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UNIVASF – Colegiado de ciências sociais Disciplina: Preleções sobre o suicídio

PRIMEIRA PRELEÇÃO – 01 de outubro de 2019


A IVENÇÃO DA IDEIA DE SUICIDÍO: AGOSTINHO E O JULGAMENTO DE LUCRÉCIA
PROF. Alexandre H. Reis

Tempo e espaço, para começar


O início de uma jornada deve conter, ainda que em forma de crisálida, as etapas
do caminho. A ideia de iniciar, tornar o agora em princípio, não poderia ser válida se o
espírito, isto é, o pensamento, não tivesse já percorrido a estrada que está à sua frente.
O início é assim uma marca, uma marcação, que evoca a coragem de ri... de seguir... Não
é como o andarilho que levanta o acampamento para, na manhã seguinte, pôr-se
novamente na estrada. A este cabe a aventura de seguir; a nós, que percorreremos uma
longa jornada estando reunidos no mesmo lugar, resta perceber que mais do que o
espaço, que aqui nada importa, é o tempo que exige de nós o movimento da viagem. O
viajante das estradas percorre o espaço. Ele, que permanece na mudança da paisagem,
estará sempre no agora (na duração) que encerra sua identidade. Nós, que
percorreremos o tempo, estaremos sempre aqui permanecendo o espaço como mero
acidente.
Com essa comparação entre nós, aqui reunidos para enfrentar os estudos de um
objeto perigoso e o andarilho que se desloca pelas sendas do mundo, nossa atenção é
convocada para um tema muito pouco estudado, qual seja o tempo, que permanece (no
limite) um enigma mesmo para aqueles que se dedicaram a pensá-lo como objeto de
suas meditações: Aristóteles, Agostinho, Kant, Poincaré, os físicos do século XX, se me
permitem citar apenas estes. É o que tempo não se deixa capturar facilmente ao
conceito: mais fácil é certamente conceituar aquilo que lhe escapa, que é do domínio da
eternidade. Neste sentido, mas mudanças do mundo, ou o próprio mundo em
movimento, indicam o devir incessante das transformações que exigem nova meditação
a cada experiência, sob o risco de se enxergar apenas aquilo que é comum, perdendo-
se a peculiaridade de cada ente que se apresenta em sua mundanidade. Tanto o
movimento da planta que cresce (Aristóteles) quanto a experiência sensorial que
permite a representação do objeto em nossa mente (Kant) são apreendidos em teoria,
ou seja, em uma construção explanatória que nos permite compreender,
permanecendo a própria experiência e o próprio crescimento um limite entre o mundo
e a linguagem, tal que nunca saberemos transpor efetivamente, pois se transpomos e o
comunicamos, encerramos a própria experiência dentro da linguagem.
O andarilho conta o espaço, pois é a jornada do caminho que lhe importa. Nós,
que estudaremos e meditaremos sobre um objeto difícil, contaremos o tempo, pois é a
própria consciência que se deslocará nas sendas das preleções, permanecendo nós, os
seres conscientes, indiferentes ao espaço. O tempo, eu dizia, é fundamental para o
estudo do suicídio. Fundamental para qualquer estudo, vocês diriam. Mas neste caso, o
suicídio é a imobilização da vida no próprio tempo: a morte encerra a vida, tornando-a
obra acabada, retirando-a do devir, finalizando a composição da experiência. Sem uma
meditação sobre o tempo, não é possível apreender o suicídio como fenômeno
estritamente humano. Mais adiante, a evocação do tempo como objeto difícil será
necessária em nossas próprias meditações acerca do suicídio. Guardemos isso a seu
próprio tempo.
UNIVASF – Colegiado de ciências sociais Disciplina: Preleções sobre o suicídio

Estudo e meditação
O suicídio como objeto de estudo e o suicídio com objeto de meditação. Sem
tomar o suicídio como objeto de estudo, toda meditação corre o risco de se tornar cega
para os ganhos da tradição, ou irresponsável pela liberdade que se impõe na
inobservância dos limites já conquistados. Todos os estudos, por sua vez, que não foram
acompanhados por uma profunda meditação acerca de seu objeto, retirou de seu
núcleo a efetividade do fenômeno investigado, distanciando-se dele como uma
representação se distancia do que é representado. A meditação é necessária para que
o estudo seja acompanhado de uma experiência viva de pensamento, permanecendo o
estudo acadêmico que se encerra inadvertidamente em si mesmo, distante do que se
propõe a fazer: compreender seu objeto efetivamente. Há, é claro, vantagens em todo
distanciamento: compreendemos melhor o mundo em sua totalidade, em sua
globalidade, o que não seria possível na proximidade. A vivência do fenômeno, por outro
lado, possui a vantagem, por sua vez, de dar concretude ao que é estudado de forma
globalizante. Para compreender este ponto, basta mencionar que um estudo minucioso
do livro de Durkheim e da bibliografia por ele utilizada, o que já demanda bastante
tempo e dedicação, permitem compreender os aspectos psicológicos e sociais
envolvidos no suicídio, embora não nos dê a experiência de pensá-lo em sua efetividade.
É possível assim compreender o suicídio a partir da teoria sociológica, compreender os
limites da tese de Gabriel Tarde acerca da imitação e do próprio Durkheim em sua
explicação tipológica, é possível compreender o reducionismo psiquiátrico e seus
perigos, etc. Mas quando pensamos o suicídio a partir de uma experiência de
proximidade, de um aluno, de um colega, de um primo, de parente de primeiro grau que
morre por suas próprias mãos, nossos conhecimentos acadêmicos são, se não inúteis,
ao menos limitados a uma experiência de pensar o distante. A proximidade permite a
meditação de maneira profunda, e é esta meditação que precisamos ser capazes de
fazer mesmo sem que tenhamos a experiência efetiva da morte do próximo. É preciso
ser capaz de treinar nosso espírito para pensar a morte e a possibilidade da morte de si,
se quisermos compreender e não apenas estudar o suicídio. Quando abordarmos as
definições, o tema da eutanásia e a questão do sentido, esta questão se tornará mais
clara.
O suicídio é um objeto impenetrável, como impenetrável é a consciência alheia.
Por isto é preciso ter a coragem de pensar a própria morte. Por isto a meditação sobre
o suicídio é perigosa. Mas toda meditação esbarra em questão fundamental: para
meditar a morte é preciso estar vivo. Pensar a morte é sempre uma maneira de justificar
a vida, a existência. Deixemos claro neste início que temos diante de nós duas rubricas
distintas: estudar e meditar. Estudar o suicídio é estudar as meditações acerca do
suicídio bem como as produções intelectuais que o tornam um objeto possível de
disciplina. Além disso, muitas vezes a própria história dos acontecimentos nos convida
a uma investigação: mas aí esbarramos nas fronteiras da consciência do outro: não
saberemos em última instância a intimidade dos pensamos de Santos Dumont, naquela
noite de 23 de julho de 1932 em que o Copacabana Palace o hospedara pela última vez,
nem o que pensavam/sentiam nossos amigos próximos ou conterrâneos que sob o sol
do nosso sertão escolheram (?) o que lhes parecia (?) mais salutar, mais viável, ou menos
doloroso. O retorno ao inanimado, capaz de confortar com a paz do nada e do silêncio
eterno? O perdão do Cristo redentor de todas as culpas? O nirvana sagrado, esta espécie
de saída de um eterno retorno maçante? Ou simplesmente a saída razoável de uma dor
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insuportável, de uma vida irrazoável? Qual destas eram suas crenças? Quais outras?
Como saber de credos mais íntimos? Estudamos números, estimativas, estatísticas, mas
pouco ou quase nada sabemos da subjetividade apagada em sua força viva.
Estudamos e estudaremos a história do suicídio. Sim, porque o suicídio tem uma
história –, não clara, explicada, exaurida, como a história da Revolução de 30 ou da
Inconfidência Mineira, mas seja como for, possui uma história. Estudaremos o que os
pensadores da filosofia, da literatura, da sociologia, da teologia, da medicina, do direito
e da psicologia compreenderam deste objeto. Objeto difícil, repito. Mas muito mais o
que estes estudos podem nos dar, teremos de meditar acerca do suicídio, e para isso,
repito novamente, é preciso coragem, esta virtude tão difícil e tão necessária para
entregarmos a morte às leis do espírito.
Caso não sejamos capazes de levar ao fundo de nossa consciência o pensamento
da morte, da nossa própria morte, teremos transformado nossos estudos da história das
obras dos pensadores, dos discursos e das repercussões em torno de uma morte
voluntária em mera erudição, em cultura livresca, e teremos muito a repetir acerca do
suicídio, mesmo que deste assunto tudo saibamos, mas nada compreendamos. É
possível saber sem compreender? Sabe-se efetivamente quando se tem cultura? A
cultura é erudição? Acredito que não, e acredito ainda que um saber efetivo, consciente
de si mesmo, é necessário à compreensão, mas esta o ultrapassa em suas dimensões
conscientes.
A primeira tarefa é sem dúvida o estudo sobre o suicídio, e este estudo se dará
em nossa disciplina de modo estritamente acadêmico, que significa que devemos levar
os estudos a cabo em comunidade, pois a ideia de Academia é a ideia de construção dos
saberes de modo compartilhado, como nos ensinou Platão. Um saber que se constrói
pela dialogia, pela conversa, pelo exame de cada ponto, é um saber esclarecido, que já
deixou para trás a necessidade de se fundar em dogmatismos. A segunda tarefa exige
muita dedicação à esta primeira, mas a supera na medida em que exige de nós um
exercício em sua própria consciência: instância última em que o pensamento é capaz de
dar vida ao objeto (mesmo quando se trata da morte) conferindo-lhe sentido único
como únicas são as próprias experiências.
A gestação da intimidade é constantemente barrada pelos distrativos da vida
cotidiana: exige-se muito de cada um de nós: perdemo-nos de nós mesmos com a
ocupação do outro, seja ele o trabalho, a universidade, as leituras obrigatórias, os
professores autoritários, o governo que nos tira a esperança, a família, mas promessas
de felicidade. Do trabalho de pensar a si mesmo ou de submeter o mundo a um
julgamento íntimo elaborado pouco nos ocupamos. Para ele estamos sempre ocupados.
E o nosso assunto, já sabemos, é o mais difícil tema para uma disciplina. Exige de nós
coragem e pensar a morte, a própria morte, de colocar para si mesmo a difícil questão
de justificar a própria vida.
O estudo e a meditação acerca do suicídio não são como o estudo de um livro do
historiador ou do teórico. George Minois nos deu uma belíssima História do suicídio,
mas permaneceu na crônica e na descrição dos documentos: constitui, não há dúvidas,
uma importante porta de entrada para um sem-número de estudos documentais
possíveis. Émile Durkheim coloca diante de nós as questões mais significativas: o
domínio médico da questão; o problema do contágio; as taxas de suicídio que
evidenciam fatos sociais; a tipologia que permite estudar as sociedades; a crise da
tradição e o problema da vida individual; etc... Mas Durkheim como fundador da ciência
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social moderna, a sociologia, não nos dá o suicídio como objeto de meditação pessoal.
Necessitamos ainda de Nietzsche, de Landsberg e de Cioran. E sobretudo, necessitamos
ainda de nós mesmos: é essa a questão essencial que complementa os estudos dos
historiadores e dos teóricos.
Saibamos pensar! Antes de mais nada, é preciso coragem. Pensar a própria
morte; morrer em pensamento para se sentir vivo. Morrer voluntariamente é
impossibilitar o pensamento. Os mortos não pensam: são, ao invés, eles próprios
pensamentos na consciência dos vivos. Pensar o suicídio não é pensar a morte do outro,
mas é morrer em pensamento, e não pode morrer em pensamento quem efetivamente
morre.

