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Pe Maurício Meschler

01/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ

Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

INTRODUÇÃO

Dá-se com os santos o que se dá com os homens e as paisagens. Qual a fisionomia tal o ponto de vista que revelam.
Alguns ao primeiro lance dos olhos manifestam o que têm de belo e de grande e arrancam-nos imediatamente
admiração ou simpatia. Outros pelo contrário só patenteiam seu valor após estudos sérios. Deve-se descobrir o seu
mérito pela observação. Só então se nos antolha o seu valor, sua beleza e sua magnificência. Pode mesmo acontecer
que o seu encanto consista primordialmente nessa singeleza essa espécie de mistério que os envolve.

Precisamente isto notamos nos santos. Como os astros do firmamento assim diferem os bem-aventurados em brilho
e beleza: os que atraem menos os nossos olhares podem ser os maiores.

São José pertence ao número dos últimos. Um mestre na vida espiritual chama-o, não sem razão, “o mais oculto dos
santos". A expressão é justíssima se pensarmos dum lado na incomparável missão e na extraordinária santidade do
glorioso patriarca e, doutro lado no silêncio e na obscuridade que foram apanágio seu. Só muito tarde, muito mais
tarde do que outros santos surgiu ele no firmamento do céu da Igreja e recebeu as honras de um culto especial; e,
apesar do incremento que este culto pode tomar no correr dos tempos, nem por isto permanece São José menos
ignorado. De alguma maneira poder-se-á dizer que nesta sua obscuridade consiste a sua grandeza.

Sem dúvida, numerosos escritores ascéticos e teólogos, animados de uma terna devoção ao nosso Santo,
consagraram-lhe seu talento e descobriram, graças à agudeza do engenho e a uma admiração operosa, grandezas e
maravilhas em S. José: falavam de sua santificação desde o seio materno; do privilégio de uma ressurreição
antecipada; de graças extraordinárias que haviam sido seu quinhão. Bem certo é que Deus outorgou a São José tudo
quanto estava em relação com sua missão extraordinária. Não o contestamos. Mas temos as indicações da Escritura
que valem mais do que todas as revelações privadas e todas as opiniões dos sábios, por mais piedosas que sejam e
por mais verossimilhantes que pareçam. O que ela nos diz de São José é a verdade, a verdade indiscutível. Uma só
palavra, simples e despretensiosa, da Escritura encerra, a miúde, incrível plenitude de sentido. Mas se faz mister
sondar a profundeza dessa palavra, dessa expressão. Um lago cristalino situado em alturas montanhosas encanta-
nos não só pela superfície diáfana na qual se reverbera o azul do céu, mas também pela transparência das águas de
cujo seio brota maravilhosa vegetação, revelada pelas ninfeáceas que balanceiam a cabecinha verde na superfície
serena da água. Sucede o mesmo com a Sagrada Escritura. A Verdade, na singeleza da forma, permite-nos olhares
para profundezas misteriosas. No que concerne a São José encerra o Evangelho verdadeiros tesouros. Devemos
trazê-los à tona e explorá-los para a glória do nosso Santo.

Por isto terá o presente opúsculo duas partes. Na primeira, de Evangelho na mão, contaremos a vida de São José nas
suas contínuas relações com a vida de Cristo. Esta é que vem a ser a verdadeira vida de São José e a base de tudo o
mais. Embora bastante conhecida ela nos aparece sempre bela sempre amável, sempre própria para nos animar e
edificar. Na segunda parte mostraremos a vida de São José na Igreja. Falaremos do culto que os fiéis lhe prestam e
das graças múltiplas que decorrem das suas virtudes, e, dos diversos aspectos sobre os quais lhe podemos meditar a
vida. Em palavras singelas procuraremos traçar o perfil do modesto e humilde patriarca de Nazaré.

Permita Deus, que estas linhas despretensiosas, granjeiem novos devotos para o Pai nutrício de Jesus.

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02/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

PRIMEIRA PARTE

SÃO JOSÉ NA VIDA DE CRISTO

1. A PÁTRIA E A FAMÍLIA DE SÃO JOSÉ

São José teve por pátria a Terra prometida, a Terra Santa. Partindo do Hermon, cujos píncaros alcandorados se
revestem de neve, e dividida longitudinalmente em duas partes pelo curso do Jordão, estende-se a Terra Santa entre
o Mediterrâneo e o deserto, apresentando alternativamente montanhas e planícies, pastos viçosos e vales sombrios,
formando como que uma linda península, de norte a sul.

A Galileia, com seu lago encantador e suas colinas arborizadas, onde está engastada Nazaré, era a joia da Palestina,
enquanto a Judéia, com o seu solo pedregoso e suas gargantas escancaradas, mostrava um caráter mais austero. Em
compensação, trazia ela, no seu planalto central, o Templo, santuário, onde Deus se revelava, centro da vida
religiosa e política da nação. Não longe dali, numa graciosa colina, estava situada Belém, a povoação real.

Em verdade, a Palestina era a magnífica herança de Deus destinada ao seu povo escolhido. Merecia ser a mansão do
Homem-Deus. Suas três cidades mais santas — Nazaré, Jerusalém, Belém — foram precisamente o teatro da vida de
São José.

Naquela região tão bela e gloriosa, José nada mais era que um desconhecido. Pertencia à raça de Davi e Salomão,
cujos reinados levaram o povo judeu às culminâncias da sua grandeza, e de cuja posteridade sairia o Messias,
esperança de Israel e Salvador do mundo. Eis o privilégio mais belo da nação escolhida e, mais particularmente, da
família de Davi, — privilégio historicamente atestado pela dupla genealogia de Jesus, conforme no-la dão os
evangelistas: São Mateus, derivando-a de Abraão e descendo pela família de Salomão; São Lucas, subindo, pela
família de Natan, até Davi, até Abraão, até Adão.

No que concerne a São José, à sua missão, ao seu mérito e à sua grandeza, essa genealogia é importantíssima.
Primeiro, temos nela incontestavelmente a genealogia do próprio São José: aí ele nos é apresentado como
descendente de Davi; achamo-lo intimamente associado ao Messias prometido, ao Homem-Deus de quem ele é o
pai legal. Assim se cumpriu a promessa de que o Messias sairia da raça de Davi. Assim resulta que o Salvador é
realmente filho de Davi e que Ele, através de São José, reúne em si todas as glórias dessa ilustre família. Com efeito,
diz-nos São Mateus que o pai de José foi Jacó; São Lucas nos diz que foi Helí. Só se explica esta divergência em
virtude da lei de levirato, segundo a qual aquele, cujo irmão morresse sem deixar filho, devia esposar a viúva desse
irmão afim de lhe assegurar a posteridade. Assim, Jacó teria sido o pai corporal de José, e Helí apenas o pai legal.
Destarte, em José — e parece que tal fora outrora o caso em relação a Zorobabel — reúnem-se os dois ramos da
família de Davi, e é ele quem transmite ao Salvador as glórias dessa dupla linhagem.

Se considerarmos Jesus como Deus, parecerá insignificante essa descendência real. Mas, se encararmos o Homem-
Deus, ela terá a sua importância. Por ela, o Salvador conta dezenove reis entre os seus antepassados; e essa honra
deve-a ele a São José. Por isso, dirigindo-se a José pela primeira vez, o anjo chama-o “filho de Davi”. Trata-se de uma
mensagem messiânica, e o anjo afirma que a grandiosa promessa feita à família de Davi se realiza agora em São José
e por São José. Assim, quando mais tarde a multidão, arroubada de admiração, saúda o Salvador com o nome de
Filho de Davi, e dele implora, a esse título, o alívio de todos os males; quando o próprio Jesus, para demonstrar que
é o Messias, reivindica esse nome e essa honra em face dos seus adversários (Lc 20,41), a multidão e o Salvador não
fazem mais do que proclamar um título de que Jesus é devedor a São José.

Se o evangelista São Lucas faz remontar até Adão a genealogia do Salvador é para nos mostrar que Jesus é bem da
nossa raça, Senhor e Chefe do gênero humano em peso, primogênito da criação. Não caracteriza isso, ao mesmo
tempo, o lugar que São José, na sua qualidade de patriarca, ocupa na Igreja, e sua relação com as gerações
vindouras? Num sonho misterioso, Jacó viu uma escada que se elevava da terra até o céu; os anjos subiam-lhe e
desciam-lhe pelos degraus. No topo estava o próprio Deus. Na árvore genealógica do Salvador, Deus, na pessoa de
Jesus, revela-se no topo realmente, e não apenas em sentido figurativo; e isso graças a São “José, esposo de Maria,
da qual nasceu Jesus que é chamado Cristo” (Mt. 1,16).

Mas, dir-se-á talvez, que restava de toda a glória da família de Davi no momento do advento do Senhor? A oficina do
carpinteiro José relembrava, porventura, o esplendor do grande rei? E podia o nosso santo oferecer a Jesus Cristo,
nosso Senhor e Mestre, outra coisa a não ser a honra duvidosa de uma família certamente ilustre, mas decaída, e
cujas condições de vida já não destoavam das dos mais humildes israelitas?

Sim, essa pobreza e essas humilhações eram o quinhão de São José; mas eram também uma das características do
Messias. Eis por que o Salvador devia recebê-las por São José. A pobreza e a humilhação entravam no plano divino
da Redenção; tinham a sua razão de ser na missão do Homem-Deus. Quando os judeus foram levados para o
cativeiro da Babilônia sob o rei Jeconias, o cetro afastou-se de Judá e a coroa real da família de Davi. Zorobabel
reconduziu o povo à sua pátria; mas “a casa de Davi caía cada vez mais em ruína” (Amós 9,11) e, a partir de Abiud e
de Resa, filhos de Zorobabel, até José, a lista genealógica não apresenta senão nomes desconhecidos. No tempo dos
Macabeus, enquanto se esperava a vinda do Messias prometido, outra família subiu ao trono de Israel. Após a sua
sanguinolenta extinção, o terrível edomita Herodes, semi-judeu e semi-bárbaro, usurpou a coroa (38 a. C.). Para
subtrair-se ao ciúme e à crueldade desse príncipe, os descendentes de Davi tiveram de fugir, ou pelo menos de
mergulhar na obscuridade e viver penosamente, na Galileia ou em Belém, da lavoura ou da mão de obra. Nada
restava das riquezas de Davi nem da glória de Salomão. Do próprio São José uma só coisa sabemos: era carpinteiro.
Ignoramos se morava em Belém ou em Nazaré. Portanto, do ponto de vista temporal, José não tinha para oferecer
ao Redentor mais que as suas mãos calejadas e seu coração de uma fidelidade e de um amor a toda prova. Em lugar
de grandezas e brilho do mundo, havia obscuridade e pobreza.

Eis aí precisamente o que o Salvador queria e, para achá-lo, desceu do céu à terra. Eis por que dispusera os
acontecimentos de maneira a que a família de Davi resvalasse gradativamente para a pobreza. Deus, — não carecia
de riquezas, nem de honras, nem de meios naturais. Homem-Deus, — fundador de uma religião que ensina a
humildade e a pobreza. Redentor da humanidade pecadora, — a indigência e a obscuridade lhe serviriam de
instrumentos para a realização dessa obra. Longo tempo atrás, os profetas tinham visto nele um ramo peco,
despregado do cedro real, brotando em terra árida (Is. 53,2). A humilhação da família de Davi, a que ele pertencia,
sobre ser o castigo das faltas cometidas pelos descendentes do rei-profeta, significaria para o Salvador um dos sinais
do seu advento, um meio de efetuar a nossa redenção, um laço que o uniria a outra família muito mais extensa — o
gênero humano todo, pobre, necessitado, sujeito à lei do trabalho cotidiano. Assim, pois, é que José seria, para o
Salvador, o homem segundo o seu coração, o pai escolhido dentre mil.

Nobreza de origem e pobreza: tal era a herança temporal que São José transmitia ao Redentor. Mas, nem o sangue
real nem a pobreza, em si mesmos, valem aos olhos de Deus. Perante o Senhor, só tem valor a virtude e a santidade.
Ora, São José era homem de elevada virtude e de uma santidade extraordinária. Bastaria, para prová-lo, a missão
para a qual, desde toda a eternidade, Deus o escolhera. As obras de Deus são perfeitas, e seus conselhos sempre
cheios de sabedoria. Quanto mais uma criatura se aproxima Dele, mais Ele a faz participar da sua própria santidade.
São José era o chefe da sagrada Família, o pai legal de Jesus, o esposo da Mãe de Deus. Achava-se, por isso mesmo,
unido a Jesus e a Maria pelos laços mais íntimos.

Daí devemos concluir, que a alma de São José foi um prodígio de graça e de santidade. Missão alguma é comparável
à sua; nenhuma santidade — exceto a de Maria — assemelha- se à sua santidade. Ele sobrepuja a todos os santos da
lei antiga. É o último rebento do Antigo Testamento; toca imediatamente na pessoa do Messias. Por conseguinte,
nele deve ter atingido o apogeu aquela santidade dos antepassados que, nos desígnios divinos, também deveria
servir aos planos da Encarnação. Como Abraão, São José era um homem de fé e de obediência; era paciente como
Jacó; puro e casto como José do Egito; era segundo o coração de Deus, como Davi, e sábio como Salomão.

O Novo Testamento nos leva a uma conclusão semelhante. Aí também é única a situação de São José. Quando
aparece pela primeira vez no Evangelho, o texto sagrado faz notar que ele é “um homem justo” (Mt 1,19), isto é, no
dizer dos Padres e dos comentadores, um homem santo, perfeito, porque o termo “justiça” significa “perfeição e
santidade”. Sob esse duplo aspecto, ele só era inferior a Maria. É verdade que, de acordo com a sua missão
providencial, a sua santidade nada tem que dê na vista. É preciso, por assim dizer, adivinhar a grandeza e excelência
da sua virtude: é um tesouro oculto de que só Deus pode apreciar todo o valor, como, só o olhar da Sabedoria
encarnada, podia, aqui na terra, contemplar toda a sua riqueza.

Eis aí São José, descendente de uma família eminentemente nobre, conforme o atesta sua magnífica genealogia; —
glorioso até na pobreza e na humilhação, porquanto é pobre por amor a Cristo; — admirável pela virtude e
santidade; — em suma, era ele o homem de quem o Salvador precisava para realizar seus desígnios redentores.

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03/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

1. ESPOSO DE MARIA

“Homem da dextra de Deus”, São José não se perturbava nem preocupava com planos e projetos relativos ao futuro.
De antemão, estava resolvido a observar a lei divina, a cumprir fielmente todos os seus deveres. Aguardava,
confiante, as indicações da Providência. Eis a melhor maneira de se preparar para uma vocação verdadeiramente
divina. De fato, chegado o momento, a Providência não hesitou em pronunciar-se.

São José tornou-se o esposo da Virgem Maria. Ignoramos as circunstâncias precisas.

Nossas informações cingem-se a algumas palavras da Sagrada Escritura, aos textos de alguns Padres, às conjecturas
dos teólogos, a lendas, graciosas sem dúvida, mas muito incertas. Diz-nos simplesmente a Escritura que José era o
esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, chamado Cristo (Mt 1,16); que o anjo o animou a tomar Maria por sua
mulher (Mt 1,20); que ele desposara a Virgem Maria antes do dia da Anunciação (Lc 1,27). À míngua de outras fontes
e testemunhos, podemos, no que concerne a Maria, estabelecer, com relativa certeza, três pontos que nos
informam mais exatamente sobre esse matrimônio.

Primeiramente, Maria, como José, descendia da família de Davi. Isso consta da tradição e do próprio texto sagrado
(Lc 1,32). Ela pertencia, sem a menor dúvida, a um dos dois ramos dessa família de que São Mateus e São Lucas dão
a genealogia.

Em segundo lugar. Maria era a herdeira de um dos ramos da família de Davi. Em parte alguma se fala de que ela teve
irmãos; pelo contrário, aliás, São José não a teria levado consigo para- Belém; mas é que, na sua qualidade de
herdeira, ela teve de se fazer inscrever para o censo. Finalmente, no Calvário, o Salvador confiou Maria ao discípulo
bem-amado, prova de que, ao menos naquele momento, Maria não tinha irmãos.

Em terceiro lugar, Maria fizera voto condicional ou incondicional de guardar perpétua virgindade. Outro sentido não
pode ter a sua resposta à mensagem do anjo anunciando-lhe que ela seria a mãe do Messias (Lc. 1,34).Ora, essa
resposta é evidentemente posterior ao seu noivado com São José (Lc. 1,27).

As profecias haviam anunciado que o Messias nasceria de uma virgem (Is 7,14), porquanto o nascimento virginal era
o único digno do Filho de Deus.

Como foi que, nessas circunstâncias, Maria esposou São José? Segundo certos autores, os pais de Maria, e sobretudo
os sacerdotes, cujo dever era velar pela observância da lei e, mais particularmente, pela conservação das antigas
famílias, teriam imposto à descendente de Davi a obrigação de escolher um marido na sua parentela. Vendo nessa
ordem a vontade do próprio Deus, Maria obedeceu. Outros autores resolvem a questão dum ponto de vista mais
elevado. Segundo eles — e parece que a Igreja é deste parecer, visto falar no Ofício dos Desposórios de Maria e José
de uma admirável intervenção da Providência — esse casamento foi muito especialmente propiciado pela Divina
Providência que, na sua sabedoria e no seu poder, e em vista da Encarnação do Filho de Deus, achou meios de unir
aquelas duas santas almas pelos laços do matrimônio, embora José, tal como Maria, tivesse resolvido viver em
perpétua virgindade. Deus lhes revelou que, nas disposições em que ambos estavam, o matrimônio contraído não
seria obstáculo ao voto; que a sua vontade era vê-los concluir essa união para guardarem nela santamente a
promessa que haviam feito.

Numerosos Padres e teólogos eminentes sustentaram essa opinião. Efetivamente, corresponde ela à Providência,
que sabe fazer concorrerem para os seus intuitos os próprios obstáculos. O intuito, no presente caso, era a
Encarnação do Verbo. Deus escolhera uma Virgem para ser sua Mãe; não podia dar a essa Virgem senão um esposo
virginal. Ouçamos Santo Agostinho: Justo era o esposo ,justa era a esposa; o Espírito Santo, que se comprazia na
justiça de ambos, deu-lhes um Filho”. — A virgindade é justiça em sentido mais elevado, visto ser simplesmente de
conselho.

Realizaram-se os esponsais ou em Jerusalém, onde a família de Maria possuía uma casa, ou em Nazaré. Segundo o
costume, quando era aceito o pedido para casamento apresentado por um intermediário, o noivo, em presença da
família e dos pais, dava ao pai ou ao tutor da moça um ramo ou alguma joia, como penhor da sua promessa, ou
então os dois noivos exprimiam por algumas palavras o seu consentimento recíproco. É muito possível que José e
Maria tenham observado esse uso.

A Virgem contaria então cerca de quinze anos. Possuía como dote a graça e a beleza, um espírito cultivado pela
educação recebida no Templo. Sua alma — sabemo-lo pela fé — possuía dons maravilhosos e virtudes de uma
excelência incomparável. Quanto a São José, ignoramos qual a sua idade. Mas Deus faz tudo com sabedoria e
medida. Assim sendo, podemos admitir que José era mais idoso que Maria e estava talvez na madureza da idade,
mas não era nenhum velho. Em seus quadros, os mais antigos mestres representam-no sem barba. Pelas razões que
acabamos de lembrar, ele certamente era de um exterior cheio de nobreza e notavelmente dotado de qualidades
excelentes de espírito e de coração. Sob todos os pontos de vista, deveria ele ser o chefe da Sagrada Família, seu
arrimo e seu conselho nas dificuldades e provações.

Consoante expressiva lenda conservada por um documento antigo, os sacerdotes, obedecendo a uma revelação
especial, teriam decidido que, pela mesma maneira como Aarão fora outrora escolhido para exercer as funções de
sumo sacerdote, todos os moços da família de Davi depositariam no limiar do Santo dos Santos um ramo ou uma
haste. Aquele cujo ramo florisse, e sobre o qual o Espírito Santo descesse visivelmente, seria chamado à honra de
tornar-se esposo da Virgem Maria. Só São José, ou por humildade, ou por amor à virgindade, não trouxe ramo
algum; por isso, Deus não manifestou a sua vontade. Os sacerdotes interrogaram então o Senhor: este respondeu
que um homem da casa de Davi faltara ao apelo. José teve de obedecer: e eis que o ramo por ele trazido cobriu-se
de flores, o Espírito Santo veio pousar nele, e São José se tornou-se o feliz esposo de Maria! Por isso, nos quadros
dos antigos mestres, ele é representado segurando uma haste coroada de flores, sobre a qual repousa o Espírito
Santo.

O sentido simbólico desse casamento encerra um caráter superior, verdadeiramente sacerdotal: o próprio Deus, o
Espírito Santo, manifesta a sua escolha, e só o amor à virgindade une para a vida inteira aqueles dois corações tão
nobres e tão puros — Maria e José. Aos olhos de Maria, a virgindade era o penhor precioso que José lhe oferecia
para lhe obter a mão. Foi pois, a virgindade que selou essa união. É o que significa o ramo de lis que a arte cristã dá a
São José como um de seus atributos característicos.

Segundo a lei judaica, os esponsais constituíam o vínculo conjugal. A introdução da noiva na morada do esposo, ou
os desposórios, não passava de uma simples confirmação, mais solene, do primeiro contrato.

Essa solenidade, porém, efetuar-se-ia mais tarde e não passaria sem uma dolorosa provação para José e Maria. O
noivado foi seguido do grande e santo mistério da Encarnação, mistério de importância decisiva para ambos. José
ignorava-o e Maria nada lhe disse.

Logo após a Anunciação, a Virgem, por ordem do anjo, foi a Ain Kariin visitar sua prima Isabel, a primeira a ser
instruída sobre o mistério da Encarnação, como foi a primeira a retirar dele os frutos da graça. Sem dúvida alguma,
não estava presente São José, do contrário teria chegado, por força das circunstâncias, a saber do mistério. Cerca de
três meses mais tarde, Maria voltou a Nazaré e, pouco a pouco, sinais exteriores começaram a revelar a maravilha
que se realizava nela. José não pode deixar de percebê-lo. Que dolorosa surpresa! Entretanto, apesar de tudo,
apesar da provação sofrida pela sua confiança, ele tinha sobeja estima a sua noiva. Estava convencido da sua
santidade e perfeita virgindade, para duvidar seriamente da sua inocência. Guardava, pois, silêncio. Por seu
lado,Maria nada dizia.

Da parte da Mãe do Salvador, esse silêncio só se podia explicar por um sentimento de delicado pudor, de humildade,
de heróica confiança em Deus, a quem ela entregara o cuidado de todas as coisas. E São José se calava por um
sentimento de nobreza, por deferência para com Maria, cuja virtude conhecia. Antes de conceber a menor dúvida
sobre a pureza de sua noiva, quis ver em tudo aquilo uma maravilha cuja solução lhe escapava.

Contudo, urgia tomar uma decisão. Podia citar Maria perante os tribunais. Podia,perante algumas testemunhas,
fazer-se desligar da sua palavra sem apresentar motivo. Mas, em ambos os casos, era isso comprometer mais ou
menos a honra de Maria, e seu coração recusava-se a isso. Pareceu-lhe de melhor alvitre, apesar da dor que ele com
isso sentiria, deixar secretamente sua noiva e abandonar toda a questão à Divina Providência. Firmou-se nesta
decisão, preferindo ver-se ele próprio acusado de faltar à sua promessa, a deixar a sombra de uma suspeita empanar
a honra de Maria.

É nessas circunstâncias; que José nos aparece pela primeira vez no Evangelho. Semelhante aos anjos, ele é
inacessível aos baixos sentimentos da ira, ia ciúme e da vingança, paixões tão facilmente inflamáveis entre os
orientais. Permanece plenamente senhor de si. Dá prova de uma sabedoria e de uma prudência celestiais e,
sobretudo, é excelentemente “justo”.

A despeito de todas as aparências, não se abalança a julgar desfavoravelmente o próximo. É, pois, com toda a razão
que o Evangelho lhe confere aqui o nome de “justo” (Mt 1,19). Já o dissemos: Deus escolhera bem. São José era
digno de ser esposo de Maria, pai legal de Jesus, chefe da Sagrada Família. Seu procedimento nessa circunstância já
nos revela que nele existia um grau extraordinário de perfeição e santidade.

Nessa altura, o próprio Deus interveio. Ele prova os seus, mas não abandona os que nele confiam. Num sonho
profético que oferecia a certeza de uma aparição visível, enviou um anjo a São José, revelando-lhe por essa
mensagem três coisas: primeiro, o anjo tranquiliza José a respeito de sua noiva: ela é irrepreensível e santa; o que
nela se efetuou é obra de Deus e do Espírito Santo. Segundo, o anjo faz saber a José que o Menino dado à Maria, não
é outro senão o Messias, o Filho de Deus, que remirá o seu povo do pecado; na sua qualidade de pai, José dar-lhe-á
o nome de Jesus. Terceiro, o anjo exorta-o a não hesitar e a aceitar Maria como esposa. Tal foi a celeste mensagem.

Que consolador despertar para José, e quem nos descreveria a doçura da sua conversação com Maria após esse
sonho revelador? Que mudança acaba de operar-se! Qual não é, doravante, aos olhos de José, a dignidade de Maria!
Já não é somente uma santa: é a Mãe do Messias, a Virgem de quem nascerá o Emanuel anunciado pelos profetas. E
ele, José, será o esposo dessa Virgem admirável!

Doutro lado, qual não é a gratidão de Maria para com o esposo, cujo coração se mostrou tão magnânimo! A
provação serviu para unir mais estreitamente essas duas almas. Era exatamente o que Deus visava: revelar
mutuamente, a Maria e a José, a virtude e santidade de ambos, fundir-lhes os corações numa recíproca estima, num
amor inabalável. O casamento deve ser antes de tudo a união das almas e a fusão dos corações.

Não havia mais que adiar as solenidades do casamento. De ordinário, ao cair da noite, o noivo, acompanhado de
músicos, escoltado pelos amigos, dirigia-se à casa da noiva que, coberta de véu, se juntava então ao cortejo com
suas companheiras. Alumiado por tochas, o préstito demandava a casa do esposo. A noiva era introduzida, lavrava-
se o contrato, e os esposos recebiam a benção nupcial. Vinham em seguida o festim de bodas, folguedos e danças
que se estendiam, às vezes, por vários dias. Tal o costume dos israelitas. Sem dúvida, as coisas passaram-se pouco
mais ou menos assim no caso de Maria e José. Mas ignoramos se isto se deu em Nazaré ou em Jerusalém.

O casamento de São José com a SS. Virgem, e os incidentes habituais, neste passo da vida, é um assunto que muitas
vezes tentou o pincel ou o cinzel dos artistas cristãos. Eis alguns traços típicos. Para indicar a dúvida de São José, o
mestre que esculpiu os admiráveis assentos do coro de Amiens representa o nosso santo na iminência de deixar a
casa da noiva: José fez seus preparativos de partida; alguns embrulhos e o manto jazem-lhe aos pés; apesar da sua
angústia, ele acaba por adormecer, enquanto (segundo um quadro de Luini, Milão) Maria, cheia de confiança em
Deus, se ocupa tranquilamente em trabalhos de agulha. Esclarecido pela mensagem do anjo, José cai de joelhos;
pede perdão a Maria por ter pensado em abandoná-la. Maria perdoa-lhe com bondade, estende-lhe uma das mãos,
conservando a outra apoiada na Sagrada Escritura, pois estava meditando. Já anteriormente, no momento do
noivado, recebendo das mãos do sacerdote o ramo florido, José lançara-se aos pés de Maria, reconhecendo-se
indigno da honra que lhe era feita (Amiens). São Joaquim figura entre as testemunhas do noivado e abraça
ternamente José (Luini). Os noivos deixam o lugar onde receberam a benção do sacerdote: Maria lê atentamente um
livro; José anda-lhe ao lado felicíssimo dos nobres sentimentos de sua noiva (Missal antigo). Gaddi (Florença) e
Rafael reproduziram maravilhosamente a calma, o recolhimento, a gravidade de José, a graça, a confiante e alegre
simplicidade de Maria. E todos os mestres — os antigos como os modernos — concordam em colocar a cena dos
desposórios no Templo de Jerusalém, ou pelo menos nas imediações do Templo, que forma então um fundo
majestoso. Efetivamente, era esse um matrimônio contraído “diante de Deus”, tão alta era a virtude, tão belas as
disposições dos dois esposos! O próprio Espírito Santo fazia a alegria daquela solenidade.

O casamento de Maria com José, repitamo-lo, foi obra da Providência que assim conduzia todas as coisas para um
fim admirável. No testemunho da Igreja e dos Santos Padres, a união assim contraída foi um verdadeiro matrimônio:
José tornava-se na realidade, o esposo de Maria e o pai legal de Jesus. A genealogia de José coincidia com a do
Salvador. O casamento de José com Maria estabeleceu legalmente que Jesus era descendente de Davi.

Essa união é, ao mesmo tempo, a última preparação, a preparação imediata para o advento do Salvador neste
mundo. A casa de Davi é restabelecida; o herdeiro de todas as promessas pode vir. O mistério da Encarnação, que
Deus na sua sabedoria ainda não quer revelar, oculta-se sob o véu do matrimônio, a que confere uma dignidade
singular e graças preciosas. Por essa união e pelas próprias circunstâncias que a acompanharam, Maria acha em José
uma testemunha irrecusável da sua virgindade, um arrimo dedicado, um conselheiro cheio de sabedoria, um
consolador na sua difícil missão. Os esposos e as virgens terão doravante, em Maria e José, um modelo admirável e
poderosos protetores. A partir desse instante, os trabalhos dos dois esposos, suas solicitudes, suas provações
cotidianas são, de alguma sorte, patrimônio do reino de Deus, uma cooperação com a vida do Homem-Deus, com a
sua obra redentora.

Quanto a São José, que vantagens lhe resultavam desse casamento? Para ele, era a inefável felicidade de viver na
intimidade de Maria e de Jesus; o privilégio de recolher o amor e a gratidão da Sagrada Família, de quem era o chefe.
Jesus e Maria eram-lhe submissos! Haveria em Israel felicidade maior, dignidade comparável à sua?

Finalmente, esse casamento ensina a todos nós que o estado conjugal é uma vocação santa, estabelecida por Deus;
que as uniões contraídas com as disposições requeridas são escritas no céu e podem ser uma fonte de bênçãos para
a sociedade e para a Igreja. Vemos também como a Providência guia todas as coisas com força e suavidade, não raro
mesmo apesar dos obstáculos aparentemente insuperáveis, e que não podemos fazer coisa melhor do que nos
abandonar com confiança, ao amor de Nosso Pai celeste.

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04/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

3. EM BELÉM

Aproximava-se o momento em que a Virgem daria ao mundo o Salvador. Por esse mesmo tempo foi publicado um
edito de César Augusto exigindo que, em todos os reinos submetidos a Roma — e a Judéia era desse número, —
todos os habitantes se fizessem inscrever. O recenseamento ordenado por Sulpício Quirino, governador da província
romana da Síria, efetuou-o Herodes e, conforme o antigo uso, por tribos e famílias.

Para fazer-se inscrever, todo chefe de família devia dirigir-se à cidade ou povoação donde procedia a família. Essa
medida descontentou o povo. Mas José e Maria submeteram-se pacientemente, sabendo que tudo vem de Deus e
que o Salvador nasceria em Belém. José pôs-se, então, a caminho com Maria, que, na qualidade de herdeira, devia
fazer-se inscrever também nos registros do censo.
Estava-se em pleno inverno, no mês de dezembro, quando, geralmente, na Palestina o vento sopra com violência, as
chuvas são abundantes e, nas alturas, o frio chega a ser rigoroso. Maria e José viajavam a pequenas jornadas,
modestos e recolhidos, suportando com doçura as intempéries do clima e a indiferença dos homens.

