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TEORIA CONSTITUCIONAL ANTILIBERAL NO BRASIL:

Positivismo, Corporativismo e Cesarismo na formação do Estado Novo

ROGERIO DULTRA DOS SANTOS

Rio de Janeiro
2009
ROGERIO DULTRA DOS SANTOS
Graduado em Direito pela Universidade Católica de Salvador (UCSal-BA), Mestre em Direito pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Professor Adjunto do Departamento de Direito Público da Faculdade
de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), Professor do Programa de Pós-Graduação stricto
sensu em Sociologia e Direito da UFF e do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Sociologia Política
da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).

TEORIA CONSTITUCIONAL ANTILIBERAL NO BRASIL:


Positivismo, Corporativismo e Cesarismo na formação do Estado Novo

Rio de Janeiro
2009
Para meu filho Daniel
―ESTRANGEIRO - Será a violência justa, por ser rico o seu autor,
e injusta por ser ele pobre? Ou seria melhor dizer que o chefe pode
ou não lançar mão da persuasão, ser rico ou pobre, ater-se às leis
escritas ou livrar-se delas, desde que governe utilmente? Não é
nisto que reside a verdadeira fórmula de uma administração correta
da cidade, segundo a qual o homem sábio e bom administrará os
interesses do seu povo? Da mesma forma como o piloto, longe de
escrever um código, mas tendo sempre sua atenção voltada para o
bem do navio e seus marinheiros, estabelece a sua ciência como lei
e salva tudo o que com ela navega, assim também, de igual modo,
os chefes capazes de praticar esse método realizarão a constituição
verdadeira, fazendo de sua arte uma força mais poderosa do que as
leis. E não será verdade que os chefes sensatos podem fazer tudo,
sem risco de erro, desde que observem esta única e grande regra:
distribuir, em todas as ocasiões, entre todos os cidadãos, uma
justiça perfeita, penetrada de razão e ciência, conseguindo não
somente preservá-la, mas também, na medida do possível, torná-la
melhor?
JOVEM SÓCRATES – Estas últimas afirmações são, pelo menos
incontestáveis.
ESTRANGEIRO – Mas também é incontestável.
JOVEM SÓCRATES – O quê?
ESTRANGEIRO – Que a massa, qualquer que seja, jamais se
apropriará perfeitamente de uma tal ciência de sorte a se tornar
capaz de administrar com inteligência uma cidade e que, ao
contrário, é a um pequeno número, a algumas unidades, a uma só,
que é necessário pedir esta única constituição verdadeira (...)‖
Platão (428 A.C. – 347 D.C.)

―I cannot accept your canon that we are to judge Pope and


King unlike other men with a favourable presumption that
they did no wrong. If there is any presumption, it is the other
way, against the holders of power, increasing as the power
increases. Historic responsibility has to make up for the want
of legal responsibility. Power tends to corrupt, and absolute
power corrupts absolutely. Great men are almost always bad
men, even when they exercise influence and not authority:
still more when you superadd the tendency or certainty of
corruption by full authority. There is no worse heresy than the
fact that the office sanctifies the holder of it.‖
Lord Acton (1834 – 1902)

―Government is the empire of laws and not of men‖


James Harrington (1611 – 1677)

1
2
AGRADECIMENTOS

Este trabalho deriva de Tese de doutorado defendida no IUPERJ em setembro de


2006, perante banca examinadora composta pelo meu orientador, José Eisenberg, por
Francisco Weffort, Gildo Marçal Brandão, Luiz Werneck Vianna e Renato Lessa. Agradeço
profundamente o interesse com que examinaram o trabalho e a pertinência das observações
realizadas. Estendo os meus agradecimentos a todos que colaboraram para a realização do
doutorado, da tese e do presente livro: Adrian Sgarbi, André Lupi, Antonádia Monteiro
Borges, Antonio Carlos Wolkmer, Argemiro Cardoso Martins, Bernardo Ferreira da Silva,
Camila Cardoso de Mello Prando, Carlos Boucault, Cecilia Caballero Lois, Célia Barbosa,
Christian Guy Caubet, Christian Cyril Lynch, Christiane Jalles de Paula, Cléber de Deus,
Cléber Lázaro, Cristina Buarque de Hollanda, Douglas Guimarães Leite, Helga Gahyva,
Jeanine Nicolazzi Philippi, João Augusto Mendes, Juliana Magalhães, Juliano Borges,
Luciano Martorano, Luiz Henrique Cademartori, Luiz Magno Pinto Bastos Júnior, Marcelo
Alves, Marcelo Jasmin, Marcelo Freitas de Luna, Marcelo Rosa, Paulo Emílio V. B. de
Macedo, Roberto Di Senna, Rosa Alice Mosimann, Sérgio Graziano, Sérgio Urquhart
Cademartori, Vera Karam, Vivian Ugá, Volney Campos dos Santos, Wilton Bisi Leonel e
Yara Caubet. A Gisele, Felipe, Hugo e Daniel, pelo carinho com que me receberam e me
recebem sempre.

3
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 5

PARTE 1. DITADURA E ORDEM ANTILIBERAL EM CARL SCHMITT ........................................ 20

1. TEOLOGIA POLÍTICA ..................................................................................................................... 26


1.1 A secularização como conseqüência concreta do Romantismo Político ......................................... 34
1.2 A Soberania como exceção .......................................................................................................... 41
1.3 A Soberania como decisão ........................................................................................................... 47
2. DITADURA, DEMOCRACIA E ORDEM CONSTITUCIONAL ........................................................ 56
2.1 Democracia e representação: a formação do cesarismo plebiscitário ........................................... 59
2.2 A Ditadura cesarista como modelo de ordem constitucional ......................................................... 71
PARTE 2. DEMOCRACIA DE MASSAS E ORDEM CONSTITUCIONAL EM FRANCISCO
CAMPOS .................................................................................................................................................. 85

3. TEMPO ROMÂNTICO: O RETORNO DE DOM QUIXOTE E A EMOCIONALIZAÇÃO DA


EXPERIÊNCIA POLÍTICA ................................................................................................................... 90
4. PRIMEIRA REPÚBLICA: DEMOCRACIA LIBERAL X UNIDADE NACIONAL ......................... 103
4.1 Tradição e mudança .................................................................................................................. 111
5. ESTADO NOVO, TEOLOGIA POLÍTICA E SOCIOLOGIA DE MASSAS..................................... 125
5.1 Modernidade política e ausência de sentido ............................................................................... 128
5.2 Técnica política e irracionalidade: o baixo profundo de Caliban ................................................ 138
PARTE 3. CORPORATIVISMO E ESTADO NOVO........................................................................... 160

6. A ORIGEM REMOTA DO ESTADO NOVO: POSITIVISMO CASTILHISTA ................................ 163


6.1 Comte e o positivismo de Castilhos ............................................................................................ 168
6.2 A Consolidação política da Constituição de 14 de Julho............................................................. 176
6.3 Ditadura positivista e Estado Novo ............................................................................................ 181
7. OLIVEIRA VIANNA E O NOVO ESTADO CORPORATIVO ......................................................... 190
7.1 O Estado corporativo: um direito novo ...................................................................................... 199
7.2 Um Direito corporativo definindo o Estado Novo ....................................................................... 208
PARTE 4. O CONSTITUCIONALISMO ANTILIBERAL DA CARTA DE 1937 ............................... 218

8. A ONDA DO CONSTITUCIONALISMO ANTILIBERAL NOS ANOS 30 ..................................... 220


8.1 Alemanha, Polônia e Brasil sob o jugo do constitucionalismo antiliberal.................................... 220
8.2 O Cesarismo plebiscitário e o antiliberalismo da constituição de 1937 ....................................... 233
CONCLUSÃO ........................................................................................................................................ 250

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................... 256

REFERÊNCIAS EXTERNAS ...................................................................................................................... 256


Textos de Carl Schmitt..................................................................................................................... 256
Textos sobre Carl Schmitt ................................................................................................................ 257
REFERÊNCIAS NACIONAIS ..................................................................................................................... 258
Textos de Francisco Campos ........................................................................................................... 258
Textos do e sobre o Estado Novo ..................................................................................................... 260
Textos gerais ................................................................................................................................... 261
REFERÊNCIAS SECUNDÁRIAS ................................................................................................................. 264

4
INTRODUÇÃO

Nas sociedades contemporâneas a ditadura, como qualquer regime político,


necessita legitimidade. Nas configurações habituais do que se classifica como Estado
autoritário —de acordo com as idéias de tradição e tutela da sociedade—, há relação direta
entre política e direito por haver aparência de regularidade jurídica nos procedimentos e
centralização nos meios tradicionais de coerção física. A juridicidade da ditadura objetiva
avalizar, no processo de legitimação que pode operar, uma aceitação social necessária à
suspensão ou à paralisação de garantias institucionais legadas pelo constitucionalismo
liberal. Estas garantias —direitos fundamentais, devido processo legal, representação
política formalizada por processo eleitoral partidarizado— enfraqueceriam um Estado que,
em situações-limite, deveria ser capaz de garantir a ordem social, isto é, a autoridade.
Na primeira metade do século XX, a relação antagônica entre regimes ditos
autoritários e modelos liberais de Estado foi simbolicamente ferida pela derrocada da
democracia alemã —com o advento da constituição de Weimar— transformando-se em
uma ditadura totalitária. A crença de que as normas e as instituições jurídicas deveriam
ocupar o lugar central na estrutura de justificação política do Estado foi, paulatinamente,
transformando-se em quimera. A redução ou aniquilamento das instituições de
representação política, a centralização da burocracia, a censura da produção cultural, o
poderio militar, os apelos por sacrifícios em nome da nação e a mobilização das massas
para realizar ou justificar conquistas de cunho imperialista caracterizaram este novo perfil
dos regimes políticos da época. Esse conjunto de fatores, forma específica de operar as
instituições públicas, recebeu múltiplas denominações: ―napoleonismo‖, ―bonapartismo‖,
―cesarismo‖, ―imperialismo‖, ―ditadura‖ e, mais especificamente no século XX, ―fascismo‖
e ―totalitarismo‖.
O adjetivo autoritário deriva de um conjunto de instituições do Direito Privado
romano, relativas ao termo auctoritatis. O sentido público da idéia de autoridade indica,
inicialmente, a figura do criador ou fundador da cidade, responsável pelo seu crescimento.
O substantivo autoritarismo, por sua vez, supõe a utilização ―distorcida‖ da idéia

5
―legítima‖ de autoridade, na medida em que pressupõe uma estrutura política
excessivamente hierárquica que concentra, em demasia, o poder político, prescindindo de
instituições liberal-democráticas ou opondo-se diretamente ao seu funcionamento.1 Toda
relação governante/governado implica, a partir de então, autoridade, mando e obediência,
legitimáveis ou não, pela anuência dos governados. O conseqüente conceito de Estado
autoritário é incapaz de definir, entretanto, o conteúdo ou a forma de determinada
organização política. Em geral, o termo serve para assinalar manifestações políticas
distintas do Estado liberal, limitando-se a identificar elementos de Estados não-liberais. O
termo autoritário, em sua inconsistência conceitual é, portanto, marcadamente ideológico.
Um número sensivelmente significativo de modelos de organização política passa a ser
classificado como parte do conjunto de Estados autoritários, sem a preocupação com as
distinções relativas a cada modelo.
No Brasil, a instituição e o desenvolvimento problemáticos da 1ª República fizeram
surgir propostas de centralização político-constitucional do país, então dividido pelas
oligarquias regionais, estimuladas por certa interpretação do federalismo da Constituição de
1891. A proposta comum destas aproximações era vincular a idéia de autoridade à tradição,
ao passado e à centralização política da ordem Imperial. Buscava-se uma civilização
identificada com o modo de fazer política e com as instituições do Império. A literatura
sobre o tema sedimenta o senso comum, que permanece: o termo autoritarismo é suficiente
para classificar o conjunto doutrinário que orientava a formação de modelos de Estado
politicamente centralizadores no Brasil. Reproduz, inclusive, a própria conceituação dos
autores considerados autoritários, para os quais o termo Estado autoritário representa a
relevância da idéia de autoridade.
Nesse sentido, ignorou-se claramente a eclosão da doutrina antiliberal no Brasil dos
anos 30 do século XX. A classificação de autoritarismo, para este conjunto de idéias, tem
sido um tratamento que contamina a compreensão do que se pode denominar
constitucionalismo antiliberal, que opera por elementos sensivelmente distintos daqueles
vislumbrados na crítica à 1ª República. Talvez o equívoco da tradição, que vê no
autoritarismo um conceito político suficientemente explicativo, tenha sido ignorar que o

1
Cf. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa de Almeida. São
Paulo: Prerspectiva, 1972 (1954), pp. 133 e ss.

6
constitucionalismo antiliberal não se constitui somente como uma usina de críticas ao
Estado liberal, mas pressupõe um claro modelo de Estado que pretende, inclusive, operar
dentro dos parâmetros de uma legitimação democrática distinta da democracia
representativa. Nesse sentido, o antiliberalismo é, ao mesmo tempo: a) uma crítica ao
direito, à política e às instituições liberais; b) uma aproximação constitucional vinculada à
idéia de soberania como decisão personificada; c) um modelo de ordem democrática que se
realiza pela mobilização irracional das massas por um César e; d) uma reorganização do
Estado fundada na administrativização (burocratização) da legislação.
O jurista alemão Carl Schmitt (1888-1985) é o responsável pelo modelo teórico de
um Estado antiliberal, fundando-o na idéia de democracia substancial, que acabou por
transformar-se no paradigma jurídico-constitucional das ditaduras ocidentais do século XX.
A partir de Schmitt, a vaga conceituação de Estado autoritário toma uma forma mais
precisa. Paralelamente à estrutura política dos Estados que se formam nesta época
desenvolve-se uma doutrina cujo alvo é a fraqueza constitucional do Estado democrático-
liberal para o qual a Constituição de Weimar, de 1919, é o modelo clássico. Em seu livro
Teoria da Constituição (1928), Carl Schmitt realiza um ataque analítico a cada instituição
constitucional de perfil liberal, sendo o seu modelo de ordem política —que deriva das
críticas a Weimar—, aclamado como a saída intelectual para a crise das democracias
contemporâneas, então ameaçadas pelo comunismo soviético. Schmitt preconiza a
representação como relação de identidade entre um determinado povo e seu Líder,
independente de intermediação institucional. O processo de governo pela opinião pública
acontece sem discussão parlamentar, mas pela aclamação. A lei torna-se um ato de vontade
do Líder que procede à regulação administrativa da vida ordinária. A democracia
substancial, percebida pelo autor como um princípio jurídico-formal que significa unidade,
é a materialização do poder de governo do Estado. O Estado democrático e antiliberal,
―povo em situação de unidade política‖, distingue-se de outras formas políticas por
demandar homogeneidade nacional. Essa identidade entre ―dominadores e dominados‖
realiza-se, para Schmitt, através do processo de aclamação. A democracia substancial torna
possível uma ditadura na medida em que o escopo e a amplitude da atuação jurídica e
política do ditador dependem e se justificam através de seu critério pessoal.

7
A especificidade do constitucionalismo antiliberal no Brasil sedimenta-se pelo
influxo de correntes filosóficas e políticas que podem levar a uma distinção relevante,
sendo o antiliberalismo de Schmitt o parâmetro teórico representativo do momento no que
concerne à definição de um modelo de constitucionalismo antiliberal. Duas grandes
linhagens de crítica à concepção constitucional republicana foram a formação doutrinária
do castilhismo no Rio Grande do Sul e a idéia de Estado corporativo do pensador
fluminense Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951). No castilhismo, corrente
política organizada por Júlio Prates de Castilhos (1860-1903) e inspirada no positivismo de
Augusto Comte, destacava-se um programa de ordenação social do Estado que tinha o
objetivo de realizá-lo de forma ditatorial e distanciava-se de outras formas de governo por
instituir uma disciplina moral rígida para os integrantes do partido. Berço político de
Getúlio Vargas, o castilhismo influenciaria o estadista gaúcho na futura configuração do
Estado Novo (1937-1945). Já em Oliveira Vianna, Vargas buscaria inspiração para a
coordenação nacional de um programa de controle político das massas trabalhadoras
através do corporativismo, isto é, das instituições de representação das classes
intermediárias (os conselhos profissionais) e da construção da Justiça do Trabalho. A crítica
ao modelo constitucional de 1891 e a criação de alternativas de perfil constitucional
antiliberal, de ambos os modelos, ajudou a moldar o papel destacado desse modelo de
institucionalidade que se forja com a Constituição de 10 de novembro de 1937, Carta que
opera uma ruptura com o que se chama, comumente, de tradição autoritária nacional ao
instalar uma ordem política voltada para os problemas característicos de uma sociedade em
processo de industrialização e agitada pelas movimentações políticas da massa operária.
Foi o jurista mineiro Francisco Luís da Silva Campos (1891-1968), redigindo a
Constituição de 10 de novembro de 1937, que recepcionou e desenvolveu um modelo
teórico-jurídico de Estado antiliberal, semelhante ao da Teoria da Constituição de Schmitt.
Realizando uma apreciação sociológica detalhada do advento da sociedade de massa,
Campos será o responsável tanto por sintetizar as aspirações políticas de Vargas quanto por
condensar as perspectivas antiliberais implicadas na condução política do regime
estadonovista, direcionando-as para a recepção de um novo modelo de Estado. A assunção
das massas como um elemento central na organização do poder político e a compreensão
constitucional a partir de um modelo jurídico calcado na escola schmittiana farão de

8
Campos o principal ideólogo do regime. Seja sua percepção sobre o fenômeno político, seja
a institucionalidade que derivou do seu diálogo com o castilhismo de Vargas e com o
corporativismo de Oliveira Vianna, distinguiam-se claramente do ―autoritarismo‖
embrionário —no desenvolvimento do modelo de Estado que seria possível na década de
30— de Alberto Torres, Plínio Salgado ou Alceu Amoroso Lima, para quem a finalidade de
um regime político é a concentração da autoridade e a realização da ordem política. 2
Diferentemente destes autores, em Campos e Vianna a legitimação democrática antiliberal
—plebiscitária ou corporativa— alia-se à necessidade de uma recomposição jurídica e
estrutural do Estado.
Francisco Campos, como quase todos estes outros autores e movimentos, é
colocado numa vala comum por um conjunto de interpretações que encontra em Bolívar
Lamounier o exemplo mais acabado. 3 Em seu consagrado artigo Formação de um
pensamento político autoritário na primeira república: uma interpretação (1978), ele
defende um modelo típico de autoritarismo a partir do qual seria possível compreender A
tradição autoritária brasileira. O autor pressupõe e mascara, no modelo que constrói, um
ideário social, político e jurídico de caráter liberal, capital para que o enquadramento de um
autor como Francisco Campos possa definir-se por elementos tão distantes de seu texto
quanto de sua base filosófica e seus objetivos políticos. Talvez tenha faltado, a esta
tradição, comparar a realidade política brasileira com as manifestações constitucionais em
países como a Alemanha e a Polônia. Lá, a especificidade do modelo de Estado deixa ver,
claramente, a distinção da idéia antiliberal, questão a ser enfrentada quando for apresentado
o diagnóstico de Campos sobre a sociedade de massas.
Nesse sentido, Francisco Campos tem uma distinção fundamental em relação
àqueles autores citados: sua sociologia tem caráter universal, voltada para a análise do
fenômeno das massas no mundo moderno. Daí que, a defesa da ditadura através do estado
de exceção neste autor não diga respeito a nenhuma especificidade do estatismo brasileiro,
a nenhum suposto autoritarismo característico da tradição ibérica brasileira. Campos é o
autor isolado da Carta de 1937. É, então, o autor central desta tese que tem como objeto o

2
Uma argumentação em sentido diametralmente oposto pode ser encontrado em MEDEIROS, Jarbas.
Ideologia autoritária no Brasil, 1930/1945. Prefácio de Raymundo Faoro. Rio de Janeiro: Editora Fundação
Getúlio Vargas, 1978.
3
A honrosa exceção é a recuperação recente de Oliveira Vianna. Ver, nesse sentido, BASTOS, Elide Rugai;
MORAES, João Quartim de (Orgs.). O Pensamento de Oliveira Vianna. Campinas: Unicamp, 1993.

9
aspecto político-jurídico do Estado Novo. Vale deixar claro, portanto, que: a) o Estado
Novo não é a era Vargas; b) O Estado Novo é a junção das tradições do centralismo
imperial, retomada por Oliveira Vianna, do castilhismo, presentificado no próprio Vargas, e
do constitucionalismo antiliberal de Francisco Campos; e c) o elemento constitucional
estudado faz parte do Estado Novo, mas não resume o Estado Novo. Isolando o aspecto
constitucional do Estado Novo, e identificando a sociologia das massas e a teoria
constitucional antiliberal que Francisco Campos atrela a ele, é possível identificar um tipo
de Estado que tem particularidades não abrangidas pela idéia de Estado Autoritário.
Uma outra hipótese diz respeito à classificação da ditadura estadonovista dentro dos
modelos existentes. Ter-se-á, então, dentro das características que são levantadas, uma
ditadura de tipo cesarista, pois ao lado do controle concentrado dos instrumentos clássicos
de regulação —exército, burocracia, polícia e judiciário— somar-se-ia a necessidade de um
suporte popular.4 Como Vargas tomara o poder com o apoio de uma coalizão, havia a
necessidade política de garantir a continuidade desse apoio, mesmo em se considerando a
presença de elementos carismáticos em sua liderança. Embora com problemas formais de
vigência, a Constituição prestava-se ao papel, já que orientava largamente a produção
legislativa do Estado Novo. Assim, o regime varguista não pode ser visto como uma
simples usurpação tirânica do poder político, como um Estado ―híbrido, não dependente de
apoio popular organizado na sociedade brasileira e sem qualquer base ideológica
consistente‖,5 nem como um modelo de Estado autoritário vinculado exclusiva ou
majoritariamente às idéias de hierarquia e tradição. A legitimidade aparece, nesse sentido,
como fator determinante, inclusive da outorga de uma Constituição.
Práticas plebiscitárias previstas por um regime que se arroga o título de
constitucional, necessidade da aceitação popular e concentração do poder na figura do
Presidente são características de uma forma de governo atenta à possibilidade de
articulação política das massas, que se produzira, ainda na década de 20, através dos
movimentos associativos dos trabalhadores urbanos. A solução do regime foi a de integrar

4
Cf. NEUMANN, Franz. Notes on the theory of dictatorship. In: NEUMANN, Franz. The Democratic and
the authoritarian State: essays in political and legal theory. Edited and with a preface by Herbert Marcuse.
New York/London: The Free Press/Collier-Macmillan Company, 1957, pp. 233-256, p. 236.
5
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Apresentação de Francisco
de Assis Barbosa. Tradução coordenada por Ismênia Tunes Dantas. 13ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2003,
p. 54.

10
burocraticamente essas manifestações num programa corporativista organizado pelo
Estado. Evitava-se a capacidade de mobilização do mito da greve geral, como diria
Francisco Campos, pela incorporação de sua energia ―polarizadora‖ ao quadro geral da
administração pública. Para além da idéia de manipulação política que exaltaria a
mobilização nacionalista do povo em detrimento da organização institucional, o Estado
Novo recorreu à legitimação proporcionada pela produção administrativa das regras
jurídicas. Embora cesarista e plebiscitária, a ditadura do Estado Novo não pode ser
simplesmente classificada como totalitária por não identificar a fonte da autoridade jurídica
na vontade exclusiva do Líder, mas em sua estrutura constitucional, de perfil antiliberal.
Como futuro Ministro da Fazenda e dos Negócios Interiores do Estado Novo,
Francisco Campos tinha diante de si a tarefa de ampliar a discricionariedade os
instrumentos emergenciais até então utilizados com a autorização prévia do Congresso
Nacional e a chancela das Forças Armadas. O estado de emergência, equiparado ao estado
de guerra desde 1935, não sustentava politicamente o arranjo de forças que mantinha
Vargas no poder. A justificativa para implantar uma nova ordem constitucional, despida
dos limites liberais da Constituição de 1934, era uma necessidade política imperiosa. A
ameaça extremista do comunismo, materializada pelo levante de 1935 e sedimentada pela
farsa do Plano Cohen, já havia criado um clima de guerra civil. Como em uma ditadura
romana, o Governo Provisório outorgava uma Constituição de gabinete a fim de permitir a
utilização livre de meios excepcionais a fim de preservar a ordem social. Mas, enquanto em
Roma a magistratura ditatorial era ―claramente definida em autorização, no escopo e na
duração‖,6 o Estado Novo criara um sistema político completo que se fundava,
extensivamente, nos poderes de um estado de emergência. A volta à normalidade far-se-ia
através de uma confirmação plebiscitária da validade jurídica da Constituição. O plebiscito
legitimador nunca aconteceu, e a estabilidade do regime dependeu do suporte popular à
figura pessoal de Getúlio Vargas.
O objetivo deste trabalho é reafirmar a influência desse espírito antiliberal que
informava o constitucionalismo dos anos 30 e comprovar que o Estado Novo concretizou-
se como ordem política atrelada aos pressupostos constitucionais do antiliberalismo de
massas de Francisco Campos, em diálogo com o positivismo castilhista e com o

6
Idem, p. 233.

11
corporativismo de Oliveira Vianna. Demonstrar-se-á, nesse sentido, e em primeiro lugar,
que Carl Schmitt realiza a síntese das críticas políticas e jurídicas que se faziam ao
liberalismo desde a época da restauração. Influenciado por pensadores de perfil reacionário,
como Donoso Cortés, Joseph De Maistre e Louis-Ambroise De Bonald, Schmitt
representará o estado da arte da crítica à democracia liberal do regime constitucional da
República de Weimar. A sua influência não se resume ao rótulo de ―Jurista Oficial do
Reich‖ desde o início da década de 20, quando a República, já em crise, precisou lançar
mão dos mais diferenciados institutos constitucionais de emergência, nem ao fato de ter
sido o primeiro constitucionalista a chamar de Teoria da Constituição (Verfassunglehre)
uma disciplina que objetiva apresentar a constituição burguesa como fenômeno político
estrutural do ocidente.7 Além de ser traduzido em vida para diversas línguas e ser estudado
como um dos maiores pensadores políticos do século XX, Schmitt organizou a defesa
jurídica do golpe de Estado que permitiu a Hitler utilizar as prerrogativas do estado de
emergência para instalar uma ditadura que daria origem ao regime nazista.
As aproximações entre Carl Schmitt e Francisco Campos são, às vezes, mais
profundas do que indica o contexto político da época. Será demarcada a proximidade
conceitual e, em alguns momentos, a identidade textual entre esses dois autores. O modelo
constitucional de Francisco Campos será examinado a fim de definir o quanto recebeu de
influência e a que ponto moldou-se aos postulados do autor alemão. Legatários da mesma
tradição reacionária, católica e antiliberal, Campos e Schmitt, constitucionalistas
contemporâneos, emitem, não raro, as mesmas críticas ao seu tempo. A democracia liberal,
o parlamentarismo, a divisão de poderes e a capacidade política que tem o liberalismo de
definir os objetivos de sua ação política são dogmas negados por ambos os autores. Se o
diagnóstico do mundo contemporâneo é semelhante —a democracia de massas é o objeto
de ambos—, o remédio indicado para a crise do Estado liberal é praticamente o mesmo: a
ditadura cesarista-plebiscitária e os instrumentos constitucionais de emergência. Em certas
questões, como a crítica metafísica ao ethos liberal através do exemplo simbólico de
civilização proporcionado pela figura literária de D. Quixote, Campos se adianta a Schmitt.

7
BENDERSKY, Joseph W.. Carl Schmitt: theorist for the reich. Princeton: Princeton University Press,
1983.

12
O Estado Novo, como regime político, reveste-se de um caráter exemplar. Não
podendo ser simplesmente classificado como modelo de Estado autoritário, o regime
aponta para uma incógnita. Se, efetivamente, Francisco Campos pode ser considerado o
autor que deu forma jurídico-política ao Estado Novo, dentre outros regimes de exceção
que estavam a ocorrer na América Latina, por exemplo, ele será destaque. A onda de
―reforço‖ da autoridade do poder executivo, que varreu o mundo após a quebra da Bolsa de
Valores em 1929, não ocorreu sempre dentro dos mesmos parâmetros. No Brasil, o Estado
Novo não representou uma centralização dos poderes no Executivo nem uma mera
organização política de caráter corporativo. A incorporação social e cultural das massas, a
crítica pormenorizada das instituições e da metafísica liberal, a oposição entre as
democracias liberal e substantiva, a configuração constitucional de um presidencialismo de
corte cesarista e a crítica à 1ª República a partir de uma filosofia da história de caráter
decadentista são todos elementos que não estão presentes na tradição ―autoritária‖ que
nasce da crítica à 1ª República. Esses caracteres são constitutivos do antiliberalismo do
Estado Novo como institutos constitucionais, ou como elementos discursivos presentes no
processo de legitimação pública do regime.
Buscar-se-á, portanto, e em primeiro lugar, determinar o modelo de Estado de
Schmitt, privilegiando um vocabulário conceitual específico, determinante de uma
representação histórica da realidade. O momento em que surge o constitucionalismo
antiliberal indica a presença de certas estruturas duradouras, o que levou alguns países da
Europa (neste trabalho serão examinados, rapidamente, os exemplos da Alemanha e da
Polônia) a apresentarem o modelo de Estado antiliberal como solução para uma
determinada crise dos modelos de ordem constitucional e política. A ocorrência da
Constituição de 1937 e do Estado Novo foram delimitados, então, concreta e
estruturalmente, pelos conceitos disponíveis para mobilização. A ascensão de Estados
vinculados a um modelo constitucional antiliberal, na primeira metade do século XX, é
constituída pela linguagem da história, não se relacionando com uma seqüência natural e
aleatória de fatos no tempo, mas sim, com uma narrativa elaborada de forma artificial, que
justifica a síntese e a conseqüente manifestação do espírito antiliberal em lugares distintos
de sua origem. Com a compreensão deste modelo, torna-se viável ler a ordem político-
jurídica estabelecida por Schmitt como um paradigma que estrutura uma narrativa histórica

13
específica, e que permite a emergência das idéias e vocabulário antiliberais no Brasil.
Notar-se-á que um componente nuclear do modelo antiliberal consiste nas idéias sobre o
tempo e a política, ou como a ocorrência de eventos é delineada pela dimensão temporal,
demandando uma inteligibilidade das seqüências de acontecimentos particulares e
construindo, para tanto, uma determinada filosofia da história. 8
Não se procura, pois, estabelecer uma investigação sociológica em que a
determinação histórica de cada experiência política ditatorial seria detalhadamente
investigada em suas relações econômicas, sociais e políticas. 9 Também não é um estudo
com o objetivo específico de determinar as ligações textuais entre os variados discursos
antiliberais (Campos, Oliveira Vianna e Castilhismo) e o discurso de base, que seria o
schmittiano, embora a eventual aproximação comparativa possibilite a determinação de um
contexto relacional em suas nuances históricas. Trata-se, em verdade, de uma aproximação
a partir da qual serão observadas tanto a identidade estrutural do discurso e de seus
conceitos-chave que formulam as balizas tópicas do regime político investigado, quanto as
convergências materiais e formais dos institutos constitucionais responsáveis pela
configuração do modelo de Estado antiliberal, identificado no Brasil sob Vargas. Com
efeito, pode-se sustentar que o paradigma de Estado schmittiano/campiano não se define
somente como um conjunto de conceitos abstratos, mas como a necessidade, de natureza
supranacional, de se resolver uma determinada crise do Estado e da ordem política, no
momento em que ela tornou-se crucial. 10
A questão metodológica que se apresenta de imediato procura saber se os conceitos
político-jurídicos determináveis na obra de Carl Schmitt podem, efetivamente, ser
considerados de caráter estrutural, a fim de servirem de condição de existência para eventos
históricos específicos. Ter a ordem jurídico-política schmittiana como paradigma conceitual
demandaria, necessariamente, que fosse identificada sua inserção em pelo menos um dos

8
Cf. POCOCK, John Greville Agard. The Machiavelklian moment: florentine political thought and the
atlantic republican tradition. 2nd edition. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 2003 (1975), pp.
3 e ss.
9
Exemplo clássico desse tipo de abordagem é o de POULANTZAS, Nicos. A Crise das ditaduras: Portugal,
Grécia e Espanha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. Embora não utilize o universo conceitual da
historiografia contemporânea, é possível questionar até que ponto ele não estaria fazendo uma análise de
estrutura, já que nada impede que o aporte lingüístico utilizado seja compreendido como uma forma de
reconhecimento de condições que se repetem em variados eventos.
10
Cf. POCOCK, John Greville Agard. The Machiavelklian moment, pp. vii e ss.

14
possíveis eventos combináveis pela utilização ou mobilização do conjunto de seus
conceitos.
No presente caso, a obra de Schmitt permite identificar o processo pelo qual deu-se
a restrição das possibilidades político-jurídicas não-autoritárias e a construção de uma
ordem especificamente antiliberal, em que o seu constitucionalismo esteve informado tanto
pelo cesarismo quanto por uma sociologia de massas que o distinguia de outras ordens
ditatoriais contemporâneas. O espírito antiliberal manifestou-se pela oposição constante de
conceitos como ―decisão‖ e ―discussão‖, ―exceção‖ e ―normalidade‖, ―polarização‖ e
―despolitização‖, ―Teologia Política‖ e ―secularização‖, determinando, com isso, as
questões vitais que mobilizaram a sociedade de então. Portanto, a obra schmittiana é
perfeitamente válida como modelo conceitual por constituir-se, em parte, de um conjunto
de conceitos diretamente colocados à disposição e efetivamente utilizados no contexto da
crise institucional da República de Weimar. Em 1933, o próprio Schmitt defendeu a tese
segundo a qual o Presidente do Reich poderia concentrar em si os poderes constitucionais
pela suspensão de direitos fundamentais, assegurada no art. 48 da lei fundamental, tese que
foi tomada como pretexto legítimo para a instalação de uma ditadura ―constitucional‖.
Na primeira parte do trabalho, será discutido o legado teórico de Schmitt na
configuração de um modelo teórico-jurídico representativo dos Estados constitucionais de
perfil antiliberal do início do século XX. Atentar-se-á, especificamente, para a
fundamentação da crítica metafísica ao liberalismo, para os apontamentos críticos às
instituições liberais e para a configuração de uma ordem jurídico-constitucional de natureza
propriamente antiliberal —através da definição de conceitos como estado de exceção, poder
soberano, ditadura comissarial e ditadura soberana. Desenvolver-se-á, ainda na primeira
parte, de que forma esta abordagem crítica dos sistemas constitucionais liberais orienta o
estabelecimento de um modelo de ordem social especificamente antiliberal. Schmitt poderá
ser, então, considerado um autor que, a partir desse pano de fundo teórico-cultural, foi
capaz de construir instrumentos jurídico-conceituais responsáveis pela delimitação de um
novo espaço institucional, exemplar, em que a concentração de poderes, a possibilidade da
suspensão de direitos fundamentais e a paralisação das instituições representativas
(partidos, associações e parlamento) formaram a tônica de um novo Estado que nasceu na
década de 30.

15
Na segunda parte do trabalho será privilegiada uma aproximação analítica à obra de
Francisco Campos com o objetivo de demonstrar que Campos constrói uma teoria política
acabada, baseando-se numa filosofia da história decadentista e antiliberal. Em se estudando
o conjunto de sua obra, nota-se uma preponderância de discursos realizados quando no
exercício de cargos públicos, revestidos, quase sempre, de um aspecto oficial. Por esta
razão, muitas vezes atribuiu-se um caráter de tensão entre elementos liberais e autoritários
que transpareceriam em seus escritos. Demonstrar-se-á, contudo, que Campos é um autor
antiliberal e hobbesiano, que recepciona elementos vinculados à doutrina liberal como
simples instrumentos para a realização de sua visão de mundo, já que ele desenvolve um
liberalismo instrumental, não havendo propriamente uma tensão entre elementos
ideologicamente distintos em seu pensamento. Do seu discurso à herma de Afonso Pena, na
década de 10 —quando defendia a tutela da República liberal pela elite jurídica formada
nos moldes do Império—, até a sua avaliação decadentista da dispersão romântica das
energias sociais no final dos anos 40, o antiliberalismo de Campos não é só convicto como
monolítico. A sociologia desenvolvida pelo autor a fim de explicitar as aporias políticas de
sua época configura uma sociedade de massas em que a única possibilidade de realização
da política é a mobilização emocional do mito.
Na terceira parte, serão desenvolvidos os fundamentos tanto da doutrina castilhista
que será estudada como núcleo histórico da idéia de Estado de Getúlio Vargas, como do
pensamento sócio-político de Oliveira Vianna que irá informar a reforma social e
trabalhista durante o regime estadonovista. Ante uma situação política fragmentada pelos
interesses oligárquicos, o Rio Grande do Sul destaca-se por construir, durante décadas, um
regime fundado numa doutrina política incorporada como guia para a ação da maioria dos
seus líderes políticos. A Constituição gaúcha de 14 de julho de 1891 representa, assim, a
realização de uma teoria com intenção de reforçar o caráter modernizador, moralizante e
público do Estado e objetiva servir de modelo para as instituições políticas nacionais. O
comtismo gaúcho, orientado pelo líder Júlio de Castilhos, surge como a base teórico-prática
que orientará Getúlio Vargas na condução de sua vida política. 11 Demonstrar-se-á que o
Estado Novo pode ser lido, de certa forma, como uma extensão bastante modificada —pela
mediação de Francisco Campos—, de alguns dos princípios políticos cardeais do

11
RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo: uma filosofia da república. Brasília: Senado Federal, 2000.

16
castilhismo, como a concentração do poder político no Executivo, a moralização da
administração pública e a constitucionalização de direitos trabalhistas. O antiliberalismo
explícito da Carta gaúcha será atacado ferozmente pelos constitucionalistas republicanos no
Congresso Nacional. As diferenças existentes em relação à Constituição da República, de
24 de fevereiro de 1891, especialmente no que diz respeito à divisão de poderes, foi
defendida pelos deputados gaúchos que buscava apoio na doutrina norte-americana.
Participante ativo de todo este processo, Vargas representará a herança castilhista no
cenário nacional.
Já Oliveira Vianna significa para o Estado Novo, a necessidade de uma planificação
do problema oligárquico em nível nacional. Contra as instituições liberais importadas sem
preocupação com a realidade sociológica do Brasil, ele propõe um modelo centralizador e
corporativo para o Estado, todo orientado para a organização solidária da ordem. A ordem
política nacional carece, para o autor, de uma configuração jurídica em sintonia com a
complexidade social. Reconhece, então, a necessidade de um novo modelo de juridicidade,
fundado no realismo norte-americano e na resolução judicial de questões coletivas. A fonte
privilegiada de Oliveira Vianna, nessa recomposição antiliberal da interpretação jurídica, é
também Carl Schmitt. Para ambos, numa sociedade em que o caráter social dos conflitos é
a tônica do momento, a necessidade de se atribuir poderes legislativos à autoridade
administrativa é central. A sua crítica ao Estado liberal e à instituição de um parlamento
incapaz de funcionar na regulação de problemas técnicos atenderá à legitimação do golpe
de Estado, que é como classifica o imperativo moral e social do Estado Novo. O
antiliberalismo de Oliveira Vianna —que não pode ser classificado simplesmente de
autoritário— exalta a extensão dos poderes legislativos do Poder Executivo, nos mesmos
moldes defendidos por Schmitt em seu livro Legalidade e Legitimidade (1932).
Na última parte verificar-se-á de que forma o discurso de Campos produziu um
modelo diferenciado de ditadura, que pode ser classificado de constitucional, antiliberal,
cesarista e de massas. Francisco Campos será investigado como operador de instituições
caras ao espírito antiliberal dos anos 30, quando por todo o ocidente o modelo de Estado
liberal estava em franca decadência. Por conta de uma necessidade teórica e política,
Campos utilizará uma classificação do Estado Novo que servirá, ao lado da interpretação
política de Azevedo Amaral, em seu livro O Estado autoritário e a realidade nacional

17
(1938), à clarificação conceitual de uma tipologia dos Estados contemporâneos. Essa
tipologia ficou mundialmente conhecida através da publicação posterior do livro de Karl
Loewenstein, Brasil sob Vargas (1942), erroneamente reputado como o autor da
diferenciação conceitual entre autoritarismo, fascismo e totalitarismo. Mas é em Francisco
Campos e Azevedo Amaral que se configura, portanto, o início de uma tabulação teórica
que fará um caminho acadêmico obscuro. Publicando a clássica distinção conceitual no
livro de 1942, em que cita expressamente Francisco Campos e Azevedo Amaral,
Loewenstein é a referência de Franz Neumann, em seu livro de crítica ao nacional-
socialismo, Behemoth (1942). A definição do totalitarismo como regime de governo que
não diferencia a esfera privada dos interesses públicos e que redunda na eliminação da
espontaneidade —ou da humanidade—, conceito originalmente presente no livro de
Azevedo Amaral, aparece em Hannah Arendt, no livro As Origens do totalitarismo (1949).
Esse caminho tortuoso, porém visivelmente identificável, é capaz de situar os autores
brasileiros, juntamente com suas contribuições intelectuais, na configuração do
constitucionalismo antiliberal dos anos 30 no Brasil, como verdadeiramente responsáveis
por uma das definições conceituais mais importantes da teoria política do século XX. Neste
contexto, a Constituição de 10 de novembro de 1937 surge como documento nuclear para a
compreensão do processo de consolidação do Estado brasileiro. Ela concentra, em seu
texto, a conjunção do ideário antiliberal nos moldes dos anos 30 no Brasil. Fechado o
congresso Nacional, burocratizado o processo legislativo e o comando dos governos
estaduais, estabelecido o processo de legitimação política no caráter provisional do texto
constitucional, nos Conselhos técnicos e na chancela do Plebiscito, o Estado Novo pôde
funcionar, paradoxalmente, como um regime político acabado, consolidando-se como o
motor da modernização do Brasil. Se, por um lado, afastou os elementos institucionais e
políticos do atraso, coordenando, das instituições públicas, a realização dos interesses
sócio-econômicos da esfera privada, consolidou uma tradição jurídica avessa à legitimação
pelo debate público e representativo distanciada, portanto, da idéia de autonomia
individual. A ampliação do Estado e de sua burocracia não significou o alargamento do
espaço público, mas a realização planificada dos interesses privados. Os interesses do
Estado nacional, representados monoliticamente pelos dirigentes políticos do Estado Novo,
não puderam vincular-se —por uma questão de princípios— aos interesses passíveis de

18
estabelecerem-se publicamente num espaço democrático de discussão. Definir esse
paradoxo no exame da doutrina constitucional antiliberal do Estado Novo é o que pretende
o presente trabalho.

***

Todos os textos em línguas estrangeiras foram traduzidos diretamente pelo


doutorando. Os livros em alemão, dada a pouca familiaridade com a língua, foram
traduzidos a partir do cotejo com edições em italiano, francês, inglês e espanhol. Não foi
possível utilizar o original alemão do livro Hamlet ou Hécuba (1956), motivo pelo qual
optou-se pela versão italiana, cotejando-a com a edição espanhola. Livros apenas
consultados não foram referenciados. Todas as citações grifadas encontram-se nos
originais, a não ser quando houver a indicação grifo nosso.

19
PARTE 1. DITADURA E ORDEM ANTILIBERAL EM CARL SCHMITT

O constitucionalista católico alemão Carl Schmitt (1888-1985) representa, com sua


obra, a condensação do pensamento jurídico antiliberal do século XX. Próximo a problemas
de natureza burocrática e política ainda durante a Primeira Guerra, colocará a questão dos
limites da atuação do Estado ante situações excepcionais definidas pela Constituição alemã
como estado de guerra e de emergência. Estabelecido como professor de direito em Bonn a
partir de 1919, Schmitt será convidado por Hugo Preuss —o autor da redação final da
Constituição de Weimar—, a lecionar em Berlin. Com a queda da Bolsa de Valores,
Schmitt passará a trabalhar com Johanes Popitz, Secretário do Ministro das Finanças do
Reich. A sua atuação, em casos relativos à declaração de estado de emergência na Suprema
Corte —a remoção do Gabinete Prussiano pelo Presidente do Reich com base no art. 48 da
Constituição de Weimar— levou-o ao oficialato do conselho Prussiano de Estado.1 Como
consultor jurídico do Reich, Schmitt colaborou praticamente com todos os Presidentes,
desde Ebert até Hitler, para quem definiu o argumento da ditadura constitucional a fim de
debelar a crise política de 1933. O golpe de Estado de Hitler, que instalou o regime
nacional-socialista, foi arquitetado juridicamente por Schmitt, que ficaria vinculado ao
regime até 1936. Com o fim da guerra, Schmitt sofreu o ostracismo dos colaboracionistas e,
mesmo sendo ouvido apenas como testemunha no Julgamento de Nuremberg, ficou recluso,
nos arredores de Plettenberg, praticamente até sua morte, sem ter retornado à vida política
ativa.
A partir dos anos 70 do século XX, iniciou-se uma recuperação do pensamento de
Schmitt, que passou, inclusive, a servir de base para uma crítica da esquerda norte-
americana às políticas de Estado contemporâneas.2 Schmitt publicou uma vastíssima obra
que soma mais de 250 trabalhos, entre livros e artigos. Os de maior relevância, que
permitem conhecer o pensamento político-jurídico do autor são: Romantismo político
1
Cf. SCHWAB, George. The Challenge of exception: an introduction to the political ideas of Carl Schmitt
between 1921 & 1936. 2nd edition; with a new introduction. Connecticut: Greenwood Press, 1989 (1970), pp.
13-6.
2
Nesse sentido, constituem referência várias edições da revista Telos, que se dedicou, inclusive, à tradução de
diversos artigos de Schmitt.

20
(1919), A Ditadura (1921), Teologia política (1922/1933), A Situação histórico-espiritual
do parlamentarismo contemporâneo (1923), Catolicismo romano e forma política (1924),
Teoria da Constituição (1928), O Defensor da Constituição (1931), Legalidade e
legitimidade (1932), O Conceito do político (1932) e Hamlet ou Hécuba (1956).
Se for possível compreender a complexa e contraditória obra de Schmitt como
portadora de uma sistematicidade intrínseca, ela estaria vinculada a um problema de fundo
que é a derrocada do racionalismo moderno em geral —expressa politicamente no
liberalismo—, a partir da qual o autor interpreta a crise política e institucional da Alemanha
entre 1914 e 1933, como sugere Carlo Galli. 3 O livro de Schmitt que primeiro alcançou um
público mais amplo e serve como introdução à grande parte de sua crítica ao sistema
jurídico-político de fundamento liberal é Romantismo Político (1919).4 Seu objetivo, além
de demonstrar que o romantismo é o fundamento metafísico do liberalismo —e de suas
limitações teóricas e institucionais—, é identificar a burguesia européia enquanto classe que
abraçou o romantismo como forma de expressão, estilizando os conflitos políticos,
dissociando-os da realidade. Rompendo com a hermenêutica tradicional que classifica o
romantismo como um modelo puramente referido às questões estéticas, Schmitt amplia este
conceito a fim de que ele englobe manifestações de natureza política. 5
Esta obra é uma crítica direta ao que o autor identifica como o processo de
despolitização instaurado pela ordem social liberal. O romantismo é identificado com o
liberalismo através da investigação analítica da atitude espiritual do sujeito romântico, ou
seja, do homem burguês: uma relação individualista com o mundo que objetiva transformá-
lo em mera ocasião de gozo estético e que se contrapõe às múltiplas formas de cultura ou à
ordem cultural tradicional. 6 O ator político romântico vê o mundo como um espaço que
deve adaptar-se, constantemente, ao sentido estético das suas mais variadas manifestações.
O mundo se transforma, assim, numa espécie de objeto pessoal do sujeito romântico,
mudando de significado a seu bel-prazer. A realidade torna-se uma opção estética
individual e adaptável ao gosto de quem a manipula.

3
GALLI, Carlo. Genealogia della politica: Carl Schmitt e la crisi del pensiero politico moderno. Bologna: Il
Mulino, 1996, pp. VIII e ss.
4
As referências serão efetuadas a partir da Segunda edição, de 1925.
5
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Romantik. Zweite Auflage. Berlin: Duncker & Humblot, 1998 (1925).
6
Idem, p. 14.

21
O argumento de Schmitt pode ser sintetizado em dois pontos. Em primeiro lugar, o
processo geral de estetização objetiva privatizar os domínios intelectuais ou espirituais da
vida através da estética. O resultado é que a estética é absolutizada, e a religião, a moral, a
ciência e a política são tratadas simplesmente como temas para a produção da crítica de arte
ou para a produção artística pura e isolada do indivíduo: ―todas as diferenças e contrastes
factuais, como bem e mal, amigo e inimigo, Cristo e Anti-Cristo, podem se tornar
contrastes estéticos e objetos de intriga numa novela e podem ser esteticamente inseridos
no efeito de uma obra de arte‖.7 O resultado da estetização é que estes conflitos sociais
passam a ser percebidos e tratados, não mais como diferenças reais —são harmonizados,
isto é, deslocados de sua realidade concreta, transportados para o mundo imaginário
construído pelo sujeito romântico, possuidor de uma espécie de onipotência
hermenêutica— e passam a produzir exclusivamente um efeito estético, para deleite dos
sentidos. Em razão disso, os conflitos políticos representarão apenas uma oportunidade de
conversa e argumentação entre homens isolados em seus universos compreensivos auto-
referentes, sem que se pretenda sua resolução prática.
Em segundo lugar, Schmitt busca o critério ou princípio capaz de identificar a
estrutura intelectual —a fórmula metafísica— que está por trás do romantismo. A
metafísica do movimento romântico caracteriza-se por sua atitude em relação ao mundo,
especificada pelo conceito desintegrativo de occasio, manifesto nas idéias de ocasião,
oportunidade e chance, em contraposição polêmica ao conceito ordenador e normativo de
causa, que significa a força da causalidade calculável e normativa do mundo. Assim,
seguindo a tradição da filosofia de Malebranche, para quem o mundo surge como mera
ocasião para a manifestação da autoridade divina, ―[e]sta atitude caracteristicamente
ocasional pode persistir ao mesmo tempo em que alguma outra coisa tome o lugar de Deus
como fator decisivo e autoridade última, como por exemplo, o Estado, o povo, ou mesmo o
sujeito individual‖. Neste caso, indivíduos isolados tomam o mundo como occasio para a
sua manifestação estética, sendo a formulação de Schmitt: o romantismo é o ocasionalismo
subjetificado, uma forma secularizada da atitude metafísica do ocasionalismo deísta
originário.8 Para Schmitt, portanto, o ocasionalismo se transforma na atitude filosófica

7
Idem, p. 17.
8
Idem, p. 18.

22
estruturante do liberalismo burguês com conseqüências práticas na esfera do político.
Considera o romantismo problemático na medida em que tende à ―poetização dos conflitos
políticos‖, eliminando qualquer decisão palpável. 9
Esta incapacidade do liberalismo de conduzir a dinâmica concreta da política a
partir da tomada de decisão remete à crise do Estado liberal durante os anos 30 do século
XX. Para Schmitt, o Estado burguês e suas instituições —condensadas numa Teoria
Constitucional liberal— explicam, pelas suas características intrínsecas, esta incapacidade.
Ante uma situação histórica de crise institucional, Schmitt figurou como o autor que já
entendera sob que condições uma reforma constitucional poderia legitimar uma nova ordem
política. Para que se possa examinar: a) de que forma o constitucionalismo schmittiano
condensou conceitualmente as transformações do Estado contemporâneo; b) como Schmitt
tornou-se o autor fundamental para a compreensão dos regimes ditatoriais do século XX e
c) quais são os elementos fundamentais do pensamento schmittiano que poderão ser
identificados no constitucionalismo antiliberal brasileiro —estudado na obra de Francisco
Campos—, a exposição a seguir está dividida em duas partes.
Na parte inicial, denominada Teologia Política, é explicitado de que forma a sua
crítica aos fundamentos filosóficos do liberalismo redunda numa análise da modernidade
política em que o liberalismo, como visão de mundo, operará como magicização, isto é,
como encobrimento discursivo ou estético dos ―fatores reais de poder‖. A idéia política do
poder soberano e da soberania será reconfigurada pela teoria schmittiana que, em
examinando a Teoria do Estado liberal, percebe sua limitação operacional nos casos
excepcionais. O direito liberal só consegue operar na normalidade e o conceito de soberania
a ele vinculado carece de capacidade de decisão. Como Schmitt vislumbra situações de
crise, faz-se necessário um outro instrumental teórico-prático para sustentar a necessidade
política e pessoal de decidir, problema encontrado, inclusive, nos escritos mais antigos do
autor, quando seu alvo era a visão liberal de Kelsen sobre a aplicação judicial do direito. O
modelo de Estado soberano que desponta da obra de Schmitt se apóia, portanto, num
Estado árbitro enquanto força que submete os conflitos sociais a sua regulação e cuja
funcionalidade remete à pacificação através de decisão legitimada constitucionalmente. A

9
Cf. LESSA, Renato de Andrade. A Política como ela é...: Carl Schmitt e o realismo político como agonia e
aposta. In: LESSA, Renato. Agonia, aposta e ceticismo: ensaios de filosofia política. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2003, pp. 15-61., p. 32.

23
Teologia Política de Schmitt não deixa de operar, igualmente, uma magicização do mundo,
ao defender a teologia como um instrumento ainda válido para interpretar a modernidade
política.
Na segunda parte, denominada Ditadura, democracia e ordem antiliberal, será
definida a crítica de Schmitt às instituições liberais. A atitude romântica representará, nesse
sentido, o processo pelo qual o liberalismo colocar-se-á no mundo, evitando decidir sobre o
político, sobre a sobrevivência do Estado e da própria comunidade. O liberalismo
manifestar-se-á, portanto, historicamente, por instituições políticas como o parlamento,
lugar de discussão, e não de decisão. O objetivo desse momento de exposição do
pensamento político de Schmitt é qualificá-lo como o autor que estabeleceu um modelo de
ordem política vinculada aos ―poderes de emergência‖, ou seja, aos institutos jurídico-
constitucionais de que o Estado pode lançar mão para debelar crises variadas pelo uso
autorizado —e, portanto, constitucional— da força. Schmitt será examinado, então, como o
renovador da teoria romana da ditadura na modernidade, que se opõe diretamente ao
liberalismo por considerar o espaço político como o lugar da decisão por excelência.
Em conseqüência, a idéia é estabelecer Schmitt como aquele que irá condensar,
através de sua crítica liberal, os fundamentos para a construção de um ―constitucionalismo
de crise‖ a ser utilizado durante o século XX nas mais diversas situações políticas. A onda
extremista que varre a primeira metade do século passado encontrou em Schmitt um autor
que viabilizou um instrumental necessário à realização de uma ―razão de Estado‖ que não
pretende limitar-se a institutos de força cerceados, normativamente, por constituições de
corte liberal. O Estado schmittiano é o Estado em que as instituições de controle formal da
atividade administrativa e legislativa não podem subsistir. Um Estado sem parlamento, sem
processo de representação política formalizado em instituições, um Estado plebiscitário e
que funciona pela aclamação do Presidente pelas massas é o modelo que surgirá do exame
de parte de sua obra. Esse modelo de ordem política será mobilizado na formação de várias
constituições pelo mundo. A importância do estudo, neste trabalho, do modelo schmittiano,
é que servirá de subsídio ao exame da relação entre suas idéias e o modelo brasileiro que se
conforma, à mesma época. Assim, depois de se estabelecer o modelo de ordem política de
Schmitt, que se traduz, em primeiro lugar, pela crítica aos fundamentos do liberalismo e,
em segundo, às instituições liberais e de construção de uma ordem política que funciona

24
utilizando instrumentos de emergência, examinar-se-á o modelo paralelo —e especular—
de ditadura no Brasil através do seu autor, Francisco Campos.

25
1. TEOLOGIA POLÍTICA

A oposição entre pensamento e existência é, para Schmitt, o problema filosófico da


modernidade. E como a manifestação política da atitude romântica deriva de uma
percepção individual do mundo, só é possível acessar seus fundamentos contextualizando a
situação intelectual em que o romantismo está inserido. 10 Para Schmitt —e isto fica claro
num texto posterior, derivado de uma conferência em Barcelona, A Era das neutralizações
e despolitizações (1929)—, os conhecimentos histórico e cultural são sempre parciais
porque auto-referentes, vinculados que estão ao contexto específico em que foram
formulados. O problema é ter a consciência de que o conhecimento é contextual e de que a
situação histórica só é compreendida através das necessidades e das características centrais
do próprio tempo histórico.11 Na crítica mais famosa ao esforço teórico de combate aos
fundamentos do liberalismo efetuada por Schmitt nos anos trinta, em Notas sobre Carl
Schmitt: o conceito do político (1932), Leo Strauss diz que o ataque leva em conta o fato —
manifesto através de suas instituições políticas características— segundo o qual o
liberalismo falhou na implementação de suas instituições. 12 Há que considerar, a despeito
desta constatação, Schmitt não deixa de frisar a consistência sistemática do pensamento
liberal, ainda não substituído por nenhum outro sistema. É uma perspectiva claramente
presente na investigação sobre a metafísica subjacente à formação intelectual do
liberalismo, já que é possível sustentar que ele é representado —reconstituído— nos textos

10
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Romantik, p. 62. Esta preocupação em estudar o contexto intelectual
inscreve a pesquisa de Schmitt numa espécie de História conceitual das idéias. As definições que vão definir o
apelo retórico de toda a sua filosofia política, já se encontram aqui delineadas com clareza. O próprio livro é
aberto com o questionamento do método tradicional de investigação intelectual. As confusões gerais
derivadas da incapacidade de decidir sobre o sentido das palavras e dos conceitos apontam, segundo Schmitt,
para a falta de critérios satisfatórios. O ataque é contra as abordagens psicológicas e sociológicas na
conceituação do romantismo, que confundem seus sintomas e conseqüências com características propriamente
constitutivas. A busca de vinculação do romantismo com objetos considerados românticos e a possibilidade
de derivar a natureza romântica destes objetos estão equivocadas. Como fica claro, no decorrer do livro, a
conceituação do romantismo só pode derivar da investigação do próprio sujeito romântico, de suas conduta e
relação específicas com o mundo. Idem, pp. 5-8.
11
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen und Entpolitisierungen. In: SCHMITT, Carl. Der
Begriff des politischen: text von 1932 mit einem Vorwort und drei Corollarien. Berlin: Duncker & Humblot,
1996 (1932), pp. 79-95., p. 79.
12
Cf. STRAUSS, Leo. Notes on Carl Schmitt: the concept of the political. In: MEIER, Heinrich. Carl
Schmitt and Leo Strauss: the hidden dialog. Translated by Harvey Lomax. Foreword by Joseph Cropsey.
Chicago and London: The University of Chicago Press, pp. 91-119, p. 92.

26
de Schmitt, como uma inversão, uma imagem em negativo de sua própria perspectiva do
mundo político ou, como diz Strauss, como um liberalismo com polaridade oposta. 13
O caráter lírico que conforma a produtividade intelectual do romantismo significa a
capacidade de paralisar a consistência dos sistemas filosóficos do racionalismo através da
atribuição de um conteúdo sentimental aos seus conceitos. Segundo Schmitt, o romantismo
se apropria, de forma distorcida, das variadas manifestações do racionalismo, como, por
exemplo, a idéia de contrato social e seus derivados, transformando-as em mera ―fantasia
romântica‖. Rousseau, ao invés de analisar o conceito de ―estado de natureza‖ como
abstração intencional ou fato histórico —como, de resto, seriam as manifestações analíticas
vinculadas à tradição do racionalismo—, transforma-o num idílio concreto, num devaneio
campestre, numa peça literária —novelesca— cuja função exclusiva passa a ser o deleite
dos sentidos.14
O que Schmitt destaca é que a reação conservadora ao racionalismo abstrato do
século XVII, facilmente identificável em uma investigação histórica, contribuiu
diretamente para forjar o romantismo político alemão da restauração 15 e, como se verá, para
conformar o ethos político do século XX. O romantismo constitui-se uma fase
intermediária do estético, entre o moralismo do século XVIII e o economicismo do século
XX. O escopo de Schmitt, aqui, é demonstrar a origem da vinculação entre a mudança dos
fundamentos culturais do espírito europeu e a conformação ideológica e prática de suas
elites políticas. É n‘A Era das neutralizações e despolitizações, já citado, que Schmitt irá
avançar esta idéia.
O ―desenvolvimento metafísico‖ que ocorre entre os séculos XVII e XIX, relaciona-
se, para Schmitt, com a identificação do ―núcleo da história moderna da Europa‖, isto é,
com os passos em que se moveu o espírito europeu em certos centros de gravidade
existencial, capazes de amalgamar a evolução cultural (Kulturentwicklung) da elite ativa e
de externar seu pluralismo de idéias. 16 É um processo que indica as etapas de neutralização
e despolitização que caracterizaram tanto a alternância das elites —e de suas convicções e
argumentos— no poder político, quanto a alteração do ―conteúdo de seus interesses

13
Idem, p. 117.
14
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Romantik, pp. 66 e ss.
15
Idem, p. 67.
16
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, pp. 80-1.

27
espirituais, o princípio de sua atuação, o segredo de seus êxitos políticos e a disposição das
grandes massas em deixarem-se impressionar por uma determinada classe de sugestões‖.17
Assim, do século XVI para o XVII ocorre o deslocamento da teologia para a
metafísica e o cientificismo como esferas centrais de referência cultural. O racionalismo
metafísico do século XVII cede lugar, já no século XVIII, ao conceito mítico de virtú, que
se sustenta mesmo ante o romantismo de Rousseau. O século XIX surge como o século do
romantismo em interação com o economicismo. Finalmente, o século XX tem como
conceito espiritual central —e graças à estetização do economicismo efetuada pelo
romantismo ainda no século XIX— o progresso técnico, informado por um forte elemento
mágico. Como ocorre com qualquer conceito espiritual central, com o progresso técnico
todos os problemas de natureza política, moral, religiosa, social e econômica são remetidos
ao desenvolvimento técnico, que os engloba em sua ―realidade‖ e os resolve
magicamente.18 Estas etapas de neutralização e despolitização querem significar o processo
de encobrimento da realidade política concreta que acabará por gerar, no início do século
XX o diagnóstico de falência das instituições liberais. Lembra Leo Strauss no texto já
citado que, para Schmitt,
As circunstâncias desta falência são as que seguem: O liberalismo negou o político;
ainda assim, o liberalismo não eliminou o político da face da terra, mas só o
escondeu; o liberalismo conduziu ao que o político está comprometido por meio de
um modo anti-político de discurso. O liberalismo não matou, assim, o político, mas
só o entendimento do político.19

A incapacidade de o liberalismo compreender a esfera do político e sua impotência


institucional na organização da sociabilidade são caracteres identificáveis no
antiliberalismo brasileiro dos anos 30 do século XX. O constitucionalismo antiliberal de
Francisco Campos servir-se-á, largamente, desses argumentos, tanto em sua crítica do
federalismo da 1ª República, quanto na proposição normativa da ditadura estadonovista. De
qualquer sorte, para reconstruir intelectualmente este processo de derrocada concreta do
que o liberalismo construiu durante a modernidade política, Schmitt sustenta que a
neutralização e a despolitização manifestam-se como secularização de conceitos centrais
(Zentralbegriffe), cujo sentido específico se constitui no domínio de cada campo espiritual
17
Idem, p. 82.
18
Idem, passim.
19
STRAUSS, Leo. Notes on Carl Schmitt, p. 92.

28
ou cultural de cada século, e cujo conteúdo histórico concreto só pode ser compreendido, e
definido, a partir de seu posicionamento em relação àquele âmbito ou esfera cultural central
(Zentralgebiete).20 Nesse sentido, a neutralização e a despolitização de conceitos centrais
representam a magicização de uma narrativa epocal sobre a realidade. As explicações sobre
o mundo irão mudar de acordo com esses conceitos culturais centrais e, para cada época,
prevalecerá um modo de entendimento do mundo centralizado pelo conceito preponderante.
Para Schmitt, opera-se, nesta dinâmica, tanto uma conformação monolítica do
entendimento do mundo —já que no século XX, por exemplo, todos os fenômenos,
inclusive os de natureza política, serão interpretados a partir da idéia de progresso
técnico— quanto uma magicização do mundo, pois a idéia de ―progresso técnico‖
neutraliza a possibilidade de se acatar a compreensão de determinada configuração política
como sendo, por exemplo, derivada de interesses econômicos obtusos. 21 Nesse sentido, a
técnica, por si só, não garante a ordenação do mundo a partir de princípios compartilhados,
apenas realiza-se como instrumento destituído de sentido. Para Schmitt, este fator
fundamental representa um dos elementos desagregadores derivados do ethos romântico-
liberal na modernidade política.
Se a crise do racionalismo moderno ocidental é identificada pela reconstrução
genealógica da atitude romântica, como aparece a própria modernidade política na obra de
Schmitt? Na conformação das etapas históricas do processo de modernização, a
aproximação analítica de Schmitt utiliza o conceito de secularização (Säkularisierung),
para que se compreenda as esferas culturais centrais (Zentralgebiete), capazes de revelar —
20
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, p. 86.
21
Em Heidegger, contemporâneo de Schmitt que debate sobre o mesmo objeto, a questão da técnica aparece
como tendência fundamental do mundo contemporâneo, mas numa perspectiva que não é a da decadência da
modernidade pela ocultação do elemento mágico. A técnica pode oferecer perigo, mas também salvação.
Originalmente vinculada à idéia grega de desocultamento, descobrimento da verdade, a técnica, quando está
referida à modernidade, opera como produtora de energia, não podendo ser compreendida como simples
ferramenta, controlável pela vontade humana. A técnica moderna caracteriza-se tanto pela revelação —como
na antigüidade—, quanto pela interação prospectiva com a natureza. Tudo se torna presente, apto a ser
utilizado nessa relação entre tecnologia e natureza, o que significa impor uma nova organização para o
mundo. Opondo-se à revelação, se na modernidade o homem não está em contato com a sua essência, torna-se
incapaz de vislumbrar, com clareza, esse processo de desocultamento proporcionado pela técnica. A
conseqüência é um perigo vinculado não à técnica, que não é demoníaca, mas à essência da técnica. O perigo
de uma interpretação equivocada da verdade está pari passu com a idéia de que a técnica pode proporcionar
salvação, no momento em que o homem passa a questionar-lhe os perigos. Cf. HEIDEGGER, Martin. A
Questão da técnica. In: HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro
Leão et alli. Petrópolis: Vozes, 2002; O´BRIEN, Mahon. Commentary on Heidegger‘s ―The Question
Concerning Technology‖. In: Thinking Together. Proceedings of the IWM Junior Fellows' Conference,
Winter 2003, ed. A. Cashin and J. Jirsa, Vienna: IWM Junior Visiting Fellows' Conferences, 2004. Vol. 16.

29
no momento em que se lhes identifica a existência— o papel de despolitização e
neutralização da metafísica liberal, sustentáculo de uma subjetividade que subsiste sem
seriedade moral nem energia política. O Romantismo Político responderá, assim, pela
eliminação da responsabilidade ou da responsabilização política do homem como sujeito da
história. Mas não é pela análise exclusiva da atitude metafísica liberal que a interpretação
da modernidade política torna-se complexa em Schmitt. Ela explica-se, adicionalmente,
pelos conceitos nucleares de uma certa Teoria do Estado que parte substancial da obra de
Schmitt tem o objetivo de refundar.
É nesse constitucionalismo schmittiano em estado embrionário —só plenamente
desenvolvido em seu livro Teoria da Constituição— que será possível observar a formação
intelectual de seu antiliberalismo. É onde, começa a se delinear um projeto de
sociabilidade, um conjunto de elementos que conformarão as instituições constitucionais
antiliberais, fazendo do autor uma espécie de pólo aglutinador do espírito do tempo, alguém
que soube expressar didaticamente a crítica ao modelo de Estado que pretendia, nas
primeiras décadas do século XX, transformar-se em paradigma. Nesse sentido,
modernidade política é a expressão de uma complexa idéia normativa de ordem político-
jurídica que é possível extrair da sistemática reconstrução conceitual, revelada pela
centralidade do conceito de secularização no conjunto dos textos de Schmitt na fase de
Weimar.
A detalhada crítica da estrutura jurídica liberal que Schmitt constrói em seus textos
dos anos 20 do século XX é o caminho que torna possível a apresentação de um modelo
diferenciado de juridicidade, não mais estabelecido pela idéia de regularidade impessoal, de
racionalidade e regularidade normativas. Schmitt desloca a fundamentação do direito em
direção à materialidade e à pessoalidade da decisão política fundamental. Acusado de ter
uma aproximação do político —ela mesma— ocasional e, portanto, romântica, como já
sustentava Karl Löwith no texto O Decisionismo (ocasional) de Carl Schmitt (1935)22

22
E que foi publicado sob o pseudônimo de Hugo Fiala, por estar Löwith exilado na Itália. Nesta época,
Schmitt chegou a acreditar que por trás do pseudônimo estaria Georg Lukàcs. Para Löwith, no que concerne
seu argumento principal, o decisionismo de Schmitt é romântico: arbitrariamente individualista, vinculado à
construção de uma visão de mundo específica e a uma ordem social determinada subjetivamente (vontade),
ele é ocasional. A guerra como fundamento do político não passaria, assim, de um obscuro mito romântico
elevado a fundador da atividade política moderna. Cf. LÖWITH, Karl. Le Décisionnisme (occasionnel) de
Carl Schmitt. Traduit par Mira Köller et Dominique Séglard. In: Les Temps Modernes. Paris: Galimard, nov.
1991, nº 544, 47º Année, pp. 15-50.

30
Schmitt tentou contrapor a sistematicidade de seu método conceitual como antídoto. Na sua
Teologia política: quatro capítulos sobre a teoria da soberania (1922),23 sustenta que
―todos os conceitos fecundos (prägnanten Begriffe) da moderna Teoria do Estado são
conceitos teológicos secularizados‖. 24 O reconhecimento do elemento pessoal na decisão
política não faz Schmitt desacreditar da objetividade de sua aproximação ao estudo do
pensamento liberal. Este último é lido pelo autor alemão como o responsável pelo
afastamento entre história e política: o fato de que a decisão política concreta se realiza sem
a mediação de um entendimento da organização do poder, que se torna abstrato.
A ―história desses conceitos importantes‖ e de sua mitificação pelo pensamento
liberal se fará a partir de uma exposição da Teoria do Estado e da Constituição seguida de
uma consideração sobre o funcionamento concreto ou do ―exercício imediato‖ do conceito
na história. O resultado do cotejamento entre uma proposta teórica de Estado e de
Constituição e a prática histórica da sociabilidade, é a distinção entre as variadas
concepções da Teoria do Estado: especialmente a de corte romântico e a de perfil
antiliberal. Torna-se possível, então, uma explicação jurídico-científica do conceito de
Teoria do Estado, capaz de esclarecer a relação entre idéia e realização. 25 Ou seja, a
sociologia dos conceitos de Schmitt permitiria, segundo ele, uma análise capaz de provar
identidades intelectuais entre a estrutura de conceitos metafísicos e a estrutura política de
uma época.
Hans Blumenberg, em A Legitimidade da era moderna (1966) critica a utilização do
termo secularização por Schmitt, por este sustentar uma continuidade histórica entre o
medievo e a modernidade, elevando o político à categoria de substância atemporal, e por
estar dissociado de sua significação histórica original (jurídico-canônica) sendo, portanto,
uma noção imprecisa. Ele vê o emprego schmittiano da secularização como uma crítica à
modernidade que de certa forma mantém a teologia com o status de instrumento de
inteligibilidade do mundo. Schmitt trabalharia com uma idéia de secularização que
ocultaria a lógica operativa da teologia, mas não eliminaria o "caráter mágico" do
metadiscurso da racionalidade moderna. Não seria problemático se o objetivo de Schmitt

23
SCHMITT, Carl. Politische Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveränität. Berlin: Duncker &
Humblot, 1996 (1922/1933), passim.
24
Idem, p. 43. (grifo nosso)
25
Cf. SCHMITT, Carl. Die Diktatur, p. XIX.

31
não fosse, segundo Blumenberg, manter funcionando, exatamente, a força da teologia.26
Para Schmitt, a tese segundo a qual a modernidade opera uma ―desteologização‖ dos
conceitos políticos significa, em verdade, a ―despolitização‖ daqueles conceitos. A
sociologia dos conceitos de Schmitt atua ao reverso da secularização: é, pode-se dizer, uma
―reteologização‖ que se pretende realizar ―às claras‖, assumindo as relações necessárias
entre elementos teológicos e políticos.
A determinação da historicidade e da precariedade temporal do conceito é
necessária para que se compreenda a dinâmica da Teoria do Estado. Já o processo de
secularização de conceitos —que é produzido em determinados momentos da
modernidade— tem como função afastar da existência histórica os elementos que
constituem a compreensão de uma época e a possibilidade de atuação política nesta. Sua
conseqüência é que a Teoria do Estado opera através de crenças cujo fundamento
originário (genético) é de caráter irracional. A imagem metafísica que ―reflete‖ determinada
organização política é capaz de revelar a função de ―arcana‖ da Teoria do Estado, isto é, a
sua função oculta de mistificação das formas políticas da modernidade e, portanto, de
―continuidade‖ secreta da tradição teológica. 27 Deste modo, quem analisa estes conceitos
pode observar que, segundo esta literatura,
o Estado intervém em todos os terrenos, ora decidindo uma controvérsia como um
deus ex machina no caminho da legislação positiva, para a qual o livre ato de
realização jurídica não soube levar a uma solução em geral convincente, ora como o
benévolo e misericordioso, que por meio de indultos e anistias demonstra sua
superioridade sobre suas próprias leis. 28

Reconhecer elementos de natureza transcendente como fundamentos ocultos da


idéia de poder político na modernidade indica um método de investigação conceitual que
busca demonstrar esta marcante ausência ou ocultação do caráter transcendente do conceito
de poder político. O fato de que uma crítica à Teoria do Estado permite identificar a lógica
de funcionamento da política moderna significa dizer, como Galli, que ―a soberania é, para
Schmitt, a função que permite a compreensão estrutural e o governo da lógica real da

26
BLUMENBERG, Hans. The Legitimacy of the modern age. Cambridge: MIT Press, 1983. (Studies in
contemporary German Social thought)., pp. 88 e ss.
27
Nesse sentido, GALLI, Carlo. Genealogia della politica, p. 354.
28
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, p. 44.

32
modernidade‖. 29 A modernidade, para Schmitt, deveria operar dentro da lógica política da
autoridade, dada a sacralização do poder político que deriva da ―teologização‖ da política: o
espaço do político é o da centralização do poder, da soberania.
Este desdobramento crítico da sociologia conceitual schmittiana é utilizado,
portanto, para realizar uma genealogia refundante do conceito moderno de soberania, que
está na base de entendimento da forma e da substância da política moderna européia. Na
verdade, os limites objetivos estabelecidos por cada época histórica na conformação da
modernidade definem as funções e os próprios limites dos conceitos gerados por ela,
fazendo com que a teologia política de Schmitt possa ser definida como esta
―hermenêutica‖ da metafísica fundadora das esferas culturais centrais (Zentralgebietes),
que se manifesta historicamente através da exceção (Ausnahme) ―ao pensar e estruturar a
política como uma ordem unitária organizada em torno a um centro soberano ou para
representar a idéia ausente de ordem‖. 30 A teologia política schmittiana pretende ser um
antídoto à neutralização e à despolitização da compreensão política postas pelo liberalismo.
Na medida em que busca afirmar a ordem política como derivada de uma decisão, isto é, de
uma ação no mundo, o autor paradoxalmente nega a possibilidade de se ver o fenômeno
político através de qualquer elemento de natureza mágica ou estética, mas de uma ação que
remete à personalidade e à existência do sujeito político implicado naquela decisão.
Entretanto, não passará incólume à formulação da ordem política schmittiana essa
ligação genética entre a sacralização da soberania, em termos modernos, e a ―magicização‖
do operador concreto da decisão política. Essas idéias desembocarão num
constitucionalismo vinculado à figura pessoal de um César. A magistratura romana servirá,

29
GALLI, Carlo. Genealogia della politica, p. 353.
30
Idem, pp. 355 e 432, nota 30. Nesse sentido podem ser colocados fortemente em questão –como um mal-
entendido– as abordagens que identificam a teologia de Schmitt com uma visão de mundo impregnada
(direcionada) por elementos religiosos, como uma teoria da fé na verdade da revelação, a qual poderia ser
compartilhada mesmo por quem rejeitasse as opções e a fé do próprio Schmitt, conforme, por exemplo,
MEIER, Henrich. Preface to american edition. In: MEIER, Henrich. Carl Schmitt and Leo Strauss, p. xv.
Para Galli, em resumo, ―O objeto de Teologia Política não é uma reflexão geral sobre os nexos entre religião
e poder, nem o seu objetivo é uma sacralização do poder ou uma restauração dos valores da tradição. Na
Teologia Política Schmitt pensa primordialmente o estatuto ontológico e epistemológico da política moderna,
a legitimidade da modernidade entendida como secularização (...) na teologia política schmittiana é inscrita a
impossibilidade da política se esta é compreendida como um agir fornido de senso substancial‖. Desta forma,
Schmitt foge à possibilidade de estar construindo uma filosofia da história que eventualmente atribua sentido
lógico, progresso ou projeto ao desenvolvimento sempre indeterminado dos desígnios epocais. Cf. Galli,
Carlo. Genealogia della politica, p. 357.

