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Pe Michael Muller

Citação
P. Miguel Muller, C.SS.R., El Dogma Católico, pp. 217-218, 1888: “La ignorancia inculpable o invencible nunca ha
sido y nunca será un medio de salvación.Para salvarse, es necesario estar justificado, o estar en estado de gracia.
Para obtener la gracia santificante, es necesario contar con las debidas disposiciones para la justificación, es decir, la
verdadera fe divina ―al menos en las verdades necesarias para la salvación―, la esperanza confiada en el divino
Salvador, el sincero dolor por el pecado, junto con el firme propósito de hacer todo lo que Dios ha mandado,
etc. Ahora bien, estos actos sobrenaturales de la fe, esperanza y caridad, contrición, etc., que preparan el alma
para recibir la gracia santificante, nunca pueden ser suministrados por la ignorancia invencible, y si la ignorancia
invencible no puede suministrar la preparación para recibir la gracia santificante, muchos menos le puede
conceder la gracia santificante en sí misma. ‘La ignorancia invencible’, dice Santo Tomás, ‘es un castigo por el
pecado’ (De, Infid. C. x, art. 1)”

Fatos sobre a história e a natureza da Reforma Protestante


Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem ousado e orador veemente, tendo absorvido errôneos sentimentos
dos escritos heréticos de João Huss de Boemia, tomou ocasião da publicação das indulgências promulgadas pelo
Papa Leão X para romper com a Igreja Católica e propagar seus novos erros em 1517 na cidade de Wittenberg,
Saxônia. Primeiro ele atacou o abuso das indulgências, depois ele questionou sua eficácia e, por fim, rejeitou-as
totalmente. Ele investiu contra a supremacia da Sé Romana e condenou a Igreja inteira alegando que Cristo a tinha
abandonado e queria reformá-la, tanto na fé quanto na disciplina. Assim esse novo evangelista começou a sua fatal
defecção da antiga fé, que foi designada “Reforma”.

As novas doutrinas sendo calculadas para gratificar as más inclinações do coração humano, espalharam-se com a
rapidez de uma inundação. Frederico, Eleitor da Saxônia, João Frederico, seu sucessor, e Felipe, conde de Hesse,
tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavo Érico, rei da Suíça, e Cristiano III, rei da Dinamarca, também se
declararam a favor do luteranismo. Assegurou-se um lugar para ele na Hungria e na Polônia, esta última, depois de
experimentar uma grande variedade de doutrinas, deixou para cada indivíduo a liberdade de escolher por si mesmo.

Munzer, um discípulo de Lutero, estabeleceu a si próprio como doutor e juntamente com Nicolas Stark deu origem a
seita dos anabatistas, a qual se propagou na Suábia e outras províncias da Alemanha e nos Países Baixos. Calvino, um
homem de espírito forte e obstinado, infatigável em seus trabalhos, também se tornou um reformador a exemplo de
Lutero. Ele se esforçou para ter suas novas máximas recebidas em Genebra em 1541. Depois de sua morte, Beza
pregou a mesma doutrina. Ela se insinuou na Alemanha, Hungria, Boemia e se tornou a religião da Holanda. Ela foi
importada por John Knox, um padre apóstata na Escócia, sob o nome de presbiterianismo, onde tomou fundas raízes
e se espalhou pelo reino.

Mas entre as nações defraudadas, nenhuma bebeu mais do cálice do erro que a Inglaterra. Por muitos séculos esse
país foi notável no mundo cristão pela ortodoxia de sua fé, como também pelo número de seus santos. Mas por um
infortuno que jamais poderá ser suficientemente lamentado, e por um inefável juízo do Altíssimo, sua Igreja foi
vítima do que parecia ser a menor ameaça. A luxúria e avareza de um soberano déspota lançou abaixo o belo
edifício, e arrancou fora a rocha sobre a qual ela tinha se fundado. Henrique VIII, a princípio um um valente defensor
da fé católica contra Lutero, cedendo às violentas paixões que ele não teve suficiente coragem para conter, rejeitou
a juridição suprema que o Papa sempre teve na Igreja e presumiu arrogar para si mesmo esse poder nos seus
domínios, desferindo assim um golpe mortal na Religião. Ele então forçou seus súditos a se submeterem a mesma
defecção fatal. Uma vez introduzida, isso se espalhou sobre a terra.

A partir do Ato de Supremacia de 1534, quem quer que assumisse um cargo público, seja ele civil ou eclesiástico, era
obrigado a reconhecer não mais o papa, mas o monarca como o chefe da Igreja da Inglaterra.

Sendo por sua natureza desprovido de um princípio fixo, o protestantismo tem desde então tomado uma centena de
diferentes formas sob diferentes nomes, tais como calvinistas, arminianos, antinomianos, independentes, kilamitas,
glassitas […] etc. etc. etc. Todas essas seitas são chamadas protestantes porque elas estão unidas em protesto contra
sua mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana.
Algum tempo depois, quando o espírito de reforma atingiu seu pleno desenvolvimento, Andreas Dudithius, um
erudito protestante, assim escreveu em sua carta a Beza: “Que sorte de povo são esses nossos protestantes, indo
para lá e pra cá, arrastados por qualquer sopro de doutrina, ora desse lado, ora do outro? Talvez seja possível saber
quais são os seus sentimentos em matéria de religião hoje, mas jamais se saberá precisamente o que eles serão
amanhã. Em qual artigo de fé concordam essas igrejas que rejeitam o bispo de Roma? Examine-as todas de cima
abaixo e você dificilmente encontrará uma coisa afirmada por uma que não tenha sido imediatamente condenada
por outra como ímpia doutrina.” A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante inglês, Dr. Walton,
na metade do século XVIII, ele assim escreveu no prefácio de seu Poliglota: “Aristarco mal podia encontrar sete
homens sábios na Grécia; mas conosco mal são encontrados idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente
inspirados: nem mesmo o mais desprezível fanático se isenta de tratar seus próprios sonhos como se fossem a
palavra de Deus. Aquele abismo sem fundo [de que o profeta fala no Apocalipse] parece já ter sido aberto, donde sai
a fumaça que escurece o céu e as estrelas e donde se manifestam os gafanhotos pestilentos, uma raça numerosa de
sectários e hereges, que renovaram todas as heresias do passado e inventaram muitas opiniões monstruosas deles
próprios. Eles têm enchido nossas cidades, vilas, campos, casas e púlpitos e têm arrastado o pobre povo consigo
para a abismo da perdição.” “Sim”, escreve um outro autor, “a cada dez anos, ou aproximadamente isso, a literatura
teológica protestante sofre uma completa revolução. O que era admitido durante uma década é rejeitado na
próxima, e o ídolo que eles adoravam é queimado para abrir caminho para novas divindades; os dogmas que eram
sustentados com honra caem em descrédito; o tratado clássico de moral é banido para junto dos livros velhos; a
crítica destrói a crítica; o comentário de ontem ridiculariza aquele do dia precedente e o que estava claramente
provado em 1840 não é menos claramente refutado em 1850. Os sistemas teológicos do protestantismo são tão
numerosos como as constituições políticas da França – uma revolução segue a outra etc.” (Le Semeur, Junho de
1840).

É realmente impossível livrar os membros de uma só seita de perpétuas disputas, mesmo no que tange às verdades
essenciais da religião revelada. E essas diferenças religiosas não existem só na mesma seita, não só no mesmo país e
cidade, mas até na mesma família. Digo mais, o próprio indivíduo encontra-se em flagrante contradição consigo
mesmo nos diferentes períodos de sua vida. Hoje ele professa opiniões que ontem havia rechaçado e amanhã ele vai
trocá-las por ainda outras. Ao fim, depois de pertencer sucessivamente a várias seitas recém-nascidas, ele
geralmente termina ignorando todas elas. Por fomentarem contínuas disputas e contendas, por gerarem divisões e
subdivisões, as numerosas seitas protestantes têm feito de si mesmas o opróbrio dos espíritos honestos e um
motivo constante de piada da parte dos pagãos e infiéis.

Essas seitas humanas, as “obras da carne” como São Paulo as chamou, alteram de forma como nuvens, mas “não
sentem o impacto”, diz Sr. Marshall, porque elas não têm substância alguma. Elas discutem muito entre si, mas
ninguém se importa, nem elas mesmas se importam com o que vão se tornar amanhã. Se uma seita humana perece,
sempre é fácil fazer uma outra ou meia-duzia. Elas têm a vida de vermes, propagando-se pela corrupção de outros
seres. A vida delas é de tal modo semelhante a morte que, exceto pela podridão que exalam em ambos os estágios,
fica impossível dizer qual é qual e, quando elas morrem, ninguém é capaz de encontrar seus túmulos. Elas
simplesmente desapareceram.

Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

A verdadeira causa da Reforma Protestante


Desde o começo do mundo tem existido dois elementos – o bom e o mau – lutando um contra o outro. “É preciso
que hajam escândalos”, disse Nosso Senhor; São Miguel e Lúcifer combatem um ao outro no céu; Caim e Abel na
família de Adão; Isaac e Ismael na família de Abraão; Esaú e Jacó na família de Isaac; José e seus outros irmãos na
família de Jacó; Salomão e e Absalão na família de Davi; São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus
Cristo; os Apóstolos e os imperadores romanos nos primeiros tempos da Igreja de Cristo; São Francisco de Assis e
Irmão Elias na Ordem Franciscana; São Bernardo e seu tio André na Ordem Cisterciense; Santo Afonso e Padre Leggio
na Congregação do Santíssimo Redentor; a fé ortodoxa e a heresia e infidelidade no Reino de Deus sobre a terra; o
justo e o injusto em todos os lugares.

De fato, onde está o país, cidade, vila, comunidade religiosa ou família, por menor que seja, em que esses dois
elementos não estão em oposição? As parábolas do semeador e do joio são verificadas em todo parte; ainda que
você esteja só, a graça e a natureza lutarão entre si. “E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (Mt
10,36) Estranho dizer, não só o bom e o mau são encontrados em perpétuo conflito; mas Deus, por seus sábios
desígnios, permite que mesmo os mais santos e melhores dentre os homens sejam às vezes dramaticamente
opostos um ao outro e cheguem mesmo a incitar perseguição contra o adversário, embora cada qual esteja sendo
guiado pelos motivos mais puros e mais santos.

“É preciso que hajam escândalos” – eis uma fatalidade, eis um alerta divino!

Devem existir tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos ruins. De maneira semelhante, Deus
permite que hajam tempestades – as heresias que surgem em sua igreja sobre a terra – a fim de que as doutrinas
ímpias e errôneas dos hereges possam, por contraste, revelar de maneira mais clara a doutrina santa e verdadeira da
Igreja. Assim como a luz em meio as trevas, tal como o ouro em contraste com o cascalho, assim como o sol entre os
planetas e o sábio entre os tolos; assim está a Igreja Católica Romana entre os não católicos. “Se duas coisas de
diferente natureza”, diz o homem sábio, “são trazidas em oposição, o olho prontamente percebe sua diferença.”
“Deus se põe contra o mal, e a vida contra a morte; assim também está o pecador contra o justo. E olhai para todas
as obras do Altíssimo. Dois e dois, e um contra o outro. (Eclo. 33,15)

Cristo, pois, permite que as tempestades de heresias trovejem sobre sua Igreja para tornar mais clara a sua doutrina
divina, e para remover elementos ruinosos de seu Corpo Místico, a Igreja Católica Romana.

No começo do século XVI, à exceção dos cismáticos gregos, alguns lollardistas na Inglaterra, alguns valdenses no
Piemonte, alguns albigenses ou maniqueus e alguns seguidores de Huss e Zisca, entre os boemianos, toda Europa
era católica. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suíça, Hungria, Polônia,
Dinamarca, Noruega e Suécia; toda nação civilizada em Europa estava em união com a fé católica. Muitas dessas
nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal estava expandindo suas descobertas para além do
Cabo da Boa Esperança e formando assentamentos católicos nas Índias. Cristóvão Colombo, um católico, descobriu a
América sob o patrocínio da rainha Isabel de Espanha. A Inglaterra se encontrava em um estado de grande
prosperidade. As suas duas universidades católicas, Oxford e Cambridge, continham mais de 15 mil estudantes. O
país estava repleto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e haviam hospitais onde os pobre era alimentado, vestido
e instruído.

No entanto, o progresso da civilização tendia por engendrar nas pessoas um espírito de orgulho e encorajar a sanha
pelas novidades. A prosperidade da Igreja levou à ostentação, e em muitos casos ao relaxamento na disciplina.
Existia, como sempre existiram em todos os tempos da Igreja sem excetuar nem mesmo os tempos apostólicos,
maus católicos na Igreja. De fato, o joio e o trigo crescem juntos até o tempo da colheita. A rede da Igreja captura
peixes bons e maus. Os escritos de Wycliffe, Huss e seus seguidores tinham confundido o espírito de muitos. Os
príncipes estavam irritados pelos limites que a Igreja impunha a sua rapacidade e cupidez. Henrique VIII, por
exemplo, queria se divorciar de uma esposa com a qual ele tinha vivido por vinte anos para que assim ele pudesse se
casar com uma mulher mais jovem e bonita. Ele não poderia fazê-lo enquanto reconhecesse a supremacia espiritual
do Papa. Felipe, conde de Hesse, queria ter duas esposas. Nenhum Papa poderia dar-lhe permissão para casar e
viver com duas esposas ao mesmo tempo. Além do mais, haviam também inúmeros nobres maus e avarentos que só
estavam esperando o primeiro sinal para saquear as igrejas, abadias e mosteiros, cuja propriedade era destinada
para a educação do povo e o cuidado do pobre, velho e doente em toda a Europa. E ainda haviam sacerdotes e
monges querendo abraçar uma disciplina mais relaxada e muitas pessoas que estariam prontas para ceder à
licenciosidade, movendo guerra contra todo princípio de religião e ordem social, assim que as circunstâncias
favorecessem a erupção desse espírito de rebelião entre os indivíduos e as massas.

Ora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja muitos se comprazendo em seus vícios, e, como São Paulo observa,
confessando a verdade de seus mistérios, mas pondo em descrédito a sua fé pelas suas obras, Ele os pune
permitindo que, depois de terem perdido a graça, também percam o santo conhecimento de seus mistérios; e que
desse modo, sem qualquer outra persuasão senão a de seus próprios vícios, eles neguem a fé. É desses que Davi
falou quando disse “destroem Jerusalém até seus fundamentos” (Sl 136,7), não deixando pedra sobre pedra.
Quando os maus espíritos arruinaram numa alma o edifício da virtude, eles solapam seu fundamento, que é a fé.
Nesse respeito, São Cipriano assim dizia: “Não penseis que os que abandonam o seio da Igreja sejam homens bons e
cristãos virtuosos. Não é o trigo que o vento leva, mas a palha; nem são as árvores com raízes profundas que se
deixam arrastar pelas correntes de ar, mas sim aquelas que não têm raízes. São os frutos podres que caem das
árvores, não os bons. Maus católicos se tornam hereges, na medida que a doença só progride em organismos
debilitados. Primeiro, a sua fé diminui por conta de seus vícios; depois, ela é atacada pela doença; em seguida, ela
morre. Uma vez que o pecado é essencialmente uma cegueira do espírito, quanto mais um homem peca, mais cego
ele fica. A sua fé vai esfriando cada vez mais, a luz da chama divina vai diminuindo e logo o menor sopro de tentação
ou dúvida será o bastante para extingui-la.”

Vejam a grande defecção da fé no século XVI, quando Deus em sua justiça permitiu que surgissem heresias contra
aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e contemplem a sua misericórdia para com aqueles que
permaneceram unidos a ela; ele assim o fez para provar aqueles que estavam firmes na fé por meio de tribulações e
para separá-los daqueles que amavam o erro; para exercitar a paciência e caridade da Igreja e santificar os eleitos;
para dar ocasião ao esclarecimento da verdade religiosa e da Sagrada Escritura; para tornar os pastores mais zelosos
e fazê-los ter maior estima pelo sagrado depósito da fé; em suma, para comunicar a autoridade da tradição de
maneira mais clara e incontestável.

A heresia então surgiu com toda sua força, Martinho Lutero foi o seu líder e porta-voz.

Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

Luxúria, orgulho, cobiça e impiedade: Mais alguns fatos sobre a


Reforma Protestante
O espírito do protestantismo, ou o espírito da revolta contra Deus e sua Igreja, brotou da luxúria, obstinação e
cobiça dos reformadores. Lutero, apesar do voto solene que fizera de guardar a castidade, casou-se com uma freira,
a qual também estava obrigada a guardar o voto religioso; mas, como São Jerônimo diz, “é raro encontrar um herege
que ame a castidade.”

O exemplo de Lutero foi antecipado por Carlostadtius, sacerdote e líder dos sacramentarianos, que havia se casado
um pouco antes; em breve, ele seria seguido pela maioria dos chefes da Reforma.

Zuínglio, um sacerdote e chefe da seita que leva o seu nome, tomou para si uma esposa.

Bucer, membro da Ordem de São Domingos, tornou-se luterano, abandonou seu claustro e casou-se com uma freira.

Oekolampad, um monge de Santa Brígida, tornou-se zuingliano e também se casou.

Cranmer, Arcebispo de Cantuária, tinha também sua esposa.

Pietro Martire, um cônego regular, abraçou a doutrina de Clavino, mas seguiu o exemplo de Lutero, casando-se com
uma freira.

Ochin, Geral dos Capuchinhos, tornou-se luterano e também se casou.

Assim, os principais chefes da Reforma saíram pregando o novo evangelho com duas notas sobre si: a apostasia da fé
e a aberta violação dos mais sagrados votos.

A luxúria, como foi dito, também levou o rei Henrique da Inglaterra a separar-se da Igreja Católica, o que o colocou
no número dos reformadores.