Diante do suicídio: de onde vêm nossos preconceitos morais?


As colocações iniciais foram necessárias como advertência preliminar: o estudo
deve ser acompanhado de um exercício de pensamento, sem o qual permanecem os
estudos vazios e distantes de seus objetos; e os exercícios de pensamento, a meditação
sobre o assunto, por sua vez, deve se orientar pelos estudos mas trazendo para si a
dimensão da efetividade e da realidade, mesmo que seja pela simulação da própria
morte.
A questão que nos levará aos estudos pode ser formulada provisoriamente
assim: de onde advém o espanto diante da morte do outro produzida por ele mesmo?
A morte do outro é um assalto à nossa consciência, mas se é acrescentada a autoria à
própria vítima, algo se transforma de tal modo que se trata agora de uma espécie de
latrocínio: não apenas nossa consciência foi tomada em assalto, mas subitamente ela
morre em indignação. Poderíamos ter dito algo? Poderíamos ter evitado tal morte?
Somos culpados? A morte nestes casos se apresenta injustificável, gratuita, longe de
quaisquer compreensões possíveis. Estes são nossos sentimentos.
Distanciando-nos da questão, podemos formular mais sobriamente a pergunta:
de onde vem este sentimento singularizado pela autoria da morte do outro imputada a
ele mesmo? O que torna nosso sentimento de tal perda um sentimento de indignação,
de acusação, de estranhamento, um sentimento mais forte que aquele produzido pelo
assassinato? Será que no fundo não é ainda pior: não julgamos como assassino de nosso
próximo ele mesmo? É um assassino aquele que morreu per si? Distanciando-nos ainda
mais e pondo-nos a pensar como sociedade, a questão fica ainda mais clara: por que
julgamos de modo condenatório aquém morre por sua própria escolha? Podemos falar
aqui em escolha? Ora, pressupomos a escolha quando julgamos moralmente,
religiosamente ou ainda criminalmente. A escolha é um pressuposto em toda moral e
em todo direito. Do ponto de vista das morais, em geral, a liberdade é um princípio
incontornável; do ponto de vista da religião cristã, o livre arbítrio e a graça são
igualmente pressupostos e criminalmente, não haveria crime se não houvesse o dolo,
isto é, a intensão, a escolha. Portanto, a pergunta agora fica distinta e clara: de onde
vêm a moralidade de nosso julgamento condenatório que imputamos ao suicida?
Observem que a pergunta coloca a moralidade com seu epicentro, não a criminalidade
nem a religiosidade, mencionados antes de sua formulação. É que toda religião,
prescindindo de sua religiosidade e do sentimento para com o sagrado, assenta-se em
uma moral, e o direito igualmente, na medida em que, enquanto ciência positiva, ele é
a continuidade da moral ou a sua positivação. Isto pode ser demonstrado evocando
tanto os gregos (que inventaram a ideia de lei, de nomos, e de constituição, de
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nomothesia), os romanos (que inventaram o direito enquanto doutrina, amadurecido


