO OS EVANGELHOS

Por Louis Claude Fillion

Seleção e tradução por R. Paiva, SJ

A seu tempo, Jean Claude Fillion (1843-1927), Padre de São Sulpício, foi um pioneiro dos estudos científicos da Bíblia,
chegando a ser consultor da Pontifícia Comissão Bíblica.

Traduzido imediatamente para várias línguas, logo que saiu na França,em 1917, sua primeira edição em espanhol foi
neste mesmo ano. Lembremo-nos que a Europa e o mundo sofriam a 1ª. Grande Guerra (1914-1918), o que torna
mais admirável o êxito desta obra, cuja leitura envolve e instrui até os nossos dias.

Com os progressos dos estudos bíblicos, a obra de Fillion não ficou desvalorizada, pois suas intuições e espiritualidade
continuam válidas, como o prova esta edição da EDIBESA, Madrid, 2002, da qual extraí e traduzi alguns trechos. O
sítio eletrônico da editora é <www3.planalta.es/edibesa>.

No seu prólogo, o Autor fala de sua obra maior, um estudo científico dos dados evangélicos sobre Jesus, e diz que
muitos lhe pediram que escrevesse uma vida “mais simples” de Nosso Senhor. E esta foi a obra que o consagrou, a
mais simples!

O Autor defende, com a tradição dos primitivos escritores cristãos, a data mais próxima dos eventos para a redação
dos evangelhos sinóticos, deixando João para o final do primeiro século. O curioso é que, depois do furacão
provocado por Bultmann e sua teoria da “história das formas”, que necessariamente postulava uma lenta
composição dos atuais textos, os estudiosos se voltam mais e mais para as datas tradicionais: “Os três primeiros
(evangelhos), de São Mateus, São Marcos e São Lucas não apareceram mais além dos dez, quinze e vinte e cinco anos
da morte de Nosso Senhor.

A última edição da Bíblia de Jerusalém afirma:” “É muito difícil precisar a data da redação dos Sinóticos (Mateus,
Marcos e Lucas) (…) colocar-se-á a composição de Marcos um pouco antes (Clemente de Alexandria), ou um pouco
depois (Irineu) da morte de Pedro, entre 64 e 70, não depois desta data (…) Mateus e Lucas supõem que a ruína de
Jerusalém é fato realizado (…). Deveríamos então datá-los entre 75 e 90 (…). Se admitirmos que os Sinóticos foram
compostos por etapas, a datação da última redação deixa a possibilidade de datas mais antigas para as redações
intermediárias, mais ainda para o Mateus aramaico, que estaria na origem da tradição sinótica”.

Gianfranco Ravasi (ver A Boa Nova – As histórias, as idéias e os personagens do Novo Testamento”, Edições Paulinas
/ SP, 1999), também coloca Marcos (redação final) entre os anos 65 e 70. Para Mateus, ele supõe a data em algum
momento dos “anos 80”. Já Lucas é situado perto do ano 70. Quanto a João, estaria pronto no final do século 1º,
portanto nos anos 90.

Não se espere, contudo de Fillion, uma atitude distante fria, “científica”. Se ele é um homem de ciência, ele o é
porque ama a verdade, entusiasma-se com a verdade e nos transmite seu entusiasmo.

R. Paiva, SJ

1º segmento

A sociedade de Jesus

A nação da qual o Senhor se dignou fazer-se diretamente membro, por sua encarnação, era, na aparência, de pouca
importância, como pequeno era o território onde estava estabelecida. Contudo, era uma raça notável, a que Deus,
por muitos séculos, havia concedido esplêndidos privilégios, em vista, definitivamente, da união estreita que existia
entre ela e o Messias. São Paulo resume com bela linguagem estas prerrogativas, das quais, com razão, se
envaidecia: “Meus irmãos, os israelitas (Rm 9,3-5), aos quais pertence a adoção de filhos, a glória, a aliança, a lei, o
culto e as promessas, cujos pais são os patriarcas e dos quais descende o mesmo Jesus Cristo segundo a carne, o
qual é o Deus bendito sobre todas as coisas para todo o sempre. Amém!”

Não era possível traçar um quadro mais nobre e verídico. Deus adotou os israelitas como sua própria nação, tendo
com eles relações totalmente paternas. Por isto mesmo os havia enchido de glória, glória única na história dos
antigos povos. Firmou com eles uma aliança especial no Sinai, deu-lhes uma admirável lei com o fim de fazer deles
uma nação santa. Foram os únicos em receber d’Ele um culto de nível superior,que acabava, com um só golpe, com
os usos idolátricos de outras nações.

E que promessas de futuro não lhes trouxeram os profetas! Por meio de reiterados oráculos, eles lhes anunciavam a
vinda do Messias e o derrame de bens inefáveis, como fruto deste acontecimento. Os patriarcas, os nomes gloriosos
de Abrão, Isaac, Jacó e seus descendentes imediatos, linhagem bendita, origem do povo judeu.

Concluindo, o Apóstolo recorda e faz notar que o privilégio mencionado em último lugar é o mais precioso de todos:
de Israel, segundo a carne, deveria nascer o Cristo, em sua natureza humana, ele, ao mesmo tempo, Filho eterno de
Deus.

Que era, então, no tempo de Jesus, este povo privilegiado? Em que condições políticas, religiosas e sociais se
encontrava? Sobre estes três pontos os evangelistas nos fornecem notas e notícias muito seguras, confirmadas pelos
documentos profano da época.

1. As condições políticas da Palestina no tempo de Cristo

No momento em que se abre a história evangélica, a Palestina havia decaído já muito de sua antiga grandeza. Apesar
disto, conservou-se, por alguns anos, um reino aparentemente em florescimento, sob o governo de Herodes, o
Grande, funesto personagem, filho de um aventureiro de má fama, que, por ambição, se fizera judeu, ganhando dos
romanos a dignidade de rei (40 A. C.), à custa dos últimos descendentes dos Macabeus.

Ambicioso como seu pai, desconfiado, cruel, estabeleceu sua posição com o assassinato de todos os que lhe podiam
fazer sombra: sua esposa, Mariamma, seu cunhado, três filhos seus, milhares de outras pessoas e, além disto,
segundo São Mateus, com as crianças inocentes, as pequenas vítimas de Belém. Com toda sua aparente
independência, era, na realidade, um súdito de Roma.

Admirador da cultura grega, ainda quando ela estava em oposição direta com as idéias e costumes judaicos,
trabalhou durante o seu reinado para introduzi-la na Palestina. Assim, não contente de espalhar por toda parte os
palácios e edifícios suntuosos, teve a ousadia de construir na própria Jerusalém um teatro e uma arena de esportes
(n.t.: onde os homens e rapazes se apresentavam nus, dissimulando mesmo os efeitos da circuncisão), e em outras
cidades templos em honra do Imperador Augusto. Morreu detestado quase por todos, que não lhe perdoavam sua
qualidade de intruso no trono, seu espírito pagão e os sangue abundante que derramou, sem mais motivo que suas
suspeitas.

Com sua morte, a influência romana, tão ativa e pesada na Palestina há meio século, se acentuou ainda mais. Suas
terras foram divididas por Augusto em principados, cujos governos distribuiu entre três filhos de Herodes: Arquelau
recebeu a Judéia e a Samaria; Herodes Antipas, a Galiléia e a Peréia; Herodes Filipe, as regiões ao nordeste do
Jordão: Betânia, Traconites e Auranites (Lc 3,1). Arquelau teve o título de enarca e os outros dois, Antipas e Filipe de
tetrarcas.

Arquelau reinou cerca de dez anos. Como renovava, em parte a crueldade do seu pai, seus irmãos e súditos o
acusaram diante do imperador, que o destituiu e o exilou para Viena das Gálias, onde morreu. A Judéia e a Samaria
foram anexas ao império romano, governadas por um procurador, ou governador, sediado em Cesaréia, nas
margens do Mediterrâneo, comandando uma tropa de ocupação considerável. Em Jerusalém foi sediado um
destacamento militar sob o comando de um tribuno, aquartelado na Torre Antônia, no ângulo nordeste do Templo.

Nas principais festas religiosas, que atraíam à capital judaica um imenso concurso de povo, o procurador costumava
vir também à cidade, vigiando mais de perto aquele espírito público, com facilidade efervescente. Pois só vista dos
soldados pagãos junto ao mesmo recinto do Templo, uma insolência sem limites, tornava sombrios e sublevados os
ânimos. O primeiro procurador foi Copônio (6-10 D.C.). Pôncio Pilatos, de funesta e triste memória, exerceu suas
funções entre os anos de 26 e 37 D.C. (n. t.: morreu exilado em Lião, nas Gálias).
Herodes Antipas (4-38 D.C.) herdou do pai sua afeição ao excessivo luxo. Como ele, embelezou cidades e construiu
palácios. Seu temperamento era, em geral, benévolo. Mas tornou infame sua memória para sempre com sua
criminosa malícia no martírio de São João Batista e com seu indigno e ignóbil proceder com Jesus Cristo naquela
manhã da Sexta-feira Santa. Também teve os eu castigo, pois Calígula o desterrou para Lião, onde passou o resto de
seus dias.

Em geral, estas eram as condições políticas da Palestina no tempo do Salvador. A conquista romana havia posto em
contacto duas nacionalidades, cujo espírito, costumes e religião eram irremediavelmente opostos. Mas, sobretudo,
os judeus, que se consideravam o povo eleito e a nação mais livre da terra, a sujeição a Roma parecia ser uma
verdadeira ignomínia, à qual não se podiam resignar a não ser por força. Roma havia conquistado a terra, mas não
conseguira quebrantar o espírito da nação nem desvanecer sua esperança, ainda que insensata. Daí provinham, de
quando em quando motins e rebeliões, que os romanos logo afogavam com sangue.

Não teríamos dado a conhecer suficientemente a organização política do povo judeu nos tempos de Jesus se não
mencionássemos o Sinédrio (do grego “synedrion”, lugar onde se assentam, “assembléia”), espécie de Senado ou
alta câmara nacional, que gozava de grande autoridade nos negócios internos do país. Suas reuniões se realizavam
em Jerusalém. Sua instituição parece remontar ao fim do cativeiro da Babilônia, quando os judeus, ao voltar da
Caldéia e da Palestina, viram a necessidade de ter uma tal assembléia para resolver os assuntos referentes à
reconstrução. Constava de 71 membros, pertencentes a diferentes categorias ou classes: “os príncipes dos
sacerdotes”, isto é, os antigos sumos sacerdotes e chefes dos grandes clãs sacerdotais; “os escribas” (n.t.: peritos na
Lei de Moisés, em particular, e nas Escrituras, em geral) e os “anciãos” (os notáveis), escolhidos entre os mais
influentes da cidade. O sumo sacerdote, em função, detinha a presidência. A jurisdição do Sinédrio era muito ampla
e lhe cabiam as causas civis e religiosas de importância, como a acusação de idolatria contra um povoação ou tribo,
as falsas profecias, declaração de guerra, ampliações do Templo, etc.

Se bem que os romanos lhe retiraram o “jus gladii”, direito de condenar à morte (Jo 18,31), lhe deixaram uma ampla
autonomia como Conselho supremo da justiça, em especial para resolver questões estritamente religiosas, entre
outras as referentes à interpretação dos pontos mais importantes da lei de Moisés. Para os processos ordinários
havia, pelo país, tribunais de nível inferior.

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Filion 2: Condições injustas


2º segmento

2. As condições religiosas

Se Herodes, o Grande, molestou gravemente a maioria dos seus templos construindo em vários pontos do território
edifícios de estilo e funções pagãs, excitou sua gratidão e admiração, quando se propôs a construir o magnífico
Templo que leva seu nome na história (…) Zorobabel e os retornados judeus da Babilônia tinham levantado sobre as
ruínas do Templo de Salomão, incendiado pelas tropas de Nabucodonosor por ocasião da tomada de Jerusalém
pelos caldeus. Fora construído em meio a grandes dificuldades. Era tão modesto que fez chorar os que haviam
conhecido o anterior.

Herodes teve a ambição, legítima desta vez, de ampliar e embelezar este segundo Templo, de modo que se tornasse
tão belo quanto o de Salomão. Trabalhou nisto quase 15 anos, mas o plano só foi concluído depois de sua morte. O
conjunto arquitetônico que compunha o Templo formava, segundo testemunhos críveis, uma das construções mais
esplêndidas daqueles anos. Sua magnificência e riqueza se tornaram proverbiais. Dizia-se: “Quem não viu o Templo
de Herodes não viu um edifício belo”.

Tinha uma situação admirável, acima do vale do Cedron, diante do monte das Oliveiras. Por detrás dele a cidade se
levantava como um anfiteatro sobre as colinas próximas. Exibia amplos tetos sobrepostos, com galerias e milhares
de colunas, edifícios em estilo tradicional, agrupados com elegância em torno de vastos pátios, revestidos de pedras
e mármores preciosos. Tudo se combinava para tornar o conjunto tão harmonioso que os olhos não se cansavam de
contemplá-lo. Jesus foi muitas vezes a este Templo para orar e ensinar.
Também as sinagogas foram, com freqüência teatro de seus milagres e de sua pregação. A aldeia mais humilde tinha
a sua. As cidades maiores dispunham de várias. Eram edificadas tão ricamente quanto permitiam os recursos da
população. As formosas ruínas de muitas delas, descobertas atualmente na Palestina honram o gosto artístico e a
piedade dos que as construíram. Eram, geralmente orientadas de modo que os assistentes estivessem voltados para
a direção de Jerusalém. Os fiéis se reuniam várias vezes na semana, mas, sobretudo, nos sábados e festas. O culto
nelas consistia de orações, leituras da Lei e do s Profetas (Antigo Testamento), canto dos Salmos e pregação. Serviam
também de escolas e de outras reuniões de caráter importante.

Os ministros do culto eram o sumo sacerdote, os outros sacerdotes e os levitas, todos da tribo de Levi. A diferença
era que os sacerdotes deviam ser descendentes de Aarão, o irmão de Moisés (…).

Por regra, o sumo sacerdócio era hereditário e vitalício. Mas esta regra sofreu grandes mudanças com o tempo.
Depois da volta do exílio da Babilônia, o cargo provocou grandes abusos por ambições e rivalidades criminosas. Nos
tempos evangélicos, Roma, que convertia tão infaustos pontífices em instrumentos de sua dominação os instituía e
depunha a seu arbítrio. Apenas o procurador Valério Grato, predecessor de Pôncio Pilatos, criou e destituiu três em
pouco temp.

O sumo sacerdote representava em Israel a autoridade suprema no campo religioso (…) Exercitava sal função
principal no Dia do Grande Perdão ou da Expiação, quando entrava no Santo dos Santos, a parte mais interna do
Templo, onde rogava ao Senhor para que perdoasse o povo dos seus pecados. Com a suntuosa veste cerimonial,
oficiava também, algumas vezes, em dias de festa e nos sábados. Os Evangelhos só mencionam nominalmente dois
sumos sacerdotes: Anás, deposto no ano 14 D.C., e seu genro Caifás, destituído no ano 37. Os dois, sobretudo o
segundo, exerceram um papel dos mais indignos durante a Paixão de Jesus Cristo.