33
então, de inspiração para uma ordem política que se fará à imagem e semelhança da decisão
judicial contemporânea.

1.1 A secularização como conseqüência concreta do Romantismo Político

A filosofia política de Schmitt leva-o à investigação do processo de sedimentação


do modelo de sociabilidade liberal na modernidade, elemento necessário à posterior
construção de um Estado em consonância com o ethos econômico característico do século
XIX. Aqui, Schmitt realizará uma crítica à tecnicização do modelo liberal de Estado não
porque o considera um instrumento possível de ordem, mas porque os controles
institucionais do liberalismo não são capazes de definir uma direção necessária à realização
da técnica política. Conceito nuclear do pensamento schmittiano que marca sua
diferenciação crítica em relação à filosofia da história —com sua idéia de progresso
universal, ininterrupto e necessário—, a secularização (Säkularisierung) de conceitos como
Deus, progresso, liberdade, Estado, esfera pública, manifesta-se histórica e concretamente
na modernidade européia em quatro passos, correspondentes a quatro séculos, ―e vão do
teológico ao metafísico, daí ao humanitário-moral e deste ao econômico‖.31 Não se filiando
a uma acepção iluminista da história, Schmitt vê o desenrolar da modernidade como um
processo de redução paulatina da compreensão do mundo. É, nesse sentido, um autor
decadentista já que, para ele, o progresso técnico não fornece à humanidade instrumentos
de libertação do mundo, mas meios para que o homem não seja capaz de conduzir a sua
vida de forma autônoma: o ápice desse processo é a construção do Estado neutro e
agnóstico do liberalismo. Para Schmitt,
Todos os conceitos da esfera do espírito, incluindo o próprio conceito de espírito,
são em si mesmos pluralistas e se compreendem unicamente a partir da existência
política concreta. Do mesmo modo que cada nação possui seu próprio conceito de
nação e encontra suas próprias características constitutivas da nacionalidade em si
mesma e em nenhum outro lugar, assim também cada cultura e cada época cultural
possuem seu próprio conceito de cultura. Todas as idéias essenciais da esfera
espiritual do homem são algo de existencial e não normativo. 32

31
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, p. 80.
32
Idem, p. 84.

34
O paradoxo percebido por Schmitt é que, quanto mais neutros os conceitos políticos
pretendem ser —a fim de evitar os conflitos de origem teológica e estimular, a partir do
século XVI, a concórdia geral na Europa—, mais distantes da historicidade que os constitui,
mais afastados das esferas centrais de referência e mais incapazes de revelar suas raízes
políticas concretas se tornam. Isto porque o processo de neutralização —representado em
seu ápice pelo romantismo político— procura a generalização abstrata de conceitos
normativos que pretendem ser dotados de universalidade e necessidade, isto é, objetiva ser
inquestionável. 33 Neste sentido, o conceito schmittiano de secularização remete à precisa
noção de uma ―transposição de crenças e modelos de comportamento da esfera religiosa
para a secular‖, como lembra Giacomo Marramao, no seu Poder e secularização: as
categorias do tempo (1983).34 Assim, o conceito não se refere à dessacralização
(Entzauberung) do mundo (Weber), nem como declínio da religião, ruptura da sociedade
com a religião, ou como ―mundanização‖, o que remeteria a um processo de racionalização
das esferas da cultura, já que estariam as mesmas numa relação de emancipação com a
esfera religiosa —como, de resto, sugere o termo Säkularisierung.35 Em Schmitt, a questão
central que envolve a construção sociológica do conceito de secularização não passa, como
eventualmente pode parecer, pela recuperação de uma analogia funcional (ou da
descendência ou ascendência substancial) entre os fundamentos do pensamento teológico e
os fundamentos do pensamento político moderno. Schmitt não quer saber se é a teologia
que comanda a política no seu entendimento de mundo ou vice-versa. O relevante é a
identificação da origem genealógica da ordem política concreta que formou a modernidade
e a construção de um conseqüente ―stato neutrale ed agnostico‖ derivado do processo de

33
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, p. 88.
34
MARRAMAO, Giacomo. Poder e secularização: as categorias do tempo. Tradução de Guilherme Alberto
Gomes de Andrade. São Paulo: UNESP, 1995 (1983), p. 61, n. 8. Schmitt não fala propriamente de
transposição (Überschreitzung), mas de reocupação (Umbesetzung) de uma posição funcional, embora o
termo correto para a construção de sua sociologia dos conceitos presente no seu Teologia Política (1922) seja
efetivamente o primeiro, segundo a interpretação de GALLI, Carlo. Genealogia della politica, pp. 348-9 e
pp. 428-9, n. 24.
35
Cf. MARRAMAO, Giacomo. Poder e secularização, pp. 60-61, n. 8. A abrangência semântica relativa ao
uso histórico do termo é vasta. No século XVIII indicava o retorno voluntário de elementos eclesiásticos
(como bens, prédios e funções (como a educação universitária)) ao mundo. Em seguida, passou a significar a
expropriação desses elementos eclesiásticos pelo poder temporal principesco na época da reforma
protestante). Com a sociologia, passou a significar a transição da fase comunal (de vínculo obrigacional) para
a fase societal (caracterizada pela vontade eletiva contratual). Sobre a polêmica contemporânea das definições
do conceito, ver MARRAMAO, pp. 29 e ss.

35
secularização, de neutralização da política pelo pensamento liberal. 36 Este Estado neutro foi
justificado em sua existência, no final do século XIX, pela própria neutralidade —sintoma
daquela neutralidade cultural geral, característica do liberalismo, que neutraliza o poder
político na ausência de uma decisão concreta que ponha fim ao conflito que o constitui e
define.37 É, portanto, do ocultar artificial da teologia que trata o autor.
Ele sustenta que a reconstrução genealógica da ordem concreta do agir político
moderno demonstra a progressiva neutralização (Neutralisierung) daqueles âmbitos
culturais centrais que caracterizam uma inicial conflituosidade —caso da teologia do século
XVI— que deveriam ser deslocados e abandonados como domínios culturais centrais. A
esperança moderna volta-se para os sucessivos deslocamentos neutralizadores do conflito e
do caráter político inerentes à existência concreta, e para a constituição de novos centros de
gravidade que tragam ―um mínimo de concórdia (Übereinstimmung) e premissas comuns
que garantam segurança, evidência, entendimento e paz‖ e possam garantir a formação de
um espaço absoluta e definitivamente neutro representado, para Schmitt, pela fé
contemporânea na técnica, pois aparentemente ―não há nada mais neutro que a técnica‖. 38
Todos os conflitos gerados pelas esferas culturais anteriores (conflitos de ordem teológica,
moral e econômica) são, enfim, deslocados para o âmbito privado e, no seu lugar, aparece a
fé na técnica, este instrumento cuja objetividade reconfortante parece ofuscar totalmente
quaisquer conflitos que contaminavam, com facilidade, as esferas culturais anteriores.
Para Schmitt a técnica, por ser apenas um instrumento cego —porque serve a
qualquer um— não é uma arma neutra.39 Como qualquer um pode servir-se da técnica
como uma arma, não se pode retirar da imanência do técnico nem mesmo a neutralidade: o
domínio técnico não decide humanamente, espiritualmente, moralmente e muito menos
neutralmente. Assim,
Um progresso técnico não necessita ser nem metafísico, nem moral e nem mesmo
um progresso econômico. E se hoje muitos homens seguem esperando do
aperfeiçoamento técnico um progresso humanitário-moral, é pelo fato de estarem
vinculando técnica e moral de forma mágica e, além disso, estão pressupondo não
com pequena ingenuidade que o grandioso instrumental da técnica contemporânea
só será utilizado no sentido que eles mesmos lhe dariam. Sociologicamente,

36
Cf. GALLI, Carlo. Genealogia della politica, p. 349.
37
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, pp. 87-89.
38
Idem, p. 89.
39
Idem, p. 90.

36
significa que crêem que vão ser os senhores destas armas terríveis e que podem,
portanto, reclamar o enorme poder vinculado a elas. 40

Da técnica, não se pode extrair nenhuma conseqüência cultural e, portanto, nenhum


específico elemento ideativo, social ou institucional de natureza política. Ela é resultado do
processo moderno de secularização gerado pela fé em uma metafísica ativista, ou seja, a ―fé
num poder e num domínio sem limites do homem sobre a natureza‖. Esta desintegração de
qualquer possibilidade de aproximação cultural do mundo, isto é, de uma interpretação que
não leve em conta somente as distinções extraídas da técnica, é o paradoxo contemporâneo
que Schmitt identifica através do processo de secularização. E este é um paradoxo, já que a
técnica não gera a pacificação da neutralidade. É em relação a ela que o político se
reconstitui. É a partir da definição de quem será capaz de dominar a técnica como
instrumento que será possível prever como os conflitos serão tratados no decorrer do século
XX.41
A questão que importa marcar nesta análise do processo de secularização é que o
caminho que vai da teologia, da metafísica e da moral até a economia e a técnica tem seu
ponto de inflexão na estética e o romantismo, que representa especificamente esta ―via do
consumo e gozo estéticos, (...) é a mais segura e cômoda para a economicização universal
da vida espiritual e para uma constituição espiritual que encontra suas categorias centrais da
existência humana na produção e no consumo‖. 42 O gênio romântico importa histórica e
politicamente por facilitar a transformação do conceito metafísico de Deus e do absoluto
em sua representação através da história e da humanidade.43 O processo de secularização
do conceito da metafísica tradicional (Deus) e de sua representação mágica a partir de duas
realidades universais —a humanidade (o povo) e a história— que se transformam em
divindades ordenadoras do mundo, revela o caráter religioso da Revolução francesa (e da
própria Restauração) e a conseqüente sacralização da política. Este é o ponto de inflexão do
argumento de Schmitt, que indica a passagem do romantismo como movimento estético

40
Idem, pp. 90-1.
41
Idem, pp. 93-5.
42
Idem, p. 83.
43
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Romantik, p. 68.

37
para a inclusão do elemento político que irá vincular a estética romântica com a
subjetividade burguesa.44
O problema a ser desvendado neste ponto é, para Schmitt, a diferença entre a
filosofia da história proposta pelo Iluminismo da Revolução Francesa e a concepção de
tradição histórica desenvolvida pelos filósofos contra-revolucionários. Enquanto o pathos
tradicional contra-revolucionário —especialmente Bonald e De Maistre— percebe que o
desenvolvimento das monarquias no tempo histórico dá origem ao sentimento nacional da
comunidade humana, Schmitt considera a própria idéia de nação como sobreposição de
princípios religiosos e políticos condensados na figura do monarca. A história trabalha
através da solidificação temporal das tradições monárquica e religiosa —―o princípio
monárquico corresponde à idéia teísta de um Deus pessoal‖—, responsáveis pela gestação
das inúmeras gerações necessárias à formação da comunidade concretamente existente. Isto
significa dizer que o caráter nacional deriva do poder que os indivíduos adquirem no
decorrer do tempo histórico, assegurado pela delimitação espacial da comunidade, isto é, a
nacionalidade. Para os contra-revolucionários, a sociedade humana contém uma
determinação histórica que é o caráter nacional e a moralidade pública que nele subjaz. 45
Para os arautos da Revolução Francesa, por outro lado, a importância do tempo
histórico e da consolidação da política —do caráter nacional, fundamento do poder
constituinte— através da tradição é igualmente aceita, mas sob o viés do poder criativo da
própria história. O povo deixa de ser seu próprio demiurgo e, inspirado em Rousseau, o
desenvolvimento histórico transforma-se em poder arbitrário e criativo derivado da duração
temporal que justifica, no transcorrer do tempo, instituições como os direitos do homem. 46
Esta recepção da história como a produtora do Volkgeist, como um ―criador supra-humano‖
é o elemento que clamará, já no século XIX, pelo posicionamento do sujeito romântico.
Com o final da tradição, o romantismo não podia vincular-se, sem mais, à noção do ego
como motor da história, ou seja, com o papel criador atribuído ao sujeito, já que criação
significa decisão concreta e tomada de posição política. A escolha liberal e romântica para
justificar a revolução é a abstração metafísica de um direito sem origem concreta,
universalizado. Assim, o sujeito romântico não se compromete com o agir histórico e une-

44
Idem, pp. 68-9.
45
Idem, pp. 69-71.
46
Idem, p. 72.

38
se à promessa de um eterno devir, estratégia que permite a utilização de seus conceitos da
história quanto do povo. O estado de feliz ingenuidade de Rousseau, origem da idéia
contratualista de povo como demiurgo, é recebido pelo romantismo como a possibilidade
de perene negação da racionalidade do real, como a ―eterna promessa do poder eterno,
eternamente conservado porque eternamente irrealizado‖. A inocência da criança, em sua
infinita indisciplina existencial, sobrepõe-se à determinação do homem adulto, cuja
realidade é limitada por sua educação e profissão dentro da organização social. Já a história
torna-se, ao mesmo tempo, o instrumento que comprova as limitações do presente, da
realidade concreta e, também, o instrumento que aponta a possibilidade de negar o aqui e o
agora para construir, idealmente, perspectivas infinitas de futuro. Quando cada instante
pode ser convertido em um momento histórico e cada pensamento em um mote para a
conversação, a história transforma-se em filosofia da história, porque permite ao sujeito
romântico construir, a seu bel-prazer, novas realidades manipuláveis através do discurso,
como uma novela fantástica. 47 Ao mesmo tempo em que não se compromete politicamente
com a realidade concreta, o sujeito romântico transforma-se no demiurgo do futuro através
da construção discursiva de uma filosofia da história. 48 O deslocamento que o
ocasionalismo romântico realiza em relação ao deísta situa-se no fato de que a atividade
concreta do indivíduo passa a consistir ―somente na animação fantasiosa de seu afeto‖. O
que significa que o indivíduo romântico torna-se eticamente responsável apenas pelo seu
ego autônomo.49 O emancipado e isolado indivíduo do mundo liberal-burguês toma de
Deus o lugar do absoluto.
É somente no mundo burguês que o indivíduo pode reivindicar —sem que isto se
transforme em um conflito real ou político— que a única coisa que interessa é a sua
experiência. A contradição essencial do sujeito romântico é que ―na passividade orgânica

47
Idem, pp. 80-5.
48
O que se pode dizer, então, do ocasionalismo romântico, em comparação com o ocasionalismo deísta no
que respeita ao poder humano sobre a realidade? O sistema ético do ocasionalismo tradicional de
Malebranche situa a ação humana em nível exclusivo da emoção. A criação divina do mundo, para os autores
contra-revolucionários, é acompanhada pelo homem através de seus sentimentos e é assim que ele participa
deste processo. Onde a realidade é percebida clara e corretamente, o homem ainda é consciente e responsável,
consigo e com sua comunidade, mesmo sendo uma occasio nas mãos de Deus. A liberdade da vontade do
indivíduo ainda se manifesta eticamente em sua relação com o mundo real. No caso específico do
romantismo, o sujeito individual toma o mundo como uma oportunidade de manifestação estética. Idem, p.
102.
49
Idem, p. 101.

39
de sua estrutura ocasional, deseja ser produtivo sem se tornar ativo‖, caso em que ele não
tem nenhum interesse em transformar o mundo ou em marcá-lo com sua experiência
pessoal, mas apenas em observar a atividade intelectual garantida pela segurança burguesa.
Uma atividade intelectual específica do romantismo político realiza-se através da crítica, ou
seja, da manifestação de antíteses, ênfases, comparações e pontos de vista sobre eventos
políticos que excitam, ocasionalmente, sua imaginação, ―mas sempre sem tomar sua própria
decisão e assumir sua própria responsabilidade e risco‖. Esta ―variabilidade do conteúdo
político não é acidental, mas a conseqüência da atitude ocasional, e isto está profundamente
enraizado na natureza do romântico, e sua essência é a passividade‖. 50
Em Schmitt, ―o romântico usa a palavra histórico, assim como usa Cristandade,
como uma capa para sua passividade‖, o que significa que não há atividade política
concreta para o romantismo. Onde ―o Estado é uma obra de arte‖, a conversação sobre a
política nada mais é do que uma mera ocasião para o gozo estético criativo do sujeito
romântico.51 As manifestações líricas e fantasiosas do romantismo político não podem,
enfim, se transformar no fundamento de uma comunidade política concreta.
A intoxicação de sociabilidade não é a base de uma associação (Verbindung)
duradoura, a ironia e a intriga não são pontos de cristalização social e a necessidade
de não estar só, mas de pairar sobre a agitação de uma estimulante conversação, não
é capaz de erguer nenhuma ordem social. Isto porque nenhuma sociedade pode
encontrar uma ordem sem um conceito do que é normal e do que é certo. O normal
é um conceito não-romântico porque cada norma destrói a independência ocasional
do romântico. Ante um conceito normativo, mesmo a antítese e o contraste
românticos entram em colapso. 52

À comunidade política não é dado prescindir, portanto, de um liame moral compartilhado


pelos seus integrantes, isto é, de um conjunto de valores estabelecidos intersubjetivamente.
Uma situação onde a sociabilidade se sujeita à pluralidade infinita de possibilidades
avaliativas é uma situação que se manifesta historicamente, segundo Schmitt, através da
articulação estética de antíteses de natureza retórica. A conversação política, de fundamento
exclusivamente retórico, isto é, meramente estética, é o encontro entre liberalismo e
romantismo, onde cada indivíduo é protegido, em seus direitos, do despotismo de Estado,

50
Idem, pp. 165 e 119.
51
Idem, pp. 122 (grifo nosso) e 127.
52
Idem, p. 167.

40
pelo fato de o próprio indivíduo ser considerado, pela ―filosofia‖ romântica, um Estado.53
Nesta situação, é vedado aludir, efetivamente, a uma ordem coletiva onde decisões e
compromissos possam ser estabelecidos. O objetivo de Schmitt passa a ser, portanto, a
configuração de uma ordem política antiliberal, que permita a representação do corpo social
como uma unidade e não uma sociabilidade anárquica, vinculada aos desejos individuais do
sujeito romântico. Sua teologia política opera, como insiste Blumenberg, no
reconhecimento do caráter ―mágico‖ da política, balizado por essa unificação do corpo
político, figurado no soberano, que realiza a decisão sobre a existência da comunidade
política. No Brasil, o mesmo movimento de crítica ao liberalismo como romantismo e de
busca por um Estado que reconheça a necessidade de decisão, e que oriente de forma
substancial a organização da sociedade, se fará através de Francisco Campos. Na trilha de
Schmitt, Campos irá repudiar o Estado neutro do liberalismo e a romântica dissolução
moral do mundo pela estetização da vida. O seu objetivo de ordenação civilizatória da orbe
estará ligado, como em Schmitt, à revelação proporcionada pela teologia.

1.2 A Soberania como exceção

Estabelecidas as bases do que se pode chamar de filosofia política antiliberal —a


crítica antiliberal fundamental, ao sujeito burguês e ao Estado que dali pode advir— passar-
se-á à tarefa que mais importa, isto é, à consolidação de um modelo de organização política
de caráter antiliberal no pensamento de Schmitt. Assim, para reconstruir uma definição da
soberania como conceito limite ou extremo, que represente a recuperação originária de um
esquema da Teoria do Estado que no século XIX já havia se tornado abstrato —ao
sustentar que ―soberania é o poder supremo, não derivado‖— e que indique a forma
concreta de seu surgimento, Schmitt estabelece que toda ordem, seja jurídica, política,
sejam a segurança e a ordem públicas, deriva de uma decisão (Entscheidung) sobre um caso
excepcional. Isto significa que a soberania tem como função real (ou fática) determinar o
que pode constituir ordem e segurança quando elas são perturbadas. O que Schmitt quer
53
Idem, p. 144.

41
especificar é o fato de que o desenvolvimento histórico do conceito de soberania não
acompanhou o desenrolar das lutas pelo poder político concreto, dando origem a uma
lacuna na formação lógica do conceito jurídico de soberania, pois o fundamento da ordem
jurídica é uma decisão, não uma norma. A fórmula vazia de sentido ―poder supremo, não
derivado‖ carece de ―um desenvolvimento dialético a partir da imanência de sua
conceitualidade‖. Os significados possíveis desta fórmula só são utilizáveis em um contexto
em que a legitimidade do espaço político se curve aos interesses do momento, já que na
realidade política não existe um poder supremo que funcione segundo uma pretensa
causalidade da manifestação do direito, uma idéia de irrefragabilidade da norma que quer
encontrar paralelo nas leis da natureza. Como ―o poder nada prova através do direito‖, resta
assumir a definição que atribua autonomia ao conceito de soberania frente àquela literatura
jurídica de origem liberal. Assim, a única definição passível do resgate concreto da
historicidade do conceito em discussão dispõe: ―É soberano quem decide sobre o estado de
exceção (Ausnamezustand)‖. O poder político é, portanto, estruturalmente provisional.
O conceito schmittiano de soberania é clarificado, então, a partir do
desenvolvimento de dois conceitos ligados a sua identificação: decisão e exceção.
Enquanto exceção diz respeito a um estado ou situação (Zustand) excepcional e conflitivo,
não previsto pela ordem jurídica e que se define ―como um caso de extrema necessidade, de
perigo para a existência do Estado ou algo como tal, mas [que] não pode ser circunscrito
numa tipificação (tatbestandsmäβig)‖, decisão remete ao caráter pessoal da manifestação
concreta do poder político, configurando o que será chamado, por Schmitt, de fundamento
do pensamento jurídico-político decisionista.54
Esta conceituação diferenciada da soberania obriga Schmitt a recuperar a percepção
do Estado como ordem social que opera à imagem e semelhança de uma pessoa humana. A
própria decisão se realiza através de uma pessoa fisicamente identificável (o Presidente da
República, por exemplo). À decisão sobre a aplicação constitucional do estado de exceção,
a partir da qual será possível construir sua teoria da soberania, Schmitt acrescenta a
necessidade de se verificar a singularidade do caso excepcional, acontecimento particular
que contextualiza a decisão soberana. O poder soberano, com o caso particular em pauta,

54
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, pp. 16; 25; 26; 13; 14.

42
torna-se a realização concreta da ordem política pretendida. Esse caso particular não é um
caso típico, mas um caso historicamente situado.
A impossibilidade de circunscrever o estado de exceção remete ao reconhecimento
do sentido da palavra tipificação (tatbestandsmäβig), utilizada por Schmitt, inicialmente de
natureza jurídica, pois tipo (tatbestand) é o termo técnico para a descrição legal de um fato
ou ação. É, porém, tanto uma referência à limitação da tradicional abordagem jurídica ao
tema do estado de exceção quanto à impossibilidade de determinar, concretamente, sua
existência, seus desdobramentos e ações possíveis ante um hipotético —e, para Schmitt,
inexistente— caso típico de exceção, o que remete ao conceito de tipo presente na
sociologia de Weber.55 O que é descartado, logo de início, é a normalidade limitativa
produzida pela constitucionalização da situação excepcional, como ocorre com o conceito
de estado de sítio. Assim, neste momento do texto de Schmitt, os problemas identificados
são a ausência histórica e a eventual limitação conceitual de uma descrição do estado
excepcional na ordem jurídica vigente e a dificuldade de caracterizá-lo na prática. Para o
autor, uma Constituição somente pode indicar a quem é permitido atuar em tal
circunstância, quem deve agir no estado de exceção:
Se esta ação não está submetida a nenhum controle, se não se distribui —como na
prática da Constituição fundada no Estado de Direito— entre diversas instâncias
que se limitam e se equilibram mutuamente, então é evidentemente claro quem é o
soberano. Ele decide tanto sobre o caso de exceção extrema, como sobre o que deve
ser feito para remediá-lo. Ele se situa fora da ordem jurídica vigente e, contudo,
pertence a ela, pois é responsável pela decisão de se a Constituição pode suspender-
se in toto. Todas as tendências do desenvolvimento do moderno Estado de Direito
apontam o eliminar do soberano neste sentido. 56

Assim, o Estado funciona, na determinante concreta da situação em que aplica o


estado de exceção como um modelo especial de juiz que, autorizado pelo direito, mas não
necessariamente limitado por ele, decide, de forma soberana, sobre como a normalidade
jurídica e social deve ser reintroduzida. Giorgio Agamben lembra, no livro Estado de
exceção (2003), que a soberania deve ser examinada enquanto manifestação originária de
uma forma jurídica específica, pois tem como escopo regular ou reinstalar a ordem jurídica

55
Como, de resto, se pode concluir do fato de ser Weber um interlocutor privilegiado na seqüência do
argumento, referente ao conceito de forma sociológica e jurídica na definição da soberania. Idem, pp.34 e ss.
56
Idem, p. 14.

43
numa situação de desordem somente mensurada de forma objetiva pelo próprio soberano.57
O duplo sentido do conceito de estado de exceção (jurídico e político) remete, portanto, à
origem dual do conceito de soberania, que não pode ser absorvido por uma definição
exclusivamente jurídica, a não ser que se reconheça sua precedência em relação à própria
ordem jurídica, ou seja, que se identifique com clareza seu caráter concreto. Um poder
excepcional, segundo Schmitt, deve ser supremo e sem limites. Em razão disso não é
conveniente identificar o poder soberano a remédios constitucionais como o estado de sítio,
o decreto de emergência ou uma medida policial qualquer, pois todas estas faculdades
extraordinárias estão juridicamente limitadas em suas concretizações, limitadas pelo
regulamento da Constituição do Estado de Direito ―que, ao dividir as competências e
instaurar o mútuo controle, procura adiar (hinauszuschieben) a questão da soberania o
máximo possível‖. 58 Schmitt reconhece que, ao se definir a soberania a partir da decisão
sobre como resolver ou pôr fim a um caso de desordem excepcional, o que se está
realizando é uma circunscrição jurídica das faculdades concedidas. Esta limitação jurídica
da capacidade de ação significa sua substancial repressão (zurückgedrängt). Mesmo
reprimida, no entanto, a soberania não desaparece, basicamente porque esta identificação da
juridicidade da situação excepcional é de natureza intelectual. 59 A decisão de um poder
soberano personalizado, que aqui pode ser remetido à figura de um juiz, não significa,
assim, a ausência completa da juridicidade.
Tem-se a possibilidade normativa da suspensão de toda ordem jurídica vigente para
que não se deixe de identificar concretamente a própria existência do Estado, a fim de
preservá-lo. A decisão que reconhece e declara o estado de exceção recobre-se de um
sentido jurídico, pois funciona como elemento criador de condições concretas de
normalidade para que um preceito jurídico qualquer possa ter validade. Como a norma
precisa de um ―meio homogêneo‖ para valer —uma sociedade estabilizada—, a situação de
normalidade faz parte da ―validez imanente‖ do direito.60 Para Hasso Hofmann, como a
eficácia da norma jurídica passa a depender da idéia de normalidade, ela só pode ser um
conceito sociológico e não normativo. Nesse sentido, a homogeneidade do meio, que

57
Cf. AGAMBEN, Giorgio. Stato di eccezione (Homo sacer, II, I). Torino: Bollati Boringhieri, 2003, p. 9.
58
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, pp. 17-8.
59
Idem, ibidem.
60
Idem, p. 19.

44
garante a realização do direito, pode ser caracterizada como um ―princípio unitário de
estrutura da realidade social‖ e indica a relação entre ordenamento e normalidade factual: a
homogeneidade é, para Schmitt, a essência da unidade política. 61 O estabelecimento desta
situação de ordem das condições de vida demonstra quem é o soberano ―O caso de exceção
revela a essência da autoridade estatal da maneira mais clara. Nele, a decisão se separa da
norma jurídica e (em uma formulação paradoxal) a autoridade demonstra que não necessita
ter direito para criar direito‖. A tentativa da Teoria do Estado liberal de regulação jurídica
minuciosa dos casos em que a exceção se faz necessária para preservar a ordem, não passa,
para Schmitt, da tentativa da ―circunscrever com exatidão o caso em que o direito se auto-
suspende‖. 62 Como a ordem social só existe por conta da decisão soberana que reconhece a
existência da situação excepcional e providencia sua eliminação, é possível sustentar, como
o faz Agamben, que ―A suspensão da norma não significa sua abolição e a zona de anomia
que esta instaura não é (ou ao menos pretende não ser) sem relação com a ordem
jurídica‖.63 Assim, a definição da essência —jurídica e/ou política— do estado de exceção
diz respeito ao local onde ele se situa. Para Schmitt, fica patente que a busca de claridade
conceitual na definição da soberania não é possível através do exame da situação normal,
pois ―O normal não demonstra nada, a exceção demonstra tudo‖. 64 O estado excepcional
pode ser dimensionado a partir do momento em que Schmitt o identifica com o estado de
necessidade —termo que, para Agamben, é a fonte doutrinária da discussão sobre o estado
de exceção. O estado de necessidade define uma situação onde a lei perde o seu caráter
obrigatório e se torna, ela própria, ―o fundamento último e a fonte mesma da lei‖, pois tem
o poder geral de justificar uma ação inicialmente ilícita, transformando-a em algo permitido
pelo direito. A teoria medieval do Estado sustentava que ―a necessidade age aqui como uma
justificação de uma transgressão em um único e específico caso através de uma exceção‖.
Mas é somente nos autores do final do século XIX e início do século XX que a idéia de
necessidade vai receber o significado de um ―estado‖ da lei, onde deixa de significar uma
situação isolada e singular de não obrigatoriedade da lei e se reveste efetivamente de
fundamento da ordem jurídica. O motivo desta transformação, segundo Agamben, é que os

61
Cf. HOFMANN, Hasso. Legitimità contro legalità: la filosofia política di Carl Schmitt. Napoli: Edizioni
Scientifiche Italiane, 1999, p. 96.
62
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, pp. 19-20.
63
AGAMBEN, Giorgio. Stato di eccezione, p. 34.
64
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, p. 21.

45
juristas, de Jellinek a Duguit, ―vêem na necessidade o fundamento de validade dos decretos
com força de lei, emanados pelo executivo, no estado de exceção‖. 65
O problema, aqui, é objetivar uma situação concreta que só pode ser mensurada
subjetivamente. A determinação das circunstâncias em que o estado de necessidade (e o de
exceção) está confirmado depende, portanto, de uma decisão de caráter pessoal. Isso
significa que, com a teoria da soberania schmittiana, o direito passa a demandar uma
validade substancial e não meramente formal. A ordem social que emana de uma decisão
nos moldes ―judiciais‖, isto é, de uma decisão que só tem validade em relação à situação
concreta para a qual existe é uma ordem social que necessariamente deve se referenciar
pelo Estado. Assim, em Schmitt, a decisão soberana não regula somente a existência do
direito, mas permite a existência, a partir de determinados parâmetros, da própria
sociedade. O fato de legitimar uma Constituição situa-se, desta forma, fora de sua dinâmica
jurídica, tendo a ver especificamente com a ordem política que dá autoridade à
Constituição. Da mesma forma que no conjunto conceitual schmittiano, a eclosão do
antiliberalismo no Brasil levanta a necessidade de se desvincular a democracia do
liberalismo. Tanto em Francisco Campos, como em Oliveira Vianna, notar-se-á a
configuração de um modelo de ordem democrática sem as amarras formais das instituições
liberal-parlamentares. A sociedade de massas, vista pelo antiliberalismo brasileiro como um

65
AGAMBEN, Giorgio. Stato di eccezione, pp. 35-7. Vale lembrar que o objetivo de Agamben é identificar
o processo histórico-jurídico a partir do qual o estado de exceção passa a ser uma forma corriqueira de
regulação da ordem social nas democracias contemporâneas. Para esta autor, ―a criação voluntária de um
estado de emergência permanente (ainda que seja eventualmente não declarado em sentido técnico) se
transformou em uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos, mesmo daqueles considerados
democráticos. (...) Este deslocamento de uma medida provisória e excepcional em técnica de governo ameaça
transformar radicalmente —e já tem de fato sensivelmente transformado— a estrutura e o sentido da distinção
tradicional das formas de constituição. O estado de exceção se apresenta, nesta perspectiva, antes como um
limiar de indeterminação entre democracia e absolutismo‖. (p. 11). Foi por esta razão que Agamben fixou-se
em Schmitt para desenvolver esta análise dos fundamentos propriamente jurídicos da conformação do estado
de exceção, pois é com Schmitt que o problema toma dimensões históricas dramáticas, já que a discussão
conjuntural específica concerne a possibilidade da suspensão da ordem constitucional da República de
Weimar a partir de uma interpretação extensiva do Art. 48 da Constituição de Weimar que previa a
possibilidade da declaração do estado de exceção pelo Presidente do Reich. No seu livro O Guardião da
Constituição (1931), Schmitt defende que as ―medidas necessárias‖ previstas na primeira parte do §2º do art.
48 não poderiam ser limitadas pela estipulação, no mesmo parágrafo, dos direitos a serem suspensos pelo
Presidente, se este tem o aval do Reichstag (Parlamento). Com a autorização parlamentar o Presidente poderia
soberanamente infringir a maioria dos artigos da Constituição que se tornassem impedimento para a
restauração da ordem social. Cf. SCHMITT, Carl. Der Hüter der Verfassung. Berlin: Duncker & Humblot,
1996 (1931), e Cf. BENDERSKY, Joseph W. Carl Schmitt: theorist for the reich. Princeton: Princeton
University Press, 1983, pp. 74 e ss.

46
fenômeno universal, informará a proposição de uma ditadura nos moldes cesaristas, em que
o elemento pessoal será determinante à fundamentação e à centralização do poder político.

1.3 A Soberania como decisão 66

O elemento pessoal (existencial) da decisão que reconhece e instaura o estado de


exceção também indica a persistência de Schmitt em realizar uma crítica à compreensão
liberal do direito condensada no pensamento do jurista austríaco Hans Kelsen. Em
Problemas fundamentais da doutrina do Direito Público (1911), Kelsen apontava a idéia de
proposição jurídica —um juízo hipotético realizado pela ciência jurídica— como caminho
para classificar, de forma exclusivamente jurídico-normativa, os atos executivos do Estado,
identificando-os com o próprio ordenamento jurídico. Dez anos antes de escrever Teologia
Política, em seu primeiro livro: Direito e juízo: uma investigação sobre o problema da
prática jurídica (1912),67 Schmitt levanta o problema do elemento decisionístico contido na
prática judicial, numa polêmica direta com Kelsen. Através da compreensão do que Schmitt
classifica como caráter normativo do conteúdo da decisão judicial, torna-se possível
apreender, com maior precisão, o conceito posterior de decisão soberana como
determinante do poder jurídico-político concreto. Compreender, na obra de Schmitt, como

66
A primeira parte da argumentação desenvolvida a seguir está estruturada segundo um artigo produzido
como estudo preparatório para esta tese. Cf. SANTOS, Rogerio Dultra dos. Direito e decisão judicial: Carl
Schmitt e os fundamentos normativos da homogeneidade política. In: CADEMARTORI, Luiz Henrique.
Temas de política e direito constitucional contemporâneos. Florianópolis: Momento Atual, 2004, pp. 21-
31.
67
SCHMITT, Carl. Gesetz und Urteil: Eine Untersuchung zum Problem der Rechtspraxis. Berlin: Otto
Liebmann, 1912.

47
o juiz decide é compreender de que forma o poder soberano atua.68 Para Schmitt, a questão
nuclear da teoria jurídica contemporânea é a indeterminação legal, isto é, o fato de normas
jurídicas gerais e abstratas estarem impossibilitadas de revelar um sentido preciso no
momento de sua aplicação judicial ao caso concreto. Esta percepção opera em
contraposição ao dogma positivista da completude do ordenamento jurídico, segundo o qual
a decisão judicial sobre um caso concreto deriva lógica e dedutivamente da lei. 69 Para
Schmitt, o juiz que necessita especificar a legalidade de sua decisão não tem, na lei pura e
simples, um alicerce seguro.70 A questão a ser colocada, então, é: ―quando uma decisão
judicial é correta?‖, ou melhor, ―Sobre qual princípio normativo está fundada a moderna
prática jurídica?‖.71
Expressa dessa maneira, a prática do direito não pode ser limitada por um critério
inócuo como a ―conformidade com a lei‖, pois decisões que não atingem o sentido da lei —
que, na aplicação, é indeterminado— podem ocorrer e devem ser, por este exclusivo
critério, consideradas como pertencentes ao ordenamento jurídico, já que se manifestam
sob a forma legal. Este é o caso clássico, lembra Schmitt, de uma concepção nova do
direito apta a obter reconhecimento utilizando o sentido literal da lei contra seu objetivo
inicial, como ocorre na peça O Mercador de Veneza de Shakespeare. 72 Se decisões contra
legem ou independentes da lei podem advir, a única forma de preservar o estatuto de
autoridade da decisão é estabelecer sua especificidade legal, ou seja, é necessária a
construção de um princípio metodológico hipotético que possa dar fundamento jurídico

68
Esta ―confusão‖ entre poder soberano e atividade judicial pode ser lida como pertencente a uma tradição
que identifica no núcleo da formação do Estado, particularmente na Alemanha, o papel histórico do Poder
Judiciário que, durante muito tempo, foi a instituição que permitiu o reconhecimento da unidade do Estado
alemão. Para além desse fato, o poder judiciário representa, também, a afirmação de uma casta aristocrática
que reproduzia o antigo regime pela sucessão hereditária e pela composição política de suas decisões com o
poder soberano de direito. Schmitt, autor que não esconde sua simpatia pelos autores reacionários, encontra,
assim, desde seus primeiros escritos, uma forma de retorno ao modelo monárquico de poder político,
dizimado pela Revolução burguesa. A decisão soberana representa, portanto, um vínculo com a tradição,
implícito no texto. Sob os auspícios de seu constitucionalismo antiliberal, assenta a falta estruturante de um
poder incontrastável como na época dos reis.
69
Cf. HOFMANN, Hasso. Legitimità contro legalità, pp. 66-7.
70
Nem na lei, nem na dedução lógica, ou em princípios de razão de conteúdo imutável, ou na opinião do
povo, nem na boa fé, no uso, nas ―normas de cultura‖ ou mesmo na representação normativa do ―direito
livre‖. Cf. SCHMITT, Carl. Gesetz und Urteil, pp. 5 e ss, pp. 20 e ss. e Cf. HOFMANN, Hasso. Legitimità
contro legalità, p. 68.
71
Cf. SCHMITT, Carl. Gesetz und Urteil, p. 1.
72
Idem, p. 112. Quando Portia, travestida de advogado, impede a condenação de seu amado, alegando a
impossibilidade empírica da aplicação exata da pena, já que seria impossível retirar tão-somente uma libra de
carne do lado esquerdo do peito, sem derramar uma gota de sangue a mais.

48
autônomo —independente da pretensão de legalidade estrita— à prática judicial, manifesto
na seguinte fórmula: ―Uma decisão judicial é correta hoje se se puder assumir que um outro
juiz tenha decidido no mesmo sentido. ‗Um outro juiz‘ refere-se aqui ao tipo empírico do
jurista moderno e legalmente formado‖.73
―Um outro juiz‖ representa a tradição da prática judicial. Assim, para que uma
decisão judicial seja válida juridicamente (seja ―correta‖) —numa prática corriqueira, que
não pretende resolver os casos difíceis ou estabelecer princípios gerais destituídos de
significado normativo—, é preciso, qualquer que seja a direção da sentença, que o juiz
esteja sempre se reportando, não necessariamente ao sentido da lei, mas ao sentido das
decisões que anteriormente foram prolatadas. A tradição judicial, mais que o estatuto legal,
passa a ser o fundamento de sentido da prática do juiz e o seu âmbito de especificidade
legal.
O argumento de Schmitt não aponta, como poder-se-ia inicialmente pensar, para
uma discricionariedade livre, mas remete a um elemento personalista da decisão em
contraposição, por exemplo, ao formalismo abstrato do liberalismo jurídico de Kelsen. Para
Schmitt, o formalismo kelseniano peca por creditar a legitimidade da decisão judicial
exclusivamente ao fato de o juízo ser normativamente competente para prolatá-la,

73
Idem, p. 71. A questão do método, nesse texto de Schmitt, está vinculada a um posicionamento que não se
identifica totalmente com a sua posterior idéia de método definida a partir da claridade conceitual (relativa à
conformação histórica e concreta de um modelo capaz de determinar o sentido de uma interpretação
específica da realidade). O que Schmitt defende em sua obra de juventude é um juízo hipotético que se
relaciona com a realidade, mas que a transcende por ser a-histórico e puramente racional. Sua relação com a
realidade concreta é de conformação –enquanto princípio diretivo da própria realidade– e não de simples
interpretação. De fato persiste, em ambas as posições epistemológicas, a existencialidade como diretiva, mas
sua posição no modelo schmittiano difere sensivelmente em cada um desses momentos de seu pensamento.

49
reconhecendo uma esfera limitada de discricionariedade —validada pela norma jurídica
geral— dentro da qual o juiz é livre para determinar o sentido da norma em concreto.74
Para Kelsen, a elaboração da norma individual, no momento em que se aplica a lei,
é uma função da vontade, contanto que se preencha, com esta, o limite da norma geral, ou
seja, se com a vontade, a moldura formal estabelecida pela norma jurídica é respeitada no
momento da definição do conteúdo concreto da sentença, sendo a norma um marco com
várias possibilidades de execução. Desse modo, a lei, quando aplicada a um caso concreto,
não pode gerar uma única decisão correta.
A teoria que objetivaria normatizar o conteúdo da decisão judicial, externada —
segundo Kelsen— pela dogmática tradicional, seria a tentativa inócua de ―desenvolver um
método que autorize a preencher retamente o marco verificado‖. 75 Assim, a validade em
que se apóia a prática da aplicação da lei tem um caráter absolutamente político-jurídico,
pois nada que se realize para além do demarcado pela norma jurídica pode ser considerado
puramente normativo. Este ponto de vista torna o ato jurisdicional uma apreciação volitiva
daquele que está autorizado, pelo próprio direito, a realizá-lo, ou seja: o juiz, ao aplicar a
lei, decide politicamente, a partir de limitações formais impostas pela norma, qual a norma
individual, dentre várias possíveis, a ser aplicada. A aplicação do direito é um ato
intelectual a que se soma a vontade, competente por uma autorização normativa do Estado.

74
As diferenças entre o formalismo, o liberalismo, o realismo jurídico e o decisionismo de Schmitt, no que
diz respeito ao grau de determinação das regras jurídicas prescritivas podem ser assim resumidas (seguindo
Scheuerman): 1) o antigo formalismo liberal considera a exegese vinculada à ―vontade do legislador‖ a única
possibilidade de aplicação correta do direito, estabelecendo a tese da determinação estrita das normas
jurídicas (Montesquieu); 2) o liberalismo jurídico positivista declara uma esfera limitada de discricionaridade
da decisão judicial, na tese da indeterminação limitada das normas (Kelsen e Hart); 3) o realismo e o
liberalismo jurídicos contemporâneos, reconhecendo que a lei somente serve de guia mínimo para sua
interpretação e aplicação –atividades que são naturalmente muito mais abertas por vincularem-se a casos
concretos–, endossam a tese da sobredeterminação das normas, indicando a regularidade da decisão judicial
tanto na sobreposição das regras do mercado econômico livre (Posner), quanto na limitação realizada por
ideais liberais de eqüidade e justiça (Dworkin); finalmente, 4) o decisionismo de Schmitt sustenta que a
norma jurídica não é princípio regulativo eficaz da decisão, e abraça a tese da indeterminação do conteúdo da
decisão, cuja conseqüência é a necessidade de construir uma teoria normativa cujo fundamento de validade do
direito não está na norma, mas na decisão pessoal/tradicional do aplicador da lei. Cf. SCHEUERMAN,
William. Carl Schmitt: the end of law. Lanham, Maryland: Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 1999, pp.
8 e ss.; Cf. KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 2ª edição. Tradução de João Baptista Machado. São
Paulo: Martins Fontes, 1995, pp. 388-393.; Cf. McCORMICK, John P. Carl Schmitt’s critique of
liberalism: against politics as technology. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, pp. 206 e ss.; e Cf.
HOFMANN, Hasso. Legitimità contro legalità, p. 76.
75
Cf. KELSEN, Hans. La Teoría pura del derecho: introducción a la problemática científica del derecho.
Traducción por Jorge G. Tejerina. Buenos Aires: 1941 (1934), pp. 131-136.

50
Não existe a possibilidade de se evitar a pluralidade das alternativas possíveis na resolução
de cada caso, a não ser por uma decisão política do próprio juiz. 76
Já na abordagem decisionista de Schmitt —e devido à sua pretensão de identificar o
elemento normativo da decisão judicial—, a objetividade (normatividade) jurisprudencial
existe e é constituída consensualmente (racionalmente), entre iguais. É possível afirmar que
essa igualdade constitui-se a partir de uma elite estruturada existencial e historicamente
através da manifestação reiterada de uma decisão que garante a continuação —idealizada—
da realização do passado. Nesse sentido, decidir, tanto política quanto juridicamente,
significa definir a própria individualidade como unidade autêntica com um destino ou um
objetivo determinado: a reafirmação da ordem. Para Hasso Hofmann, Schmitt tenta afastar-
se, sem sucesso, da problemática kelseniana estabelecida em seu primeiro texto, através da
divisão metodológica entre as questões derivadas do estudo da ciência do direito
(subsunção da validade de uma norma jurídica por outra em um determinado ordenamento)
e da aplicação prática do direito (método de interpretação da norma jurídica com vistas à
aplicação judicial). Quando Schmitt pergunta-se sobre a juridicidade da decisão judicial,
nada mais faz do que identificar a problemática da aplicação do direito como sendo
expressamente normativa, o que, se elimina a ilusória distinção de Kelsen entre
conhecimento e aplicação, faz por reconhecer a decisão judicial como problema da ciência
do direito.77
A asserção metafísica implícita em Schmitt, neste ponto, é que o juiz, ao suprimir as
lacunas na aplicação da lei ao caso concreto, é a ―humanidade‖, a ―vida‖ do direito. É esta
substância vital, expressa na decisão do juiz no caso excepcional, que deve ser matizada por
uma abordagem através da teoria do direito —da constituição de um juízo hipotético-
normativo. A pretensão do liberalismo, de assegurar o formalismo da jurisprudência, não
passa de quimera, na medida em que não permite a participação do elemento pessoal. A
pessoalidade é uma característica constitutiva do Estado em formação no século XX, cuja
atuação interventiva —na realização de políticas de governo ou na atuação organizativa da
burocracia— solicita estruturalmente uma legislação mais aberta e menos discernível.
Segundo John McCormick, o que Schmitt critica é o fato de que ―Ao reprimir o Estado, os

76
Idem, p. 132.
77
Cf. HOFMANN, Hasso. Legitimità contro legalità, pp. 66-7.

51
formalistas legais não somente não previnem o funcionamento arbitrário do Estado, como
permitem que sua atividade prolifere em extensão, e de forma não detectável, em um grau
maior‖.78
A motivação da decisão judicial deve ter como objetivo ―institucional‖, então, a
condução a um convencimento geral sobre a própria decisão. Assim, argumentará Schmitt,
o que dá legitimidade à decisão é o efeito de convencimento produzido por ela: ―o que
constitui a justeza da decisão não é o fato do juiz se comportar conforme a um comando,
mas que este satisfaça o princípio da determinação jurídica‖. 79 Este princípio representa,
epistemologicamente, a tentativa de superar a antítese kantiana entre ser e dever-ser, entre
fato e norma, através da justificação do ato, da práxis judicial, por si mesma. 80 O
pensamento jurídico é estruturado, pois, para gerar e se ver realizado através de uma
decisão concreta, de natureza política porque consensual, estamental, personalíssima e,
especialmente, justificativa. Obviamente, a resposta de Schmitt à questão —o juiz deve se
reportar à tradição, ao juiz ―outro‖ e daí retirar a medida concreta da decisão— marca o
caráter político do direito. É possível afirmar, portanto, que Schmitt reitera, de certo modo,
a visão estabelecida em 1912, em seu ensaio de juventude, segundo o qual a regularidade
jurídica deve ser preservada através da homogeneidade dos juízes. 81 O Schmitt do Defensor
da Constituição (1931) se remete ao livro Direito e juízo para afirmar o caráter substancial
do decisionismo: ―em toda decisão, inclusive na de um tribunal que decide processualmente
subsumindo conforme os fatos, existe um elemento de pura decisão, que não pode ser
derivado do conteúdo da norma‖. Esta decisão se realiza —continua—, ―através da
eliminação (Beseitigung) autoritária da dúvida‖. 82
Para o autor, portanto, se a ―perspicácia logicista‖ dos argumentos trazidos ao
direito pode suscitar sempre dúvidas novas, o sentido e o objeto da sentença —que é a
decisão— é sempre eliminá-las de forma autêntica, realizando a prestação jurisdicional. A
necessidade de um juízo lógico-hipotético que fundamente de maneira objetiva a decisão,
não faz mais parte do universo conceitual do decisionismo schmittiano dos trabalhos

78
Cf. McCORMICK, John P. Schmittian positions on law and politics?: CLS and Derrida. In: CARDOZO
LAW REVIEW. Carl Schmitt: legacy and prospects - A International Conference in New York City. New
York: Yeshiva University, maio 2000, vol. 21, nº. 5-6, pp. 1693-1722., pp. 1697-8.
79
Cf. SCHMITT, Carl. Gesetz und Urteil, pp. 97-8.
80
Cf. HOFMANN, Hasso. Legittimità contro legalità, p. 72.
81
Ver, nesse sentido, SCHEUERMAN, William. Carl Schmitt, p. 115.
82
Cf. SCHMITT, Carl. Der Hüter der Verfassung, pp. 45-6.

52
futuros, mas a objetividade política alcançada pela decisão judicial continua representando
que o direito torna-se incontestável em sua demonstração através da personalização
concreta e o papel da tradição na construção de um juízo normativo sobre a conformação da
decisão. A pessoalidade da manifestação jurídica a legitima política e socialmente.
A decisão, em si, transforma-se, no trabalho posterior de Schmitt, em origem e
fundamento de toda a fenomenologia do direito,83 o que equivale a dizer que as
manifestações concretas do direito só são possíveis —o direito só se realiza— por
emanarem de um ato decisório de caráter pessoal. Não só isto: a decisão passa a fundar a
própria ordem social, como no caso da decisão soberana, da decisão política ordenativa da
qual origina o pensamento decisionista propriamente dito, como sustenta no livro Sobre os
três modos de pensar a ciência jurídica (1934). A partir do filósofo inglês Thomas Hobbes,
segundo Schmitt,
[t]odo direito, todas as normas e leis, todas as interpretações de leis, todas as ordens
são para ele essencialmente decisões do soberano, e o soberano não é um monarca
legítimo ou uma instância competente, mas o soberano é exatamente aquele que
decide soberanamente. Direito é lei e lei é o comando que decide uma disputa
jurídica: Auctoritas, non veritas facit legem.84

A decisão significa o surgimento de uma vontade soberana que elimina a desordem


existente no estado de natureza através da fundação da ordem Estatal: ―[a] decisão soberana
é o princípio absoluto‖, numa referência à Hobbes, uma ―ditadura estatal‖ criadora,
estabelecida sobre a insegurança anárquica pré e infra-estatal. 85 É quando o soberano,
efetivamente, atua como um juiz que decide de acordo com a contingência, o contexto
concreto que informa o caso excepcional. A necessidade que tem Hobbes de compreender
os desígnios concretos da realidade social leva-o, como jurista, a identificar a decisão como
a forma fundamental da unidade do Estado —lembra Schmitt, na Teologia Política:
A forma pela qual [Hobbes] procurava se encontrava na decisão concreta, tomada
por uma instância específica. Sendo a decisão independente, o sujeito que decide
passa a ter um significado desligado do conteúdo da decisão. O importante para a
realidade da vida jurídica é quem toma a decisão. 86

83
Cf. HOFMANN, Hasso. Legittimità contro legalità, p. 78.
84
Cf. SCHMITT, Carl. Über die drei Arten des rechtswissenschaftlichen Denkens. Berlin: Duncker &
Humblot, 1993 (1934), p. 23.
85
Idem, p. 24. (grifo do autor).
86
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, p. 40.

53
O entender a decisão como determinante de uma forma específica de organização
jurídico-política (o Estado ditatorial), contaminou os filósofos católicos contra-
revolucionários, que negavam a conversação eterna como uma metafísica romântica e
assumiam que o tempo histórico da política sempre exige uma decisão.87 A história da
Revolução Francesa mostra que um modelo de relação entre política e Estado estava sendo
efetivado pela burguesia: substituir, exatamente, a resolução do conflito através da decisão,
pelo entabular de uma discussão. Numa época de crise social não é possível pôr fim aos
conflitos orientando a atividade política para discursos na imprensa e no Parlamento. Supor
o caso extremo sempre presente —comparado por Donoso Cortés ao juízo final— é o que
leva seu decisionismo identificar, na ditadura, o oposto da discussão.88
A caracterização da decisão política soberana —que procura romper com as
características do Estado liberal clássico e, portanto, escapar do romantismo político—
aponta igualmente para uma formação específica do Estado. Ela é anterior a Hobbes e
permanece pela conformação da Teoria do Estado da maioria dos pensadores políticos
modernos da tradição mobilizada, geralmente por Schmitt, e que o autor vê surgir na teoria
política de Maquiavel: o estado técnico, cujo funcionamento não leva em conta a atuação
estatal ou é indiferente a seu fim político. Para Schmitt, portanto, se o direito é necessário
como forma do Estado, por excelência, a legitimação da ordem política não se dá pela via
jurídica a não ser que ela esteja informada pela autoridade existencial da decisão soberana.
Enquanto as instituições jurídicas liberais, informadas pela metafísica romântica, não têm a
capacidade de operar a partir da legitimidade substancial da decisão soberana, estão
cumprindo o papel histórico de neutralização da esfera política. O romantismo político
representa, então, o liberalismo como a forma política que refuta o espaço da decisão,
fundamento da ação concreta do homem no mundo. Enquanto o romantismo político
prevalece como forma de atuação no mundo, a política fica à mercê dos instrumentos
amorais e culturalmente cegos da técnica. O homem perde, assim, a capacidade de orientar-
87
Idem, p. 59.
88
Idem, p. 67. Juan Donoso Cortés (1809-1853), ensaísta católico espanhol, é um dos autores fundamentais
quando se trata de construir a visão de mundo schmittiana, objeto de variados estudos do autor, referenciado,
diretamente, como fonte de sua Teologia Política. É o pensador que estabelece, numa perspectiva próxima, se
não idêntica de Schmitt, a relação entre teologia e política, reclamando em seu Ensayo sobre el catolicismo, el
liberalismo y el socialismo, em discussão com Proudhon, a existência de questões teológicas em todas as
questões políticas, dada a existência de Deus e ao fato de que tudo está disposto pelo entendimento divino. Cf.
CORTÉS, Juan Donoso. Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialismo. Edición preparada por
José Vila Selma. Madrid: Editora Nacional, 1978.

54
se por uma decisão que o representa no mundo, ficando cerceado por uma conflituosidade
que não consegue eliminar. Essa orientação só pode ser recuperada, segundo Schmitt, pelo
reconhecimento da força estruturante da decisão soberana, da manifestação excepcional da
soberania. O que está descartado pela Teoria do Estado liberal. Sob o liberalismo, portanto,
os antagonismos sociais se acumulam até transformar-se em crise. Um modo de verificar
até onde o liberalismo é capaz de produzir a crise é a avaliação de suas instituições
propriamente ditas, objetivo da discussão a seguir. Vale anotar, por último, que no
antiliberalismo brasileiro, constituído a partir da recepção do modelo schmittiano e das
experiências constitucionais alemã e polonesa, a ditadura reveste-se de um caráter material,
o direito não se resumindo aos aspectos puramente normativos técnicos de sua aplicação. O
poder político, concentrado no Executivo, avocará a produção e o controle da legislação —
por conta, inclusive, da responsabilidade pessoal do Presidente da República sobre a
constituição da ordem social—, bem como demandará a coletivização de sua aplicação, o
que fará Oliveira Vianna classificar essa transferência de funções, no constitucionalismo
antiliberal brasileiro, de administrativização dos poderes legislativo e judiciário.

55
2. DITADURA, DEMOCRACIA E ORDEM CONSTITUCIONAL

No primeiro capítulo foi demonstrado como Schmitt constrói seu arcabouço teórico
básico a partir de uma crítica ao liberalismo. O estudo de seus trabalhos demonstra sua
compreensão idiossincrática da formação do Estado moderno. Enquanto os contornos da
manifestação existencial e histórica do liberalismo são classificados como romantismo
político, a sua utópica interpretação do mundo agiria através do mecanismo intelectual de
secularização, transpondo conceitos teológicos para compreender o fenômeno político.
Nesse processo de secularização, o conceito de soberania foi paulatinamente restringido
pela Teoria do Estado liberal a uma fórmula abstrata que, segundo Schmitt, eliminou o
elemento de autoridade necessário ao reconhecimento político da soberania. Para
contrapor-se a essa análise negativa da reconfiguração conceitual do Estado moderno
realizada pelo liberalismo, Schmitt propõe aproximar o decisionismo do fenômeno político.
Se a soberania do Estado representa uma normalidade inabalável que deve
permanecer ativa sob pena de desconstituir sua naturalidade, Schmitt considera coerente
sintetizar o repúdio à idéia de estado de exceção como conseqüência da eliminação da
lógica do milagre realizada pelo racionalismo liberal, já que ela coloca em xeque a regra
jurídica, isto é, macula a hegemonia da normalidade constitucional. 89 Interpretar o processo
liberal de secularização a partir da tentativa de proscrição da lógica do milagre é, para Carlo
Galli, o momento em que ―a teologia política de Schmitt se torna a compreensão epocal da
necessidade da soberania decisionística: se o Moderno é inaugurado por uma catástrofe de

89
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Theologie, p. 43. A acusação das doutrinas do Estado de Direito de
fazerem teologia é também um ataque fundamentado e específico às acusações levianas e à posição teórica de
Hans Kelsen. Para Schmitt, portanto, ―A ‗onipotência‘ do legislador moderno, mencionada em todo manual
de Direito do Estado, não foi extraída da teologia apenas verbalmente. Mesmo nos detalhes da argumentação
emergem reminiscências teológicas. // Naturalmente com intenções polêmicas. Na era positivista, gosta-se de
criticar o adversário científico acusando-o de direção teológica ou metafísica. Quando a crítica é mais que
mera afronta, conviria perguntar ao menos donde provém a inclinação por tais gafes teológicas e metafísicas;
dever-se-ia investigar se isto será explicado historicamente, talvez como efeito secundário da teoria
monárquica do Estado que identificava o Deus teísta com o rei, ou se talvez se fundamente em necessidades
sistemáticas ou metodológicas. Gosto de admitir a existência de juristas cuja incapacidade de assimilar
intelectualmente argumentos ou objeções contraditórios os leva a acreditar que o Estado surja de uma espécie
de curto-circuito do pensamento, da mesma forma que certos metafísicos fazem o mau uso do nome de Deus
para tais fins‖. Idem, pp. 44-45.

56
paradigmas, a soberania decisionística, não a mediação, é o modo politicamente adequado
de arbitrá-lo‖.90
A interpretação schmittiana da modernidade identifica, portanto, a crise de um
modelo político que é constitutivo da própria modernidade. A este modelo político em
colapso importa ativar a ação política concreta —através do Estado, epicentro da tensão.
Isto implica, por outro lado, reconfigurar estruturalmente o Estado. A decisão soberana que
se manifesta em caso de exceção transforma-se no instrumento atuante da política estatal no
reconhecimento e no combate enérgico ao que abala a ordem estabelecida. Schmitt precisa
do instrumento excepcional para realizar a potência do Estado. O caráter jurídico —e
judicial— da decisão soberana remete à constituição de um Estado que mobiliza suas
instituições no combate às controvérsias e outras crises possíveis. Como já era sabido pelos
filósofos de Estado contra-revolucionários —entre as revoluções de 1789 e 1848 — ―a
época exigiu (verlangt) uma decisão‖.91 Nesse sentido, mais do que estabelecer as
características através das quais Schmitt identifica as fraquezas do que classifica como
Estado burguês de Direito (bürgerlichen Rechtsstaates), mais relevante —para os objetivos
desta tese—, é identificar qual é a resposta articulada pela sua obra. O modelo de ordem
delineado por Schmitt se relaciona, obviamente, de forma direta —e tensa— tanto com a
Teoria do Estado liberal quanto com o próprio Estado burguês de Direito, o que implica, de
alguma forma, a determinação de seus elementos constitutivos. Mas esta tensão
estabelecida por ele —que é de natureza crítica e reativa a uma determinada cosmovisão—,
não impede que o foco deste trabalho seja dirigido menos ao diagnóstico do autor alemão e
mais ao estabelecimento de seu modelo de ordem e conseqüente estrutura de
funcionamento.
No último capítulo de seu livro Teologia Política, Schmitt deixa claro que para De
Maistre e Donoso Cortés, —que interpretam a atitude política liberal de transformar uma
certa prática política de compromissos em atitude sistemática e metafísica como resultado
de ―uma estranha confusão panteísta‖—, o valor do Estado deriva do fato deste ter o poder
de realizar uma decisão última considerada infalível, isto é, para a qual não há possibilidade
institucional de revisão.92 Por isto, ―suspender a decisão no momento crucial, negando

90
GALLI, Carlo. Genealogia della politica, p. 353.
91
SCHMITT, Carl. Politische Theologie, p. 59.
92
Idem, pp. 60-66.

57
inclusive que houvesse algo a decidir‖ é o tipo de atitude que não reconhece a possibilidade
da existência do caso extremo, do conflito político de natureza existencial, que demarca a
presença do próprio espaço da política. A atitude oposta, isto é, reduzir o Estado a uma
decisão que não carece de justificativa, é uma ditadura pura e simples, mas não é
legitimidade.93 Entre estes dois extremos encontra-se o caminho de Schmitt. É da
configuração do modelo de Estado Schmittiano que será possível identificar os conceitos e
as técnicas utilizadas quase que simultaneamente pelo constitucionalismo brasileiro. O
momento antiliberal no Brasil dependerá, portanto, da incorporação de um conjunto de
elementos doutrinários que se farão unidos pela forma de Estado organizada
intelectualmente por Schmitt.

93
Idem, p. 69.

58
2.1 Democracia e representação: a formação do cesarismo plebiscitário

Para compreender a passagem da crítica ao liberalismo até a ditadura como uma


forma de manifestação legítima e jurídica da soberania —o que, na verdade, define um
Estado autoritário e antiliberal—, é preciso estabelecer dois dos conceitos centrais mais
importantes de Schmitt: democracia e representação política.94 Na verdade, compreender a
ordem jurídico-social que pode ser apreendida do conjunto dos textos de Schmitt em sua
fase weimariana, precede logicamente a arrumação estritamente constitucional de seu ―tipo
ideal‖ de Estado —aquele capaz de superar situações de crise aguda através do
enfeixamento do poder político institucionalizado e da decisão emergencial. Identificar a
democracia e seu elo com o processo constituinte do Estado representativo é o primeiro
passo para aproximar-se, de maneira consistente, de sua construção propriamente jurídico-
constitucional. No seu livro A Situação histórico-espiritual do parlamentarismo
contemporâneo (1923) o autor argumenta que, com o surgimento das democracias de massa
em meados do século XIX, o sistema representativo instituído através do Parlamento
tornou-se incapaz de produzir a legitimidade necessária à geração de um governo estável,
ou para assegurar a viabilidade concreta da democracia representativa, derivada da relação
entre eleitores e parlamentares. 95

94
Ver, nesse sentido, KAUFMANN, Matthias. ¿Derecho sin reglas? Los principios filosóficos de la teoría
del Estado y del derecho de Carl Schmitt. Traducción de Jorge M. Seña. Revisión de Ernesto Garzón Valdés y
Ruth Zimmerling. 3ª edición. México: Distribuciones Fontamara, 1999 (1989), p. 136.
95
SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus. Berlin: Duncker &
Humblot, 1996 (reimpressão da Segunda edição, de 1926). Nesse sentido, veja-se o estudo de Manuel
Aragon, que demonstra o momento preciso em que o debate Schmitt/Kelsen retoma fôlego, agora no que
concerne aos destinos da República democrática de Weimar (1919-1933). Cf. ARAGÓN, Manuel. Estúdio
preliminar. In: SCHMITT, Carl. Sobre el parlamentarismo. Traducción de Thies Nelson y Rosa Grueso. 2ª
edición. Madrid: Tecnos, 1996 (1990), pp. IX-XXXVI. É idêntica a opinião de GALLI, Carlo. Genealogia
della politica, pp. 537 e ss., e em ZARONE, Giuseppe. Occasio e causa: metafisica e politica della volontà
decisiva. In: RACINARO, Roberto. Tradizione e modernità nel pensiero politico di Carl Schmitt. Roma:
Edizioni Scientifiche Italiane, 1987 (Publicazioni Dell‘Università degli Studi di Salerno, nº 19), pp.49-88, pp.
69 e ss.

59
Inicialmente, Schmitt mostra que o direito de voto proporcional inaugura o princípio
segundo o qual os parlamentares representam todo o povo, submetendo-se, no momento das
decisões políticas, às suas próprias consciências, e não a um prévio acordo com seus
eleitores mais próximos. Este fato suprime, em última análise, a legitimidade histórica e de
princípio de um sistema que foi intelectualmente construído para estabelecer o vínculo
direto —agora impossível— entre eleitor e parlamentar. Este vínculo, de aparente natureza
ideal, objetiva ―realizar a identidade entre o Estado e o povo‖, mas esbarra na organização
do sistema eleitoral, inadequado para fazer valer uma vontade popular concreta, não
manipulável, nem parcial ou elitista.96 Na verdade, a democracia indireta transforma-se,
neste contexto, em algo indistinto do sistema parlamentar. O problema é que a discussão e a
publicidade, que seriam, segundo o autor, os princípios legitimadores da constituição
histórica e das disposições e normas dos parlamentos europeus perderam a credibilidade.
Schmitt responde com a possibilidade de identificar a vontade popular concreta através da
manifestação simples e imediata da massa através da aclamação popular (Zuruf,
acclamatio) ou por obra de um indivíduo que encarne esta vontade. 97 O autor se vincula,
assim, ao cesarismo como forma política por excelência, a uma forma de Estado ditatorial
centrada na figura mítica do Líder, que necessita se legitimar pela mobilização emocional
(irracional) das massas e objetiva resolver ―por cima‖ as tensões sociais em movimento.
Para Schmitt, a questão dos princípios na configuração do parlamentarismo é a base
para o estabelecimento das características, das funções, da atuação e do próprio fundamento
de qualquer sistema político, sendo inimaginável um intercâmbio ilimitado de princípios
pertencentes a sistemas estruturalmente distintos.98 Os parlamentos do mundo atual,
vinculados a uma democracia representativa de massas, caracterizar-se-iam pelo
deslocamento (inclusive físico) do centro de decisão —dos plenários para os gabinetes—,
do espaço público e da discussão racional para o espaço das negociações secretas e
oportunistas de interesses econômicos que a esvazia. À crítica ao sistema parlamentar como
um todo, Schmitt acrescenta a cota de responsabilidade dos partidos, que

96
SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus, pp. 22 / 35.
97
Cf. SCHMITT, Carl. Vorbemerkung (über den Gegensatz von Parlamentarismus und Demokratie). In:
SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus, pp. 6-7 e 35.
98
Cf. SCHMITT, Carl. Vorbemerkung (über den Gegensatz von Parlamentarismus und Demokratie), p. 8.

60
hoje já não se enfrentam como opiniões em discussão (diskutierende Meinungen),
mas sim como poderosos grupos de poder social ou econômico, calculando os
múltiplos interesses e suas possibilidades de alcançar o poder e realizando, a partir
desta base fática, compromissos e coalizões. As massas são conquistadas através de
um aparato de propaganda cujos melhores resultados estão baseados em um apelo às
paixões e aos interesses imediatos.99

A Realpolitik resultante não assume seus pressupostos, e a realização da democracia


liberal, que deveria significar consenso e aceitação, transforma-se em um instrumento
prático e técnico completamente distanciado de um fundamento liberal: ―a crença no
parlamentarismo, num government by discussion, pertence ao mundo intelectual do
liberalismo. Não pertence à democracia‖. Assim, se o parlamentarismo não é naturalmente
um instrumento da democracia, mas sim do liberalismo, o princípio representativo torna-se
inviável e sem sentido. Tentar encontrar um novo princípio para a legitimação do
parlamento como locus específico de elites políticas especialmente selecionadas para o
desempenho público é não perceber a nova e desprezível (verachteten) configuração de
uma classe dirigente voltada exclusivamente para suas desprezíveis negociatas.100
Um dos mais destacados intérpretes de Schmitt, o pensador italiano Carlo Galli,
considera o conceito de democracia uma manifestação explícita da diferença teórica entre o
antiliberalismo schmittiano e o pensamento liberal. Para se chegar à identificação de uma
―verdadeira democracia‖, ―liberalismo e democracia devem ser separados, para que se
reconheça a estrutura heterogênea que constitui a moderna democracia de massas‖. 101 Para
Schmitt, portanto, o núcleo da democracia —tendo-se afastado o liberalismo, que confundia
seus pressupostos—, pode ser identificado como a homogeneidade política substancial,
derivada da igualdade como manifestação institucional de uma organização social
determinada. Homogeneidade implica tanto tratar igualmente o igual quanto tratar
diferentemente o desigual e pode significar, como conseqüência lógica, o extermínio
(Vernichtung) do heterogêneo. Para Schmitt, inclusive, ―a força política de uma democracia
se evidencia em saber remover ou afastar o estranho e o diferente, o que ameaça a
homogeneidade‖. Como exemplos de manifestação histórica dos fundamentos do conceito
de homogeneidade, o autor indica que a substância da democracia, isto é, a substância da

99
Idem, p. 11.
100
Idem, pp.13; 8.
101
Idem, p. 13.

61
igualdade pode ser identificada através da religião, da virtude cívica e, a partir do século
XIX, da nacionalidade e conseqüente constituição do Estado nacional. 102 Isto significa que
o sentido schmittiano de democracia baseia-se na idéia de um povo situado concretamente
no tempo e no espaço —comunidade nacional— capaz de manifestar politicamente a sua
vontade, a concepção que entra em choque com a fórmula universalista e racional do
liberalismo.103
Também a forma do exercício democrático, na visão de Schmitt, distingue-se da
democracia liberal. As democracias contemporâneas estariam caracterizadas por se
basearem, de fato, na homogeneidade substancial (que diferencia nacionais de estrangeiros,
por exemplo) e não na idéia de humanidade universal: a igualdade absoluta dos direitos
políticos é inviável por desprezar as individualidades, as diferenças naturais, as
desigualdades de fato e a própria substância da identidade nacional, fundada nestes
elementos. Schmitt credita à igualdade humanizadora do liberalismo a possibilidade de
deslocar as desigualdades substanciais —que permaneceriam existindo, a despeito das
pretensões liberais— para um outro âmbito, que não o político, fazendo com que ele perca
a sua força coordenativa em detrimento da esfera econômica, por exemplo. Esta forma
moral de compreensão e/ou visão de mundo, este humanitarismo —na perspectiva da
Teoria do Estado liberal—, ―é a verdadeira razão do lamentável domínio do econômico
sobre o Estado e a política‖.104
Para Schmitt, o exercício da democracia deve procurar sua origem moderna naquilo
que há de mais profundo na proposta de Rousseau, um desenvolvimento essencial do
conceito da volonté générale, —a idéia segundo a qual a homogeneidade conduz à
unanimidade da vontade, gerando identidade entre governantes e governados. A volonté
générale, a essência da democracia de Rousseau, é igual à homogeneidade. A partir deste
panorama, Schmitt alcança suas conclusões lógicas: a) a democracia não se confunde com o
liberalismo, por consistir não em igualdade formal, mas em igualdade substancial nacional
(homogeneidade); b) na modernidade, a democracia de massas pode realizar-se sem utilizar
o sistema de representação parlamentar, o que significa identidade entre representantes e
representados; e, especialmente, c) um Estado anti-liberal, organizado como uma ditadura,

102
Idem, p. 14.
103
Ver GALLI, Carlo. Genealogia della politica, p. 538.
104
SCHMITT, Carl. Vorbemerkung (über den Gegensatz von Parlamentarismus und Demokratie), p. 18.

62
não é necessariamente anti-democrático, porque funciona através da educação da vontade
do povo (numa espécie de jacobinismo) para alcançar a homogeneidade política. Nesse
sentido, é possível sustentar, diz Schmitt, a legitimidade democrática da ditadura.105
A democracia plebiscitária aparece, então, como a forma adequada de manifestação
e expressão vitais da volonté générale, realização daquele princípio da identidade —
―identidade do povo em sua existência concreta consigo mesmo como unidade política‖. 106
A volonté générale, uma vez realizada na aclamação, representa o poder constituinte
exercitando-se publicamente, em contraposição direta com a forma vazia e artificial do voto
individual, secreto, privado e escrutinado, que mantém a irresponsabilidade anônima de
uma computação aritmética da representação indireta.107
A relevância do processo de representação política nos termos estabelecidos por
Schmitt está na possibilidade da construção de uma ordem democrática que escape às
armadilhas dos sistemas universalistas do liberalismo como na própria mecanização e
desumanização das relações políticas das esferas técnica e econômica. Trata-se de uma
leitura decadentista do progresso técnico, como já se viu, que faz com que o autor recupere
uma leitura que identifica a idéia de representação política como antídoto espiritual à nova
época. Busca a identificação da representação política com o modus operandi da Igreja
Católica, considerando a técnica e a economia como conseqüência do desconhecimento da
tradição, a necessidade da recuperar a força espiritual de uma instituição que dê conta das
aporias da modernidade.
Alguns anos antes de desenvolver sua análise sobre o processo de secularização na
modernidade, pois, Schmitt já apontava, em um pequeno opúsculo denominado
Catolicismo Romano e forma política (1923), que são múltiplos os mitos desenvolvidos
pela cultura ocidental sobre o poder político representado pelo catolicismo romano.108 A
origem desse sentimento anti-romano, o medo incomensurável do poderio desta instituição
universal, mais que de sua enorme estrutura burocrática e imperial é sua idéia política
fundamental: não há oposição que a Igreja não abarque, seja ela política, estética, social, ou
qualquer outra oposição material. Institucionalmente e perante outras formas de

105
Idem, pp. 19 e ss.
106
Cf. SCHMITT, Carl. Verfassungslehre, p. 223.
107
Cf. SCHMITT, Carl. Vorbemerkung (über den Gegensatz von Parlamentarismus und Demokratie), p. 22.
108
Cf. SCHMITT, Carl. Römischer Katholizismus und politische Form. Stuttgart: Klerr-Cotta, 1984
(reimpressão da segunda edição, de 1925), p. 5.

