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ECOLOGIA,

MUNDIALIZAÇÃO,
ESPIRITUALIDADE

BOFF, Leonardo. Ecologia, mundialização, espiritualidade. Rio de


Janeiro: Record, 2008.

O   teólogo Leornado Boff dispensa maiores apresentações. Mas, para se


ter uma visão melhor de suas idéias, de seu pensamento, sempre é bom
relembrar. Boff, 72 anos, nasceu no estado de Santa Catarina. Entrou
para a Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e, como frade, foi
enviado à Alemanha, para estudos, onde se doutorou em teologia e
filosofia. Ao retornar ao Brasil, ajuda a solidificar as idéias da Teologia
da Libertação, tendo como uma das abordagens teológicas principais,
a opção pelos mais pobres.
Por suas posições expressas em seu livro Carisma e poder, uma crítica que
atingiu principalmente a hierarquia da igreja católica, foi chamado
ao Vaticano para dar explicações, tendo por ‘punição’, a submissão ao
silêncio obsequioso. Não concordando com tal imposição, continuou
seus trabalhos. Após sofrer pressão de todos os lados acabou deixando
a ordem franciscana e também rompendo a relação institucional que
tinha com a igreja católica.
O livro Ecologia, mundialização, espiritualidade é um apanhado reflexivo
onde Leonardo Boff discute e relaciona temas atuais como mudanças
climáticas, responsabilidade mundial, espiritualidade e mística. Estas
últimas, como respostas para um mundo globalizado em crise. Nesse
livro, Leonardo Boff aborda três temas importantes para a discussão
atual. Sua noção de mundialização busca elevar problemas situacionais
à responsabilidade mundial como única forma de encontrar saídas para

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o panorama catastrófico que emerge. Da mesma maneira, ao tratar da
ecologia, parte dessa concepção relacional. Não se trata somente de
proteção ambiental, mas antes é a busca de um cuidado integrador,
pois tudo que existe se relaciona. E ao apresentar a espiritualidade e
a mística, consegue apontar onde se deve encontrar essa disposição:
na sensibilidade, no encontro fraterno entre seres humanos e com a
natureza, onde se consegue enxergar, pela experiência do mistério, que
todas as coisas se relacionam. Não em simples exterioridade, mas do
vigor que nasce do mistério mais profundo do homem.
Na primeira parte, o autor discute a ecologia. Esta, não somente relacionada à
natureza, como preservação ambiental, mas também com a ampliação
do conceito, propondo uma visão holística da temática. Tudo o que
existe está conectado e é relacional. Em tais aspectos, por ecologia, se
leva em consideração a cultura, sociedade, política, etc., propondo-
se uma nova teologia e uma nova vivência, que é a mística. Para tal,
o autor propõe revisitar os grandes mestres da espiritualidade: São
Francisco de Assis, Teilhard de Chardin e outros, levando-se também
em conta as contribuições das ciências, destacando-se a física quântica
e a teoria da relatividade.
Leonardo Boff investiga a co-responsabilidade da mensagem cristã, pela
crise ecológica na qual o mundo se encontra. Destaca a interpretação
da Bíblia – livro do Gêneses – como legitimadora de posturas des-
truidoras, onde coloca o homem como dominador de toda criação.
Tal interpretação deixou a terra entregue a agressões humanas, pois a
reflexão cristã, ao longo do tempo, se espiritualizou e não deu atenção
ao mistério da criação (p. 59 ss).
Na sua visão ecológica, onde tudo é relação, junto à espiritualidade cristã,
propõe uma noção de pan-en-teísmo (p. 66 ss). Diferente de panteísmo,
onde tudo é Deus. O pan-en-teísmo entende que Deus está em tudo.
Desta concepção relacional, já que tudo esta conectado, nasce um
novo entendimento de ecologia e uma espiritualidade integradora. A
volta do religioso se dá nesse entendimento. Onde tudo se relaciona,
favorecendo a uma nova cosmologia e assim, um posicionamento do
ser humano, levando-o a um reencantamento e à mística.
Na segunda parte do livro, Leonardo Boff apresenta o processo de mundiali-
zação. Para ele, os problemas de hoje tomam proporções mundiais e a
solução para os mesmos, deve se dar também a nível mundial. A partir
das concepções da Teologia da Libertação, destaca que a solução está

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na esperança e ela surge dos mais oprimidos. Esses possuem a missão
de manter vivo o sonho de uma sociedade mais justa (p. 120-1).
Para Leonardo Boff, a igreja e a espiritualidade têm papel importante na ma-
nutenção da esperança na mundialização. A partir dos empobrecidos
pode-se superar a aliança que se realizou entre cristianismo e a ordem
capitalista (p. 154 ss.) Para o autor, o evangelho “guarda a memória
subversiva de Jesus de Nazaré”. (p. 154). A igreja carrega em seu meio
o sonho de uma comunidade de iguais, semelhante na proposta do
socialismo. Entretanto, no decorrer dos tempos, ela se ‘piramidou-
se’, identificando igreja=clero. A resposta para tal situação é a saída
desse mundo hierarquizado, abraçando o despojamento e assumindo
a esperança dos empobrecidos.
Na terceira e última parte do livro, Leonardo Boff trata da Espiritualidade
e da Mística. Para ele espiritualidade não é algo contrário à idéia de
corpo, mas antes, está relacionada ao vigor e à própria vida. Logo,
espiritualidade tem como oposição a morte e não o corpo. Espiritua-
lidade é um modo de viver segundo a dinâmica da vida, favorecendo
as relações vitais entre o ser humano e a natureza. Não se trata apenas
de relações externas, mas também diz respeito à relação do homem
consigo mesmo. Por mística, o autor compreende a percepção, por
meio do coração, de outra realidade por detrás das estruturas aparen-
tes. É um modo de ver, mais com o coração do que com a mente (p.
183-4). A mística nasce da experiência religiosa comunitária e não de
ensinamentos doutrinários. Como também não é apanágio de uma
classe de pessoas, mas de todos aqueles que fazem uma experiência de
encontro com o lado mais profundo das coisas.
Para Leonardo Boff, quando as pessoas fazem a experiência do mistério, se
inclinam para ele e personificam essa realidade. Nasce daí as religiões
e, por detrás delas, está a experiência originária. Quando se desce a essa
profundidade, se percebe que as doutrinas instituídas pelas religiões
vacilam. Mística pode ser vivenciada por todos os que estão abertos a
ela e se fazem humanos e sensíveis (p. 194-5).
Concluindo, pode-se dizer que Leonardo Boff busca tecer criativamente ecologia
e espiritualidade como resposta para os conflitos humanos, em um mo-
mento em que as dificuldades da humanidade tomam novas proporções.
Talvez uma palavra contenha o que Leonardo Boff apresenta nesse livro:
relações. Tanto sua idéia de ecologia, espiritualidade e mística, buscam
apresentar o emaranhado das relações humanas. A partir disso, aponta

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outro lado, a falta de relações, em vários setores do humano, que leva a
uma desintegração generalizada.
Em um momento em que a humanidade busca respostas para os grandes
perigos que surge da exploração da mãe terra, este livro trás grandes
contribuições para todos os que se dedicam ao estudo da religião.
Possibilita às Ciências da Religião indagar sobre sua metodologia, seu
objeto de estudo e abre para a investigação do fenômeno religioso em
novos contextos nunca observados antes: a mundialização de conflitos
e de soluções.

EDSON MATIAS DIAS


Pontifícia Universidade Católica de Goiás. E-mail: ed.matias@gmail.com

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