Os sacerdotes eram organizados em 24 classes. Suas funções principais consistiam em depositar a carne das vítimas
no altar dos holocaustos, levantado ao ar livre diante do Santo, a parte anterior ao Santo dos Santos. Cabia-lhes
também testemunhar, oficialmente, a cura dos leprosos (Mc 1,44; Lc 17,14, etc.).

Os levitas estavam serviço dos sacerdotes, ajudando no santuário e no altar. Eram também encarregados dos cantos
sagrados e da manutenção da ordem no Templo. Sacerdotes e levitas não permaneciam em Jerusalém senão
durante a semana em que eram chamados a cumprir seu ministério, segundo lhes tocava por turnos. Eram-lhes
assinalados povoados e cidades de residência habitual. Tiravam sua subsistência de parte da carne das vítimas e dos
dízimos pagos por todos os israelitas.

Não iremos entrar aqui nos pormenores dos atos litúrgicos do culto judaico. Apenas recordamos que consistiam, em
particular, na oferta dos sacrifícios e na oração. Era essencial o sacrifício cruento da vítima, que podia ser, segundo
regras bem precisas, um boi ou uma vaca, um bezerro, um carneiro ou ovelha, pombas, rolinhas. Deviam ser mortos
ali mesmo, o sangue derramado sobre ao altar. Um deles não deixava de ter sua beleza: pela manhã e pela tarde um
cordeiro sem defeito era oferecido por todo o povo e pagava as custas. Todos os dias eram imoladas outras
inumeráveis vítimas em nome de pessoas particulares, em ação de graças, para expiar pecados, alcançar bênçãos
particulares, pelo cumprimento de uma promessa ou voto, etc.

O holocausto se distinguia dos outros sacrifícios cruentos porque a vítima era totalmente queimada, sem reservar
suas partes para os sacerdotes e os doadores. Nenhuma destas oferendas tinham valor em si mesmas. O que as fazia
agradáveis a Deus era a antecipação do único sacrifico verdadeiramente digno do supremo Mestre: a imolação da
Vítima do Calvário, Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isto mesmo, estas ofertas imperfeitas deviam desaparecer pouco
a pouco na Nova Aliança e dar lugar à mais pura, que,c Ada dia, se oferece em todo o mundo em milhares de altares
católicos.

Nosso esboço da situação religiosa do judaísmo na Palestina no temo de Jesus Cristo ficaria incompleto se não
falássemos de três seitas célebres de grande significação naquela época: os fariseus, os saduceus e os essênios.

Estes últimos não são mencionados em nenhuma parte dos Evangelhos. Eram como que monges d judaísmo. Muitos
levavam uma vida austera e edificante, praticavam o celibato, alimentavam-se pobremente, trabalhavam a terra e
viviam em perfeita pureza de costumes, simbolizadas no uso de vestes brancas. Mas seu objetivo principal era um
misticismo radical, que muito empanava suas excelentes intenções (n. t.: quando Fillion escreveu, ainda não se
tinham descoberto e explorado as ruínas de Qumrán, o mosteiro essênio).
As outras duas seitas aprecem muitas vezes na história evangélica. Embora hostis entre si, em tudo o mais se
puseram, infelizmente, de acordo para aborrecer e perseguir Jesus, entregando-o, afinal, aos romanos e à morte. A
origem deles remonta à metade do século 2º antes da era cristã. O espírito pagão ameaçava invadir, então, e
absorver inteiramente a antiga religião de Moisés. Por isto se foram formando dentro do povo judeu, começando
das classes superiores, duas tendências opostas: uma rechaçando com energia e a outra aceitando com moderação
as idéias e influências gregas. Os partidários da primeira corrente se denominavam “perouchim”, isto é, “fariseus”,
que se traduz por “separados”. Os da segunda corrente, contentavam-se com a virtude legal e ordinária, e eram
chamados “tsedakim”, os “justos”, muito simplesmente. As duas tendências foram, pouco a pouco, se distanciando
uma da outra.

Os fariseus aderiam excessiva e escrupulosamente à observância rigorosa da lei, e também a tradições humanas,
com freqüência, rígidas e mesmo absurdas, tradições até em contradição com o espírito da lei. Desenvolveram um
zelo singular em dois pontos: a pureza exterior e legal, que nada tinha a ver com verdadeira santidade (Mc 7,2-4; Mt
15,2); e o pagamento integral dos diversos tipos de dízimo. Pondo acento no externo, a piedade farisaica degenerou
em puro formalismo, objeto de ostentação e exibição (Mt 23,23; Lc 11,42), e também de hipocrisia (Mt 6,2.5.16),
como Jesus questionava vivamente.

Sem dúvida havia fariseus bons e honrados. Mas, no conjunto, tinham um espírito deplorável. Boa parte era formada
pelos letrados e escribas, de que logo falaremos. A seita gozava de grande autoridade junto ao povo, deslumbrado
pela aparência de santidade, tendo-a em grande conceito e estima. Roma e tudo quanto dela provinha era objeto de
horror para a seita.

A maioria dos saduceus fazia parte da classe aristocrática e sacerdotal. Tinham nas mãos o poder civil e político, pois
haviam aderido abertamente à dinastia dos Herodes, e,a te certo ponto, ao poder romano. Estavam em maioria no
Sinédrio. Partindo princípio que bastava atacar, bem ou mal, a letra da lei divina, de concessão em concessão
chegaram a perder, quase inteiramente, a fé, rechaçando não só a sobrecarga de tradições anexadas à lei de Moisés,
mas muitas crenças importantes, como a existência dos anjos e a imortalidade da alma (At 33,6-8). No fundo, eram
de espírito racionalista, e não se importavam muito com as grandes esperanças do seu povo.

Os herodianos eram os partidários, subornados ou comprados, da dinastia dos Herodes, por isso mesmo em estreito
contacto com os saduceus. Constituíam um grupo mais político que religioso. Defendiam uma moral permissiva e
tinham o indiferentismo como doutrina religiosa. Jamais pensaram em sacudir nem lamentar o jugo romano.

As afinidades entre herodianos e saduceus, existiam entre fariseus e escribas, embora os escribas não pertencessem
de todo a eles. Os escribas constituíam uma como que corporação oficial, começada após o exílio na Babilônia. Seu
ministério era copiar os Livros Sagrados, que continham o texto da Lei, velando por sua pureza e interpretando-o.
Esta última função era muito honrosa, foi-se tornando a mais importante e assim lhes alcançou uma autoridade
considerável. Daí serem chamados “doutores da Lei”. Por isso Jesus recomendou a seus discípulos obedecê-los (Mt
22,16; Mc 3,6), por que eram representantes de Deus, mas os preveniu contra seu orgulho e hipocrisia, sobre tudo
suas tendências opostas ao espírito verdadeiro da lei divina (Mt 23,1-3).

O estado religioso da massa da população judaica neste tempo, também merece atenção. No conjunto não era mal.
As penalidades do desterro tinham dado seu fruto, e os usos idolátricos, reiterados anteriormente, haviam caído em
desuso desde muito. A nação teocrática era, em geral, fiel a Deus. Amava a oração, companheira de todos os atos da
vida. Celebrava regularmente os sábados e festas. Concorria a Jerusalém na peregrinação anual prescrita pela Lei.
Sacrificava inúmeras vítimas. Cumpria com bastante exatidão os preceitos divinos.

Bem verdade que em muitos a obediência era exterior e rotineira, mais do que de coração e sobrenatural. Faltava o
espírito de verdadeira piedade. O culto, muitas vezes, era manifestação fria. A virtude, para muitos, consistia na
prática de múltiplas observâncias, com freqüência ridículas, às quais os Rabinos davam a mesma importância do que
aos Dez Mandamentos. Os responsáveis. Responsáveis por esta situação eram os perniciosos exemplos dos fariseus
e dos escribas. O coração amante de Jesus estava dolorosamente impressionado. Assim dizem os evangelistas (Mt
9,36; Mc 6,34), que tinha compaixão e pena da multidão, “ovelhas sem pastor”.

Mas o que impressiona sobretudo na leitura dos Evangelhos e nos escritores profanos do período era o ardor com
que esperavam, na época, a vinda do Messias. Muitos indícios e sinais anunciam, com efeito, que os oráculos
proféticos relativos a sua vinda iriam logo se cumprir. Mais de um impostor se aproveitou do clima de excitação
geral, causado por esta expectativa, para apresentarem-se, atrevidamente, como o Cristo (o Messias).

Este entusiasmo poderia ter sido, na verdade, excelente, se não tivesse misturado à imagem do Messias traços
demasiado humanos e extravagantes, fazendo dele não um libertador espiritual e fundador do verdadeiro Reino de
Deus, mas um irresistível conquistador, que chefiaria o povo contra os romanos, destruindo-os para colocar Israel na
liderança das nações, garantindo uma prosperidade e felicidade sem fim.

Loucas esperanças e preocupações funesta, que dificultaram seriamente o êxito da pregação do Salvador, impedindo
grande número de judeus de reconhecer sua missão divina! Felizmente havia em Israel muitas almas escolhidas, que
compreendiam o verdadeiro significado das profecias, sabendo dar-lhes o justo valor. Muitas acharemos, e não de
menor qualidade como Maria, José, Zacarias, Isabel,o velho Simeão, Ana, a profetisa, já no início da história
evangélica.

No próximo advento do Messias estes nobres corações viam, antes de mais nada, o perdão concedido aos pecados
do povo, a paz com Deus e com os seres humanos, o estabelecimento de um reino ideal, cujo chefe e cabeça seria o
Cristo, trazendo a todos a verdadeira felicidade. Os três cantos evangélicos, “Minha alma engrandece o Senhor”,
“Bendito seja Deus” e “Agora, Senhor deixai” (Magnificat, Benedictus e Nunc dimittis) são admiráveis modelos desta
fé, apresentada em toda sua pureza e esplendor.

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Fillion 3 – Condições sociais


3º segmento

As condições sociais

A vida em família

A família era constituída pelo matrimônio. A celebração era acompanhada pro cerimônias e ambiente festivo,
assinalado pelos Evangelhos de modo muito expressivo (Mt 20,1-11; 25,1-13). São ritos que, ainda hoje se observam
pela população atual da Palestina, quer judia, quer, cristã e mesmo muçulmana. Cabia ao “amigo do esposo” (Jo 3,9),
que corresponde a nosso padrinho de casamento, organizar a festa. A parte mais interessante consistia num cortejo
festivo, ao anoitecer, com tochas e luzes, para conduzir a desposada à casa do marido.

O divórcio era autorizado pela lei mosaica, e se cometiam grandes abusos, que Jesus, um dia, deplorou, suprimindo ,
para sempre, esta licença concedida em vista da “obstinação do coração”.

Os Evangelhos falam, às vezes, das crianças. Há um aspecto que merece ser mencionado nesta introdução: s crianças
costumavam sair imitando, em suas brincadeiras, as cerimônias tristes ou alegres que haviam assistido, funerais ou
casamentos (Mt 11,11-17; Lc 7,31-32). Este dom de imitação é comum na infância. Sabemos, pelos escritos dos
rabinos judeus que havia, nesta época, numerosas escolas por toda a Palestina, e os pais faziam questão de ali enviar
seus filhos. Recordemos que ter filhos era ao que mais desejavam os pais, e a esterilidade era tida como afronta e
humilhação.

Os Evangelhos mencionam vários tipos de doenças que afligiam, por aquele tempo, a Palestina. A referência a
milagres de cura feitos por Jesus Cristo sublinha, com eloqüência, esta dura realidade, manifestando a nossos olhos
tantas enfermidades corporais. Ainda hoje, naquelas terras, não faltam misérias a lamentar, como a dezenove
séculos atrás (n.t.: o Autor viveu entre o século 19 e o 20!). Ali, como na Síria e em todo o Oriente bíblico (…) Pelo
que diz a literatura rabínica das práticas médicas de então, os médicos mereciam mais o nome de curandeiros. A
reflexão que faz São Marcos (Mc 5,21-26) se justifica muito: “A mulher havia sofrido muito, durante doze anos, em
mãos dos médicos, e depois de gastar tudo o que tinha, não experimentou nenhum alívio, mas se achava muito
pior.”

Final da seleção de textos de Fillion

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Solemnidad de la Ascensión del Señor - Ciclo A

Fillion

La Ascensión gloriosa del Salvador


En el decurso de los cuarenta días que transcurrieron entre la resurrección del Salvador y su Ascensión gloriosa
consoló Jesús a sus discípulos y continuó su educación, que el Espíritu Santo había de acabar el día de Pentecostés.
Advertidos por su Maestro, volvieron de Galilea a Jerusalén; fue donde, pocas horas antes de subir al Cielo, les hizo
sus últimas recomendaciones y les dio su adiós postrero, según refiere San Lucas así al fin de su Evangelio como al
principio del libro de los Hechos. Quisiera la piedad cristiana poseer noticias más puntuales sobre estos últimos
instantes que Jesús pasó en la tierra; pero fuerza es contentarse con los que el evangelista nos ha conservado.

El Salvador, recordando el tiempo que había vivido con sus apóstoles, les trajo a la memoria la frecuencia con que les
había repetido que se cumplirían a la letra los vaticinios del Antiguo Testamento que a Él se referían: "Estas cosas
son las que os decía cuando estaba con vosotros. Que era necesario que se cumpliese todo lo que está escrito de mí
en la ley de Moisés y en los Profetas y en los Salmos." "La ley, los profetas, los salmos": esta fórmula representa todo
el Antiguo Testamento en sus tres grandes secciones, las cuales, sin distinción, contienen vaticinios mesiánicos.
Siendo la Sagrada Escritura de tanta importancia para la doctrina cristiana, a la que sirve de fundamento Jesús, según
expresión del evangelista, "abrió la inteligencia" de sus apóstoles para que en adelante fuesen capaces de
interpretar por sí mis los textos sagrados. Don magnífico que el Espíritu Santo completará pronto, y por virtud del
cual los primeros predicadores del Evangelio sabrán descubrir en la Biblia los vaticinios que se referían a su maestro.
Don magnífico que fue concedido asimismo a la Iglesia, depositaria e intérprete infalible del verdadero sentido de los
Libros Sagrados. Don magnífico que nos ha procurado las interpretaciones incomparables de Santos Padres como
San Juan Crisóstomo, San Ambrosio, San Jerónimo, San Agustín, y de nuestros grandes exegetas católicos. Sólo, en
efecto, la luz de lo alto puede hacer entender plenamente los Sagrados Libros.