no período clássico, por volta de 250 da era cristã) os modernos, Kant e Hegel ou os
contemporâneos, como Hans Kelsen, Miguel Reale ou Jürgen Habermas. Mas tal
demonstração ocuparia muito tempo e espaço, podendo ser debatida logo na
sequência, caso haja interesse.
Com o epicentro da questão localizado na moralidade, compreendemos bem que
se trata de investigar a questão axiológica. O valor atribuído em nossa sociedade ao
suicídio é de tal modo constituído que nos antecede, tanto em existência quanto em
pensamento. Nosso modo de pensar o suicídio é constituído por aquilo que Pascal
chamou de máquina: o hábito de pensar a partir da repetição (Veja-se o Fragmento O
fragmento 25/308, de Os Pensamentos) daquilo que nos é dado pela tradição. E de onde
vem esta tradição que nos antecede e já apresenta a morte dada a si mesmo como um
mal terrível, tal como um assassinato? Suicídio: somos já levados, pela máquina, a não
dizê-lo, a não pensa-lo, a não discuti-lo, a não noticiá-lo, a não estuda-lo, a condená-lo,
a não pensa-lo sob outros signos, sob outros valores. O suicídio é assim, o não dito que
já antecipadamente é um maldito.
Durante século, tanto a Europa Medieval quanto a Europa pré-Revolução
Francesa possuía legislações que tornavam o suicídio um crime com penas maiores do
que o assassinato. mas à parte as legislações, o próprio costume se estabeleceu:
arrastava-se o corpo do defunto na esteira pelas ruas da cidade, desnudo, para aviltar
sua dignidade, expor suas vergonhas. Cortava-se sua mão direita, recolhia-se todos os
bens da família. Mas o que se conseguiu com a Revolução Francesa foi antes um novo
menu diante do Antigo Regime do que uma barreira a um modo de vida ainda medieval.
Esse menu oferece novos pratos, novos sabores/saberes, mas não se mudam hábitos
pela violência de se impor um novo regime. Aos poucos (mesmo diante da violência da
revolução) vão se abrandando as penas, vão se recusando as condenações (ainda nos
cemitérios israelitas, como em Belo Horizonte ou em São Paulo, existe a ala dos
suicidas).
Quando não se pode mais expurgar os sentimentos no ritual público da imolação
dos cadáveres, quando não se pode mais extrusar o ódio sobre os corpos que são
arrastados nas esteiras, expostos nos pelourinhos, quando se pode atirar as pedras do
ressentimento sobre os corpos nus, ali expostos, invoca-se para si a maldição da má
consciência. In-vocar, aprendemos com Agostinho, é voltar para dentro. Neste sentido,
o mal dizer e o não deixar esse mal dizer extrusar operam a mesma coisa, mas em
sentidos opostos: contra o outro e e contra si mesmo no outro. Aí está o
aprofundamento do ressentimento e o alargamento da má-consciência (Cf. Nietzsche,
Genealogia da moral, II, 16).
De onde vêm nossos preconceitos morais diante do suicídio? É preciso localizar
sua origem, e talvez aqui se possa falar precisamente em origem, ao contrário da
Genealogia de Nietzsche que recusa a ideia de origem, para adotar a ideia de vira a ser,
a ideia de emergênciai. Mas podemos ainda aproveitar esse procedimento nietzscheano
e perguntar como a moral cristã se tornou a moral dominante, uma vez que nos
primeiros séculos, o cristianismo fora rechaçado,, combatido e perseguido. Deixemos,
no entanto, A genealogia da moral apenas com a inspiração para seguirmos nosso
próprio caminho, que somente pode ser percorrido com a ajuda de vocês, que não
devem guardar para si as dúvidas, as complementações, as angústias, as críticas, que
serão muito bem vindas e sobretudo as discordâncias.
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Os pensadores do cristianismo primitivo e o voluntarismo da morte


Eusébio de Cesaréia, o historiador da igreja primitiva, e que sobreviveu às últimas
grandes perseguições do cristianismo, entre 303 e 311, é o autor da História Eclesiástica,
obra disponível e que nos serve como um importante documento. Eusébio faz menção
a alguns casos de mortes voluntárias, vistas como martírios, no contexto das
perseguições. Cita Santa Apolônia (viveu em torno do ano 249), que permaneceu virgem
em idade avançada, que sempre cultivou as virtudes cristãs. Após ter sido torturada, ela
teve todos os seus dentes arrancados, e foi obrigada a negar sua devoção ao Cristo. O
desfecho é descrito de maneira irritantemente abreviada por Eusébio: ela recusou-se a
obedecer, depois recuando um pouco, lançou-se de modo vívido ao fogo tendo sido
consumida pelas chamasii. Segundo o nosso historiador, os cristãos perseguidos no Egito
esticavam de modo valente as cabeças para serem cortadas pelos seus perseguidores.
As mulheres lançavam-se às chamas para evitar o estupro.
Para responder a pergunta levantada anteriormente, devemos entrar neste
contexto dos primeiros cristãos. A discussão que pretendo levantar com vocês diz
respeito à situação de cativeiro das mulheres cristãs, que para evitar a violação, o
estupro, ou para provar a sua castidade após tal violência, encontram, muitas vezes, no
exemplo das mártires a saída para a desesperatio.
No início do cristianismo, encontramos diversos relatos das mulheres que se
matavam nestas condições. Inicialmente, as mulheres eram vítimas dos soldados
romanos. Permitam-me novamente recorrer ao livro de Eusébio, ali encontramos
diversas passagens de quem está assistindo a estes horrores. Eusébio é testemunha de
seu tempo. Na Arábia, na Capadócia, na Mesopotâmia, no já citado Egito, os cristãos são
perseguidos e nessas perseguições, as mulheres são sempre as vítimas de preferência
dos soldados. De todas estas regiões e em muitas outras documenta Eusébio as
informações da truculência. Permitam-me concentrar-me Antioquia, que fora descrita
por Flavio Josefo como a terceira maior cidade do Império Romano (depois de Roma e
Alexandria). Atualmente Antioquia é a moderna Antáquia, na Turquia. Foi em Antioquia
que Paulo de Tarso pregou pela primeira vez em uma Sinagoga e foi onde pela primeira
vez os seguidores de Jesus foram chamados de Cristãos (Atos dos Apóstolos: 11:26).
Os relatos são muito dolorosos: estes seguidores do senhor Jesus eram “assados
em braseiros, não para fazê-los morrer, mas para alongar seu tormento. Alguns deles”
prossegue Eusébio, “antes de serem presos e de cair nas
mãos dos conspiradores, eles mesmos se lançavam do alto de suas casas, considerando
o morrer como um subtrair-se à maldade dos ímpios.”iii Havia ainda um princípio, um
mandamento que orientava as torturas: ninguém deve morrer em decorrência delas, e
os próprios soldados cuidavam das feridas dos cristãos nos cativeiros para novamente
torturá-los. A situação era muito séria. Os casos de morte auto infringidas neste
ambiente predominante em todo o Império Romano são contados diariamente. Aos
cristãos são dadas duas escolhas: negar suas crenças e se submeterem aos rituais
romanos ou a tortura prolongada: não têm dúvidas: diante da negação de sua crença,
“marcharam alegremente para a morte” (VIII, X, 10).
Mas o tema que nos importa diz respeito às mulheres virgens que eram violadas
pelos soldados. Este interesse nos conduzirá a uma compreensão da associação feita por
Agostinho entre a morte voluntária e o homicidium.
Uma vez mais, recorro a Eusébio (VIII, XII, 3):
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E certa pessoa, santa e admirável pela virtude de sua alma, ainda que mulher por seu corpo, e
famosa ainda entre todas as de Antioquia, por sua riqueza, sua linhagem e seu bom nome, havia
criado suas filhas nas leis da religião, um par de virgens notáveis pela beleza de seu corpo e em
plena juventude. Moveu-se contra elas muita inveja que por todos os meios se esforçava em
descobrir seu esconderijo. Ao inteirar-se de que se achavam em terra estrangeira, arranjou-se
astutamente para chamá-las a Antioquia, e assim caíram nas redes dos soldados. Vendo-se a si
mesma e as suas filhas em tal apuro, a mãe falou-lhes e lhes expôs os horrores que lhes viriam dos
homens, inclusive o mais terrível e insuportável de todos, a ameaça de violação, exortando-se a si
mesma e exortando as filhas a não tolerar nem sequer que chegassem a roçar-lhes os ouvidos. Dizia-
lhes também que entregar suas almas à escravidão dos demônios era pior do que todas as mortes
e que toda ruína, e lhes sugeria que a única solução de tudo isto era a fuga para o Senhor.

