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Pe.

Manuel Bernardes

SERMÃO DAS CINZAS


§I

Que o Criador, e as criaturas todas estejam continuamente lembrando ao homem, que há de morrer; e que possa o
homem esquecer-se deste desengano! Muito é para admirar, e muito mais para sentir. Se estendermos os olhos da
consideração por tudo o que abraça a redondeza do Céu e da terra, acharemos que em todo o tempo, e em toda a
parte nos tem Deus postos manifestos avisos, e sinais da nossa morte. Mas também acharemos, que em todo o
tempo, e em toda a parte tem o homem posto os sinais do esquecimento da sua morte. Que outra cousa é o
movimento dessas estrelas, o ocaso dos planetas, a roda dos tempos, o combate dos elementos, o curso e recurso
das águas, a diferença das idades, a mudança dos impérios, a instabilidade dos costumes, e leis, e a perpétua
inconstância de todo o século; que outra coisa é, digo, senão uma viva e repetida lembrança que Deus nos faz da
morte? E que outra cousa é também a ambição da glória do mundo, a estimação de seus gostos vãos, tantas
esperanças, tantos temores sem fundamento; que cousa é todo o reino, ou escravidão do pecado, senão claros
sinais do esquecimento que o homem tem da morte?

Enfim, que Deus por sua boca diz: Caelum et terra transibunt1. E o pecador por suas obras responde: Non movebor à
generatione in generationem2. Nos tempos de Noé naufragou o mundo em dous dilúvios: um de águas, e outro de
pecado: Terra repleta est iniquitate. Multiplicate sunt aquae e omnia repleverunt in superficie terrae3. Avisou Deus
primeiro que mostrasse sua ira, e desprezaram os homens sua misericórdia, com tal excesso que Deus, sendo a
mesma imutabilidade, mostrou pesar de haver criado o homem; e o homem, sendo a mesma mudança, não mostrou
pesar de haver ofendido a Deus. Edificava pois Noé a arca, público desengano daquela destruição geral; e edificavam
juntamente os pecadores palácios, e casas de prazer pelo desenho de sua vaidade. Cada prevenção de Noé é um
aviso, cada golpe um protesto, tudo são cautelas para escapar da morte, e os pecadores tudo prevenções para
lograr-se da vida. Entraram todos os animais naquele estreito refúgio de sua conservação (caso estupendo) e não
entrou ninguém em si para tomar o acordo de segui-los.

Justo foi o sentimento depois de tanta insensibilidade. Rasgam-se as cataratas do Céu, abrem-se as fontes do
abismo, e soçobram às enchentes os mais altos montes – tudo perece. Pombinha solitária, que saistes a descobrir
terra, que é o que vedes? Mudou de rosto a natureza, tudo está submergido debaixo de um mar sem praias. Oh
quem dera também a nosso espírito asas de pomba! Voara sobre si mesma, e vira: vira bem como a morte entrando
no mundo, foi outro dilúvio, que o alagou. Disse-o Esdras sabiamente: Factum est in unoquoque eorum, sicut Adae
mori, sic his diluvium4. Vira que o Sol também morre; que as estrelas também caem; que os gostos passam, como as
idades, e a idade como as flores. Vira como a sucessão das gerações não é mais que um desejo baldado de
imortalidade, e um despojo certo da morte. Vira que toda a duração temporal vai edificada sobre as cinzas do que já
foi, e debaixo das ruinas do que há de ser; e que a natureza defectível caminha pelos mesmos passos do ser ao
perecer. Vira que as águas deste dilúvio prevaleceram sobre os mais levantados montes do poder, da sabedoria, e da
santidade: Aquae praevaluerunt nimis5, não se livrando a comum sorte nem aquele escelso monte, donde foi
cortada a pedra Cristo, MARIA Santíssima, com ter seus fundamentos sobre os montes santos; nem o mesmo Cristo
monte de ambos os testamentos: Intraverunt aquae usque ad animam meam6, disse o Senhor falando de si mesmo,
e noutra parte: Omnes fluctus tuos induxisti super me7. Mas também vira que o mesmo que vemos os homens
parece que o não cremos, porque se a morte anda diante de nossos olhos, como é possível esquecer-se dela? Basta
que tudo acaba; eu só o presumo de eterno! Basta que aquele geral estatuto, que o dedo de Deus escreveu até nas
estrelas, é necessário que a Igreja o escreva no pó que somos. Memento homo, quia pulvis es? Esta é a minha
admiração, e este deve ser nosso sentimento. E esta será também a matéria do presente Sermão: inquirir, e
impugnar as causas que fazem tão esquecida a morte, sendo a morte tão lembrada. Memento homo quia pulvis es,
et in pulverem revertéris.

§ II

Qual é (perguntava eu) a causa, que tão facilmente nos borra da memória uma lembrança tão repetida, e tão
importante? Falando especulativamente, verdade é que todos nós conhecemos, que havemos de morrer, porque
assim no-lo testemunham a Fé, a natureza, a razão e a experiência. Houve sim Ateistas, que negaram a Deus o ser, e
à alma a imortalidade. Mas não houve quem negasse ao homem a morte. Quanto mais os que cremos, que Deus não
fez a morte, e que a morte se atreveu ao mesmo Deus; porém falando praticamente, passa em nós o contrario
totalmente. Tanquam semper victuri vivitis (se queixava Séneca) omnia tanquam mortalies tenetis; omnia tanquam
immortales concupiscitis. Aquele pomo vedado a nossos primeiros pais considero eu que tinha escritas duas
maneiras de letras bem encontradas entre si. Ao princípio tinha Deus escrito nele aquele desengano: Inquocumque
die comederis ex eo, morte morieris8. Depois falsificou o inimigo escrevendo-lhe por cima estoutras: Nequamquam
morte moriemini9. Viu que a lembrança da morte era o mais importante fundamento de nossa conservação; tratou
de arruiná-lo: a serpente sugeriu, Eva ofereceu, a formosura da árvore convidou. Eis ali o diabo, o mundo, a
concupiscência todos postos em campo para dissuadir ao homem, que não há de morrer: Nequamquam morte
morienmini. Come o Adão, e ambas aquelas letras ficaram gravadas no coração de todos nós outros; o desengano de
Deus ficou escrito como estímulo da consciência, o engano do inimigo ficou escrito como estímulo da carne. O
desengano de Deus rubricou-se com seu próprio sangue, e assinou-se com a pena que tomou de Cruz. Morte
morieris. O engano do inimigo, como era ferrete de nossa escravidão, imprimiu-se como o fogo da
concupiscência: Nequamquam morte moriemini. O desengano de Deus não se apagou de todo, porque os brados da
consciência, ainda que nem sempre se escutam, sempre se ouvem: Morte morieris. O engano do inimigo se não
apagou estas letras, ao menos as escureceu e encobriu com razões de aparência falsa: Nequamquam morte
moriemini. Ora vamos nós descobrindo-as com a luz da divina graça, e seja sempre nesta lamentável história da
tentação de nossos primeiros pais, já que daí tirou a Igreja Santa as palavras com que hoje nos admoesta: Memento
homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris.

§ III

A primeira razão aparente, com que se nos escurece a lembrança da morte, é a formosura exterior dos bens do
mundo. Vemos nele tanta e tão vária beleza, em que os sentidos se apascentem, que não acabamos de crer que haja
perino no lograr-se. Vidit mulier, quod bonum esset lignum ad vescendum, et pulchrum oculis, aspectuque
delectabile10: Viu Eva que aquela árvore era agradável à vista, que se seguiu? Tulis de fructu illus, et comedit. Oh
argumento muitas vezes errado! E quem meteu aos olhos como ofício de julgarem a bondade das cousas? Da
formosura, julguem emborapulchrum oculis. Mas da bondade? Bomum ad vescendum? Antes só para comer não era
boa aquela árvore. E não era mais bela a flor da inocência? Não era mais doce o fruto do merecimento? Pois tendes
incorrido na pena: morte morieris. E conheçam todos que os mesmos gostos da vida trazem consigo o mais claro
desengano da morte.

Quando Moisés descendo do monte achou o povo idolatrando naquele ídolo, que tinham formado de todas suas
riquezas, diz o Texto, que Moisés desfez o ídolo em cinzas, e lhas deu a beber. Combussit, et contrivit usque ad
pulverem, quem sparsit in aquam, et dedot ex eo potum filiis Israel11. Quis Moisés, que para que o povo tomasse
aborrecimento à idolatria, se fartasse das cinzas do seu mesmo ídolo. E que outra cousa é (pergunto eu agora) que
outra cousa é a felicidade do mundo, senão um grande ídolo composto de riquezas, que ajuntamos para adorarmos
nelas? Moisés quebrou as tábuas da lei, e desfez logo o ídolo. Foi zelo. Oh veja cada um quantas vezes, por não
desfazer o ídolo, tem quebrado a lei de Deus! Pois ide agora mortais, ide e idolatrai na formosura desse ídolo;
reduzido em cinzas vos dará brevemente o desengano. Será agradável no exterior: pulchrum oculis, mas não é bom
para comido: bomum ad vescendum, salvo para alcançar a ciência do bem e do mal, porque assim como aquele ídolo
desfeito em pó causou aborrecimento à mesma idolatria, assim todos os bens da terra, reduzidas com a
consideração à mesma terra, perdem de sua estimação. Aquele mesmo ouro formado em ídolo era ocasião de
adorações falsas; bebido em cinza foi a ocasião de desenganos verdadeiros. Aquela opulentíssima região onde
Salomão mandava suas armadas carregar de ouro, chamou-se Ofir, que ao hebraico vale o mesmo que Cinis, Cinza.
Dois documentos achamos aqui, ambos preciosos. O primeiro, que todos os bens e grandezas não valem mais que
cinzas, porque em cinza hão de acabar. O segundo, que a cinza de nossa mortalidade, cavada com a consideração, é
uma mina preciosíssima de riquezas espirituais. Ditoso aquele que sabe reduzir o ouro de sua grandeza às cinzas de
um sepulcro: porque das cinzas de um sepulcro vai lavando o ouro da coroa de sua imortalidade. Bem é que já que a
felicidade do mundo é falsa, o escarmento seja verdadeiro; bem é que quanto mais depressa passam seus bens,
tanto durem mais nosso desenganos.

Escreveu Jacó na sepultura da sua Raquel defunta um epitáfio, que dizia: Hic est titulus momumenti Rachel usque ad
praesentem diem12. Este é o letreiro da sepultura de Raquel até o presente dia. Parece supérflua esta última
palavra, mas não tem senão uma energia bem grande. Notai. A sepultura é para Raquel; o título é para nós outros. É
verdade que aquela gentileza já passou. Mortua est ergo Rachel. Mas o aviso da sua morte ainda está presente:
usque ad praesentem diem. A campa daquela sepultura debaixo de si não tem mais, que as frias cinzas de um
cadáver; porém sobre si sustenta um claro aviso de nossa mortalidade, que isso quer dizer monumentum. Enfim, que
quando os olhos de Raquel se cerraram para a luz da vida, abriram-se os nossos para a luz do desengano, e
desengano que dura até o presente dia: usque in praesentem diem.

§ IV

Ainda digo mais. Se bem o considerarmos, mais vivo despertador da morte temos nas felicidades do mundo do que
nos trabalhos e calamidades. Vede-o na comparação de duas árvores de gerações, que descreveram dois Apóstolos
sagrados. Santiago descreveu a geração da concupiscência, e disse assim: Unusquisque tentatur comcupiscentid sua:
deinde concupiscentia cum conceperit, parit peccatum: peccatum vero cum consummatum fuerit, generat mortem13.
Como se dissera: a formosura exterior dos bens do mundo excita o nosso apetite, se concebeu, produz pecado: o
pecado, se saiu à luz, gera morte. Vejamos a outra árvore. S. Paulo descreveu a geração dos trabalhos e tribulações,
e disse assim: Tribulatio patientiam operatur, patientia autem probationem, probatio vero spem, spes autem non
confundit14. A tribulação é mais da paciência; a paciência da aprovação, a aprovação da esperança; e a esperança
nunca perece, sempre vive. Temos logo, se bem o advertistes, que os gostos do mundo claramente nos avisam da
morte; e que dos trabalhos antes nos podemos prometer vida. Aquela árvore das tribulações, que agora não produz
senão espinhos para nos magoar, bem podeis esperar dela frutos de vida; e aqueloutra, que está coalhada de flor
brevemente há de murchar-se. De espinhos se coroou nosso Redentor JESU Cristo; e então teve sobre a cabeça o
título de Nazareno, que é o mesmo que florido. De flores se coroavam aqueles ímpios de que fala a
sabedoria: Coronemus nos rosis15, e logo se temeram que murchassem: antequam marcescant. A vida de Sansão
parecia perigar quando se encontrou com o leão. Despedaçou-o, e no seu cadáver achou depois um favo de mel.
Outro favo de mel foi Jónatas provar com a ponta da lança, e encontrou com o perigo de vida. Assim passa, que
maior risco temos entre as delícias que entre as tribulações. Ah doçura perigosa dos gostos do mundo! Se quem vos
leva à ponta da lança não mais que para provar, se arrisca tanto, como não veem o risco da morte aqueles que sem
nenhum trabalho os gozam à boca cheia?

E donde nasce (perguntareis vós) que o uso das cousas temporais é tão arriscado? Donde nasce que vizinha tão de
perto com a morte? Se tem veneno para que se nos deu aquela geral licença: Ex omni lingno paradisi comede16

? Ora dai-ma vós a mi para contar-vos uma história profana: servirá de resposta, e a resposta de razão de tudo o que
temos dito. Conta Eneas Silvio (que depois foi Papa Pio Segundo), que a Ladislau Rei da Boémia, na véspera de seu
desposório, estando tudo preparado, lhe deu sua própria esposa uma maçã partida com faca ervada só por uma
banda, para que comendo ela a outra metade não houvesse suspeita de traição. Comeu o Rei a sua parte, porém
para nunca mais comer. Obrou aquele enganoso ferro, como se lhe disseram: Divide eos in vita eorum. Atenção,
Senhores, que os bens do mundo têm a qualidade deste ferro, e deste pomo; é verdade que tomados por uma parte
são lícitos, são suaves; mas tomados pela outra são mortíferos. Pois eis aí a razão, porque são arriscados: porque
quem há de fiar-se, que acerta com a metade sã? A outra, que ficou ervada como o apetite do primeiro pomo
vedado; isto é com o mau uso do nosso alvedrio: essa em vez de servir de alimento à vida, serve de acenar à morte.
E quando queirais negar, que há muitos gostos do mundo, que totalmente são veneno, e este já conhecido, ao
menos não negareis que todos eles são pó, e são cinza: Omnia, quae de terra sunt, in terram convertentur17, Se vos
não matam a vós, eles per si morrem. Logo mal se desculpa com os bens do mundo o nosso esquecimento da morte,
se sempre são lembrança da mesma morte, de tal modo que aquele mesmo desengano, que Deus dá ao homem,
pode o homem dar ao mundo. Pulvis es, et in pulverem reverteris.

§V

Já que os homens tenham entendido que a morte nos mesmos bens da vida os espera, e os avisa certamente, tratam
ao menos de desviá-la de si mais ao longe. Este é outro pior esquecimento, que em nós causa o esquecimento da
morte: a falsa imaginação de que a morte está longe de nós. Não sei que género de cegueira é este, que o objeto
que mais perto de si tem, o põem em tão distante perspectiva. Notai os longes que o Tentador nos prometeu de
vida: Eritis sicut Dii18, e notai o desvio com que Eva lhe respondeu: Ne forte moriamur19. A pena da morte estava de
Deus irrevogavelmente estabelecida para se incorrer ipso facto no ponto em que comesse; e com tudo fala nela
muito ao futuro, debaixo das incertezas de um acaso: Ne forte moriamur. Lá disse Isaias, que os pecadores de
jactaram de haverem feito concerto com a morte, e com o inferno: Percussimus foedus cum morte, et cum inferno
fecimus pactu. Perguntara eu, e como há a morte de guardar o concerto aos homens, se o homem o não guardou a
Deus para fugir da morte? Se os pecadores não quiseram o Céu sendo mercê; como há o inferno de demitir aos
pecadores, sendo eles dívida sua?

Oh não cuidem os filhos de Adão que, desde que ele pecou tão de propósito, morre alguém acaso. Não são acasos as
mortes inesperadas; não é eternidade a incerteza de um momento; não são futuros a dívida presente. Esta dívida
começamos a pagar no mesmo instante que começamos a respirar. Disto se queixava o Santo Rei Ezequias: Dum ad
huc ordirer, succidit me20. Não está longe de nós a morte, pois conosco mora dentro das mesmas portas. O
movimento dos Céus por onde se medem nossos dias, ainda que pareça vagarosíssimo, não deixa de ser arrebatado.
No relógio de nossa vida não cuideis que o Sol há de tornar atrás, nem dez linhas, nem um só ponto. Se um ponto de
vida vós prometeis, vossa promessa o fez mais incerto, e suspeitoso. Bem como a carta de Urias, quando entendais,
que leva a recomendação de vossa pessoa, não leva senão o decreto de vossa morte. Se é possível, que a morte
tarde, ou fuja, foge só daqueles, que a buscam com a meditação e mortificação; anda mais perto dos outros, que a
trazem longe de sua lembrança.

Anima (disse aquele rico do Evangelho) habes multa bona posita in annos plurimos: requiesce, comede, bibe,
epulare21. Viste como tem a morte longe da vista? Vede como a tem perto da casa: Stulte hac nocte animam tuam
repetunt. Bem notado de estultícia, porque as contas que ele fazia tem mais erros do que palavras. Apostilemos o
lugar, pois é de Cristo Senhor Nosso para provar o intento ao pé da letra. Anima (diz o rico): quando viu a fertilidade
dos campos, fala consigo dando-se os parabéns, devendo falar com Deus dando-lhe graças. Habes: deu à alma, que é
espírito, posse de bens temporais, sendo as riquezas do espírito as virtudes, e os dons de Deus, e não as sementeiras
dos campos. Multa: entendeu que os bens da fortuna podiam nunca ser muitos em chegando a ser possuidos, e
muito menos para a alma, cuja capacidade só Deus enche. Bona: chamou absolutamente bens àquilo de que os
homens usam para se depravarem em todos os males. Posita: Cuidou somente de guardá-los como permanecentes,
sendo que os bens caducos, o modo de os conservar é dispendê-los. In annos: não estendeu sua consideração à
eternidade, senão aos anos de sua vida. Plurimos: e prometeu-se que seriam muitos, porque as riquezas também
eram muitas, dependendo uma e outra coisa da vontade de Deus. Requiesce: Convida-se ao descanso, quando os
prudentes se estimulam para o trabalho. Mas finalmente todos estes erros se podiam esperar de uma alma tão
material que come, e bebe: Comede, bibe, epulare.

Pelo contrário o sustento do Espírito deve ser a consideração da morte: o seu pão há de ser cinza, e a sua bebida
lágrimas. Assim o ensinou e praticou consigo Davi, quando disse: Cinerem tanquam panem manducabam, et potum
meum cum fletu miscebam22. Ajuntou o real Prpfeta mui conformemente os dois sustentos da alma e do corpo,
porque a virtude do jejum e da temperança há de usar do pão como de cinza, e da bebida como de lágrimas; a
virtude da oração há de usar da cinza como de pão; a virtude do arrependimento há de usar das lágrimas como de
bebida. E disto acrescentou logo Davi ser a causa: porque considerava na brevidade de seus dias: dies mei sicut
umbra declinaverunt23, mas perguntara eu: se os dias da vida são sombra, que será a mesma morte? Será a
escuridade da noite – esta é a sua mais própria alegoria. Consideremos pois que entre a nossa vida e a nossa morte
não há maior diferença que entre a sombra e a noite. A noite nenhuma luz admite, a sombra de tal modo é
escuridade que parte também com a luz; assim partem os nossos dias a luz da vida com a noite da morte, e ficam
escuridade de sombra. Porém a sombra, se a seguires, foge; e quando a fugis, vos segue. Por isso a Davi, que a
seguia com a consideração, ainda se lhe concediam os dias da vida como sombra: Dies mei sicut umbra. Por isso ao
rico, que fugia da morte, lhe sobreveio de repente a morte como noite. Hac nocte animam tuam repetunt.

§ VI

Oh quantos estão sepultados na noite da morte, e da eternidade, porque não consideram seus dias como sombra,
que passava, senão como luzimento, que havia de permanecer! Quereis que permaneça? Aprendei mortais uma arte
de dilatar melhor a vida. Assim como toda a redondeza do universo se funda sobre um só ponto imóvel, que é o
centro dele, assim também no mundo invisível, toda a circunferência dos séculos pende de um só momento que é o
da morte: Statutum est hominibus semel mori24. E todas as linhas de nossos desenhos nele acabam igualmente.
Como este ponto está unido outro, que é a eternidade, a qual é uma possessão de todos os séculos junta, e
abreviada individualmente: bem como o centro equivale a todo o círculo. E assim como nas mãos da morte vão
caindo todas as durações do tempo, assim a morte as vai entregando nas mãos da eternidade, porque no ponto da
morte todas as diferenças de tempo se acabam, e no ponto da eternidade todas se conservam.

Aprendei pois (torno a dizer) uma arte de dilatar a vida, uma arte de parar essa roda arrebatada de vossos dias.
Ensinou-a o Espírito Santo por boca dos Profetas, e dos Apóstolos. Diz o Profeta Davi que os ímpios, os esquecidos de
si e da sua morte, andam à roda: In circuitu impii ambulant25.Por isso sua vida é tão breve, e desassossegada. Diz o
Apóstolo S. Paulo, que estejamos fixos, imóveis, e bem fundados na esperança do Evangelho. Si tamen permanetis in
fide fundati, et stabiles, et immobiles a spe Evangelii26. A esperança do Evangelho, bem sabeis que é a imortalidade
com Deus por meio da morte em Cristo Nosso Senhor; assim como a esperança da Lei era a terra prometida por
meio da peregrinação do deserto com Moisés. O mesmo Apóstolo aos Romanos: Si autem mortui sumus cim Christo,
credimus, quia semel etiam vivemus cum Christo27. Pois estai (diz o Santo) estai imóveis nessa consideração, e nessa
esperança. Os esquecidos dela andem à roda com o tempo. In circuitu impii ambulant. Vós outros ponde-vos no
centro imóvel de vossa morte, e de vossa imortalidade, porque só aquele que considera que há de ter fim, e que não
há de ter fim, sabe ganhar todos os tempos. Cristãmente disse o Estóico: Ideo peccamus, quia de partibus vitae
omnes deliberamus: de tota memo deliberat. Sabeis por que vivemos mal? Porque vivemos por partes, um dia passa
atrás de outro dia, um ano atrás do outro. Não é isto a roda? Deliberai-vos a viver no centro, e possuireis a vida toda
junta: para o merecimento toda junta no ponto da morte; para o prémio toda junta no ponto da eternidade.

E eis aqui a razão porque eu dizia que não devíamos imaginar a morte ao longe, e ao futuro, quando é certo que pela
sujeição a temos presente. A razão é porque assim o ponto da morte, como o ponto da eternidade, tem virtude de
reduzir e igualar todas as diferenças de tempo, de tal modo que cada um de nós é aquilo mesmo que foi e que há de
ser. Diz o Evangelista S. João que viu ao Cordeiro de Deus estar diante do trono de sua glória, morto desde a origem
do mundo: Vidi: et ecce in medio throni… agnum stantem tanquam occisum28; (e noutra parte): Qui occisus est ab
origine mundi29. Já estais na dúvida. Se o Filho de Deus padeceu sendo já passados desde a origem do mundo perto
de quatro mil anos, como o viram os olhos da Águia morto desde a origem do mundo? Viram-no por razão de uma
certa luz, e de uma certa sombra. A luz era a da eternidade porque o Cordeiro estava no trono de seu eterno Pai. A
sombra era a da morte, porque o Cordeiro se tinha sujeitado à morte, a qual entrou no mundo com a origem do
mesmo mundo. E assim como aquela luz fez que o decreto fosse ab eterno na mente divina, assim aquela sombra fez
que a morte fosse desde a origem do mundo na sujeição do Cordeiro. Vem logo ser o mesmo a dívida da morte, que
atualmente a mesma morte. E daqui nasce que como a nossa morte não há de ser totalmente vencida senão no fim
do mundo, quando se cumprir aquilo que São Paulo alega de Oseias: Absorpta est mors in victoria30; por isso o
Cordeiro quis também continuar a sai morte até o fim do mundo. Isto é o que fez o mistério do Santíssimo
Sacramento, onde se deixou até a consumação do século debaixo da representação de morto: Agnum stantem
tanquam occisu. Oh Cordeiro imaculado! E como foi perfeita vossa sujeição, pois fizestes vossa morte tão
antecipada, e tão dilatada juntamente! Antecipada desde a origem do mundo; dilatada até o fim do mundo;
antecipada diante do trono de vosso eterno Pai; dilatada sobre os altares de vossa Igreja Santa; antecipada, porque
nesse trono éreis já o que havíeis de ser, e o que fostes na Cruz; dilatada, porque na Cruz fostes o que fostes, e
haveis de ser no altar, sempre morto, porque sempre por amor de nós sujeito à morte. E se isto passa no Filho de
Deus, bem podemos os filhos de Adão crer, que a morte nos está presente desde o princípio de nossa vida, pois nos
é devida desde o princípio do mundo. Então nas mãos de Deus fomos pó; agora sobre a face da terra somos pó;
debaixo de uma sepultura em breve seremos pó. É enfim o homem o mesmo que é, porque é o que foi, e o que há
de ser. Pulvis es, et in pulverem reverteris.

§ VII

Outra razão, ou sem-razão, com que o nosso esquecimento da morte se desculpa, são as obrigações do estado de
cada qual, porque nos parece que alguns estados há em que nem é conveniente, nem possível andar com tão grande
desengano na lembrança. Esta parece também que foi a desculpa de Adão, quando Deus lhe devassou o
delito: Mulier, quam dedisti mihi sociam, dedit mihi de ligno, et comedi31. Senhor (respondeu ele) a mulher, que vós
mesmo me destes, foi ocasião de esquecer-me de vosso mandamento. E bem! É possível que, para não obedecer a
Deus, até do mesmo Deus nos escandalizamos! Não bastará lançar a culpa de nossos erros à serpente: Serpens
decepit me32, senão que também a repartamos com Deus? Quam dedisti mihi sociam? Diz o soldado, diz o tratante,
diz o cortesão, diz o titular: Padre, o estado que Deus me deu não permite essas considerações de anacoreta, fiquem
embora para as religiões e para os ermos; a nós é preceito cuidar das obrigações do estado e da honra. Erras coração
humano, erras; nem por essa escusa deixarás de ser contado com os mais que obram perversamente: Declinantes
autem in obligationes adducet Dominus cum oerantibus iniquitatem33. Responda-me. A salvação é para todos? A Lei
de Deus obriga a todos? A graça, com que nos ajuda a cumpri-la, é para todos? Os perigos, e os inimigos da alma
cercam a todos? Sim por certo, pois o entregar-se à virtude, o concertar a vida, e o prever a morte por que não há de
ser para todos? Ora fazei comigo uma digressão breve.

Determinou Deus dar a Lei ao povo de Israel; e vejo com majestade sobre os mais altos montes, do Seir ao Faran, do
Faran ao Sinai; rasgaram-se as nuvens, arderam as montanhas, soou um clarim tão fortemente que não podiam
sofre-los os ouvidos. Quis o Filho de Deus ser exaltado na Cruz para redenção nossa: escolheu o lugar em Jerusalém,
o tempo o mais célebre, que era o da Páscoa, e o título de sua Cruz se escreveu em três línguas as mais célebres do
mundo. Mandou depois o Espírito Santo a repartir os dons de sua graça, e desceu com ruido de um espírito
veemente ao crescer do dia, em línguas de fogo, estando todos os fieis juntos no Cenáculo. Pedro Príncipe dos
Apóstolos receava admitir as gentes à perfeição do Evangelho sem passarem pela Circuncisão; e viu baixar do Céu
aquela misteriosa mesa, onde estavam todos os animais, aves, e serpentes, e lhe mandaram que comesse de tudo.
Notai agora a generalidade e publicidade com que Deus abraça a todos igualmente. De sorte que (deixando outros
muitos exemplos) a salvação ganhada naquela Cruz, que se arvorou no Calvário; a lei, que se promulgou no Sinai; a
graça, que se derramou no Cenáculo; a vocação para a mesa de Deus, que significou a Pedro – tudo compreende a
todos. Mas o disporem-se os homens para alcançarem essa salvação, para aproveitar essa Cruz, para cumprirem
essa Lei, para co-operar com a graça, para seguir a vocação, isto não é para todos? Pois com nenhuma destas
obrigações cumpre quem por amor de suas obrigações deixa de aparelhar-se para a morte. Que cousa mais universal
que a morte? Pois tem Deus quebrantado os foros da natureza só por não dispensar com a lei da morte. Justo é logo
que a sorte, que a todos nós espera por decreto, todos a esperemos a ela pela consideração.

Entra o Profeta Jonas pelo meio da grande Nínive lançando aquele pregão da ira de Deus justo: Adhuc quadraginta
dies, et Ninive subvervetur34. Mais quarenta dias de prazo, e Nínive se subverte. Breve foi o sermão, mas eficaz;
ainda mais do que queria o pregador. Toda a corte desde o maior ao menor se acolheu ao sagrado da penitência. O
mesmo Rei deixou o trono, e as vestiduras reais, e se cobriu de cinza. Mas o em que eu reparo é que a demonstração
do arrependimento compreendesse até aos gados, e aos animais. Homines, et jumenta, et boves, et pecora non
gustent quidquam. Operiantur saccis homines, et jumenta, et clament ad Dominum35. Caso estranho! Os brutos em
hábito de penitência, jejuando e bradando a Deus. Seroa para confessarem os Ninivitas que se pareceram nos
apetites com quem agora se pareciam no arrependimento? Ora não vos admireis; vede que é o que Deus
ameaçava: Ninine subvertetur. O decreto é geral: compreende homens, e animais, e as mesmas pedras dos edifícios.
Pois se a ameaça da morte é para todos; o temor da morte por que não há de mostrar-se em todos? Esta foi a razão
porque os que iam embarcados com o mesmo Jonas estranharam, que adormecesse ao som da tempestade: Quid tu
sopore deprimeris36. Porque quando o perigo é comum devem andar todos alerta. Oh acabai de entender que não
há homem tão bruto que não saiba bradar a Deus; não há Rei tão levantado que não possa descer-se do trono, para
assentar-se sobre a cinza, que há de ser. Bem podem os grandes ser temidos, e ser tementes. A todos pede Deus, e a
todos aceita a penitência desde o menos até o maior. Honra, a honra de Deus; estado, o estado de sua graça;
obrigações, a primeira obrigação é a de criatura, a de homem, e a de cristão. Por qual destas vos escusais de obrar,
como quem há de morrer? Se sois cristão, o final de cristão vos põe sobre os olhos a memória da morte. Se sois
homem, a parte racional vos dirá que a outra parte é terra; se sois criatura, temei a Deus, e não acuseis ao
Criador: Mulier, quam dedisti mihi sociam.

§ VIII

Bem sei eu, que nos palácios, e nas praças não há bom sítio para se edificarem as Tebaidas, as Camaldulas, e as
Cartuxas. Bem ouvi dizer que a soledade era a metrópole do Espírito Santo; que o silêncio era o Pitágoras da interior
escola. Mas também sei que em todo o estado tem Deus posto exemplares de admirável santidade, para que se
entenda que de qualquer parte da terra pode o Céu ser livremente visto e suspirado. Vede vós bem não seja o vosso
estado aquele que vós tomastes, e não o que Deus vos deu; que se a mão de Deus vos pôs nele, a mesma mão de
Deus vos tirará a salvo. Levou um Anjo a Ezequiel em espírito por meio de grande enchente de águas; tendo andado
mil passos, dava-lha a água pelo artelho; mediu outros mil, e dava-lhe pelos giolhos; entrou mais outros mil, e já
chegava às costas; repetiu o mesmo, e já não pode passar Ezequiel. Aqui o tirou o Anjo e o pôs salvo na ribeira. Fieis,
muito mais fiel é Deus: neste mal do mundo a uns faz entrar mais, a outros menos; mas a donde não possais passar,
onde vos afogueis, daí logo vos tirará em paz, e salvo.

Mas oh quantos cuidados há, quantas perturbações da consciência, em que Deus nos não meteu, senão que nós
outros por nossas mãos as granjeamos! Admoestou Cristo Senhor Nosso a Marta solícita de sua hospedagem, com
aquela repetida voz: Martha Martha solicita es, et turbaris erga plurima; porro unum est necessarium37. Quanto
desvelo, quanta perturbação, sendo uma só cousa necessária? A cada um de nós outros pode a consciência própria
dar semelhante repreensão em cousa menos honesta. Tu ambicioso que não estudas, senão como seja adorado de
tua honra; tu vanglorioso, tu iracundo, que viveis um do ar como camaleão, outro do fogo, como salamandra; tu
avarento cego para ver o rosto à caridade, Argos para possuir o mesmo que não possuis: turbaris erga plurima; para
que são tantos cuidados, se uma só cousa é necessária. Um edifica, como se a vida fora eterna; outro navega, como
se o mundo fora estreito; aquele litiga, como se a fazenda fora salvação; este, que sou eu, brada, e repreende, como
se o mundo não houvera de acabar assim: turbaris erga plurima. Quanta perturbação sendo uma só coisa necessária.
Pontos de honra, leis de foro, razões de estado, invenções da fantasia, lisonjas do apetite: turbaris erga plurima;
porro unum est necessarium. E que cousa é esta tão necessária? Salvação, Boa Morte, que é o mesmo. A morte é
aquela única e fatal necessidade que convence de uma vez a todos os cuidados do mundo por desnecessários. Vede
como os aprovará Deus por bons, se se não pagou dos de Marta, que eram tão santos. A morte em efeito é aquela
que ajunta a nossa alma com Deus, que é a sua melhor parte, para dele não ser nunca separada, que non auferetur
ab ea. A morte na consideração é aquele fundamento da vida cristã, que todos os inimigos da alma procuram
arruinar: a concupiscência cativando-se da formosura das coisas: pulchrum occulis, et aspectu delectabile. O
demónio representando vida larga: eritis sicut Dii. O mundo embaraçando com a multidão de seus cuidados: mulier,
quam dedisti mihi sociam. Por isso dizia ao princípio que a serpente sugeriu, Eva afereceu, a formosura do pomo
convidou: todos para persuadirem ao homem aquele esquecimento: Nequamquam morte moriemini. Mas a Igreja
Santa contra quem não prevalecem as portas do inferno, tomando a voa da boca de Deus, nos diz hoje com piedosa
recordação: Memento homo, quia pulvis es, et in pulçverem reverteris.

§ IX

Desenganados totalmente os homens, e vendo que por toda a parte prevalecem as águas deste universal
dilúvio: Aquae praevaluerunt nimis, que remédio esperaremos, se não acolhermos à arca; não para salvar da morte
temporal (que esta foi no mundo mais geral inundação que a do dilúvio), mas para escapar da morte eterna.
Acolher, digo, à arca, que é o lenho santíssimo da Cruz de Cristo, na qual se obrou nossa regeneração e redenção.
Duas tábuas formam esta Cruz, nas quais podemos salvar-nos do naufrágio, que são os Sacramentos do Batismo e da
Penitência. Oh lástima! Não vedes quantos milhares de milhares se vão ao fundo? Não ouvis a confusão de vozes, e
de gemidos? Estes não alcançaram a pegar da primeira tábua do Batismo: pereceram. Nos outros pecadores, a quem
as ondas sacudiram dela é necessário pegarmos fortissimamente da segunda, que é a penitência. Penitência, que os
mares crescem; penitência, que o perigo está presente: morte morieris; e quem sabe se a muitas almas, das que me
estão ouvindo, espera Deus ainda o prazo destes quarenta dias para se não subverterem: Adhuc quadraginta dies.
Nesta tábua pois devemos formar espiritualmente uma como embarcação, em que possamos contrastar a braveza
das ondas. Para chegarmos a salvamento deve o entendimento, que é a agulha de buscar direito o norte da fé, deve
a caridade estar sempre ao leme; devem encher o pano os alentos da esperança. No lugar do esporão os peitos da
fortaleza; no farol a luz da prudência; seja lastro o temor santo todas as tribulações, e cruzes são árvores; as insígnias
não podem ser outras que as quinas, ou chagas de Cristo; o mantimento já sabeis que há de ser lágrimas e cinza.
Ditoso aquele que prender enfim o porto, que é o reino, que dentro de si mesmo leva: Regnum Dei intra vos est38.
Caminhando sempre à vista da terra do conhecimento próprio: Pulvis es, et in pulverem reverteris.

E vós progenitores nossos, por quem o dilúvio da morte entrou no mundo, perdoai tão repetidas queixas de vossos
filhos, e filhos que não choraram como vós seus pecados com lágrimas de novecentos anos. Perdoai, que já vejo
aparecer aquela branca pomba, por quem veio a ser vossa culpa venturosa. Puríssima MARIA Senhora Nossa, vós
sois a que trazeis o ramo de oliveira, e nele os sinais de misericórdia, e as esperanças de nossa ressurreição, por
virtude daquela Humanidade Santa, que nasceu de vosso ventre, e renasceu do sepulcro, sem ofender a inteireza de
um e de outro. Alcançai-nos de vosso filho perfeito amor de sua bondade, perfeita dor de nossas culpas. Se a
verdadeira caridade é ouro, o verdadeiro arrependimento é cinza; se a divina ira é fogo, não terá o fogo que destruir
nem na cinza, nem no ouro, porque só estas duas cousas podem resistir à sua violência. Senhor, que encravado
nessa árvore sagrada, não duvidastes em pagar a pena que nós em outra árvore merecemos; pedimo-vos que por
aquela piedade que vos fez obediente até a morte de Cruz, nos livreis da morte eterna.

BERNARDES, Pe. Manuel, Obras Completas do Padre Manuel Bernardes, Vol. XII – Sermões e Práticas, Reprodução
fac-similada da edição de 1733;

São Paulo, 1947.

Fonte: Permanencia

1. Mt 24, 35.

2. Sl 70, 6.

3. Gn 6, 8; ibid. 7, 17-18.

4. Es 49, 8.

5. Gn 7, 19.

6. Sl 68, 2.

7. Sl 87, 8.

8. Gn 2, 7.

9. Ibid., 2.

10. Gn 2, 6.

11. Ex 12, 29.

12. Gn 33, 20.

13. Tg 1, 14-15.

14. Rm 5, 3 e ssg.

15. Sp 2, 3.

16. Gn 2, 16.

17. Ecle 40, 11.

18. Gn 3, 5.

19. Ibid.

20. Is 38, 12.

21. Lc 12, 19-20.

22. Sl 101.

23. Ibid., 101, 12.

24. Hb 9, 27.

25. Sl 82, 9.

26. Cl 1, 23.

27. Rm 5, 8.

28. Ap 5, 6.

29. Ibid., 18, 2.


30. 2 Cor 15, 54.

31. Gn 2, 12

32. Ibid., 2, 13.

33. Sl 124, 50.

34. Jo 3, 4.

35. Ibid., 3, 7-8.

36. Ibid., 1, 6.

37. Lc 10, 41-42.

38. Lc 17, 21.

http://www.catolicosribeiraopreto.com/sermao-das-cinzas/

PRÁTICA DA ORAÇÃO MENTAL – Padre Manuel Bernardes


1. A oração mental é uma árvore plantada pela mão de Deus no paraíso da Igreja para sustento da vida espiritual;
sua raiz é aquela grande excelência de ser um colóquio da alma com o mesmo Deus, e daqui procedem seus
copiosíssimos e dulcíssimos frutos.

2. Quem obra depois que ora não segue tanto os impulsos da natureza como os ditames da razão e luz de graça, e o
concerto de suas ações e honesto fim que com elas pretende, lança de si certo resplendor que bem se deixa
conhecer de fora.

3. A oração é como âmbar, que um só grãozinho deixa fragrância no recipiente por pouco tempo que nele estivesse.
Mas, o não aproveitar-se tanto quanto pudéramos, nasce primeiramente de que não acompanhamos a oração com
mortificação; e porque o monte de mirra, em que se figura a mortificação, é mais dificultoso de subir do que o
outeiro do incenso, em que se figura a oração, não nos determinamos, como a alma santa, a subir um e
outro: Vadam ad montem myrrhae et collem thuris (“…irei ao monte da mirra, e à colina do incenso”, Cântico dos
cânticos, 4, 6). Outros não fazem senão começar e largar, tecer e destecer. Muitos contentam-se com apanhar
flores, que são os atos de ternura sensível, e não tratam dos frutos, que é lidar sempre consigo sobre a vitória de
suas paixões e reforma de seus defeitos. E outros não resistem às distrações e vagueações do pensamento, e, claro
está, que a oração quanto tem de distraída tanto não tem de oração.

4. Duas coisas fazem bom ou mau qualquer desejo: uma é a coisa desejada, se é boa, ou má, ou absoluta, ou
determinadamente nestas ou naquelas circunstâncias. Outra é o fim ou intento da vontade em desejar a tal coisa.

5. A boa oração não está em correr muita terra, senão em cavar para o fundo; não está em salpicar muitas
considerações, passando por elas levemente, senão em assentar bem um desengano e confirmar a vontade com
repetidos propósitos, porque mais segura um prego com muitas marteladas do que muitos com poucas.

6. Deus não só é reto, senão também suave: Dulcis et rectus Dominus; reto para provar a alma com tribulações, e
suave para a consolar com suas visitas. Parece que com uma mão fere e com outra sara: Percutiam et ego sanabo. E
que se na esquerda tem espinhos, na direita tem consolações.

7. Quem se fia de si, bem se pode fiar do demônio; e se do demônio ninguém pode fiar-se, muito menos se pode fiar
de si.

8. Ó como são vis e desprezíveis todas as coisas terrenas quando ponho os olhos nas celestiais! Bem considerado o
mundo, sua grandeza é pequenez; sua abundância, pobreza; sua ciência ignorância; suas alegrias, tristezas; sua luz,
trevas; sua felicidade, miséria; aqui a honra é um pouco de fumo, a fazenda é um pouco de terra e a vida é servir à
corrupção. Passa o mundo como figura e todas as coisas que nele há por momento se mudam. Vaidade de vaidades
e tudo vaidade; só o amor de Deus permanece e o prêmio que no Céu nos está preparado. Adeus, mundo; nada teu
me enche os olhos; todo és uma mentira armada de infinitas mentiras. Quem bebe do teu cálice dourado, no fim lhe
amargam as fezes; quem se coroa de tuas flores, por baixo o lastimam os espinhos. Basta já de enganar-me contigo;
não queremos mais paz, nem de ti espero coisa que me satisfaça. Acima, coração; lá no Céu tens os bens verdadeiros
para que foste criado. A Terra não é senão lugar de trabalhos, de mudanças, de enfermidades, de mentiras, de
desgraças, ignorância, malícia e pecado, e tudo vem a parar na morte e em um incêndio universal, em que se há de
abrasar o mundo. Só quem o não conhece o estima.

9. Que sou eu a respeito da redondeza da Terra? Não aparece o meu ser. Que é a Terra comparada com o
Firmamento? Um pontosinho. Que é o Firmamento comparado com o Empíreo? Outro ponto. Que é o Empíreo
comparado com a imensidade divina? É como se não fôra. Logo, que serei eu na presença de Deus e que vulto terá o
meu ser diante da sua grandeza infinita? Sou nada e, se pudesse ser, menos que nada. Como se atreve o nada o
presumir de si diante do Infinito Ser?

10. Ó quão grande é este Senhor em tudo? Se premia, dá-se a si mesmo; se castiga, dá um Inferno para sempre; se
ama, oferece seu peito a uma lança e dá a beber seu Sangue e a comer seu Corpo. Toda a vida de um homem, que é
seu inimigo, lhe está esperando que se converta e por um Pesa-me se esquece de todas as suas injúrias. Abriu a mão
e semeou o Céu de estrelas; acenou ao mar e retirou-se, encolhendo as suas ondas; soprou na face do homem e
ficou à sua imagem. Com uma palavra sua, foi universo o que era nada e o poder todo do universo não pôde fazer
uma só aresta; com o madeiro de uma Cruz escalou o Inferno, matou a morte e resgatou o gênero humano.

11. Ó como é certo que as vitórias de Cristo são a confiança dos pecadores! Venceu Cristo o mundo, venceu o
Inferno, venceu a morte, venceu o pecado, e não poderá vencer-te a ti e fazer que venças tudo?

12. Deus é imenso; mete a Deus em teu coração e terás um coração imenso.

13. Caíste outra vez em tuas misérias antigas? Mais antigas são em Deus as suas misericórdias; e para vires a cair nas
suas misericórdias, permitiu Deus que caísses nas tuas misérias.

14. Que coisa são orações jaculatórias, com que se acompanha a presença de Deus, e como se exercitam? Pelo
exemplo da seta se entenderá melhor. Porque a seta é arma de longe, ligeira, pequena e penetrante, e que se atira
com força, e quem peleja com setas não usa de uma só, senão de muitas, que para isso tem guardadas na aljava.
Assim, estas orações devem ser breves, frequentes e fervorosas e sobem ao Céu com força a ferir o coração de Deus.

15. Oração (como todos sabem) é subida do espírito a Deus para tratar com ele amigável e familiarmente. Se é
subida, requer que o espírito não esteja pegado a coisas da Terra, que puxam por ele para baixo; se é trato com
Deus, requer que se retire uma pessoa (quanto seu estado lho permitir) do trato com as criaturas; e se é
comunicação amigável com o mesmo Deus, requer que a alma o não ofenda com pecados. Da pouca diligência, que
ordinariamente pomos em tirar estes impedimentos, se verá clara a razão porque não aproveitamos neste santo
exercício, ainda depois de frequentado por muitos anos.

Padre Manuel Bernardes nasceu em Lisboa, em 20 de agosto de 1644, e morreu em 17 de agosto de 1710.
Pertenceu à Congregação do Oratório de São Filipe Nery. Homem de vasta cultura e grande piedade, é tido como
um dos maiores escritores da língua portuguesa. Sua obra mais famosa é a Nova Floresta (em cinco volumes),
clássico da literatura portuguesa. Escreveu também Pão Partido em Pequeninos (1694), Luz e
Calor (1696), Exercícios Espirituais (1707), Sermões e Práticas (2 Volumes, 1711), Os Últimos Fins do
Homem (1726), Estímulo Prático para bem seguir o bem e fugir o mal (1730), e Armas da Castidade(1737).

https://opusmaterdei.blog/2018/06/12/pratica-da-oracao-mental-padre-manuel-bernardes/

167ª Nota - Reflexões sobre a formosura


De Diógenes, filósofo

Vendo um moço galhardo, mas de ruins costumes, disse: ‘As casas são formosas, mas o morador infame.’

REFLEXÃO

Arriscado é a este mal aquele bem: ‘Lis est cum forma magna pudicitia’ (Há grande luta entre a virtude e a
beleza. Ovídio) – porque está mui perto de ser vistoso o ser visto, e do ser visto o ser cobiçado; com que sucede aos
filhos de Eva entre si o que a ela sucedeu com a maçã: ‘Vidit mulier quod bonum esset lignum ad vescendum, et
pulchrum oculis, aspectuque delectabile, et tulit de fructu illius, et comedit’ (Viu a mulher que a árvore era boa para
comer, e formosa aos olhos, e deleitável à vista: e tirou do fruto dela, e comeu. – Gên. 3, 6). – Por isso disse
Tertuliano, que a formosura não a devemos acusar, porém devemo-la temer; acusar não, porque é favor da mão
divina; temer sim, porque é provocativo dos olhos humanos: ‘Et si accusandus decor non est, ut felicitas corporis, ut
divinae plastice accessio, ut animae aliqua vestis urbana: timendum tamen est, vel propter injuriam, et violentiam
spectatorum’ (Lib de Cultu Feminae).

De Apeles, célebre pintor

Vendo este que um de seus discípulos havia pintado a celebrada Helena com pouco primor quanto à formosura, e
com muito ornato quanto à riqueza, disse-lhe: ‘Mancebo, sabeis vós por que a pintastes tão rica? Porque a não
soubestes pintar formosa.’

ANALOGIA E INVECTIVA

O que este aprendiz fez neste quadro, para cobrir a falta de arte, fazem muitas com sua pessoa, para cobrir as faltas
da natureza; querem remir a sua fealdade à custa do alinho curioso e do precioso ornato; ‘Quibus de proprio non
inest decor – disse São Bernardo – aliunde necesse est ut mendicent, unde se speciosas mentiantur’ (Serm. 41 in
Cant). – Porque a Esposa de Salomão não era assim, disse este dela, que ‘collum tuum sicut monilia’ (Cânt 1,9): A
vossa garganta é como as gargantilhas. – Isto é: muito bem pode escusar o adorno delas, pois, o favor da natureza
antecipou a necessidade de formosura emprestada.

Também se pode aplicar esta sentença de Apeles – sublimando mais o sentido dela – aos pregadores amigos de
adornar os seus sermões com descrições poéticas, palavras cultas e seletas, conceitos de filigrana, delicados e
reluzentes, questões escolásticas e outros enfeites semelhantes. Sabe, padre, por que se vale destas coisas para
compor um sermão? Porque lhe falta cabedal e juízo para o compor de Escrituras Divinas bem aplicadas, sentenças
dos santos padres, exortações nervosas, colóquios cheios de fervor espiritual, e casos de doutrina exemplar. Pinta a
Helena rica, porque a não sabe pintar formosa, ou, para dizermos o certo, nem formosa nem rica a pinta, porque
todo esse ornato falso é missanga, que agrada a pretinhos, e não pedraria fina, cujo valor estima quem lhe conhece
os fundos. Helena finge que nasceu de um ovo descido do céu; estoutras, que os pregadores da moda pintam, sem
ficção podemos presumir que nascem de ovos subidos do inferno, porque estes pregadores, com a laboriosa
incubação de seus estudos, o que chocam não é mais que apetite de glória própria, ou interesse temporal, que são
os ovos que os demônios – inimigos do fruto da palavra de Deus – tinham posto e aninhado nos seus corações; e
neste aplicar-se com fadiga para sair com coisa de que Deus se ofende, se verifica o que disse Isaías: ‘Loquuntur
vanitates, conceperunt laborem, et pepererunt iniquitatem: ova aspidum ruperunt’ (Falam vaidades, conceberam o
trabalho, e pariram a iniquidade; eles romperam ovos de áspides – Is 59, 4s).

De Aristóteles

Perguntou um a este filósofo por que razão as coisas formosas se amavam? Respondeu: Essa pergunta é de cego.

RACIOCÍNIO

Claro está que o objeto do amor é a bondade; e a formosura não é outra coisa que a flor da bondade, como lhe
chamou Marsílio Ficino: ‘Florem bonitatis’ (In Plutonis Syxposium); e outros lhe chamam ‘Escam boni’: a isca do bem.
Nesta isca, pois, prendem as cintilas do afeto, que estão saltando do coração humano; e, assim, dizer o filósofo essa
pergunta é de cego era o mesmo que dizer-lhe: Ou tu careces da vista corporal, ou da do entendimento, porque ou
não ves que a formosura é boa, ou não alcanças que a bondade tem consenso com a nossa vontade, assim como a
verdade o tem com o nosso entendimento. Mas, se alguém pergunta em que consiste este consenso, parece que
satisfaz o padre Eusébio, dizendo: ‘Sunt in pulchris, et musicis lineamenta rationis, cujus dos, et gloria est ordinare
omnia: Constant illa ordine, et proportione ob istam mentis umbram plus delectant, gratis diu sapiunt originem
suam... Igitur rationis beneficium est quidquid deletat (Euse. Nieremberg., lib. 5 de Are volunt., c. 16): Há na
formosura e na música certos lineamentos ou debuxo da razão cujo ofício e louvor é pôr em sua conta todas as
coisas; e, como a formosura e a música constam de ordem e proporção, por esta sombra do racional deleitam mais
ao homem, pois neles sente oculto parentesco, e lhe sabem à sua origem; assim que tudo o que deleita é por
benefício da razão.

(Padre Manuel Bernardes, 1644-1710, excerto de “Nova Floresta”, volume VIII)


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Proezas portuguesas contra os mouros


No tempo de el-rei Afonso II foram vencidos em Salácia (Alcácer do Sal) mais de 60.000 mouros.

E na célebre batalha do Salado, em que el-rei D. Afonso IV de Portugal ajudou nervosamente a el-rei de Castela,
morreram 200.000, pelo cômputo mais escasso.

Reinando D. Afonso V, cercou el-rei de Fez a Alcácer Ceguere, com 30.000 cavalos e inumeráveis de pé, mas saindo
de dentro pouco mais de 30 cavaleiros portugueses, mataram tantos que os outros, com medo, levantaram o cerco.

A mesma felicidade se viu na tomada de Ceuta em tempo de el-rei Dom João I, e nas de Arzila e Tânger em tempo do
dito D. Afonso V, e nos famosos sítios que sustentaram nossos capitães nestas praças, e na de Mozagão, e nas de
Diu, Calecute, Chaul, Columbo, Cananor, Cochim, Malaca, contra mui poderosos inimigos.

No cerco de Diu, que sustentou o grande capitão Antônio da Silveira, sendo Fernão Penteado ferido gravemente na
cabeça, foi ao cirurgião para que o curasse.

E achando-o ocupado na cura de outros, enquanto aguardava a sua vez, ouviu estrondo de um rebate que os turcos
davam.

Não lhe sofrendo o coração não se achar nele, correu àquela parte onde, envolvido na refrega, ganhou segunda
ferida grave na cabeça.

Com que apertado, tornou ao cirurgião, a quem achou ainda mais ocupado que antes.

E como neste tempo os turcos apertassem muito com os nossos, ele tornou a acudir com grande alvoroço, onde
recebeu terceira cutilada no braço direito; e veio curar-se de todas três.

De sorte que assim ia este soldado buscar mais feridas, como se, achando o cirurgião ocioso, quisesse dar-lhe em
que se ocupar, e mais falta fazia ao seu natural a briga do que à sua cabeça o sangue, querendo antes ferir-se
depressa do que curar-se devagar.

A tarântula, ainda depois de esmagada, salta, se lhe tangem; este animoso guerreiro, ainda rota a cabeça, pulava se
ouvia estrondos militares, porque eram música para ele.

No mesmo cerco, outro português, cujo nome se lhe não sabe, acabando-se-lhe as balas e não tendo à mão com que
carregar o mosquete, abalou e arrancou um dente.

Usando-o como bala, fez o tiro e acertou em um turco, para o qual não foi favo doce, senão bocado amargoso, isto
que saiu da boca deste leão.

Adaptara na boca do mosquete o dente da sua, mandando-lhe que mordesse ao longe, já que não podia de perto.

Outros muitos casos semelhantes omito, porque ao meu intuito bastam os referidos.

Agora o que esperamos é que a última e total ruína do império otomano se deva também, por eleição divina, às
armas portuguesas, conforme os mesmos mouros temem e se diz terem disso tradição antiga (Veja-se Sebastião de
Paiva, na sua "Monarquia").

(Autor: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

O Dedo de Deus Está Aqui (Êxod. 8, 19; 31, 18; Salm. 8, 3; Luc. 11, 20)
A Prodigiosa Menina Teresinha de Jesus1

Pareceu-me oportuno dar aqui ao leitor alguma sumária notícia das crescidas virtudes desta prodigiosa
menina.2 Nasceu, a 6 de Outubro de 1622, na cidade de Sanlúcar de Barrameda (Cádis-Andaluzia-Espanha), situada
onde o rio Quadalquivir deságua no Oceano (Atlântico). Foi filha de Francisco Henriques, piloto, e de sua mulher
Maria Urbina. Consagrou as primícias da sua língua, pronunciando distintamente:3 Padre, Filho e Espírito Santo, três
Pessoas realmente distintas, e um só Deus verdadeiro; tinha então 21 meses, e o rosto lhe resplandecia. Pouco
depois de cumprir dois anos, querendo-lhe mudar o nome no de Maria, repugnou, dizendo que não merecia nome
tão soberano. Nesta mesma idade tomou um livro espiritual e leu com devoção e destreza, posta de joelhos, sem a
terem ensinado. Aos vinte e dois meses, pediu o Hábito das Descalças Mercenárias, e lho deu publicamente na igreja
o Padre Fr. Francisco da Cruz, fazendo-lhe primeiro uma prática espiritual. Desde então, guardou a Regra, quanto em
si era e lhe permitiam: dormia sobre tábuas nuas, com um ladrilho por cabeceira, cortava o cabelo, usava de sacos,
fazia Oração Mental duas horas por dia, ou prostrada ou de joelhos. Às Sextas-feiras, disciplina inviolavelmente;
jejum além das Sextas-feiras, também aos Sábados, e todas as Vésperas de Nossa Senhora, e dos Santos seus
advogados. Apertava na cabeça uma coroa de espinhos; observava grande modéstia e composição nas ações; não
consentia afagos nem abraços, ainda de seus irmãos e pais; a estes chamava irmãozinhos; só para Deus e Maria
Santíssima Senhora nossa, guardava os nomes de pai e mãe.4Tinha consigo, na sua pobre cama, uma imagem de
talha do Menino Jesus. Entrando na igreja, prostrava-se, adorando o Santíssimo; e, tomando da Água Benta, dirigia-
se diretamente para o Altar-mor, onde persistia imóvel junto do acólito, ouvindo duas a três Missas de joelhos, com
tal atenção que, entrando na igreja uma dança de ciganos, com muitos rapazes que faziam alvoroço, não voltou a
cabeça para olhar; ainda, então, apenas passava dos três anos e meio. A um menino, que tremia de frio, disse
compassiva: De que lloras, mi alma? Tienes frio? Anda aca a la iglesia, y te aclentarás, que alla me caliento yo.5 A
uma pejada (grávida), que temia o parto, disse que pariria a um menino na Sexta-Feira; e tudo se cumpriu assim.
Outras muitas coisas profetizou. Na doença de que morreu, sendo-lhe a água proibida pelo médico, e Padre
espiritual, ela nem olhava para onde facilmente poderia tomá-la, não obstante que se abrasava de sede.
Encontrando na rua a um Sacerdote, que ia com passo acelerado, ajoelhou e pôs as mãos levantadas, dizendo a uma
sua irmã e outras meninas, que com ela iam ouvir Missa, que fizessem o mesmo. E, perguntando elas: para que
haviam de ajoelhar no meio da rua? Replicou: Não vedes que vai ali o Santíssimo Sacramento? Deram parte do
sucedido; chamado o clérigo e perguntado se levava o Santíssimo oculto para algum moribundo? Respondeu que
não.6 Porém, que acabando de dizer Missa, saíra com pressa, por urgência de um negócio. Daqui se ficou
entendendo, que o Senhor mostrara a Teresa as espécies Eucarísticas que se conservavam ainda no peito daquele
Sacerdote. E resultou deste caso, emendarem-se muitos que não davam graças depois de celebrar, e ordenou o
duque de Medina Sidônia, D. Manuel Alonso Teles de Gusmão, que não saísse o Viático aos enfermos sem toda a
pompa eclesiástica; e ele mesmo o acompanhava sempre, ainda que saísse 10 vezes no dia. Com ser tanta a pureza e
discrição desta alma, e a devoção que tinha ao Santíssimo Sacramento, não lhe concederam licença para O receber,
nem por Viático, atendendo ao reparo público que podia originar-se desta singularidade, porque ela não passava de
5 anos, 1 mês e 17 dias: breve esfera para tantos giros do sol de suas luminosas virtudes. Porém, assim como há
pecadores de cem anos, que morrem meninos, isto é, carentes de virtudes, que são os anos do espírito, conforme
aquilo de Isaías: Puer centum annorum morietur, et peccator centum annorum maledictus erit,7 assim, há meninos
que morrem como santos de cem anos, cheios de dons e merecimentos.8 Esta arvorezinha anã carregou de frutos
temporãos; colheu-os o Senhor dela, porque eram do seu gosto, como se dissesse pelo seu Profeta: Praecoquas ficus
desideravit anima mea.9

Fonte: Ven. Pe. Manuel Bernardes, Orat., “Nova Floresta ou Silva de vários Apoftegmas e Ditos sentenciosos,
Espirituais e Morais, com Reflexões em que o útil da Doutrina se alia com o vário da Erudição, assim Divina como
Humana”, Tom. V, Letra “E”, Título II - “Esperança”, Cap. XXI, pp. 22-29; Nova Edição com Preâmbulo de J. Pereira de
Sampaio (Bruno), Livraria Lello & Irmão – Editores, Porto – Aillaud & Lellos, Ltda, Lisboa, 1949.

1Não é a Doutora da Igreja, mas sim, um exemplo do poder de Deus.

2Fr. João da Apresentação, no livrinho que compôs da sua vida.

3Prov. VIII, 6.

4Mat. XXIII, 9.

5Salm. XXXVIII, 4.

6Cânt. XXIX: En ipse stat post parietem nostrum.

7Is. LXV, 20.

8Salm. CXIII, 13: Benedixit omnibus, qui timent Dominum; pusillis cum maioribus.
9Miq. VII, 1.

Sinônimos Morais
Espírito meu: eu ando em uma região desconhecida, onde não sei bem os nomes das coisas, como José quando
entrou no Egito, Linguam, quam non noverat, audivit1; ou como na confusão das línguas em Babel, ninguém
entendia a voz de seu próximo: Ut non audiat unusquisque vocem proximi sui2. Dá-me, te rogo, alguma luz nesta
matéria, apontando-me alguns principais vocábulos, os sinônimos, que gerem em meu entendimento notícia mais
proveitosa.

Que coisa é o homem neste mundo? Comediante no tablado; hóspede na estalagem; uma candeia exposta ao
vento; fábula de calamidade; padecente caminhando para o suplício.

Que coisa é o nosso corpo? Espada do Diabo, porque com ele peleja de perto; e o mundo é a sua lança, porque com
ele peleja de longe.

Que é este nosso corpo? Escravo fugitivo; esterquilínio coberto de neve; lepra, e pedaço de telha juntamente,
porque a si se raspa; casa em perpétuas dissensões; antípoda da alma; pedinte soberbo.

Que é a língua humana? Feira de maldades; fera indomável; risco doméstico e contínuo.

Que coisa é a nossa alma? Faísca do lume incriado; selo da forma Divina; pupilas espirituais para ver, e, admirar os
espetáculos invisíveis e eternos.

Que é o mundo? Hospital de doidos; aparência e jogo de títeres; casa cheia de fumo.

Que é o mundo? Inferno breve sobre a terra; ilha dos degradados; telheiro onde se lavram as pedras do templo vivo
de Deus.

Que são as honras e dignidades? Eça Real: por fora brasões, telas e luzes; por dentro ripas de pinho e lixo.

Que é a nobreza? Riquezas já de mais longe.

Que é o ouro e a prata? Atrativo das invejas; fadiga dos néscios; defunto nobre no túmulo dos cofres; sangue do
corpo da República, que anda em movimento circular; conselheiro de insolências; peste do espírito Evangélico.

Qual é o homem que não tem o mesmo que tem? O avarento; e qual o que lhe fica o mesmo que largar? O liberal.

Que é a formosura humana? Letra boa no sobrescrito; estímulo da soberba conjugal; irrisão dos anos; pecado em
flor, que as mais das vezes vinga.

Que são as galas e enfeites? Armação para as festas de Vênus; funeral do siso e modéstia; desnudez e fealdade da
alma.

Que são os convites magníficos? Vésperas solenes da doença; aposentador da luxúria; sacrifícios ao deus ventre.

Que é a prosperidade? Esquecimento de Deus.

Que é a tentação? Crivo para separar o grão da terra; salmoura para não se corromperem no homem os dons de
Deus; janela para entrar a luz do conhecimento próprio.

Qual é a coisa, que o homem mais trata e menos conhece? Ele próprio. E qual a que sempre nos mente e sempre a
cremos? O nosso amor-próprio.

Que é o pecado? Morte da alma; verdadeiro mal; semente de desgraças; incêndio invisível; consolação dos
Demônios.

Que atalho é mais breve para a ruína? A ocasião. E qual é a maior segurança para não cair? Não assegurar-se.

Como se faz o homem bom? Sujeitando-se a Deus. E por que não se lhe sujeita?Porque O não ama e teme.
Por que há na terra tão pouco amor de Deus? Por que há pouca fé? E por que a fé é tão pouca? Porque milita
contra ela o sentido, que se abraça com as coisas presentes e sensíveis, que apagam a memória das insensíveis e
futuras.

Que é a morte? Filha do pecado; terror dos ímpios; suspiro dos Santos; sumidouro de homens. Que é a
morte? Herança do primeiro pai; transação de pleitos.

Que é o Inferno? Reino da morte viva; perpetuidade da culpa; braço esquerdo da balança do Juiz Supremo. Que é o
Inferno? Gemido sem pausa; dor inconsolável; sepultura dos abortivos; confusão dos ingratos.

Como se escapa do Inferno? Seguindo a Cristo. Como se segue a Cristo? Abraçando a Cruz. Como se abraça a
Cruz? Aborrecendo-se a si próprio.

Que é a Cruz? Cetro do Rei da Glória; mastro real na Nave da Igreja; estandarte da espiritual milícia.

Que coisa é Deus? Não tem definição. Que coisa é Deus? Quem mais O amar, mais saberá o que é.

Oh Deus, e Senhor meu! Por Vossa infinita bondade Vos rogo humildemente, me concedais que Vos ame de todo o
coração. Ame-Vos eu, Senhor, para que despreze o mundo, mortifique o meu corpo, e abomine o pecado. Ame-Vos
eu, Senhor, de todo coração, para que me sujeite a Vossa vontade, abrace a Vossa Cruz, e purifique a minha alma.
Ame-Vos eu, Senhor, com todas as forças da minha alma, para que não tema a morte nem o Inferno, e conserve
sempre viva a luz da Fé e de Vossa graça, e, ultimamente, chegue a lograr a de Vossa glória. Amém.

Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, Orat., “Luz e Calor”, 2ª Parte, Opúsculo IV, Solilóquio IV, nn. 371-372, pp. 416-
418; Nova Edição, Lisboa, 1871.

_________________

1Salmo 80, 6.

2Gên. 11, 7.

Cântico dos Louvores da Mãe admirável MARIA Santíssima Senhora Nossa


Louvai obras do Senhor a Senhora: porque Ela é a mais nobre, a mais excelente e perfeita obra do Senhor.

Louvai Sol e Lua a Senhora: porque a Senhora é escolhida como Sol e formosa como a Lua.

Louvai estrelas do Firmamento a Senhora: porque Ela é a radiante Estrela, que guia os navegantes do mar deste
século.

Louvai nuvens do Senhor a Senhora: porque Ela é a Nuvem leve, em que desceu a nós o Verbo de Deus humanado.

Louvai orvalhos da manhã a Senhora: porque Ela é o Velo de Gedeão, que embebeu o celeste orvalho do Divino
Verbo.

Louvai neves e geadas a Senhora: porque o candor de Sua pureza, é o refrigério dos incentivos de nossa carne.

Louvai raios e relâmpagos a Senhora: porque Ela é o resplendor claríssimo e eficacíssimo da luz da Divina Graça.

Louvai todas as fontes e mares do Senhor a Senhora: porque a Senhora é Fonte fechada com o selo de Deus, é o
Poço de águas-vivas e o Mar de todas as Graças juntas.

Louvai plantas e flores do campo a Senhora: porque Ela é a Rosa de Jericó, o Lírio entre espinhos, a Palma de Cades,
o Cedro do Líbano, a Árvore da Vida, que nos produziu o Fruto felicíssimo da vida eterna.

Louvai montes do Senhor a Senhora: porque a Senhora é o Monte Santo de Sião, onde se fundou o Templo Vivo da
Humanidade de Cristo.

Louvai meninos inocentes a Senhora: porque de Seu intacto ventre se dignou Deus nascer Menino, para nos restituir
à primeira inocência.
Louvai Sacerdotes do Senhor a Senhora: pois Ela foi a grande Sacerdotisa, que em Suas mãos tomou e ofereceu a
Hóstia Viva e perene Sacrifício, que tira os pecados do mundo.

Louvai Profetas do Senhor a Senhora: porque Ela é a profetizada Profetisa, a quem chegou o Espírito Santo com Sua
sombra, para conceber o Rei que tem por nome Apressa-te a vencer e despojar teus inimigos.

Louvai Mártires do Senhor a Senhora: porque Ela foi mais que Mártir, não só de Cristo, como vós o foste; mas no
mesmo Cristo, cuja Cruz a crucificava.

Louvai Virgens do Senhor a MARIA: porque MARIA é da Virgindade a forma, a glória e o Magistério: inteira sem
esterilidade, fértil sem lavoura e grávida sem gravame.

Todos os Santos, todos os Espíritos Bem-aventurados, todas as Criaturas do Céu e da terra, louvem, exaltem e
magnifiquem a MARIA: porque MARIA é a digníssima Rainha e, absoluta Senhora dos Anjos e de todas as criaturas.

Glória a Deus Pai, de quem MARIA é Filha primogênita; glória a Deus Filho, de quem MARIA é Mãe verdadeira; glória
a Deus Espírito Santo, de quem MARIA é Esposa escolhida; glória à Beatíssima TRINDADE, de quem MARIA é Sacrário
animado. Agora, e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Oh, quem me dera ter estampada no fundo íntimo de minha alma, alguma imagem, alguma sombra ou vestígio da
excelentíssima formosura desta grande Senhora! Oh, se por graciosa dignação da mesma Senhora, me acontecesse a
ventura de lograr, ao menos por um abrir e fechar de olhos, Sua amabilíssima presença! Ou de ouvir o metal
suavíssimo de Sua voz! Ou de ver o ar e majestade dos formosíssimos passos desta Filha do Príncipe! Gloriosíssimo
Arcanjo São Gabriel, a quem coube a dita de ser Embaixador do Altíssimo a esta soberana e puríssima Donzela, e
Paraninfo dos Desposórios entre o Verbo de Deus e a Natureza humana: dai-me (vos rogo pelo singular amor e
reverência, que a esta Senhora tendes), dai-me a sentir e estimar dentro de minha alma, alguma partezinha do
muito que conheceis de Suas perfeições, graças e excelências. Quando entrastes em Nazaré, no Seu aposento, e A
saudastes por cheia de graça, dizei-me, admirou-vos Sua modéstia? Acendeu-vos Sua caridade? Recendeu-vos Sua
pureza? Agradou-vos Sua turbação humilde? Sua prudência, Sua fé, e Sua obediência suspenderam-vos? Aqueles
séculos imensos de virtude em quatorze anos de idade, por ventura não estavam graciosíssimos e poderosos para
atrair a Si toda a Beatíssima Trindade? Que sentiu (dizei-me) Sua bendita Alma, quando conheceu que era escolhida
para verdadeira Mãe de Seu Criador; e isto sem dispêndio de Sua virginal inteireza? Oh, maravilhas inefáveis do
Altíssimo! Oh, Obra digna do braço do Onipotente! Se este Senhor é admirável em Seus Santos; na que é Rainha e
Senhora de Todos os Santos, quanto será admirável? Ó MARIA Santíssima, dulcíssima, preciosíssima, piedosíssima.
Mãe de meu Senhor Jesus Cristo, honra do Gênero Humano, glória, refúgio e amparo certo de toda a Igreja Católica;
a Vós aponto as setas do meu arco; porque a Vós dirijo as ânsias e desejos de meu coração. Desejo servi-Vos, desejo
imitar-Vos, desejo ser agradecido aos inumeráveis benefícios, que por Vossa mão tenho recebido de Vosso
benditíssimo Filho: desejo, e de todo o meu coração o desejo, ver-Vos e louvar-Vos. Oh, que dita; oh, que
extraordinária felicidade seria a minha, se a graça de Vosso Filho e meu Senhor Jesus Cristo, me fizesse digno de
seguir de algum modo Vossos acertados caminhos, e copiar em minha alma, alguma, ainda que leve, sombra de
Vossas excelentíssimas virtudes! Oh, se o servo pudesse ser agradável e aceito aos olhos de Sua Senhora! E, oh, se os
piedosos e puríssimos olhos de minha Senhora, se me descobrissem ao menos por um ligeiro instante, dispensando
Sua dignação com minha indignidade!

Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, “Luz e Calor”, 2ª Parte, Opúsculo IV, Solilóquio XXII, Pontos 402-403,
pp. 453-455; Nova Edição, Lisboa, 1871

Contemplação do Amor e da Dor, em Nosso Senhor Jesus Cristo.


Subida ao Monte da Mirra, ou,

Contemplação das Penas de Jesus.

Subamos, alma minha, ao outeiro do incenso, e monte da mirra; que temos ali muito que admirar, muito que
aprender. Vamos, digo, ao Calvário com os passos da consideração, e afeto. Este, verdadeiramente, é o outeiro do
incenso; pois ali sobre vivas brasas do amor, no altar da Cruz ardeu, e se consumiu a vida de meu Senhor Jesus
Cristo, para exalar ao Céu a fragrância do Sacrifício, que aplacou a ira Divina. Este, verdadeiramente, é também o
monte da mirra; porque se esta significa o amargoso da mortificação, e o penoso da morte: ali provou estas
amarguras, e passou por estas penas, O que é a nossa consolação e a nossa vida

Oh, que estranho espetáculo é este, que a meus olhos se oferece! O Filho de Deus Humanado, o Rei da Glória, o que
é a Cabeça de todos os Anjos e homens, e absoluto Senhor de todo o criado, crucificado e morto em um lenho
infame, entre dois insignes malfeitores. Vê, e repara bem, como tem a Cabeça coroada de espinhos, os cabelos feitos
pastas de sangue, os olhos fechados com o pesado sono da morte, as faces tumorosas com os golpes e bofetadas, e
cobertas de sangue e salivas; a língua está seca, os lábios denegridos, a boca meio aberta, como que acaba de
espirar, o peito levantado, o ventre exausto e consumido, o lado rasgado às violências de uma cruel lança, os nervos
estendidos com quanto força pode a malícia e crueldade dos algozes, os ossos deslocados, que se podiam contar, as
mãos e os pés desgarrados e fixos com duros cravos, todos os seus membros ignominiosamente despidos e
expostos, à vista de inumerável povo, e de seus êmulos mofadores: e, finalmente, ao pé da Cruz a lastimada MÃE
MARIA, inocentíssima, feita um mar imenso de amarguras, e um epílogo de todas as penas e tormentos de Seu
amado Filho.

Que figura sem figura é esta, tão nova e prodigiosa? Não sabes, alma minha? É a figura do Amor Divino. Quis Deus
formar uma estátua, ou retrato perfeito do Seu Amor: e deste modo o formou. Contempla atentamente e verás,
como não há espaço, ou parte mínima em toda esta figura, que não esteja cheia de Mistérios e perfeições do Amor.
O Amor é dadivoso e magnífico. Que maior dádiva, que dar-me Deus a Seu Filho Unigênito, e com Ele dar-me o Seu
Corpo e Alma, Sua Honra e Vida, Seus Merecimentos e Exemplos, Sua Graça e Glória? O Amor iguala e assemelha os
extremos por desiguais, e mui distantes que sejam. Aqui o Filho de Deus se abateu a parecer pecador, para levantar
os pecadores a ser filhos de Deus. O Amor despreza penas e tormentos, por remediar e fazer bem ao amado. Que
tormentos e penas não tomou sobre Si nosso Salvador, para nos livrar da morte do pecado, e comunicarmos a vida
de Sua graça?

Mais. O Amor é sumamente ativo, como o fogo: faz muito em breve tempo. Em poucas horas de Sua Paixão sagrada,
concluiu o Filho de Deus, o Mistério da Redenção do mundo, e alcançou aquelas três gloriosíssimas vitórias, do
pecado, da morte e do Inferno, e franqueou o Reino dos Céus a todos os filhos de Adão, que quisessem aproveitar-se
de Seu Sangue: e consumou tudo o que dEle estava profetizado nas Escrituras. O Amor tem grandes seios, onde
cabem até os ingratos; dilatado bojo onde se digerem gravíssimas ofensas. Cristo na Cruz tem os braços estendidos
quanto pode, para recolher e abraçar a todo o Gênero Humano: ora, pelos mesmos que O crucificaram, acha
desculpa ao seu pecado: Pater dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.1 O Amor dá bem por mal, em competência
do ódio, ira e ingratidão, que costumam dar mal por bem. Do lado de JESUS lanceado saíram os Sacramentos de
nossa Religião Cristã, e a luz, que na alma e no corpo iluminou ao mesmo ímpio soldado que O ferira. O Amor é
constante no que empreende. JESUS uma vez elevado no altar da Cruz, para nela ser sacrificado, não quis descer,
ainda que pudesse, por mais que seus inimigos com suas línguas mordazes O irritaram. O Amor faz estimação dos
opróbrios padecidos pelo amado. JESUS teceu de nossos espinhos a Sua coroa; e a Cruz, que era o opróbrio das
gentes, tomou por cetro do Seu Reino. O Amor não é interesseiro. JESUS, o que de nós pretende em nos amar, é
livrar-nos da perdição eterna, e conduzir-nos à eterna felicidade. O Amor permanece, e aumenta com as mesmas
tribulações. JESUS havendo-nos amado desde o princípio, para o fim, nos amou mais e nos ama sem fim: Cum
dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.2

Ó figura viva do Amor Divino estampada no Filho de Deus morto! Quem Te imprimirá profundamente na minha
alma! Ó meu JESUS amorosíssimo! Quem saberia conhecer, estimar e corresponder a tanto amor! Ó meu Salvador
Crucificado! Quem teria a glória de ser crucificado também Convosco! Ó Soberano Rei da Glória, por meus pecados
expostos à maior confusão; por minha causa reputado, não por Deus, nem ainda por homem, mas por bichinho
vilíssimo da terra:Ego vermis, et non homo; por réprobo e malvado, e feito irrisão do povo e opróbrio das gentes?
Verdadeiramente, Vossa caridade é incompreensível: verdadeiramente, Vossas misericórdias não tem número.
Amor, que entrega o Filho à morte, para dar vida ao servo: Amor, que condena a inocência, para perdoar à maldade,
não tem em todos os entendimentos criados, regra por onde se meça, nem razão por onde se defina.

Que graças e louvores não Vos daremos; pois tanto a Vossa custa nos livrastes da morte eterna? Como, Senhor, serei
ainda tão ingrato; que me esqueça de Vosso Amor, que Vos ofenda, que despreze Vosso Sangue, que torne com
meus pecados a Vos crucificar? Muito me amastes, meu JESUS! Quem me dirá agora, a razão de amar eu tão pouco,
ou totalmente não amar a quem tanto me amou? Ninguém pode dar razão alguma do que é suma sem-razão.
Senhor: nenhuma razão tenho, de não Vos amar mais que tudo, e de não deixar de amar tudo, só para amar a Vós
unicamente. Oh, meu dulcíssimo Salvador! Nenhuma razão tenho de não Vos amar de todo coração: e mais, quando
este mesmo amor, que Vos devo, e me pedis, Vós mesmo mo dais, se eu o quiser receber; e para que
mo pudésseis dar, e eu o quisesse receber, morrestes nessa Cruz. Quando eu me via tão pobre do Vosso Amor,
costumava recorrer a pedir-Vos que mo desses. Já agora, nem de vo-lo pedir, me fica muito lugar; pois quem rejeita
o que lhe dão, claro é que não deseja muito o que pede. Dai-me, que saiba eu pedir o que desejo, e aceitar o que
peço. Ame-Vos eu, Senhor, senão como Vós mereceis ser de mim amado (que isso é impossível), ao menos como,
com a Vossa graça posso amar-Vos. Ame eu, Senhor, as Vossas penas, dores, desprezos e desamparos: e nunca,
jamais, me glorie em coisa alguma fora de Vossa Cruz. Fazei-me, ó meu JESUS Crucificado, fazei-me, Vos peço,
semelhante a Vós: imitador das excelentíssimas virtudes, que dessa cadeira da Cruz me estais ensinando. Quero,
Senhor, por Vosso Amor e glória, ser pobre, ser desprezado, ser obediente até a morte; ser benigno com meus
adversários, ser perseguido e caluniado pelos mesmos, a quem fizerdes bem por meio de mim. Quero morrer por
Vosso Amor; pois Vós por meu amor morrestes. Pesa-me dentro da alma, Vos haver ofendido, sendo Vós a mesma
bondade infinita. Confesso diante do Céu e da terra, que fiz o mal: confesso minha culpa. Mas, confiado em Vossa
misericórdia e na virtude e eficácia de Vosso Sangue, assento e proponho firmemente, de emendar a vida e tomar
daqui por diante, por regra dela, Vossa santíssima vontade. Ponde, Senhor, nesta minha determinação o selo de
Vossa graça, para que fique confirmada: e fazei em mim, não como minhas ingratidões merecem, senão conforme
Vossa grande misericórdia. Amém.

Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardes, Orat., “Luz e Calor”, Segunda Parte, Opúsculo IV, Solilóquio XIII, Art., 387, pp.
434-437. Nova Edição; Lisboa, 1871.

Alumiar os que erram


Ao arcebispo de Granada, disse um criado seu, palavras pesadas, descomedindo-se com ele com maior liberdade do
que se podia esperar da dignidade de um e ofício de outro. O bom prelado esteve muito em si, sem responder-lhe; e
quando o viu partir, colérico, de sua presença, pegou do castiçal e o foi alumiando pela escada abaixo.

– Que faz Vossa Senhoria? Aonde vai? – disse o criado, assustando-se com aquela acção de humildade.

Respondeu o prelado:

– A fazer o meu ofício, que é alumiar os que erram.

Ficou o criado confundido; e prostrando-se a seus pés, lhe pediu perdão.

Pe. Manuel Bernardes in «Nova Floresta», 1706.

Gemidos da alma penitente - jaculatórias do pe. Manuel Bernardes


PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes:
“Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por
mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos —
entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção,
escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes;
Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte,
para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo.
Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem,
que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os
Sermões e Práticas, os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos Dias do Homem, os Tratados
Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor
e a Nova Floresta. Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou
de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

OPÚSCULO V

ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das
Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória
do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as
fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa,
Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que
as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o
coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor
achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas
coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.

1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES

DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir
o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de
vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de
todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos
ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não
necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos
demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e
misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de
meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais
pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia
morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.
Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-
me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a
vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados.

DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil
cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias
de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não
compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior
cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que
te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência,
costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de
lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!

Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos
os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por
aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de
vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós
ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada
um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as
penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste
salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?

DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis
às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti
de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso
dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-
me por quem sois.
Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite
falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos!
Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto
devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia,
amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de
vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços
de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um
perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais,
Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido
para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!

DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de
vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava
morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora
conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não
conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando
Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida;
tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora
demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito
na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos
eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós,
Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-
o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de
fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande
temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.
Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se
somente fizera estimação das eternas!
Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um
coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.

DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me
atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los
benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são
envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis
o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite
cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades;
submergi-as no mar de vossa bondade imensa.

Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê
quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a
vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda
maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho
com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da
Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da
alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo,
meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.

Fonte: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1376

Os frutos da soledade da Virgem Mãe de Deus


Considera a soledade profundíssima da Virgem Mãe, quando, deixando sepultado o Corpo de seu diletíssimo Filho, e
Filho que era juntamente pai e esposo das sua alma, se retirou a acompanhar-se só com as dolorosíssimas memórias
de sua Paixão sagrada.

Entre essas dolorosíssimas memórias, quando, o Senhor desposto da Cruz, e sentada a Virgem ao pé dela,
entregaram-lhe nos braços e contemplou de mais perto aquele estrago de penas, espetáculo de horrores e mar de
mistérios. Quem poderia aqui (se souber contemplar esse passo) deixar ou de perigar na vida, ou ao mesmos de
suspender-se em pasmo?

Colhe e recapacita os seguintes frutos, não te esquecendo de ir fiada na graça de Deus, que é só quem pode
converter e reformar o coração humano, e de que a ciência do espírito não é especulativa, senão prática, e por isso,
se faltamos ao exercício das suas lições, nunca se aprende.

Primeiro: louvar a Deus, que tão compassiva e poderosa Mãe de misericórdia foi servido dar-nos em Maria
Santíssima.
Segundo: agradecer a esta soberana Senhora o haver suprido por nós perfeitamente o espírito de compaixão, e de
graças, e oferecimento, que devíamos à Paixão de seu Bendito Filho.

Terceiro: aborrecer de todo coração o pecado e o amor carnal e mundano, que deram causa às penas de Cristo e da
Virgem, e malogram os seus frutos.

Quarto: amar o retiro e silêncio, e meditação na Paixão do Senhor, que geram o seguro e sólido espírito de oração e
mortificação.

Quinto: observar geral caridade com todos os próximos, ainda inimigos e perseguidores, e, particularmente, consolar
os tristes e atribulados.

Fonte: Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa. Pe. Manuel Bernardes. Ed.
Pinus, Brasília, 2010. pp.199-200.

http://formosuradocarmelo.blogspot.com.br/2014/04/os-frutos-da-soledade-da-virgem-mae-de.html

Para escapar dos laços do demônio – Pe. Manuel Bernardes


VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador

1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e
evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias
de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer
demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de
um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine
spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum
invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non
introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder,
fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é
conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.

2. Para escapar dos laços do demônio uma alma que trata da perfeição, e a quem ele não tenta senão com capa do
seu bem, é necessário observar essas três cautelas: 1a. Que em tudo quanto lhe for possível se governe pela
obediência dos Superiores, supondo nele o mesmo Cristo; ou ao menos pelo conselho de quem lho pode dar
acertado 2a. Que de coração procure sempre humilhar-se no pensamento, palavra e obra; folgando que lhe
anteponham a todos em todas as coisas e mais as daquele que menos lhe cai em graça; 3a. Que na direção interior e
exterior do exercício de Oração, e dos mais fora dela, siga antes o norte e luz da Fé, que o da razão; nem faça
fundamento algum em consolações sensíveis, ou apreensões imaginárias.