Luego dijo Jesús: "Así está escrito, y así era menester que el Cristo padeciese y resucitase de entre los muertos al
tercer día, y que en su nombre se predicase la penitencia y la remisión de los pecados a todas las naciones
empezando por Jerusalén. Y vosotros sois los testigos de estas cosas. Y yo os voy a enviar el don prometido por mi
Padre; entre tanto perseverad en la ciudad hasta que seáis revestidos de la fortaleza de lo alto." ¡Cómo insiste en la
necesidad de su pasión y de su muerte, predichas con tanta claridad por los profetas de Israel! Indica también,
aunque muy brevemente, las cuatro cualidades de la predicación apostólica. Se hará en su nombre; anunciará la
penitencia y la remisión de los pecados; se extenderá a todas las naciones y comenzará por Jerusalén. La capital
judía, como centro de la verdadera religión, tenía derecho a este privilegio, y los apóstoles se guardarán bien de
quitárselo, pues dentro de sus muros comenzaron a predicar la fe cristiana con fruto prodigioso.

Algunos de los discípulos hicieron entonces a Jesús una pregunta que, mayormente en aquellos momentos, ha de
parecer inoportuna y extraña: "Señor, ¿vas a restablecer ahora el reino de Israel?. Aludían al reino del Mesías, tal
como por entonces lo soñaban, según hemos visto repetidas veces, los judíos; reino puramente exterior y político,
brillante y fastuoso, cuyos principales súbditos serían los descendientes de Abrahán, y en el que los paganos sólo
tendrían derecho de ciudadanía a condición de incorporarse al judaísmo, si ya lograban escapar de las sangrientas
batallas que victoriosamente les habían de librar los judíos. ¡Qué inteligencia tan imperfecta tenían aún aquellos
discípulos de las instrucciones de su Maestro, con ser tan precisas, y cuán necesario les era el Espíritu Santo!
Respondióles Jesús: "No es de vosotros conocer tiempos o momentos que el Padre (celestial) ha fijado de su
voluntad; pero recibiréis el Espíritu Santo, que vendrá sobre vosotros, y me seréis testigos en Jerusalén, y en toda la
Judea y en Samaria, y hasta lo último de la tierra". A estas instrucciones siguió la Ascensión gloriosa, que pone fin a
la vida terrestre de Nuestro Señor Jesucristo. San Marcos y San Lucas la cuentan compendiosamente. Habiendo
entrado en el mundo de un modo misterioso y milagroso, misteriosamente también, y por medio de un prodigio,
sube a los cielos el Hijo de Dios. Tomando consigo a los apóstoles y a algunos discípulos y santas mujeres que a la
sazón se hallaban en Jerusalén —y también a su Madre, según es de creer, pues el día de la Ascensión estaba en el
cenáculo con la asamblea de los fieles, los llevó al monte de los Olivos, al sitio que actualmente ocupa la aldea
musulmana Et-Tur, como a un cuarto de legua, al noroeste, de Betania. De esta célebre colina, algunos días antes
había partido el cortejo que condujo triunfalmente a Jesús a Jerusalén como Mesías; he aquí que ahora va a servirle
como de escabel para emprender su vuelo hacia el cielo, como Verbo Encarnado. En este lugar glorioso, cuya
autenticidad está garantizada por una tradición que se remonta al año 316, hizo construir Santa Elena una capillita
en forma de rotonda, que muchas veces ha sido destruida y reedificada, y que los mahometanos han convertido en
mezquita, como otros muchos santuarios cristianos. Allí, después de haberse despedido de todos los discípulos que
estaban presentes, el Salvador levanto y extendió los brazos para darles una postrera bendición. Y mientras les
estaba bendiciendo comenzó a elevarse majestuosamente en el aire, ante las extáticas miradas de los suyos. Pero
pronto una nube se lo ocultó de su vista. Aun después que desapareció, los discípulos, prosternados en tierra en
actitud de adoración, continuaban mirando hacia el cielo, esperando volver a verlo. Pero dos ángeles, en forma
humana, vestidos de blanco, como en el día de la resurrección de Cristo, se les aparecieron y les dijeron: "¿Por qué
os estáis mirando al cielo? Este Jesús que de entre vosotros ha sido arrebatado al cielo vendrá de esta misma
manera" el día de su segundo advenimiento, al fin del mundo. Los apóstoles y los discípulos regresaron, pues, a
Jerusalén con un gran vacío en el corazón, pues sabían que ya no gozarían acá abajo de la cariñosa presencia de su
amado Maestro; pero a la vez llenos de alegría, como expresamente nota San Lucas, porque el Salvador había
ascendido a su Padre, para que su santa Humanidad recibiese el puesto honroso que con tantos trabajos había
merecido. Así acabó gloriosísimamente la vida del Salvador entre los hombres. Y ahora está sentado a la diestra de
Dios, su Padre, gobernando, protegiendo y bendiciendo a su Iglesia, a la que ni sus ojos pierden de vista ni su
Corazón puede olvidar. Gracias a Él creció rápidamente, y, a pesar de las sangrientas persecuciones y de las herejías,
aun más perniciosas, que con tanta frecuencia la han hecho guerra, se ha mantenido y se mantiene fiel en la fe y en
el amor.

(Fillion, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, Poblet, 1947, Pag. 655/658)

IV - De Jerusalém a Belém
"Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi
precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou. A aparição daquela estrela os encheu de
profunda alegria".

Assim sempre procede Deus, recompensando aqueles que são fiéis à Sua graça. É comovedora a confiança
penetrada de coragem desses Reis Magos, diante de um tirano de tal má fama. Não há dúvida de estarem
sustentados por especial moção do Espírito Santo.

Reaparece a estrela

Terão partido à noite, ou durante o dia? De Jerusalém a Belém, levava-se duas horas de caminhada por via
conhecidíssima. Entretanto, uns poucos autores defendem a tese de esse deslocamento ter-se efetuado durante o
dia. Mas, como se explicaria o reaparecimento da estrela? Uns dizem não terem sido necessárias as sombras da
noite, por tratar-se de um corpo luminoso em regiões atmosféricas mais próximas dos Magos. Outros interpretam
essa passagem como se a estrela tivesse reaparecido só na entrada de Belém, uma vez que não havia como errar o
caminho.

Ao ler estes versículos com devoção, chega-se, por momentos, a participar da alegria dos primeiros peregrinos aos
Lugares Santos. O desaparecimento da estrela lhes pusera à prova a confiança; agora é a consolação como prêmio.
Uma pergunta aqui surge, também. Por que se ocultara a estrela ao chegar a Jerusalém e reapareceu só em Belém?
Será que já àquelas alturas Jerusalém não era digna de um sinal tão evidente e público? Ou, pelo contrário,
escondendo-se, ela propiciou uma permanência maior dos Magos na cidade, e com isso a autenticidade do
acontecimento tornou-se mais patente a todos os seus habitantes?

Adoraram-No, inspirados pelo Espírito Santo

"Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante dEle, O adoraram. Depois,
abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra".

Emociona esta descrição de Mateus: "acharam o Menino com Maria, Sua mãe". Palavras proféticas, inspiradas pelo
Espírito Santo, para deixar constando pelos séculos afora que não se pode encontrar Jesus sem Maria, e menos
ainda, Maria sem Jesus. A História comprova - e muito mais o fará - o quanto a devoção à Mãe conduz à adoração ao
Filho, e vice-versa.
Chama-nos a atenção a referência de Mateus ao local onde Se encontrava o Menino: uma casa, não uma gruta.
"Alguns autores antigos - entre eles São Justino - julgaram que ‘casa' era um eufemismo, em lugar de ‘gruta'. São
Jerônimo, em compensação, menciona várias vezes a gruta e nunca fala da lembrança nem da presença dos Magos
nela. Não seria nada improvável que a palavra ‘casa' tenha em Mateus seu sentido real. Situada essa cena à distância
de um ano e meio do nascimento de Cristo, não é de crer-se que a Sagrada Família tenha permanecido alojada
naquela gruta circunstancial; parece natural que ela tenha habitado uma modesta casa. Ademais, o versículo 22
sugere que ela havia se estabelecido em Belém".13

Essa adoração prestada pelos Magos comprova mais uma vez a realidade da ação do Espírito Santo nas almas deles,
tal qual afirma São Tomás de Aquino:

"Os Magos são ‘as primícias dos pagãos' a crerem em Cristo. Neles apareceram, numa espécie de presságio, a fé e a
devoção dos pagãos vindos a Cristo de lugares remotos. Por isso, sendo a fé e a devoção dos pagãos isentas de erro,
por inspiração do Espírito Santo, também devese crer que os Magos, inspirados pelo Espírito Santo, se comportaram
sabiamente ao prestarem homenagem a Cristo".14

Quanto aos presentes, eles cumprem, com esse gesto, a profecia de Isaías: "Virão todos de Sabá, trazendo ouro e
incenso, e publicando os louvores do Senhor. Todo o gado menor de Cedar se reunirá junto a ti, os carneiros de
Nabaiot ficarão à tua disposição; fá-los-ão subir sobre meu altar para minha satisfação, e para a honra de meu
templo glorioso" (Is 60, 6-7).

"Ao reconhecê-Lo como rei, ofereceram as primícias excelentes e preciosas do templo: o ouro que guardavam; por
entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira,
oferecida como suave odor do Espírito Santo; e em reconhecimento de que sua natureza humana receberia
sepultura temporal, ofereceram mirra".15

*******

Levantar-se-á no Ocidente um grande Rei

O ponto de partida dessa idade de ouro, que um poderoso e glorioso personagem deveria presidir, seria, segundo
a opinião comum, a Judeia. Já dissemos com quanta ansiedade os judeus esperavam o Messias, precisamente nessa
mesma época. Toda a sua literatura era messiânica, como o demonstram os abundantes livros apócrifos que, sem
cessar, avivavam o fogo e intensificavam a esperança.

Os filhos de Israel tinham invadido a maioria das províncias do Império. Romano e entregavam-se em todas as partes
a um ardente proselitismo, sem fazer mistério de sua religião nem de seu Messias. Graças a eles, originaram-se e
dilataram-se aquelas esperanças que mantinham em suspenso tantos espíritos. As religiões pagãs se decompunham
e caíam em ruínas. Os espíritos mais elevados filiavam-se em grande número ao judaísmo por laços ora mais ora
menos estreitos.

O pressentimento do que falamos está formalmente atestado por vários dos grandes escritores de Roma,
particularmente por Virgílio (Eglog., 4, 4-52), Tácito (Hist., 5, 13) e Suetônio (Vespas, 4). E também pelo historiador
judeu Flávio Josefo (Bell. Jud., 6,5,4). Até as antigas tabelas astronômicas de Babilônia manifestavam vivo interesse
pela Palestina. Nelas se podem ler com bastante frequência predições expressas nestes termos: "Quando tal ou qual
coisa acontecer, levantar-se-á no Ocidente um grande rei, e com ele começará uma verdadeira idade de ouro".

(FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Rialp, 2000, v. I, p. 7-8).

Comentários apresentados pelo Pe. Luis Cláudio Fillion


O Centurião merecia um elogio público. "Em verdade vos digo: Não achei fé tão grande em Israel. Digo-vos, porém,
que virão muitos do Oriente e do Ocidente, e que se sentarão com Abraão e Isaac e Jacó no reino dos céus, enquanto
que os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores".

Os filhos do reino são os judeus, para os quais estava destinada, primeiro, a possessão do reino celeste; mas sua
incredulidade será a causa de que a maior parte deles seja excluída do reino, enquanto que os gentios de todas as
nações, tornados fiéis, ocuparão seus lugares.
Depois do elogio dessa fé insigne, veio a recompensa, que consistiu na cura imediata do enfermo.

__________________

Notas:

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, p. 146.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/F843B441-3048-560B-
1C12BFAE33E02DA8/mes/Abril1997

Comentários do Pe. Luís Cláudio Fillion


Dispôs Deus que a primeira aparição do Messias no Templo não passasse despercebida.

Desde sua encarnação, deu a Nosso Senhor Jesus Cristo vários testemunhos que proclamaram sua entrada neste
mundo. No Céu, os anjos; na terra, Santa Isabel, São João Batista, São Zacarias e os pastores. E vai completar o
número no momento solene de sua apresentação no Templo. Havia então em Jerusalém um varão justo e temente a
Deus, chamado Simeão, que esperava a consolação de Israel, ou seja, o Redentor. A fé e a piedade haviam radicado
em seu coração, por assim dizer, o Espírito Santo, o qual lhe revelou que teria a felicidade de ver o Salvador do
mundo antes de morrer

Nota:

N. S. Jesucristo según los Evangelios - Ed. Difusión, Buenos Aires, pág. 73).

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/C366E718-3048-560B-
1C846EBBAD8CF652/mes/Janeiro1997

Comentários do Pe. Luís Cláudio Fillion


Após os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo na sinagoga de Nazaré, todos os assistentes se associaram a um
projeto sanguinário contra o Salvador. Furiosos, precipitaram-se sobre Ele, conduziram-no até um monte fora da
cidade a fim de lançá-lo do alto de uma pedra. Mas Jesus, soltando-se de suas mãos, passou no meio deles, sereno e
majestoso, sem que ninguém se atrevesse a segurá-lo de novo. Realizando, por sua vontade onipotente, como
quando expulsou os vendilhões do átrio do Templo, um estupendo triunfo moral sobre seus inimigos.

____________

Notas:

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires p. 117.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/9C62AB68-3048-560B-
1C84045A23F56D07/mes/Agosto1996

Comentários do Pe. Luís Cláudio Fillion


(Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1962)

Graças à terna descrição feita por São Lucas, a fisionomia de Jesus em plena missão evangélica aparece vivíssima aos
nossos olhos em meio ao grupo que lhe serve de moldura. Contemplemos com respeito, enquanto faz seu caminho,
a sagrada comitiva ou companhia, cujas pessoas principais acaba de mencionar o Evangelista. Jesus caminha em
meio aos doze, que O escoltam e rodeiam com um afeto igual à sua veneração. Alguns adiante, outros de ambos os
lados, alguns atrás, e todos o mais perto possível dEle, a fim de não perder nenhum detalhe de suas preciosas lições.
O mais das vezes fala Jesus; mas permite com agrado que seus apóstolos lhe façam perguntas familiarmente.

A certa distância caminham piedosas mulheres com seu véu. Levam as provisões e conversam entre si
modestamente. Sua presença pode surpreender-nos, pois constitui um fato inteiramente novo. Porque se as
mulheres judias estavam autorizadas a prover aos rabinos do necessário para sua subsistência, não se sabe se elas os
acompanhavam em suas viagens. Nisto, pois, introduzia Jesus uma inovação, e só Ele poderia fazê-lo em ponto tão
delicado. Rompe Ele o círculo estreito em que o Oriente havia encerrado a mulher, e abre para esta o largo campo
de suas boas obras, que ela cultivará na Igreja crista até o fim dos séculos.

Mas os evangelistas não nos deixam muito tempo sob a impressão de cena tão aprazível. A incredulidade de muitos
parentes de Jesus e o ódio fanático dos fariseus vão produzir, um depois de outro, dolorosos incidentes.