A viagem durou cerca de quatro dias e meio, e fez-se provavelmente pela planície de Esdrelon e pelos vales da
Samaria. Depois, de Jerusalém em diante, continuaram pelo planalto de Refaim, por onde outrora seguia Salomão
para ir aos seus jardins de Etan, cercado de uma multidão de servos e em meio a uma pompa que contrastava
singularmente com a modéstia e a pobreza da Sagrada Família. Em frente ao planalto, dominando vinhas e jardins
escalonados em terraços, cercado de vales verdejantes onde pastavam rebanhos, sobressaía o povoado real de
Belém. As habitações cobriam o vértice e as encostas ocidentais da altura, ao passo que a vertente oriental, volvida
para Jerusalém, era deserta. Onde se vê agora a igreja da Natividade abria-se uma gruta.

Pelo pôr do sol, José e Maria galgavam as encostas da colina para ganhar a hospedaria (khan), vasto pátio fechado
por muros, onde os viajores acham abrigo e água.Quanto ao mais, deve cada um providenciar por si mesmo. Os
forasteiros eram então numerosos em Belém. A hospedaria, estava repleta. Os dois viajantes tiveram de prosseguir
seu caminho, batendo talvez a muitas portas, mas só recebiam negativas.

Fora da cidade, ao oriente, numa colina árida, descobriram uma espécie de gruta, destinada a servir de refúgio aos
animais. Talvez José já a conhecesse. Talvez lhe tivesse indicado algum transeunte caridoso. Pernoitar numa gruta
desse gênero, ou mesmo estacionar nela algum tempo, ninguém o estranha no oriente. Mas nas presentes
circunstâncias, tamanho desamparo, era de tocar o coração! Maria e José descendiam da mais ilustre família de
Belém. Tinham por si a santidade, a glória de serem os pais do Messias. E eis que o Messias, que vinha salvar Israel e
o mundo, tinha que nascer desconhecido e irreconhecido, num retiro ignorado, como um estranho entre os seus!

Entretanto, veio a noite. E, nas sombras dessa noite augusta, aquele que é a Luz eterna fez a sua entrada neste
mundo. Maria, cujo coração transbordava de desejo e amor, deu à luz seu filho primogênito, seu filho único.
Arroubada de admiração, contemplava aquela pobre e frágil criança; adorava-a; envolvia-a em panos e depositava-a
docemente na palha do presépio.

Após se desempenhar desses desvelos maternos, chamou José, que se havia retirado. Este, então, contemplou pela
primeira vez o semblante daquele, cuja visão constitui a bem- aventurança dos espíritos celestes. A luz sobrenatural
revelou-lhe naquele Menino a beleza e a excelência da sua natureza humana e divina. Com Maria, ele se prostrou de
joelhos e, antes de mandar como pai, adorou o seu Deus com toda a fé e todo o amor de que transbordava seu
coração. Sua alma, por assim dizer, se desmanchava em alegria e gratidão para com Deus. Todo sofrimento estava
esquecido quando ele tomou nos braços o Menino-Deus, de quem deveria ser, neste mundo, o pai e a providência.
Que gratidão para com Deus, para com Maria, que lhe davam essa ventura! E essa ventura lhe aumentava ainda
mais a veneração e o amor para com aquela de quem ele era o esposo.

Um único pensamento fazia-o sofrer: a pobreza da gruta, onde seu Deus acabava de entrar neste mundo, e o fato de
nada lhe poder oferecer além do seu amor e do seu coração. A indigência da família real de Davi atingira o ínfimo
grau. José compreendeu, nesse momento, toda a grandeza da sua missão junto àquele Menino, e imolou-se-lhe sem
reserva. Seria o auxiliar de Maria nos cuidados de que ela cercaria a infância e a juventude de Jesus. Mais tarde,
outro José (de Arimatéia) estava junto de Maria, ao despregar-se da cruz o corpo exânime do Redentor ao ser
depositado no túmulo. Os panos e o presépio já prenunciavam o sudário e o sepulcro.

Jesus via e conhecia os sentimentos de seu pai nutrício. Abençoava-o, vertia-lhe na alma a plenitude das graça que
lhe permitiam cumprir a sua missão. O primeiro olhar, a primeira carícia do Menino-Deus revestiram José de uma
maravilhosa santidade, de uma admirável pureza de coração.

Essa noite ditosa trouxe outra surpresa e alegria a Maria e José. Apenas prestaram ao Salvador a homenagem da sua
fé e do seu amor, vozes fizeram-se ouvir à entrada da gruta. Eram os pastores, chamados pelos anjos a contemplar e
adorar o Menino. Eles contaram a José como, enquanto velavam pelos rebanhos, lhes haviam aparecido anjos do
céu, anunciando o nascimento do Salvador. Introduzidos para junto do Menino e de sua mãe, reconheceram a
verdade das palavras dos mensageiros celestes. Depois de adorarem o Messias, “voltaram glorificando e louvando a
Deus por todas as coisas que tinham ouvido e visto, conforme lhes fora dito” (Lc 2,20), e publicando por toda a parte
o advento do Redentor.
Para José era essa visita dos pastores, acompanhada de tantas circunstâncias maravilhosas, fonte de grande alegria.
Era uma homenagem prestada ao Menino-Deus e a Maria. Ele via a sua fé confirmada por esse testemunho
inesperado. Para ele, os pastores eram mensageiros de Deus. Um raio da glória do Verbo encarnado havia-os
iluminado. Eles tinham tido a honra e o consolo de ouvir as palavras e o canto dos anjos.

Os artistas cristãos não deixaram de reproduzir as diversas cenas da noite de Natal e os sentimentos que animaram o
coração de São José. Fiel às tradições que faziam buscar a objetividade e a calma clássicas, a arte antiga contenta-se
com mostrar José ao lado de Maria ou junto ao presépio: o santo tem na mão o bordão de viajor, ou o machado de
carpinteiro. Isso equivale, de alguma sorte, a designá-lo oficialmente como protetor e pai nutrício daquele Menino-
Deus que quis nascer na pobreza. Na Idade Média, como que para frisar que José não é o pai natural do Menino,
representam-no imerso na oração ou na leitura, ou retirado, à parte e dormindo (Urna de Aix-la-Chapelle). No fim do
século XII, e sobretudo nos séculos XIV e XV, o papel do santo patriarca junto de Maria e de Jesus torna-se
maisnítido: José mostra aos pastores o Menino que eles adoram (Saint-Benoit-sur-Loire); apoiado num bordão, em
pé junto do presépio, Ele contempla Jesus com amor e no recolhimento da fé; ou então, revelando pelos atos a sua
solicitude paterna, ajoelha-se com Maria diante do presépio, adora o Menino-Deus e toma-o ternamente nos
braços. A escola moderna, em geral, permaneceu fiel à esta última ideia. Poder-se-ia mesmo dizer que a arte soube
tanto melhor traduzir os sentimentos do coração de São José quanto mais bem conhecido e mais honrado, passou a
ser o próprio santo.

É possível que, depois do nascimento do Salvador, São José tenha procurado em Belém uma habitação mais
conveniente, e que a Sagrada Família a ela se haja retirado. Oito dias mais tarde, São José foi chamado a uma nova
honra e recebeu, então, misteriosos ensinamentos. O Menino teve de ser circuncidado (Lc 2,21). A circuncisão era
uma lei ritual do Antigo Testamento. Por ela, a criança era incorporada à religião judaica, contraía a obrigação de
submeter-se às leis desta, partilhava das promessas que a ela estavam ligadas. Simultaneamente, recebia um nome.
Tornava- se membro da sociedade religiosa e civil. Enquanto a circuncisão podia ser feita ou pelo próprio pai ou por
um sacerdote, só ao pai competia impor um nome ao filho.

Embora a tal não estivesse obrigado, o Salvador quis submeter-se a essa lei, para confirmá-la, aperfeiçoá-la e tomar
sobre si as penas que merecemos transgredindo a lei divina. É o que significa o sangue do Redentor derramado pela
primeira vez nesse dia: era o penhor de que, mais tarde, na cruz, Ele derramaria pela salvação do mundo até a última
gota desse sangue precioso.

Quais não devem ter sido então os sentimentos de Maria e José! Sem dúvida, Eles viram nisso a aurora ameaçadora,
prelúdio das tempestades que se abateriam sobre a vida mortal do Redentor.

O santo nome de Jesus significa: Deus e Salvador. Designa, pois, não somente a pessoa do Homem-Deus, sua
natureza divina e humana, mas ainda a sua missão e os efeitos dessa missão sobre as nossas almas. É um novo
penhor da nossa redenção, do perdão dos nossos pecados; da promessa de que nossas preces serão atendidas, de
que temos um mediador de quem nos vêm toda graça, em quem acharemos sempre força e consolação na vida e na
morte. Para o próprio Salvador, esse nome é o penhor da sua futura glorificação, o prenúncio de que a esse nome
todo joelho se dobrará no céu e na terra (Fil 2,10). Tudo o que Jesus é para nós, sê-lo-á se invocarmos esse Nome
com fé e amor. Pois bem, esse Nome bendito foi São José quem, por ordem do Pai Celeste, o deu ao Salvador com
toda a autoridade paterna (Mt 1,21). Não é de justiça lembrarmo-nos disto e testemunharmos a São José a nossa
gratidão e o nosso amor por haver imposto esse nome a Jesus e nos ter aberto, assim essa fonte de salvação?

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05/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943
4. NO TEMPLO DE JERUSALÉM

Decorridos quarenta dias do nascimento de Jesus em Belém, chegou o momento em que o Menino devia ser
apresentado ao Senhor no templo e Maria sua mãe devia oferecer um sacrifício para a sua própria purificação.

Em testemunho dos seus direitos sobre o povo escolhido, ou como autor de toda paternidade, ou por haver
libertado Israel da servidão do Egito, Deus queria não somente que os levitas lhe fossem especialmente consagrados,
mas ainda que todo primogênito dos hebreus lhe fosse apresentado e resgatado ao preço de cinco siclos. A
apresentação devia fazê-la o pai, trinta dias — ou mais tarde — após o nascimento do menino. Quanto à mãe,
quarenta dias depois de haver dado à luz um filho, devia ela purificar-se da impureza legal contraída, oferecendo em
sacrifício um cordeiro ou, se fosse pobre, duas rolas.

São José partiu de Belém, grato para com todos os que tinham podido testemunhar-lhe qualquer bondade, grato
sobretudo para com Deus por todas as alegrias que lhe trouxera o nascimento de Jesus, a adoração pelos pastores, a
revelação maravilhosa e a circuncisão.

Atravessou de novo o planalto de Refaim, que a primavera começava a embelezar com os seus primeiros adornos.

Outrora, Abraão seguira aquele mesmo caminho quando ia imolar seu filho Isaac nomonte Moria. Das alturas que
coroam o vale de Hinon, a Sagrada Família avistou Jerusalém, com suas muralhas ameiadas, a poderosa cidade de
Davi, o Templo e, no fundo, o Montedas Oliveiras.

José, com o Menino e sua mãe, pernoitou na cidade ou num dos subúrbios. No dia seguinte, à hora do sacrifício
matutino, a Sagrada Família dirigiu-se ao Templo e, pela primeira vez, o Salvador contemplou com seus olhos
mortais o santuário de Deus entre seu povo, os pórticos, as pontes, as muralhas, o recinto, o átrio dos Gentios pelo
qual se chegava, por degraus, à grande porta de Nicanor.

Aí se achava um ancião de aspecto venerando, que parecia esperá-los. Avançando ao encontro deles, inclinou-se
respeitosamente e abriu os braços como que para receber o Menino-Deus. Era Simeão, que o impulso do Espírito
Santo conduzira ao templo para saudar o Salvador. Maria confiou-lhe o Menino.

Fra Angélico representa-nos o arroubo do santo ancião: Simeão segura Jesus nos braços e contempla-o como se
contempla um semblante querido, conhecido e amado desde muito. À vista da beleza eternamente jovem do seu
Deus, Simeão sentiu o coração rejuvenescer-se, seus lábios se entreabriram e ele entoou aquele cântico de ação de
graças que a Igreja repete cada noite para agradecer ao Senhor. Dir-se-ia os olhos de Jesus lhe haviam
proporcionado grandiosa visão, a visão de todos os mistérios do Homem-Deus até o desfecho sangrento do Calvário.
No seu cântico, o ancião rendia graças ao Senhor por haver chegado a sua hora e ter podido ver a Salvação do
mundo. Agora, ele morreria em paz, pois a vida não tinha nada de mais belo a lhe oferecer. Aquele Menino — a Luz
verdadeira — que suas mãos trêmulas elevavam agora no templo, ele a via espalhar-se não somente sobre Israel,
mas até nas ilhas mais remotas e sobre as nações pagãs. Mas, com tristeza e dor, previa também que aquela Luz
seria um juízo; que aquele Menino se tornaria uma pedra de escândalo e um sinal de contradições para muitos,
através de todos os tempos, não só entre os pagãos, mas no próprio seio de Israel. Profundamente comovido,
devolveu o Menino à mãe, a quem predisse misteriosos sofrimentos sob a imagem de um gládio que traspassaria o
coração e a alma de Maria.

Nesse ínterim, sobreveio Ana. Era "uma viúva muito avançada em idade; não saia do templo, servindo a Deus com
jejuns e orações dia e noite” (Lc 2,37). Por sua vez, reconheceu ela em Jesus o Salvador, o Messias. Nas suas faces
pálidas e emagrecidas, no seu olhar apagado pelos anos, viu-se o reflexo de uma alegria celestial. E “ela pôs-se a
louvar o Senhor e a falar dele a todos os que esperavam a redenção de Israel” (Lc. 2,38).

Maria e José admiravam em seu coração como, por testemunhos tão diversos, no céu e na terra, Deus revelava
sempre mais a glória do Menino e os futuros acontecimentos da sua vida mortal.

Essa última revelação assumia uma importância singular, por suceder no próprio templo, por ser feita mediante
personagens de santidade notória e em presença de grande número de testemunhas, por predizer, enfim,destinos
excepcionais. Mas, profetizando assim o futuro do Menino, Simeão abrira nos corações de Maria e de José uma
ferida que não mais se fecharia.
— “Que será deste Menino bem-amado?” — ter-se-á perguntado José, muitas vezes, apertando Jesus de encontro
ao coração, vendo-o crescer incessantemente em graça e sabedoria. Não terá derramado lágrimas, lágrimas a um
tempo de amor e de dor? Talvez, antes de deixar esta terra, Deus o tenha feito ver entreabrir-se o véu misterioso,
permitindo aos seus olhos devassarem claramente o futuro...

Transpondo a balaustrada de pedra que separava o átrio dos Gentios do templo propriamente dito, Maria e José
galgaram os degraus que conduziam à grandiosa porta de Nicanor. Perto dali, à direita, procedia-se aos ritos da
purificação para as mulheres após o nascimento de um filho. Deviam elas apresentar-se ao sacerdote, que recitava
sobre elas alguma oração e uma fórmula de bênção, franqueando-lhes novamente o acesso ao átrio das mulheres.
Ali também se viam mealheiros destinados a receber as ofertas para os diversos sacrifícios. Conforme a quantia
recolhida, imolava-se, após o sacrifício público da manhã, número maior ou menor de cordeiros e de rolas.

Maria submeteu-se à cerimônia da purificação, como seu filho se submetera à lei ritual da circuncisão. Na intenção
do legislador, porém, e consoante o espírito da própria lei, ela a isso absolutamente não estava obrigada.

A partir do século XIII, a arte religiosa não deixa de nos mostrar São José presente à cerimônia da purificação. Ele
traz numa cesta ou gaiolinha as rolas do sacrifício.

Após essa cerimônia — ou mesmo enquanto ela se efetuava — o pai oferecia seu filho primogênito ao Senhor e
resgatava-o a preço de dinheiro. Segundo o rito prescrito, São José, na qualidade de pai, entregou o Menino a um
sacerdote que, elevando-o nos braços e volvendo-se para o Santo dos Santos, o ofereceu ao Senhor e, após o
pagamento dos cinco siclos, o restituiu ao pai, pronunciando uma bênção.

Dignou-se o Salvador submeter-se à cerimônia da apresentação no templo. De certo, Ele não precisava ser
consagrado ao Senhor, nem ser santificado. A união da sua humanidade santa com a Segunda Pessoa da Divindade
santificava-o e unia-o a Deus melhor do que o podia fazer um sacramento ou um rito qualquer. Nunca, no Antigo
Testamento, fora oferecido sacrifício mais excelente no templo. A grandeza, beleza e glória desse sacrifício
iluminavam o templo, a terra inteira, a universalidade dos séculos e, pelo seu contraste, faziam ressaltar a
insignificância e insuficiência do antigo culto.

Naquele dia, porque o Messias acabava de entrar nele, o templo brilhava no esplendor em que o profeta (Ag 2,10) o
contemplara. Esse sacrifício reunia em si só todos os sacrifícios da lei antiga; por ele, o sacerdócio antigo atingia o
apogeu da sua glória. O próprio Deus acolheu a oferta ainda mais misericordiosamente do que no dia solene em que
Salomão celebrou a dedicação do templo.

Ali mesmo, no monte Moria, o patriarca Abraão, oferecera ao Senhor seu filho primogênito. Agora, eis que outro
Abraão, incomparavelmente mais justo que o primeiro; incomparavelmente mais caro a Deus, renova o sacrifício. É
São José. E Deus faz do esposo de Maria o patriarca da nova lei. Se Maria, Simeão e Ana acompanharam José nessa
cerimônia, glorificando o Senhor e repetindo as palavras do salmista: — “Deus é bom, eterna é a sua misericórdia: no
meio de vosso templo sentimos a vossa misericórdia”, não era isso de alguma sorte a primeira procissão da
Candelária, essa “festa de luzes” que sempre esteve e sempre estará em honra na Igreja?

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06/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

5. OS SANTOS REIS MAGOS

Após a apresentação de Jesus no templo, José voltou a Nazaré com Maria e o Menino (Lc 2,39). Mas logo, sem
dúvida, a Sagrada Família tornou a Belém para ali se estabelecer de vez. Na realidade, Belém era a pátria de Jesus, o
lugar do seu nascimento. Belém ficava próxima de Jerusalém e, a mais de um título, essa proximidade oferecia
vantagens. Sabe-se que, posteriormente, na volta do Egito, José cogitou de fixar-se em Belém.
Podia haver um ano que a Sagrada Família residia em Belém quando, subitamente, uns Magos vindos do oriente
chegaram a Jerusalém.

— “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” — perguntaram. — “Vimos a sua estrela no oriente e viemos
adorá-lo” (Mt 2,2).

Essa pergunta, feita abertamente, perturbou Herodes e alvoroçou toda a cidade. Embaraçado, mas fingido, Herodes
não achou nada melhor do que informar-se, junto aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, do lugar, onde devia
nascer o Messias. Disseram- lhe que era em Belém. Herodes transmitiu a resposta aos Magos, recomendando-lhes
informarem-se exatamente acerca do Menino e fazerem-no saber quando o achassem, dizendo: “afim de que eu
também vá adorá-lo” (Mt 2,8). Guiados pela estrela que, para sua grande alegria, lhes apareceu de novo ao saírem
da cidade, os Magos chegaram a Belém.

Os Magos vinham de uma região situada ao oriente da Judeia. Eram personagens nobres, sábios, talvez príncipes de
sangue real. Ao que parece, conheciam os Livros Sagrados. Uma inspiração do alto lhes fizera saber que, ao
aparecimento de uma estrela extraordinária no céu eles deveriam procurar o Rei-Messias para adorá-lo.

Essa estrela apareceu na hora do nascimento ou um pouco mais tarde e, desde então, eles o tomaram como um
dever seguir essa indicação. É o que podemos inferir do seu aparecimento junto ao presépio do Salvador. Vieram,
pois, a Belém e acharam a morada do Menino-Deus. Sem dúvida, pararam no khan da cidadezinha, com seu séquito,
e mandaram perguntar à Sagrada Família se podiam apresentar-se, acrescentando que pela indicação de uma
estrela, tinham vindo para adorar o Menino. São José recebeu os enviados com a sua cortesia habitual.

Por seu turno os Reis Magos apareceram com seus servos trazendo, em cestas e caixinhas, preciosas dádivas, pois no
oriente ninguém se aproxima de um príncipe sem lhe oferecer algum rico presente.

Maria acolheu os nobres visitantes com graciosa simplicidade. Jesus repousava-lhe nos braços. A mista dele, eles se
lhe prostraram aos pés, peneirados de fé viva e profunda humildade. Adoraram-no com amor, ofereceram-se-lhe
sem reserva. Em verdade, Eles eram sábios e eram reis! A sabedoria do seu espírito, a real grandeza do seu coração
não se escandalizaram ao verificar que o Menino-Deus era desconhecido em Jerusalém. Não os desconcertaram a
simplicidade e a pobreza da habitação de Belém. Sem julgar pelas aparências, eles seguiram as inspirações do seu
coração e creram no que, Deus lhes revelava.

Tomando então dos presentes que os servos carregavam envoltos em tapetes preciosos, ofereceram a Jesus ouro,
incenso e mirra —dádivas misteriosas a simbolizarem os sentimentos do seu coração, — a fé, o amor, a adoração —
assim como a divindade, a realeza e a missão redentora do Menino.

Jesus aceitou essa homenagem, cuja significação conhecia. Em retribuição, derramou na alma dos Santos Reis a
abundância de suas graças. Abençoou neles as primícias e os precursores dos gentios. Sem dúvida, conversaram os
reais peregrinos em seguida com Maria e José, que, com nobre simplicidade, relatavam as circunstâncias do advento
do Salvador. Pela primeira vez, Maria instruiu representantes do mundo pagão e José tomou parte nesse
apostolado: tornados cristãos, os Magos levaram a fé para o seio do seu povo.

Todavia, não passaram por Jerusalém. “Recebendo, em sono, um aviso do céu para que não fossem ter com
Herodes”, que resolvera perder o Menino, “Eles voltaram para a sua terra por outro caminho” (Mt 2,12) — o
caminho que, ao sul, vai atravessar o Jordão.

A maravilhosa visita dos Magos foi uma alegria imensa para Maria e José. O nosso santo folgou de encontrar-se com
aqueles piedosos personagens cujos sentimentos tinham mais de uma analogia com os seus. Mas sobretudo se
alegrou pela grande honra feita a Maria e a Jesus. A sabedoria do oriente viera prestar homenagem à Divina
Sabedoria daquele humilde Menino. Que magnífica revelação da realeza do Salvador! Apenas nascido, começa Ele a
reinar. É pobre, e depositam-lhe aos pés o ouro e as riquezas. Das regiões longínquas, Ele chama a si servos e
adoradores. O céu e a terra lhe obedecem. Seus inimigos tremem ao simples anúncio do seu advento.

O mistério da adoração dos Magos é, por assim dizer, o Tabor da santa infância de Jesus. Na sua alegria, José podia
ter antecipado as palavras de São Pedro: — “É bom estar aqui; levantemos aqui três tendas”. Finalmente, como não
ver nesse mistério da vocação dos gentios um prenúncio do papel de São José em relação às Missões entre os
infiéis? Um dia, com efeito, a Igreja proclamá-lo-ia Padroeiro das Missões.
Um antigo mosaico de Notre-Dame de Paris (século XIII) indica otimamente a parte tomada por São José nesse
mistério e o lugar importante que ele aí ocupa: o santo está debaixo de um baldaquim; apoia-se no seu bordão;
observa, e parece esperar a homenagem dos reis visitantes. Mais tarde, Fra Angélico mostra-nos São José
conversando com um dos Reis Magos, cuja fé, sem dúvida, ele esclarece; ou então abrindo uma caixinha que encerra
um dos ricos presentes trazidos, afim de oferecê-lo ao Menino-Deus em nome dos gentios. Não é já o Padroeiro das
Missões?

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07/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

6. FUGA PARA O EGITO

A paz, entretanto, não tardaria a ser perturbada. Na mesma noite, “um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e
lhe disse: Levanta-te; toma o menino e sua mãe, foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai
procurar o menino para o matar” (Mt 2,13).

Cada palavra dessa mensagem pedia um sacrifício e criava uma dificuldade. Quantas idas e vindas para São José
desde que o Salvador está com ele! O repouso nunca virá, pois! Fugir é sempre doloroso e difícil, mormente com
uma mulher e um menino. Retirar-se para o Egito, para tão longe, para entre povos pagãos! E por quanto tempo?
Quando se tratara de defender seu povo contra o Faraó ou contra Senaquerib, Deus realizara milagres e enviara
anjos, ao passo que, nesta hora tão penosa, aparentemente nada empreendia a favor de seu Filho.

Que fará São José? O Evangelho no-lo diz:“Levantando-se, José tomou o menino e sua mãe durante a noite, e retirou-
se para o Egito” (Mt 2,14). Nem uma só queixa! Nem uma só objeção! Nem um sinal de inquietação! Tal é São José,
o homem da obediência, da confiança em Deus, o homem segundo o coração de Deus.

Calmamente, ele acordou Maria e o menino. Um olhar sobre Jesus adormecido diz- lhe o bastante. Se Deus, feito
homem, se esse Deus tornado por nós uma débil criança já permite ser odiado e perseguido, se consente em fugir
ante suas criaturas, se quer ser protegido por José, tudo isso não é mais do que suficiente para ele aceitar tudo, para
se submeter sem reserva?

Em breve os preparativos estavam concluídos. O próprio José encarregou-se de uma parte das modestas bagagens.
A humilde cavalgadura levou o resto. E enquanto os homens repousavam em paz em suas moradas, a Sagrada
Família deixou Belém e dirigiu-se, ao sul, para a cidade de Hebron, sem descontentamento, sem precipitação, mas
abandonando-se a Deus. É assim que um baixo relevo do século XIII (Notre-Dame de Paris) nos representa essa
partida. São José conduz a cavalgadura pela brida. Seus olhares estão fitos em Maria e em Jesus. Fra Angélico
mostra-no-lo caminhando atrás, carregado de algumas bagagens; seu olhar, cheio de confiança, dirige-se para a
frente; ele só pensa em ir aonde Deus o chama.

Hebron, o sítio da sepultura de Abraão, Isaac e Jacó, ficava num vale fértil, a cerca de seis léguas para o sul. A estrada
atravessa as montanhas de Judá, outrora arborizadas de robustos carvalhos. De Hebron a Bersabée, o trajeto
comporta cinco horas de marcha. Depois, o viajor ruma para o mar através das planícies que o patriarca Abraão
percorreu outrora com seus rebanhos. Pode-se admitir também que a Sagrada Família tenha escolhido a estrada
direta que, passando por Eleuterópolis, conduz a Gaza e que exige cerca de dez horas. A partir de Gaza, o caminho a
beira- mar. A verdura rareia cada vez mais, e então, no “Córrego do Egito”, começa uma estrada longa, deserta,
triste, que leva em nove dias às margens do Nilo, através do pequeno deserto de Arábia com suas dunas de areia.

Como se vê, é uma viagem de cerca de cento e cinquenta léguas, a ser feita em trinta a quarenta dias. Aos israelitas
errantes no deserto Deus havia dado milagrosamente a água e o maná. A Escritura não nos diz que semelhantes
favores tenham sido concedidos à Sagrada Família. O certo é que os santos viajores tiveram de sofrer fadiga, o calor
do dia, a frescura da noite, os mil incômodos de uma hospedagem tão sumária como a dos “khans”, aliás raríssimos,
que encontravam ao longo do trajeto. Suportavam tudo com alegria. Tratava-se de salvar o Menino; e, afinal de
contas, todos esses males passavam, como passam todas as coisas deste mundo, tanto os sofrimentos como as
alegrias.

Alcançando o primeiro braço do Nilo, a terra do Egito abriu-se-lhes qual paraíso de beleza e fertilidade maravilhosas.
Estavam na terra de Gosen, habitada outrora pelos israelitas. A Sagrada Família parece ter ido até Heliópolis, nas
proximidades da atual cidade do Cairo.

Entrementes, no palácio de Davi, em vão aguardava Herodes a volta dos Magos. “Reconheceu que fora enganado
pelos magos. Encheu-se de grande ira e mandou matar em Belém e nos arredores todos os meninos de dois anos
para baixo... Cumpriu-se então a palavra do profeta Jeremias que diz: Em Roma se ouvem clamores, grande pranto e
lamentações; Raquel chora seus filhos e não quer aceitar consolação, porque eles já não existem” (Mt 2, 16-18).

Decorrera um ano apenas desde que a Sagrada Família, atravessando o planalto de Refaim entre Belém e Jerusalém,
chegara ao sítio onde, com a tristeza no coração, Jacó sepultara Raquel; ignorava ela que tão cedo se cumpririam as
palavras proféticas e que naquelas paragens,tão cheias de paz, ecoariam gritos de dor justamente por causa do
Menino que Maria trazia nos braços e por quem José velava com tanta solicitude. Escapou precisamente aquele que
levou Herodes a ordenar a matança cruel dos santos Inocentes: estava no Egito, em segurança a guarda paternal de
José.

A vida dos exules foi, como bem se pode imaginar, uma vida de trabalhos e de sofrimentos, mas também de alegrias.
Dizem que São José se fixou em Babilônia, um subúrbio da moderna cidade do Cairo, talvez nalguma viela estreita,
sombria, dominada por casas altas. Venera-se lá, ainda hoje, uma habitação que teria sido a da Sagrada Família.
Outrora, José, filho de Jacó — figura do nosso santo patriarca — mandara no Egito: poderoso, honrado por todos,
alimentara o povo de Deus abrindo-lhe os celeiros. Mas o Salvador quis ser pobre. Por isso, José e Maria também
amavam a pobreza. À custa de numerosas privações, naquela terra estranha, eles sustentaram com o trabalho de
suas mãos Aquele de quem toda criatura recebe o ser e a subsistência. José exercia o ofício de carpinteiro; Maria
cosia e fiava.

Terá sido especialmente doloroso, para a Sagrada Família, o espetáculo da idolatria daquele povo, aliás tão gabado
pela sua sabedoria, e que adorava tudo... crocodilos, cebolas, gatos! A própria terra — afora as margens mais ou
menos imediatas do Nilo, onde é maravilhoso a fertilidade — de aspecto monótono como o deserto, em nada
lembrava as graças tranquilas da encantadora Galileia.

Mas, como dissemos, não faltavam também certas alegrias. Para os israelitas fiéis, o Egito era uma terra sagrada, rica
em recordações preciosas, lembrando-lhes Abraão, Jacó, José, Moisés e o povo de Deus que se formara e crescera à
sombra das pirâmides. Sabia-o a Sagrada Família e aí hauria motivos de consolo e edificação. Ainda naquela época,
numerosas famílias de judeus habitavam o Egito. Tinham mesmo um templo magnífico, elevado pelo sumo
sacerdote Onias IV. José e Maria puderam entrar em relações com essas famílias. Seu principal consolo, porém,
residia no seu espírito de fé, no seu abandono à vontade divina. O próprio Menino-Deus era-lhes a sua maior e mais
doce alegria. Se o exílio se prolongou, então foi no Egito que Jesus aprendeu a dar os primeiros passinhos, balbuciou
as primeiras palavras e, um dia, — que encanto! — chamou José pelo nome de “pai” e Maria pelo nome de “mãe”.

Via, assim, o Egito realizar-se a promessa feita pelo profeta e colhia as bênçãos anunciadas (Is 19,19). Talvez tenha
sido a essa presença da Sagrada Família que o Egito deveu a posterior e maravilhosa expansão da fé cristã que,
povoando o deserto de uma multidão de eremitas e religiosos, transformou aquela terra desolada num foco de vida
mística.