A castidade era enaltecida como uma virtude fundamental: perdê-la era pior
quer perder a vida. Parece ser esta a máxima por excelência, o leit motiv, do cristianismo
primitivo. E os horrores narrados por Eusébio de Cesaréia colocam as mulheres em
situação calamitosa. Diversas obras escritas pelos primeiros padres-pensadores traziam
elogios não somente às virgens que se matavam, mas elogiavam as atitudes em geral
dos cristãos que escolhiam a morte mantendo sua crença. Eis algumas referências
fundamentais: São Justino, Apologia; Tertuliano, Atos dos mártires; São Clemente de
Alexandria, Discalie e Pedagogo, São Jerônimo, Carta XCI. Santo Ambrósio, De officiis,
que no livro II, capítulo 30, diz, para citar um exemplo, “quando se oferece a ocasião de
uma morte honrosa, deve-se aproveitá-la de imediato” e ainda “Não fujamos da morte,
o Filho de Deus não a menosprezou.” (na tradução de Fernando Santos par ao livro de
George Minois).

Desde o início, Roma não tolerou os seguidores de Jesus. Nero, cujo reinado se
estendeu de outubro de 54 a 11 de junho de 68, já havia perseguido os cristãos, tendo
mandado matar os apóstolos Pedro e Paulo. O imperador Domiciano, que governou
Roma entre 81 e 96, filho de Vespasiano, que havia iniciado a construção do Coliseu, foi
implacável na perseguição. Deu aos romanos na arena do Coliseu, espetáculos
sanguinários com os cristãos escravizados. Mais tarde, Marco Aurélio (que governou
entre 161 e 180) também fez campanhas de perseguição aos seguidores de Jesus.
Também Trajano, Decio, Valeriano e Diocleciano. As coisas somente vieram a mudar
com Constâncio Cloro, governante entre 305 e 306, e de modo duradourcom com seu
filho, o imperador Constantino, que esteve no poder entre 307 e 337, a quem Eusébio
de Cesaréia dedicou uma obra importante: Vida de Constantino, também à nossa
disposição. A mãe de Constantino, Flávia Júlia Helena (Santa Helena), havia se
convertido ao cristianismo e teve grande influência sobre o filho. Em 313, Constantino
publicou o Édito de Milão, que tornava o Império Romano neutro religiosamente, e que
permitia diferentes credos em todo o seu território. Os cristãos, a partir deste credo,
não podiam mais ser perseguidos, e todos os éditos imperiais anteriores, que
determinavam a perseguição aos seguidores de Jesus, ficaram anulados.iv Não apenas o
cristianismo era tolerado, o próprio Constantino tendo se convertido, irá adotar um
símbolo cristão nos documentos do império, um dos primeiros símbolo cristão
(somando-se ao ichthys), conhecido como cristograma:
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O cristograma é a sobreposição das duas primeiras letras do Χριστός (Khristós), Χ e Ρ.

Sabemos, por experiência, que uma lei não muda o comportamento, ela coage,
procura instaurar uma nova realidade, mas até ser incorporado ao costume demanda
tempo, caso tenha sucesso, caso a lei “pegue”. Uma nova situação, entretanto,
ameaçaria mais tarde toda esta convivência com os cristãos e colocaria as mulheres
novamente em risco. Se nos primeiros séculos eram os romanos que violentavam as
mulheres e as mantinham em cativeiro, no início do século V encontramos estes
mesmos relatos com os invasores de Roma. O império havia assimilado ao longo do
século IV o cristianismo: primeiro, em 313, como vimos passou a tolerar oficialmente o
seu credo, depois, em 321, o chamado Édito de Constantino determina no calendário
romano o domingo como dia e descanso (notem que o primeiro dia da semana passa a
ser chamado de domingo, dominicus, dia do Senhor, e não mais dies Solis, dia do Sol,
referente ao deus maior da tradição romana: Sol Invicto). Em 325, o próprio Constantino
ajudou a organizar o Concílio de Nicéia e dele participou. Em 380, sob o governo de
Teodósio I, é assinado o Édito de Tessalônica, que torna o catolicismo não apenas a
religião oficial do Estado Romano, mas proíbe o culto politeísta da tradiçãov. A
divulgação de um documento em todo território romano, tanto ocidental quanto
oriental, àquela época, era certamente lento, e um documento conservado aparece com
a data de 10 de janeiro de 381, e mostra como os prefeitos aplicavam a lei oriunda do
édito dos imperadores.vi
No entanto, o Concílio de Nicéia (hoje Nicéia é a cidade Iznik, na Turquia)
desenhou um cristianismo que deixava de fora outras vertentes que tentavam participar
da construção das doutrinas, como os arianos e os melecianos (seguidores de Melécio,
bispo de Licópolis, no Egito, que propunha teses duras quanto a concessão de perdão
aos pecadores). Em Nicéia ficou estabelecida a natureza divina de Jesus, a santíssima
trindade, ou seja, questões filosóficas, e também questões práticas, como o dia de Sol
Invictus, 25 de dezembro (dia dos solstício de inverno) é confirmado como a data a ser
comemorado o nascimento de Jesus (a data havia sido proposta em 320 e ainda estava
em discussão), foi feito o cálculo da páscoa, etc.
Embora o concílio tenha tido sucesso a longo prazo, celerou os conflitos àquela
época. No final daquele século, houve muitas tentativas de invasões dos povos bárbaros
ao império romano. Estas tentativas de saques trouxeram muita desconfiança por parte
dos romanos. Eles haviam sido proibidos de cultuar seus deuses e agora, ante o
desespero das invasões bárbaras, sequer podiam orar em seus altares. Não demorou
muito para a culta da desgraça do Império cair sobre a nova religião oficial, ainda em
desconfiança pela maioria dos romanos.