3. Três modos de locução tem o homem: dois interiores e um exterior. O primeiro se forma no entendimento, que é
potência espiritual, com espécies inteligíveis, que concorrem com o mesmo entendimento para produzir-se o
conceito. O segundo se forma na fantasia, que é potência material, com espécies também materiais, que concorrem
com a mesma fantasia para produzir-se a sua palavra interior, ou fantasma expresso. O terceiro se forma na língua,
lábios e mais órgãos necessários para articular as vozes. Do primeiro modo, dizemos verbi gratia esta sentença: Pai
nosso que estais no Céu, sem ser necessário mais que um ou alguns atos do entendimento, que tocam de pôr junto
isso de que Deus é pai, e pai de todos os homens, e que assiste nas alturas, como em lugar próprio para manifestar
sua glória. Do segundo modo dizemos esta mesma sentença com dicções, sílabas e letras interiormente formadas, e
sucessivamente seguidas, as quais podemos continuar, partir, ou omitir conforme quisermos. E estas tais dicções,
sílabas e letras são simulacros e representações que da locução externa resultaram e ficaram guardadas na fantasia.
Por onde um homem que sempre fosse surdo e mudo não poderia falar consigo por meio destas tais palavras
interiores, que são simulacros das exteriores, pois nunca percebeu estas; suposto que sempre pela fantasia, que é
sentido comum, perceberá o objeto, em virtude de outras espécies que entraram pelos outros sentidos
desimpedidos; e assim não dirá lá consigo: Pai nosso etc. mas todavia formará um fantasma expresso, ou selo
figurado, de que Deus é nosso Pai. Do terceiro modo, dizemos a mesma sentença, exteriormente articulada, como
fazemos ao rezar vocalmente. A locução do entendimento é velocíssima; a da fantasia, não tanto; a da língua, mais
vagarosa. Esta a entendem os outros homens; a da fantasia, também a entendem os Anjos bons e maus, se Deus lho
não encobre; porque como são espíritos, ficam superiores a todas as coisas materiais, bem como as casas mais
baixas são devassadas e descortinadas, das que ficam mais altas. A do entendimento só Deus a conhece, e a quem
ele a quiser revelar: e estes são os segredos do coração, que as Escrituras dizem que só a Deus são patentes. Toda
esta doutrina, ainda que especulativa, serve para muitos proveitos práticos. Apontam-se agora dois: O primeiro, e
que faz ao presente intento de pelejar contra o tentador, é, que quando propusermos fazer esta ou aquela obra do
serviço de Deus, não o proponhamos falando com a fantasia e muito menos com a língua; senão só tocando no
objeto de por junto com atos espirituais do entendimento e vontade; e sem figuras do que queremos obrar. Para
que o demônio que ordinariamente anda ao nosso lado escutando, não nos contamine os intentos, e pare em aborto
o propósito que havia de sair em obra. O outro proveito, que aqui se toca de caminho, é que as almas que na Oração
não podem falar com palavras interiores da fantasia, porque Deus já não influi nelas por esta via do sentido, não tem
de inquietar-se cuidando que estão ociosas. Porque enquanto o entendimento está ocupado com a fé da presença
de Deus, e a vontade carregando, como um peso, para o amor do mesmo Deus, bem ocupada está a alma e muito
excelente Oração é esta, pois tem mais de espiritual, unida e simples; suposto que a ela não se passa, senão por
meio da outra, havendo para isso os sinais, que em outro lugar deixamos já apontado.

4. Quando as virtudes crescem, lançam raízes que chegam ao homem exterior em potências materiais. Por isso o
demônio prova e apalpa em sonhos com vários irritamentos da honra, cobiça ou deleite, em que estado estão as
virtudes contrárias e se há já no homem exterior resistência de per si, sem ajuda da parte superior e espiritual. No
que se há propriamente como um ladrão que de noite apalpa as portas, ou paredes da casa, para que sabendo por
onde fraquejam, por ali faça o assalto.

5. Se ouvires no teu interior umas palavras altas e rijas, e aceleradas, como zunido de mosca varejeira, que te dizem,
em teu nome próprio e não de terceira pessoa, que faças isto, ou deixes de fazer aqueloutro, este não é o espírito de
Deus; senão o teu próprio ou o do Anjo mau. Porque o espírito de Deus é suave e pacífico, e não violentador e
tumultuoso.

6. Quando o demônio não pode fazer com que a alma fique no pecado, vem a concerto que ao menos fique na
ocasião, como o Faraó já vinha em que o Povo de Israel adorasse a seu Deus; mas requeria que isso fosse no Egito.
Quando vê que guardamos abstinência discreta, e que nos não pode fazer cair na gula, aconselha-nos abstinência
suma, alegando com os legumes de Daniel, e com os três pães duríssimos de S. Maria Egipcíaca, e com os exemplos
dos Monges do deserto; para que deste modo debilite o corpo e logo com ele a alma; a cuja necessidade acudindo
excedamos o modo, e lhe restituamos mais do que lhe devíamos, e fiquemos com tédio e medo à virtude e seus
exercícios. Outras vezes nos irrita contra si, e provoca a orar: então cedendo voluntariamente da perseguição que
nos fazia, dá a entender que cede à força de nossas Orações; para que presumamos serem muito gratas a Deus e
terríveis para o inferno; e que nelas temos armas prontas, com que podemos entrar em qualquer perigo
confiadamente. Também sucede aparecer em figura de alguns homens, que foram de vida perversa, e se
condenaram, fingindo que vem do Purgatório, com licença de Deus, a pedir sufrágios. E a tramóia vai ordenada a que
concebamos esperança falsa, de que também nos salvaremos, sem embargo de ser grandes pecadores; e a que
tenhamos menos horror ao curto número dos predestinados, que as Escrituras e Santos Padres e Pregadores
Apostólicos nos intimam. Estas, e outras muito maiores astúcias do comum inimigo, são as que no Apocalipse se
chamam: Alturas de Santanás: Altitudines satanae.

7. Andava ausente de sua casa uma pessoa; e vindo de noite a desoras, sua esposa, ou o seu servo, suposto que lhe
parecia conhecer a voz, contudo, por maior cautela, não lhe quis abrir, mandando-o vir de dia. No seguinte dia esta
pessoa não somente se não irou, senão que louvou a esposa, ou servo de fiel e prudente. Quer dizer esta parábola:
Que em negar o crédito a sonhos, ainda que estes fossem de Deus, nenhum perigo há; porque bem sabe o Senhor
que os enjeitamos, não por fechar a porta a seus santos avisos e inspirações, senão por não abri-la aos enganos do
inimigo, que sabe contrafazer-lhe o metal da voz.

8. Ordinariamente fazem os demônios grande estrago à hora da morte, com a esperança enganosa de que viverão
mais os enfermos e com o tempo poderão emendar a vida e exercitar o que Deus lhes inspirar por meio de seus
Anjos: e com este engano se acham encravados e perdidos. Este aviso deu a Virgem Santíssima S. N. falando com
uma serva sua. Por onde a melhor disposição no moribundo para partir à eternidade, é dar-se por despedido desta
vida e entregar-se com total resignação nas mãos de Deus, não querendo senão o que ele for servido.
9. O soldado de Cristo deve estar à espera da tentação, sempre solícito e suspenso, especialmente quando começa
os caminhos da virtude, ou nele fez algum maior progresso; para que ao afrontar-se com a tentação, esta lhe não
cause estranheza ou terror; antes com ânimo pacato se acomode a tolerar o trabalho e moléstia dela; cantando
espiritualmente com o profeta: Proba me Domine, et tenta me [Sl. 25,2]: Provai-me Senhor e permiti as tentações
que fordes servido, contanto que me não deixeis cair.

10. Quando estamos carregados de tristeza e tédio, é bom orar vocalmente, e em voz um pouco mais alta e entoada;
porque aquele som e sua variedade dissipa a melancolia e dá diferente postura à alma, que estava como debruçada
sobre o seu afeto triste. E também, se este era causado pela oculta presença, ou sombra do inimigo, espírito triste,
fugirá para não ouvir os louvores de Deus Nosso Senhor e verdades de nossa Santa Fé.

11. Na guerra contra os vícios havemos de guardar ordem e método: bem como o jogador escolhe das cartas que
tem na mão a que há de pôr na mesa em primeiro ou segundo lugar, e guarda as outras para adiante, e deste modo
ganha. Primeiro se há de encaminhar o nosso jogo contra a gula e avareza e vanglória. Porque quem não caiu na
gula, dificultoso será cair na luxúria. Do mesmo modo, quem não caiu na cobiça, ou no apetite de gula, ou vanglória,
é dificultoso cair na ira. Assim também não poderá escapar do espírito de tristeza e acédia quem, desejando os
objetos da vanglória, acédia ou gula, os não conseguiu e ficou frustrado. Por isso, das três tentações com que o
demônio acometeu ao Senhor no deserto, a primeira foi de gula: Dic ut lapides isti panes fiant; a segunda de
avareza: Haec omnia tibi dabo, etc; a terceira de vanglória: Mitte te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis
mandavit de te, etc. [Mt. 4]

12. Antes de haver chegado à cidade da Humildade, se te vires quieto, e sem moléstias e batalhas dos vícios, não
creias em ti. Há de armar emboscadas o inimigo; e desde logo podes esperar pela turbação futura.

13. De muito diferente modo combatem os demônios com as pessoas que vivem no mundo e manejam as coisas que
perecem com o tempo, das quais se fomentam as paixões, e com as que vivem em lugares solitários e desertos.
Porque com os primeiros a guerra é prática ou exterior; e com os segundo, interior e especulativa, por meio de
pensamentos molestíssimos e motins da interior república. Esta segunda guerra é muito mais trabalhosa e difícil que
a primeira; porque como é espiritual, facilmente começa e dificultosamente se aquieta; o que não tem a primeira,
porque depende de lugar, tempo e oportunidade das coisas materiais com que se lida. Para esta guerra pois
espiritual e invisível, as armas em que consiste a nossa vitória é perpétua. Oração também espiritual e invisível,
como o são os inimigos; e esta faz o ânimo firme e valoroso para combater.

14. Acabando de vencer com a graça de Deus uma tentação, não triunfes, nem descanses, nem te julgues por
seguro; porque logo o inimigo há de revirar sobre ti com outra e outras muitas. Por isso no livro de Jó se diz que este
dragão tem as conchas, ou escamas tão juntas e apertadas, que nem o ar cabe entre uma e outra: Corpus illius, quasi
scuta fusilia, compactum squamis se prementibus. Una uni conjungitur, et ne spiraculum quidem incedit per eas [Jó
41,6].

15. Guarda-te bem de andar muito contente e satisfeito de ti nos teus exercícios espirituais, e obras de caridade do
próximo, que por tua industria sucedem à medida do teu desejo, e as possuis com propriedade gozosa. Porque, ou
Deus te não ama com alguma especialidade, ou te ama. Se te não ama, irás de cada vez inchando mais no teu amor-
próprio. Se te ama, permitirá que caias em coisas da ira, ou concupiscência, de que muito te descontentes. Neste
caso, não te anojes com Deus, como filho que se amua com o castigo do pai; porque te secundará com outro golpe
mais rijo. Dá-lhe muitas graças; e reconhece que ele permitiu que tropeçasses, para que andasses mais atento e
fiado mais no báculo da sua assistência do que nos pés da tua atividade.

16. De três modos afugenta e faz terror aos demônios o sinal da Cruz: 1o. Pela apreensão dos mesmos demônios,
que então se lembram da Paixão e Morte de Cristo Salvador nosso, causa da assolação do seu império; 2o. Pela fé e
devoção de quem se benze e persigna; porque como a Oração também se faz por acenos e gestos, deste modo ora o
Fiel e invoca em seu auxílio os merecimentos da Paixão de Cristo; 3o. Por instituição de Deus Nosso Senhor que
deputou este sagrado sinal para este maravilhoso efeito, e por arma dos homens contra os espíritos malignos; e por
isso obra ex opere operato; isto é, independente da fé e devoção de quem se benze; como se tem visto em muitos
casos que referem os Santos, em que este sinal valeu e aproveitou a Judeus e Gentios. Mas se algumas vezes
experimentarmos que o demônio não foge deste sinal, não imaginemos (diz S. Agostinho) que o despreza, ou não
teme; senão entendamos que Deus assim o dispõe para fins mais altos, por ocultos modos: Cum autem non cedunt
his signis hujusmodi potestates, Deus ipse prohibet occultis modis, cum id justum atque utile judicet. Nam nullo
modo illi spiritus audent haec signa contemnere; contremiscunt haec ubicumque illa prospexerint.

17. Juntas com o sinal da Cruz, são poderosas palavras estas para pelejar contra os demônios:Abrenuncio tibi,
satana: et conjungor tibi Christe: Renego de ti Satanás, e uno-me contigo, Jesus Cristo. Assim o ensina S. João
Crisóstomo: Haec erit tibi baculus, haec armadura, haec turris inexpugnabilis. Cum hoc verbo et Crucem in fronte
imprime. Ita enim, non tantum homo occurrens, verum nec ipse diabolus te quidquam laedere poterit [Homil. 21,
ad. Popul.]. Também tem maravilhosa força contra os demônios aquele verso do famosíssimo Salmo 67. Exurgat
Deus, et dissipentur inimici ejus, et fugiant qui oderunt eum, a facie ejus: Levanta-te Deus e sejam seus inimigos
destruídos; e fujam de tua presença os que lhe tem ódio. Dele usava S. Antão Abade com tal efeito, que lhe não
paravam diante legiões e legiões de infernais espíritos. E se escreve que os mesmos demônios confessaram já que
em todo o velho e novo Testamento não havia palavra que mais os aterrasse [Thom. Le Blanc. ibi].

18. El-Rei Ciro, o mais moço, grande homem de guerra, ordenava aos seus soldados que, se o inimigo acometesse
estrondosamente e com alaridos, eles o esperassem calados; mas se o inimigo viesse surdamente e em silêncio, eles
lhe saíssem com clamores e estrondo militar. Assim devemos andar ao revés do tentador. Se acomete com
branduras e ociosidade, fazer penitência e buscar ocupação. Se com embaraços e impaciências, recolher, e pôr em
paz e silêncio. Se tenta de presunção da misericórdia Divina, considerar seus altos e incompreensíveis juízos. E se
tenta de pusilanimidade e desconfiança, considerar na bondade Divina e valor dos merecimentos de Cristo etc.

19. Assim como o menino que tem atado o passarinho por uma linha lhe permite dar alguns voos, porque sabe que
lhe não há de fugir. Assim o demônio a muitos que tem presos em pecado mortal, lhes consente cerimônias,
lágrimas e outras coisas boas exteriores, porque está certo que, enquanto não se quebra o fio do tal pecado, não lhe
podem escapar da mão e se condenam.

20. O Santo Fr. Ambrósio de Sena, Religioso da Ordem dos Pregadores, dizia que para distinguir as visões e aparições
dos Anjos bons das falsas dos demônios, em chegando a nós qualquer visão, perguntássemos logo: Quem é? donde
vem? e a que vem? E que sendo Anjo do Senhor, se trocaria o temor em alegria, e o sobressalto em segurança. E se
acaso fosse o anjo de trevas, perderia com isso as forças, vendo que já era pressentido.

21. Não olhes com a vista da alma para o pecado da sensualidade, nem ainda para abominar o irracionável e feio
dele; nem em ti, nem em outros, ainda que sejam pessoas de estado em que não seria culpa; nem também para
examinar se consentiste no pensamento; porque isto se há de fazer muito ao espiritual e a seu tempo, já passada a
tentação, e quando seja necessário para a Confissão; e sendo-te preciso ouvir no confessionário, ou estudar pelos
livros estas matérias, não formes figuras delas na imaginação, e percebe-as quanto puderes só pelo entendimento, e
atalha escusadas declarações do indiscreto penitente. Sem e Jafet cobriram a indecência de seu pai Noé andando
para trás e deixando-lhe cair em cima a capa, que levavam estendida, pegando um de uma ponta, outro de outra.
Assim a tua vontade e o teu entendimento, sem olharem para o que cobrem, devem cobrir tudo isto com a fé da
presença de Deus, ou memória de Cristo crucificado.

22. O demônio é tão soberbo, que se não contenta com entrar senão pelas mesmas portas que Deus entra: que são
a comunhão sagrada, a Confissão sacramental e o exercício da oração, para lançar peçonha no que é medicina. Isto
disse S. Teresa estando já no Céu, a uma sua filha cá na terra. Não declarou que peçonha era esta. Porém bem se
mostra, que a peçonha que lança nas Comunhões é que se recebam com pouca preparação e ação de graças; e
fazendo mistério do sabor que as sagradas espécies deixam na boca, ou da facilidade com que se levam para baixo,
ou de que o Sacerdote desse duas fórmulas por uma, ou parte de uma, em lugar da inteira; e outras semelhantes
observações impertinentes, mas a peçonha mais fina de todas, é que se chegue àquela Divina Mesa em pecado
mortal, sacrilegamente.

A peçonha que lança nas Confissões é misturar nelas negócios e tratos, e conversações alheias da severidade e
decoro daquele ato; consumir largo tempo com impertinências e afetações escrupulosas; desculpar os pecados
próprios, manifestar os alheios; apetecer opinião de virtude no conceito do Confessor; criar-lhe amor bastardo, de
modo que nasçam e se peçam zelos dos outros irmãos ou irmãs de confissão; fazer negociação da familiaridade
adquirida pela freqüência deste Sacramento, em ordem a temporalidades e pretensões do mundo; fingir virtudes e
inocência entre muitas gravíssimas Cruzes, para mover o Confessor a sacar esmolar. E finalmente, as piores fezes
desta peçonha, são da parte do penitente calar pecados graves, por pejo, ou qualquer outro respeito; e da parte do
Confessor (o que Deus não permita) solicitar o penitente.

A peçonha que lança na Oração é furtar para ela o tempo que se deve às obrigações da obediência e da caridade;
dar-se à vida folgazã e ociosa, querendo comer da virtude sem o trabalho de mãos e suor do rosto; empregar na
Oração com tanto afinco as potências, que se destrua a cabeça e se incapacite para a a mesma Oração alta,
suspendendo-me sem Deus me suspender, de que nasce não ter pés para andar meditando, quem tomou asas para
voar contemplando; reputar e estimar por consolações do Céu as que são puramente da carne e do amor-próprio;
fazer-se milagreiro interpretando qualquer movimento das espécies da fantasia, por revelação ou aviso misterioso;
tratar a Deus Nosso Senhor com uma confiança néscia e pueril e sem o respeito que inculca a infinita distância entre
o Criador e a criatura. Fujamos, pois, destas e semelhantes corrupções diabólicas para que se logre em nosso espírito
a medicinal e divina virtude da Oração e Sacramentos.

23. Quando entras em tentação, é bom remédio para não cair nela representar na imaginação que vês diante de ti a
Cristo na forma em que foi mostrado ao povo, coroado de espinhos, cheio de sangue e feridas, com gesto humilde e
lastimoso; e que voltando para ti seus divinos olhos, te diz: Filho, não me ofendas; Filho, não me craves mais esse
espinho; não me açoutes outra vez; não escolhas antes a Barrabás do que a mim, que te amo de coração; olha que
te mereço grande amor, porque sou teu Deus, teu Criador e Salvador; vê que te perdes, se me desprezas; não me
desprezes, que sou teu Deus e Senhor. Resiste a esse mau pensamento, que eu te ajudarei e te pagarei como quem
sou, todo o trabalho que puseres em guardar a tua alma e a minha honra.

24. No coração do homem que não tem em si o Espírito Santo, está presente o demônio; e desde ali procura, quanto
pode, impedir-lhe que atenda a qualquer coisa que possa remover este seu cativeiro. Porém, se o homem está em
graça de Deus, o demônio sai, e anda por fora ao redor do corpo como nuvem caliginosa, procurando destruir o seu
bem, e fazer com que sinta a alma, por via dos membros, o cheiro dos deleites. E este circuito e entradas e saídas do
demônio, as sentem alguns a quem Deus as quer manifestar ao menos no sentido do tato. Porque enquanto o
soldado de Cristo anda nesta campanha da vida mortal, sempre sua liberdade é metida em vários exames sobre qual
é o bem que ama; se o transitório, se o eterno; e quanto o ama. Mas se alguém é tão valoroso, que ainda em vida
morre de todo a si, então se faz totalmente casa do Espírito Santo. Porque enquanto nossos membros servem a
algum deleite sem ser regulado pela vontade de Deus, o senhor do pecado e contratador das negaças dele conserva
o seu direito para infestar o corpo humano e fazer dele seu covil. Mas aos Santos, anda-lhes muito ao longe; e, se
chega, é com especial licença de Deus e maior tormento seu. Quem lê, aproveite-se.

25. A alguns já proveitos na Oração, o demônio se chega, e com seus dedos invisíveis lhes apalpa e move o cérebro,
de sorte que represente admirável luz e grandezas incomparáveis. E como o exercitante acha que está orando
quietamente, e não sente vagueações, nem movimentos feios, suspeita que logra estado de Oração muito
avantajada e que tem presente algum misterioso símbolo das coisas divinas. E, entretanto, o inimigo lhe petisca
faíscas de vanglória, por então não conhecida. Porém, se a alma é humilde e temente e busca a Deus só por Deus em
pureza de Fé e espírito, o Anjo bom se chega, e com sua palavra faz parar esta operação de erro e concerta o cérebro
de sorte que sirva à verdade e não à falácia.

26. Emprega freqüentemente, com afeto amoroso e compassivo, os olhos corporais em alguma imagem bem feita
de um Crucifixo, pedindo ao Senhor que a imprima no seu interior. E quando já tiveres hábito de a achar pintada na
fantasia sempre que quiseres imaginar nela, terás aí um seguro porto para te acolher quando sentires tentações
contra a castidade, mansidão, ou qualquer outra virtude. E assim que te faças presente à imaginação aquelas
Chagas, e as beijes, e te escondas nelas e lhe peças amparo; verás como a tentação se dissipa.

27. O espírito de carpimento é uma das mais ocultas e danosas tentações do demônio. Porque em vez de nos
levantarmos das nossas ruínas com presteza e soltura, e ir andando o caminho de Deus com alegria, como
pudermos; nos embebemos em carpir e lamentar nossas misérias, soterrando-nos na pusinanimidade e
desconfiança de podermos andar. E em vez de rendermos a Deus muitas graças por tudo, nos amesquinhamos e
entristecemos, como se nada nos dera, nem quisesse dar. E em lugar de conservarmos a serenidade de espírito
necessária para a iluminação divina, nos turbamos com pensamentos de aflição, e não admitimos a doutrina de
consolação com que os Padres espirituais nos querem dar alento. Oh, quanto melhor está a estas almas o cuidarem
como Deus é bom e misericordioso, do que o cuidarem como elas são imperfeitas e miseráveis!
28. Por que procura o demônio com tanta ânsia e instância causa para que nossos corpos se manchem com maus
sonhos, trabalhando nisto noites inteiras; se experimenta que da nossa parte não costuma haver consentimento,
senão antes merecimento na resistência? As causas parecem ser estas: 1a. Tem o inimigo esperança de lucrar ao
menos algum realzinho procedido de advertência semiplena, ou resistência frouxa; 2a. Dá a provar o cálice de
Babilônia para que a experiência dele inquiete depois a imaginação e memória, que estão muito perto da vontade; e
faz como o mercador que desenvolve o pano, ainda que se não venha a conchavar na compra; 3a. Pretende fazer
vitupério e contumélia à alma, como um inimigo lança de noite às portas de outro imundices, por se não poder
vingar dele; 4a. Intenta amedrontar e desviar os Sacerdotes, ou almas escrupulosas, da sagrada Comunhão no
seguinte dia; como se mostra do que S. Pedro Celestino escreveu de si mesmo na vida que se achou na cela, quando
saiu para o Sumo Pontificado [Andano tom. 25, Biblioteca dos Padres]. 5a. Perturba a muitas consciências com a
dúvida de se houve, ou não, consentimento; 6a. Usa das nossas superfluidades para os fins que se podem ler nos
Autores que tratam das abominações dos magos e bruxas. Pelo contrário, os fins que Deus Nosso Senhor leva em
largar estas licenças a nosso inimigo, ele os conhece; nós podemos considerar que são estes: 1o. Castigar algumas
soberba ou vanglória nossa, ou algum pensamento imundo frouxamente resistido, ou alguma rebeldia da vontade
contra a de nossos superiores; como se o Senhor dissesse: Olha, que te deixarei cair manifestamente, se te não
emendas; 2o. Humilhar nosso orgulho, dando-nos a conhecer por experiência nossa vileza e fragilidade; 3o. Diminuir
em nossos corpos o inimigo humor, que nos impugna e solicita; 4o. Desafervorar a sanha do demônio, em quem, por
aquela vingança se aplaca algum pouco a febre da ira, com que deseja o nosso dano; 5o. Exercitar-nos a pedir e
procurar o precioso dom da perfeita castidade. E outros fins, que nós não alcançamos.

29. Quando te sentes entrado de tristeza, juntamente com azedia de coração e tumulto de pensamentos e tenções
contra os próximos e desalentos e desconfianças do próprio aproveitamento, faz três coisas: 1o. Crer, decerto, que o
espírito maligno se chegou e te assombra; 2o. Ver que importa muito não deixar possuir-te dessa tentação, porque é
um nordeste seco e frigidíssimo, que corta e queima todo o verdor e flores da alma; 3o. Pegar logo, ou mental, ou
vocalmente de vários Salmos, ou quaisquer outros louvores de Deus, indo descorrendo por suas perfeições e
benefícios; e continuar com a paz e pausa, que puderes, ainda que seja contra vontade, e sem gosto sensível. Porque
não poderá o inimigo sustentar muito tempo esta música, a seus ouvidos odiosíssima.

http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1240

http://www.amoranossasenhora.com.br/2013/06/para-escapar-dos-lacos-do-demonio-pe-manuel-bernardes/

O Valor de uma Alma


A salvação está ligada a oração que é a coisa mais fácil que o homem pode fazer.

Diz o Padre Bernardes: “Voltarei os olhos para o inferno e verei quanto deseja o diabo perverter uma alma: se na
sua mão estivera comprá-la a troco de todo o mundo, e de mil mundos, no caso que foram seus, e não houvesse
outro meio para adquiri-la, nada duvidaria dá-los por uma só alma. (…) Entre as revelações de Santa Brígida está
uma, em que aparecendo o demônio em presença de Deus e a mesma Santa na ocasião em que certa alma ditosa
subia deste mundo ao Céu, e perguntando-lhe o Senhor, para doutrina nossa, que dera ele por tê-la às unhas,
respondeu: Que, se desde a terra até ao Empíreo [isto é, até ao Céu], houvesse uma coluna toda armada de agudas e
talhantes espadas, e ele tivesse corpo sensitivo como o homem, por todas fôra subindo e arrojando-se e
encravando-se sem fazer caso de despedaçar todas as suas entranhas, a troco de poder enfim alcançar aquela
alma, e que com maior ímpeto e peso lhe pedia o espírito buscá-la e destruí-la, do que uma grande torrente se
despenha desde uma rocha altíssima sobre um profundo vale.” (As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 427).

http://www.amoranossasenhora.com.br/2012/10/o-valor-de-uma-alma/

Da apresentação da Santíssima Menina Maria no Templo (§ 1)


Por Padre Manuel Bernardes

Considera como, aos três anos de sua idade, foi transplantada essa lindíssima arvorezinha Maria[1], que nos havia de
produzir o dulcíssimo e preciosíssimo fruto de vida eterna Jesus; foi, digo, transplantada de casa de seus venturosos
pais Joaquim e Ana, em Nazaré, ao Templo da Cidade Santa de Jerusalém, para que ali, como em lugar mais próprio,
se dedicasse toda ao culto de Deus e aos ministérios do seu serviço.
Pondera como essa Apresentação e oferta foi religiosa, foi voluntária e foi prudente. Foi religiosa, isto é, puramente
por dar honra ao Altíssimo e cumprimento ao voto que Sta. Ana fizera, de lhe dedicar o fruto que o Senhor lhe desse,
à imitação de outra matrona Ana, mãe de Samuel, também de antes estéril e depois, por mercê de Deus, fecunda.
Foi voluntária, não retardando o dom e despojando, sem repugnância e com grande amor, da melhor filha, os pais, e
dos melhores pais a filha, só por servirem a Deus. E foi prudente, porque, suposto que a casa dos Santos Joaquim e
Ana era enfim de Santos, todavia o Templo era casa de Deus, mais honrada, mais segura, mais remota das carícias do
amor natural e dos rebuliços do século: Ut Virginem una cum corpore animam conservasset, ut eam decebat, quae
Deum in sinu suo exceptura erat[2] (disse S. João Damasceno). Estava aqui o jardim do Esposo murado, e a fonte de
seu refrigério fechada: Hortus conclusus soror mea sponsu, hortus conclusus, fons signatus[3]; estava a pombinha nos
buracos da pedra: Columba mea in foraminibus petrae[4]; e finalmente estava a Arca Mística no seu próprio lugar,
porque o Templo não foi edificado senão por intuito da Arca do Testamento, e não era outra coisa senão figura ou
sombra de Maria Santíssima, mais isenta do pecado do que o cedro de corrupção, mais ornada dos dons da graça do
que a Arca de lâminas de ouro.

Aprendamos daqui, mortais, a ser primorosos e agradecidos a Deus; se recebemos, ofereçamos - e ofereçamos não o
que menos préstimo tem para o mundo, senão o que mais estimamos; ofereçamos de boa vontade, que a boa
vontade é todo o preço do dom; ofereçamos sem tecer demoras, como quem, já que não pode negar o dom, ao
menos desfalca ou belisca no tempo da posse. Aprendamos também a fuga do século para lugar mais defeso dos
seus perigos: são estes mais encobertos e danosos do que cuidamos; para que é aprendê-los da triste experiência,
podendo só da doutrina e fé certa? Se essa fuga se retarda, talvez não se logra: antecipa-se o Demônio e
entreprende nossos santos desígnios. Quantas almas, se tivessem essa cautela, escapariam dos seus laços? Depois
querem e já não podem, porque quando podiam não quiseram.

Considera também como essa ide de Nazaré a Jerusalém não foi solenizada, como foi a translação da Arca, com
público e numerosíssimo acompanhamento, com procissões, danças, instrumentos, músicos, sacrifícios grandiosos,
senão somente foi levada a pequenina (que era a maior que o mesmo Templo: Templo maior est hic[5]) em braços de
sua Mãe Sta. Ana e em companhia de S. Joaquim, com mais alguns parentes, e oferecida ao sacerdote; mas,
invisivelmente, corria a festa por conta dos Anjos, que não faltaram a milhares a essa função da Senhora, que o era
de todos. Era esse presente que levavam muito do agrado de Deus; e como Deus é espírito e em espírito quer ser
adorado, ali tinham seus olhos de que satisfazer-se, na majestade e no ornato das virtudes e dos dons que aquela
tenra menina levava consigo. Não era necessária, na translação dessa Arca mística, ostentação pomposa, que
convinha na outra figurativa, para excitar a religiosa veneração daquele povo. Importava que ainda não se
publicassem os tesouros que nessa alma se encerravam, e queria Deus plantar no mundo, em seu Filho Jesus Cristo e
em sua Mãe Santíssima os exemplos de humildade e da virtude sólida, desconhecida no mundo.

Oh! quem recolhera e imprimira bem na alma esses exemplos! Quem, no serviço de Deus, buscara primeiro o
interior da substância do que os exteriores das circunstâncias? Quem soubera estimar as coisas pelo que em si são, e
não pelo o que aparece; pelo que a Deus agrada, e não pelo que o mundo aplaude. Ninguém, por certo, vendo uma
menina de três anos nos braços de sua mãe, ou levada pela sua mão, dissera, salvo Deus lhe revelasse, que ali ia um
tesouro tão grande de virtude, uma joia de valor infinito, o original que se tinha copiado por partes em todas as
ilustres matronas da lei, Débora, Judite, Ester, Raquel, a mãe dos sete Mártires Macabeus e as mais; e o que mais é,
a futura Mãe do Messias, expectação das gentes e glória daquele povo de Israel. O certo é que, só pelo que luz no
mundo, não se pode fazer juízo certo das coisas, e quem mais adicto vive aos sentidos, mais arriscado procede aos
enganos.

Ó Menina Santíssima, que ides para o Templo, sendo Vós o mesmo Templo vivo de Deus; que ides ensinar virtudes a
vossas mestras, parecendo que ides aprender delas; que ides levada pela mão do Altíssimo, parecendo levada pela
de Ana; que ides cercada de celestial milícia, parecendo que ides solitária: dignai-vos de levar convosco o meu
coração, a minha memória e todo o meu espírito; para Deus vai, se vai convosco; e se convosco habita, no Céu
habita; seja eu do venturoso número dos vossos devotos que vos sabem servir, adorar e louvar, e que merecem
perceber e seguir a fragrância de vossas virtues, para mais glorificar ao Autor delas.

---------------
[1]
Nicephor., lib. 1. Histor. c. 17. German Constantinop., Orat de oblatione V.
[2]
Damasc. de Fide Orthodoxa, lib. 4, c. 5.
[3]
Cant., IV, 12.
[4]
Cant., II, 14.
[5]
Matth., XII, 6.

---------------

Padre Manuel BERNARDES. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa. Brasília:
Editora Pinus, 2010, p.74-76.

http://www.mulhercatolica.org/2013/11/da-apresentacao-da-santissima-menina.html

B) Visão mui prodigiosa do Paraíso celeste


Visão prodigiosa que a Venerável Madre Ana de Santo Agostinho, religiosa do Carmelo Reformado, teve da glória
que os bem-aventurados possuem no Céu

Para eu ficar com paz de vida e entendimento, me remediou a Divina Misericórdia com fazer-me a mercê que me
fez. A qual foi achar, sem saber nem imaginar como, que desde este pego de misérias, me haviam levado ao Céu
onde me parece que à alma e suas potências (havendo estado de antes oprimidas e soterradas com a vista do
inferno e como em tal lugar e com tal pena e trabalho) se lhes deu um novo esforço, e parece que haviam
desafogado a minha alma . A qual com grande ânsia se abalançou e entregou ao gozo daquela glória de Deus: aonde
estava com grande admiração de ser ver fora de tal cativeiro e logo com tanta felicidade. Da qual não sei se acertarei
dizer alguma coisa, por ser uma matéria tão fora de minha capacidade e de meu curto entendimento para falar nela
e tão falta de razões. O Senhor (cujo é tudo) cumpra por mim esta obediência.

Fui levada (como disse) ao Céu, que o havia bem mister. Onde vi o que não saberei referir como o sente minha alma:
direi o que souber significar. Vi que me puseram em uma grandíssima cidade mui resplandecente e cristalina, mui
adornada de grandes riquezas e de jardins belíssimos e formosas flores com suavíssimo cheiro. As ruas todas eram
calçadas de pedras preciosas, que as de cá são em sua comparação como de terra. Muita harmonia e diferenças de
músicas, com uma ordem e concerto, enfim como no Céu. E nesta cidade, digo, não lhe vi fim; e o princípio por onde
havia entrado nunca mais o vi, ainda que minha alma com atenção o queira alcançar. Seu adorno, decência e
majestade, eram todos aqueles espíritos gloriosos, todos por sua ordem. Minha alma pôs a vista naquele soberano
Princípio e Fim de toda a Bem-Aventurança: e tendo-a fixo naquele preciosíssimo peito, via nele todos os bem-
aventurados de toda a glória, de maneira que não tinha para que a mudar, nem variar de umas partes a outras,
como cá sucede na multidão de objetos formosos e admiráveis: porque, como digo,vi aquela suma grandeza, poder
e bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo nosso bem, sentado à mão direita de seu Eterno Pai e sua formosura,
beleza, resplendor e glória suprema, assim como é, de onde procede toda a dos bem-aventurados, como fonte
copiosíssima, de onde nascem aqueles raios de vida eterna: assim quanta glória têm os bem-aventurados lhes nasce
e lhes é repartida por esta soberana fonte, em quem está toda em supremo grau e muita mais do que se pode
comunicar a outra nenhuma criatura, senão a sua Majestade, que sendo homem é verdadeiro Deus e uma das três
Pessoas da Santíssima Trindade, em quem está toda a glória e bem-aventurança encerrada, comunicando-se entre
as três Divinas Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, que todas é um só Deus verdadeiro, cuja essência me não foi
concedida ver; que e nenhum mortal se concede vê-la, enquanto vive. E assim nisto passou por mim o que direi.

Visão do esplendor da Humanidade Santíssima do Redentor

Estando minha alma gozando da vista gloriosíssima da Humanidade Santíssima de nosso Redentor e da amável
presença de sua Mãe Santíssima e toda aquela máquina de formosura e glória de todos os bem-aventurados, sentia
uma sede e ânsia amorosíssima de ver a Essência Divina da Santíssima Trindade, sentindo minha alma que não
possuía tudo o que havia naquela bem-aventurança. E assim abalançando-se a alma a buscar aquele tesouro, de
quem lhe dava uma clara notícia, se reportava e detinha a vista na Santíssima Humanidade, sem poder passar mais
adiante; à maneira de quem quer olhar para o Sol, que não é possível insistir com a vista, pela fraqueza dos olhos,
senão que a grandeza do resplendor lhos faz cerrar, conhecendo que aquela luz é superior à sua capacidade. E assim
na terra bem vemos o sol e sua claridade e formosura, sendo-nos suave e agradável à vista: mas se queremos ver de
onde nascem aqueles raios, não é possível. A este modo a minha alma podia ver o Sol na terra soberana da
Santíssima Humanidade, podendo gozar sua beleza e formosura, e luz amável. E querendo ver de onde procedia, não
lhe era concedido, nem possível à sua capacidade.

Também direi outra comparação, que não é minha, senão que ma puseram, quando minha alma passava pelo que
vou referindo. Que assim como, ainda que temos notícias e conhecimento das almas e sabemos que enquanto os
corpos têm vida, estão neles dando-lhes ser, regendo seus membros, para que possam usar de suas ações, não nos é
possível vê-las em si mesmas, por serem espirituais; e vemos somente os corpos, em que estão infundidas, e neles as
notícias das almas, que delas não alcançamos a ver mais. Assim também, ainda que minha alma via raio e resplendor
e notícias da Essência Divina e da alteza da Santíssima Trindade, se me cifrava tudo em ver somente a Humanidade
Santíssima do Filho; que a visão beatífica, de que gozam os bem-aventurados, não se nos concede de lei ordinária
enquanto vivemos. E esta verdade podemos conhecer pelo que passou em todas as ocasiões, que Nosso Senhor deu
notícias de sua Divindade: que quanto ao objeto da vista, era somente a Sacratíssima Humanidade do Filho. Porque
quando o Senhor se transfigurou no monte Tabor, ainda que os Evangelistas dizem que os Apóstolos ouviram a voz
do Pai não dizem que o viram, senão só a Nosso Redentor com grande resplendor e claridade. E quando o glorioso
Santo Estêvão diz que viu os Céus abertos, não diz que viu a Essência Divina, senão a Jesus sentado à mão direita da
virtude de Deus. E por este modo de falar não se há de entender que está sentado, senão que tem o lugar da mão
direita do Pai a nosso modo de falar. Também na vinda do Espírito Santo, não escrevem os Evangelistas que os
Apóstolos viram o Espírito Santo, senão as notícias. Assim (como tenho dito) não via eu senão as notícias da Essência
Divina, cujos divinos raios reverberavam na Sagrada Humanidade, em quem só se mostrava , para podê-la ver e ver a
glória e resplendor que procedia da Essência Divina. E vi que por um modo maravilhoso, reservado somente para sua
imensa e suma sabedoria, se repartia a glória a todos os bem-aventurados, da maneira que direi.

Vi que do soberano peito de Nosso Senhor Jesus Cristo saíam grande número de raios de luz formosíssima e se
repartiam a todos os bem-aventurados, enchendo-os de glória e dando a cada um os graus conforme as virtudes que
na Terra tinham obrado. Direi uma comparação disto, segundo alcançar meu curto entendimento. Há umas fontes
de maravilhoso artifício, que têm grande número de canos, que lançam a água, uns em maior quantidade, outros
não tanta; e uns vêm a lançar mais perto da fonte, outros mais de longe, conforme quis e dispôs o mestre, ou artífice
da fonte, que governa a chave e harmonia dos canos, repartindo-os à sua vontade. E ordinariamente estas tais
fontes têm seu princípio de um rio caudaloso.

Assim daquele grande mar, ou daquele caudalosíssimo rio soberano e infinito da Santíssima Trindade, nasceu a fonte
amabilíssima da Sacratíssima Humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo artífice é o Espírito Santo. E assim
como esta fonte de águas vivas repartiu seu preciosíssimo sangue a toda a sua Igreja em geral e em particular, a cada
uma de todas as almas fazendo-nos herdeiros de sua glória, assim as está repartindo a todos no Céu em geral, e em
particular a cada um de todos os homens bem-aventurados. E pelo ser em mais alto grau sua Santíssima Mãe,
Senhora e amparo nosso e a mais eminente em todas as excelências e virtudes de quantas criaturas houve, nem
haverá, abaixo de seu santíssimo Filho, é a que mais copiosamente recebe glória daquele soberano peito,
comunicando-lhe altíssimo amor.

Nossa Senhora, na Hierarquia celestial

E vi que o Filho de Deus e sua santíssima e amabilíssima Mãe, se estavam olhando com uma vista de sumo agrado,
com que se gozam e comunicam sem ruído de palavras. E como a Imperatriz Soberana, a tem o Rei do Céu à sua mão
direita; e Ela é a que mais participa da Visão Beatífica e glória da Santíssima Trindade. E isto quem deixará de o crer
facilmente , pois na terra encerrou a segunda Pessoa em suas puríssimas e santíssimas entranhas? E também vi que
esta soberana Rainha do Céu, Mãe e Advogada dos pecadores, a que é toda cheia de misericórdia e princípio de
todos nossos bens: vi, digo, que está pedindo com grandes veras pelos pecadores; e que seu Santíssimo Filho não lhe
nega suas justas e piedosas petições, antes aumenta em seu piedoso coração a caridade e amor, para que nos
ampare e rogue por nós outros. A glória, beleza e formosura desta nossa amabilíssima Senhora não se pode
significar. Está sua alma e corpo cheio e cercado de grandíssimo resplendor, claridade e grande glória, que em sua
comparação o Sol e a Lua e quanto há dotado de formosura, é escória e sombra e desaparece. Está esta Senhora de
minha alma rodeada de coros de virgens e os anjos a festejam com diversas e suaves músicas: e todos os bem-
aventurados, com grande música e maravilhoso concerto A louvam e servem como Rainha. E me pareceu, que com
cada petição que esta Senhora fazia a seu próprio Filho por nós outros, lhe aumentava a glória acidental e que Ele
com os raios Divinos, que de seu sacratíssimo peito saíam, estava alimentando a sua santíssima Alma e
aformoseando-a de modo que verdadeiramente é sua beleza tanta, que todos os bem-aventurados com muitos
quilates lhe não chegam. E seus raios e resplendor é tão avantajado, que todos os que têm os Santos e demais
Espíritos Divinos, em sua comparação parecem uns pequenos raios de luz. E vi que se pareciam notavelmente o
rosto do Filho de Deus e o de sua Mãe Santíssima. E vi o amor que esta santíssima Senhora está mostrando e
manifestando com um olhar amorosíssimo aos que nesta vida foram humildes, puros e obedientes, três virtudes tão
propriamente suas; e lhes faz particulares mercês, e mais particulares aos que tiveram pureza na alma e no corpo.
Está esta misericordiosa Senhora nossa desejando fazer-nos mercês e ter amigos, para que lhas peçam e que
acudam a Ela, como a Mãe em todas suas necessidades para remediá-las. Ditosos nós outros, pois esta grã rainha
nos ampara e cuida tanto de nosso bem. Amemo-La muito e procuremos fazer sua santíssima vontade, que é que
sejamos bons e como seu Filho nos ensina e nos manda, tudo para bem nosso. Bendita seja tal Mãe, que se não
despreza de o ser nossa, sendo-a do Rei dos Céus, que como tal é servido de todos aqueles exércitos celestiais, cujo
trono vi que estava adornado com os levantados coros de Serafins e Querubins, que sem cessar lhe estão dizendo e
exclamando aquele motete do Céu: Santo, Santo, Santo Senhor Deus dos exércitos. Estes espíritos Divinos dos
Querubins e Serafins são muito mais levantados que os Anjos; porque estão mais perto de Deus e participam mais
de sua Divina Majestade e lhes alcança mais seu resplendor. E assim são os mais gloriosos e estão inflamados e
acendidíssimos no amor de seu Criador, que sempre estão vendo e louvando com altíssima e suavíssima música. Sua
formosura e beleza destes Divinos Espíritos é tão grande que a não poderei explicar: e assim basta haver dito, que
participam tão de perto da de Deus, que é de onde procede toda, e que está dando ser a toda a glória e beleza do
Céu Grande é a que tem as hierarquias dos Anjos; que os vi todos postos e repartidos em seus coros com
maravilhoso concerto e galharda compostura e ordem, segundo os seus graus e todos cobertos daquele resplendor
Divino, que procede de Deus, a quem sempre e para sempre estão louvando, que o têm por ofício e lhe estão dando
suaves e admiráveis músicas. Vi os que eram da guarda das almas que estão no Purgatório, que depois de haver
cuidado delas em sua vida, as consolavam do tempo que lhes durava o Purgatório e com grande caridade e diligência
as alentavam e pediam aos Santos rogassem a Deus por elas. E não deixam sem cessar de exercitar seu ofício, até
que as apresentam à Divina Majestade: e então dão mostras de ficarem com mui particular gozo e alegria, por
haverem oferecido sua obediência a seu Senhor. Assim me pareceu que os Anjos fazem ofício de Marta e Maria: e
tudo quanto fazem não é com ruído algum; que naquela soberana cidade não se ouvem senão suavíssimas músicas e
grande quietação e sossego como em presença de tão grande Senhor.

Apóstolos, Evangelistas, Doutores, Patriarcas, Profetas e Mártires

Vi que depois da Mãe de Deus, Rainha e Senhora nossa, estão mais perto de Deus os coros dos Apóstolos e
Evangelistas e o dos doutores, patriarcas e profetas, muito mais avantajados em glória que os mais bem-aventurados
e santos e com mais maravilhosa ordem e compostura, claridade e resplendor, e músicas mais levantadas e sonoras;
e também têm particular glória pela luz que deram à nossa Santa Madre Igreja, e pelas muitas almas que por seu
meio gozam daquela eternidade, na qual se manifesta isto muito claramente. E parece que os mais bem-
aventurados lhes reconhecem um agradecimento mui particular por este benefício, achando-se todos obrigados e
gozando da parte que de sua doutrina lhes alcançou. E bem lho gratifica aquela soberana fonte de água viva de onde
participam com tanta abundância da corrente de suas misericórdias, que os sinala sua Majestade, em lhas fazer mui
particulares e em colocar tão perto de seu trono real. Sua formosura e beleza é muito grande e ostentam galhardas
e misteriosas insígnias de suas vitórias; e mui particulares, os que exaltaram e defenderam nossa Santa Fé Católica e
os que mais luz deram à Igreja Católica nossa Mãe Santíssima.

Vi aqueles coros felicíssimos dos mártires, com uns resplendores de glória maravilhosíssimos, mui vitoriosos e com
grande alegria, que é justo prêmio da que levavam quando iam a dar as vidas por Nosso Senhor. E sua Divina
Majestade dando-lhes aquele cento por um, que lhes prometeu, os honra com grandes e particulares graus de
glória, que abaixo dos que tenho dito são os mais levantados; porque lhes repete o soberano Artífice mui formosos
canos da fonte, onde tinham banhado suas estolas, e o soberano Cordeiro estima em muito aos que dão a vida por
seu amor puramente. E havendo-lhes sua Majestade enxugado as lágrimas, já neles não há tristeza, nem luto, nem
clamor, senão glória crescidíssima; e como batalharam legitimamente, suas coroas são vistosíssimas e cada um mais
particularmente brilha e resplandece conforme foi seu martírio; como se foi degolado, ostenta colar de grande preço
e resplendor; se foi apedrejado, no lugar das pedradas resplandece com especial formosura; e a este modo em todos
os demais. E quando lhes forem reunidos seus corpos será também maior a sua glória. Mostra Nosso Senhor amá-los
mui particularmente. E assim é grande ventura dar esta vida breve por aquela eterna à vista de Deus.

As Virgens e os Confessores

Vi os coros formosíssimos das virgens e confessores, com grande compostura e concerto e com admirável beleza e
claridade, particularmente as virgens, que no mundo tiveram pureza na alma e no corpo; porque em proporção dela
é também mais insigne esta formosura e mais clara esta luz. Têm açucenas por insígnias, mui engraçadas e de
fragrância suavíssima e palmas mui vistosas. Sempre estão dando a nosso grande Deus perpétuos louvores, como a
quem é devida toda a honra e glória; do que ali há mui patente conhecimento. Seus cânticos são de sumo agrado e
consonância para seu amabilíssimo Esposo, que já as coroou com as grinaldas, que lhes tinha preparadas desde a
eternidade e para a eternidade. E sua Divina Majestade lhes dá especial prêmio pela sua pureza, que é ser dela visto
e gozado mais clara e copiosamente e estarem cercando a sua Mãe Santíssima, como a autora da pureza, a cuja
frescura se criaram estas vivas flores. Para que nos ensine a tê-la e conservá-la, nos convém amar e servir com todas
as veras a esta grã Senhora e procurar haver esta preciosa margarida, que é tão do gosto de Nosso Senhor e de sua
Santíssima Mãe e Senhora e Advogada nossa.

As ordens religiosas

Vi a todas as Religiões com muita ordem e fazendo a coros o ofício, que nesta vida exercitaram, dos louvores de seu
Criador. E estas almas bem-aventuradas resplandeciam mais umas que outras, manifestando-se nisto haver-se
sinalado mais em cumprir suas obrigações mais perfeitamente e em haver tido mais pronta obediência e haver
estado no ofício Divino com mais presença de Deus, reverência e amor. Estão todos por seus lugares, como disse; e
os fundadores, que instituíram as Religiões, muito mais acima e com mais resplendores e glória que os súditos. E eles
pareciam lhes davam graças e se lhes mostravam agradecidos por haverem sido causa de que por seu meio
conseguissem tão grande bem. E assim vi a nossa Santa e amada Madre Teresa de Jesus com mui grande glória e
formosura. E vi que estava dando à Mãe de Deus e Senhora nossa um ramalhete de diversas flores mui formosas e
belas, significando que lhe apresenta e oferece todas aquelas almas. A Virgem Santíssima as tomava, olhando para
nossa Santa Madre Teresa de Jesus com muito agrado. E vi que a Mãe de Deus e Senhora nossa, como o é de nossa
sagrada Religião, tomando aquele ramalhete o dava a seu Santíssimo Filho. E pois sua Divina Majestade e sua
soberana Mãe amaram e amam tanto a nossa Santa Madre e Fundadora Teresa de Jesus e lhe têm feito tantas e tão
grandes mercês, reconheçamos seus filhos, a que Nosso Senhor nos fez em que o sejamos. E estimando-o em muito,
demos a Nosso Senhor muitas graças. E a regra, constituições e obrigações, que com tanto trabalho e cuidado seu
nos adquiriu e deixou, lhe faremos muito serviço em procurar guardar com veras e perfeição. Que sendo o bem para
nós outros, será para a Santa de muito gosto e glória acidental. E como bons filhos procuremos imitar suas heróicas
virtudes e em particular a da obediência, que nesta grande Santa Madre nossa resplandece. Mostrou-me mui
particular agrado e a minha alma causou mui grande gozo e glória o vê-la, que gozava de tanta, porque no tempo
santo que viveu, a amai mui enternecidamente.

As demais almas dos Bem-aventurados

Vi todas as almas dos bem-aventurados com uma formosura, claridade e resplendor, que punha admiração; todas
com admirável mostras de gozo, que possuíam, e com agradável concerto. Vi a meu pai e a minha mãe e os conheci
claramente: e bem se deixa ver que o gozo e consolação que minha alma recebeu e o agradeci muito a Nosso Senhor
que mos deu por pais. E desde então me durou a dar-lhe a sua Divina Majestade particulares graças, pela glória que
vi que possuíam, dada de sua misericordiosa mão. E vi que tinham alguns particulares graus por algumas licenças
que me tinham dado para fazer algumas obras do serviço de Nosso Senhor. E isto me dava sua Majestade a entender
por uma mui clara e particular luz: e eles me davam também demonstração disto, mostrando-me muito agrado e
amor. Causa-me grande consolação todas as vezes que o recordo e quanto vejo que tenho diante da Majestade de
Deus Nosso Senhor tão bons intercessores e que com tantas veras rogaram por mim. Seja Nosso Senhor louvado.

Nesta soberana cidade, tão adornada e enriquecida com tantas e tão preciosas margaridas, como o luzeiro delas é o
soberano Cordeiro Jesus Cristo, com cujos raios ilustra a todos os bem-aventurados, reverberando neles, e
enlaçando-os com aquele amor paternal com que os remiu, é tão agradável o resplendor e formosura que a todo o
Céu banha e esclarece, que está como uma peça inteira, ou grande sala, toda de cristal, que estivesse sentada sobre
ouro finíssimo e lhe desse muito em cheio o Sol, porque o de Justiça a enche de soberana luz. E ali nenhuma sombra
há, nem pode haver, não só das almas, pois são espíritos que ainda não têm a companhia e união de seus corpos,
senão que ainda os de todos os bem-aventurados quando estiverem juntos, nenhuma sombra poderão fazer
naquela região de luz. E digo isto porque ouvi dizer a um letrado que os corpos dos bem-aventurados terão ali
sombras. E não me espanto que ainda que haja letras e sabedorias, ignorem alguma coisa da imensidade de Deus,
cuja grandeza e Majestade indivisível, como sua e em quem está toda a bem-aventurança, é tão sobre a nossa
imaginação e capacidade que línguas de Serafins não bastariam para declará-las cabalmente. Que como este Senhor
é infinito em seus bens e glória, infinitos são estes e não se podem numerar, nem compreender: quanto menos
poderei eu, bichinho ignorante, falar desta matéria e referir o que vi?

(Obras do Padre Manuel Bernardes – vol. I – “Pão Partido em Pequeninos” – págs. 95/105).

A Terrível Justiça Divina !!!!!!!


Por Missa Tridentina em Brasília

Na cidade de Magdeburgo, que é metropolitana no ducado de Saxônia, cursava as escolas um estudante por nome
Udo, de tão curta capacidade para as letras, a que suposto aplicava da sua parte o trabalho e diligência, não tirava
daqui mais fruto que mofa e zombaria dos condiscípulos, enfado dos mestres e aflição do próprio espírito. Um dia
que estas o apertou mais, entrou na Sé daquela cidade, que é dedicada a Deus em honra do ínclito capitão S.
Maurício Mártir e de toda a sua Legião Tebeia; e, ali prostrado em oração fervente, rogou à Virgem Santíssima Nossa
Senhora, e ao mesmo S. Maurício, lhe alcançassem de Deus luz no entendimento para os estudos. Adormeceu, e ali
em sonhos lhe apareceu a mesma Senhora e lhe disse: Ouvi tua oração, e não só te concede meu Bendito Filho o
talento das letras, senão que por elas subirás a ser bispo desta igreja, por morte do que agora governa. Se acudires
fielmente às obrigações deste ofício, será grande o teu prêmio; porém; se fores negligente será grande o teu castigo.

Desapareceu a visão; acordou Udo, e, desde aquela hora, não teve dificuldade em coisa alguma que estudasse. Foi o
seguinte dia às escolas, e começou a dar tão boa conta de si, que seus condiscípulos, admirados, diziam: Não é este
Udo, de quem há pouco nos riamos? Como tão brevemente se fez tão excelente filósofo? Na mesma admiração
estava o mestre, ponderando a capacidade rara com que compreendia as matérias, a agudeza rara com que
penetrava as dificuldades, a destreza e facilidade com que as soltava, e a retentiva com que tudo o que lia e ouvia
lhe ficava como gravada na memória. Finalmente, ganhou nome tão famoso em poucos anos, que vagando aquele
Arcebispado, foi eleito nele por comum aplauso do povo.

Colocado, pois, na cadeira arcebispal, procedeu louvávelmente aos princípios. Porém, como ofícios grandes
costumam mudar os procedimentos da pessoa que não está fundada em sólidas virtudes, foi pouco a pouco
esquecendo-se de suas obrigações, e entregando-se a vícios, de tal sorte que mais parecia lobo que entrava no
aprisco a degolar o rebanho de Cristo, do que pastor para o apascentar e defender. Deu-se particularmente ao vício
da sensualidade, tão sem freio do temor de Deus e do escândalo do povo, que não havia mulher casada, nem
donzela, segura de sua insaciável torpeza. E como era rico e poderoso, e com muitos dependentes da sua mão,
ninguém se atrevia a impedi-lo nem a repreendê-lo. Fez com isto mais profundo o seu pecado, e desmandou-se a
solicitar religiosas; e tirou de um mosteiro a abadessa, com a qual publicamente vivia amancebado. Quem esperara
tal desatino de um homem letrado, tal desenvoltura de um prelado eclesiástico, tal ingratidão de um sujeito tão
obrigado à Virgem? Porém, o vício da carne cega muito a luz do espírito: também Salomão era sábio; também como
rei devia dar bom exemplo; também, como devedor do benefício da sabedoria, devia honrar e servir a Deus, que lha
concedera.

Quis o Senhor piedosíssimo justificar mais a sua causa, primeiro que descarregasse o golpe: e assim lhe faz três como
admoestações canônicas. Estando Udo uma noite com aquela concubina à ilharga, ouviu uma voz que dizia: Cessa de
ludo, quia lusisti satis Udo: Cessa já de jogar, Udo, porque tens jogado muito. Fez o miserável pouco caso disto, e
ficou jazendo no seu pecado. Na seguinte noite teve na mesma forma o mesmo aviso, e também o desprezou;
porque o Demônio, que estava mui acastelado na sua alma com posse pacífica, logo lhe divertia o pensamento, e
com fazer-lhe repetir o pecado, se iam embastecendo mais as suas trevas interiores. Na terceira noite ouviu a
mesma voz, muito mais terrível e espantosa. Começou a temer e ansiar-se; porém, brevemente se tornou a quietar
na falsa paz de sua cauterizada consciência. Converteu, pois, Deus a sua justiça em juízo, e dirigiu este na forma
seguinte.
Um cônego daquela Sé, varão de muita oração e virtudes (que sem aquela, mal poderia ter estas), ficou na igreja
uma noite depois de matinas, encomendando a Deus Nosso Senhor este negócio: e lhe pediu com vivas lágrimas e
gemidos, que, ou sua Majestade abrandasse o empedernido coração de Udo, ou, quando ele não se quisesse
converter, lhe tirasse a vida, e o castigasse, para cessarem os escândalos, que cada dia eram maiores. Neste tempo,
entrou na igreja um grande-pé-de-vento, apagou todas as lâmpadas. Temeu o cônego, e se lhe arrepiaram os
cabelos; mas voltando-se para Deus e pedindo-lhe ânimo, se recobrou, e viu este admirável espetáculo.

Entraram na Igreja emparelhados dois mancebos de extremada galhardia, com tochas acesas nas mãos, de claridade
superior à que costuma na Terra; e fazendo profunda reverência ao altar-mor, se puseram em pé, um a um lado e
outro a outro. Entraram logo outros quatro: dois deles com alcatifas preciosíssimas, que estenderam no pavimento
da capela, e dois com cadeiras de ouro, que colocaram em cima, uma a par da outra. Vieram depois doze veneráveis
personagens, de tão respeitoso aspecto, que cada qual parecia imperador do mundo: porém, no meio deles parecia
outro Senhor incomparavelmente mais majestoso, com coroa de ouro na cabeça e cetro na mão: era Cristo Salvador
Nosso, e aqueles seus Sagrados Apóstolos; os quais, dividindo-se a uma e outra parte, lhe fizeram uma reverência, e
o Senhor se sentou numa das cadeiras. Entrou logo a Rainha do Céu, Maria Santíssima Senhora nossa, com
numerosa comunidade de Virgens e Mártires; e feita reverência ao Senhor, tomou a outra cadeira.

O cônego, lá desde o seu cantinho, estava embebido em admirações, mas desperto, esperando que ação se
representaria digna de tão aparatoso teatro. Quando vê que entra S. Maurício, patrão daquele templo, com toda a
triunfante legião dos Mártires seus companheiros (que dizem foram 6 666), todos coroados de luz e ornados de
decoro e majestade; e feita adoração ao Rei e outra à Rainha das Alturas, se dispuseram por todo aquele âmbito em
bem ordenadas fileiras. Eis que entra outro formosíssimo mancebo de galharda estatura, armado de ponto em
branco, com espada nua e reluzente na mão, como pintam a Justiça; e depois de feita a semelhante adoração com
os joelhos em terra, se pôs no meio, e levantando a voz, lançou este pregão: Todos os Santos, cujas relíquias aqui se
conservam, levantai-vos e vinde a este juízo. Imediatamente apareceu ali uma grande multidão de Santos, Mártires,
Virgens, confessores e doutores, que, postos também por sua ordem, enobreceram mais aquele ilustríssimo
conclave.

Saiu então o capitão S. Maurício, dando-se por autor naquela causa; e proclamou, dizendo: Retíssimo Juiz, tempo é
de que vossa soberana Majestade faça justiça. Mandou então o Senhor que lhe trouxessem ali a Udo; voaram logo
uns Anjos, e tirando-o da ilharga da concubina, com quem estava abraçado, o puseram na presença de Cristo, no
meio de todo aquele concurso, com tal confusão do miserável, que não é possível explicar-se. S. Maurício começou a
pôr-lhe os cargos, dizendo: Este, Soberano Senhor, é aquele Udo, a quem vossa Mãe Santíssima, que presente está,
fez tão particulares benefícios: a quem por sua intercessão, deste o talento da sabedoria; a quem encomendastes o
cuidado desta igreja, e ele, em vez de apascentar as vossas ovelhas, as tem apestado com o contágio de seus vícios,
gastando nele o patrimônio da mesma igreja. Este é o que teve atrevimento de violar as vossas esposas consagradas
e de persistir na sua maldade contra o seu próprio voto, contra o seu ofício, contra as leis humanas e Divinas, contra
os remorsos de sua consciência, e contra um e outro avisos do Céu, que lhe enviou vossa paciência e piedade.

Ouvia o Supremo Juiz os graves artigos daquele processo; e voltando o rosto para aqueles Santos que lhe assistiam,
disse: Como vos parece que nos portemos com este homem? Aqui levantando a voz o mancebo da espada nua,
disse, em nome de todos aqueles assessores que: Digno é de morte. E o Senhor pronunciou a sentença nesta forma:
Execute-se: e, pois, não soube ser cabeça da igreja que lhe encomendaram, cortem-lhe a cabeça. No mesmo ponto
chegou o mancebo e mandou a Udo que inclinasse a cabeça para o degolar. Levanta a espada, vai para descarregar o
golpe, quando um dos outros Anjos acode, dizendo: detém-te, que esse mau homem celebrou ontem e comungou
em pecado mortal, e por vontade de Deus se conservam ainda em seu corpo as espécies sacramentais: e é
necessário tirarmos com decência a hóstia consagrada. Neste ponto levantou-se da cadeira a Virgem Santíssima
Senhora nossa e, acompanhada de Anjos e Santos, chegou com um cálice de ouro na mão, no qual outro Anjo,
dando nas costas de Udo uma pancada, lhe fez lançar a sagrada Forma. E a Senhora a purificou com sua mão e
colocou o cálice sobre a pedra de ara, com toda a decência e acompanhamento de Anjos e Santos. Isto feito, o
valoroso mancebo descarregou o golpe, e destroncou aquele miserável corpo, saltando a cabeça para a outra parte e
ficando as lajes manchadas com seu torpe sangue. Executada a sentença desapareceu toda aquela nobre
companhia, deixando o tempo às escuras, como antes estava.
Atônito, aquele virtuoso sacerdote com a representação de caso tão estupendo, não sabia que fizesse, nem em que
se determinasse; e dizia entre si: Que é isto que vi? Sonho meu ou ilusão do Demônio, ou revelação de Deus? Sonho
não parece, que sempre estive desperto e fiz disso mesmo atos reflexos; mas quero certificar-me se está aqui o
corpo do desventurado arcebispo. Animou-se, pois, e foi buscar luz (porventura a sua casa, ou a alguma capela mais
retirada no claustro, onde houvesse lâmpada); acendeu as da igreja, chegou ao lugar onde vira o suplício, e, com
efeito, viu o corpo destroncado e a cabeça lançada à outra parte, e as pedras banhadas no sangue fresco: subiu ao
altar e viu nele o cálice de ouro com a Forma consagrada dentro. Não foi logo sonho (disse então novamente
admirado), mas demonstração pública da divina justiça, pois, a ofensa também era pública. E cerradas as portas da
igreja, foi, antes que amanhecesse, a notificar aos capitulares e outras pessoas principais do povo tudo o sucedido.
Divulgou-se o caso: abriram-se as portas da igreja, entrou inumerável gente, e todos foram testemunhas daquele tão
raro, como formidável espetáculo; e louvaram os juízos de Deus, que sendo umas vezes ocultos e outras manifestos,
sempre são retos e justificados por si mesmos.

Até aqui, revelara Deus Nosso Senhor a condenação de Udo quanto à morte temporal; segue-se outro caso, em que
revelou a outro sacerdote a sua condenação quanto à morte eterna. Era este um capelão do mesmo arcebispo, e
corretor de sua torpeza, e ele o havia mandado fora da cidade a negócios de importância; e se vinha neste mesmo
tempo recolhendo, mandadas já adiante as cargas. Vindo, pois, caminhando por um descampado, o carregou um
sono tão pesado, que não podendo resistir-lhe desmontou; e atando as rédeas do cavalo ao braço, se lançou a
dormir ao pé de uma árvore. Apenas adormecido, viu em sonhos uma numerosa tropa de demônios fazendo grande
ruído, armados todos de diversas armas, com lanças, piques e alabardas nas mãos, e que faziam alto naquele campo.
Vinha entre eles um, que no agigantado da estatura, no disforme do aspecto e no soberbo das ações mostrava ser o
Príncipe das Trevas. Levantaram-lhe logo ali um tribunal, em que tomou assento, e todos lhe fizeram reverência.
Assomou neste tempo por outra parte outra caterva de Demônios, que vinham dando descompostas risadas e
fazendo grande algazarra, como que traziam alguma rica presa, ou despojo, com que se mostravam contentes. Era
este a miserável alma de Udo em figura corporal, para que pudesse ser vista por semelhantes espécies. Vinha
amarrada com cadeias de fogo e sobre todo encarecimento feia, triste e desconsolada; e quando já chegava perto do
Príncipe Demonarca, alguns daqueles infernais ministros correram adiante, mais ligeiros que abutres, a dar-lhe a
nova, e diziam: Praça, graça, que vem uma pessoa principal; façam lugar, que vem um sujeito mui benemérito do
nosso reino.

Chegando o miserável Udo, pôs nele Lúcifer os afogueados olhos, e lhe disse mofando: Seja Vossa Senhoria mui
bem-vindo, que tem sido a sua vinda mui suspirada em meu palácio e corte, e desejamos todos pagar-lhe tantos e
tão sinalados serviços, com que tem aumentado a nossa coroa. Olá, vassalos meus, é razão que regalemos o novo
hospede; dai-lhe alguma coisa que coma. Chegaram logo uns demônios com pratos negros e asquerosos cheios de
sapos, e víboras, e serpentes vivas; e abrindo-lhe por força a boca, o constrangeram a comer. Entraram outros com
grandes vasos de fel de dragões e enxofre derretido, e o obrigaram a beber, esgotando até as fezes. Disse então
Lúcifer: Agora que Sua Senhoria comeu e bebeu, é bem que goze também da suavidade dos nossos banhos. Dito e
feito: afastou um Demônio uma grande laje, que servia de tampa a um poço que estava ali perto, do qual
rebentaram tantas e tão impetuosas e vorazes labaredas, que pareciam querer escalar o Céu; e desafogando-se por
aquele campo, tornaram em cinzas não só as árvores, mas as mesmas pedras, e até uma fonte que por ali corria, a
deixaram seca sem gota. Agarraram logo outros daquele desventurado e o emborcaram pelo poço dentro: onde,
havendo estado largo espaço, o tiraram da cor de um ferro que esteve na frágua feito brasa viva, e o tornaram à
presença de Lúcifer, o qual, escarnecendo, lhe disse: Que lhe parece a Vossa Senhoria dos nossos banhos? Não são
suaves e regalados? Pois isto não é mais que uma prova ou ensaio, da grande paga que temos prevenida para os
sinalados serviços e merecimentos de Vossa Senhoria.

A tudo isto tinha estado em silêncio o desventurado Udo; e vendo-se já condenado a uma duração interminável de
tormentos, e, que de seus olhos se ausentara para nunca mais tornar a esperança de remédio, levantou a temerosa
voz e com prolixos e altíssimos gemidos, dizia: Ai de mim! Ai de mim, desgraçado! Oh que caros me custaram meus
deleites! Oh que breves foram e momentâneos, sendo a pena deles eterna! Maldito seja o dia em que fui gerado;
maldita a hora em que nasci no mundo; malditos os pais que me deram o ser; malditos todos os que me ajudaram a
pecar; maldito (aqui começou a blasfemar de Deus, e da Virgem, e de todos os Santos). E os demônios, ouvindo-o,
desfecharam em risadas e diziam: Oh que bem sabe já o nosso ofício! Oh que lindamente canta! Necessário é que
fique em nossa casa e cante no nosso coro. Pois levai-o logo (disse Lúcifer) e dai-lhe um dos primeiros lugares. Então
remeteram a ele como cães danados, e pegando-lhe com unhas e dentes, se sumira pela boca do poço, com tão
ruidoso estrondo, que parecia virem-se abaixo as bóvedas do firmamento, e que os montes se arrancavam de seus
assentos.

Ficou, todavia, o Demonarca com outros espíritos malignos que lhe faziam corte; o qual, pondo os espantosos e
terríveis olhos, que pareciam carvões acesos, no clérigo que estava dormindo: Aquele (disse) que ali está dormindo
não é o capelão de Udo e seu alcoviteiro? Razão é que o acompanhe nas penas, pois, lhe ministrou nas culpas;
trazei-o aqui logo. Correram a ele os demônios, para o agarrar. E neste passo o clérigo, com a força do susto,
acordou daquele formidável sonho. E como se levantou estrebuchando e espavorido, espantou-se o cavalo, que
estava atado ao seu braço, e correu furiosamente pelo campo arrastando-o por largo espaço, até que lhe quebrou a
cana dele. Porém, como Deus queria dar-lhe lugar da penitência, e que fosse testemunha do que vira, parou enfim o
bruto, e se amansou de sorte que o clérigo pôde outra vez montar, ainda que com grande dor e trabalho. Chegando
à cidade, viu que em nenhuma outra coisa se falava mais que na infeliz e repentina morte de seu amo; e conferindo
o que tinha passado no castigo do corpo, com o que vira no da alma, ficou a verdade de uma e outra visão mais
contestada.

Porém, como as obras de Deus em qualquer gênero são perfeitas, faltava ainda alguma demonstração da ira Divina
acerca daquele miserável cadáver, que na igreja ficara degolado. Esta foi que não quiseram os da cidade dar-lhe
sepultura em sagrado. Lançaram-no na lagoa: porém, logo saíram dos bosques, brenhas e covas, diversas feras, que
ali tinham seus esconderijos; e entrando na lagoa, tiraram fora o corpo e o levaram arrastando pelos campos, sem
nenhuma lhe dar dentada, como que abominavam coisa tão maldita. E os pastores e rústicos, que com isto padeciam
não pequeno assombro e dano, se viram obrigados a queimar aquele corpo. Lançaram as cinzas dele no rio Alba; e
no mesmo ponto (coisa maravilhosa!) todos os peixes dele fugiram para o mar, e não apareceu ali pesca alguma
pelos dez anos seguintes; até que os naturais aplacaram a ira de Deus com procissões, penitências e ladainhas, e
então, começaram os peixes a tornar para o rio.

Dura a memória deste espantoso caso naquela província até o presente dia; e ainda que os Saxônios o quisessem
negar, as mesmas pedras o publicaram: porque numa da dita igreja se mostra claramente o sangue daquele
justiçado, cuja nódoa não pode apagar-se por estar incorporada com a mesma pedra, que parece a embebeu em si.
Está coberta com um tapete; e quando há nova promoção de arcebispo, a descobrem e lhe mostram, dizendo: Que
veja bem como castiga Deus a quem não administra como deve aquela dignidade, que lhe encomenda.

Até aqui a relação do caso. No qual se ofereciam muitas coisas dignas de ponderação: o perigo das letras, quando se
não acompanham das virtudes; o fácil abuso das riquezas e dignidades, para a depravação dos costumes; a graveza
do escândalo, quando o causam pessoas grandes, particularmente eclesiásticas; a dureza do coração humano
resistindo às vozes Divinas, e despenhando-se de um pecado em outro mais profundo; a eficácia da oração dos
justos, em ordem ao bem público e à honra divina; o desamparo de uma alma, tanto que a Virgem Nossa Senhora
fica em silêncio e não advoga por ela; o execrando sacrilégio dos que comungam em pecado mortal, e o respeito que
se deve ao Augustíssimo Sacramento do Altar; a justificação exatíssima e vasta profundeza dos divinos juízos; a
honra e fama dos pecadores, trocada subitamente em infâmia e ignomínia; a ingratidão, como é caráter próprio de
almas réprobas; o ofender a Deus por servir aos ímpios, como é arriscado a fazer-lhes companhia na pena eterna; as
criaturas todas como perseguiriam ao pecador, se Deus lhes desse licença; e outros muitos doutrinais avisos, que
desta história se provam manifestamente. Porém, como o nosso intento nesta obra não tem esfera tão ampla, só
pretendo agora que tiremos com tempo o desengano que aquela alma ponderou já tarde. Oh deleites da carne (dizia
ela, abrindo na pena os olhos que fecharam na culpa), como custais caro! Que brevemente passastes, e como vosso
tormento não passará eternamente! Consideremos atentamente, como não indo entre o pecador e o Inferno mais
que o fio da sua vida, que pode quebrar em qualquer instante, não pode haver loucura mais desatinada do que
deixar-se o pecador viver no estado em que não quisera morrer, e por um gosto torpe e momentâneo vender a
salvação eterna da sua alma.

E, finalmente, tornando à conclusão do presente capítulo, digo que são tantas no mundo as desgraças, ruínas,
sedições, crueldades e sucessos trágicos que este só vício da carne tem causado, que apenas há pessoa, das que têm
anos de discrição e experiência, que não possa referir vários exemplos. Nestes, pois, deve carregar com a
consideração quem deseja tirar escarmento, e pedir a Deus lhe conceda seu santo temor, para conter-se nos limites
que sinala sua lei.
Extraído da obra “Armas da Castidade” do Padre Manoel Bernardes.

A alma sem a graça de Deus


Perde um homem alguma peça do seu vestuário, e ainda que seja coisa vil, entristece-se, e a procura. Perde uma
alma a graça de Deus, que é a púrpura real do seu reino, não o sente, e nem a procura restaurar. Perde um homem o
instrumento de sua nobreza e descendência, por onde havia de levar um morgado¹ que lhe tocava, chora, lastima-se,
revolve tudo, promete alvíçaras², não descansa. Perde este mesmo a graça de Deus, que é o instrumento por onde se
prova que somos filhos de Deus, e sem ele não nos hão de sentenciar o morgado da glória: e não o sente, e não o
chora, antes talvez se ri de quem o sente. A alma que está fora da graça de Deus em lugar de estar vestida de Sol,
anda coberta de escuridão, anda cega, e por isso Aquele Rei do Evangelho à uma que achou sem a veste nupcial a
mandou lançar nas trevas exteriores: porque a escuridão do pecado ordinariamente vai parar na escuridão do
Inferno. A alma que anda fora da graça de Deus, em lugar de estar vestida de Deus, veste-se o demônio dela; e em
lugar de gerar em si à Cristo, faz-se filha do demônio. A alma que está fora da graça de Deus, podendo ser arca de
Deus, de cedro incorruptível, adornada com o ouro da caridade, fica pobre, imunda, sem adorno algum, e de sua
corrupção cria o bicho roedor da consciência. A alma que está fora da graça de Deus, em lugar de ser imagem da
Santíssima Trindade, e representar a formosura de Deus, tem esculpido ou pintado o seu coração como aquela
parede interior que viu Ezequiel com tantos ídolos quantos são os vícios e fealdades, que adora. Que fazemos, pois:
Induimini Dominum Jesum Christum (Revesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo).

(Sermões e praticas do P. Manoel Bernardez, pg. 360-361)

¹Vínculo inalienável e indivisível que se transmitia numa família, de primogênito em primogênito.

²Prêmio, que se dá à quem traz boas novas ou entrega coisa que se tinha perdido.

Padre Manuel Bernardes

Padre Manuel Bernardes (1644-1710) professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri. Escreveu
diversos tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais (1686), Luz e Calor (1696)
e Pão Partido em Pequeninos (1696); dois volumes deSermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de Vários
Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728. Esta última obra é uma coleção de «ditos bons e
sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O autor
não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça», pois falecera entretanto.

NOVA FLORESTA OU SILVA DE VÁRIOS APOTEGMAS


TRÊS PÁTRIAS

Qualquer homem tem três pátrias: uma da origem, outra da natureza e outra do direito. A pátria da origem é aquela
em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito é onde
cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar: neste sentido disse Túlio
de Catão que tivera a Túsculo por pátria da natureza, mas a Roma por pátria do direito.

Quanto à pátria da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai
criando as almas e unindo-as a nossos corpos.

Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra; por isso dela falamos tão
frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença do rei ao rústico. Neste
sentido, também, os que desejavam negar as imperfeições do amor a tal ou a tal terra em particular, ou por
arrogância e fasto filosófico ou por mortificação religiosa e santa, disseram que todo o mundo era pátria sua. Do
primeiro temos exemplo em Sócrates, que, perguntado donde era, respondeu:

– Do mundo: porque de todo o mundo sou cidadão e habitador.

E em Séneca, que disse:

– Não encerramos a grandeza do ânimo nos muros de uma cidade, antes o deixamos livre para o comércio de todo o
mundo, porque esta é a pátria que professamos, para darmos campo mais largo à virtude.
Do segundo temos exemplo em S. Basílio, que, ameaçado com desterro pelo prefeito do imperador Valente,
respondeu que não conhecia desterro quem não estava adicto a certos lugares.

Semelhante resposta foi a do v. p. frei António das Chagas, que, avisado por certa pessoa não falasse tão acremente
nos sermões da morte, porque se arriscava a ser desterrado, disse mui seguramente:

– Desterrar-me? Para onde? Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro.

Mas, além desta pátria do lugar comum, há outra do particular, que é a terra onde cada um nasceu. Quanto esta é
mais pequena, tanto une mais os seus filhos, de sorte que parece o mesmo ser compatriotas que parentes,
especialmente quando se acham fora dela. E parece-se este amor com a virtude da erva tápsia, da qual escreve
Teofrasto que, metida na panela com a carne a cozer, de tal modo conglutina os pedaços dela que, para os tirar, é
necessário quebrá-la. Quanto, porém, a pátria é terra mais populosa, rica e ilustre, tanto costuma ser matéria de
vaidade aos que põem a sua glória fora de si. Assim se esvaneciam os Arianos da sua Constantinopla, lançando em
rosto a S. Gregório Nazianzeno a sua terrinha, que nem muros a cingiam. Porém o santo doutor lhes respondeu que,
se isso era culpa nele, também o seria no golfinho não haver nascido na terra, e no boi não haver nascido mo mar. E,
pelo contrário, se neles era glória, também o seria para os jumentos da cidade assoberbarem os do campo.

Quanto à terceira pátria, é esta o lugar onde estamos naturalizados, por mercê da república, ou rescrito dos
príncipes, ou habitação continua, de modo que Sto. António se chama de Pádua, não sendo senão de Lisboa, e S.
Nicolau de Tolentino, sendo de Saint-Angel. Tomando, porém, isto espiritualmente, onde cada um habita com o
espírito e desejo, daí é natural. Por isso, Cristo disse a seus adversários que eles eram cá de baixo: Vos deorsum
estis... vos de mundo hoc estis. E, pelo contrário, a seus discípulos, que eles não eram deste mundo: De mundo non
estis.

PLEITO ENTRE FRADES E FORMIGAS

Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que
são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de
tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.
E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da
comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os
religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque,
enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu
um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu
seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem
demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por
parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o
processado e determinasse a presente causa.

Agradou a traça, e isto assim disposto, deu o procurador dos padres piedosos libelo contra as formigas; contestada
por parte delas a demanda, veio articulando que eles, autores, conformando-se com seu instituto mendicante,
viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país, e que as formigas, animal de
espírito totalmente oposto ao Evangelho, e por isso aborrecido de seu padre S. Francisco, não faziam mais que
roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam
expelir de casa, arruinando-a. E, portanto, dessem razão de si, ou, quando não, fossem todas mortas com algum ar
pestilente ou afogadas com alguma inundação ou, pelo menos, exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou, por sua parte, fielmente:

«Em primeiro lugar: que elas, uma vez recebido o benefício da vida por seu Criador, tinham direito natural a
conservá-la por aqueles meios que o mesmo Senhor lhes ensinara;

Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos de virtudes que
lhes mandara, a saber: de prudência, acautelando os futuros e guardando para o tempo da necessidade; de
diligência, ajuntando nesta vida merecimentos para a vida eterna; de caridade ajudando umas às outras, quando a
carga é maior que as forças; e também de religião e piedade, dando sepultura aos mortos da sua espécie...;
Item: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o deles, autores, em
ajuntar as esmolas, porque a carga muitas vezes era maior que o corpo, e o ânimo que as forças;

Item: que, suposto que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas
formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava e batia com haverem ofendido ao Criador, não
observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza, pelo que se faziam indignos de que criatura
alguma os servisse e acomodasse, pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de Deus por tantas vias, do
que nelas furtarem sua farinha;

Item: que elas estavam de posse daquele sítio antes deles, autores, fundarem, e, portanto, não deviam ser dele
esbulhadas, e da força que se lhes fizesse apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos
como os grandes e a cada espécie deputou seu anjo conservador. E, ultimamente, concluíram que defendessem eles
a sua casa e farinha, pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam, porém que elas, sem
embargo, haviam de continuar as suas diligências, pois do Senhor, e não deles, era a terra e quanto ela cria (Domini
est terra et plenitudo eius).»

Sobre esta contrariedade houve réplicas e contra-réplicas, de sorte que o procurador dos autores se viu apertado,
porque, uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas, e abstraindo razões contemplativas com espírito
de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito, pelo que o juiz, vistos os autos, e pondo-se com
ânimo sincero na equidade que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os frades fossem obrigados a sinalar
dentro da sua cerca sítio competente para vivenda das formigas, e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem
logo habitação, visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo, maiormente porque eles,
religiosos, tinham vindo ali, por obediência, a semear o grão evangélico e era digno o operário do seu sustento, e o
das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo, em voz
sensível, nas bocas dos formigueiros.

Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor de quem está escrito
que brinca com as suas criaturas (Ludens in orbe terrarum!). Imediatamente saíram, a toda a pressa, milhares de
milhares daqueles animalejos, que, formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo,
deixando as antigas moradas, e livres de sua molestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus
as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

DÁ DUAS VEZES QUEM DÁ LOGO

Passando el-rei D. Sebastião do Paço de Xabregas para o mosteiro, chegou uma mulher a apresentar-lhe um
memorial. Recebeu-o e entregou-o a um fidalgo dos que o acompanhavam.

Ela, afligida, disse:

– Senhor, corre minha honra perigo na tardança.

Pôs nela os olhos el-rei, com aquele afecto de pai que foi tão próprio de seus antepassados para com seus vassalos;
pediu recado de escrever e ali mesmo despachou o memorial, dizendo:

– Os negócios desta qualidade em toda a parte devem ter despacho pronto.

Semelhante presteza em despachar se escreve de Viroldo, duque de Lituânia, o qual, até estando à mesa, ouvia os
requerimentos, assinava os papéis, recebia as embaixadas. De João Corvino, governador do reino de Hungria, dizem
que em qualquer parte, em pé, e sentado, e andando, e a cavalo, sempre ia administrando as obrigações de seu
ofício.

O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na
parede), estando de partida contra os Dacos, ao passar de Roma lhe saiu uma viúva clamando justiça contra os
homicidas de seu filho. E o César, desmontando do cavalo, a ouviu benignamente e satisfez a seus desejos.

Há negócios e ocorrências que se lhe deve acudir, como se tangeram a fogo. Que ridículo seria o que, chamado para
apagar um incêndio, respondesse mui repousado:
– Em almoçando, eu vou logo!

Gabeliano foi réu de morte por deter três dias o aviso de uma conjuração que lhe foi delatada. e fundou-se a
sentença em que em ordem a cautelar o próprio dano, podia cada um ser incrédulo ou animoso, mas, em ordem a
salvar o alheio, quem mais teme, melhor satisfaz à sua obrigação.

Importa que o espírito do príncipe e do magistrado tenha alguma porção ígnea que o incline a fazer o seu ofício, não
frouxamente, mas com prontidão e viveza, porque a caridade, que, pelo que toca ao bem próprio, há-de ser
paciente, pelo que toca ao bem do próximo, há-de participar, às vezes, algum tanto de impaciência. E esta é a índole
boa, que Séneca descobria até naquilo que em outras ocasiões podia ser repreensível (Saepe tibi indolem bonam in
malis quoque tuis ostendam). E esta é a que mostrou aquele rei, cujo coração aprovou Deus, dizendo que era
conforme ao seu, quando respondeu logo à mulher Tecuitis, que lhe pedia um seguro tal para lhe não matarem a
seu filho:

– Quem ousar a tocar-te, traz-mo aqui. Vive Deus, que nem um só cabelo há-de cair da cabeça de teu filho.

Veja-se como prendeu depressa neste espírito a chama do zelo, tanto que caiu sobre ele a faísca da injustiça, ainda
só fingida, como aquela era.

Tanto que o agente se aproxima ao Paço – diz o filósofo – logo resulta acção; e tanto que o miserável se chega ao
poderoso, logo há-de haver amparo; tanto que o injuriado recorre ao juiz, logo há-de haver satisfação. Aquele
leproso que pediu saúde a Cristo, apenas explicou o seu desejo sem petição expressa e formal. Domine, si vis, potes
me mundare (Senhor, se quereis, podereis alimpar-me). Quando logo o Senhor lhe respondeu: «Quero; fica limpo»
(Volo; Mundare), e, estendendo a mão, o tocou e sarou. De sorte que, por este caso, podíamos com mais razão dizer
o que lá o outro da velocidade dos notários, que tomavam por pena as palavras mais depressa do que outrem lhas
pronunciava. Assim parece que ainda a língua do leproso não tinha bem declarado a sua petição, quando a mão do
Senhor a tinha já remediado.

Assim como quem dá logo dá duas vezes (Bis dat qui cito dat), assim parece que despacha duas vezes quem
despacha bem e logo. Despacha uma vez, concedendo a mercê, e despacha outra, atalhando passos, cuidados e
despesas.

Ao rei D. João II de Portugal chegou um pretendente, pedindo certo ofício.

– Já está dado – disse o rei.

E o pretendente lhe rendeu as graças, beijou a mão e despediu-se.

Suspeitou o rei que não percebera a repulsa, e disse:

– Vinde cá: De que me destes as graças?

– Pela mercê – respondeu – que V. A. me acaba de fazer.

Tornou o rei:

– Que mercê vos fiz eu?

– Senhor – disse ultimamente o homem -, a de desenganar-me sem me remeter a ministros, porque nisso me
poupou muitos passos, e enfado; e dinheiro, que havia de desembolsar sem proveito.

Nestes danos não reparam os ministros e seus oficiais, retendo as causas e derretendo as partes tanto tempo, que
na sua mão parecem estar os papéis não só presos, mas já mortos e sepultados, porque lhes põem uma pedra em
cima, que é mais do que dizia o adágio antigo De paxillo suspendere (pendurá-los de um torno ou cabide), para
significar a negligência e descuido nos negócios.

