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István Eörsi:

O nó

Oráculo referencial prometia o domínio sobre a Ásia a quem desatasse um ardiloso nó


no portão da cidade de Gordión. A. M. – à frente de seu imenso exército – chegou ao local
seguro de si, nem tinha dúvida de que o oráculo se referia a ele mesmo. Quando, no entanto,
se encontrou à frente da tarefa, sua mão buscou a espada sem titubear. Convenhamos: o
efeito estimulante do golpe de espada de Gordión é vivo até hoje. O procedimento
provavelmente deve sua atratividade ao rápido sucesso. Os soldados festejaram com gritos
de entusiasmo o chefe que, desta vez sem sangue, apenas com sua presença de espírito,
lhes proporcionara uma conquista ímpar, ou em termos de hoje, uma riqueza e uma glória
indizíveis. A. M. recebeu os gestos bem conhecidos da devoção e admiração com severa
dignidade, mas, com o tempo, foi sendo tomado por um sentimento obscuro, confuso. Dos
flácidos destroços pendentes do nó, seu olhar saltou ao céu que escurecia. Depois, enquanto
examinava os prisioneiros – Gordión era famoso por seus toneleiros e belas mulheres -, o
mau humor dominou-o de tal forma que estraçalhou dois soldados frígios e uma jovem
sacerdotisa com a espada, que, à porta da cidade, ainda a tinha poupado de sangue.
Estendido no escuro, de olhos fechados em seu estrado acolchoado, rememorava o
ocorrido. Entre as rodas dianteiras do magnífico carro de guerra artesanal de oferenda a
Zeus, se estendia uma corda, cuja parte central foi ornada com o nó, ele mesmo uma obra
de arte. Não era um artesão qualquer que teria executado o elegante e inescrutável acúmulo
de nós, o tecido levemente compactado de refinado senso de proporção e de fantástica
habilidade manual. A. M. não conseguia imaginar, nem depois do ocorrido, onde poderia ter
iniciado a operação de desfazer o nó – os fios, dispersando-se em todas as direções,
retornavam em arcos flexíveis ao novelo. Essa corda não tem fim em lugar nenhum – foi, ao
menos, a sensação que acometera A. M. no portão de Gordión, e também depois, quando
em sua tenda fez desfilar, à sua frente, as imagens da tarde. Teve que confessar a si mesmo
que a inspiração, sob cujo comando venceu o desafio, brotara da região das fontes do
desespero. É bem verdade que quando o nó se desmanchou, ele foi tomado de uma grande
tranqüilidade – abençoou os deuses por lhe terem permitido dar uma interpretação pessoal
às obscuras palavras do oráculo. Mas já no instante seguinte sua garganta se apertou –
como se tivesse partido em dois uma caveira começando a rir. E ainda por cima o carro de
guerra, condenado à imobilidade pela corda esticada, começou a descer pela suave ladeira.
Os guerreiros macedônios mal conseguiram o reter, impedindo o tombo da propriedade de
Zeus.
“Fracasso – sussurrou para si no escuro da tenda –, tamanha vergonha e fracasso.”
Filtrava-se o barulho da farra, cantoria de bêbados, gritos de mulheres. “É por essa gente
que fiz isso – pensou A. M. – por essa gente que me humilhei dessa forma.“ Se sentiu
miserável, como se tivesse fugido de uma luta.
Como uma flecha envenenada, penetrou no coração de A. M. o reconhecimento de
que existia na terra um homem que o despreza e que ri dele. É claro que só pode fazer isso
às escondidas, de olhos semi-fechados e de rosto impassível – pior ainda, mais vergonhoso
ainda. Alguém o venceu, e isso é o segredo dos dois. A. M. era homem talentoso e capaz,
mas não tinha treino mental para suportar a derrota. Passou ordem para que procurassem e
trouxessem à sua frente o criador do nó.
Depois de três dias lentos como caracóis, empurraram à sua frente um homem baixo,
de ombros largos. Suas cãs, encimando um rosto cor de terra, formavam um emaranhado
sujo. Caiu à sua frente, como um saco tombado, enfiou o rosto na areia, seu corpo se
retorcia tremendo. A. M. se ergueu de seu estrado e lhe deu um pontapé junto à orelha.
“Estás rindo de mim?”- perguntou em voz baixa. O homem levantou a cabeça, de seus olhos
irradiava um pavor animal. “Levante-se!” – disse A. M., e o homem se pôs de joelhos, mas
depois sua força ou sua coragem o abandonaram, e ficou aí, de quatro, à frente do senhor do
mundo, como um cão molambento e sujo.