Não se poderia esperar que esses homens ímpios pregassem uma doutrina santa; eles pregavam uma “liberdade
evangélica”, como eles diziam, de que nunca se ouviu falar antes. Eles diziam aos homens que já não era mais
preciso se submeter a sua antiga compreensão dos mistérios da fé, regulando suas vidas conforme as leis da
moralidade cristã; eles diziam que todos eram livres para modelar a sua crença e prática conforme suas inclinações.
Procurando introduzir uma doutrina flexível, eles dissecaram a fé católica até reduzi-la a um mero esqueleto; assim
eles negaram a realidade do corpo e do sangue de Cristo na Santa Eucaristia, o divino sacrifício de Cristo oferecido
na Missa, a confissão dos pecados, a maioria dos sacramentos, os exercícios penitenciais, vários livros canônicos das
Escrituras, a invocação dos santos, o celibato, a maioria dos concílios da Igreja, e todas as autoridades vigentes da
Igreja; eles perverteram a natureza da justificação, afirmando que somente a fé basta para justificar o homem; e,
sustentando que a observância aos mandamentos era impossível, eles fizeram de Deus o autor do pecado.
Isso é precisamente o que algumas amostras da doutrina de Lutero revelam: “Os mandamentos de Deus são todos
igualmente impossíveis.” (De Lib. Christ., t. ii., fol. 4.) “Nenhum pecado pode danar um homem, exceto a falta de fé.”
(De Captiv. Bab., t. ii., fol. 171.) “Deus é justo embora nos sujeite à danação por sua própria vontade, e apesar de
danar aqueles que não o mereçam” (Tom. ii., fol. 434, 480.) “Deus obra em nós tanto o bem quanto o mal” (Tom. ii.,
fol. 444.) “O corpo de Cristo está em toda parte, não menos que a sua divindade mesma.” (Tom. iv., fol. 3.) E ainda,
por seu caro princípio de justificação pela fé, ele afirma em seu 11º artigo contra o Papa Leão: “Crê fortemente que
estás absolvido e absolvido tu serás, seja com contrição ou não.”

E de novo no sexto artigo: “A contrição que é adquirida pelo exame, meditação e detestação dos próprios pecados,
pela qual um homem recorda sua vida passada e fica na amargura de sua alma refletindo sobre a perversidade e
multidão de suas ofensas, a perda da felicidade eterna e a condenação ao sofrimento eterno – essa contrição, digo,
faz do homem um hipócrita, ou melhor, faz dele um pecador ainda maior.”

Assim, depois de uma vida imoral, um homem tem um compendioso método de salvar a si mesmo: simplesmente
crer que seus pecados foram redimidos pelos méritos de Cristo.

Como Lutero previu o escândalo que surgiria de seu próprio e de outros casamentos igualmente sacrílegos, ele
preparou o mundo para isso, escrevendo contra o celibato do clero e todos os votos religiosos; doravante ele terá
muitos imitadores. Ele proclamou que todos esses votos “eram contrários à fé, aos mandamentos de Deus e à
liberdade evangélica.” (De Votis Monast.) Ele disse novamente: “Deus reprova tais votos de vida em continência, tal
como reprovaria se eu prometesse me tornar a mãe de Deus, ou tomasse a resolução de criar um novo mundo.”
(Epist. ad Wolfgang Reisemb.) E de novo: “Tentar viver solteiro é simplesmente lutar contra Deus.”

Ora, quando se soltam as rédeas à depravação da natureza, não admira que dela se sigam as práticas mais
escandalosas. De fato, um exemplo impressionante desse tipo apareceu em 1539, quando foi concedido a Felipe,
conde de Hesse, licença para ter duas esposas ao mesmo tempo, tal licença foi assinada por Lutero, Melanchthon,
Bucer e mais outros cinco pregadores protestantes.

Por outro lado, uma larga porta foi aberta para uma outra sorte de escândalo: a doutrina da Reforma admitia
divórcios do casamento em certos casos, contrariando a doutrina do Evangelho, e até mesmo permitia que os
consortes se separassem para casar com outras esposas e maridos.

Enumerar os erros de todos os reformadores excederia os limites desse tratado. Portanto, limitar-me-ei às principais
máximas das doutrinas de Calvino e dos calvinistas:

1. O batismo não é necessário à salvação

2. As boas obras não são necessárias

3. O homem não possui livre-arbítrio

4. Adão não poderia ter evitado a queda

5. Grande parte da humanidade foi criada para a danação, independentemente de seus deméritos

6. O homem é justificado pela fé e, uma vez que se obtenha a fé, ela jamais será perdida, nem mesmo
cometendo-se os crimes mais horríveis

7. Os verdadeiros fiéis estão certos de sua salvação

8. A Eucaristia não é mais que o símbolo do corpo e do sangue de Cristo

Foi assim que se subverteu todo o sistema de fé e moral. Eles aboliram completamente a Tradição, e apesar de não
poderem rejeitar a Escritura inteira, posto que ela era universalmente reconhecida como a palavra de Deus, eles
tiveram, contudo, a presunção de retirar alguns livros que não concordavam com as suas próprias opiniões, quanto
ao que sobrou, rogaram para si o direito de explicá-lo como lhes parecesse melhor.

Às almas pias, eles prometeram um retorno ao fervor dos primeiros cristãos; aos orgulhosos, a liberdade do
julgamento privado; aos inimigos do clero, prometeram a divisão de seus despojos; aos sacerdotes e monges que
estavam cansado do jugo do celibato, a abolição da lei que, como diziam, era contra a natureza; aos libertinos de
todas as classes, a supressão de todo jejum, abstinência e confissão. Eles disseram aos reis que desejavam colocar a
si mesmos como chefes tanto da Igreja como do Estado, que eles seriam libertos da autoridade espiritual da Igreja;
aos nobres, que eles seriam emancipados de deveres e serviços obrigatórios.

Vários príncipes da Alemanha e do Suíça apoiaram com armas os pregadores de novas doutrinas. Henrique VIII
impôs sua doutrina a seus súditos. O rei da Suécia levou o seu povo para a apostasia. O conde de Navarra recebeu os
calvinistas; o conde de França favoreceu-os em segredo.

Por longo tempo o Papa Paulo III convocou a todos para o Concílio Ecumênico de Trento, aquele que os heresiarcas
pediram. Não só os bispos católicos, mas também foram convidados a comparecer todos os príncipes cristãos e
mesmo protestantes.

Mas eis que agora o espírito de orgulho e obstinação se tornou mais patente. Henrique VIII respondeu ao Papa que
jamais confiaria o trabalho de reformar a religião em seu reino a ninguém senão ele próprio. Os príncipes apóstatas
da Alemanha disseram ao legado papal que eles reconheciam somente o imperador como seu soberano; o Vice-Rei
de França não permitiu senão quatro bispos de comparecerem ao concílio; Carlos V criou dificuldades e pôs
obstáculos no caminho; Gustavo Vasa não deixou ninguém comparecer ao concílio. Os heresiarcas também se
recusaram a aparecer.

O concílio, no entanto, aconteceu a despeito de todos esses contratempos. Ele durou mais de dezoito anos, porque
ele foi frequentemente interrompido pela praga, pela guerra e pela morte daqueles que o presidiam. A doutrina dos
inovadores foi examinada e condenada pelo concílio, na última sessão do qual haviam mais de trezentos bispos,
dentre os quais nove eram cardeais, três patriarcas, trinta e três arcebispos, sem mencionar os dezesseis abades ou
gerais de ordens religiosas e cento e quarenta e oito teólogos. Todos os seus decretos foram lidos novamente desde
o começo e foram novamente aprovados e assinados por todos os Padres.

Em consistório realizado a 26 de janeiro de 1564, Pio IV devidamente aprovou e confirmou o concílio em um livro
que foi assinado por todos os cardeais. Ele elaborou no mesmo ano uma profissão de fé que era em todos os
respeitos conforme às definições de concílio, na qual declarava sua autoridade; e desde aquele tempo, não só todos
os bispos da Igreja Católica, mas todos os sacerdotes que são chamados para ensinar o caminho de salvação, mesmo
para crianças, ou melhor, mesmo não católicos ao abjurarem os seus erros e retornarem para o seio da Igreja, fazem
o juramento de que eles não tem outra fé senão aquela do Santo Concílio.

Os novos heresiarcas, porém, continuaram a obscurecer e desfigurar a face da religião. Assim Lutero, por exemplo,
revela seus sentimentos sobre o Papa, bispos, concílios etc. no Prefácio de seu livro, De Abroganda Missa Privata:
“Com quantos remédios poderosos e as Escrituras mais evidentes eu pude fortificar a minha consciência para ousar
sozinho contradizer o Papa e crer que ele é o Anticristo, os bispos seus apóstolos e as universidades suas zonas de
prostituição” e no seu livro, De Judicio Ecclesiae de Gravi Doctrina, ele afirma: “Cristo tomou dos bispos, doutores e
concílios o direito e o poder de julgar controvérsias e deu-os aos cristãos em geral.”