Ignora-se quanto tempo a Sagrada Família permaneceu no Egito, se alguns meses ou alguns anos. As opiniões se
dividem. Sempre é certo que o exílio findou com o reinado de Herodes. O tirano que fizera perecer tantas vítimas
inocentes, morreu de uma doença horrorosa que o acometeu em Jericó. Seus filhos repartiram o reino entre si.
Arquelau, o mais velho, tão cruel e dissoluto quanto o pai, teve em partilha a Judeia.

Então “um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José, no Egito, e lhe disse: Levanta- te; toma o menino e sua mãe e
vai para a terra de Israel; porque morreram os que procuravam matar o menino” (Mt 2,19). José acolheu essa
mensagem com serena e respeitosa alegria. Deu graças a Deus e, cheio de gratidão para com todos os que se haviam
mostrado benevolentes para com ele, pôs-se em viagem com Jesus e Maria. Deixando as ruas sombrias e as
abóbadas penumbrosas dos bazares da cidade egípcia, a Sagrada Família encaminhou-se para o mar e seguiu o rumo
tomado ao vir de Belém. Que alegria ao avistar de novo as colinas e montanhas da Terra Santa!

José tencionava fixar-se em Belém. Mas o caráter sobejamente conhecido de Arquelau fê-lo hesitar. Receava a
violência do príncipe. Nessa dúvida, “avisado em sonho, retirou-se para as regiões da Galileia. Estabeleceu-se em
Nazaré” (Mt 2, 22). A Sagrada Família prosseguiu, pois, o seu caminho por Jopé, margeando o Carmelo e
atravessando a planície de Esdrelon até às colinas e às montanhas que protegem Nazaré. Assim devia suceder “para
que se cumprisse a palavra dos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2,23), isto é, um “separado”, um
“rebento”, uma “flor”. Destarte, floresceu em Nazaré a infância de Jesus, e José tinha a missão de velar por essa flor
do céu.

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08/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

6. À PROCURA DE JESUS EM JERUSALÉM

Depois da tormenta da perseguição, depois das tristezas do exílio, eis que principiou a vida oculta do Salvador,
período de calma, de tranquila doçura, de felicidade doméstica para a família de São José. Uma única vezes a paz foi
perturbada por um sofrimento pungente — quando Jesus atingiu os seus doze anos.

Era o tempo da Páscoa. Nos vértices de todas as montanhas circundantes, durante a noite, acendiam-se fogos para
anunciar a festa da lua nova do mês de Nizan. As estradas estavam apinhadas de peregrinos que se dirigiam a
Jerusalém para a grande solenidade da Páscoa. Nos povoados e aldeias, as pessoas se reuniam em caravanas,
formando os homens um grupo e as mulheres outro. Nos vales ecoava o canto dos salmos.

Contava Jesus doze anos. Tornado “filho da lei”, devia daí em diante observar os jejuns prescritos e ir a Jerusalém na
época das três grandes festas do povo judeu. Era, pois, a sua primeira peregrinação legal à cidade santa. Os campos
haviam-se revestido dos seus adornos primaveris. Grande foi a alegria de todos, mormente quando, por trás dos
antigos santuários de Silo e Betel, apareceu ao longo Jerusalém, coroando as alturas, com seus muros, suas torres,
seus palácios, suas cúpulas e seu templo. Dir-se-ia uma visão do céu.

Os peregrinos recebiam hospedagem em casa dos parentes ou amigos, ou então com pouca despesa achavam abrigo
para os dias de festa. A Sagrada Família conformou-se ao uso. No dia 14 de Nizan, à noite, comia-se o cordeiro
pascal. A 15, celebrava-se no templo o sacrifício solene, e todos os homens deviam comparecer. À noite desse
mesmo dia, em presença do povo, o primeiro feixe de espigas de cevada era levado ao templo, oferecido no dia
seguinte em sacrifício, e depois consumido pelo fogo. Essa oblação das primícias marcava o começo da ceifa. Os
peregrinos então, podiam regressar para casa.

Reunidos a galileus e a habitantes de Nazaré, José e Maria deixaram Jerusalém. À noite, na primeira parada, —
provavelmente em Beroth, — Jesus não se achou com eles. Pensando que estivesse com parentes ou amigos, a
princípio eles não se inquietavam. Mas, que dolorosa surpresa quando, apesar da espera e das procuras entre os
diversos grupos, não o descobriram e nem sequer puderam colher qualquer informação! A preocupação não lhes
permitiu conciliar o sono.

O dia seguinte ainda foi um dia de tristeza. Eles retomaram a estrada de Jerusalém, interrogando a quem
encontravam, percorrendo as ruas da cidade. Mas, ai, sem resultado!

A angústia tornava-se cada vez mais pungente. Que era feito do Menino? Quantos motivos para temer, motivos de
ordem natural e de ordem sobrenatural, a experiência do passado, o receio pelo futuro, sem falar da sua fé e do seu
amor! Onde estava então Jesus? Seria já o gládio predito por Simeão, e começaria a realizar-se a temível profecia?
Quem dirá qual a dor de José e Maria, os seus suspiros, as suas lágrimas? Por ocasião da fuga para o Egito, eles
haviam sofrido, sem dúvida; mas, ao menos, possuíam Jesus. Jesus então estava com eles. Apesar de tudo,
entretanto, permaneceram submissos a Deus, na paciência e na humildade. Talvez fosse a sua própria indignidade
que os privava dessa presença bendita! Acabaram agradecendo a Deus a honra e a ventura com que até ali tinham
sido contemplados. Este próprio pensamento e o pesar que sentiam estimulava-lhes o zelo em procurar o Salvador.
Como terminou tristemente aquela festa da Páscoa, com tanta alegria começada!

Assim se passaram aquele dia, a noite e uma parte do dia seguinte. Finalmente, desolados, esgotados todos os
expedientes, chegaram ao templo.

Enquanto Maria e José o procuravam, Jesus, obedecendo a seu Pai Celeste, deixara seus pais. Pôde fazê-lo tanto
mais despercebido quanto, no templo e durante a peregrinação, os homens e as mulheres formavam grupos
separados. Talvez ele tivesse passado a noite no Monte das Oliveiras, ou nalguma hospedaria pública, e houvesse
mendigado um pedacinho de pão. Após a partida de Maria e José ou no dia seguinte, Ele foi ao templo. Entrou no
terraço ou na sala, onde doutores da lei, nacionais e estrangeiros, ensinavam e respondiam às interrogações dos
ouvintes.

Jesus sentou-se entre os discípulos e, ou porque aparecia reiteradamente, ou porque o encanto da sua pessoa e a
sabedoria das suas perguntas e respostas impressionaram todos os espectadores, atraiu ele a atenção dos próprios
doutores. No terceiro dia, ainda lá estava, "e todos os que o ouviam estavam cheios de admiração” (Lc 2,47).

Deixando o lugar de honra que ocupavam, os mestres da lei aproximaram-se dele, e tinham evidente prazer em
interrogá-lo. Ou então para melhor ouvi-lo, talvez o tivessem feito assentar a seus lados. Em todo caso, de acordo
com o relato evangélico (Lc 2,46), tratava-se de um fato insólito, de uma atenção que não estava nos hábitos dos
doutores. Qual fosse o assunto da discussão, apenas podemos conjecturar. Talvez se tratasse do advento do
Messias. Seja como for, naquele santuário da ciência isso era uma espécie de revolução: os doutores recebendo
lições de um menino e testemunhando-lhe uma deferência respeitosa! Não havia nisso uma profecia de
acontecimentos futuros?

Foi nesse momento que Maria e José entraram. “Ficaram cheios de admiração” diante do espetáculo (Lc 2, 48).
Ainda angustiada pela dor, mas feliz ao mesmo tempo por encontrar seu Filho bem-amado, Maria lhe disse:

— “Filho, por que nos fizeste isto. Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura cheios de aflição”.

Jesus, levantou-se e respondeu solene e majestosamente — “Porque me procuráveis? Não sabíeis que tenho de estar
na casa de meu Pai?” (Lc 2,49).

Havia em Jesus tal majestade, havia tal gravidade nas suas palavras, que Maria e José se encerraram no silêncio,
cheios de admiração e penetrados de respeito. Depois, Jesus “desceu com Eles e veio para Nazaré” (Lc 2,51).

Era bem natural que na requintada sensibilidade do seu coração, Maria manifestasse a sua dor pelas palavras
dirigidas a Jesus. José, que observava sempre todas as coisas com solicitude paternal, parece ter guardado silêncio.
Ele meditava, no recolhimento, o mistério que acabava de passar-se. Mistério, com efeito: mistério profundo! Jesus
abandona seus pais, causa-lhes essa dor cruel, lança-os na angústia quando até então lhes testemunhara tanta
obediência! Revela-se em público e no templo atrai sobre si todos os olhares, enquanto até então vivera na
humildade, no silêncio e na obscuridade. Esse mistério é o prelúdio e o anúncio da sua missão messiânica, da sua
vida pública, da manifestação da sua divindade com circunstâncias particulares de pobreza e de renúncia absolutas;
e mesmo, no dizer dos santos Padres, é o prelúdio do anúncio de sua morte e da sua permanência de três dias no
túmulo.

Mas, ao mesmo tempo, esse mistério nos indica o papel especial de São José, suas relações com a vocação
messiânica de Jesus. Ele aparece aqui com seu título de pai legal do Salvador: Maria dá-lhe esse nome de
pai;menciona-o antes de si mesma. Todavia, Ele é apenas o pai legal, e, na sua resposta, Jesus fala de outro Pai; e a
obediência a este Pai é o seu primeiro dever, a sua missão toda.
Vemos igualmente José associado à missão messiânica do Salvador na dor e no sofrimento 3. Aqui, todos — Maria,
José, o próprio Jesus — já são, nesse mistério, vítimas dessa vocação. O gládio de Simeão, que no Calvário devia
traspassar a alma de Maria, nesse dia fere também o coração de José.

Finalmente, o santo patriarca é associado às alegrias e à honra. Esse mistério constitui uma revelação do Salvador,
revelação gloriosa, revelação singularmente graciosa,porque pela primeira vez o próprio Jesus se manifesta,
deixando transparecer algo da sua sabedoria divina, alguns traços da sua beleza. E é tal o encanto que, apesar do
orgulho da sua ciência e da obstinação do seu espírito, os doutores da lei se inclinam perante o Salvador, no seu
templo. Que alegria, que honra para São José ser o pai daquele Menino, ser junto a ele o representante do Pai
Celeste.

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09/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

8. A VIDA FELIZ E TRANQUILA E FELIZ DE SÃO JOSÉ

Depois dessa Páscoa inolvidável, a vida de São José transcorreu na calma, na paz e na felicidade. É a “vida oculta em
Nazaré”. O que o Evangelho nos diz do divino Salvador entende-se igualmente de José. Recolhamos esses episódios
e tentemos representar-nos o santo patriarca durante esse período da sua vida.

Estamos em Nazaré. O gracioso povoado abriga-se num valezinho, por entre as colinas que ao norte fecham a
planície de Esdrelon. Suas casas escalonam-se pitorescamente sobre um contraforte de colinas de onde a vista se
estende sobre a planície, sobre o monte Carmelo e sobre o mar, ao passo que,para o norte, se descobrem os cimos
nevosos do Hermon. Da própria Nazaré, o horizonte é menos vasto, não oferece nem picos rendilhados, nem
florestas de encanto poético: é o recolhimento na solidão e na paz — a moldura que convém à “vida oculta”.

A casa oriental, ordinariamente, é quadrada, construída de pedras e de terra argilosa, e caiada de branco. No rés do
chão, alguns quartos servem de habitação. Por cima há um terraço ao qual se sobe, por meio de degraus, do pátio
exterior onde habitualmente se veem um forno, uma vinha ou uma figueira. O próprio pátio é fechado por um muro
ou uma cerca.

Tal devia ser, mais ou menos, a habitação da Sagrada Família. Uma parte da casa, ao que parece, era talhada na
rocha; a parte anterior, construída de pedras.

Primeiramente, nos diz o Evangelho que os pais de Jesus “iam todos os anos a Jerusalém, à festa da Páscoa” (Lc
2,41). Por aí vemos que a vida de São José e da Sagrada Família era uma vida de piedade e de oração. Entre os
judeus, a vida de família era eminentemente religiosa. Logo à entrada da casa via-se um cofrezinho de madeira que
encerrava os textos da lei escritos em tiras de pergaminho. Saindo da casa e entrando nela, tocava-se
respeitosamente com a mão aquele cofrezinho, mais ou menos como se faz com a água benta em nossas famílias
cristãs.

Havia, ainda, o serviço religioso na sinagoga. Cada aldeia possuía uma sinagoga, onde, numa espécie de coro elevado
um pouco acima do espaço destinado ao povo havia um nicho coberto por um véu que continha a Sagrada Escritura.
Os doutores da lei ocupavam lugarejos de honra. Era ali que se liam e explicavam as Escrituras. Era ali que se rezava
em comum e se implorava o advento do Messias.

Nos dias ordinários, a família não deixava de fazer suas práticas religiosas. Cada noite, as pessoas reuniam-se para
rezar juntas sob a presidência do pai de família, e temos toda razão para representar-nos São José, uma vez
terminado seu dia de labuta, a tomar Jesus sobre os joelhos, a rezar e recitar com ele passagens da Escritura, a
erguê-lo nos braços para lhe permitir tocar e beijar o cofrezinho que continha as sentenças da Lei, ou então a
conduzi-lo à sinagoga para cantar com ele os salmos.
Mais tarde, chegado à adolescência, talvez nessas reuniões da noite, em família, o próprio Jesus se encarregasse de
explicar, com profunda sabedoria e com amável modéstia, os textos da Escritura que se haviam lido na sinagoga. Em
Maria e em José encontravam suas palavras um terreno admiravelmente preparado que produzia ao cêntuplo. — Eis
aí o que dizia respeito a vida de piedade.

Além disso, o Evangelho nos repete várias vezes que José era carpinteiro (Mt 1:55; Mc 6,3). A vida oculta em Nazaré
foi pois, uma vida de trabalho. Enquanto Marta cuidava das ocupações caseiras, enquanto cosia ou fiava, enquanto
saía para fazer as pequenas compras necessárias, ou para tirar, de manhã e à tarde, água, na fonte que ainda se vê
hoje,São José trabalhava na oficina. A indolência e a ociosidade, bastante comuns entre os asiáticos, eram coisas
desconhecidas da Sagrara Família. Aqui, o pão que se comia era ganho pelo labor.

Assim que a idade e as forças lhe permitiram, Jesus quis ajudar seu pai nutrício. Ditosos anos para São José esses
anos de aprendizagem em que ele teve de formar no trabalho o Salvador, visto que o trabalho entrava no plano do
Homem-Deus! Que encanto o trabalhar ao lado do divino aprendiz, guiá-lo, instruí-lo! Ele conduzia a mão de Jesus
dirigia-lhe os primeiros esforços, estudava-lhe os ensaios. Não terá seu coração transbordado de sentimentos de
adoração, de respeito, de alegria e amor, quando sua mão calejada repousava sobre a mão delicada do Menino, mas
nada lhe traía exteriormente a emoção. Ele conservava a paz e o recolhimento. Agia em tudo com perfeita
simplicidade. Dir-se-ia que, de toda eternidade, ele tinha o hábito de mandar a um Deus e de instruí-lo. O zelo, a
coragem, a aplicação do seu divino aluno, cuja mão se endurecia no labor eram, para ele próprio, um estimulante
para uma tarefa que assim se tornava, de algum modo, uma participação na obra redentora.

As horas de trabalho eram interrompidas pela refeição feita era comum e José devia achar um doce consolo no
pensamento de que Jesus vivia dos frutos do seu trabalho. Depois de assistir ao serviço religioso na sinagoga, aos
sábados, sem dúvida José fazia com o Menino alguma tranquila excursão pelas alturas de Nazaré. Mostrara-lhe ao
norte o majestoso Hermon, ao pé do qual se achava Cesária de Filipe. Depois, para além, a região do lago gracioso
Genesará, com Cafarnaum, Betsaida e Magdala. Enfim, a planície de Esdrelon com Naim e do lado do Carmelo, o mar
mediterrâneo. Ouvindo esses nomes, Jesus pensava nas almas que o esperavam naqueles lugares. Pensava nas
grandes coisas que ali realizaria um dia.

Mas essas maravilhas ainda estavam ocultas aos olhos de São José.

Falando da santa infância do Salvador, o Evangelho nos diz — e este traço é de suma importância — que Jesus ‘'era
submisso” a seus pais (Lc 2,15). Vejamo-lo, pois, obedecendo de tão bom grado, com tanta presteza e alegria,
apressando-se tanto para antecipar aos seus menores desejos que, evidentemente, não se lhe podia dar maior
alegria do que mandando-lhe ou manifestando-lhe um desejo. Sendo, embora, a própria Sabedoria e a Santidade
personificada, Jesus queria progredir insensivelmente, revelar aos poucos a sua sabedoria e santidade, passar da
infância à adolescência, da adolescência à idade adulta. Por aí podemos inferir quais foram a sabedoria, a doçura, a
calma, a autoridade de São José no seio daquela augusta família de que era chefe. Raramente ele mandava. Numa
família bem ordenada, manda-se pouco. A ordem estabelecida faz às vezes de direção. Quanto ao mais, lê-se nos
olhos dos pais a sua vontade ou o seu desejo.

José mandava com humildade. Alguém já fez este reparo:Para os homens virtuosos, mandar é colocar-se na escola
da humildade. Que diremos então de São José?Ele era chamado a dar ordens a um Deus e à Mãe de Deus! Por outro
lado, ninguém sabe mandar melhor do que quem melhor sabe obedecer. E José é o homem de uma obediência
perfeita, de uma submissão sem reserva a toda autoridade de Deus. Suas ordens, quando as dava, eram antes um
pedido. Servia mais do que era servido. Por isso, no seu pequeno domínio, como num verdadeiro céu, reinava a paz,
a alegria, a calma, o contentamento, a união, a caridade mais terna, graças à prudência, à humildade e ao amor do
chefe da família.

Enfim, por duas vezes o Evangelho observa: — “O menino foi crescendo e se robustecendo, cheio de sabedoria, e
pousava sobre ele a complacência de Deus ... Jesus crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos
homens” (Lc 2,40 e 52). Essas poucas palavras permitem-nos entrever o que foi a vida interior de São José, a vida de
sua alma. Podemos ajuizar dela pelos frutos que seu coração deve ter colhido da contínua e íntima sociedade com o
Salvador.
A presença de Maria, a conversação com ela, as relações cotidianas com a mais santa das criaturas, de quem um só
olhar, uma só palavra, a menor ação eram outras tantas revelações da virtude mais perfeita — isso tudo já era o
bastante para santificar uma alma, era uma fonte de graças, uma lição constante. Contudo, Maria era apenas a mãe
de Jesus, a mãe de Deus, é verdade. Mas só Jesus era Deus. E esse Deus revelava-se a José sob as formas mais
amáveis e mais tocantes — sob a forma de um menino a quem ele fazia às vezes de pai, na confiança e na intimidade
mais doce.

Velar por aquele menino, cercá-lo de todos os cuidados que um pai prodigaliza ao filho, vê-lo crescer, reparar-lhe na
transformação das feições, observar as manifestações da sua sabedoria e os seus progressos na infância, depois na
adolescência e na juventude — que privilégio para o santo patriarca!

Esse semblante de Jesus, espelho sem mácula da beleza, da sabedoria e dos mistérios de Deus, a José era dado
contemplá-la cada dia, a cada hora do dia, admirar-lhea expressão nos diversos acontecimentos da vida, na
inocência e na inconsciência do sono. Era-lhe dado ler nesse semblante a alegria, a caridade, o reflexo do eterno
amor, os ardores da adoração, os êxtases da contemplação. Assim como os anjos, num arroubo que nunca cessa
contemplam a face de Deus, se abismam na adoração e acham para o seu amor um perpétuo alimento, assim
também José concentrava todos os seus pensamentos e todos os afetos do seu coração naquele foco de toda beleza
que era o semblante do Verbo encarnado.

De Maria é dito: — “Ela conservava todas essas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19). Era essa toda a sua
vida. Outro tanto se pode dizer de São José. Ele referia tudo a Jesus. Jesus era tudo para ele. O Salvador, seu filho,
seu Deus, seu bem soberano, seu único amor — eis aí todo o seu pensamento, toda a sua ocupação, todo o seu
repouso, toda a sua missão, toda a sua felicidade. Repitamo-lo: eis aí toda a sua vida, consistindo na honra inefável
de viver na intimidade de Jesus, de ter o nome de pai Jesus, de cumprir junto a Jesus os deveres de um pai! Sem
dúvida, a julgar pelo exterior, a vida de São José, a vida da Sagrada Família é simplíssima, comuníssima; é mesmo, se
se quiser, uma vida exteriormente monótona e pobre. Mas, no fundo, que tesouro de alegria e de paz! Naquele
reino de Nazaré, ninguém quer mandar. Cada um obedece na humildade e no amor. Onde está o amor, aí, e só aí, se
acham a paz e a alegria.

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10/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

9.A MORTE DE SÃO JOSÉ

A tranquila ventura dessa vida em Nazaré foi interrompida pelo falecimento de São José. Nada sabemos de certo
sobre as circunstâncias dessa morte. Parece que José já deixara esta terra quando o Salvador, na idade de cerca de
trinta anos, principiou a sua vida pública. Não o achamos entre os convidados das bodas de Caná. É que
provavelmente já havia morrido, do contrário seria mencionado com Jesus e Maria. Não está também entre os que,
no Calvário, rodeiam o Salvador crucificado; do contrário, não teria Jesus confiado Maria aos cuidados de São João.
Pode-se admitir que José morreu quando o Homem-Deus, chegado à idade adulta, ficou em condições de cuidar de
si mesmo e de sua Mãe.

Não foi, por conseguinte, o Santo testemunha das maravilhas da vida pública de Jesus. Apenas pôde imaginá-la de
acordo com as profecias ou, talvez, também, através das revelações que o Salvador foi servido fazer-lhe.

Assim como outrora Moisés, na montanha, saudou de longe a Terra Prometida sem nela poder entrar, assim
também José entreviu no futuro as glórias de Jesus. Tal como, em breve, São João Batista, o precursor, deveria
desaparecer diante do Messias, assim também José, no plano de Deus, devia retirar-se depois de cumprida a sua
missão de pai de criação do Salvador, de protetor da santa infância. Por outro lado, após as glórias do apostolado do
seu bem-amado Jesus, quanto não teria sofrido o coração de José com as perseguições suscitadas pelos judeus, com
o ódio dos fariseus, com a cruenta tragédia do Calvário!

Ignoramos tanto a época como o lugar da morte de São José, e as circunstâncias que o acompanharam. Teve ele,
como Jesus e Maria, o privilégio de ser isento dos incômodos da doença, de estar sujeito somente aos males da
natureza humana tomados em geral, como a fadiga, a morte, etc.? Quem o dirá? Geralmente se admite que sua
morte causa da pela doença, mas sobretudo pelo ardor do seu amor a Jesus, a seu Deus.

Como vimos, os laços que uniam José ao Verbo Encarnado eram de natureza especial. A intimidade que deles
resultava permitia àquele coração inocente, generoso e fiel compreender lições que Ele aproveitava tão bem para
progredir maravilhosamente em todas as virtudes e, particularmente, na caridade.

Para nos servirmos de comparações empregadas pela Sagrada Escritura, São José era em verdade a palmeira
plantada nos átrios do Senhor, o cipreste que cresce no monte Sião, a árvore que cresce à beira das águas da vida
eterna e haure a vida na própria fonte divina.

Aliás, Deus é grato. Se o Salvador recompensou magnificamente os pastores, os Reis Magos, Simeão, Ana e outros
mais, por terem sabido honrá-lo quando, por alguns instantes rapidíssimos, os favoreceu com a sua presença, como
não recompensaria São José que, durante tantos anos, viveu na sua intimidade? Quando o Senhor considera como
feita a si mesmo a menor das coisas que empreendemos por um sentimento de caridade para com o próximo, se dá
o céu por um copo d’água, que fará com São José que, em toda verdade, deu asilo ao Salvador, que o alimentou,
vestiu e consolou, que pôs ao seu serviço todas as suas forças físicas e toda a dedicação do seu coração, que lhe
sacrificou seu repouso e, no meio das dificuldades e à custa de tantas privações, lhe testemunhou um amor
incomparável?

Deus contraiu com São José uma dívida por assim dizer pessoal, e destarte compreende-se que a tenha pago
concedendo ao santo graças sempre maiores, e sobretudo um progresso contínuo na caridade, que é o melhor e o
mais perfeito dos seus dons. Crescendo incessantemente no coração de São José, essa caridade, pelo seu ardor,
quebrou as amarras de um corpo mortal, impotente para lhe conter as aspirações. O amor daquele Menino, de seu
Deus, consumiu-lhe a vida. À medida que a gravidade e a majestade do homem sucediam em Jesus às graças
encantadoras do menino, o terno amor de José se recolhia, por assim dizer, ao mais profundo do seu coração,
absorvendo-lhe as forças, até que enfim a alma, rompendo-lhe os últimos laços, se exalou num supremo surto de
caridade.

O amor e a gratidão de um filho tão ternamente amado deviam, por certo, mostrar-se magnificamente nessa hora
derradeira, e fazer da morte de São José a morte mais bela, mais edificante, mais consoladora.

E assim foi. O Senhor da vida, Aquele que tem nas mãos nosso corpo e nossa alma, Aquele que pela unção de sua
graça sabe fazer das ânsias da morte e da própria morte uma alegria e um consolo — Jesus, ao lado de Maria, que é
a “esperança e a doçura” de todos os filhos de Adão, assistiu José moribundo. A única coisa de que o nosso santo
podia ter saudades em deixando este mundo era da presença pessoal de Jesus. Mas, ao pesar da separação
sucederia, em breve, a alegria de se reverem na glória, no dia da ressurreição. O aresto que marcou o termo da sua
vida foi um novo testemunho do amor e da gratidão do Salvador. No ósculo desse amor foi que José expirou. —
“Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor!” “Ainda hoje estarás comigo no paraíso!” Esta palavra do Senhor a
todos os servos fiéis, essa promessa que, na cruz, o Salvador faria ao ladrão penitente — não terá sido idêntica
promessa que José, o pai de Jesus, ouviu então da boca de seu filho?

A alma do santo patriarca desceu ao limbo. E, para os patriarcas e profetas, para todos os justos que ali aguardavam
que o céu se abrisse, foi como que a aurora de um belo dia, visto que era o anúncio do advento do Salvador.

Ignora-se onde foi sepultado o corpo de São José, se em Nazaré, se em Jerusalém,naquela mesma cidade onde, mais
tarde, Jesus e, consoante a tradição, também Maria, acharam seu túmulo. Nesta última hipótese, esses três corações
que se haviam tão santamente amado nesta terra, ainda teriam sido aproximados até na sepultura.

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11/03 - Em honra a São José - excertos do livro
SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

SEGUNDA PARTE

A VIDA DE SÃO JOSÉ NA IGREJA

A vida de São José na terra estava terminada. Era o fim do seu ministério junto à pessoa divina do Verbo Encarnado.
Mas o santo patriarca sobreviveu a si mesmo até neste mundo. Na Igreja, que é o corpo místico de Jesus Cristo, seu
papel prossegue através das honras que o cercam, das virtudes de que ele nos deu o exemplo, da eficácia da sua
intercessão, do poder do seu patrocínio. Hánisso, para as almas, uma força, uma lição, um consolo. Para os fiéis,são
esses outros tantos motivos de honrar o nosso santo e de trabalhar para lhe imitar as virtudes.

A glória de São José, no céu, é certamente grande. Está em relação com a sua dignidade e merecimentos, como com
a gratidão e a liberalidade do Salvador. Nesta terra, ele deu sem medida, pois inspirava-o a caridade mais ardente; e
o Senhor, por sua vez, dá-lhe na glória “uma boa medida”, calcada e acogulada (Lc6,38). Para recompensar esse
servo bom e fiel, estabeleceu-o “sobre todos os seus bens” (Mt 24, 47). Colocou o trono de seu pai nutrício junto ao
trono de sua Mãe puríssima. Tanta glória excede a nossa compreensão. Um dia, na eternidade, ela fará a nossa
alegria. Mas, já neste mundo, nos é dado contemplar-lhe de alguma sorte o reflexo na Igreja, no reino terrestre de
Jesus Cristo.

Estudemos essa ação de São José na Igreja. Vejamos por que tributo de honra e de gratidão os fiéis se esforçam afim
de parar a sua dívida para com ele. A ordem a seguir está indicada: estudemos primeiro as honras e os privilégios
fundados nos laços que unem São José à pessoa do Salvador, porquanto eles projetam uma viva luz sobre a
excelência das suas virtudes, lhe asseguram a homenagem e a veneração dos fiéis e estimulam as almas à imitação
das suas virtudes.

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12/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

1. A SOMBRA DO PAI CELESTE

Sombra do Pai celeste! É um nome que os autores espirituais gostam de dar ao nosso santo. A imagem é belíssima, e
não menos exata. Ela resume muito bem a missão e a grandeza de São José. Antes de tudo, não e ele o pai do
Salvador? O Pai Celeste é o exemplar e o princípio de toda paternidade no céu e na terra (Ef 3,15). Um pai, seja qual
for, é sempre o representante dessa paternidade augusta. Mas não pertence esta glória muito especialmente a São
José? Ela é a sua glória sob um tríplice ponto de vista.

Primeiramente, São José é o representante do Pai Celeste sob o prisma da autoridade — autoridade que por sua vez
é o primeiro atributo de um pai. A autoridade é o poder de dirigir e demandar, a título de princípio, na ordem da
vida ou em razão de uma situação superior — o que, aliás, de alguma sorte, vem a dar no mesmo, visto como
nenhuma sociedade pode existir ou manter-se sem chefe. Esses dois gêneros de autoridade têm igualmente seu tipo
e sua origem no Pai Celeste que, no seio da divindade, representa o princípio gerador, determinante,conservador e
diretor.
A paternidade é o atributo característico da primeira pessoa da SS. Trindade. Ora,esse atributo, o Pai Celeste
confere-o a São José. A essa glória ele associa o nosso santo numa medida que a homem algum foi dado jamais
compartilhar. Sem dúvida, São José não é o pai natural do Salvador. Mas, em consequência do matrimônio contraído
com Maria, ele é o chefe da Sagrada Família, cujos membros, por esse motivo, lhe são todos sujeitos de pleno
direito. Em consequência da sua geração do Pai, o Salvador diz: “Meu Pai é maior do que eu” (Jo 14,28).

A superioridade de São José provém unicamente do fato de ser ele o chefe da Sagrada Família. Assiste-lhe o poder
de mandar, e lhe é confiada a autoridade do Pai Celeste. Jesus é filho de José segundo a lei.

E essa autoridade de José, o Pai Celeste reconhece-a efetivamente. José impõe ao Menino o nome de Jesus. É ele
quem apresenta Jesus no templo, é a ele que o Pai Celeste dirige as mensagens e comunica suas ordens para a
direção da Sagrada Família. Tanto quanto Maria, o Salvador vê em José o representante visível, o depositário da
autoridade do Pai Celeste. Daí o respeito, a obediência pontual e alegre, a perfeita submissão de que ele não cessa
de dar provas, quer em criança, quer quando já adulto. Em José reconhece ele a sombra de seu Pai no céu. Nas
ordens ou nas indicações de José, descobre a vontade do Pai e, obedecendo a José, pode dizer: “Faço sempre o que
agrada a meu Pai” (Jo 8,29). De certo, essa obediência prolongada e perfeita a José vem a ser uma glorificação da
sua paternidade como jamais houve outra idêntica. Quanto mais o Salvador se inclina diante de José e quanto mais
se prolonga a sua submissão, tanto mais honrado é o santo patriarca.