Com efeito, para falar de um deles, estamos no período dos grandes êxitos de Jesus, e as multidões, cada vez mais
afeiçoadas e ligadas à sua Pessoa, continuam buscando-O e O importunam e rodeiam por todas as partes onde
prega, não lhe dando um momento de repouso. Assim, um dia foi tal a concorrência que o divino Mestre e os
Apóstolos nem tiveram tempo para comer.

Parece que isto sucedeu a pouca distância de Nazaré, porque São Marcos, a quem devemos estes pormenores,
acrescenta que os parentes de Jesus acorreram para se apoderarem dEle ou prendê-lo e obrigá-lo a renunciar a
missões tão penosas e perigosas. Eles se atreveram até a dizer, para justificar sua atitude, que Ele havia perdido o
juízo: "Seu entusiasmo religioso O tornou demente". Linguagem esta mais odiosa ainda que a atitude em si. Mas
uma e outra coisa se explicam com a grave declaração que fará mais tarde o evangelista São João: "Os parentes de
Jesus não criam nEle". Nesta ocasião começou a se manifestar sua falta de fé. Não acreditavam nem em sua
natureza superior nem em sua celeste missão. A grande poeira levantada em redor de seu nome os alarmava, e
crescia muito mais sua inquietude e perturbação, pensando nos muitos inimigos que de todos os lados surgiam
contra Ele, o que poderia prejudicar toda a família.

Notas:

Pe. Claudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, p.167, Buenos Aires, 1962.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/7D6A8DCC-3048-560B-
1C86B51ECD8B3F74/mes/Junho1996

Comentários do Pe. Luís Cláudio Fillion


"Na Terra Santa, o pé da mostarda alcança proporções consideráveis, e as aves, ávidas de sua semente, vêm,
satisfeitas e graciosas, pousar nos seus galhos. A aplicação é fácil: como a mostarda, o Reino dos Céus, pequeno no
começo, em pouco tempo deveria adquirir colossais proporções e se espalhar pelo mundo inteiro. A quinta
parábola, que é a do fermento, descreve também, embora de outra maneira, o desabrochar progressivo e
extraordinário que pode produzir uma causa mínima na aparência: o Evangelho exerce no mundo um influxo e uma
ação íntima, penetrando-o e transformando-o".

________________

Notas:

Pe. Luís Claudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, p. 167, Buenos Aires, 1962.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/0C7F8A52-3048-560B-
1CC8212518D7CADE/mes/Abril1996

Comentário do Pe. Luís Cláudio Fillion


Antes de madurar, o joio não se distingue do trigo

A cizânia, também conhecida como joio, que se encontra com freqüência nos trigais da Palestina, produz grãos
muito parecidos com os do trigo, mas menores, e em geral de cor marrom. Misturados com o pão em certa
quantidade, produz vertigens e convulsões, circunstância que aumenta o crime do "inimigo". Num primeiro período
de crescimento, não difere do trigo, de modo que até os mais experimentados mal a distinguem. Mas, quando
aparece a espiga, saindo do talo, até as crianças distinguiriam facilmente as duas plantas. Razão pela qual a
separação se pode fazer com mais facilidade no tempo da colheita (2).

____________________

Notas
Pe. Luiz Claudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, p. 166, Buenos Aires, 1962.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/01708461-3048-560B-
1C9196C50ABAE9B9/mes/Mar%C3%A7o1996

Palavras cuja profundidade recorda aquelas que pronunciou Jesus em circunstâncias anteriores: no templo de
Jerusalém, sendo menino ainda, e nas bodas de Caná, quando fez seu primeiro milagre. Também agora suas palavras
não tinham nada de humilhante para Maria, já que, além de não serem dirigi das diretamente a Ela, não eram
menosprezo nem diminuição alguma de seus privilégios maternais.

Só que também aqui considera Jesus suas relações de filho a mãe sob o ponto de vista do dever, antes de considerá-
las segundo a natureza. E de sua parte, quão dulcíssima benignidade e condescendência para com todos seus
discípulos, os de então e os que haveriam de vir! O cumprimento da vontade de Deus une estreitamente com Cristo,
à maneira dos vínculos maternais e fraternos (3).

______________

Notas:

3)Pe. Luiz Claudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucuman, 1859, pp. 162-3.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/BD0292B0-3048-560B-
1C55792BC99C9E6F/mes/Setembro1995

O sinal de Jonas: símbolo da ressurreição de Jesus


Após ter Jesus respondido duramente a seus inimigos, falando do pecado contra o Espírito Santo, alguns fariseus que
não haviam tomado parte naquela calúnia, dirigiram-Lhe então a palavra: "Mestre, quiséramos ver-Te fazer algum
milagre".

Para esses homens, os anteriores milagres de Nosso Senhor, e em particular o que deu lugar à blasfêmia de que Ele
expulsava os demônios por virtude de Belzebu, eram insuficientes para demonstrar que estavam diante do Messias.

Necessitavam, para convencer-se, que Jesus aceitasse em realizar, ao bel-prazer e a pedido deles, alguma alteração
súbita no firmamento, um eclipse, uma tempestade em céu sereno.

Observa São Lucas que fizeram este atrevido pedido para tentá-Lo. Mas Jesus enche-os de confusão e vergonha com
palavras breves, mas enérgicas: Esta geração má e adúltera pede um sinal, mas não lhe será dado senão o sinal de
Jonas profeta.

Desta maneira, não conseguirão o sinal que com insolência reclamam; mas, em sua infinita bondade, Jesus lhes
concederá, além de seus milagres freqüentes, que não cessarão até o fim de sua vida, o milagre excepcional,
indicado sob o sinal do profeta Jonas, e que representa clara e puramente sua gloriosa ressurreição. É a segunda vez
que alude a este milagre dos milagres. Esta pregação permanecerá obscura para os seus ouvintes até que os
acontecimentos futuros possam esclarecê-la.

Continuando seu ensinamento àquela geração perversa e adúltera, o Salvador toma da história de Israel dois fatos
célebres para dar grande realce à culpabilidade de muitos de seus contemporâneos: "Os habitantes de Nínive se
levantarão no dia do Juízo contra esta geração e a condenarão, pois eles fizeram penitência com a pregação de
Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas. A rainha de Sabá tomar-se-á, no dia do Juízo, acusadora contra
esses homens e o condena-las-á, porque ela veio dos confins da terra para escutar a sabedoria de Salomão, e eis que
aqui tendes quem é mais do que Salomão.

Essas alusões e contrastes humilhantes trazem à memória outro discurso que Jesus pronunciou na Sinagoga de
Nazaré, assim como as condenações fulminadas contra as três cidades do lago. Mas a menção que o Salvador faz
aqui à sua própria Pessoa manifesta uma força extraordinária: Aqui está quem é mais do que Jonas e Salomão!

_________________________

Pe. Luiz Cláudio Fillion, Nuestro Sefíor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusion. Tucumán, 1859, pp. 161-162.
http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/E11DBE2F-3048-560B-
1C46B19A06FDB307/mes/Agosto1995

Em relação a Jesus, a neutralidade é impossível


Comentários do Pe. Luís CLaudio Fillion

Após o episódio com os parentes de Jesus, apresentaram a Ele um possesso cego e mudo. Ele expulsou o demônio, e
o enfermo recobrou no mesmo instante a fala e a vista, pois a cegueira e a mudez eram neste caso efeito da
possessão. O assombro da numerosa multidão chegou a seu auge: "Não será este o Filho de Davi?" (ou seja, o
Messias) - perguntavam-se uns aos outros. A multidão ficava suspensa e perplexa, na alternativa de afirmá-lo ou
negá-lo, contudo inclinando-se mais à afirmação. Vemos em meio à multidão fariseus e escribas, muitos vindos de
Jerusalém com a única finalidade de espionarem a Jesus e de contradizê-lo. Se apenas um deles levantasse a voz,
dizendo que Jesus era em verdade o Messias, como seus milagres o provavam, no mesmo instante todo o povo teria
acreditado n'Ele. Mas eles farão o contrário.

O divino Mestre, cuja paciência igualava a sua misericórdia, nem sempre costumava responder às injúrias lançadas
contra Ele por seus inimigos. Mas, desta vez, a calúnia era muito grave para Ele ficar em silêncio. Ele vai, portanto,
refutá-lo em regra, com uma defesa cuja serenidade e lucidez, cuja força e sabedoria os séculos jamais cessarão de
admirar. Sua réplica tem duas partes. Na primeira Jesus se põe na defensiva, derrubando a monstruosa hipótese de
seus adversários com argumentos irrefutáveis tirados da razão e da experiência: "Todo reino dividido contra si
mesmo será destruído, e uma casa dividida caminha para sua ruína. Se, pois, Satanás está também dividido contra si
mesmo, como poderá ficar de pé o seu reino? Já que dizeis que eu expulso os demônios por obra de Belzebu, por
força de quem os expulsam vossos filhos? Portanto eles mesmos serão vossos juízes. Mas se eu lanço fora os
demônios pelo Espírito de Deus, é evidente que chegou até vós o reino de Deus".

A segunda parte da réplica contém uma advertência e um aviso bem sério: "Quem não está comigo, está contra
mim. Quem não recolhe comigo, dispersa". Havia em volta muitas pessoas vacilantes, volúveis, indecisas, que
movidas pelos milagres de Jesus, de um lado se admiravam, impressionando-se ao mesmo tempo com os
argumentos dos fariseus, e não sabiam a que ater-se. Jesus lhes diz que em relação a Ele a neutralidade é
impossível.

Não há posição de meio termo quando se trata exatamente de princípios, pois em tal caso a indiferença é oposição.

___________________

Pe. Luis Cláudio Fillion, Nuestro Beiior Jesucristo según los evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 158-9.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/61709245-C09F-3428-
CE4603B7D7D23CA7/mes/Junho1995

Que fostes ver? Mais do que um Profeta


Comentários do Pe Luís Cláudio Fillion

Tendo partido os discípulos de João, o Senhor faz um elogio magnífico do mestre deles. A multidão que havia
presenciado a cena, mas ignorava os motivos ocultos da questão proposta em nome do Precursor, tinha talvez
conservado disto uma impressão desfavorável, e considerado João como um homem volúvel e movediço. A
homenagem pública que a ele presta Cristo desvanece todas as suspeitas. A história do Batista está resumida toda
inteira no panegírico feito por Jesus, agradável tanto por seu tom vivo, rítmico, como pela elevação de seus
pensamentos. Que saístes para ver no deserto? Alguma cana que se move com qualquer vento? Mas o que saístes
para ver? Um homem vestido com vestes delicadas? Sabeis que os que se vestem com roupas delicadas estão nos
palácios dos reis. Enfim, o que saístes para ver? Algum profeta? Sim, eu vos digo, e mais que profeta. Pois é ele de
quem está escrito: Eis que eu envio meu anjo a tua frente, o qual irá diante de ti preparando-te

o caminho. Em verdade vos digo que não veio à luz entre os filhos de mulher algum maior do que João Batista, se
bem que o menor no reino dos céus é superior a ele. E desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos
céus se alcança pela viva força; e os que fazem essa força são os que o arrebatam. Porque todos os Profetas e a Lei
até João anunciaram o porvir. E se quereis compreendê-lo, ele mesmo é aquele Elias que devia vir (*).

____________________________

NOTA:

(*) Segundo Malaquias, IV, 5, Elias deve vir à Terra antes do fim do mundo, e os contemporâneos de Jesus supunham
que o Batista poderia ser muito bem esse reformador. Na realidade, o Precursor desempenhava um papel análogo ao
de Elias. Era um Elias místico e figurativo.

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Senor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, Argentina, 1859,
pp. 140 e 141.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/713863C4-C09F-3428-
CE7BC2559C4AE33A/mes/Maio1995

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Deixamos o Precursor em sua prisão de Maqueronte. Ali foram seus discipulos, aos quais se lhes permitia falar com
ele para colocá-lo a par dos milagres incessantes e dos êxitos da pregação de Jesus. Escolhendo então dois deles ,
enviou-os ao Salvador para apresentar-Lhe em seu nome esta questão: "És Tu o que há de vir , ou devemos esperar
outro?" O que há de vir, O que vem: formulas significativas com que designavam o Messias objeto de tais ânsias e
anelo santos, cuja vinda próxima se esperava de um momento para outro. Mas como o Batista, havia tempo, tinha
dado testemunhos tao brilhantes de Jesus, pôde fazer-Lhe hoje a pergunta se realmente é o Cristo. Será que,
provado pelos sofrimentos do cárcere, a dúvida penetrou em seu espírito? Na disso, por que nada mais firme que
esta grande alma, como Jesus vão proclamá-lo aberta e decididamente. Não é, portanto, para si mesmo, mas pelo
bem se seus discípulos, cuja oculta antipatia para com Cristo lhe era muito conhecida, o motivo pelo qual emprega
semelhante habilidade. Esperava que, depois de haver visto e ouvido Jesus, voltariam animados de melhores
disposições.

Chegaram os enviados em momento bem providencial, porque em sua 'presença curou Jesus muitos enfermos e
possessos e concedeu a vista a numerosos cegos. Foi sua a primeira resposta, a do exercício público de seu poder
sobrenatural, ao qual nada era capaz de resistir. Mas acrescentou outra, verbal, curra, decisiva: "Ide contar a João o
que haveis ouvido e visto. Os cegos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres; e bem-
aventurado aquele que nao encontrar em mim ocasião de escândalo". A mensagem de Jesus a João era de tanto
maior força quanto ela está tomada quase ao pé da letra do quadro ideal, traçado séculos antes por Isaias sobre as
obras benfazejas do Messias. Quis por dizer Jesus aos mensageiros: "julgai vós mesmos..." sua última frase: "Feliz o
que não se escandalizar a meus respeito", encerrava uma aviso muito grave aos discípulos de João, que ainda não
criam na missão de Jesus.

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Senor Jesuscristo según los Evangelios. Editorial Difusion, S. A., Tucumán, 1859, pp.
150-151

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/F1E6A130-3048-313C-
2E4E9ABCE8942AE6/mes/Mar%C3%A7o1995

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


"Vinde a mim todos os que andais oprimidos com trabalhos e cargas, que eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós
e recebei minhas lições, porque eu sou manso e humilde de coração; e achareis o repouso para vossas almas. Porque
suave é meu jugo e leve o meu peso".