Há causas (se não são das que morreram desesperadas) que podem competir com João dos Tempos, de que dizem
que viveu 361 anos. Se não param de cansadas, pelo menos andam tão devagar que tudo se vai em Manda,
remanda; manda, remanda; expecta, reexpecta; expecta, reexpecta, e, com este manda e remanda, se faz eterna a
demanda, e, com este espera e reespera, o pobre, enfim, desespera.
Dizem que Hábis, filha do rei Górgon, por haver sido criada nos bosques com leite de uma cerva, saiu ligeiríssima no
correr. Estou considerando que leite mamaria uma destas causas ou requerimentos na mão dos ministros e seus
oficiais, que não há remédio a fazê-la correr. Se beberia o leite da preguiça do Brasil (a quem os Castelhanos
chamam por ironia perrillo ligero), que gasta dois dias em subir a uma árvore e outros dois em descer?

Mas não é adequado o símil. Porque a preguiça do Brasil anda devagar, mas anda, e a preguiça do Reino e seus
ministros, a cada passo pára e dorme. Dois meses para entrar um papel, e parou; outros dois para subir a consulta, e
tornou a parar; outros dois para descer abaixo, e temo-la outra vez parada. Mais tantos meses para se verem os
autos, mais outros tantos para se formar a tenção, mais tantos anos para embargos, apelações, suspensões,
dilações, visitas, revistas, réplicas, tréplicas... Oh! preguiça do Brasil, já eu digo, não por ironia, senão por boa
verdade, que tu, em comparação da preguiça do Reino, és perrillo ligero.

Diz Plínio que o lavrador que se não encurva sobre o arado prevarica, isto é, faz os sulcos da terra torcidos (Arator,
nisi incurvus, praevaricatur), e, sendo torcidos, claro está que hão-de sair mais compridos do que podiam ser, pois a
linha recta sempre é a mais breve. Parece-me que daqui procede (pelo não atribuirmos a piores causas) serem tão
compridos e prolongados os sulcos ou caminhos que faz uma causa nas mãos de um ministro. São compridos porque
não são rectos, e não são rectos, porque ele não se encurva sobre a banca, não se inclina sobre os livros, não se
aplica ao seu ofício – e isto é o mesmo que prevaricar.

EMBAIXADA DE D. MANUEL AO PAPA LEÃO X

O nosso ínclito rei D. Manuel, de feliz recordação, quando se viu dominador dos reinos do Oriente (de sorte que
podíamos dizer que as asas do Sol se mediam com o seu Império, e que aqueles povos infiéis se não confederavam
contra a potência das suas armas mais que para ser delas triunfo e ouvir os anúncios da palavra evangélica), então
folgou de submeter toda esta grandeza aos pés do Sumo Pontífice Leão X, por seus embaixadores particulares
tributando-lhe juntamente as primícias das riquezas do Oriente.

O principal delas era Tristão da Conha, a quem faziam lados outros dois, a saber: Diogo Pacheco e João de Faria,
desembargadores, e outros cinquenta cavaleiros. E era em todos tanta a riqueza e lustre, que havia selas, freios,
peitorais e estribos de ouro de martelo, com pedraria fina e pérolas a montes.

Todos os embaixadores dos príncipes cristãos, que se achavam em Roma, e o governador da mesma cidade, e
muitos bispos, e famílias dos cardeais, e outra inumerável nobreza, deram nobres aumentos a esta pompa, e o
mesmo papa quis lograr o vistoso desta entrada, desde o Castelo de Sto. Angelo.

Levavam-lhe um presente com um grande e preciosíssimo cofre, coberto com pano de ouro e nele debuxadas as
reais quinas posto sobre um elefante, o qual tanto que avistou ao Sumo Pontífice, ajoelhou três vezes, ensinado pelo
naire que de cima o governava, e logo, metendo a tromba em um grande vaso de água que ali estava prevenido,
borrifou os cardeais e outras pessoas que estavam pelas janelas, e o mesmo sinal de festa usou com o mais povo que
estava apinhado pelas ruas.

Em outro dia foi recebida a embaixada, orando elegantemente o Pacheco em consistório. E, no fim da oração, o
papa exaltou com excessivos louvores as prendas d'el-rei D. Manuel, e o católico zelo com que naquele Novo Mundo
solicitava propagar o Império de Cristo e a glória de sua santa igreja.

Os pontos principais da embaixada eram três: o primeiro, que Sua Santidade empreendesse guerra contra o Turco;
segundo, que se tratasse mui de veras da reforma da Igreja; terceiro, que a este fim se prosseguisse e concluísse o
sagrado ecuménico concílio de Trento.

Em outro dia se abriu o cofre, tornando a ajoelhar o elefante diante de Sua Santidade. Encerrava um ornamento
pontifical inteiro, não só para a pessoa do papa, mas para todos os seus ministros: Era todo de chaparia e figuras de
ouro e pedraria preciosa, e a trechos umas romãs de rubis escachadas e, sendo a matéria tal, ainda dos primores da
arte era vencida. Iam juntamente outras riquíssimas jóias e ducatões de 500 escudos de ouro, como para entulho.

Avaliaram alguns o presente em um milhão, o qual veio a ser dos que saquearam Roma. Finalmente, Alberto de
Carpe, escrevendo ao imperador Maximiliano, como seu embaixador que então era, diz, na sua carta, este capítulo:
«Todo o povo universal de Roma concorreu por ver esta novidade; e não é maravilha, porque poucas vezes, ou
nunca, sucedeu enviarem príncipes cristãos a Roma tão magnífico aparato.»

Este sinal de rendimento deu à pessoa do vigário de Cristo o nosso católico monarca, visto que a distância de terras e
a ocasião lhe não concediam venerá-lo com outras demonstrações pessoais da sua humildade.

Quem desejar fazer-se presente àquele memorável espectáculo, referido aqui tosca e sumariamente, recorra ao
elegante aparo das penas do bispo Osório e de Manuel de Faria e Sousa.

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bernarde.htm

Santíssimo Nome de Maria


DO MISTERIOSÍSSIMO, EFICACÍSSIMO, E DULCÍSSIMO NOME DE MARIA

Foi imposto este nome à Senhora não casualmente ou por arbítrio humano, senão (como dizem os Santos) por
disposição divina e instinto do Espírito Santo; e por ventura foi anunciado à S. Ana por algum Anjo, como foi o do
Precursor a seu pai Zacarias. Considera, pois, neste nome, as suas significações.

Quanto às significações, tocaremos só em três das mais principais. A primeira é que Maria, na língua Síria (que era a
mais usada naquele tempo em Palestina), quer dizer Senhora. O que bem quadra este nome à Virgem, pois é
Senhora absoluta, soberana e pacífica de todas as criaturas no Céu, na terra e debaixo da terra! Os mais sublimes
Serafins, aquelas essências mais puras, que servem de lugares à presença de Deus, iluminam, reconhecem, e adoram
a esta Princesa; as nações, os reinos e os impérios dependem do seu aceno e favor, tremem da sua ausência e
desvio.

Outra significação do nome MARIA na língua hebraica é Estrela do mar; e com este apelido a invoca a Igreja: Ave
Maris Stella. Também lhe vem mui próprio, por estrela, e estrela do mar. Por estrela primeiramente: porque a
estrela, sem diminuição sua, nos produz o raio luminoso e a Virgem, permanecendo Virgem, nos gerou Cristo, que é
luz do mundo. Além disso, porque as estrelas presidem às trevas da noite; e a Virgem é refúgio de pecadores, em
que ainda não reina o Sol da graça.

A terceira significação, e de todas a mais própria e digna, é, conforme diz S. Ambrósio, MARIA, isto é, Deus da minha
geração. Ó imensa glória! Ó altíssima dignidade! Ó ventura imponderável! Senhora, Deus de vossa geração! O que
tudo criou ser de ti gerado! O que gerou o Eterno Pai ab æterno, antes de todos os séculos, nos geraste por obra do
Espírito Santo, no meio dos séculos! Maravilhosa definição encerram cinco só letras do nome MARIA; idest Deus ex
genere meo.

Pe. Manuel Bernardes

Fonte: Evangelho Cotidiano

A ALMA SEM A GRAÇA DE DEUS


Por *Padre Manuel Bernardes in Sensus Naturalis

Perde um homem alguma peça do seu vestuário, e ainda que seja coisa vil, entristece-se, e a procura. Perde uma
alma a graça de Deus, que é a púrpura real do seu reino, não o sente, e nem a procura restaurar. Perde um homem o
instrumento de sua nobreza e descendência, por onde havia de levar um morgado¹ que lhe tocava, chora, lastima-se,
revolve tudo, promete alvíçaras², não descansa. Perde este mesmo a graça de Deus, que é o instrumento por onde se
prova que somos filhos de Deus, e sem ele não nos hão de sentenciar o morgado da glória: e não o sente, e não o
chora, antes talvez se ri de quem o sente. A alma que está fora da graça de Deus em lugar de estar vestida de Sol,
anda coberta de escuridão, anda cega, e por isso Aquele Rei do Evangelho à uma que achou sem a veste nupcial a
mandou lançar nas trevas exteriores: porque a escuridão do pecado ordinariamente vai parar na escuridão do
Inferno. A alma que anda fora da graça de Deus, em lugar de estar vestida de Deus, veste-se o demônio dela; e em
lugar de gerar em si à Cristo, faz-se filha do demônio. A alma que está fora da graça de Deus, podendo ser arca de
Deus, de cedro incorruptível, adornada com o ouro da caridade, fica pobre, imunda, sem adorno algum, e de sua
corrupção cria o bicho roedor da consciência. A alma que está fora da graça de Deus, em lugar de ser imagem da
Santíssima Trindade, e representar a formosura de Deus, tem esculpido ou pintado o seu coração como aquela
parede interior que viu Ezequiel com tantos ídolos quantos são os vícios e fealdades, que adora. Que fazemos, pois:
Induimini Dominum Jesum Christum (Revesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo).

(Sermões e praticas do Pe. Manoel Bernardes, pg. 360-361)

¹vínculo inalienável e indivisível que se transmitia numa família, de primogênito em primogênito.

²prêmio, que se dá à quem traz boas novas ou entrega coisa que se tinha perdido.

*Padre Manuel Bernardes (1644-1710) foi um presbítero da Congregação do Oratório de S. Felipe Neri, em cuja
tranquilidade claustral se recolheu até o fim de seus dias.

Escreveu numerosas obras de espiritualidade cristã, dentre as quais Luz e Calor (1696), Nova Floresta (5 Volumes,
1710, 1708, 1711, 1726, e 1728), Pão Partido em Pequeninos (1694), Exercícios Espirituais (1707), Os Últimos Fins do
Homem (1726), Armas da Castidade (1737), Sermões e Práticas (2 Volumes, 1711), e Estímulo Prático para bem
seguir o bem e fugir o mal (1730).

http://pedrodaveiga.blogspot.com.br/2012/08/a-alma-sem-graca-de-deus.html

P. Manuel Bernardes: «Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte do que o


exemplo. Persuade sem retórica, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as
dúvidas desata, e corta caladamente as desculpas»
(1644-1710)

Lisboa

Cortesia dealfarrabiodiuminho

O Padre Manuel Bernardes professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri. Escreveu diversos
tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais(1686), Luz e Calor (1696) e Pão Partido
em Pequeninos(1696). Dois volumes de Sermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de Vários
Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728.

Esta última obra é uma colecção de «ditos bons e sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem
alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O autor não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça».

Mendes dos Remédios escreveu as palavras seguintes: «Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na
vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por mais de um laço à história política de Portugal, Bernardes
viveu o melhor e maior tempo da sua vida, 36 anos, entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre
cela da Congregação do Oratório». Lendo-os com atenção, escreve António Feliciano de Castilho, sente-se que
«Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes. Bernardes, ainda falando das criaturas, estava
absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo. Bernardes, para a cela, para
si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo. Bernardes era como estas formosas de seu
natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem, que brilham mais com uma flor apanhada
ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo».

Manuel BERNARDES, C.O., 1644-1710

Discurso sobre a educação

Almeida e Machado, 1908. - 132 p. ; 21 cm. - 2 ex.

CDU 821.134.3-97

Cortesia da Biblioteca Nacional Digital

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreendedezenove volumes, entre os quais se contam:

 Os Sermões e Práticas;
 Os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa;

 Os Últimos Dias do Homem;

 Os Tratados Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos;

 Luz e Calor;

 A Nova Floresta.

Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou de trabalhar, até
perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias encontram-se no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

(Discurso sobre a educação)

Opúsculo V

Orações Jaculatórias, ou setas espirituais para atirar ao Céu e Ferir o Coração de Deus.

«Não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória do que
como parto afectuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as fazer, e
adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias
doEspírito, Purgativa, Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística). e
assim podemos dizer que as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas
ferirão mais altamente o coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa
caridade. Se o Leitor achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso
reparo, porque estas coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança
Teológica». In Orações Jaculatórias

(Gemidos da Alma Penitente)

Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas.

Três Pátrias

«Qualquer homem tem três pátrias: uma da origem, outra da natureza e outra do direito. A pátria da origem é
aquela em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito
é onde cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar: neste sentido
disse Túlio de Catão que tivera a Túsculo por pátria da natureza, mas a Roma por pátria do direito. Quanto à pátria
da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai criando as
almas e unindo-as a nossos corpos. Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra;
por isso dela falamos tão frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença
do rei ao rústico. Neste sentido, também, os que desejavam negar as imperfeições do amor a tal ou a tal terra em
particular, ou por arrogância e fasto filosófico ou por mortificação religiosa e santa, disseram que todo o mundo era
pátria sua».

Do primeiro temos exemplo em Sócrates, que, perguntado donde era, respondeu:

 Do mundo: porque de todo o mundo sou cidadão e habitador.

E em Séneca, que disse:

 Não encerramos a grandeza do ânimo nos muros de uma cidade, antes o deixamos livre para o comércio de
todo o mundo, porque esta é a pátria que professamos, para darmos campo mais largo à virtude.

Do segundo temos exemplo em S. Basílio, que, ameaçado com desterro pelo prefeito do imperador Valente,
respondeu que não conhecia desterro quem não estava adicto a certos lugares.

Semelhante resposta foi a do frei António das Chagas, que, avisado por certa pessoa não falasse tão acremente nos
sermões da morte, porque se arriscava a ser desterrado, disse mui seguramente:
 Desterrar-me? Para onde? Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro.

Mas, além desta pátria do lugar comum, há outra do particular, que é a terra onde cada um nasceu. Quanto esta é
mais pequena, tanto une mais os seus filhos, de sorte que parece o mesmo ser compatriotas que parentes,
especialmente quando se acham fora dela. E parece-se este amor com a virtude da erva tápsia, da qual escreve
Teofrasto que, metida na panela com a carne a cozer, de tal modo conglutina os pedaços dela que, para os tirar, é
necessário quebrá-la. Quanto, porém, a pátria é terra mais populosa, rica e ilustre, tanto costuma ser matéria de
vaidade aos que põem a sua glória fora de si. Assim se esvaneciam os Arianos da sua Constantinopla, lançando em
rosto a S. Gregório Nazianzeno a sua terrinha, que nem muros a cingiam. Porém o santo doutor lhes respondeu que,
se isso era culpa nele, também o seria no golfinho não haver nascido na terra, e no boi não haver nascido mo mar. E,
pelo contrário, se neles era glória, também o seria para os jumentos da cidade assoberbarem os do campo.

Quanto à terceira pátria, é esta o lugar onde estamos naturalizados, por mercê da república, ou rescrito dos
príncipes, ou habitação continua, de modo que Sto. António se chama de Pádua, não sendo senão de Lisboa, e S.
Nicolau de Tolentino, sendo de Saint-Angel. Tomando, porém, isto espiritualmente, onde cada um habita com o
espírito e desejo, daí é natural. Por isso, Cristo disse a seus adversários que eles eram cá de baixo: Vos deorsum
estis... vos de mundo hoc estis. E, pelo contrário, a seus discípulos, que eles não eram deste mundo: De mundo non
estis.

Pleito entre Frades e Formigas

Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que
são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de
tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.
E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da
comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os
religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque,
enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu
um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu
seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem
demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por
parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o
processado e determinasse a presente causa.

Agradou a traça, e isto assim disposto, deu o procurador dos padres piedosos libelo contra as formigas; contestada
por parte delas a demanda, veio articulando que eles, autores, conformando-se com seu instituto mendicante,
viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país, e que as formigas, animal de
espírito totalmente oposto ao Evangelho, e por isso aborrecido de seu padre S. Francisco, não faziam mais que
roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam
expelir de casa, arruinando-a. E, portanto, dessem razão de si, ou, quando não, fossem todas mortas com algum ar
pestilente ou afogadas com alguma inundação ou, pelo menos, exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou, por sua parte, fielmente:

«Em primeiro lugar: que elas, uma vez recebido o benefício da vida por seu Criador, tinham direito natural a
conservá-la por aqueles meios que o mesmo Senhor lhes ensinara;

Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos de virtudes que
lhes mandara, a saber: de prudência, acautelando os futuros e guardando para o tempo da necessidade; de
diligência, ajuntando nesta vida merecimentos para a vida eterna; de caridade ajudando umas às outras, quando a
carga é maior que as forças; e também de religião e piedade, dando sepultura aos mortos da sua espécie...;

Item: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o deles, autores, em
ajuntar as esmolas, porque a carga muitas vezes era maior que o corpo, e o ânimo que as forças;

Item: que, suposto que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas
formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava e batia com haverem ofendido ao Criador, não
observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza, pelo que se faziam indignos de que criatura
alguma os servisse e acomodasse, pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de Deus por tantas vias, do
que nelas furtarem sua farinha;

Item: que elas estavam de posse daquele sítio antes deles, autores, fundarem, e, portanto, não deviam ser dele
esbulhadas, e da força que se lhes fizesse apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos
como os grandes e a cada espécie deputou seu anjo conservador. E, ultimamente, concluíram que defendessem eles
a sua casa e farinha, pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam, porém que elas, sem
embargo, haviam de continuar as suas diligências, pois do Senhor, e não deles, era a terra e quanto ela cria (Domini
est terra et plenitudo eius)».

Sobre esta contrariedade houve réplicas e contra-réplicas, de sorte que o procurador dos autores se viu apertado,
porque, uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas, e abstraindo razões contemplativas com espírito
de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito, pelo que o juiz, vistos os autos, e pondo-se com
ânimo sincero na equidade que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os frades fossem obrigados a sinalar
dentro da sua cerca sítio competente para vivenda das formigas, e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem
logo habitação, visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo, maiormente porque eles,
religiosos, tinham vindo ali, por obediência, a semear o grão evangélico e era digno o operário do seu sustento, e o
das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo, em voz
sensível, nas bocas dos formigueiros.

Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor de quem está escrito
que brinca com as suas criaturas (Ludens in orbe terrarum!). Imediatamente saíram, a toda a pressa, milhares de
milhares daqueles animalejos, que, formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo,
deixando as antigas moradas, e livres de sua molestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus
as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

Dá Duas vezes quem Dá Logo

Passando el-rei D. Sebastião do Paço de Xabregas para o mosteiro, chegou uma mulher a apresentar-lhe um
memorial. Recebeu-o e entregou-o a um fidalgo dos que o acompanhavam.

Ela, afligida, disse:

– Senhor, corre minha honra perigo na tardança.

Pôs nela os olhos el-rei, com aquele afecto de pai que foi tão próprio de seus antepassados para com seus vassalos;
pediu recado de escrever e ali mesmo despachou o memorial, dizendo:

– Os negócios desta qualidade em toda a parte devem ter despacho pronto.

Semelhante presteza em despachar se escreve de Viroldo, duque de Lituânia, o qual, até estando à mesa, ouvia os
requerimentos, assinava os papéis, recebia as embaixadas. De João Corvino, governador do reino de Hungria, dizem
que em qualquer parte, em pé, e sentado, e andando, e a cavalo, sempre ia administrando as obrigações de seu
ofício.

O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na
parede), estando de partida contra os Dacos, ao passar de Roma lhe saiu uma viúva clamando justiça contra os
homicidas de seu filho. E o César, desmontando do cavalo, a ouviu benignamente e satisfez a seus desejos.

Há negócios e ocorrências que se lhe deve acudir, como se tangeram a fogo. Que ridículo seria o que, chamado para
apagar um incêndio, respondesse mui repousado:

– Em almoçando, eu vou logo!


Gabeliano foi réu de morte por deter três dias o aviso de uma conjuração que lhe foi delatada. e fundou-se a
sentença em que em ordem a cautelar o próprio dano, podia cada um ser incrédulo ou animoso, mas, em ordem a
salvar o alheio, quem mais teme, melhor satisfaz à sua obrigação.

Importa que o espírito do príncipe e do magistrado tenha alguma porção ígnea que o incline a fazer o seu ofício, não
frouxamente, mas com prontidão e viveza, porque a caridade, que, pelo que toca ao bem próprio, há-de ser
paciente, pelo que toca ao bem do próximo, há-de participar, às vezes, algum tanto de impaciência. E esta é a índole
boa, que Séneca descobria até naquilo que em outras ocasiões podia ser repreensível (Saepe tibi indolem bonam in
malis quoque tuis ostendam). E esta é a que mostrou aquele rei, cujo coração aprovou Deus, dizendo que era
conforme ao seu, quando respondeu logo à mulher Tecuitis, que lhe pedia um seguro tal para lhe não matarem a
seu filho:

– Quem ousar a tocar-te, traz-mo aqui. Vive Deus, que nem um só cabelo há-de cair da cabeça de teu filho.

Veja-se como prendeu depressa neste espírito a chama do zelo, tanto que caiu sobre ele a faísca da injustiça, ainda
só fingida, como aquela era.

Tanto que o agente se aproxima ao Paço – diz o filósofo – logo resulta acção; e tanto que o miserável se chega ao
poderoso, logo há-de haver amparo; tanto que o injuriado recorre ao juiz, logo há-de haver satisfação. Aquele
leproso que pediu saúde a Cristo, apenas explicou o seu desejo sem petição expressa e formal.Domine, si vis, potes
me mundare (Senhor, se quereis, podereis alimpar-me). Quando logo o Senhor lhe respondeu: «Quero; fica limpo»
(Volo; Mundare), e, estendendo a mão, o tocou e sarou. De sorte que, por este caso, podíamos com mais razão dizer
o que lá o outro da velocidade dos notários, que tomavam por pena as palavras mais depressa do que outrem lhas
pronunciava. Assim parece que ainda a língua do leproso não tinha bem declarado a sua petição, quando a mão do
Senhor a tinha já remediado.

Assim como quem dá logo dá duas vezes (Bis dat qui cito dat), assim parece que despacha duas vezes quem
despacha bem e logo. Despacha uma vez, concedendo a mercê, e despacha outra, atalhando passos, cuidados e
despesas.

Ao rei D. João II de Portugal chegou um pretendente, pedindo certo ofício.

- Já está dado – disse o rei.

E o pretendente lhe rendeu as graças, beijou a mão e despediu-se.

Suspeitou o rei que não percebera a repulsa, e disse:

– Vinde cá: De que me destes as graças?

– Pela mercê – respondeu – que V. A. me acaba de fazer.

Tornou o rei:

– Que mercê vos fiz eu?

– Senhor – disse ultimamente o homem -, a de desenganar-me sem me remeter a ministros, porque nisso me
poupou muitos passos, e enfado; e dinheiro, que havia de desembolsar sem proveito.

Nestes danos não reparam os ministros e seus oficiais, retendo as causas e derretendo as partes tanto tempo, que
na sua mão parecem estar os papéis não só presos, mas já mortos e sepultados, porque lhes põem uma pedra em
cima, que é mais do que dizia o adágio antigo De paxillo suspendere (pendurá-los de um torno ou cabide), para
significar a negligência e descuido nos negócios.

Há causas (se não são das que morreram desesperadas) que podem competir com João dos Tempos, de que dizem
que viveu 361 anos. Se não param de cansadas, pelo menos andam tão devagar que tudo se vai
em Manda, remanda; manda, remanda;expecta, reexpecta; expecta, reexpecta, e, com este manda e remanda, se
faz eterna a demanda, e, com este espera e reespera, o pobre, enfim, desespera.
Dizem que Hábis, filha do rei Górgon, por haver sido criada nos bosques com leite de uma cerva, saiu ligeiríssima no
correr. Estou considerando que leite mamaria uma destas causas ou requerimentos na mão dos ministros e seus
oficiais, que não há remédio a fazê-la correr. Se beberia o leite da preguiça do Brasil (a quem os Castelhanos
chamam por ironia perrillo ligero), que gasta dois dias em subir a uma árvore e outros dois em descer?

Mas não é adequado o símil. Porque a preguiça do Brasil anda devagar, mas anda, e a preguiça do Reino e seus
ministros, a cada passo pára e dorme. Dois meses para entrar um papel, e parou; outros dois para subir a consulta, e
tornou a parar; outros dois para descer abaixo, e temo-la outra vez parada. Mais tantos meses para se verem os
autos, mais outros tantos para se formar a tenção, mais tantos anos para embargos, apelações, suspensões,
dilações, visitas, revistas, réplicas, tréplicas... Oh! preguiça do Brasil, já eu digo, não por ironia, senão por boa
verdade, que tu, em comparação da preguiça do Reino, és perrillo ligero.

Diz Plínio que o lavrador que se não encurva sobre o arado prevarica, isto é, faz os sulcos da terra torcidos (Arator,
nisi incurvus, praevaricatur), e, sendo torcidos, claro está que hão-de sair mais compridos do que podiam ser, pois a
linha recta sempre é a mais breve. Parece-me que daqui procede (pelo não atribuirmos a piores causas) serem tão
compridos e prolongados os sulcos ou caminhos que faz uma causa nas mãos de um ministro.São compridos porque
não são rectos, e não são rectos, porque ele não se encurva sobre a banca, não se inclina sobre os livros, não se
aplica ao seu ofício – e isto é o mesmo que prevaricar.

Embaixada de D. Manuel ao Papa Leão X

O nosso ínclito rei D. Manuel, de feliz recordação, quando se viu dominador dos reinos do Oriente (de sorte que
podíamos dizer que as asas do Sol se mediam com o seu Império, e que aqueles povos infiéis se não confederavam
contra a potência das suas armas mais que para ser delas triunfo e ouvir os anúncios da palavra evangélica), então
folgou de submeter toda esta grandeza aos pés do Sumo Pontífice Leão X, por seus embaixadores particulares
tributando-lhe juntamente as primícias das riquezas do Oriente.

O principal delas era Tristão da Cunha, a quem faziam lados outros dois, a saber: Diogo Pacheco e João de Faria,
desembargadores, e outros cinquenta cavaleiros. E era em todos tanta a riqueza e lustre, que
havia selas, freios, peitorais eestribos de ouro de martelo, com pedraria fina e pérolas a montes.

Todos os embaixadores dos príncipes cristãos, que se achavam em Roma, e o governador da mesma cidade, e
muitos bispos, e famílias dos cardeais, e outra inumerável nobreza, deram nobres aumentos a esta pompa, e o
mesmo papa quis lograr o vistoso desta entrada, desde o Castelo de Sto. Ângelo.

Levavam-lhe um presente com um grande e preciosíssimo cofre, coberto com pano de ouro e nele debuxadas as
reais quinas posto sobre um elefante, o qual tanto que avistou ao Sumo Pontífice, ajoelhou três vezes, ensinado pelo
naire que de cima o governava, e logo, metendo a tromba em um grande vaso de água que ali estava prevenido,
borrifou os cardeais e outras pessoas que estavam pelas janelas, e o mesmo sinal de festa usou com o mais povo que
estava apinhado pelas ruas.

Em outro dia foi recebida a embaixada, orando elegantemente oPacheco em consistório. E, no fim da oração, o papa
exaltou com excessivos louvores as prendas d'el-rei D. Manuel, e o católico zelo com que naquele Novo
Mundo solicitava propagar o Império de Cristo e a glória de sua santa igreja.

Os pontos principais da embaixada eram três: o primeiro, que Sua Santidade empreendesse guerra contra o Turco;
segundo, que se tratasse mui de veras da reforma da Igreja; terceiro, que a este fim se prosseguisse e concluísse o
sagrado ecuménico concílio de Trento.

Em outro dia se abriu o cofre, tornando a ajoelhar o elefante diante de Sua Santidade. Encerrava um ornamento
pontifical inteiro, não só para a pessoa do papa, mas para todos os seus ministros: Era todo de chaparia e figuras de
ouro e pedraria preciosa, e a trechos umas romãs de rubis escachadas e, sendo a matéria tal, ainda dos primores da
arte era vencida. Iam juntamente outras riquíssimas jóias e ducatões de 500 escudos de ouro, como para entulho.

Avaliaram alguns o presente em um milhão, o qual veio a ser dos que saquearam Roma. Finalmente, Alberto de
Carpe, escrevendo ao imperador Maximiliano, como seu embaixador que então era, diz, na sua carta, este capítulo:
«Todo o povo universal de Roma concorreu por ver esta novidade; e não é maravilha, porque poucas vezes, ou
nunca, sucedeu enviarem príncipes cristãos a Roma tão magnífico aparato».

Este sinal de rendimento deu à pessoa do vigário de Cristo o nosso católico monarca, visto que a distância de terras e
a ocasião lhe não concediam venerá-lo com outras demonstrações pessoais da sua humildade.

Quem desejar fazer-se presente àquele memorável espectáculo, referido aqui tosca e sumariamente, recorra ao
elegante aparo das penas do bispo Osório e de Manuel de Faria e Sousa. In Projecto Vercial.

Cortesia de sucessaoaapostolica

«É hipócrita o mercador que dê esmolas em público e leva usuras em oculto; é hipócrita a viúva que sai mui sisuda
no gesto e no hábito, e dentro em casa vive como ela quer e Deus não quer; é hipócrita o sacerdote que, sendo
pontual e miúdo nos ritos e cerimônias, é devasso nos costumes; é hipócrita o julgador que onde falta a esperança
do interesse é rígido observador do direito; é hipócrita o prelado que diz que faz o seu ofício por zelo da honra e
glória de Deus, não sendo senão pela honra e glória própria. Hipócrita é o que não emenda em si o que repreende
nos outros; o que cala como humilde, não calando senão como ignorante;o que dá como liberal, não dando senão
como avarento solicitador das suas pretensões; o que jejua como abstinente, não se abstendo senão como
miserável. Assim é. Porém não cuide alguém que, à conta deste desengano, lhe é lícito contrair a doutrina a pessoas
ou ações determinadas, dizendo ou julgando que fulano é hipócrita ou esta esmola deu por vanglória. Estes juízos
são reservados a quem vê os corações que é só Deus, onde podemos chegar sem pecado e com prudência. É não nos
fiar levemente do que aparece e onde podemos assentar com singeleza e sem prejuízo; é entender que todos são
bons, conforme a graça de Deus se lhes comunicar». In Padre Manuel Bernardes

Cortesia de Projecto Vercial/Biblioteca Nacional Digital/JDACT

http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.com.br/2010/07/p-manuel-bernardes-nao-ha-modo-de.html

A vida é morte
A um vaso de vinho misturado com três partes de água não chamaremos com razão vinho; nem a um pouco de
açúcar envolvido em três tantos de sal chamaremos com razão açúcar.

Logo, se eu mostrar como a nossa vida é misturada, ao menos, com três tantos de morte, provado ficará que lhe não
devemos chamar, absoluta e simplesmente, vida, pois vai o seu vigor tão aguado e a sua doçura tão salgada com as
propriedades da morte.

A primeira parte de morte, que anda misturada com a nossa chamada vida, é ser esta sucessiva e transeunte, tão
pelo miúdo, que não é possível lograrmos dela dois instantes juntos, porque, para adquirirmos um, é força perdermos
outro, que por isso a mulher de Técua a comparou não à água que está em um tanque ou lago, senão à que vai
correndo. E isto é o mesmo, sem dúvida, que ir morrendo por partes.

Por isso Filo, o discretíssimo entre os hebreus, disse que cada idade era morte da outra antecedente idade, dando-nos
a piedosa mão de Deus este amargoso cálice da morte a tragos, e misturado com o cálice da vida para no fim acabar
de nos dar as fezes, que é a última morte de todas as outras mortes antecedentes, a qual é força que bebamos todos
os filhos de Adão, uma vez que todos nele pecamos.

Porém São Paulo estes intervalos de morte a morte não os pôs distantes de idade a idade, senão de dia a dia:
quotidie morior. E pela mesma razão o Papa Inocêncio III os pôs de instante a instante; nem pode deixar de ser assim,
uma vez que o cálice da vida se bebe por instantes líquidos e nele vai delido o da morte.

A isto atinou também um poeta étnico, Horácio, dizendo que os anos da nossa vida eram ladrões da mesma vida. E
outro, cristão, dizendo que desde o berço se ia formando a tumba, porque a árvore da mesma vida leva em si
semente da morte.

E outro a um amigo, que lhe perguntara que anos tinha, respondeu discretamente que nenhuns, porque os que tinha
eram os mesmos que não tinha:

Perguntas-me com empenho


pela idade, e que anos somo.

Respondo: — Nenhum. — E como?

— Os que tenho, já os não tenho..

Mas esta nossa vida outra maior parte tem de morte, por ser vida limitada, finita e, enfim, mortal. Desde que
nascemos, e ainda antes de nascermos, já de certo vamos caminhando para a morte. A vida que Deus tinha dado a
Adão antes do seu pecado, e que nós todos havíamos de lograr, era vida viva; esta outra, que, chamada por Adão,
entrou em seu lugar, é vida morta, como dizem os Santos Padres. Porque, assim como, separando-se a alma do
corpo, fica este morto; assim, separando-se da nossa vida a alma da mesma vida, fica morta esta vida. E qual é a
alma da vida? A imortalidade. Tirando-se logo à nossa vida o ser imortal, que havia de ficar senão o cadáver dela,
que é a vida mortal que agora trazemos às costas?

Quantos homens há, tantos cadáveres somos; quanta carne do pecado, tanta cinza da morte. Se assim não fora, não
diria Deus e a Igreja a todos nós, que somos agora em vida o mesmo pó e cinza que havemos ser na morte: Pulvis es,
et in pulverem reverteris. Como quem diz: Então sereis mortos, e já agora também cinza e pó; porque se ausentou a
alma da nossa vida, que era a imortalidade, e assim ficou vida morta.

Usa a morte com o homem os mesmo termos de crueldade e vexação que usou aquele rigoroso credor do Evangelho
com o servo que lhe devia cem dinheiros. Diz o sagrado texto que o pobre, prostrando-se a seus pés, lhe rogava que
esperasse pela paga, prometendo que lhe satisfaria inteiramente.

Racionável parece esta petição, mas cuida alguém que a morte se leva disso? Quer que já de presente lhe
comecemos a pagar, e tanto nos aperta a garganta, que um Job nem engolir a sua saliva podia. As doenças e
achaques são os seus sacadores, que ela manda para arrecadar a sua dívida, ao menos em parcelas; e estes
sacadores parece que nos querem tirar os olho, pois só dos olhos, diz Galeno, há cento e quinze diferentes doenças.

A corrupção e os bichos, que, conforme dizia o mesmo Job, são nosso pais, não se contentam com ser nossos
herdeiros forçados na sepultura, senão que nos querem herdar em vida. E, ainda que a morte não faça logo a última
execução, todavia leva de casa penhores ou usuras: a uns o sentido da vista, a outros o dos ouvidos, a outros algum
braço, ou perna, que lhes inutiliza. Porque todo o uso dos nossos sentidos e membros eram partes da dívida do pobre
devedor, e depois ficam sendo partes da morte.

Não é tudo isto verdade? Já há muitos séculos que o tinha dito o filósofo Xenocrates, discípulo do divino Platão

E ainda que a morte se não penhore em doenças e aleijões, sempre tira para um seu irmão muito parecido com ela —
que é o sono — a quarta ou terça parte da vida; que não é pequena miséria ser necessária para sustento da mesma
vida esta quotidiana contribuição à morte...

Porém não só os defeitos e misérias do corpo nos diminuem e apoucam a vida, senão também os defeitos e misérias
da alma. Porque, como disse Sêneca, a puerícia a leva a ignorância; a mocidade a arrebata o furor cego da
sensualidade; na idade do meio (que era o mais bem parado da vida) prendem a inveja, ira, cobiça e ambição;
ultimamente a velhice fica para as doenças a pasto...

(Tirado de “Nova Floresta”, pde. Manuel Bernardes)

As formigas do Maranhão
Conta o Pe. Manuel Bernardes, clássico escritor jesuíta, num antigo e castiço português, que no Maranhão, no
começo de nossa colonização, ocorreu um caso muito curioso de que as formigas, que eram muitas, grandes, e
daninhas, para estenderem o seu Reino subterrâneo, e ensancharem os seus celeiros; de tal sorte minaram a
despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína. E acrescentando
delito a delito, furtavam a farinha de pão, que ali estava guardada para cotidiano abasto da Comunidade.

Como as turmas do inimigo eram tão bastas, e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os religiosos a
padecer falta e a buscar-lhe o remédio, e não aproveitando alguns, de que fizeram experiência, porque enfim a
concórdia na multidão a torna insuperável; ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu um
religioso com este arbítrio: que eles, revestindo-se daquele espírito de humildade e simplicidade, com que seu
seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs; irmão Sol, irmão lobo, irmã Andorinha etc, pusessem demanda
àquelas irmãs formigas, perante o Tribunal da Divina Providência; e sinalassem Procuradores assim por parte deles
autores, como delas réus, e o seu Prelado fosse o juiz, que em nome da Suprema Eqüidade, ouvisse o processado e
determinasse a presente causa.

Agradou a traça; e isto assim disposto, deu o procurados dos Padres Piedosos libelo contra as formigas e
contestada por parte delas a demanda, veio articulando; que eles, autores, conformando-se com o seu instituto
mendicante, viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país; e que as formigas,
animal de espírito totalmente oposto ao do Evangelho e por isso aborrecido de seu Padre São Francisco, não faziam
mais que roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os
pretendiam expelir de casa, arruinando-a. E portanto dessem razão de si, ou quando não fossem todas mortas com
algum ar pestilente, ou afogadas com alguma inundação, ou pelo menos exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o Procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou por sua parte fielmente: “Em primeiro
lugar: que elas uma vez recebido o benefício da vida pelo seu Criador, tinham direito natural a conservá-la por
aqueles meios, que o mesmo Senhor lhes ensinara.

Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes, que
lhes mandara: a saber de prudência, acautelando os frutos e guardando para o tempo da necessidade... de
diligência; ajuntando nesta vida merecimentos para a eterna... de caridade, ajudando umas às outras, quando a
carga é maior que as forças.,.. e também de Religião e piedade, dando sepultura aos mortos de sua espécie como
escreveu Plinio... e observou para sua doutrina o Monge Malco...

Item: que o trabalho, que elas punham na sua obra, era muito maior respectivamente, que o deles autores em
ajuntar as esmolas; porque a carga muitas vezes era maior que o corpo e o ânimo que as forças.

Item: que suposto, que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas
formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava, e abatia com haverem ofendido ao criador,
não observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza; pelo que se faziam indignos de que
criatura alguma os servisse, e acomodasse; pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de deus por tantas
vias, do que nelas furtarem sua farinha.

Item: que elas estavam de posse daquele sítio, antes deles autores fundarem; e portanto não deviam ser dele
esbulhadas, e da força que se lhe fizesse, apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos,
como os grandes e a cada espécie deputou seu Anjo conservador. E ultimamente concluíram, que defendessem eles
a sua casa e farinha pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam; porém que elas sem
embargo haviam de continuar as suas diligências; pois do Senhor não deles era a terra e quanto ela cria: “Domini est
terra, et plenitudo ejus” (Salmo XXIII, 1)

Sobre esta contrariedade houve réplicas, e contra-réplicas, de sorte que o Procurador dos Autores se viu apertado;
porque uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas; e abstraindo razões contemplativas com espírito
de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito. Pelo que o Juiz, vistos ou autos, e pondo-se com
ânimo sincero na eqüidade, que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os Frades fossem obrigados a sinalar
dentro da sua cerca sírio competente para vivenda das formigas e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem
logo de habitação, visto que ambas partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo; maiormente, porque eles
Religiosos tinham vindo ali por obediência a semear o Grão Evangélico, e era digno o operário do seu sustento; e o
das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro Religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo em voz
sensível nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento Aquele
Supremo Senhor de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum!

Imediatamente... saíram, a toda a pressa milhares de milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas
fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e livres de sua molestíssima
opressão aqueles Santos Religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação de seu poder e
providência!
Fonte:

Pe. Manuel Bernardes

Nova Floresta

Volume I, Título IV (Anos, Idade, Tempo), L, Invectiva.

Proezas portuguesas contra os mouros


No tempo de el-rei Afonso II foram vencidos em Salácia (Alcácer do Sal) mais de 60.000 mouros.

E na célebre batalha do Salado, em que el-rei D. Afonso IV de Portugal ajudou nervosamente a el-rei de Castela,
morreram 200.000, pelo cômputo mais escasso.

Reinando D. Afonso V, cercou el-rei de Fez a Alcácer Ceguere, com 30.000 cavalos e inumeráveis de pé, mas saindo
de dentro pouco mais de 30 cavaleiros portugueses, mataram tantos que os outros, com medo, levantaram o cerco.

A mesma felicidade se viu na tomada de Ceuta em tempo de el-rei Dom João I, e nas de Arzila e Tânger em tempo do
dito D. Afonso V, e nos famosos sítios que sustentaram nossos capitães nestas praças, e na de Mozagão, e nas de
Diu, Calecute, Chaul, Columbo, Cananor, Cochim, Malaca, contra mui poderosos inimigos.

No cerco de Diu, que sustentou o grande capitão Antônio da Silveira, sendo Fernão Penteado ferido gravemente na
cabeça, foi ao cirurgião para que o curasse. E achando-o ocupado na cura de outros, enquanto aguardava a sua vez,
ouviu estrondo de um rebate que os turcos davam.

Não lhe sofrendo o coração não se achar nele, correu àquela parte onde, envolvido na refrega, ganhou segunda
ferida grave na cabeça. Com que apertado, tornou ao cirurgião, a quem achou ainda mais ocupado que antes.

E como neste tempo os turcos apertassem muito com os nossos, ele tornou a acudir com grande alvoroço, onde
recebeu terceira cutilada no braço direito; e veio curar-se de todas três.

De sorte que assim ia este soldado buscar mais feridas, como se, achando o cirurgião ocioso, quisesse dar-lhe em
que se ocupar, e mais falta fazia ao seu natural a briga do que à sua cabeça o sangue, querendo antes ferir-se
depressa do que curar-se devagar.

A tarântula, ainda depois de esmagada, salta, se lhe tangem; este animoso guerreiro, ainda rota a cabeça, pulava se
ouvia estrondos militares, porque eram música para ele.

No mesmo cerco, outro português, cujo nome se lhe não sabe, acabando-se-lhe as balas e não tendo à mão com que
carregar o mosquete, abalou e arrancou um dente.

Usando-o como bala, fez o tiro e acertou em um turco, para o qual não foi favo doce, senão bocado amargoso, isto
que saiu da boca deste leão. Adaptara na boca do mosquete o dente da sua, mandando-lhe que mordesse ao longe,
já que não podia de perto.

Outros muitos casos semelhantes omito, porque ao meu intuito bastam os referidos. Agora o que esperamos é que a
última e total ruína do império otomano se deva também, por eleição divina, às armas portuguesas, conforme os
mesmos mouros temem e se diz terem disso tradição antiga (Veja-se Sebastião de Paiva, na sua "Monarquia").

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

As armas portuguesas contra os maometanos


Desde os berços desta monarquia abonaram os efeitos essa verdade. Só o Conde D. Henrique, nobilíssimo tronco da
real árvore dos monarcas portugueses, venceu contra mouros 17 batalhas campais.

Na célebre do campo de Ourique, venceu e destroçou el-rei D. Afonso Henriques, com 10.000 infantes e 1.000
cavalos, a 400.000 maometanos, isto pelo cômputo de quem mais abate este número, que outros o sobem a
600.000, e outros dizem que havia para cada cristão cem infiéis.
Na tomada de Lisboa (que foi no ano de Cristo 1148, a 25 de outubro), morreram 200.000 mouros. O mesmo rei
desbaratou um exército de 40.000 cavalos e 60.000 infantes, com que el-rei mouro de Badajoz vinha socorrer
Sesimbra.

E em diversas ocasiões ele a 30 reis venceu (para que não fosse singular nesta glória o famoso Josué, capitão do
povo de Deus). Nem podemos atribuir estas vitórias à pouca gente dos exércitos contrários, porque, compensando
uns com outros, lhe tocam a cada um 50.000 homens.

Para que mais particularmente conste que parece que Deus criou a nação portuguesa para estrago, desprezo e ralé
da sarracena, quero referir aqui alguns casos que dentro das mesmas ferocidades de Marte descobrem um não sei
quê de cômica graciosidade.

Na batalha que D. Francisco de Menses, capitão de Baçaim, venceu contra um poderoso campo do Nizamora, um
certo Trancoso, depois de haver bem pelejado, pôde alcançar com um braço a um mouro pela petrina (que era um
cinto que usavam, de muitas voltas). Como era agigantado de membros e fiava de suas forças, levantou-o no ar
como escudo, e se lançou entre os mouros, matando muitos a seu salvo.

Os golpes que lhe atiravam, recebia com destreza no miserável corpo do agarrado, o qual era juntamente seu
inimigo de vontade e seu protetor contra vontade, porque o braço a que servia de escudo lhe dava tantas cutiladas
quantas fazia que aparasse.

Com o que assim este mouro, como os mais que se chegaram, eram todos em ajuda de Trancoso: este, porque o
defendia dos mais; e os mais porque, dando neste, lhe escusavam este trabalho. Raro modo de fazer do couro alheio
couraça própria!

Lá dizia uma valorosa matrona lacena, embraçando o escudo a seu filho que partia para a guerra: "Vede que ou
haveis de tornar vivo com este, ou morto sobre ele". No nosso caso, pouco se lhe dava ao Trancoso de deixar na
refrega o escudo; antes, quanto mais lho rachassem, tanto mais folgado e contente se recolheria. Em Ceuta, indo D.
Afonso da Cunha, em certo recontro, atrás de um mouro, ao atirar-lhe uma cutilada, lhe resvalou a espada e saltou
fora da mão; mas, em vez de assustar-se com o caso, tomou maior cólera e gritou ao mouro: "Ó cão, levanta e traze
aqui logo"

E o mouro, temendo que, se não obedecesse, tinha a morte mais certa, voltou humilde, levantou do chão a espada e
lha entregou. E o Cunha então, compadecido, o deixou ir livre. De sorte que este português usava daquele mouro
como de inimigo para o recontro belicoso, como de escravo para o mando senhoril, e como de liberto para a
manumissão fácil. Ou fazia conta que aquele infiel era juntamente caça e cão: caça para correr perseguindo-a, e cão
para lhe trazer o que caísse.

Ao cão chamou S. Gregório Nisseno espada viva do homem — Hominis gladium vivum. Como aqui o cristão era o
homem e o mouro o cão, no cão achou o homem à mão uma espada viva que lhe trouxesse a sua inanimada.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

Expectativa portuguesa pelo extermínio dos otomanos


Do vaticínio do santo Frei Gil, português, religioso da sagrada Ordem dos Pregadores, que entre eles corre por ser de
tempo imemoriável (e escuso trasladar, por ser tão sabido), vimos de próximo verificadas e cumpridas as cláusulas
que tocam a Hungria, França e Inglaterra.

Seguem-se outras que tocam à Lusitânia, entre as quais uma é a ruína do dito império: Imperium Othomanum
ruet; e outra, que a casa de Deus será recuperada: Domus Dei recuperabitur.

Nem devo fazer dúvida que a latinidade deste papel é mais limada do que naquele tempo se usava em Portugal,
porque o santo estudou em Paris, onde se abalizou em letras, e teve pacto com o demônio para aprender as ciências
facilmente, e depois foi sua conversão maravilhosa, e teve notáveis e freqüentes êxtases e revelações, cuja
qualificação deixamos, com ânimo rendido, ao juízo da Santa Sé Apostólica, a quem privativamente toca.

Espada com asa, a que o magnânimo rei D. Afonso Henriques viu pelejar, junto a si, na célebre batalha que venceu,
nos campos de Santarém, contra Albar, rei mouro de Sevilha.
Depôs o mesmo rei D. Afonso (e o mesmo afirmaram muitos mouros que ficaram cativos) que vira, a par do seu
braço direito, outro, armado, que se rematava junto ao ombro com uma asa de cor purpúrea, o qual o ajudava, de
sorte que matou e feriu a inumeráveis e ninguém o feriu a ele.

Por onde entendeu ser do seu anjo custódio, ou do arcanjo S. Miguel, aos quais tinha pedido auxílio antes de entrar
na batalha.

Para memória do benefício, instituiu no ano de Cristo de 1167 a Ordem dos Cavaleiros da Ala, com particulares
estatutos, os quais traziam ao peito a insígnia da Ala, de cor purpúrea com raios de ouro.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

O pé da soberba - desgraça do cristão


A certo monge apareceu o demônio, transfigurado em São Gabriel, para o tentar de vanglória, reputando-se por
santo. Porém ele, conhecendo o tentador, fechou os olhos e lhe disse, com irrisão: Olha que erraste a embaixada.
Não te enviaram a mim, que eu não sou santo. O espírito de fraudulência, vendo descoberta a sua emboscada,
desapareceu.

Advertência

Fundem-se bem em verdadeira humildade os que tratam de oração e santos exercícios, pedindo a nosso Senhor
continuamente que lhes não venha o pé da soberba: Non veniat mihi pes superbiae. (Salm.XXXV,12)Porque sobre
este assenta o seu inimigo invisível, e edifica ilusões, mentiras, erros heréticos e pecados, persuadindo que são
revelações, aparições do Céu, colóquios Divinos e profecias infalíveis, e em nenhuma destas coisas, ainda que fossem
verdadeiras, consiste a perfeição cristã, sendo na caridade Divina, a qual tanto cresce quanto se diminue em nós o
amor próprio (ainda de coisas espirituais) e abraçamos a cruz de Cristo.

... Não há coisa tão segura como a humildade, nem mais arriscada que a soberba. S.Macário, egípcio, dizia: o
humilde não cai, porque onde há-de cair, se está debaixo de todos? Nunquam humilis labitur, nam unde labi posset,
qui sub omnibus est? (Hom. 19, apud Bibliot. Patrum) E S.Nino Abade: Humilitate gaude, altitudo enim ejus firma est
nec ruere potest: Alegra-te com a humildade, porque as suas eminências são seguras e não podem padecer
ruína.(Paraenesi 71, apud Bibliot. Patrum). La humildad (diz o discreto e piíssimo, varão D.João Palafox) es medicina
de todas los males, la fiadora de todos los riesgos, la curacion de todas as feridas, el remedio de todos los daños, y
quien la tiene, vive seguro, y quien le falta, camina perdido. Pelo contrário, sem a defesa da humildade tudo está
exposto a perigos e desgraças: Omnia sine humilitate (disse Kempis - Serm. XXX ad Novitios) et firma ejus custodia,
periculis patent, et ruinis.

(Pe. Manuel Bernardes - Nova Floresta, vol. V, título IV)

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Exemplo de fortaleza cristã


São Clemente Ancinaro, a quem Deus restituiu ou reparou o corpo três ou quatro vezes, para que de novo padecer
martírios, disse a um tirano, quando o atormentava : destrói, quebra e espedaça, que o Oleiro não lhe falta barro.

Este santo bispo de Ancira, cidade metrópole de Galácia, foi um dos mais ilustres exemplos de fortaleza cristãque
referem as histórias eclesiásticas. Foi filho de um idólatra e de uma cristã, por nome de Sofia, a qual em toda a sua
vida instou com Deus nosso Senhor em pedir-lhe a coroa de mártir para seu filho, e sempre que podia estava nele
influindo este espírito de padecer por Cristo. Copiosamente lhe concedeu o Senhor o que desejava. Porque o
mártirio deste santo durou (só o ouvi-lo espanta) vinte e oito anos contínuos, cansando a muitos imperadores, o
desesperando a nove ou dez tiranos, sendo remetido de uns para outros, passando terras e atravessando mares, e
provando todos nele a mão com nova fúria, e saindo sempre confusos de ver a sua invícta constância.

Aturou horrendos cárceres, grilhões, fomes, fogueiras, leitos de ferro em brasa, capacetes do mesmo encaixados na
cabeça, espetos pelos ouvidos, sovelas por entre dedo e dedo que lhe saíam ao pulso, ferrões pelos sovacos que lhe
saíam aos ombros, açoites desapiedados até caírem moídas as carnes e ficarem nus os ossos, correias tiradas da pele
das costas, quebrantamento dos ossos sobre uma laje com madeiros, cisternas de cal viva.
Todos os dias, enquanto esteve em poder de um desses tiranos, lhe davam em seu venerável rosto cento e
quinquenta feridas. Meteram-no em um saco, com uma pedra na boca, e o despenharam a rodar por um monte
abaixo, até cair no mar. Foi levado em uma polé e rasgado com unhas de ferro; foi açoitado com nervos de touro e
atormentado com rodas de navalhas; foi lançado aos leões e feras; padeceu desterros, desnudez, injúrias,
desamparos e outras inumeráveis crueldades, até que, finalmente, tendo já o Supremo Artífice quase lavrada a sua
admirável coroa de tanta e tão vária e refulgente pedraria, veio a pôr-lhe a última mão, permitindo que fosse
degolado no altar, estando dizendo Missa, juntamente com ambos os ministros que o ajudavam.

E com esta felicíssima cláusura acabaram-se as penas e entraram as glórias; e, se aquelas duraram vinte e oito anos,
estas durarão quanto Deus dura. Três pontos se oferecem aqui, dignos de toda admiração:

- Primeiro, os poderes da graça divina, que assim conforta a natureza humana.

- Segundo, a cegueira da malícia dos perversos, que a não venceram tão vivos e fortes resplendores da verdade.

- Terceiro, negligência dos tíbios, que tão pouco ou nada nos atrevemos a padecer por amor de Cristo.

( Nova Floresta - Padre Manuel Bernardes - Volume V, pág 133 a 134)

PS: grifos meus

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Palavras torpes e indecentes!


Se lhe apresentassem na sua mesa o pão ou qualquer outro manjar, em um prato ou vaso que houvesse servido em
coisas que não são para nomear, quanto se indignaria contra o seu criado, por esta grosseria e desatenção. E quem
duvida que muito mais repreensível é que a língua de um fiel, que serve de patena ao verdadeiro corpo de Cristo
quando comunga, sirva de instrumento a palavras torpes e indecentes?

(II – 530)

Quem usa de semelhante linguagem, por mais que se desculpe, dizendo que lhe não entra da boca para dentro, e
que é só para rir e passar o tempo, dá claro indício de que o seu interior está corrupto. Porque oráculo é de Cristo
Senhor nosso que a boca fala conforme o de que abunda o coração: Ex abundantia enim cordis os loquitur; e outra
vez disse: Que do coração saem os maus pensamentos; e claro é que o que vem a língua primeiro esteve no
pensamento; e ainda Sêneca assentou que o modo com que cada um fala é o translado ou cópia do seu
espírito: Imago mentis sermo est; qualis vir, talis oratio... Logo, quem é acostumado a falar descomposturas, com
que verdade afirma que lhe não entram no coração? E se até os sonhos de um adormecido e os delírios de um
frenético são ordinariamente das coisas a que a natureza estava acostumada, quanto mais se conhecerá o nosso
interior pelas palavras que proferimos, estando em nosso siso e liberdade? (II 530/531)

Escreve Estrabão que há na Índia um gênero de serpentes com asas como de pergaminho, que, voando de noite,
sacodem uns pingos de suor tão pestífero que onde caem causam corrupção. Tais me parecem os que entre
conversação soltam palavras e chistes descompostos; que são estes senão pingos de suor asquerosíssimo, que
onde caem geram maus pensamentos e corrompem os costumes dos ouvintes? E se estes são gentes de tenra
idade, a corrupção é mais pronta e mais certa, porque meninos são tábuas rasas onde o bem e o mal se pintam
facilmente; pelo que mais respeito se deve ter a um menino, para não falar ruins palavras em sua presença, do
que a homens de cãs veneráveis, porque estes sabem conhecer e reprovar o mal e aqueles não; neste caso ficará
quem falou mal temeroso de achar repreensão, naquele outro ficará contente de achar imitadores.

(Tratado da Virtude da castidade – Padre Manuel Bernardes - II – 532)


PS: grifos meus

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Vaidade sobre vaidade


Vaidade é a nobreza do sangue, pois todos os homens são do mesmo barro da Adão, todos os convertem na mesma
cinza da sepultura e, em estando desacompanhados dos aparatos da fortuna, logo se desconhece a diferença.
Vaidade é a presunção das letras, pois o maior sábio do mundo de boa mente trocará a parte que sabe pela que
ignora, e isso mesmo que sabe, quase tudo está reduzido a opiniões e muitas vezes se engana até nas coisas que traz
entre mãos e debaixo dos sentidos.

Vaidade é o que o mundo chama honra, fama ou crédito, pois depende da opinião dos outros que a dão ou tiram
justa ou iniqüamente, como lhes parece, e em um momento apenas há lembrança do homem mais
afamado. Vaidade é a gentileza, pois qualquer injúria do tempo a murcha como flor e, aos toques de um humor
destemperado, estala como vidro.

Vaidade são as amizades dos mundanos, pois na verdade cada um se ama a si e uns contemporizam com os
outros, levando o sentido na própria comodidade.

Ô quanta vaidade há nas riquezas, gostos, e dignidade; nos edifícios, trajos e costumes; nos palácios, tribunais e
universidades e ainda nos lugares onde parece que só moravam a piedade, o desengano, a penitência e a imitação
de Cristo!

Enfim, tudo é vaidade e assim como no mar não há outra coisa senão ondas que sucedem a ondas e todas se
desfazem em espuma, assim no mar do século não há senão vaidade sobre vaidade e tudo se torna em vaidade. Et
totum vanitas.

(Exercício II – Das misérias da vida – Padre Manuel Bernardes - I –243)

PS: grifos meus

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Vaidade feminina
Que tira a mulher, enfim, de ser ou parecer formosa? Vaidade.

Não mais nada. Tira também enfermidades do corpo, perigo da alma, enfados, murmurações, e depois tanto em
penas do outro mundo quanto este lhe deu em glórias, com esta diferença, entre outras muitas: que as glórias foram
falsas e as penas são verdadeiras. Pois não pudera esta mulher, com quatro lágrimas choradas debaixo do seu
manto, com um crucifixo diante dos olhos em lugar do espelho, e com amar a verdade, que é a lei de Deus,
deixando-se ajudar da sua graça; não pudera, digo, deste modo mais fácil, mais útil, mais honesto e deleitoso, ser
formosa nos olhos de Deus?

(Nova Floresta- Vol I - Pe. Manuel Bernardes)

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Cera - Símbolo da virgindade


A cera é símbolo da virgindade; que tem uma coisa com a outra? Eu direi.

Que foi a cera em seus princípios, senão flor conservada com os influxos da graça? Mais: a cera é inimiga da
corrupção, por isso os persas envolviam os cadáveres em cera, como outros o fazem em bálsamo, para se
conservarem incorruptos. Não há medicina que mais preserve o corpo da corrupção dos vícios, e ainda dos humores,
como a castidade.

Mais: a abelha, mãe da cera, é virgem; não tem coito; Maria, puríssima Mãe da castidade, não conheceu obra de
varão. E esta é a razão por que naquele círio que arde nos quarenta dias que vão da Páscoa da Ressurreição de Cristo
até a Ascensão, diz Durando, que se representa Cristo, porque, assim como a cera foi feita pela abelha, a qual não
tem coito, assim o corpo de Cristo foi gerado de Maria sem obra de varão.

A abelha das flores fez a cera para iluminar a Igreja; Maria Santíssima das flores de seu sangue fez o corpo de Cristo
para iluminar o mundo. Não cuidem que naquele trono arde só um gênero de cera e um gênero de luz; duas são as
ceras e duas as luzes, ainda que vai tanto de uma a outra. A cera que lavrou a abelha dá luz aos olhos do corpo; a
cera que lavrou Maria Santíssima está dando luz ao olhos da alma.
(Sermões e práticas - Pe. Manuel Bernardes - I - 13/14)

PS: grifos meus

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Chagas de Cristo
Por que se chamam as Chagas de Cristo selo

Porque o selo serve de firmar a escritura para lhe darmos crédito. Lêdes uma Provisão real ou um Breve Pontífico:
chegais a ver os selos e então lhe dais inteiro crédito. Pois assim também, tudo o que o Rei da Glória e Sumo
Pontífice Cristo Jesus nos afirma e promete, tudo o que a fé nos ensina, que é senão uma escritura?

E os selos desta escritura são suas Chagas; e assim como os selos se estampam na cera branca ou vermelha, assim
as Chagas de Cristo se estampam na cera cândida e rubicunda de sua carne santíssima. Pois para que creias, alma,
diz o Senhor, que tudo o que te digo é verdade, olha para os selos da escritura: Pane me ut fignaculum: para que
renoves a fé de que eu sou quem o afirma, olha as minhas Chagas: Videte manus meas et pedes meos: Ego sum.

(Prática da Segunda oitava da Páscoa - Pe. Manuel Bernardes - I - 211/212)

PS: grifos meus

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A oração e o demônio
"Posto o homem em oração, o Demônio não cessa de lhe revolver e trabucar na memória quantas notícias
impertinentes e inúteis pode. Pica a alma com cuidados, a consciência com escrúpulos, o corpo com dores e outras
inquietações molestas da paixão da carne. Diverte o espírito do estudo prático das verdades, para o especulativo de
conceitos, e lhe aconselha que deposite na memória para proveito de outros a luz que Deus lhe dava para o seu
próprio.

Quando por si não pode interromper a oração, vai voando sugerir a algum doméstico ou estranho que lhe venha
perguntar ou pedir ou trazer isto ou aquilo; e de uma palavra encadeia tantas, que, se lhe somem e consome o tempo
da oração, sem o entender senão depois de perdido. Outras vezes lhe quebra e torna lânguidas as forças do corpo,
causa formigueiros no cérebro, mete fraqueza de estômago, faz sobressaltos de coração e descomposição de pulsos,
como um relógio cujo pêndulo não anda compassado; outras se pendura por detrás nos vestidos, puxando por eles
sutilmente, de sorte que lhe subam à garganta e o afoguem; ou se lhe assenta sobre os ombros, causando mais ou
menos peso, conforme Deus lho permite."

(Luz e Calor - Pe. Manuel Bernardes, 12)

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O valor do silêncio
- Ó quão poucas são as palavras que os homens falam retamente! Todo o dia falamos e tudo são linhas erradas que
não vão parar ao ponto que deviam, nem conduzem para honrar a Deus, nem para amar o próximo, nem para a
caridade bem ordenada de si próprio. Tantas novas, tantas fábulas, tanto gracejo, tanto cumprimento, tanta lisonja,
como se encaminha isso para o ponto da honra de Deus? Tanta jactância e louvor próprio, tanto mexerico e revelar
de segredos, tantos piques e asperezas no trato do próximo, tanto clamor e enfados no governo da família, tanto
ruído e murmurinhos quando assistimos na Igreja. De que serve isto para o ponto do amor do próximo, ou da
caridade própria bem ordenada? Se o escrever se parece com o falar em muitas coisas, em verdade que muitos
homens provectos ainda agora escrevem como meninos: tudo riscos, descompassados e torcidos.

- Primeiramente, a matéria das nossas palavras há de ser plana, onde não ache tropeços a consciência, e limpa, onde
não haja sombras e manchas contra a pureza do coração.Ó grande engano o nosso! Nós não queremos falar coisas
boas, e queremos falar bem?
A matéria das nossas práticas ordinariamente são coisas vãs, e queremos que as palavras sejam santas e
virtuosas? Não pode ser. Que onde se não fala senão coisas vãs, ainda que seja um santo quem fala, há de encher-se
de pecados e perder as virtudes.

- É tão danoso o falar, que, uma vez que estamos entre pessoas faladoras, não é bom senão calar; e se se há de
falar, melhor será com os que calam.

- O pouco falar costuma andar junto com o obrar muito.

- Coisa é por certo digna, ou de riso, ou de lástima, que um religioso tenha tão pontual cuidado em fechar a cela, e
tão pouco em fechar a boca; e que trazendo consigo continuamente a chave, por que lhe não entre alguém na cela,
perca a cada passo o silêncio, não curando de que os pecados lhe entrem na alma.

- Se o silêncio importa muito, também não custa pouco.

- Quem quiser rezar há de pôr a boca no pó da terra, calando-se: Ponet in pulvere os suum, e não o pó da terra na
boca, falando em vaidades.

- A porta ora se fecha, ora se cerra somente, ora se abre, e isto ou de todo ou em parte, conforme é necessário ou
conveniente. Assim também a língua ora há de estar fechada com a chave do silêncio, quando é obrigação calar. Ora
há de estar só cerrada, quando é escusado falar. Ora há de estar aberta pouco ou muito, quando é conveniente falar
mais ou menos. Por isso, pois, diz o sábio: Ori tuo facito ostia et seras.

- As balanças servem de examinar o peso das coisas primeiro que as entreguemos. Assim as nossas palavras
primeiro que a língua as entregue, o entendimento há de ponderá-las. E porque hão de ser balanças de ouro e
prata? Porque estas servem para pesos mais miúdos e pequenos, e para coisas mais preciosas. E quis dar-nos a
entender que as palavras havemos de examinar com muita miudeza e atenção.

- Quem fala pouco com os homens fala muito com Deus e com o seu coração. E quem fala muito com Deus e com o
seu coração, quando chega a falar com os homens, fala bem: Loquebatur recte. Enfim, que o silêncio santo e
discreto é a cura dos males da nossa língua, assim nesta vida como na outra.

- Quem não sabe refrear a sua língua não será perfeito, nem terá virtude, nem dará nunca bom exemplo.

(As mais belas páginas de Pe. Manuel Bernardes - Editora Melhoramentos)

PS: Grifos meus

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Doçura e justiça de Deus


Sendo tanta a doçura do amabilíssimo Jesus, nem por isso deixa de se temperar com o austero de sua justiça. Por
isso disse Davi: Dulcis et rectus Dominus - doce e reto é o Senhor.

Doce (expende elegantemente Hugo Cardeal), dando de graça;

reto pedindo conta do que deu.

Doce, porque não consente a nossa ruína;

reto, porque não se esquece do nosso castigo.

Doce, porque no carinho é nossa mãe;

reto, porque no ensino é nosso pai.

Doce, porque é esposo;

reto, porque é Senhor.

Doce, para o afeto;


reto para o entendimento.

Doce, porque é nossa vida;

reto, porque é nosso caminho.

Tomás Ânglico acrescenta:

Doce no Sacramento da Eucaristia;

reto no da Penitência.

Importa, pois, (diz Ludolfo) que o amemos, pois é tão doce; que o temamos, pois é tão reto:

Ama quod dulcis est; time quod rectus esta.

(As mais belas páginas de Bernardes -- Pe. Manoel Bernardes -- pág 165)

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O Sol e a Cruz

1745- Todas as pompas deste mundo são imaginárias e a sua máscara é formosa, mas por dentro corrupção e
miséria, Em tudo se mistura a vaidade, até na morte, que é o desengano mais claro da mesma vaidade. Que importa
ir o corpo à sepultura bem vestido, se a alma não for ao Tribunal Divino ornada de virtude?

387 - No mundo espiritual e interno o sol é a Cruz; desta nasce toda a luz da inteligência e todo o fervor do afeto; e
se daqui não nasce, temo que sejam luz e fervor falsos.

430- Deus se descobre a quem humildemente se encobre; e Deus se encobre a quem vãmente se descobre.

(Pe.Manuel Bernardes - As mais belas páginas de Bernardes)

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Ó desgraçados mundanos, amadores do tempo!

Ó desgraçados mundanos, amadores do tempo!

"Naquele dia, tirará o Senhor o enfeite dos anéis dos tornozelos,

e as toucas, e os ornamentos em forma de meia-lua;

os pendentes, e os braceletes, e os véus esvoaçantes;

os turbantes, as cadeiazinhas para os passos,

as cintas, as caixinhas de perfumes e os amuletos;

os sinetes e as jóias pendentes do nariz;

os vestidos de festa, os mantos, os xales e as bolsas;

os espelhos, as camisas finíssimas, os atavios de cabeça e os véus grandes.

Será que em lugar de perfume haverá podridão,

e por cinta, corda; em lugar de encrespadura de cabelos, calvície;

e em lugar de veste suntuosa, cilício;

e marca de fogo, em lugar de formosura.

Os teus homens cairão à espada, e os teus valentes, na guerra.

As suas portas chorarão e estarão de luto;


Sião, desolada, se assentará em terra."

Isaías 3:18-26

Ó mundanos, amadores do tempo e das coisas que com ele passam e totalmente esquecidos do eterno, lembrai-vos
que há de vir um dia, cláusula de todos os dias e princípio de duas eternidades, uma de suma felicidade outra de
miséria suma, uma nas alturas louvando a Deus, outra blasfemando de Deus nas profundezas.

Vós outros que consumis os dias e os anos em vosso deleite e armais dilações à penitência de hoje para amanhã, de
amanhã para outro dia e outro ano e muitos anos, ó que mau é o vosso engano agora e que pior será então o vosso
desengano?

Há de chegar (é certo) aquele estado, onde não há amanhã, nem tarde, hoje, nem ontem, nem séculos, nem anos,
nem dias, nem horas, nem diferença alguma de tempo, senão uma duração fixa e interminável, ou sempre gozando
de Deus ou sempre ardendo em fogo. Temamos estes sinais à vista de tão horrendo significado, e empreguemos os
breves espaços da vida temporal como quem há de vir a parar nos da eterna.

(Exercícios espirituais - II - 113 - Pe. Manuel Bernardes)

Ó insensatos e duros de coração,

tão profundamente apegados à terra,

que de nada gostam senão das coisas canais.

Mas, infelizes deles,

virá tempo em que verão como era vil

e sem valor tudo o que amavam!

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Bailes - Maldição da alma


Bailes - Maldição da alma

“Antes quero uma febre,

que tenha presos meus membros em uma cama,

do que entrar em um sarau ou qualquer baile.”

(Imperador Frederico)

É certo que, à custa de qualquer trabalho ou detrimento do corpo, se deve remir e evitar o da alma, que são os
pecados: sed sic est, que os bailes e danças, do modo que ordinariamente se fazem, quase sempre se acompanham
de pecados, uns que supõem, outros que induzem; logo, bem escolhia Frederico estar antes preso com uma febre do
que solto em uma dança.

... Santo Ambrósio diz que a nossa alegria deve ser a que nasce da boa consciência, e não a que se acende com o
muito comer e folgar, porque aí é suspeito o deleite e corre perigo a honestidade onde se acompanha com estes
exteriores movimentos, pois, enfim, todo o que dança parece haver perdido o juízo ou estar destemperado.
(D.Amb., lib. 3 “De Virginib.”)

São Basílio diz: “Ris-te e alegras-te com alegria sã e estulta quando era necessário por causa dos pecados que
cometeste, derramar muitas lágrimas? Cantas modos profanos, esquecendo-te dos hinos e salmos? Saltas e danças
loucamente, quando importava dobrar os joelhos diante de nosso Senhor Jesus Cristo?”.

Santo Efrem diz que onde se cantam salmos com espírito devoto aí está Deus, e seus anjos; mas onde se cantam
modos diabólicos, aí está a ira e desagrado do mesmo Deus, e os gemidos que se seguem em recompensa das
risadas descompostas. E onde se lêem livros sagrados, aí está a alegria dos justos e o aproveitamento dos que os
ouvem; porém onde há citaras e flautas, e bailes de homens e mulheres, aí, por conseguinte, há muitas obras do
príncipe das trevas, assim em um como em outro sexo, e se celebra a sua festa rija.

Quero ajuntar a estas autoridades a de Francisco Petrarca, porque, suposto não é santo, nem Padre da Igreja, foi
varão timorato e mui discreto, como se verá das suas palavras, em que descreve bem que coisas são bailes e os
frutos que deles se colhem:

"Construo para que logrem todos: Ali andam livres as mãos, livres os olhos, livres voam as palavras. Soa muito
estrondo dos pés, muito cantar desentoado, muito alarido dos concorrentes, muito ímpeto dos que giram e
emparelham, levantando grande poeira, até que chegue (como ordinariamente sucede) aquela inimiga da
honestidade e sócia das maldades, que é a noite.

Eis aqui como desterra o temor e o pejo e com que se estimula a luxúria e se concedem licenças amplas à relaxação. E
tudo isto (falando como quem não é fácil de se enganar) é o que vós intitulais com o apelido de um desenfado singelo
e inocente, disfarçando o pecado com a máscara de jogo e entretenimento.

E, suposto que só entre homens ou só entre mulheres não tenha tanto perigo, todavia ali aprendem separados o que
depois hão de exercitar juntos, a modo de discípulos, que em ausência do mestre, decoram o que hão de repetir
quando venha."

***

Mas se tão grave e nervosamente castigam os Santos Padres e varões judiciosos os bailes, falando deles
absolutamente, que sentiremos em particular dos bailes feitos nas igrejas e átrios delas, por honra dos santos e dias
de festas?

Fazer ofensa a Deus e em cima vender-lha por obséquio!

Honrar os dias e lugares santos com obras profaníssimas!

Comer e beber e rir e folgar e bailar e chacotear, dizendo ao mesmo tempo mil estultícias e liberdades, e querer
encampar tudo isto a Deus nosso Senhor por religiosa observância de votos e culto de seus santos!

Verdadeiramente, este é um dos efeitos do muito comer e beber, porque, como ensina Santo Tomás, uma das filhas
da gula é a tolice ou insipiência. E que maior insipiência que supormos (senão no conceito, ao menos no efeito) que
os santos são como deuses do paganismo, Baco, Flora e outros da mesma farinha, que eram venerados como
semelhantes festas.

Por isso, com razão disse o grande Padre Santo Agostinho que estes desventurados e miseráveis, que nem medo
nem pejo têm de ocupar-se nestes festins, ainda que venham para a Igreja cristãos, vão da Igreja pagãos, porque
este costume de bailar ficou da superstição da gentilidade. (Serm. 215 “de Tempore”)

Tenhamos, pois, entendido que Deus Nosso Senhor não recebe com agrado semelhantes festas, como também não
é Ele o que as inspira e move. Move-as e delas se agrada o diabo.

... Bem pregava este desengano às suas ovelhas Santo Estevão, bispo Diense, para desterrar de entre elas
semelhante abuso de seus festins, celebrados ao domingo; porém não pôde até lho mostrar patente a seus mesmos
olhos. Orou a Deus que lhos abrisse, para verem com quem dançavam e quem os incitava; e mandou aos demônios
que se descobrissem em visível forma, sem fazer mal a alguém.

Caso prodigioso!

Viram muitos demônios, de corpulência mais que agigantada, negríssimos e feíssimos, com pontas nas cabeças e
lançando de si horrível fogo e cheiro intolerável. Como viram, então creram e se emendaram.

... Suposto e sobredito, bem certificados podemos ficar de que os bailes, danças e saraus costumam trazer consigo
muitos pecados. A não ser assim, nem os demônios insistiriam tanto em os persuadir, nem os santos em os detestar,
nem Deus em os castigar; logo, sem dúvida alguma, melhor é padecer qualquer dano no corpo (como dizia aquele
imperador) do que conceder-lhe este gosto, que redunda em detrimento da alma.
Emende-se, pois, o abuso de fazermos ou permitir que se façam vigílias e serões à cruz ou aos altares, que se armam
nas ruas, com aquelas profanidades que só podem ser aceitas a Baco e Vênus, e não ao verdadeiro Deus e a seus
santos.

Emende-se o celebrante as noites de Natal nas igrejas (como eu vi celebrar em uma) com pandeiros, adufes,
castanhetas, foguetes, tiros de pistola e risadas descompostas. E advirta-se que nenhuma dá glória a Deus nas
alturas nem paz aos homens na terra.

Emende-se o introduzir nos coros sagrados as chulas, sarabandas e outros tonilhos do teatro profano, e advirta-se
que para a cada de Deus só é decente o que é santo: Domum tuam decet sanctitudo (Salmo, XXIX,5).

Emende-se levar nas procissões diante do Santíssimo Sacramento danças de ciganas e de mulheres de ruim fama, e
advirta-se que a Arca do Testamento não era mais que uma figura deste Augustíssimo Mistério, e David era rei santo
e, mais, tinha-se por indigno de ir dançando em Sua presença.

Emende-se o querermos honrar os santos com touros, jogo que os sumos pontífices não aprovam, e, de si, está
mostrando ser de bárbaros; comédias, entretenimento que raro ou nenhum autor admite ser lícito, senão com
aquelas condições que se não usam; como romarias daquele gênero, aonde não costuma haver mais que
comezainas, brigas, descomposturas e perigosa comunicação dos sexos e anos, em que os demônios armam as suas
feiras e donde tiram seus lucros, e advirta-se que pode isto ser de algum modo concorrer para o escândalo e mofa
dos hereges.

Emende-se o consentirem os senhores que seus escravos e escravas, aos dias santos pondo diante um painel de
Nossa Senhora, festejem publicamente a Virgem das Virgens com bailes, gestos e meneios, arriscados até para a
imaginação, quanto mais para a vista. E advirta-se quem tem a seu cargo o bem da república e salvação das almas
que uma alma vale mais que a cabeça de São João Batista; e, se com razão estranhamos tanto que o Batista fosse
degolado por amor do baile de uma mulher, quanto devemos estranhar que pelo baile destes escravos se consinta a
ruína de suas almas e das outras que o vêem?

Estes e outros semelhantes abusos mostram bem assim nos que os cometem como nos que os permitem, podendo
impedi-los, o pouco conceito que têm formado da presença real de Cristo, Senhor Nosso, nos templos e sacrários, do
culto verdadeiro da religião católica e a pouca comunicação que têm com o Espírito de Deus, que é modesto,
estável, santo e amigo da pureza e decoro.

Os bailes e saltos que nas ocasiões das sagradas festividades devem dar aos fiéis hão de ser aqueles que levantam da
terra, não o corpo, mas o espírito, como disse um Padre (Richard., in Salm. CXIII): Hão de ser aqueles a que nos
provoca decantando a música do Evangelho, que é levantar o coração para receber a graça de Deus, como disse
Santo Ambrósio (Amb., lib. 2 “de Paenit” – cap. VI):

Hão de ser semelhantes àqueles que o beato Henrique Suso viu em certa ocasião dar os anjos: os quais, levantando a
inteligência, ora mais acima, ora mais abaixo, conforme a luz divina os ensinava, voavam a conhecer e amar as
perfeições divinas e seus mistérios. Destes saltos da vida espiritual se passa depois aos da vida eterna.

(Excertos do livro: Nova Floresta – Pe. Manuel Bernardes – Volume II)

PS: Grifos meus

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Formosura
Formosura

Enganosa e a graça,

passageira a formosura,

a que respeita o Senhor

merece louvor.
(Prov., 31, 30)

Do sábio Salon

Cresso, rei da Lídia, havendo-se vestido com todos os adornos e galas que lhe pedia a sua vaidade e lhe facilitava a
sua opulência, subiu ao trono e disse para o sábio Solon: Viste jamais espetáculo tão formoso? Respondeu o
sábio: Vi, e muito maior: os galos, as araras, e os pavões.

Reflexão

Perguntou o rei esperando que os ventos da lisonja fizessem ordear mais aquelas flâmulas e galhardetes de sua
bizarria; porém, ainda que a pergunta foi de néscio, a resposta o podia tornar sábio, e é semelhante àquela sentença
Evangélica em que Cristo disse que a formosura de um lírio do campo vencia de Salomão a maior glória (Lucas XII,
17)

__________________________________

Do conde João Pico de la Mirandula

Vendo um cavalheiro entrar na igreja uma mulher de poucos anos, e bem prendada da natureza, alegrou-se detendo
os olhos naquele objeto, e disse para o conde João Pico Mirandulano: Delectasti me, Domine, in factura tua, que é
um verso do Salmo 91 e quer dizer: Deleitaste-me, Senhor, na obra de vossas mãos. Respondeu o conde, para lhe
ensinar o perigo que debaixo disto estava oculto: Trazei à memória o outro verso, que se segue: Vir insipiiens non
cognoscet, et stultus non intelliget haec. Que quer dizer: O homem incipiente não conhece estas coisas, e o néscio
não as alcança.

Ilustração

Este dote de formosura corporal é necessário que o tema muito quem o vê, e que o estime pouco quem o possui.
Tema-o muito quem o vê, porque não é outra coisa que um estímulo do apetite, como disse São Basílio: Aculeum
voluptatis, um doce engodo e um veneno amável, como disse Nazianzeno: Dulcem ilecebram, charum venenum, ou
um pregoeiro de Vênus, como disse Píndaro: Preconem Veneris; isto mesmo indica o seu nome grego, que éKalos,
que quer dizer provocadora, do verbo Kalo, que significa chamar, ou provocar, como notou, de São Dionísio, o padre
Eusébio pelo que, devem os olhos modestos assistir como porteiros em guarda do coração, para que não entre coisa
que lhe possa ser nociva.

E estime pouco quem o possui, porque como disse Santo Agostinho, a formosura corporal, ainda que é bem, dado
por Deus, por isso a dá também aos maus, para que não pareça grande bem aos bons (Lib. XV "de Civit. Dei", c.22).
Participou das flores com o agrado risonho também a brevidade caduca. Por muito primorosa e valente que fizesse a
natureza qualquer destas pinturas, uma doença a enche facilmente de borrões e nódoas, e a torna tão digna já de
riso, já de lástima, quanto era de admiração e louvor.

... Outras vezes o dano que o tempo faz à natureza faz a natureza à graça Divina, corrompendo as prendas daquela
aos dotes desta e servindo-nos da formosura do corpo para as fealdades da alma.

Um exemplo breve e notável:

O servo de Deus frei Domingos de Jesus Maria (varão, de vida canonizável, do Carmelo Reformado) rogava ao
Senhor, com instantes súplicas, sarasse certo menino formosíssimo, que estava doido. Apareceram-lhe os anjos e
santos tutelares do menino, e lhe disseram: não convém que torne em seu juízo, porque este delírio é mandado por
Deus, para que os enganos do mundo o não pervertam; sabe o Senhor que com formosura e liberdade viria a
condenar-se.

(Excertos do livro: Nova Floresta - Volume V - Pe. Manuel Bernardes)

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A Fé, ou é íntegra, ou não existe


Fonte: São Pio V
(Pe. Manoel Bernardes. Luz e Calor. Parte I, doutrina IV, n. 1).

Se alguém não crê em [algum] qualquer artigo ou ponto de nossa santa Fé Católica, ou advertidamente duvida de ser
verdade, consentindo em pensar que é coisa que pode ser não ser assim: neste caso a fé com que crê os outros
pontos ou artigos, não é verdadeira e sobrenatural, senão uma sombra e semelhança dela, porque por sua
infidelidade se lhe destruiu a fé divina; e é claro que se crera nos mais artigos pelo motivo que deve crer (que é a
veracidade de Deus, e a Sua revelação declarada pela autoridade da Igreja), esse mesmo motivo o obrigara a crer
todos inteiramente, pois Deus, que revelou uns, revelou também os outros, e a Igreja, que ensina aqueles, ensina
também estes. Por onde o herege que confessa a Deus Uno e Trino, porém nega a presença real de Cristo na
Eucaristia, de nenhum destes pontos tem fé verdadeira, porque (como em semelhante caso disse São Jerônimo) no
primeiro caso fez do Evangelho de Cristo, evangelho do homem; no segundo, fez do Evangelho de Cristo, evangelho
do demônio (In cap. I ad Galat. V. II). Esta é (diz gravemente Arnóbio) a nobreza, a excelência da Fé Católica, cuja luz
se parece com a dos olhos: se picamos estes, ainda que não seja mais que com a ponta de uma agulha em qualquer
parte deles, toda a sua luz se turba, e ficamos às escuras. Se ofendemos a Fé, ainda que seja em só ponto, e com
uma só dúvida consentida com advertência, toda a sua luz se perde, e ficamos nas trevas da infidelidade.

Castidade - Do angélico doutor S. Tomás de Aquino


Castidade

IX - Do angélico doutor S. Tomás de Aquino

A este gloriosíssimo doutor da Igreja disse uma senhora: que, porque se estranhava tanto de mulheres, pois nascera
de uma? Respondeu: porque nasci de uma é que fujo de todas.

Crise

Falou como teólogo, como santo, e como religioso.

Como teólogo, porque o nascermos de uma mulher nos constitui filhos de Adão, sujeitos, entre outras muitas
misérias, à rebelião da carne contra o espírito. Pelágio, como herege, disse que só a nosso primeiro pai fez mal a
culpa; porém experimentamos que da cor que era aquela primeira vara dessa mesma nos conceberam as ovelhas
nossas mães. Foi o pecado original como incêndio que, pegando em Adão (Gen., XXX), lavrou e vai lavrando em nós
todos.

Por isso, o segundo Adão, Cristo, restaurador nosso, instituiu que renascêssemos por água e Espírito Santo (João, III,
5), para apagar o primeiro nascimento, que é por fogo e espírito imundo: Prima enim nostra nativitas (disse S.
Clemente Romano) per ignem concupiscentiae descendit; et ideo dispensatione divina secunda haec per aquam
introducitur, quae restinguat ignis naturam.

Como santo, porque estes são os que mais temem: Timete Dominum omnes Sancti; Beatus vir, qui semper est
pavidus. (Salm. XXXIII, 10) Dizem que os astros têm um particular movimento, que se chama de trepidação: por isso
os santos temem e não são intrépidos, porque são astros: Lucetis sicut luminaria (Ep. ad Filip., II, 15); Flamínio
lê: Reges virtutum fugient: os reis, e os grandes em virtude, fogem e tornam a fugir: fogem da ocasião próxima, e
também da remota: fugient, fugient. E, se assim não fizessem, em vez de serem reis das virtudes, seriam escravos
dos vícios.

Por onde, Santo Efrem não se contentou com dizer que o homem espiritual fuja da familiaridade com mulheres,
senão que, supondo que já foge, o avisa que fuja mais, e como a corça das redes, e a ave do laço: Qui autem earum
fugit consuetudinem, fugiat tanquam dama ex retibus, et velut avis ex laqueo. (Ephrem, in capitibus centrum variae
doctrinae, cap. LXXXII).

Como Religioso, porque é decente, e ainda necessário ao seu estado, não ter comunicação nem ainda familiaridade
com o sexo feminino, senão com urgente causa e sobriedade suma. No Vitas Patrum anda esta notável sentença de
um santo do ermo (Joan. Mosch., cap. CCXVII, lib. 10 vit. P.P.), que quadra bem com a objeção que aquela senhora
pôs a S.Tomás e com a resposta que ele lhe deu:
Filioli, sal ex aqua est, et si appropinquaverit aquae, continuo resolvitur, et deficit; et Monachus similiter ex muliere
est; itaque si appropinquet mulieri, solvitur et ipse, atque in id definit, ut jam Monachus non sit: Filhinhos (dizia
aquele santo aos seus discípulos), o sal da água se faz; mas, se se chegar à água, resolver-se e deixa de ser sal. Assim
também, de mulher nasceu o Religioso; mas, se o Religioso se não desviar da mulher, desatar-se-á, de sorte que
deixe de ser Religioso. Até nas cartas há perigo, quanto mais nas vistas.