Comparando a paternidade de São José à do Pai Celeste, descobrimos um segundo caráter que a circunda de uma
glória nova. O Pai Celeste gera seu Filho desde toda a eternidade, na santidade e na pureza infinitas. Haverá algo
mais puro, mais espiritual do que a geração do pensamento em nossa inteligência? É assim, mais ou menos, porém
de maneira infinitamente mais pura e mais admirável, que o Pai Celeste gera eternamente seu Unigênito. Ele se
conhece e, conhecendo-se a si mesmo,produz a imagem viva, o Verbo consubstancial com a sua natureza divina. E
essa imagem viva do esplendor da sua glória é seu Filho.

Ora, esse caráter de pureza, reencontramo-lo na paternidade de São José. A paternidade natural apresenta ao
mesmo tempo uma vantagem e um detrimento A vantagem está em ser ela uma comunicação da natureza humana
e da vida do filho; o detrimento é a perda da virgindade. A natureza divina do Pai Celeste e do Filho e os oráculos dos
profetas queriam que o Salvador não tivesse, neste mundo, pai segundo a natureza; mas devia ter mãe. Eis aí
porque, como a fé no-lo ensina, São José é o pai legal do Salvador e não o pai natural. Nele, a paternidade — sem se
tornar por isso um simples título, um nome vazio de sentido — está, portanto, unida a uma pureza virginal e reveste
um novo traço de semelhança com a paternidade do Pai Celeste, que dá à paternidade de José tudo o que é
compatível com a integridade da pureza.

Além disso, como o Pai celeste, José tem só um filho, o Unigênito, tanto assim que ambos têm o mesmo filho. Que
glória e que grandeza nessas analogias! É para lembrar essa paternidade virginal que, frequentemente, se
representa segurando nas mãos um lírio.

O terceiro caráter da paternidade de São José — outra analogia com a paternidade do Pai Celeste — é o amor. Não
foi a natureza e, sim, o amor que fez de José o pai do Salvador. Nós amamos os pensamentos e projetos da nossa
inteligência como propriedade nossa. Amamo-la, por assim dizer, como a nós mesmos, porque efetivamente nada
nos pertence tanto quanto o nosso pensamento. Assim também, a seu Filho único, imagem consubstanciai e
infinitamente perfeita da sua natureza e substância, o Pai Celeste tem um amor infinito. Gera-o, de alguma sorte, a
cada instante, e lhe diz: “És meu filho, hoje te gerei” (Sl 2, 7). De fato, cada vez que os céus se entreabrem sobre o
Salvador e que a voz do Pai Celeste se faz ouvir (Mt 3,17; Lc 9,35; 1 Pd 1.17) ele lhe chama seu “filho bem-amado”.
José é apenas a sombra do Pai Celeste; contudo, a voz do amor do Pai Celeste, que fala a Jesus pelo seu
representante na terra, não é um eco inanimado: sai de um coração vivo e de um coração humano, e é um amor tal
como jamais nenhum pai poderá experimentar por seu filho.

Pensemos em que, querendo o Pai Celeste dar a seu Filho um pai terrestre, deve ter posto no coração desse pai o
amor mais verdadeiro, mais profundo e mais sincero. Escolhendo São José para tamanha missão, comunicou-lhe,
pois, não somente a sua autoridade paterna, mas ainda o seu próprio amor ao Filho único, e inspirou-lhe tanto mais
amor visto que José não devia participar da paternidade natural. Assim como, dando seu Filho a Maria, ele pôs no
coração da Virgem o seu amor, assim também, guardadas as proporções, fez o mesmo em relação a São José. O
nosso Santo manifestou claramente a grandeza, profundeza e poder desse seu amor; manifestou-se não só em
palavras e sentimentos, mas testemunhou-o pelas obras e sacrifícios de toda espécie. A pureza virginal da sua
paternidade em nada diminuiu o seu amor. Longe disso: se há coração capaz de amar é o coração puro, que não
admite partilha alguma e que não é detido por nenhum obstáculo no seu surto para Deus, o sumo Bem.

Aí está como São José é a imagem sublime e fiel do Pai Celeste. Essa paternidade é, sem dúvida, um dos mais belos
pensamentos que possam enlevar o nosso coração, e uma das mais tocantes comunicações de Deus ao homem. O
Menino, repousando nos braços do santo patriarca, é qual revelação viva do Unigênito neste mundo.

Em Maria, é a maternidade divina simultaneamente o princípio e o fim de todas as suas graças e privilégios. Segundo
Santo Tomás, essa maternidade é uma das três coisas e possibilidades em que se esgota a onipotência divina. Dessa
augusta maternidade de Maria nada se aproxima mais do que a paternidade de São José, à qual um Deus e a Mãe de
um Deus estão sujeitos. Tamanha honra é privilégio de São José. Só a ele o Pai Celeste conferiu tamanha dignidade:
— “Eu sou o Senhor. Não dou minha glória a nenhum outro” (Is 42,8).

É aqui o lugar mais indicado para falar do caráter do nosso santo. São José é o representante do Pai Celeste.
Primeiramente e antes de mais nada, é pai. Para o Salvador, ele é pai. Não é ele também um pai para a própria
Virgem Maria? Esse traço, em que ele vem retratado, indica-nos que qualidades devemos esperar encontrar no
Santo: a calma, a reflexão, a abnegação, a fidelidade, o amor inexaurível. E é bem assim que o vemos no Evangelho:
paz inalterável nas conjunturas mais angustiosas, domínio de si mesmo nos acontecimentos menos previstos, doçura
e paciência nas provações mais penosas, simplicidade e retidão diante dos favores sobrenaturais com que é
honrado, amor dedicado e coragem inabalável no cumprimento do dever. Ainda sob este ponto de vista, é São José a
imagem do Pai Celeste que, no seio da Trindade bem-aventurada, representa a Providência, agindo
incessantemente, abrangendo todas as coisas de uma extremidade à outra, na força, na doçura e na paz.

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13/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

2. O SANTO DA INFÂNCIA DE JESUS

Depois do Pai Celeste, contemplamos seu Divino Filho, que Ele enviou ao mundo, reachamo-nos em presença do
grande mistério da Encarnação, em presença do Homem-Deus. Quais são as relações de São José com esse mistério?
Para compreendê-las, examinaremos duas coisas: em que e como contribuiu S. José para esse mistério?

De três maneiras concorreu ele para o mistério da Encarnação.

Primeiramente, teve o seu papel na própria realização da Encarnação. Como já dissemos, Ele não é o pai de Jesus na
ordem da natureza. Sob este aspecto, o seu papel neste mistério não é um papel imediato. Só Maria foi associada à
Encarnação de maneira direta: Ela deu seu consentimento à mensagem do anjo, e do sangue de Maria formou o
Espírito Santo a santa humanidade de Jesus.

Quanto a São José, a sua missão consistia em realizar uma condição que dependia dele e que era requerida para a
Encarnação: ele seria o guarda da virgindade de Maria. A conceição e o nascimento do Salvador deviam ser virginais.
Esta condição, José a cumpriu: depois como antes do seu casamento, a virgindade de Maria foi sagrada para ele. Só
alguns desprezadores desta nobre virtude ou uns blasfemadores pretenderam negá-la, contra a fé universal. Para
isso queriam ver-se autorizados por certas expressões do Evangelho (Mt 1, 25; 12, 46). Mas, quando a Sagrada
Escritura diz que uma coisa não teve lugar até tal ou tal época, não se segue daí que essa coisa tenha acontecido
depois. Do mesmo modo, com o nome de “irmãos” designa ela geralmente os primos. Por conseguinte, quando se
fala dos “irmãos de Jesus” (Mt 12, 47), esta expressão não tem nada que possa surpreender, porquanto pode referir-
se igualmente a sobrinhos de São José. E, se o Salvador é chamado “primogênito” de Maria, isso absolutamente não
quer dizer que Ele não seja seu filho “único”. Nós, católicos, cremos sem hesitação que Maria ficou sempre virgem:
declarou-o a Igreja.

José foi, pois, à sua missão. Ao seu casamento com Maria ele trouxe os sentimentos e as disposições necessárias ao
plano da Encarnação. Efetivamente, esse casamento era a última preparação para o advento do Salvador, e São José
o tomou possível.

Repitamo-lo: essa era, não uma condição qualquer da Encarnação, mas uma condição que Deus estabelecera de
toda a eternidade. A virgindade do santo patriarca entrava no plano Divino da Encarnação como causa coeficiente.
Vimos como uma providência especial conduziu todas as coisas para que essa união fosse contraída. Tinha ela por
fito tanto salvaguardar a virgindade de Maria como a dignidade do próprio Jesus que devia nascer de Maria.
Podemos pois, repetir com Santo Agostinho: — "José é tanto pai quanto mais virginal”; ou antes, José é pai em razão
mesmo da sua virgindade.

Em segundo lugar, o nosso santo teve um papel mais direto e excelente com relação à santa humanidade do
Salvador: o de velar por Jesus, de educá-lo e defendê-lo. O menino tinha no céu um Pai infinitamente sábio,
infinitamente rico,infinitamente poderoso. Mas esse Pai testemunhou a sua sabedoria e seu amor a seu Filho dando-
lhe, neste mundo, um pai legal que fosse o seu nutrício e o seu protetor, e a que, para lhe permitir corresponder à
sua missão, Ele inspiraria o amor mais terno e mais devotado. Esse pai era um homem mortal que, na sua pobreza,
não tinha outros recursos senão o trabalho de suas mãos. E foi pelo trabalho de suas mãos que ele teve de prover às
necessidades desse Deus, entregue ao mundo. E quando Herodes procurava o Menino para o trucidar, sem dúvida o
Pai Celeste enviou um anjo, mas unicamente para transmitir a José a ordem de fugir, deixando tudo à sua
responsabilidade.

O amor paternal de José era pois, a única defesa do Menino. Foi esse amor que conduziu o Salvador do deserto à
terra dos Faraós, e ali velou por ele até que todos os inimigos desapareceram. Foi esse amor paternal de José que
conduziu Jesus a Nazaré para lhe prodigalizar, durante longos anos, a sua dedicação à custa do mais rude labor. Esse
amor, essa dedicação, esses labores, a Escritura contenta-se com evocá-los numa palavra, mas na realidade eles
encheram dias, semanas, anos! Tudo o que um filho deve a seu pai nessa ordem de coisas, Jesus o deve a São José.

Há, enfim, um terceiro modo como São José foi associado ao grande mistério da Encarnação: seu papel na
dispensação das graças de que a Encarnação é a fonte. Trata-se da sua solicitude pelo corpo místico de Jesus Cristo.
Esse corpo místico somos nós. Se Jesus revestiu a natureza humana, não foi senão para fazer de nós o seu corpo
místico e para nos unir a si como ao nosso chefe, na graça e pela graça.

Esse corpo místico é, por assim dizer, uma extensão de Jesus Cristo feito homem, desse mesmo Jesus que São José
nesta terra cercou de tanto amor e de tantos desvelos, que fez crescer, que educou à custa de tanta dedicação. O
objetivo final dessa educação éramos nós. O anjo indicou-o suficientemente a José quando lhe disse: — “Por-lhe-ás
o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21); porque o salvará praticamente e em
definitivo pela graça, cuja fonte é precisamente o grande mistério da Encarnação.

Sob este ponto de vista prossegue a missão do nosso Santo, transmitindo-nos as gradas do Salvador teremos
ocasião de dizer mais adiante. “Quatro coisas, uma árvore, uma serpente; quatro coisas repararam a humanidade:
Maria, Cristo, a cruz, José”. E São Remígio: — Pelo mesmo caminho que nos trouxe a morte, veio — nossa vida:
isto é, por uma mulher virginal e um homem obediente".

Ora, todos esses serviços José prestava-os à santa humanidade do Salvador com o amor mais profundo. Era como
que uma espécie de compensação: sendo o simples pai legal de Jesus, queria ao menos corresponder à sua missão
com uma caridade mais intensa. Deus proveu a isso. Quando a Providência incumbe alguém de uma missão, dá-lhe
todas as qualidades e meios necessários para a desempenhar bem. É Deus quem cria os corações e pode mudá-los a
seu gesto. Assim como, mais tarde, a palavra dirigida a São João: — “Eis aí tua Mãe”, deu ao apóstolo um coração de
filho para com Maria, assim também Deus pôs no coração de José o amor mais verdadeiramente paternal para com
Jesus Menino — amor sobrenatural, amor celeste, muito mais profundo, muito mais poderoso do que qualquer
outro amor paterno.

Além disso, São José serviu a santa humanidade do Salvador com a abnegação mais completa, sem retorno egoísta, à
custa de todos os sacrifícios. Ele não trabalha para si mesmo. Parece ser um mero instrumento que se emprega
segundo a necessidade, e que se põe de lado, e quase se esquece, desde que já não é útil. De fato, no Evangelho, ele
só nos aparece com Jesus enquanto Menino, e desaparece com a santa infância do Salvador.

Dos grandes e gloriosos mistérios — não falamos dos mistérios da vida pública e da ressurreição, mas dos da própria
infância de Jesus, daqueles que ele testemunhou e que o honram tanto — mal um raio de luz se projeta sobre ele. A
sua missão especial, ao contrário, é atenuar o brilho divino dos mistérios, e subtrair-se a si mesmo de qualquer glória
que daí lhe possa advir. Ele é a sombra do Pai Celeste, não só no sentido de representar a autoridade do Pai junto de
seu Filho, mas ainda no sentido de que, olhando por todos como o pai do Salvador, segundo a ordem natural, deve
ele servir para ocultar, até o momento marcado, a divindade de Jesus. Aquele Menino tão belo, tão amável, que José
carrega nos braços, tem só um Pai: o Deus do céu, e Ele próprio é Deus.

Eis aí uma luz, cujo brilho, uma vez revelado, projetará sobre esse Menino o esplendor da divindade. Mas a hora
dessa revelação ainda não chegou. Por isso Deus interpõe entre si e o Menino qual uma sombra, a paternidade legal
de São José. É a sombra que atenua a lar. Apesar de alguns poucos raios que dele se escapam, o mistério divino
permanece velado.

Tais são as relações de São José com a santa humanidade do Salvador, — tão íntimas, tão importantes, que só a Mãe
de Jesus pode oferecer iguais.

Ora, o mistério da Encarnação é de importância fundamental para a Igreja, para o cristianismo todo; e a vida do
nosso santo está imediatamente consagrada a esse mistério. José é em verdade o anjo do grande conselho, o santo
da infância de Jesus, o seu protetor, o seu educador — poder-se-ia dizer: a Providência viva que vela sobre ele. É o
que constitui a grandeza, a beleza singular da sua vocação, e lhe assegura uma categoria à parte entre os santos do
reino de Deus.

Com efeito, entre as diversas hierarquias do mundo, quer natural quer sobrenatural, como nos múltiplos graus das
comunicações que Deus faz de si mesmo às suas criaturas, há uma ordem que, no domínio da natureza e da graça,
excede todas as outras em glória e em excelência: é a ordem chamada “hipostática”, a que tem por centro a santa
humanidade de Jesus, unida, pessoalmente, com a segunda pessoa da Divindade. Em torno desse astro central
agrupam-se, como outras tantas estrelas, os santos que, associados à realização do mistério da Encarnação, têm
destarte uma relação especial com o Homem-Deus e mais se aproxima da sua pessoa. Os outros santos, por maiores
que sejam, têm relação apenas com a obra de Jesus Cristo, ao passo que os santos da ordem hipostática estão em
relação com a sua própria pessoa. A essa ordem pertence a ilustre família de que Nosso Senhor quis nascer segundo
o sangue: portanto, também e sobretudo São José, não só por ser o mais próximo e último rebento de Davi, mas
ainda por ser o esposo de Maria e o pai legal do Salvador. Sob este prisma, ele não cede a Maria, a augusta Mãe de
Jesus.

Tal a posição de São José no reino de Deus. Tais a sua dignidade e honra superiores às de todos os anjos! Qual foi o
anjo a quem Deus jamais disse: — “És meu pai!”? Aí estão outros tantos títulos à gratidão, ao amor, às homenagens
de todos os súditos do reino de Jesus Cristo.

São José não é apenas grande e poderoso nesse reino, mas e também o benfeitor de toda a cristandade, da
humanidade inteira. Se José do Egito, ministro de Faraó, bem mereceu de sua família e de seu povo, muito mais
ainda deve a cristandade a São José. Foi na habitação do santo patriarca, foi sob os seus cuidados que a redenção se
preparou. Tudo o que ele fez fê-lo por nós.

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SÃO JOSÉ
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Pe. Maurício Meschler, S.J.

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3. O ESPOSO DE MARIA
A Sagrada Escritura insiste neste ponto: São José é o esposo de Maria. “E Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual
nasceu Jesus que é chamado Cristo” (Mt 1,16). E tem razão. Daí procedem, para José, consequências extremamente
importantes; dentre elas, em primeiro lugar, a tríplice relação que o une a Maria.

Primeiramente, São José é o esposo de Maria em razão do vínculo conjugal com ela contraído. A Escritura é formal a
este respeito (Mt 1,16; Lc 1,27; 2,48). Nessa união, os Padres e os teólogos são unânime sem reconhecer um
matrimônio verdadeiro;indicam-no as expressões de que se serve o Evangelho. Demais, todas as condições
requeridas para o matrimônio estão aí reunidas: o consentimento e dom que os esposos se fazem reciprocamente
de si mesmo para a finalidade do matrimônio, a significação espiritual da união conjugal, símbolo da união de Jesus
Cristo com a Igreja (Ef 5,32), e enfim o filho.

Para José, essa união foi uma grande ventura, uma honra incomparável, o princípio de inestimáveis vantagens. O
matrimônio é a união mais íntima que os homens, na terra, podem contrair. Ele não é somente uma união material,
mas produz a unidade dos corações, dos espíritos, dos sentimentos e dos afetos. É, entre os esposos, a comunicação
mútua dos bens, das honras, das dignidades, sobre o fundamento da amizade e da igualdade.

Diz o Apóstolo: — “O homem é a cabeça da mulher” (1 Cr 11,3). Maria pertencia pois, a José com tudo o que possuía.
José teve todo o seu respeito, toda a sua submissão, todo o seu amor. Esse matrimônio não assegurava a José
apenas o privilégio da convivência diária com Maria, a mais pura e a mais santa das criaturas, mas o fazia
continuamente a testemunha das suas admiráveis virtudes, associava-o de alguma sorte aos seus bens espirituais:
dava-lhe também a honra e a felicidade de ser, em verdade, o pai do Salvador. Essa paternidade, que é a missão
providencial de São José, a sua missão oficial no reino de Deus, tem o seu verdadeiro fundamento precisamente no
matrimônio contraído com Maria. Não fosse esse matrimônio, a paternidade de José não passaria de uma
paternidade adotiva, ao passo que, graças a ele, em toda a realidade, José é diante de Deus e diante dos homens o
pai de Jesus, e pai legal de Jesus, porque, em virtude do vínculo conjugal, se faz entre os esposos uma permuta de
todos os bens, uma doação mútua, inteira, jurídica. O que Maria possuía, pertencia de direito a José em razão da
comunhão dos bens: pertencia-lhe, portanto também o filho de Maria. Por mais milagrosa que fosse essa
maternidade, Jesus pertencia a José, seu pai legal. Pode-se mesmo ir mais longe e dizer que, não fora esse
matrimônio, então, nem a paternidade de José teria sido tão verdadeira e tão real, nem tão pouco, ao menos na
ordem atual das coisas, Maria se teria tornado a Mãe de Deus. Com efeito, de acordo com o plano divino, o
matrimônio entre José e Maria era o meio escolhido para introduzir o Salvador neste mundo. Esta união conjugal é,
pois, um mistério verdadeiramente divino, através do qual nos deviam advir todos os bens.

Em segundo lugar, José não é só o esposo de Maria: é também o guarda e a testemunha da sua virgindade. Já o
vimos: a virgindade desses dois esposos, tanto quanto a união por eles contraída, entrava essencialmente no plano
divino da Encarnação. Mister se fazia, pois, que José fosse conjuntamente o esposo de Maria e o guarda da sua
virgindade, como na realidade o foi. Era neste sentido que Bossuet escrevia: — “A fidelidade desse matrimônio
consiste em guardar um ao outro a perfeita integridade que se prometeram. Eis aí as promessas que os reúnem, eis
aí o pacto que os liga. Duas virgindades se unem, para se conservarem ambas”. (Obras, III).

Esse matrimônio, na intenção de Deus, visava a conceição e o nascimento de Jesus. Por isso, José devia esposar a
Mãe de Deus, que, por essa razão, e segundo os oráculos, devia permanecer eternamente virgem. Isto era preciso,
afim de que, não tendo o Filho de Deus pai neste mundo, o seu nascimento no tempo fosse uma imagem sublime e
prodigiosa do seu nascimento eterno, em que ele não tem mãe, visto como só o Pai o gera no seio da Divindade.
Maria e José são dois astros que unem os seus raios mais puros para brilharem com mais fulgor diante de Deus,
correspondendo, assim, a especialíssimos planos divinos. Melhor do que qualquer outro, esse matrimônio, pela
própria natureza, torna-se a imagem da união de Jesus Cristo com a humanidade e com a Igreja.

São José não foi só o respeitoso da Virgem. Foi uma testemunha insuspeita, em razão mesmo da união contraída
com Maria. Se ele hesitou em tomá-la por esposa, foi unicamente, porque não sabia como conciliar em Maria a
virgindade com a maternidade. Uma intervenção celeste tirou-o dessa perplexidade: um anjo apareceu a José,
tranquilizou-o, e tudo se explicou. Por essa revelação divina, o nosso próprio santo tornou-se a testemunha
irrecusável da virgindade de Maria. Era o que Deus queria, permitindo uma dúvida tão cruciante. Para defender a
Virgem e vingá-la das calúnias dos hereges, os Padres apelam sempre para o testemunho de José. Assim como o
querubim com seu gládio de fogo defendia o paraíso terreal, José defende a honra da Virgem. E é esse, para Maria,
um novo motivo de amar seu virginal esposo, de se mostrar grata para com ele. Maria é, por excelência, a “esposa
do Espírito Santo”, não somente por causa da graça santificante que ela possui em tal plenitude, mas ainda porque,
nela e por ela, o Espírito Santo operou o mistério da Encarnação. Neste sentido mais elevado, o Espírito Santo é, de
maneira especial, o Esposo de Maria, e São José, sem nada perder do seu título, é o “amigo do Esposo”.

Notemo-lo: onde quer que se prepare uma obra importante, encontramos a pureza e a virgindade. Sem elas, nada
de grande se realiza na ordem sobrenatural. Sem elas, Deus não se quis tornar homem. O Menino é, por assim dizer,
a flor e o fruto da virgindade. A pureza virginal é, pois, uma coisa bela e gloriosa! Ela vem de Deus, inclina Deus até
nós. Por ela é que a divindade se une à humanidade. Consoante os santos Padres, a virgindade é a incorruptibilidade
numa carne naturalmente miserável. Faz- nos assemelhar aos espíritos celestes. Ela é, no homem, o reflexo da
eterna beleza. Quando Deus a descobre em nós, esquece o nosso nada. Eis aí porque Ele escolheu para si um pai e
uma mãe que são virgens, e faz consistir suas delícias em habitar com eles (Can 2, 16).

Em terceiro lugar — e esta nova relação que une José a Maria é uma consequência da honra que lhe pertence por
ser esposo da Virgem bendita — sendo o filho a finalidade do matrimônio — essa finalidade, como vimos, realizou-se
quanto a José, de maneira admirável e superior, pela conceição virginal de Jesus. Mas a união conjugal também tem
outro fim: a comunidade da vida, o apoio mútuo, uma solicitude recíproca de todos os instantes. São José foi o
companheiro fiel da Mãe de Deus, o seu sustentáculo afetuoso, o seu consolador dedicado. A vida de Maria devia
ser a vida da Mãe de um Deus que não viera a este mundo para saborear alegrias e desfrutar honras, mas para nos
remir pelos trabalhos, pelos sofrimentos, pela cruz. Quer dizer que, associada a essa missão, Maria devia achar em
José um socorro e um arrimo. E, de fato, vemos a Sagrada Família, senão na indigência absoluta, pelo menos numa
pobreza tal que Maria e José, descendentes de uma raça real, devem trabalhar com suas mãos para assegurar ao
Menino o pão de cada dia. Vemo-la, por causa deste Menino, fugir de poderosos perseguidores e, à custa de mil
fadigas, exila-se numa terra estrangeira.

Evidentemente, nessas conjunturas era preciso decisão e energia. Era preciso auxílio e proteção. Maria, a doce e
terna Mãe, achou esse socorro em José, que foi seu guia, o seu sustentáculo, a sua defesa. Assim como outrora Israel
viajara pelo deserto, guiado e protegido pela misteriosa coluna de nuvens, assim também a Sagrada Família, sob a
guarda vigilante de José, vai de Nazaré a Belém, a Jerusalém, ao Egito. Eis porque os mosaicos antigos nos
representam sempre São José com um bordão: é o emblema do protetor de Jesus e de Maria.

E na humilde morada de Nazaré, que doçura, que paz, que encantadora intimidade sob a conduta paternal do nosso
santo! Tudo se impregna da profunda veneração de que José cerca a Mãe do Salvador. Temos uma prova evidente
desses sentimentos de respeito na penosa provação de que falamos e que só fez estreitar os laços de afeto entre os
dois esposos. No testemunho de um escritor eclesiástico, antes de admitir a menor suspeita com relação a Maria,
São José teria crido num milagre. Quanto não devem ainda ter crescido o seu respeito e a sua veneração ao
reconhecer nela a Mãe Santíssima de Deus!

O amor nascia dessa mútua estima. A natureza e a graça reuniam-se para aumentar esse amor: a graça e a santidade
de Maria, a delicadeza do coração de José, a consciência de cumprir um dever e de se conformar com a vontade de
Deus. Depois de Deus e do Menino, José não tinha nada de mais caro do que Maria. O próprio Espírito Santo era o
vínculo que unia os corações.

Dessa compreensão e desse amor sempre nascem a alegria e a paz. Nada perturbava a calma do santuário de
Nazaré. Toda provação, todo sofrimento vindo de fora parava, de alguma sorte, no limiar daquele lar bendito, sem
perturbar a paz daqueles corações que, em tudo só viam e só queriam o beneplácito de Deus. A própria Maria e
mesmo Jesus podiam edificar-se admirando a virtude tão calma, tão humilde de José, a sua pureza, a sua santidade.

Na intimidade de Jesus Menino e de seu santo esposo, Maria já não devia ter saudades do templo de Jerusalém,
onde os seus primeiros anos haviam decorrido em ardentes aspirações a Deus, ao Deus do seu coração. Ela possuía
agora coisa melhor do que a arca da aliança, coisa melhor do que o sumo sacerdote!

O que demonstra eloquentemente a conformidade com os desígnios de Deus com que São José cumpria todos os
seus deveres para com a sagrada Família a que ponto encantavam a sua sabedoria, a sua pureza e a sua santidade o
coração de Maria, é o fato de que essa Virgem bendita, que sobrepuja em excelência todas as criaturas, se confiava
espontaneamente, sem reserva, com o abandono de uma criança, à conduta de José. Como a noiva do Cântico, ela
podia dizer: — “Sentei-me à sombra daquele que eu desejara” (Cant 2,3). Assim como outrora, nos dias felizes de
Salomão, o israelita vivia em toda segurança à sombra da sua figueira e da sua vinha, assim viviam Jesus e Maria,
sem receio, sob a afetuosa proteção de São José.

Estas poucas reflexões pretendem apenas transmitir-nos uma pálida ideia do que encerra a simples palavra do texto
evangélico: — “E Jacó gerou a José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo”.

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15/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

4. O HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS

Há um outro título que damos a São José: chamamo-lo “o homem segundo o coração de Deus”, “o homem da dextra
de Deus”, isto é, o homem da Providência divina. E estes títulos convidam a estudar com mais minúcia as relações de
São José com o Espírito Santo.

Com efeito, o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho mediante a vontade ou o amor, representa, na
Divindade, o amor ou o coração, símbolo do amor. E como não há nada mais ativo que o amor, o Espírito Santo
representa também o princípio de todo movimento ordenado ao fim. Numa palavra, ele é o princípio diretor a que
todas as criaturas devem obedecer para atingirem o seu destino eterno. O Espírito Santo, “O dedo de Deus”, que
criou todas as coisas pela sua sabedoria, conduz todas as criaturas ao seu fim pela sua Providência, designando-lhes
a sua vocação e tornando-as capazes de cumprir essa vocação.

Na sua qualidade de pai legal de Jesus e de chefe da Sagrada Família, São José teve uma vocação de grandeza e
importância excepcionais: preparar o advento do Redentor neste mundo, preparar a redenção velando sobre a
infância e juventude do Homem-Deus. Sob este aspecto, Ele era o instrumento do Espírito Santo. O Espírito Santo
guiava, José obedecia e realizava o plano divino pela obediência. É instrutivo e edificante ver de que maneira José
seguia a direção do Espírito Santo. Sob este ponto de vista achamos, na vida do santo patriarca, duas espécies de
circunstâncias em que a sua conduta nos pode servir de modelo.

Primeira circunstância: — Deus quer alguma coisa de nós, chama-nos para fazermos uma escolha; mas não nos
manifesta expressamente a sua vontade, guarda silêncio. São José achou-se neste caso provavelmente no momento
do seu noivado com Maria, e depois quando teve de sofrer sob a dúvida cruel de que falamos, e enfim na época do
regresso do Egito, quando se tratou de fixar em Belém ou em Nazaré a residência da Sagrada Família. Em
semelhante conjuntura não há outro recurso senão tomar o conselho de outrem, ou inspirar-se na sua própria
prudência, na própria consciência, ou enfim orientar-se pelos conhecimentos que podem levar a conhecer a vontade
de Deus.

Assim, para o noivado com Maria, São José ter-se-ia resolvido em razão da declaração dos sacerdotes e dos chefes
de família. Na dúvida relativa à virgindade de Maria, ele consultou sua consciência e a lealdade do seu próprio
coração, sem se deixar influenciar pela voz da paixão, até que Deus revelasse a Sua vontade pela mensagem do anjo.
Finalmente, para fixar em Nazaré a residência da Sagrada Família, ele se decidiu pelos conselhos da prudência,
porque Arquelau era para temer tanto quanto seu pai Herodes; e, aí ainda, a escolha de José recebeu a confirmação
divina.

Segunda circunstância: — Deus nos pede uma coisa, manifesta claramente a Sua vontade, mas nos deixa a escolha e
a aplicação dos meios. Aqui, o que temos a fazer é desprender-nos de todo apego, triunfar de todo temor, de toda
irresolução, para nos conformarmos sem reserva com a vontade de Deus. É o caso de São José, recebendo do céu a
ordem de fugir para o Egito com o Menino. O fim estava claramente designado. Quanto aos meios, José teve de
prover-lhes por si mesmo; e vimos a sua coragem e constância em obedecer. Que desapego de si mesmo, que
docilidade em se conformar com uma ordem que o atira para longe, para a terra do exílio! Não é Ele, por essa
própria obediência, a nuvem leve sobre a qual o Senhor queria mostrar-se no Egito (Is 19,1)?

Destarte mostra-nos ele em São José o nosso padroeiro em todas as decisões difíceis, e mais particularmente na
escolha da vocação, escolha de tamanha importância para todas as almas. Quando, às vezes, é coisa tão delicada
uma simples determinação a tomar no curso ordinário da vida, que dizer de uma escolha de que dependerá a vida
inteira? Portanto, sigamos o exemplo de São José e imploremos-lhe o socorro. As reflexões seguintes poderão
ajudar-nos em negócio tão grave.