A sua censura ao Concílio de Constança e aqueles que o compuseram é a seguinte: “Todos os artigos de John Huss
foram condenados em Constança pelo Anticristo e seus apóstolos.” (referindo-se ao Papa e aos bispos) “naquele
Sínodo de Satanás composto pelos mais perversos sofistas; e a vós, ó santíssimo Vigário de Cristo, eu vos digo com
simplicidade perante de vossa face, que todas as doutrinas de John Huss são doutrinas evangélicas e cristãs, mas
todas as vossas são ímpias e diabólicas. Eu agora vos declaro”, diz ele falando dos bispos, “doravante eu não vos
renderei honra de modo a submeter a mim ou minha doutrina ao vosso julgamento ou àquele de um anjo do céu”.”
(Prefácio ao seu livro Adversus falso nominatum ordinem Episcoporum.)

Tal era seu espírito de orgulho que fez profissão aberta de seu desprezo pela autoridade da Igreja, Concílios e
Padres, dizendo: “Todos aqueles que arriscam suas vidas, sua honra e seu sangue em um trabalho tão cristão quanto
esse de exterminar todos os bispados e bispos, que são os ministros de Satanás, e arrancar pelas raízes toda sua
autoridade e jurisdição no mundo – essas pessoas são verdadeiros filhos de Deus e seguem seus
mandamentos.” (Contra Statum Ecclesiae et falso nominatum ordinem Episcoporum)

Esse espírito de orgulho e obstinação também fica evidente pelo fato de que o protestantismo nunca se
envergonhou de fazer uso de qualquer argumento, ainda que fosse frívolo, inconsistente ou absurdo, para defender
seus erros e caluniar e deturpar a religião católica de todos os modos possíveis. Ele se revela novamente nas guerras
que o protestantismo moveu para introduzir e manter-se a si mesmo. Os príncipes apóstatas da Alemanha entraram
em liga, ofensiva e defensiva, contra o Imperador Carlos V e tomaram armas para estabelecer o protestantismo.

Lutero pregou a licenciosidade e caluniou o imperador, os príncipes e os bispos. Os camponeses não tardaram em se
desvencilhar de seus mestres. Eles percorreram o país em bandos sem lei, queimando castelos e mosteiros e
cometendo as mais bárbaras atrocidades durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Mais que mil homens
morreram em batalha; sete cidades foram arrasadas, mil casas religiosas foram deitadas abaixo; trezentas igrejas
e inúmeras riquezas dos santuários, pinturas, bibliotecas etc. foram destruídas.

Mas o que é mais patente e bem conhecido que a cobiça do protestantismo? Onde quer que o protestantismo tenha
firmado seu pé, ali mesmo ele saqueou igrejas, confiscou propriedades eclesiásticas, destruiu mosteiros e tomou
para si as suas rendas.

Na França, os calvinistas destruíram vinte mil igrejas católicas; eles assassinaram, só em Dauphiné, duzentos e vinte
e cinco padres, cento e vinte monges e queimaram nove mil vilas. Na Inglaterra, Henrique VIII confiscou para a coroa
ou distribuiu entre seus favoritos a propriedade de seis mil e quarenta e cinco mosteiros e noventa colégios, cento e
dez hospitais e duas mil trezentas e setenta e quatro capelas.

Eles até ousaram profanar, com mãos sacrílegas, os restos dos mártires e confessores de Deus. Em muitos lugares,
fazendo uso de violência, tomaram os santos corpos dos relicários onde eram guardados, os queimaram e lançaram
fora as suas cinzas. Que ultraje maior pode ser concebido? Os parricidas ou os mais hediondos dos homens são
tratados de maneira mais desprezível? Entre outros exemplos, em 1562 os calvinistas quebraram o Santuário de São
Francisco de Paula em Plessis-Lestours e, encontrando seu corpo incorrupto já passados cinquenta e cinco anos de
sua morte, eles o arrastaram pelas estradas e queimaram em um fogueira, a qual foi preparada com a lenha de um
grande crucifixo, conforme afirma Billet e outros historiadores.

Assim também sucedeu em Lião, onde no mesmo ano os calvinistas capturaram o santuário de São Boaventura e
despojaram-no de suas riquezas, queimaram as relíquias do santo no mercado público e lançaram suas cinzas no rio
Saône como foi relatado pelo sábio Possevinus, que esteve em Lião naquele tempo.

Também os corpos de Santo Irineu, Santo Hilário e São Martinho, como afirma Surius, foram tratados da mesma
forma ignominiosa. Tal também foi o tratamento oferecido aos restos de São Tomás, Arcebispo de Cantuária, cujo
santuário, nas palavras de Stowe em seus anais, “foi tomado para o uso do rei, e os ossos de São Tomás foram
queimados em setembro de 1538 sob as ordens de Cromwell.”

A religião católica cobriu o mundo com monumentos sublimes. O protestantismo já existe por três séculos; ele foi
poderoso na Inglaterra, Alemanha e América do Norte. O que ele produziu? Ele nos mostra as ruínas que tem feito,
no meio das quais plantou alguns jardins ou estabeleceu algumas fábricas. A religião católica é essencialmente um
poder criativo, que é edifica e não destrói, porque ela está sob a direta influência daquele Espírito que a Igreja invoca
como o Espírito Criador, “Creator Spiritus”. Já o espírito protestante ou o espírito da filosofia moderna é um
princípio de destruição, um espírito de perpétua decomposição e desunião. Depois de quase quatro seculos sob o
jugo da Inglaterra protestante, a Irlanda rapidamente foi ficando tão desprovida de seus antigos memoriais quanto
os desertos africanos.

Os próprios reformadores ficaram tão envergonhados com o avanço da imoralidade entre seus prosélitos que não
puderam deixar de queixar-se disso. Assim disse Lutero: “Os homens do presente são mais vingativos, passionais e
licenciosos do que eram mesmo no tempo do Papado” ( Postil. super Evang. Dom. i., Advent.) E de novo: “Outrora,
quando éramos seduzidos pelo Papa, todo homem estava disposto a realizar boas obras, mas agora ninguém quer
saber de outra coisa senão como conseguir tudo para si mesmo por meio de isenções, pilhagem, roubo, mentira e
usura.” ( Postil. super Evang. Dom. xxvi., p. Trinit.)

Calvino escreveu no mesmo tom: “Dos milhares”, disse ele, “que, renunciando ao Papado, pareciam abraçar o
Evangelho com fervor, quão poucos tem emendado suas vidas! Ou melhor, que outra coisa a maior parte pretendera
que não fosse livrar-se do jugo da superstição para então se darem mais liberdade para seguir toda sorte de
dissolução?” (Liber de scandalis.) O Dr. Heylin, em sua História da Reforma, também reclamava do “grande aumento
do vício” na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI.
Erasmo disse: “Observe essas pessoas evangélicas, os protestantes. Talvez seja infortúnio, mas eu ainda não
encontrei um que não tenha mudado para pior.” (Epist. ad Vultur. Neoc.) E novamente: “Algumas pessoas”, disse
ele, “que eu conhecia antes como criaturas inocentes, inofensivas e sem qualquer falsidade, não muito depois de tê-
las visto ingressar naquela seita (os protestantes), passam a falar palavrões, jogar dados, abandonar as orações,
tornar-se extremamente mundanas, mais impacientes, vingativas, fúteis como víboras, provocando-se umas as
outras. Eu falo por experiência própria.” (Ep. ad Fratres Infer. Germanae.)

M. Scherer, o diretor de uma escola protestante em França escreveu em 1844 que ele viu na sua Igreja Reformada “a
ruína de toda verdade, a fraqueza da divisão infinita, a agitação do rebanho, a anarquia eclesiástica. O socinianismo
envergonhou-se de si mesmo, o racionalismo o encobriu qual uma bolha sem doutrina e sem consistência. Esta
Igreja, privada de seu caráter coletivo e dogmático, de sua forma e de sua doutrina, privada de tudo aquilo que
constitui uma igreja cristã, não representa senão um cadáver, um fantasma ou, se preferir, uma memória ou
esperança. No que toca a autoridade dogmática, a falta de fé penetrou em três quartos de nossos pupilos.” ( L’ Etat
Actual deL’Eglise Reformée en France, 1844.)

Assim tem sido o protestantismo desde o princípio. Isso está escrito com sangue e fogo nas páginas da história. Quer
tome a forma de luteranismo na Alemanha, Dinamarca e Suécia; de anglicanismo na Grã-Bretanha ou calvinismo e
presbiterianismo na Suíça, França, Holanda, Escócia e América do Norte, ele tem sido em toda parte a mesma coisa.
Ele tem se estabelecido pelo tumulto e violência; se espalhado pela força e perseguição; enriquecido às custas de
pilhagem e por meio da força, leis e calúnias, nunca cessou de tentar exterminar a fé católica e destruir a Igreja de
Cristo, a qual os pais do protestantismo deixaram em virtude de sua luxúria, orgulho e cupidez – um espírito que
levou tantos de seus compatriotas a seguirem seus exemplos perversos; um espírito que os teria levado a perdição
de qualquer maneira, ainda que tivessem permanecido na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Portanto, a principal característica do protestantismo sempre foi declarar todo homem independente da autoridade
divina da Igreja Católica Romana, substituindo-a por uma autoridade humana. O Papa Pio IX, falou do
protestantismo, em todas as suas formas, como uma “revolta contra Deus, uma tentativa de substituir a autoridade
divina pela humana, e uma declaração de independência da criatura para com o Criador.” “Um verdadeiro
protestante, portanto,” diz o sr. Marshall, “não reconhece que Deus tem o direito de ensiná-lo: ou, se reconhece tal
direito, ele não se sente obrigado a crer em tudo o que Deus o ensina através daqueles que Deus escolheu para
ensinar a humanidade. Ele diz para Deus: “Se tu me ensinas, eu reservo para mim o direito de examinar tuas
palavras, explicá-las como eu quiser e aceitar somente o que a mim parecer verdadeiro, consistente e útil.” Então,
Agostinho diz: “Aqueles que acreditam no que querem e rejeitam o que querem não creem no Evangelho, mas em si
mesmos ou nas suas fantasias.”