O saque de Roma pelos visigodos e as mártires


A virada do século V para o VI é marcada por muitos conflitos entre os romanos
e os bárbaros. Encontramos em 409 um documento de interesse para essa nossa
história, ou situação histórica na qual estamos colocando o problema centra de nossa
investigação a cerca da origem de nossos preconceitos morais para com o suícido. Trata-
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se de uma carta assinada por um padre chamado Victorianus, que havia se revoltado
contra a violência dos ataques dos visigodos e dos vândalos e pede a um bispo, muito
famoso pela sua capacidade de oratória e retórica, que escreva uma longa obra (prolixo
opere) defendendo a reputação dos cristãos, atacados e culpabilizados pelos romanos
pelo enfraquecimento do Império. Victorianus queria que Agostinho desse respostas a
questões como, “se os invasores merecem castigos, por que os servos de Deus são
mortos pela espada dos bárbaros e as servas de Deus tomadas em cativeiro?" As
invasões somente começaram a acontecer de modo sistemático nas últimas décadas do
século anterior, ou seja, quando o cristianismo havia se tornado a religião do Estado, a
única permitida. Fora ela quem trouxera os males aos romanos, assim pensam todos os
não-cristãos. Temos a resposta de Agostinho (Epístola 111, 3): "Tais males merecem
longos gemidos e choros, em vez de livros longos". Esta resposta lacônica certamente
dará lugar, no ano seguinte a uma resposta efetiva ao problema. Ao invês de manter os
gemidos e choros, temos hoje a Cidade de Deus, a mais contudente obra em defesa do
cristianismo já escrita. Agostinho iniciou os trabalhos em 410, quando os visigodos
tomaram a cidade de Roma. Nesta invasão, os bárbaros nórdicos (e mantenho o adjetivo
bárbaros apenas por questões didáticas) preservaram a admirada arquitetura da cidade,
e serão sempre lembrados por esta clemência, mas usaram o estupro como uma espécie
de arma para fortalecer sua presença. O abalo era geral, a sensação de ruína
generalizada. Nosso personagem, não sentiu os efeitos apenas no nível imperial, não!,
certamente Agostinho, responsável por uma paróquia na África Setentrional presenciou
tais abalos em sua própria comunidade, onde procurou reerguer a moral arrefecida de
seu povo.
Na qualidade de bispo de Hipona Regius, uma cidade portuária no norte da África
romana, Agostinho foi envolvido na adjudicação (ele havia exercido em Roma e em Mião
a carreira de advogado) de casos envolvendo pessoas que chegavam à África em
condições de escravos, haviam sido capturados pelos visigodos e dedicou-se a
emancipação destas pessoas em sua diocese. Além deste trabalho jurídico e social,
muitos refugiados eram integrados na vida social das novas comunidades. Este foi um
trabalho abraçado pelo bispo. Entre os refugiados, havia muitas mulheres, casadas,
noivas e virgens (Cidade de Deus, I, 16) que foram violadas sexualmente durante o saque
de 410 pelas tropas visigóticas. A mairia dos cristãos do norte da África era formada
pelos donatistas, radicais morlistas (para provocar um efeito que entendemos bem com
essa expressão) que eram bastante duros no modo de vida cristão. Os donatistas
espalharam relatos espetaculares de mulhres cristãs que se matavam para purificar a fé.
O martírio das mulheres santas era relembrado para inventivar a morte voluntária
mediante a violação por parte dos solvados visigóticos. Aqui não só, penso, seja possível
falar em contágio, como é possível encontrar o testemunho de tais imitações. Há todo
um trabalho para que isso ocorra, não só pelas autoridades cristãs católicas, mas
sobretudo pelos donatistas.
Percebam que o discurso que possui em suas mãos o maior poder de influência
na vida e na morte das pessoas compreende que a castidade é uma virtude maior que a
preservação da vida. Tanto as mulheres cristãs quanto as romanas não-cristãs são
chamadas a guardar a castidade em tempos de crise e de violência contra elas. É aqui
que Lucrécia ressurge como um nome importante a ser imitado. Falarei dela.
As mulheres são sempre as primeiras vítimas. Era assim com os soldados
romanos, que tinham liberdade política para violentá-las, é assim agora com os
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invasores. Para as mulheres cristãs, a castidade é o valor que deve ser preservado para
a salvação da alma. Esta virtude cristã é anunciada em todos os sermões. Ela deve ser
cultivada. Mas como manter-se casta diante da violação do corpo mediante ato de
tamanha brutalidade? O contemporâneo de Agostinho, São Jerônimo, o primeiro a
traduzir para o latim a bíblia hebraica, em 395 escrevera: “acima de tudo deve-se reter
a castidade (pudicitiam), sem a qual todas as virtudes se desfazem. Nisto consiste a
virtude da mulher”. (Jerome, Adversus Jovinianum livro 1. 49: “pudicitiam in primis esse
retinendam, qua amissa, omnis uirtus ruit. in hac muliebrium uirtutum principatus est.”)
Da mesma forma, o amado mestre de Agostinho, Santo Ambrosio, relata, em
suas homilias que ainda hoje possuímos e podemos ler, a virtude de Susanna, que “
pensava que a perda de castidade era pior do que a perda de vida. Ela não considerou
que sua segurança deveria ser protegida sob o risco de sua castidade.”
Essa é a situação, este é o contexto, em que Agostinho escreve seu livro, Cidade
de Deus, iniciado em 410 e somente terminado na década de vinte daquele século.
Permitam-me, de modo breve, apresentar Agostinho.

Itinerário do Bispo de Hipona


Agostinho nasceu em 354 em Tagaste (hoje Souk Ahras, Tunísia), na província
romana da Numídia. Filho de Mônica, cristã devota, e de Patrício, que somente se
converteu ao cristianismo no leito de morte, Agostinho foi enviado por volta de 370 para
estudar em Madauro, uma pequena cidade a 30 km de Tagaste. Ali teve uma excelente
formação em literatura latina, e teve contato com o diálogo de Cícero, Hortênsio,
infelizmente perdido, e para o qual os comentários de Agostinho consistem no único
testemunho relevante que possuímos deste livro. Foi este diálogo que despertou
Agostinho para a filosofia. Aos 17 anos, foi convidado por um amigo, Romaniano, para
estudar retórica em Cartago, e embora houvesse sido criado por Mônica para ser cristão,
em Cartago, Agostinho entra em contato com o maniqueísmo e adota, por longo
período, um estilo de vida hedonista para o desespero da mãe. Cartago (ficaria hoje na
Tunísia, nos subúrbios de Túnis, a capital) era o lugar para onde todos os jovens daquela
época desejavam ir. É deste período a oração de Agostinho: “Senhor, conceda-me a
castidade e a continência, mas não agora.” (Confissões, livro 8: capítulo7). Eis a
passagem:

“Mas eu, jovem miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, já te havia
pedido a castidade, dizendo: ‘Dá-me castidade e continência, mas não agora’ – pois
temia que me atendesse muito depressa, e que me curasses logo da doença de minha
concupiscência, que eu mais queria saciar do que extinguir.”

Vou deixar a curiosidade em torno das lendas de Agostinho, e sua promiscuidade


nos tempos de estudante em Cartago e de sua conversão tardia, como convite a uma
leitura de umas das mais belas obras da literatura filosófica, As Confissões, escrita por
ele na última década do século IV.
Agostinho foi professor de gramática, dominando a arte do trivium, e fundador
de escola em Roma, em 383, onde se decepcionou com a vida de professor, diante da
apatia dos estudantes, como ele relata. Depois, aos 30, tornou-se professor da corte
imperial em Milão. Tendo rompido com o maniqueísmo, abraçou o ceticismo e dedicou-
se aos estudos dos neo-platônicos. Foi amigo e muito influenciado pelo bispo Ambrósio
(Santo Ambrósio), mais velho que ele e um grande mestre da retórica latina.
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Teve várias concubinas, e um filho com a primeira, com quem conviveu por 13
anos. Agostinho abandonou a via do casamento e dedicou-se a viver no amor a
sabedoria. Em uma chácara, aos arredores de Milão, dedicou-se a uma vida cristã com
seus seguidores, descrevendo este período como uma christianae vitae otium, a vida
cristã do ócio, dedicando-se aos estudos e à escrita.
A conversão de Agostinho se deu em 386, após ouvir a história da vida de Santo
Antão do Deserto. Como ele mesmo nos conta em As Confissões, esta conversão teve
início quando ouviu uma voz infantil que lhe disse: tolle, lege, “toma e lê”, o que ele
entendeu ser um convite para ler a Bíblia, que ele abre em Epístola aos Romanos,
capítulos 12 ao 15, quando Paulo delineia como os Evangelhos transformam os crentes
e modifica seus modos de vida. Eis o trecho lembrado em As Confissões: “Andemos
honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e
dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não
vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças.» Romanos, 13:13-14
Tanto Agostinho quanto seu filho, Adeodato, são batizados em 387. Um ano
depois, decide voltar com a família para a África, mas sua mãe, Mônica, morre ao
embarcar perto de Roma, em Óstia. Novamente em Tagaste, Agostinho vive com seu
filho aristocraticamente, devido aos rendimentos com as diversas propriedades da
família na região. Mas pouco depois, morre seu filho, e Agostinho vende todas as
propriedades, distribui o dinheiro aos pobres, com exceção de uma casa da família que
transforma num mosteiro e passa a viver com amigos. Estas informações podem ser
melhor estudadas na Vida de Santo Agostinho, livro III, capítulo 1, de seu aluno e
biógrafo, Possídio.
Em 391, foi ordenado padre em Hipona e se tornou um pregador de renome,
temos hoje mais de 350 sermões de Agostinho. Em 395 foi nomeado bispo coadjutor de
Hipona e depois assumiu o trono episcopal, daí ser conhecido pela posteridade como o
Bispo de Hipona. De fato exerceu a função de bispo até sua morte, em 430. Entre as
tarefas eclesiásticas, de missas a conselhos pessoais, mediante todo o trabalho na Igreja,
foi um escritor persistente e criativo. Suas obras contam com mais de cem títulos. Mas
o livro que nos interessa, para primeira preleção, é a Cidade de Deus.