63
organização, a Igreja constitui-se como uma complexio oppositorum. Assim, sustenta
Schmitt que,
Examinada através da idéia política do catolicismo, a essência da complexio
oppositorum católica romana assenta em uma específica supremacia formal sobre as
matérias da vida humana, tal como nenhum império conheceu até agora. Aqui se
conseguiu assim uma configuração substancial da realidade histórica e social que,
apesar de seu caráter formal, permanece na existência concreta, plenamente vital
(lebensvoll) e, no entanto, racional no mais alto grau. Esta peculiaridade formal do
catolicismo consiste na estrita aplicação do princípio da representação. Em sua
especificidade encontra-se uma muito clara oposição ao pensamento econômico-
técnico dominante.109

Em princípio, a Igreja personifica a idéia da unidade da oposição de complexidades,


isto é, ela tem a capacidade formal de absorver os mais variados e dissonantes interesses e
partidos, já que está configurada institucional e juridicamente como representante de um
valor universal sintetizado na humanidade de Cristo. Este poder é racional na medida em
que está ―interessado na direção normativa da vida social, que demonstra a si através de
uma lógica especificamente jurídica‖, racionalidade que significa a forma jurídica através
da qual uma vontade dogmática de decisão pode configurar, politicamente, a realidade. A
força política do conceito de composição de complexidades é o fato de que, qualquer que
seja a oposição existente, qualquer que seja o conflito entre sistemas políticos, a noção de
representação da Igreja é capaz de abarcá-los todos e dar-lhes sentido. A idéia que dirige a
composição das oposições as vê como instrumento de realização da própria idéia, não
havendo a possibilidade de ver forma política ou instituição qualquer suplantarem a
hegemonia da idéia que opera o sentido do mundo. 110
A capacidade formal da Igreja é vista como um poder sempre presente por estar
autorizada pela representação com a ―Pessoa transcendente de Cristo‖, o que não significa,
como lembra Galli, que exista uma ―eficácia política direta e imediata derivada desta
capacidade formal‖. Em um mundo onde a realidade efetiva tem a ver com o processo
produtivo, uma aliança entre Igreja e poder político não passaria de um devaneio
romântico, ainda mais pelo fato de, no Estado moderno, prevalecer ―não mais a complexio,
e sim a decisão através da racionalidade‖. A transcendência da representação, que encontra

109
Idem, p. 14.
110
Idem, pp. 21 e 9.

64
sua forma definitiva na complexio —a complexidade que abarca todas as oposições—, é
uma idéia possível para a refundação da lógica institucional do Estado a partir da forma e
decisão católicos pelo poder político soberano. Esta ―imitação‖ da ação representativa da
Igreja pode afastar o Estado de uma racionalidade que não vise a unidade substancial como
finalidade, mas apenas uma imanência vazia e instrumental. 111
O pensamento político não funciona se comparado, exclusivamente, a valores como
os da produção e do consumo, pois ―[n]enhuma grande oposição social pode dissolver-se
no econômico‖. A decisão sobre os rumos dos conflitos depende de um pathos de
autoridade, de algo que signifique uma representação pessoal do que é próprio da
humanidade —cultura, religião, política ou direito—, identificável em uma personalidade
concreta. O pensamento econômico, referencial da instrumentalização da ação no mundo,
aparece para Schmitt como racional apenas em seu processo produtivo, pois procura
satisfazer a toda demanda, mas é absolutamente irracional no que tange às finalidades
derivadas de sua realidade —a objetividade de seus valores está vinculada a coisas e não a
valores, como a autoridade e a convicção—meramente técnica. Assim, a Igreja, para
Schmitt, é a grande antítese do industrialismo capitalista já que este último não pode ser
representado ou mesmo representar-se, por faltar-lhe a substância de uma dignidade
pessoal. O princípio da complexio oppositorum permite —através da representação
tradicional da Igreja, também política por presentificar diretamente o Império Romano—,
pensar a representação política estatal, quando o Estado não se torna um simples autômato,
―desaparecendo‖ do mundo representativo. A representação se estabelece, portanto, como
imputação (Zurechnung), responsável pela ação, como um princípio que revela e demanda
a capacidade de legitimar-se de forma soberana.112 Essa perspectiva metafísica impede a
Igreja de tensionar o mundo, pois decidir sobre o sentido é uma composição de
complexidades que não se desfaz, ou melhor, que acaba por se transformar,
instrumentalmente, em outra coisa, como em um processo de conciliação.
No seu texto mais influente entre os constitucionalistas, Teoria da Constituição
(1928), Schmitt realiza a primeira e mais detalhada análise das constituições burguesas
modernas —e, em especial, da de Weimar (1919)— em que a distinção fundamental entre

111
Cf. GALLI, Carlo. Presentazione. In: SCHMITT, Carl. Catolicesimo romano e forma política (seguito da
La Visibilità della Chiesa: uma riflessione scolastica). Milano: Giuffrè, 1986, pp. 3-27 e 14 e ss.
112
Cf. SCHMITT, Carl. Römischer Katholizismus und politische Form, pp. 23 e ss.

65
os conceitos de representação política liberal e democrática substancial é desenvolvida
detidamente.
A representação (Repräsentation) é a forma política que dá existência ao Estado, um
princípio político-formal que se manifesta na esfera do público. O representar, ―é fazer
perceptível e presentificar (gegenwärtigen) um ser invisível através de um ser publicamente
presente‖. Por ser um fenômeno existencial e político, significa a manifestação direta e
independente do poder (poder constituinte, portanto) através de sua personificação no
governo. Para Schmitt, um povo pode manifestar sua unidade diretamente, através do
princípio da identidade, quando atua politicamente em sua realidade imediata, interferindo
e ditando as questões públicas sem mediação, isto é, sem representação política. O
princípio da representação, por outro lado, quer significar a impossibilidade real da
presentificação do povo em identidade real, sendo a unidade possível apenas quando
praticada por sujeitos representantes. 113
A relação entre a teoria constitucional antiliberal de Schmitt com o conceito de
representação do filósofo inglês Thomas Hobbes em seu livro Leviatã (1651), é óbvia: a
idéia de personalidade é fundamental para caracterizar o soberano representante. Persona é
uma palavra de origem latina que, segundo o próprio Hobbes,
significa o disfarce ou a aparência exterior de um homem, imitada no palco. (...) E
personificar é representar, seja a si mesmo ou a outro; e daquele que representa
outro diz-se portador de sua pessoa, ou que age em seu nome (...) Quanto às pessoas
artificiais, em certos casos algumas de suas palavras e ações pertencem àqueles a
quem representam. Nesses casos a pessoa é o ator, e aquele a quem pertencem suas
palavras e ações é o autor, casos esses que o ator age por autoridade.(...) por
autoridade se entende sempre o direito de praticar qualquer ação, e feito por
autoridade significa sempre feito por comissão ou licença daquele a quem pertence
ao direito.114

Hobbes irá justificar o poder soberano, no Leviatã, através da idéia de autorização.


Este conceito indica uma renúncia ao direito a tudo e sua transferência, o que faz com que
todos aqueles que participam do momento de autorização —o qual cria a pessoa artificial—
sejam obrigados ―a reconhecer e a ser considerados autores de tudo quanto aquele que já é
seu soberano fizer e considerar bom fazer.‖ É graças a esta autoridade, cedida por cada um

113
Cf. SCHMITT, Carl. Verfassungslehre, pp. 205 e ss.
114
HOBBES, Thomas. Leviathan. Introduction by C. B. McPherson. London: Penguin Books, 1985 (1651),
Capítulo XVI, pp. 217-18.

66
dos que realizam o pacto, e somente por este motivo, torna-se possível o uso do poder e da
força necessários para inspirar o terror que permite a conformação das múltiplas vontades
na direção da paz interna e externa. O que importa, no argumento de Hobbes, é marcar o
reconhecimento do poder soberano pelos súditos e, desse modo, sua legitimação racional
enquanto ato positivo de autorização, o que faz com que todos os sujeitos do processo
político de criação do Estado sintam-se comprometidos, envolvidos, obrigados e, além
disso, sejam efetivamente responsáveis por quaisquer atos cometidos pelo poder soberano
deste ponto em diante. A formação da República ou Estado (Commonwealth), derivada
desta relação de autoridade entre autores e ator, é um acontecimento jurídico e, de certa
maneira, impessoal, em que os súditos são unificados na pessoa do soberano —o que
equivale a uma perda da subjetividade política, da capacidade de decidir publicamente—
sendo todos os atos deste último de exclusiva responsabilidade dos súditos, a quem
―pertencem todas as ações praticadas pelo representante‖, mas que só se realizam pela obra
do soberano.115
Para Hobbes —razão pela qual Schmitt, recorrentemente, utiliza-se da estrutura
hobbesiana na construção da sua idéia de soberania—, este processo de juridicização da
autoridade de fazer e não-fazer na figura de uma personalidade artificial compara-se ao
processo de alienação jurídica de crianças, imbecis e loucos, que por não terem o uso da
razão, ―podem ser personificados por guardiões ou curadores, mas não podem ser autores
(durante esse tempo) de nenhuma ação praticada por eles (...) Mas também isto só pode ter
lugar num Estado civil, porque antes desse Estado não há domínio de pessoas‖. 116 Como
crianças e imbecis, os homens cedem o direito de se conduzirem, sem esperar nada em
troca a não ser evitar a possibilidade da morte violenta, ―cuidando de sua própria
conservação e com uma vida mais satisfeita‖. 117 A única diferença em relação ao pacto de
curadores e imbecis é o caráter temporal, que no caso do pacto político é irreversível, a não
ser que haja revolução, já que nenhum súdito pode libertar-se do processo de sujeição
política, mesmo que sob pretexto de infração do pacto, pois o soberano não faz parte dele,
mas recebe, unicamente, os benefícios do que foi pactuado entre os homens.

115
Idem, p. 229.
116
Idem, pp. 229-30.
117
Idem, p. 219.

67
O representante é uma pessoa artificial e, como sustenta Hanna Pitkin, no seu O
Conceito de representação (1967), uma coisa que se expressa por palavras e realiza ações
no lugar das pessoas naturais que representa. O que o distingue do conceito de pessoa
artificial de Hobbes é que a artificialidade não está na idéia de personalidade, mas na de
―que a ação que [o soberano] está realizando não é (considerada) sua própria, mas de outra
pessoa‖. Autoridade é, assim, o direito de uma pessoa realizar qualquer ato por autoridade,
por ―comissão (commission), ou por licença daquele de quem é o direito‖. Quando o ator —
que age por autoridade, no lugar do autor, representando-o— realiza um contrato, liga a
este o autor. O fundamental na relação entre representante e representado é que a
responsabilidade pelo ato em si é do representado, podendo o representante ter liberdade
ilimitada para atuar.118
Para Schmitt, Hobbes constitui o Estado soberano como uma ditadura, na medida
em que a decisão soberana que forma a lei civil é ―ditada‖, o poder do soberano fundando-
se, portanto,
em um acordo mais ou menos tácito, mas sociologicamente não menos eficaz, no
convencimento dos súditos, ainda quando este convencimento seja promovido
justamente pelo Estado. Isto relembra o sistema do Caesarismus e de uma ditadura
soberana, cujo fundamento é uma delegação absoluta.119

Se no texto A Ditadura a soberania aparece em seu fundamento comissarial,


técnico, na Teoria da Constituição, sete anos depois, Schmitt necessita criar uma
fundamentação com critério distintivo especificamente político. De qualquer sorte, a
relação de representação em Schmitt ainda pode ser considerada, nesse texto mais recente,
profundamente hobbesiana. Assim, a construção do conceito de representação pública
como forma política (Repräsentation) é realizada em contraposição à idéia de representação
privada ou relativa ao direito privado (Vertretung) ou mesmo à representação
administrativa (comissarial) e técnico-econômica.120 Esta grande distinção, que opõe
público e privado, serve para esclarecer que publicidade vincula-se, necessariamente, à
criação de uma totalidade política, isto é, ao processo no qual o povo em unidade se
reconhece como um conjunto de pessoas dignas de existência e faz-se representar. Ao

118
Cf. PITKIN, Hanna. The Concept of representation, pp. 15-9.
119
SCHMITT, Carl. Die Diktatur, pp. 22 e ss.
120
Cf. SCHMITT, Carl. Verfassungslehre, pp. 208 e ss. Ver a seguir, no capítulo 2.2, a análise da ditadura
comissarial e da ditadura soberana, a partir do livro A Ditadura, de 1921.

68
contrário, a representação privada contempla as formas tradicionais de representação
parcial, secreta, por mandato, articulada em órgãos encarregados, autorizados ou
dependentes, onde está excluído o processo próprio de criação da unidade implicado na
dialética da representação pública, onde ―o imperceptível se supõe como ausente e, no
entanto, simultaneamente se faz presente‖. Ela não passa, portanto, de um procedimento
puramente técnico, através do qual funções e finalidades práticas são previamente
atribuídas e do qual se espera a simples e específica realização de tarefas. Não se trata de
poder, independência e autoridade política. O Estado é, portanto, um ―status de um povo
(...), o status da unidade política‖, ou seja, ―um povo em situação de unidade política.‖ 121
Assim, as instituições nacionais responsáveis pelo desenvolvimento desse ―Estado
democrático‖ funcionam através de um processo de representação centralizado na figura-
chave do poder executivo que, ao invés de ser simplesmente o sujeito sobre o qual recai a
representação política, atua como quem detém a substância cristalizada da representação
espiritual do povo unido como nação.
Somente esta forma de representação, que consegue expressar concretamente o
substrato da composição da identidade popular, está apta a reinstalar a ordem nas situações
excepcionais através da decisão juridicamente legítima. Assim, a representação e a decisão
são os elementos pelos quais a soberania se constitui e se preserva, definitivamente, numa
unidade política, a partir de ações pontuais, como o controle da imigração estrangeira,
práticas colonialistas de estabilização política, desnaturalização e expatriação; por
processos pacíficos de assimilação à nação dominante; por procedimentos violentos, como
a ―eliminação (Beseitigung) do elemento alienígena mediante opressão, expulsão da
população heterogênea e meios radicais similares‖. 122 A própria idéia de Constituição,
nesse caso, poderá ser definida como uma decisão de conjunto sobre o modo e a forma da
unidade política, decisão caracterizada pelo fato de ser existencial, popular e total. 123 A
validade de uma Constituição deriva, portanto, de uma vontade unitária do poder
constituinte concreto, identificado através da existência política do povo em representação
pessoal. Assim, o próprio conceito de Constituição de Schmitt relaciona-se com o ato

121
Idem, pp. 205-15.
122
Idem, pp. 205 e 231-2.
123
Idem, pp. 20 e ss.

69
constituinte de uma determinada comunidade, com a vontade política existencial de quem
tem o poder de pôr a Constituição.
O pluralismo social, elemento que compõe a idéia de democracia substancial
homogênea, aparentemente destoa da busca da igualdade concreta através da eliminação do
heterônomo. Mas é o processo representativo, formalmente organizado à imagem da
representação da Igreja e percebido como um complexo de oposições que permite
compreender a perspectiva de Schmitt, que não pode ser interpretada —pelo menos nos
textos da fase weimariana— como a antecipação de um modelo de Estado totalitário. A
presença de homogeneidade solicita a conformação de uma certa ordem política, o que
estimula a centralidade da decisão existencial soberana. Assim, um Estado de partidos é
possível, mas deve estar resguardado pelo reconhecimento da especificidade dos sujeitos
que o compõem (por um valor que destaque o indivíduo da massa) e pela condensação
tanto de interesses quanto de partidos na figura do poder soberano. O Estado passa a não
representar, portanto, interesses ou indivíduos ou ainda partidos de forma isolada ou
fragmentária, estando excluída a possibilidade de uma relação política baseada numa
relação de causa e efeito pura e simples. Mas, como no processo representativo da Igreja, o
poder político representa uma unidade reconhecendo, entretanto, o complexio que o
constitui originariamente. Os membros (indivíduos) que compõem a unidade da qual deriva
o Estado comprometem-se, envolvem-se e obrigam-se a reconhecer (legitimar) esta
instituição que lhes proporciona uma coerência existencial que, para Schmitt, está acima
das alianças do jogo político reinante sob as instituições liberais.
Nesse sentido, a possibilidade de fundir o modelo de representação política, criado
por Schmitt, com uma economia de base técnica está completamente exaurida, o que não
significa, para o autor, a impossibilidade de sobreposição e controle de uma magnitude por
outra. Esse fato é que identifica o desdobramento contemporâneo da crise cultural e política
da modernidade. Na verdade, somente quando a esfera da economia conformar-se como um
poder político, o modelo representativo inspirado na Igreja pode ser enfrentado. Uma
natureza representativa como a da Igreja, no entanto, capaz de aliar-se a qualquer forma
política, encontra vantagem, pois realiza-se como representação do possível —
materialmente existente— através da própria representação, o que não ocorre com recursos

70
naturais, maquinário ou o processo produtivo, já fisicamente no mundo. 124 A questão
voltará sempre a ser qual a legitimidade em que se baseia uma possível nova forma de
domínio —como o predominantemente econômico—, já que o problema, do ponto de vista
histórico e estratégico, coloca a Igreja, esta instituição capaz de fazer coexistir forma e
decisão, ante o seguinte paradoxo: ―é hoje impotente ao nível político efetivo e na situação
presente sua política é, ao mesmo tempo, impossível e necessária‖. 125 Uma ordem social
controlada a partir de um poder político gerenciado pelo capital certamente não pode
apoiar-se na lógica do consumo, pois nesta não há transcendência visível, nem, portanto,
representação, ou autoridade. 126

2.2 A Ditadura cesarista como modelo de ordem constitucional

A impessoalidade da racionalidade tecnológica exclui, segundo Schmitt, a


possibilidade de se realizar, material e formalmente, a representação de natureza pública,
visto que os agrupamentos sociais se configuram a partir de polarizações com parâmetro no
arranjo relativo ao processo produtivo. Ao pensar econômico falta a humanidade da idéia,
que se manifesta, inclusive, através da linguagem e da retórica. Assim, uma ordem que não
se realize juridicamente e um Estado que não funcione através do direito, além de se
tornarem grandezas sociais que não comportam representação, ficam completamente
despolitizadas. 127 A incapacidade do liberalismo em reconhecer a juridicidade da decisão
excepcional faz com que ela seja sempre interpretada como um ato exterior e estranho ao
direito. A história do conceito de ditadura revela um conjunto de aproximações teóricas
marcadas por uma crescente instrumentalização que despolitiza e neutraliza o caráter
representativo da decisão. O próprio conceito de decisão fica limitado por identificações

124
Cf. McCORMICK, John P. Carl Schmitt’s critique of liberalism, pp. 160-1.
125
GALLI, Carlo. Presentazione. In: SCHMITT, Carl. Catolicesimo romano e forma política, p. 6.
126
Diz Schmitt que ―Na medida em que permanece um resto de idéia, domina também a opinião de que algo
preexiste à realidade dada do material, de que há algo transcendente, o que significa que sempre existe uma
autoridade que vem do alto‖. Cf. SCHMITT, Carl. Römischer Katholizismus und politische Form, p. 45.
127
Cf. SCHMITT, Carl. Römischer Katholizismus und politische Form, pp. 34 a 42.

71
puramente materiais, o que denuncia um quadro aparente de irreversível privatização da
experiência política na era moderna, idéia combatida por Schmitt.128
O argumento que subjaz à análise detalhada sobre as fórmulas variadas do conceito
de ditadura em seu livro A Ditadura: do início do pensamento moderno até a luta de
classes proletária (1921) é que a mesma foi se transformando, foi sendo construída e posta
em prática, no decorrer dos tempos, como um instrumento técnico. A ditadura é vista,
assim, como uma tecnologia voltada à realização de finalidades jurídicas, políticas ou
filosófico-históricas precisas, como permitir a transição de um Estado de classes para um
Estado comunista, pacificar um Estado em guerra civil ou organizá-lo para uma guerra
externa. Esta forma confusa de abordagem traz uma série de contratempos, porque afasta o
conceito de ditadura de um entendimento uniforme e sistemático. Suspender,
excepcionalmente, um conjunto de normas que vigoram numa situação de normalidade
passa a ser um ato de força, e a ditadura se transmuta em um instrumento político e fático
sem nenhum vínculo direto ou necessário com o direito. Em sua genealogia, portanto,
Schmitt deseja recuperar as pistas capazes de reinserir o conceito de ditadura na Teoria
Geral do Direito e do Estado, superando a ambigüidade tradicional do termo. 129 Esse texto,
um ano mais antigo que a Teologia Política, situa a questão da soberania dentro de um
quadro conceitual que tenta preservá-la de uma aproximação mais clara com o cesarismo.
Se no argumento e no texto de Teologia Política seu cesarismo é claro —e o
desenvolvimento de sua obra em anos posteriores, especialmente a crítica ao
parlamentarismo, definirá esta filiação—, no livro A Ditadura o autor pretende, desde o
título, mas sem sucesso, marcar esta diferença. Para John McCormick, a necessidade de
Schmitt de fortalecer o conceito de ditadura radica no fato de que a situação política da
Alemanha, sob a Presidência de Friedrich Ebert, implicou a utilização extensiva dos
poderes de exceção previstos na Constituição de Weimar. Nas páginas finais do livro
aparecem quatro motivos políticos fundamentais que levam o autor a ler a Constituição de
1919 a partir da atuação ditatorial do Presidente: a) o retorno de poderosos grupos sociais
ameaçando o Estado na forma de movimentos sindicais; b) a fácil evocação do poderio
monárquico, que na história alemã recente havia dizimado revoltas de caráter religioso

128
Nesse sentido, ver GALLI, Carlo. Presentazione. In: SCHMITT, Carl. Catolicesimo romano e forma, p.
6.
129
Cf. SCHMITT, Carl. Die Diktatur, p. XIII: etimologicamente, todo aquele que ―dita‖ é um ditador.

72
através da utilização de poderes emergenciais; c) a necessidade de neutralizar a ameaça do
Estado populista soviético pela criação de uma direção carismática e plebiscitária para o
Estado alemão, dando maior legitimidade à atuação do Presidente e; d) a necessidade de se
criar um instrumento jurídico diferenciado que preenchesse o vácuo deixado pela Teoria do
Estado liberal, naturalmente limitadora da soberania e, portanto, dos poderes de caráter
excepcional. 130
No contexto da profunda e contínua crise da República de Weimar no início dos
anos 20 do século XX, Schmitt tem a pretensão de realizar, não somente um estudo
filológico ou histórico, mas de identificar a natureza e a amplitude dos poderes ditatoriais
do Presidente do Reich segundo o art. 48 da Constituição de Weimar.131 Para além das
questões políticas imediatamente atinentes aos interesses de um jurista influente nos
destinos da Alemanha pós 1ª Guerra, transparece uma contraposição polêmica com o
modelo de ditadura que Schmitt identifica no ideário liberal, e que ele classifica como o
sentido político de ditadura.132 A incapacidade de o pensamento liberal compreender e
tratar seriamente o conceito faz com que ele seja utilizado indevidamente para justificar
ações políticas sem fundamento jurídico. Mais precisamente, ataca a construção de uma
filosofia da história —presente também na posterior literatura socialista, herdeira desta

130
Cf. McCORMICK, John P. From constitutional technique to Caesarist ploy: Carl Schmitt on dictatorship
liberalism and emergency powers. In: BAHER, Peter; RICHTER, Melvin (Edit.). Dictatorship in history
and theory: bonapartism, caesarism, and totalitarianism. Washington, D. C. / Cambridge: German Historical
Institute / Cambridge University Press, 2004, pp. 197-219, p. 201.
131
Cf. BENDERSKY, Joseph W. Carl Schmitt theorist for the Reich, pp. 34 e ss; 64 e ss. E SCHWAB,
George. The Challenge of exception: an introduction to the political ideas of Carl Schmitt between 1921 &
1936. 2nd edition; with a new introduction. Connecticut: Greenwood Press, 1989 (1970), p. 29. O art. 48 da
Constituição de Weimar diz o seguinte: ―Se um estado não cumprir as obrigações colocadas pela Constituição
do Reich ou pelas leis do Reich, o Presidente do Reich pode obrigar através do uso de força armada.//No caso
da segurança pública ser seriamente ameaçada ou perturbada, o Presidente do Reich pode fazer uso das
medidas de necessidade para restabelecer a lei e a ordem, se necessário usando-se força armada. Na
perseguição deste fim pode suspender os direitos civis descritos nos artigos 114, 115, 117, 118, 123, 124 e
154, parcial ou inteiramente.//O Presidente do Reich deve informar o Reichstag imediatamente sobre todas as
medidas empreendidas que são baseadas nos parágrafos 1 e 2 deste artigo. As medidas devem ser suspensas
imediatamente se o Reichstag assim exigir.//Se o perigo for iminente, o Governo do Estado pode, para seu
território específico, implementar as etapas como descrito no parágrafo 2. Estas etapas devem ser suspensas se
assim exigido pelo Presidente do Reich ou pelo Reichstag. //Detalhes adicionais serão fornecidos pela lei do
Reich.‖ DEUTSCHLAND. Die Verfassung des Deutschen Reichs vom 11. August 1919. Disponível em:
<http://www.dhm.de/lemo/html/dokumente/verfassung/index.html>. Acesso em: 20 nov. 2005. Os artigos
referenciados no texto do Art. 48 dizem respeito aos direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição,
como os de liberdade (Art. 114), de inviolabilidade de domicílio (Art. 115), de privacidade de
correspondência (Art. 117), de liberdade de opinião e ausência de censura (Art. 118), de reunião (Art. 123), de
associação, inclusive religiosa (Art. 124) e de herança (Art. 154).
132
Cf. SCHMITT, Carl. Die Diktatur, p. XIII.

73
perspectiva— que, tendo o progresso da humanidade como bandeira, considera a ditadura
uma prática política que objetiva, através da violência, afastar os empecilhos para a
formação de um novo —e supostamente melhor— modelo de sociabilidade. É contra a
radicalização do conceito de ditadura —que a Revolução francesa e o Bolchevismo
tornaram possível—, 133 e por identificar a incapacidade do liberalismo de lidar com a
dimensão constitucional —e, portanto, jurídica— do tema, que Schmitt se debruça em sua
análise.
O sentido político da ditadura, de acordo com a literatura burguesa tem três
elementos centrais: o comando pessoal, apoiado no consentimento popular (ou seja, um
fundamento democrático) e servido por um ―aparato de governo (Reigerungsapparates)
fortemente centralizado‖.134 Apesar de estar citando autores variados, o adversário visado
por Schmitt aqui parece ser Max Weber, cuja construção do conceito de cesarismo —
composta exatamente pelos elementos supracitados— pode confundir, segundo Schmitt, a
compreensão do real significado da ditadura.
Na construção de tipo sociológico, Weber define o cesarismo como o domínio do
gênio pessoal, que está em contradição ―com o princípio formalmente ‗democrático‘ da
burocracia eletiva‖. Relativamente à organização técnico-política do Estado, sua dominação
está fundada na figura de um César, que ocupa uma posição de ―homem de confiança das
massas (do exército ou dos cidadãos) desligado de toda tradição e como soberano ilimitado
e chefe de um quadro de oficiais e funcionários altamente qualificados‖. Como o cesarismo
pode derivar de uma democracia, Weber aponta a possibilidade da formação de uma
democracia plebiscitária, que seria ―uma espécie de dominação carismática oculta sob a
forma de uma legitimidade derivada da vontade dos dominados e só por ela perdurável.‖
Assim, ―o chefe (demagogo) domina de fato em virtude da devoção e confiança pessoal de
seu séqüito político.‖ Napoleão seria o puro dominador carismático plebiscitário que faz

133
Ver, nesse sentido, McCORMICK, John P. From constitutional technique to Caesarist ploy. É interessante
notar que uma das maiores ameaças à República de Weimar, o socialismo da esquerda radical, é vista, por
Schmitt, como tendo origem, pelo menos no que respeita a sua arma política fundamental —a ditadura do
proletariado—, no ideário liberal.
134
Cf. SCHMITT, Carl. Die Diktatur, pp. XII-XIV.

74
funcionar o império do gênio, mesmo que, no caso dos dois Napoleões, o plebiscito tenha
se realizado a posteriori e apenas formalmente.135
O elemento importante, nesta definição de Weber, é que a legitimidade da
dominação carismática plebiscitária está sustentada, inicialmente, na crença do prestígio
pessoal, mas definitiva e rotineiramente apoiada numa burocracia ágil e rápida que se
preocupa em eliminar todos os poderes intermediários. Em outros textos políticos, Weber
também classifica de cesarismo o regime imperial de Bismarck, embora note —
paradoxalmente— que este regime de força convivia, funcionalmente, com um sistema
parlamentar e em uma democracia de massas. 136 Em existindo um líder de relevo, o sistema
partidário se colocaria totalmente à sua disposição e à disposição das decisões de gabinete.
Nessa situação ―a máquina do caucus carece quase de opinião e está completamente nas
mãos do líder‖. Por fim, Weber denomina o comandante carismático do aparato eleitoral
em uma democracia de massas de ―ditador do campo de batalha eleitoral‖. 137
Schmitt, por outro lado, chama a atenção para a juridicidade do conceito de ditadura
e a constante necessidade de se colocar o direito como o parâmetro na constituição de uma
ação ditatorial. A ordem normativa é a referência que Schmitt tenta estabelecer como ponto
de partida e de chegada da prática ditatorial. Para um autor como Julian Freund —que
segue de perto o argumento de Weber—, entretanto, a fundamentação do domínio
carismático, por ser de natureza emocional e, portanto, irracional, tem apoio na ruptura da
continuidade (legal ou tradicional) enquanto o processo de legitimação encontra sua origem
e referência na pessoa do chefe, o que caracteriza o conjunto da experiência carismática
como uma aventura sem limites materiais ou formais. Para Freund —que entende a
representação como liberal—, o mais importante é que ―a noção carismática rejeita toda a
representação (no sentido político)‖ necessitando, o tempo todo, referir-se a si mesma num
movimento contínuo de epifania, o que é o oposto do processo de sucessão do poder

135
WEBER, Max. Economia y sociedad. Traducción de José Medina Echavarría et alli. México: Fondo de
Cultura Económica, 1997 (1922), pp. 721, 215, 195 e 214.
136
WEBER, Max. Parlamento e governo na Alemanha reordenada: crítica política do funcionamento e da
natureza dos partidos. Tradução de Karin Bakker de Araújo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993 (1918), 32. e Cf.
BAHER, Peter. Max Weber and the avatars of caesarism. In: BAHER, Peter; RICHTER, Melvin (Edit.).
Dictatorship in history and theory: bonapartism, caesarism, and totalitarianism. Washington, D. C. /
Cambridge: German Historical Institute / Cambridge University Press, 2004, pp. 155-174., pp. 162-3.
137
WEBER, Max. Economia y sociedad, pp. 1086-7.

75
político, da permanência e estabilidade das instituições. 138 Por conta destas inúmeras
variáveis, cuja compilação pode exemplarmente ser vista em Weber, o sentido
propriamente jurídico-constitucional da ditadura é diluído, ponto nodal da crítica de
Schmitt às concepções de cunho liberal já que,
segundo o uso lingüístico mais novo, é característica usual da ditadura a supressão
da democracia sob uma base democrática, assim não existe maior diferença entre
ditadura e cesarismo e lhe falta uma determinação essencial, que é o caráter
comissarial da ditadura139

A juridicidade da ditadura é eliminada tanto pela literatura liberal quanto pela


doutrina socialista pelo fato de ambas não relevarem ou até negarem, como é o caso de
Weber, sua natureza especificamente representativa, na medida em que a importância
dessas concepções está em seu caráter de ―sistema centralizado de governo‖.140 Assim
sendo, o elemento pessoal do comando político-jurídico é desprezado (neutralizado, dirá
Schmitt anos depois) pela necessidade de se identificarem estratégias e táticas diretivas para
o alcance do objetivo final. Dizer que se eliminou, com as concepções liberais, o elemento
propriamente jurídico do conceito, significa não que o liberalismo —como o vê Schmitt—
não aproveita os instrumentos presentes no direito para que uma ditadura qualquer se
realize, mas que nesta realização fica impossível identificar um elemento característico do
direito e do Estado, que é o processo ou a relação de representação. A ditadura, nesses
termos, é transitória, é um meio para um fim:
Partindo precisamente do que deve justificar, a ditadura se torna uma supressão
(Aufhebung) da situação jurídica em geral, porque significa a dominação de um
procedimento que está interessado exclusivamente no alcance de um resultado
concreto, mediante a eliminação do respeito essencial ao direito que tem o sujeito de
direito a opor sua vontade, se esta vontade obstaculiza o resultado; e isto
desencadeia a ruptura da finalidade com o direito.141

Qualquer justificação da ditadura como procedimento técnico —que nega o direito


para realizá-lo— só é capaz de revelar o elemento material, ―o conteúdo‖ da ditadura, mas
não sua fundamentação, autoridade ou legitimidade propriamente jurídica, pois ―um fim
real ou ostensivo, bom que seja, não pode fundamentar nenhuma ruptura do direito‖.

138
FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Tradução de Luís Cláudio de Castro e Costa. Revisão de
Paulo Guimarães do Couto. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987 (1966), pp. 169-170, p. 177.
139
SCHMITT, Carl. Die Diktatur, pp. XIV-XV.
140
Idem, ibidem.
141
Idem, p. XVIII.

76
Schmitt sustenta que ao se considerar a ditadura uma resposta jurídica a uma finalidade
prática, estar-se-ia compreendendo o direito como instrumento de natureza teleológica
pura.142 O problema não é o de identificar como a ditadura funciona de fato, mas como é
possível remeter este funcionamento a uma legitimação formal —o que leva
necessariamente à questão da representação—, ou seja, a possibilidade de justificar,
juridicamente, a divisão entre normas jurídicas e normas de realização do direito, segundo a
famosa proposição schmittiana:
Que toda ditadura contém uma exceção a uma norma não significa que seja uma
negação causal (zufällige Negation) de uma norma qualquer. A dialética interna do
conceito repousa no fato de que a norma, cujo comando (Herrschaft) na realidade
histórico-política deve ser assegurado pela ditadura, é negada. Entre o comando da
norma a realizar e o método de sua realização pode, portanto, existir uma oposição.
Aqui reside a essência jurídico-filosófica da ditadura, a saber, a possibilidade geral
de uma separação das normas de direito das normas de realização do direito.143

Estas normas de realização do direito, que funcionam como ditadura, necessitam


sustentar-se como representações jurídicas formais sem o benefício prático que porventura
possam trazer para o ordenamento jurídico do qual emanam. Necessitam, para serem
legítimas, de uma correspondente apresentação normativa (normativen Vorstellung).144 Em
primeiro lugar, uma ditadura realiza-se suspendendo o funcionamento normal de uma
norma jurídica para, a partir da operacionalização de procedimentos garantir, num futuro
predeterminado, que aquela norma volte a funcionar com eficácia. A ditadura é um meio
concreto previsto pelo direito para, em suspendendo determinadas regras jurídicas, operar a
realização de outras, ou do direito como um todo. A ditadura solicita, portanto, uma
previsão constitucional o que, na concepção de Schmitt, significa a função do art. 48 da
Constituição de Weimar: a legitimação constitucional para a ditadura. Em segundo lugar,
sua finalidade imediata não é meramente prática —o que redundaria em uma zona de
anomia—, mas a realização do direito, isto é, no processo de seu funcionamento, deve
portar a juridicidade que a legitima. Para Schmitt não se justifica, portanto, um suposto
direito natural, ou seja, uma ruptura (com o direito) fundada em princípios de justiça —ou o
que quer que seja—, localizados para além do ordenamento jurídico positivo, já que esse
conceito de ditadura é constitucional e, portanto, previsto no ordenamento jurídico. Mais
142
Idem, ibidem.
143
Idem, p. XVII.
144
Idem, p. XVII.

77
uma vez fica claro que o conceito schmittiano de soberania encontra guarida não só no
direito, mas em seu conceito de Estado, operando na resolução de um caso prático em
relação a um acontecimento concreto. Essa ―judicialização‖ do poder soberano e,
conseqüentemente, do Estado, indica tanto a presença da idéia de personificação do poder
—que ficaria mais clara no texto da Teologia Política—, quanto da manutenção da decisão
como manifestação individual sobre um caso concreto, de acordo com o texto Direito e
Juízo, de 1912. Transformar o Estado num árbitro significa, igualmente, condensar o poder:
no Estado schmittiano, as funções legislativas, executivas e judiciais serão unidas na figura
do soberano.
A operacionalização da ditadura representa a natureza verdadeira do direito, pois
demonstra seu caráter teleológico puro, ou seja, sua funcionalidade na proteção do Estado e
do Direito. Operar a ditadura implica que a realização do direito pela sua suspensão
autoriza, automaticamente, uma ação materialmente incondicionada, isto é, o ditador recebe
a autorização do direito para agir sem necessidade de respeitar seus limites, elemento que
remete à classificação fundamental de Jean Bodin, da qual se vale Schmitt: a distinção entre
ditadura comissária (kommissarischer) e ditadura soberana (souveräner). Enquanto o
primeiro tipo remete à idéia de reforma, o segundo indica uma ditadura da revolução, ―sob
a base do pouvoir constituant do povo‖. Em ambos os tipos, após o século XVIII, o ditador
aparece como comissário, ou seja, aquele que recebe autorização para realizar uma tarefa
previamente determinada. A diferença consiste em que, no caso da ditadura comissária em
sentido estrito, a comissão é atribuída pelo poder constituído, por uma norma jurídica
presente em um ordenamento posto. No caso da ditadura soberana, a comissão, isto é, a
autorização para a ação é realizada diretamente pelo poder constituinte do povo, sendo o
comissário um ―comissário imediato do povo, um ditador que dita inclusive a seu
comitente, sem deixar de se legitimar por ele‖. 145
Enquanto a ditadura comissária pretende esgotar-se quando obtiver sucesso no
objetivo político que persegue (ordem social interna, vitória em conflito externo), a ditadura
soberana pode perpetuar-se no tempo, pois a comissio soberana não tem limitação
temporal.146 A transformação da idéia de ditadura —de comissarial para soberana—

145
Idem, p. XIX.
146
Idem, p. XVI.

78
realiza-se, para o autor, por conta do conceito marxista de ditadura do proletariado. Pois
enquanto a utilização clássica do conceito representa a necessidade da reorganização de
uma ordem previamente dada, mas sob a ameaça de dissolução, o conceito marxista de
ditadura do proletariado representa a ação de uma elite radical que, fundada num processo
histórico universal —numa filosofia da história— utiliza-se de meios violentos para
alcançar, no futuro, um modo de vida não previamente definido no tempo nem definível a
priori. Importa ressaltar que Schmitt identifica a radicalidade conceitual da ditadura do
proletariado porque ela se vincula não a um indivíduo isolado, mas a uma classe de
indivíduos —o proletariado—, sujeito atuante, por excelência, de uma ditadura.147
Nesse sentido, não é necessariamente contraditório, para Schmitt, que em uma
ditadura que deriva da doutrina marxista —Kautsky, Lênin, Trotsky e Radek— exista a
possibilidade da permanência de uma instituição democrático-liberal, como o parlamento.
O que importa é: a) que o Estado proletário é somente uma transição final para o
comunismo, objetivo alcançado através do meio técnico apropriado (ditadura), e b) que a
ditadura só se implanta por exceção —e como ―estado de exceção‖—, pela ―coação das
circunstâncias‖. 148 A idéia de finalidade é reputada capaz de trazer à luz o sentido preciso
do conceito de ação ditatorial, que é a noção de um adversário concreto cuja eliminação é a
finalidade imediata da ação, uma delimitação puramente fática e não jurídica que indica o
caráter reativo, de ―legítima defesa‖, que caracteriza a ditadura.
Na própria literatura marxista da primeira metade do século XX é possível encontrar
respaldo para essa análise de Schmitt. Autores como Antônio Gramsci, contudo, farão
questão de deixar claro que esta proposta analítica identifica-se perigosamente com o
conceito de cesarismo, repudiado na construção do argumento schmittiano sobre a ditadura.
Gramsci, nas suas notas sobre o cesarismo, afirma que em alguns momentos históricos
específicos, o cesarismo ―representou a fase histórica de passagem de um tipo de Estado
para outro, uma passagem em que as inovações foram tantas e de tal ordem que
representaram uma transformação completa‖.149 Esse modelo exemplar de cesarismo —
que o autor denomina de quantitativo/qualitativo— é uma forma social que traz a

147
Idem, p. XV.
148
Idem, ibidem.
149
GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Tradução de Luiz Mário Gazzaneo. 8ª
edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, pp. 63-7., p. 66.

79
possibilidade de compreender os motivos da ascensão do fascismo e a derrocada do
liberalismo na Itália.150
Para Gramsci, a inovação estrutural e social da ditadura, nos moldes de César e de
Napoleão I —situação mais radical do que a simples ―evolução‖ de uma determinada
estrutura política (ditadura quantitativa, como a de Napoleão III)—, é o ponto fundamental
do conceito de ditadura quantitativa/qualitativa que retira dos dois primeiros personagens
políticos. Gramsci —como Schmitt, quando analisa a ditadura do proletariado— não
considera, necessariamente, o vínculo à figura ―heróica‖ de uma personalidade de destaque,
já que pode haver um cesarismo regulado pelo próprio sistema parlamentar, num governo
de compromissos e de coalizão.151 Nesse sentido, o cesarismo é uma força social que
intervém de fora sob uma disputa entre forças progressivas e regressivas, ―submetendo o
que restou de ambas‖, exprimindo sempre ―uma solução arbitral‖ e evitando, assim, uma
catástrofe política potencial. 152 Na modernidade, o cesarismo se caracteriza pelo
aprofundamento dos contrastes daquelas forças sociais antagônicas, que não podem mais
fundirem-se: representa a manifestação da luta de classes. O cesarismo mantém-se,
contudo, ante a necessidade de minar a força social antagônica, preservando-a através do
controle policial. Nestes termos, Gramsci aproxima o fenômeno do cesarismo ao advento
das vastas e modernas burocracias estatais e ―privadas‖ (sindicais e partidárias), da
expansão do parlamentarismo, e do aparato repressivo do Estado, que alijam a população
do processo decisório, transformando-a em massas. Assim, apenas de forma aparente,
Gramsci transita pelo que Schmitt chama de conceito político de ditadura —cuja finalidade
em si transcenderia a necessidade de legitimação. O cesarismo moderno é, na verdade, o
modo de o Estado gerenciar a luta de classes através da força policial. Nesse sentido, o
cesarismo é prenhe de juridicidade, pois é uma ―solução‖, um ―mecanismo‖ mobilizável
pelo Estado para a realização de ―soluções de compromisso‖ entre forças antagônicas.

150
Cf. FONTANA, Benedetto. The Concept of caesarism in Gramsci. In: BAHER, Peter; RICHTER, Melvin
(Edit.). Dictatorship in history and theory: bonapartism, caesarism, and totalitarianism. Washington, D. C. /
Cambridge: German Historical Institute / Cambridge University Press, 2004, pp.175-195, pp. 176-77.
151
Esta avaliação, que em Gramsci representa os motivos pelos quais Mussolini chegou ao poder na Itália —
de forma constitucional, pela formação de coalizões parlamentares— espelha o diagnóstico do próprio
Schmitt sobre a ascensão de Hitler em Weimar. Ver, nesse sentido, SCHMITT, Carl. Presentazione
all'edizione italiana. In: SCHMITT, Carl. Le categorie del “politico”: saggi di teoria politica. A cura di
Gianfranco Miglio e di Pierangelo Schiera. Mulino: Sociedade editrice di Mulino, 1972.
152
Cf. GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado moderno, p. 66.

80
A identificação do Estado moderno ditatorial aponta para a concepção de Estado
técnico, característica, segundo Schmitt, do pensamento do Maquiavel d‘O Príncipe (1513).
Entre meados dos anos trinta e meados dos anos quarenta do século XX surgiu uma
interpretação segundo a qual a descrição maquiaveliana do Estado não poderia ser
considerada nem como derivação de caráter pedagógico dos livros homônimos do
renascimento humanista, classificado como espelhos para o Príncipe, nem como um tratado
moral. 153 Esta era, por exemplo, a posição de Ernst Cassirer, no seu O Mito do Estado
(1946), para quem O Príncipe é um livro técnico, que somente indica o que é útil e inútil na
proteção dos novos principados contra os mais variados perigos. Para evitar estes perigos, o
governante deve e pode lançar mãos ―de meios extraordinários‖. Por conta desta finalidade
específica —manutenção do Estado— Maquiavel distancia-se de pensadores clássicos
como Platão, uma vez que eles propõem uma Teoria do Estado legal. Para Cassirer,
Maquiavel ―foi o primeiro a introduzir uma teoria que suprimiu ou minimizou esse aspecto
específico. A sua arte de política era destinada e servia igualmente tanto para o Estado legal
como para o ilegal.‖. 154
A interpretação da teoria do Estado de Maquiavel, determinada por um interesse
puramente técnico, e a idéia de que a influência renascentista impelia o autor d‘O Príncipe
e dos Discursos para a resolução de questões técnicas de sua arte, são elementos centrais na
reconstrução histórica do conceito de ditadura realizada por Schmitt. A questão é que da
―tecnicidade‖ (Technizität) pura e objetiva é possível derivar a indiferença pela finalidade
ou pelo resultado político concreto e concentrar a preocupação no ―como se ‗faz‘ algo‖.
Assim a ―organização política do poder e a técnica de sua conservação e ampliação diferem
segundo as distintas formas do Estado, mas é algo que sempre pode ser realizado de
maneira objetiva‖. O Estado aparece, pela primeira vez, como um objeto a ser livremente
moldado pelo engenho humano com a finalidade de realizar as tarefas racionalmente

153
Sobre as variadas interpretações de Maquiavel até meados do século XX ver o introdutório porém
excelente texto de BERLIN, Isaiah. The Originality of Machiavelli. In: BERLIN, Isaiah. Against the
current: essays in the history of ideas. Edited and with a bibliography by Henry Hardy. With a introduction
by Roger Hausheer. Princeton and Oxford: Princeton University Press, 2001 (1979), pp. 25-79., pp. 29 e ss.
154
CASSIRER, Ernst. O Mito do Estado. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (1946), p.
172.

81
dispostas como passíveis de concretização.155 São três as conseqüências imediatas na
conformação do que será erigido por Maquiavel como o modelo de funcionamento do
Estado moderno. Em primeiro lugar, o racionalismo técnico indica que o artífice construtor
do Estado molda a multidão como um objeto, isto é, como algo irracional que precisa ser
dominado e sem possibilidade de diálogo, contrato ou negociação.156 O Estado é o racional
que comanda o irracional, é quem dirige a multidão ditando comportamento de acordo com
a ―situação das coisas‖ (―Lage der Sache‖), é executivo em contraposição ao simples
deliberativo. O meio em que surge a necessidade da decisão ditatorial define de que forma
esta decisão será ditada a fim de alcançar um resultado concreto. É a exclusiva necessidade
de realização de um resultado específico e concreto que, em segundo lugar, as
considerações de caráter jurídico são consideradas como empecilhos —―inconvenientes e
inúteis (unzweckmäβig und sachwidrig)‖— para a funcionalidade técnica da ditadura.
Desse modo, o direito não pode condicionar o que é racionalmente criado para a resolução
puramente técnica de uma necessidade concreta e imediata. Portanto, a capacidade de
execução técnica do Estado ―não necessita da precedência de nenhuma norma em sentido
jurídico‖ para acontecer.157 Como terceira conseqüência da ditadura em Maquiavel ―dentro
do executivo, os órgãos de execução têm que se submeter incondicionalmente ao interesse
do funcionamento técnico sem fricção (des technisch glatten Ablaufs).‖.158 O direito, em
relação à ditadura, opõe-se diretamente à manifestação da essência do Estado enquanto
executividade. Esta forma de realização não se coaduna com limites e regras, com
discussão e consentimento.159 Estabelecidos os pressupostos de funcionamento do
Executivo nenhum elemento alheio à pura técnica de execução dos objetivos traçados pode
ser considerado. E, assim, de uma técnica política, constitui-se —―pelo racionalismo,
tecnicidade e executividade‖— o Estado moderno propriamente dito, vinculado à teoria

155
Assim, em Maquiavel, a Ditadura pode surgir tanto como modelo de ordenação de uma República
ameaçada por forças internas ou externas como pode figurar também como uma ―técnica racional do
absolutismo político‖. Cf. SCHMITT, Carl. Die Diktatur, pp. 7 e ss.
156
Idem, pp. 9 e ss.
157
Idem, p. 11.
158
Idem, p. 12. (grifo nosso)
159
Este argumento schmittiano evoca claramente uma crítica trazida pela oração fúnebre de Péricles na
História da Guerra do Peloponeso de Tucídides, que compara o governo democrático de Atenas com o
Estado espartano, para o qual na situação de guerra ―reflexão traz a hesitação‖. Cf. TUCÍDIDES. História da
guerra do Peloponeso. Tradução do grego, introdução e notas por Mário da Gama Curi. 3ª edição. Brasília:
UnB, 1999, p. 99.

82
maquiaveliana da Razão de Estado.160 Se o Estado moderno é puramente executivo, como
definir a presença da liberdade como elemento constitutivo do governo? Para Schmitt, aqui
aparece a doutrina dos arcana imperii (segredos de estado) aplicada ao Estado moderno,
isto é, a doutrina da utilização secreta de fraudes e ardis para confundir e tranqüilizar o
povo, sendo a liberdade um destes simulacros –ou ―instituições decorativas‖– que não
possuem, de fato, uma participação significante nas decisões políticas fundamentais. 161
Por fim, pode-se sustentar que, em Maquiavel, Schmitt, paradoxalmente, reconhece
o início da configuração do elemento central de sua teoria: a normatividade do poder
soberano manifesta na exceção está vinculada, diretamente, aos elementos concretos e
imediatos da ordem política que se pretende criar ou manter. A finalidade técnica que
orienta a constituição do poder político organizado acaba por justificar ―tudo aquilo que
resulta necessário‖. O ponto de imputação da regularidade universal das teorias política e
jurídica schmittiana indica a possibilidade real de instalação de uma unidade política
existencial capaz de garantir a manifestação equilibrada da decisão. Para Schmitt, o que
caracteriza formalmente a ditadura, o que a justifica juridicamente, portanto, é o poder de
uma autoridade suprema em permitir uma exceção concreta. Nesse sentido, o poder
ditatorial é provisional, determinado pela situação específica que demanda a exceção. 162 O
direito perde a sua centralidade como órgão a partir do qual emana a validade da ordem
estatal e dá lugar à decisão relacionada à ordem histórica concreta. A ordem jurídica não se
desfaz, mas fica suspensa ou se submete às limitações que os fatos indicam. A autoridade
dos fatos define, assim, a extensão da legalidade do direito.
A utilização de uma teoria da ditadura soberana e a posterior conceituação da
soberania, na obra de Schmitt, detinha um significado histórico preciso: favorecer um
constitucionalismo de natureza antiliberal, capaz de reconhecer a juridicidade de um
cesarismo plebiscitário que pusesse fim à situação de uma democracia liberal que perecia
por falta de instrumentos políticos e jurídicos adequados para enfrentar a ameaça

160
―O serviço civil treinado militar e burocraticamente, os ‗executivos‘, constituem a medula (Kern) deste
Estado, o qual por sua natureza é Executivo (der seinem Wesen nach Exekutive ist).‖. Cf. SCHMITT, Carl.
Die Diktatur, p. 12.
161
Idem, pp. 13 e ss.
162
Idem, pp. XVIII e ss

83
comunista. Assim, ―[u]m dos objetivos centrais do trabalho da fase weimariana de Schmitt
é justificar poderes ditatoriais soberanos para o Reichpräsident da República‖. 163
No Brasil, a situação política, apesar de diversa, apontava para o mesmo tipo de
solução constitucional. O conflito político entre as elites e entre estas e a classe operária em
ebulição encaminhava-se para uma solução antiliberal, embora com pretensão conciliatória.
O Estado Novo, fora as ações isoladas e violentas do Integralismo, não sofreu maiores
contestações. Derrubando uma Constituição promulgada poucos anos antes, em 1934, o
novo regime caracterizou-se por manter uma coerência doutrinária centralizada em sua
justificativa político-constitucional. A fraqueza do regime democrático-liberal, a ameaça
comunista e a necessidade da construção de uma ordem jurídica flexível o bastante —com
poderes emergenciais suficientemente amplos— para enfrentar os desafios de um tempo
marcado pelas agitações grevistas e de caráter ideológico, eram a tônica do tempo.
Francisco Campos, como Schmitt, encontrará um terreno fértil para desenvolver os
instrumentos jurídicos necessários à realização de um novo modelo de Estado e de uma
nova configuração constitucional. Sua filosofia política, que reflete quase que in totum o
modelo, flerta com os mesmos elementos da teoria política de Schmitt. Campos acabará
construindo um constitucionalismo antiliberal e cesarista. A autoridade política da
soberania antiliberal se manifesta, no Brasil, e com a configuração que lhe dá Campos,
também como uma autoridade fundada na unidade entre soberano e povo. O César, mito
político ele considera o único possível no direcionamento das massas urbanas, não pode
depender de intermediários na definição das funções do governo. A dissolução da
nacionalidade durante a 1ª República fará, na visão dos antiliberais brasileiros, que se evite,
a todo custo, recorrer às instituições representativas de origem liberal. Como em Schmitt, o
antiliberalismo no Brasil verá a instituição da ditadura como democrática e juridicamente
legitimada pela Constituição. O objetivo da próxima parte deste trabalho é avaliar se esta
aproximação é mimética o suficiente para se falar em filiação ideológica, identidade teórica
ou equivalência epocal do pensamento de ambos. Nesse sentido, optar-se-á pelo estudo
pormenorizado das categorias políticas fundamentais de Francisco Campos, a fim de
compará-las com o modelo de ordem ditatorial encontrada em Schmitt.

163
Cf. McCORMICK, John P. From constitutional technique to Caesarist ploy, p. 203.

84
PARTE 2. DEMOCRACIA DE MASSAS E ORDEM CONSTITUCIONAL EM
FRANCISCO CAMPOS

A configuração institucional que instala o Estado Novo (1937-1945) é um objeto


privilegiado quando se trata de relacionar a obra de Schmitt, como paradigma, à construção
de um discurso constitucional antiliberal no Brasil nos anos 30 do século XX. Para o
estabelecimento de um modelo de Estado com essas características, as fontes são os textos
que, eventualmente, determinem as diretrizes políticas, jurídicas e governamentais do
regime. No que respeita à construção de um discurso que funda e sustenta estas instituições
jurídicas, os autores reputados como ideólogos assumidos do Estado Novo aparecem como
referência obrigatória.
É tradição do pensamento social e político sustentar que a formação de uma
ideologia realista ou autoritária já está perfeitamente configurada nas primeiras décadas do
século XX. Nesse momento, um conjunto de pensadores e atores políticos brasileiros —seja
de forma original, seja recepcionando modelos interpretativos externos— coloca-se de
forma crítica face à organização política e ao modelo de Estado do constitucionalismo da 1ª
República, visando o estabelecimento de um novo desenho institucional, que realizasse os
objetivos políticos de ordem social e unidade nacional. 1 A sedimentação ideológica do
regime estadonovista estaria ligada —por esta avaliação da academia brasileira—, por um
lado ao castilhismo e, por outro, ao corporativismo, com uma determinada recepção do
fascismo e do autoritarismo. A definição das características centrais da Constituição de
1937 vincular-se-ia ideologicamente, também de forma preliminar, ao autoritarismo, cuja
fonte, por excelência, é o pensamento do jurista mineiro Francisco Luiz da Silva Campos
(1891-1968).
Através da análise da crítica antiliberal ao regime liberal-republicano e de sua
proposta centralizadora, serão investigados os fundamentos discursivos da configuração do

1
Cf. LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República. In:
PINHEIRO, Paulo Sérgio et all (Orgs.). O Brasil republicano, volume 2: sociedade e instituições (1889-
1930). 5ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997 (1978). (História Geral da Civilização Brasileira; v. 9).
Capítulo X, pp. 345-374., pp. 345 e ss. Embora, como sustente o autor, não é possível estabelecer sua unidade
ou coerência , ou mesmo sua importância.

85
modelo jurídico-político estadonovista. A obra de Francisco Campos será desligada —nesta
tese— do pensamento autoritário brasileiro, pelo fato de o autor desenvolver uma
sociologia de massas, a partir da qual produzirá um diagnóstico da contemporaneidade,
conectando a realidade política brasileira a fenômenos de caráter universal. O modelo de
constitucionalismo que se forjará a partir desta sociologia específica, que aqui se define
como antiliberal, será cristalizado, especificamente, na Constituição de 1937, mas pode ser
identificado no conjunto da legislação do período, que se distingue pelo volume e pelo
detalhamento na regulação da vida social.
Campos foi um dos juristas mais influentes na configuração do Estado brasileiro
durante o século XX. Responsável pela reorganização dos sistemas educacional, legal e
constitucional durante o Estado Novo, foi uma das figuras essenciais na elaboração do Ato
Institucional Nº 1 que deu origem ao regime militar (1964-1985). Como Ministro da Justiça
e Negócios Interiores do Estado Novo, foi responsável pela reforma dos Códigos de
Processo Civil, Penal e Processo Penal. Criou a Lei Orgânica dos Estados, que pretendia
limitar o poder legislativo e administrativo, vinculando-os ao poder central; a Lei de Crimes
contra a Economia Popular, a Lei de Segurança Nacional; as Leis de Naturalidade
(naturalização, repressão política a estrangeiros, expulsão, extradição e imigração); a
regulação da cobrança da dívida ativa da União; o Decreto-Lei contra o loteamento de
terrenos; a Lei de Fronteiras, etc.
O seu protagonismo, reconhecido oficialmente pelas publicações do regime Vargas,
começou a consolidar-se quando de sua atuação no recém-inaugurado Ministério da
Educação, durante o governo provisório, entre 1930 e 1932. Seu trabalho nesta área já
vinha da época em que foi encarregado das profundas alterações nas instituições
educacionais de Minas Gerais. A reforma dos ensinos primário e médio, em Minas, foi
recebida como uma revolução nas práticas e nos princípios pedagógicos tradicionais.
Campos colocou os professores do Estado no centro de um processo de formação que
envolveu um sem-número de congressos, conferências, cursos no exterior e convites a
professores estrangeiros para formar docentes no Brasil. 2 Na educação, os princípios
fundamentais estavam ligados a uma moralização socializadora que pretendia integrar os

2
Cf. MORAES, Maria Célia Marcondes de. Reformas de ensino, modernização administrada: a
experiência de Francisco Campos / anos vinte e trinta. Florianópolis: UFSC, Centro de Ciências da Educação,
Núcleo de Publicações, 2000, passim.

86
movimentos de conservação/mudança na adaptação a um novo tempo. 3 Como Ministro da
educação e saúde pública, realizou uma grande reforma universitária, dando preferência às
Universidades ao invés de centros universitários isolados, criou a Universidade do Rio de
Janeiro e também idealizou a reforma do ensino secundário, que passou a ser um núcleo de
formação independente do acesso à Universidade.
Afastando-se das atividades políticas no final de 1932, retornou durante um ano, à
advocacia em seu escritório no Rio de Janeiro, passando também a ministrar aulas de
Filosofia do Direito na Faculdade Nacional de Direito (futuramente vinculada à
Universidade Federal do Rio de Janeiro). Assumiu, durante o mês de novembro de 1933 o
cargo de Consultor Geral da República, mas logo se licenciou para representar o Brasil na
Conferência Pan-Americana dos Estados. De 1935 até 1937, quando deixou o cargo de
Secretário de Educação do antigo Distrito Federal para elaborar o Projeto da Constituição
outorgada, Campos já era o jurista mais influente na política nacional. De 1937 a 1942
ocupou o cargo de Ministro da Justiça e Negócios Interiores, mantendo uma colaboração
estreita, através de seus discursos, para a consolidação do modelo político do regime. 4 Após
ficar claro que o Estado Novo, aliado aos Estados Unidos da América na 2ª Guerra
Mundial, estreitaria os vínculos com as democracias liberais do ocidente, Francisco
Campos rompeu com o Presidente Getúlio Vargas e com o Estado Novo em 1945, através
de uma entrevista bombástica, na qual colocou em questão a legitimidade constitucional do
regime —5 do qual já havia se afastado, quando o Brasil aderira às forças aliadas, em 1942,
alegando problemas de saúde.
A produção intelectual de Campos reúne uma quantidade razoável de trabalhos
técnicos referentes à educação, alguns deles reunidos em dois livros, Pela civilização
mineira: documentos de governo 1926-1930 (1930) e Educação e cultura (1940), algumas

3
Cf. MUANIS, Maria Comes. O Tempo e a nação: os discursos educacionais de Francisco Campos.
Dissertação de mestrado (Sociologia). Rio de Janeiro: IUPERJ, 2002, 158 f.
4
Cf. MORAES, Maria Célia Marcondes de. Reformas de ensino, modernização administrada, pp. 154 e
ss. e RANGEL, Altanir Vieira. Francisco Campos: o político do poder e o ideólogo. (Dissertação de
Mestrado). 125 f. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1975, fls. 36-7. Rangel aponta que Campos foi um dos principais
líderes da Revolução de 30 e que, pelo seu suporte à Revolução Constitucionalista de 1932 indispôs-se
momentaneamente, em São Paulo, com o Governo Provisório de Vargas, sendo afastado de seu cargo de
Ministro: ―No entanto, de 1932 a 1935, ocupa intermitentemente, como interino, a pasta da Justiça.‖. Idem, p.
38.
5
Cf. CAMPOS, Francisco. A Constituição de 1937 e sua vigência. Entrevista de Francisco Campos ao
Correio da Manhã do Rio de Janeiro, em 3 de março de 1945. In: PORTO, Walter Costa. Constituições
brasileiras: 1937. Brasília: MC&T, Centro de Estudos Estratégicos, 2001, pp. 39-52.

87
compilações de seus discursos parlamentares, presentes nos livros Antecipações à reforma
política (1940) e Discursos parlamentares (1979) e trabalhos de natureza técnico-jurídica
nas áreas de Direito Constitucional, Administrativo, Comercial, Penal e Processual Penal.
No que respeita a trabalhos jurídicos de âmbito mais geral, escreveu o livro o Animus na
posse (1918), sobre Direito Reais, e o livro Introdução crítica à filosofia do direito (1918),
no qual examina o papel da filosofia e da sociologia do direito a partir da discussão do neo-
kantismo. Publica, ainda em 1916, um trabalho sobre economia política (A Doutrina da
População), em que critica Marx e Malthus. Livros de caráter ensaístico e literário também
são publicados no decorrer da sua vida, destacando-se Ciclo de Helena (1932) e Atualidade
de D. Quixote (1948), o primeiro utilizado para uma candidatura infrutífera a uma vaga na
Academia Brasileira de Letras. O seu livro mais influente foi publicado quando já era
Ministro da Justiça, O Estado Nacional: sua estrutura e seu conteúdo ideológico (1940).
Neste livro, além de sua conferência no salão de Bellas Artes, A Política e o nosso tempo
(1935), estão agrupados inúmeros artigos, entrevistas e discursos oficiais da época em que
figurava como ator central do Estado Novo.
Se por um lado se está diante de um ator político que despontou nacionalmente pelo
seu trabalho à frente da pasta da educação —no processo de implantação dos princípios
pedagógicos da Escola Nova, vinculada ao pensamento pragmático-liberal de Dewey—, se
está, igualmente, ante o gestor jurídico central do regime constitucional originário das duas
fases ditatoriais do Brasil: o Estado Novo e a ditadura militar de 1964. No ainda
parlamentar mineiro, transparece a recepção da cultura política norte-americana, que dá
vazão à sua aposta no direito como instrumento capaz de proporcionar a segurança
necessária para o avanço social e a sedimentação da idéia de nação. No ideólogo da
ditadura, a força da cultura reacionária européia guia a avaliação perturbadora dos
desígnios de um tempo de irracionalidade e violência.
Uma das hipóteses desse capítulo é que a incorporação de elementos liberais no
discurso e na atividade política de Campos não representa um conflito ou uma tensão
internos ao seu pensamento, mas a incorporação instrumental do liberalismo ou, mais
especificamente, de alguns de seus elementos. Esse liberalismo instrumental de Campos
sofre variações constantes, transparecendo com maior intensidade em seus discursos

88
educacionais e quando percebe, no direito, um meio para a implementação de uma certa
ordem cultural adaptada às sociedades de massas, que chamará de espírito nacional.
Faz-se necessário, para as finalidades deste trabalho, estabelecer os pontos nodais
tanto da crítica de Campos ao sistema político vinculado ao ideário liberal, quanto os
elementos constitutivos de sua visão jurídica e da ordem social e política, fundamentais
para se compreender a configuração do Estado Novo no que este tem de constitucionalismo
antiliberal de perfil schmittiano. A trajetória política do jurista mineiro acompanhará o
exame de textos escritos durante a maior parte de sua vida, lidos aqui como uma obra
alinhavada pelos princípios cardeais da mutação do tempo histórico e da sociedade de
massas, informados pelos fundamentos da ordem e da autoridade. A partir destes
elementos, procurar-se-á identificar quais os conceitos centrais na formulação da
Constituição de 1937 e da legislação que lhe é atrelada e que se configuram a partir do
pensamento de Campos, podendo relacionar-se mediatamente com os tópicos discursivos
identificáveis no modelo schmittiano.
Considerar-se-á, especialmente, três momentos distintos da produção intelectual de
Campos, que se destacam do conjunto de sua obra por colocar em pauta uma discussão de
ordem filosófico-sociológica, nuclear para a inteligibilidade de sua visão de mundo, de sua
atuação como autor da Constituição de 1937 e como um dos responsáveis pela
configuração do Estado Novo. Em Atualidade de D. Quixote (1948), Democracia e unidade
nacional (1914) e A Política e o nosso tempo (1935) Campos desenvolve, sem estar
vinculado aos estritos limites de sua atividade política, as idéias de tempo histórico e de
sociedade de massas, informadoras de uma filosofia da história capaz de servir de guia
compreensivo de sua atividade intelectual.

89
3. TEMPO ROMÂNTICO: O RETORNO DE DOM QUIXOTE E A
EMOCIONALIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLÍTICA

Francisco Campos não pode ser, apesar da marca da autoridade, facilmente


classificado no que respeita às filiações ideológicas. Pode-se sustentar, contudo, que seu
pensamento é guiado por uma convicção filosófica inicial de que o direito é o caminho da
ordem, da segurança e da paz social, construído pela recepção do passado e representante
da tradição.6 Sua filosofia, entretanto, quando voltada para o exame da contemporaneidade,
abre-se para uma nova composição de sociedade, onde os valores tradicionais
aparentemente não podem mais ser contemplados como guias adequados para a ação.
Assim sendo, o objetivo é demonstrar que Campos pressupõe uma ordem social que não é
vista ou sentida pela contemporaneidade de forma racional, necessitando ser revelada por
uma força social polarizadora e indicadora de sentido. É a sociologia campiana, então, que
se constituirá em dois momentos distintos. Na década de 10 do século XX, iria traçar o
perfil necessário de uma específica auto-consciência do homem em sua relação com o
mundo, estabelecendo a oposição entre uma situação subjetiva em que tudo é possível e a
necessidade de uma organização emocional que fosse referendada pela tradição. A partir
deste diagnóstico, o autor pretendia indicar o perfil de possíveis reformas institucionais que
poderiam permitir o encontro do tempo com a nação. Na década de 30, a sua sociologia de
massas seria refinada e, é possível afirmar, efetivamente estabelecida, em direção ao
diagnóstico da irracionalidade da política, da impossibilidade de uma orientação racional
pelos meios tradicionais da civilização e do direito.
Um ensaio do final dos anos 40 demonstra a preocupação em estar constantemente
refundando os princípios e conceitos pelos quais considera viável a atribuição de sentido
histórico ao mundo contemporâneo. Em assim operando, o texto de Campos revela a marca

6
Cf. CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?). In: CAMPOS, Francisco. Antecipações
à reforma política. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1940, pp. 3-13, p. 4.

90
característica do constitucionalismo antiliberal. Em Atualidade de D. Quixote (1948),7 é
possível identificar os valores através dos quais o autor compreende o mundo e nele se
orienta, talvez com uma precisão maior do que em qualquer outro formato discursivo
revelado em sua vida. Nesse texto, portanto, a filosofia campiana se expressa em sua
maturidade sem as limitações do contorno jurídico da maioria de seus textos. A relação
entre D. Quixote e Sancho Pança é lida como um processo tradicional de civilização —
cujas raízes encontram-se na Ibéria da baixa Idade Média— que pode ser utilizado em
oposição à dissipação cultural contemporânea. A cultura decaída da sociedade atual —o
texto é publicado no final dos anos 40— é personificada no anti-heroísmo de Hamlet e
Fausto.
O objetivo do texto é a perscrutação de uma metáfora do desespero moderno — a
relação entre o ―potencial emotivo do homem contemporâneo‖, representado pela
passividade de Sancho Pança, e a força simbólica, a expressividade emblemática de uma
vontade transformada em decisão na figura de D. Quixote. Esse desespero representa uma
crise emocional cuja origem é a falta de um catalisador suficientemente autêntico, tanto
para substituir ―o vazio da ausência divina‖, quanto para evitar ―o abuso moral, a
degradação maquiavélica da inteligência que se propõe secretariar as massas para, traindo-
as, conduzi-las ao aprisco de César‖. Nesse ensaio, nuclear para uma avaliação global do
pensamento de Campos, fica marcada a presença de conceitos que definem a percepção do
fenômeno político e jurídico em boa parte de sua obra. Nesse D. Quixote, uma solução
política —a revitalização das instituições naquilo que condensam de apelo emocional e
ritualístico— é elevada ao status de cruzada e a autoridade evocada pelo vulto quixotesco é
a não menos emblemática figura do Papa.
No contexto político do fim dos anos 40, Campos está marcado pela proximidade
com a doutrina social da Igreja Católica e pelo relativamente recente rompimento com
Vargas. A doutrina católica de evangelização da sociedade brasileira —vinculada aos
intelectuais do Centro D. Vital— indicará, para o autor, a necessidade de propor uma

7
CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote. Prefácio Abgar Renault. Belo Horizonte: Publicações da
Secretaria da Educação do Estado de Minas Gerais, 1951. O texto, originalmente uma conferência, foi
publicado pela primeira vez na revista Digesto Econômico, em fevereiro de 1948. Cf. MORAES, Maria Célia
Marcondes de. Reformas de ensino, modernização administrada, p. 249, nota n.º 11.

91
moralização da política, tema caro à UDN e ao movimento anti-getulista como um todo.8
Em seu ensaio, Campos aponta uma moralização pelos ritos sacros encontrada na
―verdadeira‖ democracia, uma pedagogia das massas realizada pela verdadeira elite, em
contraposição aos ―intelectuais céticos e relativistas‖ construtores de pseudo-mitos,
falsificadores do ideal de ação coletiva. O engajamento do catolicismo brasileiro nas
questões políticas da época teria como objetivo de voltar a reconhecer Deus como fonte
essencial de valores necessários à moralização dos homens. Para a doutrina social cristã,
como para Campos, a crise do mundo transparece nos homens que, ou revelam-se,
inicialmente, como meros seres da natureza, destituídos de uma moralidade que conduza
suas vidas, ou como instrumentos de uma racionalização desumana. A ligação entre a
doutrina democrática cristã, de natureza política, e a prática de recristianização da
humanidade, um processo estritamente moral, é a educação. Nesse sentido é possível
observar que, em Campos, a educação aparecerá, especificamente, como formação de
elites.9
O fenômeno democrático é lido por Campos como uma manifestação da
espontaneidade das massas e da necessidade de uma liderança prenhe de autoridade,
conjunção política antecipada pelo clima da época —o século XX— e respaldada por uma
elite esclarecida.10 No seu D. Quixote, Campos realizará uma crítica de caráter metafísico
ao ―mundo racionalizado e técnico dos nossos dias‖, incapaz de dar resolução ao
―sentimento de insegurança e de fim de mundo‖. Esta ausência de uma meta-interpretação
remete o autor a um ―cisma moral‖, que aponta uma crise de natureza emocional: o fim do

8
Sobre as posições partidárias na campanha eleitoral de 1950, SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio
Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Apresentação de Francisco de Assis Barbosa. Tradução coordenada
por Ismênia Tunes Dantas. 13ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
9
Cf. CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, pp. 80-2. Sobre o Centro D. Vital nos anos 50 e a
proposta política dos intelectuais católicos brasileiros, ver DE PAULA, Christiane Jalles. O Pensamento
político de Gustavo Corção. Tese de Doutorado (Sociologia). Rio de Janeiro: IUPERJ (mimeo), 2006;
PÉCAUT, Daniel. Os Intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação. São Paulo: Atlas, 1990 e
BIGO, Pierre. A Doutrina social da Igreja. Tradução de equipe da PUC-Rio, sob orientação do Pe. Bastos
D‘Ávila. São Paulo: Loyola, 1969, pp. 83 e 141. Cf. CAMPOS, Francisco. Educação e cultura. Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1940.
10
Esse diagnóstico é constante em momentos significativamente diversos da obra de Campos. Cf. CAMPOS,
Francisco. Democracia e unidade nacional (1914), pp. 6 e ss.; CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso
tempo (1935). In: CAMPOS, Francisco.O Estado nacional: sua estructura, seu conteúdo ideológico. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1940, pp. 1-32.; CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, pp. 78 e ss.