A fé do protestante se baseia somente no seu juízo privado; ela é humana. “Como seu juízo é alterável”, diz o sr.
Marshell, “ele naturalmente sustenta que a sua fé e doutrina se alteram conforme a sua vontade, mudando
continuamente. Evidentemente, então, ele não sustentará que ela seja a verdade; pois a verdade nunca muda; do
mesmo modo, ele não sustentará que ela seja a lei de Deus, que ele e os demais são obrigados a obedecer; pois se a
lei de Deus mudasse conforme a vontade, ela só poderia ser mudada pelo próprio Deus, jamais pelo homem, por
nenhum dos homens ou por nenhuma criatura de Deus.”

Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

A GRANDE REVOLTA CONTRA CRISTO


Escrito por Pe Michael Muller

Desde o começo do mundo existem dois elementos "o bem e o mal" combatendo entre si. "É impossível que não
haja escândalos", diz nosso Senhor. São Miguel e Lúcifer combatem no céu. Caim e Abel na família de Adão. Isaac e
Ismael na família de Abraão. Jacó e Esaú na família de Isaac. José e seus irmãos na família de Jacó. Salomão e Absalão
na família de Davi. São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os apóstolos e os imperadores
romanos na Igreja de Cristo. São Francisco de Assis e o irmão Elias, na ordem franciscana. São Bernardo e seu
sobrinho André, na ordem Cisterciense. Santo Afonso e padre Leggio na Congregação do Santo Redentor. O justo e o
perverso, em todos os lugares. De fato, onde é que no país, na cidade, na vila, na comunidade religiosa ou na família,
por menor que esta seja, estes dois elementos não se acham em oposição? A parábola do semeador é verificada em
todo lugar. Mesmo que você esteja sozinho, o espírito e a carne combaterão. "E os inimigos do homem serão as
pessoas de sua própria casa" (Mt 10,36). Estranho dizer, não só o bem e o mal estão em conflito perpétuo, mas
Deus, para olhos sábios, permite que o melhor e mais santo homem seja às vezes diametricamente mal interpretado
por outras pessoas e mesmo incite perseguições entre estes, mesmo que elas sejam levadas a isso pelo mais puro e
santo dos motivos.

Haverá escândalos: um divino, e fatal, aviso.

Existem tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos perigosos. Da mesma forma, Deus permite que
tempestades "heresias" cheguem à Sua Igreja na terra para que as doutrinas heréticas sejam, em forma de
diferença, sejam colocadas à luz da verdadeira e sã doutrina da Igreja. Assim como a luz está no centro da escuridão
e o ouro contrasta com o chumbo, o sol entre os planetas, os sábios entre os tolos, assim a Igreja Católica entre os
não-católicos. "Se duas coisas de naturezas diferentes", diz o homem sábio, "são colocadas em oposição, os olhos
logo percebem suas diferenças". "Diante do mal está o bem; diante da morte, a vida, assim também diante do
justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo; estão sempre duas a duas, opostas uma à
outra" (Eclo 33,15).

Cristo, então, permite a tempestade das heresias para ativar sua Igreja, para trazer a luz clara de sua divina doutrina,
e remover perigosos elementos de Seu corpo místico - a Igreja Católica Romana.

No começo do século 16, com exceção do cisma grego, poucos Lolardos na Ingleterra, alguns Valdenses em Piemont,
dispersos Albigenses e Maniqueus, e poucos seguidores de Huss e Zisca entre os Bohêmios, toda a Europa era
Católica Romana. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suécia, Hungria, Polônia,
Holanda, Dinamarca, Noruega e Suécia ? todas as nações civilizadas estavam em unidade com a fé Católica. Muitas
destas nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal avançava com suas descobertas através do
Cabo da Boa Esperança, e missionários católicos se estabeleciam nas Índias Orientais. Cristóvão Colombo, católico,
descobriu a América, sob o reinado da católica Isabela da Espanha. A Inglaterra estava em estado de grande
prosperidade. Suas duas universidades católicas de Oxford e Cambridge continham, ao mesmo tempo, mais de 5 mil
estudantes. O país estava coberto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e de hospitais onde os pobres eram
alimentados e instruídos.

Entretanto, o progresso da civilização tendeu a desenvolver um espírito de orgulho, e encorajar à cobiça de


novidades. A prosperidade da Igreja levou à luxúria, e em muitos casos ao relaxamento da doutrina. Havia, como
sempre houve, em todos os momentos da Igreja, e os tempos apostólicos não são excluídos, maus homens na Igreja.
O joio e o trigo cresceram juntos até o máximo. O seio da Igreja encerrava o bom e o mal. Os escritos de Wyckliff,
Huss e seus seguidores, orientaram as mentes de muitos. Príncipes estavam inquietos pela repressão da Igreja de
suas luxúrias. Henry VIII, por exemplo, quis se divorciar da mulher que fora casado por vinte anos, para casar com
uma bela jovem. Ele não pôde fazer isto, pois conhecia a supremacia espiritual do Papa. Felipe de Hesse queria duas
esposas. Nenhum Papa concedeu tal permissão. Então existiam multidões de perniciosos e cobiçosos nobres que
queriam apenas uma desculpa para saquear as igrejas, abadias e monastérios, cuja propriedade era confiada à
educação do povo e dos cuidados dos pobres, idosos, doentes, em toda a Europa. Existiam monges e padres
ansiosos por relaxar a disciplina e muitas pessoas que, incitadas pelo grito de liberdade, estavam prontas para
acabar com as licenças, e fazer guerra contra cada princípio da religião e ordem social, tão logo as circunstâncias
favorecessem este espírito rebelde individual e das massas. Agora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja
muitos insultos às suas vicissitudes, e como São Paulo observa, crêem em Deus, confessam a veracidade de Seus
mistérios, mas trocam sua fé pelas suas obras, Ele os pune permitindo que, após terem perdido a graça, eles
também perderão o santo conhecimento que tinham de Seus mistérios, e que, sem nenhuma outra perseguição que
não suas próprias vicissitudes, negam a fé. É desta ofensa que Davi fala, quando diz "Arrasai-a, arrasai-a até os seus
alicerces!" (Sl 136,7). Não deixar pedra sobre pedra. Quando os espíritos malévolos tiverem arruinado a alma do
edifício da virtude, eles extraem sua fundação, que é a fé. São Cipriano, por essa razão, diz "Que ninguém pense que
o virtuoso homem e bons cristãos jamais saiam do seio da Igreja; não é o trigo que o vento leva, mas o joio. Árvores
profundamente enraizadas não caem com a brisa, mas as que não têm raízes. São as frutas podres que caem das
árvores, não as sãs. Maus católicos tornam-se heréticos, assim como o doente é assolado por maus humores.
Primeiramente, a fé enfraquece neles, por causa de suas vicissitudes; então tornam-se doentes, próximos da morte,
porque, sendo o pecado essencialmente uma cegueira do espírito, quando mais peca o homem, mais ele estará cego.
Sua fé torna-se cada vez mais fraca, a luz da divina tocha diminui, e logo o último vento da tentação ou da dúvida é
suficiente para extingui-la".

Testemunhas da grande apostasia da fé no século 16, quando Deus permitiu que ocorressem heresias, para exercer
sua justiça contra aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e Sua misericórdia alcançasse aqueles
que permaneciam afeiçoados a ela. Para provar, através de provações, aqueles que eram firmes na fé, e separar
aqueles que tinham abraçado o erro. Para exercitar sua paciência e caridade com a Igreja, e santificar os eleitos. Dar
ocasião para a ilustração da verdadeira religião e a Sagrada Escritura. A heresia chegou com todas as suas forças.
Martinho Lutero foi seu maior líder e porta-voz.

Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem bravo e veemente pregador, tendo sido consumido por sentimentos
errôneos pelos escritos heréticos de John Huss, tomou a ocasião da publicação das indulgências promulgadas por
Leão X, para romper com a Igreja Católica e propagar novos erros, em 1517, na Saxônia. Ele primeiro investiu contra
o abuso das indulgências, então colocando em questão sua eficácia. Acabou rejeitando-as. Pregou contra a
supremacia da Sé de Roma e condenou toda a Igreja, pretendendo que Cristo a havia abandonado, e que esta era a
esperada reforma na fé e disciplina. Deste modo esta nova evangelização desencadeou a propagação fatal de antigas
crenças, sendo chamadas de "Reformadas". As novas doutrinas foram calculadas para agradar o coração humano,
expandindo-se como uma grande inundação. Frederick da Saxônia, John Frederick, seu sucessor, e Felipe de Hesse
tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavus Ericus, rei da Suécia e Christian III, rei da Dinamarca, também se
declararam a favor do luteranismo. Conseguiu apoio na Hungria. Na Polônia, após experimentar grande variedade de
doutrinas, deixou aos indivíduos a liberdade de escolher por si mesmos. Munzer, discípulo de Lutero, começou por si
mesmo a trabalhar como médico e, com Nicholas Stark, iniciaram a seita dos anabatistas, que foi propagada pelas
províncias da Alemanha e Países Baixos. Calvino, homem aldaz, de espírito obstinado, e incansável em seus
trabalhos, à semelhança de Lutero, também se tornou reformador. Após sua morte, Beza pregou a mesma doutrina.
Espalhou-se pela Alemanha, Hungria, Boêmia e se tornou a religião da Holanda. Foi importada por John Knox, um
padre apóstata, na Escócia, onde, sob o nome de Presbiterianismo, tomou raízes profundas, e se espalhou pelo
reino.

Mas entre as nações enganadas, nenhuma caiu em maior erro que a Inglaterra. Por muitos séculos este país tem
sido notável no mundo cristão pela ortodoxia de suas crenças e pelo número de seus santos. Mas por um infortúnio
que nunca será suficientemente lamentado, e por um insondável julgamento do céu, esta Igreja dividiu um destino
que buscava no mínimo a ameaçar. A luxúria e avareza de um soberano déspota arremessaram abaixo o justo
edifício, e quebraram a pedra sobre a qual foram edificados. Henrique VIII, primeiramente um defensor da fé
católica contra Lutero, cedeu às violentas paixões que não conseguia refrear, renunciou à suprema jurisdição que o
Papa sempre manteve na Igreja, revogou a si o poder em seu próprio domínio, dessa forma deu um golpe mortal na
religião. Ele então forçou seus interesses ao mesmo erro fatal. Uma vez introduzida, logo percorreu a terra. Sendo,
por natureza, não limitada por nenhum princípio fixo, tomou centenas de formas, sob nomes diferentes, como:
Calvinistas, Arminianos, Antinomianos, Kilhamitas, Glassitas, Haldanistas, Bereanos, Quakers, Metodistas
reformados, Metodistas germânicos, Metodistas Episcopais, Metodistas Wesleyanos, Metodistas do norte,
Metodistas do Sul, Episcopalianos, Episcopalianos High e Low-Church, Ritualistas, Batistas, Batistas particulares,
Batistas do sétimo-dia, Batistas africanos, Igreja Batista de Deus, Batistas regulares, Menonitas, Presbiterianos,
Presbiterianos unidos, Presbiterianos de Cumberland, Presbiterianos unidos, Única Igreja de Cristo, etc, etc, etc.
Todas estas seitas são chamadas protestantes porque todas são unidas no protesto contra a Igreja Católica Romana.

Algum tempo depois, quando o espírito da reforma atingiu seu apogeu, Dudithius, um douto clérigo protestante, em
sua epístola a Beza, escreveu: "Qual sorte de pessoas somos nós protestantes, dispersos de um lado para o outro,
sendo levados por qualquer vento de doutrina, às vezes para este lado, outras para aquele lado? Vocês podem,
talvez, conhecer quais são seus sentimentos em relação à religião nos dias de hoje, mas nunca poderão saber o que
pensarão amanhã. Em qual artigo estas igrejas concordam que tenha rejeitado o bispo de Roma? Examine
completamente, e dificilmente encontrarão algo afirmado por um que não seja imediatamente condenado por outro
como doutrina tola". A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante Inglês, Dr. Walton, na metade
do século 19, em seu prefácio ao seu Polyglot, onde diz: "Aristarco antigamente a custo pôde encontrar sete homens
sábios na Grécia, mas conosco, o raro é encontrar idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente inspirados.
Não há nada de mais fanático do que não dar a você mesmo a autoridade sobre a palavra de Deus. O insondável
abismo pareceu ter se aberto. E como uma nuvem se ergue e escurece os céus e as estrelas, e gafanhotos vêm como
para afligir, veio uma numerosa raça de sectários e heréticos, que renovaram todas as heresias do passado, e
inventaram outras tantas pelas suas próprias opiniões. Estes têm enchido nossas cidades, campos, casas e púlpitos, e
guiado as pobres pessoas com eles para o abismo da perdição". "Sim", escreve outros autor, "nos últimos dez anos,
ou menos, a literatura teológica protestante sofreu uma completa revolução. O que era admirado em anos passados
é rejeitado nos próximos. Os dogmas que eram mantidos com honra caíram em descrédito. Os tratados clássicos de
moralidade foram banidos entre os demais livros antigos. Rejeições levam a rejeições. O comentário de ontem será
ridículo amanhã, e o que era claramente aprovado em 1840, não é menos desaprovado em 1850. As teologias
protestantes são numerosas como as constituições francesas ? uma revolução somente aguarda por outra" (Lê
Semeur, junho, 1840). Realmente é totalmente impossível manter vários membros de uma única seita em disputas
perpétuas, mesmo sobre as verdades essenciais. E estas diferenças não existem somente na mesma seita, não
somente no mesmo país, mas mesmo dentro da família. A negação e a afirmação geralmente colocam o indivíduo
em flagrante contradição consigo mesmo. Hoje são confessadas doutrinas rejeitadas antigamente, e o amanhã já
sabe o que o espera, e assim sucessivamente. Por fim, após pertencer, sucessivamente, a várias novas seitas, a
pessoa geralmente termina por professar um completo desprezo por todas elas. Por suas contínuas disputas e
brigas, divisões e subdivisões, as várias seitas protestantes têm produzido a destruição das vontades honestas, sendo
ridicularizados pelos pagãos e infiéis que deveriam atrair.

Estas seitas humanas, "obras da carne" como diz São Paulo, alteraram seu fundamento, como nuvens que se
desfiguram com o vento, mas "sem estrondos" como diz Mr. Marshall, pois não possuem substância. Travam
grandes batalhas uns com os outros, mas ninguém se importa com isso. Se uma seita humana acabar, não será difícil
erguer outra, ou várias outras.

O espírito do protestantismo, ou o espírito da revolta contra Cristo, é mantido pelo espírito da incontinência, da
obstinação e da cobiça da Reforma. Lutero, apesar do voto diante de Cristo de manter a continência, casou-se com
uma freira, que havia feito o mesmo voto religioso. Mas, como diz São Jerônimo, "é raro encontrar um herege que
ame a castidade".

O exemplo de Lutero foi antecipado por Carlostadio, um padre e líder dos sacramentarianos, que se casou um pouco
antes, e foi logo seguido pela maioria das lideranças da Reforma.

Zwinglio, um ex-sacerdote e líder da seita que leva seu nome, casou-se.

Bucer, membro da ordem dominicana, tornou-se luterano, deixou sua clausura e casou-se com uma freira.

Cranmer, arcebispo de Cantebury, também se casou.

Pedro Mártir, um cavaleiro, abraçou o calvinismo, mas seguiu o exemplo de Lutero, e casou-se com uma freira.

Ochin, líder dos capuchinhos, tornou-se luterano, e também se casou.

Dessa forma os principais líderes da reforma avançaram pregando o novo evangelho, com duas características:
apostasia da fé, e aberta violação dos mais sagrados votos.

A paixão da luxúria, como já foi dito, acelerou a separação da Inglaterra de Henry VIII e a Igreja Católica, e os colocou
entre os reformados.

Destes homens fracos na fé não era esperado que se pregasse um santo evangelho. Eles pregavam um inovador
"evangelho da liberdade", como classificaram. Diziam a seus seguidores que não eram mais obrigados a servirem aos
mistérios da fé, e a regular suas ações de acordo com as leis da moral cristã. Diziam que todos são livres para
adequar sua fé e prática de acordo com suas inclinações. Em conseqüência desta doutrina acomodada, eles
dividiram a fé católica, pois a reduziram a um mero esqueleto, deixaram a realidade do Corpo e sangue de Cristo na
Santa Eucaristia, o divino sacrifício oferecido na Missa, a confissão dos pecados, a maioria dos sacramentos,
exercícios de penitência, muitos dos livros sagrados da Santa Escritura, a invocação dos santos, a maioria dos Santos
Concílios da Igreja, e toda a autoridade da Igreja. Desviaram a natureza da justificação, afirmando que somente a fé
é suficiente para justificar o homem. Fizeram de Deus o autor do pecado, e sustentaram que a observância dos
mandamentos é impossível.
Uns exemplos da doutrina ensinada por Lutero:

"Os mandamentos de Deus são igualmente impossíveis" (De Lib. Christ., t. ii, fol 4).

"O pecado não condena o homem, mas somente a incredulidade" (De Captiv. Bab., t. ii., fol. 171).

"Deus é justo, ainda que pela sua própria vontade Ele nos coloca sob a condição de condenados, e apesar de
condenar ao inferno aqueles que não o merecem" (Tom. ii., fol. 434, 480.).

"A obra de Deus em nós é tanto boa quanto má" (Tom. ii., fol. 444.).