Repensar o pudor e a livrar a culpa das mulheres estupradas


Agostinho foi o primeiro pensador, ou escritor, a considerar o estupro como um
tipo de violência próprio da tortura, tanto do corpo quanto da alma. Este tipo de
violência, essa é a temática dos capítulos que vão do 16 ao 27 do livro I da Cidade de
Deus, precisa ter uma resposta diferente da morte auto infringida. Ao invés do suicídio,
é preciso providências públicas. Lembremos que este primeiro livro é destinado aos
políticos e juízes de Roma. À aquela época, como vimos a morte dada a si mesma pela
vítima de violação sexual era entendida como prova de dignidade, tanto no meio cristão
como em outros meios, e este ato era comum e louvado. A memória do estupro e da
morte de Lucrécia havia sobrevivido pela história oral até Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C),
que se mata para provar sua inocência, segundo certas interpretações.

A história de Lucrécia
Quem foi Lucrécia, objeto do julgamento de A Cidade Deus? No texto de Tito
Lívio, História de Roma (que os estudantes de filosofia conhecem por seus estudos de
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Maquiavel), encontramos o relato, que ocorre mais de 900 anos antes de Agostinho, em
509 a.C.
Permitam-me a narrativa. Tomo o texto de Tito Lívio para colher as informações,
a mesma fonte que estava à disposição de Agostinho. Um grupo de jovens políticos de
Roma estava matando o tempo durante uma visita à cidade de Ardea. Durante uma
noite, em meio ao vinho, lançaram-se em disputa para decidir quem tinha a melhor e
mais bela mulher. Como Ardea ficava muito próximo de Roma, decidiram mostrar
pessoalmente suas mulheres. Lúcio Tarquínio Colatino foi quem sugeriu a ideia, e ficou
demonstrado que sua esposa, Lucrécia, era a mais pura e bela. Enquanto todas as outras
estavam se divertindo em festas, na ausência dos maridos, narra Tito Lívio, encontraram
Lucrécia junto ao tear, com suas criadas, dedicando-se ao trabalho ainda aquela hora.
De modo cortês, ofereceu Lucrécia um jantar ao seu marido e aos convidados.
Depois que os homens retornaram a Ardea, Sexto Tarquínio, filho do rei
Tarquínio, o Soberbo, tendo sentido uma atração irresistível por Lucrécia, retornou no
meio da noite a Roma e à casa de Lucrécia. Ameaçou-a com uma faca e exigiu que fizesse
sexo com ele. Não tendo Lucrécia cedido, ameaçou manchar sua honra: ele a mataria e
mataria um escravo, para que pensassem que teria sido flagrada em adultério. Lucrécia
cedeu. Tão logo Tarquínio voltou para Ardea, mandou chamar o marido e o pai, e lhes
contou o que ocorrera, pediu vingança e em seguida se matou.
Em História de Roma, de Tito Lívio, Livro 1, capítulo 58, seção 7, lemos
exatamente o seguinte: “Tarquinius partiu exultante em sua conquista da honra de uma
mulher. Na manhã seguinte, Collatinus pergunta a Lucrecia: Está tudo bem? E Lucrecia
responde: Longe disso; pois o que pode ser bom para uma mulher quando ela perde sua
honra?” Prossegue Tio Livio: “Lucrécia perdeu sua saúde porque perdeu sua honra. A
afirmação de Lucrecia de que o pudicitia é destruída e seu casamento danificado localiza
profundamente a qualidade do pudor em seu corpo e não permite que seja uma
qualidade de sua subjetividade moral.” O leitor de Tito Lívio fica satisfeito com a história
no seguinte sentido: ao ler estas linhas conhecemos a alma de Lucrécia pela ferida
inscrita em seu corpo. Lucrécia é inocente, é este o valor que colhemos nas páginas de
Tito Lívio. “Somente meu corpo foi violado, minha alma é inocente; a morte será minha
testemunha.” É exatamente o que diz o texto de Tito Lívio. Liv. 1.58.7: “ceterum corpus
est tantum uiolatum, animus insons; mors testis erit.”

Julgamento de Lucrécia
Encontramos no capítulo 19 do livro A Cidade de Deus o julgamento de Lucrécia.
Lucrécia será condenada ao fogo do inferno pelo bispo de Hipona. Eis o raciocínio: se ela
foi violentada, não tendo consentido e não tendo sentido prazer, permaneceu casta, e
tendo se matado, matou uma mulher pudica e casta. Caso ela tenha sentido prazer e em
seu íntimo, consentido, ela pecou duplamente, como adultera, e como assassina de si
mesma.
Cito o próprio Agostinho: “se se atenua o homicídio — reforça-se o adultério; se
se desculpa o adultério — agrava-se o homicídio. Não há saída possível quando se diz:
se é adúltera, porque é que se exalta? Se é casta, porque é que se mata?”

Morte voluntária enquadrada no “Não Matarás”


Pela primeira vez, até onde podemos acompanhar a história de uma erística em
torno da morte voluntária, aquele que mata a si mesmo é considerado homicida. No
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capítulo XX, logo na sequência do julgamento de Lucrécia, Agostinho aproxima a morte


voluntária do sexto mandamento: incluindo o que nós chamamos hoje de suicídio a uma
violação do mandamento não matarás.
Para chegar a este raciocínio, Agostinho liga os preceitos do Antigo Testamento
com os que são encontrados no Novo Testamento. No livro do Êxodo, 20:16, lemos:
“Não darás falso testemunho ao teu próximo” “Contudo”, escreve Agostinho, “se
alguém der contra si falso testemunho, não se julgue livre deste crime — porque a regra
de amar o próximo a tem em si próprio o que ama, segundo o texto Mateus, 22:39:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
É esse mesmo raciocínio que leva Agostinho a concluir que aquele mandamento
não matarás deve ser lido da seguinte maneira: nem a outro nem a ti mesmo matarás,
pois quem a si próprio se mata, mata um homem. Fossem quais fossem as
circunstâncias, Lucrécia não teria razões para se matar, como efetivamente o fez. Como
veio a se matar, escreve Agostinho: “Por isso é que não há qualquer razão para se
castigar a si mesma com a morte espontânea a mulher violentamente profanada e
vítima de pecado alheio. Muito menos, antes que isso aconteça. Por que havemos de
consentir um homicídio certo, quando a própria torpeza, além de alheia, é incerta?”.

Em torno da palavra suicídio


Permitam-me agora, expor o núcleo do problema. Para isso, preciso explicar
algumas questões envolvidas no vocábulo por nós usado, o termo suicídio. Suicídio não
foi uma palavra usada por Agostinho. A palavra não existia. Ela é composta pelo reflexivo
sui e por caedes, substantivo formado a partir do verbo caedere, assassinar, matar. A
língua de Roma não comportava compostos trazendo como primeiro elemento um
pronome, como é o caso de suicídio, como demonstrou Anton van Hooff (From
autothanasia to suicide: self-killing in classical antiquity. London/New York: Routledge,
1990, pp. 137-138):

"Ao contrário do grego, que tinha a flexibilidade que encontramos no alemão, [o latim]
não poderia forjar palavras que tinham um pronome como um prefixo. Aos ouvidos de
Cícero [o termo] suicidium teria soado como ‘matança de porcos’ (sus = porco). O latim
não necessitava de tal termo. Além disso, poderia dispensar completamente uma palavra
inventada para o ato de matar-se.”