92
grande modelo civilizacional, capaz de orientar o sentido do potencial emotivo do homem
em sua composição entre natureza e cultura.11
O alvo do texto é a intelectualização individualista —romântica— que traz, através
da cultura e das artes, a perda do ―caráter expressivo de experiências comuns ou coletivas
para se limitarem a traduzir em enigmas simbólicos as idiossincrasias e perversões de almas
solitárias‖. Esta banalização da vida individual que é também a derrocada da vida coletiva
tem, portanto, uma origem ou, pelo menos, uma expressão estética, identificada no
movimento de subjetificação da arte e de estetização da vida. Assim, num primeiro
momento, o autor identifica a representação literária do caráter melífluo e musical de uma
―sentimentalidade, evasiva, ambígua e difusa, plana, como um vapor irisado, sobre uma
razão que abdicou ou duvida de sua realidade‖. Esse processo de subjetificação da arte é,
em seguida, vinculado à representação romântica de uma cultura incapaz de transformar
pensamento em vontade e vontade em ação. Ambos os movimentos sofrem uma
condensação no argumento do texto, e passam a ser exemplificados pelos personagens
―grises, moles e evasivos como as vegetações submarinas‖ de Shakespeare e Goethe,
respectivamente Hamlet e Fausto. Enquanto estas duas personagens representam, para
Campos, a indecisão e a instabilidade covarde, D.Quixote significará sua antítese literário-
simbólica, o espírito lógico, ―duro, definido, seco e uniforme como o granito, o ar e o céu
mediterrâneos‖.12 Em oposição ao senso comum que lê D. Quixote como um lunático
perdido em batalhas imaginárias e, por isto, em conflito constante com a realidade, Campos
propõe uma interpretação sensivelmente diversa. Assim, no personagem luminar, sociável e
comunicativo de Cervantes, pode-se perceber, em oposição a Hamlet e Fausto, que
a razão é soberana: rege do alto o mundo da sensação e da sensibilidade que traz
curvadas à autoridade do seu comando. (...) Os dois nórdicos são introspectivos ou
introvertidos. Daí ser o monólogo o modo mais adequado às suas expansões. A
linguagem de ambos é difícil como em geral a linguagem dos especulativos, pois se
dirigem mais a si mesmos do que aos outros; neles a linguagem não é um meio de
comunicação, mas apenas símbolo, ou mero instrumento destinado a aliviar a sua
tensão interior.
D. Quixote está permanentemente voltado para fora; alerta e vigilante em relação ao
que se passa em torno dele como a sentinela à porta de uma fortaleza. Não há
monólogos em D. Quixote.13

11
Cf. CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, pp. 68-75.
12
Idem, pp. 68-70 e 50-1.
13
Idem, pp. 51-2.

93
Funcionalmente, D. Quixote realiza um bem essencial, o papel histórico, ―o milagre
de cumular de sentido aquele tosco alforje de couro do espírito do nosso pobre Sancho‖. 14
Para Campos, o processo de civilização a que aos poucos se submete e é submetido Sancho
Pança —na sua convivência com o cotidiano quixotesco— afasta a ascendência prejudicial
da pobreza de um espírito acostumado, exclusivamente, às satisfações mundanas, cheias de
ilusões, superstições e cobiças vãs. Essas emoções toscas são deslocadas e direcionadas
para um novo destino, dependente tanto da capacidade pedagógica de D. Quixote quanto da
aptidão lentamente adquirida de Sancho Pança em compreender as possibilidades de uma
vida de jovialidade e, principalmente, uma vida longe da pobreza espiritual. O caminho
para a renovação espiritual de Sancho —isto é, o processo de sedução a partir do qual
Sancho vislumbrará falsamente a futura satisfação de suas necessidades mundanas— é
representado, alegoricamente, pelo reinado prometido por Quixote. A força de conservação
que segura Sancho em sua original realidade —onde desenvolvera o gosto por um cotidiano
insosso—, faz com que seja irrealizável ouvir os escrúpulos de uma consciência inexistente
em si mesmo. O processo civilizatório de Sancho, realizado pelo contato com Quixote —
seu contraste absoluto— e em oposição à incapacidade para a ação de um Hamlet e de um
Fausto é, para Campos, a alegoria e o segredo da saída contemporânea, por isso a
atualidade de D. Quixote, para quem ―o mundo pede uma cruzada‖:
As verdadeiras causas do descontentamento, da inquietação, da angústia do homem
contemporâneo não são de natureza econômica e política. São de ordem emocional.
A emoção perdeu os pólos, os símbolos, os ideais por onde dar vazão ao imenso
potencial que se acumulou durante séculos de abstinência e privação. (...) Esse
mundo de hoje, que é como Sancho abandonado por seu amo, reclama a volta de D.
Quixote, por sentir que sem ele a sua vida não teria sentido. De todos os lados, sob
os mais diversos nomes e as mais contraditórias aparências, o que o homem de
nossos dias pede e reclama, o que ansiosamente espera — é o retorno de D.
Quixote.15

O texto contém tanto o diagnóstico quanto a teleologia de Campos ante a ausência


de sentido da contemporaneidade. A crise do mundo se dá quando as emoções represadas
não encontram mais que pálidas e canhestras reproduções de uma hierarquia perdida. É a
angústia do homem sem a tradição do rito, dos símbolos e dos ideais que canalizam as

14
Idem, p. 45.
15
Idem, pp. 83-6.

94
emoções para a obediência a uma ordem. 16 Assim, uma perspectiva democrática que
restabeleça sentido à sociabilidade humana requer a criação de um novo cerimonial, um rito
capaz de ―embeber de novo as suas raízes no coração do povo‖ como a que operou, no
processo de iluminação espiritual, D. Quixote com seu Sancho Pança. O caminho da
democracia é complexo e cheio de insegurança, como o foi a aproximação da inteligência
de Sancho com um D. Quixote aparentemente ―louco rematado‖. Sancho não foi capaz,
num primeiro momento, de perceber a capacidade civilizatória de D. Quixote, confundindo-
a com uma postura de simples alucinação de um cavalheiro imaginário. Como alcançar a
―coroa‖, prometida ―como recompensa dos trabalhos e fadigas‖, o símbolo máximo da
liberdade, se a garantia do sucesso futuro era exatamente aquela loucura personalizada no
protagonista cervantino? Sancho a alcança —a condição de liberdade e de civilização—, no
momento em que se contempla e se avalia, de forma auto-consciente e distante das
limitações originárias de sua natureza, ou seja, de forma individualista. Pança educa-se
através da convivência com D. Quixote para livremente tornar-se equilibrado e obediente,
para ser povo, massa. A liberdade não serve para Sancho continuar em ligação com seus
instintos telúricos, mas para se inserir na ordem civilizacional pressuposta na vontade
quixotesca. Numa mimese de D. Quixote, considera-se ―de fora, do alto e de longe‖,
passando, com esse movimento de auto-compreensão, a reconhecer a força das verdades
eternas, como o fidalgo de La Mancha sempre pôde fazer. D. Quixote age sobre Sancho
Pança como a Igreja poderá agir sobre o mundo, atribuindo sentido e vida: ―e a paz do
Senhor descerá sobre as nossas cabeças e só então nos será dado na alegria provar daquele
vinho da piedade e da misericórdia, de cuja embriaguez felicidade é o nome, e fora dela
tédio, aridez, secura, areia do deserto, infecundidade e solidão‖.17
Com Sancho fecha-se o ciclo dos antagonismos dramáticos. D.Quixote representa a
altivez de um ―foco solar‖, um espírito de fogo que consome a ―lama primordial‖, ―espessa
e gelatinosa como o barro do Gênesis‖, e que em Sancho penetra como ―o fermento da
eterna inquietude humana‖. D. Quixote torna-se, assim, o espírito ativo e o ―tom
imperativo‖ de seu tempo, a força viva e civilizadora, capaz de libertar o mundo de seu
cataclismo — ―a degradação maquiavélica da inteligência‖. Sancho Pança assume o lugar

16
Idem, p. 71.
17
Idem, pp. 82, 1-11 e 22.

95
do povo, ante sua hora primordial, outorgada em benemerência por Quixote e deve definir-
se após ter enfrentado a relação com a luz do entendimento: ―sapo ou estrela‖. Hamlet e
Fausto são a desordem contemporânea, a estetização amorfa do mundo, representam o culto
à personalidade e podem ser perfeitamente descritos, segundo Campos, como ―romances de
tese‖. Neles, o mundo em si torna-se impotente e tudo se transforma em simples cogitação,
isto é, ―o fantasma de idéias que não conseguem tomar contato com a realidade‖. 18 Campos
critica, aqui, como Schmitt, a incapacidade do pensamento romântico de agir no mundo.
Assim, enquanto Quixote representa uma atitude existencialista, que define a
existência do homem no mundo a partir do conjunto de suas ações concretas, o romantismo
indica a existência de homens apáticos, que impedem a própria experimentação da
realidade. A conclamação de Campos nesta obra é representativa de uma forma de
pensamento específica, o pensamento católico conservador. Esta crítica se coaduna com o
reacionarismo católico de Schmitt, que compreende o liberalismo como representação
romântica de mundo e clama igualmente pela ação e pela decisão concretas para reordená-
lo. A representação da tragédia de Hécuba, através da qual o personagem Hamlet pretende
identificar a face dos supostos culpados pelo assassinato do Rei, representa a intrusão da
política em uma narrativa onde, segundo Schmitt, a impossibilidade de conclusão é
estrutural. A tragédia grega significaria, assim, o tempo histórico prenhe de decisão e
vontade, quando a guerra forma o Estado e o poder sacro do soberano está em relação
direta com o modelo literário de herói medieval e de virtude humanística. 19 A heroína
trágica Hécuba —vingando de mão própria a morte de seus filhos—se não tem a mesma
função simbólica em Schmitt que D. Quixote no ensaio de Campos, cumpre idêntico
sentido metafísico.20 Representa o momento de autoconsciência pura voltada à decisão,

18
Idem, pp. 30-58.
19
Cf. GALLI, Carlo. Presentazione dell‘edizione italiana. In: SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, pp. 10-6.
20
Cf. EURÍPEDES. Hécuba. In: ÉSQUILO; SÓFOCLES; EURÍPEDES. Os Persas, Electra, Hécuba.
Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. 4ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000,
pp. 151-219.

96
livre, por sua ação relacionada ao mundo concreto.21 E, em posição análoga à de D.
Quixote, opõe-se a Hamlet, o anti-herói covarde —como o vê Schmitt—, espectador inerte
da dissolução de sua soberania ante as guerras civis religiosas, catástrofe, de resto, como
diz Galli, já acontecida:
a moderna destruição da ordem simbólica tradicional não é narrável por si (não é
―mito‖, se por mito se entende conto), mas por estar presente só em negativo; uma
tragicidade, além do mais, sem catarse e sem ação, testemunho mudo (apesar de
reconhecido ao nível público da Öffentlichkeit) de uma catástrofe já acontecida. (...)
Enlaçado nessa fratura histórico-política, Hamlet/James é o código imediato (o mito
vivente) da impotência do poder tradicional, entre uma universalidade perdida e
uma particularidade ainda por vir: a sua inação é o trágico, não o seu agir.22

As oposições D.Quixote/Sancho/Hamlet e Hécuba/James/Hamlet são


demonstrações filológicas de uma fratura política entre épocas distintas e, ao mesmo tempo,
representam conceitos não substanciais, isto é, compreensíveis somente enquanto relação.23
Trata-se do deslinde de um processo que se perfaz como filosofia da história. Em ambos os
autores, o presente é a dissolução que necessita ser convertida em decisão e ordem. A
narrativa sobre o momento político presente faz referência obrigatória ao passado: avalia-o,
determinando seus significado e valor, apontando para o futuro a necessidade de sua
recuperação. Em Schmitt só se torna possível abarcar a profunda distância entre dois
momentos políticos pela relação entre o jogo dramático decadente de Hamlet e a força
trágica emergente de um fato histórico verdadeiramente acontecido — narrado por uma
tragédia inserida na narrativa do drama. Analogamente, em Campos, a fraqueza leniente do
individualismo de Hamlet e a ignorância naturalmente perversa de Sancho Pança estão em
rota de colisão com a virilidade —evocada como cruzada— de D. Quixote.
Em Schmitt, os opostos não se tocam, o antagonismo entre Hécuba e Hamlet é
mediado, pois o tempo de Hamlet —a indecisão política— domina. A tragédia representa,
literalmente, o tempo histórico, pois a decadência se completa e se confirma

21
No ensaio de Schmitt, a comparação entre Hamlet, Fausto e D. Quixote é igualmente apontada:
―Notoriamente, o espírito europeu, desde o Renascimento, se tem desmitificado e desmitologizado.
Entretanto, a poesia européia criou três grandes figuras simbólicas: Dom Quixote, Hamlet e Fausto. Em todo
caso, em uma delas, Hamlet, alcançou a condição de um mito. Todos os três são extraordinários leitores de
livros, e portanto, se se pode dizer desse modo, de intelectuais. Todos os três foram trapaceados, vítimas de
seus espíritos. E agora prestemos um pouco de atenção a sua origem e no seu nascimento: don Quixote é um
espanhol, um bom católico; Fausto é alemão e protestante; Hamlet está entre os dois, no meio da fratura que
determinou o destino da Europa‖. SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, p. 97.
22
GALLI, Carlo. Presentazione dell‘edizione italiana. In: SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, pp. 22-3.
23
Idem, p. 25.

97
irremediavelmente. No texto de Campos, ao contrário, apesar de D. Quixote e Sancho
Pança estarem, a princípio, no mesmo plano, o do passado, eles são símbolos atemporais.
De um lado, Sancho Pança atravessa os tempos e, num presente repleto de indefinições,
prestes a decidir-se: é preciso que seus instintos sejam contidos. Representa a força da
natureza que carece do sentido que só a pedagogia de D. Quixote, recuperada pela evocação
de Campos, pode alcançar. É nesses termos que D. Quixote, Hamlet e Sancho formam um
complexo. O presente hamletiano domina, mas D.Quixote é invocado como força redentora
capaz de, no presente, sobrepor-se a Hamlet e iluminar Sancho, diferentemente de Hécuba,
convocada como testemunha impotente da decadência dramática. Apesar de não estar no
mundo, ―no sentido do aqui e agora‖, D. Quixote é a vontade suficiente e necessária para
mobilizar as emoções contemporâneas e lhes atribuir ordem.24
Apesar dessa distância entre o pessimismo de Schmitt e a crença de Campos, o
sentido da narrativa é que a ordem simbólica tradicional, em ambos os autores, precisa ou
deveria ser recuperada. Não se trata de perfazer, tão-somente, o caminho da derrocada da
cultura conectada a uma tradição onde a substância do político se sobrepuja à forma do
direito e do Estado. Em ambos os autores, Hamlet não é tradição, mas o símbolo do ethos
romântico em ascensão, que degrada a vida social por imiscuir-se na história presente,
destituída de significado. Em Schmitt, Hécuba é o grito desesperado de uma maternidade
estéril, de futuro inexistente ao menos no alvorecer da modernidade. O D. Quixote evocado
por Campos, por outro lado, só está em melhor situação por que é reconhecida sua eficácia
simbólica. Apesar de grassar o desespero, a certeza do diagnóstico é o que permite
estabelecer a vontade quixotesca como um guia para a ação. Efetivamente, a situação do
homem contemporâneo, apesar de imersa no drama, é, para Campos, a sua própria
possibilidade de redenção:
Não encontrando pólos adequados por onde efetuar a descarga de seu potencial
emotivo, este flui naturalmente pelos caminhos ocasionais ou circunstanciais que se
oferecem à sua derivação — a agitação política, a sinistra mascarada das
revoluções, os horrores da guerra, o crime, a literatura e a arte hermética dos
intelectuais que pela insensibilização da zona afetiva da personalidade se vêem

24
Sobre a oposição Hamlet/Fausto e D. Quixote, vaticina finalmente que, ―[e]nquanto eles dizem: ‗talvez, eu
penso, ser ou não ser, antes não houvera nascido‘, e pensam indefinidamente os mesmos pensamentos na
balança imóvel do seu espírito, procurando fugir à ação no preciso momento em que parecem decidir-se por
ela, pelo espírito de D. Quixote a decisão passou com a rapidez do raio e, já fora da bainha das reflexões,
reluz a espada flamejante da sua vontade‖. CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, pp. 35-56.

98
privados da virilidade, da sociabilidade, da alegria, do prazer de se comunicar com
os outros. Todas essas deformações estão ligadas entre si por laços de intimidade e
parentesco e têm uma raiz comum: não encontrando emprego adequado para seu
potencial de emoções, o homem de hoje, angustiado e pervertido pela sua solidão
emotiva, volta contra si mesmo e contra os seus semelhantes, como tomado pela
raiva da destruição, poderosas energias, que, configuradas por um ideal, seriam
criadoras, ou aumentariam nele a capacidade de exteriorizar a sua personalidade
para melhor conhecer e dominar, pois só na ação, como diz Goethe, o homem se
conhece25

Goethe, neste trecho, não poder ser confundido com seu personagem. O diagnóstico
do autor alemão se conforma, assim, ao de Campos, segundo quem o romantismo do
mundo contemporâneo se reflete na política. O argumento de ambos os autores se estrutura,
no seu ápice, em uma palavra de ordem: é preciso agir no mundo. Isto significa agir sobre
as emoções humanas, que são ―a raiz e a mãe da razão‖. Representam, no mundo
contemporâneo, ―energia em estado de tensão‖, que precisa ser direcionada pela força vital
do mito, em oposição a uma compreensão puramente técnica da cultura. Seguindo o
raciocínio do autor, é preciso libertar o homem dos espíritos de Hamlet e Fausto, que
significam a degradação, o vazio e a queda da civilização, pois com eles a vontade de
decisão não é capaz de concretizar-se. A planificação da realidade, gerida por uma
estetização que redunda em decadência, representa o tempo do cálculo e do consumo
dominando as formas de vida. Para Campos, enfim, o homem se perde na medida em que
abdica de Deus. 26 Não o Deus do além, mas aquele que dá ordem e sentido à cidade e à
orbe. Deus, seu tempo e seus símbolos tornam-se anacrônicos e a virtude católica é afastada
do mundo.27 O problema apontado por Campos é a secularização da política, momento em
que deixa de ser natural a relação entre o poder temporal e as virtudes cristãs. Na parte final
do texto, onde a crítica do mundo moderno é mais direta, a estrutura narrativa opera pela

25
Idem, pp. 69-77.
26
Idem, p. 81.
27
Cf. ROMANO, Roberto. Conservadorismo romântico: origem do totalitarismo. 2ª edição. São Paulo:
Unesp, 1997, pp. 16-7.

99
contradição católica fundamental que, segundo o autor, seria a relação entre ordem e caos. 28
Em termos temporais, está se apontando a decadência, em termos morais, a dissolução, em
termos políticos, a desordem, em termos estéticos a derivação ocasional das temáticas
artísticas.29
Para o autor, a concepção romântica do mundo tem, portanto, a mesma
conseqüência que lhe atribui Carl Schmitt num ensaio escrito cinco anos depois do D.
Quixote. Em Hamlet ou Hécuba: o irromper do tempo no jogo do drama (1956), Schmitt
investiga a conformação do Estado moderno na situação de dissolução da ordem simbólica
tardo-medieval. Neste momento, como diz Carlo Galli na apresentação da edição italiana, a
relação que opõe realidade e representação manifesta-se pelas cisões entre política e
cultura, história e arte, entre a função do jogo e a essência do trágico:30
Hamlet permanece em complexo, na sua impostação, inteiramente uma peça de
vingança, e o homicídio do pai e o matrimônio da mãe com o assassino conserva-se
como a situação central e fundamental. Por conseqüência, Hamlet/James resta como
o personagem importante, e a problematicidade da figura do vingador é de todo
originada da coetânea presença deste filho de Mary Stuart. Em James, um rei
inclinado ao interesse filosófico e teológico, se encarna, de fato, toda a laceração de
uma época, de um século de cisma religiosa e de guerra civil confessional. É a partir
deste dado que é possível clarear adequadamente aquele desvio do Hamlet
shakespeareano de todos os outros modelos de vingadores, aquela peculiar
hamletização do vingador (...). Emerge aqui, em primeiro plano, a relação entre
tragédia e presente histórico contemporâneo.31

A interpretação schmittiana de Hamlet é semelhante ao papel que lhe atribui


Francisco Campos. Em termos estéticos, Schmitt estuda de que forma, e sob quais
condições, uma história que fala originalmente de vingança tem um protagonista anti-

28
O conjunto de termos antitéticos na construção do quadro de crise temporal é vasto. Em poucas páginas,
alguns foram selecionados a título de exemplo. Numa relação direta com os fundamentos da teologia cristã
contrapondo-se, exatamente, à divisão pós-medieval e renascentista (mais especificamente maquiavélica)
entre poder temporal e poder espiritual: antes e depois, bem e mal, dia e noite, luz e escuridão, antigo e
moderno, ideal e ideologia, social e singular, natural e racional, liberdade e escravidão, popular e autoral,
coletivo e solitário, cerimônia e confusão, comunhão e mistificação, verdade e paródia, energia e passividade,
liturgia e instabilidade. É possível questionar se, teologicamente, a oposição católica fundamental não seria
entre a ordem e o nada, já que Deus cria o mundo do nada e a relação entre ordem e caos remete à filosofia
grega. Cf. CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, pp. 69-80.; Cf. ROMANO, Roberto.
Conservadorismo romântico, pp. 14-5.
29
Cf. CAMPOS, Francisco. Atualidade de D. Quixote, p. 76.
30
Cf. GALLI, Carlo. Presentazione dell‘edizione italiana. In: SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba: L‘irrompere
del tempo nel gioco del drama. Bologna: Il Mulino, 1983 (1956), pp. 5-35., pp. 8-9.
31
SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, p. 65.

100
heróico, um ―intelectual melancólico e duvidoso, incapaz de ação‖. 32 Shakespeare,
preocupado em sobrepor uma trama dramática a uma questão política histórica —a dúvida
sobre o papel da Rainha Mary Stuart na morte de seu marido e a pífia atuação política de
seu filho, o príncipe James Stuart, na defesa ignóbil do direito divino do Rei—, acaba
permitindo a existência de uma fissura narrativa que significa, para Schmitt, a irrupção do
tempo histórico no jogo dramático. Em meio à presença de todas as personagens, é
representada uma peça aparentemente sobre a vingança do filho pela morte do Rei —
vingança que nunca se realiza— ou sobre a culpa da Rainha. A representação trágica, de
tom claramente político, que surge dentro de um drama em princípio descolado dos fatos
históricos, representa essa irrupção do tempo. Para Schmitt, que externa seu método de
análise contextual informando a necessidade de se ler Hamlet a partir da concretude
histórica que condiciona a obra de Shakespeare, ―Em tempos de crise religiosa, o mundo e
a história universal perdem a certeza de suas formas e vem então à luz uma
problematicidade humana na qual, se se fica limitada a uma tradição puramente estética,
não é certa a criação de um herói de um drama de vingança‖. 33
Esse pano de fundo anti-romântico, que permite estabelecer um entendimento
uniforme da crítica da modernidade nesses dois autores —Campos e Schmitt— confirma a
metafísica anti-liberal no pensador brasileiro. Tal aproximação, que é possível apenas
inferir em seus textos não-literários, é extraída da leitura de Atualidade de D. Quixote. A
partir dessa crítica da modernidade, de onde Campos retira o diagnóstico de falta de sentido
e indecisão da cultura contemporânea, e para o qual recomenda a necessidade de
reordenação civilizacional pela vontade de ação, chega-se a um elemento fundamental de
seu pensamento. A apreciação da realidade social remete Campos a considerar o fenômeno
político como detentor de uma dinâmica predominantemente emocional. Sua análise da
política chega a ser psicológica. Entender a operação da política através da força vital do
mito introduz o elemento da irracionalidade na avaliação, tanto de Campos quanto de
Schmitt. Esses dois autores, que vêem em D. Quixote a representação material da força
necessária para operar a política, reconfiguram a aproximação tradicional da idéia de
centralização do poder.

32
GALLI, Carlo. Presentazione dell‘edizione italiana. In: SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, p. 10.
33
SCHMITT, Carl. Amleto o Ecuba, pp. 58 e 69.

101
Enquanto não há sociedade de massas, é possível falar em orientação e tutela da
sociedade, através da utilização de instrumentos impregnados da pretensão de
racionalidade, como a ordem jurídica. Mas eles patentearam a incapacidade do direito
operar a ordenação social como sendo o diagnóstico do fim da hierarquia. A sociabilidade
tradicional, que permitia a produção de uma estrutura de ordem e moralidade, dá lugar ao
individualismo dissociador das massas urbanas, marca da decadência contemporânea. A
implosão do indivíduo que interage pelo compartilhamento da cultura recomenda a
reorganização civilizacional pela vontade de ação. Compreender este deslocamento da
interpretação da política é a tarefa do próximo capítulo, onde será explorada a configuração
do diagnóstico inicial de Campos, num texto da década de 10: Democracia e Unidade
nacional. Numa sociedade em que as massas são apenas uma promessa, a desordem social
ainda poderá ser orientada pelo espírito da tradição. A desrazão ainda será combatida pela
autoridade. A questão que se coloca é que estas interpretações do fenômeno político —a
existente em A Atualidade de D. Quixote e a que se realiza em Democracia e Unidade
nacional— são distintas por conta da presença de uma avaliação sociológica igualmente
diferenciada. Na análise que se segue, será preciso retornar às origens do pensamento de
Campos para identificar o signo preciso da mudança.

102
4. PRIMEIRA REPÚBLICA: DEMOCRACIA LIBERAL X UNIDADE NACIONAL

Em meados dos anos 10, a nostalgia da tradição já está presente em Francisco


Campos, ainda estudante e membro do Centro Acadêmico da Faculdade Livre de Direito de
Belo Horizonte. No final do curso, tem a incumbência de proferir uma palestra junto à
herma do falecido Presidente Afonso Pena. Escreve, então fortemente influenciado pelos
artigos de Alberto Torres, o pequeno texto Democracia e unidade nacional (1914),34 em
que se pode notar a precoce compreensão da problemática brasileira na interpretação
americanista que faz da 1ª República. Buscando uma explanação que desnudasse a
―solidariedade orgânica entre passado e presente‖, o autor se volta para os fundamentos da
República e sua relação com um Império que desabava ―no meio da indiferença nacional‖.
Assumindo enquanto romântico o levantar da herma de Afonso Pena, encontra no aforismo
de Ralph Waldo Emerson (1803-1882) o mote discursivo a partir do qual irá construir seu
argumento: ―Toda instituição é a sombra alongada de um homem‖. A solução de Campos
será a necessidade de assunção pública, pelo homem de lei, de seu papel civilizatório
―sobre os instintos de perfectibilidade humana‖. 35
O americanismo de Campos resulta do fato de que, para o autor, a ordenação social
deve se fazer por cima, pela compressão da lei, pelo Estado. Seu modelo de civilização

34
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), pp. 3-13. Sabe-se pelo próprio texto, que o
discurso de Campos foi proferido na inauguração da herma de Afonso Pena, fundador da Faculdade e seu
primeiro professor, realizada pelo Centro Acadêmico da Faculdade Livre de Direito (fundado em 1908 e que
viria a se chamar Centro Acadêmico Afonso Pena (CAAP) em 1973). Não se conseguiu determinar, com
precisão, a data correta do texto. As fontes de informação utilizadas para estudar a obra de Francisco Campos
remetem, todas, ao texto de Jarbas Medeiros, também impreciso (MEDEIROS, Jarbas. Ideologia autoritária
no Brasil, 1930/1945, p. 9). A própria herma de Afonso Pena, uma pista importante, não está datada.
35
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), pp. 3 a 5 e 12. O texto completo da citação
referente ao ensaio Autoconfiança (Self-reliance) é: ―Cada homem verdadeiro é uma causa, um país, e uma
idade; requer espaços e números e tempo infinitos para realizar inteiramente seu projeto; — e a posteridade
parece seguir suas etapas como um trem comercial. Um César nasce, e para épocas futuras temos um Império
Romano. Cristo é nascido, e milhões de mentes crescem e penetram (cleave) em seu gênio, que é confundido
com a virtude e o possível do homem. Uma instituição é a sombra alongada de um homem; como o
Monasticismo, do eremita Antony; a Reforma, de Lutero; o Quakerismo, de Fox; o Metodismo, de Wesley; a
Abolição, de Clarkson. Scipio, Milton chamou ―o apogeu de Roma‖; e toda história resolve-se muito
facilmente na biografia de algumas pessoas determinadas (stout) e sérias (earnest).‖ EMERSON, Ralph
Waldo. Self-reliance and other essays. New York: Dover Thrift Editions, 1993 (1841), pp. 19-38.

103
radica na recepção de um ponto de vista Anglo-Americano que não é o da Constituição da
República de 1891, isto é, não diz respeito à descentralização, mas à unidade do poder
político que, para ele, lhe falta. A lei, coordenada na sua confecção por homens têm origem
em uma elite econômica e/ou representam uma cultura tradicionalmente privada mascara,
sob a ordem pública pretendida, uma ordem privada igualmente desejada. Para Campos, os
últimos 50 anos do Império foram anos liberais e, na República, sem a unidade nacional
proporcionada pela concentração de poder político —que ―não permitia a tribos partidárias
o privilégio dos órgãos representativos da nação‖—, passou a imperar ―a diferenciação da
autoridade pelo triunfo das aspirações locais‖. 36 A crítica da desordem republicana nasce,
portanto, vinculada a uma crítica do processo de representação política que assume um
caráter predominantemente local quando do fim do Império. Mas é uma crítica que
igualmente aponta para a dissolvência da produção econômica coordenada, situação em que
a normalização das ―aspirações locais‖ se torna necessária.
Como o próprio título do discurso indica, Campos sustenta existir contraste entre a
essência da democracia e o princípio da unidade nacional. A tensão entre essas duas forças
que orientam a organização social marca a construção de todo o argumento. Assim, ao
espírito regionalista, separatista e individualista da democracia, vinculado às idéias de
liberdade e igualdade, Campos contrapõe a necessidade de concentrar a autoridade, sua
unidade e indivisibilidade como elementos capazes de preservar o princípio democrático
sem colocar em risco a tendência à harmonia nacional. A democracia será defendida como
manifestação da vontade, da lei e da práxis das instituições na conformidade de um plano
que garanta historicamente a ―eficiência da ação no exercício do poder‖. Não será possível
interpretar a democracia como instabilidade e conflito causados por um ―regime de
mudanças periódicas de governo‖ como aquele defeso pelo republicanismo democrático
instalado no país. 37
Assim, ante uma organização política abolida por um processo de acomodação
informe e apático, o poder acaba por se refazer. Orientada por uma postura democrática que
realiza uma incoerente ―diferenciação da autoridade‖, a nova ordem tem, como resultado, a
multiplicação dos órgãos da soberania nacional. 38 Campos estabelece, então, o fundamento

36
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 7.
37
Idem, passim.
38
Idem, p. 7.

104
da distinção entre modelos de democracia que estaria subjacente à experiência histórica
brasileira. Na transição do Império para a República, aponta o ―enfraquecimento da unidade
nacional‖ pela recepção não balanceada da doutrina democrática de Jefferson que se
contrapõe ao ―princípio hamiltoniano da concentração da autoridade nacional‖. 39 O paralelo
entre o federalismo de Jefferson e o unitarismo de Hamilton já está presente, nesses
primeiros anos da década de 10 do século XX, em Alberto Torres (1865-1917). Premida
pela necessidade de construir uma organização política capaz de afrontar a metrópole
inglesa, a recém-independente organização de Estados norte-americanos precisa a fórmula
federalista através do famoso texto da Declaração da Independência (1776), assinado por
Thomas Jefferson. Como Estados livres, as colônias americanas teriam, pelo texto da
Declaração, poder absoluto para declarar guerra, estabelecer a paz, fazer alianças, definir
as regras de comércio e organizar suas leis. 40 Contra esse federalismo radical insurge-se o
movimento pela constitucionalização, quando Alexander Hamilton, em O Federalista
(1788), deixará claro que uma simples confederação é incapaz de sustentar a existência de
uma união suficientemente forte para garantir a segurança e a prosperidade da nação contra
uma ―iminente anarquia‖. 41
Como no processo de constitucionalização, nos Estados Unidos da América, o
Brasil deveria, necessariamente, estancar o desenvolvimento do ―princípio democrático da
irresponsabilidade nacional‖. Para Campos, o ―problema democrático‖ brasileiro resolver-
se-ia pelo ―governo dos legistas‖, cujo papel deveria ser o de ―adaptar constantemente a
construção legal dos textos às variações e às transformações de estrutura do organismo
político, de sorte a (...) corrigir os vícios e os excessos do temperamento democrático‖. 42
Desposando este argumento, ele se alinha, claramente, à percepção sedimentada na 1ª
República por conta das duras experiências ocorridas nos governos militares: as alterações

39
Idem, p. 8.
40
Cf. JEFFERSON, Thomas. The Declaration of Independence. In: HUTCHINS, Robert Maynard (Ed.).
American State papers; The Federalist; J. S. Mill. Chicago/London/Toronto: Encyclopaedia Britannica,
INC., 1952, pp. 1-28., p. 3.
41
HAMILTON, Alexander; MADISON, James; JAY, John. The Federalist. In: HUTCHINS, Robert Maynard
(Ed.). American State papers; The Federalist; J. S. Mill. Chicago/London/Toronto: Encyclopaedia
Britannica, INC., 1952, pp.29-266., p. 63. Dirá Hamilton: ―Depois de uma inequívoca experiência da
ineficiência do governo federal subsistente, vocês são conclamados a deliberar sobre uma nova Constituição
para os Estados Unidos da América. O objeto traduz sua própria importância; compreendendo em suas
conseqüências nada menos que a existência da UNIÃO, a segurança e o bem-estar das partes de que é
composta‖. (Idem, p. 29).
42
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), pp. 8 e 10.

105
no comando ou na dinâmica do poder político precisariam legitimar-se, invariavelmente,
pela Constituição.43 Assim, realizar constantemente a interpretação constitucional seria
orientar-se pela ―inspiração nacional‖, naturalmente oposta aos ―conflitos democráticos‖, a
serem neutralizados por ela. A democracia, portanto, deve representar o princípio da
unidade e da responsabilidade nacionais, se colocando como um horizonte de sentido —
―um plano histórico, de onde se possa dominar a evolução política dos povos‖. Sustenta
que
Uma democracia de responsabilidade nacional, uma democracia em que a política
seja nacionalmente eficaz e responsável, é aquela em que a nação contrabalança
pela autoridade as tendências separatistas da liberdade e da igualdade. A democracia
supõe, por conseguinte, ao lado da divisão territorial, política e administrativa, uma
poderosa concentração da autoridade nacional e uma organização eficaz das
responsabilidades, das experiências e das tradições nacionais. Esta unificação é a
obra da consciência política da nação, da vontade dos homens e da educação
coletiva pelas experiências nacionais. 44

O plano estabelecido pelo autor para dar conta do processo de unificação nacional
através da atuação política dos juristas, está vinculado à sua concepção de opinião pública.
É outro elemento do texto de Campos ligado à interpretação de Torres sobre a 1ª República.
O autor mineiro refere-se à figura emblemática do Presidente Afonso Pena para espelhar a
transição pacífica do Império para a República e, ao mesmo tempo, demandar o
reconhecimento de que a República, no que respeita à construção da estabilidade política,
dependia diretamente da tradição dos estadistas do Império.45 A idéia de continuidade, na
constituição espiritual de um elo entre este novo modelo de ordem pública e a sociedade
civil que necessita de orientação, não seria harmônica se Campos não identificasse a
discrepância entre a tradição pacífica da unidade imperial e a organização problemática da
democracia republicana. Falta à República um cimento social capaz de estruturar a unidade
nacional, já que se está diante de um presidencialismo fraco e, a princípio, condenado à
dissolução. O problema consiste no que Oliveira Vianna chamaria, alguns poucos anos
43
Cf. FAORO, Raimundo. Os Donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Vol. 2. 10ª ed. São
Paulo: Globo/Publifolha, 2000 (1973), pp. 197 e ss.
44
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 12.
45
Idem, p. 6: ―O regime funcionava como um organismo embrionário, reclamando os cuidados e o prestígio
dos homens sinceros, que, pela experiência e pelo estudo, influíssem diretamente sobre o seu
desenvolvimento. Permanecer indiferente diante da iminência de uma catástrofe era ausência de altruísmo e
obstinação de inteligência. Nem por egoísmo, nem por cegueira, o conselheiro Afonso Pena se abstivera da
República: quando, portanto, foram reclamados os seus serviços, ele interveio, reatando o curso de sua
tradição política e fazendo servir à República as virtudes do Império‖.

106
depois, de ―idealismo da Constituição‖. Em Campos, o tema é claro e refere-se ao que
ocorreu na 1ª República:
A autoridade constitucional do poder central, insuficiente e mal delimitada, está
sujeita a exercer-se violentamente contra os princípios legais da autonomia. De sorte
que a nação, para defender as suas prerrogativas, começa a abandonar a constituição
escrita, praticando infidelidades contra a letra e o espírito dos seus textos. E é o que
nos acontece: um país em transformação acelerada, formando o seu caráter, e uma
constituição morta, que nasceu inadaptável às condições orgânicas da nação.46

Uma Constituição escrita a partir da experiência de uma nação alienígena e


historicamente vinculada a elementos orgânicos distintos era aplicada, sem flexibilidade, a
uma realidade completamente díspar. E mais. Uma Constituição liberal, incapaz de lidar de
forma segura com situações políticas excepcionais, mostra-se um instrumento à mercê da
violação pela prática política. Esses dados revelam, para Campos, a receita do desastre.
Para além da aproximação desse diagnóstico com o que Schmitt proporia anos depois, em
1928, concernente à Constituição de Weimar, está a filiação doutrinária de Campos aos
argumentos de Alberto Torres no Organização nacional (1914) e n‘O Problema nacional
brasileiro (1914), compilação de artigos escritos desde 1912. Nesses livros, Alberto Torres
sustenta a necessidade de fundar uma ―solidariedade patriótica‖ que possibilite a união de
interesses comuns, signo de uma sociabilidade desenvolvida na atenção aos problemas
concretos de um país nascente. Nesse sentido, Alberto Torres advoga que se forme uma
opinião capaz de agregar os espíritos em torno de um programa nacional que escape à
idealização do mundo intelectual que está distante, no Brasil, dos problemas políticos e da
ação pública propriamente dita: ―inteligência híbrida, incapaz de procriar‖. 47
O programa americano, construído por Campos na recepção do
elitismo/personalismo privatista de Emerson e na idéia de centralização de Madison
encontra-se, especificamente neste ponto, em Alberto Torres, para quem, uma democracia
como a instalada na nova República brasileira só pode ser considerada legítima se ao
governo das leis se somar um regime de opinião pública ativa, que expresse a vontade
coletiva e influencie a conformação das instituições. A idéia de ver nos juristas o centro
irradiador da opinião pública nacional está claramente delineada. Se não aponta

46
Idem, p. 9.
47
TORRES, Alberto. O Problema nacional brasileiro. 3ª ed. Brasília: Companhia Editora Nacional, 1978
(1914). (Coleção Brasiliana, n.º 16), pp. 84 e ss.

107
expressamente para esta classe, define ser necessária a existência de um núcleo organizador
daquela opinião. Assim, Alberto Torres argumenta, numa chave platônica —e no que será o
centro ideativo do discurso de Campos—, que ―o mecanismo governamental, em todos os
seus aparelhos, é não somente um núcleo de vida intelectual — em certos ramos, como na
política, quase exclusivo — senão também o centro de onde saem, em grande parte, os
recursos para a atividade cerebral do país‖. Advoga, portanto, a necessidade de se conduzir
a intelectualidade brasileira à gerência da coisa pública, pois é desses homens que poderá
nascer uma ―verdadeira democracia representativa‖, e é através deles que o espírito
nacional pode nascer e prosperar. Está justificada a idéia de um estado forte que,
estabelecendo-se contra a perspectiva liberal de limitação dos poderes públicos, possa
enfrentar com ―autoridade‖ o papel ―de desenvolver o indivíduo e de coordenar a
sociedade‖. No caso brasileiro trata-se, especialmente, do combate à oligarquização do
Estado. O projeto de um modelo de civilização material, com laivos evolucionistas,
representa um americanismo que legitima a participação burguesa no interior do Estado.
Confirmando esta tese, da mesma forma como é possível atestar também no discurso de
Campos, em Torres a ordem social mantém-se ―por simples tolerância costumeira‖, sendo o
núcleo da crise brasileira o divórcio entre a sociedade e a política, isto é, o divórcio entre o
público e o privado. Ele argumenta, então, que o conjunto de ações e pensamentos que
orienta a vida política do país sofre de uma ―estranha falta de adaptação do saber e do
patriotismo às peculiaridades da terra e do povo brasileiro‖. 48 O objetivo de se realizar
instituições políticas e jurídicas de caráter nacional é a preservação do interesse geral contra
os interesses individuais somados, sendo o Estado a unificação de vontades capaz de
orientar uma ação de caráter nacional, gerando a vida do país, ou seja, defendendo os
indivíduos ―contra os abusos do individualismo‖. 49 Sustenta, desta forma, uma restauração
conservadora organizada pelas elites administrativas, quando diz que
a formação artificial das nacionalidades, tal como a nossa, impõe, como
necessidade imperativa, a formação, por convicção racional, da consciência
nacional: a criação e o desenvolvimento, par en haut [pelo alto] — da inteligência
para os hábitos, do raciocínio para os reflexos — do instinto de conservação e de
progresso nacional. 50

48
CF. TORRES, Alberto. Organização nacional Brasília: Companhia Editora Nacional, 1978 (1914).
(Coleção Brasiliana, n.º 17), pp. 90 e ss e 169 e ss.
49
Cf. TORRES, Alberto. O Problema nacional brasileiro, pp. 113 e ss.
50
Idem, pp. 129 e ss.

108
A forma republicana e federativa do Estado brasileiro demonstra a necessidade operacional
de um ―governo jurídico‖, capaz de transformar a ordem social em segurança, liberdade e
propriedade.51
É em Torres que Campos encontra a crítica à Constituição como instrumento
inadaptado e alienígena, transplantado do presidencialismo federalista norte-americano sem
que se tivesse prestado atenção às necessidades do povo e à experiência legislativa pátria.
Lá está a comparação entre o federalismo da Declaração de Independência e o perfil
centralizador da Constituição dos Estados Unidos da América, necessária avaliação para
que advirta sobre a abstração da Constituição brasileira. Nesse dois autores consolida-se,
portanto, um projeto americanista distinto, que objetiva o progresso material pela
coordenação privatista das instituições públicas. É especificamente em Alberto Torres que a
relação entre a força normativa da Constituição e a configuração política de uma opinião
pública mobilizada é definida como observação de natureza sociológica. A adaptação
constitucional à realidade brasileira se dá, igualmente, pela ―plasticidade das formas
jurídicas‖, os intérpretes realizando o importante papel de trazer à lei o ―espírito de seu
tempo‖.52
Seguindo muito de perto o argumento de Torres, mas mantendo-se um autor original
na definição do processo através do qual a opinião nacional deveria ser forjada, Campos
tenta acenar com sua promessa: a justificação da função pública dos juristas. A saída —
uma atividade política dos juristas na conformação hermenêutica da constituição de 1891—
aventada por Campos para vencer o idealismo brasileiro não se completa sem que as idéias
de nação e unidade nacional possam provocar um estado emocional de mobilização capaz
de gerar uma particular ―experiência nacional‖. 53 Em primeiro lugar, o autor estabelece que
uma experiência nacional só é possível quando homens de lei, respeitando a educação
jurídica que tiveram na universidade, mantiverem o vigor da Constituição em seus
governos. Estes homens, de formação específica, são aqueles que conservam,
paradoxalmente, a tradição do espírito público no qual são forjados. Esses homens são
―garantias vivas‖ da evolução do país, formando, assim, uma verdadeira elite capaz de

51
Cf. TORRES, Alberto. Organização nacional., pp. 60 e ss.
52
Idem, pp. 87 e ss.
53
Cf. CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 11.

109
operacionalizar espírito nacional. 54 A gênese de um ―ideal nacional‖ é remédio suficiente e
eficaz à necessidade de mobilização das instituições políticas, o elemento preocupante na
consolidação do Estado republicano. Sem a força do ideal, as instituições nascem mortas.
Em segundo lugar, a experiência nacional sob um regime republicano e democrático
depende da formação da opinião. Ecoando Torres, Campos entende que a democracia é
―incoerente, heterogênea e individualista; regime de mudanças periódicas de governo, de
renovações e substituições de princípios e de homens, não tem continuidade de ação nem
unidade de plano e de convicções‖. As soluções para essa inconstância de interesses, com a
qual é necessário conviver numa democracia, são quatro:
a educação coletiva do povo pelas experiências nacionais; a mobilização das
instituições pela força espontânea das massas populares; a compreensão e o
exercício de um desígnio coletivo, que arraste a nação a experiências proveitosas,
com que possa corrigir ou orientar a sua opinião; a liberdade dos órgãos operatórios
da soberania nacional pela libertação e pela educação do voto.55

O espírito nacional, o espírito do povo, deve ser criado com a mobilização das
massas. A preocupação republicana de Campos é recuperar a unidade e a autoridade do
Estado, através da conciliação dos interesses nacionais, para combater as facções
partidárias e o federalismo desagregador. Como Torres, deseja evitar tanto o despotismo
quanto a anarquia. Para que isso aconteça, considera necessário que a força do processo
representativo faça sucumbir imediatamente os corpos coletivos, corporações predispostas à
concentração de poder econômico em associações locais, tendentes a estimular a corrupção
administrativa em larga escala. No artifício da construção da unidade nacional, núcleo de
seu conceito de democracia, ante os instrumentos constitucionais insuficientes para o
processo de organização do país, e para evitar a violência do Estado, ―O futuro da
democracia depende do futuro da autoridade‖. A sensibilidade da nação à autoridade
política vincula-se, então, à sensibilidade das leis e de sua autoridade às massas que a
acompanham. 56 Considerando o texto da década de 10, ele representa uma fase de
maturação intelectual de Francisco Campos. Apesar de o autor apontar para a mobilização
das massas como um fator fundamental na consolidação do espaço público nacional, é
admissível sustentar a proximidade de seus argumentos ao americanismo de Alberto Torres.

54
Idem, p. 10.
55
Idem, p. 11.
56
Idem, pp. 8 a 13.

110
Se o pensamento político de Torres, informado pelo mesmo elitismo de Campos, é
geralmente situado no terreno do pensamento ―autoritário‖, ele próprio, nesse momento,
poderia sofrer do mesmo rótulo, não fosse a presença marcante dessa incipiente avaliação
da irracionalidade das massas, uma aproximação sociológica sui generis que marcará
profundamente a percepção política e social de Campos nos anos seguintes.

4.1 Tradição e mudança

A relação entre cultura e constituição dos organismos do Estado no pensamento de


Francisco Campos não está ligada, exclusivamente, a Alberto Torres e à recepção de um
certo americanismo conservador e elitista. A relação dialética entre a construção do espírito
nacional e a configuração das instituições do Estado, um dos motes do discurso de Campos,
reflete a tradição do organicismo de Hegel, presente também, especificamente no final do
século XIX, na obra do jurista alemão Bluntschli. Nesse sentido, Johann Kaspar Bluntschli,
em A Teoria do Estado (1885), foi uma fonte privilegiada para os estudos desenvolvidos
pelos constitucionalistas franceses, que criticariam essa idéia de organicidade, bem como
alguns juristas brasileiros no começo da República. 57 Bluntschli estava influenciado pelo
juízo hegeliano segundo o qual todas as instituições e idéias de natureza política devem ser
estruturadas como partes de uma cultura total e que, por sua história, deve compreender,
também, sua importância presente e o próprio valor futuro no desenvolvimento de uma

57
BLUNTSCHLI, Johann Kaspar. The theory of the state. lst. ed. Oxford: Clarendon Press, 1885, BNF de
l'éd. de, Leiden: IDC [Document électronique], 1985, pp. 15 e ss. Sobre a utilização de Bluntschli como fonte
abalizada, ver SANTOS, Carlos Maximiliano Pereira dos. Comentários à Constituição brasileira de 1891.
Brasília: Senado Federal, 2005, Ed. Fac-similar. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos Editor, 1918;
VARELA, Alfredo. Direito constitucional brasileiro (Reforma das instituições nacionais). Brasília: Senado
Federal, 2002, Ed. Fac-similar. Rio de Janeiro: Livraria H. Garnier, 1902 (1899). Carlos Maximiliano, no
livro de Comentários à Constituição de 1891, considerado por Rui Barbosa o melhor já escrito, sustenta com
base em Duguit e em Bluntschli que não há sinonímia entre democracia e liberdade, já que considera
compatível a existência de regimes democráticos com ―o despotismo irresponsável das maiorias onipotentes‖,
espécie de despotismo que é também anônimo e truculento. Cf. SANTOS, Carlos Maximiliano Pereira dos.
Comentários à Constituição brasileira de 1891, p. 125.

111
cultura universal. 58 Em sua vinculação orgânica com a nação, as instituições políticas
devem —segundo Hegel— encarnar as aspirações de caráter nacional detendo, por conta
desta necessidade, a atitude de mutação constante. O objetivo original de Hegel era a crítica
ao Estado alemão após o Tratado de Paz de Vestfália (1648), pois ponderava não haver
possibilidade de se considerar como um Estado o conjunto anárquico de elementos
independentes que conformavam a situação política após a queda do império.
Quando os juristas, no final dos oitocentos, ecoaram as observações sobre a
formação constitucional do Estado alemão anteriormente realizadas por Hegel numa
situação análoga, o problema dos particularismos de uma divisão federativa saltou aos
olhos imediatamente, em particular quando comparada à organização federal da América
do Norte. À nacionalização cultural da Alemanha, claramente identificada, Hegel defendia
uma nacionalização política que não era uma derivação óbvia da situação fragmentária
existente. Hegel classificava, assim, ―o particularismo alemão como um amor anárquico
pela ‗liberdade‘, que concebe erroneamente a liberdade como uma falta de disciplina e
autoridade‖. No que respeita a um dos autores lidos pelo constitucionalismo brasileiro no
final do século XIX e início do século XX, e dentre as características centrais na
determinação do conceito orgânico de Estado derivado da filosofia política hegeliana,
destacam-se, de Bluntschli: a) unidade, ou coesão da nação; b) distinção entre governantes
e súditos; c) natureza orgânica da nação e do Estado, e; d) presença de personalidade
(organismo que é moral e espiritual). 59
Os dois primeiros pontos que caracterizam o Estado como organismo são
relativamente simples. Para Bluntschli, o organicismo é uma concepção geral retirada da
vida ocidental e o seu livro tem, como objetivo, revelar o nascimento e o desenvolvimento
desse fenômeno universal através da relação metodológica entre história e filosofia. De
posse deste fundamento metodológico, o autor argumenta que a coesão nacional significa,
para um Estado que pode estar dividido internamente em unidades políticas distintas, a
existência de um todo coerente em sua organização interna. Presente sob as mais diversas
formas, a distinção entre governantes e governados, a segunda característica de
organicidade do Estado, é ―sempre necessária‖, para o autor, mesmo sob a mais radical

58
Cf. SABINE, George H. Historia de la teoría política. Revisada por Thomas Landon Torzón. México:
Fondo de Cultura Económica, 1994, pp. 478 e ss.
59
Idem, p. 480; Cf. BLUNTSCHLI, Johann Kaspar. The theory of the state, p. 17.

112
democracia, como a democracia direta ateniense, onde a assembléia dos cidadãos era o
soberano, e os súditos, os atenienses como indivíduos isoladamente considerados. 60
Por sua vez, a definição geral do Estado se torna complexa quando da análise dos
dois elementos subseqüentes. Em primeiro lugar, a ausência de poder soberano, a falta de
obediência política e a auto-regulação geram o fim do Estado e a instalação da anarquia.
Para Bluntschli, o conflito é natural e o poder soberano o único capaz de organizar a
sociabilidade política. Como produto da atividade humana e pelo fato de ser possível
deduzir a vida política da natureza humana (Aristóteles), o organismo estatal é ―uma cópia
do organismo natural‖. Cópia em sentido específico, definido a partir de três elementos
fundamentais: a união de elementos materiais a uma força vital (espiritual); o
funcionamento de seus membros dependente e vinculado à satisfação do todo orgânico e; o
organismo que se desenvolve por si, com um crescimento externamente verificável.
Bluntschli compartilha com Hegel, desse modo, uma filosofia da história de caráter
iluminista por ver o progresso da humanidade no desenvolvimento isolado de cada Estado,
em relação dialética com a cultura social que configura suas instituições. Por último, sobre
a presença de personalidade em um organismo político que equivale aos organismos
naturais mais elevados, nas palavras do autor, o Estado ―é um organismo moral e espiritual,
um grande corpo que é capaz de tomar para si os sentimentos e pensamentos da nação, de
expressá-los em leis, e realizá-los em atos‖.61
O organicismo compreende, dentro de seus elementos, uma crítica direta ao
individualismo. Às necessidades privadas é oposto o imperativo da participação coletiva na
composição do corpo político. Uma realização pessoal realmente digna não pode
materializar-se na esfera privada, o que deixa clara a razão pela qual Campos argumenta
que é preciso considerar o indivíduo ―uma força original de transformações institucionais,
que influi diretamente sobre as flutuações e as mudanças de plano no nível das
sociedades‖.62 O estabelecimento do espírito nacional depende, para Campos, exatamente
desta mobilização das opiniões, das virtudes, da educação política de líderes como Afonso
Pena, e também do desígnio coletivo das massas expresso no processo de representação
política. É possível sustentar, então, que no seu escrito da década de 10 Campos se alinha

60
Cf. BLUNTSCHLI, Johann Kaspar. The theory of the state, p. 17.
61
Idem, pp. 5 a 21.
62
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 4.

113
com uma interpretação orgânica da política e vê, na situação periclitante da ordem
republicana, a necessidade de um remédio político eficaz para salvar o organismo da
doença liberal.
Em resumo, o elemento a ser destacado no discurso de Campos é a assunção de que
o modelo de poder a ser esposado em um país tomado pelo exercício federalista é o da
unificação planificadora do Estado a ser comandada do alto, através de uma elite jurídica
imbuída do espírito público de interpretar a realidade nacional e vertê-la em instituições. O
culto à legalidade, ferramenta política da 1ª República, é incorporado, pelo autor, como
caminho único para a paz social e para a segurança jurídica — estabilização característica
de uma interpretação americanista da Constituição republicana, e que se opõe ao
federalismo. A conformação institucional não é, pois, uma via de mão única. Não só da
força do Estado deriva a organização social. Para que os ―órgãos de expressão nacional‖
adquiram ―a plenitude de suas funções e da sua vitalidade‖, torna-se imperativa a presença
da tradição cultural do direito, que ―imprime à mentalidade humana esta posição de
equilíbrio, em que as forças de resistência do passado, compondo-se com as idéias, as
tendências e as paixões liberais, consolidam a ordem vigente‖. 63 Para além do
americanismo genético de Campos vinculado à modulação material da sociedade,
transparece o ideal que futuramente iria se travestir, literariamente, na figura de D. Quixote:
a ordenação simbólica da civilização. Se em D. Quixote o ritual sacro da cruzada católica
poderá efetuar a reconquista do processo civilizatório, na 1ª República Campos aponta para
a capacidade orientadora e ordenadora do direito e da lei como fiadores do futuro.
A partir da capacidade centralizadora da lei, fica possível uma cultura política de
âmbito nacional e a conseqüente civilização das massas. A lei não serve à transformação da
política, mas pode garantir, por sua plasticidade característica, eficácia à idéia de
integridade nacional. No que respeita a sua percepção da 1ª República, é certo que Campos
opunha-se, frontalmente, à fragmentação do poder político e, em especial, ao fracionamento
do ideal de nacionalidade, que chamou de ―patriotismo diferenciado‖.64 É o eco hegeliano
de integração cultural na formação do Estado e a presença cristalina de um organicismo que
remete à teoria do Estado de Bluntschli. Fica definida, assim, a função centralizadora da lei

63
Idem, p. 4.
64
Idem, p. 9.

114
contra a intensa desagregação de uma certa democracia individualista, vista como localismo
interesseiro. Mais que uma reverência formal à lei —como sustenta o texto de Paulo
Bonavides—,65 Campos compreende, em seu discurso, o sentido funcional e político do
direito como estabilização e desenvolvimento da ordem social. Função de estabilização
política e de agregação da sociedade —inclusive os interesses econômicos—, com as
instituições do Estado, esta é a razão legítima do direito na criação de um Estado enquanto
organismo.
No reforço de seu americanismo, isto é, na distinção entre uma democracia de perfil
liberal e um princípio democrático ligado à idéia de nação que coordene o desenvolvimento
da sociedade há, nesse texto de Campos, uma oposição entre duas formas do exercício da
política. De um lado o autor agrupa o liberalismo apaixonado e suas agitações partidárias
de natureza impessoal, que ficou temporariamente satisfeito com o suprimento de seus
apetites e aspirações nas décadas finais do Império, para além de suas próprias
expectativas. De outro, a moderação e a virtude expressas na experiência do líder, na
personalidade do estadista, guiando, por suas idéias, o aperfeiçoamento das instituições em
direção ao futuro. Enquanto a incoerência e a mobilidade (no sentido aqui de volatilidade)
do liberalismo e de suas instituições remete ao desequilíbrio e ao conflito, a continuidade
da tradição e da severidade dos costumes políticos informa a conexão, a solidariedade
―entre o passado e o futuro‖, possibilitando ―a continuidade de ação e a proximidade de
fins, que permitem às obras humanas durar e amadurecer‖. 66 À fraqueza e à desagregação
do individualismo liberal, Campos opõe o patrimônio social e moral derivado da
personalidade e do indivíduo.
O que Campos sugere para resolver essa situação de conflito entre duas formas tão
díspares de política, que significam também duas forças históricas consideráveis e presentes
na República, é a idéia americanista de conciliação, como já foi visto acima, na oposição
entre Jefferson e Hamilton. Pela primeira vez, a conciliação que iria se operar
simbolicamente pela submissão de Sancho Pança ao espírito iluminado de D. Quixote
aparece no pensamento de Campos de forma clara. Mas a questão, na 1ª República, é se
essa conciliação, esse caminho do meio entre despotismo e anarquia, que foi o expediente

65
Cf. BONAVIDES, Paulo. Francisco Campos – o antiliberal, p. xvii.
66
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 4.

115
apreendido da história da América do Norte pode ser, no caso brasileiro, uma solução
efetivamente eqüidistante. Agravados ―entre nós os inconvenientes do federalismo radical‖,
cria-se, com a República, uma política ineficaz e fraca, pequena, em relação às dimensões
continentais de um espírito nacional que precisa ser formado. 67 Assim, subjaz à grande
resposta do texto, que é o governo dos legistas, a necessidade de —através da criação do
espírito nacional, da autoridade—, zelar pela tradição. Apesar da argumentação de
oposições apontar para uma dialética aparentemente equilibrada entre democracia liberal e
autoridade nacional, entre a prática política da República e o espírito do Império, é com
este último que Campos se alia no plano das idéias.
O texto tenta demonstrar que, se a democracia liberal é um mal necessário, uma
armadilha da história a ser encarada com a naturalidade daqueles fatos políticos universais,
resta ao homem de ação, ao espírito fiel às tradições da monarquia, representado por
Afonso Pena, interferir no novo tempo com suas virtudes, restabelecendo a ordem pedida.
Afonso Pena tem, na 1ª República, o papel que D. Quixote representa na modernidade
política no Francisco Campos dos anos 40. Ele considera a virtude cristalizada na ordem
imperial como o elemento que permite a passagem do Império para a República, sem uma
ruptura maior do que a mudança pacífica de regime político. A ordem imperial presente na
República é o elemento que evita a ruptura histórica e concilia, conserva a tradição do
passado na conformação das novas instituições. Enquanto a democracia liberal é esse
movimento prenhe de energia vital, impulsionando a sociedade e as instituições para um
novo tempo, a autoridade herdada do Império tem a responsabilidade de reprimir os
―excessos do temperamento democrático‖. O objetivo do autor é, portanto, atrelar à
modernidade democrática a conservação da tradição e dos valores nacionais, vindos do
império. O realismo de Campos é, desde cedo, o realismo das realizações heróicas. O
―grande homem‖ forjado no Império, visto como ―patrimônio‖ institucional e nacional, é o
que procura o autor como ―símbolo humanista que é a base de todas as criações sociais‖. 68
Não há que se falar, portanto, como já sustentou Martha Rosemberg, numa tensão
que significaria ―a coexistência de elementos de pensamento liberal e autoritário no seu
discurso‖. Segundo Rosemberg, em sua dissertação de mestrado Ariel vencido? O

67
Idem, p. 9.
68
Idem, pp. 12 e 3.

116
pensamento político de Francisco Campos (1979), sua opção ―pelo Estado burocrático-
desmobilizado, e a forma que tomou esse Estado, nascem dessa coexistência e dessa
tensão‖. O argumento de Rosemberg assenta na tese de que as fontes de Francisco Campos
na construção de sua visão de mundo estaria vinculada a pensadores clássicos do
liberalismo e ao pensadores ―autoritários‖ enquanto seu conceito de direito, referido por
Rosemberg como contrário à ―teoria da lei natural‖ e alinhado à idéia de ―lei positiva‖ de
Kelsen, seria a prova de que Campos estaria operando naquela tensão entre liberalismo e
autoritarismo. Em que pese a imprecisão conceitual quando aborda Campos, ou Kelsen, a
autora apresenta uma seqüência de textos do autor mineiro com o fito de comprovar a tese
da tensão entre liberalismo e autoritarismo que definirá como ―a luta do político com o
jurista, do autoritário com o legalista‖. A constância da idéia liberal de direito nos variados
textos de Campos sustenta —paradoxalmente— a afirmação de que ―[a] participação
efetiva de Francisco Campos no Estado Novo vai representar uma quebra na sua produção
intelectual‖ e seria, então, um jurista liberal que limitou-se, na ditadura Vargas, a esclarecer
a opinião pública ―quanto a medidas tomadas e explicações sobre os trabalhos de
elaboração dos novos códigos legais‖. 69
No texto da década de 10 produzido por Campos, Democracia e unidade nacional, a
tensão existente é de natureza histórica, estabelecida no Brasil pela recepção acrítica do
federalismo estadunidense. O autor aceita o fato de que a queda da Monarquia foi
irrefragável, mas considera o desenvolvimento da República um conjunto de erros no que
respeita às necessidades de unidade e ordem social e política, erros que têm a ver
diretamente com o ideário da democracia liberal. Não se trata, portanto, de uma tensão
interna ao pensamento ou ao sentido que o autor dá ao fenômeno político, pois a escolha
lhe é clara: a ordem através da concentração de autoridade. Trata-se de compreender como
é possível moldar uma realidade que está imersa no processo histórico de tensão entre a
tradição dos interesses de âmbito nacional e a fragmentação causada pelo federalismo
radical. Isto num momento em que o liberalismo é um dado inafastável dessa realidade.

69
Cf. ROSEMBERG, Martha. Ariel vencido? O pensamento político de Francisco Campos. (Dissertação de
Mestrado – Ciência Política). São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de são Paulo, 1979, f. 25-6;. 31 e
ss. Para Maria Comes Muanis, da mesma forma, a ―inclassificabilidade‖ de Campos deriva da sua
complexidade enquanto autor. Entretanto a autora sustenta que, apesar da obra de Campos ter sido construída
para ―conquistar o público e principalmente possibilitar a construção de melhores arranjos políticos‖, ficando
clara a mesma tensão entre os discursos educacionais de cunho liberal e as idéias políticas autoritárias. Cf.
MUANIS, Maria Comes. O Tempo e a nação, f. 5-6 e 146-7.

117
Campos percebe que não há como refugar o ideário republicano, com o espírito
democrático do liberalismo. É uma realidade dada, mas é estranha ao autor como fenômeno
político estrito por não comportar o essencial da dinâmica do poder. O problema é que, na
República, a democracia liberal é importada sem que se faça uma mediação com a
realidade, sem que haja adaptação principiológica ou institucional às idiossincrasias
nacionais. Ante a iminência do desastre, a conciliação. A democracia liberal é incorporada
a um projeto político por necessidade histórica, mas passa a ser vinculada ao princípio
nacional da unidade da autoridade. É o que chama de ―a adaptação do federalismo à
autoridade, o acordo da democracia com a nação, pela nacionalização da democracia e a
incorporação de suas instituições ao espírito nacional‖. 70
Quando sustenta que é preciso ―a educação do espírito democrático pelo respeito à
autoridade, e a conseqüente formação de uma opinião coletiva, que dê às instituições
democráticas uma responsabilidade nacional‖, 71 Campos não está incorporando a
democracia liberal —isto é, o liberalismo federalista— como elemento formador de sua
concepção de mundo, está realizando um programa de tutela ideológica: é a manifestação
de seu americanismo por cima. Se, posteriormente, observa-se, em sua obra, a utilização de
elementos do liberalismo no estabelecimento de políticas de caráter variado, se são
utilizados os princípios liberais de um direito que institucionaliza a ―responsabilidade
nacional‖ e a ordem social, esse uso é puramente instrumental. O liberalismo é o meio de
que o autor dispõe, oferecido pelo momento histórico em que a República domina a
política, para materializar a idéia de autoridade. Campos deve, então, operar o liberalismo
como instrumento através do qual faz-se necessário produzir ordem, autoridade e
nacionalidade.
Alguns anos depois Schmitt diria, sobre a capacidade da Igreja Católica Romana de
operacionalizar ideologias em constante oposição que, ―[s]ob o ponto de vista de uma visão
de mundo (Weltanschauung) todas as formas políticas e suas possibilidades são simples
instrumentos de realização da idéia‖. 72 Em Campos a interpretação da oposição entre
democracia liberal e ordem tradicional é a mesma que se encontra presente no Catolicismo
Romano e forma política de Schmitt. É preciso integrar as operacionalizações opostas do

70
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 12.
71
Idem, ibidem.
72
SCHMITT, Carl. Römischer Katolizismus und politische Form, p. 9.

118
mundo político em um complexo que não significa propriamente uma síntese, mas uma
conciliação que mantém, de certa forma, a integridade dos opostos. Não há fusão entre
liberalismo e autoridade, mas uma composição entre ambos orientada pela idéia maior de
realização da nacionalidade. Os dois instrumentos políticos, opostos de fato, necessitam
conviver. É preciso deixar claro, contudo, que esta é uma composição em que a autoridade
deve sobrepor-se à liberdade. É somente a partir de uma visão de mundo que lhes dê
sentido conjunto, aproveitando o que de melhor ambos têm a oferecer e sem descaracterizá-
los como unidades distintas, que será possível a atribuição de sentido a ―um desígnio
nacional consciente e voluntário, corrigindo a instabilidade do nível democrático e dando à
política um centro de aplicação e de exercício nacionais‖. Daí Campos falar em
harmonização, ―direção legal dos conflitos entre os interesses‖ e ―influência dos seus
legistas na orientação das correntes nacionais‖. Como diz Schmitt referindo-se à força
teológica da bíblia cristã, ―Velho e Novo testamento valem um ao lado do outro‖, pode
dizer Francisco Campos quando define o programa social das academias de direito,
formadoras dos legistas pátrios, que o seu maior objetivo é a realização do ―acordo da
democracia com a nação‖.73
É preciso, entretanto, fazer uma ressalva. A partir de sua participação na vida
pública como autor político, nem sempre ver-se-á um defensor cioso dos princípios
fundamentais que regulam sua percepção de mundo. Francisco Campos é, antes de tudo,
um ator interessado. Não é por outro motivo que, quando do seu rompimento público com
Vargas, em 1945, renega sua participação como artífice de um Estado francamente
antiliberal, negando a validade jurídica da Constituição de 1937 desde o momento em que o
Presidente não convoca o plebiscito regularizador da vigência constitucional. Campos
opera de forma explicitamente maquiaveliana quando diz, talvez denunciando sub-
repticiamente o seu lugar ideológico de fala:
É necessário que nos antecipemos aos acontecimentos, se não queremos ser
violentados por eles. Nisto, consiste a função da política. Não podemos,
militarmente vitoriosos na guerra, deixar que subsistam motivos para sermos
colocados, do ponto de vista ideológico, no campo dos vencidos. Atualizemos as
nossas instituições políticas, transformando-as no sentido das correntes espirituais e
culturais que já anunciam claramente a configuração do mundo de amanhã. Neste
mundo não podemos ter o lugar que nos compete se não comparecermos com trajes

73
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), pp. 10-2.

119
que obedeçam aos padrões da propriedade e da decência, estabelecidos pelo comum
acordo das nações vitoriosas.74

É uma fala histórica do perdedor, do autor que teve que recolher sua apreciação
ideológica do espaço público para não perder o rumo do novo tempo. De alguém que
precisa estar pronto a se adaptar a uma realidade que, no fundo, o violenta, mas que não
pode ser superada naquele determinado tempo histórico. Talvez o professor Paulo
Bonavides esteja equivocado, quando, comparando Campos a Schmitt, considera que o
jurista brasileiro não cedeu a tentação do oportunismo e da ―ductibilidade política‖ de quem
não teria coragem de assumir os seus próprios fundamentos ideológicos. 75 Schmitt,
efetivamente, reescreveu seus textos e mudou a direção do seu pensamento, incorporando
conceitos anti-semíticos para ser aceito pelo regime nacional-socialista, mas Campos não
fez nada tão acintoso. Na verdade, após a ―aventura política‖ do Estado Novo, Campos
recolher-se-á à vida privada, retornando, num último ato, verdadeiro canto do cisne,
quando, às vésperas do golpe militar de 1964, é convidado a explicar de que forma é
possível legitimar juridicamente a derrubada de uma Constituição. À teoria da revolução,
mote discursivo escolhido para tranqüilizar os militares paradoxalmente zelosos de
procedimento formalmente correto, Campos acrescenta a vontade nacional como
fundamento do Poder Constituinte. Mesmo numa observação superficial do texto
preambular do Ato Institucional, a presença dos conceitos políticos centrais de Campos é
clara. 76 A representação da vontade da nação no ato revolucionário é vista como tão
legítima quanto a representação da vontade pelo sufrágio. A idéia de nação é eleita como
justificativa suficiente para que se elimine uma dada ordem jurídica em detrimento da
ordem revolucionária. A revolução é mobilizada para legitimar um golpe de Estado. Isso
não garante, entretanto, que todas as manifestações públicas, jurídicas ou oficiais de

74
CAMPOS, Francisco. A Constituição de 1937 e sua vigência. Entrevista de Francisco Campos ao Correio
da Manhã do Rio de Janeiro, em 3 de março de 1945. In: PORTO, Walter Costa. Constituições brasileiras:
1937. Brasília: MC&T, Centro de Estudos Estratégicos, 2001, pp. 39-52, pp. 42-3.
75
BONAVIDES, Paulo. Francisco Campos – o antiliberal, p. xiii.
76
―A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz, não o interesse e
a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação. // A revolução vitoriosa se investe no exercício
do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais
expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se
legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela
se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja
limitada pela normatividade anterior à sua vitória‖. BRASIL. Ato Institucional N.º 1. Rio de Janeiro-GB, 9
de abril de 1964.

120
Campos apontem necessariamente para a ratificação de seus princípios jurídico-políticos.
Como ideólogo da ordem, cumpriu o papel de sustentar posições políticas às vezes diversas
das suas, às vezes conflitantes com sua Weltanschaung, o que sempre gerava a necessidade
de uma acomodação de sua pessoa na figuração da vida política. Não foram poucas as
vezes em que optou por se licenciar de cargos públicos por motivos semelhantes. 77
Embora não possa ser identificada tão facilmente com a tradição autoritária
brasileira, é também nesse movimento que se deve compreender a figuração de Campos
como ator político. A sua relação com o liberalismo é de oposição ideativa, mas, ao mesmo
tempo, não ignora a existência de suas instituições enquanto ainda não é possível se
desfazer delas por cima, a partir de um movimento reconstitutivo da realidade existente —
daí o constitucionalismo de Campos maturar-se posteriormente como antiliberal. O autor
absorve instrumentalmente o liberalismo e suas instituições e utiliza-se de ambos para
realizar seus objetivos de natureza política e ideológica. Não se está, portanto, ante um ator
ingênuo, mas alguém que identifica, com precisão, seus inimigos e se comporta, em relação
a eles, como um estratego que sabe compor e atacar de acordo com as circunstâncias. Como
quando Campos renega a ordem política que ajudou a idealizar e a construir, alinhando-se,
hipoteticamente, a um tempo histórico democrático-liberal —ou não assumindo suas
discrepâncias ideológicas com ele. Nesse sentido, é importante marcar a distinção entre o
alheamento do autor do núcleo de suas proposições teóricas mais gerais e sua vinculação ao
conjunto de valores e instituições que, em determinado momento histórico, podem fazer
diferença entre a vitória e a derrota no campo político.
É fato que toda a argumentação de Campos está informada pela analogia epocal e
que o objetivo do autor, ao estabelecer uma quantidade significativa de aproximações entre
a experiência do passado monárquico e o horizonte de expectativas que constitui o presente
Republicano, seja o de estabelecer uma clara relação de tutela do presente pelo passado.
Esse programa de tutela filosófico-política, em que as possibilidades de futuro da
democracia devem se encontrar limitadas pela necessidade de incorporar, em seu presente
histórico, a idéia de integridade nacional é o topos central de Campos.78 O autor insiste,

77
Cf. MORAES, Maria Célia Marcondes de. Reformas de ensino, modernização administrada, passim.
78
Cf. CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), p. 8.

121
então, na idéia de renovação e sucessão, de composição, prosseguimento e continuidade de
ação entre passado e futuro:
através dos tempos, prosseguem as instituições o seu plano de organização prática,
de acordo com as predisposições, tendências e inclinações primitivas, de sorte a
estabelecer entre o passado e o futuro a continuidade de ação e a proximidade de
fins, que permitem às obras humanas durar e amadurecer.79

Esse movimento é uma clara reação a uma época marcada pela mobilização de
símbolos opostos. Para Campos, o equilíbrio e a moderação da tradição, a solidariedade das
gerações que se sucediam marcando a unidade de uma época têm, nas tendências e paixões
liberais, a indicação de uma catástrofe iminente, caso não consintam em colaborar com esse
novo tempo. O tempo da república se mobiliza, então, em direção às instituições do
passado que, ―reclamados os seus serviços‖, intervieram. A necessidade de estabilização é
sentida pelo presente. A correção da democracia é solicitada por ela mesma. A tradição,
respeitosa, só se manifestou quando convidada, embora soubesse, sempre, em que cursos
turbados caminhava a República. Argumenta, então, que as instituições democrático-
liberais padecem, por natureza, de uma instabilidade e de uma desordem que, sozinhas, são
incapazes de vencer. Caracterizam-se pelo desenvolvimento precoce, pois são organismos
embrionários que reclamam cuidados. Sem prestígio, por tratar-se de instituição recente, a
República estava marcada por desequilíbrios de caráter que demandavam uma moderação
que não lhe pertencia originalmente. 80
A relação entre o presente republicano e o passado monárquico institui-se, portanto,
pelas necessidades do primeiro. A República reclama a tutela do passado. Campos deixa
claro, entretanto, que a atuação das forças do Império não podem relacionar-se, de forma
passiva, com a nova situação política. O Império deve organizar a república. Claro está o
papel dos estadistas do Império quando operam o balanceamento necessário ao
desenvolvimento das instituições da democracia: ―Eles deviam constituir contra o futuro a
liga de resistência do passado: sem esta resistência, a nossa aceleração teria disparado na
vertigem‖. O novo tempo, acometido de constante agitação política, atesta sua imoderação,
sua incapacidade de, sozinho, fazer funcionar o país. Campos vê, no espírito democrático, a
inconstância das movimentações políticas bruscas e irresponsáveis. A República é uma

79
Idem, pp. 3-4.
80
Idem, p. 5.

122
época de agitações e revoluções permanentes, cíclicas, que acabam mesmo por definir o
espaço vazio das suas convicções: ―Ao período de perturbação orgânica nas instituições,
sucedia aquela mesma época ‗sem fisionomia, sem emoções, sem crenças‘‖. O período de
estabilidade está vinculado menos às características republicanas e mais ao caráter pendular
do tempo. Nessa mesma época, mais à frente ―arrepiava-se de novo, em crispaturas, com a
predominância das agitações políticas‖, dando seu veredito: ―Mais uma vez a democracia
gastara o eixo de suas revoluções e queria mudar de posição: a instabilidade das instituições
democráticas projetava sobre a vida nacional o seu caráter de equilíbrio provisório‖. 81
Todo movimento de agitação e instabilidade da República, fundado que está nos
princípios da democracia liberal é, para Campos, uma ruptura com a tradição política
caracterizada pela unidade harmônica do poder. Sempre que há essa ruptura, as anomalias
democráticas eclodem: ―suspensões periódicas do funcionamento constitucional‖, ―crises
de opinião‖, ―múltiplos imperialismos locais‖, ―a mais larga corrupção administrativa que
se conhece‖, em suma: ―O princípio democrático da irresponsabilidade nacional gerou na
luta dos direitos a injustiça, nas competições econômicas a desigualdade, nas disputas
partidárias o privilégio da detenção das posições políticas por um único partido‖.82
Descolado do passado, o horizonte de expectativa da democracia liberal é o
despotismo ou a anarquia. A infantilidade política da República só poderá colher um futuro
alvissareiro se estiver ligada, conciliada, com a orientação madura e prudente do passado. É
o espaço de experiência do passado que garante a possibilidade de o presente republicano
esperar um futuro que se faça presente, transmudado em expectativa. O individualismo
liberal não é capaz, juridicamente inclusive, de dar conta de si mesmo. E a tutela é a do

81
Idem, pp. 6-7. Este processo de tutela é político e econômico, como já se afirmou, já que o Estado é visto
como um centro da autoridade que pode coordenar o processo de nacionalização —isto é, de des-
regionalização— de interesses. Consolidando o diagnóstico da primeira onda de críticas à 1ª República, em
que Campos aparece como um interlocutor atento, Bolívar Lamounier, no texto O Modelo institucional dos
anos trinta e a presente crise brasileira (1992), lê as primeiras décadas republicanas como excessivamente
regionalistas. Lamounier vê, na revolução de 1930 e no Estado Novo, uma inflexão centralizadora que
permitiu a gestão estatal do processo de industrialização do país. Três seriam as características principais do
desenvolvimento do Estado brasileiro a partir dos anos 1930: a) o corporativismo, que objetivava a
eliminação do pluralismo sindical e a organização compacta das massas; b) o consociativismo, conjunto de
procedimentos que pretendia o desmonte do sistema oligárquico monopartidário nos Estados, visando a
dissipação do poder político das maiorias organizadas em partidos e; c) o presidencialismo de corte
plebiscitário, oposto direto do sistema de checks and balances norte-americano, que representou a
personalização do Poder Executivo. LAMOUNIER, Bolívar. El Modelo institucional de los años treinta y la
presente crisis brasileña. In: Desarrollo Económico. Vol.XXXII, Nº 126, 1992. 20 p. Disponível em:
<http://www.educ.ar/educar/servlet/Downloads/S_BD_DESAR/PD000437.PDF>. Acesso em: 11 jan 2006.
82
CAMPOS, Francisco. Democracia e unidade nacional (1914?), pp. 6 a 8.

123
direito. É a educação jurídica do Império que terá condição de lastrear ―o exercício
imoderado do poder‖.83
Autonomia, portanto, não existe no presente, que solicita, constantemente, a tutela
do passado. Só há heterodeterminação, sobretudo se a expectativa é o mínimo de ordem
institucional possível para um governo que se pretende responsável. A capacidade crítica
do novo regime, restrita exclusivamente ao seu motivo de existência, o ―federalismo
radical‖, não se sustenta pelos seus inconvenientes.84 Por fim, a única consciência possível,
por não se criar na autonomia, é a herdada por solidariedade de gerações: o discernimento
da democracia é emprestado. Por condescendência do passado, a ―responsabilidade
nacional da democracia será, por conseguinte, uma criação legal, e os homens de lei, os
encarregados de garantir contra a anarquia democrática a autoridade da nação e contra o
despotismo da nação a liberdade da democracia‖. 85 Sem muita parcimônia, Campos destrói
a possibilidade de a liberdade democrática, representada pelo caráter moderno da
República, ser, de alguma forma, viável politicamente, caso se coloque de forma autônoma
e independente da tradição. Não existe a probabilidade de fundar novos princípios, pois a
independência só gera anarquia. A democracia liberal, funcionando por si só, é sem sentido.
E um determinado sentido só pode ser dado pela existência e pelo funcionamento da
autoridade do passado, cuja reaparição obedece a uma demanda do próprio presente, que se
encontra desarticulado.

83
Idem, pp. 6-9.
84
―Um ‗patriotismo diferenciado‘ cria entre as diversas províncias políticas barreiras de oposição e de
rivalidades; as questões de limites (...) recrudescem as divergências, estimulando o espírito local contra o
espírito mais largo da nacionalidade.‖. Idem, p. 9.
85
Idem, p. 13.