Primeiramente. devemo-nos compenetrar bem deste grande princípio: que, numa decisão qualquer e, sobretudo,na
escolha de uma vocação, não devemos procurar outra coisa senão a vontade de Deus para a salvação eterna de
nossa alma, e não a nossa própria vontade ou as nossas preferências, a menos que elas coincidam com a vontade de
Deus. Procurar e querer outra coisa, seria subverter a ordem; seria tentar dobrar a vontade de Deus à nossa própria
vontade, e não reduzir a nossa vontade à de Deus. Seria fazer do fim o meio, e do meio o fim. Não seria querer ir a
Deus, mas querer que viesse a nós. Tudo consiste, pois, em procurar conhecer a vontade de Deus sobre nós. Ele é
nosso Senhor e Mestre. A nossa vida lhe pertence. A Ele é que compete dispor dela, é não a nós. A Ele é que cabe
determinar como devemos servi-lo. Não é o homem que faz a sua vocação, é Deus quem lha dá.

Em segundo lugar, segue-se que devemos examinar o que pode ou não pode ser objeto de uma escolha.
Evidentemente, nada de pecaminoso, nada de contrário à lei divina poderia ser posto em deliberação. Não teríamos
aí nem a vontade de Deus nem um meio de chegar ao nosso fim. A escolha não pode versar senão sobre coisa
moralmente boa, ou pelo menos sobre coisa indiferente em si mesma, mas podendo, na circunstância, tornar-se
boa; sobre coisa, enfim, admitida na Igreja ou por ela tolerada. Não é, pois, necessário que o objeto da escolha seja
uma coisa que se refira por si mesma à perfeição, por exemplo o sacerdócio ou o estado religioso. Deus tem
caminhos para cada alma em particular e, todos os caminhos, contanto que não sejam maus, podem conduzir ao
fim. Foi por isso que Ele estabeleceu na Igreja vocações diversas, e em cada uma dessas vocações pode-se, com o
socorro de Deus, atingir a perfeição, porque a perfeição consiste essencialmente em amar a Deus acima de todas as
coisas, em ser e em fazer o que Deus pede de nós. São José nos ensina pelo seu exemplo: Deus lhe pedia um modelo
de perfeição mesmo no estado do matrimônio.

Estabelecidos estes princípios, trata-se, em terceiro lugar, de saber como podemos achar e reconhecer a vontade de
Deus sobre nós, relativamente à nossa vocação ou à maneira por que devemos servi-lo e alcançar a nossa salvação.
Sobre este ponto, há vários meios de chegar a uma certeza moral. O próprio Deus pode revelar-nos a sua vontade,
como o fez muitas vezes com os santos, e em diversas circunstâncias com São José, enviando-lhe um anjo. A luz
também nos pode ser dada pelas inspirações interiores e pelos movimentos da graça na oração, pelas inclinações
naturais ou pelas qualidades que Deus nos deu e que correspondem a esta ou aquela vocação.

Enfim, podemos examinar seriamente e pesar com reflexão as vantagens e os inconvenientes que acharemos para a
salvação de nossa alma nos diferentes caminhos que se abrem diante de nós. O que então nos parecer o melhor,
quando todas as coisas forem assim discutidas sem nos deixarmos influenciar pelo nosso gosto natural, muito
verossimilmente é a vontade de Deus e a vocação a que Ele nos chama. Podemos pois, tomar a nossa decisão
definitiva. A escolha está, assim, terminada, e Deus não deixará de nos abençoar. Fervorosas orações, os conselhos
de pessoas prudentes e tementes a Deus, uma séria introspecção em nós mesmos perguntando-nos o que
aconselharíamos a um amigo em semelhante circunstância e o que nós mesmos queríamos ter feito, quando viesse
o momento da morte — são outras tantas indicações utilíssimas para uma boa escolha.

Por conseguinte, quando tivermos de fazer uma escolha importante, vamos a São José:é um santo, é um pai, é o
nosso conselheiro, é o nosso amigo. Dele, melhor ainda do que do ministro do Faraó, podemos dizer: — “Acharemos
um homem que, como esse, seja cheio do espírito de Deus? Acharemos um sábio que lhe seja comparável?” (Gn
41,38). Não menos que o José que salvou o Egito e seu povo, São José é favorecido pelas luzes sobrenaturais e pelas
comunicações divinas.Ele absolutamente não precisa de uma taça ou de um espelho (Gn 44,5) para reconhecer a
vontade do céu e descortinar o futuro. Ele reina agora junto Daquele que foi seu filho na terra; lê no espelho da
divina Sabedoria o que Deus quer e o que é bom para as almas. Lembremos-lhe as angústias que acompanharam a
escolha da sua vocação. Lembremos-lhe aqueles três dias de cruel ansiedade, quando Jesus, na idade de doze anos,
ficou em Jerusalém. Foi por causa de uma vocação que seu coração sofreu tanto. Tratava-se de revelar e de reparar
a vocação do Homem-Deus, Daquele que era seu filho. E temos também aí um exemplo das tristezas de que
muitíssimas vezes a vocação dos filhos é ocasião para os pais. São José conhece as alternativas de sofrimentos e de
alegrias que acompanham uma vocação. Alguém disse: aqueles a quem a vontade de Deus chama ao estado do
matrimônio, melhor não poderiam fazer do que recomendar-se a São José na escolha de um esposo ou de uma
esposa. Ele encontrou Maria! Que graça e que fonte de bênçãos! “A mulher virtuosa é uma sorte feliz!” (Ecl 26,3); “A
mulher santa e pudica é uma graça inestimável” (Ecl 26,19).

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16/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

5. O HOMEM DA VIDA OCULTA E DA VIDA INTERIOR

Como tivemos ensejo de observar, São José é um santo oculto. Sua vida exterior passa-se na sombra e no silêncio. A
sua vida interior — aquela em que ele é particularmente admirável — também é sombra e obscuridade. Nele, a
sombra atrai a sombra.

A vida do nosso santo não oferece aos olhares nada de extraordinário, nada que provoque atenção. Dos seus
primeiros anos nada sabemos. Ele só nos aparece no momento do advento do Salvador. Descende da família de
Davi, decaída do seu antigo esplendor. Os seus dias, na maioria, transcorrem na pequena povoação de Nazaré, que
motivou a pergunta: — "De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1,46) e ele não parece haver exercido ali
qualquer função oficial. Conhecem-no simplesmente como um carpinteiro — profissão que não tem nada de
glorioso. Quanto à sua missão especial e pessoal de pai legal de Jesus, por mais bela e mais sublime que seja em si
mesma, ela precisamente requeria a sombra e o silêncio. Os profetas, os apóstolos e os mártires proclamaram a
divindade de Jesus e, por isso mesmo, adquiriram a glória. Ao contrário, a missão de São José, durante a sua vida
inteira, foi encobrir essa divindade.

Já o vimos: ele foi a sombra do Pai Celeste não só representando o Pai junto de Jesus, mas ainda subtraindo aos
olhos do mundo a divindade do Salvador, visto como aos olhos de todos ele era o pai do Menino. Ora, a sombra não
é só o silêncio. Ela cobre com mistério tudo o que lhe entra na esfera. Velando a divindade de Jesus, São José velava
também o milagre realizado em Maria: a virgindade e a maternidade divina.

Essa missão especial, José aceita e cumpre-a de todo o coração, sem desmenti-la uma só vez durante a vida
inteira.Ele quer ser oculto, quer permanecer oculto. Mas isso não bastava. Que maravilhas poderia ter ele revelado
falando da Virgem admirável, objeto de profecias tão numerosas e luminosas, esperança do povo de Deus! Ele abriga
sob o seu teto o Messias esperado com tanta impaciência e não trai com uma só palavra o seu segredo! Leva-o
consigo para o túmulo.

Quando vêm os dias em que o Salvador realiza seus milagres, quando a glória da Ressurreição transforma em triunfo
os sofrimentos e as humilhações da Paixão, José já não é deste mundo. Mesmo quando o cristianismo alarga as suas
conquistas, o nosso santo ainda permanece na sombra até que venha a hora de se lhe prestar um culto bem
merecido.

Tal foi a prodigiosa vocação de José: ser a sombra, projetar a sombra sobre si mesmo e sobre tudo o que entra na
sua esfera, sobre o próprio Deus.

A sua vida exterior foi, pois, uma vida oculta. Mas isso não bastava. Era mister que essa vida oculta fosse igualmente
uma vida interior. Assim o pedia a missão do santo patriarca. Ser o guarda e o protetor da vida oculta de Jesus era a
vocação de São José. Ora, essa vida oculta do Salvador era essencialmente uma vida interior. Para velar por essa
vida, mister se fazia uma alma, um santo que amasse e praticasse a vida interior.
Que vem a ser essa vida interior? É o lado espiritual, o lado melhor da vida humana. É a vida que confere ao homem
uma grandeza e um valor muito acima das aparências da vida exterior. Ela consiste na parte que a alma, o espírito do
homem, pelo seu lado superior e sobrenatural, toma nos atos exteriores. É o homem vivendo para Deus, de Deus e
em Deus. Assim sendo, para frisá-la em alguns traços, a vida interior consiste sobretudo na pureza do coração, na
fuga de tudo o que pode desagradar a Deus e tornar-nos menos agradável a seus olhos, por conseguinte na fuga de
toda falta voluntária e ainda na vigência sobre o nosso interior. Consiste, além disso, em nos esforçarmos por
transformar todos os nossos atos exteriores em outros tantos atos de virtude — de uma virtude sobrenatural;
transformá-los em outros tantos méritos perante Deus, dando-lhes uma intenção reta e sobrenatural. Consiste
enfim, em conversarmos diretamente com Deus pela oração e em correspondermos fielmente às suas inspirações.

Eis aí, praticamente, a vida interior. Tal deve ter sido a de São José. Mas quem nos fará compreender-lhe a
perfeição? Pensemos na missão gloriosa de José, pensemos nas graças que Deus lhe concedeu dessa missão! Se
desde o primeiro instante de sua existência Maria recebeu uma plenitude transbordante de dons celestes,porque
devia ser a mãe do Salvador, José, cuja missão tem mais de uma analogia com a de Maria, deve ter por sua vez
recebido as graças correspondentes à sua alta vocação. Esse capital de graças não pôde senão multiplicar-se pela
prática da vida interior, e frutificar tanto mais quanto a vida exterior do nosso santo era mais humilde e, de alguma
sorte, mais vulgar. Além disso, uma contínua intimidade com o Salvador e com Maria favorecia singularmente o
progresso da vida interior.

Que pureza nos pensamentos de José, suas intenções, porquanto, fruindo da sociedade de Jesus, ele estava
incessantemente, como os anjos, em presença do Deus três vezes santo! Que recolhimento em suas ações, desde
que a sua vida toda se achava, por isso mesmo, diretamente consagrada ao serviço de Deus, à execução dos
conselhos divinos! Que fervor na caridade, pois tudo em torno dele, tudo o que ele via, tudo o que ouvia, eram
outras tantas revelações do amor de Deus, outras tantas inexauríveis fontes de graças, outras tantas manifestações
da sabedoria e da beleza divinas! José estava imerso em Deus. A luz de Deus banhava-lhe a vida interior, como a luz
do astro das noites transparece através da nuvem que a vela por um instante.

São José é pois, o melhor modelo da vida interior. Sem dúvida, ele não era a luz que impõe a atenção e fere todos os
olhares. Compará-lo-íamos antes a um perfume cujo aroma respiramos sem reconhecer sempre donde se exala. O
nosso santo é, pois, ainda agora, na Igreja, o padroeiro da vida interior. Essa vida interior faz a sua grandeza. Ela lhe é
necessária. Sem ela, ele não teria passado de uma sombra vã diante dos homens e diante de Deus. Ter-se-ia
assemelhado a esses ricos e a esses grandes do mundo de quem a Escritura diz, que “no seu despertar, nada
acharam nas suas mãos” (Sl 76,6). Com ela e por ela, José foi rico diante de Deus. Foi grande da grandeza do próprio
Deus. Por ser Deus, e por ser infinitamente feliz em Si mesmo, Deus nos é oculto, silencioso, invisível. E é a vida
interior que nos associa a essa grandeza de Deus, porque ela consiste essencialmente em viver para Deus e em Deus.

A vida interior é pureza, porque é uma frequente conversa com Deus, espelho de toda pureza. É riqueza, porque
tudo o que fazemos, fazemo-lo para Deus e o transformamos numa recompensa eterna. É força porque, pela união
com Deus, ela nos atrai a graça de vencermos os perigos e as dificuldades da vida exterior.

Coloquemo-nos, pois, sob a proteção de São José e, confiantes no seu socorro, trilhemos os caminhos da vida
interior, pela vigilância sobre nós mesmos, pela pureza de intenção em todas as coisas, pela prática da oração, pela
docilidade às inspirações da graça. Sem estes exercícios da vida interior, a própria vida mais oculta ficaria sem mérito
diante de Deus, sem valor para a eternidade. E, para entrar nessa Terra prometida da vida interior, não há guia
melhor nem mais seguro do que São José: é uma das recompensas concedidas aos serviços que ele prestou à santa
infância do Salvador.

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17/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943
6. O HOMEM DA VIDA EXTERIOR

A vida do homem não é nem exclusivamente interior, nem exclusivamente exterior. Composto de corpo e alma, o
homem é chamado a exercer a sua atividade numa dupla esfera. Além disto ele não vive isolado, mas em sociedade,
entrando forçosamente em relações com seus semelhantes. A sua vida é, pois, mista, isto é conjuntamente exterior
e interior.

São José conheceu essa lei da nossa natureza. Por isso, deparamos nele, simultaneamente, a vida interior e exterior.
Não foi um ermitão. Não foi um daqueles essênios, tão numerosos então na Judeia. Vivia na sociedade de seus
semelhantes e,antes de tudo,na da Sagrada Família, de que era chefe, sustentáculo e protetor.

Demais, estava em relações, mesmo frequentes, com seus concidadãos e exercia uma profissão que
necessariamente, o punha em contato com as pessoas de fora. Teve de viajar repetidas vezes. Cada ano, no mínimo,
Ele ia a Jerusalém para as grandes solenidades. Constrangido a fugir por ordem de Deus, foi até o Egito e ali
permaneceu certo tempo. Se a arte cristã o representa com um bordão é, entre outros significados, para lembrar
essas viagens.

Finalmente, São José exerceu uma profissão, uma profissão bem vulgar e material, porque pelo seu trabalho devia
assegurar à Sagrada Família o pão cotidiano. Eis porque nas pinturas ou mosaicos dos primeiros séculos, vemos um
serrote ou um machado junto do presépio: é a ferramenta do carpinteiro.

Mas essa vida exterior do nosso santo foi uma vida admiravelmente ordenada e perfeita. Pelas razões seguintes:
primeiramente, por causa dos motivos que o faziam cumprir seus deveres de estado, assim como pela sua
obediência à vontade de Deus, pelo seu amor a Jesus e a Maria, que formavam sua família, muitíssimas vezes
também por caridade para com o próximo e pelo nobre desejo de lhe ir em auxílio. Se ele se misturava aos seus
concidadãos, nunca era por um sentimento de tédio ou de cansaço no seu labor, por desocupação, por capricho,
unicamente para seu prazer, à cata de novidades ou de consolações. É bem certo que suas viagens a Nazaré e ao
Egito não foram viagens de recreio. De acordo com os princípios da perfeição e com as máximas dos santos, a vida
exterior deve de alguma sorte decorrer da plenitude do espírito interior, deve ser uma efusão do nosso amor a Deus
e ao próximo.

Em segundo lugar, a vida exterior de São José foi uma vida admiravelmente ordenada e perfeita, pela maneira como
se comportava nela. Entregava-se a ela sem que nada tivessem a sofrer o cuidado pela sua vida interior, a vigilância
sobre sua alma e a sua união com Deus. Sua vida exterior era como que o desabrochar de sua alma. O pensamento
de Deus, o amor de Deus inspiravam, acompanhavam e enobreciam cada um de seus atos, e transformavam-nos em
outros tantos atos de virtude. Longe de ser comprometida pela vida exterior, a vida interior enriquecia-se
continuamente com todas as dificuldades e contrariedades, com todos os sacrifícios que se apresentavam. A
caridade divina ia também crescendo incessantemente e o santo desfrutava, além disso, a consolação de ter sido útil
aos seus semelhantes.

São José dá-nos assim uma grande lição. Todos nós temos que levar uma vida exterior. Mas é preciso ordená-la.
Todos nós temos que trabalhar. Mas é preciso trabalhar devidamente. E aqui há dois escolhos a evitar: a falta e o
excesso.

A falta. Muitas vezes trabalhamos de menos: é a ociosidade, o desperdício de tempo, a falta de seriedade, a
negligência em consagrar a nossa vida, as nossas forças e os nossos talentos à glória de Deus e ao bem do próximo.
Outras vezes, também, o mal não consiste em não fazermos nada, em não nos darmos a nenhuma ocupação, mas
em nos gastarmos numa multidão de negócios inúteis, em nos ocuparmos de coisas que não pertencem à nossa
vocação, nem ao; nossos deveres de estado, que não têm nenhuma utilidade real nem para nós mesmos, nem para
nossos semelhantes. Agir e trabalhar assim não é agir nem trabalhar: é remexer-se, agitar-se, seguir o próprio
capricho. É assim que trabalham certas aves que passam seu tempo a alisar a plumagem, a saltitar de um barrote a
outro da gaiola, a ensaiar um trinado, a comer e a beber. Acaso é trabalhar ir de visita a visita, de uma conversa a
outra conversa, de um passatempo a outro passatempo e ter, para isso, todo o tempo à disposição? O trabalho, no
verdadeiro sentido do termo, é o trabalho pedido pelos nossos deveres de estado, o trabalho útil, o trabalho em
relação com a nossa vocação. Tudo o mais não passa de um meio de fugir ao tédio, de escapar à monotonia mortal.
Examinemos seriamente, perante Deus e perante nossa consciência, de que maneira empregamos nossa vida,
nossas forças e nossos talentos. Um dia Deus nos pedirá conta não só do mau emprego, mas ainda do desperdício do
tempo. Um homem de coração deveria envergonhar-se de comer sem ter merecido a sua comida, e de ficar
tranquilamente de braços cruzados, quando tão grande número de seus semelhantes tem de submeter-se a um duro
labor, quando o Salvador, Sua Santa Mãe e São José tiveram de ganhar penosamente o pão quotidiano. O pão que
não se ganhou é um pão roubado, ao menos diante de Deus, pois está escrito: — “Quem não quiser trabalhar,
também não há de comer” (2Tes 3,10). E, além disso, vejamos se, cumpridos os nossos deveres de estado, não nos
resta nada a fazer para auxiliarmos nosso próximo, para cumprirmos a nossa missão social, para correspondermos às
necessidades da nossa época tomando parte ativa nas obras de caridade. Não é de todos os instantes a prática do
grande preceito do amor de Deus e do próximo? Ponha-se cada um a trabalhar pelo bem de todos, e em breve
estarão resolvidas as questões sociais. Todos nós podemos muito, se quisermos. Façamos ao menos o que
pudermos. Isto basta.

Em segundo lugar, o excesso. Podemos trabalhar demais. Trabalha-se demais, quando o trabalho exterior se faz em
detrimento do interior, em detrimento da nossa consciência e de Deus; quando, absorvidos pelo exterior,
descuramos o propor-nos uma intenção mais alta e sobrenatural; quando nos damos a essas ocupações sem pormos
nossa confiança em Deus; quando nos apegamos a elas servilmente, sem pensar na eternidade. Tomado no sentido
verdadeiro do termo e com a sua significação cristã, o trabalho exercido para Deus e para a salvação de nossa alma é
uma obrigação e uma honra para o homem. É a condição do seu progresso, e da sua felicidade no tempo e na
eternidade. No céu, a nossa parte será, na realidade, a que nos tivermos granjeado pelo nosso trabalho.
Compreendido diversamente, o trabalho perde toda a sua significação; torna-se uma divindade cruel, um Moloc que
devora o corpo e a alma do homem. Enfim — e é a isto que cumpre chegar sempre — o trabalho é para o homem e o
homem é para Deus.

Não é, pois, um fim, mas um meio... Destarte, afim de não trilharmos caminho falso em nosso trabalho, propiciemo-
nos cada dia alguns instantes para nos recolhermos e orarmos.

Como se vê, São José é o modelo indicado para o nosso século, em que se faz do trabalho um ídolo. Pela justa
medida que ele soube guardar, pela sabedoria com que uniu a vida interior à exterior, Ele é o padroeiro tanto da
classe operária como dos homens apostólicos. Digamos melhor: é o modelo de todos os homens. Peçamos-lhe a
graça de imitá-lo neste ponto: essa graça é uma das que entram nas suas atribuições.

18/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

7. O PADROEIRO DA FAMÍLIA

Quando nós representamos São José, vêmo-lo sempre em companhia de Jesus e de Maria. Vemo-lo fundando a
Sagrada Família, dirigindo-a, velando por ela. Efetivamente, foi ela o cenário da sua missão, do seu trabalho e da sua
morte.

É aliás lei geral: o homem é chamado para viver e agir na sociedade. A vida humana tem o seu coroamento na vida
social. Deus, que criou o homem à sua imagem, quis também que a sociedade humana fosse uma imagem dessa
sociedade divina que é a SS.Trindade. Na unidade da natureza É na pluralidade das pessoas, na perfeita igualdade de
poder e na distinção das processões divinas, a SS. Trindade é o modelo sublime das múltiplas sociedades que,
nascendo uma da outra, representam, em graus diferentes, a diversidade numa soberana unidade.

A humanidade toda forma um conjunto de agrupamentos sociais, quer na ordem natural quer na ordem
sobrenatural. Desde que inferiores se reúnem sob um superior, há sociedade. A família dá nascimento à comuna, a
comuna dá nascimento ao Estado. Do mesmo modo, na ordem sobrenatural, achamos as diversas sociedades
religiosas e a Igreja. Todos os graus dessa dupla hierarquia têm em São José um padroeiro e um protetor celeste.
Em primeiro lugar, a família. Para a ordem e prosperidade da família, é preciso primeiro a autoridade que funda e
governa a sociedade doméstica. É preciso a piedade que mantêm a família nas relações requeridas com Deus e lhe
assegura as bênçãos celestes. É preciso o trabalho que proporciona a subsistência e cria os recursos materiais. É
preciso o amor que traz consigo a paz e a alegria.

Já estudamos São José sob todos esses pontos de vista. A sua vocação foi essencialmente a de ser chefe da Sagrada
Família. Essa Família, ele a fundou pela sua aliança com Maria. Que dignidade e que graça na sua autoridade, visto
que ele representa o Pai Celeste, de quem é a imagem pela pureza, pela sabedoria, pela fidelidade! Ele nos é um
admirável modelo na sua piedade, no seu trabalho que executa para se conformar ao beneplácito divino, com zelo,
confiando na Providência.

Sabemos, enfim, o que foi o seu amor. Por isso, de que alegria e de que segurança não gozava a Sagrada Família sob
esse governo paternal, mesmo no meio das provações e contrariedades que são neste mundo o quinhão de toda
família e que não faltaram à de Nazaré! Em todas as circunstâncias foi São José o protetor, o conselheiro, o
consolador dos seus.Ele é pois, com toda razão, o padroeiro da família e é honrado como tal em todo lar cristão.
Houve jamais uma família que, melhor que a Sagrada Família, fosse a imagem da augusta Trindade? Jesus, Maria,
José — eis a trindade terrestre.

A comuna, primeiro, depois o Estado, eis a extensão da sociedade doméstica pelo agrupamento de várias famílias
sob um chefe comum, mirando — é pelo menos o fim próximo — assegurar o bem-estar temporal. Em si mesmo, o
Estado cristão faz parte do plano divino para a salvação do homem, para a proteção da família, para a economia da
Providência no governo do mundo. O Egito oferece-nos um exemplo dessas intenções misericordiosas de Deus: sob
a direção de José, filho de Jacó e figura do nosso santo, ele foi um meio de salvação para o povo escolhido e, por ele,
um meio de salvação para o mundo. São José, é verdade, não foi um chefe de Estado. Mas, muito melhor ainda do
que o ministro do Faraó, ele foi “o pai do rei” (Gn 45,8), do soberano Rei, do Rei dos reis.

E, para ser o chefe da Sagrada Família, era preciso uma virtude mais alta e uma santidade mais excelente do que o
pedia o governo do Egito. São José não salvou apenas um só povo e um só país da morte pela fome, mas transmitiu a
toda a humanidade o pão da vida eterna.

Pelas suas virtudes, que são bem as virtudes de um chefe de Estado — pela sua sabedoria, pela sua bondade
obsequiosa, pela sua política toda celeste — São José é um maravilhoso modelo para todos os que exercem poder,
como é um modelo para os súditos, pela sua obediência, pelo seu respeito à autoridade. Só sabe mandar bem quem
sabe obedecer bem. Eis porque, outrora, monarcas e chefes de casas poderosas escolhiam a São José para protetor
da sua família e do seu país. E José não lhes traiu a confiança. Mas vieram outros tempos, outras máximas presidem
hoje ao governo dos Estados: “Não se pensa mais em José” (Ex 1,8). As coisas vão porventura melhor para os
príncipes e para os povos? Quem ousaria afirmá-lo?

Em terceiro lugar, temos a Igreja, a grande sociedade sobrenatural, a família de Deus neste mundo. Como em toda
sociedade, na Igreja faz-se mister um governo. É a hierarquia do sacerdócio com os seus graus. Ora, o poder
sacerdotal estende-se primeiramente ao verdadeiro corpo de Jesus Cristo, real e substancialmente presente na
Eucaristia que continua a viver entre nós. Desse poder dimana a autoridade do sacerdócio eclesiástico sobre o corpo
místico do Salvador, isto é, sobre os fiéis, para instruí-los, guiá-los, reconciliá-los com Deus, alcançar-lhes e
dispensar-lhes as graças e orar por eles.

A Igreja tem o seu modelo na Sagrada Família. Ora, em Nazaré, São José era o chefe, o pai, o protetor, o guia. Por
todos esses títulos, ele pertence de maneira especial à Igreja, que era a finalidade, e, por assim dizer, é a extensão e
a continuação da Sagrada Família.

Por outro lado, são os sacerdotes, na Igreja, os membros principais. Dessarte, entre São José e o sacerdócio, há uma
relação toda particular, sob um duplo ponto de vista. Primeiramente, sob o ponto de vista da função. Como vimos,
José teve um grandíssimo poder sobre a pessoa do Salvador. De certa maneira, ele nos transmite Jesus. Foi José
quem o educou, quem o sustentou, quem velou por ele. A sua missão consagrava-o muito especialmente à pessoa
de Jesus Cristo. Sua vida, seus atos foram a vida e os atos de um sacerdote, visto como o sacerdócio visa
primordialmente a administração do sacramento do altar. Se lhe não devemos o Salvador de maneira imediata como
o devemos ao sacerdote, que pronuncia as palavras da consagração, as funções que o ligavam a Jesus, os desvelos
de que o cercava, tinham entretanto uma importância maior, e o punham com o Senhor numa relação mais imediata
do que todos os ministros do altar.

Em segundo lugar, sob o ponto de vista das virtudes, as de São José foram virtudes eminentemente sacerdotais:
espírito de fé, pureza, humildade, zelo das almas. Não tornaremos a este assunto, de que já falamos. Como se vê,
São José é o mais belo modelo do sacerdote.

Mas, na Igreja de Deus, há uma outra família que pode reclamar a proteção de São José de maneira especial: a
família religiosa, a comunidade das almas cuja vocação é o estado religioso. A vida religiosa é excelentemente a
escola da perfeição, já que, por dever de estado, o religioso é obrigado a tender à perfeição. Para essa vocação,
como para qualquer outra aliás, a perfeição consiste essencialmente no amor de Deus. Mas o que distingue o estado
religioso são os meios empregados para alcançar o fim. No mundo, para chegar ao amor de Deus e praticá-lo, as
pessoas se contentam com o meio essencialmente necessário — a observância dos preceitos — ao passo que, na
vocação religiosa, se recorre aos meios de supererrogação — conselhos evangélicos, votos, que, sem serem em si
mesmos obrigatórios para ninguém, constituem os melhores meios de perfeição, porque contribuem muito
energicamente para afastar os obstáculos do amor de Deus. Ao apego aos bens exteriores, eles opõem a pobreza; ao
atrativo dos prazeres sensíveis, a castidade; aos perigos da vontade própria e da independência, a obediência. A
esses meios gerais, comuns a todos os que vivem em religião, cada Ordem acrescenta certos meios particulares para
atingir a perfeição da amor divino, pela prática da vida contemplativa ou da vida ativa, conforme se trata de
trabalhar unicamente na santificação pessoal ou de consagrar-se ao mesmo tempo à salvação das almas. É assim que
se distinguem as Ordens contemplativas e as Ordens ativas.

Mas, de uma parte e de outra, existem relações estreitas entre São José e a vocação religiosa, existem poderosos
motivos para invocar a proteção do Santo patriarca. Acaso se propôs ele, neste mundo, outro fim senão a perfeição
no amor de Deus? Não praticou, em toda verdade, a obediência, a pobreza, a castidade? Até onde não levou ele a
perfeição da caridade? Não uniu admiravelmente a vida contemplativa à vida ativa, a vida interior à vida exterior?
Não oferece ele o mais belo modelo das diversas formas de perfeição que as diferentes Ordens religiosas se podem
propor? Quem, pois,mais do que ele se aproxima do soberano modelo, Jesus Cristo Nosso Senhor, na união desses
dois gêneros de vida? Eis porque todas as Ordens religiosas — quer se deem à vida contemplativa, quer à vida ativa,
ou quer professem a vida mista — veem em São José o padroeiro da sua vocação e se comprazem em ter nele o seu
protetor especial. Eis porque lhes consagraram particularmente as suas missões entre os infiéis. Não foi junto a ele
que os Reis Magos, primícias dos gentios, acharam o Salvador? Não foi ele quem primeiro levou Jesus a uma região
idólatra, ao Egito?

Não há, pois, na Igreja um só grupo importante, uma só sociedade d’almas na qual São José não pertença, por assim
dizer, à família; em que não deva — permitam-nos a expressão — considerar-se como estando em sua casa. Cada
uma das diversas formas que a vida de família reveste é para nós, como para ele, uma cara lembrança e uma doce
imagem da vida, das alegrias e dos sofrimentos que foram os seus junto do divino Salvador e de Maria. Ele se
santificou na família. Pelo seu admirável exemplo, santificou a vida de família. Foi por isso que, nesta ordem de
coisas, Deus lhe deu de ser um poderoso protetor. A família, a sociedade doméstica, seja qual for a forma que revista
— família propriamente dita, Estado, Igreja, Ordem religiosa — é uma grandiosa e bela criação de Deus. E por ser
uma criação de Deus, por ser de extrema importância para a glória de Deus e para a salvação do mundo, é cara a São
José, tanto mais cara quanto mormente hoje em dia, o demônio procura profanar a família, arruiná-la, fazer dela um
instrumento de maldição, um inferno na terra. Cumpre, pois, que São José intervenha, que o chefe da Sagrada
Família se oponha ao inimigo, que ele, uma vez mais, salve “o Filho e sua Mãe”.