O cardeal Belarmino nem escrever queria a mulheres (Villarroel, p. 1 do governo Eclesiástico, q.2, art. 5, n.32.); e a
uma senhora, que lhe escreveu em matéria de muita importância, mandou-lhe responder de palavra por via do
governador, a quem pelo seu secretário fez aviso. Até um S. João Evangelista, sendo virgem, e filho adotivo da
Virgem das Virgens, e confirmado em graça, para escrever a uma virtuosa senhora, por nome Electa, começa
intitulando-se: Ancião: Senior Electae Dominae (2ª João, I): como se para esta correspondência pedisse licença, não
só ao seu ofício, e à caridade, senão também aos anos.

Do sobredito se infere que, vendo nós nestes depravados tempos tão devassa e freqüente a comunicação entre
pessoas de diferente sexo, sem dúvida deve de ser outra a sua teologia, a sua virtude e a sua religião, as quais de
fora não alcançamos; e não devem, porventura, estes eclesiásticos ter-se por nascidos de mulher, senão do cérebro
de Júpiter, como Minerva; ou devem ser formados daquele célebre linho amianto que, metido no fogo, não arde.

Ver a facilidade com que se ouvem confissões de mulheres moças sem estar interposto ralo ou teia! Ver a freqüência
com que se visitam filhas de confissão sem serem de muita idade nem de muita virtude! Ver a demora que fazem em
casa de seus parentes e parentas sem urgente necessidade!

Ver a liberdade de espíritos ou espíritos de liberdade com que se entra no pátio das comédias, a ver os entremezes e
bailes das farsantas! Ver o pouco receio com que se admitem romarias em companhia de mulheres e
correspondências religiosas!

Valha-me Deus, que tão rijo e empedernido se tem feito este sal que, nascendo da água, não lhe faz mal meter-se na
água?! Esta gente é da mesma isca de Adão, e, contudo, não prende aqui a faísca? Lá se avenham; mas eu não estou
senão pelo que me ensinam os santos e me avisam os exemplos. Separação, e mais separação; fugir, e mais
fugir: Reges virtutum fugient fugient.

Eu antes quero crer a estes, que, não obstante serem santos, viviam temerosos, do que aos outros, que não
obstante viverem confiados, querem ser santos.

Dizem que a deusa Tetis, para fazer a seu filho Áquiles invulnerável, o mergulhou, quando menino, nas águas
Estígias, as quais só lhe não tocaram no calcanhar, por onde a mãe lhe pegava ao mergulhá-lo, e por aqui o mataram
depois seus inimigos. (Atheneus, lib. 14, post Theopompum, lib.46; Homer., X; Iliad Ovid., XII "Metamorfos"). Ainda
que um varão seja perfeito em todas as virtudes, sempre pela parte que não pode despegar-se de nascido de
mulher, isto é pela sensualidade, fica vulnerável.

Ao calcanhar descem as veias das coxas, rins, etc.; a este lugar se atribui a sensualidade. Por um passo mais
descuidado, pode cair em culpa; é necessário recear-se até no último de sua vida, que é o calcanhar, porque do
diabo se disse que aí nos armaria traição. Et tu insidiaberis calcanes ejus. (Gênesis, III, 15)

(Nova Floresta, volume II, do Pe. Manuel Bernardes)

PS: Grifos meus.

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A Inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa


A Inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa

Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo,
devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede
incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos
de A ver.
E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e continuada
petição à mesma Senhora que o deixasse ver Sua formosura, para mais A venerar e estimar. Foi-lhe revelado por um
anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era decente que olhos
que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra.

O clérigo respondeu, como animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal
excessiva dita. Mas, advertindo depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para
sustento da vida, lhe pareceu que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para
a sua necessidade.

Assim se fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão
aprazível beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-lA. E já no mesmo instante, tinha a
Virgem desaparecido. E o Seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e
sentimento: Que teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor!

Assim Vos ausentastes, ó Mãe amabilíssima; vi-Vos, e não Vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho
me acendestes mais a sede. Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas Vós, ó
Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó
formosíssima: eu de boa vontade quero cegar de todo; antes o terei por grande interesse.

Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a
petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou,
e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista restituída e clara.

(Tratados Diversos, pelo Pe. Manuel Bernardes)

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Poesia ao Cristo Crucificado


A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa Cruz sacrossanta descobertos:

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, olhos divinos eclipsados,

De tanto sangue e lágrimas cobertos,

Que, para perdoar-me, estais despertos

E, por não devassar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não fugir-me;

A vós, cabeça baixa, por chamar-me;

A vós, sangue vertido, para ungir-me;

A vós, lado patente, quero unir-me;

A vós, cravos preciosos, quero atar-me;

Para ficar unido, atado e firme.


(Do doutor, Manuel da Nóbrega, extraído do livro: Nova Floresta, Terceiro Tomo, pelo Pe. Manuel Bernardes,
Livraria Lello & Irmão, ano de 1949)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2010/12/poesia-ao-cristo-crucificado.html

O valor do silêncio (Padre Manuel Bernardes), segue um trecho que bem se


aplica ao tema proposto:
"Primeiramente, a matéria das nossas palavras há de ser plana, onde não ache tropeços a consciência, e limpa, onde
não haja sombras e manchas contra a pureza do coração. Ó grande engano o nosso! Nós não queremos falar coisas
boas, e queremos falar bem?" Grifos meus

Palavras torpes e indecentes (Padre Manuel Bernardes), segue texto inteiro:

"Se lhe apresentassem na sua mesa o pão ou qualquer outro manjar, em um prato ou vaso que houvesse servido em
coisas que não são para nomear, quanto se indignaria contra o seu criado, por esta grosseria e desatenção. E quem
duvida que muito mais repreensível é que a língua de um fiel, que serve de patena ao verdadeiro corpo de Cristo
quando comunga, sirva de instrumento a palavras torpes e indecentes? (II – 530)

Quem usa de semelhante linguagem, por mais que se desculpe, dizendo que lhe não entra da boca para dentro, e
que é só para rir e passar o tempo, dá claro indício de que o seu interior está corrupto. Porque oráculo é de Cristo
Senhor nosso que a boca fala conforme o de que abunda o coração: Ex abundantia enim cordis os loquitur; e outra
vez disse: Que do coração saem os maus pensamentos; e claro é que o que vem a língua primeiro esteve no
pensamento; e ainda Sêneca assentou que o modo com que cada um fala é o translado ou cópia do seu
espírito: Imago mentis sermo est; qualis vir, talis oratio... Logo, quem é acostumado a falar descomposturas, com
que verdade afirma que lhe não entram no coração? E se até os sonhos de um adormecido e os delírios de um
frenético são ordinariamente das coisas a que a natureza estava acostumada, quanto mais se conhecerá o nosso
interior pelas palavras que proferimos, estando em nosso siso e liberdade? (II 530/531)

Escreve Estrabão que há na Índia um gênero de serpentes com asas como de pergaminho, que, voando de noite,
sacodem uns pingos de suor tão pestífero que onde caem causam corrupção. Tais me parecem os que entre
conversação soltam palavras e chistes descompostos; que são estes senão pingos de suor asquerosíssimo, que onde
caem geram maus pensamentos e corrompem os costumes dos ouvintes? E se estes são gentes de tenra idade, a
corrupção é mais pronta e mais certa, porque meninos são tábuas rasas onde o bem e o mal se pintam facilmente;
pelo que mais respeito se deve ter a um menino, para não falar ruins palavras em sua presença, do que a homens de
cãs veneráveis, porque estes sabem conhecer e reprovar o mal e aqueles não; neste caso ficará quem falou mal
temeroso de achar repreensão, naquele outro ficará contente de achar imitadores. (Tratado da Virtude da castidade
– Padre Manuel Bernardes - II – 532.) Grifos meus

Nova Floresta, volume V do Padre Manuel Bernardes, seguem trechos:

XLVII

Do santo abade Isaac

Perguntando este santo por que razão os demônios o temiam tanto, respondeu: “Porque, depois que entrei a ser
monge, procurei que nunca a ira me saísse da boca.”

Sentenças

Santo Ambrósio: Si irascimur, quia affectus naturae est, non potestatis, malum sermonem non proseramus ne in
culpam ruamus: Se nos iramos, porque a paixão da natureza rompe os freios da razão, ao menos não profiramos
palavras de enojo ou injúria, para que nos não precipitamos no pecado. (Lib. I “Ofic.”, c. 3) São João
Clímaco: Mansuetudo est invitatio Christi, Angelorum proprietas, daemonum nexus: A mansidão convida, a Cristo,
assemelha-se aos Anjos, aprisiona aos demônios. (Gradu 24, in principio.) Grifos meus.

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A Fé, ou é íntegra, ou não existe
A Fé, ou é íntegra, ou não existe

“Se alguém não crê em [algum] qualquer artigo ou ponto de nossa santa Fé Católica, ou advertidamente duvida de
ser verdade, consentindo em pensar que é coisa que pode ser não ser assim: neste caso a fé com que crê os outros
pontos ou artigos, não é verdadeira e sobrenatural, senão uma sombra e semelhança dela, porque por sua
infidelidade se lhe destruiu a fé divina; e é claro que se crera nos mais artigos pelo motivo que deve crer (que é a
veracidade de Deus, e a Sua revelação declarada pela autoridade da Igreja), esse mesmo motivo o obrigara a crer
todos inteiramente, pois Deus, que revelou uns, revelou também os outros, e a Igreja, que ensina aqueles, ensina
também estes. Por onde o herege que confessa a Deus Uno e Trino, porém nega a presença real de Cristo na
Eucaristia, de nenhum destes pontos tem fé verdadeira, porque (como em semelhante caso disse São Jerônimo)
no primeiro caso fez do Evangelho de Cristo, evangelho do homem; no segundo, fez do Evangelho de Cristo,
evangelho do demônio (In cap. I ad Galat. V. II). Esta é (diz gravemente Arnóbio) a nobreza, a excelência da Fé
Católica, cuja luz se parece com a dos olhos: se picamos estes, ainda que não seja mais que com a ponta de uma
agulha em qualquer parte deles, toda a sua luz se turba, e ficamos às escuras. Se ofendemos a Fé, ainda que seja
em só ponto, e com uma só dúvida consentida com advertência, toda a sua luz se perde, e ficamos nas trevas da
infidelidade”.

(Padre Manoel Bernardes in: Luz e Calor. Parte I, doutrina IV, n. 1. Porto: 1927. Tipografia Porto Médico Ltda, 5ª
edição, p. 73-4).

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/11/fe-ou-e-integra-ou-nao-existe.html

Curiosidade
Nota do blogue: Agradeço imensamente a alma generosa que transcreveu este belíssimo texto. Deus lhe pague.

Título XVI – CURIOSIDADE

(Padre Manuel Bernardes)

CXLI

De Demóstenes, orador de Grécia eloqüentíssimo

Orando uma vez em Atenas sobre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento,
introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara um jumento e, para se defender no
descampado da força da calma, se assentara à sombra dele, e o almocreve o demandara por maior paga, alegando
que lhe alugara a besta, mas não a sombra dela. Estavam os atenienses neste passo mui aplicados, desejando saber
a sentença com que se decidira aquele pleito. Porém Demóstenes no mesmo tempo se desceu da cadeira, dizendo:
Oh pejo! Oh miséria grande! Folgais de ouvir da sombra do jumento; e não folgais de ouvir do estado e bem público
da Grécia!

REFLEXÃO

É paralelo deste caso outro, que conta Cassiano[1] do Monge Machetes, que, fazendo uma prática espiritual das
coisas divinas, começaram os ouvintes a bocejar e cabecear, até que ficaram adormecidos. Então o servo de Deus,
espertado a voz: Ouvi (lhes disse, interrompendo o fio da prática e pegando de outro muito contrário), ouvi uma
coisa maravilhosa: como uma raposa e um bugio se enganaram um ao outro, alternando suas astúcias. Neste ponto
logo todos se aplicavam, e sacudiram o sono, e já ninguém tinha tédio nem preguiça. Então Machetes, voltando
sobre eles o estímulo do zelo, os feriu com uma correção acre, dizendo: Que é isto, irmãos? Tanto sono para as
coisas divinas e de importância para a nossa alma, e tanta alacridade para ouvir fábulas e contos ridículos? Vede que
não pode ter este efeito outra causa mais que o demônio e a vossa negligência, consentindo com ele.

Os atenienses eram sumamente afetos à curiosidade de ouvir coisas novas: Ad nihil aliud vacabant (testifica deles S.
Lucas[2], nos Atos dos Apóstolos) nisi aut dicere, aut audire aliquid novi. E Plutarco, que alcançou o tempo de S.
Lucas e S. Paulo, imperando Domiciano, diz[3] que eram tão amigos de comédias, por serem oficinas de novidades,
que gastavam nelas o que fora bom gastar nas armadas e exércitos; e traz[4] o gracioso caso de um barbeiro que,
ouvindo dizer a um seu escravo de uma batalha que os atenienses tinham perdido em Sicília, com geral mortandade
sua, saiu logo pela porta fora, a dar a triste nova em público. Com que, amotinado todo o povo, porque apenas havia
quem não tivesse no exército filho, ou pai, ou marido, ou irmão, quiseram averiguar a origem e fundamento de tão
funesta fama. E, não aparecendo senão o dito barbeiro, que não podia descarregar-se com testemunhas abonadas,
investiram a ele, e, depois de cheio de pancadas e opróbrios, o amarraram a um pau, para ser baliza dos escárnios
públicos, pois fora alvorotador falso da paz pública. Mas, sobrevindo alguns que escaparam da batalha, verificaram a
desgraça, e cada um se recolheu a carpir-se em sua casa, e a ninguém lembrou soltar o miserável barbeiro. Até que
já tarde chegou um beleguim, a desatá-lo; e estava ele já tão emendado do seu vício de saber novidades que
perguntou ao mesmo beleguim: se sabiam já também de que modo morrera Nícias, general do exército. Pior lhe
sucedeu a um cavalheiro florentino que mandou a um criado que nunca viesse para casa sem lhe trazer novas de um
inimigo[5]. O criado, achando ocasião, matou ao tal inimigo, e foi mui contente referir estas novas a seu amo. Foi
este preso e sentenciado como réu de homicídio, porquanto a sua ordem equivalia a mandato nas circunstâncias do
caso. Estes frutos lhe rendeu a sua novidade.

Este vício da curiosidade e afeição a coisas novas passa também aos trajes, aos edifícios, aos comeres, aos estilos, às
leis e até às mesmas palavras. Porque não faltam noveleiros que querem emendar ou ilustrar o idioma comum,
introduzindo palavras exóticas e termos que lhes parecem mais elegantes, sendo, na verdade, mais ridículos.
Dionísio Sículo, sofista, afetava explicar-se por este modo[6]: Às donzelas chamava “Menandros”, isto é que esperam
por varão; à coluna “Menecrates”, isto é que sustenta o peso firmemente; e aos esconderijos e buracos dos ratos
chamava-lhes mistérios, porque os ocultam e defendem. Alexarco, irmão de Cassandro, rei de Macedônia, chamava
ao galo Ortoboas; ao barbeiro Brotoceres; à dracma, que é um dinheiro pequeno de prata, Argirides. Pela mesma
toada, Demades não dizia os mancebos, senão “a primavera do povo”; nem dizia muralhas, senão “o vestido da
cidade”; nem dizia “trombeteiro”, senão o “galo do exército”.

Os espíritos que não mortificam em si este gênio de curiosidade e afeição a novidades perdem nisso mais do que,
porventura, lhes parece. Porque se fazem incapazes de coisas sérias; e, como sempre andam nadando sobre a
cortiça da vaidade, nunca descem ao fundo da verdade, antes esta se lhes representa coisa tão cheia de tédio,
tristeza e trabalho que sempre diferem o tratar dela pra outro dia. E aos livros espirituais, que tratam os pontos
necessários para o nosso desengano, chama livros desesperados, porque não querem que lhes mostre claramente
como a esperança com que eles se entretêm acerca das coisas do século futuro é falsa e mal fundada e, por
conseguinte, não é esperança teológica, procedida do Espírito Santo, senão presunção temerária, pregada pelo
demônio; a qual tanto presta para a salvação como uma nau aberta e rota presta para a viagem longa e feliz. Pelo
que, toda a pessoa que quer ajuntar forças de espírito para empreender o alcance das virtudes e persistir no que
empreendeu foge muito das zombarias ou nugacidades do século, porque a repetida experiência a ensinou, à sua
custa, que enervam e jarretam aquela atividade e eficácia que é necessária para tão superior emprego. E este é um
dos sinais que o Doutor Angélico, Santo Tomás aponta para conhecer se um sujeito é virtuoso e trata deste negócio
com veras. Faz também grande estimação do tempo: porque sabe que é semente da eternidade que, uma vez
malograda, é impossível recobrar-se. E, assim, emprega e aproveita as mínimas partes dele em coisas úteis,
proveitosas e honestas, seguindo o aviso do Espírito Santo pelo Eclesiástico: Non defrauderis a die bono; et partícula
boni diei, non te praetercat.

Notas:

[1] Lib. v. "Institut.", c. 31.

[2] Act., XVII, 27.

[3] Plutarc., "Tract. de glória Atheniens."

[4] Idem "Tract. de Garrulilat."

[5] Barihot., in L. Siquis mihi bona, § Pater Scio.

[6] Ex Athenaeo, lib. III, c.10.

(Nova Floresta, quarto tomo pelo Padre Manuel Bernardes, Livraria LELLO & IRMÃO, 1949)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2012/04/curiosidade.html
Exemplo Singularíssimo
Mostrava-se em Nápoles pela Festa do Natal de 1641, um presépio de curioso artifício[6]: e entre o variado concurso
que acudia à igreja, levado parte da devoção, parte da curiosidade, chegou-se também um escravo turco, que estava
mais desviado apascentando os olhos só com o material daquele objeto cuja piedade ignorava. E quando chegou a
empregar os olhos na lindeza do Menino Deus deitadinho nas suas palhas, e ladeado de dois rudes animais, reparou
que o Menino olhava para ele com risonho semblante, e estendendo a mão para fora das faixas, lhe acenava com o
dedo indicador. Duvidou entre si se era verdade o que via; mas o Menino o tirou da perplexidade, chamando-o com
voz clara, e distinta. Veio, enfim, atônito, e tremendo: e o Menino acrescentando favores a favores, e maravilhas
sobre maravilhas, fez o ofício de catequista, e lhe ensinou em poucas palavras os rudimentos da Fé, e lhe disse que
se batizasse, porque brevemente estaria em Sua companhia no Céu. Como podia a palavra de tal Senhor não ser
eficaz, e poderosa? Pediu logo o escravo turco o Sacramento do Batismo; para se fazer verdadeiramente livre e filho
de Deus. E como tivesse tão bom Mestre, se achou instruído para o receber. Seguiu-se-lhe uma doença, na qual
pediu o sagrado Viático, protestando que não podia morrer sem que primeiro o recebesse. E tanto que entrou o
Senhor em seu peito, saiu aquela ditosa alma do seu corpo, a tomar posse pacífica do inefável bem que lhe fora
prometido. Neste admirável caso.

Pondere-se

Como a graça da Vocação é dom meramente liberal e gratuito, sem intuito ou respeito de merecimentos
precedentes; como insinua o mesmo nome de graça: Si autem gratia, jam non ex operibus.[7] Poderia ser que
naquele concurso estivessem alguns fiéis, que na presciência Divina estavam condenados: e entre eles estava este
turco, a quem o Senhor ab-eterno escrevera no Livro da Vida. Nada menos cuidava que na ventura que veio buscar:
era escravo, ficou livre; era filho do Demônio, dicou filho de Deus, e de filho passou logo a co-herdeiro com Cristo.
De palhinhas (que foram as daquele presépio) se lhe armou a sua vocação, justificação e glorificação: Quid ergo
dicemus ad haec? Si Deus pro nobis, quis contra nos?... Quis accusabit adversus electos Dei? Deus qui justificat, quis
est qui condemnet?[8]

Como esta liberalíssima mercê que o Senhor fez a este infiel, é uma amostra, ou traslado pequeno do mesmo que
usou com toda a Gentilidade. Todos nós estávamos bem descuidados da nossa salvação, assentados nas trevas da
infidelidade, e na sombra da morte eterna: e o Senhor por Sua bondade nos chamou servindo-se de seus sagrados
Apóstolos como de vozes e dos milagres, que por eles realizou, e inspirações com que nos iluminou, como de início
com que nos acenava. E se mais almas acudiram, mais foram regeneradas pelas águas do Batismo e nutridas com o
Corpo e Sangue de Cristo Sacramentado. Enfim, que Emanuel (que é o Nome do Verbo vindo ao mundo a nos remir,
e iluminar) quer dizer Deus conosco; e não nós com Deus: porque nós não éramos os que buscávamos a Deus; senão
que foi Deus, o que veio buscar-nos, estando nós tão longe dEle; que a distância era infinita; e a união parecia
impossível. Bendito seja o Amor de Deus e o Sangue de Cristo, que venceu esta distância e celebrou esta união: Vos,
qui aliquando eratis longe, facti estis prope in sanguine Christi.[9]

Como o passo de Deus Menino no seu presépio, é acomodado e feito de propósito para atrair corações e caçar
almas. Os italianos e nós os portugueses abreviamos o Nome de Emanuel, em Manoel; os franceses ainda mais,
dizendo Noel: e à Festa do Natal lhe chamam Noel, isto é, Festa de Manoel pequenino. Abreviou-se Deus, porque
queria se meter conosco: e até o seu Nome abreviado tem graça e causa devoção. O fervor desta fazia ao Seráfico P.
S. Francisco chamar-lhe o Pequenino de Belém. Este pois, graciosíssimo Pequenino de Belém, atrai a Si as almas,
para as fazer grandes: abreviou-se para nos engrandecer e se empobreceu para nos encher de Seus tesouros. E tão
eficaz e oculta virtude deixou naquela lapinha onde nasceu (a qual se conserva hoje em poder dos Religiosos filhos
do mesmo Seráfico Padre); que quando ali entram os turcos, se descalçam primeiro, e descobrem as cabeças tirando
os turbantes[10](coisa que eles nunca usam, porque o reputam por pouca honestidade), e beijam afetuosamente o
lugar do presépio, e ungem as cabeças com azeite das lâmpadas, que ali ardem e deixam suas esmolas para o culto
daquele Sacrário. Tal é a suave violência com que o Mistério de Deus Menino avassala corações, ainda os mais
bárbaros.

Fonte: Pe. Manoel Bernardez, “Luz e Calor”, 2ª Parte, Opúsculo II, Exemplo XXVII, n. 321, pp. 318-319; Nova Edição,
Lisboa, 1871.
[1] Miq. 5, 2.

[2] Este templo, um dos mais célebres de Roma, fechado em tempo de paz, permanecia aberto em tempo de
guerra. Nota Suetônio (in Aug. 2) que desde a fundação de Roma até Augusto, só se fechara duas vezes.

[3] Sobre moedas cunhadas com a efigie de Augusto, lia-se esta letra: Salus generis humani (Suet. In Aug. 53).

[4] O edito, datado do ano 746, não se aplicou na Judeia senão três anos mais tarde.

[5] Heb. 10, 4 seg.

[6] Stengel, Tom. 1, De Divinis judiciis, Cap. 42, nº 15. O qual diz que escreveu este caso Antônio Ceschi a 18 de
Janeiro de 1643.

[7] Rom. 11, 6.

[8] Rom. 8, 31 e 33.

[9] Efés. 2, 13.

[10] Isto viu muitas vezes o Pe. Fr. Affonso de Castilho que foi ali Guardião e o refere no livro 3 do seu Devoto
peregrino, Cap. 10 sinc.

A inexcedível Formosura De Maria, Senhora Nossa


Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo,
devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede
incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos de
a ver. E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e
continuada petição à mesma Senhora que o deixasse ver sua formosura, para mais a venerar e estimar. Foi-lhe
revelado por um anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era
decente que olhos que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra. O clérigo respondeu, como
animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal excessiva dita. Mas, advertindo
depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para sustento da vida, lhe pareceu
que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para a sua necessidade. Assim se
fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão aprazível
beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-la. E já no mesmo instante, tinha a Virgem
desaparecido. E o seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e sentimento: Que
teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor! Assim vos ausentastes, ó
Mãe amabilíssima; vi-vos, e não vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho me acendestes mais a sede.
Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas vós, ó Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois
do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó formosíssima: eu de boa vontade quero
cegar de todo; antes o terei por grande interesse. Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e
é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz
excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou, e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista
restituída e clara.

Pe. Manuel Bernardes

(De "Tratados Diversos", pág. 397-398)

Fonte:

www.permanencia.org.br

Fé total.

A Fé, ou é íntegra, ou não existe

(Pe. Manoel Bernardes. Luz e Calor. Parte I, doutrina IV, n. 1).


Se alguém não crê em [algum] qualquer artigo ou ponto de nossa santa Fé Católica, ou advertidamente duvida de ser
verdade, consentindo em pensar que é coisa que pode ser não ser assim: neste caso a fé com que crê os outros
pontos ou artigos, não é verdadeira e sobrenatural, senão uma sombra e semelhança dela, porque por sua
infidelidade se lhe destruiu a fé divina; e é claro que se crera nos mais artigos pelo motivo que deve crer (que é a
veracidade de Deus, e a Sua revelação declarada pela autoridade da Igreja), esse mesmo motivo o obrigara a crer
todos inteiramente, pois Deus, que revelou uns, revelou também os outros, e a Igreja, que ensina aqueles, ensina
também estes. Por onde o herege que confessa a Deus Uno e Trino, porém nega a presença real de Cristo na
Eucaristia, de nenhum destes pontos tem fé verdadeira, porque (como em semelhante caso disse São Jerônimo) no
primeiro caso fez do Evangelho de Cristo, evangelho do homem; no segundo, fez do Evangelho de Cristo, evangelho
do demônio (In cap. I ad Galat. V. II). Esta é (diz gravemente Arnóbio) a nobreza, a excelência da Fé Católica, cuja luz
se parece com a dos olhos: se picamos estes, ainda que não seja mais que com a ponta de uma agulha em qualquer
parte deles, toda a sua luz se turba, e ficamos às escuras. Se ofendemos a Fé, ainda que seja em só ponto, e com
uma só dúvida consentida com advertência, toda a sua luz se perde, e ficamos nas trevas da infidelidade.

Jaculatórias da Alma Penitente.


Gemidos da alma penitente - jaculatórias do Pe. Manuel Bernardes

PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes:
“Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por
mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos —
entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção,
escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes;
Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte,
para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo.
Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem,
que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os
Sermões e Práticas, os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos Dias do Homem, os Tratados
Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor
e a Nova Floresta. Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou
de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

OPÚSCULOV

ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das
Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória
do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as
fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa,
Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que
as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o
coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor
achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas
coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.
1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES

DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir
o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de
vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de
todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos
ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não
necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos
demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e
misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de
meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais
pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia
morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.

Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-
me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a
vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados.

DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil
cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias
de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não
compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior
cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que
te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência,
costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de
lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!
Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos
os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por
aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de
vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós
ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada
um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as
penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste
salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?

DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis
às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti
de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso
dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-
me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite
falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos!
Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto
devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia,
amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de
vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços
de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um
perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais,
Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido
para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!
DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de
vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava
morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora
conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não
conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando
Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida;
tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora
demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito
na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos
eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós,
Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-
o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de
fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande
temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se
somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um
coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.

DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me
atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los
benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são
envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis
o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite
cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades;
submergi-as no mar de vossa bondade imensa.
Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê
quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a
vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda
maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho
com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da
Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da
alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo,
meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.

Fonte: http://permanencia.org.br

25 de Março – Festa da Anunciação de Nossa Senhora


Meditação VI

Da Anunciação de Maria Santíssima Senhora Nossa pelo Príncipe Embaixador S. Gabriel Arcanjo

(Pe. Manuel Bernardes)

“Considera, primeiramente, a disposição espiritual e corporal em que a soberana Rainha dos Anjos Maria Santíssima
Senhora Nossa se achava quando o Altíssimo lhe enviou essa embaixada. Era a Senhora entrada nos quinze anos de
sua idade (que também a esses quinze degraus tinha subido daquele vivo Templo, para o ser de Deus humanado), e
dos desposórios com o patriarca S. José tinham passado quatro meses, que são os que correm de dezembro até 25
de março. A sua formosura, saúde, asseio, perfeição e composição de todos os seus membros era cabal e absoluta,
por benefício do Senhor como Autor não só da Natureza, mas também da graça, pois carecia de todo pecado original
e atual, que costuma impedir ou desmanchar muitos desses efeitos. (…)

“(…) no mesmo momento que a Senhora disse aquela brevíssima e felicíssima palavra (Fiat mihi secundum verbum
tuum: Faça-se em mim conforme a vossa palavra), obrou a Santísssima Trindade três coisas juntamente: formou um
corpozinho humano perfeitíssimo do puríssimo sangue da Virgem (…); criou de nada uma alma racional nobilíssima e
a uniu naturalmente com aquele corpozinho, e esta alma, a este corpo e a esta união entre eles, uniu
hipostaticamente só com a Pessoa do Verbo Divino; e ficou o Verbo feito carne: Et Verbum caro factum est; e a
Virgem, sem deixar de o ser, verdadeira Mãe de Deus. Pelo que seja dada a este Senhora (e a sua Mãe Santíssima
respectivamente) toda a glória e o louvor; todo o joelho se dobre, todos os corações O amem, todas as línguas O
magnifiquem, pois só Ele é Santo, só Ele é Senhor, só Ele obra coisas grandes e maravilhosas: Qui facit mirabilia
magna solus.”

Fonte: Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa Mãe de Deus, Rainha dos Anjos
e Advogada dos Pecadores oferecidas à mesma Senhora / Pe. Manuel Bernardes (1644-1710). – 1. ed. – Brasília : Ed.
Pinus, 2010. xxxp.

A terrível justiça divina para com um pervertido Arcebispo


Na cidade de Magdeburgo, que é metropolitana no ducado de Saxônia, cursava as escolas um estudante por nome
Udo, de tão curta capacidade para as letras, a que suposto aplicava da sua parte o trabalho e diligência, não tirava
daqui mais fruto que mofa e zombaria dos condiscípulos, enfado dos mestres e aflição do próprio espírito. Um dia
que estas o apertou mais, entrou na Sé daquela cidade, que é dedicada a Deus em honra do ínclito capitão S.
Maurício Mártir e de toda a sua Legião Tebeia; e, ali prostrado em oração fervente, rogou à Virgem Santíssima Nossa
Senhora, e ao mesmo S. Maurício, lhe alcançassem de Deus luz no entendimento para os estudos. Adormeceu, e ali
em sonhos lhe apareceu a mesma Senhora e lhe disse: Ouvi tua oração, e não só te concede meu Bendito Filho o
talento das letras, senão que por elas subirás a ser bispo desta igreja, por morte do que agora governa. Se acudires
fielmente às obrigações deste ofício, será grande o teu prêmio; porém; se fores negligente será grande o teu castigo.

Desapareceu a visão; acordou Udo, e, desde aquela hora, não teve dificuldade em coisa alguma que estudasse. Foi o
seguinte dia às escolas, e começou a dar tão boa conta de si, que seus condiscípulos, admirados, diziam: Não é este
Udo, de quem há pouco nos riamos? Como tão brevemente se fez tão excelente filósofo? Na mesma admiração
estava o mestre, ponderando a capacidade rara com que compreendia as matérias, a agudeza rara com que
penetrava as dificuldades, a destreza e facilidade com que as soltava, e a retentiva com que tudo o que lia e ouvia
lhe ficava como gravada na memória. Finalmente, ganhou nome tão famoso em poucos anos, que vagando aquele
Arcebispado, foi eleito nele por comum aplauso do povo.

Colocado, pois, na cadeira arcebispal, procedeu louvávelmente aos princípios. Porém, como ofícios grandes
costumam mudar os procedimentos da pessoa que não está fundada em sólidas virtudes, foi pouco a pouco
esquecendo-se de suas obrigações, e entregando-se a vícios, de tal sorte que mais parecia lobo que entrava no
aprisco a degolar o rebanho de Cristo, do que pastor para o apascentar e defender. Deu-se particularmente ao vício
da sensualidade, tão sem freio do temor de Deus e do escândalo do povo, que não havia mulher casada, nem
donzela, segura de sua insaciável torpeza. E como era rico e poderoso, e com muitos dependentes da sua mão,
ninguém se atrevia a impedi-lo nem a repreendê-lo. Fez com isto mais profundo o seu pecado, e desmandou-se a
solicitar religiosas; e tirou de um mosteiro a abadessa, com a qual publicamente vivia amancebado. Quem esperara
tal desatino de um homem letrado, tal desenvoltura de um prelado eclesiástico, tal ingratidão de um sujeito tão
obrigado à Virgem? Porém, o vício da carne cega muito a luz do espírito: também Salomão era sábio; também como
rei devia dar bom exemplo; também, como devedor do benefício da sabedoria, devia honrar e servir a Deus, que lha
concedera.

Quis o Senhor piedosíssimo justificar mais a sua causa, primeiro que descarregasse o golpe: e assim lhe faz três como
admoestações canônicas. Estando Udo uma noite com aquela concubina à ilharga, ouviu uma voz que dizia: Cessa de
ludo, quia lusisti satis Udo: Cessa já de jogar, Udo, porque tens jogado muito. Fez o miserável pouco caso disto, e
ficou jazendo no seu pecado. Na seguinte noite teve na mesma forma o mesmo aviso, e também o desprezou;
porque o Demônio, que estava mui acastelado na sua alma com posse pacífica, logo lhe divertia o pensamento, e
com fazer-lhe repetir o pecado, se iam embastecendo mais as suas trevas interiores. Na terceira noite ouviu a
mesma voz, muito mais terrível e espantosa. Começou a temer e ansiar-se; porém, brevemente se tornou a quietar
na falsa paz de sua cauterizada consciência. Converteu, pois, Deus a sua justiça em juízo, e dirigiu este na forma
seguinte.

Um cônego daquela Sé, varão de muita oração e virtudes (que sem aquela, mal poderia ter estas), ficou na igreja
uma noite depois de matinas, encomendando a Deus Nosso Senhor este negócio: e lhe pediu com vivas lágrimas e
gemidos, que, ou sua Majestade abrandasse o empedernido coração de Udo, ou, quando ele não se quisesse
converter, lhe tirasse a vida, e o castigasse, para cessarem os escândalos, que cada dia eram maiores. Neste tempo,
entrou na igreja um grande-pé-de-vento, apagou todas as lâmpadas. Temeu o cônego, e se lhe arrepiaram os
cabelos; mas voltando-se para Deus e pedindo-lhe ânimo, se recobrou, e viu este admirável espetáculo.

Entraram na Igreja emparelhados dois mancebos de extremada galhardia, com tochas acesas nas mãos, de claridade
superior à que costuma na Terra; e fazendo profunda reverência ao altar-mor, se puseram em pé, um a um lado e
outro a outro. Entraram logo outros quatro: dois deles com alcatifas preciosíssimas, que estenderam no pavimento
da capela, e dois com cadeiras de ouro, que colocaram em cima, uma a par da outra. Vieram depois doze veneráveis
personagens, de tão respeitoso aspecto, que cada qual parecia imperador do mundo: porém, no meio deles parecia
outro Senhor incomparavelmente mais majestoso, com coroa de ouro na cabeça e cetro na mão: era Cristo Salvador
Nosso, e aqueles seus Sagrados Apóstolos; os quais, dividindo-se a uma e outra parte, lhe fizeram uma reverência, e
o Senhor se sentou numa das cadeiras. Entrou logo a Rainha do Céu, Maria Santíssima Senhora nossa, com
numerosa comunidade de Virgens e Mártires; e feita reverência ao Senhor, tomou a outra cadeira.
O cônego, lá desde o seu cantinho, estava embebido em admirações, mas desperto, esperando que ação se
representaria digna de tão aparatoso teatro. Quando vê que entra S. Maurício, patrão daquele templo, com toda a
triunfante legião dos Mártires seus companheiros (que dizem foram 6 666), todos coroados de luz e ornados de
decoro e majestade; e feita adoração ao Rei e outra à Rainha das Alturas, se dispuseram por todo aquele âmbito em
bem ordenadas fileiras. Eis que entra outro formosíssimo mancebo de galharda estatura, armado de ponto em
branco, com espada nua e reluzente na mão, como pintam a Justiça; e depois de feita a semelhante adoração com
os joelhos em terra, se pôs no meio, e levantando a voz, lançou este pregão: Todos os Santos, cujas relíquias aqui se
conservam, levantai-vos e vinde a este juízo. Imediatamente apareceu ali uma grande multidão de Santos, Mártires,
Virgens, confessores e doutores, que, postos também por sua ordem, enobreceram mais aquele ilustríssimo
conclave.

Saiu então o capitão S. Maurício, dando-se por autor naquela causa; e proclamou, dizendo: Retíssimo Juiz, tempo é
de que vossa soberana Majestade faça justiça. Mandou então o Senhor que lhe trouxessem ali a Udo; voaram logo
uns Anjos, e tirando-o da ilharga da concubina, com quem estava abraçado, o puseram na presença de Cristo, no
meio de todo aquele concurso, com tal confusão do miserável, que não é possível explicar-se. S. Maurício começou a
pôr-lhe os cargos, dizendo: Este, Soberano Senhor, é aquele Udo, a quem vossa Mãe Santíssima, que presente está,
fez tão particulares benefícios: a quem por sua intercessão, deste o talento da sabedoria; a quem encomendastes o
cuidado desta igreja, e ele, em vez de apascentar as vossas ovelhas, as tem apestado com o contágio de seus vícios,
gastando nele o patrimônio da mesma igreja. Este é o que teve atrevimento de violar as vossas esposas consagradas
e de persistir na sua maldade contra o seu próprio voto, contra o seu ofício, contra as leis humanas e Divinas, contra
os remorsos de sua consciência, e contra um e outro avisos do Céu, que lhe enviou vossa paciência e piedade.

Ouvia o Supremo Juiz os graves artigos daquele processo; e voltando o rosto para aqueles Santos que lhe assistiam,
disse: Como vos parece que nos portemos com este homem? Aqui levantando a voz o mancebo da espada nua,
disse, em nome de todos aqueles assessores que: Digno é de morte. E o Senhor pronunciou a sentença nesta forma:
Execute-se: e, pois, não soube ser cabeça da igreja que lhe encomendaram, cortem-lhe a cabeça. No mesmo ponto
chegou o mancebo e mandou a Udo que inclinasse a cabeça para o degolar. Levanta a espada, vai para descarregar o
golpe, quando um dos outros Anjos acode, dizendo: detém-te, que esse mau homem celebrou ontem e comungou
em pecado mortal, e por vontade de Deus se conservam ainda em seu corpo as espécies sacramentais: e é
necessário tirarmos com decência a hóstia consagrada. Neste ponto levantou-se da cadeira a Virgem Santíssima
Senhora nossa e, acompanhada de Anjos e Santos, chegou com um cálice de ouro na mão, no qual outro Anjo,
dando nas costas de Udo uma pancada, lhe fez lançar a sagrada Forma. E a Senhora a purificou com sua mão e
colocou o cálice sobre a pedra de ara, com toda a decência e acompanhamento de Anjos e Santos. Isto feito, o
valoroso mancebo descarregou o golpe, e destroncou aquele miserável corpo, saltando a cabeça para a outra parte e
ficando as lajes manchadas com seu torpe sangue. Executada a sentença desapareceu toda aquela nobre
companhia, deixando o tempo às escuras, como antes estava.

Atônito, aquele virtuoso sacerdote com a representação de caso tão estupendo, não sabia que fizesse, nem em que
se determinasse; e dizia entre si: Que é isto que vi? Sonho meu ou ilusão do Demônio, ou revelação de Deus? Sonho
não parece, que sempre estive desperto e fiz disso mesmo atos reflexos; mas quero certificar-me se está aqui o
corpo do desventurado arcebispo. Animou-se, pois, e foi buscar luz (porventura a sua casa, ou a alguma capela mais
retirada no claustro, onde houvesse lâmpada); acendeu as da igreja, chegou ao lugar onde vira o suplício, e, com
efeito, viu o corpo destroncado e a cabeça lançada à outra parte, e as pedras banhadas no sangue fresco: subiu ao
altar e viu nele o cálice de ouro com a Forma consagrada dentro. Não foi logo sonho (disse então novamente
admirado), mas demonstração pública da divina justiça, pois, a ofensa também era pública. E cerradas as portas da
igreja, foi, antes que amanhecesse, a notificar aos capitulares e outras pessoas principais do povo tudo o sucedido.
Divulgou-se o caso: abriram-se as portas da igreja, entrou inumerável gente, e todos foram testemunhas daquele tão
raro, como formidável espetáculo; e louvaram os juízos de Deus, que sendo umas vezes ocultos e outras manifestos,
sempre são retos e justificados por si mesmos.

Até aqui, revelara Deus Nosso Senhor a condenação de Udo quanto à morte temporal; segue-se outro caso, em que
revelou a outro sacerdote a sua condenação quanto à morte eterna. Era este um capelão do mesmo arcebispo, e
corretor de sua torpeza, e ele o havia mandado fora da cidade a negócios de importância; e se vinha neste mesmo
tempo recolhendo, mandadas já adiante as cargas. Vindo, pois, caminhando por um descampado, o carregou um
sono tão pesado, que não podendo resistir-lhe desmontou; e atando as rédeas do cavalo ao braço, se lançou a
dormir ao pé de uma árvore. Apenas adormecido, viu em sonhos uma numerosa tropa de demônios fazendo grande
ruído, armados todos de diversas armas, com lanças, piques e alabardas nas mãos, e que faziam alto naquele campo.
Vinha entre eles um, que no agigantado da estatura, no disforme do aspecto e no soberbo das ações mostrava ser o
Príncipe das Trevas. Levantaram-lhe logo ali um tribunal, em que tomou assento, e todos lhe fizeram reverência.
Assomou neste tempo por outra parte outra caterva de Demônios, que vinham dando descompostas risadas e
fazendo grande algazarra, como que traziam alguma rica presa, ou despojo, com que se mostravam contentes. Era
este a miserável alma de Udo em figura corporal, para que pudesse ser vista por semelhantes espécies. Vinha
amarrada com cadeias de fogo e sobre todo encarecimento feia, triste e desconsolada; e quando já chegava perto do
Príncipe Demonarca, alguns daqueles infernais ministros correram adiante, mais ligeiros que abutres, a dar-lhe a
nova, e diziam: Praça, graça, que vem uma pessoa principal; façam lugar, que vem um sujeito mui benemérito do
nosso reino.

Chegando o miserável Udo, pôs nele Lúcifer os afogueados olhos, e lhe disse mofando: Seja Vossa Senhoria mui
bem-vindo, que tem sido a sua vinda mui suspirada em meu palácio e corte, e desejamos todos pagar-lhe tantos e
tão sinalados serviços, com que tem aumentado a nossa coroa. Olá, vassalos meus, é razão que regalemos o novo
hospede; dai-lhe alguma coisa que coma. Chegaram logo uns demônios com pratos negros e asquerosos cheios de
sapos, e víboras, e serpentes vivas; e abrindo-lhe por força a boca, o constrangeram a comer. Entraram outros com
grandes vasos de fel de dragões e enxofre derretido, e o obrigaram a beber, esgotando até as fezes. Disse então
Lúcifer: Agora que Sua Senhoria comeu e bebeu, é bem que goze também da suavidade dos nossos banhos. Dito e
feito: afastou um Demônio uma grande laje, que servia de tampa a um poço que estava ali perto, do qual
rebentaram tantas e tão impetuosas e vorazes labaredas, que pareciam querer escalar o Céu; e desafogando-se por
aquele campo, tornaram em cinzas não só as árvores, mas as mesmas pedras, e até uma fonte que por ali corria, a
deixaram seca sem gota. Agarraram logo outros daquele desventurado e o emborcaram pelo poço dentro: onde,
havendo estado largo espaço, o tiraram da cor de um ferro que esteve na frágua feito brasa viva, e o tornaram à
presença de Lúcifer, o qual, escarnecendo, lhe disse: Que lhe parece a Vossa Senhoria dos nossos banhos? Não são
suaves e regalados? Pois isto não é mais que uma prova ou ensaio, da grande paga que temos prevenida para os
sinalados serviços e merecimentos de Vossa Senhoria.

A tudo isto tinha estado em silêncio o desventurado Udo; e vendo-se já condenado a uma duração interminável de
tormentos, e, que de seus olhos se ausentara para nunca mais tornar a esperança de remédio, levantou a temerosa
voz e com prolixos e altíssimos gemidos, dizia: Ai de mim! Ai de mim, desgraçado! Oh que caros me custaram meus
deleites! Oh que breves foram e momentâneos, sendo a pena deles eterna! Maldito seja o dia em que fui gerado;
maldita a hora em que nasci no mundo; malditos os pais que me deram o ser; malditos todos os que me ajudaram a
pecar; maldito (aqui começou a blasfemar de Deus, e da Virgem, e de todos os Santos). E os demônios, ouvindo-o,
desfecharam em risadas e diziam: Oh que bem sabe já o nosso ofício! Oh que lindamente canta! Necessário é que
fique em nossa casa e cante no nosso coro. Pois levai-o logo (disse Lúcifer) e dai-lhe um dos primeiros lugares. Então
remeteram a ele como cães danados, e pegando-lhe com unhas e dentes, se sumira pela boca do poço, com tão
ruidoso estrondo, que parecia virem-se abaixo as bóvedas do firmamento, e que os montes se arrancavam de seus
assentos.

Ficou, todavia, o Demonarca com outros espíritos malignos que lhe faziam corte; o qual, pondo os espantosos e
terríveis olhos, que pareciam carvões acesos, no clérigo que estava dormindo: Aquele (disse) que ali está dormindo
não é o capelão de Udo e seu alcoviteiro? Razão é que o acompanhe nas penas, pois, lhe ministrou nas culpas;
trazei-o aqui logo. Correram a ele os demônios, para o agarrar. E neste passo o clérigo, com a força do susto,
acordou daquele formidável sonho. E como se levantou estrebuchando e espavorido, espantou-se o cavalo, que
estava atado ao seu braço, e correu furiosamente pelo campo arrastando-o por largo espaço, até que lhe quebrou a
cana dele. Porém, como Deus queria dar-lhe lugar da penitência, e que fosse testemunha do que vira, parou enfim o
bruto, e se amansou de sorte que o clérigo pôde outra vez montar, ainda que com grande dor e trabalho. Chegando
à cidade, viu que em nenhuma outra coisa se falava mais que na infeliz e repentina morte de seu amo; e conferindo
o que tinha passado no castigo do corpo, com o que vira no da alma, ficou a verdade de uma e outra visão mais
contestada.
Porém, como as obras de Deus em qualquer gênero são perfeitas, faltava ainda alguma demonstração da ira Divina
acerca daquele miserável cadáver, que na igreja ficara degolado. Esta foi que não quiseram os da cidade dar-lhe
sepultura em sagrado. Lançaram-no na lagoa: porém, logo saíram dos bosques, brenhas e covas, diversas feras, que
ali tinham seus esconderijos; e entrando na lagoa, tiraram fora o corpo e o levaram arrastando pelos campos, sem
nenhuma lhe dar dentada, como que abominavam coisa tão maldita. E os pastores e rústicos, que com isto padeciam
não pequeno assombro e dano, se viram obrigados a queimar aquele corpo. Lançaram as cinzas dele no rio Alba; e
no mesmo ponto (coisa maravilhosa!) todos os peixes dele fugiram para o mar, e não apareceu ali pesca alguma
pelos dez anos seguintes; até que os naturais aplacaram a ira de Deus com procissões, penitências e ladainhas, e
então, começaram os peixes a tornar para o rio.

Dura a memória deste espantoso caso naquela província até o presente dia; e ainda que os Saxônios o quisessem
negar, as mesmas pedras o publicaram: porque numa da dita igreja se mostra claramente o sangue daquele
justiçado, cuja nódoa não pode apagar-se por estar incorporada com a mesma pedra, que parece a embebeu em si.
Está coberta com um tapete; e quando há nova promoção de arcebispo, a descobrem e lhe mostram, dizendo: Que
veja bem como castiga Deus a quem não administra como deve aquela dignidade, que lhe encomenda.

Até aqui a relação do caso. No qual se ofereciam muitas coisas dignas de ponderação: o perigo das letras, quando se
não acompanham das virtudes; o fácil abuso das riquezas e dignidades, para a depravação dos costumes; a graveza
do escândalo, quando o causam pessoas grandes, particularmente eclesiásticas; a dureza do coração humano
resistindo às vozes Divinas, e despenhando-se de um pecado em outro mais profundo; a eficácia da oração dos
justos, em ordem ao bem público e à honra divina; o desamparo de uma alma, tanto que a Virgem Nossa Senhora
fica em silêncio e não advoga por ela; o execrando sacrilégio dos que comungam em pecado mortal, e o respeito que
se deve ao Augustíssimo Sacramento do Altar; a justificação exatíssima e vasta profundeza dos divinos juízos; a
honra e fama dos pecadores, trocada subitamente em infâmia e ignomínia; a ingratidão, como é caráter próprio de
almas réprobas; o ofender a Deus por servir aos ímpios, como é arriscado a fazer-lhes companhia na pena eterna; as
criaturas todas como perseguiriam ao pecador, se Deus lhes desse licença; e outros muitos doutrinais avisos, que
desta história se provam manifestamente. Porém, como o nosso intento nesta obra não tem esfera tão ampla, só
pretendo agora que tiremos com tempo o desengano que aquela alma ponderou já tarde. Oh deleites da carne (dizia
ela, abrindo na pena os olhos que fecharam na culpa), como custais caro! Que brevemente passastes, e como vosso
tormento não passará eternamente! Consideremos atentamente, como não indo entre o pecador e o Inferno mais
que o fio da sua vida, que pode quebrar em qualquer instante, não pode haver loucura mais desatinada do que
deixar-se o pecador viver no estado em que não quisera morrer, e por um gosto torpe e momentâneo vender a
salvação eterna da sua alma.

E, finalmente, tornando à conclusão do presente capítulo, digo que são tantas no mundo as desgraças, ruínas,
sedições, crueldades e sucessos trágicos que este só vício da carne tem causado, que apenas há pessoa, das que têm
anos de discrição e experiência, que não possa referir vários exemplos. Nestes, pois, deve carregar com a
consideração quem deseja tirar escarmento, e pedir a Deus lhe conceda seu santo temor, para conter-se nos limites
que sinala sua lei.

Extraído da obra “Armas da Castidade” do Padre Manoel Bernardes.

Cântico dos Louvores da Mãe Admirável,


Maria Santíssima, Senhora Nossa
(Solilóquio XXII)

Louvai, obras do Senhor, a Senhora porque Ela é a mais nobre, a mais excelente e perfeita obra do Senhor!

Louvai, Sol e Lua, a Senhora porque a Senhora é escolhida como Sol e formosa como a Lua!

Louvai, estrelas do firmamento, a Senhora porque Ela é a radiante estrela que guia os navegantes do mar deste
século!

Louvai, nuvens do Senhor, a Senhora porque Ela é a nuvem leve em que desceu a nós o Verbo de Deus humanado!
Louvai, orvalhos da manhã, a Senhora porque Ela é o velo de Gedeão que embebeu o celeste orvalho do Divino
Verbo!

Louvai, neves e geadas, a Senhora porque o candor de sua pureza é o refrigério dos incentivos de nossa carne!

Louvai, raios e relâmpagos, a Senhora porque Ela é o resplendor claríssimo e eficacíssimo da luz da Divina Graça!

Louvai, todas as fontes e mares do Senhor, a Senhora porque a Senhora é fonte fechada com o selo de Deus, é o
poço de águas vivas e o mar de todas as graças juntas!

Louvai, plantas e flores do campo, a Senhora porque Ela é a rosa de Jericó, o lírio entre espinhos, a palma de Cadés,
o cedro do Líbano, a árvore da Vida, que nos produziu o fruto felicíssimo da vida eterna!

Louvai, montes do Senhor, a Senhora porque a Senhora é o monte santo de Sião, onde se fundou o templo vivo da
Humanidade de Cristo!

Louvai, meninos inocentes, a Senhora porque de seu intacto ventre se dignou Deus nascer Menino para nos restituir
à primeira inocência!

Louvai, sacerdotes do Senhor, a Senhora, pois ela foi a grande Sacerdotisa que em suas mãos tomou e ofereceu a
Hóstia viva em perene sacrifício que tira os pecados do mundo!

Louvai, profetas do Senhor, a Senhora, porque Ela é a profetizada Profetiza a quem chegou o Espírito Santo com sua
sombra para conhecer o Rei que tem por nome «Apressa-te a vencer e despojar teus inimigos»!

Louvai, Mártires do Senhor, a Senhora porque Ela foi mais que mártir, não só de Cristo e por amor de Cristo, como
vós o fostes, mas no mesmo Cristo, cuja cruz a crucificava!

Louvai, Virgens do Senhor, a MARIA porque MARIA é da Virgindade a forma, a glória e o magistério! (...)

Todos os Santos, todos os Espíritos Bem-aventurados, todas as criaturas do Céu e terra, louvem e exaltem e
magnifiquem a MARIA, porque MARIA é a digníssima Rainha e absoluta Senhora dos Anjos e Santos e de todas as
criaturas!

Glória a Deus Pai, de quem MARIA é filha primogénita; glória a Deus Filho, de quem MARIA é Mãe verdadeira; glória
a Deus Espírito Santo, de quem MARIA é Esposa escolhida; glória à Beatíssima Trindade de quem MARIA é sacrário
animado, e agora e sempre e por séculos de séculos!

Ámen.

P.e Manuel Bernardes, Luz e Calor, II Parte, Opúsculo IV, séc. XVII

http://minhaalmaglorifica.com.sapo.pt/ave_maria.htm

Invocação e Louvor do Espírito Santo


Vinde, ó luz verdadeira!

Vinde, eterna vida!

Vinde, tesouro que não tem nome!

Vinde, alegria indeficiente, Sol que não conhece ocaso, expectação fiel de todos os que se salvam!

Vinde, ó virtude poderosa, que só com o aceno obrais, dispondes e imutais todas as coisas, ficando Vós imutável!

Vinde, ó primeiro móvel dos orbes místicos do nosso espírito!

Vinde, grinalda florida que não sabe murchar-se!

Vinde, cíngulo de brilhante pedraria que vence as estrelas em claridade!

Vinde, refúgio altíssimo e seguríssimo!


Vinde, dedo da mão direita da augusta Majestade do Altíssimo!

Vinde, semeador de conselhos sábios e propósitos santos que frutificam honra e glória!

Vinde, eterno abraço com que o Pai e o Verbo significam entre si o seu amor infinito!

Vinde, lume dos profetas, doutrina dos Apóstolos, esforço dos Mártires, Paraninfo das Virgens, Signáculo de todos
os Justos, Coração de toda a Igreja Católica!

Vinde, vinde, que minha pobre alma, por misericórdia vossa vos deseja, vos invoca, vos espera!

P.e Manuel Bernardes, Luz e Calor, II Parte, Opúsculo IV

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Gemidos da alma penitente


Gemidos da alma penitente
Jaculatórias do pe. Manuel Bernardes

PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes:
“Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por
mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos —
entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção,
escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes;
Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte,
para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo.
Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem,
que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os
Sermões e Práticas, os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos Dias do Homem, os Tratados
Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor
e a Nova Floresta. Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou
de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

OPÚSCULO V

ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das
Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória
do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as
fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa,
Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que
as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o
coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor
achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas
coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.

1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES


DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir
o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de
vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de
todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos
ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não
necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos
demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e
misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de
meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais
pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia
morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.

Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-
me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a
vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados.

DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil
cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias
de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não
compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior
cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que
te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência,
costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de
lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!
Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos
os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por
aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de
vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós
ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada
um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as
penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste
salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?

DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis
às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti
de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso
dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-
me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite
falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos!
Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto
devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia,
amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de
vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços
de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um
perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais,
Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido
para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!
DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de
vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava
morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora
conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não
conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando
Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida;
tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora
demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito
na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos
eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós,
Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-
o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de
fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande
temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se
somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um
coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.

DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me
atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los
benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são
envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis
o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite
cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades;
submergi-as no mar de vossa bondade imensa.
Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê
quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a
vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda
maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho
com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da
Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da
alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo,
meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.

visto em: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1376

http://precantur.blogspot.com.br/2013/05/gemidos-da-alma-penitente.html

Que é salvação, segundo o Padre Manuel Bernardes


Primeiro capítulo do livro do genial Padre Manuel Bernardes:

OS ÚLTIMOS FINS DO HOMEM

SALVAÇÃO E CONDENAÇÃO ETERNA.

TRATADO ESPIRITUAL

Dividido em dous Livros.

NO PRIMEIRO SE TRATA DA SINGULAR PROVIDÊNCIA

De Deus na salvação das almas; no segundo das causas gerais da perdição das almas, ou estradas comuns do Reino
da morte.

ESCRITO E DEDICADO À SOBERANA

Rainha dos Anjos

MARIA SANTÍSSIMA

PELO PADRE

MANUEL BERNARDES,

Da Congregação do Oratório de Lisboa.

Que cousa é salvação, e em que consiste.

Quem diz salvação significa e insinua duas cousas: uma, livrar-se o que se salva de algum mal que já padecia, ou que
o ameaçava; outra, conseguir algum bem, ou ao menos conservar-se no que já possuía. E assim dizia Jacob quando
por temor de seu irmão Esaú dividiu a sua família e rebanho em duas turmas: se Esaú derrotar uma, salvar-se-á a
outra: Si venerit Esau ad unam turmam, & pereusserit eam, alia turma, quae reliqua est, salvabitur. Isto é, escapará
da destruição, ou roubo, que nos ameaça, e ficará conservando-se com vida, e no seu antigo domínio. Deste modo
também se diz nas Escrituras, que do incêndio que abrasou e consumiu as cinco Cidades infames, se salvou
Lot: Festina, & salvare ibi; e das águas do Dilúvio se salvaram só oito almas: Octo anime salve factae sunt per aquam:
Isto é, que escaparam daquelas calamidades, em que tantos outros foram envolvidos, e se conservaram com vida
por particular providência de Deus.

Pelo exemplo pois destas salvações materiais se entende bem em que consiste a salvação espiritual; porque de dous
modos é esta: uma é salvação só principiada, outra é salvação já consumada. A salvação principiada consiste em
livrar-se a alma do mal da culpa e conseguir o bem da graça; e neste sentido disse Cristo quando se converteu
Zaqueu e propôs restituir o que devia mal levado; que naquele dia entrara a salvação naquela casa: Hodie salus
domui huie facta est. A salvação consumada e perfeita consiste em ser um livre da perdição e morte eterna e
misérias desta vida corruptível; e conseguir o bem da glória, último fim para que foi criado. E neste sentido disse o
mesmo Senhor, que o que perseverasse até o fim, este seria salvo; e S. Pedro, que o Justo escassamente se
salvaria: Justus vix salvabitur.

Quão grande seja esta miséria de que os escolhidos escapam e quão grande esta felicidade que alcançam não é
possível explicar-se nem entender-se nesta vida; porque assim aquele mal como aquele bem são infinitos; e do
infinito não temos espécie nesta vida, que nos ajude a formar conceito e a exprimi-lo com palavras. No progresso
deste tratado irei dizendo este pouco, a que se estende minha curta esfera; e por hora só noto brevemente que pelo
pecado de Adão nosso primeiro Pai, toda a massa da geração humana ficou corrupta e todos seus descendentes
(exceptos somente Cristo e sua Mãe Santíssima Maria Senhora Nossa) no mesmo ponto em que somos concebidos,
e é verdade dizer esta criatura é carne de Adão, naturalmente somos filhos da ira de Deus, e réus da morte temporal
e da condenação eterna; somos também obrigados a suportar as inumeráveis misérias desta vida mortal e
corruptível; como são cegueira de entendimento, debilitação da vontade para o bem, rebeldia do apetite,
curiosidade e desordem dos sentidos, imundícia da carne, desobediência das outras criaturas inferiores, estímulo e
opróbrio da má consciência, sujeição ao domínio tirânico dos demônios e uma tal inclinação a pecar, que quase
parece necessidade forçosa: Non enim (diz S. Paulo) quod volo bonum, hoc facio; sed quod nolo malum, hoc ago; si
autem quod nolo malum, illud facio, jam non ego operor illud, sed quod habitat in me peccatum. Porque mais
ligeiramente prende e arde no nosso coração o fogo da concupiscência do que a faísca que sai da pederneira caindo
na isca ainda que quente, que por isto a esta tal inclinação a pecar chamam os Teólogos isca do pecado: Fomes
peccati. Porque todo o gênero humano é como uma teia que se urdiu em nossos primeiros Pais e se vai até agora
tecendo pelos fios da geração ou linhas de descendência: Esta teia se queimou pela transgressão do primeiro
homem, em cuja vontade estavam todas as nossas vinculadas; e assim caindo sobre ela de novo o fogo e o assopro
da tentação que sai da boca do demônio: Halitus ejus prunas ardere facit, & flamma de ore ejus egreditur; torna a se
abrasar e consumir totalmente.

Esta desgraça e ruína do gênero humano excede toda a semelhança a que se pode comparar. Esdras a compara ao
Dilúvio universal: Factam est sicut Ada mori, sic his diluvium. Porém do Dilúvio escaparam oito pessoas das que
então eram vivas; e do pecado só escapou Maria Santíssima, porque o seu fio não quis Deus que estivesse atado
naquela urdidura: e Cristo Senhor Nosso, porque não foi concebido por obra de varão. Todos os mais nascidos até
agora e por nascer até o fim do Mundo perecerão. Os Santos Padres a comparam ao cativeiro do Povo de Deus em
Egito, e depois em Babilônia, que ambos foram duríssimos e mui prolongados; porém enfim eram cativeiros do
corpo e não da alma; cativeiros de um Povo, e não de todas as nações; cativeiros de homens em poder de outros
homens, e não em poder de demônios; cativeiros que ao menos se acabavam com a morte, e não cativeiro que de
uma morte temporal se continuará com outra eterna, se Deus nos não livrar dele por sua misericórdia.

Nas Histórias se refere que no ano de Cristo 29, arruinando-se na cidade de Fidenas um famoso Anfiteatro, ao tempo
que o Povo assistia aos espetáculos, matou e espedaçou debaixo de suas ruínas cinqüenta mil pessoas. Fatal
calamidade! Porém que sombra de semelhança tem com a que causou a ruína de nossos primeiros Pais, debaixo da
qual foram envolvidos e mortos todos os indivíduos da espécie humana?

Eis aqui, pois, o estado miserabilíssimo em que nos achávamos: Ita ergo res se habebat(considera Santo
Agostinho) jacebat in malis, vel etiam volvebatur, & de malis in mala praecipitabatur totius humani generis massa
damnata: & adjuncta parti eorum, Qui peccaverant, Angelorum luebat impiae desertionis dignissimas paenas. E
querendo o Altíssimo remediar tantos males e que se não frustrasse o conselho de sua providência, com que a
princípio nos criara para si, movido de sua natural bondade e misericórdia, mandou ao Mundo seu Unigênito Filho
feito homem, para salvar os homens; e conforme a empresa a que era enviado e comissão que trazia, quis que
tivesse por nome próprio o de JESUS, que é o mesmo que Salvador, cujas figuras, entretanto que se cumpria a Divina
promessa, foram pelo discurso dos séculos antecedentes todos aqueles Varões insignes que libertaram o Povo
Israelítico de seus inimigos; como Moisés, Sansão, Otoniel, Ahud, e por isso na Escritura se chamam Salvadores. E o
mesmo nome se dá na Profecia de Abdias aos sagrados Apóstolos, porque enviados por Cristo, cooperaram com ele
neste mesmo negócio da salvação do Mundo.

O modo excelentíssimo e admirável com que o Senhor obrou a nossa redenção e salvação foi sujeitando-se à morte
e a todas as mais penalidades desta vida, que não desdiziam de sua Pessoa Divina, como se fora puro homem e
pecador como os mais. E oferecendo ao Eterno Padre todos seus merecimentos por resgate em preço da nossa
liberdade e satisfação de sua justiça. E assim a todos os que quiserem aproveitar-se deste incomparável benefício,
deu poder de se fazerem filhos de Deus, e por conseguinte herdeiros de sua glória. A parte de nossa salvação que
toca à redenção da alma, a deixou feita na terra, livrando-nos do cativeiro do demônio, perdoando nossos pecados,
justificando-nos com sua graça, alumiando-nos com a sua doutrina, fortalecendo-nos com os seus auxílios, etc.

A outra parte, que toca à redenção do corpo, que ainda está sujeito às misérias desta vida corruptível e ao tributo da
morte, há de consumar na sua segunda vinda, na qual, como está escrito em Isaías, precipitará o Senhor a morte
para sempre, e desatará o vínculo do jugo, que teve oprimidos todos os Povos, e desbaratará aquela teia que
dissemos se urdira sobre todas as nações: Et praecipitabit in monte isto faciem vinculi colligati super omnes populos,
& telum, quam orditus est super omnes nationes. Praecipitabit mortem in sempiternum, &c. E isto é o que profetizou
também David, dizendo que no tempo de Cristo nasceria a justiça e a abundância da paz, até se tirar ultimamente a
Lua: Orietur in diebus ejus justitia, & abundantia pacis, donec auferatur Luna. Por Lua se entende a morte e
corrupção e desta (como diz o Apóstolo) há de ser o último triunfo de Cristo, quando ressuscitar os
mortos: Novissima autem inimica destruetur mors.

Estes são os males de que o Salvador livra a todos os que se salvam. Os bens de que os mete de posse (que era a
outra parte em que consiste a salvação) é reinarem com Deus eternamente bem-aventurados com a vista clara de
sua face, último fim para que os criou, e tesouro preciosíssimo que ab eterno lhes tinha guardado. Por isto no livro
dos Provérbios, onde a nossa Vulgata lê que Deus guarda a salvação para os Justos:Custodiet rectorum salutem, lê a
versão Tigurina, que Deus tem entesourada a sua Essência para os Justos: Reponit justis essentiam. Porque a vista
clara da Essência Divina, essa é a salvação consumada dos escolhidos: este é o tesouro preciosíssimo que o Senhor
pela caridade imensa com que os ama lhe guarda reservado e escondido dentro em si mesmo.

Outro Intérprete lê: Reservabit justis id quod est, que Deus reservará para os bons aquilo que é; e que é aquilo que é
senão Deus, cuja Essência é ser o que é? Ego sum Qui sum, como ele mesmo definiu; pois tudo o mais que não é
Deus não é essencialmente. Pois, como ver a essência de Deus é a nossa salvação, por isso guardar Deus para os
Justos a salvação é guardar-lhe aquilo que é: Custodiet rectorum salutem: reservabit justus id quod est.

Donde se vem a entender claramente o sentido do título ou inscrição de uma carta que Gaufredo, Monge de
Claraval, escreveu ao Cardeal Albanense, a qual diz assim:Amantissimo Domino, & Patri ª Dei gratia Albanensi
Episcopo, & Domini Papae Vicario, Frater Gaufredus de Claravalle minimus, id quod est. Ao amantíssimo Pai e Senhor
por graça de Deus Bispo Albanense e Vigário do Senhor Papa, Fr. Gaufredo o mínimo da Congregação de Claraval,
roga e deseja aquilo que é. Pressuposto o que temos dito, fica manifesto o que envolve em termos tão abstratos e
escuros. Vale o mesmo que dizer que lhe roga e deseja a salvação; porque como a salvação consiste em ver a Deus, e
só Deus é aquilo que é, desejar um a ser próximo àquilo que é é o mesmo que desejar-lhe a salvação.

Eis aqui, pois, como a salvação consiste naqueles dous pontos que dizíamos: livrar-se pelos merecimentos de Cristo
da eterna miséria e alcançar a suprema felicidade, e assim a definiu um Santo Varão contemplativo: Salus porrò est
omnium malorum depulsio, in eodem (scilicet Christo) omnium bonorum eterna inventio. Ou como disse S. Bernardo,
e é o mesmo por outras palavras, não ser o homem cousa alguma que não quer, e ser tudo o que quer: Beatitudo est
ubi nihil sit quod nolis, & ubi totum sit quod velis. De sorte que salvar-se uma alma é satisfazer-lhe Deus com sua
bondade e glória toda a sede de sua vontade, tirando-lhe tudo o que a desgosta e dando-lhe tudo o que a deleita.
Por isso disse a Sabedoria Eterna nos Provérbios que quem o achasse acharia a vida e beberia do Senhor a
salvação: Qui me invenerit, inveniet vitam, & hauriet salutem a Domino: onde Vatablo lê e explica: Hauriet
voluntatem a Domino, id est, assequetur quidquid volet a Domino, e Pagnino: Educet quidquid voluerit a Domino.

O Padre Manuel Bernardes e o tombo de Tales de Mileto


Lá se conta que um filósofo, levantando os olhos e pensamentos ao Céu, ocupado na contemplação de sua grandeza
e formosura, tropeçou e caiu numa cova e uma mulher zombou dele dizendo que era bem empregado que medisse
a terra com o corpo quem media o Céu com os olhos. Porém, cá é muito pelo contrário: quem não leva os olhos no
Céu, esse é o que tropeça, esse o que cai; tropeça nas ocasiões da terra, cai na cova do Inferno. Para não cair o
corpo, os olhos hão de acompanhar os passos e os passos se hão de segurar na terra; mas para não cair a alma, os
passos hão de acompanhar os olhos e os olhos se hão de segurar no Céu; se os olhos forem postos na salvação em
Deus, Deus governará os passos que não tropecem: Oculi mei semper ad Dominum, quoniam ipse evellet de laqueo
pedes meos (Ps 14,15).

O Padre Manuel Bernardes e o gozo da eternidade


Aqui vai este trecho do Pão Partido em Pequeninos, do padre Manuel Bernardes. Texto antológico por excelência e
certamente uma das mais belas joias da literatura de língua portuguesa e mundial.

Secular: Por quanto tempo hão de ver a Deus os venturosos que se salvam?

Religioso: Já disse que para sempre, enquanto o mesmo Deus for Deus; considerai este para sempre, para sempre, e
pasmareis da bondade de Deus, que tal prêmio promete, e do descuido dos homens, que tal felicidade não
estimamos e procuramos.

Secular: Tanto tem Deus que ver? E tanto que ser amado e louvado, que hão de estar as almas ocupadas nisso
sempre, sempre, sem se cansarem?

Religioso: Filho: os bens e gostos do mundo, uns mais, outros menos, todos finalmente enfastiam e cansam, porque
em si são limitados, e o homem não é feito para eles. Porém a formosura de Deus é infinita: suas perfeições,
excelências e grandezas não têm limite. E assim, ainda que houvera infinitos Anjos e almas bem-aventuradas, nunca
por toda a eternidade acabariam de compreender tão grande bem, nem se cansariam de o amar e louvar, e
especialmente sendo os Anjos e os homens criados para o logro deste bem. E se não, dizei-me vós: a pedra
porventura cansa-se de estar quieta e sentada sobre o seu centro? Não, por certo; porque esse é o seu lugar próprio,
e aí se acha bem. Sendo pois a vista de Deus o centro das nossas almas, e o seu lugar próprio onde se acham
sumamente ditosas: que muito que não cansem de ver a Deus, e por conseguinte de o amar e louvar eternamente?
Para que esta verdade se vos faça mais crível, vos contarei um exemplo, que trazem graves Autores:

Estando um monge em Matinas com os outros Religiosos do seu Mosteiro, quando chegaram àquilo do Salmo, onde
se diz que: Mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem que já passou; admirou-se grandemente, e começou a
imaginar como aquilo podia ser. Acabadas as Matinas, ficou em Oração, como tinha de costume, e pediu
afetuosamente a Nosso Senhor, se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe ali no coro um
passarinho, que cantando suavissimamente, andava diante dele dando voltas de uma para a outra parte, e deste
modo o foi levando pouco a pouco até um bosque que estava junto do mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma
árvore; e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve intervalo (conforme o Monge julgava) tomou
o voo, e desapareceu com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia mui sentido: Ó passarinho da minha alma,
para onde te foste tão depressa? Esperou, e como viu que não tornava, recolheu-se para o Mosteiro, parecendo-lhe
que aquela mesma madrugada, depois das Matinas tinha saído dele. Chegando ao Convento, achou tapada a porta,
que de antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o Porteiro quem era, e a quem
buscava. Respondeu-lhe: Eu sou o Sacristão, que poucas horas há saí de casa e agora torno, e tudo acho
mudado. Perguntando também pelos nomes do Abade, e do Prior, e Procurador, ele lhos nomeou, admirando-se
muito de que o não deixasse entrar no Convento, e de que se mostrava não se lembrar daqueles nomes. Disse-lhe
que o levasse ao Abade; e, posto em sua presença, não se conheceram um a outro, nem o bom Monge sabia que
dissesse, ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado de tão grande novidade. O abade então alumiado por
Deus mandou vir os anais e histórias da Ordem: onde, buscando, e achando os nomes que o Monge apontava, se
veio a averiguar com toda a clareza, que eram passados mais de trezentos anos desde que o Monge saíra do
Mosteiro até que tornara para ele. Então este contou o que lhe havia sucedido e os Religiosos o aceitaram como a
Irmão seu do mesmo hábito. E ele considerando na grandeza dos bens eternos, e louvando a Deus por tão grande
maravilha, pediu os Sacramentos, e brevemente passou desta vida, com grande paz em o Senhor.

Este é o exemplo. Vede agora que se a música de um passarinho pode entreter aquele Monge trezentos anos com
tanto gosto seu, que lhe pareceram poucas horas, e ainda desejava que durasse mais; como não bastará a vista de
Deus, que é um bem, onde se encerram juntos infinitos bens, para suspender a nossa alma sem fastio nem cansaço
por toda a eternidade? Antes com satisfação, e gozo tão cabal, como se naquele instante começara a ver a Deus.

O Padre Manuel Bernardes e a masturbação


Aqui vão os conselhos do Padre Manuel Bernardes, grande escritor místico português, aos bilhões de atingidos pela
epidemia masturbatória que assola o planeta. Baseiam-se na milenar ascese cristão, que tem como fundamento a
palavra do mesmo Lógos divino e a prática constante de todos os seus santos.

Trata-se de um diálogo entre um Secular que pede conselhos a um Religioso.

Secular: Suponhamos que a ocasião da sensualidade é tão inseparável da pessoa que está nela mesma: que remédio
fica então ao pobre pecador? Há de separar-se e despedir-se do seu mesmo corpo?

Religioso: Trabalhoso mal é esse; que até o nomear-se ofende os ouvidos. Porém nunca o enfermo deve desesperar
da cura; porque tem remédio, se o quiser aplicar. As diligências que da sua parte há de fazer são estas:

1. Confessar-se muito amiúde sempre com o mesmo confessor, ainda que talvez lhe retarde a absolvição;

2. Rezar cada dia o Rosário ou Coroa da Virgem Senhora Nossa, pelos seus Mistérios, parando um pouco a cada
Padre-Nosso, e pedindo-lhe com o maior afeto que puder interceda com seu Benditíssimo Filho para que o livre desta
enfermidade;

3. Fazer voto de se abster ou refrear deste pecado por uns tantos dias poucos em número e ir renovando o mesmo
voto a intervalos breves, se se conhecer que aproveita. Porém deste remédio não se use sem conselho do Confessor
prudente;

4. Ter cada dia meia hora, ao menos, de Oração mental, meditando na gravidade dos pecados, na Morte, Juízo,
Inferno ou na paixão de Cristo, passo por passo;

5. Quando a tentação acomete, resistir-lhe logo nos princípios com uma resolução muito viva e forte de querer antes
ir logo penar ao Inferno para sempre do que ofender a Deus; e dizer o Padre-Nosso e o Credo em voz inteligível , que
ouça o demônio, o qual ali está presente, atiçando o pecador, e tem grande medo destas palavras. E pela mesma
razão, será também útil ter prevenida em casa água benta e lançá-la em si e pela casa e cama e benzer-se muitas
vezes com grande Fé;

6. Caso que a tentação aperte muito, se é hora que a pessoa possa sair de casa, vá visitar o Santíssimo Sacramento
na primeira Igreja onde achar esse refúgio, como quem se acolhe a sagrado; e clame interiormente diante do Senhor
por sua misericórdia, com fé viva de que lhe há de valer. E se não é hora conveniente para este recurso, tome uma
disciplina, recatando a vista do seu mesmo corpo;

7. Quando nada disto baste, e com efeito a tentação o venceu, não desmaie (que isso é dar mais ânimo ao demônio),
e logo que puder, torne a buscar o Confessor, e continue nos mesmos remédios aopontados, como se com efeito não
caíra. Porque Deus se há de compadecer dele; e com qualquer melhoria que vá cobrando, irá a alma tomando forças
e destreza para esgrimir melhor estas armas.

***

Felizmente, vemos que são raríssimos os que padecem desse mal entre os católicos de hoje. Prova disso é que os
confessionários estão sempre vazios e a porcentagem dos fiéis que comungam durante a missa é sempre enorme.

Como vemos, a Teologia do Corpo de João Paulo II foi vitoriosa em extirpar esse vício nos ambientes católicos.
São Jerônimo a Santo Agostinho sobre a bem-aventurança eterna
Determinado tinha Santo Agostinho consultar a seu amigo São Jerônimo sobre o que sentia da glória dos Bem-
aventurados. Foi este no mesmo tempo chamado ao felicíssimo número destes; e, por dispensação divina, veio a
dar-lhe a resposta desejada da consulta ainda não feita; e o que disse, melhor será ouvi-lo ao mesmo Santo
Agostinho.

Estava eu (diz o Santo) sossegado no retiro da minha celinha, revolvendo no pensamento quanta seria a glória e
alegria das almas bem-aventuradas, porque desejava compor sobre esta matéria um breve tratado. Pegando, pois,
do papel e pena para escrever a Jerônimo santíssimo uma carta, em que lhe pedisse me dissesse neste particular o
que sentia, subitamente entrou no aposento um resplendor ou claridade inefável, nunca vista cá no século e que
excede a explicação das nossas línguas; e juntamente uma fragrância, que semelhança sua nunca experimentou o
sentido. E logo do meio daquela luz saiu uma voz, que dizia: Agostinho, Agostinho, que fazes? Intentas, porventura,
encerrar em breve vaso as profundezas do mar todo? Cuidas, porventura, que poderás entender o que nem subir
pode ao coração humano? De coisa que é infinita, qual será o fim; e da que é imensa, qual será a medida? Sabe que
mais facilmente fecharás no punho a redondeza da terra e farás que os celestes orbes cessem de seu perpétuo
movimento do que da glória dos Bem-aventurados possas dizer ou entender a mínima parte, até que não sejas,
como eu, ensinado pela experiência. Neste ponto desapareceu a visão, na qual todos (ainda os que logramos só por
este reflexo) temos juntamente a consolação e o desengano de que é tão grande o bem da glória que esperamos
que ninguém pode entendê-lo senão quando chegar a possuí-lo: Nemo scit, nisi qui accipit.

(Padre Manuel Bernardes, Nova Floresta, II, 79)

A vida da Mãe de Deus


Oh! gloriemo-nos todos os fiéis de que atualmente temos no Céu viva, ressuscitada e gloriosa a Mãe de Deus. Aquele
mesmo ventre, mina oculta em cujas entranhas o Espírito Santo, como Sol, formou a Cristo, como ouro, para dele se
cortar o nosso resgate; aqueles mesmos olhos, que O viram presente na lapinha de Belém, quando ali se apeou o
Príncipe da eternidade, depois de esperada sua vinda por tantos milhares de anos; aqueles mesmos lábios, que se
estrearam em saudá-Lo com o ósculo da paz; aqueles mesmos peitos, que alimentaram a seu Criador, correndo
deles, não sei se diga neve se fogo, pois com o leite ia juntamente o amor; aquela mesmas mãos, que puseram faixas
ao Imenso e que O serviram em tantos e tão imediatos ministérios, todos sacratíssimos pela pessoa a que se
dedicavam; enfim, toda inteira aquela nobilíssima Arca da santificação de Deus está nas alturas do Empíreo, Aleluia.
E se lá o Santo Jó se consolava com a esperança certa de que, ressuscitando, haviam seus mesmos olhos, e não
outro, ver a Cristo Salvador nosso –“Eu mesmo o verei, e os meus olhos o hão de contemplar, e não outro” ( Jó 19,27)
– , também nós, os filhos da Igreja Santa, nos devemos consolar com a certeza de que já atualmente temos no Céu a
Mãe que nos está vendo, ou pode ver com seus próprios olhos, e Mãe que ora e fala por nós com sua própria língua,
Mãe para nos impetrar muitas misericórdias. Lamentem-se e chorem os mortais enquanto filhos de Eva, porque Eva
nada nos aproveitou, exceto a descendência e progenitura de Maria. Consolem-se enquanto filhos de Maria, ela que
está chamando e convidando para participarmos a mesma vida.

Pe. Manuel Bernardes. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa. Brasilia:Ed.
Pinus, 2010. pp.246

http://formosuradocarmelo.blogspot.com.br/2013/08/a-vida-da-mae-de-deus.html

Gemidos da alma penitente - jaculatórias do pe. Manuel Bernardes


PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes:
“Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por
mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos —
entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção,
escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes;
Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte,
para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo.
Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem,
que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os
Sermões e Práticas, os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos Dias do Homem, os Tratados
Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor
e a Nova Floresta. Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou
de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

OPÚSCULO V

ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das
Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória
do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as
fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa,
Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que
as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o
coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor
achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas
coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.

1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES

DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir
o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de
vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de
todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos
ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não
necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos
demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e
misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de
meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.
Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais
pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia
morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.

Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-
me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a
vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados.

DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil
cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias
de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não
compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior
cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que
te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência,
costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de
lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!

Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos
os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por
aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de
vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós
ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada
um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as
penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste
salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?

DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis
às bestas infernais as almas que vos confessam.
Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti
de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso
dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-
me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite
falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos!
Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto
devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia,
amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de
vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços
de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um
perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais,
Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido
para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!

DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de
vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava
morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora
conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não
conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando
Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida;
tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora
demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito
na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos
eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós,
Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.
Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-
o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de
fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande
temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se
somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um
coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.

DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me
atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los
benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são
envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis
o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite
cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades;
submergi-as no mar de vossa bondade imensa.

Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê
quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a
vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda
maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho
com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da
Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da
alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo,
meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.

Fonte: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1376
A história de São Paio
Padre Manoel de Bernardes

Nova Floresta

Paio, menino português, nascido no território de Coimbra (como querem os nossos autores) e da nobre família dos
Cunhas e Sampaios, vivendo, na primeira flor dos seus anos, como outro Tobias, temente a Deus, mereceu ser feito
vítima de Cristo. Teve ele excelente criação, em casa do bispo de Tuy, Hermógio, seu tio. Entrou naquele tempo
Abderramen, rei de Córdova, III do nome, com um poderoso exército pelas terras dos cristãos, abrasando-as como se
fosse um raio. E, não podendo D. Sancho Abarca resistir-lhe, pela desigualdade de forças, chamou em seu socorro a
el-rei de Leão D. Ordonho II, contra este comum inimigo. Veio logo em pessoa com grande cópia de soldados, e entre
eles dois zelosos bispos para animar os cristãos, Dulcídio, de Salamanca, e Hermógio, de Tuy. Porém, como os
sucessos da guerra são vários e dependem do Senhor dos exércitos, declarou-se a vitória por Abderramen, que,
usando de todo o gênero de hostilidade com os vencidos, voltou para Córdova rico de despojos e cativos. Um destes
foi o bispo Hermógio, que, fechado e maltratado em duríssima masmorra, ofereceu por resgate alguns mouros de
seu serviço, que escusava. Aceitou el-rei o partido, e o deu por livre, contanto que deixasse reféns para segurança da
dívida. E assim lhe deu a Paio, seu sobrinho, que era a melhor jóia que tinha, menino neste comenos de quase dez
anos. O qual se foi logo para o cárcere, não para viver como preso, mas para o santificar, como José em tempo de
Faraó, com sua angélica presença. Ali guardava pureza na alma e no corpo, grande honestidade e modéstia, vivendo
sempre mui ajustado com a Lei Divina. Fazia calar aos infiéis, se tocavam matérias de religião, e envergonhando-os e
confundindo-os com a verdade da católica doutrina. Mas estes, admirados da sua gentileza, julgaram que era alvitre
para o seu rei (escravo dos infames vícios da carne) a oferta daquele inocentezinho. Mandou logo levá-lo à sua
presença. Para este intento, o vestiram ricamente, ajudando a formosura natural com a artificial, para que deste
modo fizesse mais cobiça ao torpe Abderramen. Por estes passos chegou Paio aos da morte, que pudera acreditar
mil vidas, quando fossem mais largas e menos ilustre que a sua. Entrou o exemplar da castidade na câmara real; e
logo, pelas carícias e promessas do bárbaro, conheceu o depravado de seus intentos, e firmou seu coração com uma
determinação imortal de envidar todo o resto da sua vida, a troco de não perder a graça de Deus. Começou o rei
com razões a querer persuadir-lhe que deixasse a Lei de Cristo pela sua; mas respondeu a todas mais do que
prometia a sua idade, porque nas virtudes, que são a da alma, era já provecto. Chegou-se a ele o bárbaro, e
começou a pôr-lhe as mãos pelo rosto, e o quis abraçar e dar-lhe ósculos. Levantou o menino a mão, e deu-lhe uma
grande punhada na boca, dizendo: Aparta, perro; aparta teu rosto do meu; cuidas que sou algum dos teus
afeminados rapazes, com que te desenfadas? E logo rasgou as vestiduras preciosas, ficando mais desembaraçado
para a luta que esperava. Neste tempo estava Abderramen já tão cego e empenhado na afeição lasciva que as
afrontas e desprezos de Paio não foram bastantes para mudar de intento. Pelo que mandou a seus criados que com
afagos, branduras e promessas procurassem atraí-lo à seita de Mafoma e rendê-lo à sua vontade lasciva. Durou a
porfia muito tempo, porém não serviu senão de fortalecer o ânimo do menino, com grande indignação e pena do
rei, quando soube da sua constância. Pelo que, trocado o amor falso em ódio verdadeiro, o mandou atenazar
vivo,confiado que tão frágil corpozinho não poderia sustentar tão cruéis tormentos, e que, uma vez deixada a Lei de
Cristo, logo não faria melindre de conservar a castidade. Executou-se o ímpio mandato, com tanta crueldade que em
breve aquela cândida açucena com o nácar de seu sangue ficou encarnada rosa. E, porque o martírio não o faz a
pena senão a causa, publicou este em altas vozes: Cristão sou, e servo indigno de Jesus Cristo, cuja Lei confessarei
eternamente, sem haver coisa na vida que dela me aparte um instante. Dada conta a el-rei do que passava, mandou-
lhe cortar os membros, um por um, para que o tormento fosse mais prolongado. Os algozes arremeteram então
àquele cordeirinho como lobos famintos, fazendo nele tal carniçaria que mais pareciam feras do que homens, ou
mais demônios que feras. Levantando o menino as mãos para o céu, onde tinha o coração, para oferecer a Deus
sacrifício de si mesmo, e impetrar fortaleza para o consumar, lhas derrubaram logo a golpe de alfange. E após isto
lhe deceparam os braços e pernas, e ultimamente a cabeça, durando a batalha mais de seis horas, em que sempre
invocava a Jesus Cristo, de cujo braço omnipotente lhe veio a invencível fortaleza contra tão atrozes tormentos .
Suas preciosas relíquias, lançadas pelos tiranos nas correntes do Guadalquibir, as santificaram, até que a piedade e
industria dos fiéis as tirou do profundo, e lhes deu honroso depósito na igreja de S. Ginês; e a cabeça se colocou na
cabeça de S. Cipriano, com a solenidade possível. E foi tão célebre o triunfo deste santo menino português que logo
a fama estendeu pelo mundo as suas asas, de sorte que o celebrou no coração da Alemanha a laureada poetisa
Roswita, freira beneditina de ilustre sangue e engenho; e festejam o dia desta vitória (que foi a 26 de junho) muitas
igrejas em Espanha, especialmente as que são consagradas a seu nome em Castela, Galiza e Portugal, onde os
naturais tomam o seu nome.

http://santamariadasvitorias.org/a-historia-de-sao-paio/

O monge e o passarinho*
Diálogo entre um religioso e um secular

Secular — Já que me sucedeu caminhar em tão boa companhia, hei de aproveitar a ocasião e perguntar alguns
pontos que desejava saber.