124
5. ESTADO NOVO, TEOLOGIA POLÍTICA E SOCIOLOGIA DE MASSAS

A interpretação realizada no capítulo anterior aponta para um autor que poderia ser
classificado, não sem uma certa dificuldade, como de pensamento ―autoritário‖. A crítica
de Francisco Campos à democracia liberal, o seu clamor pela autoridade nacional, o recurso
à tradição dos legistas, todos estes fatores o aproximam de uma crítica conservadora à 1ª
República, que vê no reforço da ―autoridade‖ do Estado a saída para a fragmentação do
poder político. A preocupação com as massas e a tensão temporal entre passado e futuro
são idéias originais em relação às quais a classificação realizada pela tradição dos
intérpretes brasileiros do ―autoritarismo‖ torna-se problemática. Existe, para Campos, no
texto Democracia e unidade nacional, uma função clara do Estado que é a condução e
mobilização das massas com elementos irracionais. Neste capítulo, o objetivo é estabelecer
em que medida é possível manter essa classificação de autoritário e se Campos, autor do
arranjo constitucional que sedimenta o regime estadonovista, pode ser considerado original
em sua proposta de um constitucionalismo cesarista e plebiscitário de massas. Como é
preciso estabelecer um determinado conceito de autoritarismo, optou-se pela construção
metodológica de Bolívar Lamounier, em seu texto Formação de um pensamento político
autoritário na primeira república: uma interpretação (1978), conhecido por retratar um
modelo de Estado autoritário que objetiva enquadrar alguns pensadores, como o próprio
Francisco Campos, nesta tradição.
Embora não seja objeto deste trabalho, no exame do modelo de ideologia de Estado
de Lamounier talvez seja possível encontrar uma proximidade maior com o regime
ditatorial de 1964 do que com a formação do Estado Novo. A tecnocracia economicista e a
não-mobilização política da sociedade aparecem em destaque quando se examinam as
ditaduras militares da América Latina nos anos 1960. Uma referência contemporânea ao
texto de Lamounier é o conhecido trabalho de Guillermo O‘Donnell, 1966-1973 – O Estado
Burocrático Autoritário (1976), que circulou nos anos 1970 em forma de artigos variados.
Se esta hipótese procede, é fácil compreender a associação do antiliberalismo com um
conceito de autoritarismo que importa exclusão dos setores subalternos do processo de
125
decisão política, o fechamento do acesso aos canais democráticos de governo, a
racionalização técnica do planejamento econômico (não abrindo espaço para as questões de
justiça social ligadas ao desenvolvimento econômico) e a eliminação dos partidos e
organizações políticas de qualquer tipo. 86 O espírito combativo de uma parte da academia
brasileira, no final dos anos 70, ainda sob a ditadura militar, pode explicar a utilização de
elementos vinculados ao modelo de Estado tecnocrático na avaliação do Estado Novo.
Francisco Campos, ator político de relevo na configuração do Estado Novo, constrói o seu
próprio modelo de Estado antiliberal tendo como premissa básica o anacronismo das
instituições da democracia liberal ante o tempo da sociedade de massas. Esta aproximação é
completamente distinta da construção ideológica das ditaduras militares de trinta anos
depois onde a questão econômica será o motor discursivo fundamental. No Estado Novo e,
especialmente em Francisco Campos, o problema a ser resolvido era a formação de um
modelo de Estado que pudesse favorecer a entrada do Brasil em um novo tempo: talvez um
tema menos político do que metafísico.
Na procura de uma compreensão dos alicerces filosóficos da visão de mundo
campiana, para além dos dois textos já analisados, Atualidade de D. Quixote (1948) e
Democracia e Unidade nacional (1914), o texto mais relevante do autor, com certeza o
mais complexo, é a sua conferência pronunciada no salão da Escola de Bellas Artes, em 28
de setembro de 1935. Denominado A Política e o nosso tempo (1935), será publicado como
texto de abertura do seu livro O Estado Nacional: sua estrutura e seu conteúdo ideológico
(1940).87 Neste discurso, aparece o alargamento da questão do tempo histórico e de sua
relação com o passado, podendo ser lido quase como uma continuação, como um
desdobramento do seu argumento desenvolvido na década de 10. Há um ponto claro de
aproximação desse texto de 1935 com aquele de 1914. Lá, Campos defendia a necessidade
de o novo tempo ser tutelado pela tradição, já que a sua incapacidade de lidar com as
mudanças vertiginosas da revolução democrática implicava a impossibilidade de identificar
normas de ação e de organização. Aqui, a transformação do mundo contemporâneo não é
acompanhada pari passu por uma mudança da representação intelectual que os homens

86
O‘DONNELL, Guillermo. Análise do autoritarismo burocrático. Tradução de Cláudia Schilling. São
Paulo: Paz e Terra, 1990, pp. 59 e ss.
87
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo (1935). In: CAMPOS, Francisco.O Estado nacional:
sua estructura, seu conteúdo ideológico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940, pp. 1-32.

126
fazem dele. Assim, fica patente a incompreensibilidade estrutural que a nova dinâmica
temporal gera. Nessa nova situação, a realidade não é mais alcançada por nenhum sistema
interpretativo válido e reconhecido. Apesar disso, subsiste a presença do passado, numa
tentativa inócua de dar sentido ao que é inédito e inapreensível pelos modelos racionais de
inteligibilidade. O passado não consegue, contudo, penetrar no tempo presente e este último
se isola, não desenvolvendo uma imediata autoconsciência. Como no discurso de 1914, o
presente continua sem substância espiritual identificável. A tensão do texto de Campos
deriva desta indefinição. É o que chama de aspecto trágico das épocas de transição:
A época de transição é precisamente aquela em que o passado continua a interpretar
o presente; em que o presente ainda não encontrou as suas formas espirituais, e as
formas espirituais do passado, com que continuamos a vestir a imagem do mundo,
se revelam inadequadas, obsoletas ou desconformes, pela sua rigidez, com um corpo
de linhas ainda indefinidas ou cuja substância ainda não fixou seus pólos de
condensação. Nós fomos educados pelo passado para um mundo que se supunha
continuar a modelar-se pela sua imagem. (...) O que chamamos época de transição é
exatamente esta época profundamente trágica em que se torna agudo o conflito entre
as formas tradicionais do nosso espírito, aquelas em que fomos educados e de cujo
ângulo tomamos a nossa perspectiva sobre o mundo, e as formas inéditas sob as
quais os acontecimentos apresentam a sua configuração desconcertante.88

Se os homens precisam adaptar-se aos novos tempos, ainda estão realizando uma
hermenêutica do mundo ancorada no passado: é a receita da catástrofe. O descompasso é
sentido pelo autor como uma violência. A mudança epocal, em primeiro lugar, ocorre ―sem
nenhuma atenção para com as nossas idéias e os nossos desejos‖ e a educação tradicional,
relacionada a um mundo composto por ordem e hierarquia, não é capaz de antecipar de que
forma o homem pode comportar-se ante a nova realidade. O mundo muda num sentido
estranho paras as gerações já educadas ou em processo de educação e, ao mesmo tempo, é
orientado por uma razão que não comporta a inteligibilidade da educação tradicional. A
conseqüência desse primeiro conjunto de observações é que se torna necessário ―adaptar o
homem ao ambiente espiritual do nosso tempo‖. 89 A adaptação surge como um processo
contínuo —tende ao infinito—, onde o núcleo é simplesmente formal (o movimento,
momento em que a educação passa a ser ―para o que der e vier‖), em oposição ao acúmulo

88
Idem, p. 5.
89
Idem, p. 3.

127
de valores que vai se organizando por um determinado sistema, como no modelo de
educação anterior, que detinha um caráter material.90
Para além da necessidade de adaptação do homem à constituição problemática e
provisória de toda e qualquer situação, caráter estrutural da nova realidade, o autor reforça a
imagem de perene transitoriedade do mundo, lembrando que ―[n]as épocas de transição, o
presente, ainda não acabada a ressonância da sua hora, já se converteu em passado‖. Uma
dimensão distinta do problema temporal colocado no texto de 1914 é aqui apontada. O
passado não figura mais em sua função de opor resistência às inconstâncias de um presente
sem rumo político definível. A aceleração do tempo elidiu a capacidade de oposição e de
organização, pertencente à função de racionalização da política de cunho liberal.
Predominam, sem limites, na configuração do que seja o espaço do político, ―a
irracionalidade e o sentimento da mudança‖. 91 Eis aí a matéria sobre a qual deverá se erguer
o novo edifício constitucional.

5.1 Modernidade política e ausência de sentido

Francisco Campos, como Carl Schmitt, desenvolve uma percepção específica da


modernidade política que é o fundamento de sua visão de mundo e da relação deste com o
direito. Em Schmitt, o processo de despolitização do mundo moderno coloca a estética
romântico-liberal como ordem possível de sentido —na verdade, uma desordem ou uma
ausência de sentido— em oposição às formas culturais tradicionais, investidas pela
constante necessidade de enfrentar o conflito, agir e decidir em relação a ele. Para Campos,
da mesma forma, a decadência de sentido do mundo contemporâneo vincula-se ao
romantismo e, apesar de sua perspectiva antiintelectualista —que se utiliza de elementos
irracionais como instrumentos de controle político—, não fornece ―novos conteúdos
espirituais, a não ser a vaga indicação, tanto mais poderosa quanto mais vaga, de que os
valores supremos da vida não constituem o objeto de conhecimento racional, podendo

90
Idem, pp. 6 e 7.
91
Idem, pp. 5 e 14.

128
apenas ser traduzidos em símbolos ou em mitos‖.92 Como em Schmitt, Campos não
identifica ordem e hierarquia de valores nesta nova época, mas o exato atributo de sua
ausência.
No ensaio A Teoria política do mito (1923), Schmitt realizará um estudo sobre o
mito da violência (Georges Sorel) que tem muitos paralelos com o texto de Campos. O
autor alemão realiza uma investigação teórica sobre o mito, relacionada às questões
doutrinárias (capacidade do mito de redefinir a estrutura das relações e das instituições
políticas tradicionais). Em Campos, o mito é um problema carente de compreensão, mas
também uma nova forma de ação política vinculada a um novo tempo, a um novo mundo e,
especialmente, a uma nova forma de manifestação ou de organização social que é a
(des)organização do povo em massas. Enquanto Schmitt limita a apreciação da dinâmica do
mito em sua contraposição à organização parlamentar, criando a oposição
irracionalidade/racionalidade, Campos extrapola os limites de uma análise político-
doutrinária traçando uma nova interpretação da realidade contemporânea. Campos irá,
então, defender a tese de que o caráter constitutivo específico do processo político
contemporâneo é a irracionalidade característica que informa uma determinada
configuração social e institucional.
Como para o autor brasileiro, a reconceitualização dos elementos básicos da
racionalidade política tradicional significa, para Carl Schmitt, a emocionalização desses
conceitos. A justificativa mais ou menos racional para a utilização da força, no espaço
social, foi substituída contemporaneamente por uma nova fé no instinto e na intuição que
elimina a possibilidade de se confiar nos encaminhamentos políticos de uma deliberação
racional de natureza parlamentar.93 O apelo à razão como centro decisório significa, da
mesma forma, a submissão a uma lógica que violenta a individualidade concreta, por sua
necessária submissão à unidade e centralização da vida —política e religiosa— articuladas
pela Ilustração e pela racionalidade da democracia moderna. Schmitt já indica, de forma
bastante clara, qual é o sentido dessa crítica: primeiramente uma crítica soreliana ao
racionalismo absoluto e ao seu desdobramento em ditadura da razão e, em segundo lugar,

92
Idem, p. 11.
93
Cf. SCHMITT, Carl. Politische Romantik, p. 66; Cf. SCHMITT, Carl. Die politische Theorie des Mythus,
p. 12.

129
um estudo do mito como fundamento para uma doutrina da decisão ativa direta contra o
racionalismo relativo da discussão pública e do parlamentarismo. 94
A fonte a partir da qual Campos, como Schmitt, intentam compreender essa
mudança de orientação na época moderna é o livro de Georges Sorel, Reflexões sobre a
violência (1906). No seu texto, Schmitt sustenta que ―[a] individualidade concreta, a
realidade social da vida são violentados por todo sistema geral. O fanatismo da unidade,
próprio da Ilustração, não é menos despótico que a unidade e identidade da moderna
democracia‖. Em Francisco Campos, quando as formas tradicionais da vida privada não
comportam mais existir, quando a progressiva aglomeração humana impele ao controle
irracional das massas por um aparato político vinculado à mobilização das emoções, à razão
se sobrepõe a função do mito. Tanto para Schmitt, quanto para Campos, o processo
parlamentar representa a debilidade e a covardia de um sistema intelectual ancorado no
liberalismo, incapaz de identificar no mito algo além de um ―instrumento passivo destinado
a obedecer e executar os decretos da razão‖, e cujo processo de deliberação e discussão
―trai o mito e o grande entusiasmo (Begeisterung), que é o realmente importante‖. Ambos
os autores têm, portanto, como objeto de crítica, o fundamento puramente intelectual da
decisão política, elemento clássico da tradição liberal. 95
De qualquer sorte, os paralelos entre ambos os textos —o de Schmitt e o de
Campos— são óbvios e, em algumas passagens, dado o recorte dos temas referentes ao
livro de Sorel, a impressão é que Campos conhece aquela fonte. Para dar um único exemplo
de reflexo textual, para além da crítica antiliberal ao parlamentarismo, da crítica ao mito da
greve geral como eficaz na construção de uma nova realidade política e da apreciação
positiva da irracionalidade da política, tem-se uma avaliação do mito da nacionalidade pelo

94
Cf. SCHMITT, Carl. Die politische Theorie des Mythus, p. 13.
95
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo (1935), pp. 12-8; Cf. SCHMITT, Carl. Die politische
Theorie des Mythus, p. 13.

130
exemplo de Mussolini. O trecho do discurso de Mussolini, citado por ambos, é o mesmo.96
Mas a abordagem do autor brasileiro é significativamente mais densa e transcende a mera
questão de crítica aos elementos liberais de uma certa prática política democrática. Campos
está interessado em determinar os fundamentos, a estrutura e o modo de funcionamento das
democracias de massa, pois as considera uma conseqüência necessária dos novos tempos. A
relação entre a irracionalidade da política, que se revela sob uma sociedade de massas, e a
reconfiguração do poder político é o objeto específico de seu estudo. Nesse sentido, pode-
se reafirmar que esse discurso de Campos coloca-se numa perspectiva razoavelmente
distinta do que se chama tradicionalmente de pensamento político autoritário brasileiro
que Bolívar Lamounier definiu.
Segundo Lamounier, algumas características específicas do autoritarismo brasileiro
são mais ou menos identificáveis em pensadores que se dirigem de forma crítica e
propositiva em relação à 1ª República e contra ela constroem um discurso persuasivo com o
escopo de estabelecer um modelo institucional alternativo. 97 Em, Formação de um
pensamento político autoritário na primeira república: uma interpretação (1978),
Lamounier constrói o que seria um modelo de interpretação do pensamento político
autoritário brasileiro. Sua tese central é que a ideologia de Estado é um modelo ajustável ao

96
O mito do nacionalismo é, para Schmitt, oposto natural do bolchevista, do comunismo que funciona através
da idéia mítica da greve geral. O sentido que Campos dá ao mito do nacionalismo, referindo-se a Mussolini, é
o mesmo. Cf. Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo (1935), pp. 9-10; Cf. SCHMITT, Carl.
Die politische Theorie des Mythus. In: SCHMITT, Carl. Positionen und Begriffe: im Kampf mit Weimar—
Genf—Versailles 1923-1939. Dritte Auflage. Berlin: Duncker & Humblot, 1994, pp. 11-21, p. 20. Em
Campos: ― Aconteceu, porém, que a técnica espiritual da violência, destinada por Sorel a dissolver a unidade
do cosmos político, haveria de ser empregada logo depois no sentido absolutamente oposto, precisamente no
sentido de pôr fim à luta de classes e reforçar a unidade política do Estado. Ao politeísmo político de Sorel, e
pelos mesmos processos e intelectuais de que ele se servia, opunha-se, de maneira vitoriosa, a teologia
monista do nacionalismo. Em seu discurso de outubro de 1922, em Nápoles, antes da marcha sobre Roma,
dizia Mussolini, traindo a leitura recente de Sorel: ‗criamos nosso mito. O mito é uma crença, uma paixão.
Não é necessário que seja uma realidade. É realidade efetiva, porque estímulo, esperança, fé e ânimo. Nosso
mito é a nação; nossa fé, a grandeza da nação‘.‖. Em Schmitt: ―a energia nacional é mais forte que o mito da
luta de classes. Os outros exemplos de mitos contemporâneos mencionados por Sorel também demonstram a
superioridade do conceito nacional. (...) O fascismo italiano desenhou um retrato horripilante de seu inimigo
comunista: o rosto mongólico do bolchevismo, que demonstrou ser mais eficaz que a imagem do burguês
trazida pelo socialismo. Até o momento, só existe um caso de eliminação desdenhosa da democracia e do
parlamentarismo mediante o apelo deliberado ao mito, e esse foi o exemplo da força irracional de um mito
nacional. Em seu famoso discurso de outubro de 1922, em Nápoles, antes de marchar a Roma, Mussolini
declarou: ‗Criamos um mito e o mito é uma fé. Um nobre entusiasmo que não necessita ser realidade;
constitui um impulso e uma esperança, fé e valor. Nosso mito é a nação, a grande nação, a grande nação que
queremos converter em realidade concreta.‘.‖.
97
Cf. LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 345.

131
pensamento crítico da 1ª República e dos ideólogos autoritários da Revolução de 1930. A
ideologia de Estado seria uma construção intelectual que representa e direciona um ―clima
de idéias e de aspirações políticas‖ que emerge no final do século XIX e na primeira
metade do século XX. Ela
Condensa, em primeiro lugar, toda a reação filosófica ao iluminismo e ao
utilitarismo. A importância disso para a construção ideológica do início deste século
não é, porém, apenas a exponenciação do antiindividualismo, que as exegeses
existentes registram ad nauseam. É sobretudo a constituição, como veremos em
seguida, de uma visão do mundo político na qual são afugentadas todas as
representações conducentes à noção de um ‗mercado político‘ exorcizado em
proveito das representações fundadas no princípio da autoridade e em supostos
consensos valorativos.98

O autor indica, então, oito componentes a partir dos quais esquematiza o modelo
denominado ideologia de Estado: 1. Predomínio do princípio ―estatal‖ sobre o princípio de
―mercado‖; 2. Visão orgânico-corporativa da sociedade; 3. Objetivismo tecnocrático; 4.
Visão autoritária do conflito social; 5. Não organização da ―sociedade civil‖; 6. Não
mobilização política; 7. Elitismo e voluntarismo como visão dos processos de mudança
política; 8. O Leviatã benevolente. O objetivismo tecnocrático é a única premissa que se
encaixa, razoavelmente, no pensamento de Campos. Lamounier sustenta, nesse item que no
pensamento autoritário a sociologia tem como tarefa a produção de um diagnóstico que
conduzirá à utilização da tecnocracia como terapêutica.
Por política, nessa ideologia, deve entender-se, de um lado, com valoração positiva,
uma opção técnica respaldada num definitivo ato de vontade; e de outro, com
valoração negativa, a atividade de partidos e instituições representativas: tudo o que
produza desvios e incorreções no paradigma institucional, prejudicando a
capacidade de ‗adaptação‘ da sociedade.99

Francisco Campos não pode, efetivamente, ser classificado como um autor nas
mesmas dimensões de um Alberto Torres ou de um Oliveira Vianna. O pensamento
filosófico-sociológico campiano não pode, assim, ser enquadrado numa visão de mundo
que tem um escopo político tão pragmático como o de ―domesticar o Mercado, e
particularmente o princípio de mercado atuante nas relações políticas‖. Em Francisco
Campos, a ideologia opera tanto uma dissociação dos projetos derivados do pensamento

98
Idem, p. 357.
99
Idem, p. 365.

132
liberal clássico quanto das orientações autoritárias importadas para o Brasil nas primeiras
décadas do século XX.100 É preciso ressaltar, entretanto, que essa interpretação de
Lamounier poderia, eventualmente, ser validada para outros textos de Campos que se
alinham com a defesa oficial e a legitimação do Estado Novo.
Num primeiro momento, em considerando o discurso de 1914, se Campos se dirigia,
efetivamente, à 1ª República, era por entendê-la como detentora de uma determinada
fórmula política de caráter universal —a democracia liberal— que representava um novo
tempo contra o qual a tradição política consolidada não só tinha condições, mas
principalmente o dever de tutela —a manifestação do que Lamounier chama de ―Leviatã
benevolente‖. Esta perspectiva de tutela da democracia liberal estará ausente no texto de
1935, que rompe com a lógica de interação epocal. Mesmo assim, no texto de 1914, a crise
econômico-política do Estado republicano brasileiro era menos o objeto de intervenção
crítica de Campos do que a nova época que implicava uma desestruturação da organização
política e uma reestruturação dos valores e vice-versa. O futuro estava em aberto. Era,
como sustentava Campos, apenas uma promessa. Nesse sentido, o contexto político era um
pretexto para a manifestação de um juízo crítico de caráter universalista e não para uma
análise de conjuntura.
Com a aproximação das questões políticas de meados dos anos 30, tem-se, de novo,
um quadro conjuntural que aponta para uma crise. 101 A forma de pô-la a termo, através de
um ator político central no processo de renovação estrutural das instituições brasileiras
durante o regime estadonovista pode, sim, ser lida como o assentamento de uma ideologia
de Estado autoritário. Mas a teoria política e sociológica de Campos não pode e não deve
ficar reduzida aos seus panfletos produzidos como Ministro da Justiça. A
instrumentalização de um pensamento lavrado no discurso de 1935, operada pelo próprio
autor, não tem como resultado lógico a redução do escopo teórico vislumbrado pelo texto

100
Idem, p. 358.
101
No caso brasileiro, a recente revolução constitucionalista de São Paulo, a permanência indefinida de
Vargas no governo provisório sem o respaldo do sufrágio, a configuração de uma nova Constituição fundada
no exemplo catastrófico de Weimar e no esvaziamento da idéia de federalismo, bem como o recrudescimento
dos antagonismos ideológicos entre fascistas e comunistas, tudo isso formava um complexo de problemas. No
resto do mundo, destaca-se como influência direta tanto nas análises de Campos quanto no rumo que se iria
tomar em direção ao Estado Novo, a consolidação do comunismo real da URSS e o conseqüente impacto de
um modelo político diferenciado das democracias ocidentais, a incorporação das massas aos processos de
natureza política, a crise do constitucionalismo social de Weimar, a dissolução do Parlamento alemão e a
ascensão política de Hitler.

133
original. Razão pela qual não parece crível indicar, no caso específico desse discurso, que
―a transformação do pensamento político no período considerado dev[a] ser entendida
basicamente como a formação de um sistema ideológico orientado no sentido de conceituar
e legitimar a autoridade do Estado como princípio tutelar da sociedade‖. 102 Esta pode ser a
interpretação global dos escritos oficiais de Campos, sem ser considerada o único sentido
possível, ou o mais óbvio, da sua avaliação da contemporaneidade.
O problema dessa afirmação diz respeito menos à idéia de conceituação e
legitimação da autoridade e mais ao funcionamento dessa autoridade. Para se colocar em
falseamento o modelo de Lamounier, fica estabelecida a impossibilidade de sustentar que o
discurso de Campos refere-se ao conceito tradicional —racionalista— de autoridade. É
possível identificar, no autor, o fato de que seu diagnóstico indica, no que respeita à
modernidade política, a completa dissolução da idéia tradicional de autoridade, sempre
ligada à organização social a partir de um determinado padrão ou hierarquia passível de
apreensão racional. Para Campos —em seu texto de 1935—, o Estado, enquanto
manifestação burocrático-administrativa, não tem mais o poder de controlar ou tutelar a
sociedade por instituições como o sistema parlamentar, sua estrutura repressiva ou mesmo
um determinado sistema eleitoral. Portanto, a idéia de que o Estado é um instrumento ou
arquétipo da tutela da sociedade não se justifica. A classificação do autoritarismo de
Campos como ideologia de Estado autoritário padece, portanto, de algumas limitações,
que de toda forma já eram previstas por Lamounier, que considerou ―imprecisos e
preliminares os contornos do modelo‖. 103 Pela relevância do texto —sempre referenciado
como fonte de estudos para o pensamento autoritário no Brasil—, e por prestar-se ao
esclarecimento pontual do texto A Política e o nosso tempo, torna-se fundamental
compreender os seus limites numa possível apreensão dos elementos gerais do pensamento
de Francisco Campos.
O modelo de ideologia de Estado se contraporia, inicialmente, a uma ideologia de
Mercado, pelo fato de que as relações de poder na primeira matriz
se define[m] basicamente pela tendência a afugentar do terreno da organização e da
ação políticas toda consideração de mercado, em proveito de representações

102
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 356.
103
Idem, p. 358.

134
hierárquico-coercitivas, via de regra associadas a noções de integração subjetiva ao
nível de valores e lealdades.104

Mercado, para o autor, significa um conjunto de ―mecanismos de coordenação fundados em


processos competitivos ou em ajustamentos automáticos compensatórios‖ que, de alguma
maneira, poderiam trazer à racionalidade na organização social, em contraposição ao
―predomínio da matriz ‗estatal‘‖. Vale esclarecer, imediatamente, que o objeto de Campos
em seu texto A Política e o nosso tempo está contido no próprio título: a definição do
problema contemporâneo por excelência —a transitoriedade das situações e a ausência de
valores—, capaz de gerar conflitos e adquirir um contorno trágico, é o que move os
diagnósticos metafísicos e políticos de Campos. Para ele, o mundo moderno caracteriza-se
pelo tempo em que predomina a relativização dos valores, numa ―sofística‖ —uma
específica atitude espiritual— que elimina toda a substância de qualquer valor, inclusive a
da verdade. A desmaterialização dos valores indica um novo sentido na composição social
dos conflitos —se é que se pode utilizar esses termos— que não passa necessariamente pelo
Estado, mas pela mobilização das emoções que se podem forjar, inclusive, pelas
agremiações políticas proletárias, que se utilizam do mito da greve geral para alcançar a
revolução. O que pode mobilizar as massas para a ação é a pergunta que subjaz ao
argumento de Campos. Ademais, o mito, como essa força simbólica que movimenta o
irracionalismo das massas não é, portanto, um valor de verdade: 105 não representa, em si
mesmo, uma orientação de sentido para o mundo. Para uma sofística contemporânea que se
utiliza da linguagem tradicional, a eliminação da substância de qualquer valor é o que
marca sua diferença. A possibilidade de funcionamento meramente técnico que esta atitude
argumentativa suscita é a base para a nova prática política que transparece na atualidade:
Veremos, com efeito, como se constituiu uma teologia política que tem por
substância a afirmação de que o seu dogma fundamental deve ser acreditado como
verdadeiro, como quando declare que o seu valor não é precisamente um valor de
verdade. A teologia soreliana do mito político não é mais do que uma aplicação (...)
do pragmatismo anglo-saxão e do seu conceito de verdade. 106

O mito trabalha a partir de uma ausência de conteúdo moral, materializando-se unicamente


como forma, ou como instrumento direcionado para a consecução de fins, sejam quais

104
Idem, p. 360.
105
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo (1935), p. 7.
106
Idem, ibidem.

135
forem. Paradoxalmente, funciona a partir da crença em uma ―verdade‖ (meramente
procedimental), que se confirma pela realização de uma finalidade qualquer no mundo.
Campos afirma que o mito soreliano não tem propriamente um valor de verdade —não é
nem absoluto, nem universal—, mas apenas permite a realização de ações concretas quando
é aceito mediante crença por aqueles mobilizados para a transformação social. Desta forma,
por exemplo, o mito da greve geral funcionará da mesma maneira que o mito da luta de
classes, pois atua como um ―instrumento intelectual‖ capaz de mobilizar a natureza humana
para a ação, através de idéias como de ―sentimentos de luta e violência‖. O mito é um
instrumento especialmente adequado para lidar com o caráter irracional das massas. É
possível afirmar, portanto, a partir do texto de Campos, que o mercado também teria
condições de utilizar o mito como instrumento. Seria, então, a competição racional. Para
Campos, o mito mobiliza o homem pela polarização, isto é, pela forja e pelo cultivo de
―uma imagem dotada de grande carga emocional‖. 107 A desubstancialização da produção da
verdade no mundo contemporâneo é, portanto, um elemento caro ao predomínio da esfera
instrumental da técnica. Campos argumenta que
Toda técnica, ainda a do espírito, é indiferente aos fins. A técnica espiritual da
violência (...) tinha por objetivo (...) dissolver a unidade do Estado, construída pelos
juristas, graças ao emprego de métodos artificiosos de racionalização, próprios à
teologia, no multiverso político do sindicalismo. 108

O alvo declarado deste ataque à técnica da violência é o próprio Sorel. Mais


especificamente, Campos tenta indicar de que forma o instrumental soreliano recupera a
irracionalidade da atuação desordenada das massas em contraposição, apenas aparente, à
racionalidade de uma unidade política possível na ditadura. A ―teologia monista do
nacionalismo‖ mussoliniano —que originalmente remete, segundo Campos, a Fichte— é o
contraponto político à técnica da violência que estimula a luta de classes. Mussolini servir-
se-á da mesma técnica para ―pôr fim à luta de classes e reforçar a unidade política do
Estado‖. As fórmulas jurídicas não conseguem sedimentar esse sentimento de unidade
nacional como é capaz de fazer o sentimento fichteano de que ―a nação é o envoltório do
eterno‖.109 Isso significa, em resumo, que o meio de mobilização das massas no mundo
contemporâneo é, por excelência, a violência irracional da técnica do mito, utilizada como
107
Idem, p. 8.
108
Idem, p. 9.
109
Idem, p. 10.

136
condutor de uma nova forma de realização da política. A conseqüência dessa assertiva é
que a luta de classes, necessária pela violência regeneradora que poderia gerar —segundo
Sorel— é, na percepção de Campos, um instrumento fácil de ser incorporado pelo discurso
aparentemente racional de um regime político igualmente fundado na força. É o mesmo
caso da idéia de persuasão forense, como é das instituições vinculadas à democracia liberal.
Sob o véu da deliberação parlamentar —feito à imagem e semelhança do mundo forense—,
o regime democrático, quando vinculado ao liberalismo, tenta encobrir que
não se trata, no processo político, de resolver uma divergência de idéias ou de
pontos de vista intelectuais, mas de compor o antagonismo de interesses, cada um
dos centros de conflito fazendo o possível para reunir a maior massa de forças a fim
de que a decisão final lhe seja inteiramente favorável. 110

Não existe, portanto, o que direcione racionalmente esta ação da violência como
técnica de controle político. Isso significa que não é possível classificar o argumento de
Campos de forma planificada, como ideologia de Estado, já que qualquer força social, não
só o Estado e não só a partir do Estado, pode utilizar-se do instrumento técnico do mito
para a realização de seus objetivos políticos. Um fim politicamente válido, no sentido de ser
concretamente realizável, não necessita pretender ordem social ou ordenação econômica. À
revolução proporcionada pela greve geral não segue, necessariamente, planificação política
e econômica, assim como —e seguindo o raciocínio de Campos— da deliberação
parlamentar não derivam ―garantias de que as decisões políticas incorporarão no seu
contexto os elementos de razão e de justiça, que formam, segundo o otimismo beato do
sistema liberal, o fundo inalienável da natureza humana‖. 111 O caráter estritamente
irracional do mito pode concorrer para a condensação das forças sociais em direção à
guerra ou à barbárie. 112 Não seria essa uma boa interpretação para o mito do espaço vital
hitleriano? Nesse sentido, e em avaliando a oposição ideologia de Estado e ideologia de
mercado estabelecidas como componentes de estruturação do modelo de ideologia do
Estado, não parece ser esta oposição de Lamounier válida na interpretação do presente
texto.

110
Idem, p. 27.
111
Idem, p. 19.
112
A questão relativa à classificação do modelo de Estado totalitário em Campos será desenvolvida no último
capítulo deste trabalho.

137
Não é possível identificar o Estado como pólo ativo no qual seja concentrável,
exclusiva e incontestavelmente, a idéia de integração ou de organização política. O objetivo
de Campos é outro, o de estabelecer os motivos de instabilidade das instituições políticas de
cunho democrático-liberal e, em especial, o declínio atual do sistema parlamentar, em face
da aparição sociológica do fenômeno das massas.113 A filosofia da história tecida pelo autor
em seu discurso caminha para o estabelecimento do mito como instrumento passível de ser
mobilizado para uma finalidade revolucionária, religiosa, política, etc. Um símbolo que
emerge no discurso de Campos é o da personalidade como o mito político mais denso e
mais compacto, o mito político por excelência. 114 Assim, a própria idéia de organização
política é menos importante que o processo de reconfiguração da dinâmica política, que
passa a depender de elementos que descentralizam o sentido racional ou tradicional-
estamental da idéia de autoridade política. Nesse sentido, Campos não está fazendo teoria
política normativa, mas sociologia política das massas. A autoridade pode ser lida em
Campos, inclusive, como puramente moral, que objetiva reintegrar o mundo de sentido,
como é o caso da exortação por uma cruzada que o autor realiza anos depois em A
Atualidade de D. Quixote.

5.2 Técnica política e irracionalidade: o baixo profundo de Caliban

Um dos pontos mais relevantes do texto de Bolívar Lamounier é que o autoritarismo


dos anos 1930 conferiu ao processo político a característica de desmobilizar a sociedade.
Este argumento, que Lamounier explora no final dos anos 70 do século XX em relação,
dentre outros, a Francisco Campos, foi posteriormente reforçado por estudos sobre os
conservadores do pós-guerra, como Roberto Campos.115 Entretanto, a idéia de que o
modelo de ordem política de Francisco Campos compreende a desmobilização das massas
113
Desse ponto do texto de Campos em diante, é possível identificar os mesmos argumentos e as mesmas
críticas ao sistema parlamentar liberal, à democracia liberal e a mesma definição do conceito do político que
realiza Carl Schmitt em duas obras centrais: A Situação histórico-espiritual do parlamentarismo
contemporâneo (1923) e O Conceito do político (1932).
114
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo (1935), p. 15.
115
Cf. SILVA, Ricardo. Ideologia do Estado autoritário no Brasil. Chapecó, SC: Argos, 2004, passim.

138
(para o seu controle) contrasta com o juízo deste autor sobre a relação possível entre o
Estado e as massas. Embora não seja o objetivo do texto de Campos saber como as massas
se organizam efetivamente, isso permite antever de que modo a noção de dinâmica política
encontra, no autor mineiro, um significado sensivelmente diverso daquele definido por
Lamounier.
O problema levantado por Francisco Campos no texto A Política e o nosso tempo
radica num dos elementos centrais da futura composição do Estado Novo: a compreensão
de que a política contemporânea é uma política de massas e deve configurar-se como uma
política para as massas. A multidão, característica precisa e central do tempo histórico sob
análise não representa, desta forma, um indício de que Campos esteja compreendendo a
sociedade a partir de uma visão orgânico-corporativa, como pretende o segundo
componente constitutivo do modelo de ideologia de Estado de Lamounier. Não se está
falando, aqui, de classes intermediárias ou organizações sindicais ou de caráter corporativo
como sujeitos atuantes na configuração do processo político-representativo, seja antiliberal
ou democrático-liberal, como de fato, poder-se-á perceber na obra de Oliveira Vianna e nos
escritos estritamente propagandísticos do Estado Novo que realizará o próprio Campos. No
texto em exegese, a operacionalização da política deve levar em consideração, para o
estabelecimento de uma estrutura capaz de render efeitos concretos, o fenômeno
sociológico da sociedade de massas. As massas não são uma entidade capaz de
classificação compartimentada e hierárquica, pois não são passíveis de decomposição. Não
são nem um ente propriamente coletivo, já que uma das conseqüências do progresso técnico
é exatamente a possibilidade do controle mediatizado. A multidão, condensada em massa, é
uma conseqüência da ação instrumental das técnicas de propaganda, de caráter irracional,
porque esta condensação pela propaganda opera através da mobilização emocional. A
massa não se forma, portanto, de modo espontâneo, nem pode ser direcionada a partir de
um conjunto de proposições políticas de caráter racional. 116
A opinião que se constitui através desse processo não é capaz de manifestar-se
políticamente ―sobre a substância de nenhuma questão. Ela toma simplesmente seu partido,
e por motivos tão remotos ou estranhos a qualquer nexo lógico ou reflexivo, que se torna

116
A diferença entre multidão e massa está no fato de que a multidão é um aglomerado informe de pessoas
que não é passível de mobilização racional. A massa, por sua vez, é o estado em que se encontra a multidão
quando mobilizada pelo mito.

139
ininteligível ou irredutível a termos de razão o processo das suas inferências‖. Para o autor,
a revelação dos verdadeiros processos pelos quais atua a democracia vinculada ao
liberalismo é o princípio do fim dessa fusão, interligando democracia e liberalismo como
geminativos. Numa sociedade de massas —argumenta—, a democracia não consegue
operar pelos instrumentos e instituições legados pela tradição liberal. Vaticina que para ―as
decisões políticas uma sala de parlamento tem hoje a mesma importância que uma sala de
museu‖. Este modelo ―feminino‖ de organizar o processo político através da ―persuasão
sofística‖, não suporta a estrutura econômica que se amplia e se densifica, revelando sua
irracionalidade inerente e, portanto, o seu ―caráter trágico‖. Este progressivo afastar da
ideologia liberal —que leva os regimes democráticos a se tornarem imunes à discussão
como instrumento para decisões políticas—acaba, então, por substituir o artifício
―intelectualista‖ pelo processo democrático-ditatorial da vontade. A tese de Campos é,
portanto, que ―a crise do liberalismo no seio da democracia é que suscitou os regimes
totalitários, e não estes aquela crise.‖ A democracia pode, então, permanecer preservada se
o processo de representação realizar-se por qualquer meio válido, como, por exemplo, a
aclamação plebiscitária.117
À oposição entre liberalismo e democracia, Campos submete o impressionismo
literário da relação entre o império da razão representado por Ariel e a sensualidade e
torpeza das massas, identificadas na figura de Caliban. Antecipa a oposição entre D.
Quixote e Sancho Pança, que mobilizará anos depois para representar a mesma oposição
entre civilização e barbárie. Ariel e Caliban estão na peça A Tempestade (1611), de William
Shakespeare, e são retratados por Ernest Renan, em seu livro Caliban (1878) como
representantes do embate e da vitória das massas ignorantes da democracia igualitária e
material sobre a cultura do governo aristocrático dos sábios. Próspero, personagem
shakespeareano que, em tese, representaria a civilização e a conversão final de Caliban pela
razão, é derrotado por ele na continuação de Renan. Escrevendo sob impacto da Comuna de

117
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 25, 28 e 20. Uma concessão, dentre outras que se
podem fazer, ao modelo de ideologia de Estado de Lamounier, é que efetivamente Campos se utiliza de
metáforas organicistas ligadas à influências proto-fascistas, embora sejam referências relativas à formatação
do texto e não ao seu sentido ou matéria propriamente ditos. Mas o que inexiste é um ―âmbito preferencial de
representação da estrutura social e econômica‖. LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento
político autoritário na primeira república: uma interpretação, p. 360; CAMPOS, Francisco. A Política e o
nosso tempo, passim; Cf. SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen
Parlamentarismus, passim.

140
Paris, Renan considera necessária a formação de uma elite cultural para o enfrentamento
das massas irracionais em ebulição, especificamente as localizadas nas colônias da
Europa.118
O que Francisco Campos vislumbra como destino do clima histórico das massas,
como destino de Caliban, é o recrudescimento das tensões sociais, o que revela a
incapacidade da tentativa liberal de racionalização do processo político. Ele aponta para o
surgimento de um ―novo ciclo de cultura‖, que se coloca para a humanidade indicando a
necessidade de perceber que a contemporaneidade enfrenta o desafio de uma forma
espiritual nova. Seguindo um diagnóstico da formação do desenvolvimento cultural de
épocas espirituais diversas —que está presente em Schmitt, mas que remonta a Comte—
Campos identifica pelo menos duas fases anteriores de integração política: pela fé ―nas
épocas de religião‖ e pela razão.119 O caráter técnico da ação política numa sociedade de
massas é intrínseco e sua utilização corriqueira no serviço de interesses irracionais só se
clarifica quando a mobilização das massas torna-se um problema logístico de monta.
Assim, as grandes tensões políticas evocadas pelo clima das massas ―não se deixam
resolver em termos intelectuais, nem em polêmica de idéias. O seu processo dialético não
obedece às regras do jogo parlamentar e desconhece as premissas racionalistas do
liberalismo‖. Nesse novo momento espiritual, portanto, quando as massas predominam e
passam a desempenhar um papel fundamental na arena política, o seu controle é o objetivo
do embate. No processo de mobilização das massas, a integração política pelas forças
irracionais é total, porque o absoluto é uma categoria arcaica do espírito humano. A política
transforma-se, desta maneira, em teologia. Não há formas relativas de integração política, e
o homem pertence, alma e corpo, à Nação, ao Estado, ao partido, o que equivale a dizer que
as formas políticas de integração parcial, como a política democrática da deliberação
parlamentar, pela sua fraqueza e incompletude acabam, necessariamente, dando lugar a um
modelo de democracia dissociado do liberalismo: a ditadura. Nesse sentido, o
constitucionalismo liberal traz, dentro de si, elementos caros ao regime ditatorial:
As decisões políticas fundamentais são declaradas tabu e integralmente subtraídas
ao princípio da livre discussão. O sistema constitucional é dotado de um novo
dogma, que consiste em pressupor acima da constituição escrita uma constituição
118
Cf. RETAMAR, Roberto Fernández. Caliban and other essays. Translated by Edward Baker.
Minneapolis: University of Minnesota Press, 1989, p. 9.
119
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, p. 14.

141
não escrita, na qual se contém a regra fundamental de que os direitos de liberdade
são concedidos sob a reserva de se não envolverem no seu exercício os dogmas
básicos ou as decisões constitucionais relativas à substância do regime. A opinião
demarca-se, dessa maneira, um campo reduzido de opção, no qual tão-somente se
encontram as decisões secundárias ou os temas partidários que não interessam aos
pólos extremos do processo político, exatamente aqueles em torno dos quais se
organizam e concentram as constelações de interesse e de emoção de maior poder
ou de mais intensa carga dinâmica. 120

A dogmatização da dinâmica política, à imagem e semelhança das teologias


políticas antiliberais, significa a permanência de uma exterioridade de assentimento e
conformidade. O resultado do histórico funcionamento da dinâmica liberal sob uma
situação de predominância das massas é que a sua existência força uma ―brusca mutação‖
em direção às técnicas do Estado totalitário. Na verdade Campos informa que, dada a
ascensão da sociedade de massas, a democracia não pode ficar limitada aos procedimentos
forenses de deliberação liberal. A polarização dos conflitos políticos, sua exacerbação,
retira do parlamento e das instituições liberais a força de persuasão. A democracia, como
procedimento de legitimação das decisões políticas fundamentais, divorcia-se do
liberalismo. O baixo profundo de Caliban, isto é, a manifestação das forças irracionais, do
caráter trágico e da configuração ―demoníaca‖ do estilo das massas, emerge. A delicadeza
da sofística liberal chega ao fim: Ariel é vencido. A democracia, destituída de sua capa
liberal pela dinâmica da sociedade de massas, assume o aspecto de um ―sistema monista de
integração política‖ através da imputação das decisões fundamentais a um centro de
vontade cujo caráter irracional equivale ao processo decisionista ditatorial. 121 Campos
opera, desta forma, a mesma integração lógica entre ditadura e democracia que realiza
Schmitt alguns anos antes, afastando a vinculação necessária entre liberalismo e
democracia.
Como no discurso de Schmitt, A Era das neutralizações e despolitizações, de 1929,
a noção de relativização do conhecimento histórico e a idéia de falência das instituições
liberais estão ligadas à modificação, com o passar dos séculos, dos elementos culturais
centrais da sociedade. O diagnóstico de Campos é praticamente idêntico ao de Schmitt: a
neutralização da esfera política pela sua transformação em um problema de natureza

120
Idem, p. 21.
121
Idem, pp. 19-24.

142
meramente técnica. 122 Se Schmitt visualiza a idéia da neutralização dos conflitos políticos
pela contemporânea fé no progresso técnico, e a paradoxal impossibilidade de pacificar os
conflitos políticos através da técnica —por ser a técnica um instrumento de poder—, não é
outra a percepção de Campos sobre o mesmo objeto
As prodigiosas conquistas científicas e técnicas, que costumam ser um dos temas
preferidos do otimismo beato nas suas exaltadas esperanças em relação à espécie
humana e ao seu aperfeiçoamento moral e político, conferiram ao império do
irracional poderes verdadeiramente extraordinários, mágicos ou surpreendentes. Aí
está mais uma das antinomias que parecem inerentes à estrutura do espírito humano:
a inteligência contribuindo para tornar mais irracional, ou ininteligível, o processo
político. É possível hoje, efetivamente, e é o que acontece, transformar a tranqüila
opinião pública do século passado em um estado de delírio ou de alucinação
coletiva mediante os instrumentos de propagação, de intensificação e de contágio de
emoções, tornadas possíveis precisamente graças aos progressos técnicos, que nos
deram a imprensa de grande tiragem, com sua nova técnica de apresentação e de
apreciação dos fatos, a radiodifusão, o cinema, os recentes processos de
comunicação que conferem ao homem um tom aproximado ao da ubiqüidade, e,
dentro em pouco, a televisão, tornando possível a nossa presença simultânea em
diferentes pontos do espaço. Não é necessário o contato físico para que haja
multidão. Durante toda a fase de campanha ou de propaganda política toda a nação
é mobilizada em estado multitudinário. Nessa atmosfera de contemplação emotiva,
seria ridículo admitir que os pronunciamentos da opinião possam ter outro caráter
que não sejam o ditado por preferências ou tendências de ordem absolutamente
irracional. 123

Pervertem-se, desta forma, tanto as tentativas de atribuir um caráter benéfico ao


progresso técnico da humanidade quanto a perspectiva de que, através da técnica, é possível
operar uma dessacralização da política. É uma leitura que, mais que antiliberal, pretende ser
antiweberiana, constituindo-se no século passado, na Alemanha do início da década de 20,
por autores como Georg Lukács e Carl Schmitt. Para Weber, a transformação do mundo
num mecanismo causal, operada pelo racionalismo empírico, tem como conseqüência o
elidir de uma cosmovisão abrangente o suficiente para prover de sentido uma orientação
qualquer para a ação. A desmagificação opera uma perda de sentido existencial, uma
desmitificação que implica o fim do império do destino, isto é, o fim progressivo de
operações mentais de natureza irracional na atribuição de sentido, que se realizam tanto
pela intelectualização das religiões quanto pela ciência. Mas a relação puramente mecânica,

122
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, pp. 90 e ss.; Cf. CAMPOS, Francisco. A Política
e o nosso tempo, p. 24.
123
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, p. 25.

143
procedimental, do homem com o mundo —que se cristaliza na modernidade—, pode ser
posta a serviço de quaisquer fins ou sentidos, e estará, portanto, sempre à mercê de uma
colonização pelo irracional. 124
Em Campos —como em Schmitt—, a ciência e a técnica operam necessariamente
no sentido de potencializar o lado operacional da irracionalidade do processo político, pois
servem de instrumento cego para que a mítica contemporânea consiga a mobilização das
massas. Em 1936, Campos lapida com clareza: ―[a] técnica, em si mesma, é, porém,
indiferente aos valores‖. A técnica e a ciência operam uma espécie de reforço do
encantamento do mundo, proporcionam o controle mágico das maiorias pela ―utilização da
substancia irracional de que se compõe o tecido difuso e incoerente da opinião‖. Esta
preponderância do irracional e do apego ao mito como fórmula que substitui a razão pela
mobilização das paixões será interpretado por Campos como um processo que culmina em
uma técnica de golpe de Estado, que classifica como ―primado do inconsciente coletivo‖. 125
A opinião pública, por ser o alvo natural da dinâmica política, comporta
originariamente o modo de dominação estratégica, que sempre utiliza elementos
irracionais: ―os processos democráticos nunca se destinam a convencer da verdade o
adversário, mas a conquistar a maioria para, por intermédio da sua força, dominar ou
governar o adversário‖. Portanto, esteja a dinâmica mítica encoberta ou não com a capa
liberal, a diferença de situações consiste não na essência irracional, mas no ―deslocamento
do centro de decisão política‖, que em princípio pode ser vislumbrado no sistema
representativo e que, numa sociedade de massas, está no mito da greve geral, no mito
nacionalista ou, preferencialmente, dada a sua força polarizadora, no mito do Líder. 126
Entre as massas e o mito não há intermediário operante senão os instrumentos e as técnicas
facilitadoras de propagação. O meio é a propagação da mensagem mítica. O mito pode,

124
Cf. McCORMICK, John P. Carl Schmitt’s critique of liberalism, pp. 33 e ss; Cf. WEBER, Max.
Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1972, p. 42; Cf. PIERUCCI, Antônio Flávio. O
Desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2003, pp.
215 e ss; Cf. WEBER, Max. A Ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução de M. Irene de Q. F.
Szmrecsányi e Tamás J. M. K. Szmrecsányi. 13ª ed. São Paulo: Editora Pioneira, 1999, pp. 130-1.
125
CAMPOS, Francisco. Os Valores espirituaes (1936). In: CAMPOS, Francisco. Educação e Cultura, p.
152. Schmitt já havia se expressado quase literalmente da mesma forma, em A Era das neutralizações e
despolitizações (1929): ―a técnica em si mesma permanece, se posso dizer desta forma, culturalmente cega‖.
Cf. SCHMITT, Carl. Das Zeitalter der Neutralisierungen, p. 90 e CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso
tempo, p. 12.
126
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 27-8.

144
inclusive, operar como mito da racionalidade, seja, por exemplo, como o mito da
racionalidade da dinâmica parlamentar, seja como o mito da racionalidade das trocas de
mercado.

5.3 O Espírito do tempo rumo ao Estado Novo: uma ponte

O tema da crise política do liberalismo em Francisco Campos é mais um elemento


que o distingue do pensamento autoritário brasileiro forjado na 1ª República. A exegese de
sua sociologia política o afasta de outro ponto definido por Lamounier como característico
da estrutura da ideologia de Estado autoritário. Dando continuidade à verificação da
estrutura ideológica dos motes indicados como pertencentes ao pensamento campiano,
surge, no texto de Lamounier, a questão da visão paternalista-autoritária do conflito
social:
a ideologia de Estado aproxima-se bastante da idéia de erradicação total do conflito
pela adoção do modelo político (técnico) apropriado. Ao contrário, todavia, das
doutrinas perfectibilistas, que estendem tal noção ao ponto de pretender a integração
definitiva pela erradicação de toda forma de desigualdade e poder, a ideologia de
Estado ressalva a necessidade da coerção organizada, e mesmo de seu
fortalecimento, em função de sua peculiar teoria do conflito social como
irracionalidade, manifestação dos impulsos infantis e malévolos da natureza
humana. 127

Para que este componente seja bem explicitado, Lamounier sustenta que os conflitos sociais
de natureza infra-estatal são passíveis de controle através do Estado, e que a ―permanência
do conflito entre os grupos sociais, não a natureza dele, é que importa nesta perspectiva
teórica‖. Ora, o que caracteriza o texto de Campos é o caráter polêmico que atribui ao
fenômeno político. Para ele, ―[a]s grandes tensões políticas não se deixam resolver em
termos intelectuais, nem em polêmica de idéias‖. A dinâmica política liberal, operando no
sentido oposto (da composição persuasiva), torna-se incapaz de conduzir a opinião pública
massificada. A oposição dos interesses em conflito é o que define, para Campos, o processo

127
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 366.

145
político. Ele se preocupa essencialmente, portanto, com a natureza do conflito, pois a partir
dela será possível compreender de que forma pode ser integrado socialmente em sua
irracionalidade congênita. Neste sentido, Lamounier pode ser contestado na sua premissa.
Fica invalidada, igualmente, no que concerne ao texto de Francisco Campos, sua tese de
que a ideologia de Estado autoritário filia-se a uma técnica de erradicação do conflito pela
repressão do Estado. Na verdade, é o próprio Lamounier que retira a representatividade de
Campos no que respeita à visão de conflito do pensamento autoritário brasileiro e afirma,
acertadamente, que está claro, em Campos, o caráter onipresente e inamovível do conflito,
em contraposição a uma inclinação do pensamento brasileiro para ―uma visão solidarista,
como no corporativismo católico europeu do final do século‖. 128
Em Campos, como se explicita num trecho igualmente citado por Lamounier, o
processo político é definido por uma dinâmica contínua de atenuação e tensionamento de
campos sociais, políticos ou econômicos opostos, que pode facilmente se radicalizar e
transformar-se em violência. Não é outro o acontecimento por conta da ―ressurreição do
mito nacional‖ que traz, para o cenário internacional, um grau de tensão extremado pelo
fato da existência do Estado totalitário —ou de massas— atrelado àquele mito. A função do
mito nacional, no cenário de conflitos internacionais, é o de ―polarizar intensas cargas
políticas‖, estimulando o ―armamentismo, [a] luta pelos mercados consumidores e pelas
matérias primas‖. O caminho de Campos é explicitar seu conceito de política ou do
fenômeno político através de sua dinâmica contemporânea e que, quando afastado das
amarras formais e do otimismo ingênuo do liberalismo, revela a tensão real do
irracionalismo, refratário à racionalização. Aqui, salienta, não interessa o fato de os regimes
irracionais, como os totalitários, ganharem estabilidade através do estímulo permanente das
massas a um estado de excitação hipnótica. O Estado total não é um Estado sem conflitos,
mas um Estado que, como o Estado liberal, os têm ocultos, em potência. Campos sustenta,
então, que
Não é possível nenhuma integração política total enquanto o homem, definido por si
mesmo como animal racional, conservar e defender, como vem fazendo com
crescente veemência, o seu patrimônio hereditário. No dia em que a massa nacional
fosse integrada politicamente de maneira a não deixar resíduos ela deixaria
simplesmente de ser Estado, que é um conceito político, isto é, um conceito
polêmico, a menos que, como entidade nacional, entrasse em relação de tensão com

128
Idem, p. 367 e CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 21; 31.

146
outras massas nacionais. De igual modo, admitir a integração política da
humanidade é postular um estado apolítico do homem, porque a humanidade não
poderia constituir um termo da constelação polar em falta de outro termo que
pudesse entrar em relação de conflito. 129

Esta talvez seja uma explicação sintética de um conceito que é o mais conhecido do
pensamento político de Carl Schmitt. Campos, escrevendo apenas três anos depois da
publicação do texto de Schmitt, já credita ao tema sociológico do conflito uma aproximação
metafísica, como o faz o autor alemão. Isto significa dizer que Campos desloca a questão
política do aspecto sociológico até então uma das linhas centrais de seu raciocínio no texto,
para levantar princípios gerais de funcionamento da dinâmica social. No seu já clássico
livro, O Conceito do político (1932), Schmitt desenvolve a idéia segundo a qual o processo
de secularização do mundo, observada a preponderância da despolitização e da
neutralização do espaço político contemporâneo através da crença na técnica, ocultou a
distinção política fundamental: o conceito amigo-inimigo.130 Se a lógica da economia e da
técnica impossibilita a percepção das clivagens sociais —como as diferenças culturais,
sociais e de classe—, é no espaço político onde estas diferenças podem ser precisamente
demarcadas. Em relação ao inimigo público, o inimigo próprio do espaço político, Schmitt
não compreende ser possível a realização de um processo de negociação, de deliberação ou
de troca. A distinção política implica a necessidade clara da sobrevivência. O inimigo, em
utilizando um termo hobbesiano, está em situação constante de estado de natureza, disposto
a enfrentar a possibilidade da morte violenta. Não cabe outra alternativa, para Schmitt,
senão eliminá-lo.
Como em Campos, Schmitt aponta a tradição e as instituições liberais do início do
século XX como responsáveis, nas democracias de massa, pela ocultação dos
compromissos e negociações de interesses que se faziam por baixo do processo público de
debate parlamentar.131 Contra essa ―neutralização do Estado‖, a tecnicização das decisões

129
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, p. 32. Campos não é, portanto, um autor que defenda o
Estado totalitário, como, sem mais, defende BOMENY, Helena M. B. Três decretos e um ministério: a
propósito da educação no Estado Novo. In: PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de
Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1999. pp. 137-166., p. 145.
130
Cf. SCHMITT, Carl. Der Begriff des politischen, passim.
131
Ver, nesse sentido, SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus,
passim.

147
políticas fundamentais —a legitimação do direito através do simples procedimento de
natureza formal, por exemplo—132 Schmitt opõe suas oito teses:
a) O ―conceito de Estado pressupõe o conceito do político‖, pois o Estado é o status
político de um povo que fornece a medida em caso de decisão, mas que não se confunde
com ele;
b) A última e mais fundamental distinção, o critério por excelência do político é a
distinção entre amigo e inimigo. O inimigo define-se, exclusivamente, pelo critério político,
sem a necessidade da utilização de critérios outros. Ele não precisa ser mau (moral), feio
(estética), concorrente (economia). O conflito político passa, então, pela decisão de se esse
outro, esse estrangeiro ―representa a negação da própria forma de existência‖;
c) Os conceitos amigo e inimigo devem ser compreendidos a partir de sua
concretude existencial, pública e a partir de seu sentido ―polêmico‖, não podendo ser
confundidos com construções normativas ou de caráter privado. Esse antagonismo, de
natureza essencialmente política, é uma contraposição extrema que pode redundar no
aniquilamento do outro. A possibilidade da luta (Hobbes) está, portanto, sempre presente,
sendo a guerra a ―relação extrema de inimizade‖ que dá à vida uma ―tensão
especificamente política‖;
d) O político consiste num comportamento informado pela possibilidade real de um
conflito que pode pôr fim à existência dos contendores. A associação política se conforma
de acordo com esta possibilidade extrema. Para Schmitt, a unidade desse agrupamento
político terá sempre a última decisão sobre a resolução do conflito, sendo, portanto,
soberana. A unidade política é, portanto, a unidade determinante, ―independentemente de
quais forças retira seus motivos psicológicos últimos‖;
e) A realização da guerra cabe à decisão do Estado, unidade essencialmente política.
Mas, em situação normal, sua função consiste em produzir ―tranqüilidade, segurança e
ordem‖ (Hobbes) e, com isso, fica autorizado a determinar seu ―inimigo interno‖. A
existência política de um povo se dá, portanto, pela sua capacidade de determinar a
distinção básica entre amigo e inimigo;
f) ―A unidade política pressupõe a possibilidade real do inimigo e com isso
pressupõe uma outra unidade política coexistente‖. O mundo é, portanto, um pluriverso

132
Cf. SCHMITT, Carl. Legalität und legitimitaät, passim.

148
político e toda teoria do Estado é pluralista. Nesse sentido, o conceito liberal de
humanidade exclui o conceito de inimigo, pela impossibilidade de se desenvolver uma
tensão política sem a ameaça existencial de uma nação concreta estar presente;
g) O liberalismo político nunca operou por uma oposição política e portanto, não foi
capaz de construir uma teoria política do Estado, já que pretendeu submeter o político ao
ético e ao econômico. Nesse sentido, uma noção ou um raciocínio propriamente dirigido à
compreensão do político não pode tomar como ponto de partida o ―otimismo‖
antropológico —bondade intrínseca da humanidade— caro ao pensamento liberal;
h) O estabelecimento de uma idéia propriamente política é inviável através do
pensamento liberal, já que ele funciona exclusivamente dentro das esferas ética e
econômica. A conseqüência disso é que o liberalismo pretende eliminar, do seu horizonte,
as derivações extremas do político, das quais, na realidade, não consegue escapar.133
A partir dessas teses de perfil claramente hobbesiano, Schmitt condensa o seu
programa de crítica doutrinária ao liberalismo político e ao tipo de Estado que não
compreende a conflitividade natural do mundo contemporâneo. Comparando-se o conceito
do político de Schmitt com o de Campos, constata-se que, em ambos, o conteúdo é o
mesmo: a impossibilidade de controlar, de forma total, um processo cujo fundamento não
pode ser resumido a uma apreensão racional. Em Francisco Campos, as oito teses são
praticamente idênticas. 134
A idéia segundo a qual o Estado não se confunde com o político (tese (a)) encontra
correspondência em Francisco Campos que não vê o Estado como a única força
propriamente política na sociedade. Se o mito é a força mobilizante, o instrumento através
do qual sujeitos políticos, de qualquer natureza, podem utilizá-lo, o Estado deixa de ser o
elemento que representa exclusivamente o político. Os termos da tese (c) são idênticos no
texto de Campos: a política, para o autor mineiro, é polêmica. E a polêmica só pode existir
se for reconhecida a presença de, pelo menos, duas ―constelações polares‖, antagônicas,
que entram em estado de tensão. Se a massa nacional fosse integrada universalmente de
forma total, não haveria mais polêmica, o que corrobora a tese (f), segundo a qual o

133
Cf. SCHMITT, Carl. Der Begriff des politischen, pp. 20 e ss; 26 e ss; 28 e ss; 37 e ss; 45 e ss; 54 e ss; 59
e ss; 68 e ss.
134
As últimas duas não precisam mais de comprovação por argumentos, já que consistiram na maior parte do
discurso de Campos.

149
pluralismo da Teoria do Estado antiliberal significa o reconhecimento do político. Essa
concepção informa o conceito de política enquanto oposição —a distinção política
fundamental entre amigo e inimigo (tese (b))—, na medida em que Campos sustenta que a
política é a relação de conflito entre duas entidades sociais, relação através da qual se forma
o Estado. Por outro lado, se em Schmitt transparece a incomensurabilidade do processo
decisório dos entraves à existência de uma unidade política (tese (d)), em Campos o
processo político não é racional, mas decidido, também, através da vontade.
A idéia de que cabe ao Estado a decisão da guerra tanto externa quanto interna (tese
(e)) é particularmente relevante, pelo fato de indicar uma leitura mais sofisticada de
Campos sobre o fenômeno da função do Estado em uma sociedade de massas. Para
Campos, o Estado ―não é mais do que a projeção simbólica da unidade da nação‖. Essa
irracionalidade da qual se origina a unidade das massas, significa que a integração política
no Estado só funciona através da mobilização mítica, cuja função é exatamente ―disciplinar
e utilizar essas forças‖ irracionais, abaladas por movimentações de exorcismo da autoridade
imprimindo ―ordem, hierarquia, disciplina às tendências e paixões‖. 135 Numa situação onde
a organização social lida com as massas, e mesmo quando as massas não predominam, é
impossível eliminar conflitos internos, bandeira que propaga e intenta realizar o tipo de
Estado totalitário. A esta incapacidade, à natureza móbil e angustiada das massas, o autor
vincula a necessária aparição do César —―mito solar da personalidade‖, no lugar do mito
da Nação— que exclui qualquer possibilidade de participação ativa das massas no processo
político. Assim, parece que a conseqüência ―natural‖ de uma ordem política irracional, em
seus fundamentos, é a cristalização da irracionalidade e o conseqüente controle através do
líder político, o indivíduo que concentra em si —e por isto mesmo é capaz de regular— o
pólo irradiador da inconseqüência das paixões humanas. Assim, ―o regime político das
massas é o da ditadura‖.136
Por conta deste último elemento que transparece no texto de Campos, a aparição do
César, um outro elemento constitutivo do modelo da ideologia de Estado autoritário de
Lamounier pode ser questionado. A não-organização da “sociedade civil” é uma derivação
do conceito de conflito social do pensamento autoritário brasileiro que, como o próprio

135
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 12; 15.
136
Idem, pp. 30; 16.

150
Lamounier sustenta, não é o mesmo que se encontra em Francisco Campos. Assim, e tendo
em vista que a funcionalidade do mito está ligada à mobilização das emoções; que o
processo político se configura pela existência de interesses em antagonismo natural; pelo
fato de que o próprio conceito de política significa, para ele, uma oposição que define a
configuração de uma certa estabilidade ou instabilidade das forças irracionais que
comandam o processo de integração social e; pelo fato de a força política do mito funcionar
como organização da multidão em massa, a multietudo em unidade; por tudo isso, em
Campos, a ―sociedade civil‖ existe por que se mobiliza ou porque é mobilizável e porque é,
conseqüentemente, organizável enquanto massa.
No quesito da não mobilização, outro ponto do modelo de Lamounier, é ainda mais
evidente a discrepância entre a ideologia de Estado autoritário e o texto de Campos.
Lamounier, neste tópico, considera Francisco Campos como uma ilustração ―gráfica‖ de
sua tese, segundo a qual o pensamento autoritário brasileiro ―não abriga uma intenção
própria de mobilização plebiscitária‖. 137 A leitura da Constituição de 1937, de autoria quase
exclusiva de Campos, poderia desfazer esse mal-entendido, já que o instrumento de
consulta popular por excelência (representação política definida como legítima), é
justamente o plebiscito. Mas seria abandonar a hipótese de que é possível encontrar os
elementos necessários para refutar a associação entre Francisco Campos e a idéia da não-
mobilização da sociedade civil de Lamounier já no discurso de 1935:
As massas encontram-se sob a fascinação da personalidade carismática. Esta é o
centro da integração política. Quanto mais volumosas e ativas as massas, tanto mais
a integração política só se torna possível mediante o ditado de uma vontade pessoal.
O regime político das massas é o da ditadura. A única forma natural de expressão da
vontade das massas é o plebiscito, isto é, voto-aclamação, apelo, antes do que a
escolha.138

Esse diagnóstico é obviamente marcado por uma forma específica, corretamente


classificável de antiliberalismo, pois contém um modelo de organização política que além
de prever a centralização do poder, tem um caráter mobilizador. O perfil sociológico do
antiliberalismo não funciona a partir de uma comunidade solidária e ao mesmo tempo
informe, capaz de ser moldada em qualquer direção. Grave é considerar que o modelo de

137
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 369.
138
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, p. 16.

151
Estado que subjaz no discurso campiano é ainda o Estado tutelar de sua fase da 1ª
República e que seu ponto seria a manutenção, pela desmobilização, de uma ―demarcação
jurídica e burocrática entre Estado e Sociedade‖. 139 Se a aparição do César é uma ligação
direta entre as massas e o mito político fundamental, não há necessidade de intermediários.
Esse diagnóstico não pode ser lido como uma admoestação negativa dos destinos sombrios
da humanidade. Campos não lamenta a existência da sociedade de massas. Procura
entendê-la e adaptar-se a ela, o que significa o reconhecimento da mobilização organizada
como uma conseqüência da irracionalidade: as massas são a matéria bruta capaz de
corporificar a força política para o enfrentamento político propriamente dito. Isso permite
questionar Lamounier quando discorre sobre as filiações teóricas de Campos:
A opção pelo Rechstaat [Estado de Direito], pelo ideal de ordenação jurídica
consagrado pelo constitucionalismo liberal, mas desta vez contra o liberalismo
político. Enquanto se preserva, no terreno jurídico a intenção ―civilizatória‖ da elite
cosmopolita, a racionalidade da esfera política é mais uma vez concebida como
dominação cautelosa ou, para retomar a imagem de Oliveira Vianna, como
adaptação às boas qualidades do país, extirpando-se as más. 140

O texto somente alude ao fato de que existe um liberalismo instrumental em


Campos. Esta utilização interessada de instituições liberais para fins políticos específicos
não significa uma opção pelo ideal de ordenação jurídica liberal, contra o liberalismo
político, pois o constitucionalismo liberal tem como finalidade a implantação de
instituições liberais que o materializam socialmente. Quando Francisco Campos refere-se
ao processo de atribuição de sentido —que na contemporaneidade só se dá pelo mito—,
não está recorrendo a nenhuma instituição liberal, muito menos a um suposto Estado de
Direito, como sugere Lamounier, que não se utilizou das construções jurídico-políticas das
correntes constitucionais de perfil antiliberal que existiam à época e às quais Francisco
Campos estava alinhado. Nesse sentido é que Schmitt representa efetivamente uma
condensação do espírito antiliberal do tempo, claramente distante de representações
sociológicas simplistas e aproximações jurídicas datadas. O constitucionalismo de Schmitt
é antiliberal como o é o de Francisco Campos. Em ambos os autores não se materializa,
numa hipotética Constituição, nenhuma das instituições que garantem um procedimento

139
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 369.
140
Idem, pp. 369-70.

152
político fundado em princípios liberais. Em decorrência dessa filosofia política antiliberal, a
sociedade ocidental ficou à mercê das ditaduras. O conceito puro de democracia que orienta
a construção constitucional de ambos é a democracia substantiva ou substancial. Ela se
opõe ao conceito de democracia formal ou procedimental do liberalismo. No conceito de
democracia substancial, já como Ministro do Estado Novo, Campos usa a Teoria da
Constituição (1928) de Schmitt como fonte, eventualmente citada em outros escritos. Em
diálogo não assumido, Campos mostra ter clara a distinção entre dois modelos
constitucionais, entre duas estruturas institucionais que não se confundem: as estruturas
democráticas substantivas (antiliberais) e as democráticas formais (liberais). Ele demarca o
conceito de democracia substantiva que passa a informar a composição constitucional do
Estado Novo. Campos, na entrevista Problemas do Brasil e soluções do regime (1938),
explica que
A essência da democracia reside em que o Estado é constituído pela vontade
daqueles que se acham submetidos ao mesmo Estado: reside na vontade do povo,
como declara, logo de início, a atual Constituição. A afirmação de que o Estado é
produzido pela vontade popular não implica a conclusão de que o sufrágio universal
seja um sistema necessário de escolha, nem a de que o Presidente da República deva
exercer o seu cargo por um curto período de tempo, não podendo ser reeleito. É
absurdo tirar de uma noção meramente formal de democracia conclusões que a
prática repele. Os meios pelos quais a vontade popular se pode fazer sentir têm de
ser estabelecidos de acordo com a realidade social e não com os ensinamentos
meramente dialéticos.141

Vincular-se a uma democracia procedimental, como a liberal significa, para


Campos, organizar a sociedade através de uma democracia de meios, puramente técnica, ao
invés dos fins, do conteúdo a ser realizado. Se o mesmo autor, em 1935, sustenta a
irracionalidade da técnica e considera que a democracia liberal e suas instituições não são
adequadas a uma sociedade de massas, não há que se falar em Estado de Direito em sua
obra. A democracia substancial, lembra Schmitt, significa homogeneidade, identidade entre
representante e representado, e se realiza através do processo de representação política
direta, ou seja, pela aclamação do líder. Processo de natureza intrinsecamente irracional. A
democracia formal, por outro lado, diz respeito à representação indireta, obedece a um
número de procedimentos e de instituições que intermedeiam a relação política entre o

141
CAMPOS, Francisco. Problemas do Brasil e soluções do regime (1938). In: CAMPOS, Francisco. O
Estado nacional, pp. 69-109, p. 75.

153
povo e o Estado, garantindo formalmente a liberdade de manifestação, a partidarização, a
pluralidade ideológica, etc. A democracia substancial representa a legitimação
principiológica do cesarismo, da mobilização social irracional destituída de controles
formais, ou seja, é contrária a procedimentos que pretendam garantir racionalidade ao
processo político. Assim, não há nada mais distante do pensamento campiano que uma
―opção pelo Rechstaat‖.
O Estado Novo teve uma Constituição, ou seja, recorreu à forma jurídica, mas ela
não se sustentava, nem teórica nem instrumentalmente, em instituições de corte liberal. O
Estado de Direito pressupõe divisão de poderes, representação parlamentar, sufrágio,
garantias individuais, limitações constitucionais ao poder político, concentração da
atividade legislativa no Poder Legislativo —e não no Poder Executivo— além de
limitações formais e substanciais à decretação e permanência do estado de sítio, por
exemplo. Nenhum desses institutos, no seu caráter estritamente liberal, pode ser encontrado
na Constituição escrita por Campos. Logo, nem o Estado Novo sustenta-se juridicamente
enquanto um Estado de Direito, nem Campos, como autor com ideal de um ordenamento
jurídico consagrado pelo constitucionalismo liberal.
Se fosse possível classificar a filosofia da história de Francisco Campos,
especialmente a que se deduz do estudo do A Política e o nosso tempo, ela se chamaria
decadentista. Se, durante a 1ª República, ele apostava na tradição e no governo da lei para
tutelar a sociedade e as instituições liberais, consideradas irresponsáveis, nos anos 30, não
se pode dizer o mesmo de sua visão sobre o fenômeno político. Campos está diante de uma
sociedade atomizada e impessoal cujo volume físico não se presta a um processo
tradicional de esclarecimento: a educação para o que der e vier não pode ser uma educação
que inculca valores, um processo de aprendizagem relativo à possibilidade de
hierarquização e ordenação do mundo. Esse mundo é, para Campos, ―refratário a um
sistema interpretativo, em desacordo com a escala e o passo dos acontecimentos‖. 142 A
possibilidade de se vislumbrar uma relação política com o mundo através da racionalidade
e do embate intelectual das elites é exatamente o que Campos critica na postura
democrático-liberal. Por esta razão, também nos dois últimos quesitos do modelo de
Lamounier, Francisco Campos não pode ser encaixado como ideólogo autoritário nos

142
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, p. 5.

154
moldes do pensamento da 1ª República. O penúltimo ponto da ideologia de Estado
autoritário de Lamounier é do elitismo golpista ao voluntarismo golpista. O programa
autoritário teria um perfil Iluminista, já que o objetivo central é organizar o Estado ―por
cima‖, direcionando a sociedade, num projeto ―altruísta e racional‖ que ―requer somente a
persuasão das elites e um emprego limitado e temporário da força, até criar as condições
para o esclarecimento dos menos esclarecidos‖. A mudança política, que significa o
fortalecimento do Estado, ―aparece assim como combate intelectual, indispensável prelúdio
de um grande ato de vontade‖. Lamounier sustentará, em último lugar, a idéia de que o
pensamento autoritário brasileiro, no qual Campos estaria alinhado, está baseado no
componente de o Leviatã benevolente. Para o autor,
O Leviatã benevolente que aparece no pensamento autoritário brasileiro é o
guardião e a força vital de uma sociedade igualmente benevolente, ―cordial‖ e
cooperativa. Ele é benevolente porque a reflete em suas boas qualidades, e porque a
corrige, severa mas afetuosamente, nas más: nos impulsos infantis do
comportamento rebelde; nas ações altruístas, mas errôneas, porque carentes de
esclarecimento; e sobretudo, naquelas que se alimentam de motivações alienígenas,
alheias à sua índole e essência.143

Falar em elitismo golpista é, dessa forma, classificar a sociologia de Campos dentro


de amarras teóricas insuficientes se relacionados à abrangência de seu diagnóstico. Campos
é elitista, mas sua sociologia de massas não é somente elitista, e muito menos aponta para o
caminho da racionalidade: o objetivo é a mobilização social —limitada à aclamação, é
certo—, mas através do poder do mito político. A atomização dessa sociedade de massas
não comporta uma interpretação solidarista. A sociedade de massas não é, nesse sentido,
nem má, nem boa. É simplesmente inclassificável pela sua irracionalidade. É, como salienta
Campos, destituída de valores, porque impulsionada pela mudança constante. Tal como em
outros aspectos já ressaltados, também aqui Francisco Campos é um hobbesiano, sem dar a
chancela a um Leviatã ―benevolente‖ ou ―cooperativo‖. Percebe a natureza humana, que
emana deste discurso sob análise, como indeterminação, como sustentará Hobbes no
Prefácio de 1647 à edição do De Cive: o homem é o lobo do homem, mas é também seu
próprio Deus. Tem dentro de si a capacidade de destruir-se, mas comporta igualmente o
dom de criar um artefato, à imagem e semelhança de Deus —quando Este cria o próprio

143
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na primeira república: uma
interpretação, p. 370.