A pecadora,cuja conversão edificante é o tema do episódio que vamos narrar, estava talvez entre os ouvintes, em
presença dos quais lançou Jesus esse terno chamado. Foi pelo menos a primeira a tirar proveito dele e a realizá-lo
em todo seu significado. Convidado com instância por um fariseu chamado Simão a tomar uma refeição em sua casa,
aceitou-a o Salvador. Não buscava Jesus ocasiões deste tipo, mas tampouco as recusa, porque nelas conseguia
realizar, tão bem como em outras, a obra de seu Pai celestial. Havendo, pois, entrado na casa de Simão, se pôs à
mesa. Para entender melhor a cena que se vai seguir, será bom recordar qual era então a atitude e a postura que
tomavam os convidados. "Era uma posição intermediária entre o estar deitado e sentado. As pernas e a parte
superior do corpo dispunha-se um tanto levantada e sustentada sobre o cotovelo esquerdo, que descansava e se
apoiava em uma almofada. O braço e a mão direita ficavam assim livres para poder estender-se e tomar o alimento"
(A. Rich, Dictionnaire des antiquités romaines et grecques, p. 6). A mesa junto dos convidados se colocava no centro
do hemiciclo formado pelos divãs ou sofás. Cada um, pois, estava com os pés para fora, e do lado do espaço
reservado aos que serviam.

De repente, uma mulher, bem conhecida na cidade por seus pecados, entrou na sala do banquete com um vaso
alabastro cheio de precioso perfume. Os costumes ou usos austeros do Ocidente fazem-nos julgar estranho, à
primeira vista, urna atitude cheia de liberdade; mas está muito de acordo com os usos mais familiares do Oriente. A
pecadora reconheceu por isto o lugar do Salvador. E, colocando-se atrás dele, se pôs a lavar seus pés com suas
lágrimas e a enxugá-los com seus cabelos; logo os beijou e os ungiu com o perfume. Não proferiu uma só palavra;
mas, que eloqüência em todo seu proceder e como, mediante estes atos, demonstrava seu respeito, seu
arrependimento, sua fé, além de sua piedosa devoção e afeto! -

O fariseu Simão, longe de compreender tal cena, que havia arrebatado os próprios anjos do Céu, foi dominado pelo
contrário, por muita estranheza. E disse de si para consigo: Se tal homem fosse profeta, teria conhecido em verdade
que classe de mulher é esta que o tocou, porque é na realidade uma pecadora. E precisamente porque conheceu
Jesus os pensamentos mais íntimos de seu anfitrião e hóspede, vai convencê-lo –– com uma admoestação cheia de
bondade –– que é, em verdade, um profeta. Jesus, voltando-se então para a mulher, a quem ainda não havia dirigido
uma palavra, contentou-se em dizer-lhe com gravidade: 'Teus pecados te são perdoados'. A estas palavras, como em
circunstâncias anteriores, novo escândalo para os convidados: Quem é este que até perdoa pecados? O que
equivalia a acusá-Lo novamente de blasfêmia. Sem perturbar-se com protestos tão injustos, Jesus disse à Mulher
uma segunda frase para despedi-la docemente: "Tua fé te salvou; vai em paz". Sua fé, junto com sua caridade e a
misericórdia divina, havia produzido esta obra de regeneração.

_________________________________________________

Pe. Cláudio Luís Fillion, Nuestro Senor Jesuscristo según los Evangelios, Editora Difusion, S.A., Tucumán, 1959, pp.
154-156.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/B08DA2EB-3048-313C-
2EFF7CA038849350/mes/Fevereiro1995

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Este episódio situada uma jornada de Cafarnaúm. Este nome, que significa em hebreu "A Bela", está perfeitamente
justificado por sua linda posição. Localiza-se na vertente setentrional do Pequeno-Hermon, e da altura saliente que
lhe serve como que de trono, contempla aos seus pés a vasta e fértil planície de Esdrelon; diante dela, as colinas
povoadas de árvores da Baixa Galiléia, sobre a qual dominam os picos nevados do Líbano e do Grande-Hermon. A
perspectiva hoje é a mesma; mas de Naím não resta mais que um vilarejo miserável.

Jesus ia acompanhado não só de seus discípulos, mas de inumerável povo que não se fartava de vê-Lo e ouvi-lo. No
ponto em que ultrapassava com seu séqüito a porta da cidade, outro cortejo fúnebre a atravessava em sentido
contrário. Era levado ao cemitério, situado, segundo o costume, a certa distância das casas da cidade, um jovem,
morto' na flor da idade, filho único que deixava uma mãe viúva, sem apoio, sem esperança, sem consolo. Por
simpatia a uma dor tão digna de compaixão e tão pungente, havia assistido aos funerais grande número de
moradores da aldeia. Muito perto de Naím, onde sem dúvida estava então o campo dos mortos, vêem-se ainda
muitos sepulcros abertos na pedra; encontram-se ao leste, junto à rampa ou declive escarpado pela qual chegava o
Salvador.

À vista da mãe angustiada que conduzia seu filho ao cemitério, o coração de Jesus sentiu-se comovido por uma
profunda compaixão. Quando chegou a passar a viúva perto d’Ele, disse-lhe: "Não chores"; e aproximando-se em
seguida, tocou o féretro aberto no qual o cadáver coberto com um lenço e o sudário era conduzido ao cemitério. Os
que o levavam, sensibilizados pela majestade que brilhava no rosto de Jesus, se detiveram. Então o Divino Mestre,
em meio ao silêncio e à atenção de todos, exclamou com acento de autoridade irresistível: "Jovem, eu te ordeno,
levanta-te". No mesmo instante, o defunto recobrou a vida e começou a falar. Há algo, segundo se disse, um não sei
quê de "inefavelmente doce" no traço final: "E Jesus o entregou à sua mãe".

A sensação produzida por esse prodígio foi imensa. Os mais imediatos ao fato foram tomados primeiro de estupor e
temor respeitoso; mas logo sucedeu a esse um sentimento mais nobre que se apoderou de todos, com um profundo
reconhecimento para com Deus.

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 147-148.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/EE089FC2-3048-313C-
2E31ED527BCC7E98/mes/Janeiro1995

Comentários do Pe. Cláudio Fillion


"Concluída toda sua prática ao povo que o ouvia, entrou em Cafarnaum". Tal é a ligação que São Lucas estabelece
entre o discurso da Montanha e o estupendo milagre que narra de acordo com São Mateus.

Na cidade residia um centurião romano a serviço do tetrarca Herodes Antipas; porque este príncipe havia
reorganizado, segundo o sistema de Roma, seu pequeno exército, composto em sua maioria por soldados
estrangeiros. Embora pagão, este oficial tinha uma alma nobre e generosa. Sua permanência na Palestina lhe havia
permitido estudar de perto o judaísmo, para o qual começou a sentir grande atração. Havia ouvido falar de Jesus e
seus milagres, tendo-O em grande consideração. Achando-se um servo seu, a quem queria muito, em perigo de
morte, enviou ao Salvador vários notáveis da cidade para rogar-lhe, em seu nome, que viesse curar o enfermo.
Esquecendo Suas preocupações judaicas, os delegados advogaram com ardor a causa do centurião. “Merece,
disseram, que lhe faças este favor, porque é simpático à nossa nação e nos edificou uma sinagoga”.

Como pagão, era isto um ato extraordinário de benevolência e generosidade. "Eu irei e o curarei", respondeu
amavelmente o Salvador, e se dirigiu com os notáveis à morada do centurião. Mas, avisado de que Jesus estava
perto, apressou-se a enviar uma segunda embaixada, que se compunha de muitos de seus amigos pessoais, com o
encargo de dizer ao Taumaturgo: "Senhor não tomes sobre ti esta moléstia, pois não mereço que tu entres dentro
de minha casa, mas dize uma só palavra e o meu servo será curado". Linguagem admirável de fé e humildade, que
mereceu, por parte da Igreja, aproveitá-la nas orações litúrgicas que o sacerdote pronuncia antes da Sagrada
Comunhão. A estas formosas e ternas palavras acrescentou o centurião um arrazoado ou reflexão militar, extraído
dos feitos quotidianos de que ele era ao mesmo tempo ator e testemunha. "Porque eu, que tenho sobre mim outros
chefes, tenho soldados sob minhas ordens; e digo a um: Vai, e ele vai, e a outro: Vem, e ele vem. E a meu servo: Faze
isto, e ele o faz".

Igualmente Jesus não precisaria senão proferir uma palavra, um querer, para que o moribundo ficasse curado. Ao
ouvir tais palavras, o Salvador não pode conter sua admiração, embora,. segundo muito justa observação, não se
admirar de nada ê uma regra da perfeição divina. Mas era ao mesmo tempo tanto homem, quanto Deus,
experimentando sua alma uma impressão como de assombro.

O centurião merecia um elogio público. "Em verdade vos digo, exclamou o Salvador, voltando-se para a multidão
que O rodeava, que nem mesmo em Israel encontrei fé tão grande”.

Depois do elogio de fé tão insigne, veio a recompensa, que consistiu na cura imediata do enfermo.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/7E54C211-3048-313C-
2E4EB8A80D3D8304/mes/Novembro1994

Comentários do Pe. Luís Cláudio Fillion


Não esteve Jesus muito tempo no monte só com seus Apóstolos e discípulos. As multidões que o buscavam sem
cessar e que pelo visto sabiam muito bem descobrir seus retiros, acorriam também a estes e, em presença de um
auditório e multidão considerável, pronunciou aquele discurso grande e majestoso que pelo lugar que serviu de
teatro, tem sido chamado o Sermão da Montanha. Seria agradável à nossa piedade o saber com exatidão de que
monte se trata. Parece ser certo que não estava muito longe da margem ocidental do mar de Genesaré. No bloco
montanhoso tão variado e pitoresco que sai perpendicular desta margem, quase em frente de Tiberíades se
contempla cabalmente uma altura de formas originais que os árabes chamam Kurun-Hattin, "os Cornos de Hattin".
São vários os autores segundo os quais este lugar foi a testemunha da eleição dos Apóstolos e do grande discurso de
Jesus.

Diante desta natureza grandiosa, mas agradável, que contrasta singularmente com as rochas nuas e incultas do Sinai,
onde foi proclamada a Antiga Lei, vai se nos apresentar Jesus com os caracteres de verdadeiro Rei, Messias e Legisla-
. dor da Nova Aliança. Pois o Sermão da Montanha contém, segundo observa Santo Agostinho, um admirável resumo
da doutrina cristã e uma síntese de todo o Evangelho. Quando por este tempo de sua vida havia já excitado a
expectativa nos espíritos e nos corações, depois de haver falado em termos misteriosos do reino que iria fundar,
convinha que o Divino Mestre explicasse com linguagem clara e popular em que consistia o reino dos céus, e quais
eram os deveres de todos os que desejavam chegar a ser membros seus.

Sentou-se Jesus, diz o texto sagrado, e seus discípulos mais íntimos se aproximaram dEle; a multidão se reuniu
apinhada em seu redor. Então, acrescenta solenemente São Mateus, "abrindo sua boca, lhes ensinava". Por seu lado
São Lucas nos informa que o orador divino abraçou com o olhar os seus discípulos, levantando seus olhos para eles
que deviam mais tarde repetir ao mundo inteiro suas palavras memoráveis.

As oito bem-aventuranças, tão célebres na Nova Aliança, como foi o Decálogo na Antiga, serviram de exórdio digno a
seu discurso. Assinalam as qualidades morais cuja posse se exige rigorosamente a quantos aspiram ao reino dos
céus. Em forma, a mais suave, reclama o exercício das virtudes mais sublimes.

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Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Senor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 135-136.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/9ED963D2-3048-313C-
2EB20825FAA5596A/mes/Outubro1994

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


A eleição dos doze Apóstolos e o Sermão da Montanha podem ser considerados como os primeiros passos decisivos
que Jesus empreendeu para fundar sua Igreja. Com o primeiro escolhia auxiliares e preparava sucessores oficiais,
com o segundo promulgava o que se tem chamado justamente a Constituição do reino dos Céus.

Pouco depois de curar o homem com a mão atrofiada, o Salvador, como escreve solenemente São Lucas, "subiu ao
monte para rezar, e passou a noite rezando a Deus". Havia levado consigo alguns discípulos. Que pediu em tão
prolongada oração? O que segue na narração indica-o claramente. Pensava escolher seus apóstolos: conjura, pois,
com instâncias a seu Pai celestial p...ara abençoar os futuros escolhidos, a fim de que fossem dignos de vocação tão
sublime.

Ao amanhecer, chamou a si os discípulos escolhendo doze entre eles. "Aos quais Ele mesmo quis", acrescenta São
Marcos. Deu-lhes o nome de apóstolos, ou seja, enviados. Deviam permanecer sempre perto d'Ele para receber as
instruções e formar-se com o seu exemplo; de quando em quando os enviará para pregar, como prelúdio de tão
grave e difícil ministério, que será o de toda sua vida.

Doze apóstolos, como houve doze tribos em Israel, com um tríplice par de irmãos: escolhidos todos e tirados, não
das classes superiores da nação judia, mas das do povo, e em geral, das que vivem do trabalho de suas mãos. Todos
mais ou menos ignorantes e sem instrução, mas inteligentes e bons; de alma imperfeita ainda, mas cândida e
simples: "Mármore-virgem", tem-se dito, que Jesus poderá modelar a seu gosto. Muitos deles tinham dois nomes,
ou melhor, o nome próprio e o sobrenome: como Simão Pedro, Tiago e João, aos quais chamou o Salvador de "filhos
do trovão" por sua eloqüência e caráter ardente; Mateus, chamado antes Levi, Bartolomeu, que parece não ser
outro que Natanael; São Judas, que tinha três nomes, pois era chamado também Lebbeu e Tadeu.

A lista que se abre sempre, nas quatro passagens que a mencionam os escritores sacros, por Simão Pedro, o futuro
Vigário de Jesus Cristo e Chefe indiscutível do Colégio apostólico, acaba também sempre por um nome odioso,
seguido de uma nota infamante: "Judas Iscariotes, o traidor". A vocação deste traidor é certamente um mistério
profundo; mas Judas encontra-se entre os Apóstolos como a serpente no paraíso terrestre; como Caim no seio da
primeira família humana; como Cam na Arca, como o mal sempre e em todas as partes com o bem. Além do mais,
ele recebeu com abundância, como os outros Apóstolos, as graças e as bênçãos divinas e conservou sempre sua
liberdade inteira e plenamente para subtrair-se ao mal. Além disso, em várias ocasiões procurou Jesus fazê-lo voltar
ao grêmio do bom caminho, mas chamou em vão na porta deste coração empedernido.