"O corpo de Cristo está em todo lugar, nada mais que sua divindade" (Tom. iv., fol. 3;.).

Então, pela sua doutrina da justificação pela fé, em seu décimo primeiro artigo contra o Papa leão, ele diz:

"Creia o mais que puder, e serás absolvido, tenhas contrição ou não".

Novamente, em seu sexto artigo:

"A contrição que é requerida pelo exame, reconhecimento e repulsa dos pecados de alguém, como forma do homem
relembrar sua vida anterior, na amargura de ter sua alma refletindo sobre sua multidão de ofensas, a perda da vida
eterna, e a condenação ao sofrimento eterno ? esta contrição, eu vos digo, faz do homem um hipócrita, recusando o
grande pecador que fora antes".

Sendo assim, após uma longa vida imoral, o homem possui um método de salvar a si mesmo pela simples crença que
seus pecados serão apagados através dos méritos de Cristo.

Como Lutero previa o escândalo que aconteceria pelo seu sacrílego matrimônio, ele preparou uma carta sobre isso,
escrevendo contra o celibato do clero e todos os votos religiosos. E após isso, ele fez imitadores. Ele proclamou que
todos os votos "são contrários à fé, aos mandamentos de Deus, e à liberdade evangélica" (De Votis Monast). Ele
disse também: "Deus desaprova tais votos de vida continente" (Epist. ad Wolfgang Reisemb.), e novamente: "Atentar
viver uma vida sem casamento, é atentar contra o plano de Deus".

Agora, quando o homem dá liberdade à sua natureza depravada, é de admirar a quantidade de escândalos que se
seguem. Com isso, um exemplo deste tipo ocorreu. A Felipe de Hesse, em 1539, foi concedida a permissão de ter
duas esposas ao mesmo tempo. Permissão dada por Lutero, Melanchthon, e cinco outros protestantes.

Sendo assim, uma larga porta foi aberta para outras espécies de escândalos: a doutrina da reforma admite o divórcio
em certos casos, contrário à doutrina do Evangelho, e mesmo permitindo às partes separadas casarem-se
novamente.

Enumerar os erros dos reformadores seria exceder aos limites deste escrito. Colocarei, portanto, somente as
principais linhas da doutrina de Calvino e dos calvinistas:

1. O batismo não é necessário para a salvação;

2. Boas obras não são necessárias;

3. O homem não tem livre-arbítrio;

4. Adão não pôde evitar sua queda;

5. Grande parte da humanidade foi criada para a condenação eterna, independente dos seus deméritos;

6. O homem é justificado somente pela fé, e esta justificação, uma vez obtida, não pode ser perdida, mesmo diante
dos mais atrozes crimes;

7. O verdadeiro crente está certo de sua salvação;

8. A Eucaristia não é nada mais que uma figura do corpo e do sangue de Cristo;

Desta forma todo o sistema de moralidade e fé foi contrariado. Aboliram totalmente a Tradição, e apesar de não
poderem rejeitar toda a Escritura, universalmente conhecida como Palavra de Deus, eles tiveram, contudo, a
presunção de retirar alguns livros que não se adequavam às suas doutrinas, e os demais fizeram das suas para se
adequarem às suas opiniões.

Com piedade de alma, eles prometiam retornar ao fervor do cristianismo primitivo. Aos orgulhosos, a liberdade do
julgamento privado. Aos inimigos do clero, prometeram a divisão de seus bens. Aos padres e monges que se viam
cansados da continência, a abolição da lei que, diziam eles, era contrária à natureza. Aos libertinos de todas as
classes, o fim do jejum, da abstinência e da confissão. Diziam aos reis que quisessem se colocar como chefes da
Igreja assim como eram chefes do Estado, que deveriam ser livres da autoridade espiritual da Igreja. Aos nobres, que
deveriam ser emancipados de todos os formais e forçados serviços.

Muitos príncipes da Alemanha e distritos suíços defenderam com armas os pregadores da nova doutrina. Henry VIII
impôs sua doutrina sobre seus súditos. O Rei da Suécia direcionou seu povo a apostasia. A corte de Navarro
recepcionou os calvinistas, a corte da França secretamente os favoreceu.

O Papa Paulo III convocou o Concílio Geral de Trento, em 1545, ao qual os heresiarcas apelaram. Não somente todos
os bispos católicos, mas todos os príncipes cristãos, mesmo protestantes, foram convidados a participar.

Mas então o espírito do orgulho e da obstinação se mostrou mais aparente. Henry VIII respondeu ao Papa que nunca
confiaria o trabalho da reforma da igreja no reino a outro que não seja ele. O príncipe apóstata da Alemanha disse
ao legado Papal que eles reconheciam somente o imperador como soberano. O vice-rei de Nápoles teve a
autorização de quatro bispos para poder participar do Concílio. O rei da França enviou somente três prelados, logo
depois chamados de volta. Carlos V criou empecilhos e dificuldades à sua ida. Gustavo Vasa não permitiu que
ninguém fosse ao Concílio. Os heresiarcas também se negaram a comparecer. O Concílio, contudo, foi confirmado
apesar destas dificuldades. Durou cerca de 18 anos, porque foi continuamente interrompido por pragas, guerras e
pela morte dos que o presidiam. As doutrinas dos reformadores foram examinadas e condenadas pelo Concílio, na
última sessão que contava com mais de 300 bispos presentes, entre os quais havia 9 cardeais, 3 patriarcas, 33
arcebispos, sem mencionar 16 priores e líderes de ordens religiosas, e 148 teólogos. Todos os decretos publicados
desde o início foram relidos e novamente aprovados pelos Padres. Em conformidade, Pio IV, em um consistório
ocorrido em 26 de janeiro de 1564, aprovou e confirmou o Concílio em um livro que foi assinado por todos os
cardeais. Redigiu, no mesmo ano, uma profissão de fé em conformação com todas as definições do Concilio, no qual
está declarado que sua autoridade é aceita, e desde aquela época, não somente todos os bispos da Igreja Católica,
mas a todos os sacerdotes que são chamados a ensinar o caminho da salvação, mesmo às crianças, a todos os não-
católicos, a abjurar seus erros, e retornar ao seio da Igreja, jurando não possuir outra fé que não aquela do santo
Concílio.

Os novos heresiarcas, entretanto, continuaram a obscurecer e desfigurar a face da religião. De acordo com os
sentimentos de Lutero em relação ao Papa, bispos e Concílio, ele diz no prefácio de seu livro "De Abroganda Missa
Privata": "Com tamanha força e com a maior evidência que as Escrituras possuem, eu não preciso fortalecer minha
consciência no desafio solitário de contradizer o Papa e de crer que ele seja o anticristo, os bispos seus apóstolos, e
suas universidades seus prostíbulos", e no livro "De Judicio Ecclesiae de Gravi Doctrina" ele diz: "Cristo tomou dos
bispos, doutores e Concílios o poder de julgar a justiça e as controvérsias, e o deu a todos os cristãos".

Sua censura ao Concílio de Constança, e a todos os que o compuseram, está no seguinte: "Todos os artigos de John
Huss foram condenados em Constança pelo anticristo e seus apóstolos" (isto é, o Papa e os bispos), "Neste sínodo de
satã, feito pelos mais tolos sofistas. E você, sagrado vigário de Cristo, digo à sua face, que todas as doutrinas de Huss
são evangélicas e cristãs, mas todos vocês são ímpios e diabólicos. Eu agora declaro", diz ele, falando aos bispos,
"que no futuro não irei concede-los a honra de submeter a mim ou a minha doutrina ao seu julgamento ou mesmo ao
de um anjo vindo do céu" (prefácio ao seu livro Adversus falso nominatum ordinem Episcoporum). Tal era seu
orgulho que fez uma declaração aberta de contestação à autoridade da Igreja, Concílios e Padres, dizendo: "A todos
que aventurarão suas vidas, seus bens, sua honra, seu sangue, em um trabalho tão cristão de ceifar todos os
bispados e bispos, que são ministros de satã, e extirpar todas as raízes de sua autoridade e jurisdição sobre o mundo,
estes são verdadeiros filhos de Deus e obedecem a seus mandamentos" (Contra Statum Ecclesiae et falso nominatum
ordinem Episcoporum).

Este espírito de orgulho e obstinação é tão mais aparente pelo fato que o protestantismo nunca se envergonhou de
fazer uso de qualquer argumento, mesmo que fortemente inconsistente ou absurdo que fossem, para defender seus
erros e difamar a religião Católica de qualquer maneira possível. Isto explica as guerras que o protestantismo travou
para infiltrar-se e manter-se. O príncipe apóstata da Alemanha aderiu a uma liga, ofensiva e defensiva, contra o
imperador Carlos V, e levantou as armas para estabelecer o protestantismo.

Lutero pregou sem autoridade, e ultrajou o imperador, os príncipes, e os bispos. Os camponeses não pensaram duas
vezes em deixar seus mestres. Percorreram o país como bandos fora-da-lei destruindo castelos e mosteiros, e
cometendo as maiores barbáries e crueldades com os nobres e o clero. A Alemanha se tornou o cenário da
desolação e das mais cruéis atrocidades durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Mais de cem mil pessoas
pereceram na guerra! Sete cidades foram desmanteladas, e milhares de casas religiosas foram destruídas. Trezentas
igrejas e imensas riquezas em esculturas, pinturas, livros, etc., foram apagados da história.