155
homem—, que é o Estado. Assim, o homem só se encontra em estado de natureza quando
não há um poder comum e soberano que mantenha todos em respeito mútuo. O homem
recorre a ele por calcular ser o meio de escapar à ameaça constante da morte violenta,
quando não há Estado organizado. O homem só é ―naturalmente compelido a destruir e
subjugar o outro‖ em uma situação onde essa ação é fundamental para garantir a própria
sobrevivência.144
Campos, como herdeiro intelectual de Hobbes, identifica a contemporaneidade
como um estado de natureza, mas que se mescla à vida social. Lembre-se que, em Hobbes,
o estado de natureza é uma pressuposição lógica, ainda que a Inglaterra estivesse
efetivamente passando por uma guerra civil para a qual o Leviatã seria uma espécie de
antídoto. É um olhar hipotético para uma situação em que não há Estado organizado.
Campos, ao contrário, está realizando, a princípio, uma análise sociológica. Logo, não
pressupõe uma situação em que todos estão predispostos ao embate, ele está
diagnosticando. ―Daí‖ —diz Campos— ―o caráter problemático de tudo: acelerado o ritmo
da mudança, toda a situação passa a provisória, e a atitude do espírito há de ser uma atitude
de permanente adaptação‖. O caráter problemático, inconstante e trágico do mundo
contemporâneo não fornece às elites novos conteúdos espirituais. Se há apelo à
solidariedade humana, é de natureza irracional, e se consegue mobilização suficiente para a
integração das massas em regime de Estado, o homem deixa de pertencer a si mesmo e
passa a ser propriedade ―alma e corpo‖ da Nação, do Estado, do partido: a personalidade e a
liberdade tornam-se ―apenas ilusões do espírito humano‖. 145 Nesse sentido, o Leviatã
campiano não é benevolente: é antiliberal, cesarista e dirigido para o controle emocional
das massas.
Assim, em que pese a possibilidade do estabelecimento de um modelo de
entendimento do autoritarismo brasileiro que vem da 1ª República até os anos 30, não é o
modelo capaz de enquadrar o pensamento de Campos. Em Francisco Campos: 1. Não há
predomínio de nenhum princípio na condução das relações de poder além da
irracionalidade do mito, seja ele a greve geral, a nação, o César. Existe, por conseguinte,
uma indefinição estrutural dos rumos da sociedade contemporânea à espera de um mito

144
Idem, p. 370.
145
Cf. CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 5; 11; 13.

156
polarizador, que pode ser o César; 2. Há um processo duplo de sacralização e exacerbação
dos efeitos da técnica quando utilizada para finalidades políticas (mobilização da opinião
pública). A visão construída mostra uma sociedade originalmente multitudinária, de massas
e, ao mesmo tempo, atomizada; 3. A ―sociedade civil‖ é passível de organização pelos
efeitos do mito —a multidão se transforma em massa. A polarização é a manifestação
concreta da dinâmica política; 4. A ―sociedade civil‖ é mobilizável. O plebiscito é o meio,
por excelência, desta mobilização; 5. O modelo institucional que se deduz dessa
aproximação sociológica é o de um Estado antiliberal cujo perfil clássico é uma ditadura. A
utilização da forma jurídica é igualmente antiliberal, como seu constitucionalismo, fundado
no conceito de democracia substantiva; 6. A filosofia da história campiana é de natureza
decadentista, não sendo estritamente elitista nem iluminista. A mobilização plebiscitária
através do mito é o reconhecimento e a manutenção da irracionalidade inerente às
sociedades de massas. A educação não pode estar, portanto, fundada em valores; 7. Estado
e sociedade não são entidades distintas e, portanto, inexiste ―benevolência‖ do Estado para
com uma sociedade cooperativa. O Leviatã de Campos, conseqüência do tipo de sociedade
de massas, funciona através de uma democracia antiliberal, do mito do César. A análise dos
argumentos de Campos sobre as transformações políticas do início do século XX e suas
conexões diretas com a necessidade de crítica dos fundamentos e do sistema político do
liberalismo, faz vislumbrar uma proximidade intelectual com alguns conceitos-chave do
pensamento conservador europeu, já presentes em seu texto de 1914. Mais especificamente,
o próprio diagnóstico que Schmitt desenvolve, ainda na década de 20, acerca das limitações
e aporias do modelo político liberal, está muito próximo daquele que Campos irá
desembainhar às vésperas do golpe ditatorial de Getúlio Vargas. Já estando reconhecido
como articulador central do Estado Novo, Campos fará uma avaliação da estrutura
constitucional que dá amparo à situação política já esperada (para uma República em que a
dúvida era a escolha entre integralismo ou autoritarismo, no combate à política liberal). 146
Autor exclusivo da Constituição de 1937, Campos tem em vista um Estado comandado
pelo poder executivo, de inspiração teórica antiliberal.

146
Cf. IGLÉSIAS, Francisco. Trajetória política do Brasil: 1500-1964. São Paulo: Companhia das Letras,
1993, pp. 246 e ss.

157
Esta relação entre política e tempo definirá, pouco depois, as estratégias do próprio
Francisco Campos como ator político de destaque no cenário nacional. Perceber que
somente centralizando os meios de controle emocional das massas torna-se possível a
direção do embate político levará à Atualidade de D. Quixote e à exortação a uma cruzada
de caráter religioso. Apesar de improfícuo o resultado, em se tratando da política nacional
dos anos 50, Campos realizava, decididamente, seu programa teórico dos anos 30. Embora
a Atualidade de D. Quixote seja um texto posterior, explicita mais diretamente os
fundamentos filosóficos de seu pensamento e se estabelece, sem solução de continuidade,
em face de seus textos políticos da década de 30. Como em Schmitt, Campos tem um
inimigo claro na atitude romântica, individualista, que o autor alemão identifica com o
liberalismo político. A hamletização da política, nos moldes definidos pela interpretação de
Schmitt, representa em Campos a permanência anacrônica de uma organização social
delicada como o ―registro de voz de Ariel‖. Dada a eclosão das massas, de Caliban, o
controle social e político deve passar, necessariamente, pela construção de uma dinâmica
antiliberal, destituída da feminilidade do parlamentarismo e instrumentalizada pelas
técnicas irracionalistas do mito soreliano. No que respeita à sintonia fina entre perspectiva
teórica e atuação política, Campos colocar-se-á como mentor intelectual de um modelo de
Estado não simplesmente autoritário, mas de um Estado antiliberal, plebiscitário e de
massas.
Embora todos esses autores e correntes tenham, efetivamente, colaborado com a
conformação do Estado Novo como uma instituição de natureza política de caráter
ditatorial, foram Francisco Campos e sua obra intelectual que deram origem aos caracteres
que distinguiram o regime estadonovista de outras experiências da época. Nesse sentido, o
Estado Novo, obra cuja estrutura político-constitucional está notoriamente ligada à ideação
do autor, pretendeu ser mais que um Estado constituído nos moldes de uma ideologia do
Estado autoritário. O Estado Novo se configurou, desde sua gênese, como um Estado
constitucional antiliberal de massas, numa perspectiva que se esclarece conceitual e
historicamente através do exemplo teórico e prático do próprio Brasil. Assim, mais do que
um pensador que colabora, decisivamente, em sua perspectiva ―autoritária‖, Campos entra
no cadinho ideológico que ajudou a formar o Estado Novo por conta de sua contribuição no

158
perfil constitucional e na vocação para uma máquina de controle ideológico das massas que
o regime de Vargas pretendeu ser.

159
PARTE 3. CORPORATIVISMO E ESTADO NOVO

O antiliberalismo opõe-se ao romantismo político e constrói um modelo de ordem


política cujo exemplo acabado encontra-se nas obras do jurista alemão Carl Schmitt. Como
política de contenção do romantismo, ele pretende operar eliminando a metafísica
romântica, isto é, combatendo o que percebe como a estetização do político. A conseqüente
abstração (neutralização) do político redunda, segundo o modelo de análise antiliberal, na
indecisão típica da Teoria do Estado liberal. O ‗eclipse‘ da soberania na teoria liberal
corresponde à confiança cega e temerária na técnica. Em lugar da passividade característica
do romantismo político, Schmitt proporá a recomposição do poder soberano e identificará
na decisão judicial um modelo geneticamente ligado à soberania política. Assim sendo, a
personalização do Estado viabiliza a eliminação da desordem social.
A ordem social possível dentro dos moldes do antiliberalismo necessita de uma
justificação, mas não a encontra no modelo democrático-representativo. A relação
emocional e direta com as massas, a democracia plebiscitária, é o caminho que invalidaria,
definitivamente, o modelo parlamentar da discussão. Assim, o liberalismo é separado
definitivamente da democracia que o transforma em um conceito material que configura a
identidade entre representante e representado. O Estado que surge é uma ditadura
respaldada pela legitimidade do César e pela sua juridicidade intrínseca: não é limitada
pelas normas, mas autorizada pelo direito. Este modelo de ordem, desenvolvido por
Schmitt, é incorporado pelo constitucionalismo brasileiro, que encontra em Francisco
Campos o seu mais acabado representante.
Como um dos mais sofisticados críticos da 1ª República, Campos forma,
inicialmente, a sua perspectiva teórica sob um conservadorismo vinculado à autoridade e à
tradição, propondo a unificação do poder e a autoridade da lei como antídotos para a
tendência anárquica e liberalizante da democracia. Nos anos 10 do século XX, Campos
ainda estava imbuído do papel da autoridade dos juristas na missão civilizatória do Brasil.
Como Alberto Torres, entendia só ser possível a aquisição do caráter nacional ―par haut‖,
isto é, pela força do Estado politicamente unificado. Por outro lado, o símbolo de D.

160
Quixote em sua missão civilizatória de Sancho Pança indica, já na década de 40, a
configuração teórica definitiva de um programa de coordenação emocional das massas. A
modernidade representará, para o autor mineiro, a irracionalidade do espaço da política. A
solidificação deste modelo interpretativo e a assunção estritamente antiliberal da sociedade
contemporânea estão documentados em seu texto de 1935, quando o irracionalismo e a
inconstância da contemporaneidade indicariam o anacronismo do fundamento intelectual da
decisão política. Campos recupera o mito como motor da organização social e o César
como exemplo, por excelência, da força mítica a operar na política. A ditadura consolida-se
como o regime próprio das massas e Campos como um autor vinculado à tradição
antiliberal especificamente schmittiana.
Se em Campos o discurso antiliberal está plenamente configurado, distinguindo-se,
inclusive, do autoritarismo construído pelo modelo de Lamounier, fica claro, no cotejo dos
argumentos de Campos com a tradição brasileira classificada de autoritária, que os
contrastes são marcantes. Existe, entretanto, uma linha de continuidade entre os autores do
final do século XIX e começo do século XX com o pensamento campiano. Embora os
diagnósticos sobre a realidade social brasileira sejam divergentes, há uma similaridade nos
projetos de Estado e de Constituição. Nas próximas duas partes deste trabalho pretender-se-
á estabelecer o que foi incorporado das outras tradições ao modelo institucional
estadonovista. Para tanto, será necessário examinar o positivismo castilhista —que operou a
formação política de Getúlio Vargas—, e a sociologia corporativa de Oliveira Vianna. Em
contraste com Campos, estas duas tradições exibirão uma doutrina política com visão de
mundo não necessariamente marcada pela identificação de um inimigo (no caso de
Campos, o liberalismo político e a dissolução da tradição). Se Campos esteve solidamente
ancorado em uma tradição constitucional bem delimitada, e seus argumentos incorporam o
antiliberalismo de Schmitt, a avaliação social realizada pelo castilhismo e por Oliveira
Vianna tem, como referência, um conservadorismo encontrado na doutrina sociológica
francesa e no pensamento político norte-americano.
A configuração do Estado Novo como evento histórico derivado de um vocabulário
conceitual antiliberal, incorporado pelos protagonistas do Estado Novo —e em especial por
Francisco Campos—, não pode prescindir da delimitação teórico-doutrinária do próprio
Getúlio Vargas. Ele foi o ator político que possibilitou a existência e que endossava in

161
totum o modelo de Estado —por tê-lo outorgado— derivado da Constituição produzida por
Campos. Vargas, como gestor máximo do Estado Novo, representa a presença da percepção
positivista da ordem social interpretada por Júlio de Castilhos a partir da doutrina de
Augusto Comte —e materializada na Constituição de Rio Grande do Sul, de 1891— na
definição das características gerais do regime. 1 Se, por um lado, Francisco Campos deu
forma jurídica à Constituição partindo de princípios jurídico-constitucionais antiliberais
configurados por uma tradição que se cristalizaria na obra de Carl Schmitt, a identidade
entre a Carta de 10 de novembro e o modelo de Estado idealizado pelo castilhismo é
derivada do próprio conjunto de valores jurídico-políticos de Vargas.
Um problema enfrentado na exegese do tema é que o castilhismo nunca se
consolidou como doutrina acabada, com um conjunto de textos que representasse as
diretrizes e as características fundamentais do pensamento de Julio de Castilhos e porque
nem se pode ler os vários escritos de Vargas como uma expressão pura e direta de uma
eventualmente delimitada doutrina castilhista. Pode-se dizer, inclusive, que a atividade
política de Vargas só representou de forma parcial a continuidade política do castilhismo no
Rio Grande do Sul por ter substituído, no Governo Estadual, Borges de Medeiros em 1928.
Não obstante, a ascensão política para o palco nacional, na década de 30, trouxe a Vargas a
necessidade de uma releitura, de uma adaptação do seu modelo ideal de dinâmica
institucional aos influxos de problemas diferenciados, mais complexos, referentes à
necessidade de integração nacional, que se lhe foram colocados na ocasião. De qualquer
forma, não é impossível compreender alguns elementos fortes do desenho Constitucional
do Estado Novo, especialmente a reconfiguração da divisão de poderes, o papel
preponderante do Executivo, a pouca expressão da representação através de eleições e a
idéia geral de moralização do Estado sem que se remeta a uma de suas fontes nacionais
mais expressivas na 1.ª República, o castilhismo.

1
Esta uma parte incontestável da tese de Ricardo Vélez Rodrigues, defendida como dissertação de mestrado
em 1973, presente no livro Castilhismo: uma filosofia da República (1980), revisto e ampliado em 2000. Cf.
RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo: uma filosofia da república. Brasília: Senado Federal, 2000. Ver a
seguir.

162
6. A ORIGEM REMOTA DO ESTADO NOVO: POSITIVISMO CASTILHISTA

Em 1925, ante as contestações veementes de adversários como Assis Brasil, o


regime castilhista, então representado pelo Governador do Rio Grande do Sul Borges de
Medeiros, necessitava de uma nova manifestação pública de apoio. Dirigindo-se para o seu
5º mandato, Medeiros estava sofrendo a segunda grande vaga de acusações contra o que se
dizia ser um regime ditatorial e corrupto. Ainda no começo da primeira década do século,
no Congresso Nacional, os deputados gaúchos se viram obrigados a utilizar, amplamente, a
doutrina política norte-americana para defender o regime castilhista. Acusados, já naquele
período, pela oposição comandada por Assis Brasil, os partidários da doutrina castilhista
deveriam provar —e o fizeram com sucesso— a vinculação da Constituição promulgada
por Júlio de Castilhos com os princípios liberais da Constituição Federal Republicana. Mais
de quinze anos depois, o herdeiro de Castilhos recorreria ao cearense Raimundo de Monte
Arraes para redigir o que seria o último livro de divulgação e defesa oficial da doutrina
inspirada na sociologia de Augusto Comte.
É unanimidade que, mesmo levando em conta o livro de Raimundo de Monte
Arraes, O Rio Grande do Sul e as suas Instituições Governamentais (1925), encomendado,
portanto, para justificar as seguidas reeleições de Medeiros, os únicos documentos que de
alguma forma indicam os fundamentos básicos do pensamento castilhista são a
Constituição Política do Estado do Rio Grande do Sul, de 14 de julho de 1891, sua
legislação complementar e os comentários realizados pelo jurista gaúcho Joaquim Luís

163
Osório, em Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul: comentário (1911).2 Na
verdade, esse texto de Osório não é um livro tradicional de comentários, mas uma
compilação dos argumentos centrais dos integrantes do Partido Republicano, em especial
de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Germano Hasslocher e Possidônio Cunha, para
citar os parlamentares mais expressivos e com discursos tecnicamente vinculados à tradição
jurídica anglo-saxã ou francesa. O tom geral desse ―comentário‖ é oficial e tem, como
objetivo declarado, provar que o autor da Constituição, Júlio de Castilhos, seria ―o estadista
máximo da República‖. O livro não deixa, entretanto, de levantar questões profundas
relativas à fundamentação principiológica da Constituição, a maioria derivada dos longos
trechos dos debates e discursos transcritos. Já a Constituição do Rio Grande do Sul,
inteiramente redigida por Castilhos, representa um modelo de organização política
preocupado, especialmente, com a moralidade da gestão pública —a busca pelo ―bem
público‖— que necessita, conseqüentemente, tratar a administração do Estado a partir de
critérios tidos como científicos —diminuindo a força das instituições de natureza político-
representativa, como o parlamento—, a cargo de um governante caracterizado
primordialmente pela ―imaculada pureza de intenções‖.3
De qualquer sorte, estava marcada a idéia centralizadora como elemento
fundamental da institucionalização constitucional do castilhismo, como se depreende do
folheto que justifica o monumento público a Castilhos no Rio Grande do Sul:

2
O livro de Antônio Augusto Borges de Medeiros, sucessor de Júlio de Castilhos no governo do Rio Grande
do Sul, que ficou no poder por quase 30 anos, cedendo sua reeleição ao cargo de governador de Estado a
Getúlio Vargas, em 1928, é exceção. A obra é, aparentemente, um rompimento com o castilhismo e uma
recepção do liberalismo democrata de Hans Kelsen, mas que indica uma proposta de reconfiguração do poder
político com o escopo de centralizá-lo no que denominaria poder moderador. Esse livro, O Poder moderador
na República Presidencial (1933), não deixa de ser, segundo Paim, um documento onde os princípios
castilhistas revelam-se incontestes. Cf. PAIM, Antônio. Prefácio. In: MEDEIROS, Antônio Augusto Borges
de. O Poder moderador na República Presidencial. Fac-símile. Brasília: Senado Federal, 2004 (1933),
pp.XI-XVIII. Cf. PAIM, Antônio. Introdução. In: ARRAES, Raimundo de Monte. O Rio Grande do Sul e as
suas instituições governamentais. Introdução de Antônio Paim. Brasília: Câmara dos Deputados/Editora da
Universidade de Brasília, 1981 (1925), pp. 3-14, p. 10. OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do
Estado do Rio Grande do Sul: comentário. Brasília: Câmara dos Deputados, Editora da Universidade de
Brasília, 1982 (1911 a 1ª e 1923 a 2ª edição, com Apreciação geral por Borges de Medeiros). Na verdade,
poucos são os ―comentários‖ realizados livremente por Osório. Quando isso acontece, a remissão indireta é
feita aos administrativistas ou constitucionalistas mais relevantes da época, como a do Ministro do Supremo
Tribunal Federal, João Barbalho Uchoa Cavalcanti, responsável, este sim, por um dos mais interessantes
comentários à Constituição da República de 1891. Nesse sentido, CAVALCANTI, João Barbalho Uchoa.
Constituição Federal Brasileira: comentários. Brasília: Senado Federal, 2002 (1902), (Edição Fac-símile).
3
PAIM, Antônio. Introdução. In: RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo: uma filosofia da república.
Brasília: Senado Federal, 2000, pp. 28., p. 24.

164
O governo acha-se, em virtude de tais disposições, investido de uma grande soma
de poderes, de acordo com o regime republicano, de plena confiança e inteira
responsabilidade, o que permite-lhe realizar a conciliação da força com a
liberdade e a ordem, conforme as aspirações e os exemplos dos Danton, dos
Hobbes e dos Fredericos.4

Em oposição a esses fundamentos básicos —que remetem, inclusive, a uma


complexidade ideológica do movimento vinculado aos grandes arquétipos de centralização
política—, a configuração questionável do processo eleitoral, a centralização da função
legislativa pelo presidente e a permanência no poder do Partido Republicano em geral e de
Borges de Medeiros em particular, por vários e sucessivos mandatos, podem indicar o grau
de oposição política sofrida pelo regime, especialmente aquela que pretendia confrontar a
Constituição castilhista com a Constituição Federal Republicana. 5 Por outro lado, a
permanência demonstra, igualmente, o sucesso do castilhismo como uma ―filosofia
política‖ orientadora da prática política de gerações, como sustenta Ricardo Vélez
Rodríguez no seu Castilhismo: uma filosofia da República (1980).6 O castilhismo pode ser
considerado uma filosofia política ou uma doutrina na medida em que ele se orientava por
princípios cardeais e indicava, como derivação, um sistema de governo definido. Seus
princípios podem ser assim resumidos: a) a virtude como fundamento e finalidade da
atividade política, manifesta através da ―pureza das intenções‖ do governante; b) a
conseqüente construção da res pública vista como a realização concreta da virtude do
governante; c) a autoridade do Estado organizada para tutelar a sociedade de forma
moralizadora.7 Em relação aos princípios-guia do castilhismo, poder-se-ia indicar os pontos
nodais que sustentavam um determinado sistema de governo, caracterizado, então: a) pelo
reconhecimento da influência da sociologia positiva sobre a política, ou seja, pela pretensão
de cientificidade do modelo de Estado proposto; b) por uma espécie de antiliberalismo
institucional, isto é, a percepção da política de conciliação nos moldes liberais, realizada
pela oposição (federalistas gaúchos), como deletéria; c) pela necessidade de burocratizar a
máquina pública; d) pela idéia de ordem e de estabilidade social como fundamento da

4
RIO GRANDE DO SUL. Monumento a Júlio de Castilhos. In: PAIM, Antônio. A Querela do estatismo.
Brasília: Editora do Senado Federal, 1998, pp. 87-8.
5
A melhor abordagem histórica e a mais documentada sobre os anos de castilhismo em particular e do
regionalismo no Rio Grande do Sul, é o livro de LOVE, Joseph. O Regionalismo gaúcho e as origens da
revolução de 30. Tradução de Adalberto Marson. São Paulo: Perspectiva, 1975 (1971).
6
Cf. RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo, p. 23.
7
Até aqui, Cf. PAIM, Antônio. Introdução. In: RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo, p.17.

165
continuidade no poder e, e) pela recepção formal e parcimoniosa da idéia de representação,
acarretando conseqüente desdém à obediência das regras do mecanismo eleitoral.
A virtude, evocada por Castilhos, fundamenta organização moral da sociedade. O
político gaúcho considera que a desordem social deriva da desordem individual, o que gera
a necessidade de a virtude cívica comandar, tanto a formação dos líderes como a da
república,8 o que trai tanto uma contraposição direta ao individualismo liberal quanto o
reconhecimento de que a sua institucionalização, no Brasil, não permitiu o
desenvolvimento das potencialidades inerentes à forma política liberal, gerando um Estado
ou um modo de organização do Estado de natureza debilitada. Assim, o antiliberalismo que
transparece em momentos pontuais do discurso castilhista é menos fundamento e mais
contraposição política concreta aos adversários políticos históricos, os federalistas
(liberais), é menos crítica metafísica aos princípios liberais —na chave da crítica
schmittiana ao romantismo político— que uma crítica à institucionalização idealizada de
princípios que não se coadunariam com a realidade política brasileira.
A Constituição de 14 de Julho estabeleceu-se, como sustenta Helgio Trindade, no
texto A “Ditadura republicana” no Rio Grande do Sul: positivismo e prática política no
Brasil (1990), como derivação de uma leitura do positivismo comteano que foi mais
política do que propriamente filosófico-religiosa. O projeto político de Castilhos, através da
Constituição do Rio Grande do Sul, teve como objetivos a formação de uma ordem política
antiliberal e de uma ―modernização conservadora‖ —a partir dos elementos institucionais e
ideológicos vinculados à prática política do regime—, que irão se contrapor diretamente à
nova classe dirigente que ascende ao poder com a República. 9
A Constituição castilhista tem, como característica principal, a concentração de
poderes (nela chamados de órgãos) no Executivo e a redução drástica da abrangência e
competência legislativas da Assembléia dos Representantes, que passa a ter o papel de
fiscal orçamentária do poder central. Contendo diferenças estruturais relevantes em relação
à Constituição da República promulgada em 24 de fevereiro de 1891, a Constituição do Rio

8
Cf. RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo, p. 107.
9
Cf. TRINDADE, Helgio. La ―Dictature républicaine‖ au Rio Grande do Sul: positivisme et pratique
politique au Brésil. In: Cahiers du Brésil Contemporain, 1990, n.º 12, 174 p. Disponível em:
<http://www.revues.msh-paris.fr/vernumpub/4-Helgio%20Trindade.pdf>. Acesso em: 24 nov. 2005., 15 fs.,
fs. 4 e 10. O sentido do antiliberalismo no texto de Trindade não é o mesmo do antiliberalismo constitucional
de Schmitt, mas aquele caro à tradição reacionária do século XIX.

166
Grande do Sul é promulgada —segundo o mote positivista— ―em nome da Família, da
Pátria e da Humanidade‖. 10 Apesar de conter elementos, em seu texto, que indicam a
influência direta do positivismo, falta-lhe o peso de uma assembléia de caráter corporativo.
Outra disjunção da Constituição gaúcha com a doutrina positivista é a renovação espiritual
e moral que precede a transformação institucional. Para Castilhos, é o oposto, isto é, o
Estado realiza o processo de moralização social através de seu exemplo, o que se
contraporia diretamente a Comte.11 Talvez seja este o ponto principal de divergência entre o
castilhismo e o comtismo. Para Antônio Paim, da mesma forma,
Castilhos concebeu o novo sistema no plano puramente institucional,
dispensando-se da fundamentação doutrinária correspondente, que se encontraria
na obra de Comte. Primeiramente elaborou uma constituição Estadual
inteiramente ao arrepio da Carta de 91. Nesse sistema, suprimiu-se o Parlamento.
Ao executivo incumbia não apenas o governo, mas igualmente a elaboração das
leis. Para distingui-lo de uma simples oligarquia, foram fixados em lei os crimes
de responsabilidade do chefe de governo, e os procedimentos para julgá-lo, e
formulado o Código da Magistratura. Com o propósito de tornar inatacável a
honorabilidade do Executivo no tocante às questões financeiras, instituiu-se uma
Assembléia, eleita por voto direto, incumbida de aprovar o Orçamento e receber
as contas do governante. Para o desempenho de semelhante missão, reúne-se
durante dois meses em cada exercício. A votação, para escolha de seus
integrantes, efetiva-se mediante o voto a descoberto.12

Não cabe afirmar, portanto, que o castilhismo representou, tão somente, um


desenvolvimento das oligarquias agrárias tradicionais do Rio Grande do Sul. Sua marca foi
a tentativa de constituir o castilhismo como fundamento doutrinário de base filosófico-
científica para um grupo com claro objetivo de distinguir-se dos que comandavam as
demais entidades da federação, centrando-se especificamente na austeridade administrativa,
edificada na idéia de moralização da política. Para Trindade é marcante, na prática política
do castilhismo, a utilização de uma profunda reforma educacional que pretendia possibilitar

10
Cf. RIO GRANDE DO SUL. Constituição Política do Estado do Rio Grande do Sul, Decretada e
Promulgada pelo Congresso Constituinte em 14 de julho de 1891. In: OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição
política do Estado do Rio Grande do Sul, pp. 285-302. (Apêndice)
11
Cf. TRINDADE, Helgio. La ―Dictature républicaine‖ au Rio Grande do Sul: positivisme et pratique
politique au Brésil, f. 9.
12
PAIM, Antônio. Apresentação. In: OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio
Grande do Sul: comentário. Brasília: Câmara dos Deputados, Editora da Universidade de Brasília, 1982
(1923), pp.3-5.

167
a reprodução da cultura castilhista, o que denota o caráter jacobino de seu projeto. 13 Na
verdade, é possível falar em uma pedagogia política do castilhismo, que representa a idéia
da doutrina querendo penetrar no espírito do povo gaúcho a ponto de poder produzir uma
identidade entre a moralidade do Estado e a moral social. O Estado, nesse sentido, ampliava
suas funções de planificação política englobando o papel —fundamental para os
castilhistas— de moralização do espaço público.

6.1 Comte e o positivismo de Castilhos

A proposta constitucional de Castilhos revelava uma ruptura com o modelo


tradicional de organização política que servia, até então, de base para o federalismo que se
solidificava através da Constituição Federal. No Título IV ―Garantias gerais de ordem e
progresso do Estado‖, a Constituição gaúcha prevê, no art. 71, a liberdade religiosa, a
monogamia como condição essencial à organização da família, a instituição de concurso
para provimento dos cargos públicos, a livre manifestação do pensamento e de associação e
a igualdade jurídica no acesso aos cargos públicos como algumas das garantias que se
somam às definidas pela Constituição Federal.
A vinculação doutrinária ao comtismo trouxe novas instituições que se
incorporaram à Constituição Gaúcha. Talvez o exemplo mais relevante, para além das
questões relativas à concentração de poder político, seja o gérmen da tradição trabalhista
que situou o Rio Grande do Sul como modelo nacional para a reforma que se faria no
Estado Novo, sob os auspícios de Vargas, Oliveira Vianna e outros. Curiosamente,
acrescenta, em seu artigo 74, que ―Ficam supridas quaisquer distinções entre os
funcionários públicos do quadro e os simples jornaleiros, estendendo-se a estes as
vantagens que gozarem aqueles‖. 14 Ora, uma das vantagens que distinguiam funcionários
públicos dos simples trabalhadores ―diaristas‖, era o direito à aposentadoria, que se

13
Cf. TRINDADE, Helgio. La ―Dictature républicaine‖ au Rio Grande do Sul: positivisme et pratique
politique au Brésil, fs. 12-3.
14
RIO GRANDE DO SUL. Constituição Política do Estado do Rio Grande do Sul, Decretada e Promulgada
pelo Congresso Constituinte em 14 de julho de 1891, p. 299.

168
estendia, por este artigo, aos diaristas que estivessem trabalhando para o Estado. Segundo o
Desembargador Florêncio de Abreu,
Face ao art. 74 da Carta de 14 de julho, os trabalhadores ao serviço do Estado do
Rio Grande do Sul passaram a gozar, desde logo, do benefício da aposentação, em
caso de invalidez; posteriormente, enquanto vigorou a mesma Carta política, a faixa
de benefícios aos obreiros foi, paralela e sucessivamente, se ampliando, à medida
que melhorava, gradativamente, a situação dos funcionários públicos, tendo menção
especial no decreto n. 2.342, de 14 de julho de 1919.15

Fica, no texto, demonstrada a recepção de ―um ponto relevante da doutrina


comteana, que é o da incorporação do proletariado à Sociedade moderna, a cuja margem se
achava ele apenas acampado‖, o primeiro reconhecimento legal de direitos do trabalhador
numa constituição, antes mesmo da Constituição do México de 1917 e da Constituição de
Weimar, de 1919.16 Se a Constituição gaúcha não incorporou o princípio corporativo na
configuração da Assembléia dos Representantes, introduziu a proteção à indústria em seus
artigos, atividade característica do estágio positivo da organização social moderna segundo
Comte. Enquanto os gaúchos se filiavam à atribuição de garantias trabalhistas através da
Constituição Estadual após o término da 1.ª Guerra Mundial, Borges de Medeiros, então
Presidente do Rio Grande do Sul, fez valer a doutrina comteana no que respeitava à
permanência da autonomia federativa, lutando contra a implementação de reformas
trabalhistas de caráter nacional e pela realização regional do programa corporativo de
Comte. Sustenta Joseph Love que ―Borges encarava uma legislação trabalhista nacional
como uma infração aos direitos dos Estados, embora ele favorecesse com verdadeiro
paternalismo comtiano, a implantação de medidas de indenização aos trabalhadores‖. De
qualquer sorte, apesar de seu federalismo, os gaúchos aquiescem sobre a necessidade de ver
asseguradas, ainda assim, medidas protetivas de caráter nacional. Não é por outro motivo,
que não a mobilização dos gaúchos contra os paulistas que
No projeto convertido em lei, a 15 de janeiro de 1919, prevaleceu a posição gaúcha:
a primeira lei de indenização brasileira aos trabalhadores — bastante tímida —

15
ABREU, Florêncio de. Movimento positivista no Rio Grande do Sul. Separata da Revista das Academias de
Letras, n.º 72, p. 8, Rio de Janeiro: 1958. Apud: LINS, Ivan. História do positivismo no Brasil. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1964, pp. 185-6.
16
Idem, p. 184.

169
dispunha que os empregadores pagassem três anos de salário em caso de
incapacidade total, qualquer que fosse a causa do acidente. 17

De fato, a preocupação com a organização social do trabalho é central, no


castilhismo, e posteriormente no Estado Novo. Desde o Rio Grande do Sul de Júlio de
Castilhos é possível notar, portanto, a clara influência da sociologia de Augusto Comte e
sua proposta de organização política fundada numa sociocracia. Com efeito, nos Opúsculos
de filosofia social (1819-1828), ele já defendia, como objetivo da política positiva,
encaminhar a organização de certos interesses, favoráveis ―à marcha da civilização‖, a
serem estratificados em classes sociais e reconhecidos por classes intermediárias. O
estabelecimento de uma hierarquia social é o cerne de uma Teoria Geral do Governo:
―Todo o seu artifício consiste assim, em cada época, em regularizar essa hierarquia
espontânea que se forma no interior da sociedade, de modo a atenuar, tanto quanto possível,
a influência funesta da divisão do trabalho relativamente à sua influência útil‖. 18
O princípio geral do castilhismo, a moralidade pública, é outro elemento já presente
em Comte, a partir do qual desenvolverá a sua idéia de ordem social. No ataque antiliberal
à critica da divisão entre poderes temporal e espiritual, cita De Maistre para indicar a
necessidade de um governo moral, ―imperiosamente reclamado pelo estado presente das
nações civilizadas‖, que se caracterizaria pelo benefício de uma ação espiritual capaz de
evitar males como a guerra, além de trazer a disciplina moral, em falta pela decadência da
teologia. Em sociedades onde princípios gerais não moldam a compreensão universal de
cada indivíduo, é característica a ―falta quase total de moral pública‖, ficando aquele à
mercê de ambições particulares só detidas por circunstâncias exteriores. E, ―no meio de
todo esse caos moral, o egoísmo puro torna-se naturalmente o único móvel bastante
enérgico para dirigir a existência ativa‖. 19 Nesses termos, o autor francês pode ser visto,
inclusive, como a fonte teórica da perspectiva antiliberal do castilhismo gaúcho, já que
conduz à construção lógica de seu modelo de sociabilidade pela crítica do liberalismo,
assim como fará Schmitt um século depois. Para Comte, o princípio espiritual do

17
LOVE, Joseph. O Regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 30, pp. 191-2. O perfil da questão
trabalhista no Estado Novo, apesar de apontar para a necessidade política de evitar greves e lock-outs não
deixa de estar vinculado à influência positivista sobre Vargas.
18
COMTE, Auguste. Opúsculos de filosofia social (1819-1828). Tradução de Ivan Lins e João Francisco de
Souza. Introdução Sofia Beatriz Lins Peixoto. Porto Alegre/São Paulo: Editora Globo/Editora da
Universidade de São Paulo, 1972, p. 41; pp. 198 e ss.
19
Idem, pp. 186-188.

170
liberalismo é o ―dogma da liberdade ilimitada de consciência‖, cujo núcleo é evitar o
estabelecimento de um sistema qualquer de idéias comuns que permita organizar a
sociedade. Este princípio realiza a anarquia social: o ―dogma da soberania popular‖ é a
manifestação propriamente política do dogma da soberania da razão individual, cuja
legitimação pretendida se dá através da crítica à ―decadência do sistema feudal e
teológico‖. Criado para negar o controle do Estado e qualquer ordem social governativa que
dirija o homem para objetivos comuns, o dogma da soberania popular com base na razão
individual ―[t]ende, portanto, para o desmembramento geral do corpo político, levando a
confiar o poder às classes menos civilizadas‖. 20
Contra essa ―doutrina crítica revolucionária‖, Comte estabelece um programa de
estudos e ação que denomina sistema de política positiva, de caráter sociológico, pelo fato
de ―a determinação do sistema, segundo o qual a sociedade é hoje levada a se reorganizar,
deve deduzir-se, quase totalmente, da observação do passado‖. Na doutrina que repercutirá
no pensamento de todo o século XIX, Comte indica o contra-princípio —não crítico, mas
reconstrutivo da ordem social— que permitirá o estabelecimento de uma ordem social
regular e estável. Para o autor, é ―sem dúvida, pelo restabelecimento de uma ordem moral
que deve necessariamente começar essa vasta operação, sendo a reorganização dos
espíritos, ao mesmo tempo, mais urgente e estando mais amadurecida do que a
regulamentação das relações sociais‖. 21 Esta vasta operação só deve iniciar quando as
constituições fundadas na metafísica liberal não mais exercerem influência. É no momento
histórico a devir, livre de mentalidades cerceadas pelo espírito destrutivo e anárquico da
crítica não-orgânica, que a política positiva —fundada na observação— permitirá a
reorganização social:
É provável, todavia, que a disposição ainda muito pronunciada nos povos, de pedir
imediatamente instituições, ou, em outros termos, de querer reconstruir o poder
temporal antes do espiritual, será, a princípio, poderoso obstáculo à adoção dessa
marcha natural, única eficaz. 22

A conseqüência da situação de atraso, gerada por uma pouco desenvolta força de disciplina
moral nas sociedades contemporâneas, faz com que Comte afirme que ―quanto menos
energia tiver o governo moral em uma sociedade, mais indispensável se tornará adquirir
20
Idem, pp. 60-1.
21
Idem, pp. 106 e 189.
22
Idem, p. 189.

171
intensidade o governo material a fim de impedir a completa decomposição do corpo
social‖. A força passa a ser o único instrumento legítimo de interação social de que dispõe
o governo ante o estado de ―anarquia‖ em que se encontra a sociedade. Quando o interesse
privado prevalecer sobre qualquer disciplina moral, integradora, a força será a moeda de
troca que o Estado deverá utilizar para seus atos se revestirem de eficácia. É uma situação
―felizmente momentânea, (...) durante a transição do sistema teológico e militar para o
positivo e industrial‖, e necessária quando se rompe a marcha natural da reconstrução do
poder espiritual. 23
Para fazer avançar sua percepção crítica da ordem política fundada sob o
liberalismo, Comte vai propor uma ordem social definitiva, caracterizada pela
hierarquização social e por uma estrutura política de natureza corporativa, características a
serem absorvidas pelo ideário castilhista quase sem mediação, já que é pacífica e
documentada a leitura direta de seus textos pelos líderes castilhistas mais importantes,
como Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. ―Em uma sociedade de trabalhadores‖ —
portanto— ―tudo tende naturalmente para a ordem‖, especialmente quando esses
trabalhadores se organizam, numa sociedade industrial, sob a direção dos chefes de artes e
ofícios. 24
O Castilhismo, em sua recepção específica do comtismo, era antiliberal na medida
em que lia com restrições a prática política e a configuração das instituições dos
Federalistas rio-grandenses ou, em nível nacional, da política dos governadores, que acabou
por estimular a corrupção endêmica dos governos estaduais. Essa demarcação tardia dos
problemas do federalismo, realizada por Borges de Medeiros, consubstancia-se como
crítica da forma em que se recebeu e se adaptou as instituições políticas norte-americanas
(leia-se aqui crítica ao idealismo liberal de Ruy Barbosa). É uma aproximação que pode ser
considerada derivação da crítica antiliberal castilhista originária —e, portanto, regional—,
que se nacionaliza no projeto varguista desenvolvido no começo dos anos 30.
Paradoxalmente, na descrição dos pontos cardeais que envolveram a legitimação política da
Constituição do Rio Grande do Sul, a tradição liberal sempre seria evocada como um
modelo adequado, mas para realidades distintas das realidades política e institucional

23
Idem, p. 191.
24
Idem, p. 45.

172
brasileiras, numa espécie de antecipação à critica do liberalismo brasileiro realizada no
final dos anos 20 por Oliveira Vianna. 25
João Camillo de Oliveira Torres, no seu O Positivismo no Brasil (1957), é um dos
autores que identifica, no posterior regime estadonovista, a presença ou a continuidade do
positivismo em Vargas, pelo menos nas características fundamentais de sua Constituição —
que compara também à de Júlio de Castilhos, indicando influência ou pelo menos
semelhança— e em alguns princípios de natureza política. A forma como os deputados
gaúchos defenderam a vinculação entre a Constituição do Rio Grande do Sul e a
Constituição Republicana de 1891 não deixa margem de dúvida de que o realismo, presente
na argumentação de expoentes como Germano Hasslocher, levantando bibliografia
vinculada à tradição liberal para defender o ―presidencialismo puro‖ da Constituição
gaúcha, não prescinde do caráter positivista que fundamentava aquela carta política. A idéia
de Torres é que existe continuidade entre o positivismo gaúcho do Partido Republicano e a
idéia de Constituição e de Estado no Vargas que articula o golpe de 1937. Seguindo esse
raciocínio, levanta a hipótese de que Vargas seria o responsável pelos lineamentos gerais do
regime e que Francisco Campos figuraria apenas como o articulista que lhes daria forma
jurídica. 26
A tranqüila incorporação da idéia de república em um ideário de natureza ditatorial
é o ponto chave. Não são muitas as ditaduras que fazem circular com desenvoltura a
palavra república e muito menos permitem que ela represente a recuperação de uma
tradição desvinculada do governo dito ―autoritário‖. Comparar a visão em chave positiva
—por um governo de perfil centralizador— de um termo que evoca não a concentração de
poder, mas o seu compartilhamento com o povo, se deve, segundo Torres, à origem
positivista da perspectiva política de Vargas. Nesse sentido, a redescrição —a inversão de
valor— dos conceitos de representação política e de opinião pública, operada pelos

25
Cf. VIANNA, Francisco José de Oliveira. O Idealismo da Constituição. Rio de Janeiro: Editora Nacional,
1927, e MEDEIROS, Antônio Augusto Borges de. O Poder moderador na República Presidencial, op. cit.
Ver abaixo.
26
Cf. TORRES, João Camillo de Oliveira. O Positivismo no Brasil. Petrópolis/Rio de Janeiro/São
Paulo/Belo Horizonte: Vozes, 1957, p. 17. Presidencialismo puro é expressão de Pedro Vergara em
conferência intitulada Júlio de Castilhos e Getúlio Vargas e indica a possibilidade infinita de reeleição do
presidente da província, a escolha do vice pelo presidente, a ampliação da atividade legislativa do poder
executivo, etc. (p. 148). Diz Torres: ―valeria considerar a influência positivista [da Constituição gaúcha]. Esta
não se conseguiu negar. Conhecendo-se a formação do principal autor e cotejando-se a lei magna dos gaúchos
e os projetos de Teixeira Mendes, fica patente a filiação.‖ Ver p. 148, n. 3 e p. 17.

173
deputados gaúchos, também indica aqui, no contexto histórico da defesa da Constituição
riograndense, uma certa antecipação às limitações que imporá Oliveira Vianna aos mesmos
temas. Nesse sentido, aponta Paim que
A peculiaridade do castilhismo reside, pois, na admissão de que a posse do poder
político constitui a condição essencial e suficiente para educar a sociedade na busca
do bem comum. O bem comum deixa de ser uma barganha entre interesses,
sustentados por grupos sociais diversificados, e passa a ser considerado como objeto
de saber, de ciência. 27

Paim considera normal, portanto, que a construção do bem comum seja


simplesmente o resultado de uma barganha de interesses entre sujeitos atomizados, isto é,
um epifenômeno resultante da mão invisível existente no mundo privado. Aparentemente
não reconhece o fato de que o conceito envolve a existência do espaço público a partir do
qual se estabelecem politicamente os critérios para a definição do que seja bem comum. No
castilhismo, a representação de interesses deixa de fazer-se plural pela centralização da
autoridade e deixa, como conseqüência, de ser liberal. O que se destaca, na avaliação de
Paim, é que o conceito de representação política passa a figurar com conteúdo diverso do
modelo de representação liberal. O antiliberalismo castilhista recusa a idéia de interesse,
contrapondo-se ao modelo privado do liberalismo e recepcionando um certo
republicanismo no que respeita à finalidade do Estado. Para o castilhismo, a representação
política tem relação direta com a idéia de competência administrativa. A administração
pública é percebida como um ministério cuja finalidade é prestar um serviço público à
sociedade e revela a força moral de um governo com clara a necessidade, segundo a
aplicação mais rigorosa da doutrina positivista, da separação entre os poderes espiritual e
temporal. Ainda fiel àquela teoria, essa separação significava, para Castilhos, materializar a
liberdade de ensino, ―intimamente ligada à liberdade das profissões, abolidos todos os
iníquos e anárquicos privilégios escolásticos‖. Castilhos ligava a noção de bem comum
claramente aos escritos de Comte, vendo na Constituição do seu Estado um exemplo a ser
seguido pela nação, pois
[à] sua avantajada organização política e às suas leis cujo influxo moral tende a
dilatar-se constantemente, visto que realizam com justeza a harmonia permanente
da autoridade com a liberdade, da ordem normal com as expansões do progresso

27
PAIM, Antônio. Introdução. In: ARRAES, Raimundo de Monte. O Rio Grande do Sul e as suas
instituições governamentais, p. 13.

174
bem regulado; ao seu governo, tolerante e enérgico, que tem sabido manter
incólumes os interesses primordiais da comunhão rio-grandense; à sua
administração exemplarmente proba, solícita e precavida, que se reflete na contínua
prosperidade dos negócios estaduais em todos os ramos; a tudo acresce atualmente o
belo conjunto de futurosos institutos de ensino superior, que surgiram e funcionarão
livremente, isentos de perturbadoras intrusões do Estado, independente de vexatória
tutela oficial, fora da estufa de subvenções orçamentárias, que além de ilegítimas,
são humilhantes.28

Castilhos termina sua pequena carta de louvor à iniciativa privada que estimula o
aparecimento de instituições de ensino superior com a saudação positivista ―Saúde e
fraternidade‖. Demonstra, nesse texto, não só o domínio da doutrina positivista —o que o
confirma como um leitor de Comte sem intermediários— como também a estreita
vinculação dos institutos da Constituição gaúcha com essa origem teórica. É possível
concluir que não se trata, exclusivamente, da questão educacional, que em Comte autoriza a
intervenção do Estado somente nos níveis de formação básica do indivíduo. Transparece,
igualmente, a relação entre progresso econômico da sociedade e natureza ativa do governo
na produção da prosperidade, elemento fundamental na associação entre governo e
sociedade numa leitura do estágio positivo da humanidade, segundo Comte.
O relevante é a independência teórica dos positivistas republicanos gaúchos de
qualquer coordenação doutrinária do positivismo vinda eventualmente de outras paragens.
O castilhismo coloca-se, desta forma, como um fenômeno teoricamente original e
independente do processo de recepção do positivismo no Brasil operado no Rio de Janeiro
pelo Apostolado Positivista onde, no final do século XIX, um conjunto de intelectuais e
profissionais liberais fundou uma associação, para o estudo e a promoção das idéias
positivistas, que pretendia ter um apelo político. O rigor religioso e dogmático na defesa da
interpretação de Comte e de Laffite fizeram com que o Apostolado nunca obtivesse uma
adesão muito superior à meia centena de afiliados. Ainda assim, autores como Miguel
Lemos e Teixeira Mendes foram responsáveis por uma movimentação política de relevo
quando do advento da República, através da proposta de um projeto de Constituição
apreciado pelo Congresso Nacional. Com uma sugestão que não admitia muitas

28
CASTILHOS, Júlio Prates de. Carta ao Diretor da Faculdade de Medicina e Farmácia. In: A Filosofia
política positivista I. Apresentação por Celina Junqueira. Introdução por Antônio Paim. Rio de Janeiro:
Pontifícia Universidade Católica/Rio/Conselho Federal de Cultura/Editora Documentário, 1979 (Textos
Didáticos do Pensamento Brasileiro, vol. XIV), pp.24-26., p. 25-6.

175
contestações ou acordos, os membros do Apostolado Positivista se distanciavam,
claramente, do movimento político castilhista, consolidado no espaço político brasileiro.
Nesse sentido, não é possível afirmar a vinculação entre o Projeto de Constituição do
Apostolado Positivista do Rio de Janeiro, apresentado à constituinte federal, e a
configuração normativa da Constituição castilhista. Isto acontece pelo fato de Castilhos não
necessitar e nem aparentemente ter necessitado de intermediários para estabelecer-se como
ator político formado por uma clara determinação ideológica que remonta aos tempos da
Faculdade de Direito de São Paulo, onde ele, Borges de Medeiros, Lindolfo Collor e outros
predecessores de Vargas estabelecerem o positivismo como norte doutrinário de suas
aproximações com a política.

6.2 A Consolidação política da Constituição de 14 de Julho

O processo que consolidou a Constituição de 14 de julho de 1891 foi longo e


tumultuado, sendo o projeto político do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) logo
acusado de ditatorial e antidemocrático. As acusações vieram da província, mas igualmente
do Congresso Nacional, onde foi necessário defender a vinculação normativa e
principiológica entre as Constituições gaúcha e federal. Nesses termos, pode-se indicar
precisamente o conjunto de críticas ao modelo de governo consignado pelos castilhistas.
Assis Brasil, um opositor político ferrenho de Júlio de Castilhos desde a ocasião da
Constituinte gaúcha, escreve, em 1908, um libelo —que é, na verdade, o discurso de
fundação do Partido Republicano Democrático, uma dissidência do PRR—, acusando-o de
perverter os princípios cardeais da democracia e criticando a justificação de uma
Constituição de perfil ditatorial, circunstancial e sem fundamento. O autor revela uma
característica básica da Constituição, ―concebida e decretada em previsão de tempos
revoltos e difíceis, que, segundo a opinião do seu autor e de muitos outros republicanos

176
ilustres, reclamava a concentração do poder nas mãos do chefe do governo‖. 29 Para
responder ao estado de intranqüilidade pelo qual passava o Rio Grande do Sul bastava a
utilização pura e simples do instituto liberal do estado de sítio em lugar de uma
Constituição que, pretensamente, seria reformada quando a ameaça da revolta cessasse.
Para Assis Brasil, o movimento castilhista só se desenvolveu, no Rio Grande do Sul,
por conta da exacerbação do personalismo em detrimento do princípio democrático: quando
Campos Salles e seus aliados vislumbraram a possibilidade da candidatura de Castilhos à
Presidência da República o ―instinto de conservação‖, o medo de que sua doutrina fosse
imposta para todo o país, os fez recuar. Opina sobre a Constituição de Castilhos, a fim de
indicar o caráter não positivista —por negar as idéias de moderação e tolerância, que prega
o comtismo, ―em relação aos elementos constituintes da sociedade‖— dizendo, ainda, que
ouviu do próprio Castilhos que o projeto da Constituição ―tinha dois fins: o 1.º era criar um
aparelho capaz de agüentar a onda opositora que começava a invadir; o 2.º era tapar a boca
—uso a sua própria expressão— aos então dissidentes Republicanos‖. Ele concluiu
afirmando que nesse Estado, ―em que o Poder Executivo —o Presidente do Estado—
também exerce as funções do Legislativo e domina o Judiciário, não há regime
constitucional. Não basta a declaração de o haver, desde que ela não corresponde à
realidade‖. 30
Quando houve a necessidade de se defender perante o Congresso Nacional o caráter
republicano da Constituição gaúcha, o deputado castilhista Germano Hasslocher cita
Madison para argumentar que, se a Constituição preserva o caráter eletivo e temporário do
governo, indica que a sua origem deriva ―da grande massa popular‖. Assim, ―todo governo
que tiver essa origem e feitio é republicano‖. 31 Não há necessidade, continua, de estabelecer
a divisão de poderes nos moldes ingleses para que o essencial republicanismo da
Constituição assim configurada se estabeleça de forma indelével. Sustenta, a partir de
Madison, que a doutrina da radical separação de poderes lida em Montesquieu é falsa, e
―que a verdadeira interpretação que deve ser dada à teoria do grande pensador francês é que

29
BRASIL, Assis. Dictadura, Parlamentarismo, Democracia. Rio de Janeiro: Livraria Editora Leite
Ribeiro, Freitas Bastos, Spicer & CIA., 1927, p. 40.
30
Idem, pp. 56-7: ―Campos Salles e os maiores admiradores de Júlio de Castilhos na política nacional, digo
— estremeceram de horror quando palparam a hipótese de ser ele sagrado primeiro magistrado da nação‖. Ver
pp. 94, 92 e 102.
31
HASSLOCHER, Germano. Discurso na Câmara Federal, sessão de 8 de junho de 1907. In: OSÓRIO,
Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, p. 23.

177
só a reunião de todos os poderes em uma só mão é condenável‖. Na verdade, no que
respeita à configuração da Assembléia, Hasslocher argumenta que ―[o] que é essencial é
que a faculdade de tributar e autorizar despesas pertença exclusivamente a um poder que
não o Executivo, independente e separado deste. Esta sim é a função capital do Legislativo
e nela está toda a sua força.‖. Citando publicistas alemães, franceses ou norte-americanos
(Bluntschli, Korkunow, Duguit e Summer Maine, por exemplo) Hasslocher considera que a
radicalização da teoria da separação de poderes não pode servir para desconsiderar o fato de
que um executivo forte não significa um legislativo desprovido da função essencial de
determinar o orçamento executável. 32 Está reproduzida a idéia castilhista de limitação do
executivo no que for necessário para garantir a preservação da lisura e da parcimônia na
gestão do erário público. Para Júlio de Castilhos, a questão diz respeito à obediência ao
princípio federativo da Constituição Federal, e não à sua forma na composição de poderes:
no verdadeiro regime da República federativa não deviam os Estados ser coagidos a
reproduzir automaticamente o modo de funcionarem os órgãos do governo federal,
mas, sim, que deviam ficar simplesmente obrigados a ―respeitar os princípios
constitucionais da União‖, isto é, o sistema republicano federativo, cujas supremas
condições ou caracteres essenciais não envolvem, direta ou indiretamente, a
exigência da modalidade concernente à denominada divisão dos três poderes.33

De fato, o ataque dos federalistas à Constituição gaúcha —que gerou a impugnação


de diversos artigos no Congresso Constituinte— devia-se, dentre outros pontos, ao
estabelecido no art. 6º,34 em que fica muito claro o não reconhecimento do princípio central
da Constituição Federal de 1891 da divisão e harmonia dos poderes. O conceito de poder é
substituído pelo de órgão (Presidência, Assembléia e Magistratura) componente de um
único poder público. O fundamental, entretanto, é que em todo o debate travado —com as
tradições inglesa, francesa, alemã e norte-americana mobilizadas na defesa enfática da
Constituição riograndense, em detrimento de uma vinculação discursiva sub-reptícia a
Comte— o caráter republicano não se elimina da Constituição assumidamente autoritária

32
Idem, pp. 73, 77 e ss.
33
CASTILHOS, Júlio de. Manifesto ao Rio Grande do Sul. 20 de outubro de 1902. In: OSÓRIO, Joaquim
Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, p. 87.
34
―Art. 6º - O aparelho governativo tem por órgãos a Presidência do Estado, a Assembléia dos Representantes
e a Magistratura, que funcionarão harmonicamente, sem prejuízo da independência que entre si devem
guardar, na órbita da sua respectiva competência definida nesta Constituição.‖ Cf. RIO GRANDE DO SUL.
Constituição Política do Estado do Rio Grande do Sul, Decretada e Promulgada pelo Congresso Constituinte
em 14 de julho de 1891, p. 286.

178
então defendida. É nesta direção que João Camillo de Oliveira Torres interpretará a
conformação do Estado Novo como diretamente influenciada pela organização política de
uma constituição que garante, ao chefe do executivo, a concentração das atividades mais
caras ao governo do Estado, mas que afirma manter o caráter republicano.
Conviria assinalar a ênfase com a qual se festejou o 50º aniversário da República.
Um governo simplesmente antiliberal talvez não se sentisse à vontade para falar em
república; os positivistas orgulhavam-se da palavra e a interpretavam segundo
critérios muito pessoais e bem parecidos com o que vigorava depois de 10 de
novembro. Convém registrar que o Estado Novo surgia, então, como a verdadeira
realização da república, a continuação da obra de Deodoro, Benjamin e Floriano,
encerrado o ―hiato‖ dos governos civis e antipositivistas. (...) Esse republicanismo
ardente, associado à hostilidade às formas usuais de democracia era, de fato, a
essência do positivismo político. E era visível em certos documentos do Estado
Novo.35

Mas não é exclusivamente na concentração de funções do executivo que residiria a


alegada vinculação entre a manifestação jurídica por excelência do castilhismo e o regime
de seu mais destacado seguidor. Paralelo ao fato de que ―a suprema direção governamental
e administrativa do Estado‖ estava sob a ―inteira responsabilidade‖ do Presidente, conforme
preconizavam os Arts. 7º e 8º da Constituição do Rio Grande do Sul, já se apontava para a
marcada característica da continuidade administrativa, através da ditatorial possibilidade da
reeleição ―condicional e indefinida‖ —o Presidente pode ser reeleito ―se merecer o sufrágio
de três quartas partes do eleitorado‖, segundo o art. 9º—, defendida desde sempre pelo
próprio Júlio de Castilhos. 36 Argumentando que é ―uma visível anomalia a obrigatoriedade
absoluta da substituição de um governante‖, especialmente quando ele justifica a
permanência no cargo pela aprovação quase total de seus eleitores, pela competência
administrativa, Júlio de Castilhos considera a reeleição uma condição substancial de um
governo ―normal‖, configurando-se como ―exigência moralizadora‖, a oposição a esse
axioma não passando de ―sofismas peculiares à metafísica democrática‖. 37

35
TORRES, João Camillo de Oliveira. O Positivismo no Brasil, pp. 17-8.
36
Cf. OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, pp. 86 e ss.
37
Para Castilhos, os princípios republicanos que devem ser respeitados na composição constitucional dos
Estados, e que de nenhuma forma barram a possibilidade da reeleição, ―não são outros senão: 1º. a forma
federativa presidencial; 2º. o regime representativo mediante o voto popular e a representação política; 3º. a
temporariedade das funções políticas; 4º. a eletividade dos presidentes e dos membros das legislaturas; 5º. a
responsabilidade política e civil dos membros e agentes do Poder Executivo; 6º. a declaração de direito ou as
garantias de ordem e progresso.‖ CASTILHOS, Júlio de. Manifesto ao Rio Grande do Sul. 20 de outubro de
1902. In: OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, pp. 87-91.

179
Um ponto fundamental de alegada identidade entre a estrutura constitucional do
castilhismo e o Estado Novo é a capacidade ampliada de produção legislativa do Poder
executivo na Constituição do Rio Grande do Sul. O fundamento principal desse
deslocamento era a avaliação negativa do governo parlamentar, especialmente no que
respeita à alegada impossibilidade de debelar as crises políticas e sociais, pela substituição
constante de seus agentes, pela incapacidade de gerir os negócios públicos ou, enfim, pela
pressão constante dos parlamentares sobre o poder executivo, dificultando a
operacionalização da máquina administrativa, conforme anota em discurso outro deputado
gaúcho, Possidônio Cunha. Além disso, a dinâmica interna do parlamento configurar-se-ia,
sempre, como um duelo vazio, uma encenação de resultados práticos pouco expressivos,
onde qualquer novidade benéfica ao governo da coisa pública deriva da ―influência de uma
figura culminante, que submete a si o rebanho das mediocridades que a cercam.‖. 38 A essa
visão negativa da capacidade legislativa do parlamento opõe-se o entendimento de que o
poder executivo, na dinâmica determinada pela Constituição em seus artigos 31 e 32,
dispõe de um complexo mecanismo de chancela pública envolvendo os mais diversos
atores políticos no processo de promulgação, o que garantiria à atividade legislativa não ser
uma função ditatorial do Presidente. 39 Ocorre que este mesmo processo era controlado
diretamente pelo executivo, que detinha a prerrogativa de indicar todos os cargos políticos
capazes de obstar ou mesmo opinar sobre a confecção legislativa. Além disso, segundo o
art. 34 as medidas de natureza administrativa seriam decretadas pelo Presidente sem que
fosse necessária a observância do processo legislativo. Na prática, o Presidente da província
detinha a exclusividade de decidir o que deveria ser considerado o direito no Rio Grande do

38
OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, pp. 158-9.
39
―Art. 31- Ao presidente do Estado compete a promulgação das leis, conforme dispõe o n.º.1 do art. 20. //
Art. 32- Antes de promulgar uma lei qualquer, salvo o caso a que se refere o art. 33, o presidente fará publicar
com a maior amplitude o respectivo projeto acompanhado de uma detalhada exposição de motivos. // §1º.- O
projeto e a exposição serão enviados diretamente aos intendentes municipais, que lhes darão a possível
publicidade nos respectivos municípios. // §2º- Após o decurso de três meses, contados do dia em que o
projeto for publicado na sede do governo, serão transmitidos ao presidente, pelas autoridades locais, todas as
emendas e observações que forem formuladas por qualquer cidadão habitante do Estado. // §3º.- Examinando
cuidadosamente essas emendas e observações, o presidente mantém inalterável o projeto, ou modificá-lo-á de
acordo com as que julgar procedentes. // §4º.- Em ambos os casos do parágrafo antecedente, será o projeto,
mediante promulgação, convertido em lei do Estado, a qual será revogada se a maioria dos conselhos
municipais representar contra ela ao presidente.‖. Cf. RIO GRANDE DO SUL. Constituição Política do
Estado do Rio Grande do Sul, Decretada e Promulgada pelo Congresso Constituinte em 14 de julho de 1891.
In: OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, pp. 285-302.
(Apêndice)

180
Sul. Assim, só soaria paradoxal a afirmação de Osório, para quem ―a autoridade do
presidente está sempre sujeita ao império das leis que ele promulga e às quais deve
obediência‖, se não fosse considerado que a soberania, pela Constituição gaúcha, implica
um modelo de representação nos moldes hobbesianos, quando a lei se realiza como um
comando do soberano, ―como a palavra daquele que tem direito de mando sobre outros‖. 40

6.3 Ditadura positivista e Estado Novo

O arranjo jurídico da Constituição do Rio Grande do Sul permite que ela seja
considerada o fundamento de uma ditadura constitucional, tanto pelo fato de os governos
castilhistas se arvorarem a realizar um modelo científico de administração pública,
impossível de ser racionalmente questionado, como porque a classificação de ditadura
constitucional era a leitura que faziam os adversários políticos imediatos do PRR. leitura
corroborada por Comte, que valora positivamente o conceito. O termo ditadura positiva,
em Comte, sempre esteve, no Brasil, marcado pela intervenção dos positivistas do
Apostolado carioca que descreviam-na como um elemento a mais na composição
conceitual da obra do autor francês. Uma outra manifestação contra o tema foi a
aproximação realizada pelos adversários do castilhismo, notadamente por Assis Brasil, em
1908. O castilhismo foi visto como uma orientação política personalista e tirânica. É em
Comte, portanto, que reside o núcleo da discussão sobre a configuração estrutural do
Estado castilhista. O problema que se coloca é se o castilhismo, ao assumir a sociocracia
comteana como tipo de Estado, incorpora todos os elementos do modelo de ditadura
positiva, especialmente o modo de desenvolvimento político-econômico subjacente à
dinâmica de governo.
De fato, no seu Sistema de Política Positiva ou Tratado de sociologia instituindo a
religião da humanidade (1851-1881), Comte indica que um sistema político pode ser
governado exclusivamente pela imperatividade da força material. Se regras de convivência
são de fato impostas, ―ditadas‖ pelo governante, todas as formas de governo são, em
40
OSÓRIO, Joaquim Luís. Constituição política do Estado do Rio Grande do Sul, p. 117; HOBBES,
Thomas. Leviathan, Cap. XV, p. 217.

181
verdade, ditatoriais, interpretação que indica um sentido para a ordenação social: o
progresso pela industrialização e a ordem pela unidade social natural, que desponta no
estágio da política positiva. Divide a evolução da instituição ditatorial em duas fases. Uma,
que se poderia chamar de remota ou de sentido positivo, é a derivada da história romana,
onde um sistema jurídico específico autorizava, para a segurança do Estado, a concentração
de poder político, a suspensão da ordem jurídica e sua transmissão mediante aprovação
pública, a ―sucessão sociocrática‖. A segunda fase está vinculada aos acontecimentos
históricos que derivam das revoluções burguesas na Europa, onde os progressos do corpo
social transcendem a influência dos ditadores, que continuam a carecer da aprovação social
para permanecerem ditando a ―fortuna nacional‖. O problema é que, sob a necessidade do
desenvolvimento sistemático da economia industrial, o tipo de governo originariamente
ligado ao dos chefes de natureza militar não está mais adequado aos novos tempos. Assim,
a constituição política da sociedade, vinculada anteriormente a um estabelecimento pela
força, une-se à riqueza, característica do tempo industrial, 41 o que não implica dizer que a
ditadura não seja historicamente relevante nem tenha um caráter intrinsecamente positivo,
mas que o desenvolvimento natural da humanidade em direção à ordem e ao progresso
prescinde de um modelo de organização política em que o processo de representação não
passe pela manifestação organizada e coletiva das classes. Para Comte, o processo histórico
de consolidação da sociedade industrial no Ocidente obedece a inflexões especiais que
determinam o desenvolvimento específico de formas de governo, especialmente na Europa.
Ele argumenta que o diagnóstico do atraso dos países vinculados ao tipo de governo
retrógrado, ditatorial militar, é fulminante. Fazendo a distinção entre os desenvolvimentos
econômico-políticos da Espanha, da Inglaterra e da França, indica que o modelo de
trabalho, observado na colonização espanhola é, no fundo, de natureza degradante, pois que
vinculado à conquista. Sustenta que
A colonização ibérica tornou-se tão sistemática que se constituiu imediatamente em
um elemento indispensável da política retrograda. Forneceu-lhe não somente
recursos materiais, mas sobretudo uma diversão moral e mental que, distante da
metrópole, dispersou as individualidades pouco disciplináveis. Pelo contrário, as
colônias britânicas emanaram essencialmente das livres expedições, das quais os

41
Cf. COMTE, Auguste. Système de politique positive ou Traité de sociologie instituant la religion de
l'humanité. Osnabrück : Otto Zeller, 1967 (1851-1881). Tome troisième, pp. 573 e ss e p. 394.

182
fundadores privados, longe de sofrer o impulso ditatorial, fugiam freqüentemente à
perseguição política ou religiosa. 42

Se a Espanha se adianta um século à Inglaterra e à França na dinâmica colonial, isso


reverter-se-á em prejuízo, pois não há possibilidade de renúncia da supremacia espiritual de
uma ditadura retrógrada (ou pré-moderna) cujo progresso depende exata e exclusivamente
do concurso de uma ditadura nesses moldes. Na situação dos países colonizadores de
modelo moderno e protestante, pois, segundo a avaliação comteana, a natureza do processo
sustenta o desenvolvimento de uma sociedade onde a liberdade de discussão inaugura o
modelo de ditadura republicana moderna. É o caso histórico da Inglaterra de Cromwell,
primeiro a perceber a necessidade de um sistema político tendente à ―sociocracia final‖ de
Comte.
Para Joseph Love, no livro O Regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 30
(1971), Júlio de Castilhos foi um realizador fiel da doutrina política de Comte no que
respeita à organização do governo e à sua conduta como líder,
Castilhos extraiu de Comte a crença na forma de governo republicana e ditatorial:
abraçou a fé de Comte pelo governo das classes conservadoras e defendeu
fervorosamente a ordem como base do progresso social. ―Conservar melhorando‖
transformou-se no lema de Castilhos; em numerosas ocasiões, ele afirmou sua
dívida teórica a Comte. Castilhos pode ser corretamente interpretado como um
conservador, mas seu interesse pelos elementos progressistas do positivismo não era
simples artifício; a filosofia social de Comte forneceu a Castilhos e a sua geração
uma versão paternalista e altamente racionalista do liberalismo do século XIX. Em
particular, Castilhos e outros positivistas adotaram do filósofo as idéias de defesa
das liberdades individuais e a condenação da escravidão, e suas exigências quanto à
separação entre a Igreja e o Estado, à educação primária universal e à intervenção
estatal para proteger os operários industriais. 43

Definida a fonte doutrinária, fica clara a tendência natural da oposição ao


castilhismo em classificá-lo como ditadura e mesmo a dos próprios castilhistas em se verem
realizando uma ditadura científica, embora entre os dois lados, a valoração e mesmo a
significação do termo tenha conotações distintas. É patente, no conceito comteano de
ditadura republicana, a preocupação em realizar o bem público, numa dinâmica em que a

42
Idem, p. 575.
43
LOVE, Joseph. O Regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 30, p. 39.

183
participação política deve, necessariamente, manifestar-se.44 O que ocorre é que a
Constituição de 14 de julho deu a Castilhos e sucessores um poder ditatorial de fato, só
amainado pelo Tratado de Paz de Pedras Altas, de 1923, que pôs fim à guerra civil que se
instalou no Estado contra o governo de Borges de Medeiros. Os pontos cardeais do Tratado,
realizado com os partidários de Assis Brasil, indicam que, efetivamente, consolidava-se
uma sistemática de perpetuação no poder pela via da hereditariedade sociocrática de
Comte, em que os melhores quadros eram escolhidos para suceder o Presidente do Estado.
As seis primeiras cláusulas, chanceladas pelo governo federal, determinam:
PRIMEIRA – Reforma do Art. 9.º da Constituição, proibindo a reeleição do
presidente para o período presidencial imediato. Idêntica disposição quanto aos
intendentes. // SEGUNDA – Adaptação às eleições estaduais da legislação eleitoral
federal. // TERCEIRA – Consignar no projeto de reforma judiciária uma disposição
que conceda à justiça ordinária a atribuição de julgar os recursos referentes às
eleições municipais. // QUARTA – As nomeações de intendentes provisórias serão
sempre limitadas aos casos de completa acefalia administrativa, quando, em virtude
de renúncia, morte, perda do cargo ou incapacidade física, ou por falta de eleição,
não houve intendentes, vice-intendentes ou conselhos municipais. // QUINTA – Os
intendentes provisórios procederão às eleições no prazo improrrogável de sessenta
dias, a contar da data das respectivas nomeações. // SEXTA – O vice-presidente
será eleito ao mesmo tempo e da mesma forma que o presidente. Se, no caso de
vaga, por qualquer causa, o vice-presidente vier a suceder ao presidente antes de
decorridos três anos do período presidencial, proceder-se-á à eleição dentro de
sessenta dias. Idêntica disposição quanto aos vice-intendentes.45

Estas medidas indicam, em negativo, a intensidade da centralização política


permitida juridicamente pela Constituição e exercida de fato pelo Presidente da Província.
A cláusula constitucional que autorizava a reeleição, dogma castilhista da continuidade
administrativa, é o ponto mais relevante da carta. Impediu o que seria a sexta reeleição de
Borges de Medeiros e pôs fim a uma guerra civil que o opunha a Assis Brasil. Borges
terminou seu mandato, mas teve que lutar, através da movimentação política de Getúlio
Vargas na Câmara Federal, para evitar a intervenção federal no Estado. Esta luta se deu

44
Essa é, na verdade, a posição dos positivistas brasileiros, desde Teixeira Mendes e Miguel Lemos até seus
seguidores contemporâneos. Ver, a título de exemplo, JUNIOR, João Ribeiro. Augusto Comte e o
positivismo. Campinas: Edicamp, 2003, pp. 194 e ss. E LACERDA, Arthur Virmond de. A República
positivista: teoria e ação no pensamento político de Augusto Comte. Paraná: Centro Positivista do Paraná,
1993, pp. 49 e ss.
45
TRATADO DE PAZ DE PEDRAS ALTAS. Rio Grande do Sul, 14 dez 1923. In: A Filosofia política
positivista II. Apresentação por Celina Junqueira. Introdução por Antônio Paim. Rio de Janeiro: Pontifícia
Universidade Católica/Rio/Conselho Federal de Cultura/Editora Documentário, 1979 (Textos Didáticos do
Pensamento Brasileiro, vol. XV), pp.31-34., pp. 31-2.

184
também no campo doutrinário. No momento em que tornou-se necessário defender a
continuidade do castilhismo no Rio Grande do Sul, Raimundo de Monte Arraes é
convidado por Borges de Medeiros a realizar uma defesa doutrinária do castilhismo como
uma espécie de adaptação e renovação do sistema representativo.46 No livro já citado, O
Rio Grande do Sul e as suas instituições governamentais (1925), Monte Arraes procura
recuperar três momentos do ataque político à Constituição, em particular e ao regime
castilhista em geral, os quais envolvem a questão da representatividade e da
―republicanidade‖ do governo, a problemática da divisão dos poderes segundo a
Constituição de 14 de julho e a determinação das garantias constitucionais por ela
delineadas.47
É possível afirmar que a obra em si é mais que um instrumento de propaganda. Sua
qualidade se evidencia não pelo tom justificatório, mas pela capacidade em sintetizar os
princípios castilhistas concernentes às instituições políticas fundamentais à realização da
ordem e do progresso. Monte Arraes será vinculado, nos anos subseqüentes, não só à defesa
do castilhismo, mas desenvolverá papel fundamental na consolidação política do Estado
Novo, momento político para o qual, mais uma vez, servirá de ideólogo oficial ao analisar
os pontos básicos da Constituição de 10 de novembro de 1937.
Em sua contribuição político-doutrinária para a consolidação de Borges de
Medeiros no Rio Grande do Sul, Monte Arraes intentará demonstrar que o princípio central
a partir do qual o governante deve ser determinado, no momento da eleição, é a capacidade
de ―bem servir ao interesse público‖. Utilizando-se basicamente da doutrina liberal inglesa
e norte-americana —como os deputados gaúchos quando da primeira defesa do caráter
republicano da Constituição gaúcha, ainda no começo da república—, afirma que a
reeleição não equivale à hereditariedade (vitalícia por excelência) mas a uma estabilidade
política, característica da própria Constituição Republicana dos Estados Unidos da
América. Argumenta que
as eleições sucessivas do presidente do Rio Grande do Sul em nada contrariam os
propósitos e a finalidade da forma republicana, pois não responde à hereditariedade
que ela aboliu, não ressuscita as classes privilegiadas enquistadas no seio das velhas
monarquias, não viola a temporariedade adjeta à forma republicana, e nem sequer

46
Está é a segunda defesa nacional do Castilhismo, tendo a primeira se manifestado, quando da consolidação
da Constituição Gaúcha no início dos 1900, perante a Assembléia Nacional.
47
Cf. ARRAES, Raimundo de Monte. O Rio Grande do Sul e as suas instituições governamentais, p. 17.

185
chega à adoção da vitaliciedade — coisa, aliás, perfeitamente permitida dentro da
constituição e do espírito do regime. 48

Para Monte Arraes, a reeleição sucessiva não macula o sistema representativo por
estar prevista a realização de eleições periódicas, composta a massa eleitoral pelo conjunto
da população apto a votar e porque não existe nenhum tipo de privilégio de classe na
organização política do Estado. Ruy Barbosa, opositor direto do PRR, receberá, de Monte
Arraes, um tratamento especial, por ser o mais proeminente defensor da doutrina liberal. 49
Para Monte Arraes, o regime representativo não é necessário ao estabelecimento da
democracia e muito menos a divisão dos poderes à configuração de seu republicanismo: ―A
tese inversa, sim, corresponde a um axioma: a existência dos poderes, órgãos da soberania,
supõe a pré-existência do regime democrático, popular, representativo‖. A separação dos
poderes é, para o autor, como uma norma simplesmente relativa ―e susceptível de grandes
abrandamentos na sua aplicação‖.50
Em síntese, ao determinar que a separação não deve ser necessariamente de poderes,
mas de funções; indicar que o presidente não tem a competência exclusiva de promulgar
leis que dependem de aprovação dos Intendentes municipais; avaliar a independência da
magistratura pelas garantias de inamovibilidade, vitaliciedade e irredutibilidade dos
vencimentos; indicar a responsabilidade do presidente, etc., Monte Arraes só repetiu os
argumentos a favor da Constituição do Rio Grande do Sul que já haviam sido esposados,
nos primeiros anos do século, pelos representantes gaúchos na Câmara de Deputados. O
importante é frisar que, para ele, a ―grandeza cívica‖ do Estado está diretamente
relacionada com a riqueza de seu povo: ―[o] seu valor intelectual e moral se afere pelo
brilho dos que o representam, política e socialmente, pela formação de uma verdadeira elite
dirigente, que encabeça todos os domínios de sua administração (...)‖. A fórmula do
sucesso político do povo gaúcho é a transmissão pacífica e constante do poder político entre

48
Idem, p. 46.
49
Idem, pp. 34 e 59. Monte Arraes não perderá a oportunidade de realizar uma crítica à doutrina de Ruy,
contra a percepção liberal desse autor, já que opõe a responsabilidade do governante à forma republicana,
indicando a falsa junção entre ambos os elementos como uma característica dos governos liberais surgidos em
oposição ao poderio do absolutismo. Em suma, uma crítica claramente antiliberal. (pp. 35-6).
50
Idem, pp. 60 e 75.