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Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 134-135.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/1A437687-3048-313C-
2E39B739BB8C36AF/mes/Setembro1994

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Também no dia do sábado, entrou Jesus, como tinha o costume de fazê-lo, em uma sinagoga de lugar que não
conhecemos. Ali viu um homem que tinha a mão direita atrofiada por uma paralisia local. A ocasião era excelente
para os fariseus e escribas da região. Esperavam eles que [Jesus] curaria este enfermo sem preocupar-se com o
descanso sagrado, para então recriminá-Lo e censurá-Lo no ato. E ainda quiseram tomar-Lhe a dianteira, propondo-
Lhe esta questão: "É lícito curar nos dias de sábado?" Jesus descobriu essa astúcia deles com sagacidade divina, e
disse ao homem: "Levanta-te e põe-te de pé no meio". O enfermo obedeceu, e pode-se vislumbrar com que emoção
e esperança. Respondendo então à pergunta de seus inimigos com outra contrária, método familiar n’Ele, ao que
parece o Salvador lhes perguntou, por sua vez: "É lícito em dia de sábado fazer bem ou mal, salvar a vida ou tirá-la?"
A resposta era fácil; mas os fariseus tomaram o cuidado de não dá-la, porque ter-se-iam condenado a si mesmos.
Preferiram, pois, outra vez guardar um silêncio humilhante. E para confundir mais e mais seus rivais hipócritas, Jesus
lhes disse: "Que homem haverá entre vós que tenha uma ovelha, e se esta cai em algum fosso em dia de sábado,
não a levanta e tira fora? Mas, quanto mais vale um homem que uma ovelha! Logo é lícito praticar o bem em dia de
sábado: Passeando logo seus olhares sobre. eles, com sinais de indignação e de tristeza – de indignação pela malícia,
e de pena pela cegueira de seus corações – disse ao enfermo: “Estende essa mão”. E ele a estendeu. Ela havia ficado
sã de repente, como a outra. Coléricos e furiosos ao verem-se caçados em sua própria armadilha, saíram da sinagoga
os fariseus, e logo reuniram-se em conselho com os herodianos do lugar, a fim de encontrar juntos uma solução para
este horrível desígnio: que tramas urdiriam contra Jesus para prendê-Lo? Desde então, pois, foi decretada sua
morte; mas, como o veremos nesta história, o modo de executá-la seguirá até o fim, sendo urna empresa muito
difícil.

O Salvador conhecia esse projeto sanguinário, que não alterava a paz de sua alma. Mas,

conforme a seu princípio de não exasperar seus inimigos, até que sua "hora" , a hora do sacrifício, tivesse chegado,
retirou-se com seus discípulos a um lugar recolhido dos que abundavam nas margens do mar de Tiberíades

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Pe. Luis Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 132-133

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/8AC42B84-3048-313C-
2E0967A390AA5851/mes/Agosto1994

Comentários do Padre Luis Cláudio Filllion


Por razão de solenidade religiosa, cujo nome não se indica, assemelhada às vezes com a da Páscoa, e outras com a
de Purim, ou das Sortes, Jesus subiu de novo a Jerusalém onde realizou um grande milagre na piscina de Betsaida.
Situada esta piscina não longe da porta que chamam das Ovelhas, a nordeste da cidade e do templo, estava rodeada
de cinco pórticos ou galerias cobertas, dentro das quais jazia .grande número de enfermos, que "esperavam o
movimento da água" . Pois que, com efeito, continua o texto sagrado, "um anjo do Senhor descia de tempos em
tempos na piscina e a água se agitava. E o primeiro que depois de movimentada a água entrava na piscina, ficava
curado de qualquer enfermidade que tivesse" .

Entre todos os enfermos que se apertavam perto da piscina, havia um paralítico digno de um interesse especial,
porque sua doença durava já trinta e oito anos. Jesus, cuja compaixão o atraiu a este conjunto e repositório de
misérias, acercou-se do infeliz, perguntando-lhe para excitar sua fé e esperança:
"Queres curar-te? Respondeu com pena: Senhor, não tenho uma pessoa que me lance na piscina, logo que a água
toma-se agitada; porque, enquanto eu vou, outro baixa antes". Todo o mais fundo de sua amargura e angústia
aparece nestas poucas palavras; era-lhe impossível utilizar da virtude milagrosa da piscina. Mas outra virtude mais
divina ainda vai pôr termo a seu longo infortúnio. Jesus disse-lhe com tom de autoridade: "Levanta-te, toma teu leito
e anda" . De repente, ficou curado o paralítico, tomou nos ombros seu leito e retirou-se dali.

Pe. Luís Cláudio Fillíon, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 129-130.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/F86E20BA-3048-313C-
2ED50D2A5344D085/mes/Julho1994

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Depois deste grande milagre (a cura do paralítico de Cafarnaum) dirigiu-se Jesus para a margem do lago. Ali também
se aglomerou a multidão de novo, e depois de distribuir-lhe o pão da divina palavra, prosseguiu seu passeio pela
margem. Vendo então sentado em seu escritório de cobrador de impostos o publicano Levi, filho de Alfeu, mais
conhecido no Evangelho com o nome de Mateus, lhe disse: Segue-me, chamando-o assim para ser seu discípulo. Não
era a primeira vez que se conheciam; a obediência, pois, imediata e generosa de Levi se explica por si mesma. E
ainda que sua conversão tivesse sido obra de um só instante, o fato psicológico estaria de acordo perfeito com o
poder admirável de atração que Jesus exercia nos corações.

Pouco depois, este publicano, chamado à dignidade de Apóstolo e evangelista, deu em honra de seu novo mestre
um banquete solene ao qual convidou seus antigos colegas e amigos. Ocasião esta que foi bem oportuna para
manifestarem os fariseus sua animosidade contra Jesus. Sem ousar dirigir-se a Ele em pessoa, os fariseus, castigados
por suas respostas arrasadoras, perguntaram aos discípulos que estavam presentes ao banquete: 'Por que vosso
mestre come e bebe com publicanos e pecadores?'Entre os judeus de então, publicanos e pecadores eram
sinônimos. O Salvador, que havia ouvido a pergunta insidiosa e pérfida de seus adversários, se encarregou de
responder-lhes por si mesmo. 'Não são os que estão bem de saúde, e sim os enfermos os que necessitam de
médico'. Ide e meditai o que significa esta palavra: Quero a misericórdia e não o sacrifício. 'Pois não vim chamar os
justos e sim os pecadores'"

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Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Senõr Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 125-126.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/4BD4019E-3048-313C-
2E2856ED5D6BC812/mes/Junho1994

Comentário do Padre Luís Cláudio Fillion


Depois da grande pregação da Galiléia voltou Jesus a Cafarnaum. A notícia de sua volta se espalhou por toda a
cidade e a sua residência talvez a de Simão Pedro - foi invadida por uma multidão de tal modo considerável, que os
umbrais e acessos mesmos da porta de entrada regurgitavam de gente e estavam de todo em todo obstruídos. Seu
zelo aproveitou tão excelente ocasião para fazer ouvir a boa nova. Entre os ouvintes se notavam na primeira fila,
sentados no -interior da casa, fariseus e doutores da lei, chagados de todas as aldeias da Galiléia e da Judéia e
mesmo de Jerusalém, com a intenção expressa de fiscalizar seus atos e espionar sua doutrina.

Jesus foi interrompido subitamente por um caso extraordinário. Quatro homens que levavam um paralítico
estendido em seu leito se apresentaram à entrada da casa. Vendo que lhes seria impossível penetrar nela com o
doente, atravessando as filas apertadas de gente, subiram pela escada exterior que costumam ter as casas na
Palestina. Estando no terraço abriram o teto, levantando as telhas, argila e ramos de que estava formado. E logo, por
meio de cordas foram baixando e dependurando pelo espaço aberto o leito e o enfermo, colocando-o no meio da
assembléia frente a Jesus. Só a incredulidade descontentava a Jesus; a fé suplicante não deixou jamais seu coração
insensível e a que se manifestava então não era menos profunda do que comovedora. Assim, sem deixar ao enfermo
tempo para expor seu desejo, lhe disse com placidez inefável:

"Confia meu filho, teus pecados te são perdoados". Resulta com evidência do emprego desta fórmula que, no caso
atual, a enfermidade era conseqüência e castigo de uma vida culpável. Jesus, pois, combateu primeiro a causa do
mal antes de livrá-lo dele. (Jesus interroga os fariseus e escribas que se escandalizavam e) os fariseus não souberam
o que responder à pergunta do Salvador, que portanto prosseguiu: Pois, para que saibais que o Filho do homem tem
poder na terra de perdoar pecados, (disse ao paralítico): levanta-te, eu te ordeno, carrega teu leito e vai para tua
casa. A cura foi instantânea. As testemunhas deste prodígio se encheram de assombro e glorificavam ao Senhor,
dizendo: "Hoje vimos coisas maravilhosas".

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Pe. Luís Cláudio Fíllíon, Nuestro Senõr Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusíón, Tucumán, 1859, pp. 124-125.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/08E1BBFC-3048-313C-
2E382E12C9BE0DBF/mes/Maio1994

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Uma destas curas maravilhosas (operadas por Jesus na Galiléia) pareceu especialmente ressoante, porque sem
dúvida era a primeira do gênero que Jesus fazia. Em uma aldeia que não é nomeada, aproximou-se de Jesus um
homem coberto de lepra, o qual, prostrado a seus pés, Lhe disse: "Senhor, se tu queres, podes limpar-me". Purificar
era o termo usado entre os judeus para designar a cura desta enfermidade hedionda e terrível, que foi sempre um
dos mais tristes açoites e pragas da Síria e Egito. A partir da pele, a primeira a ser invadida, penetra pouco a pouco
no interior do organismo, tomando na carne viva o sistema nervoso, os músculos, os tendões e os ossos, os quais
morde, corrói e decompõe em parte, no meio de espantosos sofrimentos. Como contagiosa é a moléstia, transforma
suas vítimas em párias ou isolados, a quem se proíbe morar com as pessoas, não lhes restando o mais das vezes
outro recurso senão mendigar.

Jesus teve compaixão do desventurado que com Fé tão viva Lhe pedia. Estendendo a mão o tocou e lhe disse,
empregando as mesmas palavras do infeliz le,proso: Quero, sê limpo, e num instante desapareceu a lepra. E
acrescentou Jesus: Cuida de não contá-Io a ninguém, mas vai e apresenta-te ao sacerdote e leva a oferta por tua
cura, segundo o ordenado por Moisés, a fun de que lhes sirva de testemunho. Nesta época de efervescência popular
por sua pregação e seus milagres, Jesus fazia quanto estava em seu poder para evitar tudo o que pudesse aparecer
ou ter aspecto de agitação política popular. Quanto ao segundo aviso, estava muito conforme à lei judaica, que
reservava aos sacerdotes a constatação ou comprovação autêntica e oficial da cura da lepra. Os leprosos, uma vez
declarados limpos, iam ao templo oferecer um sacrifício de ação de graças, que atestava em público a cessação de
sua impunidade legal.

Apesar da ordem formal dada por Jesus e reiterada em tom tão severo, o leproso começou imediatamente a
publicar em todas as partes o milagre de que havia sido objeto. Sua indiscrição produziu um resultado dos mais
desagradáveis para o Salvador, que não podia entrar nas cidades abertamente sem suscitar manifestações que
prejudicavam gravemente sua ação. Assim, viu-se obrigado a retirar-se a lugares solitários e viver algum tempo longe
dos homens, mesmo contra seus desígnios de aposto lado. Nem assim conseguiu sempre ficar oculto: tão hábil era o
zelo das multidões para descobri-lo, devido ao afeto que lhes havia granjeado.

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Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Seiíor Jesucristo según los Evange/ios, Editorial Difusión. S. A., Tucumán. 1859, pp.
123124.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/B7E74850-3048-313C-
2E00444484642BCC/mes/Mar%C3%A7o1994

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Saindo da Sinagoga, retirou-se Jesus à casa de Simão Pedro com quatro de seus discípulos. Pedro estava casado e
sua sogra sofria um violento ataque de febre que lhe fazia ficar na cama. Esta enfermidade é bastante comum nas
costas do mar de Tiberíades, onde sempre faz muitas vítimas. Os discípulos informaram disso a Jesus que, se
aproximando da enferma, com bondade lhe tomou a mão e a levantou suavemente. Ao divino contato, desapareceu
a febre num instante e a cura foi tão completa que ela pôde servir à mesa aos seus hóspedes.
Este novo milagre foi ocasião, pela tarde, de outros muitos. Depois do pôr-do-sol, quando o descanso do Salvador
terminou, levaram a Ele grande quantidade de enfermos e possessos de Cafarnaum. Toda a cidade, em breve,
reuniu-se ante a casa de Simão. Cheio de compaixão como de poder, Jesus impôs as mãos sobre cada enfermo e
curou-os a todos. Ao mesmo tempo, saíam os demônios de todos os possessos da cidade, gritando: "Tu és o Filho de
Deus", ou seja, o Messias. Mas, como na Sinagoga, o Divino Mestre lhes impôs rigoroso silêncio.

Mal terminaram a noite do sábado para o domingo, Jesus estava já de pé e saía silencioso, sem avisar ninguém. Seu
objetivo era certamente fugir das ovações dos habitantes, superexcitados pelos milagres da véspera. Perto do lago
costuma haver lugares retirados. Entrou em um destes e, seguindo o costume tanto de seu gosto e têmpera divina,
se entregou à oração. Quem poderá declarar o íntimo da união, o êxtase das relações que então tinha com seu Pai
celestial? Mas seus discípulos notaram a saída de Jesus e muito intranqüilos e cheios de empenho se puseram a
procurá-lo sob a direção de Pedro. Quando O encontraram disseram-Lhe: "Todos andam em vossa procura". Desde o
alvorecer, as multidões haviam acorrido outra vez para alcançar de Jesus outros novos favores. Mas o Filho de Deus
não se havia encarnado para reservar suas bênçãos a uma região privilegiada. Por isto, respondeu recordando-lhes
que outras muitas comarcas tinham direito à sua pregação: "Vamos às aldeias e cidades vizinhas, porque é
necessário que também lhes anuncie a boa nova do reino de Deus, pois para isto fui enviado". Pôs-se, portanto, a
percorrer toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho e curando toda doença e toda
enfermidade do povo.

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, S.A., Tucumán, 1859, pp.
122-3.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/57DB0601-3048-313C-
2EF1F2B7ACD4927B/mes/Fevereiro1994

Comentário do Padre Luís Cláudio Fillion


Pouco depois de instalar-se em Cafarnaúm, indo certo dia pela costa do mar ou lago, rodeou-o subitamente muita
gente, desejosa desde suas primeiras profecias, de escutá-Lo mais ainda. Havia duas barcas amarradas perto da
margem e com elas os pescadores, a quem pertenciam, lavando e limpando as redes, segundo o costume, depois da
pesca. Eram numa palavra os primeiros discípulos do Salvador: Simão Pedro e André, Tiago e João. Apertado pela
turba crescente, que se arremessava contra Ele, entrou Jesus na barca de Pedro, pedindo-lhe que a afastasse um
pouco da praia; logo se sentou, e a partir daquela cátedra improvisada e embalada suavemente pelas ondas,
ensinava a seus ouvintes entusiasmados.