Religioso — Folgarei eu de poder servir a Deus, e prestar ao próximo em alguma coisa.

S. — Padre: Para que Deus criou o homem?

R. — Para que o homem se salvasse, e salvando-se, lhe desse glória no Céu eternamente.

S. — E que coisa é salvar-se?

R. — É ver a Deus claramente, como ele é em si mesmo, gozar dele, amá-lo e louvÁ-lo para sempre.

S. — Pois Deus tem corpo, ou figura, ou cor alguma para o podermos ver?

R. — Deus é puro espírito: assim como os Anjos e as nossas almas também são espíritos. E por isso, nem os Anjos,
nem as nossas almas tem cor, ou figura, que se possa ver com os olhos do corpo. Porém, o vermos a Deus não é
senão com os da alma, que é outra vista muito mais clara e nobre.

S. — Para que são logo os olhos do corpo, ou em que se hão de empregar, quando estivermos no Céu?

R. — Não lhes faltará que ver. Verão a Humanidade Santíssima de Cristo, cuja formosura excede sem comparação à
de todas as coisas visíveis. Verão todos os mais Santos bem-aventurados, cada um dos quais resplandece mais que o
Sol, e todos juntos postos por sua ordem, formam um espetáculo admirável, e deleitosíssimo. Verão o formosíssimo
palácio do Céu Empíreo, com cuja grandeza comparado o Céu estrelado não vem a ser mais que um breve pontinho
que desaparece. Verão todas as mais esferas celestes, sua fábrica, ornato e grandeza. E verão também toda a
redondeza da terra com a nova formosura, que há de ter depois do dia do juízo. Ó quem nos dera já logrado este
estado.

S. — E por quanto tempo hão de ver a Deus os venturosos que se salvam?

R. — Já disse que para sempre, em quanto o mesmo Deus for Deus: Considerais bem este para sempre, para sempre,
e pasmareis da Bondade de Deus, que tal prêmio promete, e do descuido dos homens, que tal felicidade não
estimamos e procuramos.

S. — Tanto tem Deus que ver? E tanto que ser amado, e louvado que hão de estar as almas ocupadas nisto sempre,
sempre sem cansarem.

R. — Filho: os bens e gostos do mundo, uns mais, outros menos, todos finalmente enfastiam e cansam, porque em si
são limitados, e o homem não é feito para eles. Porém, a formosura de Deus é infinita: suas perfeições, excelências e
grandezas não têm limite. E assim, ainda que houvera infinitos Anjos e almas bem-aventuradas, nunca por toda a
eternidade acabariam de compreender tão grande bem, nem cansariam de o amar, e louvar, especialmente sendo
os Anjos e os homens criados para o logro deste bem. E senão, dizei-me vós: a pedra por ventura cansa de estar
quieta, e assentada sobre o seu centro? Não, por certo: porque esse é o seu lugar próprio, e aí se acha bem. Sendo,
pois, a vista de Deus o centro das nossas almas, e o seu lugar próprio, onde se acham sumamente ditosas: que muito
que não cansem de ver a Deus, e por conseguinte de o amar, e louvar eternamente? Para que esta verdade se vos
faça mais crível, vos contarei um exemplo, que trazem graves Autores.

Estando um Monge em Matinas com os outros Religiosos do seu Mosteiro, quando chegaram aquilo do Salmo, onde
se diz que mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem, que já passou, admirou-se grandemente, e começou a
imaginar como aquilo podia ser. Acabadas as matinas, ficou em Oração, como tinha de costume: e pediu
afetuosamente a Nosso Senhor se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe ali, no coro, um
passarinho, que cantando suavíssimamente, andava diante dele dando voltas de uma para a outra parte, e deste
modo o foi levando pouco a pouco até um bosque que estava junto do Mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma
árvore; e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve intervalo (conforme o Monge julgava) tomou
o vôo e desapareceu com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia mui sentido: Ó passarinho da minha alma,
para onde te fostes tão depressa? Esperou. Como viu que não tornava, recolheu-se para o Mosteiro, parecendo-lhe
que aquela mesma madrugada depois de Matinas tinha saído ele. Chegando ao Convento, achou tapada a porta, que
de antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o Porteiro quem era, e a quem
buscava. Respondeu-lhe: Eu sou o sacristão, que poucas horas há que saí de casa, e agora torno, e tudo acho
mudado. Perguntado também pelos nomes do Abade e do Prior, e Procurador, ele lhos nomeou, admirando-se
muito de que não o não deixasse entrar no Convento, e de que mostrava não se lembrar daqueles nomes. Disse-lhe
que o levasse ao Abade: e posto em sua presença, não se conheceram um ao outro; nem o Monge sabia que
dissesse, ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado de tão grande novidade. O Abade então, iluminado por
Deus, mandou vir os Anais e histórias da Ordem: onde, buscando, e achando os nomes que o Monge apontava, se
veio a averiguar com toda a clareza que eram passados mais de trezentos anos desde que o Monge saíra do
Mosteiro até que tornara para ele. Então, este contou o que lhe havia sucedido, e os Religiosos o aceitaram como o
Irmão seu do mesmo hábito. E ele, considerado na grandeza dos bens eternos, e louvando a Deus por tão grande
maravilha, pediu os Sacramentos, e brevemente passou desta vida com grande paz no Senhor.

Este é o exemplo. Vede agora, que se a música de um passarinho pôde entreter aquele Monge trezentos anos com
tanto gosto seu, que lhe pareceram poucas horas, e ainda desejasse que durasse mais: como não bastará a vista de
Deus, que é um bem onde se encerram juntos infinitos bens, para suspender a nossa alma sem fastio, nem cansaço,
por toda eternidade? Antes, com satisfação, e gozo tão cabal, como se naquele instante começasse a ver a Deus.

(trecho de O Pão Partido em Pequeninos, do Pe. Manuel Bernardes.)

[*] N. da P.: O título deste texto é de nossa autoria. (http://www.permanencia.org.br/)

http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&localdate=20130912&id=691&fd=1

Santíssimo Nome de Maria


DO MISTERIOSÍSSIMO, EFICACÍSSIMO, E DULCÍSSIMO NOME DE MARIA

Foi imposto este nome à Senhora não casualmente ou por arbítrio humano, senão (como dizem os Santos) por
disposição divina e instinto do Espírito Santo; e por ventura foi anunciado à S. Ana por algum Anjo, como foi o do
Precursor a seu pai Zacarias. Considera, pois, neste nome, as suas significações.

Quanto às significações, tocaremos só em três das mais principais. A primeira é que Maria, na língua Síria (que era a
mais usada naquele tempo em Palestina), quer dizer Senhora. O que bem quadra este nome à Virgem, pois é
Senhora absoluta, soberana e pacífica de todas as criaturas no Céu, na terra e debaixo da terra! Os mais sublimes
Serafins, aquelas essências mais puras, que servem de lugares à presença de Deus, iluminam, reconhecem, e adoram
a esta Princesa; as nações, os reinos e os impérios dependem do seu aceno e favor, tremem da sua ausência e
desvio.

Outra significação do nome MARIA na língua hebraica é Estrela do mar; e com este apelido a invoca a Igreja: Ave
Maris Stella. Também lhe vem mui próprio, por estrela, e estrela do mar. Por estrela primeiramente: porque a
estrela, sem diminuição sua, nos produz o raio luminoso e a Virgem, permanecendo Virgem, nos gerou Cristo, que é
luz do mundo. Além disso, porque as estrelas presidem às trevas da noite; e a Virgem é refúgio de pecadores, em
que ainda não reina o Sol da graça.

A terceira significação, e de todas a mais própria e digna, é, conforme diz S. Ambrósio, MARIA, isto é, Deus da minha
geração. Ó imensa glória! Ó altíssima dignidade! Ó ventura imponderável! Senhora, Deus de vossa geração! O que
tudo criou ser de ti gerado! O que gerou o Eterno Pai ab æterno, antes de todos os séculos, nos geraste por obra do
Espírito Santo, no meio dos séculos! Maravilhosa definição encerram cinco só letras do nome MARIA; idest Deus ex
genere meo.

Pe. Manuel Bernardes


Tão atrativa ficastes…
(…) Se fôsse atrevimento recorrer a vossos pés tantas vêzes, o favor que experimentei nas primeiras teria a culpas
das outras. Como é impossível não serdes tão benigna, impossível é também não serdes tão buscada. Tão atrativa
ficastes, desde que o divino Verbo atraístes do seio de seu Eterno Pai, que anjos e homens, justos e pecadores,
sábios e idiotas, grandes e pequenos, todos vos buscam, todos vos invocam, todos folgam de chegar-se à vossa
sombra, e escudos mil, isto é , inumeráveis, pendem de vós, como da misteriosa Tôrre de Davi, para nossa proteção
e amparo: e até o vosso nome, ou escrito, ou pronunciado, ou somente imaginado, mantém, alenta, restaura,
ilumina e alerta. Glorio-me que assim seja, ó santíssima, ó suavíssima, ó tôda formosa e engraçada MARIA, e deste
gloriar-me me torno a gloriar em vós, e em vosso Filho, meu Salvador, JESUS Cristo. E como não seríeis tôda
engraçada em vós, e para nós toda graciosa, se soia Mãe da Divina Graça?

Dominare nostri Tu, et Filius tuus.

Fonte: Bernardes, Padre Manuel. “Obras Completas”, Volume I, “Nova Floresta”, São Paulo, Editora das
Américas, 1959. pág. 13-14.

Pleito entre frades e formigas


Padre Manuel Bernardes

Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que
são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de
tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.
E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da
comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os
religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque,
enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu
um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu
seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem
demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por
parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o
processado e determinasse a presente causa.

Agradou a traça, e isto assim disposto, deu o procurador dos padres piedosos libelo contra as formigas; contestada
por parte delas a demanda, veio articulando que eles, autores, conformando-se com seu instituto mendicante,
viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país, e que as formigas, animal de
espírito totalmente oposto ao Evangelho, e por isso aborrecido de seu padre S. Francisco, não faziam mais que
roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam
expelir de casa, arruinando-a. E, portanto, dessem razão de si, ou, quando não, fossem todas mortas com algum ar
pestilente ou afogadas com alguma inundação ou, pelo menos, exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou, por sua parte, fielmente:

«Em primeiro lugar: que elas, uma vez recebido o benefício da vida por seu Criador, tinham direito natural a
conservá-la por aqueles meios que o mesmo Senhor lhes ensinara;

Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos de virtudes que
lhes mandara, a saber: de prudência, acautelando os futuros e guardando para o tempo da necessidade; de
diligência, ajuntando nesta vida merecimentos para a vida eterna; de caridade ajudando umas às outras, quando a
carga é maior que as forças; e também de religião e piedade, dando sepultura aos mortos da sua espécie...;

Item: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o deles, autores, em
ajuntar as esmolas, porque a carga muitas vezes era maior que o corpo, e o ânimo que as forças;

Item: que, suposto que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas
formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava e batia com haverem ofendido ao Criador, não
observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza, pelo que se faziam indignos de que criatura
alguma os servisse e acomodasse, pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de Deus por tantas vias, do
que nelas furtarem sua farinha;

Item: que elas estavam de posse daquele sítio antes deles, autores, fundarem, e, portanto, não deviam ser dele
esbulhadas, e da força que se lhes fizesse apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos
como os grandes e a cada espécie deputou seu anjo conservador. E, ultimamente, concluíram que defendessem eles
a sua casa e farinha, pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam, porém que elas, sem
embargo, haviam de continuar as suas diligências, pois do Senhor, e não deles, era a terra e quanto ela cria (Domini
est terra et plenitudo eius).»

Sobre esta contrariedade houve réplicas e contra-réplicas, de sorte que o procurador dos autores se viu apertado,
porque, uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas, e abstraindo razões contemplativas com espírito
de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito, pelo que o juiz, vistos os autos, e pondo-se com
ânimo sincero na equidade que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os frades fossem obrigados a sinalar
dentro da sua cerca sítio competente para vivenda das formigas, e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem
logo habitação, visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo, maiormente porque eles,
religiosos, tinham vindo ali, por obediência, a semear o grão evangélico e era digno o operário do seu sustento, e o
das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo, em voz
sensível, nas bocas dos formigueiros.

Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor de quem está escrito
que brinca com as suas criaturas (Ludens in orbe terrarum!). Imediatamente saíram, a toda a pressa, milhares de
milhares daqueles animalejos, que, formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo,
deixando as antigas moradas, e livres de sua molestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus
as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

— Fim —

O Padre Manuel Bernardes (1644-1710) professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri.
Escreveu diversos tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais (1686), Luz e Calor
(1696) e Pão Partido em Pequeninos (1696); dois volumes de Sermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de
Vários Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728. Esta última obra é uma colecção de «ditos bons
e sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O
autor não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça», pois falecera entretanto.

Fonte: Projecto Vercial

http://ecandido.webs.com/mestr107.htm

Citação
"Nem o irar-se nestes termos é contra a mansidão, porque esta virtude compreende dois atos: um é reprimir a ira,
quando é desordenada; outro, excitá-la, quando convém. A ira se compara ao cão, que ao ladrão ladra, ao senhor
festeja, ao hóspede nem festeja nem ladra, e sempre faz o seu ofício. E assim, quem se agasta nas ocasiões e
contra as pessoas que convém agastar-se, bem pode com tudo isso ser verdadeiramente manso". (Padre Manuel
Bernardes, Luz e calor, parte I, n. XVIII)

Festa da apresentação de Nossa Senhora no Templo


(21 de novembro)

Tal festa, conhecida como a de Nossa Senhora da Apresentação, já se celebrava no Oriente, no século VI. O Papa
Gregório XI introduziu-a na diocese de Avinhão (França), em 1562. Sixto V tornou-a obrigatória para a Igreja
universal, em 1850.

No Brasil, a primeira paróquia dedicada a essa invocação foi a da cidade de Natal, de cuja arquidiocese é a Padroeira.
A cidade de Porto Calvo, em Alagoas, também se colocou sob o patrocínio da Mãe de Deus, com essa invocação.
* * *

O Padre Manuel Bernardes, um dos clássicos da literatura portuguesa do século XVIII, em sua famosa obra Nova
Floresta, assim descreve esse episódio da vida de Nossa Senhora:

Maria foi transplantada da casa de seus venturosos pais Joaquim e Ana, em Nazaré, ao Templo da Cidade Santa de
Jerusalém, para que ali, como em lugar mais próprio, se dedicasse toda ao culto de Deus e ministérios do seu serviço.

Havia no Templo um quarto ou apartamento sinalado para colégio de Virgens, que ali se recolhiam e criavam em
costumes virtuosos, e serviam em alguns competentes ministérios do mesmo Templo até que tomavam estado de
matrimônio.

Da mão de Santa Ana foi recebida a Sagrada Menina por um sacerdote, que alguns dizem foi o Santo Zacarias (pai de
São João Batista), um dos convidados a esta função como parente; ou o Santo Simeão, que depois de breves anos viu
em seus braços o bendito fruto desta mesma menina. A qual, posta no último degrau, depois de haver tomado a
bênção e beijado a mão a seus pais, subiu logo todos por si mesma sem embaraço, sem pesar e sem tristeza ou
mostras de sentimento por deixar tão amável companhia.

Fez a Virgem Santíssima voto de pobreza e de virgindade, se assim fosse aceito e agradável a Deus.

Por isso, a Igreja a intitula e invoca Virgem das virgens, porque foi a primeira a quem depois seguiram numerosos
esquadrões delas. Adducentur Regi Virgines post eam (As Virgens sejam conduzidas ao Rei após Ela).

Tudo o que pôde, deu aos pobres. Absteve-se de colóquios humanos, porque a sua conversação era no Céu, seu
vestido era chão e muito ordinário, seu comer tênue e parcíssimo, e os Anjos lho ministraram muitas vezes; que não
era menos digna disso do que Elias no deserto e outros Santos, que lograram este favor, e o favor era aqui dos Anjos
em serem admitidos a este ministério.

“Nova Floresta”, 5° tomo, Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa, Lisboa,
1737, Iª ed.; excertos das pp. 74, 77, 83, edição de Lello & Irmão, Editores, Porto, 1974.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/E5514AA9-3048-313C-
2E1FC853F2B649BE/mes/Novembro1992

ALGUNS SINAIS MAIS RAROS E CERTOS DE GRANDE APROVEITAMENTO NAS


VIRTUDES
Padre Manuel Bernardes

1. Cair muito raramente em pecados veniais.

2. Grande horror ao pecado e grande esforço e diligência em evitar até as mínimas imperfeições.

3. Contínuo ou quase contínuo fervor em fazer com perfeição os exercícios e obras quotidianas.

4. Exata paciência nas adversidades sem movimentos (ainda primeiros) de ira, indignação, ou aversão às
pessoas que as causaram.

5. Amar a Cruz e qualquer humiliação, abatimento, ou injúria pessoal em tal grau, que quando sucedem de
presente, ou quando se representam à memória as passadas, ou futuras, logo sem repugnância (por
benefício de Deus) se levante um ardente desejo e gosto delas: do modo que nos imperfeitos se levantam
movimentos maus, quando se oferece algum olgum objeto pecaminoso.

6. Contínuo ou quase contínuo desvelo de aproveitar nas virtudes, e fome insaciável de justiça.

7. Crescer a esperança com repentino e notável esforço, quando se oferecem trabalhos ou dificuldades
grandes.

8. Oração limpa de distrações; e então mais fervorosa, quando é tempo de alguma perseguição pessoal; e
desejo insaciável de orar.
9. Gozo nas humilhações e desprezos, junto com perseverança e alacridade nos exercícios começados.

10. Tristeza sensível, ainda na parte inferior da alma, quando se vêem ou ouvem graves ofensas de Deus.

11. Maior paz e tranquilidade nas tribulações que nas consolações.

12. Aversão a deleitos dos sentidos ainda lícidos, nascida de ódio santo de si próprio, e desprezo das coisas
mundanas.

13. Maior inclinação a tratar com os varões mais perfeitos do que com os menos; e à conversação em matérias
espirituais, do que à de coisas profanas, ainda que lícitas; e aos livros santos, do que aos de história, ainda
que não torpe.

14. Achar-se prontíssimo para fazer, ou deixar de fazer, qualquer coisa que insinuar o arbítrio do Superior, sem
exceção mínima.

15. Desejo ardente de padecer calúnias e opóbrios e trabalhos; e amor sincero àqueles por cuja mão lhe vierem.

16. Fugir das comodidades e alívios do corpo e buscar as incomodidades.

17. Extinção das tentações da carne, ou, ao menos, a notável diminuição em idade florida; e isto ainda em
ocasiões que se não procuram.

18. Nos casos adversos repentinos conservar o interior sem pertubação, ainda involuntária.

19. Extinção total da tibieza e negligências nas obras do serviço de Deus.

20. Não dar por respeitos humanos, junto com liberdade de espírito, asim para fazer o que descontenta aos
imperfeitos e agrada a Deus; como para deixar de fazer o que estes queriam se fizesse.

21. Domínio sobre as paixões, especialmente da ira, temor e amor.

22. Nas humilhações públicas, ou nenhum ou notavelmente diminuido o sentir vergonha e confusão.

23. Afetuosa união com Deus, tornada a levantar depois de qualquer ação de seu gênero distrativa, como
quando acordamos de noite várias vezes.

24. Acompanhar o trabalho de mãos, com atual devoção, e exercício de atos pios em grau intenso.

Estes sinais não só justos, mas ainda separados, indicam grande aproveitamento nas virtudes sólidas e verdadeiras,
porque andam encadeadas.

Não vem incoerente ao mesmo intento a seguinte descrição do varão espiritual, que traz o P. Cornélio à Lápide, e
damos sem a traduzir por lhe não quebrar a energia.

Accipe descriptionem, et hypotiposin viri sancti.

Vir Sanctus hominem interius ordinat, exterius ornat: à rebus turpibus cohibet: sermones rectos, et utiles amat.

In risum non effunditur: non clamat, nec vocem attollit: modeste incedit.

Aliorum facta curiose non inquirit.

Admonitiones hilari vultu recipit: errori aliarum facile condonat.

Humilis est, mitis, et benignus: miseris quibuslibet ex visceribus miserando compatitur.

Laudibus non extollitur: detractione non dejicitur.

Interroganti facile leniterque respondet: contendenti facile cedit: patienter alios audit.

In omnibus alios aedificare, et perficere studet.

Rari est, et gravis sermonis.


In cibo parcus, in potu sobrius, compositus in vultu et verbis.

Odit mendacium, fabulas et nugas: filius est veritatis: oculos habet demissos, et simplices.

Puritate candidus, obedientia promptus, patientia perfectus.

In oratione assiduus, in fide stabilis, in opere diligens.

In abstinentia rigidus, in moribus exemplaris, in conversatione gratus.

In verbis affabilis, in dando liberalis, amicis fidus, inimicis benignus.

Deo resignatus, sibi mortuus, mundo crucifixus: omnibus omnia, et omnes lucrifaciat.

Zelotes pro honore Dei, et salute animarum.

(Excerto de Luz e Calor – Doutrina IV)

Fonte: www.capela.org.br

Heresias
VI

Do mesmo Tomás Moro

Censurando o mesmo Tomás Moro as diversas e encontradas seitas e doutrinas dos hereges, dizia: Hoje quero saber
dêstes homens a verdade: é o mesmo que se algum caminhante perguntasse pela estrada que deve tomar a uns
ociosos pícaros, que estão em roda conversando, e cada um dêles, voltando as constas para dentro, apontasse com o
dedo para fora, dizendo: Vá Vossa Mercê por aqui, que vai direito.

ANOTAÇÃO

Santo Agostinho diz que desde os apóstolos até o seu tempo se contavam já noventa seitas heréticas (1). Desde
então até a prevaricação de Lutero e Calvino, romperam outras noventa. Nicolau Sandero conta até o ano de 1500
cento e oitenta e uma heresias. Hossio, Lindono e Pratéolo já até o ano de 1616 contam duzentas e setenta seitas
diversas, que procederam de Lutero e Calvino, com que podemos dizer aquilo de Santo Hilário: Tot existere fides
quot voluntates: Que há entre os homens tantas fés quanto quereres - e aplicar também aquêle verso do Salmo
106: Effusa est contentio supor principes, et errare fecit eos in invios, et non in via (2). - Isto é: Multiplicou-se a
oposição e diferença entre os seus príncipes, mestres ou cabeças, e enganaram o povo com os seus descaminhos -
apartando-o do caminho, que é Cristo. - Profecto - expõe São Gregório - plebes subditas non in eam viam, quae
Christus est, sed in invium trahunt: super quos recte effusa contentio dicitur, quia suis sibi vicissim allegationibus
contradicunt (3). - Rabi Salomão, hebreu, disse que o gigante Golias fôra filho de cem homens e um cão. É delírio
semelhante às outras fábulas dos rabinos, para significar o vasto da sua corpulência e o intrépido da sua ousadia;
mas o que se pode dizer com verdade é que a heresia dos nossos tempos é filha de mais de cem heresiarcas e do
diabo, porque de todos participa alguma coisa; porém, sai a pedra da funda de Davi, isto é, Pedro constituído pela
mão de Cristo, pedra primária do edifício místico da Igreja, a qual vence e prostra êste soberbíssimo monstro de
monstros, e nesta pedra se funda a verdadeira Igreja, que é uma só, e tem uma só fé, que tiveram os apóstolos, e
um só mestre, que é o Espírito Santo. Elegante ritmo de sete anagramas a êste intento traz Oven; note-se a
circunstância de que, sendo êle herege, ficava fora da união, que aqui louva, pegado ao barro, que aqui vitupera.

CERTA fides nos unico

ARCTE conectit vinculo:

CRETA non est, quae fictilis

CARET firma compagine,

CREAT qui vires spiritus

RECTA sugillans dogmate


ARCET a membris schismata (4).

Notas:

(1) Floresceu êste santo doutor no IV século.

(2) Assim lêem êste verso Arnóbio, Cassiodoro, Haymon, Hugo Lombardo, Richélio, Ludolfo e São Gregório.

(3) Na verdade, conduzem os povos que lhes são submissos, não aos caminhos de Cristo, mas aos descaminhos, e
por isso se diz com muita propriedade que sôbre êles caiu o desprêzo, porque com seus pareceres contradizem-se
mùtuamente (Lib. 19 in Job, c. 11, vel 14).

(4) A verdadeira fé nos une por laço estreito. Não é argila maleável, que carece de unidade sólida. A fé dá origem às
fôrças do espírito, inspira os dogmas sagrados, e mantém seus adeptos afastados do cisma.

***

Fonte:

NOVA FLORESTA -Continuação do Tomo V (Padre Manuel Bernardes); H - Título I - Heresias, Hereges, Apóstatas -
Capítulo VI - Do mesmo Tomás Moro, páginas: 61 - 63.

Confiança em Deus
De São Policarpo, bispo e mártir

Caminhando êste santíssimo prelado com um seu diácono, por nome Camério, agasalhou-se em certa estalagem; e
já alta noite o seu anjo o acordou, avisando-o que se saísse logo, porque a casa havia de cair. Acordou êle também
ao companheiro; porém êste, como estava cansado do trabalho da jornada, recusava deixar o sono, e lhe disse:
Padre, creio em Deus que, enquanto vós aqui estais, não há de cair a casa; deixemo-nos estar. Respondeu o
santo: Também eu creio em Deus; mas não creio nestas paredes: saiamo-nos depressa. - Apenas tinham pôsto o pé
fora, quando o edifício se veio abaixo.

REFLEXÃO E DOUTRINA

Camério queria cama, e dormir mais um pouco sôbre os merecimentos do companheiro, e que o aviso do céu não
fôsse tão madrugador. Era o mesmo que dizer: A minha preguiça pega de mim, e eu de vós: Vós santo, tendo mão
em Deus, e Deus tenha mão na casa; tempo tem esta de cair, depois que caírem as estrêlas, e se levantar o sol;
tempo tem de cair, depois que eu arrecadar o de dormir. Bem sei que o sono é imagem da morte, mas eu tomara
escapar do original, sem me desabraçar da imagem; pela manhã terei os olhos mais despegados para ver a
maravilha. Grande é o benefício de não caírem os telhados sôbre mim; porém não é pequena a pensão de me
levantar eu dos colchões. Ora, padre, creio em Deus, que, enquanto vós aqui estais, não há de cair a casa. - Dêste
modo lhe subministra confiança falsa a sua preguiça verdadeira. Bem disse Valério Máximo que o espírito humano,
impelido da temeridade, não sabia avaliar nem os perigos próprios nem as ações alheias: Temeritatis impulsu
hominum mentes concussae, nec sua pericula respicere, nec aliena facta justa aestimatione prosequi valent (1).

Disse o santo: Também eu creio em Deus; porém não creio nessas paredes. - Não pareça ao leitor que falta no mundo
gente que crê ou creu em paredes. No sentir do Apóstolo, e de São Gregório Magno, os hipócritas são paredes; e,
ainda mal, que tantos crêem nos hipócritas (2). Os judeus cercados por Tito em Jerusalém, por muito que êste os
rogou se entregassem a partido, porque de outro modo todos haviam de parecer, ou dentro, à espada da fome
cruel, ou fora, à fome da espada vingativa, nunca se quiseram render, e a causa desta pertinácia foi o muito que
criaram nas paredes do seu Templo, persuadidos a que não havia de permitir Deus que padecessem ruína ou
incêndio. Os setenta idólatras que Deus mostrou ao profeta Ezequiel, estavam todos diante de uma parede pintada
com as formas de vários animais e sevandijas; e tinham nas mãos turíbulos com que incensavam esta parede, na
qual criam (3). A letra do Testamento Velho não foi outra coisa que uma parede, detrás da qual estava como
escondido o Messias, dando-se a conhecer sòmente aos profetas e sábios por alguns resquícios de revelação de seus
ministérios, ou da interpretação das Escrituras (4). E só nesta parede crêem e ainda esperam os israelitas; esta -
como diz o profeta Isaías (5), e expõe entendendo o seu sentido. Nesta - como diz o profeta Amós (6) - se encostam
totalmente, e dela sai a cobra da infidelidade que os morde. Finalmente, as igrejas dos hereges, onde não há ver
cruz, nem imagens sagradas, nem altares, nem missas, nem outros divinos ofícios, que são senão sòmente paredes?
E nestas paredes crêem êles, nestas confiam que vão a salvamento. E nenhuma destas paredes creiamos, porque
tôdas ou já caíram ou hão de cair.

Note - se quanto valeu a Camério a companhia de São Policarpo. É Deus tão pio e amigo de não puxar pela espada
da sua ira que, por amor de algum servo seu, costuma perdoar não só a outros menos justos, senão ainda a muitos
pecadores. A companhia de São Paulo valeu a vida duzentos e setenta e seis pessoas, que com êle navegaram, e sem
êle certamente pereceriam: Donavit tibi Deus omnes qui navigant tecum (7). - A companhia de Josafá, rei de Judá,
valeu a outros dois reis, que estavam com êle em campanha, para não morrerem à sêde, êles, e todos seus
exércitos: Si non vultum Josaphat erubescerem, non attendissem quidem (8). - Por dez justos que houve na
Pentápole vinha Deus em perdoar-lhe: Non delebo propter decem (9). - São os santos na Igreja Católica trigo bom no
campo de Cristo: o misturar-se com êle a cizânia lhe aproveita para não ser logo arrancada: Sinite utraque crescere
usque ad messem (10). - Do louro dizem que vale contra os raios; por isso o imperador Tibério nunca deixava de
andar coroado dêle (11); muito mais valerão contra a ira do Onipotente os laureados pela vitória de si mesmos.
Quando alguém se salvava de algum perigo evidente, lhe diziam por adágio: Trazeis bordão de louro. - Quem
acompanha com o varão amigo de Deus, leva bordão de louro, que o livra de muitos casos infelizes. Chagar-se aos
bons é ditame prudentíssimo: só êles sabem manter as leis da boa amizade: E a boa amizade - como gravemente
disse Cassiodoro (12) - para os ricos serve de glória, para os pobres de renda, para os desterrados de pátria, para os
fracos de esfôrço, para os enfermos de medicina, e até para os mortos de vida. - Não parece que pode haver melhor
símil para intimar o quanto pode uma boa companhia que o da água misturada com vinho no cálice que se consagra.
Porque desta mistura lhe vem a nobreza, e - para o dizermos assim - a ventura de se converter em sangue
verdadeiro de Cristo, o que é verdade ainda quando a água se não tinha convertido já em vinho ao tempo da
consagração, se seguirmos a sentença dos cardeais Alano, Barônio, Lugo e Toledo, que parece ser de muitos santos
padres antigos, e é de graves teólogos modernos (13). E eis aqui a altura a que subiu a criatura da água, só porque
acompanhou com a do vinho, matéria dêste cálice do Novo e Eterno Testamento. Por isso os companheiros dos
santos patriarcas das sagradas religiões ordinàriamente também foram santos: como se vê em Paulo, o simples,
companheiro de Santo Antão Abade; Geraldo, companheiro de São Bernardo; Mauro, companheiro de São Bento;
frei Leão e frei Egídio, companheiros de São Francisco; Antão Martins, companheiro de São João de Deus; Ana de São
Bartolomeu, companheira de Santa Teresa; e outros muitos exemplos. Oh! Quantos espíritos, frouxos e frios como
água, se tornariam fortes e generosos como vinho, se acompanhassem com outros, que o são, no fervor e alegria
com que servem a Deus!

***

Notas:

1. Dictorum Memorabilium, lib. 9, cap. 8.

2. Percutiet te Deus, paries dealbate: Deus te ferirá a ti, parede branqueada (At 23,3).

- Greg., relatus in c. Nisi bella, 23, q. I.

3. Éz 8, 10s.

4. En ipse stat post parietem nostrum, respiciens per fenestras: Ei-lo aí está pôsto por detrás da nossa parede,
olhando pelas janelas (Cânt 2,9).

5. Palpavimus sicut caeci parietem, et quasi absque oculos attrectavimus: Andamos como cegos apalpando as
paredes, e, como senão tivéssemos olhos, fomos pelo tacto (Is 59,10).

6. Quomodo si... innitatur manu sua super parietem, et mordeat eum coluber: Como se um homem... segurando-se
com a sua mão à parede, o mordesse então uma cobra (Am 5,19).

7. Deus te há dado todos os que navegam contigo (At 27,24).

8. Se não fôsse por respeitar a pessoa de Josafá, eu sem dúvida não atenderia ( 4 Rs 3, 14)

9. Eu a não destruirei por amor dos dez (Gên 18,32).


10. Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa (Mt 13, 30).

11. Sueton. In ejus vita.

12. In proemio lib. De Amicitia: Amicitia est divitibus pro gloria, pauperibus pro censu, exuribus pro patria,
imbecillibus pro virtude, pro medicina aegrotis, mortuis pro vita.

13. Cyprian., Hieron., Ambros., Pascas., Justin., M. Iraenaeus, quos citat et sequitur Rhoad., disp. I de Euchar., q. 2,
§ 3, Conink., Pasqualig., Salmer., et alii.

***

- Dados da Obra -

Obras Completas - Padre Manuel Bernardes.

Editora das Américas.

Volume IV

Matéria contida neste volume:

NOVA FLORESTA

Nova Floresta - Tomo IV

Nihil Obstat - Padre Antônio Charbel. S.D.B

Imprimatur - São Paulo, 10 de Julho de 1959

† Paulo Rolim Loureiro - Bispo Auxiliar e Vigário Geral

Páginas: 301 a 305

Título V - Confiança em Deus

A INEXCEDÍVEL FORMOSURA DE MARIA, SENHORA NOSSA


Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo,
devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede
incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos de
a ver. E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e
continuada petição à mesma Senhora que o deixasse ver sua formosura, para mais a venerar e estimar. Foi-lhe
revelado por um anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era
decente que olhos que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra. O clérigo respondeu, como
animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal excessiva dita. Mas, advertindo
depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para sustento da vida, lhe pareceu
que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para a sua necessidade. Assim se
fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão aprazível
beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-la. E já no mesmo instante, tinha a Virgem
desaparecido. E o seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e sentimento: Que
teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor! Assim vos ausentastes, ó
Mãe amabilíssima; vi-vos, e não vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho me acendestes mais a sede.
Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas vós, ó Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois
do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó formosíssima: eu de boa vontade quero
cegar de todo; antes o terei por grande interesse. Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e
é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz
excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou, e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista
restituída e clara.

Pe. Manuel Bernardes


(De "Tratados Diversos", pág. 397-398)

Fonte: www.permanencia.org.br

Padre Manoel Bernardes - Ódio a Heresia


“(...) Daqui veremos a cautela, estranheza e ainda desprezo com que nos devemos portar com os hereges. É dogma
de São Paulo em vários textos (Tito 3, 10; 2 Tim 3,1s; Rom 16,7); e São João (2 Jo 5, 10) proíbe até saudá-los: ‘Nec
ave ei dixeritis’; onde se note que ‘ave’, ou ‘salve’, por estilo dos romanos, se dizia na entrada, como o ‘vale’ à
despedida; e, porquanto, com semelhante gente, mais segura é a despedida do que a entrada, e quem evitar esta
evitada tem aquela, por isso diz São João que nem a saudação ‘ave’ lhe digamos.

Como têm as entranhas da intenção corruptas, é força que o bafo das palavras seja pestilento; e, se nos desviamos
do que respira um apestado ou tísico por ressalvar a nossa saúde corporal, quanto mais depressa devemos evitar o
de um herege por acautelar a alma?

O mesmo São João confirmou com o exemplo o que ensinara com a palavra, pois não quis entrar no banho onde
Cerinto, herege, se lavara. Notável é o caso que sucedeu a São Martinho, bispo: por uma leve e quase inevitável
comunicação que teve com Itácio, herege, levou uma repreensão do seu Anjo, e dali por diante experimentou
mais dificuldade e trabalho em curar os possessos, e por dezesseis anos que lhe restaram de vida se absteve de
entrar em sínodo” (Padre Manoel Bernardes. Nova Floresta. Livraria Chardron, Porto: 1911, 5º tomo, p. 174-5).

Padre Manoel Bernardes - Ódio a Heresia

“Nem se engane alguém com as especiosas aparências destes homens [os hereges], quando mostram nas igrejas
maior modéstia que muitos católicos, ou se portam liberais e afáveis, ou afetam erudição e letras. Porque destas
primeiramente têm, quando muito, só as naturais juntas com tal arrogância e fasto, que com dois dedos de
eloqüência latina ou grega, presumem dominar a Sagrada Teologia e interpretar as Divinas Escrituras. Mas, se
alguém os provoca a desafio, ou lançam tudo a gritaria e descompostura, ou não aceitam, como desavergonhados,
sobre covardes e ignorantes.

Isto experimentou várias vezes o nosso São Francisco de Sales nos países dos Chablaix. E de virtudes, impossível é
terem as verdadeiras e sólidas, faltando-lhes a fé, fundamento de todas e princípio de agradar a Deus, Autor
delas. Só lhes ficaram algumas cascas, que lês guardam com suma hipocrisia, e que os demônios, que são os seus
padrinhos, ou familiares e assessores (como sentem os Santos Padres), lhes não impugnam, ou por não espantar a
caça, que está segura no laço da condenação, ou porque serve também ao seu intento de pegar o contágio aos bons,
que pensam que também eles o sejam.

Porque, como disse São Bernardo, todo herege é ovelha na lã, raposa nas entranhas, lobo nas obras: ‘Haeretici
oves sunt habitu, astu vulpes, actu et crudelitate lupi’. Querem parecer, mas não ser bons; e querem ser, mas não
parecer maus, porque o parecer bons lhes serve de que os não tenhamos a eles por maus, e de que sejam piores,
sendo maus não só para si, senão para quem se lhes chega, tendo-os por bons” (Padre Manoel Bernardes. Nova
Floresta. Livraria Chardron, Porto: 1911, 5º tomo, p. 175-6).

Oh! Virgem piedosíssima, amorosíssima e desconsoladíssima!


Padre Manuel Bernardes

Com que inteira vontade e com que fiel rendimento oferecestes ao Altíssimo esse precioso holocausto! Como se
ajuntaram perfeitamente as duas metades desse místico pomo, com que foi reparado, cravando-se a vossa metade
nas mesmas pontas das setas com que a de Jesus estava traspassada! E em quanta obrigação vos está o mundo, por
haverdes sido a tanto custo correndentora sua! Bendito seja Deus, que tanto vos comunicou de sua imensa caridade.
Oh! seja eu, por intercessão vossa e dignação sua, admitido à participação dessas penas suas e vossas – que só por
serem vossas e suas, só por serem penas de Jesus e de Maria, penas do Filho de Deus e da Mãe de Deus, merecem
todo o meu desejo e suspiro, e em si têm o prêmio de si mesmas. Ditoso de mim, se quando Jesus é afrontado e
perseguido, eu também fora digno de padecer por Jesus perseguições e afrontas! Ditoso de mim, se quando a
inocente pomba Maria é sacrificada e no candor de suas penas se vêem as salpicas do sangue de suas lágrimas, eu
também pudesse juntar alguma coisa a esse sacrifício e acompanhar essas lágrimas. Essa fora, sem mais outra glória,
a glória de minha alma: padecer sentir e arder meu pobre coração na doce companhia desses dois corações de Jesus
e de Maria.

Ó Senhora,

que unicamente sois Senhora de todas as criaturas, pois sois verdadeira e admirável Mãe do que é verdadeiro Deus e
criador vosso, pela imensa graça que tendes nos seus olhos e pela inefável alegria que hoje recebestes logrando sua
visita nos nossos, alcançai-me que de tal modo viva eu alegre, unido e conforme a sua santíssima vontade, que,
merecendo os frutos de sua Paixão Sagrada, logre o consórcio de sua Ressurreição Gloriosa.

Padre Manuel Bernardes

FORMOSURA
PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

OBRAS COMPLETAS

NOVA FLORESTA

VOLUME VII

Editora das Américas – 1959

TÍTULO II

FORMOSURA

XVI

De Diógenes, filósofo

Vendo um moço galhardo, mas de ruins costumes, disse: ‘As casas são formosas, mas o morador infame.’

REFLEXÃO

Arriscado é a este mal aquele bem: ‘Lis est cum forma magna pudicitia’ (Há grande luta entre a virtude e a
beleza. Ovídio) – porque está mui perto de ser vistoso o ser visto, e do ser visto o ser cobiçado; com que sucede
aos filhos de Eva entre si o que a ela sucedeu com a maçã: ‘Vidit mulier quod bonum esset lignum ad vescendum,
et pulchrum oculis, aspectuque delectabile, et tulit de fructu illius, et comedit’ (Viu a mulher que a árvore era boa
para comer, e formosa aos olhos, e deleitável à vista: e tirou do fruto dela, e comeu. – Gên. 3, 6). – Por isso disse
Tertuliano, que a formosura não a devemos acusar, porém devemo-la temer; acusar não, porque é favor da mão
divina; temer sim, porque é provocativo dos olhos humanos: ‘Et si accusandus decor non est, ut felicitas corporis,
ut divinae plastice accessio, ut animae aliqua vestis urbana: timendum tamen est, vel propter injuriam, et
violentiam spectatorum’ (Lib de Cultu Feminae).

XVII

De Apeles, célebre pintor

Vendo este que um de seus discípulos havia pintado a celebrada Helena com pouco primor quanto à formosura, e
com muito ornato quanto à riqueza, disse-lhe: ‘Mancebo, sabeis vós por que a pintastes tão rica? Porque a não
soubestes pintar formosa.’

ANALOGIA E INVECTIVA

O que este aprendiz fez neste quadro, para cobrir a falta de arte, fazem muitas com sua pessoa, para cobrir as
faltas da natureza; querem remir a sua fealdade à custa do alinho curioso e do precioso ornato; ‘Quibus de proprio
non inest decor – disse São Bernardo – aliunde necesse est ut mendicent, unde se speciosas mentiantur’ (Serm. 41
in Cant). – Porque a Esposa de Salomão não era assim, disse este dela, que ‘collum tuum sicut monilia’ (Cânt 1,9):
A vossa garganta é como as gargantilhas. – Isto é: muito bem pode escusar o adorno delas, pois, o favor da
natureza antecipou a necessidade de formosura emprestada.
Também se pode aplicar esta sentença de Apeles – sublimando mais o sentido dela – aos pregadores amigos de
adornar os seus sermões com descrições poéticas, palavras cultas e seletas, conceitos de filigrana, delicados e
reluzentes, questões escolásticas e outros enfeites semelhantes. Sabe, padre, por que se vale destas coisas para
compor um sermão? Porque lhe falta cabedal e juízo para o compor de Escrituras Divinas bem aplicadas,
sentenças dos santos padres, exortações nervosas, colóquios cheios de fervor espiritual, e casos de doutrina
exemplar. Pinta a Helena rica, porque a não sabe pintar formosa, ou, para dizermos o certo, nem formosa nem
rica a pinta, porque todo esse ornato falso é missanga, que agrada a pretinhos, e não pedraria fina, cujo valor
estima quem lhe conhece os fundos. Helena finge que nasceu de um ovo descido do céu; estoutras, que os
pregadores da moda pintam, sem ficção podemos presumir que nascem de ovos subidos do inferno, porque estes
pregadores, com a laboriosa incubação de seus estudos, o que chocam não é mais que apetite de glória própria,
ou interesse temporal, que são os ovos que os demônios – inimigos do fruto da palavra de Deus – tinham posto e
aninhado nos seus corações; e neste aplicar-se com fadiga para sair com coisa de que Deus se ofende, se verifica o
que disse Isaías: ‘Loquuntur vanitates, conceperunt laborem, et pepererunt iniquitatem: ova aspidum ruperunt’
(Falam vaidades, conceberam o trabalho, e pariram a iniquidade; eles romperam ovos de áspides – Is 59, 4s).

XVIII

De Aristóteles

Perguntou um a este filósofo por que razão as coisas formosas se amavam? Respondeu: Essa pergunta é de cego.

RACIOCÍNIO

Claro está que o objeto do amor é a bondade; e a formosura não é outra coisa que a flor da bondade, como lhe
chamou Marsílio Ficino: ‘Florem bonitatis’ (In Plutonis Syxposium); e outros lhe chamam ‘Escam boni’: a isca do
bem. Nesta isca, pois, prendem as cintilas do afeto, que estão saltando do coração humano; e, assim, dizer o
filósofo essa pergunta é de cego era o mesmo que dizer-lhe: Ou tu careces da vista corporal, ou da do
entendimento, porque ou não ves que a formosura é boa, ou não alcanças que a bondade tem consenso com a
nossa vontade, assim como a verdade o tem com o nosso entendimento. Mas, se alguém pergunta em que
consiste este consenso, parece que satisfaz o padre Eusébio, dizendo: ‘Sunt in pulchris, et musicis lineamenta
rationis, cujus dos, et gloria est ordinare omnia: Constant illa ordine, et proportione ob istam mentis umbram plus
delectant, gratis diu sapiunt originem suam... Igitur rationis beneficium est quidquid deletat' (Euse. Nieremberg.,
lib. 5 de Are volunt., c. 16): Há na formosura e na música certos lineamentos ou debuxo da razão cujo ofício e
louvor é pôr em sua conta todas as coisas; e, como a formosura e a música constam de ordem e proporção, por
esta sombra do racional deleitam mais ao homem, pois neles sente oculto parentesco, e lhe sabem à sua origem;
assim que tudo o que deleita é por benefício da razão.

O Mundo passa
Original.

“Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós com ela!

Dos sábios e justos diz Isaías que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da
contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está
passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando.

Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora
secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já
foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens:

Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos
ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está
enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui
conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e
sangrando-se do que comeram ...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-
multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou
a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá ...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe
coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é:
espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O
rico já é pobre, o mecânico já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras
cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajos, outras leis, outros homens.

... Tudo passa!”

Pde. Manuel Bernardes (Sermões, I, 202)

(RCS)

PLEITO ENTRE FRADES E FORMIGAS


Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que
são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de
tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.
E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da
comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os
religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque,
enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu
um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu
seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem
demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por
parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o
processado e determinasse a presente causa.

Agradou a traça, e isto assim disposto, deu o procurador dos padres piedosos libelo contra as formigas; contestada
por parte delas a demanda, veio articulando que eles, autores, conformando-se com seu instituto mendicante,
viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país, e que as formigas, animal de
espírito totalmente oposto ao Evangelho, e por isso aborrecido de seu padre S. Francisco, não faziam mais que
roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam
expelir de casa, arruinando-a. E, portanto, dessem razão de si, ou, quando não, fossem todas mortas com algum ar
pestilente ou afogadas com alguma inundação ou, pelo menos, exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou, por sua parte, fielmente:

«Em primeiro lugar: que elas, uma vez recebido o benefício da vida por seu Criador, tinham direito natural a
conservá-la por aqueles meios que o mesmo Senhor lhes ensinara;

Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos de virtudes que
lhes mandara, a saber: de prudência, acautelando os futuros e guardando para o tempo da necessidade; de
diligência, ajuntando nesta vida merecimentos para a vida eterna; de caridade ajudando umas às outras, quando a
carga é maior que as forças; e também de religião e piedade, dando sepultura aos mortos da sua espécie...;

Item: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o deles, autores, em
ajuntar as esmolas, porque a carga muitas vezes era maior que o corpo, e o ânimo que as forças;

Item: que, suposto que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas
formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava e batia com haverem ofendido ao Criador, não
observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza, pelo que se faziam indignos de que criatura
alguma os servisse e acomodasse, pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de Deus por tantas vias, do
que nelas furtarem sua farinha;

Item: que elas estavam de posse daquele sítio antes deles, autores, fundarem, e, portanto, não deviam ser dele
esbulhadas, e da força que se lhes fizesse apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos
como os grandes e a cada espécie deputou seu anjo conservador. E, ultimamente, concluíram que defendessem eles
a sua casa e farinha, pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam, porém que elas, sem
embargo, haviam de continuar as suas diligências, pois do Senhor, e não deles, era a terra e quanto ela cria (Domini
est terra et plenitudo eius).»

Sobre esta contrariedade houve réplicas e contra-réplicas, de sorte que o procurador dos autores se viu apertado,
porque, uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas, e abstraindo razões contemplativas com espírito
de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito, pelo que o juiz, vistos os autos, e pondo-se com
ânimo sincero na equidade que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os frades fossem obrigados a sinalar
dentro da sua cerca sítio competente para vivenda das formigas, e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem
logo habitação, visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo, maiormente porque eles,
religiosos, tinham vindo ali, por obediência, a semear o grão evangélico e era digno o operário do seu sustento, e o
das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo, em voz
sensível, nas bocas dos formigueiros.

Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor de quem está escrito
que brinca com as suas criaturas (Ludens in orbe terrarum!). Imediatamente saíram, a toda a pressa, milhares de
milhares daqueles animalejos, que, formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo,
deixando as antigas moradas, e livres de sua molestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus
as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

DÁ DUAS VEZES QUEM DÁ LOGO

Passando el-rei D. Sebastião do Paço de Xabregas para o mosteiro, chegou uma mulher a apresentar-lhe um
memorial. Recebeu-o e entregou-o a um fidalgo dos que o acompanhavam.

Ela, afligida, disse:

– Senhor, corre minha honra perigo na tardança.

Pôs nela os olhos el-rei, com aquele afecto de pai que foi tão próprio de seus antepassados para com seus vassalos;
pediu recado de escrever e ali mesmo despachou o memorial, dizendo:

– Os negócios desta qualidade em toda a parte devem ter despacho pronto.

Semelhante presteza em despachar se escreve de Viroldo, duque de Lituânia, o qual, até estando à mesa, ouvia os
requerimentos, assinava os papéis, recebia as embaixadas. De João Corvino, governador do reino de Hungria, dizem
que em qualquer parte, em pé, e sentado, e andando, e a cavalo, sempre ia administrando as obrigações de seu
ofício.

O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na
parede), estando de partida contra os Dacos, ao passar de Roma lhe saiu uma viúva clamando justiça contra os
homicidas de seu filho. E o César, desmontando do cavalo, a ouviu benignamente e satisfez a seus desejos.

Há negócios e ocorrências que se lhe deve acudir, como se tangeram a fogo. Que ridículo seria o que, chamado para
apagar um incêndio, respondesse mui repousado:

– Em almoçando, eu vou logo!


Gabeliano foi réu de morte por deter três dias o aviso de uma conjuração que lhe foi delatada. e fundou-se a
sentença em que em ordem a cautelar o próprio dano, podia cada um ser incrédulo ou animoso, mas, em ordem a
salvar o alheio, quem mais teme, melhor satisfaz à sua obrigação.

Importa que o espírito do príncipe e do magistrado tenha alguma porção ígnea que o incline a fazer o seu ofício, não
frouxamente, mas com prontidão e viveza, porque a caridade, que, pelo que toca ao bem próprio, há-de ser
paciente, pelo que toca ao bem do próximo, há-de participar, às vezes, algum tanto de impaciência. E esta é a índole
boa, que Séneca descobria até naquilo que em outras ocasiões podia ser repreensível (Saepe tibi indolem bonam in
malis quoque tuis ostendam). E esta é a que mostrou aquele rei, cujo coração aprovou Deus, dizendo que era
conforme ao seu, quando respondeu logo à mulher Tecuitis, que lhe pedia um seguro tal para lhe não matarem a
seu filho:

– Quem ousar a tocar-te, traz-mo aqui. Vive Deus, que nem um só cabelo há-de cair da cabeça de teu filho.

Veja-se como prendeu depressa neste espírito a chama do zelo, tanto que caiu sobre ele a faísca da injustiça, ainda
só fingida, como aquela era.

Tanto que o agente se aproxima ao Paço – diz o filósofo – logo resulta acção; e tanto que o miserável se chega ao
poderoso, logo há-de haver amparo; tanto que o injuriado recorre ao juiz, logo há-de haver satisfação. Aquele
leproso que pediu saúde a Cristo, apenas explicou o seu desejo sem petição expressa e formal. Domine, si vis, potes
me mundare (Senhor, se quereis, podereis alimpar-me). Quando logo o Senhor lhe respondeu: «Quero; fica limpo»
(Volo; Mundare), e, estendendo a mão, o tocou e sarou. De sorte que, por este caso, podíamos com mais razão dizer
o que lá o outro da velocidade dos notários, que tomavam por pena as palavras mais depressa do que outrem lhas
pronunciava. Assim parece que ainda a língua do leproso não tinha bem declarado a sua petição, quando a mão do
Senhor a tinha já remediado.

Assim como quem dá logo dá duas vezes (Bis dat qui cito dat), assim parece que despacha duas vezes quem
despacha bem e logo. Despacha uma vez, concedendo a mercê, e despacha outra, atalhando passos, cuidados e
despesas.

Ao rei D. João II de Portugal chegou um pretendente, pedindo certo ofício.

– Já está dado – disse o rei.

E o pretendente lhe rendeu as graças, beijou a mão e despediu-se.

Suspeitou o rei que não percebera a repulsa, e disse:

– Vinde cá: De que me destes as graças?

– Pela mercê – respondeu – que V. A. me acaba de fazer.

Tornou o rei:

– Que mercê vos fiz eu?

– Senhor – disse ultimamente o homem -, a de desenganar-me sem me remeter a ministros, porque nisso me
poupou muitos passos, e enfado; e dinheiro, que havia de desembolsar sem proveito.

Nestes danos não reparam os ministros e seus oficiais, retendo as causas e derretendo as partes tanto tempo, que
na sua mão parecem estar os papéis não só presos, mas já mortos e sepultados, porque lhes põem uma pedra em
cima, que é mais do que dizia o adágio antigo De paxillo suspendere (pendurá-los de um torno ou cabide), para
significar a negligência e descuido nos negócios.

Há causas (se não são das que morreram desesperadas) que podem competir com João dos Tempos, de que dizem
que viveu 361 anos. Se não param de cansadas, pelo menos andam tão devagar que tudo se vai em Manda,
remanda; manda, remanda; expecta, reexpecta; expecta, reexpecta, e, com este manda e remanda, se faz eterna a
demanda, e, com este espera e reespera, o pobre, enfim, desespera.
Dizem que Hábis, filha do rei Górgon, por haver sido criada nos bosques com leite de uma cerva, saiu ligeiríssima no
correr. Estou considerando que leite mamaria uma destas causas ou requerimentos na mão dos ministros e seus
oficiais, que não há remédio a fazê-la correr. Se beberia o leite da preguiça do Brasil (a quem os Castelhanos
chamam por ironia perrillo ligero), que gasta dois dias em subir a uma árvore e outros dois em descer?

Mas não é adequado o símil. Porque a preguiça do Brasil anda devagar, mas anda, e a preguiça do Reino e seus
ministros, a cada passo pára e dorme. Dois meses para entrar um papel, e parou; outros dois para subir a consulta, e
tornou a parar; outros dois para descer abaixo, e temo-la outra vez parada. Mais tantos meses para se verem os
autos, mais outros tantos para se formar a tenção, mais tantos anos para embargos, apelações, suspensões,
dilações, visitas, revistas, réplicas, tréplicas... Oh! preguiça do Brasil, já eu digo, não por ironia, senão por boa
verdade, que tu, em comparação da preguiça do Reino, és perrillo ligero.

Diz Plínio que o lavrador que se não encurva sobre o arado prevarica, isto é, faz os sulcos da terra torcidos (Arator,
nisi incurvus, praevaricatur), e, sendo torcidos, claro está que hão-de sair mais compridos do que podiam ser, pois a
linha recta sempre é a mais breve. Parece-me que daqui procede (pelo não atribuirmos a piores causas) serem tão
compridos e prolongados os sulcos ou caminhos que faz uma causa nas mãos de um ministro. São compridos porque
não são rectos, e não são rectos, porque ele não se encurva sobre a banca, não se inclina sobre os livros, não se
aplica ao seu ofício – e isto é o mesmo que prevaricar.

EMBAIXADA DE D. MANUEL AO PAPA LEÃO X

O nosso ínclito rei D. Manuel, de feliz recordação, quando se viu dominador dos reinos do Oriente (de sorte que
podíamos dizer que as asas do Sol se mediam com o seu Império, e que aqueles povos infiéis se não confederavam
contra a potência das suas armas mais que para ser delas triunfo e ouvir os anúncios da palavra evangélica), então
folgou de submeter toda esta grandeza aos pés do Sumo Pontífice Leão X, por seus embaixadores particulares
tributando-lhe juntamente as primícias das riquezas do Oriente.

O principal delas era Tristão da Conha, a quem faziam lados outros dois, a saber: Diogo Pacheco e João de Faria,
desembargadores, e outros cinquenta cavaleiros. E era em todos tanta a riqueza e lustre, que havia selas, freios,
peitorais e estribos de ouro de martelo, com pedraria fina e pérolas a montes.

Todos os embaixadores dos príncipes cristãos, que se achavam em Roma, e o governador da mesma cidade, e
muitos bispos, e famílias dos cardeais, e outra inumerável nobreza, deram nobres aumentos a esta pompa, e o
mesmo papa quis lograr o vistoso desta entrada, desde o Castelo de Sto. Angelo.

Levavam-lhe um presente com um grande e preciosíssimo cofre, coberto com pano de ouro e nele debuxadas as
reais quinas posto sobre um elefante, o qual tanto que avistou ao Sumo Pontífice, ajoelhou três vezes, ensinado pelo
naire que de cima o governava, e logo, metendo a tromba em um grande vaso de água que ali estava prevenido,
borrifou os cardeais e outras pessoas que estavam pelas janelas, e o mesmo sinal de festa usou com o mais povo que
estava apinhado pelas ruas.

Em outro dia foi recebida a embaixada, orando elegantemente o Pacheco em consistório. E, no fim da oração, o
papa exaltou com excessivos louvores as prendas d'el-rei D. Manuel, e o católico zelo com que naquele Novo Mundo
solicitava propagar o Império de Cristo e a glória de sua santa igreja.

Os pontos principais da embaixada eram três: o primeiro, que Sua Santidade empreendesse guerra contra o Turco;
segundo, que se tratasse mui de veras da reforma da Igreja; terceiro, que a este fim se prosseguisse e concluísse o
sagrado ecuménico concílio de Trento.

Em outro dia se abriu o cofre, tornando a ajoelhar o elefante diante de Sua Santidade. Encerrava um ornamento
pontifical inteiro, não só para a pessoa do papa, mas para todos os seus ministros: Era todo de chaparia e figuras de
ouro e pedraria preciosa, e a trechos umas romãs de rubis escachadas e, sendo a matéria tal, ainda dos primores da
arte era vencida. Iam juntamente outras riquíssimas jóias e ducatões de 500 escudos de ouro, como para entulho.

Avaliaram alguns o presente em um milhão, o qual veio a ser dos que saquearam Roma. Finalmente, Alberto de
Carpe, escrevendo ao imperador Maximiliano, como seu embaixador que então era, diz, na sua carta, este capítulo:
«Todo o povo universal de Roma concorreu por ver esta novidade; e não é maravilha, porque poucas vezes, ou
nunca, sucedeu enviarem príncipes cristãos a Roma tão magnífico aparato.»

Este sinal de rendimento deu à pessoa do vigário de Cristo o nosso católico monarca, visto que a distância de terras e
a ocasião lhe não concediam venerá-lo com outras demonstrações pessoais da sua humildade.

Quem desejar fazer-se presente àquele memorável espectáculo, referido aqui tosca e sumariamente, recorra ao
elegante aparo das penas do bispo Osório e de Manuel de Faria e Sousa.

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bernarde.htm

NOVA FLORESTA OU SILVA DE VÁRIOS APOTEGMAS


TRÊS PÁTRIAS

Qualquer homem tem três pátrias: uma da origem, outra da natureza e outra do direito. A pátria da origem é aquela
em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito é onde
cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar: neste sentido disse Túlio
de Catão que tivera a Túsculo por pátria da natureza, mas a Roma por pátria do direito.

Quanto à pátria da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai
criando as almas e unindo-as a nossos corpos.

Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra; por isso dela falamos tão
frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença do rei ao rústico. Neste
sentido, também, os que desejavam negar as imperfeições do amor a tal ou a tal terra em particular, ou por
arrogância e fasto filosófico ou por mortificação religiosa e santa, disseram que todo o mundo era pátria sua. Do
primeiro temos exemplo em Sócrates, que, perguntado donde era, respondeu:

– Do mundo: porque de todo o mundo sou cidadão e habitador.

E em Séneca, que disse:

– Não encerramos a grandeza do ânimo nos muros de uma cidade, antes o deixamos livre para o comércio de todo o
mundo, porque esta é a pátria que professamos, para darmos campo mais largo à virtude.

Do segundo temos exemplo em S. Basílio, que, ameaçado com desterro pelo prefeito do imperador Valente,
respondeu que não conhecia desterro quem não estava adicto a certos lugares.

Semelhante resposta foi a do v. p. frei António das Chagas, que, avisado por certa pessoa não falasse tão acremente
nos sermões da morte, porque se arriscava a ser desterrado, disse mui seguramente:

– Desterrar-me? Para onde? Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro.

Mas, além desta pátria do lugar comum, há outra do particular, que é a terra onde cada um nasceu. Quanto esta é
mais pequena, tanto une mais os seus filhos, de sorte que parece o mesmo ser compatriotas que parentes,
especialmente quando se acham fora dela. E parece-se este amor com a virtude da erva tápsia, da qual escreve
Teofrasto que, metida na panela com a carne a cozer, de tal modo conglutina os pedaços dela que, para os tirar, é
necessário quebrá-la. Quanto, porém, a pátria é terra mais populosa, rica e ilustre, tanto costuma ser matéria de
vaidade aos que põem a sua glória fora de si. Assim se esvaneciam os Arianos da sua Constantinopla, lançando em
rosto a S. Gregório Nazianzeno a sua terrinha, que nem muros a cingiam. Porém o santo doutor lhes respondeu que,
se isso era culpa nele, também o seria no golfinho não haver nascido na terra, e no boi não haver nascido mo mar. E,
pelo contrário, se neles era glória, também o seria para os jumentos da cidade assoberbarem os do campo.

Quanto à terceira pátria, é esta o lugar onde estamos naturalizados, por mercê da república, ou rescrito dos
príncipes, ou habitação continua, de modo que Sto. António se chama de Pádua, não sendo senão de Lisboa, e S.
Nicolau de Tolentino, sendo de Saint-Angel. Tomando, porém, isto espiritualmente, onde cada um habita com o
espírito e desejo, daí é natural. Por isso, Cristo disse a seus adversários que eles eram cá de baixo: Vos deorsum
estis... vos de mundo hoc estis. E, pelo contrário, a seus discípulos, que eles não eram deste mundo: De mundo non
estis.
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bernarde.htm

Pe. Manuel Bernardes

OPÚSCULO V
ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA

ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

3º — SUSPIROS DA ALMA AMANTE


PARA OS PERFEITOS

DÉCADA XI

415 — Ó doçura de meu coração! Ó vida de minha alma! Ó agradável repouso de meu espírito! Abstraí-me de todas
as criaturas, para que só em vós descanse.

Ó meu Deus e Senhor, toda a minha esperança e refúgio meu! Ó alvo aonde atiram os meus desejos! Quando,
quando apartareis de mim tudo o que de vós me aparta?

Ó amado meu mais que todas as cousas amáveis! Ó Esposo florido, Esposo melífluo da minha alma! Quando me
adornareis com aquelas jóias ricas das vossas virtudes, com que vos pareça bem?

Atraí-me após de vós, Esposo caríssimo; puxai por mim, para que corra em vosso seguimento com alegria, com
ligeireza, com perseverança.

Formai, Deus meu, com o vosso espírito o meu coração, de sorte que se amolde justamente ao vosso. Edificai dentro
em mim um secreto cubículo, muito limpo e bem ornado, onde venhais a morar comigo.

Tomara, Amado meu, tomara do generoso vinho de vosso santo amor, que me alheara os sentidos de tudo o que é
criatura, e os pusera só em vós, ó glória minha.

Fogo incriado: quando me abrasarás nos incêndios de teu amor? Quando consumirás em mim o que tenho de mim
mesmo? Quando me unirás e transformarás em ti perfeitamente?

Por vós chamo, Amado meu; oh! abri-me. Abri, Senhor: deixai-me entrar em vós, que fora de vós pereço.

Vós sois meu, e eu sou vosso; pegai de mim, e possuí-me, para que pegue de vós, e vos possua. Oh, como ficarei rico
convosco, que sois meu rico Deus! O meu tesouro é Deus, a minha herança é Deus, os meus bens todos é Deus; dai-
me os parabéns, ó Céu e ó terra; dai-me os parabéns de tão imensa dita.

Quem me dará asas como de pomba, e voarei, e descansarei? Descansarei em vós, meu Deus, que sois o centro dos
meus desejos.

DÉCADA XII

416 — Senhor Deus: se quereis fazer uma coisa, que alegre a todos os Anjos e Santos, e que console muito a minha
alma, glorificai vosso nome, fazei vossa santíssima vontade; dai o vosso conhecimento e amor a todos os que dele
são capazes.

Ó minha felicidade! ó total e único deleite meu! quando será que, tirados todos os impedimentos, me introduzais na
magnífica recâmara de vossa glória, e me unais convosco inseparavelmente?

Todas as criaturas, se por uma parte me declaram vossa formosura, por outra ma escondem; aparecei, meu Amado,
que só o vosso rosto busco; recordai, dentro em meu ser, que só a vós suspiro.

Não quero, Senhor, seguir-vos pelo caminho das consolações e suavidades, senão pelo do amor verdadeiro e puro.
Não quero o que sai de vós, senão a vós mesmo puramente; só a vós quero, só a vós desejo, só por vós suspiro.

Em vós, Senhor, está todo o meu ser, todo o meu deleite, o meu bem todo. Nada tenho meu senão a vós; porque só
vós sois todo dos que são vossos; ó doce amor, ó vida minha!
Dai-me, ó Jesus dulcíssimo, entranhável amor à vossa Cruz; que a busque, que a abrace, que a estime; para vos
abraçar a vós, que estais dentro dela.

Ó desprezos, ó dores, ó pobreza de espírito: vós sois preciosíssimas relíquias da Paixão de meu amor Jesus Cristo;
seja o meu coração relicário vosso, onde vos conserve muito adoradas.

Meu Senhor Jesus Cristo, Filho natural de Deus: enxertai-me em vós por fé viva, e pelos Sacramentos, e pelas
tribulações, para que o vosso espírito, que é vossa Divindade, me irmane convosco, pelo comércio de vossa
natureza.

Agora são os Justos filhos de Deus, e ainda não aparece a sua glória; sabemos que quando aparecer serão
semelhantes a Deus, porque verão a Deus. Ó estupenda dignação! Quem é o homem, Senhor, para o fazerdes um
quase Deus?

Todo sois amável, Amado meu; todo para desejado; mostrai-me vosso rosto e serei salvo.

DÉCADA XIII

417 — A minha alma sem a vossa presença parece a terra sem Sol. Oh! amanhecei, Senhor, que é já muito
prolongada esta noite; vejam meus olhos saudosos a alegre luz de vosso rosto.

Céus e Terra, e quanto neles se compreende, estão alagados com os dilúvios de vossa bondade e formosura. Qual
será o abismo donde manam tantos e tão profundos mares? Desejo, Senhor, desatar-me deste miserável corpo, para
ver vossa formosura. Oxalá rompêreis esses orbes celestes, para que a minha dureza derretida se desfizesse, e todo
eu, incendido em vosso amor, vos invocara com os gemidos de que só vós entendeis o significado!

Senhor, fazei-vos seta, que eu me farei alvo; atirai-me convosco; feri-me dentro para que tenha saúde, matai-me
depressa, para que tenha vida.

Que tens, coração meu, que linguagem muda falas de muitos afetos todos juntos e velozes como relâmpagos? Não
sei, Senhor: morro por unir-me convosco.

Não sois a formosura dos Céus estrelados nem a frescura dos vales floridos; não sois a harmonia, nem a ordem, nem
a virtude, nem a grandeza, nem a cópia, nem a ciência, nem o poder; não sois o que olhos viram, ou podem ver, nem
o que a fantasia pinta, ou o pensamento concebe, ou a mente define. Sois o que sois, sois o que só vós
compreendeis. Oh, quem vos vira! Oh, quem vos gozara!

Ai de mim! que o meu desterro se prolonga; e sou violentado a viver onde não quisera estar; e a não estar onde só
quero e posso viver, que é em vossa doce e bem-aventurada companhia.

Oh! quem me dera voar por toda a redondeza da terra habitada, e lançar este pregão com espírito do Céu: Filhos dos
homens, até quando haveis de ser de coração pesado? Para que amais a vaidade e buscais a mentira? Viva o amor
de Deus; viva o amor de Jesus Cristo.

Ó claridade incriada, Deus Trino e Uno, apascenta-me com tuas influências. Ó simplíssimo e deliciosíssimo bem, ó
bem incomutável! enche-me de ti mesmo; passa-me para ti, que és minha origem; recolhe-me em ti, que és a minha
essência.

Ó amado princípio meu, quando te acharei venturosamente? Quando ardentíssimamente te amarei? Quando me
arrebatarás todo para ti? Quanto me absorverás e unirás contigo?

DÉCADA XIV

418 — Dizei-me, Pastor bom: Onde dormis a sesta ao meio-dia? No leito da minha Cruz. Oh, como está florido
convosco, que sois Nazareno! Fazei-me digno de ter aí lugar convosco.

Desvelado ando, tomara dormir um sono, e descansar em vós, minha paz saborosíssima. Oh! faça-se o vosso silêncio,
que encerra palavras de vida eterna.

Salve, ó Rei da Glória, salve, ó Jesus, Esposo delicadíssimo das almas boas. Eu vos saúdo, venero e adoro com o afeto
de todos os vossos escolhidos. Vivificai e regei com vosso espírito todos os movimentos de meu coração.
Concedei-me, Senhor (se assim for vossa vontade), que vos veja sem meio de forma corpórea, nem de espécie
imaginária, nem de luz criada. Atraí-me a vós, fora de todas as criaturas.

Mandais-me, Senhor, e pondes-me preceito de que vos ame? Que coisa é, ó amor meu, o amar-vos senão ser justo,
ser vivo, ser vosso filho, ser sumamente ditoso? Quem, senão vós, mandara tal doçura!

Pai do Céu, meu Criador, meu Redentor, Senhor Supremo, Rei da Glória, Ser infinito, Eterno, Imenso, Onipotente,
todo o bem: dai-me sequer um grão de vosso amor, por cada título, que sois amável: e amar-vos-ei infinitamente.

Muitas graças vos sejam dadas por me dardes ser capaz de vos amar; muitas graças, porque mandastes ao mundo o
vosso Verbo, e o Espírito Santo, para me ensinardes a vos amar; muitas graças, porque me castigais por vos não
amar. Quero, Senhor, amar-vos muito, muito; dai-me o vosso amor que me pedis; amai-me, para vos eu amar.

Clementíssimo Pai: faça-se em mim vossa santíssima vontade; assim o quisestes antes que eu fosse, lá desde a
eternidade. Eu troco de boamente a minha liberdade pelo vosso beneplácito. Oh, que rendosa troca! fico mui
interessado.

Oxalá, meu suavíssimo Jesus, ardera eu naquele incêndio de amor em que ardem os Serafins, em que arde vossa
Mãe Santíssima, em que ardeis vós mesmo!

Oh, quem pudera, Senhor, arrancar de meu coração, e dos de todos, todo o amor que não é vosso, e plantar aí a
árvore da vida de vosso amor, que levara copiosos frutos de vossa glória!

DÉCADA XV

419 — Vida, não te apartes de mim; vida, não consintas que eu de ti me aparte; vida, une-te comigo; vida, rouba-me
para ti. Vida de todas as vidas, vida pura, vida simples, vida permanente, vida viva: só tu sejas para sempre a minha
vida.

Ó eternidade bem-aventurada: com que serena e indefectível claridade resplandeces! Que precioso, que suave, que
seguro, que compreensivo é o teu ponto, onde cabem as rodas de séculos infinitos! Tu és a minha consolação, alívio,
quando fujo aborrecido dos ruídos deste mundo visível.

Ó origem do meu ser: quando de vós saí para o número das criaturas, nem notícia de vós tinha; por vossa
misericórdia ma destes pela Fé; e desde então até o presente nunca vos vi, sendo vós meu verdadeiro Pai. Oh!
consolai-me já com vosso rosto, e, pois me destes a fome de vos ver, dai-me a fartura.

Oh! se pudera, Deus meu, desandar para trás todos os anos da minha vida já passada, e encher todos os seus
instantes de atos de vosso amor! Oh, quem sempre vos houvera amado, quando tantas coisas fora de vós amava!

Ó amor meu e todas minhas delícias: quando se inclinarão as sombras de minha mortalidade, e amanhecerá o
sereno dia da luz eterna? Quando, posta de parte a carga deste pesado corpo, vos louvarei perpetuamente em
companhia de vossos Santos?

Oh, Senhor meu, e Deus meu! Ame eu só a vós, e só por amor de vós, e nada ame senão em vós.

Ó bem sobre todo o bem! Ó fim, que careces de fim! Quando gozarei de ti sem medida e sem fim?

Como sois formoso, Amado meu! formoso e amável sem semelhante; não para a carne e sentido, mas para a alma
que crê, para o coração limpo, para o espírito que estima as coisas invisíveis.

Meu dulcíssimo Jesus: desejo, quantas vezes tomo o ar respirado, tantas atrair-vos para dentro de minha alma, com
cordial afeto; de sorte que todos os meus pensamentos, palavras e obras se unissem com a vossa vontade, e assim
unidos se apresentassem a vosso Eterno Padre, para maior glória sua.

Desde o profundo de meu coração brado a vós, Deus clementíssimo, pedindo-vos tireis de mim o vão amor de todas
as criaturas, e me dediqueis todo ao puríssimo amor de vossa bondade. Amém.

http://www.capela.org.br/Oracao/bernardes3.htm

Pe. Manuel Bernardes


OPÚSCULO V
ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA

ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

2º — DESEJOS DA ALMA DEVOTA

PARA OS APROVEITADOS.

DÉCADA VI

410 — Deus meu e vida da minha alma: quem sou eu, ou em que vos sirvo, para me encherdes de tantos benefícios?
Vós me criastes, e para vós me criastes; vós sois todo o meu descanso, e o centro único da minha alma.

Ó meu Jesus, toda a minha esperança, consolação e refúgio, eu saúdo e venero vossas suavíssimas chagas; recolhei-
me dentro delas, para que me peguem compaixão de vossas dores, e fogo de vosso amor.

Oh, se eu fechara as portas de meus sentidos a todas as coisas do mundo! Oh, se me adornara com todas as
virtudes, para que em tudo vos agradasse!

Mandai-me, Senhor, que vos ame sobre todas as coisas; dai-me o que mandais, e mandai o que quiserdes. Concedei-
me que pela total abnegação de mim mesmo chegue ao vosso perfeito amor.

Altíssimo Senhor, e Deus eterno: infinitas graças e louvores vos sejam dados, porque de nada me criastes à vossa
imagem e semelhança, e me destes ser capaz de vos ver e louvar eternamente.

Meu Jesus amabilíssimo: vós por mim encarnastes nas entranhas puríssimas da Virgem Maria; por mim nascestes
Menino na lapinha de Belém; por mim derramastes lágrimas e sangue, padecestes fomes, frios, cansaços, dores,
calúnias, e trabalhos inumeráveis; por mim vos sacramentastes em espécies de pão e vinho; por mim morrestes
cruel e afrontosa morte em uma Cruz. Oh, inestimável caridade de meu Deus! Que vos retribuirei por tantos e tão
grandes benefícios?

Soberano Mestre da humildade, meu Senhor Jesus Cristo: fazei que aprenda eu de vós, que sois manso e humilde de
coração.

Ó Senhor das virtudes, e Autor da Graça: destruí com a eficácia de vossa graça tudo o que em mim vos desagrada;
plantai em mim vossos dons e virtudes, para que levem copiosos frutos de vossa glória e minha salvação.

Ó flor do campo e lírio dos vales, Jesus amantíssimo e suavíssimo: convertei-me a vós de todo o meu coração, para
que em nenhuma outra coisa, mais que em vós, empregue meu amor e cuidado.

Vinde, ó Espírito Santo, entrai em meu coração; dirigi nele como regra o que está torcido; regai como fonte o que
está seco; ilustrai como Sol o que está escuro; sarai como medicina o que está enfermo; e vivificai como espírito o
que está amortecido.

DÉCADA VII

411 — Oh, que ditosos são os vossos servos, que comem à vossa mesa o pão delicioso de vossa face bem-
aventurada! Deixai, Senhor, cair dela algumas migalhinhas, que me alentem a esperança de lograr o mesmo bem.

Bem vedes, meu Jesus, a minha pobreza e desnudez de todas as virtudes. Vesti-me de vós mesmo, que sois a virtude
do Altíssimo; dai-me uma esmola de vosso amor, por amor de vós mesmo.

Senhor Deus Onipotente e clementíssimo: nos braços de vossa paternal providência me lanço; governai-me,
amparai-me, defendei-me.

Oh, que suave e benigno é, Senhor, vosso Espírito; que, para sustentardes vossos servos, lhes destes vosso Corpo,
Sangue, Alma e Divindade, no convite do Santíssimo Sacramento!

Só vós sois Bom, só vós sois Santo, só vós sois Senhor, meu Senhor Jesus Cristo, na Unidade do Espírito Santo e glória
de Deus padre. Só a vós seja dada honra e glória eternamente.
Dai a mão, Senhor, à obra da vossa mão. Fazei com vossa vontade benigna que se edifiquem os muros da Jerusalém
desta alma.

Não aparteis de mim a minha Oração, para que não aparteis de mim vossa misericórdia. Dai-me muito incenso de
Oração, que ofereça no altar de vossa presença.

Amantíssimo Jesus, dai-me do fervor de vosso Espírito; acendei no meu aquele fogo que viestes pegar à terra; de tal
sorte que a vós unicamente deseje agradar, e por vosso amor deseje ser de todos desprezado.

Oh, meu Deus, minha consolação, minha esperança, meu amparo, meu refúgio e todo o meu bem! Quem vos amará
com todas as forças da alma! Quem vos servirá com coração reto e perfeito!

Quem é como vós, Senhor, que sois o que sois: a mesma Perfeição infinita, a mesma Virtude, e Glória, e Grandeza, e
Sabedoria, e Potência, e Formosura eterna e imutável? Só a vós glória e honra por séculos de séculos.

DÉCADA VIII

412 — O Eterno Padre, ó Divino Verbo, ó Espírito Santo, Trindade Beatíssima, esplendidíssima, felicíssima! Fazei em
meu coração um templo, onde sejais adorada e louvada continuamente.

Muitas graças e louvores vos sejam dados, amoroso pai da minha alma; que me castigastes, como a filho, para a
emenda de meus erros; e não me precipitastes no inferno, como a inimigo, conforme meus pecados mereciam.

Tarde vos comecei a amar, Deus meu: e só vós sabeis se já comecei a amar-vos. Fazei, com vossa graça copiosa, que
recompense agora com o fervor o que perdi até agora com a negligência.

De vós e em vós me fio, meu Deus, que sois fidelíssimo e poderosíssimo; de mim não, que sou cana frágil, e com
qualquer vento movediça.

Vedes, Senhor, como meus inimigos me cercam, e atribulam todo o dia, e me pretendem arrastar para a perdição
eterna. Não vos aparteis de mim: sede em meu auxílio, e combata embora contra mim todo o inferno.

Que consolação será, Senhor, estar na vossa casa entre os Coros dos Anjos e Santos, cantando vossos louvores! Oh,
bem-aventurada esperança a que me destes de lograr tanto bem!

Tomai, ó amorosíssimo Jesus, inteira e pacífica posse de meu coração; e o governai em tudo e por tudo pelos
movimentos de vossa graça.

Oh, quem morrera totalmente ao mundo! E quem só a vós, Deus meu, vivera; só a vós, que para mim vivestes, e por
meu amor morrestes!

Jesus meu: a vossa vida neste mundo toda foi trabalhos e Cruzes, e eu, querendo estar convosco, fujo das Cruzes e
trabalhos. Oh, grande confusão minha! Quando me resolverei a entrar pelo caminho da verdade?

Ó Jerusalém triunfante, edificada para eterna habitação do Altíssimo: tuas portas e muros adoro, e saúdo cá de
longe, como peregrino; espero em Deus que algum dia entrarei por elas como morador.

DÉCADA IX

413 — Suavíssimo Jesus: quando contemplo vossas chagas, ora me parecem rosas, ora estrelas, ora selos, ora
escudos, ora portas. E tudo são, Senhor: rosas para me atraírem com sua fragrância; estrelas para me guiarem com
sua luz; selos para me imprimirem sua memória; escudos para me defenderem com sua proteção; e portas da cidade
de meu refúgio.

Deus meu: quem pudera fazer que todo o mundo vos conhecesse e amasse! Vós que podeis, Senhor, desterrai
pecados; livrai da tirania do demônio tantas almas, que miseravelmente enganadas o servem; dai glória a vosso
nome; que só vós sois digno. Oh, meu Deus! oh, meu amor! A vossa lei, que até agora trouxe debaixo dos pés, agora
a quero trazer sobre as meninas de meus olhos. Ajudai-me com vossa graça.

Conheça-vos eu, Senhor, que sois minha fortaleza; ache-vos eu, Senhor, que sois o fim de meus desejos; e ame-vos
eu, Senhor, que sois a vida da minha alma.
Senhor: se vós quiserdes, podeis fazer-me digno de vos amar. Dai-me que vos ame de verdade, e nada mais quero
senão amar-vos sempre mais.

Ó alma nobilíssima e ditosíssima de meu Senhor Jesus Cristo: quando vós no primeiro instante de vossa criação,
abrindo os olhos do conhecimento, vos achastes unida à Divindade na Pessoa do Verbo Divino, que júbilo e alegria
foi a vossa! Por ela vos rogo me façais vosso servo fiel até a morte.

Quem visse o coração de Jesus que veria senão uma fornalha viva de imensos incêndios do amor Divino? Oh!
permiti, Senhor, que me chegue a esta fornalha, para desfazer o regelo de minhas negligências.

Coração de meu JESUS: eu te adoro, louvo e glorifico pelas excelentíssimas obras do amor Divino, de que foste
instrumento.

Desejo, meu Senhor Jesus Cristo, ser humilde, sofrido e resignado; dignai-vos suprir-me das vossas virtudes o que me
falta nelas.

Lembre-vos, Senhor, que por meu remédio tomastes carne no ventre virginal de Maria Santíssima; fazei-me
semelhante a vós pela vossa graça, já que vos fizestes semelhante a mim pela minha natureza.

DÉCADA X

414 — O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei? O senhor é protetor da minha vida; de quem terei
pavor?

Oh, se o meu amor fora unicamente Jesus Crucificado! Oh, se me conformara à sua imagem perfeitamente! Oh, se
em tudo seguira os passos de sua vida santíssima!

Jesus e Maria são dois altíssimos montes de virtude, graça e misericórdia; levantei meus olhos aos montes donde me
há de vir o socorro.

Vivei e reinai, meu amabilíssimo Jesus, por séculos de séculos, porque só a vós se deve a honra, a glória, o império, a
magnificência e exaltação eterna.

Aperfeiçoai, Senhor, meus passos em vosso santo caminho, para que minhas plantas se não movam e o deixem.

Meu Senhor Jesus Cristo, juiz Supremo de vivos e mortos, fazei, com os poderes de vossa graça, que ouça eu naquele
último dia que me chamais, dizendo: Vinde, benditos de meu Pai.

Senhor, que alumiais os cegos, alumiai-me; Senhor, que fortaleceis os fracos, fortalecei-me; Senhor, que libertais os
prisioneiros, libertai-me do duro cativeiro de minha própria vontade.

Ó Soberano Mestre das virtudes: em vossa escola quero andar; supra a excelência de tão bom Mestre a rudeza de
tão mau discípulo.

Não me desampareis, Senhor; não vos aparteis de mim, que sem vós não sou mais que miséria, estultícia, escuridão,
ruína, pecado e inferno.

Ó meu Deus e meu amor, não vos lembreis de minhas ignorâncias passadas e presentes. Agrade-vos já fazer a minha
alma formosa com vossas virtudes e dons, para vossa maior glória.

http://www.capela.org.br/Oracao/bernardes2.htm

PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)

O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes:
“Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por
mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos —
entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção,
escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes;
Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte,
para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo.
Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem,
que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam
os Sermões e Práticas, os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos Dias do Homem,
os Tratados Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos e as suas melhores
obras, Luz e Calor e a Nova Floresta. Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre
Bernardes não cessou de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.

***

OPÚSCULO V

ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA

ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS

O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das
Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória
do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as
fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa,
Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que
as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o
coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor
achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas
coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.

1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE


PARA OS PRINCIPIANTES

DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir
o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de
vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de
todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos
ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não
necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos
demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e
misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de
meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais
pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia
morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.
Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-
me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a
vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados.

DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil
cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias
de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não
compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior
cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que
te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência,
costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de
lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!

Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos
os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por
aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de
vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós
ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada
um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as
penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste
salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?

DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis
às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti
de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso
dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-
me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite
falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos!
Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto
devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia,
amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.
Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de
vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços
de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um
perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais,
Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido
para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!

DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de
vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava
morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora
conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não
conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando
Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida;
tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora
demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito
na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos
eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós,
Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-
o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de
fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande
temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se
somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um
coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.

DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me
atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los
benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são
envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis
o Filho de Deus estar chagado.
Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite
cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades;
submergi-as no mar de vossa bondade imensa.

Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê
quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a
vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda
maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho
com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da
Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da
alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo,
meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.

http://www.capela.org.br/Oracao/bernardes1.htm

A urna espiritual

Do P. Fr. Sebastião de Sta. Maria:

Este verdadeiro religioso, capucho da província de S. José, sendo uma vez repreendido pelo prelado com rigor, e sem
culpa sua, ficou não somente quieto mas alegre. Perguntado pela causa disto, respondeu: Não quer, irmão, que
esteja alegre um pobrezinho a quem Deus faz digno de padecer alguma coisa por seu amor?

CRISE E SINÔNIMO

Este espírito era verdadeiramente apostólico; pois dos sagrados apóstolos escreveu S. Lucas: Ibant gaudentes a
conspectu concilii, quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati: Saíram alegres e gozosos da
presença dos ministros juntos em conselho, considerando a dignação com que os honrara Cristo em lhes dar que
padecer por seu nome. Procede este rio da alegria de três fontes ocultas no espírito do que é verdadeiro servo de
Deus: a saber, inocência, humildade e caridade. Porque a inocência não acusa por dentro: Secura mens quasi juge
con vivium; a humildade folga de ser acusada de fora: Ludam, et vilior fiam quam factus sum, et ero humilis in oculis
meis; e a caridade estima achar meio proporcionado para mais se unir um com Cristo, sofrendo o
próximo: Communicantis Christi passionibus gaudete.

Esta dignação de comunicar Cristo a seus servos alguma parte de sua cruz é tanta e tão estimável e preciosa que
uma vez disse o mesmo Senhor a B. Baptista Verana estas palavras: “Lembra-te que maior demonstração de meu
amor te dei quando te pus em aflição do que quando te apertava entre meus braços dulcíssimos. Porque grande
benefício é livrar eu uma alma de pecados; maior dar-lhe obras santas em que me sirva; porém máximo dar-lhe que
padecer por mim.” Bastava esta sentença do Senhor para levantar o coração humano à estimação e desejos de
participação de sua cruz. Somos, porém, os filhos de Adão tão pesados e terrenos e tão como hereges neste artigo
principalíssimo da vida espiritual que me pareceu útil (além desta definição do Sumo Pontífice Cristo Jesus) ajuntar-
lhe um como concílio dos votos de muitos santos e varões apostólicos, uniformes todos na asserção desta verdade.
Poderá ser que unidos obrem mais fortemente este desengano no coração de algum afligido e convertam algum
mau ladrão, que pena em cruz com repugnância à mesma cruz.

URNA
dos votos e pareceres dos santos e varões espirituais sobre a
excelência do padecer por amor de Deus.

Voto do príncipe dos apóstolos S. Pedro: Si exprobramini in nomine Christi, beati eritis; quoniam quod est honoris,
gloriae, et virtutis Dei, et qui est ejus spiritus, super vos requiescit. Se vos afrontarem ou desprezarem por amor de
Cristo, sereis bem-aventurados, porque o que é de honra e glória e virtude de Deus em vós mora e descansa com o
seu espírito.

Do apóstolo e doutor das gentes S. Paulo: Mihi autem absit gloriari, nisi in Cruce Domini nostri Jesu Christi, per quem
mihi mundus crucijixus est, et ego mundo. Guarde-me Deus de gloriar-me, salvo na cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.

De Sto. André apóstolo: O bona Crux, diu desiderata, solicite amata, et sine intermissione quaesita, et jam con
cupiscenti animo praeparata, securus et gaudens venio ad et; suscipe me ab hominibus, et redde me Magistro meo,
ut per te me recipiat, qui per te me redemit. Ó boa Cruz, muito tempo há suspirada, solicitamente amada, e sem
intermissão procurada, e já em fim para meu ansioso ânimo preparada, seguro e alegre venho a ti; tira-me do
mundo, e entrega-me a meu Mestre, para que por ti me receba quem por ti me remiu.

De Santiago apóstolo: Omne gaudiam existimate, fratres mei, cum in tentationes varias incideriris, scientes quod
probatio fidei vestrae patientiam operatur; patientia autem ojus perfectum habet. Quando, irmãos meus, se vos
oferecerem vários trabalhos e ocasiões de padecer, ponde-as na conta das de alegria e festejo, certificados de que a
prova da vossa fidelidade gera paciência e por esta adquirimos a perfeição.

De Sto. Inácio mártir, patriarca de Antioquia: Utinam fruar bestiis, quae mihi sunt praeparatae; quas et oro mihi
veloces esse ad interitum, et ad supplicia, et allici ad comedendum me, ne sicut aliorum, et Martyrum, non audeant
corpus attingere. Quod si venire noluerint ego vim faciam, ego me urgebo, ut devorer: Ignoscite mihi, filioli, quid mihi
prosit ego scio. Oxalá chegue eu a gozar das bestas feras que me estão aparelhadas (era levado a Roma para padecer
ali martírio). A Deus rogo que se apressem em dar-me tormentos e tirar-me a vida e que tenham fome de mim, para
me comerem; não suceda como a outros mártires, cujos corpos não ousavam tocar. Mas, se não quiserem chegar-se,
eu me chegarei, eu as instigarei e obrigarei a que me traguem. Perdoai-me, filhinhos; eu sei o que me importa.

De S. Teodoro mártir, falando com os verdugos: Se algum dos meus membros ficar por atormentar, ficará por
consagrar-se: quero ser atormentado para ser todo sagrado.

De S. Cipriano, bispo e mártir: Non invenio, fratres, inter caeteras caelestis disciplinae vias quibus ad consequenda
divinitus paemia, spei, ac fidei nostrae secta dirigitur, quid sit utilius quam ut patientiam tota observatione
tueamur. Entre todos os caminhos da celestial doutrina por onde a religião cristã se encaminha, em fé e esperança, a
conseguir os divinos prêmios, nenhum acho, irmãos meus, mais proveitoso do que aplicarmo-nos com todo o estudo
à paciência.

De S. Gregório papa: Beatus Job, quot voces patientiae in laudem Dei percussus reddidit, quasi tot in adversarii
pectore jacula intorsit; et acriora multo quam sustinuit, inflixit. Quantas palavras de sofrimento e louvor de Deus
pronunciou o santo Job em seus trabalhos, tantas lanças pregou no coração de seu adversário, e, se foram fortes e
agudas as que lhe aparou, muito mais o foram as que revirou contra ele.
De S. Leão papa: Certa, atque secura est expectatio futurae beatitudinis, ubi est participatio Dominicae
Passionis. Quanto entramos à parte dos trabalhos da paixão do Senhor, tanto pomos na certeza e segurança da
glória que esperamos.

De Sto. Ambrósio, doutor da Igreja: Quid magnum facis, si quando in secundis rebus laudes Deum; quando in divitiis
es, quando nullis vexaris injurii? Illud est magnificam, si sub jectus injuriis, et contumeliis, judicium Dei laudes. Que
muito fazes em louvar a Deus, quando vives em prosperidade, quando em abundância, quando sem vexação nem
injúria de alguém? Louvar o juízo de Deus quando nos injuriam em seus juízos os homens, isto sim que é digno de
estimação.

De Sto. Agostinho, sol da Igreja: Appendo id quod patior contra id quod spero. Hoc sentio, illud credo, et tamen plus
est quod credo quam quod sentio. Ponho em balanças o mal que padeço com o bem que espero: o mal me toca no
sentido, o bem toco eu com a fé; porém muito mais é o que creio que o que sinto.

Do doutor máximo S. Jerônimo: Christianorum proprie virtus est, etiam in his quae adversa putant, referre gratias
Creatori; nam in beneficiis Dei, quae nobis accidunt, gratulari, hoc, et Gentilis facit, et Judaeus. E virtude própria dos
cristãos dar graças ao Criador, ainda quando padecem as que chamam adversidades, que dá-las só quando nos vai
bem, isso faz qualquer gentio ou judeu.

De S. João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, falando de S. Paulo preso por amor de Cristo:Siquis mihi, vel
universi Caeli, vel hujus catenae copiam, et optionem largitus esset, catenam hanc ego plane elegissem. Si mihi cum
Angelis, et iis qui prope thronum Dei sunt, standum fuisset sursum, aut cum Paulo vincto, carcerem utique
praeoptassem. Se alguém pusesse na minha mão a escolha ou de todo o empíreo ou desta só cadeia, antes elegeria
a cadeia do que o empíreo. E, se houvesse de estar em um de dois lugares, ou lá nas alturas com os anjos junto do
trono de Deus ou no cárcere com Paulo, por esta companhia renunciara sem dúvida aquela outra. E depois, falando
do anjo que soltou a S. Pedro aprisionado por Herodes: Si mihi quispiam dixisset: Elige utrum velis: vis esse angelus
Petrum solvens, an Petrus vinctus: Petrus utique esse maluissem. Se alguém me dissesse: Escolhe qual queres, se ser
o anjo que soltou a Pedro, se Pedro antes de solto, quisera ser antes Pedro do que anjo.

Do angélico doutor S. Tomás: Patientia possessori suo mala convertit in bona. A quem tem de seu o cabedal da
paciência, esta lhe troca os males em bens.

Do seráfico S. Boaventura, doutor da Igreja: Patientia singularis est retributrix Passionis Christi. Talia enim studet
rependere, qualia ab eo accepit, qui dolores nostros portavit, et haec est singularis laetitia Sanctorum in tribula tione
patientium, et gaudentium, quod sic occasionem habent, et opportunitatem aliquo modo retribuendi Domino pro illa
magna charitate, qua pro no bis animam suam posuit, saltem aliquid sustinendo. A nossa paciência é o singular
retorno da paixão de Cristo, pois procura pagar-lhe na mesma moeda, que é padecer por amor de quem por nosso
amor tomou em si nossas dores. E aqui se funda a particular alegria e consolação que os santos acham no padecer,
porque assim logram ocasião oportuna de corresponderem no seu tanto àquela imensa caridade do Senhor com que
por nós pôs a vida.

De S. Lourenço Justiniano, patriarca de Veneza: Qui putantur crucem portare, sic portant, ut plus habeant in crucis
nomine dignitatis, quam in passione supplicii. Os que levam cruz, mais lhes fica de honra e dignidade por levá-la do
que de tormento por padecê-la.

De S. Bernardo, abade: Semper lignum Crucis vitam germinat, balsamum sudat spiritualium charismatum. Non est
silvestris arbor; lignum vitae est apprehendeniibus eam; arbor frugifera, arbor salutifera est. O lenho da cruz sempre
está brotando vida e suando o precioso bálsamo dos espirituais dons e graças. Não é árvore silvestre, senão dá vida
aos que dela se aproveitam; é árvore de fruto, e fruto de salvação eterna.

De S. Nilo, abade: Si ignominia affectus fueris, gaude; si injuste, merces tua copiosa erit; si vero juste, et resipueris,
jam liberatus et a flagello. Se padeceres ignomínia, alegra-te, porque, sendo injusta, aumentas o prêmio e, sendo
justa, abates o castigo.
De S. João Clímaco: Beatus qui propter Deum quotidie maledictis, et convitiis lacessitus sibi vim fecerit; hic enim
Martyribus tripudiantibus, et Angelis parem confidentiam, et gloriam merebitur.Ditoso o que se faz violento para
levar bem as murmurações e afrontas e pragas, ainda que o provoquem cada dia, porque ele ganhará confiança e
glória igual à dos mesmos anjos e mártires, que saltam de contentes.

De Sto. Antônio de Lisboa, língua bendita do Senhor: A paciência na tribulação é lâmina de ouro em que se mostra
esculpido o inefável nome de Deus.

Do patriarca Sto. Inácio de Loiola: Se houvera umas ba lanças que de uma parte tiveram todas as coisas criadas e da
outra cadeias, cárceres, afrontas, testemunhos falsos, aquela nada pesaria no meu conceito, nem criatura alguma
pode gerar tanto gozo como a cruz a quem a leva.

De S. Filipe Néri, fundador da congregação do Oratório: Não pode suceder a um cristão coisa mais gloriosa que
padecer por Cristo, e a quem deveras ama a Deus não pode acontecer coisa de maior desgosto que não se lhe
oferecer ocasião de padecer por ele, porque a maior tribulação que pode ter um amigo de Deus é carecer de toda a
tribulação. E, quando alguém lhe dizia que não podia sofrer as adversidades, respondia: Antes deveis dizer que não
sois dignos de tanto bem, porque não há sinal mais certo nem mais claro do amor de Deus do que a adversidade e
trabalho.

Do beato Fr. João da Cruz, primeiro carmelita descalço: Que sabe quem por amor de Cristo não sabe padecer?
Quando se trata de trabalhos, quanto maiores e mais graves são tanto melhor é a sorte do que os padece.

De Sta. Isabel, princesa de Hungria: Os desprezos, pobreza e mais trabalhos hão-de ser recebidos solenemente com
“Te Deum laudamus”.

Da seráfica virgem e doutora Sta. Teresa de Jesus, falando com Deus: Senhor, não vos peço outra coisa senão ou
morrer ou padecer.

Da extática virgem Sta. Maria Madalena de Pazzi, falando com Deus: Senhor, não morrer, para mais padecer.

De Sta. Loduvina, virgem, em uma ocasião que seus próximos a vexaram: Muito devemos àqueles que nos ajudam a
correr no caminho dos mandamentos de Deus.

Da beata Catarina Adorno, ou de Gênova, falando com Deus no meio dos seus maiores trabalhos:Trinta e seis anos
há, oh Amor meu, que me alumiastes; desde esse tempo nada desejei senão padecer dentro e fora.

Do venerável Tomás de Kempis: Qui melius scit pati, maiorem tenebit pacem; ipse est victor sui, et dominus mundi,
amicus Christi, et haeres Caeli. Quem melhor sabe padecer logrará maior paz; este é vencedor de si e senhor do
mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

Do venerável Ludovico Blósio, abade letiense: Non est ullum signum certius Divinae electionis quam siquis
afflictionem, vel quidquid adversorum a Deo immittitur, non tantum quam affligi. Não há mais certo sinal de sermos
escolhidos de Deus do que padecer, não só sem repugnância mas com rendimento e paciência, qualquer aflição ou
adversidade que ele nos envia. Porque ainda é tão proveitoso para o homem como o estar em cruz.

Do espiritual varão e doutor místico João Gerson, cancelário parisiense: Si anima Christi, et omnes Sancti Paradysi
simul orarent pra persona aliqua, non acquirerent ei tantum utilitatis, et meriti: sicut ipsa sibi acquireret per unicam
in adversitate patientiam. Se a alma de Cristo Senhor nosso e todos os santos do céu orassem juntamente por
alguma pessoa, não lhe ganhariam tanta utilidade e merecimento como ela para si mesma ganharia por uma só
paciência na adversidade.
Do p. m. João de Ávila, chamado apóstolo da Andaluzia: Mais vale um “graças a Deus” na adversidade de que cem na
bonança.

Do místico varão o p. Baltasar Álvares, da Companhia de Jesus: Ser perseguido sem culpa, bocado sem osso.

Se houvessem de lançar seus votos quantos santos têm o céu e a terra, e ainda quaisquer fiéis que alcançam alguma
luz da virtude, sairiam a frouxo uniformes; porque esta é a verdade irrefragável: que até para o Senhor da Glória foi
glória a sua cruz. Por onde qualquer alma posta em cruz não deve senão tapar a boca a murmurações e queixas, e
abri-la para louvar a Cristo, pela inestimável graça que lhe concede em a fazer semelhante a Si e a Seus santos

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A inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa


Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo,
devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede
incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos de
a ver. E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e
continuada petição à mesma Senhora que o deixasse ver sua formosura, para mais a venerar e estimar. Foi-lhe
revelado por um anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era
decente que olhos que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra. O clérigo respondeu, como
animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal excessiva dita. Mas, advertindo
depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para sustento da vida, lhe pareceu
que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para a sua necessidade. Assim se
fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão aprazível
beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-la. E já no mesmo instante, tinha a Virgem
desaparecido. E o seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e sentimento: Que
teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor! Assim vos ausentastes, ó
Mãe amabilíssima; vi-vos, e não vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho me acendestes mais a sede.
Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas vós, ó Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois
do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó formosíssima: eu de boa vontade quero
cegar de todo; antes o terei por grande interesse. Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e
é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz
excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou, e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista
restituída e clara.

(De "Tratados Diversos", pág. 397-398)

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Prática da Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa


Quaeretur peccatum illius, et non invenietur. (Sl 9, 10)

Há umas coisas que se buscam para se acharem, e há também outras, que para se não acharem é que se buscam. A
mulher do Evangelho buscava a jóia, e o pastor buscava a ovelha, para achar um a ovelha e outro a jóia. Pelo
contrário, aqueles exploradores, que foram em busca de Elias, quando desapareceu da terra, buscavam-no para o
não acharem. Foi o caso: sendo arrebatado Elias em um carro de fogo, disseram alguns zelosos que queriam buscá-
lo, porque poderia estar aí lançado em algum monte ou vale. Sabia Eliseu muito bem que Deus o tinha transportado
para si, e disse-lhes: não há para que o buscar. Eles, pelo contrário, instaram tanto, até que lhes disse: buscai
embora: Coegeruntque eum, donec acquiesceret, et diceret: Mittite (4 Rg 2). Partiram cinqüenta homens expeditos,
cada um por diferente parte a procurar Elias — três dias andaram por cerros e campos e vales, sem descobrir rastro
do que buscavam, até que, cansados, tornaram a Eliseu, o qual lhes disse com grande descanso: Não vos disse eu,
que o não buscásseis? Numquid non dixi vobis: Nolite mittere? Pois se Eliseu estava certo que o não haviam de achar,
porque ali havia especial mistério e obra de Deus, para que deixou estes pobres homens irem cansar-se debalde?
Oh, que obrou como prudente! Se o não buscaram, a qualquer tempo haviam de dizer: Se nós o tivéssemos buscado,
pode ser que o tivéssemos achado. Ah, sim. Pois buscai-o, embora: Mittite. Porque se não achareis a Elias, ao menos
achareis o desengano. Porque há coisas que se buscam para o mesmo efeito de se não acharem.

Tal foi também o pecado original a respeito de MARIA Santíssima Senhora nossa Sempre pura e Imaculada. Diz o
Real Profeta que se buscaria e não se acharia: Quaeretur peccatum iilius et non invenietur. Nas Letras Sagradas
muitas vezes a conjunção Et vale o mesmo que a causal Quia, e faz então o Texto este sentido: que o pecado se
havia de buscar, porque se não havia de achar. Edmundo Rozeto lê deste modo: Quaere peccattum illius, quoad non
invenies. Buscai o seu pecado, até o não achares. Eutímio diz que isso se pode entender de Cristo Salvador nosso, no
qual, por mais que seus êmulos busquem pecado, nunca o poderão achar: Potest intelligi de Christo Domino, in quo
nullum est peccatum. E eu digo que, por conseguinte, pode entender-se de MARIA Santíssima Senhora Nossa;
porque Filho e Mãe constituem moralmente uma pessoa, e nesta Senhora permitiu Deus que o pecado original fosse
buscado por muitos exploradores: não digo eu por três dias, mas por muitos séculos; não para acharem o pecado,
pois o não havia, senão para acharem que o não podiam achar. Com que a certeza que hoje temos neste ponto mais
se deve à dúvida dos que não creram, do que à piedade dos que creram. Como em semelhante caso disse S.
Gregório: Plus enim nobis Thomae (repare-se no nome Tomás) infidelitas ad fidem, quam fides discipulorum
credentium profuit; porque a dúvida fez que pecado se buscasse, e o buscá-lo fez com que nos certificássemos de
que não se podia achar: Quare peccatum illius quoad non invenies.

Tanto deve a certeza deste ponto à dúvida que nele se levantou, que a meu entender, um dos maiores fundamentos
para se tirar a dúvida era o mesmo levantar-se; porque há questões, que consigo trazem a resposta. Perguntaram os
Pontífices e Sacerdotes a Cristo, se era Filho de Deus: Tu ergo es Filius Dei? Respondeu o Senhor: Vós mesmos o
dizeis que eu o sou: Vos dicitis, quia ego sum. Pois se estes homens o que propõe é uma pergunta, como afirma o
Senhor que eles mesmos se dão a resposta? Porque há questões que pelo modo e circunstâncias em que se
levantam, levam em si mesmas a resposta. E tal era esta. Porque no livro da Sabedoria estava profetizado que lhe
haviam de perguntar injuriosamente e com mau tratamento, se era ele Filho de Deus: Gloriatur Patrem se habere
Deum, et Contumelia et tormento interrogemus eum. E como nesta ocasião se cumpria à letra esta profecia, fazendo-
se ao Senhor esta pergunta entre mil injúrias e tormentos, bem se vê que na mesma pergunta ia embebida a
resposta. Vós que me perguntais diz o Senhor, nisso mesmo afirmais que eu sou Filho de Deus: Vos dicitis, quia ego
sum.

A dúvida ou questão de se MARIA Santíssima foi concebida em graça também é deste gênero; porque se o seu
pecado se havia de buscar para não se achar, a mesma dúvida que o buscava nos tira da dúvida de o haver, e nos
põem na certeza de que o não há. Deixai-os duvidar, Mittite: que esse é o meio que a Providência Divina escolhe
para tirar da dúvida: Quaeretur peccatum illius, et non invenietur. Levantou-se a questão, porque sabia Deus que se
havia de decidir em favor da Virgem; logo, a mesma pergunta leva consigo a resposta, e a mesma dúvida nos tira de
toda a dúvida.

E, senão, digam-me: Se alguém soubesse que um seu grande amigo queria habilitar-se com sentença de genere, para
subir a dignidades, e tivesse notícias certas e ocultas que o tal amigo tinha vício ou infecção no sangue, e estivesse
na sua mão atalhar esta pertenção, para que o vício não se apareça, não o havia de fazer assim? Claro está que sim.
Logo se Deus soubesse que sua Mãe Santíssima não tinha pureza por parte do sangue de Adão, para que havia de
permitir que se levantasse esta questão, e que se inquirisse este ponto não havendo de sair a favor da Virgem? Por
quanto a Igreja Católica havia de averiguar a verdade, muito mais decoroso era não se falar em tal com empenho e
estrondo. Logo, o mesmo haver questão decide a questão, porque não havia Deus de consentir que se movesse
demanda contra sua Mãe Santíssima, senão para dar poe ela a sentença. Sem e José, como bons filhos, cobriram
com a capa a seu pai Noé, para que não fosse vista sua indecência. Acaso Cristo é menos amoroso e revente Filho de
sua Mãe Santíssima? Não, por certo. Logo, se soubesse que havia aqui a indecência da primeira mancha, havia de
cobri-la com a capa do silêncio. E não foi assim, antes quis que se ventilasse em público, porque a não havia. Logo, a
dúvida nos tira da mesma dúvida. Vós perguntais, se a Senhora foi sempre imaculada? Pelo mesmo caso estais
dizendo que sim, que sempre foi pura e cândida e imaculada: Vos dicitis, quia ego sum.
3

Confirmo este pensamento, porque também de MARIA Santíssima estava profetizado que havia de haver
semelhantes questões, apra que constasse mais de suas excelências. E em que texto se acha esta profecia? Eu tomo
primeiro meu resalvo para o que pretendo dizer; porque sei, pela mesma Escritura Sagrada, que as Escrituras não se
interpretam livremente pelo arbítrio, ou engenho de cada um: Omnis prophetia Scripturae (diz meu Padre S.
Pedro) propria interpretatione non fit.Contudo, o que direi é somente propondo, e com a devida sujeição aos
Sagrados Doutores e sentir da Igreja Católica. Isto suposto, diz um lugar dos Cantares: Revertere, revertere, Sulamitis,
revertere, revertere, ut intueamur te. Voltate, voltate Sulamitis, voltate, voltate para que vejamos bem sua
formosura. Os Setenta: Convertere, convertere, vira-te para nós. E o Escoliastes acrescenta: Intuebimur in te quasi in
spectaculum: Contemplaremos em ti como em um admirável espetáculo. Quem é o que fala neste verso e com quem
se fala? Os Expositores comumente dizem que falam os ministros ou familiares da casa do Esposo, que é o mesmo
que se disséssemos, os fiéis e os santos da Igreja de Cristo. E que todo este livro dos Cantares encerra as excelências
e prerrogativas da Virgem e que esta é a Sulamitis, que quer dizer pacífica, ou perfeita, escusa de se provar, por ser
coisa mui sabida.

Isto assim suposto, pergunto agora: Que querem dizer os fiéis à Senhora, em lhe dizerem que se volte para verem
sua formosura? Voltar no sentido corpóreo e material não pode ser, pelo indecoroso; há de ser logo no sentido
espiritual. Pois chamar-se-ão aqui voltas as vezes que a Senhora volta a nós seus olhos para nos favorecer desde o
Céu? Também não; porque isso seria voltar a Senhora para nos ver a nós, e o texto diz que se volte para nós a
vermos como é formosa:Ut intueamur te. Venho pois a concluir, que estas voltas são as que a Senhora dá
intencionalmente enquanto considerada pelos nossos entendimentos, já a esta, já àquela luz, já por uma, já por
outra parte, para examinarmos e descobrirmos como em tudo é perfeita: bem como uma imagem primorosa para
ver se tem defeito por alguma parte, a viramos de muitos modos, e a contemplamos à várias luzes. E como o Espírito
Santo sabia que destas voltas, ou questões, sempre havia resultar maior clareza e conceito das perfeições de sua
Esposa; por isso introduz ali os fiéis dizendo: Volta-te, volta-te para vermos sua formosura. Convertere, convertere
Sulamitis convertere, ut intueamur te.

Nem parece carecer de mistério repetir-se a palavra Convertere quatro vezes; porque quatro vezes houve já na Igreja
revoltas sobre vários pontos das prerrogativas da Senhora, e sempre ficou aparecendo mais sua formosura.
Primeiramente, vieram os hereges Nestorianos negando ser a Senhora verdadeira Mãe de Deus. Vieram duzentos
Bispos no Concílio de Éfeso à este ponto, e definiram que era verdadeiramente Mãe de Deus. Vieram os hereges
Helvidianos e os Antidicomarianitas, e puseram mancha na Virgindade da Senhora depois do parto. Vieram a este
ponto os Padres dos Sínodos V, VI e VII, e os do Concílio do Latrão, e definiram que a Senhora sempre fora Virgem.
Vieram Calvino, Kemnitio, Brentio e outros ministros do diabo semelhantes, e atreveram-se a dizer, blasfemamente,
que a Senhora tivera pecado atual, ao menos venial. Vieram a este ponto duzentos e setenta Bispos no Concílio de
Trento, e declararam que a Igreja tinha que a Senhora, por especial privilégio, fora limpa de todo o pecado atual. Eis
aqui já três voltas da Sulamitis. Faltava ainda outra sobre se a Senhora teve, ou não, pecado original, ao menos no
primeiro instante de seu ser. Esta custou mais que as outras, por isso mesmo que os que defendiam que sim, tivera
pecado original, não eram hereges, senão varões Católicos, pios e zelosos. Mas, enfim, resultou daqui que veio a
confiar como certo, que sempre fora imaculada. Com que todas estas voltas, ou exames, que a Senhora padeceu
intencionalmente no nosso discurso, foram ordenadas por Deus, para que se visse melhor sua formosura
perfeitíssima: Convertere, convertere Sulamitis: convertere, convertere, ut inueamur te. Logo, se estava profetizado
que a Senhora havia ser assunto destas questões, com o fim de constar melhor de suas prerrogativas: bem dizia eu,
que pelo mesmo caso que a dúvida se movo, não tem dúvida a questão; porque se a metade da profecia se cumpriu
já, que era levantar-se a dúvida: Convertere; também se havia de cumprir a outra metade, que era sair em favor da
Virgem: Ut intueamur te.

Só nos falta neste quarto Convertere outro Concílio, que o defina de fé. Mas não tarda quem vem e se não temos o
Concílio já de presente, temo-lo também em profecia por testemunho de um Varão mui abonado em virtudes, e
dons celestiais. Quem é? O Ven. Padre Fr. Domingos Ruzola, Geral que foi dos Carmelitas descalços, a quem o Sumo
Pontífice chamou da Espanha à Roma para o ter em sua companhia. Este, passando de Roma para Sicília, hospedou-
se na Cidade de Salermo, no Convento dos Padres Dominicanos, os quais, pelo conceito que de suas virtudes tinham,
e para o honrar mais, lhe deram a cela em que ali vivera o glorioso Doutor da Igreja, Santo Tomás. Estimou o servo
de Deus este grande favor, gastou toda aquela noite em oração, encomendando-se ao S. Doutor, o qual se dignou de
o visitar aparecendo-lhe cheio de glória, e falando com ele com amorosa lhaneza lhe disse, como e todo gênero de
questões prováveis se havia acomodado à doutrina comum que corria nas Escolas, e como em Paris, onde se achava,
corria a opinião menos pia, essa seguira; porém, que agora no Céu via duas verdades no Verbo Divino. Primeira,
que Omnipotens Deus gloriosae Virginis Matris MARIAE corpus, et animam, ut dignum Filii sui habitaculum effici
mereretur, Spiritu Sancto cooperante, praeparavit. — que o Onipotente, Eterno Deus, pela graça do Espírito Santo,
preparou o corpo e alma da gloriosa Virgem Mãe para ser digna morada de seu Filho, porque tão pura criara sua
alma, que ainda que o corpo tivesse mancha, seria incapaz de a receber dele, e tão puro criara seu corpo, que
nenhum defeito tivera, nem moral, nem natural. Segunda verdade, que viria tempo, em que a Igreja faria um
Concílio, no qual se definiria este ponto em favor da Virgem para maior glória sua. Isto disse Santo Tomás, e
desapareceu. Eis aqui a quarta volta acabada de dar. E que lhe dizer, para maior glória sua, senão o que tinha dito
Salomão:Convertere, ut intueamur te? Ou o que tinha dito Davi, que o pecado da Senhora se buscria, para o efeito
de se não achar: Quaeres peccatum illius quoad non invenies?

Oh puríssima MARIA, verdadeira Mãe do mesmo Deus, sempre Virgem, sempre Santa, sempre intacta, e imaculada
em corpo e alma: se vós toda estais vestida de Sol: Amicta sole; porque parte poderíeis fazer sombra ou estar
escura? Dêem-se os entendimentos mais perspicazes quantas voltas quiserem, que quanto mais examinarem, mais
perfeições, mais excelências, mais prerrogativas hão de descobrir. Bendito seja o Senhor que tal Criatura concebeu
na sua idéia, e produziu na natureza das coisas; pois só por vós unicamente adquire mais honra, e glória, que pelo
resto de todas as mais criaturas. Meu espírito se alegra com vossas ditas, se consola e goza com vossas perfeições e,
rendido ante vosso soberano acatamento, vos ama, louva e magnifica: pedindo-nos juntamente, nos façais com
vossa poderosa intercessão dignos de que vos amemos, e sirvamos a vós e a vosso benditíssimo Filho, para
chegarmos a ver o espetáculo admirável de vossa formosura, participação da sua infinita: Intuebimur in te quasi in
spectaculum.

Em outro sentido podemos, para nossa doutrina, tomar as palavras do nosso tema: Quaere peccatum illius quoad
non invenies. Isto é, que busquemos pelo exame da consciência nossos pecados até os não acharmos. Porque muitos
se os não acham, não é porque os não haja, senão porque os não buscam. Si dixerimus quonia peccatum non
habemus, ipsi nos seducimus: se dissermos (diz S. João) que não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos. Pois,
em que está aqui o engano? Não pode uma pessoa algumas vezes não achar em si pecados? Não os achar bem pode;
porém, não os ter em quanto vive neste mundo, não pode ser. E S. João não diz, se dissermos que não achamos em
nós pecados, enganamo-nos; senão, se dissermos que não temos pecados, enganamo-nos: Si dixerimus, quonia
peccatum non habemus. Aqui, pois, está o engano: em cuidarmos que o mesmo é não vermos os nossos pecados,
que não haver em nós pecados. Sendo que, para uma coisa não aparecer, basta que se não busque, e para não a
haver, às vezes não basta que se não ache; porque em MARIA Santíssima não se achou o pecado, não porque se não
buscasse, senão porque o não havia; em nós, não se acha pecado, não porque o não haja, senão porque se não
busca. Davi pedia a Deus perdão dos seus pecados ocultos (Sl 18, 13): Ab occultis meis munda me. Se eram ocultos,
não sabia que tinha tais pecados: pois pede perdão a Deus dos pecados que não sabe se os tem, tão sobre o certo e
seguro, como se os tivera? Sim; porque por serem ocultos, não deixam de ser pecados, e não é o mesmo não os ver,
que não os haver. Logo, ainda que Davi para si seja inocente, para com Deus porte-se como pecador: chore e peça
perdão: Ab occultis meis munda me.

Perguntará alguém: E como se nos ocultam estes pecados? Respondo. A nossa mesma natureza os encobre debaixo
das suas inclinações. Queria Labão achar os seus ídolos e não os pode descobrir, porque Raquel, sua filha, os tinha
metido debaixo dos aparelhos dos camelos, e sentou-se em cima, fingindo um achaque para se não
levantar: Abscondit idola subter stramenta cameli, et sedit desuper, etc. A aplicação ao que queremos dizer é clara.
Por ventura os nosso pecados e apetites não são os nossos ídolos? Ainda mal que tanto adoramos neles! Mais: E as
nossas inclinações brutais não são os aparelhos do camelo, e invenções com que se cobre, arma e defende a nossa
natureza? Sim, são. E Raquel não é o nosso amor próprio assentando-se em cima e fingindo achaques? Tudo é
verdade. Pois, quereis vós achar os ídolos? Dai com esses aparelhos por terra. Se o fizerdes, haveis de achar muita
altivez de coração, que estava debaixo do que chamamos honra; muita malícia contra o próximo que estava debaixo
da prudência, muita cobiça das coisas terrenas, que estava debaixo do cuidado da família; muito amor aos que nos
lisonjeiam, que estava debaixo da caridade; muita confiança do entendimento próprio, que estava debaixo da
ciência; muitas irrisões dos defeitos alheios, que estavam debaixo do entretenimento; muitas relaxações do espírito,
que estavam debaixo da Eutrapélia, ou recreação honesta; muitas ingratidões com os benfeitores, que estavam
debaixo do desapego e retiro; muitas negligências no servir a Deus, que estavam debaixo da falta de saúde; e para
não ser mais prolixo, haveis de achar muito de que pedir perdão a Deus, que vós cuidáveis que vos deviam pedir
perdão a vós, se tal se suspeitasse: porque como a formosa Raquel do nosso amor próprio que é filha do mesmo
espírito, que busca estes defeitos, estava assentada em cima, e fingindo achaque de que se não podia levantar,
todos esses defeitos não se viam, mas uma coisa é não os ver, outra não os haver. Por isso, enquanto não aparecem,
sempre se há de pedir perdão dos ocultos: Ab occultis meis munda me.

Mas sempre o remédio para aparecerem é buscá-los: e não só remédio para aparecerem, senão também remédio
para se irem diminuindo; porque o exame da consciência, e o conhecimento próprio de tal sorte descobre os nossos
vícios, que também nos purifica de grande parte deles. Moisés meteu uma vez a mão no peito, e saiu-lhe leprosa,
meteu-a outra vez, e saiu-lhe limpa. Meta cada um a mão no seio da consciência muitas vezes, que alguma pode ser
que saia limpa; e se não sai limpa, ao menos conheça-se por leproso. Algumas pessoas metem a mão na consciência
todas as vezes que o relógio dá horas, e com isto andam muito mais limpas; cada um faça como puder, e como lhe
aconselhar quem o governa. Mas tenha sempre por certo que uma as coisas que o demônio mais nos procura
impedir, é que a alma olhe para si mesma, e se conheça: Perpetua daemonum in entio, et labor in eo consistit, ut non
sinat nos cor nostrum observare, disse S. Efício.

Senhor, sem a vossa graça todas nossas diligências são inúteis, e todas nossas doutrinas infecundas: Ajudai-nos, por
vossa misericórdia, que sejamos Santos, pois, nos mandais que o sejamos; ou, ao menos, já que não somos santos, a
conhecer que o não somos, senão miseráveis pecadores. Conheça-me eu a mim, e conheça-vos a Vós: Noverim me,
noverim te. A mim, para humilhar-me, a vós para honrar-vos, e servir-vos; a mim para me aborrecer; a vós para
amar-vos e estimar-vos sobre todas as coisas; a mim para me desprezar e abater; a vós para vos louvar eternamente,
pelos séculos dos séculos. Amém.

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I – Dos que são mais especulativos ou teóricos.

1. Amar a Deus é grande ofício: só este basta para nos levar todo o tempo da vida e todas as forças da alma.
Por certo não tem pouco que fazer quem tem a Deus que amar. E assim todas as mais ocupações e ofícios hão de ser
ministros deste.

2. Só duas coisas merecem toda a admiração da criatura racional: a Bondade de Deus e a malícia do pecado. E
uma com outra se exageram reciprocamente; pois vemos quão facilmente costuma o pecador agravar a Deus e Deus
perdoar ao pecador.

3. Entre Deus e os homens se atravessa um mar imenso, que são nossos pecados. Porém ninguém desconfie
de chegar a salvamento, porque o Salvador sobre este mar, fez de outro mar ponte para passar-mos; sobre o mar de
nossas culpas, ponte do mar de suas penas; sobre a corrente de nossas maldades, caminho pleas correntes de seu
sangue. Oh Piloto sábio, que no vosso naufrágio constituístes a nossa salvação; e na tempestade de poucas horas, a
bonança de toda a eternidade!

4. Deixem embora os moços a consideração e temor da morte para os velhos, se se atrevem a conceder-me,
que o vidro que hoje sai das mãos do Artífice não é tão frágil, como o que saiu há muitos anos. A hora, que a cada
um toca, essa o quebra; e todas podem tocar a todos. Desde que o primeiro homem quebrou o preceito de Deus,
tão sujeita a se quebrar é a vida de um Abel, como a de um Matusalém.

5. Diz-me, pecador de costume: Acaso passarás mais seguramente o rio, quando o engrossaram as cheias?
Curarás mais facilmente a febre, quando se apossar das entranhas e se fizer ética? Vencerás melhor teus inimigos,
quando forem mais no número e nas forças? Lançarás fora do monte a serpente, quando houver vivido nele por
muito tempo e souber as entradas e saídas? Arrancarás ligeiramente a árvore, quando tenha alçado altas raízes?
Pois sabe, que maior engano é cuidares que não querendo tu agora converter-te a Deus, e arrepender-te de teus
pecados, quererás depois e poderás facilmente.

6. Acaon furtou uma régua de ouro e em pena perdeu a vida. Queremos sem delito e sem castigo furtar outra
mais preciosa? Tomemo-la a S. Paulo: Domine quid me vis facere: Senhor, que quereis que faça? Quem regrar por
esta régua de ouro todas as suas ações, palavras e pensamentos, não perderá a paz do coração, nem o tempo da
vida, nem a vida da eternidade.

7. Quatro mães muito formosas parem quatro filhos muito feios. A verdade pare ódio, a prosperidade orgulho,
a familiaridade desprezo, e a segurança perigo.

8. Ao Pródigo e ao Avarento falta o mesmo que lhes não falta: porque todos os tesouros da terra e do mar são
poucos para tornar, um a lançá-los no mar outro a escondê-los na terra.

9. Que vão ao inferno Caim pela sua inveja, Abiraon pela soberba, Zambri pela luxúria, Nabal pela avareza, o
Rico do Evangelho pela gula e regalo, as Virgens loucas pela negligência, não é para admirar; isto é para admirar, que
pelo jejum e Oração, pela esmola, continência e silêncio, pela pobreza e penitência haja também caminho trilhado
para o inferno. Por este vai a hipocrisia; mas enfim para no mesmo fim, porque secretamente se comunica e abraça
com todos os mais vícios.

10. As obras a que falta a pureza de intenção reta parecem-se com moeda falsa, ou que tem liga. Pelo cunho
correm e muitos se enganam; pelo metal não têm valor intrínseco. Daqui vem que não servem para comerciar com
Deus, e comprar-lhe o Céus; porque este Senhor não pode ser enganado.

11. O que é dotado de verdadeira virtude tem os seus males por fora e os seus bens por dentro. Pelo contrário,
o amigo dá glória vã, o hipócrita, o mundano, os seus males estão por dentro, porque são verdadeiros; e os seus
bens por fora, porque são imaginados e aparentes.

12. Como a rosa entre espinhos, assim a castidade se defende entre recatos. O recolhimento e modéstia são a
casca da continência; e a fruta sem casca facilmente se corrompe. Verdade disse, quem disse: Prope se se
consequuntur proponi formam, et exponi pudicitiam.

13. Entre todas as virtudes somente a humildade se ignora a si mesma; como traz os olhos baixos e fitos no
abismo no seu nada, não reflete sobre o seu conhecimento, porque o verdadeiro humilde não presume que o seja.

14. Da boca de um leão tirou Sansão um favo de mel; e de um favo de mel tirou Jonatas o perigo de sua morte.
Deste modo os bons sabem tirar dos trabalhos o doce fruto do seu prêmio, e das mesmas culpas bem choradas a
suavidade da clemência Divina. Pelo contrário, os ímpios da suavidade da clemência Divina fabricam o perigo de sua
morte eterna.

15. A melhor coisa deste mundo e do outro é ser santo. A razão é clara: porque a melhor coisa absolutamente é
Deus; e os que mais participam de Deus, são os que neste mundo vivem em sua graça, e no outro em sua glória; e
estes são os Santos.

16. Dá a tua vontade ao próximo: e dar-te-á o seu entendimento. Quando se inteirar de que o amas, então lhe
persuadirás o que quiseres. O anzol da razão há-de ir coberto com a isca da caridade. Caridade é língua universal que
entendem até os bárbaros e os mesmos brutos: fala nesta língua e logo serás bem ouvido.

17. Aceitar com estimação os benefícios, ainda quando os escusas, e eles são tênues, e o benfeitor os reputa por
grandes, é sinal de condição benigna e humilde.
18. As raízes da concórdia com o próximo são as semelhanças dos ditames do entendimento e inclinações da
vontade. Nas três Divinas Pessoas onde há suma união, há um só entendimento, uma só vontade, uma só natureza.

19. Com a tenaz de ouro pegou o Anjo da brasa do altar; e levando a brasa, levava juntamente o fogo. Não vás a
Deus senão por Cristo; nem a Cristo senão por Maria. Quando não vás, mas és levado, vai por onde Deus te leva.

20. O ramo que tem muita fruta inclina para a terra; o que nenhuma, levanta-se para o ar; e dizem que se lhe
penduram uma pedra, então leva fruto. Os servos de Deus, quanto mais e melhor obram em seu serviço, mais se
humilham; e os que nada fazem, mais se ensoberbecem. Mas, para levarem algum fruto, os carrega Deus com a
tribulação e desprezo.

21. No mundo espiritual e interno o Sol é a Cruz; desta nasce toda a luz da inteligência e todo o fervor do afeto:
e se daqui não nasce, temo que sejam luz e fervor falsos.

22. Os exercícios e penitências que a alma toma, alguma coisa a purgam: a perseguição dos demônios, mais; a
dos próximos, ainda mais; mas sobretudo Deus com as subtrações de sua graça.

23. Não tens inimigo mais poderoso, mais astuto, mais emperrado, e mais doméstico, do que é teu amor-
próprio. Se queres errar frequentemente, sentenceia pelo seu voto.

24. Quem pelo discurso humano presume esquadrinhar os juízos divinos, sonda o mar com uma bóia; e quem ao
juízo divino pretende encobrir os discursos humanos, tapa o Sol com um vidro. Porque para a profundeza de seus
conselhos, toda a nossa consideração é leve; e para os raios de sua vista, todo o nosso coração é transparente. Vidro
chamei ao coração humano; ainda mal que se lhe parece em muitas propriedades; porque não só é para os olhos
divinos patente, mas também para a impressão de seus avisos duro, e para os golpes de seu castigo frágil: In flagellis
tuis infirmitas nostra teritur, et iniquitas non mutatur: mens aegra torquetur, et cervix non flectitur.

25. A mais importante, a mais difícil e a mais gloriosa empresa que o coração humano pode acometer, é vencer
a si próprio. Dura o combate quanto a vida dura; porém morrer no conflito é o mesmo que vencer, e as armas na
mão são o mesmo troféu.

26. Desconfia de ti, e confia em Deus; que é o mesmo que não fundar em areia movediça, mas em penha viva;
nem defender-te com escudo de cera, mas de aço. Ou presumas da tua fortaleza, ou desconfies da bondade de
Deus, sempre o desobrigas de socorrer-te.

27. Muito proporcionado modo de alcançar graças é render graças. Para ali correm as coisas estimáveis, para
onde são estimadas. O agradecimento é aqueduto da liberalidade. Um ingrato pedindo, apara uma mão à fonte e
com a outra a entope.

28. O soberbo é filho do diabo, assim como o humilde o é de Jesus Cristo. O soberbo parece em certo modo que
afeta negar-se de criatura e constituir-se Deus sobre o altar de seu coração, incessando-se com os fumos da sua
vaidade e sacrificando-se às inferioridades que considera nos mais: Non sum sicut caeteri homines. O soberbo
esteriliza, quanto em si é, a Divina Misericórdia e renuncia o Espírito Santo.

29. Na maior pobreza está encantado o maior tesouro. Dos espinhos dos trabalhos rebetam rosas das
consolações. O jugo de Cristo sobre nossos ombros, converte-se em asas. Pela aniquilação se entra a ser tudo.
Abaixando-te tocarás no Céu. Sofrendo se vive à vontade. Quanto mais atribulado, mais mimoso. Quanto te
aborreceres, maior bem te queres. Oh doutrina altíssima, ensinada enfim pela Sabedoria do Eterno Padre! Oh
paradoxos de verdade Católica e de fruto de vida eterna!

30. Não há modo de mandar ou ensinar mais forte e suave do que o exemplo: pesuade sem retórica, impele sem
violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas.
Pelo contrário, fazer uma coisa e mandar ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida.
31. Não há coisa mais doce que o Amor de Deus, nem mais robusta, nem mais sublime, dilatada, aprazível e
preciosa no Céu e na terra. Todas as dificuldades alhana: para todo o peso lhe parece que tem ombros; envergonha-
se da palavra: Não posso; não se queixa, nem murmura, nem regateia obséquios com o amado; vive, e se conforta
de padecer e trabalhar. Como nasceu de Deus, é generosíssimo, e não afeta o mínimo interesse próprio. Quem
reparar como é ativo, e leve, e amigo de liberdade, e simples, e sutíl, e penetrativo, e purificador, logo dirá que é da
natureza de fogo. Procura, alma minha, arder neste fogo, e serás bem-aventurada.

32. No Evangelho está escrito que os de Nazaré levaram a Jesus ao pico de um alto monte, para dali o
precipitarem. Montes são as dignidades: Jesus é a graça e estudo da perfeição espiritual; se subires a alguma
dignidade, olha não precipites dali a Jesus.

33. Verdadeiramente são inexplicáveis os proveitos que vêm a uma alma das injúrias e tribulações bem levadas.
Se o demônio não destruíra a fazenda de Jó, não lha dobrara Deus; se Saulo não perseguira a Igreja, a Igreja não fora
defendida, honrada e propagada por Paulo; José foi adorado de seus irmãos, porque de seus irmãos foi vendido. Só
o proveito de nos meterem as tribulações mais com Deus, não tem preço; porque enfim somos (diz Crisóstomo)
como meninos; que quando nos fazem cocos, então fugimos para a mãe: Ad Deus currimus, sicut pueri, cum larvas
aspiciunt, ad matrem.

34. Os Santos não se diferençam dos pecadores e imperfeitos em não ser tentados e perseguidos; senão, em
que o pecados e imperfeito com qualquer leve impugnação cai; e o Santo contra a mais forte se sustenta.

35. Se o homem não tem dentro de si mesmo pela assistência e manutenção divina tudo o que é necessário
para se defender dos inimigos da alma, nenhum lugar, nem companhia, nem estado, nem outra qualquer ajuda
extrínseca o pode assegurar.

36. Desculpar-me do pecado é agravá-lo; porque se estou inocente, o silêncio é a melhor prova disso; e se o não
estou, a escusa envolve soberba e mentira. A boca dos ímpios (diz Salomão) tapa a maldade: Os impiorum operit
iniquitatem. E pouco antes tinha dito: Que a maldade tapa a boca dos ímpios: Os impiorum operit iniquitas. Como
lhes tapa a maldade a boca, se com a boca tapam eles a maldade? É que, tapando a maldade, a descobrem mais; e
então com a desculpa ficam tão convencidos, que não tem mais que dizer.

37. A memória de Deus é saúde e limpeza da alma. Parece que a alma não tem o rosto e mãos lavadas enquanto
se não purifica, refresca e aligeira na memória daquele Senhor, que é fonte de toda a consolação e pureza.

38. O azeite afugente as sevandijas asquerosas que se criam no leito; e o nome de Jesus os pensamentos torpes
que se criam no ócio: Oleum effusum nomen tuum.

39. Água de lágrimas e fogo de amor conduzem a alma ao refrigério da união com Deus:Transivimus per ignem,
et aquam, et eduxisti nos in refrigerium.

40. Tribulações tomadas como da mão de Deus, com submissão e paciência, são a divisa dos Predestinados. A
quem Deus não açouta é sinal que não perfilha (disse S. Agostinho): Si exceptus es a passione flagellorum, exceptus
es a numero filiorum. O lavrador mete no jugo os bois que reserva para si, e manda pastar os que há de vender para
o talho. De Salomão sabemos que pecou, e sabemos que logrou contínuas prosperidades; por isso não sabemos se
se salvou.

41. Há uma conversação, que é pasto da alma; e há outra, de que a alma é pasto. Quando falamos com Deus, ou
de Deus, a alma come, porque a devoção se lhe aumenta; porém quando falamos com o mundo, ou do mundo, a
alma é comida e carcomida; porque a devoção se lhe gasta e consome.

42. O encalmado de amor de Jesus Cristo, diz das injúrias e calúnias, como se foram fruta colhida pela fresca:
Estão ricas! Não há mais?
43. Se espancas os cães da vinha, pareces ser também ladrão. Não és tu dos reformados, pois murmuras e
intimidas os zelosos. Mas lá está o Senhor da vinha, a quem darás conta dos frutos, que nem defendeste, nem
deixaste defender.

44. A nossa alma é como a espada; que, se não passa por fogo e água, isto é, por trabalhos voluntários e
involuntários, e por tentações de prosperidade e adversidade, nunca toma têmpera, com que sem quebrar, dobre e
logo torne a ficar direita.

45. Sem dinheiro não há mercador, ainda que tenha grande agência, e muita indústria. E sem humildade não há
homem espiritual; por solícito e prudente que seja, não embolsará virtudes.

46. Que maior altura que a de Deus? E para topar com ele, o remédio é baixar bem a cabeça. Porque tantos a
erguem, tão poucos lhe chegam.

47. A mão bem despegada dos bens terrenos, não é a que dá esmolas do supérfluo; senão a que não desvia
faltas do necessário.

48. A porta do Céu, diz o Evangelho que é estreita; o mesmo se pode dizer da anteporta, que é a Oração. Mal
podem entrar por ela espíritos, ou muito inchados de confiança própria, ou muito enfeixados de cuidados de
fazenda, ou muito acompanhados de amor de parentes.

49. Quando à custa de trabalhos e suores tiveres já domado e obediente teu vil e desprezível corpo, e te vires
livre de suas dependências e cativeiros, e que já se espiritualizou de modo que não remurmura da fome, sede e
trabalhos, então verás, mais claramente que em um espelho, aparecer no centro da tua alma aquele Senhor, que é
sobre toda a capacidade do nosso conceito. Vê-lo-ás, não obstante ser invisível: e a alma profundamente chagada de
seu doce amor, misturará com o gozo, muitas lágrimas mansas e suspiros inenarráveis. Neste estado lembra-te de
mim: ora por este pecador vilíssimo, porque sabe que tens chegado à união com Deus, com a qual te deu
juntamente uma tal confiança, que nunca sairás envergonhado de sua presença.

50. Repare-se na indústria com que o Autor da Natureza criou na espiga cada grão armado com sua aresta por
amor das aves roubadoras. Assim também na Oração nenhum fruto nos concede, que juntamente não nos dê
virtude para o defendermos das tentações.

51. Enquanto não sou capaz de vitupério, também o não sou de louvor. Porque impossível é, que o louvor me
não esvaeça, se o vitupério me exaspera. E a grimpa que se move para uma parte com este vento, por que se não
moverá para a contrária com o contrário?

52. Está escrito: Lança de casa a escrava Agar e seu filho Ismael; porque não será herdeiro o filho da escrava
com meu filho Isaac. A escrava é nossa vontade; seu filho é o amor-próprio; Isaac é o amor divino; a herança o Reino
de Deus, que está dentro em nós.

53. Sumamente odiosa aos demônios é a Oração pura; e o que a faz pura é a concórdia do sentido com o
espírito e do espírito com Deus; porque o inimigo não cobra terror, tanto do exercício numeroso, quanto do bem
formado.

54. Quando todos os próximos te parecem bons, nem descobres neles coisa que se te represente imunda e
contaminada, então és limpo de coração e por conseguinte poderás ver a Deus. Procede isto de reinar na alma um
especial sentimento e participação da simplicidade Divina, que não é discursivo, senão que como coluna de nuvem e
luz, por uma parte encobre todas as virtudes próprias e defeitos alheios; por outra, mostra todas as virtudes alheias
e defeitos próprios.
55. Um Santo Padre define a ciência deste modo: Scientia est se ipsum nescire extra se positum in Deo: É não
saber um de si mesmo, por estar fora de si posto em Deus. Isto se faz na Oração e contemplação. Por onde só os que
a exercitam e logram, são os verdadeiros sábios.

56. A Sabedoria Divina com uma alma é uma mãe com o seu menino. Para que o menino pegue no seio, não há
diligência que a mãe não faça: canta, embala, afaga, acaricia e trata-o com todo o mimo e brandura. Porém tanto
que é necessário dar-lhe comida sólida, porque já tem dentinhos; afasta-o de si e diz-lhe rigorosamente: não, não,
isto amarga. O mesmo usa Deus com os principiantes, consolando-os e mostrando-se amoroso. Depois que tem
pegado na Oração e adquirido alguma firmeza na vontade, seca-se, e leva-os por tribulações, que é o pão sólido,
com que se fazem homens.

57. Onde no mundo grande se ajuntam e continuam as trevas com a luz (que é na superfície da terra) aí quis
Deus que o mundo pequeno peregrinasse, até que as suas trevas se alumiem, ou pelo contrário, a sua luz se
escureça eternamente. Peça logo a Deus, como David pedia:Quoniam tu illuminas lucernam meam Domine, Deus
meus illumina tenebras meas.

58. Deus, como Criador, é nosso princípio; como Glorificador é nosso fim; e como Redentor é nosso meio, para
conseguirmos esse fim. Porque nada, que saiu de Deus, pode tornar para Deus, senão pelo mesmo Deus.

59. Verdadeiro bom Pastor é aquele, que por tratar melhor do seu aprisco, se fez Cordeiro, se fez pasto, e se fez
aprisco: Cordeiro tomando o nosso corpo na Encarnação; pasto, dando-o no Sacramento; aprisco, rasgando-o na
Cruz para nos recolher e amparar nas suas Chagas.

60. O coração multiplicado pela diversidade de desejos, nem sabe buscar, nem pode achar aquilo que é um de
tudo; isto é, o bem que por ser sumo, é também simples; e por ser simples quer nosso coração totalmente um. E
esta é a limpeza, a quem o Senhor prometeu sua vista, porque este é o um necessário que se não descobre, sem
escusarmos a multidão supérflua:Turbaris erga plurima: porro unum est necessarium.

61. De que te jactas, homem vanglorioso? Do mau, ou do alheio? Tudo o que tens de bem, é mercê alheia; tudo
o que tens próprio, é miséria pura. Escolhe agora, qual destes títulos se faz louvável. Qualquer dos dois, que assines,
sempre te mostras néscio; porque ou desconheces o Autor do Bem, o a natureza do mal: Unde igitur (diz S.
Agostinho) gloriabitur omnis caro? Nunquid de malo? Haec non est gloria, sed miseria. Sed nunquid gloriabitur de
bono, nunquid de alieno? Tuum, Domine, est bonum, tua est gloria.

62. As tábuas da Lei, que eram de pedra, mandou Deus guardar na Arca, que era de ouro; para que
entendessem os homens quanto maior estimação deviam à observância da Lei, do que às riquezas da terra; e que
mais desvelo haviam de ter em guardar os Mandamentos, do que em guardar os tesouros.

63. O mundo é mar, a ambição é sede. Não me espanto que o ambicioso se não sacie com os bens do mundo;
porque a água salgada não apaga, antes acende as securas. Impossível é apagar bebendo, a sede que nasce de
beber; e satisfazer possuindo, a cobiça que nasce de possuir.

64. As tribulações dos Santos são enigma: uma coisa parecem, e outra são e significam; parecem misérias da
fortuna e são conselhos da Providência Divina e sinais da felicidade eterna.

65. O pão sustenta o corpo; a Oração a alma. Se o corpo anda falto de sustento, com qualquer tropeço ou
encontro, cai; e se a alma anda falta de Oração, com qualquer tentação peca:Aruit cor meum, quia oblitus sum
comedere panem meum.

66. Quando o pecador considera a grande miséria de seu estado, então começa ela a não ser já tão grande:
porque o princípio de contentar a Deus é descontentar-se de si; e sem tornar em si, ninguém torna para Deus. Assim
nos ensina a parábola Evangélica daquele moço mal aconselhado e bem arrependido: In se reversus dixit, ibo ad
Patrem.
67. Se importou que Cristo padecesse, para entrar na glória própria, como não importará que tu padeças, para
entrar na sua? No Céu todos são Reis, mas os seus ceptros não se fazem senão de Cruzes. Decretou Deus fazer Bem-
aventurados de miseráveis; tu não hás de ensinar-lhe a fazer a glória. Se te não serve para ti do modo que a dispôs
Deus até para com seu Filho, faz outra a teu modo, que então serás miserável eternamente.

68. O estado melhor em si, nem sempre é o melhor para ti. No mesmo terreno pega bem uma planta, e floresce,
e frutifica; e outra murcha ou pasma e seus frutos são desmedrados.

69. Sub umbra dormit in secreto calami, et in locis humentibus. Protegunt umbrae umbram ejus, et
circumdabunt eum salices torrentis. Neste texto de Job lhe fala ao pé da letra o demônio. O homem é mundo
pequeno; as moléstias com que por divina permissão o demônio persegue ao homem são várias. O mais, Qui legit
intelligat.

70. Vícios da nossa natureza não saram senão com a graça; porque a graça é participação da natureza de Deus; e
só a natureza daquele que é bom por si pode retificar a natureza daquele que não é bom senão por Ele. Mas esta
graça quer-se muito pedida e solicitada e esperada; e depois muito agradecida, guardada e empregada. Porque tão
raros isto fazem, por isso tantos morrem com os mesmos vícios com que viveram.

71. A caridade do próximo é a mesma caridade de Deus quando abunda; assim como a água que trasborda é a
mesma que enche o vaso. Daqui se mostra, que se cuidas que amas muito com verdadeira caridade o próximo, sem
amares ainda muito a Deus, te enganas; porque esse não é mais que um amor, ou natural, ou político. Vê-lo-ás pela
facilidade com que se desata com qualquer impugnação contrária; o que não sucede, quando era caridade
sobrenatural e de legítimo nascimento de Deus.

72. A mão grosseira e calosa não percebe distintamente pelo tato as coisas materiais; muito menos se tiver
calçada a luva. Ao nosso espírito sim foi dado sentimento e percepção das coisas espirituais e divinas; porém, como
o temos envolvido e calçado entre tantos sentimentos grosseiros das coisas terrenas, daqui vem não poder formar
notícia que o afeiçoe e faça sábio das coisas divinas.

73. Muitos ainda dos que aspiram à perfeição se enganam na eleição do bem, ou declinação do mal, movidos de
razões claras que lhes propõem o seu entendimento, não advertindo que há outras razões de superior ordem, das
quais haviam de fazer regra. Não basta só seguir a razão em aparecendo; é necessário compará-la primeiro com
outra razão e então seguir a que for maior. E sempre as razões Divinas e eternas e Evangélicas são maiores que toda
a razão humana, temporal e política.

74. Quanto mais te sujeitares, mais sábio serás. O caminho da humildade e o da luz não são dois, mas um só. Tu
não crês que Deus é Luz e Sabedoria? E que se afasta dos que estribam sobre si mesmos? Logo como pode ser, que
afastando-se Deus de ti, fiques ainda com luz e sabedoria? O corpo inteiriçado perde a sensibilidade; e se o espírito
também se inteiriçar, também perderá o tato espiritual das verdadeiras verdades.

75. A vida da alma é o amor de Deus; a vida do amor de Deus, é a Oração pura; a vida da Oração pura é a
mortificação contínua; a vida da mortificação contínua é a resolução generosa. Resolvamo-nos: de outro modo
nunca viveremos ao amor de Deus.

76. Onde não há silêncio, não há muita Oração; onde não há muita Oração, não há muita virtude. Agora, se
entendes que te é necessária a virtude, entenderás se o silêncio te é necessário.

77. Enquanto não amares os desprezos, as mofas, detrações e contradições do próximo, não hás de fazer coisa
grande; e tanto que o demônio vir que a intentas, aí tem com que derrubar-te quantas pedras fores pondo no
edifício. Assim como o abanador enxota as moscas, assim afugenta os soberbos o temor de serem desprezados.
78. Não emendarás a língua, enquanto não emendares o coração. E porque uma vez emendado o coração
somos perfeitos; por isso disse o Apóstolo S. Tiago: Que quem não tropeçasse na palavra, era varão perfeito.

79. O demônio é cozinheiro (Nabuzardan princeps coquorum): se vê que não gostamos do pecado guisado dum
modo, tantos temperinhos lhe busca, até que nos abre a vontade; e se não levamos todo, contenta-se com que
provemos algum bocado.

80. Samuel disse a Saul, quando este lhe desobedeceu: Que a dureza de juízo era como a idolatria: Quasi
peccatum arilandi est, repugnare: et quasi scelus idolatriae, nolle acquiescere. O homem aferrado ao seu parecer, em
concebendo alguma coisa que intenta, ou ajuíza, faz ídolo daquele conceito, e o coloca no altar do seu coração, e
com ele consulta o que há de fazer; e as respostas que ouve em si mesmo, essas segue, e tem como vindas do Céu,
sendo que vem do demônio, que fala por aquele ídolo.

81. Mortificação é crucifixão: e assim como ninguém pode crucificar a si mesmo de todo, se outro de fora o não
crucifica, assim ninguém se mortifica perfeitamente, se outro não ajuda a isso. Pregará quando muito os pés com as
mãos, e uma mão com a outra; e isso com esperas muito detençosas, e grande mágoa de si mesmo, mas a outra
mão sempre lhe ficará solta.

82. Quem tem frio, chega para si a roupa; e quem tem calma, a afasta. Assim, quem tem amor de Deus, logo lhe
enfadam as coisas deste mundo e deseja alongar-se delas. E pelo contrário, quem está frio neste amor, como não
tem consolação por dentro, a busca por fora nas criaturas: e isto é chegar para si a roupa: Quid enim (disse S.
Gregório) sunt terrena omnia, nisi quaedam corporis indumenta?

83. O Santo Frei Egídio, discípulo do Seráfico Padre S. Francisco, dava esta doutrina, que é a substância de toda a
vida espiritual. Se queres bem sentir, tira de ti todos os sentidos. Se queres bem amar, tem ódio a ti mesmo. Se
queres bem ganhar, sabe perder. Se queres viver deliciosamente, aflige-te; se estar seguro, está sempre em temor;
se ser honrado, despreza-te; e honra aos que te desprezam; se ser abençoado, deseja haver maldições. Oh quão
grande sapiência é saber fazer isto! E porque são grandes coisas, não são concedidas a todos.

84. O demônio parece-se com a serpente Amphisbaena, que na cauda tem outra cabeça. Porque consistindo as
virtudes no meio, ele morde por ambos os extremos; já nos quer arrojados, já pusilânimes; ora presumidos, ora
desesperados; agora nos puxa para o silêncio indiscreto e logo para a loquacidade vã; se nos examinamos devagar,
carrega para o escrúpulo; se só de passo, para a relaxação e liberdade da carne.

85. Se aceitares os conselhos de Cristo, não sentirás pesada a lei de Deus. Ponhamos exemplo: manda Deus que
não cobiçemos coisa alheia; e aconselha Cristo que não possuamos coisa própria. Manda Deus que não demos mal
por mal; e aconselha Cristo que oremos pelos que nos perseguem e caluniam. Observa tu, como bom Religioso,
estes conselhos; não quebrarás, como mau secular, estes mandamentos. Toma sobre ti maior carga, sentirás menor
peso. Mais custara aos bois levar a carga, se não levassem justamente o carro e as rodas; nem a ave pudera levantar
o corpo, se não levantasse juntamente as asas.

86. O demônio, para casar com a alma, fala-lhe de noite. Porque se a alma vira como é feio, nunca em tal
consentira: Ita se habet peccatum (diz S. João Crisóstomo); ut priusquam fiat et ad opus perveniat, obtenebret, et
decipiat mentem.

87. Faz com Deus o que podes, Deus fará contigo o que não podes. A sua graça dá de si, quanto racionalmente
puxamos por ela; e aos esforçados aumenta o esforço: Posui adjutorium in potente.

88. A formosura de qualquer criatura que vemos é mensageira ou precursora da formosura de seu Criador, que
esperamos ver, como o Batista de Cristo. Serve de nos trazer recados da parte de seu Amor e novas de seu Poder,
Sabedoria e Bondade. Nós, a esta ou aquela criatura, a queremos levantar por Deus, como os judeus queriam fazer
Messias ao Batista. Porém responde-nos, como ele respondeu: Non sum: Eu não sou Deus, que é o mesmo ser, sou a
que não sou; sivro de voz, que clama neste deserto da tua peregrinação, que endireites teus caminhos para o
Senhor: Ego vox clamantis in deserto: Dirigite viam Domini.

89. Perguntado o Angélico Doutor S. Tomás que sinais tinha o homem espiritual perfeito, respondeu que dois:
primeiro, se se abstém de palavras jocosas e ociosas; segundo, se leva bem ser desprezado.

90. O homem que naturalmente é pacato e manso de coração corre-lhe obrigação de sofrer a seus próximos,
que não tiverem esse dom; assim como o filho a quem seu pai deu o morgado, deixando os mais irmãos pobres, leva
o encargo de os sustentar. E nem aquele deve presumir de si, nem os outros desconfiar, porque pode o primeiro
perder e destruir esse morgado com vícios; e podem os outros com seu trabalho e diligência granjear muitas
riquezas de virtude.

91. Maior distância vai do obrar ao padecer; do que do dizer ao obrar. Dos que dizem, muitos obram; dos que já
obraram muitas coisas e se exercitaram em várias virtudes da vida ativa, raros são os que metidos debaixo da Cruz,
puramente ao passivo, saibam levá-la bem. É porém tão rendoso o campo do padecer; que pouca parte que se
aproveite, enriquece muito a alma.

92. Se alguma coisa obraste, ou disseste por te vingar de teu irmão, no tempo da Oração o pagarás; porque
buscas a um Senhor, que também do outro é pai; e quando tu só foras seu filho, então devias mais ensinar-te e
repreender-te. A Oração (disse S. Nilo Abade) é mansidão, e criatura gerada no desabitado da ira: Oratio est
mansuetudo, et faetus ex vacuitate irae procreatus.

93. Os grandes do mundo são escravos da sua grandeza. Não se podem arrojar, sem levar consigo tantos
grilhões e bragas, quantos pontos de honra e razões de estado. Se descaíssem do estado, ou o renunciassem, então
ficariam forros.

94. Se quebras com teu próximo tanto que achas ter grande razão para isso, brevemente ficarás só contigo; e
contigo houveras de quebrar primeiro, pois és quem mais te persegue e arrisca. E sobre a razão, que tu achas
grande, há muitas muito maiores, a que deves atender; que são o amor que deves a Cristo, que ele manda lhe
pagues na mão do próximo: o prêmio do perdão de injúrias e sofrimento de ingratidões; o perdão que tu desejas de
teus pecaods; a quietação da consciência na hora da morte; a esperança que todos temos de viver unidos em Deus
eternamente, etc.

95. Quando os Persas, por morte de el-Rei Chorroas, restituiram o sagrado lenho da Cruz, ainda vinha fechada
na mesma arca em que a tinham levado, e com o mesmo selo inviolado; sinal de que a não viram, nem tocaram, nem
lhes servira de mais que de destruição do seu império. Deste modo, se não aproveitam os maus Cristãos dos frutos
da Cruz. Os seus mistérios estão para eles fechados, nem olham mais que para o exterior. Têm fé, mas metida como
numa arca, sem usar dela; e assim, em vez de se salvarem, perdem-se. Pelo contrário, o varão espiritual sabe abrir os
selos da Cruz de Cristo, conhece seu preço e estima este tesouro.

96. Três sortes de pessoas (diz o V. Beda) são infelizes na lei de Deus: o que não sabe e não pergunta; o que sabe
e não ensina; o que ensina e não faz.

97. S. Macário disse: Se o Monge tem o desprezo por louvor, e a pobreza por tesouro, e o jejum por iguaria,
nunca morre. Porque impossível é que o que crê bem em Deus, e o serve pia e fielmente, caia em paixão imunda, ou
engano dos demônios.

98. A vida espiritual ordinariamente consta de três estaçòes: na primeira edificamos nós; na segunda destrói
Deus esse nosso edifício; na terceira edifica o seu. Na primeira há virtudes imperfeitas; na segunda virtudes
purgando-se; na terceira virtudes já purgadas. Na primeira consolações sensíveis; na segunda desamparos e
tribulações; na terceira, consolações espirituais e muitos dons e favores de Deus.
99. Uma onça de Oração, feita no meio de trevas e securas, com o ápice, ou ponta do espírito, vale mais que
cem libras feitas entre consolações e ternuras.

100. Amontoas virtudes, devoções e exercícios pios, sem primeiro fazer cabedal de humidade? Pois supõem que
levas pó nas palmas das mãos contra os ventos.

101. Conhecer-te por miserável não é logo ser humilde: é não ser bruto. Se desejas e trabalhas porque te tratem
como a miserável, então tens humildade; porque então tratas contigo verdade.

102. A alma que deseja humildade deve lançar por primeira pedra deste alicerce; que não merece adquirir a
humildade, e que todas as suas diligências e trabalhos não poderão fazer que a logre, mas somente a misericórdia de
Deus.

103. A Cruz é a porta real para entrar no templo da Santidade: quem buscar outra, não entrará jamais, nem um
passo.

104. Jejuar à minha própria vontade pode ser pura tentação do diabo. Oh que de jejuadores se hão perdido!
Porém de obedientes, nenhum. O miserável Fariseu jejuava duas vezes na semana, e foi reprovado; o Publicano não
jejuava, e foi justificado.

105. Quem pode exercitar a doçura de espírito no meio das dores, a generosidade no meio das fraquezas, a paz
no meio das contradições, este é mais que perfeito. A mansidão, a suavidade de coração, a igualdade de humor, são
virtudes mais raras que a castidade; e assim as devemos ter em grande estimação. Não há coisa que mais edifique,
que a mansidão caritativa; nela, como no azeite da lâmpada, vive e se nutre a chama do bom exemplo.

106. Há umas fraquezas no doente, que se remediam tirando sangue; porque não nascem de falta de forças,
senão de estarem agravadas e oprimidas. Assim, a debilitação e quebramento que sentimos para as obras de Deus,
procede de agravação dos apetites, aos quais quanto mais mão damos, maior fraqueza contraímos. E assim, o
remédio é sangrar-nos destes apetites.

107. Quem mais mortifica suas naturais inclinações, mais atrai as inspirações sobrenaturais.

108. A palavra revestida de brandura tem muito mais força e lustre; e revestida de cólera, uma e outra coisa
persuade ao próximo, do que o que se lhe intenta persuadir com modo apaixonado ou imperioso.

109. Se fores humilde de verdade, acharás palpavelmente que é impossível fazer-te alguém agravo. Ao nada
nunca pode faltar lugar, e sempre lhe sobra honra; e o prostado em terra, como temerá cair?

110. A maior segurança que neste mundo podemos ter de estar em graça de Deus, não consiste nos sentimentos
que temos de seu amor, senão na pura e irrevogável entrega de todo o nosso ser nas suas mãos, e na determinada e
absoluta resolução de não consentir jamais em pecado algum, grande, nem pequeno.

111. Importa perseverar dentro da barca em que estamos, para passar o golfo deste mundo e sair no outro.
Porque ainda que muitas vezes nos não pusesse nela a mão de Deus, senão as dos homens, todavia, uma vez dentro,
quer Deus que não saiamos. Mudanças e transmigrações, ainda de bem para melhor, são arriscadas; não por razão
do termo, senão da passagem.

112. Quem quer outra coisa, senão a Cristo, não sabe o que quer; quem pede outra coisa, senão a Cristo, não
sabe o que pede; e quem obra, senão por amor de Cristo, não sabe o que obra.

113. Foges da Cruz? Encontrarás outra maior. Quanto melhor estava a Jonas ir por seu pé a Ninive, do que ir no
ventre de uma baleia? Se o povo de Israel não murmurara no deserto, não andara e desandara por ele quarenta
anos: Qui timent pruinam, irruet super eos nix.
114. Mais aborrece a Graça o ócio, do que a Natureza o vácuo. Por isso tanto que receberes algum favor,
prepara-te para a tentação, ou adversidade; porque quer Deus que negoceies com os talentos.

115. Santa Teresa de Jesus, já depois de estar no Céu, disse a uma sua filha cá na terra: Os do Céu e os da terra
sejamos uma mesma coisa em pureza; os do Céu gozando, os da terra padecendo; nós outros adorando a Essência
Divina, vós outros o Santíssimo Sacramento.

116. Os sentidos militam contra a Fé; porquanto o objeto desta respeita os bens futuros, e o daqueles os bens
presentes. E assim tanto que a alma pelos sentido prende e pega dos bens presentes, despreza, e perde a vontade
de sustentar-se na esperança dos bens futuros. Importa pois grandemente negar violentamente os sentidos, para
que a fé tome forças, e o espírito fechado por uma parte, saia pela outra a buscar o que na verdade lhe convém.

117. A razão de obrarmos o mal tantas vezes e tão facilmente, é porque a alma está pronta para isto. E esta
prontidão (entre outras causas) nasce de que a obra precedeu o pensamento consentido, ou ao menos tratado e
revolvido morosamente no interior; e a este pensamento precedeu a memória simples, ou imaginação do mal. Por
onde, enquanto não consumirmos estas memórias ou imaginações do mal, com a memória de Deus frequente, e se
puder ser, contínua, sempre a alma se achará pronta para o mal.

118. Adverte que a frouxidão e ignávia é a mãe dos vícios; porque os bens que adquiriste, fará que os percas; e os
que te faltam, fará que os não adquiras.

119. Os que agasalham no seio a recordação sentida das suas injúrias, e entretanto lhes parece que oram, são
semelhantes aos que enchem o cântaro na fonte e vazam em outro furado.

120. Se a Moisés mandou Deus não chegasse à Sarça ardendo, sem primeiro se descalçar, como queremos nós
chegar na Oração a Deus, que excede todo o sentido e pensamento, e tratar ali com ele, sem despir primeiro
cuidados terrenos repreensíveis e paixões pertubadoras?

121. Quem sabe afogar a ira, mostra ser prudente e do número seleto dos que oram.

122. Na Igreja primitiva os Cálices eram de pau, mas os Sacerdotes de ouro; agora os Cálices são de ouro, mas
muitos Sacerdotes são de pau.

123. Repara bem, que te deixará o demônio jejuar a pão e água, e cingir-te de cilícios, e carregar-te de disciplinas,
e visitar Igrejas e Santuários, e comungar muitas vezes, contanto que não faças Oração Mental. Pelo que é comum
sentir dos Santos Padres, que nenhum exercício pio aborrece tanto como este; porque por ele entra o homem em si,
e abre os olhos, e lhe aproveitam muito mais todos os outros.

124. Quando o demônio, depois de aplicar todas suas artes e máquinas, não pode todavia impedir a Oração da
alma diligente, então dissimula um pouco e finge retirar-se; e de súbito revolta sobre ela, vingando-se em acendê-la
em alguma paixão de ira, com que lhe dissipa a boa têmpera de espírito que tinha adquirido pela Oração; ou a faz
cair em alguma imundície das em que nos parecemos com os brutos, para injuriar a semelhança que pela Oração
tínhamos com os Anjos.

125. Mais estima Deus a alma determinada a receber por seu amor todo gênero de interior desamparo e
qualquer trabalho que lhe venha, do que se tivera muitas meditações e visitas espirituais, quantas ela possa receber.

126. Disse o Divino Esposo que a Alma Santa o ferira com um cabelo do seu pescoço: In uno crine colli tui: porque
mais agrada a Deus o menor ato de sujeição e obediência, do que grandes obras em que o possamos servir.
127. O nosso Anjo nem sempre nos move o apetite a obrar, ainda que nos ilumine o entendimento para obrar. E
assim não nos prometamos a suavidade sensível, quando basta a razão ilustrada; nem cuidemos que por nos faltar
aquela, esta vai errada e a obra não é de Deus.

128. Se purgares a alma de paixões e apetites, que lhe são peregrinos, compreenderás espiritualmente as coisas,
e se negares de ti o apetite acerca delas, perceberás a verdade que em si tem, conhecendo decerto o que há em
cada uma.

129. Que sabe quem não sabe padecer por amor de Cristo? Quando se trata de trabalhos, quanto mais grave e
maiores são, tanto melhor é a sorte que os padece.

130. Não consiste a perfeição nas virtudes que um em si conhece, senão naquelas que Deus aprova; e sendo isto
tão oculto aos olhos do homem, nada tem de que presuma e muito de que sempre tema.

131. Procura chegar a estado, que todas as coisas para ti sejam de pouca ou nenhuma importância, nem tu para
elas; para que, esquecido de todas, estejas com teu Deus no secreto do teu retiro.

132. Oh quanto nos importa ser solícitos e contínuos na Oração! Porque se não é mediante a graça de Nosso
Senhor, impossível é ao homem crucificar sua carne; e muito mais impossível a mortificação interior e abnegação de
si mesmo e o exercício das virtudes; por serem coisas muito sobre a nossa natureza.

133. Da conformidade e união da nossa vontade com a Divina, nasce na alma uma contínua alegria em todos
tempos e sucessos; que então é pura e limpa, e segura do amor próprio.

134. A nossa vileza própria descende destes quatro costados: Nada, Pecado, Morte e Inferno. Nada que fomos
antes de nos criar Deus; e nada que podemos sem Deus, para obrar assim natural, como sobrenaturalmente. Pecado
que incorremos em nosso primeiro Pai; e pecado que cometemos por nossa vontade própria. Morte de que temos
contraído a dívida antes de nascermos; e morte, que pagaremos certamente, incertos do quando, onde, e como.
Inferno, que temos justamente merecido, e não sabemos se hoje cairemos nele, para não sair eternamente.

135. Eu te advirto (disse a Virgem Santíssima Senhor Nossa falando com sua serva) que não há exercício mais
proveitoso e útil para a alma que o do padecer; porque dá luz, desengana e o leva a Deus, e Sua Majestade lhe sai ao
encontro, porque está como atribulado, e o livra e ampara.

136. Linguagem da terra é falar bem de si, mal de outros, e nunca de Deus; linguagem do Céu é falar mal de si,
bem dos outros, e sempre de Deus ou para Deus.

137. Deus se descobre a quem humildemente se encobre; e Deus se encobre a quem vãmente se descobre.

138. As ânsias de receber favores de Deus, pondo o cuidado no interesse, inabilitam para os receber; porque são
indícios de pouca humildade, e pouca pureza de intenção, e entibiam o cuidado de obrar, pondo-o demasiadamente
no receber.
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II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância.


Adverte-se que estas sentenças não se põem aqui juntas, para que se leiam juntas; nem se escolheram breves, para
se passarem brevemente; porque seria isso causa de que nenhuma se nos imprima, nem sirva de regra prática de
nossas ações. Deve-se usar delas como de grãozinhos aromáticos, que se trazem na boca muito tempo e em pouca
quantidade.
1. O Evangelho e as vidas dos Santos distinguem-se como a solfa escrita ou cantada. De S. Francisco de Sales.

2. Ser perseguido sem culpa é bocado sem osso. Do Padre Baltasar Álvares.
3. Quando chegares ao fim dos desejos, tens chegado ao princípio da paz. Do Padre Eusébio Nieremberg.

4. Quem vive bem, calando prega. De Kempis.

5. Só a caridade é o distintivo entre os filhos de Deus e os do diabo. De S. Agostinho.

6. Guarda o que Deus te deu, guarda-te do que proibiu, e espera o que prometeu. De S. Bernardo.

7. Quando o homem trata da eternidade, fala o cego da luz. De S. Gregório Magno.

8. Bom é, Senhor, o teu Céu; melhor a tua vontade. Do V. Antão Martins, companheiro de S. João de Deus.

9. O Religioso que tem real, não o vale. Era Provérbio entre os Monges antigos: Monachus, qui habet obolum, non
valet obolum.

10. O clamor dos pobres é opróbrio dos ricos. De São Crisóstomo.

11. Melhor é fazer um ato de obediência, do que seiscentos milagres. D. B. Estevão Conde Tironense.

12. Quem não trabalha pela virtude, não provará da sua doçura. De Kempis.

13. Guarde-se o moço da luxúria e o velho da avareza: e ambos serão Santos. De S. Filipe Néri.

14. Quem quiser que lhe obedeçam muito, mande pouco. Do mesmo.

15. Não tardes em bem obrar; porque a morte não tarda em vir. Do mesmo.

16. Suma miséria é ser rico de conceitos e pobre de afetos; rico de verdades e pobre de virtudes. Do P. Luís de la
Puente.

17. A pressa é a peste da devoção. De S. Francisco de Sales.

18. Para que não caias nas coisas grandes, acautela-te nas pequenas. S. Isaac Presbítero.

19. Quem não busca a Cruz de Cristo, não busca a glória de Cristo. Do B. Fr João da Cruz.

20. Ninguém é menos conhecido que cada um de si mesmo. Nemo minus notus, quam quisque sibi. S. João
Crisóstomo.

21. A humildade é precursora da caridade; como o Batista o foi de Cristo. De um monge do Ermo.

22. Calar-se é ausentar-te. Peregrinatio est tacere. De um Padre do Ermo.

23. Nada mais depressa dana a um homem, como outro homem. Nihil citius perverit hominem, quam alter homo.
Oleastro.

24. Muito amor, pouco trabalho. Labor nullus, amor magnus. De S. Agostinho.

25. Quanto mais honrados, mais arriscados: Quanto plus honoramur, tanto plus periclitamur. De S. Agostinho.
26. O misericordioso, tantos servos tem quantos dinheiros. Homo misericors tot servos habet quot numos. S. Pedro
Crisólogo.

27. Esta palavra Meu só a Deus compete. Soli Deo competi haec voc, Meum. De Filo Hebreu.

28. Os olhos, que o pecador fechou na culpa, esses abrirá na pena. Impius aperiet oculos in paena, quos clausit in
culpa. De S. Gregório.

29. As facilidades e brincos são arrancados da castidade expirando. Tactus, et joci sunt moriturae virginitatis
principia. S. Hierónimo.

30. O aproveitamento dos Santos, não é mais que chegarem-se para a humildade. Sanctorum omnium profectus, ad
humilitatem est accessus. De S. Doróteo.

31. Não pode acontecer coisa mais gloriosa a um Cristão do que padecer por amor de Cristo. De S. Filipe Néri.

32. Enquanto um não tem a perfeição do Anjo, não tem a presunção do diabo. Quandiu perfectionem Angeli non
habemus, presumptionem diaboli non habemus. D. August. Lib. 2, de Batismo contra Donat.

33. Se excluis a discrição, a virtude sairá vício. Tolle discretionem: vitium eriat. D. Bernard.

34. Vê a quais agradas e não a quantos. Non quam multis placeas, sed qualibus stude. S. Martinho Dermiense.

35. A tristeza proíbe-lhe a entrada no coração; se já entrou, proíbe-lhe a saída ao rosto. Tristitiam si potes, ne
admiseris: sin minus, ne ostenderis. O mesmo.

36. Velho ajuntamento é fazer alforge no fim da jornada. Monstro similis est avaritia senilis. Quid enim stultius est,
quam via deficiente viaticum augere? O mesmo.

37. Do irado ao louco, vai só que dura pouco. Nihil interest inter iratum, et insanum, nisi unus dies. O mesmo.

38. O ruim pregando é vide entre silvas. Colhamos o cacho, mas guardemos a mão. Doctrina per malos, palmes in
sepe: botrum carpe, spinam cave. De S. Agostinho.

39. Mais segura e humilde está a alma no ouvido do que na língua. Tutius, et humilius audis, quam loqueris. De S.
Boaventura.

40. O proveito do auditório é a glória do Pregador. Gloria Praedicatoris, est profectus auditoris. De S. Gregório
Magno.

41. Ama o dinheiro que ele te fará Judas. Aurum est cujus amor Judas facit. De S. Agostinho.

42. Ouro adquirido, sono perdido. Acquisisti aurum? Sonum perdidisti. De S. Agostinho.

43. Não faças força se não tens repuxo. Frustra nititur quis, si non innititur. De S. Bernardo.

44. Dentre o mesmo fogo, o ouro lança luz e a palha fumo. Sub uno igne aurum rutilat, palea fumat. De S.
Agostinho.

45. Fazer bem é parecer-se com Deus. Nihil adeo divinum habet homo, quam benefacere. De S. Gregório
Nazianzeno.
46. Quem não sente a mão de Deus nos benefícios, a sentirá nos castigos. Qui non sentit Deum per beneficia, sentiet
per supplicia. De S. Hierónimo.

47. Se te escusas, fechas a consciência, deixando dentro o pecado, e de fora a indulgência. Si te excusas, claudis
sinum, includis peccatum, et excludis indulgentiam. De S. Agostinho.

48. Quem enterra dinheiro, faz casa ao diabo. Qui pecuniam abscondit in terra, diabolo domicilium facit. De João
Tritémio.