186
uma elite burocrático-administrativa que representa o legado e a continuidade do
castilhismo.51
A defesa do ethos castilhista não circulava somente pelas manifestações doutrinárias
de seus defensores originais, mas principalmente pelos mais próximos descendentes
políticos. A relação de Getúlio Vargas com a doutrina de Castilhos é tanto seu
envolvimento direto em praticamente toda a história de ascensão do PRR no Rio Grande do
Sul, passando pela sua formação positivista na Faculdade de Direito de Porto Alegre em
1907 —junto ao Bloco Acadêmico Castilhista, com João Neves da Fontoura, Firmino Paim
Filho e Joaquim Maurício Cardoso—, quanto o papel central como Deputado pelo seu
Estado na Câmara Federal, a partir do final de 1922. Por esta razão, cabe sustentar que a
adesão ao positivismo, em Vargas, teve um caráter muito mais vinculado à constituição
histórica de sua prática política que com sua particular absorção da doutrina de Comte, que
leu, como leu Spencer, Darwin, Zola. 52 Essa prática política conserva, obviamente, os
caracteres mais expressivos da tradição positivista-castilhista gaúcha, mas não se deixou
enclausurar na ortodoxia doutrinária a ponto de permitir que sua personalidade fosse
tragada pela inflexibilidade absoluta, como aconteceu com o próprio Castilhos. Muito pelo
contrário, Vargas será considerado quase unanimemente, como um hábil conciliador, o que,
em tese, o distanciaria de sua origem castilhista. 53
Ricardo Vélez Rodríguez aponta um fator importante para compreender a figura
político-intelectual de Vargas na configuração do Estado Novo: a sua formação política, de
caráter nacional, não se fez, exclusivamente, a partir do momento em que se torna
Presidente do Rio Grande do Sul em 1928, mas especialmente durante seu mandato de
Deputado, junto à Assembléia Nacional. 54 Como parlamentar, Vargas demonstrará que o
horizonte originário do castilhismo haveria de ser suplantado pela aproximação com a
sociologia dos discípulos de Le Play, especialmente Oliveira Vianna, cuja obra Populações
meridionais do Brasil será efusivamente citada em discursos onde desenvolve a sua idéia
de formação do Estado nacional. Para Vargas, a configuração sociológica do país obrigou-o

51
Idem, pp. 151-2.
52
LOVE, Joseph. O Regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 30, pp. 233 e ss.
53
Idem, p. 235.
54
Cf. RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Castilhismo, pp.229 e ss. O autor ressalta neste capítulo, intitulado
―Getúlio Vargas, parlamentar‖ alguns trechos que são especialmente esclarecedores. Os discursos aqui
utilizados são os integrais, constantes nos Anais da Câmara dos Deputados.

187
a organizar-se numa estrutura de Estados federativos, acostumados à autonomia. A
Independência trouxe a necessidade política de centralização, que não passou —por conta,
inclusive de seu sistema parlamentar deficiente e fraco ante o Poder Moderador e pela sua
capacidade de absorver as autonomias regionais— de um ―regime artificial e transitório‖
que quebrantou ante a natural ―expansão dos foros regionais, reivindicando direitos, às
vezes com armas na mão‖. 55
Justificando a assinatura do acordo político que havia posto fim às discussões
parlamentares sobre a revisão da Constituição de 14 de julho, já num contexto em que o
regime Republicano se encontrava consolidado, Vargas reforça a idéia de que o princípio
fundamental que guiava a bancada gaúcha era o federalismo. A proteção do Estado —
através da proteção a pontos básicos da constituição, como a limitada extensão da
intervenção federal— significava a proteção de um ente e empecilho da federação e uma
garantia contra a construção de um verdadeiro ―Estado unitário‖: ―Haviam estacado aí as
tentativas intervencionistas que, se fossem além, poderiam desnaturar a federação
consagrada pela República, como uma vitória definitiva de nossas aspirações liberais,
refletidas na história e firmadas na força incoercível das próprias leis naturais‖. A
destruição da autonomia dos Estados pelo cerceamento de direitos constitucionais
conferidos, há décadas, pela República, era inadmissível. 56
Oliveira Viana, em 1925, faz perceber, pela avaliação sociológica da formação
brasileira, que não há opção outra que não a defesa do federalismo contra as ingerências do
poder político central, geralmente incapaz de fazer funcionar a máquina pública —
organização do direito processual e da educação, por exemplo— como os poderes
estaduais o fazem, e não —como sustenta Ricardo Vélez Rodríguez— , uma demonstração
textual de que ―Getúlio descobriu (à luz da obra de Oliveira Vianna), no processo
centralizador e unificador empreendido pelo Império, o modelo que ele próprio poria em
execução anos mais tarde‖. Para Vargas, fazendo um uso não ortodoxo do ―arguto
sociólogo‖, ―A federação implanta-se, entre nós, com caráter definitivo, por ser a única
organização compatível com a vida orgânica do Brasil. Só a federação satisfaz à

55
Cf. VARGAS, Getúlio Dorneles. Discurso de 21 de outubro de 1925. In: BRASIL, Congresso Nacional.
Diários da Câmara dos Deputados. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1925, pp. 4699-4744. Fac-símile.
Disponível em: <http://imagem.camara.gov.br/dc_20b.asp?selCodColecaoCsv=D&Datain=21/10/1925>.
Acesso em: 23 set 2005, p. 4722.
56
Idem, pp. 4721-2.

188
diversidade das nossas bases geográficas, das nossas tradições históricas, da nossa estrutura
social‖.57
No texto não há como ligar as tendências notórias de Vargas em incorporar o perfil
ditatorial do Rio Grande do Sul como organizado por Castilhos —e aqui os discursos
parlamentares prestam-se, precisamente, à comprovação dessa idéia— à concepção de
Estado nacional forte de Oliveira Vianna, que estaria sustentando uma saída em que a
centralização determina o definhamento definitivo do federalismo executado pela 1.ª
República. O Vargas castilhista não compartilha dos ideais de Oliveira Vianna, que torna
central a configuração do Poder Moderador. Nesse momento, o unitarismo de Vianna opõe-
se ao federalismo de Vargas. Porém, se a ligação entre o ator político gaúcho e o sociólogo
fluminense não é próxima nesse momento, não deixará, no Estado Novo, de ser profunda.
Talvez a citação valha como apontamento para o futuro, pois efetivamente Vargas
sustenta: ―como bem observa Oliveira Vianna: ‗Não é possível nenhuma organização
central forte em um país de base física vasta, de baixa densidão demográfica e de circulação
rudimentar‘‖.58 Mas o contexto ainda é a federação. O problema é comprovar,
historicamente, que a federação é o rumo do país na República e não que o Estado forte é
possível antes de (ou para) o desenvolvimento do Brasil. Na verdade, é o modelo de Estado
que se realiza estaticamente —através da Constituição— e na sua dinâmica —pela
configuração de uma burocracia de caráter técnico-jurídico— o principal liame entre a
visão política de Vargas e a percepção sociológica de Oliveira Vianna em seus prognósticos
antiliberais. O modelo de Estado e de Constituição, Vargas os traz de casa. A visão política
centralizadora também. Mas se Oliveira Vianna já aparece, para Vargas, à época, como o
fundamento da interpretação do país, isto não ocorre por acaso. Quando tiver a necessidade
de superar o desmantelamento da nação através da centralização do poder político é que
Oliveira Vianna surge não somente como texto fundamental, mas igualmente como
partícipe do Estado Novo.

57
Idem, p. 4723.
58
Idem, p. 4722.

189
7. OLIVEIRA VIANNA E O NOVO ESTADO CORPORATIVO

Com raízes no pensamento de Alberto Torres, influenciado por Le Play e em


diálogo aberto com Spencer, Francisco José Oliveira Vianna (1883-1951) é o pensador que
primeiro realizará uma densa avaliação sociológica da estrutura e da organização do Estado
brasileiro, a partir dos anos 20, com o livro Populações meridionais no Brasil (1920),
escrito ainda em 1918. Na configuração político-jurídica do Estado Novo é o responsável
pela organização constitucional e execução (como consultor da Justiça do Trabalho no
Governo provisório e como Ministro do Tribunal de Contas da União no Estado Novo) de
um corporativismo cuja origem remota encontra-se em Durkheim (na sua análise das
características de uma organização societária originalmente medieval, manifesta nas antigas
corporações de ofício, chave hermenêutica das sociedades modernas).59 O modelo de
Estado corporativo de Oliveira Vianna, cujo papel de representação política e de relação
entre Estado e sociedade é realizado primordialmente pelo assento de representantes de
classe junto aos órgãos do Estado —a representação classista sendo considerada inclusive
mais legítima do que a representação parlamentar de cunho liberal— é o centro do trabalho
intelectual desenvolvido pelo autor, e a base a partir da qual desenvolverá sua defesa do

59
Para Durkheim a sociedade política moderna é ―formada pela reunião mais ou menos considerável de
grupos sociais secundários, submetidos a uma mesma autoridade, que por sua vez não depende de nenhuma
autoridade superior regularmente constituída‖. A atenção do sociólogo francês volta-se para as organizações
societais de natureza secundária (em sua maioria, de grupos profissionais distintos), que seriam ―a condição
fundamental de toda organização mais elevada. Longe de estarem em oposição ao grupo social encarregado
da autoridade soberana e que chamamos mais especialmente de Estado, é este que supõe sua existência; ele só
existe onde eles existem.‖. DURKHEIM, Émile. Lições de sociologia. Prefácio Hüseyin Nail Kubali.
Introdução Georges Davy. Tradução Mônica Stähel. São Paulo: Martins Fontes, 2002, pp. 63-4. Para
confirmar o corporativismo de Oliveira Vianna como geneticamente originado em Durkheim, posto que o
autor brasileiro encontrava-se influenciado pela ciência social francesa (e esta, por sua vez, pelo autor das
Lições de sociologia), ver VIANNA, Luiz Jorge Werneck. Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira
Vianna com Tavares Bastos. In: BASTOS, Elide Rugai; MORAES, João Quartim de (Orgs.). O Pensamento
de Oliveira Vianna. Campinas: Unicamp, 1993, pp. 351-404.

190
Estado Novo, respectivamente nos livros Problemas de Direito Corporativo (1938) e O
Idealismo da Constituição (1939), em 2ª edição.60
A análise sociológica de Oliveira Vianna importa na configuração dos fundamentos
do Estado Novo por dar origem a um modelo de ordem política cujas características serão
incorporadas à Constituição de 1937. Sua sociologia possibilitará identificar o paralelismo
com o pensamento de Francisco Campos e a razão pela qual este último se torna o
―vencedor‖ na composição de um modelo político global a ser validado pelo regime
estadonovista. Enquanto Campos sustentará, ainda nos anos 10 do século XX, um
americanismo pelo alto, isto é, a idéia de uma sociedade material coordenada pelo Estado,
Oliveira Vianna, nesta mesma década, perceberá, no Brasil, que a herança ibérica é positiva
e que seu solidarismo intrínseco colabora na fixação de uma institucionalidade nos moldes
anglo-saxões, muito mais do que as instituições que demandam uma opinião pública não
existente. Contra o individualismo liberal —incapaz de se fixar como orientação cultural
para um povo em atraso material—, Oliveira Vianna indica a matriz coorporativa como
muito mais próxima do modelo de sociabilidade existente no país. No Estado Novo vencerá
o americanismo de Campos, mas Oliveira Viana figurará como contraponto a ser
considerado pelo caráter legitimador de sua proposta coorporativa ante a institucionalidade
antiliberal.
Desde seu texto O Idealismo na Constituição (1927), 1ª edição, Oliveira Vianna
sustenta que a sociedade política brasileira carece de opinião pública ―organizada,
arregimentada e militante‖ —com força moral suficiente para obrigar a classe política e aos
detentores do poder a ouvi-la e considerá-la—61 o que leva a desconsiderar, junto à
ausência do sentimento do interesse coletivo e à incapacidade de organização de classe, a

60
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1938; VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 2ª edição
aumentada. São Paulo/Rio de Janeiro/Recife/Porto-Alegre: Companhia Editora Nacional, 1939. (Série 5ª
Bibliotheca Pedagógica Brasileira, Vol. 141). Este segundo livro é uma completa reescritura do livro
homônimo publicado em 1924. Aqui, além da discussão sobre a constituição da opinião pública sob o regime
parlamentar (comparando as limitações da organização política brasileira contrapondo-as à solidez da
dinâmica política inglesa), Vianna organiza uma exposição sobre a história institucional brasileira, desde o
império (―O primado do Poder Moderador‖), passando pela 1ª República (―O Primado do Poder Legislativo‖,
originalmente o conteúdo da primeira edição) culminando, enquanto evolução histórica, no Estado Novo (―O
Primado do Poder Executivo‖). Nas partes subseqüentes desenvolve sua tese do corporativismo aplicada à
nova realidade política nacional, o que chama de idealismo (concreto e nacional, vinculado ao meio e à
experiência social brasileira), opondo-a ao idealismo universal e racionalista do liberalismo.
61
VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 1ª edição. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1927, pp. 43 e ss.

191
possibilidade de um regime democrático parlamentar nos moldes anglo-saxões. A recepção,
pela Constituição de 1891, do modelo de democracia parlamentar à inglesa foi a origem,
para Oliveira Vianna, do reforço do localismo e do mandonismo durante a 1ª República. As
oligarquias não são, para o Brasil interpretado pelo autor, um mal em si. É preciso,
entretanto, orientá-las de maneira que escapem do unilateralismo e do exclusivismo por
meio da constância segura e cogente de uma opinião pública que ainda inexiste. Fazem-se
necessários interesses organizados politicamente por canais atuantes a fim de o próprio
poder executivo escapar do imobilismo filial de uma sociedade silente e de um governo
incapaz de moldar, com antecedência e meditação, um projeto de nação. A interação
organizada entre opinião pública e poder político deveria forjar um governo que é o oposto
do nosso ―governo das coteries politicantes‖. Está claro que é preciso um aperfeiçoamento
que instaure uma opinião pública no país, objetivo irrealizável por uma simples reforma
política.
Ora —para o nosso caso, por exemplo— a verdade é que as reformas políticas, isto
é, as reformas constitucionais, serão apenas auxiliares de outras reformas maiores,
de caráter social e econômico, que deveremos realizar, se quisermos estabelecer
aqui o ―regime democrático‖, o ―regime de opinião‖, o ―regime do governo do povo
pelo povo‖. Pode-se dizer mesmo que o estabelecimento deste regime político em
nosso povo é antes de tudo um problema social e econômico — e só
secundariamente um problema político e constitucional. 62

Dentre as políticas capazes de implementar tal estado de coisas, Oliveira Vianna percebe
imediatamente que o caminho da reforma política ―por cima‖, pela mudança pura e simples
do sistema político, não é capaz de sustentar as instituições, numa realidade social
completamente distinta —especialmente na sua constituição histórica— da sociedade
anglo-saxã. É o caminho do ―velho idealismo dos ‗históricos‘‖ 63 e pontua, logo após seu
diagnóstico, o das seguintes reformas de natureza econômica e social:
o estabelecimento da ―pequena propriedade‖; um sistema de ―arrendamentos a
longo prazo‖ ou um regime de caráter enfitêutico‖; a difusão do ―espírito

62
Idem, p. 64.
63
Idem, pp. 67-8: ―Estes eram espíritos dedutivos, que partiam de certos postulados e deles extraiam os
elementos estruturais do seu sistema político. Careciam do sentido objetivo da realidade e nem julgavam
necessário possuí-lo. Tendo de organizar uma Constituição para o Brasil ou para o Camboja, para o povo
inglês ou para um kraal da Hotentocia, criariam o mesmo sistema de governo, com as mesmas peças, as
mesmas articulações, a mesma construtura, o mesmo modo de funcionamento, os mesmos freios, as mesmas
válvulas de segurança: não lhe modificariam nada, não alterariam sequer o tamanho da cabeça de um parafuso
— porque isto equivaleria a comprometer a ‗beleza do regime‘ ou quebrantar a ‗harmonia do sistema‘.‖

192
corporativo‖ e das ―instituições de solidariedade social‖; uma ―organização
judiciária‖ expedita, pronta e eficaz; uma ―magistratura autônoma‖, com força
moral e material para dominar o arbítrio dos mandões locais, etc. 64

Não basta organizar um sistema político de natureza autoritária para implantar —como se
instrumento fosse— um regime de opinião pública no modelo anglo-saxão.65 Na verdade,
desde Populações meridionais do Brasil (1920), Oliveira Vianna acredita na centralização
do poder político no Império —obra de Bernardo de Vasconcelos e do Visconde do
Uruguai— como a grande força centrípeta que conseguirá, pela constrição repressiva,
libertar as províncias do caudilhismo e das oligarquias. 66 Esses fatores de ordem ―política e
policial‖, cujo ápice será a função reguladora do poder pessoal do Imperador, cristalizou
um parlamentarismo à brasileira, ―corrupção mais completa‖ do regime inglês, mas
perfeitamente adaptado às necessidades de desmonte sistemático da política de clã e das
facções regionalistas que tanto atormentaram o regime político imperial: ―absolutismo de
fato sob a máscara vistosa do regime parlamentar‖. 67 Diferente do modelo parlamentar
originário é o parlamento no Brasil, país que, com uma sociedade distinta, não permite a
implantação ex nihilo de um sistema político alienígena sem distorções —uma estrutura
institucional liberal calçada por um Estado funcionando repressivamente. Mas se o quadro
doutrinário do liberalismo não se transplanta para o Brasil sem déficits e sem deformidades,
outro problema demanda talvez maior atenção: a questão nacional. Como Francisco
Campos, no texto de 1910, em que sustenta a oposição entre democracia liberal e unidade
nacional, Oliveira Vianna compreende que consolidar o país depende da internalização,
pelo povo, do ideal de nação e da construção de uma institucionalidade própria a partir
deste princípio básico:
O vasto quadro dos nossos poderes públicos nacionais, depois de 1822, não se
forma, como se vê, sob a ação lenta e profunda de agentes históricos, que

64
Idem, pp. 65-6.
65
É a tese de SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A Práxis liberal no Brasil: propostas para reflexão e
pesquisa. In: SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo:
Duas Cidades, 1978, pp. 65-117.
66
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Populações meridionais do Brasil. In: VIANNA, Francisco José
Oliveira. Populações meridionais do Brasil e Instituições políticas brasileiras. Introdução de Antônio
Paim. Brasília: Câmara dos Deputados, 1982, pp. 37-256., pp. 202-7.
67
Idem, pp. 221-5: ―Durante o meio século do seu reinado, ele [D. Pedro II] exerce, enfim, a mais nobre das
ditaduras — aquela ‗ditadura da moralidade‘, de que fala um historiador [Oliveira Lima], e que é, sem dúvida,
a mais poderosa força de retificação da moral, na ordem pública e privada, que jamais conheceu o nosso povo,
desde o primeiro século cabralino‖.

193
impusessem a sua criação e permanência como condição suprema de sobrevivência
coletiva. Tal como se organiza, é, ao contrário, apenas a resultante de um grande
ideal — o ideal de uma pequena minoria de grandes homens, com o espírito
formado na contemplação das vastas edificações políticas européias, todos
inspirados no alto desejo de fundarem, nesse recanto paradisíaco da América, ―um
grande Império‖ — como os do Velho Mundo.
No momento em que empreendermos o aparelhamento do nosso organismo político,
se o Velho Mundo, ao invés desses grandes Impérios, em que se dividia, exibisse
aos olhos dos nossos fundadores uma face coberta de um conglomerado de
pequenas Repúblicas, —como o mundo grego com a sua luminosa constelação das
cidades autônomas— nós não teríamos, por certo, fundado um Estado Nacional.
Porque nada, nenhuma necessidade poderosa nos levava a isso — isto é, à
integração do país dentro de uma possante armadura de poderes nacionais.
Mesmo hoje, essa grande e patriótica aspiração dos nossos maiores é ainda um alto
ideal, sobrepairante nas camadas superiores da nacionalidade. Não desceu ainda,
nítido e lúcido até o seio do povo: nos campos, nas cidades, nos litorais, nos sertões.
Não se fez ainda um grande ideal coletivo, em torno do qual gravitem as energias
nacionais numa polaridade espontânea e consciente, como acontece com o inglês, o
alemão, o francês, o americano, o japonês, ou o romano antigo — povos na
subconsciência de cuja psique coletiva lateja e freme uma sorte de pressentimento
místico da função do Estado como órgão supremo de uma grande missão nacional. 68

O núcleo do argumento é a configuração quase acidental de uma nacionalidade que


molda a disposição do Brasil de configurar-se como Estado sobrevivente, como ordem
social fundamentalmente estatal, passível, por conta deste elemento, de existência e de
permanência. A conformação histórica e social não colabora para a funcionalização da
ordem e esta se opera, exclusivamente, pelo ideal materializado na racionalidade público-
institucional. A fórmula inafastável, sob pena de desintegração territorial e política, traz, no
entanto, um complicador explícito: a implantação da ordem —que se inicia no segundo
reinado— é concomitante à constitucionalização da liberdade. O conflito entre autoridade e
liberdade é anacrônico, pois se a ordem acontece ao mesmo tempo em que a liberdade se
positiva constitucionalmente, o problema não radica na normatização da vida, mas na
teorização da política que se faz à revelia do fator social. A ―ossificação da nacionalidade‖
demanda, portanto, um Estado de poder incontrastável tornando-se a solução ―racional,
orgânica, essencialmente americana do problema de nossa organização política‖. 69 Não é,
assim, o liberalismo, nem são os próceres liberais que organizarão o Brasil, ambos —teoria
e prática política— tomados pelo idealismo universalista que suspende a capacidade de

68
Idem, p. 253.
69
Idem, p. 279.

194
identificar uma realidade dissonante de si. Torna-se necessário, para a construção futura do
país, um tipo de ―subconsciência‖, de ―instinto visceral‖ de legalidade, de ―obediência à
autoridade e à lei‖ que só pode ser estimulado por uma ―minoria diminutíssima‖ que renega
o oxigênio liberal vindo da realidade única da Europa. Imbuída da compreensão devida do
poder moral do Estado —os motivos de ordem psicológica que, segundo o jurista alemão
Ihering, ―militam em favor do Estado quando a luta se estabelece entre ele e o povo‖— que
não deixa de ser, também ela, liberal, por não deixar ―turvar, nunca, a consciência, que
todos têm, das nossas realidades e dos nossos destinos americanos‖.70
Aparentemente, é possível considerar que Oliveira Vianna está trazendo a
impossibilidade de realizar o liberalismo em razão das condições sociais do Brasil, mas que
a consumação da doutrina liberal aparece-lhe como finalidade última. As idéias-chave de
centralização, de um Estado forte e de unidade surgiriam, em verdade, como meros
instrumentos através dos quais seriam reprimidos os elementos que dificultavam a
implementação definitiva de uma ordem liberal. É a tese, desenvolvida por Wanderley
Guilherme dos Santos no artigo A Práxis liberal no Brasil: propostas para reflexão e
pesquisa (1974), conhecida como a do autoritarismo instrumental de Oliveira Vianna:
O liberalismo político seria impossível na ausência de uma sociedade liberal e a
edificação de uma sociedade liberal requer um estado suficientemente forte para
romper os elos da sociedade familística. O autoritarismo seria assim instrumental
para criar as condições sociais que tornariam o liberalismo político viável. Esta
análise foi aceita, e seguida, por número relativamente grande de políticos e
analistas que, depois da Revolução de 1930, lutaram pelo estabelecimento de um
governo forte como forma de destruir as bases da antiga sociedade não liberal. 71

Ainda que indique, na nota de apresentação, tratar-se de ensaio reflexivo sobre a


utilização de idéias políticas de cunho liberal no Brasil como ―guias estratégicos para a
ação política‖ e que, inclusive, não dispunha, à época, da bibliografia necessária à
aproximação mais precisa ao tema, 72 Santos teve uma recepção significativa. Segundo José
Murilo de Carvalho, sua tese é apropriada para um entendimento de autores liberais e
conservadores alinhados pelo Império como Uruguai e Tavares Bastos. Mas Oliveira
Vianna não seria um mero pragmático, importando um modelo de país como sentido
político de sua prática institucional. Para Carvalho, a utopia de Oliveira Vianna radicava-se
70
Idem, pp. 279-80. (grifo nosso)
71
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A Práxis liberal no Brasil: propostas para reflexão e pesquisa, p. 106.
72
Idem, p. 65.

195
no iberismo, ou seja, na recusa do utilitarismo e do individualismo característicos de uma
sociedade fundada no contrato e no mercado como ordenadores da vida econômica. A
sociedade concebida pelo autor seria, pelo contrário, uma idealização Ibérica de origem
católica ―fundada na cooperação, na incorporação, no predomínio do interesse coletivo
sobre o individual, na regulação das forças sociais em função de um objetivo
comunitário‖.73 Fica explícita a discordância de Oliveira Vianna com o modelo de
sociedade proposto por Francisco Campos, para quem o Brasil, nos anos 30, já estava
inserido na dinâmica das sociedades de massa, a atomização não-liberal sendo um
pressuposto estrutural. Nesse modelo universalista, Campos só entende possível a ordem
social, isto é, a organização política e econômica, pela coordenação das energias das massas
pelo César, ou seja, pelo Estado. Mesmo em 1935, Campos permanece fiel ao seu
americanismo pelo alto, contrapondo-se, sociologicamente, a Oliveira Vianna.
A questão da ordem política sempre será o centro do interesse intelectual de
Oliveira Vianna. Ordem política de realização complicada, dada a visão que tem da história
da socialização brasileira. Num país marcado por um conjunto vicejante de particularismos
e interesses abstrusos, a institucionalização da ordem supera as congêneres americanas pelo
―espírito conservador e prudente‖ de sua realização, cuja figura exemplar e, de certa forma,
historicamente de vanguarda, é o Imperador D. Pedro II, que paradoxalmente se encontra
submerso por um estado de coisas em que prevalece a desorganização das classes, a
ausência do espírito público e da liberdade civil. O destino do Brasil aponta, já no 2º
Império, como se deduz da leitura de O Ocaso do Império (1925), para o lugar civilizatório
das instituições estatais em oposição à política dos interesses particularistas que já se via

73
Cf. CARVALHO, José Murilo de. A Utopia de Oliveira Vianna. In: BASTOS, Elide Rugai; MORAES,
João Quartim de (Orgs.). O Pensamento de Oliveira Vianna. Campinas: Unicamp, 1993, pp. 13-42, pp. 22-
3.

196
desde então, representada idealística e ideologicamente pelo espectro liberal. 74 Nesses
termos, o horizonte de sentido de Oliveira Vianna não radica na crítica do processo
histórico brasileiro como sendo de natureza negativa, a influência do iberismo sendo
considerada um atraso. Indica, sim, o fato de nossas elites, no ocaso do Império e mesmo
durante a República, terem perdido a ―noção de distintividade‖, por operarem em
discordância da realidade social, privilegiando um ideal alienígena em detrimento de fatos e
contingências apreciáveis pelo contato com a realidade. Para Luiz Jorge Werneck Vianna,
no seu artigo Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna com Tavares Bastos
(1993),
Constatar como o real é para em seguida operar sobre ele, consistiria num
empreendimento prosaico e corrente, se em Oliveira Vianna isso não se
manifestasse como enigmático: no plano da observação do real, ele se identifica
com a contingência ibérica; no do dever ser, com a cultura política anglo-
saxônica.75

A transição de uma realidade ibérica para uma institucionalidade anglo-saxã não se


resolve pelo autoritarismo instrumental. Se a organização social e política anglo-saxã
concorda, diretamente, com a cultura política enraizada em países europeus, o mesmo não
ocorre no Brasil. Aqui, por conta de sua natureza (clânica e, portanto, pouco complexa) o
componente social possibilita a constituição da ordem a partir de um elemento externo,
consubstanciado de forma bem sucedida na monarquia brasileira. Para Oliveira Vianna,
segundo Werneck Vianna, ―o transplante das elites ibéricas teria gerado um novo estrato
aristocrático, um patriciado rural de vocação doméstica e não guerreira, cujo padrão de
74
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. O Ocaso do Império. Brasília: Senado Federal, 2004 (1925), p. 45:
―Em nosso País, com efeito, os partidos não disputam o poder para realizar idéias; o poder é disputado pelos
proventos que concede os políticos e aos seus clãs. Há os proventos morais, que sempre dá a posse da
autoridade; mas há também os proventos materiais, que essa posse também dá. Entre nós a política é, antes de
tudo, um meio de vida: vive-se do Estado, como se vive da lavoura, do comércio e da indústria — e todos
acham infinitamente mais doce viver do Estado do que de outra coisa.‖; ―Eram realmente os ministros os que
deturpavam as intenções do monarca, os que faziam do ato da ‗consulta à nação‘ uma burla completa,
exercendo sobre o partido contrário toda a sorte de perseguições, opressões e ilegalidades. D. Pedro bem o
compreendia; mas, dentro do seu papel de rei constitucional, não podia agir corretivamente,nesses casos,
senão de um modo discreto, com tato e extrema habilidade.‖ (pp. 58-9). A essa opinião da classe política —
que engloba tanto os liberais quanto os conservadores que se alternavam no poder de acordo com a
conveniência do Imperador— contrapõe-se a opinião sobre o monarca: ―Ninguém desempenhou mais a sério
a sua função constitucional: foi durante cinqüenta anos o melhor empregado público do Brasil, o paradigma
da classe, flor, exemplo e espelho de todos eles.‖ (pp. 54-5). E ―Este era, entretanto, o único que não merecia
a condenação: ninguém lutava mais bravamente para conter os ministros dentro dos limites da legalidade, da
imparcialidade e da justiça, com risco, às vezes, de provocar crises ministeriais‖. (p. 59).
75
VIANNA, Luiz Jorge Werneck. Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna com Tavares
Bastos, p. 373.

197
sociabilidade e de valores morais de ressonâncias clássicas se difundiria à volta de suas
fazendas autárquicas — um oikos ao estilo romano‖.76 Não existe, portanto, uma oposição
simétrica e intransponível entre a formação rural da sociedade brasileira e a civilização nos
moldes da ordem social dos países anglo-saxões. O caminho de Oliveira Vianna está
marcado pela paulatina assunção de que o dilema sociabilidade Ibérica versus
normatividade anglo-saxã só se resolve integrando uma comunidade assentada numa
cultura de paz, exemplo de uma ordenação social natural que subordina os interesses
particulares aos gerais e públicos, gerenciados pelo Estado. A solução aparecerá de forma
definitiva no livro Problemas de política objetiva (1930), que reconhece a participação
coletiva como fator capital para a democracia e, conseqüentemente, considera central para a
configuração da ordem política o elemento econômico. A corporificação dos interesses de
classe torna-se capaz de organizar uma comunidade que transponha a atomização —
característica da sociedade clânica— que, de resto, não se colocou como predicado da
formação social brasileira, e aponta para a tendência contemporânea de centralização e
estabilização da vida política —em franca oposição à política de federalização da 1ª
República.77 O valor positivo da origem clânica consubstancia-se no fato de que há uma
civilização no horizonte de Oliveira Vianna, mas esse modelo de sociabilidade não
corresponde à compreensão individualista do liberalismo. Para Werneck Vianna, este é o
enigma oliveiriano:
Renovada pelos grupos intermediários, à maneira da cultura política anglo-saxônica,
a Ibéria faz-se contemporânea ―saltando‖ o liberalismo — a ―humanidade
civilizada‖ estaria abandonando a ―pura economia liberal‖. Os narodniks
imaginavam ser possível o trânsito revolucionário da comuna camponesa ao
socialismo, convertendo assim em vantagem o atraso social das relações agrárias na
Rússia. De forma semelhante, Oliveira Vianna, este avesso do avesso dos populistas
russos, quer atingir a moderna cultura política anglo-saxônica —para ele, o
corporativismo e a administração técnica e científica da vida social—, passando por
cima da ―etapa‖ liberal e extraindo ―vantagem‖ do atraso social do nosso povo-

76
Idem, p. 374.
77
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de política objectiva, pp. 117; 25 e ss. Diz o autor:
―Ora, em nossa democracia, o que vemos é justamente o contrário disso: ela se baseia em indivíduos — e não
em classes; em indivíduos dissociados — e não em classes organizadas; e todo mal está nisso. É uma
democracia em estado atomístico, como já o demonstramos uma vez [O idealismo da constituição] — porque
em seu seio os cidadãos aparecem como átomos desprovidos de afinidades eletivas capazes de os levar a
agregarem-se em organizações poderosas. Essa dissociação é devido a causas profundas, que residem, em
parte, na nossa própria formação nacional [Populações meridionais do Brasil] e, em parte, nas concepções
individualistas da Revolução Francesa, ainda dominantes infelizmente na mentalidade das nossas elites
dirigentes [O Idealismo na evolução política do Império e da República].‖ (p. 120).

198
massa, para o qual é exótica a institucionalidade política do liberalismo. Porque
predomina no povo-massa uma orientação individualista e uma situação de
atomização —diagnóstico do atraso—, deve-se procurar uma nova matriz de direito
público —a ordenação corporativa moderna— que ―salte‖ o liberalismo e
estabele[ça] supostos e instituições superiores. 78

Nesses termos, a integração do povo brasileiro só pode se realizar na medida em que


se escape da extravagância da descentralização e se compreenda a necessidade de a
coletividade submeter-se à nação de forma dogmática: em se realizando esse processo de
nacionalização dos interesses, o ―povo tem o seu triunfo assegurado, conta e contará, é e
será uma força de civilização, é e será um fator da história‖. Para Oliveira Vianna, portanto,
o corporativismo representa a possibilidade pragmática de gerar um campo de força em
torno dos problemas de ordem nacional, antecedendo-lhe, entretanto, a subordinação dos
interesses clânicos, partidários, grupais ou individuais —característicos de uma sociedade
que tende ao atomismo— ao interesse nacional, subordinação expressa ―pela capacidade de
obediência e disciplina, pelo culto do Estado e de sua autoridade‖.79
Colocada a questão do lugar do direito no sistema normativo do autor, isto é,
definida a função cultural e civilizatória do direito, a recepção do corporativismo pela
Constituição de 1937 sempre foi, para Vianna, a manifestação de uma opção político-
jurídica que se opunha a um modelo de direito de cunho liberal sem vínculo com o objetivo
maior da formação da nacionalidade. Nesse sentido, o diagnóstico de Oliveira Vianna sobre
os limites da institucionalidade liberal se coaduna com a apreciação de Francisco Campos
sobre o mesmo tema. Em ambos, o direito liberal é um instrumento que inviabiliza a
unidade nacional.

7.1 O Estado corporativo: um direito novo

Em sua apresentação do Problemas de Direito Corporativo —que compõe-se de


artigos publicados no Jornal do Commercio a fim de justificar o anteprojeto que organizava
78
VIANNA, Luiz Jorge Werneck. Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna com Tavares
Bastos, pp. 390-1.
79
VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de política objectiva, pp. 98-9.

199
a Justiça do Trabalho e defendê-lo das críticas do Deputado e professor de direito paulista
Waldemar Ferreira—, o conflito entre uma concepção individualista (nascida do Direito
Romano e atualizada pelo Código Civil napoleônico) ―e a nova concepção [do Direito],
nascida da crescente socialização da vida jurídica‖ dá-se pelo fato de indicar um
deslocamento ―do Indivíduo para o Grupo e do Grupo para a Nação, compreendida esta
como uma totalidade específica.‖. O ponto central do livro é a defesa do caráter normativo
das decisões judiciais sobre questões trabalhistas, opondo-se ao seu tradicional caráter
inter-partes. Suas idéias sendo consideradas incompatíveis com a Constituição de 1934,
com o regime liberal-democrático instituído por ela, e com a natureza da Justiça do
Trabalho que, segundo Waldemar Ferreira e outros, deve decidir caso a caso e não
genericamente, Oliveira Vianna enfrentará a controvérsia atacando os fundamentos
jurídicos dos oponentes.80
É na sociologia jurídica norte-americana, na escola do realismo jurídico clássico,
caracterizada pelo antiformalismo no processo de compreensão e aplicação do direito, que
Oliveira Vianna irá, inicialmente, buscar apoio para a defesa de um sistema judicial de
composição dos conflitos coletivos de natureza trabalhista. Este sistema, fundado na idéia
de que o sentido da norma deve ser definido a partir dos fatos, previa exatamente funções
normativas e legislativas para a nova Justiça do Trabalho. Como no realismo norte-
americano, o pragmatismo de Vianna deverá ser operado de forma sistêmica no que
respeita às conseqüências esperadas, dado que está organizado institucionalmente. Somente
neste sentido distancia-se do antiformalismo de Schmitt que, no âmbito da política
legislativa, opera com a possibilidade de decisões ad hoc que visam proteger a existência

80
VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo, pp. 7. Todo o debate do livro
respeita ao projeto da Justiça do Trabalho apresentado sob a égide da Constituição de 1934, sem mencionar os
reflexos sobre a Constituição de 1937, como quer, equivocadamente, Jarbas Medeiros. Cf. MEDEIROS,
Jarbas. Ideologia autoritária no Brasil, 1930/1945. Prefácio de Raymundo Faoro. Rio de Janeiro: Editora
Fundação Getúlio Vargas, 1978, p. 183. Um outro jurista que fará uma interpretação nos moldes liberais da
Constituição de 1934, negando o caráter normativo das decisões da Justiça do Trabalho é Pontes de Miranda,
que vaticina nos seus Comentários: ―A função da Justiça do Trabalho, ainda quando conciliadora, não é
administrativa; é jurisdição, pois que atua em caso de controvérsia, dirime questões, como diz o próprio Art.
122. Não se trata de edição de normas para a generalidade, o que a faria legislativa; nem exerce a função com
a discricionariedade que caracteriza o ato de administração, ainda quando se tem por fim aplicar a lei. A
Justiça do Trabalho decide.‖. Cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários à
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. Tomo II, artigos 104-187, disposições
Transitórias. Emendas n. 1, n. 2 e n. 3. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1937, p. 337.

200
da própria ordem política. 81 De qualquer sorte, para Oliveira Vianna não há que se falar —
ante uma situação econômica e social cada vez mais complexa—, em avaliação meramente
lógica ou filológica do direito, sendo necessária a incorporação de elementos políticos e
sociais para entender o alcance das normas jurídicas. Citando um dos textos centrais de
Carl Schmitt, Legalidade e legitimidade (1932),82 Oliveira Vianna aponta que
a revelação da existência de novas fontes de normas jurídicas, fora das fontes
instituídas pelo Estado —o ―Estado Legislador‖, de Carl Schmitt— normas estas
elaboradas pelos grupos sociais e pelas coletividades organizadas, vivendo dentro
do próprio Estado— forçou os intérpretes a abandonarem a preocupação
exclusivista da norma legal e atentarem nestas outras realidades indissimuláveis e
incompressíveis da vida jurídica.83

Seu argumento segue, em linhas gerais, o de Schmitt, para quem o caráter liberal,
individualista e formalista da Constituição de Weimar, limitador das possibilidades de
superação da crise da República, poderia ser combatido, em sua ingerência deletéria, pela
legitimidade popular, democrática e presidencial contida no mesmo documento. Esta crítica
ao formalismo do direito não é exclusiva da tradição realista dos EUA, como se vê pela
alusão a Schmitt, nem vinculada exclusivamente a este autor, mas remonta à prática judicial
européia e a correntes de pensamento que inserem elementos não formais no cotidiano da

81
Para Richard Posner, o pragmatismo norte-americano influencia diretamente as escolas jurídicas alemã e
italiana, especialmente nazistas e fascistas, sendo William James o autor recorrentemente citado por aqueles
que identificavam, no pragmatismo, uma filosofia da ação que se aproximava do ―entusiasmo pelo
decisionismo, pela ação e pelo poder‖. O anti-formalismo que está na base da posição de Oliveira Vianna é,
assim, um traço característico dos filósofos pragmáticos do começo do século XIX, para quem o racionalismo
deveria ser substituído pelo empirismo como atitude filosófica fundamental (William James) e a verdade
limitada a uma função instrumental ou funcional (John Dewey). Reproduzidos estes princípios pragmáticos
fundamentais à esfera da aplicação e do estudo do direito, aparece, ainda no século XIX, o realismo jurídico
de Oliver Wendell Holmes e outros que definiu o perfil dos maiores juristas norte-americanos do começo do
século. Os juristas realistas das décadas 20 e 30 repudiavam, como crença ilusória, a idéia de que conceitos e
regras gerais provêem significação lógica e confiável para decisões jurídicas, reivindicando para a função
judicial um papel mais ativo na definição dos conflitos levados ao judiciário, vinculando suas decisões a
fundamentos empíricos e não normativos. Cf. POSNER, Richard A. Legal Pragmatism. Excerpts for
University College colloquium. London: University College, Jan, 2002. 106 fls., fl. 22 e ss; fls. 39 e ss; Cf.
JAMES, William. Pragmatismo. In: James, Dewey, Veblen – Volume XL. Coleção os Pensadores. São
Paulo: Abril Cultural, 1974, pp. 9 e ss. e DEWEY, John. Reconstrução em filosofia. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1959, pp. 154-155; Cf. RODRIGUES, Lêda Boechat. Notícia Bio Bibliográfica. In:
CARDOZO, Benjamin N.. A Natureza do processo e a evolução do direito. São Paulo: Nacional de Direito,
1956, pp. XX e ss.
82
No caso, a tradução francesa de 1936.
83
VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo, p. 22. Cf. McCORMICK, John P.
Identifying or exploiting the paradoxes of constitutional Democracy?: An Introduction to Carl Schmitt‘s
Legality and legitimacy. In: SCHMITT, Carl. Legality and legitimacy. Translated and edited by Jeffrey
Seitzer with an introduction by John P. McCormick. Durham / London: 2004, pp. xiii-xliii. Ver abaixo.

201
decisão judicial. O tema também foi estudado por Max Weber, que se interessava em
avaliar o processo de desencantamento moderno e suas aporias, especialmente na forma
jurídica de manifestação da legitimidade do Estado. Nos textos de Economia e sociedade –
esboço de uma sociologia compreensiva (1922), considera que a necessidade do comércio
capitalista exige a introdução de elementos materiais na decisão e, durante o século XIX,
técnicas e normas antiformais como a livre apreciação da prova, o reconhecimento da
intencionalidade, os fins penais de natureza utilitária, a mensuração da boa-fé e o repúdio
aos contratos leoninos representam o caráter puramente ético de uma justiça material que se
sobrepõe a uma legalidade formal. Lembra, igualmente, a formação de um pensamento
judicial, posteriormente transformado em escola jurídica, que exige do juiz uma atividade
―criadora‖, especialmente nas lacunas e antinomias legais. A Escola de Direito Livre,
citada como modelo de renovação das fontes do direito pelo próprio Oliveira Vianna,
propondo a existência de uma judicatura ideal afastada do formalismo tendia a ―prescindir,
cuidadosamente, de uma referência a tais normas abstratas e, pelo menos em caso de
conflito, [tinha] que admitir estimações inteiramente concretas, ou seja, uma decisão não só
não formal mas, inclusive, irracional‖. Para Weber, desta forma, o significado da fixação
legislativa de uma norma jurídica é degradada ao papel de um mero ―sintoma‖ da decisão
judicial. O jurista prático pretende a livre apreciação dos possíveis juízos de valor
inevitavelmente concretos, conseqüência imediata do irracionalismo valorativo da Escola
do Direito Livre.84
A capacidade lógica de Oliveira Vianna explorar a estrutura normativa tradicional
de uma Constituição liberal —e aqui o alvo ainda é a Constituição de 1934— e dela retirar
funções que a coloquem em xeque é uma característica que remonta ao escopo e ao tema do
livro de Schmitt citado pelo autor. A existência de elementos materiais de natureza
valorativa como normas constitucionais que não se reformam pela via normal das maiorias
parlamentares simples —constituindo-se, segundo se classificaria posteriormente, como
84
Cf. WEBER, Max. Economía y sociedad...Op. cit., p. 653. A Escola de Direito Livre era do conhecimento
genérico do realismo jurídico, como nota Benjamin Cardozo n‘A Natureza do processo e a evolução do
direito (1932). Cardozo aponta a ―anarquia jurídica‖ ou o ―impressionismo judicial‖ da dita Escola,
assumindo que a conhece através de um ensaio de Gény (igualmente referenciado por Vianna, que segue de
perto o arrazoado histórico do livro de Cardozo aqui citado), e não diretamente através de seus autores
(Ehrlich, Kantorowicz e Zitelmann), não reconhecendo, nas prática da decisão fundada individualmente na
idéia de ―bom juiz‖ o procedimento jurisprudencial do realismo. Cf. CARDOZO, Benjamin N.. A Natureza
do processo e a evolução do direito, p. 78. e Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito
Corporativo, p. 21.

202
cláusulas pétreas— indica a possibilidade de uma nova aproximação hermenêutica. Nesta
nova forma de interpretação constitucional, a exegese do texto não se realiza mais
independentemente da realidade circundante, a partir de elementos imanentes ao próprio
direito, mas passa a depender do mundo concreto, de inflexões da política e,
principalmente, de decisões que extrapolam as competências tradicionalmente estabelecidas
pela divisão do poder político, como a formulação de normas jurídicas por outro órgão que
não o poder legislativo. Uma interpretação não convencional considera, pois, o aplicar, o
executar do direito (da Constituição), para além do padrão jurídico liberal.
Conforme Schmitt, ao poder executivo caberá, em variadas situações, ser o executor
da Constituição mas, igualmente, o legislador extraordinário, nos casos de valores
excepcionalmente ameaçados em uma situação de desordem, com o fito de proteger
conteúdos definidos pelo texto constitucional por ações concretas de natureza excepcional.
Quando a Constituição passa a cumprir funções de natureza material, garante a realização
de valores, sobrepondo a natureza transitória da vontade parlamentar, tradicionalmente
constituída por maiorias momentâneas e vinculada à estrutura puramente formal da lei. Isso
significa, para Schmitt, que quando uma maioria parlamentar fica impedida
constitucionalmente de reformar a Constituição —quando a ―proteção da Constituição‖
torna-se essencial à sua realização—, o princípio democrático-formal das maiorias
(princípio da legalidade) é substituído pela atuação democrático-substancial do Estado
burocrático-administrativo executor, fundado na legitimidade da autorização plebiscitária
ou nas cláusulas que prevêem a excepcionalidade de seu funcionamento (princípio da
legitimidade), conforme estabelecido pelo notório art. 48 da Constituição de Weimar. É
precisamente o que de acordo com Schmitt, ante a crise de estabilidade política e
econômica da República, poderia acontecer com a Constituição, no ano de 1932.85
Funcionando como poder excepcional, o executivo pode legislar através de procedimento
administrativo, argumento básico para o arrazoado de Oliveira Vianna.
Um dos maiores críticos do processo de administrativização do poder legislativo foi
o jurista e cientista político Franz Neumann (1900-1954), na época integrante do Instituto
de Pesquisas Sociais, também conhecido como ―Escola de Frankfurt‖. Ele foi o responsável
por uma das primeiras e mais contundentes avaliações do fenômeno nazi-fascista na

85
Cf. SCHMITT, Carl. Legalität und legitimitaät, pp. 57 e ss.; pp. 64 e ss.

203
Alemanha, em seu livro Behemoth: estrutura e prática do nacional-socialismo (1942),
estabelecendo de forma crítica os fundamentos políticos, doutrinários, sociais e econômicos
do que chamou de ―capitalismo monopolista totalitário‖. Foi, igualmente, um incisivo
crítico das reformas constitucionais que acabaram levando a Alemanha ao jugo de Hitler.
Para Neumann, no artigo A Mudança da função do direito na sociedade moderna (1937),
essa estratégia jurídica que surge na Alemanha como um programa de natureza
conservadora configura-se uma necessidade política para restringir o poder do parlamento,
que não mais representa, no processo de formulação legislativa da República de Weimar, os
interesses do grande latifúndio, do capital, do exército e da burocracia. A generalidade da
lei, que sob a configuração de princípios gerais do direito passou a ser —sob a influência
teórica de Schmitt— a única forma de expressão do Parlamento, deslocou para a burocracia
administrativa a regulação dos casos concretos, transformando o Poder Executivo em gestor
da livre concorrência e em legislador de fato da ordem econômica e social. Para Neumann,
a Constituição de Weimar, sob esse influxo interpretativo, viu renascer disfarçadamente um
―direito natural que passa então a exercer funções contra-revolucionárias‖.86 O autor
resume as conseqüências de tal abordagem jurídica indicando que
O período de 1918 a 1932 foi caracterizado pela quase universal aceitação da
doutrina da escola do ―direito livre‖, pela destruição da racionalidade e
calculabilidade do direito, pela restrição do sistema de contratos, pelo triunfo da
idéia do comando sobre aquela do contrato e pela prevalência dos ―princípios
gerais‖ sobre normas jurídicas genuínas. Os ―princípios gerais‖ transformaram todo
o sistema legal. Mas a sua dependência numa ordem de valores extra-legal nega a
racionalidade formal, gerando uma imensa quantidade de poder discricionário para
o juiz e eliminando a linha de divisão entre o Judiciário e o Executivo, de modo que
as decisões administrativas —isto é, decisões políticas— tomam a forma de
decisões de cortes civis ordinárias. 87

A relação entre teoria do direito e reconfiguração da relação política entre os


poderes está clara para Oliveira Vianna: o princípio da separação de poderes e a
impossibilidade da delegação da função legislativa não devem ser ―entendidos de modo
absoluto‖. Ele cita, exatamente, o exemplo da Alemanha, onde a derrogação do monopólio

86
Cf. NEUMANN, Franz. The Change in the Function of Law in Modern Society. In: NEUMANN, Franz.
The Democratic and the authoritarian State: essays in political and legal theory. Edited and with a preface
by Herbert Marcuse. New York/London: The Free Press/Collier-Macmillan Company, 1957 (1937), pp. 22-
68., pp. 47 e 52-3.
87
Idem, pp. 54-5.

204
legislativo do Parlamento é uma prática geral, apesar das limitações constitucionais e, por
conta disso surgem novos órgãos, dentro e fora da estrutura estatal, cuja função é a
elaboração de normas legais. 88 A finalidade maior de qualquer modelo de organização
política é a completa realização do direito dentro do Estado e a defesa da sociedade contra
seus inimigos fora do Estado. A esse caráter pragmático das funções, por excelência, do
direito, Oliveira Vianna acrescenta o caractere propriamente instrumental —e não
absoluto— da dogmática jurídica: ―toda dogmática jurídica é sempre um sistema de
princípios posto a serviço de um interesse prático, isto é, o interesse de dar a máxima força
de coesão e expansão a uma determinada organização jurídica.‖. Por conta desse vínculo
entre direito e realidade social, Oliveira Vianna colocar-se-á, igualmente, em oposição ao
que considera o formalismo de autores como Kelsen —que veriam a conformação de um
sistema jurídico como construção lógico-formal—, e indicar a necessidade de se ―apelar
para os dados de natureza política‖ para interpretar e aplicar o direito. 89 A capacidade
legislativa da autoridade administrativa é, dessa forma, um ―imperativo da realidade‖, pois
a capacidade de detalhamento técnico dos inúmeros problemas do Estado em normas
jurídicas é uma característica específica desses órgãos e, pelo contrário, se a atividade fosse
realizada pelo Parlamento, ele seria reduzido à ineficiência completa. Para Oliveira Vianna,
em resumo, é possível definir, a partir de uma nova hermenêutica, distante dos parâmetros
jurídicos liberais, poderes normativos ―conferidos, implicitamente, aos órgãos corporativos
da Justiça do Trabalho‖. 90
Na verdade, a argumentação presente no Problemas de política objetiva indica a
dificuldade de realização efetiva da democracia, inclusive diante das limitações do Governo
Provisório em que a prática legislativa, apesar de profícua, não logrou distanciar-se do

88
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo, pp. 38-9 e ss.
89
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 1ª edição, pp. 8, 24-6. Embora esteja
claro, hoje, que a interpretação e a aplicação do direito, para Kelsen, não se podem realizar sem a presença
estrutural de juízos de natureza política (da ―vontade‖, como diria textualmente o autor). Cf. KELSEN, Hans.
Teoria pura do direito. 2ª edição.
90
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo, p. 43 e ss. Já dizia o autor em
Problemas de política objetiva, que o pior preconceito contra os conselhos técnicos, contra a estrutura
corporativa e suas capacidades de intervenção e mesmo de formulação de legislação específica, ―o mais
grave, o mais absurdo, o mais anacrônico é a crença na competência onisciente dos Parlamentos e na
sabedoria infusa dos homens que, em virtude do mecanismo do nosso sistema representativo, acontecem
chegar ao poder.‖ Sabedoria infusa significando a suposta e obviamente falsa capacidade de bacharéis, depois
de eleitos, tornarem-se milagrosamente capazes de dominar a informação técnica necessária para legislar
competentemente sobre os mais variados temas técnicos. Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas
de política objectiva, p. 193.

205
modelo tradicional de conformação endógena. Neste texto, o autor define a prática
legislativa como formulação legal limitada à competência dos membros do governo e do
parlamento. Democracia abalada, portanto, pela falha técnica de não colaboração dos
especialistas e profissionais com experiência prática e pelo erro de psicologia política, de
não angariar a ―adesão moral‖ do povo, impedido de participar na elaboração da lei, o que
redunda em ineficácia da lei e em inacessibilidade e impermeabilidade dos centros
legislativos e administrativos. Para Oliveira Vianna
O princípio característico do governo democrático consiste em dar à totalidade dos
cidadãos uma parte igual na direção dos negócios públicos — Diz Duguit. Ora, se
assim é, o melhor caminho para realizarmos a democracia não é lutarmos, até com
as armas na mão, para eleger deputados ao Parlamento; mas, desenvolver os
Conselhos Técnicos e as organizações de classe, aumentar a sua importância,
intensificar as suas funções consultivas e pré-legislativas, generalizar e sistematizar
a praxe da sua consulta da parte dos poderes públicos. É este o verdadeiro caminho
da democracia no Brasil. 91

O Poder legislativo deve, em resumo, delegar funções, a serem compartilhadas com


a sociedade e autoridades administrativas, solidificando o ―movimento do ‗Estado
Legislador‘, de Schmitt‖, por conta da ampliação da complexidade e da multiplicidade das
funções que se depreende do mundo moderno. A complexidade social requer a necessidade
de um poder político também de natureza complexa, capaz de funcionar amparado por
múltiplas competências. Um mesmo poder precisa, então, funcionar a partir das
competências executiva, judicial e legislativa: é o que Oliveira Vianna chama de
administrativização do direito público, fenômeno derivado da necessidade de o Estado
operar pelo princípio da eficiência do serviço público. Com a corporificação das estruturas
dos Estados contemporâneos ocorrerá, por exemplo —e aqui se coloca a questão específica
da transformação da Justiça do Trabalho—, a flexibilização e multiplicação dos ritos
judiciais, o que redundará numa justiça de caráter administrativo, responsável por pautar o
comportamento geral daquelas classes corporativamente orientadas, isto é, uma justiça que
não estará mais pautada pela resolução inter-individual e exclusivamente jurídica dos
conflitos.92

91
VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de política objectiva, p. 201.
92
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. Problemas de Direito Corporativo, pp. 48 a 57.

206
Oliveira Vianna destaca, contudo, que o caráter erga omnes, a função de
normatização genérica e não mais particularizada (caso a caso) da Justiça do Trabalho, não
deriva do regime político de natureza corporativa, nem do modelo de Estado (fascista,
totalitário ou liberal).
O que dá fundamento à competência normativa dos tribunais do trabalho não é o
regime político dominante num dado país; é a natureza mesma da decisão, é a
peculiaridade do conflito a ser julgado, é a própria estrutura das organizações
econômicas contemporâneas. O fundamento da normatividade é orgânico — e não
político.93

Como para o autor essa nova característica é um dado da realidade, observável em vários
países, um fato considerado normal pelos juristas de todo o mundo, não há que se contestar
a constitucionalidade ou a legitimidade dessas funções normativas. O fenômeno revela um
dado importante, que é a ―visível derrogação do princípio da separação dos poderes e do
monopólio legislativo do Parlamento‖, mas indica que o caráter de tal transformação é de
natureza institucional, dado que a corporativização intrínseca à atividade econômica obriga
o Estado a uma descentralização autárquica de suas funções que desenvolve-se em
detrimento de sua ―descentralização geográfica‖, e mesmo para constrangê-lo,
estabelecendo-se como um contra-movimento às ―autarquias territoriais‖, fenômeno
denominado de ―re-centralização das atividades administrativas‖, reduzindo o império dos
interesses locais. 94
No que respeita especificamente à Justiça do Trabalho, a natureza da vida social e
econômica indica as condições de trabalho devem ser de natureza coletiva. O Estado se vê,
assim, obrigado — por uma ―lei sociológica‖— a dar ―força de norma geral‖ ao contrato
coletivo e à convenção coletiva de trabalho. Nesse sentido, a flexibilização jurídica
observada no funcionamento da Justiça do Trabalho caracterizar-se-á pelos seguintes
pontos: a) os tribunais são corporativos e paritários; b) os ritos são breves e simples; c) os
critérios decisórios são flexíveis e práticos; d) as decisões têm caráter condicionado e
revogável; e) há ―refractariedade ao princípio da coisa julgada‖; f) a atividade funcional da
justiça tem natureza regulamentar; e g) a dinâmica de mediação e da arbitragem aparece
como critério para a formulação da decisão, redundando no afastamento da norma jurídica

93
Idem, p. 94.
94
Idem, p. 49.

207
abstrata como elemento balizador do caso real e sua substituição por ―standards legais,
concretos, objetivos e flexíveis‖. 95
O Estado corporativo idealizado por Oliveira Vianna necessita, portanto, da
formação de uma juridicidade completamente inusitada, fundada em elementos
pragmáticos, que desloca as funções legislativas do Parlamento para o centro do Poder
Executivo, ou para a manifestação das decisões judiciais. A configuração deste
antiformalismo no direito faz surgir uma nova forma de Estado que, apesar de não
prescindir da legitimação pelo procedimento legal e judicial, desloca a conformação
formalmente democrática da lei para o espaço arbitrário da decisão administrativo-
burocrática. Carl Schmitt é a influência explícita e marcante desta rearticulação política
fundamental. Ao recepcionar a idéia de ―Estado legislador‖ de Schmitt, e ao contextualizá-
la numa situação de complexidade social, Oliveira Vianna coloca como necessária uma
dinâmica jurídica e judicial marcadamente ideológica e ocasional.

7.2 Um Direito corporativo definindo o Estado Novo

Segundo Oliveira Vianna, é este regime jurídico que deve ser extraído, em síntese,
de uma interpretação construtiva da Constituição de 1934, e é nesta Carta que se
encontraria pela primeira vez materializada a posição corporativa do autor. O
corporativismo será o resultado de sua avaliação sócio-econômica do Brasil contemporâneo
e servirá de base para compreender as funções legislativas do Presidente da República
estabelecidas pela Constituição de 1937, bem como para justificar a redução dos poderes
legislativos do Parlamento e para a configuração diferenciada da organização federativa.
Neste modelo institucional, o Poder Executivo garante a soberania nacional frente aos

95
Idem, pp. 140-1; 150-1; 102 a 115. O contrato coletivo de trabalho é ―um verdadeiro feixe de contratos
individuais de trabalho: o seu caráter coletivo resulta do modo de execução do trabalho — e não da própria
relação jurídica estabelecida: esta é sempre de natureza individual‖; já a convenção coletiva de trabalho
insere-se em outra situação, em que ―não se contratam serviços e sim normas (preceitos, cláusulas, etc), pelas
quais se deverão reger os futuros contratos de trabalho, sejam individuais, sejam coletivos. (...) a convenção
coletiva é um pequeno ‗código de normas‘, a que ficarão subordinados todos os contratos de trabalho
(individuais ou coletivos), que foram conchavados pelos membros dos grupos que pactuaram a convenção ou
que pertençam às categorias profissionais interessadas.‘‖.

208
poderes locais, através da administrativização das funções do Estado e da concentração de
poderes nas mãos do Presidente da República. Jarbas Medeiros no seu Ideologia autoritária
no Brasil, 1930/1945 (1978) sintetiza essa relação entre direito e organização política:
Para Oliveira Vianna, em suma, os conflitos trabalhistas, a luta de classes, as greves,
as sabotagens, a ―desordem geral‖, enfim, eram características do Estado liberal,
intrinsecamente ―absenteísta‖. O Estado moderno, por ―intervencionista‖, colocaria
um ponto final, justamente através da ―disciplina‖ das convenções coletivas do
trabalho e da regulamentação estatal das categorias profissionais, a toda aquela
―desordem‖. Estado moderno, Estado popular, Estado autoritário, Estado
corporativo e Estado nacional equivaler-se-iam no pensamento político de Oliveira
Vianna: a questão social entre nós teria, assim, uma solução nacionalista, moderna,
autoritária e corporativa. 96

Outra não é a opinião de Evaldo Amaro Vieira, que no livro Oliveira Vianna & o
Estado Corporativo: um estudo sobre corporativismo e autoritarismo (1976), considera
que a concepção um tanto eclética de Estado corporativo do autor que estuda indica, na
realidade, a idéia de um ―Estado autoritário‖, cuja função seria forjar a consciência da
nacionalidade no povo brasileiro, forçando o fim dos regionalismos fragmentadores. As
condições sociais, políticas e econômicas do Brasil depois de 1930 apontavam para a
impossibilidade do domínio exclusivo de uma classe sobre o Estado, estabelecendo-se o
papel da burocracia estatal como a grande força motriz de organização da nação. 97 O
próprio Oliveira Vianna confirma sua tendência unificadora em palestra irradiada pelo
Departamento de Imprensa e Propaganda: Os Regionalismos e a unidade nacional (1935),
onde sustenta que a descentralização republicana retardou e perturbou o processo de
unificação realizado pelo Império, que objetivava a unidade nacional do país ―pela
centralização política e pela compressão administrativa, numa unidade moral, objetivada
numa verdadeira consciência nacional‖. 98 Este sentimento de unidade nacional
desenvolvido no Império é que teria sustentado a existência do país durante a República e é
o mesmo sentimento que indicará a necessidade de escorar-se o primado do poder
executivo no regime da Constituição de 1937, porque este regime, conforme o livro O
Idealismo da Constituição, na 2ª edição, institui-se reagindo contra a ―preponderância do
96
MEDEIROS, Jarbas. Ideologia autoritária no Brasil, 1930/1945, p. 183.
97
Cf. VIEIRA, Evaldo Amaro. Oliveira Vianna & o Estado Corporativo: um estudo sobre corporativismo e
autoritarismo. São Paulo: Grijalbo, 1976, pp. 98 e ss.
98
VIANNA, Francisco José Oliveira. Os Regionalismos e a unidade nacional (1935). In: VIANNA, Francisco
José Oliveira. Ensaios inéditos. Organização de Marcos Madeira. São Paulo: Unicamp, 1991, pp. 363-7., p.
365.

209
Parlamento‖ e seus desdobramentos funcionais nefastos à unidade nacional, como o
facciosismo, a ineficácia (―esterilidade‖) da ação legislativa, e a ausência do interesse
coletivo ou nacional pelos partidos. Num texto parcialmente escrito em tom oficialesco,
Oliveira Vianna acopla a crítica ao ambiente revolucionário internacional, de origem
comunista, à análise da organização política do federalismo e dos grupos partidários sem
ideologia definida que dominavam a Câmara através de suas máquinas eleitorais violentas e
fraudulentas —na verdade uma censura à dinâmica da política dos governadores durante a
1ª República.99 Desta forma, portanto, justifica-se o golpe de Estado:
Era esta a situação brasileira antes do golpe de 10 de Novembro. Cumpria, pois,
salvar a soberania da Nação, o prestígio do governo central, os interesses
fundamentais da ordem pública e da integridade nacional, ameaçada pela
sublevação dos Estados em iminência de secessão. Era preciso operar um
movimento pronto, enérgico, imediato de reação e defesa. Está claro que só por um
golpe de Estado era possível isto.100

Esse tom apologético não abandonará toda a parte da 2ª edição do Idealismo da


Constituição que descreve a estrutura e os fundamentos do regime político do Estado Novo
a partir de uma exegese estreita, sucinta e protocolar da Constituição. Nem de longe esse
momento do texto lembra o autor erudito e sutil de alhures. Impera, nesta 2ª edição, o
divulgador do regime num exercício de legitimação pela autoridade intelectual, já que o que
realmente faz é inserir não mais que 60 páginas novas a um conjunto de escritos esparsos e
ao livro de mesmo nome publicado quase duas décadas antes. 101
Ainda assim, é possível destacar alguns pontos que determinam, com maior
precisão, os fundamentos de sua adesão ao Estado Novo, especialmente a que se dá pela
perspectiva do corporativismo como centro de produção da normatividade social do Estado.
Oliveira Vianna pretende, com o seu modelo de Estado —a que se vincula sua interpretação
jurídica—, arrefecer ou mesmo dar fim ao conflito social típico das sociedades de massa. O
seu corporativismo objetiva eliminar a conformação democrática originária da República

99
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 2ª edição aumentada, pp. 122-3:
―Criou-se, assim, um ambiente de intranqüilidade geral, de conspirações latentes, de motins episódicos e
locais e, por fim, de vastas articulações revolucionárias, a que se associaram, com o seu ouro e a sua técnica
brutal e sanguinária, os agentes secretos da III Internacional.‖.
100
Idem, p. 124.
101
De fato, sobre o Estado novo, encontra-se um capítulo intitulado ―O Primado do Poder Executivo‖, que vai
da página 121 à 180. É o texto ―oficial‖ do livro. A segunda parte, a ―Organização das fontes da opinião
democrática‖ (pp. 181 a 250) tem maior interesse teórico por ser um texto mais denso, onde os lineamentos
gerais da percepção da ordem democrática em Oliveira Vianna ficam mais claros.

210
—com a representação parlamentar e a divisão de poderes características do ideal liberal
que a sustenta— e substituí-la pela participação de grupos de interesse como fundamento
das decisões administrativas do Estado. Essa nova democracia corporativa é, na verdade,
um claro deslocamento da função democrática liberal, da representação política que se
pretende universal, para uma representação de classe, ou seja, para a representação
econômica, abertamente interessada, dos setores produtivos. Representação maculada, diga-
se de passagem, pelo domínio oficial das agências administrativas do Estado sobre as
organizações de classe, 102 configurando o fenômeno que ficou vulgarmente conhecido
como peleguismo. Isto se define, paradoxalmente, como a redução, ou até a extinção, da
função democrática que cumprem as instituições formalmente estabelecidas pelo Estado
republicano.
Nesse sentido, como aponta Franz Neumann no artigo O Conceito de liberdade
política (1953) —que influenciou toda a literatura crítica ao Estado nacional-socialista,
citando o conceito de volonté générale de Rousseau—, o interesse de grupo ou classe não
coincide, necessariamente, com o interesse nacional, que estaria, supostamente,
representado pelo Parlamento.103 Pelo contrário: em geral, não há como se garantir no
sistema corporativo —em se seguindo o princípio liberal pressuposto por Neumann e
negado por Oliveira Vianna, de que o interesse público estaria efetivamente representado
no Parlamento—, que o Estado se comporte de forma a preservar o interesse público em
detrimento dos interesses corporativos que imediatamente estão em pauta num processo
que se mostra como o de chancela política desses mesmos interesses. Neumann considera
que o modelo de política com fundamento corporativo traz, dentro de si, o gérmen das
tendências antidemocráticas,104 o que, em se tratando de conformar essa leitura ao Estado
Novo, não deixa de ser uma sutileza de estilo.
A incorporação dos fundamentos teóricos do modelo de organização política de
Oliveira Vianna na estrutura constitucional do Estado Novo foi considerável, em que pese a
mediação do texto final da Constituição de 10 de novembro de 1937, composto por

102
Fenômeno idêntico estava acontecendo na Alemanha nacional-socialista, como relata NEUMANN, Franz.
Behemoth: the structure and pratice of national socialism. London: Victor Gollancz LTD, 1942, p. 326.
103
Cf. NEUMANN, Franz. The Concept of political freedom. In: NEUMANN, Franz. The Democratic and
the authoritarian State: essays in political and legal theory. Edited and with a preface by Herbert Marcuse.
New York/London: The Free Press/Collier-Macmillan Company, 1957 (1953), pp. 160-200., p. 191.
104
Idem, p. 193.

211
Francisco Campos. Não é por outro motivo, senão pelo fato de que o seu modelo de relação
política entre um Legislativo anêmico e um Executivo fortificado foi realizado in totum
pela Constituição, que o autor indica de forma precisa, que a capacidade regulamentar e
legislativa do Presidente da República, com a nova engenharia constitucional, foi
―enormemente‖ ampliada:
a lei, quando de iniciativa do Parlamento, limita-se, pela nova Constituição, a
dispor e preceituar de modo geral, isto é, apenas sobre a substância e os princípios
da matéria legislada. O resto, tudo o mais, fica para a legislação complementar do
Governo — o que dá considerabilíssima amplitude aos poderes regulamentares do
Executivo.105

A previsão de poderes legislativos para o Presidente significa, para o autor, que a


movimentação administrativa do Estado torna-se mais livre, pois o chefe do Executivo
legisla, edita leis, tem, em regra, a iniciativa de projetos de lei, é fonte de normas legais e as
expede em forma de Decretos-Lei, seja por direito próprio (por autorização constitucional
do art. 73 e em caso de recesso do Parlamento) ou por delegação do Parlamento. Essa
redução da importância política do Parlamento opera, como bem aponta o próprio autor,
contrariando os regimes de democracia liberal.106 A força legislativa do Presidente
significa, em verdade, o seu reconhecimento como representante único da ―totalidade
nacional‖. A questão primordial é a crítica subjacente ao poder legislativo do Parlamento,
já que se pode apontar, com facilidade, a censura antiliberal da tradição jurídica alemã
como origem direta do posicionamento de Oliveira Vianna cujo alcance, de resto,
assemelha-se ao da crítica ao Parlamentarismo realizada por Francisco Campos, embora o
tom deste último seja muito mais corrosivo. No capítulo em que discute os fundamentos
políticos e lógicos do primado do Executivo, Oliveira Vianna argumenta que o Parlamento
compõe-se de prepostos dos governadores e das oligarquias como resultado —evidenciado
pelos fatos observados, ―da verdade‖ e ―da realidade‖—,do sistema eleitoral dividido em
circunscrições ou círculos locais de eleitores. Diante disto, se o Parlamento representa os
interesses locais e se os ―grandes interesses da nação‖ não podem se lhes subordinar, o
Poder Executivo não pode submeter-se ao Parlamento. Destes fatos, conclui-se que a

105
VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 2ª edição aumentada, p. 135.
106
Oliveira Vianna acreditava que se o plebiscito fosse realizado, o conselho de Economia Nacional, órgão de
natureza corporativa, tomaria o primeiro lugar como órgão representativo e a força do Parlamento estaria
francamente decadente na formulação e na organização da política nacional. Idem, p. 141.

212
Câmara não é uma ―representação da Nação, na sua unidade, na unidade da sua consciência
e dos seus interesses; mas, simples e puramente, um conglomerado de representações
locais‖. Oliveira Vianna vê um Estado democrático por ter assegurada a representação
eletiva das câmaras, do Presidente e do Conselho Federal derivada da manifestação de um
corpo eleitoral popular.107
Sobre a relação específica entre o executivo e o Parlamento na Constituição de
1937, Oliveira Vianna expressa a sensação de ―que o espírito da nova organização é de
pouca confiança na opinião das assembléias políticas, de pura formação partidária‖, e que o
Presidente não necessita mais lançar mão —como nas organizações liberais anteriores— do
apoio de partidos, de ―‗conciliações‘, ‗coligações‘ ou ‗maiorias governamentais‘‖.
Expressão de pura descrença na lisura da representação política liberal à qual credita a
ausência de significação social ou de conteúdo coletivo,108 sendo esse papel de
representação do interesse nacional melhor realizado pelas entidades corporativas e em
especial pelo Presidente, já que avalia que, em
Considerando a nação como uma unidade, como uma personalidade coletiva, como
uma totalidade orgânica — e não como um conjunto geográfico de Províncias ou
Estados, meramente ajuntados ou unidos — ninguém com mais autoridade para
encarná-la na sua soberania do que ele [o Presidente], o único dos seus
representantes que é escolhido por um círculo eleitoral, cujos limites coincidem com
os do próprio território nacional. 109

Também para Carl Schmitt, a crítica ao sistema parlamentar é contemporânea ao


seu nascimento na Baixa Idade Média e deriva de uma literatura ancorada na tradição de
idéias corporativas (berufsständischer Ideen), alternativas corretivas ao sistema
parlamentar.110 Apesar de não se filiar ao corporativismo, por compreender —como
Gaetano Mosca e H. Berthélemy— que ele tem origem na transferência dos métodos da
organização econômica para a vida política, Schmitt, em 1926, critica alguns aspectos
idênticos aos que Oliveira Vianna realiza na sua avaliação negativa do parlamentarismo,
em 1939. Dentre os elementos criticados, destacam-se: a) a necessidade de unidade na
representação espiritual (Repräsentation) (Schmitt a classificará como uma homogeneidade
anti-classista) através da aclamação do Presidente da república; e b) unidade essa que não

107
Idem, pp. 155, nota nº. 6; 159-60; 164.
108
Idem, pp. 167-9.
109
Idem, p. 153.
110
Cf. SCHMITT, Carl. Die Geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus, p. 28.

213
precisa de intermediários para manifestar, por seus atos, a vontade do povo —
intermediários que funcionam como simples representantes (Vertretung) de interesses
privados, localizados ou de classe. O Presidente não figura, assim, como um emissário ou
como um agente comissionado, mas como autor com liberdade ilimitada para agir em sua
ação representativa. Em identidade absoluta com a totalidade do povo nacional, e operando
pela distinção fundamental com os não-nacionais, o Presidente centraliza a função
legislativa e a administra através de sua função executiva. A legislação, nesse sistema,
emana da administração, e não de um Poder distinto do Executivo.
Esses aspectos criticados por Schmitt são um ataque ao que considera o caráter não
representativo do Parlamento, confirmado pelo fato de que há necessidade da disciplina de
voto nos partidos, que representam interesses que não são de todo o povo. O resultado é que
não há democracia de fato quando a representação se faz pelo Parlamento. 111 Esta ausência
de representatividade torna necessário um processo que se manifeste pela unidade entre
povo e representante, só realizada pela relação entre o chefe do poder executivo e a
população homogeneizada. A distinção entre Schmitt e Oliveira Vianna é que Schmitt
separa doutrinariamente a pretensão liberal de representação Parlamentar da opinião
pública nacional, da representação de interesses que podem estar, por exemplo, vinculados
às corporações.
Oliveira Vianna, contudo, compreende a ausência de opinião da nação somente
quando se refere à eleição colegiada de representantes para o Parlamento, identificando
uma limitação da representatividade eleitoral, circunscrevendo a abrangência de uma
representação maculada pelos interesses locais. Em Oliveira Vianna, opinião e interesse
aparecem como sinônimos ou, pelo menos, numa relação de complementaridade: a opinião
é o veículo organizado e constante de manifestação do interesse. Em Schmitt, opinião e
interesse são, ambos, objetos de representação, com uma diferença: a opinião possibilita
uma representação pública e o interesse apenas indica a possibilidade de representação
parcial ou privada. Como o Presidente está em situação de identidade com o povo, a
opinião pública pode manifestar-se apenas quando o Chefe do Executivo considerar o
assunto relevante. Como faz Schmitt em relação à representação por aclamação, Oliveira

111
Idem, pp. 28-9 e 42.

214
Vianna define o caráter democrático do Estado Novo pelo fato de sua Constituição prever o
―apelo direto à opinião pública‖ para as questões de maior relevo.112
O ponto de interseção entre os dois autores é estarem ambos influenciados por uma
aproximação crítica e antiliberal ao Parlamento e ao próprio presidencialismo —
caminhando em direção a concepções de Estados ―fortes‖ ou ―autoritários‖ (caracterizados
pelo poder planificador do Executivo). No autor brasileiro, o antiliberalismo tem a ver com
a crítica ao federalismo a que a doutrina e a prática liberal estiveram ligadas durante a
República, redundando na decadência do princípio da autoridade. Para o autor alemão, o
antiliberalismo vincula-se à crise da República de Weimar, que se mostrou incapaz de
impor a autoridade da lei através da dinâmica parlamentar de cunho liberal. Ambos irão
propor, então, o reforço do Poder Executivo, com ampla discricionariedade, como antídoto
para o princípio da liberdade que, para ambos, eclipsava o caráter decisório e
substantivamente democrático da organização social a partir do Estado.
Uma questão final sobre Oliveira Vianna aparece em sua direta contraposição a
Francisco Campos no que respeita à compreensão da natureza do regime político de
representação numa sociedade de massas. Para Campos, está claro que existe uma
tendência universal para os movimentos de massa, que se formam pela capacidade
mobilizadora do mito, seja o da greve geral, seja o mito da nação ou o do líder carismático.
Campos vê a sociedade brasileira como um reflexo natural, uma extensão da sociedade
européia no que se refere à sua dinâmica moderna de fenômeno de massa. Em Oliveira
Vianna, por outro lado, a questão se coloca através da dinâmica representativa: os partidos
no Brasil não passam de simples aglomerações oligárquicas, de clãs, de grupos
improdutivos, cujo objetivo seria explorar o país através da atividade burocrática quando da
conquista do poder. Por conta dessa incapacidade estrutural de representação de interesses
gerais, os partidos não podem ter função representativa, sendo a extinção dos partidos
políticos pelo Estado Novo ―um ato do mais puro realismo político‖. A questão da
representação política, da constituição de fontes de opinião não deverá igualmente passar
pela formação de partido único, que depende da formação de uma mística capaz de dar
legitimidade à monopolização da máquina pública.