Quando acabou de falar, disse a Simão: Leva-a para dentro e lançai as redes para pescar. A primeira parte dessa
frase dizia-a Jesus ao dono da barca, e a segunda a toda a equipagem dela. Respondeu Simão com todo o respeito:
Senhor, nós temos trabalhado toda a noite sem conseguir nada, mas agora, sob vossa palavra lançarei a rede. A
noite tem sido sempre olhada como o tempo mais propício para a pesca, disse Pedro, indicando com isto que outra
tentativa em pleno dia pouca probabilidade oferecia de resultado. Mas a palavra de Jesus foi para ele uma ordem
que obedeceu sem dilação. Lançou a rede, a qual, segundo conhecimento de Cristo em sua ciência divina, caiu em
um dos bancos de peixes que costuma haver nos mares, particularmente no de Galiléia. E em um instante ficou a
rede tão repleta que já começavam a romper-se suas malhas. Pedro e André faziam sinais vivamente a Tiago e a
João, que estavam na outra barca, para que viessem em sua ajuda. A pesca foi tão abundante que as duas
embarcações se encheram logo de peixes de maneira que por seu grande peso se afundavam. Ao ver isto Simão caiu
de joelhos aos pés de Jesus, dizendo: Afastai-vos de mim, Senhor, que sou um homem pecador. Falou assim sob a
impressão do assombro religioso que este milagre lhe produziu e da santidade perfeita que se manifestava no
Taumaturgo. Mas, serenando-o com aquele amável "Não temas", acrescentou o Salvador: "A partir de agora serás
pescador de homens". Segui-me, Eu vos farei pescadores de homens", disse também aos demais –– André, Tiago e
João falando-lhes à maneira oriental. Profunda expressão que lhes prometia uma dignidade sublime. Quando
trouxeram suas barcas à terra, deixando tudo com generosidade extrema, seguiram a Cristo aderindo
definitivamente ao Mestre, que desde muito tempo era senhor de seus corações.

_______________________

Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios. Ed. Difusión, Tucuman, 1859. pp. 119-120.
http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/DDAFE389-3048-313C-
2E2F4DF07A60359B/mes/Janeiro1994

Comentário do Padre Luís Cláudio Fillion


De repente, chegou perto do poço, com um cântaro sobre a cabeça e outro no ombro, uma mulher ainda jovem, que
aí veio fazer sua provisão de água. Depois que, com uma longa corda deslizada pela beira, havia enchido sua ânfora,
disse-lhe Jesus:

"Dá-me de beber". Estava com sede; mas este divino pedagogo, que começava pelos assuntos mais banais, sabendo
muito bem levar seus interlocutores às esferas mais elevadas do mundo sobrenatural, tinha especialmente sede
desta alma culpada, que Ele esperava. A mulher respondeu maravilhada:

"Como tu, sendo judeu, pedes de beber a mim que sou samaritana?" Com efeito, como muito bem faz notar o
Evangelista, entre os judeus e samaritanos havia grande inimizade, motivo pelo qual evitavam qualquer
relacionamento pessoal quando não chegavam a manifestações violentas de ódio.

"Senhor - disse a samaritana - vejo que és um profeta" E, considerando-O como tal, propôs-lhe imediatamente -
habilidade sua, como têm pensado alguns, para sair da situação incômoda? uma dificuldade de ordem religiosa, cuja
solução desejava: "Nossos pais adoravam neste monte, e tu dizes que em Jerusalém está o lugar onde se deve
adorar". Ao dizer "este monte" indicava com o dedo a Garizim, que se levanta na planície, a Oeste, como um gigante,
e em cujo pico haviam construído os antigos samaritanos, cerca de trezentos anos antes da era cristã, um templo,
cujas ruínas são ainda visíveis. Seus descendentes colocavam-se em direção a ele para orar, e uma vez por ano
sacrificavam sobre o mesmo o cordeiro pascoaL

Abrindo um horizonte grandioso sobre o futuro, Jesus acena para o culto no Novo Testamento.

Esta hora bendita, em que todo particularismo religioso deveria cessar, tanto a religião judaica como a samaritana
deveriam fenecer, era a época do Messias. Porém, enquanto aguardavam, os judeus estavam com a razão, porque
constituíam realmente o povo de Deus, e o templo de Jerusalém era o único reconhecido e aprovado pelo Senhor.
No que se refere ao culto em espírito e verdade, que havia de substituir todos os outros, consiste ele na adoração
interior que se pode oferecer a Deus em qualquer lugar, independendo de templo e altar; consiste além disso, em
lugar da imagem e figura dos sacrifícios da Antiga Lei, na santa e única Vítima do Calvário. "Não que tenha sido
proscrito o culto exterior, como justamente se escreveu: haverá sempre templos materiais, cerimônias, sacerdócio;
porém, tudo isto existirá para estimular esta adoração em espírito, que é o fundamento da vida religiosa" .

Nuestro Senor Jesucristo según los Evangelios. Ed. Difusión. Buenos Aires.1917.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/D6113940-3048-313C-
2E529985D6519295/mes/Outubro1993

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Ao deixar Jerusalém, veio Jesus com seus discípulos a uma parte da Judéia, cujo nome desconhecemos, e aí fixou sua
residência, provavelmente por muitos meses.

Talvez por estar esse lugar situado às margens do Jordão, os. discípulos de Cristo puseram-se a batizar. E pouco
provável que esse batismo fosse o de água e de fogo, o sacramen to regenerador que parece ter Cristo instituído
bem mais tarde.

Era, pois. uma simples imitação do rito praticado por João Batista.

Por esse tempo estava João em Enon, perto de Salim, lugares que não foram identificados com exatidão.(1)

Havia ali água em abundância, de maneira que se podia administrar facilmente o batismo de imersão.

Por algum tempo desempenharam sua bela missão conjuntamente. a pouca distância um do outro, semelhante um
ao crepúsculo da tarde. e o outro a uma aurora radiante.
Certo dia, porém, alguns discípulos de João vieram ter a ele e disseram-lhe com pesar: "Mestre, o que estava
convosco do outro lado do Jordão e do qual havíeis dado testemunho, se pôs a batizar e todos vão à procura dele". A
denúncia era em parte inexata pois o Evangelista acrescenta. de modo taxativo [alguns versículos adiante] que Jesus
pessoalmente não batizava.(2) Ademais, a expressão significativa "todos vão à procura dele" era na verdade um
exagero desses discípulos, muito devotos do Precursor. zelosos de sua glória, e desgostosos de ver surgir
subitamente um rival a seu lado.

Quão pouco o conheciam! A resposta de João, análoga à que havia dado pouco antes aos enviados do Sinédrio, foi
digna de seu nobre caráter. Em breve paralelo estabelecido entre ele e Cristo, lembra primeiramente a grande
inferioridade de sua própria missão.

Admiremos as palavras de profunda humildade proferidas pelo Precursor e, com elas, a metáfora expressiva com
que João põe em relevo a superioridade do Messias. Jesus é o esposo místico cujas bodas vem celebrar. João é
somente o amigo do esposo, o paraninfo, o condutor, cujo papel ou cargo é secundário ou transitório, e não pensa
em mais nada a não ser na felicidade de seu amigo. Toda essa passagem é de uma beleza sem par.

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1. Nota do autor: É possível que os aludidos locais devam ser procurados nas cercanias de Bethsam e Scithépolis, no
vale do Jordão, ao sul do mar de Tiberíades.

2. N. da R: Embora o Evangelista afirme, no versículo 22 do capítulo IIl, que Jesus "aí habitava com eles [os
discípulos], e batizava", no versículo 2 do capítulo IV o autor Sagrado faz uma precisão em sua asserção anterior:
"todavia não era o próprio Jesus que batizava, mas os seus discípulos".

_________________________

Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917, excertos das pp. 108 e 109.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/48DF949C-3048-313C-
2E8B982A18F78A11/mes/Julho1993

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Houve, entretanto, um habitante de Jerusalém a quem o Senhor tocou de uma maneira viva e duradoura. Chamava-
se Nicodemos e era respeitado entre as pessoas mais importantes da nação judaica, como membro do Sinédrio.
Além disso, pertencia à seita dos fariseus. Havia-se impressionado muito com os milagres de Jesus, e sem ainda
considerá-Lo o Messias, via n’Ele um homem santo, abençoado particularmente por Deus. Desejoso de conversar
com Ele, veio à sua procura, mas temendo comprometer-se com isto, escolheu a noite para o encontro. Jesus, que
sabia quão ardoroso discípulo chegaria a ser um dia Nicodemos, e com que valor haveria de pagar e saldar este
respeito humano, acolheu-o com grande bondade.

"Mestre, disse-lhe respeitosamente o visitante, todos nós sabemos que és enviado de Deus como doutor; pois
ninguém pode operar os milagres que tu fazes e não ter a Deus consigo". Em sua resposta, expôs Jesus primeiro o
princípio da vida nova que viera trazer à terra: "Em verdade, em verdade te digo, que quem não nascer de novo, não
poderá ver o reino de Deus". Nicodemos, que não havia compreendido, pediu uma explicação. Como pode nascer
um homem sendo velho? Por acaso poderá voltar outra vez ao seio de sua mãe para renascer?" Jesus respondeu
desenvolvendo a idéia do batismo cristão e sua necessidade.

"Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer da água e do Espírito Santo não poderá entrar no reino de
Deus. O que nasceu do espírito, é espírito. Portanto não estranhes que te tenha dito: vos é preciso nascer outra vez.
Pois o Espírito sopra onde quer; e tu ouves seu som, mas não sabes de onde sai, ou para onde vai; o mesmo sucede
com aquele que nasce do Espírito".

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Nuestro Senor Jesucristo según los Evangelios. Ed. Difusión, Buenos Aires. 1917, excertos das pp. 106 e 107.
http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/1538C046-3048-313C-
2E82B8E91F1F4554/mes/Maio1993

Comentário do Padre Luís Cláudio Fillion


Vendedores de reses haviam se estabelecido nos adros sagrados e aí vendiam bois, vacas, carneiros destinados aos
sacrifícios. Outros mercadores e traficantes enchiam, com a mesma finalidade, grandes gaiolas com pombos em
número considerável. Era uma verdadeira feira, tal a afluência de vendedores e compradores. Também estavam ali
sentados às suas mesas, sobre as quais se viam gamelas ou vasilhas com moedas de ouro, prata e cobre de toda
espécie, os cambistas e almoxarifes que, com grande lucro e ganância, trocavam por moedas judaicas as gregas,
romanas e outras, cujas inscrições e emblemas pagãos as tornavam inaceitáveis para o tesouro do Templo.

Cheio de indignação, Jesus, havendo feito de cordas como que um açoite, e brandindo-o contra toda aquela gente,
expulsou do recinto sagrado mercadores e mercadorias, bois e ovelhas. E derrubando as mesas, derramou pelo chão
o dinheiro dos cambistas, e aos que vendiam pombas, disse-lhes: "Tirai isso daqui e não queirais fazer da casa de
meu Pai um lugar de negócio".

Os discípulos, testemunhas desse espetáculo, lembraram-se do belo texto dos Salmos, que logo aplicaram a seu
Mestre: "O zelo de vossa casa devora-me". Mas os chefes religiosos do povo não puderam dissimular nem abafar seu
descontentamento, pois, sem a autorização deles, havia Jesus exercido o papel de reformador em seus próprios
domínios. E, dirigindo-se a Ele, perguntaram-Lhe: "Que sinal nos dás para fazer essas coisas e legitimar essa
conduta? Não ousando condenar o ato em si mesmo, esperavam deixar embaraçado o Salvador obrigando-o a
operar ali mesmo, sem demora, um milagre. Mas Jesus respondeu-lhes com dignidade: "Destruí este templo e eu o
reedificarei em três dias". Tomando a resposta ao pé da letra, replicaram, em tom de mofa: "Quarenta e seis anos se
gastaram na reedificação deste templo e tu o hás de reconstruir em três dias?" Com efeito, iniciada por Herodes, o
grande, no décimo oitavo ano de seu reinado, muito antes do nascimento de Jesus, essa construção grandiosa
estava então bem longe de haver sido terminada; foi concluída somente no ano 64 da era cristã, pouco tempo antes
de ser destruída pelos romanos. Mas Jesus falava do templo místico de seu corpo, que era o santuário da Divindade.
A morte o destruiu na Cruz, e logo foi restaurado ao terceiro dia pela ressurreição.

_______________________________

Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios. Ed. Difusión. Buenos Aires. 1917. excertos das pp. 104-106.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/4E4ACBE3-3048-313C-
2E60EB08DC17566D/mes/Mar%C3%A7o1993

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Jesus e seus companheiros de viagem chegaram a Caná, pátria de Natanael (São Bartolomeu), que hoje se chama
Kefr-Kenna, situada a meio caminho entre Nazaré e Tiberíades, ao Nordeste, a cerca de oito quilômetros de Nazaré.

Nessa cidade, em casa de uma família com a qual a Mãe do Salvador mantinha relações amistosas, pois aí se
encontrava quando chegou seu Filho, celebravam-se então umas bodas. Como era natural, foram convidados Jesus e
seus cinco ou seis discípulos, chamados também a fazer parte da festa. O Salvador, que havia vindo ao mundo para
santificar todos os acontecimentos da vida humana, não recusou o convite.

Logo Maria, como alma fina, perspicaz e delicada, percebeu que o vinho iria faltar e já não pensou senão em poupar
dessa humilhação as pessoas da casa.

"Não têm vinho", disse a Jesus. Estas palavras, pronunciadas em voz baixa, encerram um pedido premente, embora
indireto, de socorrer os noivos por meios sobrenaturais. Jesus, ao que parece, como fará notar o Evangelista, não
havia feito nenhum milagre; mas sua Mãe conhecia sua natureza divina e sua onipotência. "Mulher –– respondeu
Jesus ––, que nos importa isto? Ainda não é chegada a minha hora". Para quem conhece o Oriente e suas fórmulas
de linguagem, a resposta do Salvador é seca só na aparência. Equivale em suma a essa outra: “Deixai-me fazer,
minha Mãe”. Maria compreendeu isso, e não a considerou como recusa, pois, dirigindo-se aos que serviam,
disselhes: “Fazei o que Ele vos disser”. Percebeu Ela que seu Filho estava prestes a intervir. Dizendo que sua hora não
havia ainda chegado, não manifestava Ele que faltava pouco para aquela sobrevir? Havia ali seis grandes ânforas de
pedra, capazes cada uma de conter 80 ou 120 litros; no tota1480 a 720 litros. Estavam destinadas a receber a água
das abluções e purificações, tão freqüentes ente os judeus.

Disse Jesus imediatamente aos que serviam: “Enchei de água aqueles potes”. E eles os encheram até a borda. Disse-
lhes depois Jesus: Levai-os ao mestre-sala (arquitriclino). Quando o encarregado do abastecimento da mesa provou
o líquido, cuja procedência ignorava, percebeu que era um excelente vinho. E então, dirigindo-se ao noivo, disse-lhe
com fàmiliaridade: “Todos servem no começo o melhor vinho, e quando os convidados já estão satisfeitos oferecem o
mais fraco. Vós, ao contrário, reservais o bom vinho para o fim”.