Terminemos por uma reflexão que nos explicará a razão de um título muitas vezes dado a São José. Já que o nosso
Santo é o protetor natural de todas as associações ou famílias que se agrupam na Igreja, Pio IX deu-o por padroeiro à
Igreja universal. São José, portanto, faz jus, com toda razão, ao nome glorioso de patriarca. Os patriarcas eram os
pais e chefes das tribos de Israel,do povo de Deus. Tinham a honra e o privilégio de preparar o nascimento de Jesus
Cristo. Muito mais: esposo de Maria, da Mãe de Deus, ele foi o pai legal do Salvador. Ele marca, pois, o apogeu do
Testamento antigo e o ponto de partida do novo que — consoante a palavra de Leão XIII numa das suas encíclicas —
começou quando a Sagrada Família foi fundada. Na sua qualidade de patriarca, São José pertence, assim, tanto à Lei
antiga quanto à nova. É, por conseguinte, o patriarca dos patriarcas. É o patriarca no sentido mais elevado do termo,
porque a Aliança nova sobreleva infinitamente ao Testamento antigo sob todos os portes de vista. Com uma das
mãos, ele abençoa o antigo, e com a outra o novo Testamento. Quem lhe pode ser comparado?

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19/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

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8. O PADROEIRO DAS ALMAS ATRIBULADAS

Tudo neste mundo está sujeito à lei do sofrimento. Não há ninguém que não tenha de sofrer. A dor prendeu-se ao
homem; segue-o por toda parte. No fundo, a história da humanidade não passa de uma grande tragédia em que o
sofrimento, sob mil formas diversas, representa o papel principal. O sofrimento começou com o pecado; só termina
com a morte. Cumpre, pois, que assim seja: Deus, infinitamente bom e infinitamente sábio, viu um bem na
provação. Pelo sofrimento é que fomos remidos; é pelo sofrimento que colhemos os frutos da Redenção. Muitos
homens são levados à compreensão e salvos, só mesmo pelo sofrimento. A cruz é, pois, a partilha de todas as almas.
Os santos não escapam a essa lei.

São José conheceu, pois, o sofrimento. Conheceu-o tanto mais quanto estava mais estreitamente unido ao Salvador.
Todos os mistérios da vida de Jesus são mais ou menos mistérios dolorosos. Mesmo Nazaré e Belém tiveram sua
cruz. Por toda parte, onde o Salvador repousa a cabeça, deixa os vestígios da sua coroa de espinhos. São José viveu
longos anos com Jesus. Muitíssimas vezes segurou-o nos braços, estreitou-o ao coração; — não podia, pois, deixar
de encontrar a cruz!

Carregou continuamente a cruz do trabalho. A pobreza era-lhe uma cruz, menos para ele mesmo do que em atenção
ao Salvador e a Maria, cuja penúria lhe era um sofrimento. Nem sempre ele achou um abrigo para si e para a
Sagrada Família. Homens de coração insensível recusaram-lhe asilo, cruéis perseguidores ameaçaram-no naquilo que
ele tinha de mais caro. As próprias cruzes domésticas não lhe foram poupadas. Testemunha isso a sua angústia
numa circunstância penosa; testemunha isso a sua dor quando Jesus ficou no templo. Será mister, além disso,
lembrar a circuncisão do Salvador, a imposição do nome de Jesus que pressagiava tantos sofrimentos, a profecia do
velho Simeão, a fuga para o Egito? Esses mistérios e outros mais foram, de alguma sorte, o Calvário de São José.

Juntemos a isso os sofrimentos que não deixavam de causar ao seu coração os pecados, a ignorância e a ingratidão
de seu povo. Se bem que essas dores estejam longe de igualar o inenarrável martírio de Maria ao pé da cruz, foram
no entanto infinitamente amargas para S. José porque se referiam a Jesus, a seu Deus, e porque ele amava esse Deus
com o amor mais profundo.

Os sofrimentos de José são, pois, nobres e belos em razão da sua causa — já que essa causa está nos sofrimentos do
próprio Salvador — e em razão da maneira como ele suportou essas provações. O supremo triunfo da arte, dizem, é
representar o sofrimento de maneira a mostrá-lo belo e sublime. Bem mais difícil ainda é suportá-lo cristãmente.
José oferece-nos, aqui, um exemplo admirável. Nem uma só queixa, nem uma só palavra de impaciência lhe escapa.
É um grande silencioso. Dele, o Evangelho não nos conservou nenhuma palavra. Ele se fecha na sua fé, na sua
humildade, na sua inalterável confiança, na sua ardente caridade, e suporta tudo com alegria, em companhia de
Jesus e de Maria, contente de poder sofrer com eles.

Por seu lado, Deus nunca o abandona na provação. Está sempre lá, dirigindo todas as coisas. E os sofrimentos
passam, deixando após si a consolação. Está José perturbado a respeito de Maria? Uma mensagem do céu
tranquiliza-o e lhe restitui a felicidade. As provações de Belém são consoladas pelo nascimento do Salvador, pela
adoração dos pastores e dos Magos. À fuga para o Egito sucede a alegria do regresso. Jesus desaparece e, durante
três dias, o coração de José é cruelmente angustiado. Mas Jesus é achado no templo, e seguem-no então os
tranquilos anos da vida em Nazaré.
Parece que, pelo exemplo do Santo, Deus quis ensinar-nos de maneira palpável que a vida neste mundo é
continuamente de dias bons e dias maus, e que, portanto, é de mister achar em uns consolação para os outros.
Ordinariamente, os dias de alegria e de paz sobrepujam. Acaso o óleo não sobrenada na água? Não esqueçamos isto,
e aceitemos com gratidão tudo o que Deus nos envia. Suportemos os dias maus por gratidão pelos dias felizes que
nos foram concedidos e, na felicidade, preparemo-nos para o sofrimento. Grande arte é saber aceitar, como
convém, a alegria e o sofrimento. Sem esta ciência, a provação lançar-nos-á na impaciência, na dúvida ou no
desespero. A alegria e a prosperidade acarretarão a presunção e a dissipação; expor-nos-ão ao temível perigo de nos
esquecermos de Deus. A exemplo de São José, permaneçamos sempre os mesmos na ventura e no sofrimento. Deus
não nos leva a mal que a ventura nos dê alegria e que a cruz nos cause dor. Tal é a nossa natureza. Mas tomemos
tudo em espírito de fé, com sentimentos de confiança e gratidão para com Deus. Na eternidade bem-aventurada
nada nos dará mais alegria do que os sofrimentos que tivermos suportado neste mundo, a exemplo de São José, com
paciência e por amor a Jesus e Maria.

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20/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

9. O PADROEIRO DA BOA MORTE

Numerosos são os males, múltiplos os sofrimentos do homem neste mundo. Entre esses sofrimentos, um há a que
ninguém escapa: todos nós devemos morrer, porque todos nós pecamos. A morte é o estipêndio do pecado.

A morte é um sofrimento duro e amargo para a nossa pobre natureza. É, antes de mais nada, o termo da nossa vida
física. A íntima união do corpo e da alma, união que constitui a vida, é quebrada pela morte. A separação é dolorosa.
O corpo vai reduzir-se a pó. A alma é forçada a abandonar essa caduca morada. A separação (é humilhante porque é
o castigo do pecado, uma espécie de execução que separa um do outro, o corpo e a alma, como dois réus e
cúmplices, para entregar a alma à eternidade e o corpo à terra, onde ele se dissolve aos poucos para se tornar o que
já não tem nome em língua alguma.

Mas a morte não é só o termo da nossa vida terrena. É também o começo da nossa vida no além, a entrada na
eternidade, a hora que nos fixa para sempre uma recompensa ou um castigo cuja grandeza excede todo
pensamento. Enfim, a morte põe-nos em presença de Deus. Faz-nos comparecer perante Ele para sermos julgados,
punidos ou recompensados, com justiça e irrevogavelmente. Numa palavra: a morte é a solidão, o abandono, a dor,
a angústia. Então ninguém nos pode vir em auxílio. A luta suprema trava-se dentro de nós mesmos. O homem é
impotente. Só do céu pode vir o socorro.

Importa, pois, nessa hora decisiva, termos um bom padroeiro para nos assistir e consolar; para nos ajudar a ter uma
boa morte, calma, suave e edificante. Que padroeiro melhor do que São José, já que morte nenhuma foi mais bela
que a sua? Tudo se reuniu para tornar feliz e consolado na hora do trânsito. No passado, ele vê uma vida inocente e
pura, consagrada à prática das mais nobres virtudes; vê serviços sem número prestados a Jesus, a Maria, à Igreja, à
humanidade toda; uma vida de trabalhos e sofrimentos aceitos com paciência, em espírito de fé e caridade. O
passado nada lhe deixa, pois, a lamentar, nada a temer; só lhe oferece motivos de esperança.

O presente? Já vimos como São José deixou esta vida. Aqui ainda, tudo concorre para lhe tornar a morte não
somente boa, mas consoladora e doce. Ele expira nos braços de Jesus, seu Filho e seu Deus, e nos braços de Maria. E
Jesus e Maria, nessa hora suprema, recompensam por graças especialíssimas tudo o que devem ao amor de José.
Amparam-no e consolam-no; confortam-lhe e alegram-lhe o coração pelas graças mais doces. O Espírito Santo verte-
lhe na alma a paz e a alegria.

O futuro? Para José, após uma curta espera no Limbo, onde os santos da Lei repousam em paz, é a alegria de tornar
a ver Jesus ressuscitado, é o reino da felicidade eterna, onde o Pai Celeste o acolherá para estabelecê-lo sobre todos
os seus bens (Lc 12,37), aquele que tão dignamente o representou junto ao Salvador e que se mostrou um servo
bom e fiel. A morte de São José tem a beleza, a calma e a majestade de um tranquilo ocaso. Na verdade, a morte de
um santo é obra-prima da graça, um doce perfume diante do Senhor! (Sl 115,15).

A morte de São José foi, pois, maravilhosamente bela e desejável. Ele pode ajudar-nos a alcançar morte semelhante.
Pode-ode uma tríplice maneira. Primeiramente, seu exemplo incentiva-nos a não temer a morte em Jesus Cristo e
com Jesus Cristo, em sentimentos de fé, de confiança e de caridade. As graças celestes que o assistiram e
consolaram na sua hora derradeira, a Igreja põe- nas à nossa disposição, e oferece-nos, mui particularmente, o
próprio Salvador no Santo Viático. Jesus está lá para nos sustentar na luta suprema. Unamos ao seu sacrifício o nosso
sacrifício derradeiro. Ele o acolherá com misericórdia.

Em segundo lugar, São José ajuda-nos pelo exemplo da sua bela vida, que nos ensina a melhor maneira de nos
assegurarmos uma morte feliz. Como todas as coisas em nossa vida, a morte deve ter a sua preparação. Não há nada
mais certo do que a nossa morte; e nada é mais importante, desde que a morte decide da nossa eternidade.
Cumpre, pois, fazermos da nossa vida uma preparação para essa hora decisiva. A morte não é só o termo da vida; é o
resultado e, por assim dizer, o eco da vida. E não basta prepararmo-nos para morrer; devemo-nos manter sempre
prontos, porque a morte vem rápida e imprevista, e vem só uma vez. E em que consiste essa preparação, vemo-lo
pela vida de São José, pela sua pureza, pela sua piedade, pela sua infatigável dedicação, pelo seu amor a Jesus e
Maria.

Em terceiro lugar, a devoção a São José é um excelente meio para nos alcançar uma boa e santa morte. De maneira
geral, as nossas devoções são uma espécie de aliança, que durante a vida contraímos com os santos. Mas é
sobretudo na hora da morte que colhemos a recompensa. Portanto, frequente e diariamente, recomendemos a São
José a nossa hora derradeira. Ele não nos abandonará se nos tivermos colocado debaixo da sua proteção. Felizes
seremos nós se São José nos fechar os olhos!

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21/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

10. JOSÉ, “FILHO QUE CRESCE”

Como vimos, são José está inseparavelmente unido à pessoa e a vida do Salvador. Está, portanto ligado à própria
origem, à base do cristianismo. Destarte, ele não podia deixar de receber,na Igreja, honras e culto correspondentes à
sua dignidade. Esse culto tem suas raízesno relato do Evangelho, e desenvolveu-se maravilhosamente: o grão de
mostarda tornou-se árvore magnífica. Essa lei de progresso lento, de crescimento apenas perceptível, é uma lei do
cristianismo. Se ela se aplica a todo cristão, e ao próprio Salvador, então se verifica particularmente no que concerne
ao pai nutrício de Jesus. No culto de São José poderíamos distinguir, de alguma sorte, diversas estações, como o
fazemos com os meses do ano: poderíamos reconhecer um período preparatório, uma primavera, um verão.

O primeiro período prolongou-se até o século XII. Enquanto o Salvador, sua santa Mãe e grande número de mártires
eram objeto de um culto público e de solenidades religiosas, não se acham, no correr dos primeiros séculos, ao
menos exteriormente, senão vestígios relativamente pouco numerosos de uma homenagem prestada a São José. As
circunstâncias explicam que, nos primeiros tempos, a memória dos mártires fosse honrada de preferência à dos
outros santos. Na origem do cristianismo, tratava-se de defender contra os ataques do paganismo e da heresia a
divindade de Jesus Cristo e o seu nascimento virginal, muito mais do que afirmar a sua descendência da raça de
Adão e a realidade da sua humanidade. Sob este ponto de vista, ainda não era chegada a hora de prestar um culto
público a São José. É uma lei da Providência Divina o fixar a toda criatura o círculo da sua ação, e pôr a vida e as
diversas vicissitudes dessa vida em harmonia constante com o fito designado. Do mesmo modo que nesta terra, pela
sua paternidade legal, São José velou por algum tempo a divindade do Salvador, assim também, mais tarde,
desaparecendo, ele mesmo devia, pelo contrário, contribuir para focalizar ainda mais essa mesma divindade.

Todavia, os próprios séculos não deixaram de dar gloriosos testemunhos à grandeza do nosso santo. Os Doutores e
Padres da Igreja — Justino, Orígenes, Efrém, Crisóstomo, Jerônimo, — nas suas homilias e comentários, comprazem-
se em prestar homenagem a São José. Mais tarde, na Igreja do Oriente e em particular nos mosteiros e conventos,
achamos duas festas instituídas em sua honra. A arte cristã — como tivemos ensejo de observar — mostra-nos em
São José o chefe e o protetor da Sagrada Família. Temos disso um exemplo notável nos mosaicos de Santa Maria
Maior, que datam do século V.

A primeira estação dessa devoção principia no século XII, ao menos para a Igreja do Ocidente. Nessa época é o culto
de São José um fato historicamente atestado. Vozes possantes proclamam-lhe as grandezas: citemos São Bernardo,
Ruperto de Deutz, Hugo de São Vitor, Ludolfo de Saxe, sem falar de tantas outras almas santas, como santa
Margarida de Cortona, etc. A devoção de São José era cara à Ordem dos Dominicanos e à dos Franciscanos,
destacando-se os eminentes mestres escolásticos Pedro Lombardo, Alberto Magno, Tomás de Aquino, João Duns
Scotts, Boaventura, Durando e outros.

Mas é sobretudo no século XV que ela se expande. No concílio de Constança (1416), o douto Gerson, num discurso
eloquente, pediu fosse instituída na Igreja uma festa em honra do santo; e o mestre de Gerson, o célebre cardeal
Pedro d’Ailly, publicou o seu livro sobre as glórias e privilégios de São José. Em diversos lugares já se celebrava uma
festa de São José, e por quase toda a Europa eram consagradas igrejas ao Patriarca. Esse movimento foi
poderosamente secundado pelas pregações de três religiosos franciscanos: Bernardino de Sena (1418), Bernardino
de Felto (1487) e Bernardino de Busto (1500), assim como pelo famoso livro do dominicano Isolani, pelos escritos
teológicos do jesuíta Suarez (1617) e por Santa Teresa (1582), que colocou quinze de suas fundações sob a proteção
de São José.

A devoção ao nosso santo teve o seu verão a partir do século XVII. O jesuíta Cotton (1626) introduzia-a na corte de
França. Bossuet pronunciava o seu célebre panegírico de São José com tal êxito, que o papa Urbano VIII ordenou que
a festa do santo fosse, na França, uma festa feriada. O imperador Leopoldo I, em ação de graças pelo nascimento do
herdeiro do trono (José I) e pela libertação da cidade de Viena ameaçada pelos turcos, punha seus Estados sob a
proteção do glorioso Patriarca (1677) e, com autorização do Papa, prescrevia que a festa dos Desposórios de José e
de Maria fosse solenemente celebrada. Clemente XI (1714) compunha o ofício santo e ordenava-lhe a recitação na
Igreja universal. Bento XIII (1726), por solicitação do imperador Carlos VI e de várias Ordens religiosas, introduzia o
nome de José nas ladainhas dos santos.

Finalmente o zelo dos séculos XV, XVI, XVII e XVIII pela glória de São José teveo seu coroamento no século XIX.
Realizando os desejos expressos, havia muito, por fervorosos servos do Pai nutrício de Jesus, Pio IX (1847) quis que a
festa do Patrocínio de São José se estendesse a toda Igreja, que o mês de março todo fosse consagrado ao santo,
que enfim José fosse proclamado o Padroeiro da Igreja universal. Isto em 1870.Por seu turno, a 15 de agosto de
1889, Leão XIII, em eloquente encíclica, recomendava a devoção a São José.

Como se vê, nada faltava de então por diante à glória do nosso santo. Foi quase desde a origem do cristianismo, no
Oriente e, autenticamente pelo menos, a partir do século XII no Ocidente, que essa devoção se espalhou entre os
fiéis. Ela foi sempre crescendo e se precisando. A Igreja secundou esse surto das almas piedosas evidentemente
inspirada pelo Espírito Santo. Aprovou essa devoção, favoreceu-a. Cada século veio trazer sua contribuição ao
monumento assim levantado em honra de São José. O povo, os artistas (desde o século XV, sobretudo), os teólogos,
os escritores ascéticos, as Ordens religiosas, os santos e os sumos pontífices — todos trabalharam para a glória dele;
e o trono em que o colocaram só é inferior aos tronos de Maria e do Salvador. Assim verificou-se a palavra do
Senhor: — “Ele honra os que o honram”; “Aquele que foi o guarda de seu amo será louvado”; “O servo fiel será
estabelecido sobre todos os bens de seu amo” (Prov 27,18).

Com que magnificência recompensou Jesus os fiéis serviços de seu pai nutrício! Com que liberalidade indenizou-o de
uma demora que era conforme às disposições da Providência! Se a Igreja não prestou logo um culto público a São
José, invoca-o agora como seu Padroeiro especial: — “Em vossas mãos está a nossa salvação”, diz-lhe ela; “Lançai
sobre nós os vossos olhares, e com alegria serviremos o Rei” (Gn 47,25).
José, filho de Jacó, o ministro do Faraó, foi, segundo a Sagrada Escritura, “um filho que cresce”. Cada uma de suas
provações trazia-lhe em definitivo um acréscimo de glória e de autoridade, quer Ele ainda estivesse debaixo das
tendas do pai, quer na casa do sacerdote do sol, quer na prisão de onde saiu para se tornar o senhor do Egito. Aqui
ainda, São José é bem superior ao filho de Jacó. É nele que se realizam as promessas feitas por Jacó a seu filho de
predileção: — “José, filho que cresce... O Todo-Poderoso abençoar-te-á com as bênçãos do céu e com as bênçãos do
abismo profundo. As bênçãos de teu pai são fortalecidas pelas bênçãos de seus pais, até que venha o objeto do
desejo das colinas eternas: repousem elas sobre a cabeça de José, sobre a cabeça daquele que é Nazareno entre seus
irmãos”(Gn. 49,22).

As promessas de Deus cumprem-se devagar, mas com magnificência!

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22/03 - Em honra a São José - excertos do livro


SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja

Pe. Maurício Meschler, S.J.

Edição de 1943

11. CONCLUSÃO

A Sagrada Escritura nos ensina que o povo de Deus, ao sair do Egito, levou consigo os ossos de José, por gratidão
para com aquele que seu benfeitor (Ex 13, 19). Devem os cristãos menos gratidão a São José? Por certo, lhe devemos
muito mais. Paguemos a nossa dívida por uma filial devoção ao nosso glorioso benfeitor.

Vejamos como se pode praticar essa devoção. Os fiéis servos de São José não deixam passar nenhum dia sem honrá-
lo por um ato de piedade, sem invocá-lo e sem se porém debaixo de sua proteção. Em cada semana, um dia, a
quarta-feira, lhe é especialmente consagrado. Este costume data de meados do século XVII; nasceu num convento
de beneditinos, em Châlons. — Com esse intuito pode-se recitar o pequeno ofício das Alegrias e Dores de São José.
Os Papas Pio VII, Gregório XVI e Pio IX concederam indulgências a essa recitação.

No curso do ano eclesiástico, temos três festas em honra do nosso santo: a festa propriamente dita de São José a 19
de março, instituída pelo Papa Sixto IV, no século XV; a festa dos Desposórios a 23 de janeiro, celebrada desde o
século XVI nos conventos dos franciscanos e dominicanos, e depois estendida à Igreja inteira pelo Papa Inocêncio XI,
desde o reinado do imperador Leopoldo I; por fim, a festa do Patrocínio de São José, no terceiro domingo depois da
Páscoa (*) prescrita por Pio IX em 1847. Já dissemos que o mês de março foi consagrado a São José pelos Papas Pio
IX e Leão XIII. Além disso, cada uma das festas acima lembradas pode ser precedida ou seguida de uma piedosa
novena.

Na série das festas eclesiásticas, larga parte é, pois, dedicada à devoção de que falamos e não temos senão que
atender aos convites da Igreja. Mas, além disso, as circunstâncias pessoais, as nossas necessidades, dificuldades e
provações de cada dia oferecem- nos continuamente ensejo de praticar essa devoção, de recorrer à São José, de
reclamar-lhe a assistência.

É ainda uma excelente prática o solicitar cada dia três graças por intercessão dele: a graça de amar sempre mais a
Jesus e a Maria; a graça de saber, a seu exemplo seu, unira vida interior à exterior; e a graça preciosa de uma boa e
santa morte. Não é esse, aliás, o tríplice caráter da vida de São José? E parece que ele tem juto a Deus um crédito
especial para nos alcançar essas mesmas graças.

A guisa de conclusão resta-nos lembrar alguns dos motivos que nos devem inspirar uma devoção confiante em São
José. Primeiramente São José merece as nossas homenagens pela sua eminente santidade. Ele nos toca de perto,
interessa-se por nós, e sabemos de que benefícios lhe somos devedores. Como vimos,ele se liga às próprias origens
do cristianismo, visto ser o pai legal do Nosso Senhor Jesus Cristo. O Senhor reconheceu-lhe esse título, foi-lhe
submisso, quis depender dele, santificou-o pela sua presença durante longos anos. Entre as santas relíquias
consagradas pelo contato do Verbo Encarnado, haverá uma só que tenha participação mais dessa consagração? Seus
olhos contemplaram tantas vezes o Salvador, suas mãos o tocaram, seus braços o carregaram! Seu coração pulsou
ao contato do Coração do Menino-Deus. O que São José fez por Jesus, faz por nós. Provemos-lhe, pois, a nossa
gratidão! Nunca lhe testemunharemos tanta gratidão como ele merece efetivamente.

Em segundo lugar, São José tem direito às nossas homenagens em razão do caráter todo amável da sua santidade.
Ele é o esposo de Maria, seu protetor e arrimo. É o anjo da guarda da santa infância de Jesus. Aparece com Jesus
Menino, e desaparece após a infância do Salvador. Por isso, o símbolo da sua missão especial e do seu papel no
plano divino não é outro senão o próprio Jesus: representa-se São José segurando Jesus nos braços ou estreitando-o
ao coração.

Amáveis são também as virtudes do nosso santo: pureza, fidelidade, abnegação, humildade, sabedoria, caridade; e
cada uma dessas virtudes convida-nos a escolhê-lo para o nosso conselheiro, protetor e pai; a dar-lhe por nossa vez
toda a confiança que Jesus e Maria lhe testemunharam.

Em terceiro lugar, São José merece as nossas homenagens e a nossa confiança por ser — permita-nos a expressão —
um santo “prático”, particularmente em condições de nos auxiliar em todas as nossas necessidades. A sua vida
passou por todas as alternativas da existência humana. Conheceu as alegrias e as provações desta. Como Leão XIII o
faz notar numa encíclica, parece que Deus quis assim dar-nos em São José um modelo em todas as circunstancias
que podem ser as nossas, um protetor tanto mais útil quanto maior a sua experiência. São José sabe, porque o
experimentou, o quanto pode ser pesada e difícil a missão de um chefe de família, quando está a braços com a
pobreza ou com a perseguição. Conhece, por experiência, o que é mandar ou obedecer. Em toda realidade, ele
santificou por sua vida o estado conjugal e o estado da virgindade, a vida no mundo e a vida religiosa, a vida ativa e a
vida contemplativa. Coroou a sua vida pela mais santa das mortes.

A sua experiência estende-se a tudo. A sua proteção não exclui nada. É em particular nas circunstâncias cotidianas
de existência, nas cruzes e nas provações da vida ordinária, que ele parece aproximar-se ainda mais de nós e
assegurar-nos um socorro eficaz. Ele foi colocado sobre toda a casa do Senhor, é o Pai da grande família do Salvador.
A sua caridade, a sua autoridade tornam-no, pois, acessível às necessidades de todos. Foi dito de José, filho de Jacó,
que tudo lhe prosperava nas mãos (Gn39,3). Apalavra aplica-se melhor ainda ao nosso santo patriarca. Seu nome é
invocado em toda parte. Seus clientes são inúmeros. Mas o seu crédito e a sua caridade nunca se esgotam.

Enfim, São José não é só um santo “prático”, é um modelo singularmente apropriado à nossa época. É um santo
“moderno”. Toda época tem seus perigos e suas necessidades particulares e, no seu amor e na sua infinita sabedoria,
Deus opõe a esses perigos e a essas necessidades o remédio de que necessitam. Desde alguns anos, um novo poder
firmou-se na nossa sociedade: o temível poder dos trabalhadores, dos operários. Não falamos daqueles que
trabalham como Deus quer que se trabalhe, que trazem ao seu labor os sentimentos cristãos do dever cumprido, da
confiança guardada apesar de tudo. Desses, nada há a temer. O trabalho assim compreendido é tão antigo como o
mundo, é o apanágio de todos os filhos de Adão, é uma honra para o homem. Esse trabalho, Deus o abençoou,
santificou, por assim dizer, o divinizou em Nosso Senhor Jesus Cristo. Falamos do trabalho suportado sem trégua,
sem resignação, sem o menor pensamento em Deus, sem nenhum sentimento sobrenatural. É uma fonte de
egoísmo, de cupidez, que, em vez de apagar, acende a sede dos gozos. É um princípio de orgulho, é o homem a
divinizar-se a si mesmo. É a aspiração à independência. É a loucura de querer criar por si mesmo e de, para chegar a
esse fim, subverter a antiga ordem das coisas, afim de, sobre as ruínas amontoadas, suscitar uma sociedade sem
Deus e sem religião. No fundo, temos aí o materialismo, a anarquia, o ódio das raças e das classes.

Onde está o remédio que Deus preparou para tantos males? Onde está o homem novo? Onde a autoridade nova
que tomará a defesa do direito, da honra devida a Deus,do verdadeiro progresso da humanidade?Esse homem é
aquele, cuja vida foi uma vida de sacrifícios no dever, de obediência, de confiança em Deus, de humildade, de
trabalho. Esse homem é São José, o homem do silêncio, nobre pelo nascimento, humilde por sua escolha. É aquele
que, salvando a Sagrada Família, já uma vez salvou a Igreja dos seus perseguidores. E compreendemos como e
porque, mormente desde o último século, Deus inspirou à sua Igreja multiplicar as honras prestadas a São José.
Compreendemos como e porque, precisamente no momento em que a crise temível irrompia, São José foi
proclamado Padroeiro da Igreja universal. É a ele que estão confiados os destinos da Igreja. Tenhamos confiança
nele: ele sabe proteger-nos.
Terminemos por estas palavras de Santa Teresa (Livro da vida, cap. VI), feitas para nos inspirarem, em todas as
circunstâncias, a mais inteira confiança em São José.

— “Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José, e encomendei-me muito a ele... Não me recordo de lhe haver,
até esta hora, suplicado graça que tenha deixado de alcançar. Coisa admirável são as grandes mercês que Deus me
há feito por intermédio desse grande santo, e os perigos de que me há livrado, tanto corporais como espirituais. A
outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa determinada necessidade; quanto ao glorioso
São José, sei por experiência de que socorre em todas. Quer o Senhor dar a entender que, como lhe foi sujeito na
terra —- pois São José na qualidade de pai, embora adotivo, podia mandar- lhe — assim no céu atende a todos os
seus pedidos. O mesmo, por experiência, viram outras pessoas a quem eu aconselhava que se encomendassem a ele;
e hoje há muitas que lhe são devotas e que verificam cada dia esta verdade.

...De alguns anos para cá, parece-me que sempre, no dia de sua festa, lhe peço alguma coisa e nunca deixei de a ver
cumprida. Se o pedido não é muito razoável, ele o endireita para o meu maior bem. Não conheço pessoa que deveras
dele seja devota e lhe renda particulares obséquios, que não medre na virtude, porque muitíssimo ajuda ele às almas
que se encomendam ao seu patrocínio... Só peço, por amor de Deus, que o experimente quem não me crer; e verá por
experiência o grande bem que faz encomendar-se a este excelso Patriarca e ter-lhe amor. Em particular as pessoas
de oração sempre deveriam ser-lhe afeiçoadas. Não sei verdadeiramente como se pode pensar na Rainha dos Anjos,
no tempo que passou com o Menino Jesus, sem dar graças a São José pelo auxilio que lhes prestou. Quem não
encontrar mestre que lhe ensine, tome este glorioso santo por mestre,e não errará no caminho”.

__________

(*) Atualmente, na 4ª feira após o 3º domingo.

http://almasdevotas.blogspot.com/2014/03/2203-em-honra-sao-jose-excertos-do-livro.html

O que é a Igreja?
Por Maurice Meschler, “O dom do pentecostes”, p. 85-94.

O Espírito Santo manifesta-se de modo claro na criação do universo e no Antigo Testamento. Não obstante, isso não
é mais que o prelúdio, a preparação, um simples esboço do que devia fazer na Igreja do Novo Testamento. A Igreja
dos nossos dias é a obra do Espírito Santo. Examinemo-la cuidadosamente e vejamos o que ela é, e quais as relações
que com ela tem o Espírito Santo.

O que é a Santa Igreja Católica?

É uma sociedade viva, a reunião dos homens que, sob a direção do Vigário de Jesus Cristo, do Papa residente em
Roma, se propõe alcançar a salvação pela mesma fé, pela observância dos mesmos preceitos, e pela recepção dos
mesmos Sacramentos.

O fim desta sociedade é conseguir a salvação eterna, empregando os meios estabelecidos por Jesus Cristo. Para
alcançar este fim, a Igreja deve possuir as propriedades e dispor dos meios que estão em harmonia com Ele. Entre
estas propriedades ou atributos, ocupa o primeiro lugar a de ser única. Não pode haver mais que uma Igreja
verdadeira, porque Jesus Cristo não fundou muitas mas uma só; doutra sorte os homens encontrariam a mesma
salvação na verdade como na mentira. Deus é uno, e, do mesmo modo, a Igreja é necessariamente uma só.

A segunda propriedade da Igreja é a visibilidade. Jesus Cristo, o Homem Deus, fundou a Igreja para os homens,
dotando-a de leis e instituições em relação com a vida visível. Uma Igreja invisível suporia uma sociedade de puros
espíritos.

A terceira propriedade é que há de permanecer imutável até o fim dos tempos. A Igreja é o único caminho que nos
conduz a Deus; há de, por conseguinte, subsistir sempre e permanecer sempre a mesma.

Quais são as características da Igreja?