49. A tentação a ti, e tu a Deus. Do P. M. Mestre Ávila.

50. Das muitas romarias, poucos trazem virtudes. Qui multum peregrinantur, raro sanctificantur. De Kempis.

51. Se fores sofrido, terás Orador. Si tolerans fueris, semper laetus orabis. De S. Nilo.

52. Oração sem distração é suma discrição. Oratio sine distractione est summa intelligentia. De S. Nilo.

53. Choremos o pecador que lhe vai bem; porque está perto o seu castigo. Luge peccatorem felicem: gladius enim
justitiae ipsi imminet. Do mesmo.

54. Não tratem muito com quem os bons não louvam. Ne converseris illi, quem a bonis vides culpari. Do mesmo.

55. Costume sem razão é erro velho. Consuetudo sine ratione, vetustas erroris est. De S. Cipriano.

56. Toda a vida devemos aprender a morrer. Tota vita discendum est mori. De Seneca.

57. A maior pena da injúria é havê-la feito. Maxima est factae injuriae paena, fecisse. Do mesmo.

58. Quando o homem nasce, já é tributário da paciência. Patientiae tributarius nascitur homo. Do mesmo.

59. O que notamos fora de nós, temos dentro. Quidquid in alio reprehenditur, id unusquisque in sinu suo inveniet. Do
mesmo.

60. Com fundamento teme quem se lembra de que é homem. Bene timet, qui hominem se esse cognoscit. De S.
Ambrósio.

61. Nada avalia bem quem se ignora. Nihil recte existimat, qui se ipsum ignorat. De S. Bernardo.

62. O justo tem as coisas comuns por próprias, e as próprias por comuns. Justus communia pro suis habet, sua pro
communibus. De S. Ambrósio.

63. Não há pior vida que estarem juntos na habitação os que estão desunidos no espírito. Nulla vita pro certo
deterior, quam simul degere corpore, et non mente. De S. Hieronimo.

64. Não vai bem feita a obra que te cativa. Non est sapienter factum, in quo libertas aufertur. Sisto Pitagórico.

65. Religioso sem companheiro é demônio solitário. De S. Tomás de Aquino.

66. Religioso sem oração é soldado sem espada. Do mesmo.

67. Sofre e sofrer-te-ão. Porta, et portaberis. De um padre do Ermo.


68. Guardando a língua, se guarda a concórdia. Rarus sermo concordiam servat. De Hugo de S. Vitor.

69. Quem quer aparecer, nunca chega a contemplar. Nunquam qui vult apparere, potest venire ad
contemplationem. S. Francisco de Assis.

70. Os nomes de Jesus e Maria são duas fornalhas em que se torram os demônios. Disse-o a Senhora ao B. Alano.

71. A vontade faz uso, o uso exercício e o exercício forças. Voluntas facit usum, usus exercitium, exercitium vires. S.
Bernardo.

72. Fonte é de todos os bens, viver em Comunidade Reformada. Disse-o um Anjo a S. Arsênio.

73. Pela porta do desprezo se entra nos Paços da Perfeição. Zacarias Monge.

74. Maior sabedoria é a pureza de coração, que o estudo das ciências. O Abade Teodoro.

75. Se tu mesmo não tratas da perfeição, nem o Padre espiritual, nem Deus ta darão. Isto escreveu S. Antão a um
Monge.

76. A ciência que por amor da virtude se despreza, pela virtude se adquire melhor. De S. Boaventura.

77. Resistindo à paixão se acha a verdadeira paz do coração. De Kempis.

78. A maior parte dos defeitos dos Religiosos procede de que não andam bastantemente na presença de Deus. De S.
Francisco de Sales.

79. Para quem Deus é tudo, o mundo é nada. De S. Francisco de Sales.

80. Não te dês por aproveitado, enquanto te não julgas por mais vil que todos. Ne reputes te aliquid profecisse, nisi
omnibus viliorem te judicaveris. De Gerson.

81. O que se queima no inferno é só a própria vontade. In inferno sola propria voluntas ardebit. De S. Bernardo.

82. Vai para a tentação quem não vai para a Oração. In tentationem vadit, qui ad orationem non vadit. De S. Pedro
Crisólogo.

83. Nenhum exercício agrada a Deus sem prudência. S. Antão Abade.

84. Há tempo em que a boa ordem é haver menos ordem. S. Bernardo.


85. Renovar todos os dias os bons propósitos quebra as forças às tentações. S. Francisco Xavier.

86. Não está o ponto em gostarmos de Deus, senão em gostar Deus de nós. Do Mestre Ávila.

87. O castigo da luxúria oculta é a soberba manifesta. S. Agostinho.

88. Melhor é não fazer o bem, que faze-lo por vanglória. S. João Crisóstomo.

89. As honras de ordinário mudam os costumes. S. Gregório.

90. Não é perfeito quem o não apetece ser mais. S. Bernardo.

91. Os trabalhos não são ira de Deus; senão admoestações e misericórdia. S. João Crisóstomo.
92. A virtude vence quando é oprimida. S. João Crisóstomo.

93. O Demônio vence não a quem fere, mas a quem desanima. S. Francisco de Sales.

94. Não evitará imaginações torpes quem não procura ter pensamentos honestos. S. Gregório.

95. O pejo no mau é bom, e no bom é mau. S. Gregório.

96. Não busques servir a Deus senão do modo que ele quer. Eusébio Nieremb.

97. Não impedem tanto a contemplação as ações exteriores quanto as paixões interiores. O mesmo.

98. Sofrer nossos inimigos não é menos vitória que vencê-los. S. Gregório.

99. As imagens e Oratórios hão de servir ao espírito, e não ao apetite. Do B. João da Cruz.

100. Tanto aproveitarás, quanto te violentares. Tantum proficies, quantum tibi ipsi vim intuleris. Kempis.

101. Não serás verdadeiro humilde senão fores de outros desprezado. Florêncio.

102. Não acharás a Deus senão onde por ele deixares as criaturas. Taulero.

103. A boca fechada faz que tenha o coração paz. Magnum bonum pro pace cordis,
silencium oris. Kempis.

104. Ver-se-á a cada passo inconstante, quem se leva do sabor dos seus exercícios. B. João da Cruz.

105. Não é forte o espírito que não cresce à vista da dificuldade. S. Bernardo.

106. Crê-me, que tanto menos padecerás, quanto mais quiseres padecer. P. Eusébio.

107. A boa razão cura a tristeza. Tristitiae medicus est ratio. S. Basílio Magno.

108. Os olhos da intenção reta inclinam a si os olhos do agrado divino. S. Maria Madalena de Pazzi.

109. Para a perfeição importa irmos não andando, mas correndo; não correndo, senão voando. Da mesma Santa.

110. Só de ouvir nomear o pecado deveríamos morrer de espanto. Da mesma Santa.

111. Ai, ai, ai daquele por quem na Religião se introduzir vaidade ou propriedade. Da mesma Santa.

112. A estrada para o Paraíso mais limpa, mais breve e mais segura é a Religião. Da mesma Santa.

113. Ah! Bom Jesus! Quanta doçura está encerrada nesta só palavra: Vontade de Deus! Da mesma Santa.

114. Dar bom exemplo ao próximo é uma das maiores honras que podemos dar a Deus. Da mesma Santa.

115. Sobre o nada da humildade funda Deus o mundo da perfeição. Da mesma Santa.

116. Oh! Que vergonha! Nós entre rosas, Cristo entre espinhos! Da mesma Santa.

117. A alma vestida de caridade é quase onipotente. Da mesma Santa.


118. Faz coisas grandes, mas não as prometas. Age magna, non magna pollicens. O Filósofo Sisto Pitagórico.

119. Entre muitos sempre falar pouco. Santa Teresa de Jesus.

120. Jamais faças coisas que não possas fazer diante de todos. A mesma.

121. Fala o que, e quando, convém, e não ouvirás o que não convém. S. Nilo Abade.

122. A esmola aplaina o caminho. Plana via fit ab elleemosyna. O mesmo.

123. Todo o tempo que não cuidas de Deus, dá-o por perdido. Omne tempus quo de Deo non cogitas, hoc puta te
perdidisse. Sisto Pitagórico, Filósofo Étnico.

124. Qualquer coisa grave que se haja de determinar, passe primeiro pela Oração. Santa Teresa de Jesus.

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III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus
1. Andar em presença de Deus, observar silêncio e não reparar em faltas alheias, desarraigam da alma inumeráveis
imperfeições e lhe granjeiam grandes virtudes.

2. A mosca que se senta no mel, impede o seu vôo; e a alma que busca sabores do espírito, impede a sua
contemplação.

3. Enquanto estás atribulado, e em desamparo, não busques consolação na criatura. Porque como essa tribulação é
enviada da mão de Deus para prova, ou exercício, ou castigo teu, e não há de durar sempre: não a tirando a criatura,
Deus a tirará. E como Deus quando vem, sempre deixa dons na alma; impedes estes dons, atalhando a sua visita.
Portanto, importa ser forte e sustentar a Deus, até que ele mesmo nasça dentro em nós, e nos alegre e vivifique.
"Sustine sustentationes Dei (diz o Espírito Santo pelo Eclesiastes) conjungere Deo, et sustine; ut crescat in novissimo
vita tua. Omne quod tibi applicitum fuerit, accipe, et in dolore sustine, et in humilitate tua patientiam
gabe. Quoniam in igne probatur aurum, et argentum: homines vero receptibiles in camino humiliationis" [Ecl. 2,v.3 e
seg.]

4. Se conformes tens conhecimento da Majestade Divina e experiência de seus favores, não lhe tiveres sujeição e
reverência, virão sobre ti pensamentos de blasfêmia. E se regares o corpo com muito comer e beber, até os
pensamentos santos hão de degenerar em carnais: como as sementes boas, com a nímia chuva, dão em folhagens e
espinhos, muito viço e pouco fruto.

5. Toda a obra boa, feita conforme ao agrado de Deus, ou leva diante, ou se lhe segue depois, alguma tentação ou
tribulação; e senão houver este sinal, tenhamos por certo que não foi muito do seu agrado. Porque a sua fazenda, ao
passar pela alfândega deste mundo, toda leva esta real marca da sua Cruz.

6. Por isso aproveitamos pouco no caminho espiritual, porque não sofremos quietos a mão de Deus que em nós
obra, ainda que não ao nosso modo; antes nos afligimos e turbamos com os trabalhos e tentações e lhe furtamos os
ombros, quanto podemos, e nesciamente queremos ajuntar virtudes e pouco custo.

7. Não peças a Deus com modo impaciente e imperioso, e querendo o despacho para logo; porque isto mais parece
mandar, ou demandar, do que pedir. Além do que Deus Nosso Senhor te quer perseverante na Oração e que te
detenhas em sua presença; e isto é excelentíssimo benefício de sua graça. Se a entrada de um vassalo à presença de
seu Rei fosse tanto ou mais proveitosa do que a mercê que lhe vai pedir, o Rei que amasse a este vassalo, dilataria o
despacho, só por lhe ocasionar as entradas mais freqüentes.
8. Quem faz a vontade de Deus, porque o ama, faz virtualmente todas as coisas. Quem faz a vontade de Deus, ainda
que ore, prega; ainda que ande em negócios, ora; ainda que esteja entrevado, anda em negócios; confessando
estuda, estudando faz missões, andando em missões serve na cozinha, servindo na cozinha converte almas. E não
pode deixar de ser assim; porque a vontade de Deus, com a qual está unido, é tudo; e tudo fora da vontade de Deus,
é nada.

9. Se não és amante da divina Escritura, sabe que nenhum espírito tens: porque qual é a pessoa, que ama a outra, e
não gosta muito de ouvir a sua voz, receber os seus recados e ler as suas cartas? Devemos tratar a sagrada Escritura
com grandíssimo respeito. S. Carlos a lia com os joelhos em terra. S. Pedro de Alcântara (que a sabia toda de
memória) quando ouvia alguma palavra dela, fazia profunda reverência, e dizia que o Evangelho se havia de ouvir
com as mãos levantadas ao Céu, e a cabeça inclinada.

10. Se a alma não for acompanhada de grande moderação, recato e abstração de acidentes, nas coisas que se
percebem pelos sentidos, nunca poderá entrar na familiaridade com Deus, nem levantar-se às coisas invisíveis, nem
vir ao conhecimento de sua própria dignidade.

11. As faculdades do corpo não se purificam, nem habilitam para servir a Deus, sem jejum e desvelo; nem as da
alma, sem verdade e misericórdia; nem as do espírito, sem meditação e trato interior com o mesmo Senhor. Chamo
verdade a intenção reta e coração simples; chamo misericórdia ao coração brando e pacífico com todos, e condição
caritativa.

12. A vida do homem verdadeiramente espiritual, e modo com que emprega as horas do dia, parece-se com uma
Missa. Porque nenhum intervalo se lhe passa sem obrar, já neste, já naquele exercício, servindo a Deus, já com os
membros do corpo, já com os sentidos e potências da alma; e todas as suas ações interiores e exteriores, vão com
ordem, decoro, madureza e devoção, sucedendo umas a outras conforme o dirigem as rubricas dos Santos e Padres
espirituais, e assistido das luzes da Fé e razão o que sem dúvida é um contínuo sacrifício da vontade própria em
honra do Altíssimo. E deste modo parece que podem também os Leigos ter alguma denominação de Sacerdotes;
segundo aquilo de S. Pedro: Vos autem genus electum, regale Sacerdotium, gens sancta [I Pedro, 2,9]; e de S. João:
Pecit vos regnum, et Sacerdotes Deo, et Patri sul [Ap. 1,6]. Pelo que disse S. Agostinho: Sacrificium est omne opus
quod agitur, ut sancta societate inhaerear Deo, reatum ad illum finem, quo beati esse possimus [10 De Civit., 6].

13. O que se adquire com o trabalho e dificuldade, guardar-se com estimação e cautela; e o que pouco nos custou a
haver, pouco se nos dá de o demitir como coisa que facilmente nos tornará à mão. Daqui se mostra que o retardar-
nos Deus o benefício, é preveni-lo com outro novo benefício; porque serve de nos preparar, para que recolhamos
bem o que nos der e lhe pedimos. Olhe para este ponto o impaciente das tardanças do Senhor em lhe conceder as
virtudes que pede; parecendo-lhe que quanto a petição tem de honesta, tanto o despacho havia de ter de pronto. O
estilo de Deus é dar mais do que se lhe pede; e assim retarda a dádiva para dar, além dela, a firmeza em a lograrmos.

14. Costuma-te a referir, ou encaminhar todas as obras boas que fizeres, em ordem até dispor mais com elas para
receber a Comunhão sagrada. Assim se escreve e praticava a Rainha das virtudes Maria Santíssima Senhora Nossa,
desde que seu benditíssimo Filho lhe revelou havia de obrar esta portentosa fineza de amor em proveito dos
homens; até que comungou a primeira vez no Cenáculo.

15. Corrente de negócios seculares, e remanso de contemplação divina, não se dão juntos. Marta e Maria, sim, são
irmãs no sangue, mas não costumam ser irmanadas no espírito. Ter um olho no Céu, outro na terra, custa violência e
mostra fealdade. Em uma Anuário da Companhia de Jesus se refere de um China que era cego só quando olhava
para a terra, mas para ver o Céu nenhum impedimento tinha; assim devem ser os contemplativos. El-Rei de
Babilônia vazou os olhos a el-Rei Sedécias em Rablata; nome que (segundo alguns padres interpretam) significa:
Estas muitas coisas, Multa haec[S. Greg. 7, Mor. S. Petr. Dam., lib. 1, epist. 5]. Estas muitas coisas do mundo visível e
seus negócios, são as com que o demônio nos priva da vista e contemplação das celestiais e eternas. Negócios (na
opinião de S. Agostinho) são brincos, ou joguetes de gente maior: Maiorum nugas [1 Confess., 9]. Deixe brincos
quem anda na presença do Altíssimo e perto de sua cortina.
16. Acautela-te muito de esperar, ou desejar ver na Oração alguma forma ou figura dos Anjos, ou Santos, ou de
Cristo Senhor Nosso. Porque merecerá tua soberba que despache o Senhor os memoriais que contra nós lhe mete
continuamente nosso inimigo; e este se tornará fátuo, de modo que recebas o lobo por pastor e estimes a lata por
ouro. Quando vires alguma representação semelhante, converte depressa teu espírito a Deus, que é o teu princípio,
rogando-lhe te assista e alumie. E está de bom ânimo; que se pegares firmemente da Oração, os demônios fogem
dela, como os cães do pau; e o poder, para quem te chegas, é maior que todos os poderes.

17. Senão curas de evitar os pecados veniais, parece que não tens a Deus amor de filho; porque os filhos nisto se
distinguem dos servos; que fazem a vontade aos pais em coisas muito miúdas. E assim, contra os veniais, observa os
seguintes avisos: 1o. Confessa-te e comunga a miúdo; 2o. Fala pouco, e com pessoas ou perfeitas ou timoratas; 3o.
Procura ter amor ao desprezo, pobreza e dor; 4o. Não te introduzas no que te não pertence, nem te empenhes
demasiado em negócio ou pretensão alguma; 5o. Anda em presença de Deus; 6o. Faz antes o pouco, e bem feito; 7o.
Guarda na mesa e no sono as regras da abstinência e modéstia.

18. Há uns pobres que pedem pelas ruas, gemendo, queixando-se e exclamando; e há outros (os estrangeiros têm
este uso) que pedem cantando devotamente alguma Oração ou as Ladainhas. Estes não movem menos que aqueles,
nem tiram menos esmola. Todos nós somos mendigos de Deus: omnes mendici Dei sumus (disse Sto. Agostinho).
Nem sempre lhe havemos pedir com vozes e angústias e exclamações; senão também com alegria e sossego,
deleitando-nos primeiro na sua bondade, e fazendo regozijo da nossa penúria e comodidade dos nossos trapos e
remendos; e esperando com paz a esmola que nos vier de cima, quando o Senhor for servido.

19. Uma das indústrias que mais manualmente encaminham a alma à presença de Deus, sem quebradeiro de cabeça
nem fábrica de considerações, é ter cuidado de mortificar-se a si, e deixar mortificar-se por outros. Porque como
ninguém faz boa cara à Cruz se não é por amor de Deus, o mesmo nosso amor-próprio faz, que a alma, por sarar, ou
mitigar sua dor, vá buscar a Deus, querendo comunicar com ele e metendo-se em companhia de Cristo, e fazendo-
lhe oferta daquele donzinho de sua paciência, e esperando de sua bondade o prêmio.

20. Quando a alma está em desamparo e sente a Deus muito ausente de si, ou quase perdido, não lhe valem
penitências para se consolar. O que lhe vale é humildade, aniquilação própria, paciência e sujeição ao Padre
espiritual. E tanto maior será depois a consolação quanto mais rigoroso foi o desamparo. A Venerável Madre Maria
de la Antígua escreve de si, dizendo: "Acontece-me muitas vezes não poder levantar o coração a Deus, não só com
ânsias incendidas e amorosas, mas nem ainda com um conhecimento de Cristã. Neste tempo, sem perder os
exercícios de Oração, ponho-me diante de meu senhor como uma pessoa ociosa ou vadia sem aproveitar para nada;
e ali olho para ele, a ver o que de mim quer por então".

21. Não puxes pela devoção porque te achas em dias de festa, em que a Igreja Católica celebra os mais devotos
mistérios. Prepara-te sem ansiedade nem cobiça; fecha os sentidos à multidão de objetos ainda os que parecem
podiam conduzir à piedade; humilha-te quanto puderes em presença do Senhor, reconhecendo-te indigno de tua
graça; e depois recebe o que te derem com ação de graças; ou tem paciência, se nada te derem; e por isso louva
também a Deus. De outra sorte, quanto mais espremeres, mais seco te sentirás.

22. A soledade de espírito consiste em abstrair este de cuidados vãos, de fantasias e implicações do pensamento em
coisas inúteis, ou ainda que úteis, escusadas, de ocupação nímia em ações externas, de afeições e vontades do
amor-próprio, e de muitas locuções interiores. De sorte que o entendimento, memória, vontade, fantasia e apetite
estejam desertos, e de vago para tudo o que não é atender a Deus em simplicidade de fé, e amá-lo em chama
espiritual do coração. Nesta solidão fala Deus, não com vozes, mas com luzes; e é tanta a que a alma recebe, que os
de fora, que não estão costumados a semelhante região de ar tão puro, estranham talvez a pessoa, e se lhe faz
gravoso o seu trato, pela diferença que em tudo acham de ditames, ações, exercícios, intenções etc. E quando o tal
homem solitário condescende com algum dos seus modos, então lhes é aprazível, e respiram como o peixe que
achou água onde nadar. Deste modo Moisés estando só com Deus quarenta dias, caiu com o rosto tão
resplandecente que o povo não podia endireitar para ele a vista, até que se cobriu com um véu.

23. Se desejamos comungar com fruto, presenteemos a nosso Esposo celestial e Cordeiro de Deus, que se deleita
entre as açucenas, uma açucena, cujas folhas sejam estas seis qualidades principais para a perfeição deste exercício.
Duas antes de comungar: Desejo e Pureza; duas comungando: Humildade e Caridade; duas depois da Comunhão:
Ação de graças e Renovação, ou transformação do homem interior, com pacto de fidelidade. [Do P. Caussino, lib. 3,
da Corte Santa, s. 12].

24. Por causa de várias fantasias (dizia meu Padre S. Filipe Néri) que nos conturbam na Oração, a não devemos
deixar: Porque se fielmente insistimos no trabalho de as expelir, às vezes dá Deus em um momento, o que se não
pode alcançar em muito tempo.

25. Quando pedimos alguma coisa a Deus, e no continuar a Oração, sentimos grande quietação de espírito, é bom
sinal, que o Senhor concederá, ou tem já concedido o que se lhe pede.

26. Ainda que percas todos teus santos exercícios por inconstância tua e tentação do diabo; ainda que já deixasses a
lição pia, a Comunhão freqüente, o uso das penitências, a companhia dos bons e tudo o mais que Deus em ti havia
edificado, nunca deixes o culto, devoção e invocação da Virgem, que nesta tábua se salvam muitos náufragos.

27. Para curar uma pessoa que houver caído em algum pecado, depois de haver caminhado largo tempo
virtuosamente, é bom remédio obrigá-la a que faça alguma mortificação solene; como seria manifestar a sua queda
a outras pessoas de grande virtude, e de quem se tenha segurança. Porque desta humildade se obrigará Deus para a
restituir ao primeiro estado.

28. Não se façam votos sem direção do Confessor prudente; e levem suas modificações que sirvam depois de arrimo
à nossa inconstância, respiração à liberdade e quietação à consciência. Exemplo: Voto jejuar tantos dias, ou dar
tantas esmolas, enquanto a saúde, ou os cabedais não padecerem grave detrimento; ou, se não sentir grave
dificuldade em o fazer assim; ou pelo tempo que parecer a quem governar o meu espírito, etc.

29. Quando visitamos as Igrejas ou Altares, peçamos afetuosamente àquele Santo, a quem são dedicados, esmola
espiritual de virtudes; porque este é um excelente meio de granjear espírito e devoção.

30. Para que as perseguições e injúrias deixem na alma fruto e ganância, é bom considerar que primeiro se fazem a
Deus que a mim; porque quando chega a nós o golpe, já está dado em sua Divina Majestade pelo pecado. Além de
que o verdadeiro amante de Cristo, já de antes há de ter feito concerto com ele, de ser todo seu e nada querer de si;
pelo que, se o Senhor sofre a sua ofensa, por que não sofrerei eu a minha? havendo de ser o sentimento justo pelo
que a minha injúria tem de ofensa sua.

31. Para ler com fruto a Escritura Sagrada será de grande utilidade observar os seguintes avisos: 1o. Antes de ler,
examinar brevemente a consciência e fazer ato de contrição; 2o. Invocar o Divino Espírito, para que me conceda luz
com que entenda do que ler o que me convém entender; 3o. Ler com pausa e atenção, aplicando ao meu proveito o
que leio: as repreensões, aos meus pecados e vícios; as grandezas de Deus, ao seu amor e louvores; os benefícios, à
ação de graças; os castigos ao temor; os prêmios à esperança; os mistérios à Fé; os conselhos ao ensino; 4 o. No que
não entender, ou buscarei exposição que o declare, ou passarei adiante, venerando o mistério que ali encerra; 5o.
Quando sentir alguma luz de inteligência, ou moção do afeto, aceitarei com agradecimento e guardarei no tesouro
da memória para as utilidades próprias ou do próximo; 6o. Acabando de ler, beijarei com reverência o sagrado texto,
e colocarei a Bíblia com mais alguma atenção e decência que os outros livros, onde não ande por baixo das outras
coisas do meu uso; porque as Escrituras santas são cartas de Deus para o homem e palavras de vida eterna; e
antigamente em algumas Igrejas havia dois Sacrários: um para o Santíssimo Sacramento, outro para a sagrada Bíblia;
7o. Ultimamente recapacitar na memória ao menos um ponto do que se leu e render a Deus graças pelo benefício de
me ensinar com a preciosa palavra da sua boca.

32. De tal sorte te é necessário ter fome e sede de justiça, ou virtudes, que leves com igualdade de ânimo a pobreza
espiritual que em ti experimentas, e a falta dos dons da graça para venceres a tua natureza. Para sublevação desta
pobreza, acomoda-te a andar pelo Céu mendigando esmola quotidiana pelos Santos; isto, não com brados
impacientes e longos arrazoados, senão com insinuação humilde de tua necessidade, alegre esperança do teu
remédio e constante paciência na sua tardança. E entende que não és capaz de mais, porque te não ensoberbeças;
nem de receber a humildade (vaso dos outros dons) porque não tens disposições para as humilhações e Cruzes em
que o Senhor costuma dar envolvida essa humildade; e se ele te quiser lavrar mais rijamente, em vez de dobrares,
quebrarás debaixo do seu martelo.

33. A Venerável Mariana de Jesus, Terceira de S. Francisco em Toledo, ensinou o seu Anjo da Guarda quatro
diligências, que haviam de usar os que lutam com Deus para dele alcançar alguma graça que lhe pedem; que são
quatro tretas de que os lutadores usam para derrubar seu competidor. A primeira é levantá-lo ao alto, para que
possa cair; e isto faz quem na Oração se humilha muito; porque tanto mais levanta a Deus. A segunda é usar de
sacadilha; que é furtar o arrimo, em que o contrário faz finca-pé para resistir. E isto faz quem purifica a consciência,
tirando os pecados e a ocasião deles; porque no nosso pecado é que Deus faz força para se não render. A terceira é
cansar ao competidor com repetidas entradas e saídas; porque deste modo, ainda que seja mais robusto, poderá ser
vencido do mais fraco. E isto faz quem ora muitas vezes com importunação, ainda que de cada vez ore pouco tempo.
a quarta é deixar-se cair sobre o competidor, para o levar debaixo. E isto faz quem se lança nos braços de Deus,
resignando-se totalmente no que for sua vontade. Porque como este Senhor faz a vontade dos que o amam, o
melhor modo de o render ao que nós queremos, é render-lhe ao que ele quer.

34. O dom das lágrimas está posto como um marco ou baliza no caminho da Oração, entre as coisas corporais e as
espirituais; e entre a viciosidade e a pureza. Enquanto o homem não recebe este dom, ainda fica no homem exterior
a propriedade da sua obra; nem sentiu ainda a eficácia das coisas ocultas do homem interno e espiritual. Mas
quando alguém começa a alongar-se, e deixar atrás as coisas corporais deste século, e passou o termo que define,
ou é raia da natureza, então chega a tocar nesta graça das lágrimas, pela qual é levado ao perfeito amor de Deus. E
quanto mais vai caminhando, mais se vai enriquecendo neste dom, até chegar a bebê-las misturadas no que bebe e
come: Potum meum cum fletu miscebam! [Sal. 101, 10] E este é o sinal certo de que o espírito deixo este mundo, e
entrou no mundo do espiritual que tem dentro em si mesmo.

35. Há umas lágrimas que dissecam e queimam; e há outras que regam e fertilizam. As que procedem do coração
por causa dos pecados dissecam e queimam o corpo, e ofendem o cérebro. Mas por estas se passa a outra melhor
ordem de lágrimas, que sem violência manam do entendimento e trazem gosto, alegria e fertilidade de virtudes.
Com as primeiras se lava a alma, como em banho quente. Com as segundas se adorna, como com pérolas netas.

36. O velar alta noite em santos exercícios, estima-o como coisa muito preciosa: para que aches a divina consolação
propínqua à tua alma. Persevera em lição santa, solitário contigo; para que teu espírito tenha condutor que o leve às
maravilhas e grandezas de Deus. Ama de coração a paciência e pobreza; para que o teu ânimo se ajunte, una e
recolha, de onde andava vago e espalhado. Aborrece a nímia e prazenteira afabilidade; para que conserves sem
turbação e confusão teus pensamentos. retira-te de muitos e trata da tua alma; para que se não estrague sua
interior tranqüilidade. Ama a castidade e sobriedade; para que te não confundas no tempo da Oração, e se acenda
em teu coração alegria viva, com as memórias da morte.

37. Muito grosseira e feia desatenção é, acabando de receber a Comunhão sagrada, divertir-se a falar com alguém,
ou empregar os sentidos em quaisquer criaturas. Recolha-se logo a alma a tomar a visita de seu Deus, com a maior
humildade e paz que lhe for possível; avivando a fé da presença do Senhor que tem dentro em seu peito; e crendo
que ao redor de si estão muitos Anjos, que estranham suas distrações e tibiezas, e se alegram com seu fervor e
aplicação devota.

38. Quando te preparas com lição espiritual para orar, repara no ponto, conceito, verdade, ou palavra que mais te
moveu o coração; e por ali começarás a tua Oração; porque desta faísca, que já tinha saltado, prenderá o fogo em
toda a mais matéria.

39. O maior obstáculo que tem a vida espiritual é não seguirmos as luzes e impulsos da Graça. Se deixamos obrar
Deus em nós, voaremos. Por isso importa muito conhecer-lhe a voz e acudir fielmente; porque como o seu modo de
obrar é suavíssimo, alumia o entendimento ou toca a vontade; mas não constrange, nem violenta. Nem uma só
venialidade ou imperfeição vamos a cometer (especialmente se são almas a quem o Senhor tomou mais à sua
conta), que, se bem advertirmos, se não atravesse velocíssimamente, antes de nos deliberarmos, algum raiozinho de
luz, que lá dentro da consciência diz um Ta, como quem a proíbe. E quanto a alma mais flexivelmente obedece a
este Ta, tanto o vai ouvindo mais distintamente, e em coisas mais miúdas; e de caminho adquire paz mais alta, e
discrição de espíritos, e notícia dos labirintos do amor-próprio, e roscas da serpente antiga.

40. Quando uma alma tem Oração infusa e quieta, não pode deixar de entender que Deus está dentro dela; porque
claramente o está sentindo, e o seu recolhimento então é muito maior, e os efeitos muito diferentes do que em
outro modo de Oração costuma experimentar. É uma linguagem do Céu, que por mais que se queira cá dar a
explicar, não se fará conceito dela, se o Senhor o não mostrar por experiência. Põem sua Divina Majestade no íntimo
da alma, o que o Senhor quer que ela entenda e lho representa vivamente, sem imagens ou forma alguma de
palavras; e ali se vê a alma num momento sábia; e fica muito espantada quando experimenta que basta uma destas
palavras intelectuais para trocar uma alma toda, e fazer que não ame coisa alguma, senão aquele Senhor a quem vê
que sem trabalho algum seu a faz capaz de tão soberanos bens, e lhe comunica secretos admiráveis, e trata com ela
com tal amor, lhaneza e familiaridade, que não é possível explicar-se.

41. A Doutora e Virgem Santa Teresa de Jesus dá esta doutrina aos que praticam o exercício de Oração. Toda a
pretensão de quem começa a Oração (e não esqueça isto, que importa muito) há de ser trabalhar, e determinar-se, e
dispor-se com quantas diligências pode, por conformar sua vontade com a de Deus; e estejamos muito certos, que
nisto consiste toda a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual. Quem mais perfeitamente tiver
isto, mais receberá do Senhor, e mais adiante está neste caminho. Não imaginemos que aqui há mais algaravias,
nem coisas escondidas e secretas; que nisto consiste todo nosso bem.

42. Quem leva a mira em chegar à perfeição, e deseja gozar o íntimo abraço da divina união, deve insistir
valorosamente na abnegação de si mesmo, e aplicar-se com diligência à santa introversão habitando diante de Deus
dentro em si, e aspirar a este Senhor por contínuas e ardentes jaculatórias. Deve em tudo o que faz, ou deixa de
fazer, ter por fim e motivo o agrado de Deus, buscando-o com intenção reta e simples. Este é, e não outro, o
caminho de chegar à perfeição e união mística com Deus.

43. Na obra do espírito que é a Oração espiritual, quem menos imagina e pretende obrar, obra mais. As obras
interiores devem ser todas suaves e pacíficas; fazer coisa penosa, antes dana, que aproveita. Chamo penosa
qualquer força que nós queiramos fazer, como reprimir o fôlego. Deixe-se a alma nas mãos de Deus (faça dela o que
quiser) no maior descuido que puder do seu aproveitamento e na maior resignação na vontade de Deus. Esta
doutrina é de Santa Teresa; mas advirta-se que fala na Oração já espiritual dos aproveitados; e não na material, ou
imaginária dos principiantes; que estes hão de trabalhar mais da sua parte.

44. Toda a graça espiritual, dom natural e qualquer coisa feita com acerto, devemos referi-la a Deus Nosso Senhor,
dando-lhe por isso graças e louvores; e não atribuir a nós outra coisa senão os pecados e defeitos.

45. Hei de ter muito fixo e assentado na minha alma que nenhuma coisa devo desejar, nem por coisa alguma me hei
de afadigar, senão pela graça e amor de meu Senhor Jesus Cristo, e por não ofendê-lo em coisa alguma, senão
agradar-lhe; ou venha a morte, ou a vida; a enfermidade, ou a saúde; a tristeza, ou a alegria; a honra, ou a desonra;
o lugar alto, ou o baixo; aqui, ou no cabo do mundo; atendendo ao que mais me chega para Deus.

46. Lembra-te, alma, muitas vezes entre dia (especialmente quando fazes o exame de consciência) de dar graças a
Nosso Senhor Jesus Cristo, porque te remiu, e fez amiga com Deus, e te ganhou tantos bens à custa de sua Paixão e
trabalhos. E a Deus Nosso Senhor dá muitas graças, porque te deu a seu Filho por Irmão, Esposo, Pai, Mestre,
Redentor, e sustento teu, e causa de todos teus bens.

47. O fruto da Comunhão, e de outro qualquer exercício espiritual há de ser adquirir maiores forças para servir e
amar a Nosso Senhor com maiores veras, e para resistir às tentações e suportar os trabalhos com paciência; e não
por gostos e sentimentos, os quais costumam ser sinais de imperfeitos e talvez pode vir do demônio para nos
enganar; e assim não nos havemos de cansar muito por eles, se Nosso Senhor os não envia; e tendo-os, não
desprezar aos outros que os não têm; que será cair em soberba e presunção; porque ainda que os não tenham,
podem ser mais santos e amigos de Deus.

48. Jamais se há de falar de Deus, ou dos Santos, assim levemente, e por modo de entretenimento, e com os termos
de facilidade que usamos na prática de coisas humanas; senão sempre com grande respeito, estimação e sentimento
do espírito.

49. Está escrito que com os simples é a conversação de Deus. Se alguém pergunta, que coisa é simplicidade de
coração, e como se adquire, responde-se: Que a simplicidade, em parte, é realmente o mesmo que a verdade e só
difere em que a verdade consiste em concordarem os sinais com os significados; e a simplicidade em que não busca
fins diversos, um no interior e outro no exterior. O meio de alcançar esta virtude é andar pegado a Deus (que é o
espírito simplicíssimo e puríssimo) por Oração e presença sua contínua.

50. Gastar mal o tempo que era para a Oração, é furtá-lo a Deus. Oh que preciosas horas perdes, alma tíbia e
descuidada! Lanças ouro e diamantes no mar; derramas bálsamos pelo chão. Para que é esta perdição e estrago?
algum dia chorarás o erro; porém nunca recobrarás a perda.

51. Dizes que desejas amar a Deus; e arremessas ao Céu abrasadas jaculatórias, pedindo afetuosamente este amor.
Bem fazer; porém adverte, que amar a Deus é padecer por ele de boamente; é não se amar a si próprio; é amar as
Cruzes do desprezo, afronta, dor, pobreza, etc., é perdoar as injúrias e ainda desejá-las e agradecê-las; é dar bem por
mal, sofrendo e metendo no coração a todos os próximos. Trabalha por fazer isto, que isto é amar a Deus.

52. Os Bem-aventurados apreendem a Deus, mas não o compreendem; como se por outros termos disséramos, que
abraçam a Deus, mas não o abarcam; porque não é abraço que o feche, ou cinja todo. Vêem a Essência Divina; mas
não a sua definição: suposto que a sua definição é a sua mesma Essência. Como quem está no meio do mar alto,
emprega toda sua vista, quão longe pode, no mesmo mar; porém não alcança a definição do mar, que são as praias.
Fica o entendimento difuso e satisfeito, porque vê quanto pode, e vê que resta que ver infinitamente.

53. Alguns de entendimento sutil e coração altivo são muito dados a especular as coisas da Teologia mística, e
tratam pouco da prática das virtudes; como que querem ganhar para si a Deus por uns jeitos e segredos que
pertencem à notícia do entendimento, adquirida por estudo de livros espirituais e trato com pessoas amigas de
Deus. E entretanto se descuidam dos pontos lhanos e substanciais do Evangelho, que são abrenunciação de tudo,
resignação da vontade própria, insistência na Oração, e presença de Deus, aplicação das forças a fazer frutos dignos
de penitência, caridade geral para com todos os próximos, etc. É erro capital que necessita de emenda.

54. Se alguém pergunta que sinais tem a consolação espiritual quando é de Deus, ouça ao glorioso S. Francisco de
Sales [Introdução à vida devota, p. 4, c. 13], o qual comparando o coração humano à árvore, os afetos aos ramos, e
as obras aos frutos, diz assim: Se as suavidades, ternuras e consolações nos fazem mais humildes, pacientes,
tratáveis, caritativos e compassivos com os próximos; mais fervorosos em mortificar nossas concupiscências e
perversas inclinações, mais constantes em nossos exercícios, mais sujeitos e rendidos aos que devemos obedecer,
mais singelos em nosso procedimento, é sem dúvida que são de Deus. Mas se estas doçuras não têm doçura mais
que para nós mesmos; se nos fazem curiosos, azedos, homens de pontinhos, impacientes, duros com os próximos,
porfiosos, ferozes, presumidos, e que na suposição de que somos já uns Santos pequenos não queremos sujeitar-nos
mais à correção e direção; indubitavelmente estas consolações são falsas e perniciosas; porque a árvore boa não
leva senão bons frutos. Tudo isto é destes grande mestre de espírito.

55. As mulheres costumam ser mais freqüentemente favorecidas de Deus na Oração com êxtases, raptos e visões;
sem que isto seja sinal certo de estarem em mais alto grau de santidade, do que alguns homens servos de Deus que
não logram semelhantes favores. As razões disto parecem ser as seguintes: 1o. Porque são mais amorosas e
enternecidas; e a graça de Deus se acomoda ao modo da nossa natureza, conforme o axioma dos Filósofos: Omne
quod recipitur, ad modum accipientis recipitur; 2o. Porque na sua Oração caminham mais por afetos, que por
discursos, os quais não são aptos para acender a alma, e uni-la com Deus; 3o. Porque são mais singelas, e com
menos reflexões; e com os tais é a conversação do Senhor: Cum simplicibus sermocinatio ejus; 4o. Porque são mais
fracas; e assim necessitam deste conduto para a sua natureza aturar os trabalhos da vida espiritual; 5o. Porque
parecia razão que Deus lhes compensasse com estes dons e favores, os merecimentos que lhes não concede nos
graus e ofícios do Sacerdócio, Pregação Apostólica, governo Eclesiástico, administração de Sacramentos, etc.
Contudo deve a pessoa que tem estas coisas extraordinárias (ou, para melhor dizer, quem assiste à sua direção
espiritual), proceder com grande cautela e circunspeção. Porque, como disse a Seráfica Madre Santa Teresa, falando
especialmente das Revelações: Aun que es verdad que muchas son verdaderas; pero tambien se sabe que son
muchas falsas y mentirosas: y es cosa rezia andar sacando una verdad entre cien mentiras. Nestas palavas são dignas
de notar-se três coisas: 1o. Serem de uma tão sábia e experimentada Doutora e ditas quando já vivia no Reino da
verdade, vendo o rosto de Deus claramente; 2o. Serem dirigidas ao ensino das suas Religiosas, que floresciam no
primeiro vigor da Reforma; 3o. Fazerem comparação das revelações verdadeiras com as falsas. Como pois não será
arriscado calcularem por verdade quaisquer diretores, quaisquer revelações, em quaisquer pessoas.

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IV — Os que respeitam o trato da alma consigo


1. Não te aflijas com cuidados do futuro; porque o tempo desmancha e baralha toda a ordem das coisas que
propunhas na imaginação; e de hora para hora tomam os negócios muito diferente aspecto. Lança-te todo na
Providência do Altíssimo; e basta ao dia presente a sua malícia. Especialmente se os negócios são de Deus,
experimentarás que nunca estão mais ganhos que quando parecem estar perdidos.

2. Persuade-te muito deveras que, enquanto viveres, hás de ser miserável. Porque isto é condição própria e
intrínseca do estado de peregrino neste mundo. E assim como seria pensamento néscio, e esperança vã, querer um
condenado no inferno ter glória ou um Bem-aventurado no Céu ter pena, assim o é querer um peregrino no mundo
ter satisfação e descanso. Bem podes pois fazer o ânimo, a que nunca te hão de faltar trabalhos, tristezas, tentações
e moléstias; e deste modo te serão mais sofríveis e rendosas.

3. Se escorregaste em alguma impaciência, ou desabrimento com o próximo, não te assombres, nem aflijas, nem
desmaies; que um vício não se remedeia com outro. Faz então estas três diligências: 1o. Volta logo sobre ti mesmo e
dá fé de quão miserável és; 2o. Volta para Deus, e arrepende-te, confiando de sua bondade, que te perdoará; 3o. Não
faças mais reflexão sobre o que passou, fazendo-te esquecido, como se por ti não passara. Deste modo fica outra vez
temperado o instrumento do teu espírito.

4. Se tens desejo de aproveitar, e lhe fazes as diligências, segundo tua fraqueza te permite, não te mesquinhes, nem
entristeças de não estar aproveitado. Não se leva este negócio a gritos e empurrões; antes, quanto mais te
impacientares com tuas faltas, tanto mais as recalcas em tua alma. Espera quieto; que Deus é o Senhor das virtudes
e não tu. Espera humilde e confiado; para o Espírito Santo o mesmo tardar é querer vir. Desses, que te parecem
desejos fervorosos e santos, se lhe afastares a terra, acharás ser a raiz soberba, amor-próprio e impureza de
intenção.

5. Os que embarcam trigo para o ultramar, compram-no a peso, e não por medida, porque se o grão é mais pesado e
firme em si, sustenta-te contra o tempo, e deita mais farinha. As obras que juntamos para o Céu, não as façamos a
olho, nem nos paguemos só do serem muitas: sejam pesadas e sólidas; que assim rendem muito mais.

6. Se quando és convencido e repreendido, te perturbas, é sinal que cometeste o mal por tua vontade e com
advertência; porém se levas a repreensão inesperada com sossego, é sinal que o cometeste, ou por muita fraqueza
ou ignorantemente.

7. A humildade de coração livra e defende de inumeráveis perigos e graves tentações. Para se adquirir são
excelentes meios orar muito, observar pontualmente os mandamentos e conselhos de Deus, e trabalhar e padecer
corporalmente.
8. Adverte que as várias disposições e acidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu modo também ao espírito.
Diversamente disposto está o espírito de quem logra saúde, e o de quem está enfermo. Diversa feição e atualidade
tem o espírito de quem vai montado num formoso cavalo, e o do que vai em um desprezível jumento. Se o teu
vestido for pobre e roto, repara que o espírito recebe daqui alguma disposição diferente, da que tem quando o
vestido é novo e asseado; e assim nas mais coisas. Portanto, não desprezes ajudar o teu interior com algumas
exterioridades que lhe convém, e não envolvem afetação nem singularidade.

9. A virtude chamada Eutrapélia (que tem por ofício remitir ou recrear moderadamente o ânimo, para tornar melhor
a aplicar-se) é grande valhacouto de virtuosos ao sensual e esparzido. Logo se patrocinam com as graças de S. Filipe
Néri; com as simplicidades do Santo Frei Junípero (de quem a Madre S. Clara dizia ser o chocarreiro da casa de Deus
e religiosos); e com as loucuras de S. Simeão Salo, que na verdade eram mistérios e não loucuras. Porém, quem não
sabe que as virtudes morais consistem em um certo meio, do qual em passando dão em vícios? O meio da Eutrapélia
é mais estreito e limitado que o de todas as outras. E assim, a recreação virtuosa, para fazer o seu pretendido efeito,
é necessário ser muito temperada e acomodada ao tempo, lugar e pessoas com quem se trata; menos disso dará em
imodéstia, chocarrice, murmuração, escândalo e relaxação do espírito. S. Ambrósio diz que ainda nas zombarias não
percamos a gravidade. O P. M. João de Ávila ensina que nos abstenhamos perfeitamente de palavras ridículas, jogos
e leviandades. S. Bernardo diz que as zombarias na boca do Sacerdote são blasfêmias. O Beato Henrique Suso dá por
sinal de um homem não ter cabedais de Oração e virtude, o fazer e dizer puerilidades e joguetes. O Eclesiastes diz
que avaliou o riso por erro, Risum reputari errorem; e que melhor é irar-se do que rir-se: Melior est ira risu. E
geralmente os Santos mais se inclinam para o extremo da austeridade, como menos arriscado e repreensível. De
espíritos particulares não se toma regra universal.

10. Joguetes, equívocos, ditos graciosos e cortesãos, livros de curiosidade esquisita, ou de história meramente
secular, novas e rumores do que passa, e outras coisas desta espécie são como frutas, que relaxam o estômago e lhe
tiram a vontade do sustento sólido de pão e carne. E assim o Espírito que se deleita nestas puerilidades não tem o
calor que é necessário para grandes propósitos e constância neles; e pela boca vaza quase toda a sua atividade, que
havia de aplicar a coisas sérias.

11. Virtude sem trabalhares e padeceres, não a verás tu jamais com teus olhos. Adverte em todas as obras da
Natureza e Arte, e verás como nenhuma chega à sua devida perfeição, senão a puro padecer e trabalhar. O pão que
comes, o linho e lã que vestes, a cera e azeite com que te alumias, quantos trabalhos passaram para chegar à
perfeição que tem? O dinheiro que gastas, se soubesses os transes e mudanças que teve e jornadas que andou
desde as veias da mina até à palma da tua mão, pasmarias de que houvesse dinheiro no mundo; porque é uma
história muito comprida. Vês um templo magnífico de cantaria, e de vários mármores lustrados e embutidos?
Quantos milhares de golpes levaria toda aquela fábrica para chegar àquele estado? Tudo pode o trabalho junto com
a constância. E se não tiveres constância no trabalho de adquirir as virtudes, não lograrás a glória de seus frutos. A
glória (disse um Santo Padre) é uma planta de tal casta, que se quer regada com suor: Gloria sudoribus libenter
irrigatur. [Isidor. Plusiot, lib. 2, epist. 12].

12. Não é fácil discernir um em si, se obra com intenção reta e louvável; e não basta qualquer aplicação extrínseca da
vontade a algum fim honesto, para que se entenda que o tal fim foi o que motivou a obra. Para conheceres, pois, o
principal fim que te leva, finge vários casos, em que as utilidades da obra estão separadas; e aquela utilidade, que
posta ela, ainda obraras; e tirada ela, não obrarás, tem por certo que era o teu principal motivo. Exemplos: dizes que
vás a tal Igreja lucrar um jubileu; finge que na tal Igreja não havia música; se achas que então não foras, o fim que te
leva é o deleite da música; finge que não pregava um certo Pregador afamado; se achas que então não irias, quem te
leva é a curiosidade de ouvir aquele Pregador; finge que havia concurso somente de homens; se achas que então
não irias, quem te leva é o perverso afeto de lasciva leviandade; e se achas que faltando tudo isto, ainda assim foras,
quem te leva é a utilidade santa de lucrar o Jubileu. Do mesmo modo: Mandou-te o Superior fazer alguma; e
obedeces prontamente. Queres saber se vás por mera obediência? finge que de repente revocava e preceito, ou
mandava o contrário; se então sentes turbação e tristeza, e murmuras interiormente, certo é que não obravas por
pura obediência, senão de mistura por fazer a tua vontade.
13. Não entendas de ti outra coisa, senão que és vilíssimo, negligentíssimo e indigníssimo de toda companhia,
conversação e aspecto de outros; e assim desesperado e desfeito de ti próprio, somente na misericórdia e bondade
de Deus, assenta tua esperança.

14. Dominus custodiat introitum tuum, et exitum tuum: O Senhor (diz um lugar dos Salmos) guarde a tua entrada e
saída. Que porta é esta, cuja entrada e saída necessita de tão vigilante guarda? É a boca; o que entra são manjares; o
que sai são palavras; sem abstinência e silêncio não pode haver espírito de Oração. Muito comer e muito falar, é ter
a entrada e saída franca para os inimigos.

15. Penitências, as que tirem ao corpo as forças de inimigo da alma, não as de companheiro. Livros, não curiosos e
admiráveis, mas devotos e úteis. Rezas, não muitas e depressa, mas com espírito e devoção. Silêncio, como porta
que abre e fecha, não como muro imóvel e impenetrável. Condescendências com o próximo, não as que me fazem
imperfeito e desordenado como ele, senão as que aproveitam o seu ou o meu espírito.

16. Que muito que leve a terra urtigas e malvas, se a não semeiam de trigo, ou a não plantam de árvores frutíferas?
Não esperes ver-te livre de pensamentos maus, ou ao menos vãos e inúteis, enquanto te não ocupares com outros
bons e proveitosos; porque esperarás um impossível. Qui non est mecum, contra me est: et qui non colligit mecum,
dispergit (diz Cristo Nosso Salvador): Quem comigo não está, contra mim está; e quem comigo não ajunta, espalha e
desperdiça.

17. Nada proponhas em tempo de escuridão e tristeza ou turbação: Ne festines in tempore obhuctonis. Aguarda que
amanheça; então continuarás o teu caminho. E se ainda receias que vás errado, pergunta a outros, que já por ali
passaram; e roga a Deus que te depare a quem perguntes.

18. Se vives em Comunidade Religiosa, guarda-te de mudar lugar por teu arbítrio. Porque assim como, se a ave não
cobre seus ovos continuamente, estes goram e ficam estéreis; assim o Religioso passando de um lugar para outro,
esfria nos santos exercícios e se lhe amortece a fé.

19. Debalde insistes em vencer a ira, primeiro que venças a concupiscência; porque os furores daquela não militam
senão por defender os interesses desta. Dos nossos apetites se pode dizer aquilo que o Profeta Miqueias disse dos
ministros interesseiros; que se lhes não dão bem de comer, logo armam uma pendência: Si quis non dederit in ore
eorum quippiam, sanctificant super eum praelium [Miq. 3,5]. Por isso não creias que estás despegado do deleite
enquanto te vires iracundo. Porque (como diz sabiamente S. Nilo) para que sustenta cães, quem não tem quinta?
Eles que ladram e saltam na gente, sinal é que dentro há coisa que o dono possui, e quer que o ajudem a guardá-
la: Ecquid autem nutris canem, cum nihil possidere profitearis? Si vero is allatret, et in homnes insiliat, manifestum
est, quod intus possides aliqua, eaq; velis custodire [In Cap. de diversibus malignis cogitationibus, c.5]

20. Amemos muito deveras os desprezos; porque são mandados por Deus a ajudar-nos contra a soberba que temos
enclausurada no centro do coração. Quando os pressentimos, ou encontramos, diga o espírito com alvoroço: Vinde
amigos; que sem vós não posso ser humilde, e sem humildade não pode acomodar-se Deus comigo. Estejamos
certos que cada desprezo bem recebido desocupa tanto a alma, que logo na Oração seguinte se sente o vazio que
causou; e este vazio é o lugar do Senhor.

21. Com tanta aplicação hás de ter estudado por ti; que te saibas de cor. Não há imagem ou pintura, que tão
depressa se lhe desbotem as tintas, como a do conceito de nossa própria vileza. Importa, pois, cada dia e cada hora
renová-las, para que te não enganes contigo. Porque não há maior miséria que, sendo miserável, ignorá-lo, e ainda
porventura aplaudi-lo.

22. A Escritura Santa diz: Omnis locus, quem calcaverit pes verster, vester erit. Qualquer lugar que pisar o vosso pé
será vosso. É ensinar que por via da mortificação de nossas paixões e apetites ganharemos domínio sobre eles.
Exemplos: Para fechar os olhos sem repugnância, é necessário fechá-los com repugnância; para se não levantarem
ímpetos de ira, é necessário rebater com força os que se levantarem; para ver o objeto deleitável, e não arrastar-me
sua afeição, é necessário haver resistido a esta afeição, e haver-me privado muitas vezes desse deleite; para ter
império sobre meus inimigos, é necessário havê-los sofrido com paciência e caridade; para falar sem perigo e com
acerto, é necessário haver calado por muito tempo, etc. De sorte que desta boa guerra se faz esta boa paz; e tanto
mais firme e durável será a paz quanto mais rija e travada foi a guerra.

23. Não te fies do que julgas cuidando não estar apaixonado. Porque as paixões são de onze castas diferentes; e nem
todas dão ladrido forte, como rafeiro; senão sibilo subtil, como serpente; ou canto suave como sereia. E senão
tiveres muito exercício em as discernir, e muito alto remanso de coração, para as ver bulir dentro, jurarás que tal
coisa não obraste por este ou por aquele motivo; e não é verdade; senão falta de conhecimento próprio.

24. Tem sentido que quando pela imaginação (talvez sem reparares nisso, senão depois que refletires sobre ti) te
passou que foste louvado, ou que és benquisto e reputado no conceito de outros, ou outra coisa semelhante, que a
natureza tem por bom bocado, faltam no interior umas consolaçõezinhas grosseiras e impuras, que parecem
salpicos de água suja. Isto claro está que não é do Espírito Santo. E assim quando te achares satisfeito e consolado,
vai desenvolvendo o novelo, a ver onde começou o fio; e pode ser que aches que o princípio foi alguma coisa que
sucedeu à tua vontade.

25. Quando o espírito toma ira contra as paixões e apetites, é tempo de silêncio, porque é tempo de luta; e as forças
necessárias para a luta debilitam-se, se se não tapam dentro do espírito com o silêncio. Mas quando vires que os tais
movimentos já inconstantes cedem à Oração, ou esmola, ou penitência, então é bom ler na Escritura sagrada, ou em
outros livros de Santos; para que não resultem complacências vãs da vitória passada e renasça nova batalha.

26. Um Varão muito ilustrado ao ser perguntado qual o maior benefício que do senhor tinha recebido, respondeu:
Certamente não é a coisa que mais estimo o sentir a Deus, gostar dele, e experimentá-lo em mim, e receber suas
iluminações. Se me prometeis segredo, digo-vos que o principal benefício que tenho recebido é ter vencida toda a
rebelião de minha natureza, o poder e o não poder; o amor e o ódio; a esperança e o temor; a dor e o gosto; e o
mais deste gênero. Daqui veremos quão dificultoso por uma parte e por outra quão importante é o domínio sobre
nós mesmos.

27. A aceleração, viveza e estrondo deve-se moderar em todas nossas ações e movimentos; de sorte que ainda que
de si são corpóreos, pareçam espirituais em certo modo: enquanto procedem e indicam outros movimentos da alma
racionáveis e santos.

28. Se não puderes vencer um mau costume, tomando-o por inteiro, parte-o em metades e trabalha só com uma
delas; e como esta for destruída, vencerás a outra facilmente. Como agora; se costumas responder irado e
desabrido, ao princípio procura só não responder; e como estiveres habituado a isto, procura então que o espírito
interiormente fique sossegado, e com esse sossego responda. Moisés permitiu que o Povo sacrificasse vítimas a
Deus, para que ao menos as não sacrificasse aos ídolos, como tinham aprendido no deserto: Ut mediam
quodammodo partem, viti altius inoliti resecaret: aliam vero mediam per aliud tempus reservaret resecandam, disse
S. Pedro na doutrina que deu a S. Clemente Romano.

29. Ponhamos mais cuidado na mortificação que na contemplação; porque o imortificado busca a Oração e não
acha; porém ao mortificado a mesma Oração o busca e acha.

30. O Imperador Carlos V, entrando numa Cidade, reparava em três coisas: 1a. Se os Templos estavam bem ornados;
2a. Se os relógios andavam certos; 3a. Se as ruas estavam limpas. E por aqui conjeturava a piedade, indústria e
governo dos moradores. Também se pode conjeturar o bom governo interior de uma alma por três sinais
semelhantes: 1o. Se o templo de Deus, que somos nós mesmos, está exteriormente ornado com modéstia e
presença do Senhor; 2o. Se o tempo anda bem repartido, com os exercícios santos a suas horas, e o mesmo num dia,
que em outro; 3o. Se as ruas estão limpas; isto é, se os seus caminhos e obras vão bem feitos, com perfeição e
limpeza; e não como costumam os tíbios, que tudo o que fazem vai semeado de faltas e imundícies.

31. Vencer-se é coisa muito difícil, porém necessária, se é que pretendes ter virtude e agradar a Deus. O método que
deves seguir para te venceres pode ser o seguinte: Primeiro, medita algum espaço naquela virtude de Cristo, cujo
vício contrário intentas vencer em ti. Logo pede-lhe humildemente graça para impugnar esta ou aquela ação ou
paixão do tal vício, puramente por lhe dar glória. Depois, sem cuidar mais, nem reparar na repugnância da natureza,
tanto que se oferecer a ocasião, arremessa-te a vencer-te. Ultimamente dás ao Senhor graças pela vitória e não a
atribuas senão ao seu auxílio. E adverte que hás de começar por coisas poucas, e menos dificultosas, e destas ir
caminhando às maiores, e não saltar em outra antes que tenhas adquirido hábito de vencer aquela primeira; e
enquanto a não venceres, hás de repetir os assaltos, com tal inteireza e desassombro de coração, como se nada te
sucedesse mal. Nem depois de vencido da tal paixão, ou vício, hás de pôr-te a olhar para tua desgraça, chorando-te e
desconsolando-te por isso; senão com alegria tornar a começar o jogo, certo de que, se porfiares, Deus Nosso
Senhor, mais cedo ou mais tarde, ajuntará a sua poderosa mão com a tua débil; e logo vencerás.

32. Quando cansamos e sentimos acídia em algum ato, ou exercício de mediana virtude, o remédio não é aliviar a
natureza descendo para o menos, senão antes carregá-la subindo para o mais. Porque daquele menos, em que nos
pusermos, pesará a natureza ainda mais para baixo, começando já a tomar carreira para a sua miséria; e como lhe
ouviram a primeira queixa, secundará com outras muitas. Porém se subirmos para o mais, cobrará medo de meter
petições em que tão ruim despacho lhe damos; e quando por fraqueza descair, ficará na mediania racionável, que
antes tinha, e tomará por descanso o que até ali lhe parecia trabalho. Desta indústria usava o glorioso S. Pedro de
Alcântara, o qual se lhe parecia insofrível o rigor do frio, não se abrigava com mais roupa; antes se despojava então
do manto, para que depois tornando a tomá-lo, ficasse o corpo contente com aquilo mesmo, que antes lhe não
bastava. A esta traça pois, se o corpo cansar na Oração estando arrimado, me desarrimarei; se me doer muito um
golpe da disciplina, secundarei em cima com outro mais rijo; se estiver com o sentido em se acabar o tempo
costumado da Oração, assentarei logo comigo, ficar mais algum tempo, além do costumado, etc. Neste sentido
podemos tomar aquele conselho do Evangelho; que se alguém nos alugar para caminho de uma milha, vamos com
ele caminho de uma légua: Quicumque te angariaverit mille passus, vade cum illo et alia duo.

33. Não é contra a humildade conhecer um os dons que tem recebido de Deus, segundo aquilo do Apóstolo: Sciamus
quae a Deo donata sun nobis [1 Cor. 2,12]. Especialmente poderá ser útil este conhecimento quando a desconfiança
de nosso aproveitamento nos acobarda de modo que nasce dela perigo de largar a empresa começada. Mas é
necessário referir à graça do Senhor tais dons e aproveitamento, e levantar os olhos para o caminho que resta por
andar, que é muito mais que o que fica andado e temer a conta, pois cresce conforme crescem os benefícios.

34. A razão por que os Santos se reputam por piores que os mais depravados pecadores, é porque com uma especial
luz do Espírito Santo, a qual não é discursiva, senão apreensiva e simples, abstraem de tudo aquilo bom em que eles
excedem os mais; e só apreendem clarissimamente suas misérias próprias, e o nada puro que são de si mesmos. Ou,
se fazem alguma comparação de si com os outros homens, comparam somente o vício, ou defeito próprio, com a
virtude que o próximo tem, ou presumem ter; v. g. comparam os benefícios que sabem haver recebido de Deus, com
esses mesmos que não sabem havê-los recebido o próximo. Comparam a sua má inclinação da natureza com
algumas inclinações boas que vem nos outros; comparam as suas ignorâncias, ainda que poucas na verdade, com a
ciência ao menos experimental e prática dos outros. E como os Santos estavam aplicados só a estas comparações, ao
menos virtual ou habitualmente; por isso sem ficção nem falsidade formavam conceito de que eram piores que
todos; porque a comparação é verdadeira, conforme se compuserem os extremos dela. E nesta forma bem podia um
S. Francisco entender que ele era o péssimo de todos os nascidos; e um S. Tomás, que ele era o mais ignorante e
estúpido. Por isso também, havendo dito Deus de Salomão[3 Reis, 3, 12] que era o mais sábio de todos, não mentia
Salomão em dizer de si que de todos era o mais néscio: Stultissimus sum virorum, et sapientia hominum non est
mecum [Prov. 30,2].

35. Desconfianças da salvação ordinariamente procedem de falta de amor de Deus; que quem muito ama, pouco
teme; e se o Espírito Santo [1 João, 4,18] nos dá testemunho de que somos filhos, não o pode negar de que somos
herdeiros. Podem também nascer de falta de consideração da bondade e misericórdia Divina [Rom. 8,17], que se
não deleita com a perdição do pecador; e não há coisa tão própria de Deus como valer a miseráveis e perdoar a
arrependidos [Tob. 3,22].
36. Os escrúpulos quase todos são filhos da soberba e do amor próprio, que quer saber mais que os Letrados e
Confessores, que asseguram as consciências; e por isso nunca se acabam estas almas de satisfazer, e cuidam que o
remédio é consultar muitas pessoas de letras e de espírito, para se aquietar, e cada vez ficam pior.

37. Quem sai do recolhimento anual dos exercícios espirituais, se deseja conservar o fervor que ali adquiriu, observe
os seguintes documentos práticos: 1o. Freqüente o mais que for possível a presença de Deus, levantando a este
Senhor o coração em toda a parte com viva fé e afetos pios; 2o. Os pontos, que por razão da brevidade do tempo se
não puderam expender bem naqueles dias, torne a meditá-los nos seguintes; 3o. Costume-se a dirigir a Deus e sua
maior glória todas e quaisquer ações que ocorrerem no discurso do dia; 4o. Tenha cuidado em não perder
migalhinhas de tempo, ocupando-o, não a vulto, e casualmente, senão em obras bem repartidas pelas horas do dia;
5o. Ponha especial custódia na língua; e tenha assentado firmemente de não falar do próximo, se não bem; 6o. Não
vaze prodigamente os sentimentos bons que teve de Deus, que esfria o forno se lhe abrem a porta; 7o. Cada mês (e
melhor cada semana), tome um dia, como os dos exercícios, em que se peça conta do aproveitamento, e sonde a
altura em que navega. E não desmaie ainda que sempre se veja caído; lembrado do que disse o Profeta Eliseu a el-rei
de Israel [4 Reis, 13, 19], quando bateu três vezes com a seta em terra: Se bateras cinco, ou seis, ou sete vezes,
acabarás com teu inimigo.

38. Não empregues muito a alma na obra exterior, ainda que seja muito do serviço de Deus; senão que fique livre e
despegada, e capaz de mudar de exercício sem turbação, ou confusão dos sentidos interiores. Os meios desta
liberdade de espírito, são a intenção pura de agradar só a Deus, a presença do mesmo Senhor renovada a miúdo
entre o fazer a tal obra, e o fazer conta que não importa que se acabe mais depressa, ou mais devagar, agora ou
depois, com aprovação ou reprovação dos juízos humanos.

39. Toda a repreensão, tristeza, afronta ou desabrimento e trabalho que me vier, quando não haja forças para
desejá-lo, ao menos sofrê-lo com paciência, calando e não atendendo a quem mo diz, senão para a mão de Nosso
Senhor, da qual vem. E assim lhe rogarei, por quem me é causa desses trabalhos, e que me dê graça para os sofrer
por seu amor, considerando que sofrê-los com paciência é grande sinal de nossa salvação.

40. O amor da Nação e Pátria necessita ser correto. É vergôntea do amor próprio; mas pode e deve enxertar-se no
de Deus; quando não, levará muito amargosos e desabridos frutos (especialmente em comunidades) de ranchos,
divisões e amizades particulares e outros piores, que se multiplicam destas pevides. Advirtamos pois, que a nação
dos espíritos é uma só, porque nasce do espírito de Deus, que é simples e indiviso. E para o varão forte todo o
mundo é pátria; para o perfeito, todo é desterro.

41. Fabriquemos espiritualmente dentro do nosso coração três instâncias ou moradas, onde nos recolhamos, para
estudar a humildade. A primeira destas estâncias chama-se Aniquilação: e aqui nos sumamos no fundo do próprio
nada, que temos por natureza. A segunda, chama-se Confusão: e aqui consideremos nossos pecados, parecendo-nos
maiores que os de todo o mundo. A terceira chama-se Desesperação: e aqui nos consideremos no inferno, que
temos merecido.

42. Importa muito a mortificação do entendimento, porque nele está todo o governo e direção da nossa interior
República. Por isso dizia meu Padre S. Filipe Néri pondo a mão na testa: Tudo está em saber render estes quatro
dedos. Os atos em que esta mortificação se exercita são os seguintes: 1o. Não fazer coisa alguma de importância por
arbítrio próprio e sem conselho de pessoa prudente; 2o. Não contradizer a alguém, especialmente aos maiores.
Sendo necessário tirar algum engano, fazê-lo com brandura de voz, e bom modo, e pedindo licença para responder;
3o. Não perguntar os porquês, a quem me pode mandar, ou me governa; 4o. Não falar muito diante de muitos; e se
são mais velhos, ou superiores, quase nada; 5o. Não levar com impaciência, que o meu voto não fosse seguido, ou
seja impugnado; 6o. Não perguntar nem ocupar o pensamento no que me não importa, nem ser amigo de dar e ouvir
novas; 7o. Não escolher palavras eloquentes ou esmeradas quando falo ou escrevo, fugindo de toda a afetação no
trato com meus próximos; 8o. Não julgar, discernir ou calcular as intenções, palavras ou ações alheias; 9o. Não porfiar
com pessoa alguma; se o que digo é certo, poderei afirmá-lo segunda vez e isso pacificamente; não bastando, me
calarei; 10o. Não redarguir o próximo, querendo convencê-lo com suas próprias razões; porque é coisa que estimula
muito ao redarguido, e gera contendas e esfria a caridade; 11o. Não dizer chistes, equívocos, chanças e agudezas;
porque tudo isto é sinal de espíritos pouco sérios, e debilita a eficácia dos bons propósitos, e afugenta a presença de
Deus; 12o. Não cortar, ou prevenir a palavra do próximo, mostrando que já sei o que ele quer dizer-me; 13o. Não ler
os livros só por curiosidade e para saber; senão para aproveitar o meu espírito e o de meus próximos, no temor e
amor de Deus; e para isto, ratificar a intenção antes que leia; 14o. Não investigar curiosamente as profundezas de
Deus e mistérios de nossa Santa Fé; e na Oração dar pouco lugar aos discursos, muito aos afetos; 15o. não me alegrar
vãmente com que os outros aprovem o que eu disse; nem atribuir a mim a glória do acerto.

Os meios para pôr em praxe o sobredito podem ser os seguintes: 1o. Hábito de presença de Deus; porque esta
simplifica as potências e faz desprezar a glória vã; 2o. Hábito de silêncio e soledade interior; 3o. Pedir a Deus com
humildade esta humildade, e ter-se por indigno que lha conceda; 4o. Exercício, quando se oferecem as ocasiões de
praticar os sobreditos atos, ou de negar-me aos tais vícios; 5o. Conta fiel ao Confessor, ou Padre espiritual, e ter
sofrimento consigo e com ele.

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V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos


1. Vencer o mal com o bem, e dar retorno de benefícios por agravos, é doutrina Evangélica. Porém adverte, que
alguns soberbos que a sabem, nem deste modo quererão que os venças; e ou presumirão não ser a tua caridade
pura, senão misturada com apetite de levar-lhes vantagem; ou se poderão exasperar de que sejas mais espiritual
que eles. Neste caso é necessário furtar a volta ainda mais por baixo, buscando ocasião em que te mostres
necessitado, ou desejoso de algum benefício seu; ou que tu lhes fizeres seja tão oculto, que lhes chegue a utilidade
despida da notícia do benfeitor. Pelo menos o benefício de orar a Deus por eles, nunca poderão, se tu quiseres, nem
sabê-lo, nem evitá-lo.

2. Se aspiras ao recolhimento interior e paz de coração, importa-te precisamente ter igual amor a todos os próximos
e igual esquecimento de todos, sejam ou não sejam parentes, ou conhecidos do mesmo, ou diferente estado, pátria,
gênio, etc. Não ocupes o espírito em cuidar muito deles. Até do próprio Confessor é necessário um santo despego,
não arrimando a ele a confiança de que te fará santo; porque nisto injurias a graça de Deus. Se observares bem este
aviso, livrar-te-ás de muitas imperfeições, erros e perigos.

3. Toma o que o mundo deixa, e deixa o que o mundo toma; e terás paz com os próximos, contigo e com Deus.
Honra, gosto e abundância é o que todos comumente buscam. Desprezo, dor e pobreza é o de que fogem. Em
trocando tu estas bolas, acabou-se a guerra; e depois de acabada, virão buscar-te as honras, deleites e riquezas
verdadeiras.

4. Quem não desprezar a glória do mundo e o descanso do corpo, e as justificações da sua razão, nunca jamais
poderá remover de si o jugo da vontade própria, nem ver-se livre da ira e tristeza, nem viver quieto com seu
próximo.

5. Impossível é que alguém trate a seu próximo com ira, e escandecência, sem primeiro se lhe levantar o coração, e
ter desprezo dele, reputando-se por melhor.

6. Não tires apertadas inquirições ao pobre para lhe dar esmola, especialmente se não é extraordinária. O evangelho
diz que, a todos os que te pedirem, dês: Omni petenti te, tribue [Luc. 6,30]. E não supunha serem santos, bem
procedidos e honrados todos os que pedem. Todo o próximo tem direito natural para que ninguém (fora de seus
legítimos Superiores, e em termos competentes) devasse de sua vida e costumes; e não é verossímil que por uma
limitada esmola te venda este direito, e se sujeite a que conheças de seus defeitos e misérias. Não procederás
indiscretamente seguindo os exemplos de um S. João esmoler Patriarca de Alexandria, de um S. Tomás de Vilanova
Arcebispo de Valença, de uma Santa Hedwigis Duquesa de Polônia, e de outros muitos Santos, a cujas esmolas
ordinárias, que eram inumeráveis, nenhum exame precedia acerca dos merecimentos dos pobres; antes
repreendiam a nímia prudência e exacção de seus esmoleres; e Deus, que chove sobre os justos e injustos, aprovava
este espírito com freqüentes maravilhas e especiais favores. Porém, se te consta, ou facilmente se deixa ver num
sujeito que nele a virtude é companheira da necessidade, este é bem que se prefira ao vicioso; porque também
diante de Deus a sua petição teria melhor despacho; e quem ama a Deus, que muito seja amigo dos seus amigos. E
se os pobres são credores dos ricos, também entre os credores para cobrarem há preferências justas e bem
ordenadas.

7. Se te lembram muitas vezes as injúrias, ou desprezos que te fez o próximo, é sinal que tens no estômago da alma,
que é a memória, pouco calor da caridade, e por essa causa não fizeste perfeito cozimento. O remédio nesse tempo
é avivar o tal calor com a Oração: In meditatione mea exardescet ignis: e chega-te a Deus pelo exercício da fé; que
este Senhor é fogo consumidor de toda impureza: Deus noster ignis consumens est. E tem sentido não soltes alguma
palavra, em que mostres que te amarga a língua.

8. Se vives em Comunidade, assenta com grande firmeza em teu coração, não ocupar o pensamento, e muito menos
trazer à língua o que fazem, ou dizem, ou tratam os outros Religiosos, ou em comum, ou em particular; nem te
introduzas, ou consintas ser introduzido em ajuizar da condição, trato, ou modo de cada um. Porque se dás em
consentir reparos, ainda que vivas entre Anjos, te parecerão muitas coisas mal e desencaminhadas; porque não
estás capaz de substâncias delas, e dos fins ocultos de quem obra; e tanto que um espírito quer ser regra dos outros,
erra muito prejudicialmente. Nem tu hás-de penetrar os secretos modos com que Deus exercita os Santos uns com
os outros, sem primeiro calar muito, e sofrer muito, e fazer-te néscio. Deixa-te, pois, totalmente do que te não toca,
e foge muito longe de zelar com caridades indiscretas. E ainda o que te toca, deves tratar com muito modo, e muito
a seu tempo, e com conselho de experimentados, e aparelho de Oração. E se não observares pontualmente esta
regra, não poderás tratar de teu aproveitamento como convém, nem alcançarás a paz de coração, onde estão
encerrados inumeráveis bens.

9. A pura, perfeita e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma; e esta é própria dos Bem-
aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas; e quanto estas forem menos, tanto a
liberdade será de mais alto grau. E esta é a que na presente vida podemos e devemos procurar e vemos que a
logram os pobres de espírito, dedicados só ao amor e serviço de Deus, que é todas suas coisas. Daqui se infere que
quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (exceto aqueles poucos, que só
no exterior são grandes, e no seu interior, pequenos), porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir e
conservar, antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado.

10. Penitente que tem exercícios de Oração Mental não lhe serve Confessor ordinário, que os não tem; porque lhe
atrasará o espírito, em lugar de o promover e não haverá aquele amor em Cristo e confiança que é muito necessária
entre os que se comunicam espiritualmente. Mas algumas dúvidas, cuja resolução dependa de letras, podem e
devem consultar-se com homem douto, ainda que não seja espiritual.

11. Todas as coisas imagina que tem duas asas [Epit. Filosófico]: uma por onde se não podem levar, e outra por onde
bem podem. Portanto, se algum próximo te fizer injúria, não lhe pegues pela asa de que é injúria, senão pela outra,
de que é próximo, e também queres que te sofra. Se vês algum defeito alheio, não lhe pegues pela asa, de que é
defeito; senão pela outra, de que não sabes o intento e fim de quem obra, e porventura agradará a Deus. Se te
morre algum amigo, não lhe pegues pela asa de que te fará falta este amigo; senão pela outra, de que sempre tens a
Deus, que vale mais que todos os amigos. Deste modo poderás levar bem as coisas dificultosas.

12. Escreve-se que em Dalmácia há uma profunda cova, onde em lançando alguém qualquer pedrinha, logo de
dentro se levanta um redemoinho e tempestade. Tais foram os Príncipes e poderosos; se os ofendeste com qualquer
palavra, ou aceno, guarda-te da tempestade. E pelo contrário, as palavras pesadas que eles te disserem, não basta
que as sofras, é necessário que te alegres com elas, e talvez que as estimes: Potentiorum injuriae hilari vultu, non
tantum patienter ferendae sunt (disse Seneca). Daqui se mostra quão pesada e perigosa seja a amizade entre
desiguais: Pondus super se tollit, qui honestiori se communicat: et ditiori te ne socius fueris [Ecl. 13,2].

13. Pedir esmolas para outros quem segue a perfeição, necessita de discrição maior do que à primeira vista se
representa; porque costuma nisto haver alguns perigos: 1o. Que o que intercede se inquieta e perturba se lhe negam
a esmola; porquanto, ainda que o seu intento e diligência fosse motivada do amor de Deus, todavia costuma entrar
também a autoridade e valimento próprio, por sacador de tal esmola; 2o. Que se arrisca a tomar parte da glória para
si, querendo ao pobre por devedor também seu, e esperando dele reconhecimento humilde: particularmente
quando quem deu a esmola esconde a sua mão na de quem intercede; 3o. Que aos que deram a esmola lhes pode
subir ao pensamento, se ficará com ela em todo, ou em parte, ou se a aplicará a seu modo para outros usos; 4o. Que
fico obrigado a quem pedi, para lhe fazer também alguma coisa que me peça: e às vezes pede, o que suposto seja
lícito, não me é muito conveniente; 5o. Que se as minhas intercessões costumam sair bem despachadas, acodem à
fama muitas pessoas pobres, que a troco de conseguir a misericórdia temporal, não reparam em se fingir muito
espirituais, e usam mal do Sacramento da Penitência. Por isso meu Patriarca S. Filipe Néri, conhecendo o espírito de
uma que vinha confessar-se com semelhante intento, logo a primeira palavra com que a despediu foi dizer-lhe:
Mulher, não há pão para ti. Por estas razões não deixem os Confessores de exercitar a caridade que puderem com
seus próximos desvalidos; porém vão com cautela atendendo à qualidade das pessoas a quem pedem, e para quem
pedem. E os que foram pobres de espírito e pacíficos não se aflijam de não poder dar esmolas, pois o seu grau é
muito mais alto e agradável a Deus do que o dos misericordiosos. A Santa Leogarde, Monja Cisterciense, estando em
semelhante cuidado, disse o Senhor aquele verso do Salmo: Haereditas mea custodire legem tua: Que a sua herança
e riquezas estavam situadas em guardar a Lei de Deus com toda a perfeição.

14. Quando te derem algum louvor, não respondas bem nem mal, deixa-o serenamente cair da mão em Deus, que
seu é; e lá no teu coração, diz: Soli Deo honor, et gloria. Nemo bonus nisi solus Deus. Só Deus é bom. Só a ele toda a
honra e glória. Porque se mostras recusar o louvor, ou te entristeces exteriormente com ele, atrais mais outro, em
que periga tanto mais a tua humildade, quanto o não querer ser louvado é mais louvável.

15. Pessoas sagradas e que professam aspirar à perfeição e fuga do século, é coisa vergonhosíssima, falarem em
coisas vãs e deleitar-se com rumores do mundo. Queixava-se Hugo Vitorino, de que Miles et Monachus ex eodem
panno partiuntur cucullam, et chlamydem: Soldado e Religioso, cortavam do mesmo pano a casaca e cugula. Que é
falar a pessoa dedicada a Deus do mesmo modo que a pessoa metida no século, senão mostrar que é do mesmo
pano, tecido da vaidade, tramado da malícia e cortado à medida da vontade própria?

16. Não desprezemos os pecadores, que também nós o somos; e se assim o não cuidamos, a nós mesmos nos
mentimos: Si dixerimus quoniam peccatum non habemus, ipsi nos seducimus, et veritas in nobis non est (1 João, 1, 8).
Nem estranhemos os tentados, para que também o não sejamos. Vos qui spirituales estis, hujusmodi instruite in
spiritu lenitatis, considerans te ipsum, ne et tu tenteris (Galat. 6,1). Fala aqui o Apóstolo com os espirituais; porque
estes são mais ocasionados a formar este desprezo, e se parecem com os Hereges Cátaros, que quer dizer limpos;
porque soberbamente afetavam esta limpeza espiritual em não admitirem segundo casamento, nem penitência
depois da primeira queda. Deus admite à sua graça o pecador, depois de milhares de quedas; e se o admite Deus,
que é a mesma limpeza, porque o não admitireis vós, novo Cátaro limpo só por fora? entrareis em tentação e então
aprendereis a vos compadecer da miséria e trabalho dos tentados. Assim sucedeu a Timoteo Anacoreta, que
perguntado do seu Abade [Vit. PP., lib. 3] que faria a um Monge negligente e díscolo, aconselhou que o expulsasse.
Tomou-se o seu conselho; porém o mesmo foi sair o expulso, que entrar em Timóteo a mesma tentação que ele
padecia; com esta se viu tão trabalhado e ameaçado de se arruinar, que com lágrimas clamava a Deus misericórdia.
Então ouviu do Céu uma voz que lhe dizia: Timóteo! por isso entraste em tentação, porque desprezaste a teu irmão
posto nela.

17. Onde muitos vivem juntos, a arte de conservar a paz não é tanto procurar agradar uns aos outros, quanto
sofrerem-se uns aos outros. Porque o agradar eu a meu próximo, depende também dele; e o sofrê-lo, depende só de
mim; e não diz o Provérbio: Quando um quer, dois são amigos; senão: Quando um não quer, dois não baralham. Por
inculpável que seja o meu procedimento, posso não contentar a meu próximo; mas por intratável que seja meu
próximo, bem posso eu sofrê-lo. Por isso ensinando-nos o Apóstolo um excelente meio para cumprirmos com a lei
de Cristo (que toda é caridade) não disse que uns fizéssemos a vontade aos outros, senão: que uns suportássemos a
carga dos outros: Alter alterius onera portate: et sic adimplebitis legem Christi [Galat. 6,2].

18. Não entendam os pais de famílias e superiores que pecam todas as vezes, que se agastam racionalmente com os
que tem a seu cuidado. Bem pode haver ira, sem haver pecado: Irascimini, et nolite peccare. E às vezes poderá haver
pecado, se não houver ira; porquanto a paciência e silêncio fomenta a negligência dos maus e tenta a perseverança
dos bons. Qui cum causa non irascitur, peccat (diz um Padre); patientia enim irrationabilis vitia seminat,
negligentiam nutrit, et non solum males, sed etiam bonos invitat ad malum [Ioan. Hierosolymit. bemil. 11, in Mat.].
Nem o irar-se nestes termos é contra a mansidão; porque esta virtude compreende dois atos: um é reprimir a ira
quando é desordenada; outro excitá-la, quando convém. A ira se compara ao cão, que ao ladrão ladra, ao senhor
festeja, ao hóspede nem festeja nem ladra; e sempre faz o seu ofício. E assim, quem se agasta nas ocasiões e contra
as pessoas que convém agastar-se, bem pode, com tudo isso, ser verdadeiramente manso. Qui igitur (disse o
Filósofo) ad quae oportet, et quibus oportet, irascitur, laudatus, esse que is mansuetus potest [Ethicorum, 4 c.9].

19. Contra os primeiros ímpetos da ira irracionável usemos do remédio que Cristo Senhor Nosso ensinou a Santa
Brígida [Lib. 6 revel., c. 6]. Quando alguém (disse o Senhor) te provocar a ira, não lhe fales palavra, até que sintas que
aquele movimento apaixonado se apartou do teu ânimo. Depois que já tiver passado, examina e considera as coisas;
e então fala com mansidão. Este silêncio do provocado, persuade eficazmente ao provocante, como não tinha razão,
ao menos toda; e nela se fere, como em uma aguda espada: Hujusmodi est irati animus (disse Crisóstomo), qui si in
te prosiliat, tace, et opportunam ei plagam ingliges [Homil. 47, in Ioan.].

20. Em maus caminhos há maus encontros. Por isso diz David dos pecadores que acham tropeços e desastres por
onde andam: Contritio, et infelicitas in viis eorum [Sal. 13,3] E dos que temem a Deus, diz o Eclesiastes, que não
encontram o mal: Timenti Dominum non occurrent mala [Ecl. 33,1]. Declara-se com exemplos particulares. No mau
caminho do falar muito, há o encontro mau da mentira, murmuração, jactância, etc. No mau caminho das amizades
particulares, há o mau encontro do empenho em negócios temporais, da lisonja e adulação, da omissão de correção
fraterna, da facilidade em ações menos modestas, etc. No mau caminho da liberdade dos olhos, há o mau encontro
do objeto que move ruins pensamentos, do desassossego do tempo da Oração, por causa das espécies que entraram
no sentido comum, da curiosidade e notícia de coisas que me não pertencem, etc. Aquele, pois, que deseja evitar os
maus encontros, não entre pelos maus caminhos. E quanto for mais estreito e direito o caminho que tomar, tanto
melhor sucesso terá na jornada; isto é, quanto imitar mais a Cristo pela abnegação, tanto menos quedas dará no
pecado. E esta é a ordem e disposição da providência especial que Deus usa com seus amigos; com a qual parece
que escolhe todas as más tentações para uma parte, e todas as oportunidades de O servirmos, para outra parte,
dando estas aos tementes e perfeitos e permitindo aquela aos mundanos, e que nenhum estudo fazem da ciência do
amor divino. Porque Deus a ninguém tenta para mal; mas os maus andam por caminhos onde sempre estiveram, e
hão de estar tropeços: e estes não lhes tira Deus, porque lho não merecem e porque seria confundir a ordem das
coisas; se ou tirasse do mundo o mal totalmente, não sendo ainda tempo disso, ou o lançasse nos caminhos bons,
com que afugentasse dali aos seus escolhidos e amigos.

21. Disse um ancião do Ermo: Assenta contigo não fazer jamais mal a próximo algum, senão que hás-de ter para com
todos coração puro. E o Abade Silvano disse: Sejamos de coração manso e não iracundo; contra ninguém revolvamos
malícia no nosso coração, nem deixemos entrar nele aversão de quem nos persegue injustamente, nem
estranhemos e tomemos enfado de sua inimizade, nem o desprezemos na sua tribulação e necessidade, nem demos
mal por mal; mas procuremos ser pacíficos com todos, que esta é a paz de Deus.

22. Quem já está aconselhado com as pessoas prudentes e pias, não lhe convém andar buscando mais conselheiros.
Porque os juízos, só por serem muitos, sucedem serem vários; e onde o consulente busca luz e resolução, achará
confusão e perplexidade, e menos constância nos seus bons propósitos.

23. Quem trata da perfeição com ânimo resoluto, aparte-se da familiaridade com os que não tratam dela. Isto se
estende ainda entre os que vivem na mesma Comunidade. A serva de Deus Maria de la Antígua estava neste
particular irresoluta e escrupulosa temendo ofenderia a caridade do próximo. E o Senhor lhe deu esta doutrina: Eu
mandei aos meus no Evangelho, que sacudissem os pés do pó da terra onde não fossem recebidos. E nisto se
entende que sacudam de si o pó das conversações dos que se não querem emendar pelo seu exemplo, nem tomar
seus conselhos. Porque o tratar com os tais, já que a eles se não pega o ouro das virtudes, não pode deixar de pegar
aos meus o pós dos seus vícios (de pouco depois continua): Para escusar estes danos, faço eu divisão entre pai e
mãe. E os que com máscara de caridade, por não fazer esta divisão, vão contra meu Evangelho, contradizem-me a
mim, e me perseguem em meus filhos pequeninos; e não são eles obrigados à obediência dos Prelados, que lhes
mandam por mim, o que é contra mim.
24. Em nada te introduzas, nem consintas que outros te introduzam, ou seja coisa interior ou exterior, que não vejas
resultado em proveito da tua alma. E porque tomes melhor este conselho, ouve as próprias palavras de cujo é: Nihil
eorum tractes (diz o Seráfico Doutor S. Boaventura) quae te spirituali utilitate non tangunt: hoc est, de nulla re cures,
vel implices te in aliquo exterius, vel interius, quoquo modo, ubi non invenis animae tuae lucrum: nec in hujusmodi te
ab aliquo implicari permitas [In epist. 25, Memorialium].