Com uma calma celestial fez Jesus um grande milagre, o primeiro de todos os seus prodígios, diz seu biógrafo. Com
tal ato de austeridade soberana, Jesus “manifestou sua glória e seus discípulos creram n’Ele”.

(Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917, excertos das pp. 101-103).

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/D60292D3-3048-313C-
2EF49C96548EA0DA/mes/Fevereiro1993

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


Vendo (João Batista) outra vez Jesus passar pelo lugar onde estava, disse, sem comentário, a dois discípulos seus que
se encontravam junto dele: Vede o Cordeiro de Deus. O efeito que produziram essas palavras foi admirável,
chegando elas a ser no quarto Evangelho (o de São João Evangelis ta) o tema de um relato dramático, que nos faz
assistir aos primórdios da Igreja de Cristo.

Um dos discípulos era André, irmão de Simão Pedro; o outro, João, o futuro evangelista, que logo se tornará o
predileto do Senhor(1). Compreenderam ambos que, mostrando-Ihes seu mestre [São João Batista] com tal
insistência o Cordeiro de Deus, os induzia ajuntar-se a Ele. Começaram, pois, a seguir tímida e acanhadamente a
Jesus. E, voltando-se o Senhor, lhes disse com doçura: “Que buscais?” E responderam-Lhe: “Mestre, onde habitas?”
Expressavam assim, com discrição, o desejo que sentiam de conversar com Ele.

“Vinde e vede”, disse-Ihes. Foram, pois, com Ele ao local onde havia estabelecido sua residência provisória(2) e
permaneceram ali desde a hora décima, isto é, quatro da tarde, até a noite.

Logo que André voltou dessa conversa, foi procurar seu irmão, e ao encontrá-lo, disse-lhe com tom de satisfação:
“Encontramos o Messias”. Depois, guiou-o até Jesus. O Salvador, lançando um olhar penetrante sobre o novo
discípulo, disse-lhe: “Tu és Simão, filho de João, tu te chamarás Cefas”. No dialeto aramaico, que falava Jesus, este
vocábulo significa pedra. Era um jogo de palavras, no estilo oriental, para anunciar que Simão chegaria a ser um dia o
fundamento indestrutível sobre o qual seria edificada a Igreja do Messias.

____________________

N.da R.:

1. Este trecho do Evangelho de São João parece entrar em contradição com a narração dos outros evangelistas que
apresentam o encontro de Jesus com os primeiros discípulos mais tarde, quando o Redentor os encontrou pescando
no mar da Galiléia e os chamou para o apostolado. Entretanto, como explica Santo Agostinho, essa convocação
definitiva de Nosso Senhor não exclui o fato de os dois discípulos mencionados e Simão Pedra terem conhecido
anteriormente o Messias na região do Jordão, ouvido e admirado seus ensinamentos, voltando depois a suas fainas
diárias.

2. Alguns comentadores julgam que a referida habitação provisória era uma gruta. que servia de asilo ao Redentor
durante alguns dias, numa região situada à margem esquerda do rio Jordão.

(Nuestro Señor Jesuscristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917, p. 100).

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/B0FF04B3-3048-313C-
2E5E879F4281A0E1/mes/Janeiro1993
Comentário do Padre Luís Cláudio Fillion
(Excertos)

A fama sempre crescente de João Batista havia chegado até o Sinédrio de Jerusalém, que julgou por bem tomar
informações diretas a respeito do fato. Assim agindo, a grande assembléia não exorbitava em nada de suas
atribuições, pois uma de suas principais funções era a de zelar pelos assuntos religiosos do povo judeu. Preocupava-a
o rumor persistente, segundo o qual João bem podia ser o Messias em pessoa. Enviou, pois, uma delegação oficial,
composta de sacerdotes e levitas, para então fazer uma inquirição sobre o assunto. O diálogo travado entre o
Precursor e os legados põe em perfeito realce a humildade de João e a fidelidade com que cumpria sua Missão.

Este foi o segundo testemunho que o Batista deu de Cristo. Apresenta muita semelhança com o que o Precursor
havia dado anteriormente diante das multidões; mas é muito mais preciso e significativo, porque manifesta aos
delegados que o Messias está no meio deles, e que estes não precisam senão procurá-Lo para encontrá-Lo.

_______________________________________________________________________________

Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, excertos das pp. 98 e 99.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/E54C9C5A-3048-313C-
2E237C5F13FD01A8/mes/Novembro1992

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


(Excertos)

A cena das tentações de Nosso Senhor foi o oposto do que se passou quatro mil anos antes, nas obscuridades do
paraíso terrestre. A vitória d’Aquele que tem sido justamente chamado o segundo Adão, cabeça da humanidade
resgatada, compensou a vergonhosa derrota do primeiro Adão. Mas prestemos bem atenção para não despojar este
episódio de seu verdadeiro caráter: a prova sofrida por Jesus não consistiu somente na tríplice tentação de gula,
vaidade e ambição. Foi muito mais grave, e muito mais em proporção com a dignidade de Messias da qual estava
revestido. No fundo, não foi Ele tentado como um homem comum, qualquer, mas sim como Messias. As imagens ou
ilusões que Satanás lhe pôs à vista, fazendo-as refletir em seus olhos como espelhos, ele as escolheu com perfeita
habilidade para O quebrar, se possível fora. Já tivemos ocasião de dizer que a maioria dos judeus de então haviam
lamentavelmente desfigurado a imagem do Messias traçada pelos profetas, apresentando-a como muito humana e
terrena. O libertador que esperavam iria agir teatralmente, multiplicando os milagres, tendo por finalidade satisfazer
sua própria vaidade ou a de seus súditos, aparecendo como um rei, onipotente, e cuja ambição seria apenas o
império deste mundo. Este foi o falso ideal que Satanás em meio a assaltos consecutivos propunha a Jesus realizar.

N. da R.: Tal derrota consistiu no pecado original cometido por nossos primeiros pais, no paraíso terrestre. (Nuestro
Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917, pp. 97-98).

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/5AB96FD4-3048-313C-
2ED8871C6B10F351/mes/Setembro1992

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


(Excertos)

Um dia viu João Batista aproximar-se dele um homem de cerca de trinta anos, cuja fisionomia irradiava reflexos de
uma majestade e santidade que vivamente o impressionaram. Era Jesus, que havia deixado seu retiro de Nazaré,
tendo caminhado pelas margens do Jordão para receber o batismo do Precursor. À primeira vista, esta atitude
parecia singularmente estranha. Que necessidade tinha o Salvador do mundo, Ele que era a própria pureza, de
semelhante cerimônia que implicava pecado e penitência? Mas, precisamente, o Verbo havia se encarnado para
carregar os pecados dos homens e expiá-los, adequava-se, pois, a seu encargo ou missão de Redentor tomar as
aparências de pecador e penitente, no momento em que ia começar seu ministério, até que chegasse o tempo de
ser nossa vítima sobre a Cruz.
Quando João O viu adiantar-se para receber o batismo, resistiu a isto como pôde dizendo:“Eu é que devo ser
batizado por Ti, e és Tu que vens a mim?” Ao que Jesus respondeu: “Deixa-me fazer agora; pois convém que
cumpramos toda a justiça”. João não mais protestou e batizou o Messias. Mas, como em outras circunstâncias
humilhantes de sua vida, recebeu Jesus então de seu eterno Pai um testemunho brilhante. Apenas saiu das águas do
rio, o Céu pareceu se abrir e viu-se o Espírito Santo descer sobre Ele em forma de pomba, enquanto uma voz vinda
do Céu dizia: “Este é meu Filho amado, no qual pus a minha complacência”. Houve pois, nesse momento, como que
uma segunda Epifania* de Jesus, e, por assim dizer, sua ordenação, sua consagração como Messias Redentor.

N. da R.: Epifania significa a manifestação de Nosso Senhor ao mundo inteiro, ocorrida por ocasião da adoração do
Menino-Deus pelos Reis Magos. (“Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios”, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917,
pp. 95-96).

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/E326584C-3048-313C-
2EEAD1FBC7A1D712/mes/Julho1992

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion


excertos)

Quando o grupo, no qual iam Maria e José, se pôs em marcha para a Galiléia, Jesus ficou em Jerusalém sem avisar
seus pais.

Depois de inutilmente tentarem achá-lo em cada conjunto de pessoas, José e Maria voltaram a tomar tristemente o
caminho de Jerusalém, continuando a procurá-lo por todo o trajeto e também na cidade, desde que lá chegaram.
Até que, no terceiro dia, encontraram Jesus em uma dependência onde os rabinos realizavam suas sessões
acadêmicas. Estava sentado aos pés dos doutores segundo o estilo oriental, escutando-os e interrogando-os. Suas
perguntas e respostas continham tanta sabedoria que todos os assistentes estavam estupefatos de admiração.

Quando perceberam que Ele estava nesta importante assembléia, Maria e José ficaram por sua vez maravilhados,
pois conheciam a modéstia e o silêncio, habituais n’Ele, e o cuidado com que até então ocultava sua natureza
superior. Uma amorosa queixa saiu do coração de Maria:“Filho, por que agiste assim conosco? Vê como teu pai e eu
cheios de aflição Te procurávamos”.Respeitosamente respondeu-lhes Jesus: “Como Me procuráveis? Não sabíeis que
devo Me ocupar com as coisas de meu Pai?”

Verdadeiro Filho de Deus, não devia consagrar-se antes de tudo e inteiramente aos assuntos de seu Pai? Ele se
admirava, pois, por seu lado, de que Maria e José não tivessem interpretado neste sentido seu desaparecimento
momentâneo, eles que O conheciam melhor que ninguém.

_________________________

Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Ed. Difusión, Buenos Aires, 1917, pp. 84-85).

Comentários do Pe. Luiz Cláudio Fillion


(Excertos)

Apenas chegado a este mundo, Jesus já sofre a investida da perseguição; foi obrigado a tomar o caminho do exílio
para livrar-se da morte, e o sangue das vítimas inocentes correu por Sua causa. Foi uma caminhada penosa que
durou seis ou sete dias.

Embora afundado no paganismo, foi o Egito indicado a São José por ser o país que mais se prestava para ludibriar as
emboscadas de Herodes. Os judeus tinham aí, já há certo tempo, uma considerável e florescente colônia, sobretudo
em Heliópolis, onde haviam levantado um belo templo. No distrito em que a Sagrada Família se estabeleceu
[Gessen] podia Ela encontrar recursos e proteção necessários.

Porém, um acontecimento dos mais trágicos encheu de sangue e cobriu de luto toda a região de Belém. Quando
Herodes compreendeu, depois de esperar alguns dias, que não podia contar com a volta dos Reis Magos, encheu-se
de furor e foi dominado por verdadeiro delírio, imaginando conjurações e conspirações para desterrá-lo. Arremessou
sobre Belém os soldados de sua guarda, seus habituais carrascos, com ordem de degolar sem compaixão todos os
meninos do sexo masculino de dois anos para baixo, não só da cidade como também da comarca, conforme a
informação que conseguiu dos Reis Magos sobre a estrela que havia aparecido. Julgava, por este modo, que Aquele
que diante dele haviam ousado chamar “Rei dos Judeus” não se lhe escaparia. Por este bárbaro ato se cumpriu outra
antiga profecia; vaticínio doloroso que o profeta Jeremias havia expressado nestes termos: “Uma voz se fez ouvir em
Rama. um choro e um grande lamento. Era Raquel que chorava os seus filhos e não queria consolar-se, porque eles
não existiam mais”.

_____________________________

Nuestro Senor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Buenos Aires, pp. 78-79.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/4E75E788-3048-313C-
2E8DD3F7702D5C45/mes/Mar%C3%A7o1992

Apresentação do Menino Jesus no templo e purificação de Nossa Senhora


No Templo de Jerusalém, Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda tenra criança, foi apresentado pela primeira vez. Ali
deveriam depois passar-se outros episódios memoráveis de Sua vida. Ofereceu-se Ele, no início de sua existência
terrena, a Seu divino Pai, sem a menor reserva, aceitando já os sofrimentos futuros de sua Paixão. Ao mesmo tempo,
vinha Ele substituir os antigos sacrifícios de animais da lei antiga, realizados aos milhares, em certos dias, naquele
local.

Segundo a legislação estabelecida pelo grande profeta bíblico Moisés –– a lei mosáica –– todo o primeiro filho de um
casal pertencia ao Senhor. Podia, entretanto, ser resgatado mediante a oferta de certa quantia em dinheiro que era
depositada no tesouro da família sacerdotal encarregada do culto no Templo, a dos levitas. Por outra lei, as mães
que acabavam de dar à luz seus filhos deveriam apresentar-se no Templo de Jerusalém para um ato de purificação,
mediante a oferta de um sacrifício: os ricos, um cordeiro de um ano e um pombo ou rolinha; e os pobres, dois
pombos ou duas rolinhas.

Comentaristas dos textos sagrados observam que nem Jesus nem Maria estavam obrigados a esses preceitos. Pois,
Jesus é Deus, infinitamente superior a qualquer lei. E Maria, tendo se conservado Virgem antes, durante e depois do
parto, estava acima dessa lei comum. Entretanto, a obediência e a humildade foram sempre suas virtudes
caracteristicas. Por isto, submeteram-se eles, sem vacilação, a essas prescrições legais.

Assim, José e Maria, quarenta dias depois do nascimento do Menino, levaram Jesus a Jerusalém e cumpriram os ritos
ordenados.(1)

1) (Cfr. L. CL. Fillion. Nuestro Señor Jesucristo según los Evangélios. Editorial Difusion S.A.. Buenos Aires, 1917. pp.
72,.73).

Comentários do Padre Luís Cláudio-Fillion

Nestas linhas sublimes que se devem colocar à testa do que de mais formoso jamais se tenha escrito, temos o
majestoso pórtico da vida de Jesus. Com que frases tão cheias de movimento e dramáticas nos mostra o evangelista
como o Verbo, o Filho glorioso do Padre, se faz homem por amor do homem, a fim de trazer à nossa pobre terra,
rodeada de espessas trevas e ameaçada de condenação eterna, a verdadeira vida, a luz e salvação verdadeiras!

Ao mesmo tempo nos faz assistir por antecipação ao fracasso parcial, doloroso, do desígnio de uma misericórdia
infinita. Esta magnífica página contém um resumo fiel da história de Nosso Senhor. Sobretudo, nos revela
claramente desde o princípio sua natureza superior. Jesus, apesar das aparências e disfarces humanos como que se
nos irá manifestando - débil menino, pobre trabalhador de Nazaré, missionário fatigado percorrendo a Palestina a
pregar o Evangelho, e sem uma pedra nua em que reclinar a cabeça, varão das dores que experimenta todas as
humilhações e padecimentos, - Jesus é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro “, Filho de 'Deus em sentido próprio,
eterno, infinitamente poderoso, infinitamente grande, revestido com todos os atributos da divindade (1).

NOTAS: (1) “Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios “, Ed. Difusión, Buenos Aires. P. 54.