As propriedades da Igreja devem manifestar-se nela por sinais exteriores, que lhe sejam essenciais e a caracterizem
de tal modo, que se distinga sem dificuldade alguma e com certeza de outra qualquer Igreja.
Estes caracteres são:

1) a unidade, representada por um único chefe visível, o Papa, cuja autoridade doutrinal, pastoral, e sacerdotal,
produz e conserva a unidade interior na fé, nos preceitos e nos Sacramentos: não se chama verdadeira Igreja, senão
a que possui um chefe visível;

2) sua catolicidade, que, sem tirar à Igreja nada de sua unidade, deve dar-lhe uma extensão visível e assegurar a sua
propagação no mundo, de modo que todos a possam ver e contemplar, como se vê uma cidade edificada sobre o
cume de um monte;

3) a santidade que deve revelar-se constantemente na Igreja verdadeira pelos milagres e graças, que são a
característica que Jesus concedeu à verdadeira fé e santidade (Mc 16,17); a Igreja é santa se produz Santos em todos
os tempos, se Deus dá testemunho de sua santidade por meio de milagres;

4) a apostolicidade, isto é, a identidade da Igreja atual com a dos Apóstolos, com a mesma constituição e autoridade,
transmitida de um Pontífice a outro.

O sinal exterior, a prova desta herança da autoridade apostólica, é o que se chama a sucessão apostólica; a
transmissão da autoridade pastoral pela imposição das mãos e a sucessão que permite ir subindo de Pontífice a
Pontífice até S. Pedro. A Igreja que pode reivindicar para si este caráter e esta união com os Apóstolos é a verdadeira
Igreja, a Igreja apostólica, porque, à semelhança da Igreja dos tempos apostólicos, está fundada e estabelecida sobre
os Apóstolos e sobre Pedro; e porque possui a mesma organização e forma com ela uma só e única Igreja.

Os atributos que vimos de enumerar são próprios da mesma essência da Igreja. Mas para conseguir seu fim, que é a
santificação dos homens, deve ter também uma força e autoridade estabelecidas e exercidas por Jesus Cristo; a
autoridade doutrinal, pastoral, e sacerdotal, com pleno poder de se servir dela para a salvação dos homens. Tudo
isto está compreendido no magistério, no sacerdócio e nas funções pastorais da Igreja, de que adiante falaremos
mais particularmente. Estes meios, postos à disposição da Igreja, têm seu complemento nos dons gratuitos, nas
graças que imprime na sua fronte gloriosa o selo visível do poder e da Majestade divina, para a dar a conhecer no
mundo inteiro como única e verdadeira Esposa de Jesus Cristo.

Tal é a Igreja, a Igreja Santa, a Igreja Católica; tal é a sua natureza, sua organização, e a sua missão. Constituída deste
modo, com os meios necessários para a consecução do fim, é a verdadeira pátria das almas, a salvação do mundo, a
representante de Deus e nossa medianeira para com Ele na obra do Salvador, o Corpo Místico do mesmo Jesus
Cristo, que continua vivendo e aperfeiçoando sua obra, não somente por a haver fundado, mas por ser seu Chefe
invisível e lhe comunicar sem cessar seu poder e sua virtude para bem de nossas almas. A Igreja não tem outra
missão que a de Jesus Cristo, nos dias de sua vida mortal; é o instrumento vivo da ação de Jesus Cristo. É assim que
deve ser considerada. Não devemos contentar-nos em conservar para com ela os sentimentos de filho para com a
mãe; mas ver nela ao mesmo tempo Jesus Cristo. Depois dele, ela é tudo para nós.

Qual a relação do Espírito Santo com a Igreja?

Examinemos agora as relações íntimas e essenciais que unem o Espírito Santo com a Igreja. Estas relações são três.
Primeiro: O Espírito Santo pertence realmente à Igreja, pois que o Salvador o afirma em termos claros: “O Pai dar-
vos-á outro Consolador... Ele permanecerá e estará convosco.” (Jo 14,16-17). “Se não me for não vos virá o
Consolador; porém se for, enviar-vo-lo-ei.” (Jo 16, 7; cf. 16, 13 s).

O Espírito Santo é também chamado a promessa do Pai e esta promessa tem seu cabal cumprimento no dia do
Pentecostes, ao ser enviado sobre os Apóstolos. Ele pertence, pois, à Igreja pela vontade de Jesus Cristo, e sem Ele
ficaria imperfeita, como o afirma o Evangelho: “Não nos foi dado ainda o Espírito Santo, porque Jesus Cristo ainda
não foi glorificado.” (Jo 7, 39). Esta é a doutrina dos Padres. S. Ireneu escreve: “Onde está a Igreja, está o Espírito de
Deus, e onde está o Espírito de Deus, aí está também a Igreja”; noutro lugar, chama ao Espírito Santo “o dote da
Igreja” [1], “o dote, o sopro vital da Igreja, a união com Jesus Cristo”.

Por sua parte, S. Agostinho dá à Igreja o nome de cidade e casa do Espírito Santo.[2] Estes Santos Padres expõem
argumentos irrefutáveis em favor de sua doutrina. Um daqueles a que recorrem frequentemente é que a Igreja é o
Corpo de Jesus Cristo[3], e assim como o nosso corpo para viver necessita da alma, do mesmo modo o Corpo Místico
de Jesus para viver necessita do Espírito Santo.[4] O Esposo e a Esposa não são senão um numa só carne; igualmente
Jesus Cristo e a sua Igreja não são mais que um só espírito, que é o Espírito Santo. Se a Igreja é a Esposa e o Corpo
Místico de Jesus, deve também possuir ao Espírito Santo, pois que sem Ele de nenhum modo seria a Igreja de Jesus
Cristo.

Segundo: O Espírito Santo pertence à Igreja, não como mero adorno inútil, mas como fazendo parte da essência
mesma da Igreja, de maneira que sem Ele não poderia obrar nem existir, tal como ela deve ser. É ao Espírito Santo
que ela deve tudo o que é e particularmente as propriedades que possui. É por Ele que é a única Igreja verdadeira.
Só ela recebeu o Espírito Santo, e a alma não anima mais que um corpo e os membros unidos com esse corpo. “Um
só corpo, um só espírito”, diz o Apóstolo. O Pai e o Filho são um no Espírito Santo; igualmente a Igreja é una em o
mesmo Espírito. Além disso, como é que a Igreja se toma visível, em seu magistério, sacerdócio e ministério, senão
pela ação e pela direção do Espírito Santo? Esta direção é tão manifestamente divina e esta ação tão evidentemente
sobrenatural, que são uma prova irrefragável e visível da presença do Espírito Santo na Igreja.

Quem conserva a Igreja sempre a mesma, interior e exteriormente, senão o Espírito Santo? Assim como a santa
Humanidade de Jesus, por sua união hipostática com a segunda Pessoa da SS. Trindade, participa de todas as
prerrogativas da Divindade, do mesmo modo a Igreja é imutável, na santidade e na verdade, porque está
indissoluvelmente unida ao Espírito Santo que é a Verdade, a Santidade e o Amor imutáveis.

O que há de verdade nas propriedades da Igreja é igualmente verdadeiro, quando se trata de seus caracteres
visíveis. O distintivo visível da unidade é a existência de um só chefe visível, que dá unidade espiritual a todos os
membros do Corpo da Igreja. Pois bem, o princípio desta unidade é o Espírito Santo que, unindo o Chefe invisível,
Jesus Cristo, com o Papa, Chefe visível, e depois a este com todos os membros, e aos membros entre si e com o
Chefe, forma um único todo espiritual.

Daqui se deduz que a unidade do Espírito Santo é o princípio da unidade da Igreja. A catolicidade é a unidade na
multiplicidade e na extensão; por conseguinte o Espírito Santo, princípio da unidade, é também princípio da unidade
da Igreja e de sua propagação. É quem dá ao Corpo Místico da Igreja sua vida, perfeição, desenvolvimento. A
Santidade, esse distintivo próprio e exclusivo da verdadeira Igreja, manifesta-se pelos milagres, com os quais Deus
não cessa de testemunhar a santidade dos membros da Igreja. A apostolicidade funda-se na transmissão do poder
que se faz pela consagração e na sucessão dos Bispos uns aos outros, até chegar aos Apóstolos; e como quer que a
imposição das mãos e os milagres sejam operações atribuídas ao Espírito Santo, segue-se que todas as propriedades
da Igreja e todas as condições de sua existência têm o seu princípio no Espírito Santo.

O que dizer, agora da aplicação e uso destas propriedades e energias da Igreja para a salvação do mundo?

Os Padres que acima citamos chamam ao Espírito Santo a alma da Igreja, o sopro vital que a anima, conserva e guia;
e em verdade nada há mais exato.

Quando a Igreja começou a viver e a operar?

No dia de Pentecostes. Já antes daquele dia, a Igreja estava constituída e organizada em suas partes essenciais; e
provida de todos os poderes necessários; a doutrina tinha sido publicada; os Apóstolos, eleitos; instituídos os
Sacramentos, estabelecida a hierarquia; e sem embargo a Igreja não dava sinais de vida, nem saía de sua inatividade,
as forças divinas com que estava dotada dormiam, por assim dizer, e sua missão divina estava suspensa; não se
pregava, nem se batizava, nem se perdoavam pecados, não se oferecia o Santo Sacrifício; judeus e pagãos
esperavam impacientes que se abrissem as portas da Igreja e as portas permaneciam fechadas; a Igreja estava
mergulhada em profundo sono, como Adão antes de lhe ser comunicado o sopro de vida; assemelhava-se a uma
gigantesca e poderosa máquina já completa, mas a qual a mão do mecânico ainda não pôs em movimento; ou a um
navio disposto a sulcar as ondas do mar ao primeiro sinal.

Assim permaneceu a Igreja até a hora nona do dia do Pentecostes, em que o Espírito Santo desceu sobre ela, com o
ruído de um vento violento, sob a forma de línguas de fogo. Então tudo muda de repente, tudo se anima, todas as
forças entram em atividade. Os Apóstolos saem do Cenáculo, falam em diversas línguas, obram milagres, pregam em
público e diante dos tribunais, percorrem toda a terra. As multidões convertem-se à Igreja; derrama-se a água
batismal; e sobre o altar se oferece o Sacrifício que renova sem cessar a imolação do Filho de Deus e concede à
Igreja o gozar da presença contínua de Jesus Cristo.
É no Pentecostes que lhe começa a vida maravilhosa; é o Espírito Santo quem lhe dá o princípio e a conserva. Se em
dias funestos perde algo do seu vigor, se a lâmpada do santuário se obscurece e as sentinelas da Igreja adormecem,
o Espírito Santo incumbe-se de suscitar heróis que converte em instrumentos seus, de despertar da letargia os que
dormem para purificar o seu santuário e varrer dele o pó do mundo; ou senão de chamar a tempestade para que
sacuda o edifício que ameaça ruína, abra brecha nas muralhas, e então os obreiros negligentes recobrem as energias
perdidas, reparem os danos e defendam a casa de Deus.

(...)

Esta união do Espírito Santo com a Igreja não depende da vontade, nem da cooperação dos homens, como depende
a sua missão com as almas em particular. Enquanto a Igreja for o Corpo Místico de Jesus Cristo, enquanto durar a
união de Jesus Cristo com o Espírito Santo, há de permanecer na Igreja. Esta união é realidade divina, fato
consumado. Assim como em Jesus Cristo a natureza divina e a natureza humana formam uma só pessoa pela união
com o Verbo, sem que esta união jamais possa cessar, assim Jesus Cristo está unido para sempre com seu Corpo
Místico no Espírito Santo.

(..)

Tal o mistério da Igreja realizado pela vinda do Espírito Santo pela sua presença e por suas operações. A Escritura
diz-nos, falando do Cenáculo do Monte Sião, que o Espírito Santo baixou sobre Ele e se colocou sobre cada um dos
Apóstolos (At 2, 2-3). O mesmo se pode dizer da Igreja. O Espírito Santo desce sobre toda a Igreja, edifica-a, enche-a
de vida e atividade, guia-a e governa-a no sentido mais verdadeiro do vocábulo. A Igreja é a sua obra, o edifício que
Ele construiu; basta tocar-lhe para que brote dela o fogo, o resplendor, a vida, a majestade do Espírito Santo.
Quando se leem os Atos dos Apóstolos, que não são mais que a primeira página da história da Igreja, encontra-se
neles a cada passo o nome do Espírito Santo e se vê que tudo se atribuía a Ele. Os quatro Evangelhos são a história
do Salvador, e poderia dizer-se que os Atos dos Apóstolos são o Evangelho do Espírito Santo.

[1] Advers haeres, 1. 3, c. 24.

[2] Em De fide, spe et charitate, c. 56.

[3] Enarr. in Ps. XVIII, n. 10; Ser. 341, c. 10.

[4] S. Agost., Serm, 268, c. 2.

http://www.cultor.com.br/2017/09/o-que-e-igreja.html

A soberania da caridade
Maurício Mescheler, em “O dom de Pentecostes”.

Devemos entregar-nos ao exercício da Caridade. Por quê? Em primeiro lugar, porque nada há mais sublime e
excelente do que ela, que é a mais nobre das virtudes. Como virtude teologal, excede todas as virtudes morais, e
mesmo entre aquelas é a mais perfeita, porque supõe a Fé e a Esperança e adora a Deus mais perfeitamente. É a
raiz, a alma, o fim e o complemento de todas as outras virtudes, visto que nos une a Deus como nosso soberano
Bem, anima e dirige as outras virtudes e todos os seus atos a este mesmo fim.[1]

Ela é suficiente para nos assegurar a felicidade eterna; contém em si todos os preceitos, aos quais satisfaz
plenamente, tem por companheiras todas as virtudes, justifica-nos, fazendo-nos entrar na amizade de Deus, é a
comunicação da Caridade divina, o paraíso na terra, atrai para Deus no gozo e na alegria, engrandece-se e dilata-se
até ao Céu, onde permanece sem mudança alguma.

Uma só coisa pode ser melhor que ela — a luz da glória no Céu; e mesmo esta é o complemento da Caridade na
outra vida pela posse da eterna felicidade. A caridade é verdadeiramente Rainha, Rainha nobilíssima, Rainha divina,
Rainha por sua origem e pelo cortejo de virtudes que, como princesas, a acompanham, Rainha pela autoridade que
exerce, pois tudo dirige ao fim supremo, Rainha pelo poder e glória, pois impera no Céu e na terra. A este propósito
diz a Imitação de Cristo: “Grande coisa é o amor, e bem que excede toda ponderação”.[2] O amor é o tesouro de Deus
e dos homens.

Segundo: Deus quer que tenhamos Caridade e impõe-nos isto como preceito. Ordena-nos que o amemos a Ele sobre
todas as coisas. O preceito de amar a Deus é o principal do decálogo e estende-se a todas as faculdades e potências
do homem. Devemos amar a Deus com todo o nosso coração, isto é, com toda a nossa vontade, entendimento e
sensibilidade, com todas as forças de nosso corpo e nossa alma que estão sob a dependência do entendimento e
vontade (Mc 12, 30). Este é o preceito do amor.

Poder-se-ia perguntar por que Deus quer O amemos deste modo. Certamente não porque tenha necessidade do
nosso amor, mas porque é consequência necessária de sua sabedoria e santidade. Conhece-se a si mesmo e em si vê
o supremo Bem, o Bem infinito, digno de todo o amor, e estes atributos exigem que todas as criaturas racionais O
amem sobre todas as coisas, unicamente por ser Ele quem é. Mas será possível cumprir com perfeição o preceito do
amor? É fora de toda dúvida que não podemos amar a Deus como Ele merece. Deus é infinitamente bom,
infinitamente amável, e nós não somos capazes de ato de amor infinito. Só Ele pode amar-se como merece amado;
nós devemos contentar-nos com amá-Lo quanto pudermos.

É certo que nesta vida não podemos pensar em Deus sem interrupção, nem produzir um contínuo ato de amor; isto
só é possível no Céu. Todavia podemos oferecer a Deus nosso coração, por tal modo que não pensemos nem
queiramos voluntariamente coisa alguma que seja oposta ao seu amor, bem como podemos, tanto quanto a nossa
fraqueza o permita, afastar-nos das coisas da terra e dar-nos à oração e às coisas espirituais. A estes dois pontos se
reduz a perfeição do amor a que podemos aspirar neste mundo.

Terceiro: É conveniente e justo amar a Deus, por Ele ser quem é, e amá-Lo mais que a todas as coisas, por ser
infinitamente amável. Que é o que o homem ama? Seus semelhantes. E em seu semelhante que ama? A bondade, a
beleza. Pois a bondade e beleza encontram-se em Deus de maneira perfeita. Pela fórmula do preceito, podemos
formar ideia da beleza de Deus e de sua amabilidade, pois que nos manda que O amemos mais que todas as coisas,
ainda mesmo aquelas que a nossa imaginação possa idear como as mais amáveis.

(...)

Tudo isto pode ser motivo para amar a Deus; para aprender, porém, a O amar com todo o nosso coração, para
adiantar na ciência dos Santos, devemos entrar na escola do Espírito Santo. É o melhor Mestre nesta ciência, porque
é o mesmo Autor. E como é que nos instrui e forma neste amor? Primeiramente, pela oração. Orar é conversar com
Deus, é o caminho para aprender a conhecê-Lo em seus magníficos atributos, em suas maravilhosas obras, nos
inumeráveis benefícios da criação, conservação, santificação e perfeição, e na Igreja por Jesus Cristo.

Lembrar-nos viva e frequentemente dos benefícios de Deus é um dos meios recomendados para excitar o nosso
amor. Mas esta lembrança não despertará também a lembrança de nós mesmos? O amor de reconhecimento não é
amor de concupiscência? No benefício devemos considerar não só a dádiva que recebemos, mas também a bondade
daquele de quem procede. Este amor é atributo divino que nos mostra a bondade de Deus, e o amor desta bondade
é um amor puro.

O amor em grande parte depende do grau de conhecimento do objeto amado; mas o que impressiona nossos
sentidos atrai mais viva e profundamente. Por isso, os benefícios de Deus possuem força particular para excitar o
amor nos corações. A bondade de Deus apresenta-se a nossos olhos de modo iniludível; quase a tocamos com as
mãos.

Finalmente, na oração, Deus opera por meio de sua graça, a qual é para o amor, como para todas a virtudes
sobrenaturais, luz e calor. A este mesmo fim estão ordenados os Sacramentos, por meio dos quais o Espírito Santo
nos faz avançar na Caridade. Todos os Sacramentos produzem a Caridade ou a desenvolvem; o efeito de alguns,
como a Sagrada Comunhão, consiste especialmente em aumentar esta virtude.

Depois, o Espírito Santo forma-nos para o amor pela abnegação de nós mesmos. O amor de Deus não pode
desenvolver-se em nós, enquanto estivermos possuídos de amor próprio. Estes dois amores lutam em nosso
coração; quanto mais mortos estivermos para o amor das criaturas e para o prazer que nos elas podem
proporcionar, quanto mais mortos estivermos para nós mesmos, tanto mais crescerá o amor de Deus em nosso
coração. Toda a ação do Espírito Santo tende a este fim: morrermos para criaturas e para nós mesmos. Para alcançar
e progredir na Caridade são também — e digamo-lo de passagem — meios eficacíssimos a castidade e a virgindade.

Por último, o Espírito Santo faz servir também a este fim os sofrimentos e as contradições. Para nos inspirar o
desgosto do mundo, purificar nosso coração, elevá-lo para Deus e infundir-lhe o amor das coisas celestiais, nada há
mais útil que a cruz e a adversidade; estas são o crisol da caridade, cuja máxima perfeição consiste em buscar a cruz
e desejá-la. O amor à cruz forma o admirável distintivo da santidade e de sua origem divina.

Finalmente, o Espírito Santo nos ensina o amor, fazendo-nos amar. A ler e escrever aprende-se lendo e escrevendo:
do mesmo modo a amar aprende-se, amando. Devemos, pois, excitar-nos todos os dias em atos de amor.

Eis alguns atos: propormo-nos sofrer tudo, sacrificar tudo, antes que perder a amizade de Deus, antes que
desagradar-Lhe; lembrarmo-nos frequentemente de sua beleza e de seu amor e deixar que a alma se absorva nestes
pensamentos; elevarmo-nos até Ele pela contemplação das coisas terrenas. Regozijarmo-nos na excelência dos
atributos divinos, desejarmos dar a Deus a maior honra e glória, fazer todas as nossas ações por amor, entregarmo-
nos como filhos à sua vontade, afligirmo-nos por tudo o que se oponha à sua glória e, ao contrário, alegrarmo-nos na
medida de nossas forças em propagar a sua glória e dilatar o seu Reino. Unirmo-nos em intenção a todos quantos
trabalham e sofrem por este fim, a todos os atos de amor que se oferecem à sua divina Majestade no Céu e na terra,
particularmente aos oferecidos por intermédio dos sacratíssimos Corações de Jesus e Maria; finalmente, oferecer-
Lhe o amor com que Ele se ama desde toda a eternidade.

[1] Veja-se o que diz São Paulo acerca da caridade, 1Cor 13. Poder-se-ia julgar que todas as outras virtudes não são
para ele mais que simples atributos da caridade. (Cf. 1Tm 1, 5; Rm 13, 10).

[2] Livro III, cap. 5.

Um homem de vida interior


Pe. Maurício Meschler, S.J., “São José na vida de Cristo e da Igreja”, p. 115-120.

Como tivemos ocasião de observar, São José é um santo oculto. Sua vida exterior passa-se na sombra e no silêncio. A
sua vida interior – aquela em que ele é particularmente admirável – também é sombra e obscuridade. Nele, a
sombra atrai a sombra.

A vida do nosso santo não oferece aos olhares nada de extraordinário, nada que provoque atenção. Dos seus
primeiros anos nada sabemos. Ele só nos aparece no momento do advento do Salvador. Descende da família de
Davi, decaída do seu antigo esplendor. Os seus dias, na maioria, transcorrem na pequena povoação de Nazaré, que
motivou a pergunta: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1,46) e ele não parece haver exercido ali qualquer
função oficial. Conhecem-no simplesmente como um carpinteiro – profissão que não tem nada de glorioso. Quanto à
sua missão especial e pessoal de pai legal de Jesus, por mais bela e mais sublime que seja em si mesma, ela
precisamente requeria a sombra e o silêncio. Os profetas, os apóstolos e os mártires proclamaram a divindade de
Jesus e, por isso mesmo, adquiriram a glória. Ao contrário, a missão de São José, durante a sua vida inteira, foi
encobrir essa divindade.

Já o vimos: ele foi a sombra do Pai Celeste não só representando o Pai junto de Jesus, mas ainda velando aos olhos
do mundo a divindade do Salvador, visto como aos olhos de todos ele era o pai do Menino. Ora, a sombra não é só o
silêncio. Ela cobre com mistério tudo o que lhe entra na esfera. Velando a divindade de Jesus, São José velava
também o milagre realizado em Maria: a virgindade e a maternidade divina.

Essa missão especial, José aceita e cumpre-a de todo o coração, sem desmenti-la uma só vez durante a vida inteira.
Ele quer ser oculto, quer permanecer oculto. Mas isso não bastava. Que maravilhas poderia ter ele revelado falando
da Virgem admirável, objeto de profecias tão numerosas e luminosas, esperança do povo de Deus! Ele abriga sob o
seu teto o Messias esperado com tanta impaciência e não trai com uma só palavra o seu segredo! Leva-o consigo
para o túmulo.
Quando vêm os dias em que o Salvador realiza seus milagres, quando a glória da Ressurreição transforma em triunfo
os sofrimentos e as humilhações da Paixão, José já não é deste mundo. Mesmo quando o cristianismo alarga as suas
conquistas, o nosso santo ainda permanece na sombra até que venha a hora de se lhe prestar um culto bem
merecido.

Tal foi a prodigiosa vocação de José: ser a sombra, projetar a sombra sobre si mesmo e sobre tudo o que entra na
sua esfera, sobre o próprio Deus.

A sua vida exterior foi, pois, uma vida oculta. Mas isso não bastava. Era necessário que essa vida oculta fosse
igualmente uma vida interior. Assim o pedia a missão do santo patriarca. Ser o guarda e o protetor da vida oculta de
Jesus era a vocação de São José. Ora, essa vida oculta do Salvador era essencialmente uma vida interior. Para velar
por essa vida, era precisa uma alma, um santo que amasse e praticasse a vida interior.

Que vem a ser essa vida interior? É o lado espiritual, o lado melhor da vida humana. É a vida que confere ao homem
uma grandeza e um valor muito acima das aparências da vida exterior. Ela consiste na parte que a alma, o espírito do
homem, pelo seu lado superior e sobrenatural, toma nos atos exteriores. É o homem vivendo para Deus, de Deus e
em Deus. Assim sendo, para frisá-la em alguns traços, a vida interior consiste sobretudo na pureza do coração, na
fuga de tudo o que pode desagradar a Deus e tornar-nos menos agradável a seus olhos, portanto, na fuga de toda
falta voluntária e ainda na vigência sobre o nosso interior. Consiste, além disso, em nos esforçarmos por transformar
todos os nossos atos exteriores em outros tantos atos de virtude – de uma virtude sobrenatural; transformá-los em
outros tantos méritos perante Deus, dando-lhes uma intenção reta e sobrenatural. Consiste, enfim, em
conversarmos diretamente com Deus pela oração e em correspondermos fielmente às suas inspirações.

Eis aí, praticamente, a vida interior. Tal deve ter sido a de São José. Mas quem nos fará compreender sua a
perfeição? Pensemos na missão gloriosa de José, pensemos nas graças que Deus lhe concedeu dessa missão! Se
desde o primeiro instante de sua existência Maria recebeu uma plenitude transbordante de dons celestes, porque
devia ser a mãe do Salvador, José, cuja missão tem mais de uma analogia com a de Maria, deve ter por sua vez
recebido as graças correspondentes à sua alta vocação. Esse capital de graças não pôde senão multiplicar-se pela
prática da vida interior, e frutificar tanto mais quanto a vida exterior do nosso santo era mais humilde e, de alguma
forma, mais comum. Além disso, uma contínua intimidade com o Salvador e com Maria favorecia singularmente o
progresso da vida interior.

Que pureza nos pensamentos de José, suas intenções, pois, fruindo da sociedade de Jesus, ele estava
incessantemente, como os anjos, em presença do Deus três vezes santo! Que recolhimento em suas ações, desde
que a sua vida toda estava, por isso mesmo, diretamente consagrada ao serviço de Deus, à execução dos conselhos
divinos!

Que fervor na caridade, pois tudo em torno dele, tudo o que ele via, tudo o que ouvia, eram outras tantas revelações
do amor de Deus, outras tantas inexauríveis fontes de graças, outras tantas manifestações da sabedoria e da beleza
divinas! José estava imerso em Deus. A luz de Deus banhava-lhe a vida interior, como a luz do astro das noites
transparece através da nuvem que a vela por um instante.

São José é o melhor modelo da vida interior. Sem dúvida, ele não era a luz que impõe a atenção e fere todos os
olhares. Compará-lo-íamos antes a um perfume cujo aroma respiramos sem reconhecer sempre de onde se exala.

O nosso santo é, pois, ainda agora, na Igreja, o padroeiro da vida interior. Essa vida interior faz a sua grandeza. Ela
lhe é necessária. Sem ela, ele não teria passado de uma sombra vã diante dos homens e diante de Deus. Ter-se-ia
assemelhado a esses ricos e a esses grandes do mundo de quem a Escritura diz, que “no seu despertar, nada
acharam nas suas mãos” (Sl 76,6). Com ela e por ela, José foi rico diante de Deus. Foi grande da grandeza do próprio
Deus. Por ser Deus, e por ser infinitamente feliz em Si mesmo, Deus nos é oculto, silencioso, invisível. E é a vida
interior que nos associa a essa grandeza de Deus, porque ela consiste essencialmente em viver para Deus e em Deus.

A vida interior é pureza, porque é uma frequente conversa com Deus, espelho de toda pureza. E riqueza, porque
tudo o que fazemos, fazemo-lo para Deus e o transformamos numa recompensa eterna. E força porque, pela união
com Deus, ela nos atrai a graça de vencermos os perigos e as dificuldades da vida exterior.
Coloquemo-nos, pois, sob a proteção de São José e, confiantes no seu socorro, trilhemos os caminhos da vida
interior, pela vigilância sobre nós mesmos, pela pureza de intenção em todas as coisas, pela prática da oração, pela
docilidade às inspirações da graça. Sem estes exercícios da vida interior, a própria vida mais oculta ficaria sem mérito
diante de Deus, sem valor para a eternidade. E, para entrar nessa terra prometida da vida interior, não há guia
melhor nem mais seguro do que São José: é uma das recompensas concedidas aos serviços que ele prestou à santa
infância do Salvador.

Uma crônica de Belém


Maurício Mescheler, “São José na vida de Cristo e da Igreja”, p. 33-40.

Aproximava-se o momento em que a Virgem daria ao mundo o Salvador. Por esse mesmo tempo foi publicado um
edito de César Augusto exigindo que, em todos os reinos submetidos a Roma – e a Judeia era desse número, – todos
os habitantes se fizessem inscrever. O recenseamento ordenado por Sulpício Quirino, governador da província
romana da Síria, efetuou-o Herodes e, conforme o antigo uso, por tribos e famílias.

Para fazer-se inscrever, todo chefe de família devia dirigir-se à cidade ou povoação de onde procedia a família. Essa
medida descontentou o povo. Mas José e Maria submeteram-se pacientemente, sabendo que tudo vem de Deus e
que o Salvador nasceria em Belém. José pôs-se, então, a caminho com Maria, que, na qualidade de herdeira, devia
fazer-se inscrever também nos registros do censo.

Era pleno inverno, no mês de dezembro, quando, geralmente, na Palestina o vento sopra com violência, as chuvas
são abundantes e, nas alturas, o frio chega a ser rigoroso. Maria e José viajavam a pequenas jornadas, modestos e
recolhidos, suportando com doçura as intempéries do clima e a indiferença dos homens.

A viagem durou cerca de quatro dias e meio, e fez-se provavelmente pela planície de Esdrelon e pelos vales da
Samaria. Depois, de Jerusalém em diante, continuaram pelo planalto de Refaim, por onde outrora seguia Salomão
para ir aos seus jardins de Etã[1], cercado de uma multidão de servos e em meio a uma pompa que contrastava
singularmente com a modéstia e a pobreza da Sagrada Família. Em frente ao planalto, dominando vinhas e jardins
escalonados em terraços, cercado de vales verdejantes onde pastavam rebanhos, sobressaía o povoado real de
Belém. As habitações cobriam o vértice e as encostas ocidentais da altura, ao passo que a vertente oriental, volvida
para Jerusalém, era deserta. Onde se vê agora a igreja da Natividade abria-se uma gruta.

Pelo pôr do sol, José e Maria galgavam as encostas da colina para ganhar a hospedaria (khan), vasto pátio fechado
por muros, onde os viajantes acham abrigo e água. Quanto ao mais, deve cada um providenciar por si mesmo. Os
forasteiros eram então numerosos em Belém. A hospedaria estava repleta. Os dois viajantes tiveram de prosseguir
seu caminho, batendo talvez em muitas portas, mas só recebiam negativas.

Fora da cidade, ao oriente, numa colina árida, descobriram uma espécie de gruta, destinada a servir de refúgio aos
animais. Talvez José já a conhecesse. Talvez lhe tivesse indicado algum transeunte caridoso. Pernoitar numa gruta
desse gênero, ou mesmo estacionar nela algum tempo, ninguém o estranha no oriente. Mas nas presentes
circunstâncias, tamanho desamparo, era de tocar o coração! Maria e José descendiam da mais ilustre família de
Belém. Tinham por si a santidade, a glória de serem os pais do Messias. E eis que o Messias, que vinha salvar Israel e
o mundo, tinha que nascer desconhecido e irreconhecido, num recanto ignorado, como um estranho entre os seus!