Mas o que é mais aparente e melhor visto no protestantismo do que o espírito de cobiça? Onde quer que pisassem o
pé, pilhavam igrejas, tomavam as suas propriedades, destruíam mosteiros, e se apropriavam de seus rendimentos.

Na França, os calvinistas destruíram milhares de igrejas Católicas. Assassinaram, somente em Dauphiné, 225 padres,
112 monges e derrubaram 900 torres e vilas! Na Inglaterra, Henry III confiscou ao povo, ou distribuiu entre seus
favoritos, as propriedades de 645 mosteiros e 90 escolas, 110 hospitais, e 2374 capelas!

Eles ousaram profanar, com suas mãos sacrílegas, as relíquias dos mártires de Deus. Em muitos lugares eles
tomaram à força os corpos dos santos dos responsórios onde jaziam, quebravam-nos e espalhavam suas cinzas pelo
vento. Que maior atrocidade pode ser concebida? Os mais odiados infames foram tratados assim? Entre outros
exemplos, em 1562, os calvinistas quebraram e abriram o túmulo de São Francisco de Paula, em Plessis-Lestours, e
encontraram seu corpo incorrupto 25 anos após sua morte. Arrastaram-no pelo caminho, e jogaram-no na fogueira
que haviam feito com a madeira da santa cruz, como Billet e outros historiadores revelam.

Da mesma forma, em Lyon, no mesmo ano, os calvinistas apoderaram-se do túmulo de São Boaventura, retiraram
seu vestuário e outros objetos, lançaram as relíquias do santo em um lugar movimentado, e lançaram suas cinzas no
rio Saône, como foi relatado pelo autor Possevinus, que estava em Lyon nesta época.

Também os corpos de Santo Irineu, Santo Hilário e São Martin, como afirma Surius, foram tratados da mesma
infame forma. Também da mesma forma foram tratados os restos de São Tomás, arcebispo de Cantebury, cujos
adornos do túmulo, de acordo com as palavras de Stowe, em seus anais, "Foram tomados para o uso do rei, e os
ossos de São Tomás, por ordem do senhor Cromwell, foram queimados até as cinzas em setembro, 1538".

A religião católica tem coberto o mundo com imponentes monumentos. O protestantismo tem agora cerca de 300
anos. É forte na Inglaterra, Alemanha, América. O que ele tem feito? Isto mostrará as ruínas em que está
estabelecido, por meio do qual ele tem plantado alguns jardins e criado algumas fábricas. A religião Católica é
essencialmente uma força criativa, feita para construir, não para destruir, pois está sobre a contínua influência do
Espírito Santo que a Igreja invoca como tal espírito criativo. O protestantismo, ou espírito filosófico moderno é um
princípio de destruição, de perpétua decomposição e desunião. Soa a dominação da força protestante inglesa, por
quatrocentos anos, a Irlanda rapidamente foi usurpada de seus antigos memoriais assim como a selvagem África.

Os próprios reformadores estavam tão envergonhados com o progresso da imoralidade entre seus prosélitos, que
não podiam mais manter o controle sobre eles. Sendo assim Lutero falou: "Os homens agora estão mais vingativos,
cobiçosos e lascivos do que quando estavam sob o papado" (Postil. super Evang. Dom. i., Advent.). Novamente:
"Antigamente, quando éramos seduzidos pelo Papa, todos os homens desejavam realizar boas obras, mas agora
nenhum homem diz ou quer saber de nada mais que como conseguir tudo para si através de extorsões, pilhagens,
assaltos, mentiras e usuras" (Postil. super Evang. Dom. xxvi., p. Trinit.).

Calvino escreveu na mesma linha: "De tantos milhares", disse ele, "que, renunciando ao papado, buscaram
ansiosamente abraçar o Evangelho, quão poucos melhoraram suas vidas! Não só isso, o que mais pretende a maior
parcela, então, livrando-se do jugo da supertição, dar a si mesmos mais liberdade para seguir todas as formas de
libertinagens?" (Liber de scandalis.). Dr. Heylin, em sua História da Reforma, lamenta-se acerca da "grande evolução
da libertinagem" na Inglaterra, no reinado de Eduardo VI.

Erasmo diz: "Vejam estas pessoas, os protestantes. Talvez esteja enganado, mas ainda não encontrei um que não
pareça ter mudado para pior" (Epist. ad Vultur. Neoc.), e novamente "Alguns", diz ele, "que conheci aparentemente
inocentes, humildes, e sem falsidades, tão logo entrando para estas seitas (os protestantes), começaram a falar com
prostitutas, a jogar dados, a deixar as orações, tornaram-se extremamente mundanos, impacientes, vãos, como
víboras, furiosos uns com os outros. Digo isso de experiência" ( Ep. ad Fratres Infer. Germanae.).

M. Scherer, o diretor de uma escola protestante na França, escreveu em 1844, que observava em sua igreja
reformada "a ruína da verdade, a fraqueza das infinitas divisões, a dispersão das ovelhas, a anarquia eclesial,
pessoas envergonhadas de si mesmas, racionalismo disfarçado, sem doutrina, sem consistência. Esta igreja,
depravada como sua corporação e seu caráter dogmático, pela sua forma e sua doutrina, depravada por todos que a
constituíram igreja cristã, cessou de pertencer à comunidade de cristãos. Seu nome continua, mas ela representa
somente uma cobertura, um fantasma, ou, se quiserem, uma memória ou esperança. Por desejar autoridade
dogmática, a incredulidade fez seu caminho em três quartos de nossos pupilos" (L' Etat Actual deL'Eglise Reformée
en France, 1844.).

Assim tem sido o protestantismo desde o princípio. Tem sido escrito com sangue e fogo através da história.
Tomando a forma de luteranismo na Alemanha e Suíça, Anglicanismo na Grã-Bretanha, ou Calvinismo e
Presbiterianismo na Suécia, França, Holanda, Escócia e América, em qualquer lugar são os mesmos. Foi propagada
pelo tumulto e violência, pela força e perseguição. Enriqueceu-se pelos saques e nunca cessou, pela força declarada,
de perseguir ou de difamar, seus esforços em eliminar a Fé Católica, e destruir a Igreja de Cristo, os quais os pais do
protestantismo deixaram pelo espírito de orgulho, luxúria e cobiça. Um espírito que induziu muitos dos seus
conterrâneos a segui-los em seus maus exemplos. Um espírito que os fez perder, mesmo que dela não tivessem se
apartado, a Única, Santa, Católica e Apostólica Igreja Romana.

O principal espírito do protestantismo, então, sempre tem sido o de declarar o homem independente da autoridade
divina da Igreja Católica Romana, e a substituir pela sua autoridade humana. O Papa Pio IX falou sobre o
protestantismo, sob todas as suas formas como uma "Revolta contra Deus, com a intenção de substituir o humano
pelo divino, uma declaração de independência da criatura do criador". "O verdadeiro protestante, portanto", diz
Marshall, "não reconhece que Deus tem o direito de ensina-lo, ou, se ele reconhece esse direito, ele não se sente na
necessidade de acreditar em tudo o que Deus ensina através daqueles que Ele apontou para ensinar a humanidade.
Ele diz a Deus: ?se me ensinares, reservo a mim o direito de examinar vossas palavras, a interpreta-las da forma que
eu escolher, e admitir somente o que me parecer verdadeiro, consistente, e útil". Por essa razão Santo Agostinho
disse: "Você, que acredita no que te agrada, e rejeita o que te desagrada, acredita mais em vós mesmos ou em vossa
própria ilusão que nos Evangelhos". A fé do protestante, então, é baseada unicamente em seu julgamento pessoal,
isto é humano. "Como seu julgamento é alterável", diz Marshall, "ele naturalmente sustenta que sua fé e doutrina
são alteradas com a vontade, e, portanto, continuamente mutável. Evidentemente, então, ele não assegura que algo
seja a verdade, pois a verdade não é mutável. Nem sustenta ser a Palavra de Deus, que ele é obrigado a obedecer,
pois se a lei de Deus é alterado pela vontade, essa vontade é a de Deus, nunca a do homem, ou de nenhum homem,
ou de nenhuma outra criatura de Deus".

Padre Muller foi um douto e heróico sacerdote redentorista ortodoxo do século 19. Seu livro "Catholic Dogma", do
qual extraímos este artigo, que consta no terceiro capítulo, é uma excelente defesa de que "Extra Ecclesiam Nulla
Salus". Como se podia esperar, o inglês do século 19 que ele emprega é diferente do que utilizam os leitores
americanos nos nossos dias. Permanecemos fiéis ao original na pontuação e no uso arcaico. Apesar destas
dificuldades, esta parte é uma polêmica católica clássica que ainda durará por muitos anos.

** Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro Rosa.

http://www.veritatis.com.br/apologetica/igreja-papado/1311-a-grande-revolta-contra-cristo