Por esta razão, esta palavra não pode ser encontrada nem no latim clássico, nem
no medieval nem no latim tardio. O termo suicídio só aparece em um livro de 1643,
intitulado Religio Medici, do inglês Thomas Browne. Portanto teremos de esperar até o
século XVII para encontrar essa palavra. Entre os antigos, há diversas expressões para
se referir a morte imputada pelo próprio agente. Mas em nenhuma delas há um peso
tão servero quanto em suicidium. Cito alguns exemplos: αὐτοθανάσια (αutothanásia),
tradução literal: morte de si, encontrado em Platão, As Leis, e na Ética a Nicômacos, de
Aristóteles; ἑκοῦσιος θανάτο (hekousios thanato), trad. lit.: equivale ao latim mors
voluntaria; ἀφιστάμαι τοῦ βιοῦ (aphistamai tou biou) trad. lit.: auto-afastamento da
vida; ἐχαγογέ εὐλόγος (exagoge eulogos) trad. lit.: saída racional ou razoável, presente
entre os estóicos; vitam fugere, indica uma saída precipitada (comum nos textos de
Cícero, Virgílio, Séneca e Tácito); vita exire, (Cícero), trad. lit. deixar esta vida; vita
discedere, (Cícero), trad. lit. partir desta vida; obviam morti procedere, (Cícero), trad.
proceder em direção à morte; ad mortem ire (Lucrécio) trad. lit. ir para a morte. Entre
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quase três centenas de outras expressões e parífrases, que podem ser consultadas no
livro de van Hooff.
A aproximação feita por Agostinho entre a mors voluntaria, termo por ele
empregado e o homicidium antecipa a ideia presente na palavra suicídio: assassinato de
si mesmo. Observem que suicidium e homicidium possuem uma homonímia de tal modo
expressa que todo peso do termo homicídio é transposto em nosso imaginário para
suicídio. Fernando Rey Puente, professor do departamento de Filosofia da UFMG,
chama a atenção para esta proximidade em sua introdução à coletânea, Os filósofos e o
Suicídio, publicado em 2008, pela editora da UFMG, pela necessidade de se discutir o
assunto mediante os constantes casos de suicídio na Fafich. O termo é sem dúvidas
muito pesado, traz a ideia já de um crime ou de um pecado. Traz a ideia de um
julgamento. Ora, assim, suicídio não é propriamente o ato de tirar a própria vida, através
de um meio que se sabe ou que se espera capaz de levar a este fim. É uma ideia! A ideia
que traz um valor de julgamento: dar a si mesmo a morte é assassinar a si mesmo.
Parece-me que o julgamento de Lucrécia na Cidade de Deus ocupa um lugar de destaque
na história do suicídio, de tal modo que todo o peso desta palavra é agora feito presente
na ação de dar a si mesmo a morte.
Agostinho morreu em 430, ao fim do que os historiadores chamam de
Antiguidade Tardia. Sua obra foi muito influente em sua época e durante toda a Idade
Média, que se estende por mil anos até o Renascimento e para além. Se encontramos
por parte dos bispos e pensadores à época de A Cidade de Deus elogios à morte
voluntária, o que encontramos depois de Agostinho?
Observemos que em 452 temos pela primeira vez a proibição da morte
voluntária em um documento da igreja – Concílio de Arles (proibição da morte
voluntária dos famuli). Em 533, o Concílio de Orléans, que homologa o direito romano
e proíbe oblações aos que se matam sem julgamento. Em 563, o Concílio de Braga e
depois o Concílio de Auxerre (578) condenam todos os tipos de suicídios e proíbem
todas as oblações e celebrações religiosas. Entre os Séculos VI ao X, se seguirmos o juízo
de Gerge Minois, em sua História do Suicídio, a morte voluntária na Europa é crime e
pecado (Ver os Sínodos de Châlons, 813; Sínodo de Paris, 829; Sínodo de Valence, 855;
ver a resposta do papa Nicolau I aos búlgaros recém-convertidos sobre o perdão aos que
se mataram “nada há a que ser feito, estão irremediavelmente condenados”). Século XI
ao XV – direito canônico, direito secular, moralistas, teólogos: estrutura racional e
jurídica apresentem a morte voluntária com um valor absoluto que justifica como crime
e caráter desonroso invariável.
Teremos de esperar até o Renascimento e o reaparecimento das obras dos
estóicos e dos neo-platônicos, que serão difundidas agora em formato de livros tal como
conhecemos, impressos pela invenção de Gutemberg, para ver quebrada essa
hegemonia na condenação da morte voluntária.

Considerações finais
Na Odisseia de Homero, o termo alétheia tem um significado específico que pode
ser ilustrado em uma passagem. Após vencer os obstáculos da viagem, Odisseu retorna
a Ítaca e encontra sua casa invadida pelos pretendentes de Penélope. Odisseu não
revela sua identidade, mas a oculta, à espera do tempo oportuno. No dia escolhido, diz
a narrativa, o céu claro sem nenhuma nebulosidade é cortado pelo raio de Zeus: eis o
sinal que indica que a verdade será dada a todos. Percebam que alétheia opõe-se a
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léthe, que significa escuridão, esquecimento, e significa também aquilo que não é real.
Lethe é o rio do esquecimento nas narrativas órficas.
O raio lançado no céu claro. Esse é o sinal da verdade escancarada, limpa, clara
e distinta. O poeta é o mestre da verdade, mas não a possui, é o seu porta voz e o poeta
tem o dom da palavra pela inspiração das musas, seus versos são uma espécie de relato
que transcende o humano, na imanência da divindade.
Heródodo nos deu, por sua vez, um novo significado de verdade. Ouçamos sua própria
voz: (História, livro II, capítulo 99): “Disse até aqui o que vi e o que consegui saber por
mim mesmo e minhas pesquisas”. O termo alétheia é agora usado de maneira
secularizada, sem a inspiração da divindade. Além disso, a palavra laicizada não tem
mais a autoridade pressuposta e necessita complementar sua base em indícios razoáveis
para pretender uma argumentação aceitável pelo seu público.
A verdade é relativizada o que significa que precisa mostrar-se a partir de uma
força humana, a razão, que pretende abarcar a totalidade, mas mostra-se limitada pela
própria condição humana: o homem não é senão vicissitudes, diz Heródoto no livro, I,
capítulo 32.
Diferentemente de Homero, Heródoto compreende a complexidade do universo
humano relativizando a verdade, pois ela só pode ser compreendida se apoiada em
situações específicas.
Pois bem, esta incursão foi feita para dizer que o discurso de Agostinho não
pretende revelar uma verdade acerca do valor da decisão de Lucrécia. Pretende
instaurar esse valor a partir de uma argumentação plausível, com base no discurso
racional, mesmo que tenha como base a verdade revelada dos juízos de Deus presente
nas leis mosaicas. Pretende fazer parar a auto-matança das mulheres encarceradas e
violadas.
Há aqui uma posição distinta tanto da noção de verdade presente na Grécia
Arcaica quanto da noção de verdade presente nos escritos de Heródoto. Agostinho foi
um mestre da retórica, lembremos que se ocupou desta arte publicamente como orador
em Roma e em Milão, e fundou escolas de retórica nesta última cidade e em Cartago,
antes de sua conversão.
Aquele que se mata é um assassino de si, viola o sexto mandamento. É essa a
argumentação de Agostinho contra o elogio das mortes voluntárias levadas a cabo
diante da tortura, do sofrimento e do estupro. Esta ideia, a de que aquele se mata é um
assassino, é exatamente a ideia que está presente na palavra suicídio. É neste sentido
que podemos considerar Agostinho o inventor do suicídio, ou mais precisamente da
ideia que sustenta o suicidium.
Na história erística do suicídio, porque a história do suicídio é a história das
disputas daqueles que o condenam e daqueles que vêm na morte auto infringida a
razoável decisão diante do sofrimento incontornável, nesta história, o argumento de
Agostinho venceu, e hoje temos dificuldade de compreender o suicídio, porque já em
nosso íntimo o condenamos de antemão, devido a herança de uma cultura que faz parte
de nós.
Em termos gerais, o pensamento histórico de Agostinho é também uma
meditação sobre a queda de Roma, a crise e seu desenlace na civilização antiga. Mais do
que isto, a ideia agostiniana de providência já aponta para uma teologia cristã da
história, e sua resposta para a crise é um julgamento que transcende a história e aponta
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para a ideia de esperança. Resta agora, não submeter novamente Lucrécia a julgamento,
mas o seu juiz, e avaliar o seu lugar na história do suicídio.