Entretanto, veio a noite. E, nas sombras dessa noite augusta, aquele que é a Luz eterna fez a sua entrada neste
mundo. Maria, cujo coração transbordava de ânsias e amor, deu à luz seu filho primogênito, seu filho único.
Arroubada de admiração, contemplava aquela pobre e frágil criança; adorava-a; envolvia-a em panos e depositava-a
docemente na palha do presépio.

Após se desempenhar desses desvelos maternos, chamou José, que se havia retirado. Este, então, contemplou pela
primeira vez o semblante daquele, cuja visão constitui a bem-aventurança dos espíritos celestes. A luz sobrenatural
revelou-lhe naquele Menino a beleza e a excelência da sua natureza humana e divina. Com Maria, ele se prostrou de
joelhos e, antes de mandar como pai, adorou o seu Deus com toda a fé e todo o amor de que transbordava seu
coração. Sua alma, por assim dizer, se desmanchava em alegria e gratidão para com Deus. Todo sofrimento estava
esquecido quando ele tomou nos braços o Menino-Deus, de quem deveria ser, neste mundo, o pai e a providência.
Que gratidão para com Deus, para com Maria, que lhe davam essa ventura! E essa ventura lhe aumentava ainda
mais a veneração e o amor para com aquela de quem ele era o esposo.

Um único pensamento fazia-o sofrer: a pobreza da gruta, onde seu Deus acabava de entrar neste mundo, e o fato de
nada lhe poder oferecer além do seu amor e do seu coração. A indigência da família real de Davi atingira o ínfimo
grau. José compreendeu, nesse momento, toda a grandeza da sua missão junto àquele Menino, e imolou-se-lhe sem
reserva. Seria o auxiliar de Maria nos cuidados de que ela cercaria a infância e a juventude de Jesus. Mais tarde,
outro José (de Arimateia) estava junto de Maria, ao despregar-se da cruz o corpo exânime do Redentor ao ser
depositado no túmulo. Os panos e o presépio já prenunciavam o sudário e o sepulcro.

Jesus via e conhecia os sentimentos de seu pai na terra. Abençoava-o, vertia-lhe na alma a plenitude das graças que
lhe permitiam cumprir a sua missão. O primeiro olhar, a primeira carícia do Menino-Deus, revestiram José de uma
maravilhosa santidade, de uma admirável pureza de coração.

Essa noite ditosa trouxe outra surpresa e alegria a Maria e José. Apenas prestaram ao Salvador a homenagem da sua
fé e do seu amor, vozes fizeram-se ouvir à entrada da gruta. Eram os pastores, chamados pelos anjos a contemplar e
adorar o Menino. Eles contaram a José como, enquanto velavam pelos rebanhos, lhes haviam aparecido anjos do
céu, anunciando o nascimento do Salvador. Introduzidos para junto do Menino e de sua mãe, reconheceram a
verdade das palavras dos mensageiros celestes. Depois de adorarem o Messias, “voltaram glorificando e louvando a
Deus por todas as coisas que tinham ouvido e visto, conforme lhes fora dito” (Lc 2,20), e publicando por toda a parte
o advento do Redentor.

Para José era essa visita dos pastores, acompanhada de tantas circunstâncias maravilhosas, fonte de grande alegria.
Era uma homenagem prestada ao Menino-Deus e a Maria. Ele via a sua fé confirmada por esse testemunho
inesperado. Para ele, os pastores eram mensageiros de Deus. Um raio da glória do Verbo encarnado havia-os
iluminado. Eles tinham tido a honra e o consolo de ouvir as palavras e o canto dos anjos.

Os artistas cristãos não deixaram de reproduzir as diversas cenas da noite de Natal e os sentimentos que animaram o
coração de São José. Fiel às tradições que faziam buscar a objetividade e a calma clássicas, a arte antiga contenta-se
com mostrar José ao lado de Maria ou junto ao presépio: o santo tem na mão o bordão de viajante, ou o machado
de carpinteiro. Isso equivale, de algum modo, a designá-lo oficialmente como protetor e pai nutrício daquele
Menino-Deus que quis nascer na pobreza. Na Idade Média, como que para frisar que José não é o pai natural do
Menino, representam-no imerso na oração ou na leitura, ou retirado, à parte e dormindo[2]. No fim do século XII, e
sobretudo nos séculos XIV e XV, o papel do santo patriarca junto de Maria e de Jesus torna-se mais nítido: José
mostra aos pastores o Menino que eles adoram (Saint-Benoit-sur-Loire); apoiado num bordão, em pé junto do
presépio, Ele contempla Jesus com amor e no recolhimento da fé; ou então, revelando pelos atos a sua solicitude
paterna, ajoelha-se com Maria diante do presépio, adora o Menino-Deus e toma-o ternamente nos braços. A escola
moderna, em geral, permaneceu fiel à esta última ideia. Poder-se-ia mesmo dizer que a arte soube tanto melhor
traduzir os sentimentos do coração de São José quanto mais bem conhecido e mais honrado, passou a ser o próprio
santo.

É possível que, depois do nascimento do Salvador, São José tenha procurado em Belém uma casa mais conveniente,
e que a Sagrada Família nela tenha ficado. Oito dias mais tarde, São José foi chamado a uma nova honra e recebeu,
então, misteriosos ensinamentos. O Menino teve de ser circuncidado (Lc 2,21). A circuncisão era uma lei ritual do
Antigo Testamento. Por ela, a criança era incorporada à religião judaica, contraía a obrigação de submeter-se às leis
desta, partilhava das promessas que a ela estavam ligadas. Simultaneamente, recebia um nome. Tornava-se membro
da sociedade religiosa e civil. Enquanto a circuncisão po dia ser feita ou pelo próprio pai ou por um sacerdote, só ao
pai competia impor um nome ao filho.

Embora a tal não estivesse obrigado, o Salvador quis submeter-se a essa lei, para confirmá-la, aperfeiçoá-la e tomar
sobre si as penas que merecemos transgredindo a lei divina. E o que significa o sangue do Redentor derramado pela
primeira vez nesse dia: era o penhor de que, mais tarde, na cruz, Ele derramaria pela salvação do mundo até a última
gota desse sangue precioso.

Quais não devem ter sido então os sentimentos de Maria e José! Sem dúvida, eles viram nisso a aurora ameaçadora,
prelúdio das tempestades que se abateriam sobre a vida mortal do Redentor.
O santo nome de Jesus significa: Deus e Salvador. Designa, pois, não somente a pessoa do Homem-Deus, sua
natureza divina e humana, mas ainda a sua missão e os efeitos dessa missão sobre as nossas almas. É um novo
penhor da nossa redenção, do perdão dos nossos pecados; da promessa de que nossas preces serão atendidas, de
que temos um mediador de quem nos vêm toda graça, em quem acharemos sempre força e consolação na vida e na
morte. Para o próprio Salvador, esse nome é o penhor da sua futura glorificação, o prenúncio de que a esse nome
todo joelho se dobrará no céu e na terra (Fl 2,10). Tudo o que Jesus é para nós, sê-lo-á se invocarmos esse Nome
com fé e amor. Pois bem, esse Nome bendito foi São José quem, por ordem do Pai Celeste, o deu ao Salvador com
toda a autoridade paterna (Mt 1,21). Não é de justiça lembrarmo-nos disto e testemunharmos a São José a nossa
gratidão e o nosso amor por haver imposto esse nome a Jesus e nos ter aberto, assim essa fonte de salvação?

[1] Cf. 1Re 4. Flávio Josefo situa Etã a 13-16 km de Jerusalém e afirma, Salomão costumava andar em seu carro por
seus jardins. (N. R.)

[2] Refere-se à Urna de Aix-la-Chapelle, em Aachen (Alemanha). (N. R.)

Pentecostes
Por Maurício Meschler, “O Dom de Pentecostes”, pág. 11 e 15-17.

Pentecostes é a festa de gala da natureza. O céu, na realidade, espalhou sobre a terra o espírito de vida. A vida
expande-se em torrentes de luz e de calor, ondula-se nas espigas douradas das colheitas, balança-se nos ramos
carregados de frutos; faz brotar na verde folhagem “rosas de Pentecostes” cujo escarlate assemelha-se a línguas de
fogo caídas do céu. A terra amadurece seus tesouros, prepara uma esplêndida festa; por toda parte desenfreia a
vida. A passarada toda, inclusive os rouxinóis, gorjeiam; as árvores da floresta inclinam-se ao sopro da vida,
sussurram e parecem falar como num sonho. É a natureza que celebra a Festa de Pentecostes.

Pentecostes é também a festa de gala do Ano Eclesiástico.

Através do horror e das tempestades do inverno, o Sol da Justiça nos apareceu; na Páscoa, mostrou-se na sua glória;
na Ascensão, chegou ao apogeu, e agora recebemos o fruto de sua exaltação e de sua atividade: envia-nos o Espírito
Santo, para que fique conosco e termine a sua obra. Sim, a descida do Espírito é o fruto maravilhoso da vida e dos
sofrimentos de Jesus, é a realização e a consumação de todas as promessas divinas; sua obra é de recolher as
colheitas dos campos da nova vida, que o Salvador semeou e cultivou. A última época do mundo pertence ao Espírito
Santo.

(...)

O nome do Espírito Santo

A pomba que repousou sobre o divino Salvador no dia do seu Batismo no Jordão, a nuvem luminosa que envolveu o
Tabor durante o mistério da Transfiguração, as línguas de fogo que durante o Pentecostes se espalharam sobre os
Apóstolos reunidos no Cenáculo, são as primeiras manifestações visíveis do Espírito Santo neste mundo: não são,
porém, o começo da sua morada sobre a terra, e muito menos ainda o princípio da sua vida. Não: a pátria do Espírito
Santo não é a Terra Santa, não é o mundo; a sua pátria não existe no tempo nem no espaço: é a insondável
Eternidade, a inacessível luz da Divindade. “Como podemos pensar no Espírito Santo sem pensar imediatamente no
Ser Supremo... no Ser infinito, imutável, com quem nenhuma criatura se pode comparar?”[1]

O Espírito Santo é Deus; eis o seu nome e a sua natureza. É esta a primeira verdade que devemos crer e da qual nos
devemos compenetrar, se em nosso peito queremos acender uma sólida devoção para com Ele. Não omitamos
portanto coisa alguma de tudo o que possa avivar em nós esta verdade que nos ensinaram na infância. Examinemos
as provas da divindade do Espírito Santo; tiremos dela as devidas conclusões.

Instruídos pela Sagrada Escritura e pelo Tradição, acreditamos num Ser Supremo, eterno, puramente espiritual,
divino e infinito; nessa essência una e divina, distinguimos três Pessoas, cada uma possuidora e portadora da mesma
natureza divina, todas três distintas entre si e não obstante absolutamente iguais na unidade de uma mesma
essência e de um mesmo poder, como muito bem o diz o Símbolo de Santo Atanásio: “Adoramos um só Deus na
Trindade e a Trindade na Unidade, sem confundir as Pessoas, nem dividir a substância”. Com o Pai e o Filho, uma
destas três Pessoas é o Espírito Santo.

Devemos crer, portanto, que Ele, com o Pai e o Filho, é verdadeiramente Deus, é Pessoa divina, dotada de
inteligência e vontade. É verdade de que não podemos duvidar, visto que a Revelação divina Lhe chama Deus, Lhe
concede os atributos divinos, e a Tradição cristã nas suas palavras e nos seus atos O reconhece como Deus.

Mais de uma vez a Sagrada Escritura dá ao Espírito Santo o nome de Deus. O Antigo e o Novo Testamento estão de
acordo neste ponto.

O Apóstolo das Nações (At 28,25-26), em Roma, transportado de um santo zelo, diz aos judeus que não conseguiu
convencer da verdade do cristianismo: “Foi com muita razão que o Espírito Santo, falando a nossos pais pelo profeta
Isaías, disse: “Vai a este povo e dize-lhe: Ouvireis e não compreendereis, vereis com vossos olhos e não percebereis”.
E quem falava assim ao profeta? Ensina-nos o texto de Isaías: “É o Senhor, diante de cujo trono cantam os Serafins
com a face velada: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6, 2-
3.9-10); é o Deus verdadeiro e vivo.

Na primeira epístola aos Coríntios, exorta São Paulo os fiéis à pureza e à castidade, dizendo-lhes: “Não sabeis que
sois o templo de Deus?” (1Cor 3, 16). E completa o pensamento, quando no decurso da mesma epístola afirma:
“Vosso corpo é o templo do Espírito Santo.” (1Cor 6, 19). Só em honra de Deus se erigem templos: logo o Espírito
Santo é nosso Deus. São Pedro não se exprime menos claramente, quando censura a Ananias a sua mentira: “Como
pôde Satanás induzir teu coração a mentir ao Espírito Santo? Não foi aos homens que mentiste,

mas a Deus.” (At 5, 3-4).

Nestes diversos textos, o Espírito Santo é chamado simplesmente Deus; ora, segundo Santo Irineu, existe uma regra
na interpretação da Sagrada Escritura pela qual só o verdadeiro Deus recebe este nome simplesmente, sem
acrescentamento de outro qualquer.

Da mesma forma a Sagrada Escritura reconhece ao Espírito Santo os atributos da Divindade. A origem divina:
procede do Pai (Jo 15,26); logo é necessário que seja da mesma essência. Sonda as profundezas da Divindade (1Cor
2,10); é o Espírito de verdade, conhece o futuro e anuncia-o (Jo 16,13); logo possui a ciência divina, a ciência que só
a Deus pertence. É Verdade infalível, a Verdade absoluta; ora, a Verdade infalível, absoluta, é Deus.

[1] São Basílio, Lib. de Spir. S, c. 9.

http://www.cultor.com.br/2018/05/pentecostes.html

A oração é, para o homem, a origem de todo bem. – Pe. Maurício Meschler, S.J.
Considerações sobre a oração: A oração é, para o homem, a origem de todo bem.

Daí se infere que saber orar, dar à oração o devido apreço, entregar-nos à sua prática com zelo e fervor é, para o
tempo como para a eternidade, um tesouro de valor inestimável.

Orar é tudo o que há de mais simples, e a primeira razão disso é a própria necessidade que temos da oração.

Para orar, não é mister talento excepcional, eloqüência, dinheiro nem recomendação de espécie alguma. Até a
devoção sensível não é necessária; a doçura, a consolação, são coisas acessórias e não dependem de nós.

Se Deus no-las der, devemos recebê-las com reconhecimento, porquanto tornam a oração mais agradável. Orar, não
obstante a aridez, é sempre orar. Consolados ou não, cumpre fazê-lo.

Para isso, basta o conhecimento de Deus e de nós mesmos, saber o que Ele é e o que somos nós, como infinita é sua
bondade e quão profunda a nossa miséria.

Para orar, uma única coisa é necessária: a fé, instruída pelo catecismo.
As palavras serão ditadas pelas nossas próprias necessidades. Poucas idéias (quanto menos numerosas, melhor
será), alguns desejos, e finalmente umas palavras saídas do coração — porque, se assim não for, não há oração
propriamente dita —, eis tudo o que é preciso.

Haverá, por acaso, um homem que não tenha um só pensamento, um único desejo? Pois bem, é apenas disso que
precisamos para empreender o nobre trabalho da oração. A graça, Deus no-la dá, de bom grado, a todos e a cada um
em particular.

Por conseguinte, orar é simplesmente falar com Deus. É conversar com Ele mediante a adoração, o louvor, a súplica.
[...]

Durante a oração, o nosso proceder deve ser idêntico ao que temos relativamente a um amigo íntimo e querido.

A ele confiamos com sinceridade o que nos vai na alma: dissabores ou alegrias, esperanças e receios.

Dele recebemos conselhos e avisos, auxílio e conforto. Com ele decidimos os mais importantes negócios,
singelamente e quase sempre sem que a sensibilidade se manifeste de forma alguma.

E isto não obsta a que tudo seja tratado séria e lealmente. É assim que, na oração, devemos ser para com Deus.
Quanto maior for a nossa simplicidade, tanto melhor será: demos largas ao coração.

Se muitas vezes a oração nos parece penosa e difícil, é culpa nossa. É porque não sabemos como nos portar, e
fazemos dela uma idéia errônea.

Manifestemos a Deus os sentimentos de nossa alma; digamos as coisas tais como se apresentam, e a oração será
sempre proveitosa.

Todo caminho leva a Roma, diz o adágio, e toda idéia abre o seu caminho para chegar a Deus.

Só saberemos orar quando o fizermos simplesmente.

Que nos adianta dirigir ao Senhor discursos sublimes ou torneados?

Se acontecer que nenhuma idéia nos venha à mente, tenhamos a simplicidade de expor essa mesma nossa
indigência. É isto ainda orar, glorificar a Deus e expressamente advogar a nossa causa.

Pe. Maurício Meschler, S.J., A vida espiritual, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, 1960, pp. 11 e ss.

http://cultura-
catolica.blogspot.com.br/search/label/Considera%C3%A7%C3%B5es%20sobre%20a%20ora%C3%A7%C3%A3o

http://www.amoranossasenhora.com.br/2012/09/consideracoes-sobre-a-oracao-a-oracao-e-para-o-homem-a-
origem-de-todo-bem/

CONSIDERAÇÕES SOBRE A ORAÇÃO


A nós, e não a Deus, devemos atribuir a ineficácia de nossas preces.

Três são as causas determinantes dessa insuficiência. Ou ela se encontra em nós, ou em nossa oração ou, enfim, no
objetivo da mesma.

Geralmente a oração deve reunir as seguintes condições:


Primeiramente, cumpre termos uma consciência nítida do que constitui o objeto de nossa prece; isto é, faz-se mister
a intenção, a atenção e o recolhimento. O ponto importante é não nos querermos distrair ou não nos entregarmos
cientemente às divagações.

Como poderá Deus atender-nos, se nós mesmos não temos consciência do que estamos a dizer?

Certamente o nosso anjo custódio sentirá pejo de apresentar à Majestade divina semelhante prece. Aliás, o nosso
próprio interesse exige que procedamos de modo diverso, porquantoas distrações voluntárias não somente
constituem obstáculo às graças divinas, mas acarretam necessariamente um castigo.
Quanto às involuntárias, que sobrevêm mau grado nosso, elas não nos privam do mérito nem tiram à oração o seu
valor satisfatório. Apenas interceptam o gosto, a doçura que nela poderíamos fruir. Deus conhece nossa fraqueza e
tem paciência conosco.

Em segundo lugar, é preciso tomar a oração a sério e empenhar-nos em ser atendidos.

Por conseguinte, devemos orar com zelo e fervor. Estes não consistem na multiplicidade das orações, senão na parte
que a vontade nelas toma.

Não sobe o incenso se o fogo, consumindo-o, não lhe desprende o perfume que se eleva aos céus. O fervor é a alma
da prece; Deus escuta a voz do coração, e não as palavras que os lábios proferem.

Conversar com Deus é sempre um ato importante; e o que lhe pedimos, algo de grande valia.

Eis porque o zelo e o desejo são imprescindíveis. Se, porventura, a confiança na virtude da oração vier a fraquejar
em nosso espírito, recorramos à intercessão de outrem, por meio de prece em comum ou pública.

Invoquemos os santos e o bendito nome de Jesus, ao qual está particularmente ligada a eficácia da oração (Jo 16,
23).

Em terceiro lugar, importa que a prece seja humilde.

Devemos aproximar-nos de Deus como mendigos, e não como credores. Somos réus de pecado e não podemos
tratar o Criador de igual a igual.

A própria humildade exterior vem muito a propósito. Ela apraz a Deus, O predispõe em nosso favor e excita o zelo
em nosso coração.

Em seguida — e esta condição é de suma importância — é preciso orar confiadamente, com segurança. Tudo nos
incita a isso.

Deus quer que oremos; logo, quer atender-nos.

Somos criaturas suas e filhos seus. Esses títulos que nos dão o direito a sermos ouvidos favoravelmente, Ele os
conhece e preza mais que nós mesmos. Finalmente, e importa não olvidá-lo, temos que nos avir unicamente com a
infinita misericórdia de Deus, à qual compete tudo decidir.

Se grande deve ser nossa confiança na oração feita em vista de obter bens espirituais, faz-se mister, porém, evitar
dois escolhos, quando for questão de favores de ordem temporal: [não se deve] implorá-los incondicionalmente,
porquanto eles nos poderiam ser nocivos; ou então [é falso] pensar que nunca os devemos pedir.

Ao contrário, cumpre fazê-lo, porém de modo conveniente. Deus quer que O reconheçamos também como origem e
fonte de todos os bens temporais. É a razão pela qual no-los faz pedir na oração dominical.

(Pe. Maurício Meschler, S.J., A Vida Espiritual – Reduzida a Três Princípios, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, 1960,
pp. 30 e ss. – transcrito de Catolicismo)

O que são dons do Espírito Santo?


Por Maurice Meschler, “O dom do pentecostes”, p. 213-218.

Os Dons do Espírito Santo são o ornamento, o adereço da alma santificada. Examinaremos a natureza destes; o
número deles; de onde procede a sua importância para conosco.

1. Dons do Espírito Santo! Que entendemos por estes termos? São certas propriedades ou faculdades sobrenaturais
da alma, que têm por fim permitir que mais facilmente e mais seguramente obedeçamos aos impulsos do Espírito
Santo. Apresentam com as virtudes as suas analogias. Como elas, os dons não consistem simplesmente em atos
transitórios: constituem força e aptidão permanentes, a disposição da alma para exercer os atos da vida
sobrenatural. Eis o que nos ensinam os teólogos e os mestres da vida espiritual.
Ainda a Santa Escritura, falando destes dons, nos mostra que eles permanecem, que repousam no justo. Isaías diz de
Nosso Senhor Jesus Cristo: “E o Espírito Santo repousará sobre Ele; o Espírito de sabedoria e de inteligência, o
Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de ciência e de piedade, e será repleto do Espírito do temor do Senhor”
(Is 11, 2-3). São João, por sua parte, declara que o Espírito Santo será com os Apóstolos, habitará com eles (Jo 14,16
s); o mesmo, pois, se tem a dizer acerca dos Dons que acompanham a sua presença. A cada modo de atividade pode
corresponder uma capacidade, uma aptidão especial; e visto como são frequentes estes atos e importantes para a
vida, é muito natural que sejam permanentes estas aptidões da alma. Eis por que se admitem, para a prática das vir-
tudes, aptidões permanentes.

Sob este ponto de vista, os dons são análogos às virtudes. Sem embargo, diferem delas e se apresentam como coisa
distinta, enquanto que os perdemos, quando perdemos a Caridade por um pecado mortal, ao passo que as virtudes
— pelo menos a Fé e a Esperança, — podem ainda então permanecer na alma. Ao contrário, no Céu cessarão a Fé e
a Esperança; mas nada se opõe a que os dons subsistam na alma glorificada. E os dons supõem as virtudes e a Graça
Santificante.

Diferem ainda das virtudes no seu fim. As virtudes dão-nos só a possibilidade e nos colocam em estado de seguir a
direção da razão e da fé; os dons permitem-nos praticar o bem com facilidade, prontidão e deleite. Tal é a sua
natureza própria e o seu destino: tornam-nos dóceis, ágeis, flexíveis aos movimentos do Espírito Santo.

Finalmente, outra diferença se pode notar: os dons não têm sempre o mesmo objeto que as virtudes, ou se têm o
mesmo objeto de tal ou tal virtude, é de um modo mais elevado e mais sublime. Assim os seus atos contêm as
manifestações mais nobres e mais excelentes da vida espiritual. É neste sentido que os teólogos dizem que pelos
dons o Espírito Santo, de per si, opera de modo muito especial sobre nós e em nós, tornando-nos dóceis a sua
influência. Sem dúvida opera também nas virtudes e pelas virtudes, mas não com a mesma potência e a mesma
segurança.

Esta facilidade no bem de tal modo traz em si o selo do Espírito Santo e o caráter de sua unção, que com toda a
razão lhe é atribuída; e, por outro lado, é tão grande a sua importância para a prática das virtudes e das obras da
salvação, quanto é natural que na alma justa se pressuponha uma disposição para esta facilidade.

Conseguintemente, o efeito que os dons produzem na alma é a aptidão para reconhecer as divinas inspirações, a
docilidade, a prontidão, decisão e generosidade em corresponder-lhes; numa palavra o perfeito exercício da vida
espiritual. Saber não é poder simplesmente; o poder manifesta-se na ação feita com facilidade e prazer. Eis aí, ao
que parece, em que precisamente consistem os dons e o ponto em que principalmente se distinguem das virtudes.

2. Vejamos agora como se dividem os dons. Devem facilitar às virtudes o exercício dos seus atos. Segue-se daqui que
se adaptam a elas, e que é preciso por meio delas apoiem e sustentem as forças principais da alma, a inteligência e a
vontade.

Por consequência, devemos ter dons que se referem à inteligência e à vontade. Os primeiros quatro — os dons de
entendimento, de ciência, de sabedoria e de conselho — aperfeiçoam a inteligência. Os outros três — dons de temor
de Deus, de piedade e de fortaleza — dirigem-se à vontade.

Com relação às diferentes virtudes, dividem-se da maneira seguinte: os dons de inteligência, de ciência e de
sabedoria facilitam a fé; além disso a sabedoria estende a sua ação à caridade; o dom de conselho vem em auxílio da
prudência; o temor de Deus favorece a temperança; a piedade mantém a justiça; o dom de fortaleza aperfeiçoa a
virtude do mesmo nome. Os dons são como o espírito das virtudes, e eis por que lhes facilitam o exercício. Por forma
que todo o sistema das forças e faculdades naturais é duplamente fortificado, transformado, elevado a uma
atividade superior, a princípio pelas virtudes sobrenaturais, depois pelos dons do Espírito Santo.

3. Um primeiro motivo de estimar estes dons em geral é a sua necessidade. Todos devemos possuir estes dons, a
todos se deve estender a sua influência; porque todos devemos salvar-nos. As virtudes sem dúvida nos tornam
possível a salvação, sob o impulso da graça atual; mas não nos basta a simples possibilidade, precisamos da
facilidade; é a vantagem dos dons. Além disso, por vezes a salvação exige obras mais altas e mais dificultosas:
podemos afirmar que a necessidade de tais obras se impõe a todo cristão; é, pois, também para isso necessária ação
particular do Espírito Santo. À atividade de ordem superior deve corresponder em nós uma faculdade superior.
Deus, pondera S. Tomás, conduz-nos por duas luzes: a princípio pela luz da razão, depois por Ele mesmo, agindo
sobre nós com especial impulso e ilustração.

Ora, esta ação de Deus constitui um princípio mais nobre de conhecimento e ação; é, portanto, natural e
conveniente que a esta ação especial de Deus corresponda, na alma, faculdade especial. Para vir pedir a um mestre
ensino superior, é preciso possuir a capacidade necessária para a compreensão desse ensinamento. E assim, neste
caso, o Espírito Santo é Mestre incomparavelmente sublime, que nos esforça a um modo de ação muito superior ao
da nossa natureza racional, mesmo quando dotada das virtudes ordinárias; por conseguinte devemos levar à escola
deste Mestre faculdades especiais. Geralmente falando convém que Deus já encontre na sua criatura um mecanismo
e uns órgãos que estejam relacionados com a sua ação, mesmo quando quer nela operar de modo extraordinário;
tais disposições da alma e tais órgãos são precisamente os dons do Espírito Santo. Logo esses dons tornam-se-nos
necessários para a nossa salvação.[1]

Daí novo motivo para estimar os dons do Espírito Santo e amá-los: sua excelência. Os dons supõem as virtudes; têm
nelas a razão de ser, tanto mais quanto as virtudes — e mais particularmente as virtudes teologais — são mais
necessárias e mais importantes. Contudo, os dons, em seu gênero, atestam uma perfeição superior; e se na
dignidade e excelência ficam abaixo das virtudes teologais, sobre-excedem as virtudes não-teologais pelo seu valor
intrínseco, visto como estas não nos unem a Deus tão perfeitamente, enquanto que os dons estabelecem a
subordinação a Deus da nossa alma, a sua união com Ele, e a facilidade e prontidão na execução do bem. Mesmo
relativamente às virtudes teologais, possuem os dons valor eminente e excelência especial: completam, elevam,
aperfeiçoam a prática destas virtudes, como já vimos. Em muitos casos — também já o dissemos — a influência dos
dons torna possíveis atos, para os quais não bastam virtudes ordinárias. Portanto põem-nos no estado de exercitar a
virtude num mais alto grau de perfeição acima da medida habitual.

Como quer que seja, o que lhe dá grau particular de excelência é que os dons submetem a Deus as nossas potências
e atividades; tornam-nas dóceis a Deus. Ora, a perfeição consiste na inteira submissão a Deus, na completa união
com Ele.

Pode, pois, dizer-se: os dons, o exercício destes dons, constituem o grau superior da vida espiritual. Os atos desta
vida espiritual, que chamamos Mística, têm principalmente o princípio nos dons do Espírito Santo. Os dons tornam-
se assim realmente a mais gloriosa manifestação da graça e das virtudes; são os órgãos mais nobres e mais
excelentes da vida sobrenatural. Também expressa e individualmente os deparamos no Salvador. Ainda muito mais,
no organismo do Homem-Deus formam ornamento infinitamente precioso, ao passo que certas virtudes — a Fé e a
Esperança, por exemplo, — não Lhe eram essenciais, pois que a visão imediata de Deus, que não deixou de fruir, inu-
tilizava e excluía aquelas virtudes. A posse dos dons aprimora assim a excelência da Graça Santificante e levanta-nos
até uma notável semelhança com o divino Salvador.

Ora, estes dons tão excelentes, tão admiráveis, devemo-los principalmente ao Espírito Santo: eis por que
formalmente são chamados “Dons do Espírito Santo”. É pelos dons que, como outros tantos toques secretos de ação
de extrema delicadeza, atua sobre a alma santificada e a dirige à sua vontade. Por eles, a alma se eleva facilmente
aos mais altos cumes da perfeição; e também, os mestres da vida espiritual têm comparado os dons com as asas da
ave, com as velas do navio: a ave voa com maior velocidade do que caminha; a vela é mais rápida e potente do que o
remo. Graças a estes dons, a alma torna-se instrumento de predileção para o Espírito Santo, seu educador e Mestre,
e é o que de tal mestre se pode esperar.

Bastam estas reflexões para encontrarmos novo motivo de reconhecimento para o Espírito Santo, para Lhe
agradecer por se dignar conceder tão preciosos dons à nossa alma, não pondo limites à sua liberalidade. Nestes dons
há coisa que merece particularmente nossa estima e gratidão; é por meio deles que o Espírito Santo nos aproxima
de si; chama-nos à sua intimidade, quer ser Ele mesmo o educador e Mestre da nossa alma. Que há, pois, de mais
justo do que procurar descobrir esses dons, difundidos em nós com a Graça Santificante e com as virtudes, esforçar-
nos por tirar deles proveito, exercitar os seus atos e ampliá-los pela docilidade às inspirações do Espírito Santo?

[1] Relativamente à natureza dos dons do Espírito Santo e às propriedades que os distinguem das virtudes, encontra-
se entre os teólogos grande diversidade de opiniões. Segundo uns, os dons permitem-nos corresponder às graças
atuais; outros reduzem a sua ação às graças eficazes; outros, enfim, limitam-na às obras extraordinárias ou ao menos
às obras a que somos levados por um impulso particular do Espírito Santo. Adotamos a opinião exposta mais acima,
sobretudo porque, enquanto aos dois primeiros pontos, está ela de acordo com a doutrina de Tomás. Os outros dois
pontos, — que os dons são necessários a todos para a salvação, e que tornam a alma mais dócil e obediente à
inspiração do Espírito Santo — parecem deduzir-se dos ensinamentos do Santo Doutor sobre este assunto. (ST 1, 2,
q. 68, art. 1 e 2)