25. A pessoa que se dedicou à conversão das almas, pregando e confessando, não convém que apareça muito entre
a gente, fora de quando exercita estes santos ministérios; senão como que baixa então do Céu, ou sai do deserto a
fazê-los. Porque na familiaridade e comunicação com os próximos, são inevitáveis algumas ações e palavras, que
ainda que lícitas e honestas, enfim são humanas; e, para o próximo, era necessário que todas fossem santas e
exemplares. Por onde desta regra se excetuam os varões consumados em virtude, e já muito acreditados por Deus
com dons particulares, porque estes com todas suas ações e modos, pregam, convertem e edificam.

26. Quando aconselhas o bem que tu não fazes, ou ensinas a virtude que tu não praticas, é necessário revestir-se
primeiro do espírito de mero mensageiro ou embaixador de Deus. Mas ainda assim não poderás dar bem o recado,
se ao menos não desejas fazer o que aconselhas, em termos semelhantes e muito menos se te não absténs de obrar
o contrário. Boa doutrina a este propósito, a de Taulero, que havendo ensinado alguns pontos de perfeição muito
alta, acrescenta logo: Ne quaeso putetis charissimi, ea me arrogantia praeditum, ut credam me huc pertigisse.
Quamvis enim nullus Doctor ea alios docere merito deberete, quae ipse necdum vita sit assequutus: ad necessitatem
tamen satis est ut ea diligat, et intentione prosequatur, nec plane agat contrarium[Ser. 2 in Dominic. 5, post. Trinir.].

27. Muitos de tal sorte se embaraçam com o emprego de uma virtude, que não consultam a prudência guia de
todas. Deste modo deixam de dar o seu lugar ao espírito de caridade, por se embeberem no de pobreza; e às vezes
escandalizam com a austeridade, cuidando que edificam com o retiro: outras vezes usam da fortaleza, quando
melhor fora usar da mansidão. Os homens são como as árvores: Video homines sicut arbores: e a árvore que Deus
louva, é a que dá o seu fruto no seu tempo: Quod fructum suum dabit in tempore suo. A Prudência (como dizíamos)
é a que aponta e mede estes tempos.

28. Todo o juízo temerário, e ainda qualquer pensamento simples de falta ou pecado de outros, procuremos lançá-lo
logo fora; voltando o sentido para Deus Nosso Senhor, e mostrando-lhe as chagas da nossa alma, para que as cure,
ou dizendo-lhe, como o mesmo Senhor ensinou a Santa Brígida neste caso: Domine Iesu, omnium cognitor, adjuva
me ut in vanis cogitationibus non delecter. Senhor Jesus Cristo, que conheceis todas as coisas, ajudai-me para que
me não detenha, nem deleite em pensamentos vãos e maliciosos.

29. Se me vier inveja, ou tristeza dos bens espirituais, ou bens da natureza e fortuna, que alguém logra, tomarei este
rebate por despertador para levantar logo o coração a Deus, pedindo lhos aumente, quando convier ao bem do tal
próximo; e fazendo ato positivo de caridade da mesma pessoa, amando-o pelas razões que Deus e manda que o
ame.

30. Quando me vierem razões e discursos de que outros têm em alguma coisa culpa, e eu estou inocente, não me
escusarei ainda que o possa fazer justamente. Mas antes tomarei a acusação sobre mim, e darei a escusa e louvor a
meu irmão. Pois é certo que diante de Deus tenho muitas culpas em aberto e por pagar, ao menos da vida passada;
e ele me esperou até agora, e mas encobriu, e passaram sem castigo e repreensão; e assim verdadeiramente não
estou inocente e aceitando o trabalho que me vem, fico mais descarregado de minhas dívidas.

31. Se vires em algum sujeito acreditado de espiritual e amigo de Deus, asperezas de condição e movimentos de
cólera contra os próximos, nem por isso formes logo juízo decretório, de que todas as mais virtudes suas são
duvidosas, ou menos que medianas. Muitas vezes deixa Deus na sua obra alguma parte por lavrar, por ser assim
conveniente para o lavor das mais. Estas verrugas servem para que a alma se não espelhe e remire em si mesma, e a
defende da opinião santa para com os outros, a qual é muito gastadora dos progressos da virtude. A Madre
Francisca do Santíssimo Sacramento, Religiosa Carmelita Descalça no seu Mosteiro de Pamplona foi sujeita de tão
raras virtudes e enriquecida por Deus com tão particulares e freqüentes favores, que mereceu a sua vida ser assunto
de particular história; e só nas visões que teve do Purgatório, achou o V. Prelado D. João de Palafox, matéria para o
tomo que intitulou: Luz a los vivos, y desengano en los muertos. E todavia o seu natural era grosseiro, colérico, e mal
acondicionado, e lhe foi motivo de grande humilhações; e ainda que muitas vezes pediu com lágrimas a Deus que lhe
mudasse a condição em outra mais temperada e suave, lhe foi respondido: Essa te convém. Em ponderação disto, diz
o Cronista geral daquela ordem esta sentença [Fr. Francisco de S. Maria t. II, lib. 6, c. 22]: Deus não obra de estampa,
nem está sujeito aos aranzéis dos nossos discursos.
32. Aviso-te que te guardes de andar pelos palácios; não porque ali não haja, ou possa haver, exercício de virtudes
verdadeiras; senão porque é outra região, ou clima de ares muito diferentes, que não servem para a saúde
espiritual, de quem não foi criado neles; e mais perderás ali num quarto de hora do que adquiriste fora em muitos
anos.

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VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador


1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e
evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias
de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer
demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de
um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine
spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum
invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non
introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder,
fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é
conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.

2. Para escapar dos laços do demônio uma alma que trata da perfeição, e a quem ele não tenta senão com capa do
seu bem, é necessário observar essas três cautelas: 1a. Que em tudo quanto lhe for possível se governe pela
obediência dos Superiores, supondo nele o mesmo Cristo; ou ao menos pelo conselho de quem lho pode dar
acertado 2a. Que de coração procure sempre humilhar-se no pensamento, palavra e obra; folgando que lhe
anteponham a todos em todas as coisas e mais as daquele que menos lhe cai em graça; 3a. Que na direção interior e
exterior do exercício de Oração, e dos mais fora dela, siga antes o norte e luz da Fé, que o da razão; nem faça
fundamento algum em consolações sensíveis, ou apreensões imaginárias.

3. Três modos de locução tem o homem: dois interiores e um exterior. O primeiro se forma no entendimento, que é
potência espiritual, com espécies inteligíveis, que concorrem com o mesmo entendimento para produzir-se o
conceito. O segundo se forma na fantasia, que é potência material, com espécies também materiais, que concorrem
com a mesma fantasia para produzir-se a sua palavra interior, ou fantasma expresso. O terceiro se forma na língua,
lábios e mais órgãos necessários para articular as vozes. Do primeiro modo, dizemos verbi gratia esta sentença: Pai
nosso que estais no Céu, sem ser necessário mais que um ou alguns atos do entendimento, que tocam de pôr junto
isso de que Deus é pai, e pai de todos os homens, e que assiste nas alturas, como em lugar próprio para manifestar
sua glória. Do segundo modo dizemos esta mesma sentença com dicções, sílabas e letras interiormente formadas, e
sucessivamente seguidas, as quais podemos continuar, partir, ou omitir conforme quisermos. E estas tais dicções,
sílabas e letras são simulacros e representações que da locução externa resultaram e ficaram guardadas na fantasia.
Por onde um homem que sempre fosse surdo e mudo não poderia falar consigo por meio destas tais palavras
interiores, que são simulacros das exteriores, pois nunca percebeu estas; suposto que sempre pela fantasia, que é
sentido comum, perceberá o objeto, em virtude de outras espécies que entraram pelos outros sentidos
desimpedidos; e assim não dirá lá consigo: Pai nosso etc. mas todavia formará um fantasma expresso, ou selo
figurado, de que Deus é nosso Pai. Do terceiro modo, dizemos a mesma sentença, exteriormente articulada, como
fazemos ao rezar vocalmente. A locução do entendimento é velocíssima; a da fantasia, não tanto; a da língua, mais
vagarosa. Esta a entendem os outros homens; a da fantasia, também a entendem os Anjos bons e maus, se Deus lho
não encobre; porque como são espíritos, ficam superiores a todas as coisas materiais, bem como as casas mais
baixas são devassadas e descortinadas, das que ficam mais altas. A do entendimento só Deus a conhece, e a quem
ele a quiser revelar: e estes são os segredos do coração, que as Escrituras dizem que só a Deus são patentes. Toda
esta doutrina, ainda que especulativa, serve para muitos proveitos práticos. Apontam-se agora dois: O primeiro, e
que faz ao presente intento de pelejar contra o tentador, é, que quando propusermos fazer esta ou aquela obra do
serviço de Deus, não o proponhamos falando com a fantasia e muito menos com a língua; senão só tocando no
objeto de por junto com atos espirituais do entendimento e vontade; e sem figuras do que queremos obrar. Para
que o demônio que ordinariamente anda ao nosso lado escutando, não nos contamine os intentos, e pare em aborto
o propósito que havia de sair em obra. O outro proveito, que aqui se toca de caminho, é que as almas que na Oração
não podem falar com palavras interiores da fantasia, porque Deus já não influi nelas por esta via do sentido, não tem
de inquietar-se cuidando que estão ociosas. Porque enquanto o entendimento está ocupado com a fé da presença
de Deus, e a vontade carregando, como um peso, para o amor do mesmo Deus, bem ocupada está a alma e muito
excelente Oração é esta, pois tem mais de espiritual, unida e simples; suposto que a ela não se passa, senão por
meio da outra, havendo para isso os sinais, que em outro lugar deixamos já apontado.

4. Quando as virtudes crescem, lançam raízes que chegam ao homem exterior em potências materiais. Por isso o
demônio prova e apalpa em sonhos com vários irritamentos da honra, cobiça ou deleite, em que estado estão as
virtudes contrárias e se há já no homem exterior resistência de per si, sem ajuda da parte superior e espiritual. No
que se há propriamente como um ladrão que de noite apalpa as portas, ou paredes da casa, para que sabendo por
onde fraquejam, por ali faça o assalto.

5. Se ouvires no teu interior umas palavras altas e rijas, e aceleradas, como zunido de mosca varejeira, que te dizem,
em teu nome próprio e não de terceira pessoa, que faças isto, ou deixes de fazer aqueloutro, este não é o espírito de
Deus; senão o teu próprio ou o do Anjo mau. Porque o espírito de Deus é suave e pacífico, e não violentador e
tumultuoso.

6. Quando o demônio não pode fazer com que a alma fique no pecado, vem a concerto que ao menos fique na
ocasião, como o Faraó já vinha em que o Povo de Israel adorasse a seu Deus; mas requeria que isso fosse no Egito.
Quando vê que guardamos abstinência discreta, e que nos não pode fazer cair na gula, aconselha-nos abstinência
suma, alegando com os legumes de Daniel, e com os três pães duríssimos de S. Maria Egipcíaca, e com os exemplos
dos Monges do deserto; para que deste modo debilite o corpo e logo com ele a alma; a cuja necessidade acudindo
excedamos o modo, e lhe restituamos mais do que lhe devíamos, e fiquemos com tédio e medo à virtude e seus
exercícios. Outras vezes nos irrita contra si, e provoca a orar: então cedendo voluntariamente da perseguição que
nos fazia, dá a entender que cede à força de nossas Orações; para que presumamos serem muito gratas a Deus e
terríveis para o inferno; e que nelas temos armas prontas, com que podemos entrar em qualquer perigo
confiadamente. Também sucede aparecer em figura de alguns homens, que foram de vida perversa, e se
condenaram, fingindo que vem do Purgatório, com licença de Deus, a pedir sufrágios. E a tramóia vai ordenada a que
concebamos esperança falsa, de que também nos salvaremos, sem embargo de ser grandes pecadores; e a que
tenhamos menos horror ao curto número dos predestinados, que as Escrituras e Santos Padres e Pregadores
Apostólicos nos intimam. Estas, e outras muito maiores astúcias do comum inimigo, são as que no Apocalipse se
chamam: Alturas de Santanás: Altitudines satanae.

7. Andava ausente de sua casa uma pessoa; e vindo de noite a desoras, sua esposa, ou o seu servo, suposto que lhe
parecia conhecer a voz, contudo, por maior cautela, não lhe quis abrir, mandando-o vir de dia. No seguinte dia esta
pessoa não somente se não irou, senão que louvou a esposa, ou servo de fiel e prudente. Quer dizer esta parábola:
Que em negar o crédito a sonhos, ainda que estes fossem de Deus, nenhum perigo há; porque bem sabe o Senhor
que os enjeitamos, não por fechar a porta a seus santos avisos e inspirações, senão por não abri-la aos enganos do
inimigo, que sabe contrafazer-lhe o metal da voz.

8. Ordinariamente fazem os demônios grande estrago à hora da morte, com a esperança enganosa de que viverão
mais os enfermos e com o tempo poderão emendar a vida e exercitar o que Deus lhes inspirar por meio de seus
Anjos: e com este engano se acham encravados e perdidos. Este aviso deu a Virgem Santíssima S. N. falando com
uma serva sua. Por onde a melhor disposição no moribundo para partir à eternidade, é dar-se por despedido desta
vida e entregar-se com total resignação nas mãos de Deus, não querendo senão o que ele for servido.
9. O soldado de Cristo deve estar à espera da tentação, sempre solícito e suspenso, especialmente quando começa
os caminhos da virtude, ou nele fez algum maior progresso; para que ao afrontar-se com a tentação, esta lhe não
cause estranheza ou terror; antes com ânimo pacato se acomode a tolerar o trabalho e moléstia dela; cantando
espiritualmente com o profeta: Proba me Domine, et tenta me [Sl. 25,2]: Provai-me Senhor e permiti as tentações
que fordes servido, contanto que me não deixeis cair.

10. Quando estamos carregados de tristeza e tédio, é bom orar vocalmente, e em voz um pouco mais alta e entoada;
porque aquele som e sua variedade dissipa a melancolia e dá diferente postura à alma, que estava como debruçada
sobre o seu afeto triste. E também, se este era causado pela oculta presença, ou sombra do inimigo, espírito triste,
fugirá para não ouvir os louvores de Deus Nosso Senhor e verdades de nossa Santa Fé.

11. Na guerra contra os vícios havemos de guardar ordem e método: bem como o jogador escolhe das cartas que
tem na mão a que há de pôr na mesa em primeiro ou segundo lugar, e guarda as outras para adiante, e deste modo
ganha. Primeiro se há de encaminhar o nosso jogo contra a gula e avareza e vanglória. Porque quem não caiu na
gula, dificultoso será cair na luxúria. Do mesmo modo, quem não caiu na cobiça, ou no apetite de gula, ou vanglória,
é dificultoso cair na ira. Assim também não poderá escapar do espírito de tristeza e acédia quem, desejando os
objetos da vanglória, acédia ou gula, os não conseguiu e ficou frustrado. Por isso, das três tentações com que o
demônio acometeu ao Senhor no deserto, a primeira foi de gula: Dic ut lapides isti panes fiant; a segunda de
avareza: Haec omnia tibi dabo, etc; a terceira de vanglória: Mitte te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis
mandavit de te, etc. [Mt. 4]

12. Antes de haver chegado à cidade da Humildade, se te vires quieto, e sem moléstias e batalhas dos vícios, não
creias em ti. Há de armar emboscadas o inimigo; e desde logo podes esperar pela turbação futura.

13. De muito diferente modo combatem os demônios com as pessoas que vivem no mundo e manejam as coisas que
perecem com o tempo, das quais se fomentam as paixões, e com as que vivem em lugares solitários e desertos.
Porque com os primeiros a guerra é prática ou exterior; e com os segundo, interior e especulativa, por meio de
pensamentos molestíssimos e motins da interior república. Esta segunda guerra é muito mais trabalhosa e difícil que
a primeira; porque como é espiritual, facilmente começa e dificultosamente se aquieta; o que não tem a primeira,
porque depende de lugar, tempo e oportunidade das coisas materiais com que se lida. Para esta guerra pois
espiritual e invisível, as armas em que consiste a nossa vitória é perpétua. Oração também espiritual e invisível,
como o são os inimigos; e esta faz o ânimo firme e valoroso para combater.

14. Acabando de vencer com a graça de Deus uma tentação, não triunfes, nem descanses, nem te julgues por
seguro; porque logo o inimigo há de revirar sobre ti com outra e outras muitas. Por isso no livro de Jó se diz que este
dragão tem as conchas, ou escamas tão juntas e apertadas, que nem o ar cabe entre uma e outra: Corpus illius, quasi
scuta fusilia, compactum squamis se prementibus. Una uni conjungitur, et ne spiraculum quidem incedit per eas [Jó
41,6].

15. Guarda-te bem de andar muito contente e satisfeito de ti nos teus exercícios espirituais, e obras de caridade do
próximo, que por tua industria sucedem à medida do teu desejo, e as possuis com propriedade gozosa. Porque, ou
Deus te não ama com alguma especialidade, ou te ama. Se te não ama, irás de cada vez inchando mais no teu amor-
próprio. Se te ama, permitirá que caias em coisas da ira, ou concupiscência, de que muito te descontentes. Neste
caso, não te anojes com Deus, como filho que se amua com o castigo do pai; porque te secundará com outro golpe
mais rijo. Dá-lhe muitas graças; e reconhece que ele permitiu que tropeçasses, para que andasses mais atento e
fiado mais no báculo da sua assistência do que nos pés da tua atividade.

16. De três modos afugenta e faz terror aos demônios o sinal da Cruz: 1o. Pela apreensão dos mesmos demônios,
que então se lembram da Paixão e Morte de Cristo Salvador nosso, causa da assolação do seu império; 2o. Pela fé e
devoção de quem se benze e persigna; porque como a Oração também se faz por acenos e gestos, deste modo ora o
Fiel e invoca em seu auxílio os merecimentos da Paixão de Cristo; 3o. Por instituição de Deus Nosso Senhor que
deputou este sagrado sinal para este maravilhoso efeito, e por arma dos homens contra os espíritos malignos; e por
isso obra ex opere operato; isto é, independente da fé e devoção de quem se benze; como se tem visto em muitos
casos que referem os Santos, em que este sinal valeu e aproveitou a Judeus e Gentios. Mas se algumas vezes
experimentarmos que o demônio não foge deste sinal, não imaginemos (diz S. Agostinho) que o despreza, ou não
teme; senão entendamos que Deus assim o dispõe para fins mais altos, por ocultos modos: Cum autem non cedunt
his signis hujusmodi potestates, Deus ipse prohibet occultis modis, cum id justum atque utile judicet. Nam nullo modo
illi spiritus audent haec signa contemnere; contremiscunt haec ubicumque illa prospexerint.

17. Juntas com o sinal da Cruz, são poderosas palavras estas para pelejar contra os demônios:Abrenuncio tibi,
satana: et conjungor tibi Christe: Renego de ti Satanás, e uno-me contigo, Jesus Cristo. Assim o ensina S. João
Crisóstomo: Haec erit tibi baculus, haec armadura, haec turris inexpugnabilis. Cum hoc verbo et Crucem in fronte
imprime. Ita enim, non tantum homo occurrens, verum nec ipse diabolus te quidquam laedere poterit [Homil. 21, ad.
Popul.]. Também tem maravilhosa força contra os demônios aquele verso do famosíssimo Salmo 67. Exurgat Deus,
et dissipentur inimici ejus, et fugiant qui oderunt eum, a facie ejus: Levanta-te Deus e sejam seus inimigos destruídos;
e fujam de tua presença os que lhe tem ódio. Dele usava S. Antão Abade com tal efeito, que lhe não paravam diante
legiões e legiões de infernais espíritos. E se escreve que os mesmos demônios confessaram já que em todo o velho e
novo Testamento não havia palavra que mais os aterrasse [Thom. Le Blanc. ibi].

18. El-Rei Ciro, o mais moço, grande homem de guerra, ordenava aos seus soldados que, se o inimigo acometesse
estrondosamente e com alaridos, eles o esperassem calados; mas se o inimigo viesse surdamente e em silêncio, eles
lhe saíssem com clamores e estrondo militar. Assim devemos andar ao revés do tentador. Se acomete com
branduras e ociosidade, fazer penitência e buscar ocupação. Se com embaraços e impaciências, recolher, e pôr em
paz e silêncio. Se tenta de presunção da misericórdia Divina, considerar seus altos e incompreensíveis juízos. E se
tenta de pusilanimidade e desconfiança, considerar na bondade Divina e valor dos merecimentos de Cristo etc.

19. Assim como o menino que tem atado o passarinho por uma linha lhe permite dar alguns voos, porque sabe que
lhe não há de fugir. Assim o demônio a muitos que tem presos em pecado mortal, lhes consente cerimônias,
lágrimas e outras coisas boas exteriores, porque está certo que, enquanto não se quebra o fio do tal pecado, não lhe
podem escapar da mão e se condenam.

20. O Santo Fr. Ambrósio de Sena, Religioso da Ordem dos Pregadores, dizia que para distinguir as visões e aparições
dos Anjos bons das falsas dos demônios, em chegando a nós qualquer visão, perguntássemos logo: Quem é? donde
vem? e a que vem? E que sendo Anjo do Senhor, se trocaria o temor em alegria, e o sobressalto em segurança. E se
acaso fosse o anjo de trevas, perderia com isso as forças, vendo que já era pressentido.

21. Não olhes com a vista da alma para o pecado da sensualidade, nem ainda para abominar o irracionável e feio
dele; nem em ti, nem em outros, ainda que sejam pessoas de estado em que não seria culpa; nem também para
examinar se consentiste no pensamento; porque isto se há de fazer muito ao espiritual e a seu tempo, já passada a
tentação, e quando seja necessário para a Confissão; e sendo-te preciso ouvir no confessionário, ou estudar pelos
livros estas matérias, não formes figuras delas na imaginação, e percebe-as quanto puderes só pelo entendimento, e
atalha escusadas declarações do indiscreto penitente. Sem e Jafet cobriram a indecência de seu pai Noé andando
para trás e deixando-lhe cair em cima a capa, que levavam estendida, pegando um de uma ponta, outro de outra.
Assim a tua vontade e o teu entendimento, sem olharem para o que cobrem, devem cobrir tudo isto com a fé da
presença de Deus, ou memória de Cristo crucificado.

22. O demônio é tão soberbo, que se não contenta com entrar senão pelas mesmas portas que Deus entra: que são
a comunhão sagrada, a Confissão sacramental e o exercício da oração, para lançar peçonha no que é medicina. Isto
disse S. Teresa estando já no Céu, a uma sua filha cá na terra. Não declarou que peçonha era esta. Porém bem se
mostra, que a peçonha que lança nas Comunhões é que se recebam com pouca preparação e ação de graças; e
fazendo mistério do sabor que as sagradas espécies deixam na boca, ou da facilidade com que se levam para baixo,
ou de que o Sacerdote desse duas fórmulas por uma, ou parte de uma, em lugar da inteira; e outras semelhantes
observações impertinentes, mas a peçonha mais fina de todas, é que se chegue àquela Divina Mesa em pecado
mortal, sacrilegamente.
A peçonha que lança nas Confissões é misturar nelas negócios e tratos, e conversações alheias da severidade e
decoro daquele ato; consumir largo tempo com impertinências e afetações escrupulosas; desculpar os pecados
próprios, manifestar os alheios; apetecer opinião de virtude no conceito do Confessor; criar-lhe amor bastardo, de
modo que nasçam e se peçam zelos dos outros irmãos ou irmãs de confissão; fazer negociação da familiaridade
adquirida pela freqüência deste Sacramento, em ordem a temporalidades e pretensões do mundo; fingir virtudes e
inocência entre muitas gravíssimas Cruzes, para mover o Confessor a sacar esmolar. E finalmente, as piores fezes
desta peçonha, são da parte do penitente calar pecados graves, por pejo, ou qualquer outro respeito; e da parte do
Confessor (o que Deus não permita) solicitar o penitente.
A peçonha que lança na Oração é furtar para ela o tempo que se deve às obrigações da obediência e da caridade;
dar-se à vida folgazã e ociosa, querendo comer da virtude sem o trabalho de mãos e suor do rosto; empregar na
Oração com tanto afinco as potências, que se destrua a cabeça e se incapacite para a a mesma Oração alta,
suspendendo-me sem Deus me suspender, de que nasce não ter pés para andar meditando, quem tomou asas para
voar contemplando; reputar e estimar por consolações do Céu as que são puramente da carne e do amor-próprio;
fazer-se milagreiro interpretando qualquer movimento das espécies da fantasia, por revelação ou aviso misterioso;
tratar a Deus Nosso Senhor com uma confiança néscia e pueril e sem o respeito que inculca a infinita distância entre
o Criador e a criatura. Fujamos, pois, destas e semelhantes corrupções diabólicas para que se logre em nosso espírito
a medicinal e divina virtude da Oração e Sacramentos.

23. Quando entras em tentação, é bom remédio para não cair nela representar na imaginação que vês diante de ti a
Cristo na forma em que foi mostrado ao povo, coroado de espinhos, cheio de sangue e feridas, com gesto humilde e
lastimoso; e que voltando para ti seus divinos olhos, te diz: Filho, não me ofendas; Filho, não me craves mais esse
espinho; não me açoutes outra vez; não escolhas antes a Barrabás do que a mim, que te amo de coração; olha que
te mereço grande amor, porque sou teu Deus, teu Criador e Salvador; vê que te perdes, se me desprezas; não me
desprezes, que sou teu Deus e Senhor. Resiste a esse mau pensamento, que eu te ajudarei e te pagarei como quem
sou, todo o trabalho que puseres em guardar a tua alma e a minha honra.

24. No coração do homem que não tem em si o Espírito Santo, está presente o demônio; e desde ali procura, quanto
pode, impedir-lhe que atenda a qualquer coisa que possa remover este seu cativeiro. Porém, se o homem está em
graça de Deus, o demônio sai, e anda por fora ao redor do corpo como nuvem caliginosa, procurando destruir o seu
bem, e fazer com que sinta a alma, por via dos membros, o cheiro dos deleites. E este circuito e entradas e saídas do
demônio, as sentem alguns a quem Deus as quer manifestar ao menos no sentido do tato. Porque enquanto o
soldado de Cristo anda nesta campanha da vida mortal, sempre sua liberdade é metida em vários exames sobre qual
é o bem que ama; se o transitório, se o eterno; e quanto o ama. Mas se alguém é tão valoroso, que ainda em vida
morre de todo a si, então se faz totalmente casa do Espírito Santo. Porque enquanto nossos membros servem a
algum deleite sem ser regulado pela vontade de Deus, o senhor do pecado e contratador das negaças dele conserva
o seu direito para infestar o corpo humano e fazer dele seu covil. Mas aos Santos, anda-lhes muito ao longe; e, se
chega, é com especial licença de Deus e maior tormento seu. Quem lê, aproveite-se.

25. A alguns já proveitos na Oração, o demônio se chega, e com seus dedos invisíveis lhes apalpa e move o cérebro,
de sorte que represente admirável luz e grandezas incomparáveis. E como o exercitante acha que está orando
quietamente, e não sente vagueações, nem movimentos feios, suspeita que logra estado de Oração muito
avantajada e que tem presente algum misterioso símbolo das coisas divinas. E, entretanto, o inimigo lhe petisca
faíscas de vanglória, por então não conhecida. Porém, se a alma é humilde e temente e busca a Deus só por Deus em
pureza de Fé e espírito, o Anjo bom se chega, e com sua palavra faz parar esta operação de erro e concerta o cérebro
de sorte que sirva à verdade e não à falácia.

26. Emprega freqüentemente, com afeto amoroso e compassivo, os olhos corporais em alguma imagem bem feita
de um Crucifixo, pedindo ao Senhor que a imprima no seu interior. E quando já tiveres hábito de a achar pintada na
fantasia sempre que quiseres imaginar nela, terás aí um seguro porto para te acolher quando sentires tentações
contra a castidade, mansidão, ou qualquer outra virtude. E assim que te faças presente à imaginação aquelas
Chagas, e as beijes, e te escondas nelas e lhe peças amparo; verás como a tentação se dissipa.

27. O espírito de carpimento é uma das mais ocultas e danosas tentações do demônio. Porque em vez de nos
levantarmos das nossas ruínas com presteza e soltura, e ir andando o caminho de Deus com alegria, como
pudermos; nos embebemos em carpir e lamentar nossas misérias, soterrando-nos na pusinanimidade e
desconfiança de podermos andar. E em vez de rendermos a Deus muitas graças por tudo, nos amesquinhamos e
entristecemos, como se nada nos dera, nem quisesse dar. E em lugar de conservarmos a serenidade de espírito
necessária para a iluminação divina, nos turbamos com pensamentos de aflição, e não admitimos a doutrina de
consolação com que os Padres espirituais nos querem dar alento. Oh, quanto melhor está a estas almas o cuidarem
como Deus é bom e misericordioso, do que o cuidarem como elas são imperfeitas e miseráveis!

28. Por que procura o demônio com tanta ânsia e instância causa para que nossos corpos se manchem com maus
sonhos, trabalhando nisto noites inteiras; se experimenta que da nossa parte não costuma haver consentimento,
senão antes merecimento na resistência? As causas parecem ser estas: 1a. Tem o inimigo esperança de lucrar ao
menos algum realzinho procedido de advertência semiplena, ou resistência frouxa; 2a. Dá a provar o cálice de
Babilônia para que a experiência dele inquiete depois a imaginação e memória, que estão muito perto da vontade; e
faz como o mercador que desenvolve o pano, ainda que se não venha a conchavar na compra; 3a. Pretende fazer
vitupério e contumélia à alma, como um inimigo lança de noite às portas de outro imundices, por se não poder
vingar dele; 4a. Intenta amedrontar e desviar os Sacerdotes, ou almas escrupulosas, da sagrada Comunhão no
seguinte dia; como se mostra do que S. Pedro Celestino escreveu de si mesmo na vida que se achou na cela, quando
saiu para o Sumo Pontificado [Andano tom. 25, Biblioteca dos Padres]. 5a. Perturba a muitas consciências com a
dúvida de se houve, ou não, consentimento; 6a. Usa das nossas superfluidades para os fins que se podem ler nos
Autores que tratam das abominações dos magos e bruxas. Pelo contrário, os fins que Deus Nosso Senhor leva em
largar estas licenças a nosso inimigo, ele os conhece; nós podemos considerar que são estes: 1o. Castigar algumas
soberba ou vanglória nossa, ou algum pensamento imundo frouxamente resistido, ou alguma rebeldia da vontade
contra a de nossos superiores; como se o Senhor dissesse: Olha, que te deixarei cair manifestamente, se te não
emendas; 2o. Humilhar nosso orgulho, dando-nos a conhecer por experiência nossa vileza e fragilidade; 3o. Diminuir
em nossos corpos o inimigo humor, que nos impugna e solicita; 4o. Desafervorar a sanha do demônio, em quem, por
aquela vingança se aplaca algum pouco a febre da ira, com que deseja o nosso dano; 5o. Exercitar-nos a pedir e
procurar o precioso dom da perfeita castidade. E outros fins, que nós não alcançamos.

29. Quando te sentes entrado de tristeza, juntamente com azedia de coração e tumulto de pensamentos e tenções
contra os próximos e desalentos e desconfianças do próprio aproveitamento, faz três coisas: 1o. Crer, decerto, que o
espírito maligno se chegou e te assombra; 2o. Ver que importa muito não deixar possuir-te dessa tentação, porque é
um nordeste seco e frigidíssimo, que corta e queima todo o verdor e flores da alma; 3o. Pegar logo, ou mental, ou
vocalmente de vários Salmos, ou quaisquer outros louvores de Deus, indo descorrendo por suas perfeições e
benefícios; e continuar com a paz e pausa, que puderes, ainda que seja contra vontade, e sem gosto sensível. Porque
não poderá o inimigo sustentar muito tempo esta música, a seus ouvidos odiosíssima.

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Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


[Tirado do livro "Luz e Calor", do Pe. Manuel Bernardes]

Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam
doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a
documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores,
em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de
escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo
Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano,
Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados
são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia
ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes:

 I – Dos que são mais especulativos ou teóricos.

 II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância.


 III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus

 IV — Os que respeitam o trato da alma consigo

 V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos

 VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador

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Amor divino
Do Seráfico Padre S. Francisco.

Perguntado uma vez como podia tolerar os rigores do inverno com tão rota e pobre túnica, respondeu: Se a chama
da celeste pátria nos forrara por dentro, facilmente suportaríamos maiores frios

Reflexão e Apóstrofe

Chama da celeste pátria é o amor de Deus, como, pelo contrário, o amor sensual é chama do infernal abismo. E o
coração de quem ama a Deus é o lar onde o Espírito Santo acende esta chama: Cor amantis, disse S.
Boaventura, caminus est Dei inflammantis1. Não só é lar senão também os carvões que este divino fogo investe com
sua doce violência e reveste de sua pura semelhança: Carbones succensi sunt ab eo, disse o Salmista2: Hoc est,
explica S. Isidoro Pelusiota, Sancti viri a Deo. Quoniam enim Deus noster ignis consumens est; idcirco qui per animi
puritatem Deum contemplantur, carbones non ab re appellantur3. Porém note-se que não disse o santo que esta
chama do amor divino o forrava por dentro, senão que os que ele forrasse não sentiriam frio. Porque assim falava
mais humilde, e aquela chama como tão pura, não lança fumos e, como é tão interior, cobre-se com cinzas.

Que do sagrado fogo do divino, quando está mui apoderado da alma, redunde também no corpo calor material, há
freqüentes exemplos nas vidas dos santos. A virgem e doutora Sta. Catarina de Sena, pela contínua e próxima
vizinhança de Deus que lograva no trato familiar com Sua Divina Majestade, andava tão abrasada que nem no
coração do inverno consentia senão vestidos mui poucos e singelos. Teresinha de JESUS, pegando nas mãos de um
menino em uma manhã de inverno, disse-lhe, mui amorosa e compassiva: Tendes frio, minha vida? pois vinde cá
para diante do Santíssimo Sacramento, que ali aqueço eu. Meu glorioso padre S. Filipe Neri4, ainda depois de velho,
trazia o peito desabrochado e tomava ar à janela em manhãs rigorosas, e mais já o seu coração tinha aberto, em
duas costelas quebradas, aquele admirável respiradouro por onde desafogava. S. João, cônego regular e prior no
mosteiro de Bridlingtônia, em Inglaterra5, celebrava com tanto fervor do espírito que se viam subir da sua cabeça
fumaças, como de água quente. Sto. Inácio de Loyola, ao sair da oração, trazia ex consortio sermonis Domini o rosto
despedindo chamas vivas6. O b. Stanislau Koska, noviço da Companhia de JESUS (e já veterano no seu amor) aplicava
ao peito panos molhados em água fria, para o refrigerar dos ardores que da viva fornalha de seu amante coração
emanavam. Aquele portento de contemplação e penitência, S. Pedro de Alcântara, muitas vezes, metendo-se em
tanques frios, fazia com o calor do corpo ferver a água. Daquela por muitos títulos ilustre dominicana napolitana,
Maria Vilani, já deixamos em outro lugar escrito que, para mitigar o excessivo calor de suas entranhas, causado dos
incêndios do divino amor em que seu espírito seráfico felizmente se abrasava, bebia talvez doze canadas de água, e
esta, ao cair dentro, chiava, como se a lançassem sobre algum forte brasido; e, quando depois de morta foi
necessário tirar-lhe as entranhas para embalsamar-se o corpo, o cirurgião que atendia a esta diligência, ao pegar-lhe
incautamente do coração, fugiu logo com a mão, porque se escaldava7. Sejam, pois, ou não sejam fabulosas as
piraustas de Scalígero, com Aristóteles e Plínio8, aves que dizem viver no fogo e expirar ao sair dele, aqui as temos
mais certas e por modo mais admirável e sublime.

Mas, oh, que viva e picante repreensão temos nestes exemplos todos os que no amor de Deus estamos mais frios
que o norte enregelado! Deste norte procedem todos os males da nossa alma: Ab aquilone pandetur omne malum. E
deste frio, tão reconcentrado em nosso coração, evidente sinal são as ânsias e fadigas com que buscamos as coisas
terrenas, para nos vestirmos com elas: Quid enim, disse S. Gregório, sunt terrena omnia, nisi quaedam corporis
indumenta? E o pior é que, quanto mais nos vestimos, mais frio sentimos, e queira Deus, ainda assim, que o
sintamos. Grande coisa é ser pobre de espírito, para ser de espírito fervoroso; nem há mais útil diligência para
aquecer do que despir: Quantos, diz o nosso v. p. Bartolomeu do Quental9, em um ponto das suas
"Meditações", que serviam a Deus com fervor em quanto se conservavam em pobreza de espírito, depois, crescendo
as riquezas e multiplicando os vestidos, esfriaram no serviço de Deus porque os vestidos que aquentaram o corpo
esfriaram o espírito! E um poeta, não dos do tempo que fazem mais cabedal de folhas que de frutos, disse10:

Son los pies de Amor Divino

Religion y Castidad;

Mas quién no lleva contino

Desfalça la voluntad

No viene por buen camino.

Amar a Deus não é outra coisa que seguir a Cristo com a nossa cruz até o Calvário, e, se nem a cruz material pôde
levar o imperador Hieráclio antes de se despir e descalçar, como poderemos nós levar a espiritual, indo tão vestidos
e calçados? Figura de Cristo foi o capitão Jefté e a este diz a Escritura que se acolheram e agregaram os pobres e
vazios de bens terrenos: Congregatique sunt ad eum viri inopes11. Outra letra: Collecti sunt ad Jephte homines vacui.
Se Josef12 não largara a capa nas mãos da infiel egípcia, não se se aguardaria a fé a seu senhor Putifar. Pela capa nos
pega o mundo; pelos vestidos, riquezas e comodidades nos atrai; a alma que não quiser ser adúltera em ofensa de
seu legítimo esposo, o amor divino, largue esta capa e fuja: Ut evadas Aegyptiam dominam, disse S.
Jerônimo, saeculi pallium derelinquis13.

Finalmente, o Espírito Santo é significado na letra hebraica Mem, que se interpreta Ignis ex ultimis. Fogo procedido
dos últimos, isto é, como expõe Pascasio Ratberto14, fogo que, consumidas já as últimas fezes do pecado e
concupiscência, então se ateia mais copioso, então resplandece mais claro, então rompe fora mais ativo. Assim
sucedia àqueles santos cujos exemplos alegamos. Porém, naqueles pecadores em que este fogo nem ainda começou
a debastar as primeiras e mais grossas materialidades, como pode mostrar fora aquela luz e eficácia que procede das
últimas já vencidas: Ignis ex ultimis?

(Extraído de “Nova Floresta”, pde. Manuel Bernardes)

1. 1. Ser., II, feriae 2 post Pascha.

2. 2. Sl 17, 9.

3. 3. Lb. I, ep. 2, Dorotheo.

4. 4. [N. da P.] São Felipe Néri, chamado aqui "meu glorioso padre", foi o fundador do Oratório, ordem a que
pertencia o Pde. Manuel Bernardes.

5. 5. Odorico Rainaudo, na continuação dos Anais, ano 1378

6. 6. P. Blanc, in Salm. 38, 4.

7. 7. Fr. Antônio Jacinto Zuazo, na vida desta serva de Deus, lib. 2, cap. 10 e lib. 3, cap. último.

8. 8. Saclig., exercit. 23 et 129, n. 4; Arist., lib. 5 de hist. Animal, cap. 19; Plin., I. 6, cap. 36 e 38.

9. 9. Medit. I da Paixão, ponto 3.

10. 10. Ledesma, nos Conceitos espirituais.

11. 11. Judicium, II. 3.

12. 12. Gen 39, 12.

13. 13. In Consolatione ad Julianum.

14. 14. Lib. I in Threnos.

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Alguns sinais mais raros e certos de grande aproveitamento nas virtudes
1. Cair muito raramente em pecados veniais.

2. Grande horror ao pecado e grande esforço e diligência em evitar até as mínimas imperfeições.

3. Contínuo ou quase contínuo fervor em fazer com perfeição os exercícios e obras quotidianas.
4. Exata paciência nas adversidades sem movimentos (ainda primeiros) de ira, indignação, ou aversão às
pessoas que as causaram.

5. Amar a Cruz e qualquer humiliação, abatimento, ou injúria pessoal em tal grau, que quando sucedem de
presente, ou quando se representam à memória as passadas, ou futuras, logo sem repugnância (por benefício de
Deus) se levante um ardente desejo e gosto delas: do modo que nos imperfeitos se levantam movimentos maus,
quando se oferece algum olgum objeto pecaminoso.

6. Contínuo ou quase contínuo desvelo de aproveitar nas virtudes, e fome insaciável de justiça.

7. Crescer a esperança com repentino e notável esforço, quando se oferecem trabalhos ou dificuldades
grandes.

8. Oração limpa de distrações; e então mais fervorosa, quando é tempo de alguma perseguição pessoal; e
desejo insaciável de orar.

9. Gozo nas humilhações e desprezos, junto com perseverança e alacridade nos exercícios começados.

10. Tristeza sensível, ainda na parte inferior da alma, quando se vêem ou ouvem graves ofensas de Deus.

11. Maior paz e tranquilidade nas tribulações que nas consolações.

12. Aversão a deleitos dos sentidos ainda lícidos, nascida de ódio santo de si próprio, e desprezo das coisas
mundanas.

13. Maior inclinação a tratar com os varões mais perfeitos do que com os menos; e à conversação em
matérias espirituais, do que à de coisas profanas, ainda que lícitas; e aos livros santos, do que aos de história, ainda
que não torpe.

14. Achar-se prontíssimo para fazer, ou deixar de fazer, qualquer coisa que insinuar o arbítrio do Superior,
sem exceção mínima.

15. Desejo ardente de padecer calúnias e opóbrios e trabalhos; e amor sincero àqueles por cuja mão lhe
vierem.

16. Fugir das comodidades e alívios do corpo e buscar as incomodidades.

17. Extinção das tentações da carne, ou, ao menos, a notável diminuição em idade florida; e isto ainda em
ocasiões que se não procuram.

18. Nos casos adversos repentinos conservar o interior sem pertubação, ainda involuntária.

19. Extinção total da tibieza e negligências nas obras do serviço de Deus.

20. Não dar por respeitos humanos, junto com liberdade de espírito, asim para fazer o que descontenta aos
imperfeitos e agrada a Deus; como para deixar de fazer o que estes queriam se fizesse.
21. Domínio sobre as paixões, especialmente da ira, temor e amor.

22. Nas humilhações públicas, ou nenhum ou notavelmente diminuido o sentir vergonha e confusão.

23. Afetuosa união com Deus, tornada a levantar depois de qualquer ação de seu gênero distrativa, como
quando acordamos de noite várias vezes.

24. Acompanhar o trabalho de mãos, com atual devoção, e exercício de atos pios em grau intenso.

Estes sinais não só juntos, mas ainda separados, indicam grande aproveitamento nas virtudes sólidas e verdadeiras,
porque andam encadeadas.

Não vem incoerente ao mesmo intento a seguinte descrição do varão espiritual, que traz o P. Cornélio a Lápide, e
damos sem a traduzir por lhe não quebrar a energia.

Accipe descriptionem, et hypotiposin viri sancti.

Vir Sanctus hominem interius ordinat, exterius ornat: à rebus turpibus cohibet: sermones rectos, et utiles amat.

In risum non effunditur: non clamat, nec vocem attollit: modeste incedit.

Aliorum facta curiose non inquirit.

Admonitiones hilari vultu recipit: errori aliarum facile condonat.

Humilis est, mitis, et benignus: miseris quibuslibet ex visceribus miserando compatitur.

Laudibus non extollitur: detractione non dejicitur.

Interroganti facile leniterque respondet: contendenti facile cedit: patienter alios audit.

In omnibus alios aedificare, et perficere studet.

Rari est, et gravis sermonis.

In cibo parcus, in potu sobrius, compositus in vultu et verbis.

Odit mendacium, fabulas et nugas: filius est veritatis: oculos habet demissos, et simplices.

Puritate candidus, obedientia promptus, patientia perfectus.

In oratione assiduus, in fide stabilis, in opere diligens.

In abstinentia rigidus, in moribus exemplaris, in conversatione gratus.

In verbis affabilis, in dando liberalis, amicis fidus, inimicis benignus.

Deo resignatus, sibi mortuus, mundo crucifixus: omnibus omnia, et omnes lucrifaciat.

Zelotes pro honore Dei, et salute animarum.

(Excerto de Luz e Calor – Doutrina IV)


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A sabedoria do oratório - trechos selecionados do Pe. Manuel Bernardes


HIPOCRISIA

É hipócrita o mercador que dê esmolas em público e leva usuras em oculto; é hipócrita a viúva que sai mui sisuda no
gesto e no hábito, e dentro em casa vive como ela quer e Deus não quer; é hipócrita o sacerdote que, sendo pontual
e miúdo nos ritos e cerimônias, é devasso nos costumes; é hipócrita o julgador que onde falta a esperança do
interesse é rígido observador do direito; é hipócrita o prelado que diz que faz o seu ofício por zelo da honra e glória
de Deus, não sendo senão pela honra e glória própria. Hipócrita é o que não emenda em si o que repreende nos
outros; o que cala como humilde, não calando senão como ignorante;o que dá como liberal, não dando senão como
avarento solicitador das suas pretensões; o que jejua como abstinente, não se abstendo senão como miserável.

Assim é. Porém não cuide alguém que, à conta deste desengano, lhe é lícito contrair a doutrina a pessoas ou ações
determinadas, dizendo ou julgando que fulano é hipócrita ou esta esmola deu por vanglória. Estes juízos são
reservados a quem vê os corações que é só Deus, onde podemos chegar sem pecado e com prudência. É não nos fiar
levemente do que aparece e onde podemos assentar com singeleza e sem prejuízo; é entender que todos são bons,
conforme a graça de Deus se lhes comunicar.

Nova Floresta

DEUS E AS PAREDES

Caminhando São Policarpo, bispo e mártir, com um seu diácono, por nome Camério, agasalhou-se em certa
estalagem, e já alta noite o seu anjo o acordou, avisando-o que se saísse logo, porque a casa havia de cair. Acordou
ele também ao companheiro; porém, este, como estava cansado do trabalho da jornada, recusava deixar o sono, e
lhe disse:

— Padre, creio em Deus que, enquanto vós aqui estais, não há de cair a casa; deixemo-nos estar.

Respondeu o santo:

— Também eu creio em Deus; mas não creio nestas paredes. Saiamo-nos depressa.

Apenas tinham posto o pé fora, quando o edifício se veio abaixo.

Nova Floresta

INSUFICIÊNCIA DA ESMOLA

Grandes elogios da esmola pregoam as Escrituras Sagradas e Santos Padres. No livro de Tobias se diz que livra de
todo o pecado, e da morte eterna, e que não consentirá que a alma se despenhe nas trevas do inferno. No
Eclesiástico se diz que assim como a água apaga o fogo ardente, assim a esmola resiste aos pecados. No Evangelho
diz o mesmo Cristo, falando aos Fariseus, e havendo-os severamente repreendido: “Sem embargo de vossas
maldades e hipocrisias, daí esmolas, que é o remédio que vos resta, e vos tornareis limpos”.

Sucede pois que algumas pessoas, ouvindo ler ou pregar estes louvores da esmola, lhes parece terem achado um
meio certo por onde se não desapeguem de seus vícios, privando-se dos gostos deste mundo, nem venham a parar
nas penas eternas que temem; e assim abrem a bolsa ao pobre, porém não abrem o coração a Deus; socorrem a
miséria alheia temporal, e não socorrem a espiritual própria: ministram pão ao pobre, e elas vão comendo o veneno
que comiam: não despedem da sua porta o necessitado, porém dentro fica a ocasião da ofensa de Deus.

Protestamos a estes tais que a sua confiança é ilusão do demônio. Porque os auxílios que Deus dá a intuito de
esmola, para que o pecador se converta, não derrogam a sua liberdade, com que pode resistir-lhes, e não aceita-los.
Além de que estas caridades temporais, que não procedem do verdadeiro amor de Deus, costuma o Senhor
remunera-las com outros bens e felicidades temporais, como são a boa fama, descendência copiosa, êxito feliz nas
pretensões e negócios, felicidade dos servos, etc. E quando entrar em contas com o pecados, lhe poderá dizer:
— Do que vos devia em nome dos meus pobres já estais pago na mão de outras criaturas. Pagai-me agora o que
deveis à minha honra gravemente ofendida.

Luz e Calor

SABER E SABER

A ciência incha (diz o S. Paulo) e a caridade edifica. E ainda que o compor livros da qualidade que são os deste pio e
erudito padre também edifica muito aos outros, todavia possível é que edifique pouco ao seu autor. Porque, como
disse S. Bernardo, há uns que querem saber só para saber, e é curiosidade; e há outros que querem saber para
serem conhecidos por sábios, e é vaidade; e há outros que querem saber para vender o que sabem, e é interesse; e
há outros que querem saber para edificar os próximos, e é caridade; e, finalmente, há outros que querem saber para
edificar-se a si mesmos, e é prudência.

Nova Floresta

PALAVRA E AÇÃO

Os monges e habitadores do deserto, como eram tão contínuos na lição da escritura santa, usavam, no modo de dar
doutrina, acompanhar as palavras com ações. Assim o fez o que saiu em presença dos mais com uns alforges no
pescoço: o que pendia para as costas cheio de areia, e o que pendia para os peitos quase vazio; e logo disse:

— Os meus pecados e defeitos que são muitos lanço para trás das costas, porque me esqueço deles; os do próximo
que são poucos ou nenhum, trago diante dos olhos...

***

Assim também outro ancião, que, para aceitar um discípulo, lhe mandou primeiro que dissesse muitas afrontas a
uma coluna, e depois que lhe desse muitos louvores. Obedecendo a tudo o pretendente, perguntou-lhe o velho se se
indignara a coluna com as ofensas, ou se se abalara com os louvores.

Respondeu ele que não, pois era uma pedra. Tornou o velho:

— Pois, se te atreves a ser como esta pedra, eu te aceito por discípulo.

Nova Floresta

O APÓLOGO DAS COTOVIAS

A este ponto serve o apólogo que se conta das cotovias que tinham seus ninhos entre as searas.

Dissera o dono do campo a seus criados que tratassem de meter a foice, se vissem estar o trigo já sazonado; e
ouvindo este recado uma delas, foi pelos ares avisar as outras que mudassem de sítio, porque logo vinham os
segadores. Porém outra mais velha as aquietou do susto, dizendo:

— Deixemo-nos estar, que de mandar ele os criados a fazer-se a obra vai ainda muito tempo.

Dali a alguns dias ouviram que o amo se agastava com os criados, porque não tinham feito o que lhes encomendara;
e que mandava selar a égua para ele mesmo ir ver o que convinha.

— Agora sim, disse então aquela cotovia astuta. Agora sim, irmãs. Levantemos o vôo e mudemos a casa, que vem
quem lhe dói a fazenda.

Nova Floresta

INVEJA

Depois de haver feito proezas memoráveis o famoso capitão Belisário, e alcançado de muitas nações bárbaras
insignes vitórias, lhe mandou o imperador Justiniano, mal informado, tirar os olhos. E ele, posto em uma
choupaninha ao longo da estrada, pedia esmola aos passageiros, dizendo:
— Caminhante! Real e meio a Belisário, a quem o valor expôs aos olhos de muitos, e a inveja o privou dos seus...

A inveja é o carcoma das fortunas grandes. Aristóteles, perguntado que coisa era a inveja, disse:

— Antagonista da prosperidade.

Os mordidos da serpente chamada Andrio padecem vertigens e vômitos de cólera fetidíssima, e outros movimentos
desordenados; e o lugar onde mordeu gasta-se, como que o roeram. Assim os miseráveis, em cujo coração se
embrenha a serpente da inveja, o mesmo coração se lhes desfaz e consome, porque o bem alheio tem por mal
próprio.

Falando-se diante del-rei Frederico que coisas serviam para aguçar a vista, e respondendo vários várias coisas, disse
Áccio sincero:

— A inveja.

Brevíssima sentença, mas não menos verdadeira do que breve. Porque os olhos do invejoso, ainda não podendo
olhar direitos, nada lhes escapa, nem do bem nem do mal da pessoa invejada: do bem para detraírem, do mal para
se alegrarem.

Nova Floresta

DESPREZO DE SI PRÓPRIO

Caminhando S. Francisco de Borja por Serra Morena, em uma estalagem aonde se aposentou buscou um
aposentozinho, onde se pôs a orar de joelhos. Estavam ali as malas de um passageiro, o qual, presumindo que lhas
queria revolver para furtar alguma coisa, o ameaçou, dizendo que o moeria com um pau. Mas, conhecendo depois
com quem falava, lhe pediu perdão. Respondeu o santo:

— Eu vos perdôo o agastamento, tirando aquilo do pau, que não acho aqui que perdoar; porque por meus pecados
se me deve e o tenho bem merecido.

Este glorioso santo fora no século duque de Gândia e vice-rei de Catalunha; e responder tão pacato que nem a culpa
do ofensor nomeia por juízo temerário, nem por arrojo ou demasia, senão só por agastamento, e, em cima, se
desquita do honorífico de perdoar, por entender que merece a pena!

E, porque não pareça que o santo não sabia aproveitar as ocasiões de ser injuriado, quando chegavam a efeito, não
parando só em ameaça, ajunto o seguinte caso:

Uma vez, na pousada, o companheiro, que era asmático, esteve cuspindo ao santo no rosto, imaginando que cuspia
para outra parte; ele se calava e o chuveiro de salivas continuou grande parte da noite. Quando amanheceu e viu o
companheiro sua desatenção, ficou mui envergonhado; e o santo lhe disse:

— Padre, não tenha pena, que lhe certifico não haver no aposento lugar mais próprio para cuspir do que eu.

Este mesmo glorioso santo levou uma vez um porco às costas para a cozinha. A alguns que nisto repararam disse:

— Que muito é levar um porco outro?

Quando o venerável padre Ambrósio Mariano veio a este Reino, para nele fundar a primeira casa dos Carmelos
Descalços (chamados por isso entre nós os Marianos), a buscar lenha e a trazia às costas pela cidade.

Perguntando-lhe por que tomava exercício tão vil e trabalhoso, respondeu:

— Por que deste modo me aquenta a lenha duas vezes.


*

Do grande cardeal Roberto Belarmino costumava dizer um judeu que, se todos os cristãos fossem como Belarmino,
todos os infiéis seriam cristãos. Quase o mesmo dizia também um herege. E, chegando esta notícia aos ouvidos do
cardeal, disse, como quem se alvoroça e alegra:

— Todavia já para ser canonizado tenho duas boas testemunhas: um judeu e um herege; falta-me agora um turco...

Vivia o venerável padre D. Frei Agostinho da Cruz no célebre deserto da Arrábida. Aqui lhe enviou de mimo uns figos
o duque de Aveiro. Ele o pôs a secar sobre o teto da sua celinha, que era mui baixa; e veio um corvo e levou-lhos.
Disse então o servo de Deus:

Se Agostinho fora Paulo,

O corvo, quando viera,

Não levara, mas trouxera...

Nova Floresta

AVAREZA

Certo homem nobre e rico tinha dado a um seu filho, por várias vezes, boas quantidades de moeda, para que
corresse com os gastos e administração da casa, como mais ativo que era e desocupado. Mas ele, encurtando a mão
quanto podia, ia enterrando o mais em lugar oculto.

Sucedeu ser necessário a este avarento fazer jornada longe. Entretanto o pai, que já presumia o mal, buscando-o por
vestígios, veio a dar com o tesouro; e dele pagou logo salários de criados, reformou os móveis da casa e repartiu
esmolas; e depois, enchendo os mesmos sacos de areia, os repôs no seu lugar.

Recolhendo-se da jornada, o filho foi logo fazer estação e visita ao seu depósito, porque lá tinha o coração; mas, não
achando mais que areia, à primeira vista ficou pasmado e quase esmorecido; e depois toda a casa confundia com
gritos, queixas e desesperações.

Acudiu então o pai, dizendo mui fleumático:

— De que te amofinas, filho meu, ou por que te enfureces? Não tens mais que imaginar que ainda lá está o dinheiro;
porque se os sacos, e o volume, e o lugar, e o préstimo, ou o uso, sempre é o mesmo , que mais monta ter ouro que
ter areia?

Nova Floresta

VONTADE E VELEIDADE

Vontade é determinação eficaz de procurar algum bem desejado ou fugir d’algum mal que se tem, e explica-se pela
palavra Quero.

Veleidade é um princípio de querer com frieza e ineficácia, e explica-se pela palavra Quisera.

O sinal para conhecermos em nós se queremos, ou se somente quiséramos algum bem, é ver se abraçamos, ou não ,
os meios necessários para o alcançar. Se o enfermo se põe nas mãos do médico perito, quer saúde; se o pretendente
lida, agencia, insiste, mete pedreiras (1), fez despesas: este quer o bom despacho. Se o estudante madruga, revolve
os livros, poupa as horas, pergunta as dúvidas e continua as suas tarefas e disputas literárias, este quer ciência. Mas,
se nenhum deles aplicar os sobreditos meios, nenhum deles quer, de verdade, os sobreditos fins.
Assim passa também no nosso caso. Os meios necessários para alcançar a salvação são a guarda dos Mandamentos.

Se o cristão aplica estes meios, quanto é da sua parte, com o favor divino, este quer salvar-se; se os não aplica, antes
os lança em esquecimento, este não quer salvar-se, por mais que diga que, sim, quer; porque o seu quero não passa
de quisera. Quisera, se não fora tão custoso para os seus maus costumes contrários; quisera, se por amor disso não
houvesse de cortar por outros quereres; quisera, se, para comprar o campo onde está escondido o tesouro, não
fosse necessário vender todas as suas coisas.

Enfim: quer como preguiçoso e descuidado, que o seu querer é não querer: Vult et non vult piger.

(1) recomendações, empenhos

Nova Floresta

ALUMIAR OS QUE ERRAM

A D. Fernando de Talavera, arcebispo de Granada, disse um criado seu palavras pesadas, descomedindo-se com ele
com maior liberdade do que se podia esperar da dignidade de um ofício e de outro. O bom prelado esteve muito em
si, sem responder-lhe; e, quando o viu partir colérico de sua presença, pegou do castiçal e foi alumiando diante pela
escada abaixo.

— Que faz Vossa Senhoria? Onde vai? (disse o criado, assustado com aquela ação de humildade).

Respondeu o prelado:

— A fazer meu ofício, que é alumiar os que erram.

Ficou o criado confundido; e, prostrando-se a seus pés, lhe pediu perdão.

Nova Floresta

LUTERO E A POMPA CATÓLICA

O espírito da avareza, no que toca ao culto dos altares e templos, aparenta-se com o de Judas Iscariotes, que
chamava desperdício e reputava mal empregado em obséquio de Cristo o ungüento aromático, que avaliava em
trezentos dinheiros; e não deixou de dizimar o preço pelo modo que ainda pôde, vendendo o mesmo Senhor por
trinta.

Nenhuma magnificência e decoro é supérfluo no que toca tão proximamente seu corpo e sangue sacramentados e
representa misticamente seu sepulcro, como diz Santo Tomás, falando do cálice, e a patena a campa dele, (1) como
diz o padre Soares.

S. Gregório papa fez um cálice ornado de preciosa pedraria, o qual pesava trinta libras de ouro, e uma patena do
mesmo, que pesava vinte oito e meia.

O padre Teófilo faz menção de outro cálice de ouro maciço, tão grande que um homem o não podia levantar. Não
sei que uso pudesse ter, salvo para urna do Santíssimo em quinta-feira maior.

Lutero, ímpio desprezador de semelhantes cálices preciosos (no que procedia coerente com os outros seus erros, de
que na Eucaristia ainda depois da consagração fica verdadeiro pão e vinho, e de que a missa não foi instituída por
Cristo Senhor nosso, nem é sacrifício, nem ainda obra boa), por outra parte o seu copo, o qual era mais que
arrazoado, e estava cingido com três coroas, umas mais acima das outras, como tiara papal: à primeira e superior o
Padre nosso; a segunda o Credo; a ínfima os Mandamentos e a todo o copo o seu catecismo. E se algum convidado
não chegava a beber mais que até a primeira coroa, dizia que não sabia mais que o Padre nosso; mas, se esgotava
todo, dizia que sabia o catecismo inteiro.

Lá está já onde o seu cálice será eternamente aquele que disse David, também de três repartimentos: fogo, enxofre
e demônios.

Nova Floresta

DEMÔNIOS ARRIMADIÇOS

Algumas pessoas, que seguem o caminho da perfeição, padecem por particular disposição daquele supremo Senhor
que é o ponderador dos espíritos, a vexação dos demônios que chamam arrimadiços, ou assistentes; os quais se
arrimam, ou encostam a alguma parte do corpo, mais alta ou mais baixa; e ali como desde um castelo ou padrasto
(1), dão contínua bateria à alma, e a têm de sítio (2) todo o tempo que lhes dura a licença de Deus, sem se
apartarem de dia nem de noite, salvo por alguns breves intervalos, que se escondem, ou ausentam. A pessoa que os
padece sente a sua presença ou na fantasia, ou pelo tato e ouvidos, ou talvez pela vista, que é o mais terrível
trabalho.

(1) Altura que domina outro terreno;

(2) Cercam, sitiam

Nova Floresta

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A vida é morte
A um vaso de vinho misturado com três partes de água não chamaremos com razão vinho; nem a um pouco de
açúcar envolvido em três tantos de sal chamaremos com razão açúcar.

Logo, se eu mostrar como a nossa vida é misturada, ao menos, com três tantos de morte, provado ficará que lhe não
devemos chamar, absoluta e simplesmente, vida, pois vai o seu vigor tão aguado e a sua doçura tão salgada com as
propriedades da morte.

A primeira parte de morte, que anda misturada com a nossa chamada vida, é ser esta sucessiva e transeunte, tão
pelo miúdo, que não é possível lograrmos dela dois instantes juntos, porque, para adquirirmos um, é força
perdermos outro, que por isso a mulher de Técua a comparou não à água que está em um tanque ou lago, senão à
que vai correndo1. E isto é o mesmo, sem dúvida, que ir morrendo por partes.

Por isso Filo, o discretíssimo entre os hebreus, disse que cada idade era morte da outra antecedente idade, dando-
nos a piedosa mão de Deus este amargoso cálice da morte a tragos, e misturado com o cálice da vida para no fim
acabar de nos dar as fezes, que é a última morte de todas as outras mortes antecedentes, a qual é força que
bebamos todos os filhos de Adão, uma vez que todos nele pecamos.

Porém São Paulo estes intervalos de morte a morte não os pôs distantes de idade a idade, senão de dia a
dia: quotidie morior 2. E pela mesma razão o Papa Inocêncio III os pôs de instante a instante; nem pode deixar de ser
assim, uma vez que o cálice da vida se bebe por instantes líquidos e nele vai delido o da morte.

A isto atinou também um poeta étnico, Horácio, dizendo que os anos da nossa vida eram ladrões da mesma vida. E
outro, cristão, dizendo que desde o berço se ia formando a tumba, porque a árvore da mesma vida leva em si
semente da morte.
E outro a um amigo, que lhe perguntara que anos tinha, respondeu discretamente que nenhuns, porque os que
tinha eram os mesmos que não tinha:

Perguntas-me com empenho


pela idade, e que anos somo.
Respondo: — Nenhum. — E como?
— Os que tenho, já os não tenho..

Mas esta nossa vida outra maior parte tem de morte, por ser vida limitada, finita e, enfim, mortal. Desde que
nascemos, e ainda antes de nascermos, já de certo vamos caminhando para a morte. A vida que Deus tinha dado a
Adão antes do seu pecado, e que nós todos havíamos de lograr, era vida viva; esta outra, que, chamada por Adão,
entrou em seu lugar, é vida morta, como dizem os Santos Padres. Porque, assim como, separando-se a alma do
corpo, fica este morto; assim, separando-se da nossa vida a alma da mesma vida, fica morta esta vida. E qual é a
alma da vida? A imortalidade. Tirando-se logo à nossa vida o ser imortal, que havia de ficar senão o cadáver dela,
que é a vida mortal que agora trazemos às costas?

Quantos homens há, tantos cadáveres somos; quanta carne do pecado, tanta cinza da morte. Se assim não fora, não
diria Deus e a Igreja a todos nós, que somos agora em vida o mesmo pó e cinza que havemos ser na morte: Pulvis es,
et in pulverem reverteris. Como quem diz: Então sereis mortos, e já agora também cinza e pó; porque se ausentou a
alma da nossa vida, que era a imortalidade, e assim ficou vida morta.

Usa a morte com o homem os mesmo termos de crueldade e vexação que usou aquele rigoroso credor do Evangelho
com o servo que lhe devia cem dinheiros. Diz o sagrado texto que o pobre, prostrando-se a seus pés, lhe rogava que
esperasse pela paga, prometendo que lhe satisfaria inteiramente.

Racionável parece esta petição, mas cuida alguém que a morte se leva disso? Quer que já de presente lhe
comecemos a pagar, e tanto nos aperta a garganta, que um Job nem engolir a sua saliva podia. As doenças e
achaques são os seus sacadores, que ela manda para arrecadar a sua dívida, ao menos em parcelas; e estes
sacadores parece que nos querem tirar os olho, pois só dos olhos, diz Galeno, há cento e quinze diferentes doenças.

A corrupção e os bichos, que, conforme dizia o mesmo Job, são nosso pais, não se contentam com ser nossos
herdeiros forçados na sepultura, senão que nos querem herdar em vida. E, ainda que a morte não faça logo a última
execução, todavia leva de casa penhores ou usuras: a uns o sentido da vista, a outros o dos ouvidos, a outros algum
braço, ou perna, que lhes inutiliza. Porque todo o uso dos nossos sentidos e membros eram partes da dívida do
pobre devedor, e depois ficam sendo partes da morte.

Não é tudo isto verdade? Já há muitos séculos que o tinha dito o filósofo Xenocrates, discípulo do divino Platão.

E ainda que a morte se não penhore em doenças e aleijões, sempre tira para um seu irmão muito parecido com ela
— que é o sono — a quarta ou terça parte da vida; que não é pequena miséria ser necessária para sustento da
mesma vida esta quotidiana contribuição à morte...

Porém não só os defeitos e misérias do corpo nos diminuem e apoucam a vida, senão também os defeitos e misérias
da alma. Porque, como disse Sêneca, a puerícia a leva a ignorância; a mocidade a arrebata o furor cego da
sensualidade; na idade do meio (que era o mais bem parado da vida) prendem a inveja, ira, cobiça e ambição;
ultimamente a velhice fica para as doenças a pasto...
(Tirado de “Nova Floresta”, pde. Manuel Bernardes)

1. 1. Livro dos Reis (14, 14).

2. 2. Cada dia morro... (2 Cor. 15, 30).

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O mundo passa
Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós com ela!

Dos sábios e justos diz Isaías que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da
contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está
passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando.
Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora
secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já
foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens:

Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos
ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está
enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui
conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e
sangrando-se do que comeram...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-
multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou
a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe
coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é:
espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O
rico já é pobre, o mecânico já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras
cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajos, outras leis, outros homens.

... Tudo passa!

(Sermões, I, 202.)
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A Esperança
Sejamos alegres pela esperança, sofridos nas tribulações. Porque quem bem espera bem sofre, e quem levanta o
espírito aos bens eternos sabe portar-se bem nas misérias temporais.

Sabeis que coisa é a Esperança? Uma engenhosa máquina com que o espírito se guinda desde o mundo para a
eternidade; e assim não lhe carrega o peso dos males que cá embaixo leva, porque tanto furta à aflição do trabalho
que padece, quanto se levanta à contemplação do descanso que espera.
Raiando o sol, absorve-se o orvalho da fria noite; e aparecendo a esperança, enxugam-se as lágrimas do ânimo
desconsolado. Por isso Susana pôs no Céu os olhos, quando cheios de lágrimas, porque do Céu esperava o remédio
da aflição presente e a remuneração dos seus castos procedimentos.

Da esmeralda (símbolo da Esperança) escrevem os naturais que tem virtude de desterrar os medos noturnos e
recrear o espírito. E Plínio diz que restaura a vista ofuscada com outro objeto desagradável. Esmeralda dissera eu ser
aquela pedra preciosa a que Salomão comparou a Esperança; porque recreia a vista da alma, avocando-a da
consideração dos presentes males para a dos bens futuros.

Do peixe asquino diz Santo Ambrósio que, sobrevindo tempestade, se pega fortemente a alguma rocha ou penedo;
com que a violência das turbulentas ondas o não pode dali arrancar e envolver entre seus escarcéus altivos e
furiosas ressacas. Já que as tribulações são tempestades, e a esperança do eterno é rocha imóvel, abrace-se a alma
com esta rocha e vencerá estas tempestades.

A César, ao embarcar-se, resvalando-lhe o pé, caiu em terra; e, para mover o mau agouro que os seus podiam daqui
formar, acudiu com presteza, dizendo:

— Teneo te: ó Terra mater, teneo te; Pego de ti, ó terra minha mãe, pego de ti, e tomo posse.

Com mais razão pode, e deve-se, qualquer fiel, quando cai em algum infortúnio, levantar a esperança, dizendo:

— Pego de ti, ó Céu, pego de ti, oh Jerusalém Celestial, nossa mãe, e tomo posse.

Pegar-se à terra quando nos acontecem trabalhos, é de infiéis e gentios, que não têm que esperar fora dela; pegar-
se ao Céu é de cristãos, que sabem que o padecer é sinal de salvar, e que este agouro é lícito e louvável. O apóstolo
São Paulo o louva naqueles fieis que sofreram com equanimidade a rapina de seus bens temporais, na confiança de
que lhes ficavam intactos os eternos.

Certo mendigo havia que, quando já tinha a sacola cheia de esmolas, dizia:

— Agora sim, que confio.

Esta sacola estaria cheia, mas esta alma estava vazia; ajuntara pão, mas não ajuntara virtudes; enchia o ventre, mas
jejuava o espírito.

O verdadeiro cristão, quando mais lhe falta, mas deve confiar; porque na falta das criaturas é certo o auxílio do
Criador; e quem tem consigo a Deus, que lhe pode faltar?

Não é a esperança em Deus como a esperança no mundo: esta, por sentença divina, traz consigo maldição; aquela,
pelo contrário, traz consigo benção: Beati omnes, qui expectant eum. Aquela é sonho de acordados; esta outra é
realidade certíssima.

Conta-se, por apólogo, que um lavrador achou, uma manhã, os seus bois mui alegres e brincadores.

— Olá! (disse ele), que têm vocês, que estão contentes?

— Sonhamos (responderam) que esta manhã íamos a uns pastos mui pingues, onde todo o dia andávamos à
vontade.

— Pois eu (tornou o lavrador) sonhei que vocês iam lavrar-me tantas geiras.

E, dizendo isto, os meteu no timão do arado.

Quem no mundo espera descanso durável, ou verdadeiro, sonha, e brevemente se acha desenganado, trocando-se-
lhe os pastos pingues em duríssimo jugo, e o que imaginava gozo e repouso em dor e trabalho. Porém, quem
constitui a sua esperança em bens eternos e na consolação e auxílio divino não se engana. Os seus sonhos são
verdade de fé, pois as Escrituras afirmam que a tribulação bem levada gera boa prova, e a boa prova legítima
esperança, com a qual ninguém fica envergonhado.
Também é eficaz lenitivo dos trabalhos e penalidades o considerar que passam brevemente.Momentaneum, et leve
tribulationis nostræe, disse São Paulo, ajuntando sabiamente o leve da nossa tribulação com o momentâneo dela;
porque a brevidade da duração contrapesa o grave da pena: já quando os ombros começam a afligir-se com a carga,
a mudança lha tira deles, que é o que disse Cícero, e mais brevemente S. Bernardo: Transit hora, transit et pœna:
passa a hora, e passa também a pena. Quem deu asas ao tempo deu também asas ao trabalho; aquelas penas,
voando, levaram consigo estas outras, cessando.

Com isto consolava o capitão Enéas aos seus companheiros, aflitos com os trabalhos de navegação tão longa; e outro
poeta, espanhol, disse discretamente:

Passan se rios de males


ya sin puente, ya sin barco;
Mas no ay mal en esta vida,
que no se le tope vado.

Livre-nos Deus de rios onde não há ponte, nem barco, nem vau; livre-nos Deus de males onde não há fazer pé,
porque a esperança se afoga; e de trabalhos que não têm mais fim que novo princípio, quais são os de um
condenado. Os outros, ainda que durem toda a vida, como a vida passa por momentos, por momentos também vão
passando. Esta consideração fazia a mãe de São Gregório Nazianzeno, e ele por isso a louva: que nada reputava por
grave pena, uma vez que havia de acabar com a vida.

Neste mundo faz Deus dos ímpios vara com que castiga os justos; mas depois chama os justos para o Reino, e lança a
vara no fogo...

(Nova Floresta)

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Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e


em sua solidão
MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.

(Lm 2, 13)

A Espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou
visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o
piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS
Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais
e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e
diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso
agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável e a nós proveitosa esta devota memória. E
porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas, é especial graça de Deus: implorando esta primeiro
com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.

 Meditação I

 Meditação II

 Meditação III

 Meditação IV

 Exemplos
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Meditação I
E seja o primeiro considerar algumas graves sentenças que os Santos disseram nesta matéria, para que se a luz não
chega a nossos olhos direta, chegue ao menos por reflexos. S. Agostinho e S. Bernardo, alegorizando aquilo de Isaías
(Is 33, 7): Angeli pacis amare flebunt: consideram aos mesmos Anjos tomando corpos visíveis para chorarem a
Sagrada Paixão e morte do Filho de Deus e, por conseguinte, a paixão e morte espiritual e mística da Mãe de Deus;
pois esta com aquela estava intimamente conjunta. Ó alma minha, pára e pondera: é possível que os Anjos tomem
semelhança de homens para chorarem, e que os homens tomemos semelhança de brutos ou de pedras para não
chorarmos! De que vai isto? O javali, revolvendo-se primeiro no lodo grosso, fica impenetrável aosvenábulos ou
lanças dos monteiros. Estamos tão imersos nos gostos ou pesares das coisas terrenas do mundo, que ficamos duros
para o sentimento das espirituais e invisíveis que nos propõem a Fé e Piedade (2 Cor 2, 34): Animalis homo non
percipit ea, quae sunt spiritus Dei.

O glorioso Doutor S. Boaventura diz: Quaero Matrem Dei et invenio spinas et clavos: quaero MARIAM et invenio
vulnera et flagella, quia tota conversa est in ista: O que vou buscar (diz o Santo) é a Mãe de Deus, e o que acho são
espinhos e cravos. O que vou buscar é a MARIA; e o que acho são feridas e açoites; e assim é, porque toda ela está
convertida e transformada nestas coisas. Pondera, que assim como a figura da sagrada Humanidade de Cristo
desapareceu debaixo da multidão e peso de suas penas — Quase absconditus vultus ejus, et despectus, unde nec
reputavimus eum (Mt 53, 3), Ego autem sum vermis et non homo (Sl 21) — assim a figura da lastimada Mãe ficou
sumida no mesmo escuro e turbulento mar da Paixão do Senhor: nem a pode nesta ocasião encontrar o afeto, senão
convertida em Cruz, ou em coluna, ou em coroa de espinhos, ou em lança. Mas tu, alma, devota insiste, e bate com
fé, e crê, que dentro destes tormentos persevera a Mãe de Jesus, transformada neles por compaixão amorosa.

S. Bernardino diz que tão grande foi a dor da Sacratíssima Virgem na morte de seu amado Filho, que se se repartisse
por todas as criaturas capazes de padecer, todas de repente morreriam: Tantus enim fuit dolor B. Virginis in morte
Christi, quod si in omnes creaturas, quae pati possunt, dividerentur, omnes súbito interirent. Pondera que prodígio
este de dor tão ativa, tão forte, tão poderosa, que até dividida em tantos milhares de vidas, era capaz de as extinguir
a todas! E peja-te, e aniquila-te, vendo o pouco ou nada que acompanhas as penas de Cristo e da Virgem, fazendo
(como podias) penitência, e mortificando-te, e sofrendo as injúrias dos próximos, e adversidades das criaturas.

S. Germão afirma que a Virgem nesta ocasião, depois de chorar copiosa e amargamente, até chegou a derramar
lágrimas vivas de sangue. Pondera como se verificou aqui a profecia de Joel, de que o Sol se converteria em trevas, e
a Lua em sangue: Sol convertetur in tenebras, et Luna in sanguinem: pois a Cristo na cruz cobriam as sombras e
horrores da morte: e à Virgem ao pé da Cruz, cobriam lágrimas de sangue. E se o Profeta disse aquilo pelo horrível
dia em que Deus há de julgar o mundo: muito mais horrível foi este em que o mundo julgou ao mesmo Deus.
Compadece-te aqui daquele columbino, e inocentíssimo coração, que se está vertendo pelos olhos todo
ensangüentado; e pede-lhe afetuosamente te alcance lágrimas de verdadeiro amor de Deus e de contrição de teus
pecados, que foram a causa de tantas penas; para que naquele horrível dia mereças lograr os frutos do sangue de
Cristo.

Arnoldo Carnotense diz: Omnino tunc erat uma Christi et MARIAE voluntas; unumque holocaustum pariter offerebat
Deo; haec in sanguine cordis, hic in sanguine carnis: Uma só era totalmente a vontade de Cristo e de MARIA; e um
holocausto ofereciam a Deus uniformemente: Cristo com o sangue de sua carne, MARIA com o sangue de seu
coração. Pondera como concorda bem com isto que a mesma Virgem Santíssima disse, falando com S. Brígida: Sicut
Adam et Eva vendiderunt mundum pro uno pomo, ita Filius meus et ego redemimus mundum quase uno corde: Assim
como Adão e Eva venderam o mundo por um pomo; assim meu Filho e eu resgatamos o mundo quase com um
coração.

Ó Virgem piadosíssima, amorosíssima e desconsoladíssima! Com que inteira vontade e com que fiel rendimento
oferecesses ao Altíssimo este precioso holocausto! Como se ajuntaram perfeitamente as duas metades deste místico
pomo com que foi reparado, cravando-se a vossa metade nas mesmas pontas das setas com que a de JESUS estava
traspassada! E em quanta obrigação vos está o mundo, por haverdes sido a tanto custo corredentora sua! Bendito
seja Deus, que tanto vos comunico de sua imensa caridade. Ó seja eu por intercessão vossa, e dignação sua,
admitido à participação destas penas suas e vossas; que só por serem vossas, e suas, só por serem penas de JESUS e
de MARIA, penas do Filho de Deus e da Mãe de Deus, merecem todo o meu desejo e suspiro; e em si tem o prêmio
de si mesmas. Ditoso de mim, se quando JESUS é afrontado e perseguido, eu também fora digno de padecer por
JESUS perseguições e afrontas! Ditoso de mim, se quando a inocente pomba MARIA é sacrificada, e no candor de
suas penas se vêem as salpicas do sangue de suas lágrimas, eu também pudesse ajuntar alguma coisa a este
sacrifício, e acompanhar estas lágrimas. Esta fora, sem mais outra glória, a glória de minha alma; padecer, sentir e
arder meu pobre coração na doce companhia destes dois corações de JESUS e de MARIA.

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Meditação II
Outro princípio, pelo qual se pode formar algum conceito do excessivo das penas desta angustiada Mãe, é
considerando o altíssimo e perfeitíssimo conhecimento que a Senhora tinha presente da infinita dignidade de seu
Filho JESUS Cristo, a quem via desonrado, afrontado e crucificado. Porque acrescenta mais no seu trabalho, quem
acrescenta na ciência (Ecle 1, 18): Quis addit scientiam, addit et laborem. De sorte que quando a Virgem Mãe via seu
Bendito filho pendente da Cruz entre dois malfeitores, não perdia de vista que este Senhor era o mesmo que no
Empíreo reina entre duas Pessoas Divinas; e quando cuspido e esbofeteado seu rosto, tinha presente como nesse
mesmo rosto se espelham e são glorificados os Anjos; e assim dos mais tormentos e opróbrios da Paixão do Senhor.
Por onde, assim como só a Senhora entre todas as criaturas capazes de sentimento sabia penetrar o abismo da
excelentíssima e sempre adorável dignidade de Cristo, só ela por conseguinte podia dar fundo ao sensível e custoso
de suas penas e afrontas. E todo aquele cálice de amarguíssima mirra que o Senhor não foi servido beber
materialmente (Mc 15, 23): Dabant ei bibere myrrhatum vinum, et non accepit, esgotou a Virgem espiritualmente e
lhe repassou toda sua alma. Ai, inocentíssima Virgem! Ai, afligida Mãe! Por isso eu, miserável pecador, não sinto em
mim, nem em meus próximos, as ofensas de Deus, porque estou muito longe do conhecimento de que coisa é Deus?
E se quem acrescenta a ciência, acrescenta o trabalho; quem, como eu, acrescentava a estultícia, e dobrava a
cegueira, que lhe havia de suceder, senão perder o sentimento do mal que fazia, e cauterizar a minha consciência,
endurecendo-me aos remorsos dela! Ó, se um pecador dos que o mundo chama honrados, e nele estimam tanto
qualquer pontinho de sua vã e triste honrinha, soubesse quem é Deus, a quem tão de assento e tão sem susto nem
reparo se põem a desonrar, e a pisar a sua lei, antepondo-lhe a do seu apetite, é certo que enlouquecera, ou
rebentara de dor! E pecamos tão facilmente, e com tal repetição, porfia, ingratidão e impudência pecamos? É que
perdemos a dor, porque nos sumimos na ignorância, e os pecados, que nos distanciaram do conhecimento de Deus,
nos levaram também o pesar deles.

A este claro conhecimento que a Virgem Mãe tinha da dignidade de Cristo, se ajuntava outro particular que tinha
dos corações danados e intenções malignas de seus perseguidores. Porque da Senhora se verificou o que o Profeta
Evangélico dissera de seu Bendito Filho (Is 11, 38): Tu Domine demonstrasti mihi et cognovi, tunc ostendisti mihi
studia eorum. De sorte que via a Senhora alongar no madeiro da Cruz os furos para os cravos; e juntamente entendia
que isto se fazia de propósito, para que os braços do Senhor à pura violência fossem obrigados a chegar aos tais
furos. Via que crucificavam ao Senhor com um pé sobre o outro; e conhecia que intentavam nisto seus inimigos
multiplicar as marteladas do segundo, pois o pregavam não só na Cruz, mas também no primeiro; e com tanto maior
rasgadura quanto o cravo, para abranger a ambos os pés, metia maior grossura. Via que ao despirem o Senhor para
os açoites, lhe tiravam a túnica, sem lhe tirarem primeiro a coroa de espinhos; e conhecia que era para que a mesma
túnica levasse consigo a coroa e lha tornassem a cravar com feridas novas. Via que alugavam o Cirineu para levar a
Cruz no restante do caminho até o Calvário; e penetrava como aqueles lobos carniceiros sôfregos da matança do
inocentíssimo Cordeiro receavam que lhes espirasse no caminho, e ficassem perdendo o saboroso bocado de o
crucificarem vivo. Via que suposto que aqueles verdugos estavam conhecendo a sua aflição ao pé da Cruz, no
desfigurado do seu rosto e no contínuo de suas lágrimas, com tudo a não apartaram daquele lugar: e penetrava
muito bem que era para dobrarem as penas do Filho com a vista da Mãe, e as da Mãe com a presença do Filho.
Estes, e outros muitos intentos da malícia e crueldade judaica, não encobria Deus do espírito da Virgem: Tu autem
Domine demonstrasti mihi et cognovi, tunc ostendisti mihi studia eorum, para que o seu padecer se assemelhasse
mais com o de seu Filho, e depois os tesouros de seus merecimentos fossem quase infinitos. Vê tu agora, alma
minha, se vás por caminho acertado, recusando o padecer, e fugindo de tudo o que é Cruz. Vê se quando Deus te
oferece ocasiões de imitação de Cristo em seus trabalhos, tens razão de se queixar ou se julgar por desamparado. E
vê, se considerando tu com espírito de compunção nas penas da Virgem, deixará de lhe ser grata esta memória, e
mui proveitosa para entrares também na parte de suas consolações.

Para este conceito que vamos formar do excessivo das penas da Senhora, maior luz se nos descobre ainda se
consideramos o amor que tinha a seu santíssimo Filho. Certíssimo é que quanto maior é o amor com que uma alma
está unida a outra, tanto mais próprias e íntimas faz as penas ou as glórias dela; porque a força da Caridade quase
identificando os corações, comunica a qualquer deles o que goza ou padece o outro, assim como duas folhas de um
livro juntas repassam entre si a sua umidade; ou duas lâminas de metal unidas repassam o seu calor; ou em uma
cítara, duas cordas igualmente intensas, tocada uma faz estremecer a outra. Quem pois puder explicar o íntimo e o
imediato e o semelhante e bem temperado do coração da Virgem com o de Cristo, este poderá entender quanto
participou de suas penas. O amor de MARIA Santíssima a Cristo seu Bendito Filho excede incomparavelmente o de
todos os Anjos e Santos; e somente é excedido pelo amor infinito com que seu Eterno Pai o ama. Se o amor de S.
Paulo a este Senhor bastou para que dissesse que não era o que vivia, mas Cristo o que vivia nele (Gl 2, 10): Vivo
autem jam no ego, vivit vero in me Christus, que seria o amor da Rainha e Mestra de todos os Apóstolos? É
indubitável que todas as gotas do mar Oceano, e todos os átomos do Sol, não chegam a igualar os grãos da intenção
do amor que a Virgem tinha por Cristo. Vendo pois a este Senhor afrontado, escarnecido, blasfemado, crucificado: a
que auge de dor chegaria a sua dor! Que profundo e amargo seria o mar de angústias que recolhia em seu coração
piedoso! Eis aqui porque S. Bernardo dizia que se a dor da Virgem se repartisse com todos os viventes, bastava para
os matar juntos de súbito.

Acrescentemos agora que este amor da Senhor era não só natural, mas sobrenatural, não só infuso, mas também
adquirido, e além disso continuado com incessantes aumentos por toda a vida: e os títulos de amar ao Senhor eram
muitos, e muito poderosos; pois a Virgem pela criação e redenção e batismo era Filha de Cristo; pela Encarnação do
Verbo era sua Mãe e sua irmã; e pela união mí