NOTAS

i
Ver a esse respeito, o capítulo II do livro de Michel Foucault: Microfísica do poder, dedicado a
compreender a noção de genealogia, no qual o autor esforça-se para compreender as distinções entre
Ursprung (origem) e Entestehung, (emergência, surgimento), considerando ainda outros termos.

ii
Eis a passagem: “Mas ainda há mais; prenderam também então a anciã Apolonia, virgem admirável. Ao
golpeá-la nas faces fizeram saltar-lhe todos os dentes, e erguendo uma fogueira diante da cidade,
ameaçaram queimá-la viva se não proferisse, junto com eles, os votos da impiedade. Ela então pediu um
pequeno espaço e, uma vez solta, lançou-se de um forte salto ao fogo e ficou completamente queimada.”
(CESÁRIA, Eusébio, História Eclesiástica, Livro V, XLI, 7)

iii
História Eclesiástica, Livro VIII, capítulo XII, seção 2.

iv
Eis o documento: “Nós, Constantino e Licínio, imperadores, encontrando-nos em Milão para
conferenciar a respeito do bem e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas
à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que
todos, os cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim
qualquer divindade que no céu mora ser-nos-á propícia a nós e a todos nossos súbditos.

Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de anteriores instruções relativas aos cristãos, os
que optarem pela religião de Cristo sejam autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que
ninguém absolutamente os impeça ou moleste... Observai, outrossim, que também todos os demais terão
garantia a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal
e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto segundo sua consciência e
eleição; não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus adeptos. Outrossim,
com referência aos cristãos, ampliando normas estabelecidas já sobre os lugares de seus cultos, é-nos
grato ordenar, pela presente, que todos os que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem
qualquer pretensão a pagamento... [as igrejas recebidas como donativo e os demais que antigamente
pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação.]

Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei
com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranquilidade pública.
Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos momentosíssimos, outorgando-
nos o sucesso, garantia do bem comum.”

v
A 24 de novembro de 380 d.C., fazia-se público o édito dos imperadores Graciano, Valentiniano (II) e
Teodósio Augusto, ao povo da cidade de Constantinopla, nos seguintes termos:

"Queremos que todos os povos governados pela administração da nossa clemência professem a religião
que o divino apóstolo Pedro deu aos romanos, que até hoje foi pregada como a pregou ele próprio, e
que é evidente que professam o pontífice Dámaso e o bispo de Alexandria, Pedro, homem de santidade
apostólica. Isto é, segundo a doutrina apostólica e a doutrina evangélica cremos na divindade única do
Pai, do Filho e do Espírito Santo sob o conceito de igual majestade e da piedosa Trindade. Ordenamos
que tenham o nome de cristãos católicos quem sigam esta norma, enquanto os demais os julgamos
dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não receberão
o nome de igrejas e serão objeto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela nossa
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própria iniciativa que adotaremos seguindo a vontade celestial. Dado o terceiro dia das Kalendas de
março em Tessalônica, no quinto consulado de Graciano Augusto e primeiro de Teodósio Augusto.

vi
Eis o documento CTh.XVI.5.6 assinado por um prefeito pretoriano, de nome Eutropio, que havia feito
carreira como historiador. Este documento é uma demonstração da aplicação da lei de maneira local,
quando o prefeito impõe à sua população o decreto do Imperirador.

Eutropio praefecto praetorio. Nullus haereticis mysteriorum locus, nulla ad exercendam animi
obstinatioris dementiam pateat occasio. Sciant omnes etiam si quid speciali quolibet rescripto per
fraudem elicito ab huiusmodi hominum genere impetratum est, non valere. Arceantur cunctorum
haereticorum ab illicitis congregationibus turbae. Unius et summi dei nomen ubique celebretur; nicaenae
fi dei dudum a maioribus traditae et divinae religionis testimonio atque adsertione firmatae observantia
semper mansura teneatur; fotinianae labis contaminatio, arriani sacrilegii venenum, eunomianae perfi
diae crimen et nefanda monstruosis nominibus auctorum prodigia sectarum ab ipso etiam aboleantur
auditu.
Is autem nicaenae adsertor fi dei, catholicae religionis verus cultor accipiendus est, qui omnipotentem
deum et christum fi lium dei uno nomine confi tetur, deum de deo, lumen ex lumine: qui spiritum sanctum,
quem ex summo rerum parente speramus et accipimus, negando non violat: apud quem intemeratae fi
dei sensu viget incorruptae trinitatis indivisa substantia, quae Graeci adsertione verbi ousia recte
credentibus dicitur. Haec profecto nobis magis probata, haec veneranda sunt. Qui vero isdem non
inserviunt, desinant adfectatis dolis alienum verae religionis nomen adsumere et suis apertis criminibus
denotentur. Ab omnium submoti ecclesiarum limine penitus arceantur, cum omnes haereticos illicitas
agere intra oppida congregationes vetemus ac, si quid eruptio factiosa temptaverit, ab ipsis etiam urbium
moenibus exterminato furore propelli iubeamus, ut cunctis orthodoxis episcopis, qui nicaenam fi dem
tenent, catholicae ecclesiae toto orbe reddantur. Dat. IIII id.
ian. Constantinopoli Eucherio et Syagrio conss. (381 ian. 10).

Faço aqui a tradução para uso interno, e comparada com a edição francesa de J. ROUGÉ, que aparece
no livro Les Lois religieuses des empereurs romains, página 235.

Eutropio, prefeito pretoriano. Que não abrimos aos hereges nenhum lugar para celebrar seus mistérios,
nenhuma oportunidade de exercitar a loucura de sua mente obstinada. Que todos saibam que, embora
esse tipo de homem tenha recebido algum favor graças a um determinado documento roubado por
fraude, não tem valor. Que a população vil de todos os hereges seja impedida de manter suas assembléias,
que são ilegais. Que o nome de Deus, Um e Altíssimo, seja celebrado em toda parte; que a fé de Nicéia,
transmitida através do tempo por nossos ancestrais, por nós mesmos confirmada e pelo testemunho e
afirmação da religião divina, sempre sejam mantidos em observância perpétua.
Que a mancha poluída do fotônico [fotinianae labis contaminatio], o veneno do sacrilégio aéreo, o crime
da infidelidade eunomiana e os horrores das seitas, abomináveis por causa dos nomes monstruosos de
seus autores, desaparecem e nem ouçamos mais nada dele falar.
É preciso receber por causa da fé de Nicéia e dos verdadeiros fiéis da religião católica aqueles que
confessam em um nome o Deus Todo-Poderoso e o Cristo Filho de Deus, nascido de Deus, Luz nascida da
Luz; aqueles que não ultrajam por seu nascimento o Espírito Santo que esperamos e recebemos do
Supremo Criador; aqueles que honram com fé sem mácula a substância indivisível da Trindade
incorruptível, que os crentes chamam corretamente, usando a palavra grega ousia. Essas crenças são
garantidas para nós e completamente fundadas; elas devem ser veneradas. Por outro lado, aqueles que
não as reconhecem deixam de usurpar o nome, estranho aos seus enganos óbvios, da verdadeira religião,
sejam eles notados como infames na descoberta de seus crimes.
Que sejam removidos e mantidos absolutamente fora do alcance de todas as igrejas, pois proibimos todos
os hereges de manchar as cidades com suas assembléias ilícitas. Ordenamos que, se uma agitação fatídica
tentar fazer algo (proibido), os envolvidos sejam expulsos até das muralhas da cidade, sua loucura
eliminada; que em todo o mundo as igrejas católicas devem ser a todos os crentes ortodoxos que são
seguidores da fé de Nicéia.