“É desse cara que senti medo? – perguntou a si A. M., enquanto tornou a se reclinar
no estrado. – Quem perceberia se o esmagasse?” Ele o via como um inseto disforme, cujo
pavor faz emanar um fedor adocicado. Foi mais para seguir a sua própria decisão prévia que
perguntou, afinal, quem eram seus pais, e qual sua profissão. O homem, gaguejando, contou
que era de origem ateniense, que seu pai foi construtor de navios, ele próprio mestre naval e
matemático, mas já vivia há vinte anos na Frígia, cuidando da limpeza pública junto ao
santuário de Zeus. Não falou da razão pela qual emigrara, só murmurou algumas frases
inacabadas sobre algo como o apodrecimento do espírito público de Atenas e a capacidade
de apreensão intocada dos povos asiáticos. Depois se calou repentinamente – com certeza
se apavorou de poder ter ofendido os brios, cevados na cultura grega, de A. M.
O chefe foi acometido de um tédio silencioso. Conhecia bem a decadente
intelectualidade grega – principalmente a ateniense. Enfiam-se em barris, aglomeram-se em
seitas suspeitas, se esbaldam em prazeres ou negam os mesmos, querem salvar tribos
semi-selvagens, só por eles mesmos serem incapazes de viver. Para a vida militar são
covardes, e não sabem nem pensar, porque não vêem à sua frente nem meta nem direção.
A. M. estendeu sua espada e coçou por baixo a garganta do homem estatelado em
imobilidade. “E onde aprendeste a fazer nós?” – perguntou; a resposta foi um gemido rouco.
“O que você acha – falou de novo -, eu seria capaz de desfazer o seu nó regularmente
também?” – e recolheu sua espada. “Com toda certeza, senhor - disse o ateniense -, sem
nenhuma dificuldade particular o desfarias, se te desse vontade.” - “Muito bem – falou A. M.
-, então me apresente de novo o nó.”
Fez-se um silêncio grande na barraca. O que estava de quatro olhou pela primeira
vez, por um breve momento, nos olhos de A. M. Depois tornou a olhar à sua frente, para a
poeira. “Não sei, senhor.” – “Como não sabes?” - “Coisa assim só dá certo uma vez.” –
“Então faz algo parecido – disse A. M. -, e que fique pronto para depois de amanhã!” – “Para
depois de amanhã? – sussurrou o homem – mas se eu levei quatro anos para construir
aquele nó que o Senhor se dignou de cortar.”
Em A. M. outra vez aflorou aquele sentimento confuso, conturbado, que tanto o
perturbou nos últimos dias. “Levanta-te!” – falou, e o pequeno homem desta vez obedeceu.
Parecia um torrão de argila disforme, ou um tubérculo assado pelos nativos de várias
regiões.
A. M. também se levantou, acercou-se dele, mas agora, ao contrário de seu plano,
não o chutou. “Então, segundo você, eu desfaço brincando aquilo que você enlaça e amarra
ao longo de quatro anos?” O ateniense não respondeu. “Você tem medo de que eu não o
consiga desfazer, e por vingança te mate?” Outra vez não veio resposta. “Ou então você está
apreensivo que eu o desfaça de fato, demonstrando minha superioridade sobre você não
apenas na espada, mas também no espírito?”
O torrão puxou a boca em um sorriso ao invés de responder. “O nó – pensou
assustado A. M. – ele se parece com o nó, sua obra foi seu auto-retrato.” “ Ou você está
tremendo – disse bem alto -, de medo que eu corte de novo o nó?” – “Tremo por tudo – disse
o homem -, e tremo pelo oposto de tudo também. Mas não tenho que me preocupar com a
possibilidade de você me superar intelectualmente. Afinal, já agora estás brilhando bem
acima de mim.” “Estás me gozando” - constatou A. M. “Como eu me atreveria a isso? Eu
simplesmente percebi que seu método de desatar vai sobreviver de muito à minha ciência de
atar.” A. M. se arrepiou. “Faz um nó mais complexo que todos feitos até agora, e eu vou
desatá-lo à tua frente.” O homem, suspirando, abanou a cabeça. A. M. se dominou com
muita dificuldade, e ficou insistindo com o desgraçado em voz gentil: “Começe, meu amigo, e
te dês o tempo necessário. Enquanto não estiveres pronto, serás meu hóspede.”
E então esse estendeu, do meio de seus andrajos, a mão direita, e A. M. viu cinco tocos
ensangüentados e sujos à sua frente. “Agora já não vale a pena sofrer com feitura de nós” –
disse o ateniense, encarando sua terrível palma da mão.

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