112
Cf. VIANNA, Francisco José Oliveira. O Idealismo da Constituição. 2ª edição aumentada, p. 163.

215
Não há, em nosso povo, na sua psicologia coletiva, condições para a construção de
uma mística viva e orgânica, uma mística que se apodere da alma nacional e a mova
num sentido nitidamente determinado. Para um objetivo preciso — como o
nacionalismo imperialista dos italianos de Mussolini ou o Nacionalismo racista dos
alemães de Hitler. Uma pequena corte ou falange de homens de elite poderá, aqui,
tomar-se de uma mística e agir no sentido dela; não, um partido, mesmo que ele
represente uma minoria da Nação e seja o único partido militante: faltam-nos as
condições históricas, sociais e políticas que geraram, na velha Europa, estas
místicas poderosas. Na Itália ou na Alemanha, estas místicas não surgiram pela
vontade dos homens de gênio, que as encarnam — Mussolini ou Hitler; surgiram
das circunstâncias dramáticas, que colocaram estas nações dentro do dilema —
―viver ou morrer‖: — e a fórmula da mística era justamente a fórmula da vida. 113

As condições sociais que se manifestam, claramente, na obra de Oliveira Vianna,


como a dispersão populacional, a falta de conflitos de classe, a vida simples, a atmosfera de
―cordialidade‖, todos esses fatores indicam a impossibilidade de uma mística, ―de uma
weltanschauung‖ popularizar-se. O autor contrapõe-se frontalmente a uma percepção que,
certamente, considera idealista, na medida em que não leva em conta a especificidade
sociológica da conformação social e política do Brasil. Qualquer mística operando no
vácuo nivelar-se-á, fatalmente, à psicologia das oligarquias políticas, o partido único
transformando-se em ―fermento de revoluções civis ou militares‖, mantido, unicamente,
pela repressão violenta. Para Oliveira Vianna, a mística coletiva só se estabelece em
situações muito específicas, onde a ameaça externa é uma realidade constante, onde o povo,
estando em um pequeno território e ―com o inimigo à vista‖, pode ser tomado facilmente
pelo fanatismo delirante de defesa ou salvação coletivas. O modelo de ordem política que
vislumbra, o do ―Presidente Único‖, não passa pela conformação mítica, pela mobilização
emocional das massas, pela legitimação ideológica de uma palavra de ordem específica. A
solução do autor e sua interpretação para o Estado Novo são de uma organização nacional e
orgânica, vinculadas que estão à história institucional do Brasil. Olhando para o momento
histórico em que foi possível formar e desenvolver o sentido de nacionalidade, é ali —no
modelo político-constitucional do Império— que encontrará a chave interpretativa do
regime caracterizado pelos ―poderes e prerrogativas excepcionais‖ do Chefe de Estado:
O ideal de um chefe de Estado é, em tal regime [Estado Novo], o de uma autoridade
que se coloque justamente acima dos partidos e grupos de qualquer natureza, de
modo a poder dirigir a Nação do alto, num sentido totalitário, agindo como uma

113
Idem, p. 203.

216
força de agregação e unificação — e não como uma força de desagregação e de
luta.114

Se em Francisco Campos é encontrada uma justificação universal, moderna, técnica,


cosmopolita, para o Estado Novo e para o regime de força que irá aglutinar a sociedade
brasileira em torno de Getúlio Vargas e da Constituição de 1937, em Oliveira Vianna esta
legitimação política do regime necessariamente vem do período áureo da
institucionalização do Estado nacional, quando a predisposição de organização racional da
sociedade foi implementada sem o descuido das necessidades ―espirituais‖ relativas ao
princípio da unidade. Considere-se que, entre o Império e o Estado Novo, está o período
conturbado da 1ª República. Após esse período de desestabilização do princípio da unidade
nacional, Oliveira Vianna considera que a legitimação do novo regime republicano se dá
pela organização social da massa, de cima para baixo, dependente que está da força
constritiva da coordenação institucional da administração pública —o Presidente investido
de um Poder Moderador— e da organização corporativa das classes produtoras,
representantes do verdadeiro interesse nacional. Nessa ―Democracia autoritária‖, onde as
corporações são o verdadeiro povo, e as eleições são dispensáveis, é a organização
associativa que garante a opinião, orientadora do Estado.115

114
Idem, p. 208.
115
Idem, pp. 215; 229-30; 211.

217
PARTE 4. O CONSTITUCIONALISMO ANTILIBERAL DA CARTA DE 1937

A Constituição de 10 de novembro caracterizou-se, com o decorrer do tempo, como


um documento polêmico. Desde o início de sua existência até 1946, quando foi promulgada
uma nova Constituição, foi alvo de inúmeras críticas, sendo compreendida, até hoje, pelos
adjetivos e características genericamente atribuídos a ela: fascista, autoritária, castilhista,
anticonstitucional, ditatorial, caduca, meramente formal em sua vigência e inaplicada. De
fato, a Constituição de 1937 veio a lume já legitimando o emprego imediato do estado de
emergência, que —dentre outras características— retirava dos poderes legislativo e
judiciário a competência jurídica de controlar e julgar os atos excepcionais do Presidente da
República.1 Desde 18 de dezembro de 1935, entretanto, o Estado Novo já se tinha instalado
de fato. Com o Decreto Legislativo n.° 6, a Constituição de 1934 é emendada para
equiparar ao estado de guerra (art. 161) uma nova figura denominada comoção intestina
grave.2 A partir de então, o Presidente da República —que já contava de fato com o apoio
fundamental das Forças Armadas, que haveriam de decidir pelo golpe— teria o poder de
suspender as garantias constitucionais que considerasse prejudiciais à segurança nacional.
Esse Decreto foi prorrogado sucessivamente até novembro de 1937.
Por sob estas movimentações de caráter essencialmente político, subsiste um
modelo de constitucionalismo de perfil antiliberal que lhes confere um preciso sentido
técnico-jurídico. A utilização indiscriminada de poderes emergenciais através de institutos
jurídicos de caráter extraordinário, e a posterior elaboração de uma Constituição de perfil

1
Como reza seu penúltimo artigo, o Art. 186: ―É declarado em todo o País o estado de emergência‖.
BRASIL, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1937, p. 115. In: PORTO, Walter
Costa. Constituições Brasileiras: 1937. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, Centro de Estudos
Estratégicos, 2001, pp. 69 e ss.
2
VIANNA, Luiz Jorge Werneck. Liberalismo e sindicato no Brasil. 4ª edição revista. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 1999, pp. 252 e ss. ―EMENDA N.°1 — A Câmara dos Deputados, com a colaboração do
Senado Federal, poderá autorizar o Presidente da República a declarar a comoção intestina grave, com
finalidades subversivas das instituições políticas e sociais, equiparada ao estado de guerra, em qualquer parte
do território nacional, observando-se o disposto no Art. 175, n.°1, §§ 7°, 12 e 13, e devendo o decreto de
declaração da equiparação indicar as garantias constitucionais que não ficarão suspensas‖. BRASIL,
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. In: POLETTI, Ronaldo.
Constituições brasileiras: 1934. Brasília: Senado Federal e MCT, Centro de Estudos Estratégicos, 2001, pp.
115-188., p. 187.

218
plebiscitário, levanta o problema sobre o tipo de Estado, sobre o modelo político-
constitucional subjacente. O modelo teórico-conceitual antiliberal que informava o
constitucionalismo da época, da qual Carl Schmitt é um expoente mais que reconhecido,
tinha como suposição básica a convergência de várias circunstâncias que demandavam uma
organização política de natureza cesarista, gerando a incapacidade (ou ineficácia) de um
constitucionalismo de molde liberal. 3 O não reconhecimento do caráter jurídico das técnicas
ou das normas que informam a estrutura constitucional de exceção seria, em conseqüência,
para Schmitt, o pecado capital das ordens liberais, em crise já no início dos anos 30 do
século XX. O deslocamento ideológico que sofreu o constitucionalismo ocidental nas
primeiras décadas do século XX foi o fato através do qual tornou-se viável a legitimação de
um aparato político letal. O Estado que nascia na Alemanha no início da década de 20
queria o controle social e político das massas trabalhadoras que tentavam se organizar. A
exacerbação do modelo, o Estado nazista, não é objeto deste trabalho. Mas é possível
vislumbrar o início da República de Weimar como a representação de um fenômeno de
caráter mundial. A necessidade de um Estado social, que fosse capaz de ―fazer a revolução
antes que o povo a fizesse‖, transformou-se, através de técnicas constitucionais caras à
tradição reacionária, em necessidade de um Estado antiliberal.

3
Cf. McCORMICK, John P. From constitutional technique to Caesarist ploy, passim.

219
8. A ONDA DO CONSTITUCIONALISMO ANTILIBERAL NOS ANOS 30

8.1 Alemanha, Polônia e Brasil sob o jugo do constitucionalismo antiliberal

A justificação jurídico-constitucional do Estado Novo acompanhou o movimento de


administrativização do direito, isto é, a transferência do poder legislativo para a
administração pública e a constitucionalização de instrumentos provisionais de manutenção
do poder político, como o estado de emergência. Essas duas características eram
compartilhadas por várias constituições do ocidente, mas, na América Latina, o Brasil
destacou-se por aproximar um modelo de Estado que só emergiu com a derrocada da
democracia de Weimar, expressa pelas alterações profundas na dinâmica constitucional, e
com a consolidação da ditadura polonesa sob o marechal Pilsudsky. O paradigma da
atuação constitucional por mecanismos de emergência consolidou-se no Reichspräsident
Friedrich Ebert que, durante os anos iniciais da República de Weimar, seria influenciado
por Carl Schmitt —que permaneceu como consultor jurídico principal de todos os
Presidentes que sucederam Ebert, inclusive o próprio Hitler. A legitimidade jurídico-
constitucional para uma constante utilização dos mecanismos de emergência aconteceu
através do famoso art. 48 da Constituição de 1919. Numa história republicana de pouco
mais de 13 anos, os poderes emergenciais do art. 48 foram demandados mais de 250 vezes.
A justificação da assembléia constituinte para a existência do art. 48, apesar da experiência
nefasta do estado de guerra (Kriegszustand) do Império germânico —e mesmo consciente
de que os poderes ali fixados ―iam muito longe‖—, fundou-se na ―necessidade do tempo‖.
A subseqüente confusão entre legislação parlamentar e decretos administrativos, derivados
da ampliação considerável da discricionariedade legislativa do Poder Executivo, deu
origem à predominância do aparato técnico-burocrático na condução do processo de
decisão política. 4

4
Cf. ROSSITER, Clinton. Constitutional dictatorship: crisis government in the modern democracies.
Reprint of 1948 first edition. New York/Burlingame: Harcourt, Brace & World, INC., 1963, pp. 33 e ss.; Cf.
SCHEUERMAN, William E.. Introduction. In: SCHEUERMAN, William E. (Editor). The Rule of Law
under siege: selected essays of Franz L. Neumann and Otto Kirchheimer. Berkley/Los Angeles/London:
University of California Press, 1996, pp. 1-28., p. 4.

220
Segundo Franz Neumann, num dos primeiros textos de avaliação crítica sobre o
definhar de Weimar, A Decadência da democracia alemã (1933), a situação política de um
sistema constitucional que balançava entre liberalismo e socialismo era um equilíbrio tênue.
A democracia coletivista que havia implantado os direitos trabalhistas não chegou a criar
um Estado corporativo porque o poder político pertencia exclusivamente ao Parlamento. O
poder não era, portanto, dividido com partidos ou sindicatos que, aliás, não estavam
subordinados legalmente ao Estado, enquanto o Conselho Econômico Nacional não
participava da legislação. A essa aparente trégua na luta de classes através da incorporação
de direitos sociais na Constituição, combinados com uma estrutura liberal, devia-se ao fato
de o objeto primordial do Reich ser ―evitar o bolchevismo‖. Enquanto perdurasse a situação
de estabilidade econômica, o sistema capitalista poderia suportar em silêncio o conjunto de
direitos sociais reconhecidos e implementados através da Constituição de 1919. Quando os
lucros começaram a escassear, o movimento contra a organização social do trabalho —que
originalmente havia sido criada a fim de abafar as reivindicações socialistas e comunistas—
intensificou-se. O alvo passou a ser o sistema democrático liberal-parlamentar que, em
funcionamento, representava a ―plataforma da emancipação trabalhista‖. 5
Para Neumann, havia um problema na estrutura constitucional que ajudou a enterrar
rapidamente a República de Weimar num governo com poderes concentrados no Executivo.
Enquanto a Constituição garantia a existência de inúmeros direitos sociais, que
necessitavam da imediata e às vezes constante regulamentação, o Parlamento, desenhado
nos moldes do liberalismo, não desenvolveu —nos anos da República— uma dinâmica
eficaz em sua prática legislativa. A conseqüência foi o rápido deslocamento da competência
regulamentar para o Gabinete de Ministros, vinculado ao Executivo, e a auto-limitação do
Parlamento, que passou a legislar exclusivamente sobre princípios gerais, ―deixando a sua
aplicação para os ministros (Blankettgesetze)‖.6 Um enorme poder foi transferido, portanto,
para instâncias burocráticas vinculadas ao Poder Executivo o que, no entender de
Neumann, fragilizou o controle parlamentar da produção legislativa, eliminou a dissidência

5
Cf. NEUMANN, Franz. The Decay of german democracy (1933). In: SCHEUERMAN, William E. (Editor).
The Rule of Law under siege: selected essays of Franz L. Neumann and Otto Kirchheimer. Berkley/Los
Angeles/London: University of California Press, 1996, pp. 29-43.
6
Idem, p. 35. O termo Blankettgesetze significa norma em branco, ou seja, uma norma que necessita ser
preenchida com o conteúdo de outra para adquirir sentido e ter aplicação. No caso, o Executivo passou a se
encarregar administrativamente do problema, numa corrupção gritante do princípio de divisão dos poderes.

221
política dentro do parlamento (a formação do Gabinete era de coalizão), e deu um status de
governo de fato à burocracia.
Tanto na configuração dos poderes emergenciais contidos originalmente no art. 48
da Constituição de Weimar, quanto nos derivados da incapacidade política e legislativa do
Parlamento em operar sob uma situação de aguda crise política, ―o desejo por um executivo
forte e a demanda por poderes de emergência adequados eram, então, dois elementos para o
mesmo problema‖. 7 Tratava-se da necessidade genética da República de resolver suas
aporias políticas através de um sistema jurídico que incorporasse e legitimasse medidas de
natureza emergencial. Um movimento constitucional antiliberal, capitaneado por Schmitt,
passou a suprir com doutrina uma necessidade que remontava ao Império Prussiano e ao
seu paradigmático estado de guerra (Kriegszustand). Seguindo de perto o exemplo alemão,
o Brasil construía, desde 1935, um conceito antiliberal de defesa do Estado centralizado no
instituto do estado de emergência. Nos art. 166 e ss. da Constituição de 1937, ficou
definido um modelo de restrição de direitos que englobava a suspensão da liberdade de
locomoção e de associação, a censura à correspondência privada e a suspensão das
imunidades parlamentares. Já o art. 186 declarava, em todo o País, o estado de emergência.
O texto que explicita a aproximação indelével do modelo constitucional do estado de
emergência com o original estado de guerra prussiano, refletido na constituição de Weimar,
é o § 2°, que emenda o art. 166 da Constituição de 1937 no ano de 1942 afirmando que
Declarado o estado de emergência em todo o país, poderá o Presidente da
República, no intuito de salvaguardar os interesses materiais e morais do Estado ou
de seus nacionais, decretar, com prévia aquiescência do Poder Legislativo a
suspensão das garantias constitucionais atribuídas à propriedade e à liberdade de
pessoas físicas ou jurídicas, súditos de Estado estrangeiro, que, por qualquer forma,
tenham praticado atos de agressão de que resultem prejuízos para os bens e direitos
do Estado brasileiro, ou para a vida, os bens e os direitos das pessoas físicas ou
jurídicas brasileiras, domiciliadas ou residentes no País. 8

Trata-se da mesma configuração de um instituto de natureza provisional que


historicamente foi caracterizado pela ausência de limites formais. A força do estado de
emergência, condicionado pelas características do estado de guerra prussiano está em sua
capacidade de permitir a reconfiguração completa do modelo de governo sob a égide de

7
ROSSITER, Clinton. Constitutional dictatorship, p. 35.
8
BRASIL, Lei Constitucional nº 5, de 10 de março de 1942, p. 119.

222
uma mesma Constituição. Como a maioria dos modelos legislativos de estado de guerra,
de beligerância, de emergência ou de ―comoção intestina‖, o art. 68 da Constituição
Imperial Prussiana, em oposição aos inúmeros limites atribuídos pela clássica legislação
liberal do estado de sítio, era uma autorização de fato ilimitada para o exercício antiliberal
do poder político. As indefinições temporal, espacial e material de uma declaração de
guerra deixa a seu promotor a liberdade de utilizá-la da maneira que melhor entender. Esta
fórmula, claramente distanciada da idéia de norma jurídica de corte liberal, foi a inspiração
dos parlamentares alemães em geral, e de Hugo Preuss em especial, para contornar a crise
pela qual passava a Alemanha à época da reunião da assembléia constituinte weimariana,
em 1919. 9
A ―republicanização‖ de um instituto imperial não conseguiu, contudo, garantir a
estabilidade econômica demandada pela situação crítica da Alemanha derrotada após a 1ª
Guerra Mundial. No momento em que o art. 48 da Constituição de Weimar passou a ter
como função dar ao Poder Executivo competência legislativa, as novas responsabilidades
constitucionais limitaram a autonomia dos sindicatos que perderam, gradualmente, suas
funções originais por conta do processo de centralização política. As lideranças sindicais
passaram a representar os trabalhadores em um sem número de organismos estatais,
tornando-se politicamente fracas e dependentes de um Estado cada vez mais fascistizado e
corporativista. Segundo Neumann, a alternativa impossível era a guerra civil. O Decreto de
emergência, suspendendo indefinidamente os direitos civis no começo de 1933, foi o fiat
constitucional para a instauração de uma ditadura que durou até 1945.10
Para se investigar além do fato como a ditadura hitlerista derivou de um estado
antiliberal, fascista ou totalitário, ou como essas classificações podem ajudar na
identificação conceitual do Estado Novo é preciso, inicialmente, situar o Brasil no mesmo
período. Emergindo de uma aparente estabilidade política nacional derivada do Pacto dos
Estados instituído pelo governo de Campos Salles (1898-1902), o Brasil tinha se
caracterizado, nas primeiras décadas da 1ª República, pela aparente resolução de um

9
Cf. ROSSITER, Clinton. Constitutional dictatorship, p. 36: ―Art. 68. O Kaiser pode, se a segurança
pública no território federal estiver ameaçada, declarar o estado de guerra em qualquer parte dele. Até a
promulgação de um estatuto imperial regulando as condições, a forma de proclamação e os efeitos de tal
declaração, as provisões que se aplicam são aquelas do estatuto Prussiano de 4 de Junho de 1851‖. Nenhum
estatuto imperial foi promulgado, e a lei de 1851 ficou valendo até o fim do Império.
10
Cf. NEUMANN, Franz. The Decay of german democracy, pp. 37-9.

223
problema institucional de envergadura. Enquanto na monarquia o Poder Moderador era o
responsável pela unificação dos interesses nacionais, o federalismo instituído pela
Constituição de 1891 proporcionou a exacerbação dos conflitos políticos dos Estados
brasileiros com a União. O Presidente Campos Salles, através de uma mudança sutil no
regimento do Congresso Nacional, criou a necessidade de se verificar, formalmente, a
legitimidade dos deputados recém-empossados. O reconhecimento dos diplomas dos
deputados era realizado pelo Presidente do Congresso, eleito para a legislatura anterior. Na
prática, este instituto proporcionou, ao mesmo tempo, a manutenção continuada da
representação das forças estaduais hegemônicas e a docilidade do Congresso ante o
Executivo Federal. A famigerada ―política dos governadores‖ estabilizou a república pela
continuidade do poder político estadual, na medida em que reproduzia o poder existente nos
Estados através da chancela do Presidente da Comissão de Verificação do Congresso.
Politicamente, em resumo, os Estados deixavam de representar uma preocupação para a
União, já que os seus conflitos políticos eram resolvidos internamente.11 Esta situação de
relativa estabilidade política sofreu um abalo significativo com a emergência de problemas
de ordem econômica e política, no final dos anos 20. Essa nova realidade somada à
movimentação política que agitou o país —implicando a organização dos trabalhadores, a
criação de agremiações partidárias anárquico-comunistas, a eclosão de inúmeras greves—,
redefiniu o Estado brasileiro. Depois da ―Revolução‖ de 1930, um novo arranjo
institucional pretendia impulsionar o país para além da prática oligárquico-federalista que
até então caracterizava a política nacional. Pretendia-se afastar o modelo político-jurídico
liberal que informara a Constituição republicana de 1891, em face de uma realidade social a
exigir uma nova institucionalidade, completamente distinta das fontes originárias em que
estivera fundada. As oligarquias tinham, na verdade, eliminado a possibilidade de uma
organização institucional com base naquela Constituição. Oliveira Vianna já deixara esse
ponto cristalizado na avaliação sociológica da 1ª República e da necessária nacionalização
dos interesses sociais, corporativizando e centralizando o Estado.
Diferentemente do que ocorreu na Alemanha sob Weimar, o corporativismo
estatista, como instrumento de inclusão subordinada dos trabalhadores ao Estado brasileiro,

11
Cf. LESSA, Renato. Introdução: Campos Salles e o paradigma oligárquico brasileiro. In: SALLES,
Campos. Da Propaganda à presidência. Edição fac-similar. Brasília: Senado Federal: 1998, pp. iii-xli.

224
não foi uma decorrência fortuita do enfraquecimento dos poderes democráticos da
República. Pelo contrário, o intervencionismo do Estado, projetado por Vianna, teria a
incumbência de eliminar os distúrbios naturais de uma ordem social em implantação, de
natureza capitalista. Enquanto em Weimar as características corporativas do Estado foram
instauradas ―por baixo‖ como o prenúncio ―espontâneo‖ da decadência dos institutos
formais da democracia, o corporativismo no Brasil veio ―por cima‖, para combater, pela
incorporação, exatamente os movimentos sociais de natureza sindical em processo de
organização. Oliveira Vianna pretendia refundar, em novas bases, o processo de unificação
iniciado no Império. Percebendo a dinâmica dos conflitos sociais numa sociedade de
massas, o Estado de perfil corporativo e antiliberal torna-se uma nova possibilidade
democrática, também distinta da democracia liberal.
A Revolução de 30 refunda a República, impondo o predomínio da União sobre a
federação, das corporações sobre os indivíduos, e a precedência do Estado sobre a
sociedade civil. Para tanto, foi influente o ideário positivista de muitas de suas elites
políticas, especialmente as originárias do Rio Grande do Sul, como no caso do
dirigente do movimento revolucionário vitorioso, Getúlio Vargas, e as provenientes
da juventude militar, congregada no Clube 3 de outubro. São elas, nos primeiros
anos da nova ordem, as principais personagens de sua institucionalização, em
particular na deposição das oligarquias estaduais das suas posições de mando. São
elas, também, as forças que levam à frente o impulso da revolução no que se refere
ao papel do Estado, passando a entendê-lo como condutor da modernização, em
franco dissídio com o liberalismo de mercado que dominou o cenário da Primeira
República. E são elas, por fim, que associam os objetivos da industrialização com os
ideais de soberania nacional e de encaminhamento da questão social, manifestando-
se, nesse caso, em favor da legislação protetora do trabalho, da qual deveriam ser
excluídos os trabalhadores do campo.12

O compromisso que se forma entre modernidade e organização racional tradicional


implicará a sedimentação paulatina de uma cultura estatista e corporativa que, sofrendo o
influxo liberal de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932, render-se-á à
composição entre liberalismo e corporação na Constituinte de 1934. Contudo, a
radicalização entre comunistas (Aliança Nacional Libertadora, de Luiz Carlos Prestes) e
fascistas (o Integralismo de Plínio Salgado), com a participação, em ambos os lados, das
Forças Armadas, não garante a sustentação política da composição constituinte. Logo, os

12
VIANNA, Luiz Jorge Werneck. O Estado Novo e a ―ampliação‖ autoritária da República. In:
CARVALHO, Maria Alice Resende de (Org.). República no Catete. Rio de Janeiro: Museu da Reública,
2001, pp. 111-153., p. 114.

225
conflitos reais —e forjados— passam a sustentar o rearranjo de forças políticas em direção
de um Estado de perfil antiliberal, sob a tutela de Vargas. Já sob o Estado Novo,
promulgada a Constituição de 1937, o corporativismo de Estado seria implementado numa
composição teórica com o modelo de democracia substantiva plebiscitária idealizado anos
antes por Francisco Campos. O perfil antiliberal do modelo de Estado campiano fundiu-se,
assim, aos interesses de tutela coorporativa do industrialismo nacional e às origens
positivistas do modelo de Estado idealizado originariamente por Vargas.13
A gênese do modelo constitucional que deu forma ao Estado Novo é bem
identificada pelo próprio Francisco Campos no texto Diretrizes do Estado nacional (1937).
Publicado em novembro de 1937, no mês de instalação formal do regime, o texto é uma
peça oficial de explicitação dos princípios cardeais da nova ordem política. Considerando a
Constituição de 1934 como restauração da política das oligarquias no poder político,
Campos reconhece, na Revolução de 1930, pela figura de Vargas, o benefício inicial da
coesão proporcionada pela legislação social. Corrompido pelas velhas práticas políticas, o
ideal revolucionário só se realizaria alterando substancialmente as instituições nacionais. A
crítica ao localismo oligárquico toma a forma de censura à existência de partidos. 14 A
―democracia de partidos‖, como diz Campos, é demagógica por excelência e demanda o
reforço da autoridade executiva. Para o autor, que robustece a sua crítica ao Parlamento e à
democracia liberal fundada no sufrágio universal, os elementos a se destacar, nessa nova
Constituição, são o reconhecimento da delegação do Poder Legislativo para o Executivo, a
incorporação do direito ao trabalho e à educação, a restrição do poder de decisão dos juízes
da Corte Constitucional, as práticas plebiscitárias, a ampliação da burocracia pública e o
regime corporativo como um antídoto ao liberalismo e ao marxismo. 15
Por ter se feito ―por cima‖, o Estado Novo foi um exemplar único na composição
ocidental da onda autoritária da primeira metade do século XX. Foi a única ditadura
estabelecida através de uma Constituição previamente elaborada. O objetivo desta parte do
trabalho é clarificar os elementos de um determinado constitucionalismo que se instituiu na

13
Idem, pp. 115-7 e 128. O ideário denominado de ―autoritário‖, atuante desde a república, reconhece um seu
rebento no Estado Novo e adere a ele com um certo entusiasmo. Autores influentes como Monte Arrais,
Bezerra de Menezes, Azevedo Amaral e Alceu Amoroso Lima viram no Estado Novo a concretização de seus
ideais.
14
Cf. CAMPOS, Francisco. Directrizes do Estado nacional (1937), p. 41.
15
Idem, p. 41 e ss.

226
Constituição de 10 de novembro de 1937 como o evento histórico influenciado por um
paradigma conceitual que pode ser configurado a partir da obra de Carl Schmitt. A
delimitação de um projeto conceitual, que conforma um modelo específico de
constitucionalismo —aqui classificado como antiliberal e de massas— é notória e
informará a feitura da Constituição de 1937 através de seu autor, Francisco Campos, que
ressalta a capacidade legislativa do Poder Executivo. O argumento é menos normativo que
empírico. Uma vez que, nas sociedades contemporâneas, as variadas necessidades
envolvem um acentuado caráter técnico, as assembléias políticas carecem de capacidade e
eficiência legislativas.16 Assim, segundo o art. 12 da Constituição de 1937, o Presidente é
autorizado, pelo Parlamento, a expedir Decretos-Leis transformando-se, de fato, no Poder
Legislativo do país. Na Constituição da República da Polônia, de 1935, em seu art. 55,
alínea 1, o Presidente também era autorizado a promulgar decretos. Se, para o
constitucionalismo tradicional na Constituição de 1937, ―a linha reta que dividia os poderes
legislativos e os executivos partiu-se‖,17 para Campos, na sua defesa da delegação
legislativa,
O Estado deixou de ser o guarda-noturno, cuja única função era velar sobre o sono
dos particulares, garantindo o sossego público, para assumir funções de criação e de
controle em todos os domínios da atividade humana. A legislação não se limita mais
à simples definição de direitos individuais: é uma enorme técnica de controle da
vida nacional, em todas suas manifestações. Todos os processos, todas as técnicas
surgidas da revolução industrial, cujo ciclo ainda não se encerrou, constituem outros
tantos problemas legislativos, nos quais, ao lado do aspecto estritamente técnico, se
encontra o aspecto da sua influência social ou da sua utilização em benefício do
bem-estar público.18

Sustentando que a capacidade legislativa do Executivo representa a superação de


uma concepção individualista e negativa do Estado, Campos estabelece a diferença
conceitual entre política e técnica legislativa, a partir de abundante doutrina anglo-saxã.
Enquanto o Parlamento deveria cuidar politicamente dos fatos mais relevantes da vida
nacional através da legislação, a administração pública, pelo seu poder regulamentar e na
expedição de Decretos-Leis organizaria, tecnicamente, os detalhes do cotidiano. Campos
aproveita-se, desta forma, não só de uma estrutura teórica já utilizada por um conjunto de

16
CAMPOS, Francisco. Problemas do Brasil e soluções do regime (1938), pp. 87 e ss.
17
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários à Constituição Federal de 10 de
novembro de 1937. Tomo 1, Arts. 1-37. Rio de Janeiro: Irmãos Pongentti, 1938, p. 327.
18
CAMPOS, Francisco. Problemas do Brasil e soluções do regimen (1938), p. 90.

227
constituições européias da época, como realizará essa estrutura, composta de instrumentos
constitucionais delimitadores do modelo de Estado antiliberal, na Constituição de 1937,
revelando a identidade de alguns de seus institutos com manifestações de ordens sociais
distintas.
Na década de trinta do século XX a tendência geral de reorganização de alguns
Estados ocidentais, após uma década de instabilidades políticas agudas e de uma crise
econômica internacional, foi a do questionamento geral dos ideais e das práticas liberal-
democráticas, especialmente no que respeita à composição das constituições de inspiração
burguesa e às instituições políticas herdadas das Revoluções (Inglesa e Francesa) —em
particular o parlamentarismo. Não é sem razão, portanto, que um constitucionalista muito
influente na década de 30, o russo Boris Mirkine-Guetzévitch aponta, em As Novas
tendências do Direito Constitucional (1932), uma das mais fortes características do
constitucionalismo ocidental contemporâneo: o crescimento dos poderes do Executivo.
Classificado pelo constitucionalista brasileiro Carlos Maximiliano como um reles
―vulgarizador inteligente‖ pela capacidade de traduzir Constituições de vários países,
Mirkine-Guetzévitch foi estudado por muitos dos mais relevantes constitucionalistas dos
anos 30 como um autor capital para a compreensão do novo movimento de política
legislativa que se cristalizava. Aponta, em síntese, a crise das democracias liberais
ocidentais e o crescimento dos regimes ditatoriais e, no caso da América-Latina, prescreve
—talvez ingenuamente— o regime parlamentarista e de opinião pública como antídotos
para os males das novas tendências políticas, amalgamadas no Direito Constitucional
vigente. Dedicando um capítulo inteiro de seu livro à avaliação das diretrizes dos novos
Estados autoritários do ocidente, indica que a racionalização do poder político no século
XX prevê a ampliação do campo de atuação do poder Executivo e a supressão do primado
do poder legislativo, numa sociedade que demanda planificação e organização imperiosas. 19
Seguindo quase que literalmente as idéias de Carl Schmitt sobre a constituição
cultural da modernidade, Mirkine-Guetzévitch assevera que ―O desenvolvimento
progressivo do direito é, em geral, caracterizado pelo fato de que os próprios problemas
estabelecidos no fim do século XVIII como problemas filosóficos e ideológicos, se

19
Cf. MIRKINE-GUETZÉVITCH, Boris. As Novas tendências do Direito Constitucional. Tradução de
Candido Motta Filho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933 [1932], pp. 17 e ss. e 291 e ss.

228
apresentam, em nossa época, como problemas exclusivamente técnicos‖. Desenvolvendo
melhor o argumento, sustenta que
O senso jurídico das concepções fundamentais do direito constitucional muda sua
significação política segundo as épocas, segundo o desenvolvimento da democracia.
(...) A democracia, no tempo da Revolução francesa, tinha necessidade de uma
doutrina; os homens da Revolução francesa se ocupavam unicamente da realização
constitucional desta doutrina, ao passo que agora a democracia triunfante não tem
necessidade de guardar a ortodoxia doutrinal, mas sim precisa achar os meios
técnicos para desenvolver os serviços públicos e o funcionamento da democracia. 20

A conseqüência deste ponto de vista —leitura positiva do processo de tecnicização


das esferas culturais— é, por um lado, a necessidade do controle administrativo sobre a
coisa pública de superar, nas democracias contemporâneas, os limites determinados pura e
simplesmente pela legislação e, por outro, o papel fundamental do Executivo na
determinação do processo legislativo, já que o poder é capaz de disponibilizar os
instrumentos técnicos competentes para a produção da lei. Mirkine-Guetzévitch conclui que
―O verdadeiro sentido político do regime parlamentar na democracia contemporânea está
na formação do Executivo‖.21 Parece que se está diante da descrição do remodelamento da
Constituição de Weimar que sofrerá, exatamente, esse deslocamento em seu campo de
forças político, do Parlamento para o Executivo. Não surpreende, portanto, ao autor, a
configuração antiliberal da maioria dos Estados europeus, que utiliza como base de
pesquisa comparativa de regimes constitucionais.
A complexificação do mundo contemporâneo teria levado o poder político,
necessariamente, a um grau de controle público e a uma necessidade de organização
dificilmente realizáveis a partir de um conteúdo programático destituído de materialidade.
Para Mirkine-Guetzévitch, a democracia contemporânea é tecnificada, necessita manter a
estabilidade política, o respeito à opinião pública e o conseqüente controle das maiorias
parlamentares por meio de um Executivo forte, capaz de agir prontamente às necessidades
do momento. Esse conjunto de argumentos indica, para o autor, uma forte tendência
centralista que exemplifica, em seu livro, com o modelo histórico da reforma constitucional
polonesa capitaneada pelo Marechal Joseph Pilsudsky, para quem ―O único soberano da

20
Idem, p. 296.
21
Idem, pp. 299-300.

229
Polônia é o Presidente da República‖, 22 argumento utilizado tanto por Carl Schmitt quanto
por Francisco Campos a partir de uma abordagem que identifica a ditadura com a ausência
de limites claros entre os poderes políticos, com a personalização da soberania e com a
proposição necessária de um regime novo.
Efetivamente, a Constituição de 1937 —conhecida sob a alcunha de ―Polaca‖—
sofreu o influxo direto da tendência constitucional européia, de caráter antiliberal, como
indicam alguns textos da época. Para Mirkine-Guetzévitch a construção constitucional de
um sistema de governo onde ―o Presidente é o detentor de um poder pessoal, tanto no ponto
de vista governamental como no ponto de vista legislativo‖ aponta para um ―pseudo
constitucionalismo‖ similar ao da Alemanha na primeira metade do século XIX,
caracterizado, para além do controle legislativo, pelo controle da composição da Câmara
dos deputados (Dieta), pela nomeação de um terço dos senadores, pelo direito a veto e
dissolução das Câmaras, pelo emprego de decretos-lei, por estabelecer o orçamento e a
prerrogativa de indicar os candidatos à sucessão. O motivo fundamental de um pseudo-
constitucionalismo com tais caracteres é, segundo o autor russo, o fato de a tradição liberal
do parlamentarismo não ter achado, na Europa, base psicológica e social. Assim, onde
imperou a apatia política, o parlamentarismo tornar-se-ia o instrumento de interesses
privados e não um instrumento democrático de manifestação de maiorias. 23
Sob esse influxo —moído e remoído pelo constitucionalismo antiliberal da maioria
dos países ocidentais nesta época—, situar-se-á a Constituição Polonesa de 23 de abril de
1935 que é, segundo o professor Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, uma fonte
recorrente de Francisco Campos na composição de vários dos artigos da Constituição de

22
Idem, pp. 303 e ss. e 274.
23
Cf. BANDEIRA DE MELLO, Raul T. Uma Constituição moderna: Constituição da República da Polônia
de 23 de abril de 1935 (Acompanhada de resumos da Lei Eleitoral relativa à Presidência da República, à
Câmara dos Deputados e ao Senado). Prefácio do Prof. Dr. Irineu de Mello Machado. Compilação e Tradução
direta do texto polonês de Raul T. Bandeira de Mello e L. Bronislau Ostoja Roguski. Rio de Janeiro: A.
coelho Branco F°., 1938, pp. 3-29.; CASTRO, Araújo. A Constituição de 1937. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 1938.; PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários à Constituição Federal de 10
de novembro de 1937. Tomo 1; CAMPOS, Francisco. O Estado novo (1938). In: CAMPOS, Francisco. O
Estado nacional, pp. 217-223.; BERFORD, Álvaro Bittencourt. O Estado nacional e a Constituição de
novembro de 1937. Rio de Janeiro: DIP, 1944. Cf. MIRKINE-GUETZÉVITCH, Boris. As Novas
tendências do Direito Constitucional, pp. 279 e 291.

230
1937.24 O Presidente transformou-se, no modelo constitucional polonês, em um ―‗monarca‘
sui generis, com as prerrogativas das antigas constituições européias, construídas sobre o
que se chamou o princípio monárquico. Mas em lugar de um rei hereditário, a Constituição
Polonesa institui a sucessão ‗dinástica‘, pela escolha artificial dos presidentes‖. Esta
configuração constitucional seria estritamente vinculada à teoria geral do Estado fascista,
que nega os princípios e métodos da democracia liberal e estimula as minorias ativas
vinculadas à noção metafísica de nação e à idéia da autoridade ilimitada do chefe de
governo.25
Citando a Teoria da Constituição de Carl Schmitt e a Filosofia do Direito de
Friedrich Julius Stahl, Mirkine-Guetzévitch assinala a recuperação do princípio
monárquico —cujo poder ―existe antes e acima do povo e é nele que todo povo deve se
confundir‖— como sendo a fonte de inspiração do projeto constitucional polonês. 26 É esse
projeto —ao mesmo tempo fascista e representativo da recuperação da tradição
monárquica— que, nos três anos seguintes, serviu de base aos debates parlamentares e deu
origem à Constituição Polonesa de 1935. Não foi por outro motivo que as anotações de
Mirkine-Guetzévitch foram utilizadas para os comentários do ex-Ministro da Justiça e
Marechal da Câmara dos Deputados da Polônia, o Professor Waclaw Makowski, que as
segue passo a passo.27 Para ele, a Constituição polonesa de 1935 fundamenta-se no
princípio maior da solidariedade, absorvendo tanto a necessidade de ampliar a atuação
social do Estado —com a incorporação do sindicalismo, por exemplo— quanto a de dirigir
e projetar as condições de existência do interesse público. Autodenominou-se também
Estado Novo:
Ao Estado Novo já não é mais permitido abandonar ao acaso o evolver da vida
social; já não lhe cabe tão somente votar e executar leis; compete-lhe o exercício de

24
Cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários à Constituição Federal de 10 de
novembro de 1937, passim. Pontes de Miranda foi o único constitucionalista brasileiro a desenvolver uma
comparação pormenorizada da Constituição de 1937 com a Polonesa de 1935, em seus artigos centrais.
25
Cf. MIRKINE-GUETZÉVITCH, Boris. As Novas tendências do Direito Constitucional, pp. 280-3.
26
Idem, p. 288.
27
Cf. MAKOWSKI, Waclaw. Idéias diretrizes da nova Constituição da República da Polônia. In:
BANDEIRA DE MELLO, Raul T. Uma Constituição moderna: Constituição da República da Polônia de 23
de abril de 1935 (Acompanhada de resumos da Lei Eleitoral relativa à Presidência da República, à Câmara
dos Deputados e ao Senado). Prefácio do Prof. Dr. Irineu de Mello Machado. Compilação e Tradução direta
do texto polonês de Raul T. Bandeira de Mello e L. Bronislau Ostoja Roguski. Rio de Janeiro: A. coelho
Branco F°., 1938, pp. 105-122.

231
uma atividade racional, fazendo-se fator da solidariedade, no entrechoque social dos
interesses opostos, de indivíduos e grupos sociais. 28

Do caráter autocrático da Constituição de 23 de abril de 1935, é destaque a


centralidade da figura do Presidente da República que, segundo seu art. 2°, ―encabeça‖ o
Estado, estabelecendo-se como ―una e indivisível autoridade do Estado‖, ―unida em sua
pessoa‖, e subordina todos os órgãos compositivos do governo: Senado, Câmara dos
Deputados, Forças Armadas, Cortes de Justiça e Controle do Estado (art. 3°). 29 A
subordinação de todos os poderes ao Presidente da República indica várias prerrogativas,
entre as quais se destacam: a) todas as atividades dos órgãos mais importantes do Estado
são coordenadas pelo Presidente (art. 11); b) ele tem o poder de convocar, dissolver, abrir,
reportar-se e encerrar sessões da Câmara (Sejm) e do Senado (art. 12, c e d), podendo
convocá-las extraordinariamente (art. 36); c) designa um dos candidatos para a Presidência
quando de sua saída, convocando referendum —aqui está o ―princípio dinástico‖— (art. 13,
§ 2, a); d) não é responsável pelos atos oficiais (art. 15, §1); e) a responsabilização do
Primeiro Ministro (escolhido pelo Presidente), quando proposta pelo legislativo, em sessão
conjunta e por maioria de 3/5 (art. 30 e §§) e; f) a definição jurídica dos decretos do
Presidente da República é a de Atos Legislativos, dentro do Capítulo sobre legislação (art.
49).
É um fato curioso, na Constituição Polonesa de 1935, a ausência do termo Poder ou
Poderes, como na Constituição do Rio Grande do Sul, de 1914. Um estudioso da época
argumenta que, remetendo ao conceito de órgãos, estava-se colaborando para que os
mesmos fossem interpretados como ―criados para servir à República, isto é, para trabalhar
na realização dos fins do Estado Republicano‖.30 No constitucionalismo castilhista,
igualmente, o conceito orgânico define a atribuição de funções de natureza técnica tanto ao

28
Idem, pp. 109 e ss. Sobre as novas atribuições do Presidente da República, em contraposição às suas
funções sob a égide do Estado liberal, isto é, de um ―Estado fraco‖, Makowski aponta que: ―O Estado
moderno precisa de um símbolo que represente o bem fundamental da solidariedade a unir os homens e os
grupos humanos, nos quadros da sua organização estatal soberana; já não se trata tão somente de executar
leis, mas, também, de zelar por toda uma organização, na qual, com fundamento no conceito de solidariedade,
trava-se um conflito parcial de interesses e tendências antagônicas de indivíduos e de grupos. (...) Transforma-
se o Presidente num elemento positivo da construção jurídica e social do Estado; conseqüentemente deve ser
dotado de meios positivos afim de poder desempenhar-se dos seus novos deveres, de maneira que lhe seja
possível exercer o controle da legislação e da administração.‖ (pp. 115-6).
29
CONSTITUTION OF THE REPUBLIC OF POLAND. Official Journal of Laws, n°. 30, 24 April 1935.
London: M. I. Rolin (Publishers) LTD, 1941 [Edição bilíngüe: Inglês/Polonês], p. 6.
30
BANDEIRA DE MELLO, Raul T. Uma Constituição moderna, p. 20.

232
Governo quanto às Forças Armadas, à Câmara dos Deputados e ao Senado, evitando-se,
assim, que transpareça a precedência política e hierárquica do Presidente da República. Da
mesma forma, esta prerrogativa do poder presidencial, materializada inclusive na
capacidade de indicar seu sucessor, estava alinhada tanto à idéia de centralização do poder
político do Estado, quanto à história recente da Polônia, país que havia enfrentado,
vitoriosamente, o avanço militar bolchevista. Em conseqüência, sua arquitetura
constitucional aderiu à recepção dos direitos sociais centralizados pela idéia de comunhão
nacional. Estado pluralista, mantém o reconhecimento jurídico dos direitos das minorias
nacionais, religiosas e lingüísticas, apesar de prever sua suspensão constitucional pelo
estado de emergência.
A Constituição Polonesa prevê, pois, a regulamentação das Cortes de exceção (art.
68, § 5) e que o estado de emergência se configura em caso de ameaça externa ao Estado,
de distúrbios internos ou de conspiração disseminada de caráter traiçoeiro, e autoriza o
Governo a suspender liberdades civis (art. 78). É também de importância ressaltar nesta
carta, que apesar de nenhum ato legislativo poder contrariar a Constituição (art. 49, §2),
existe a vedação expressa de casos de controle judicial de constitucionalidade das leis e da
possibilidade de ingerência, por outros poderes, nas decisões prolatadas pelas Cortes (art.
64, §§ 4 e 5). Fica evidente que a Constituição Polonesa repetia o que já estava
sedimentado, na época, como modelo constitucional por excelência. Esse
constitucionalismo antiliberal servia tanto as democracias complexificadas pelo advento
das massas urbanas quanto os países que demandavam golpes de estado ou o
aprofundamento de seu perfil autocrático, socorrendo-se da ameaça comunista como
pretexto ou fonte histórica de seu modelo de Estado antiliberal.

8.2 O Cesarismo plebiscitário e o antiliberalismo da constituição de 1937

Francisco Campos antecipou-se à preocupação política contra a ―Quinta Coluna‖,


comum em países da América Latina. Desde 1935, pelo menos, já havia teorizado o estado

233
latente da violência sob os regimes totalitários, movidos pela excitação irracional das
emoções e pelo controle mítico das massas. Em A Política do nosso tempo, ele avalia os
regimes ditatoriais fundados no anti-intelectualismo alemão, diagnosticando a imanente
irracionalidade do processo político, originariamente estimulado pelo mito marxista da
revolução econômico-social. Contra esse mito, indica o surgimento de outro, da nação e a
configuração dos tempos modernos pela figura de um grande líder capaz de trazer a ordem
social também pela mobilização irracional —porém ordenada— das emoções.
O regime varguista fora orientado a estabelecer um inimigo comum —o
comunismo— como referência de seus próprios limites, ponto a partir do qual poderia
constituir-se discursiva e juridicamente. Não é por acaso, portanto, que o Brasil de Vargas,
muito antes da movimentação internacional por ocasião da 2ª Guerra Mundial, ―fez mais
em contra-atacar a infiltração subversiva estrangeira que qualquer outro Estado Latino-
Americano‖, dando relevo a sua Constituição como a seus Decretos, que estabelecem um
controle rigoroso dos indivíduos estrangeiros e respectivas atividades públicas e privadas
no país (principalmente as relacionadas com educação e formação de opinião). Na verdade,
a justificativa para a outorga da Constituição de 1937 está vinculada à artimanha política do
forjado ―Plano Cohen‖, que teria comprovado, como declarado em seu preâmbulo, a
―infiltração comunista, que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda‖. 31 O Estado
Novo pretendeu legitimar-se, desde sempre, através da criação de uma resposta
particularmente centralizadora que representasse o próprio perfil do regime. Era alimentado
o medo de uma sociedade exposta às mais novas e temidas influências externas, reais ou
ideadas:
Com o apoio das forças armadas e cedendo às inspirações da opinião nacional, umas
e outras justificadamente apreensivas diante dos perigos que ameaçavam a nossa

31
Cf. LOEWENSTEIN, Karl. Brazil under Vargas. New York: The Macmillan Company, 1942, p. 137 e
BRASIL, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1937, p. 69.

234
unidade e da rapidez com que se vem processando a decomposição das nossas
instituições civis e políticas. 32

Francisco Campos dedicava-se a construir um conjunto de argumentos que


legitimassem a recepção pública da nova Constituição. Tinha a seu favor um entendimento
social bastante complexo, que recepcionava o advento das sociedades de massas e
identificava a funcionalidade de sua desrazão. Se a vontade dos povos se forma a partir da
constante excitação das paixões numa época em que as instituições políticas liberais não
passam de ingenuidade e anacronismo, o novo Estado de massas repousará sobre uma
auctoritas que funciona através do apelo do líder carismático. Para Campos, em 1935, a
assunção do Estado totalitário era uma alternativa complicada. O dilema do autor é saber
que a ordem política contemporânea só pode ser gerenciada pela psicologia das massas,
mas que até agora o modelo em desenvolvimento, o Estado totalitário, vinha se realizando
como uma ordem político-administrativa perigosamente volátil:
A integração política totalitária, apesar do nome, não consegue eliminar, de modo
completo, as tensões políticas internas. Se conseguisse, deixaria de existir Estado,
que é, precisamente, a expressão de um modo parcial de integração política das
massas humanas. O que o Estado totalitário realiza é — mediante o emprego da
violência, que não obedece, como nos Estados democráticos, a métodos jurídicos
nem à atenuação feminina da chicana forense — a eliminação das formas exteriores
ou ostensivas da tensão política. Há, porém, elementos refratários a qualquer
processo de integração política. No Estado totalitário, se desaparecem as formas
atuais do conflito político, as formas potenciais aumentam contudo de intensidade.
Daí a necessidade de trazer as massas em estado permanente de excitação, de
maneira a tornar possível, a todo momento, a sua passagem do estado latente de
violência ao emprego efetivo da força contra as tentativas de quebrar a unidade do
comando político. Ora, não é em vão que se libertam, em tão grande escala, as
reservas de violência por tanto tempo acumuladas na alma coletiva. Essas reservas,
que não podem ser restituídas ao estado de inação, precisam ser permanentemente
utilizadas. De onde o fato do Estado totalitário ou nacional tender a derivar o estado
de tensão interna para um estado de tensão internacional — manobra que torna

32
BRASIL, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1937, p. 69. Prevenir uma
organização política de caráter federativo, em que os poderes estaduais e não os grandes partidos detinham os
rumos da política nacional, nos moldes do que havia ocorrido durante o primeiro interregno republicano
(1889-1934), era a tônica do período. Pontes de Miranda classifica essa reencarnação do centralismo imperial,
característica do presidencialismo delineado pela Constituição de 1937, como resultado da aliança entre a
força centralizadora desse presidencialismo com as forças armadas reequipadas, ambos preparados para
combater os caudilhismos regionais alicerçados nas polícias dos Estados. Cf. PONTES DE MIRANDA,
Francisco Cavalcanti. Comentários à Constituição Federal de 10 de novembro de 1937. Tomo I, pp. 168-
9.

235
possível exaltar ainda mais os fatores de irracionalidade que operaram e que
continuam a garantir a integração totalitária. 33

Esta noção do fenômeno totalitário colabora para que Francisco Campos seja um
dos primeiros autores a definir, com precisão, o conteúdo do conceito. Dois pontos
fundamentais são colocados pelo autor. Em primeiro lugar, não há possibilidade de um
Estado literalmente total, já que ele é incapaz de encobrir tensões políticas que são
refratárias a qualquer processo de integração absoluta. A repressão exterior do conflito
político nacional tem como sintoma a sua potencialização, a sua intensificação latente. O
Estado totalitário, com isto, pretende eliminar um elemento nuclear no quadro conceitual de
Campos, o caráter polêmico da política. O mito do César, quando a serviço da realização
totalitária, oblitera a integração política como uma tensão que pode ser regulada. Operando
através da violência, o César totalitário faz transparecer a volatilidade do regime. Passa,
então, a necessitar de uma repressão instintual que, pela utilização do conflito internacional,
pretende garantir um mecanismo psicológico de escape.
Um segundo ponto do conceito de Campos é a funcionalidade da violência, que no
sistema totalitário opera livre dos controles jurídico-formais das organizações políticas de
tradição democrático-liberal. No totalitarismo a repressão funciona contra as oposições
internas ao regime como os partidos, os sindicatos, as associações, etc., e pretende gerar
uma aparência de harmonia. Como os conflitos precisam de ocultação —sua eclosão sendo
uma possibilidade concreta—, surge, então, a mobilização pela propaganda, incitando a
manifestação especular da violência nas massas. Para um Estado que funciona através do
uso anômico da força cujo sentido radica em sua própria funcionalidade, a violência
representa o elo de identidade natural entre as massas e o poder político. Quanto mais o
Estado se faz violento, mais as massas necessitam, por um movimento mimético,
reproduzir essa irracionalidade. À belicização do Estado segue-se, naturalmente, a
belicização das massas. Quando se concorda com estes pontos estruturais da obra de
Campos, segundo o qual a política é uma constelação polar resistente às investidas da
pretensão de integração ―total‖, depara-se com uma das primeiras e mais consistentes
aproximações teóricas no esclarecimento do conceito de totalitarismo.

33
CAMPOS, Francisco. A Política e o nosso tempo, pp. 30-1.

236
Obviamente, Campos não estava sozinho ao avaliar o totalitarismo como um
deslocamento político do Estado contemporâneo para formas extremistas. Um interlocutor
fundamental no diagnóstico brasileiro das transformações políticas contemporâneas, e que
se tornou um dos mais importantes ideólogos a chancelar o Estado Novo, foi Antônio José
Azevedo do Amaral (1881-1942). No seu livro O Brasil na crise atual (1934), Azevedo
Amaral já anunciava, fundado no decadentismo de Oswald Spengler, o caráter coletivista
das sociedades posteriores à 1ª Guerra Mundial. As sociedades com esse perfil tendem a
desprezar as diferenças individuais e ―autonômicas‖ dos sujeitos, até que estes se
convertem
em simples engrenagens de uma máquina colossal, cujo funcionamento será regido
apenas pela idéia de tirar o máximo partido das unidades componentes em proveito
da força e da capacidade de expansão de uma entidade abstrata, que passara a ser a
única realidade admitida pela consciência social. 34

Como Campos, Azevedo Amaral dispõe de um instrumental crítico poderoso, que


usa para destilar uma visão conflitiva do fenômeno social: o pragmatismo de William
James, mais que o caráter mobilizador do mito soreliano ou da temporalidade concreta de
Bergson, influencia a sociedade contemporânea na formação de um anti-intelectualismo
orientador da ação política. Leitor de Nietzsche, considera o voluntarismo contemporâneo o
responsável pela crença geral nas ―ações da vontade exercidas por processos diretos‖.
Quando analisa as sociedades ocidentais Azevedo Amaral vê, no progresso da ação técnica,
um ethos desenvolvimentista que conceitua de ―Deus ex machina do processo histórico‖.
Sagrando Bacon como o grande e primeiro profeta da modernidade, ele afirma que a
revolução gerada pela nova perspectiva humana ante as inovações vertiginosas sequer
diminui a força dos ídolos como tendência irresistível da humanidade.35
Fazendo uma leitura extremamente positiva da Revolução de 30, Azevedo Amaral
compreende que o sentido da nacionalidade só consegue estabelecer-se no momento em
que a má consciência (Nietzsche) dos destinos nacionais, a inferioridade herdada de uma
interpretação que vitupera esses desígnios, é afastada em prol da percepção do ―ímpeto
renovador da revolução brasileira‖. Constituído como um programa político concreto, o
nacionalismo brasileiro estabeleceu-se, para o autor, em razão da inevitabilidade da
34
AMARAL, Antônio José Azevedo do. O Brasil na crise atual. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1934, p. 99.
35
Idem, pp. 22; 30-2.

237
Revolução de 30. Este prematuro entendimento, de natureza ―revolucionária‖, não poderia
dar vazão à recepção da doutrina política comunista nem à do espectro fascista, ambas de
caráter alienígena. Nesses termos, o sentido da mudança social é percebido como a
adaptação do organismo político à realidade social, guiado pelo desenvolvimento histórico,
por via das minorias da elite, que organizam o movimento revolucionário no sentido de
educarem as massas para seus objetivos de mutação social. O hiato político e ideológico
consolidado pela 1ª República, com sua movimentação federalista, teria desprezado o
princípio fundamental da nacionalidade e reduziu a capacidade de interação entre Estado e
sociedade. 36
Com esse diagnóstico, Azevedo Amaral pugnava pela antecipação de um Estado de
perfil autoritário, com ímpeto industrialista, e contrário ao ―parasitismo‖ da organização
burocrático-administrativa republicana, conforme fica patente em outros escritos. Mas a sua
contribuição mais original à compreensão do Estado Novo encontra-se em O Estado
autoritário e a realidade nacional (1938). O livro traz uma análise semi-oficial da estrutura
ideológica da Constituição de 1937, e nele o autor pretende estabelecer uma distinção entre
o Estado Novo, que classifica como democrático-autoritário e nacionalista e outras formas
de mutação política contemporâneas, como o Estados comunista e fascista, que classifica
como totalitários. Assim, o caráter ―realístico‖ da Constituição do Estado Novo adota,
como a maioria dos governos, o primado da autoridade presidencial, manifesta na ação
direta e pessoal sobre a legislação. O Estado democrático-autoritário implantado pelo
regime varguista é: a) uma organização antiliberal, por entender necessária a planificação
econômica da sociedade, baseada no exemplo do New Deal de Roosevelt; b) um Estado
que, apesar do princípio democrático estar preservado através da representação indireta e
do seu caráter plebiscitário, compreende a preponderância do princípio autoritário e a
conseqüente necessidade do eventual sacrifício do primeiro em relação ao segundo; c) uma
organização de caráter nacional, que objetiva preservar a integridade da tradição pátria. 37
O ponto que mais interessa para os fins deste trabalho é de que forma ele classifica
o Estado totalitário, acrescentando características relevantes à conceituação de Francisco

36
Idem, pp. 203-7 e Cf. AMARAL, Antônio José Azevedo do. O Estado autoritário e a realidade nacional.
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1938.
37
Cf. AMARAL, Antônio José Azevedo do. A Aventura política do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1935 e Cf. AMARAL, Antônio José Azevedo do. O Estado autoritário e a realidade
nacional, pp. 166-9; 264, 195 e 150

238
Campos, nessa distinção coneitual que esclarece o exato perfil do Estado Novo. Para
Azevedo Amaral, a quem interessava compreender os desdobramentos possíveis dos
movimentos extremistas do comunismo e do integralismo brasileiros —que considerava
idênticos na sua concepção de Estado como instrumento ou ditadura de classe—,o elemento
principal do totalitarismo é sua natureza compressiva e aniquiladora da personalidade
humana. Advoga, então, que sob um regime fascista ou comunista (Estado totalitário), o
―pensamento torna-se uma função estatal‖ e ―a coletividade nacional reduz-se a uma massa
de escravos‖.38 Na descrição da dinâmica do regime fascista/comunista, conclui que
Dentro de uma organização totalitária de qualquer daqueles dois tipos, o equilíbrio e
a ordem social dependem implicitamente da subalternização completa dos
componentes individuais da sociedade ao ritmo ditado pelo interesse coletivo e cuja
manutenção invariável constitui a suprema finalidade do aparelho estatal. 39

A eliminação da liberdade e da autonomia individuais não significa, simplesmente,


a coordenação artificial do espírito da nação, mas o efetivo ―aniquilamento da
personalidade humana‖. Não se trata da simples ―submissão dócil‖ à autoridade pública,
representante da hierarquia social que permite fazer funcionar a estrutura protetiva da
nacionalidade. Não existe, no corpo social do Estado totalitário, a possibilidade de
manifestar um interesse que não seja reflexo do interesse do Estado. A transformação do
homem numa engrenagem da máquina totalitária representa para a ―expressão inequívoca
da compressão das iniciativas e da liberdade do indivíduo pela força coercitiva de uma
organização estatal absorvente e que se torna a única razão de ser da própria
nacionalidade‖.40
Por outro lado, o Estado antiliberal mantém intacta a distinção entre a esfera social,
na qual o interesse público deve prevalecer, e a esfera privada, que o Estado deve proteger
de qualquer interferência, por tratar-se de ―esfera intangível de prerrogativas inalienáveis de
cada ser humano‖. O princípio da autoridade não deixa de reconhecer, portanto, a
independência intelectual e cultural da sociedade, preservando a individualidade e a
iniciativa, inclusive na esfera econômica. Assim, levando-se em conta a planificação
econômica, não se trata, no caso do Estado Novo, da construção de uma estrutura

38
Cf. AMARAL, Antônio José Azevedo do. O Estado autoritário e a realidade nacional, pp. 296, 159-60 e
171-2.
39
Idem, p. 276.
40
Idem, pp. 172; 160.

239
corporativa de natureza fascista, em que os sindicatos seriam apenas tentáculos da
burocracia. O princípio corporativo fundamental recepcionado pelo regime estadonovista é
o da representação da autêntica vontade social por meio de órgãos que constituem os
grupos econômicos e profissionais. 41
Ao lado da representação classista, caractere que distanciaria o corporativismo
brasileiro do corporativismo burocrático-fascista, Azevedo Amaral define a representação
política, em sentido lato, pela sua capacidade de gerar identidade entre o Estado e a nação.
Opondo-se ao que chama de irracionalidade do critério majoritário do liberalismo, o autor
reclama um conceito de democracia que signifique igualdade de oportunidade e não
igualdade concreta e real. Vê, assim, nos institutos da eleição indireta e do plebiscito, a
realização de uma identidade entre Estado e sociedade sem a mediação dos supérfluos
aparelhos de ligação, caros à tradição liberal, como é o caso dos partidos políticos. Na
formação da identidade nacional, o autor destaca, então, o papel das elites intelectuais e do
próprio plebiscito, as primeiras com a função de irradiar o pensamento nacional às massas,
e o segundo de funcionar o desenvolvimento da consciência cívica. 42
O mais minucioso relato escrito por um jurista —no caso um constitucionalista
conhecido pelo viés sociológico de suas obras— sobre o regime Vargas foi o livro Brasil
sob Vargas (1942), de Karl Loewenstein, que, neste mesmo ano, visitou o país e conviveu
diretamente com os seus mais proeminentes atores políticos e, em especial, com o então
Ministro da Justiça Francisco Campos.43 Tendo apresentado, três anos antes, uma pesquisa
semelhante sobre a organização político-jurídica e social da Alemanha, A Alemanha de
Hitler (1939), Loewenstein traça, a partir de sua avaliação sócio-jurídica do regime
varguista em comparação com o nacional-socialismo, uma distinção funcional que lhe

41
Idem, pp. 171-2; 183-4.
42
Idem, pp. 186-206; 303.
43
O constitucionalista alemão Karl Loewenstein, radicado nos EUA desde 1932 (primeiro em Yale (1934-36)
e depois em Ahmherst) é, sem sombra de dúvidas, um dos mais influentes constitucionalistas do século XX
com a edição de sua Teoria da Constituição (1957), sendo classificado, depois da publicação de seu livro
Direito e realidade constitucional dos Estados Unidos (1959) de jurista antípoda a Carl Schmitt de Teoria da
Constituição (1928). Discípulo direto de Weber, Loewenstein foi um dos autores mais preocupados com a
classificação tipológica das formas de governo, sendo considerado —erroneamente— o primeiro autor a
realizar uma distinção corrente entre governo autoritário e governo totalitário, conforme discussão acima, que
tenta devolver o lugar de precedência devida a Francisco Campos e Azevedo Amaral. Cf. ANABITARTE,
Alfredo Gallego. Constitución y política: estudio sobre la ‗Teoría de la Constitución‘ de K. Loewenstein. In:
LOEWENSTEIN, Karl. Teoría de la Constitución. Traducción y estudio sobre la obra por Alfredo Gallego
Anabitarte. 2ª edição. 1ª reimpressão. Barcelona/Caracas/México: Ariel, 1979 (1957), pp. 539-598.

240
permite conceituar dois tipos ideais: os regimes totalitário e autoritário.44 É no estudo do
regime Vargas que a questão conceitual se coloca pela primeira vez de forma mais clara.
No Brasil, os estudos da época tendiam a classificar o Estado Novo —muitas vezes de
forma depreciativa— como fascista.45 Sua classificação analítica do Brasil sob o governo
Vargas como ditadura autoritária é a contribuição que lhe dá destaque internacional nos
anos 40. Como se vê, antes de Loewenstein, Azevedo Amaral já trabalhava esta distinção
conceitual entre autoritarismo e totalitarismo, em 1938. Citado pelo autor alemão como
fonte histórica para se entender o Estado Novo, Azevedo Amaral, entretanto, não é
considerado como a origem da tipologia desenvolvida.
Mas classificar o Estado Novo como ditadura autoritária comporta algumas
simplificações inadmissíveis sem adendos ou ressalvas. Como no Brasil o conceito de
autoritarismo é polissêmico, existe a possibilidade de se vincular o autoritarismo de 37 à
tradição dita ―autoritária‖ que se desenvolve desde a República Velha. Como foi visto na
segunda parte do trabalho, esta não pode ser uma opção hermenêutica viável se for
considerada a influência do pensamento de Francisco Campos na produção de sentido do
regime político em tela. A simplificação mais gritante é que o conceito de autoritarismo não
comporta, necessariamente, a idéia de que a ordem política que se está implantando dirige-
se a uma sociedade de massas. Como a Constituição de 37 representa uma condensação dos
princípios pelos quais se guiou politicamente o Estado Novo —embora seja possível
argumentar que ela não foi devidamente aplicada e nem mesmo esteve vigente—, e esses
princípios constam da doutrina de Francisco Campos, não há como entender o regime como
desconhecedor da realidade sociológica das massas. Até aqui, contudo, tem-se apenas um
autoritarismo que deve ser voltado às massas.
Outra discrepância, porém, é que um regime autoritário não precisa ser democrático.
Se um regime é democrático e autoritário, sua dinâmica será sensivelmente distinta de um

44
LOEWENSTEIN, Karl. Hitler’s Germany. New York: The Macmillan Company, 1939, 176p. A síntese
dessa classificação está em: LOEWENSTEIN, Karl. Teoría de la Constitución, pp. 75 e ss. Para uma
genealogia da discussão terminológica acerca do conceito de totalitarismo, ver FRIEDRICH, Carl J.;
CURTIS, Michael; BARBER, Benjamin R. Totalitarianism in perspective: three vews. New
York/Washington/London: Praeger Publishers, 1969.
45
É fato que os discursos de Francisco Campos e do próprio Getúlio Vargas colaboravam com esta
apreciação. Mas, como bem anota Loewenstein, seguindo aqui um diagnóstico de Azevedo Amaral, o Estado
Novo prescindiu de um background ideológico preciso que fosse além do castilhismo ou do personalismo
puro e simples. Cf. AMARAL, Antônio José Azevedo do. O Estado autoritário e a realidade nacional,
passim.

241
modelo autoritário ―puro‖. A democracia representa a necessidade de legitimação pública
do regime processo que pode ser respalddo pela própria Constituição. A suposta
democracia do Estado Novo é a democracia antiliberal, vinculada às práticas plebiscitárias
e às eleições indiretas, o que, na prática, elimina a ―necessidade‖ formal de os indivíduos
participarem da prática política do Estado.
O modelo de ordem política que Loewenstein percebe na organização constitucional
brasileira, a partir de 1937, o Brasil sob Vargas, diferentemente dos Estados com uma
organização totalitária ou fascista da vida social, não criou nem voltou o aparato estatal
para o controle da esfera privada. A vida social dos indivíduos, seu cotidiano, sua cultura,
suas regras de convivência, em não estando subordinadas a controles e a políticas públicas
centralizados, não poderia ser classificada de totalitária ou fascista. Ainda: a própria
decantação da legislação —sua estabilidade e eficácia— dependia, em grande parte, de sua
funcionalidade, isto é, da capacidade de impor aceitação prática daqueles a quem se
destinava. Nesse sentido, o termo autoritarismo fica exclusivamente vinculado à forma de
governo, ―ao tipo e técnica de configuração política do poder (policy-forming power)‖.46
Apesar de Loewenstein lembrar que a estrutura jurídica do Estado Novo poderia,
facilmente, ser classificada de fascista, a maioria de sua legislação não foi aplicada ipisis
literis, sendo direcionada, quando efetivada, contra uma pequena e dispersa oposição
política, dominada por remanescentes do Movimento Integralista e pela organização de
fascistas e nacional-socialistas nas colônias italianas e alemãs. 47
O regime do Estado Novo não destoaria, portanto, dos governos que se
estabeleceram pela América Latina, sob uma oligarquia dominante, como ―uma ditadura
autoritária para a qual a teoria constitucional francesa cunhou o hábil termo régime
personnel‖.48 Usando a interpretação de Azevedo Amaral, Loewenstein sustenta que, como
o golpe derivou de uma conciliação complexa de interesses —e mesmo ideologias—
geralmente divergentes, o nível de aceitação popular foi suficiente para que se prescindisse
dos instrumentos usuais de controle social das ditaduras da época. A própria existência da
Constituição, seguindo a tradição do modelo de ditadura positivista delineado pelo

46
Cf. LOEWENSTEIN, Karl. Brazil under Vargas, pp. 370-1.
47
Idem, pp. 141 e ss; 155 e ss; 372.
48
Idem, p. 373.

242
castilhismo, resultaria em reconhecimento de princípios básicos de conformação da
comunidade política que impedem a direção da vida privada.
Ao mesmo tempo em que alinha o regime estadonovista ao caudilhismo,
Loewenstein traça uma descrição pormenorizada da estrutura político-administrativa do
Estado Novo seguindo, como linha mestra, os desdobramentos institucionais de uma
Constituição ―fantasma‖, e cuja existência seria uma ―realidade virtual‖. Na verdade
Loewenstein localiza imediatamente a fonte da organização institucional de um Estado que
se moderniza sob o controle centralizado de Vargas: os Decretos Legislativos do Poder
Executivo. A Constituição não representaria, assim, um poder direto na organização do
Estado Novo, embora tenha previsto e permitido a constante dilação do estado de
emergência, de permanecer vigente no que respeita à legitimação do poder político do
Presidente, bem como a determinação dos direitos sociais (especialmente dos direitos
trabalhistas), que a equiparam, exclusivamente neste ponto —o capítulo ―Da Ordem
Econômica‖ (art. 135 a 155)—, à Constituição de Weimar.49 A questão, para o autor, é que
Uma vez no poder, autocracias estão pouco interessadas em ―legalizarem-se‖ por
uma constituição formal. Seu objetivo primordial é estabelecer o maquinário de
compulsão através do qual estarão aptas a manterem-se no poder contra possíveis
ataques de oponentes políticos e uma defecção perigosa da opinião pública. 50

Em seu livro sobre a estrutura jurídico-administrativa do Terceiro Reich,


Loewenstein já indicava que a eventual formalização de atos governamentais através de
legislação ou regulações estatutárias, muitas vezes se processa de forma ―intencionalmente
equívoca‖ ou mesmo ―desonesta, por razões oportunistas‖. O comum nos governos
autocráticos da época, é que qualquer formalização seja considerada limitante para o
exercício arbitrário do poder político. A modernização de um aparato burocrático, a
organização de pelo menos uma estrutura partidária, geralmente controlada pelo governo e
―medidas legislativas e administrativas para a ‗Defesa do Estado‘‖ são as ações que
garantiriam, nesses casos, a manutenção do poder político. 51
De qualquer sorte, Loewenstein identifica os elementos institucionais que, no Brasil,
possibilitaram uma diferenciação dos modelos ―típicos‖ de ditaduras autoritárias: a) houve

49
Idem, pp. 49; 341.
50
Idem, p. 133.
51
Idem, pp. 27-8; 133.

243
a outorga de uma Constituição no momento do golpe de Estado; b) não permaneceu de pé
sequer uma estrutura partidária; c) o regime varguista instalou-se no poder com ampla
aquiescência pública e; d) dispensou, portanto, da construção de um aparato para moldar e
orientar a opinião pública. Restaram as legislações de Defesa do Estado e de estímulo à
nacionalidade e ao patriotismo, como antídotos a atitudes contrárias à segurança do Estado.
Chama essas medidas de controle legislativo do extremismo político, isto é, a confecção
coordenada de medidas legislativas contra atividades consideradas ―subversivas‖: a
―legislação emocional‖, um conjunto de medidas destinadas a conter manifestações
políticas inspiradas no estrangeiro, de natureza insurrecional (nacional socialismo, fascismo
e falangismo).52 Os focos definidos por esta legislação foram a imprensa escrita e as
comunidades estrangeiras instaladas no sul do país.
A questão colocada —a avaliação, por Loewenstein, do regime varguista enquanto
ditadura autoritária—, é que o termo autoridade, no autor alemão, abarca elementos que
não transparecem, ou não são incluídos quando o mesmo termo se coloca nos autores
brasileiros —no caso, Francisco Campos, Oliveira Vianna e Azevedo Amaral. Se em
Francisco Campos o regime defendido é antiliberal, plebiscitário, cesarista e visa uma
sociedade massificada, em Azevedo Amaral chamam atenção os instrumentos de controle
social e econômico da massa (sistema corporativo), idealizados para cumprir exatamente o
que Azevedo Amaral evitava assumir: o aparelhamento político dos movimentos
trabalhistas pela burocracia do Estado. Já Oliveira Vianna, por outro lado, vê a democracia
e a representação política vinculadas à capacidade legislativa dos conselhos técnicos, que
passam a figurar como instituições centrais para a organização do Estado, no lugar do
Parlamento. Embora estes autores se refiram a um Estado autoritário, o termo figura em
todos eles como um adjetivo que representa, pura e simplesmente, a fortificação da
autoridade pública.
Se em Francisco Campos é possível identificar uma descrição precisa e
pormenorizada do fenômeno totalitário, é em Azevedo Amaral, leitor atento de Campos
mas intelectualmente independente dele, que se clarifica a distinção entre totalitarismo —
visto como a materialização orgânica do fascismo e do comunismo— e o autoritarismo,
entre a aniquilação radical da individualidade e a organização nacional da autoridade. Se

52
Idem, pp. 134 e ss.

244
forem utilizadas, em conjunto, as construções de Francisco Campos e Azevedo Amaral,
aparece um quadro bastante detalhado dessa distinção. Sob uma democracia de natureza
substancial que necessita angariar legitimidade através do princípio da identidade entre o
Estado e as massas, uma organização política estatal pode lançar mão de mecanismos
antiliberais que preservem o seu sentido de representação, como é o caso do plebiscito. Não
sendo um elemento específico dos Estados totalitários, ele é uma técnica que se pretende
perfeitamente adequada a uma sociedade de massas, pelo fato de sua dinâmica estar
fundada na mobilização emocional do mito do Líder. Garante-se, com a prática
plebiscitária, segundo Azevedo Amaral, uma possibilidade de organização social em que a
liberdade individual, de natureza não-política, pode ser preservada sem atentar contra a
segurança da coletividade. Com o plebiscito, a consciência cívica, que derivaria de uma
certa freqüência do processo de consulta popular, dá origem, para este último autor, a um
tipo de legitimidade social que não redunda em dissolução das individualidades.
O constitucionalismo que emerge do contexto autoritário dos anos 30, aqui
representado especificamente pela obra de Francisco Campos, indica a assunção dos
princípios antiliberais e plebiscitários, caros a uma democracia de massas que não crê mais
na utilidade do parlamentarismo nem na capacidade integradora dos partidos. Se em 1935
Francisco Campos antevia o cesarismo romano como destino universal da sociedade
contemporânea, com a Constituição de 1937 a sua opção ficou bastante nítida. Necessitava
produzir um discurso que desse conta das aporias do totalitarismo e ao mesmo tempo, que
garantisse, numa sociedade de massas, uma ordem política concreta. Nas inúmeras
entrevistas realizadas na condição de representante máximo do Governo Vargas, Campos
pôde produzir uma explicação pessoal sobre o Estado Novo. Esta compreensão tinha dois
objetivos: a) guiar-se por uma avaliação crítica em relação à República Velha; b) identificar
uma legitimação substantiva que independesse dos contornos jurídicos do regime.
Em sua crítica ao federalismo, Francisco Campos —então Ministro da Justiça e
Negócios Interiores do Estado Novo—, recupera sua filosofia da história, originalmente
desenvolvida na década de 10, agora como personagem do campo vitorioso. Por ocasião da
entrevista Diretrizes do Estado Nacional (1937), reafirma o liberalismo federalista da
República como passado, como ―velha ordem de coisas, empenhada em deter a marcha

245
triunfante do destino do país‖. 53 Para a abordagem de Pontes de Miranda o que mais
ressalta na Constituição de 1937 é que a concentração de forças na figura do Presidente da
República seria uma reação político-histórica natural à anterior força política dos Estados
da Federação, o presidencialismo centralizador constituindo-se, através da atuação do
Governo Provisório, na força motora da unidade nacional, na desmilitarização das polícias
estaduais e num golpe mortal no caudilhismo. 54 Para Campos, mais relevante
discursivamente que estes eventos que expressam a capacidade de articulação política de
Vargas, é o fato de que derivam da densidade do ânimo construtivo da Revolução. Assim,
se nos anos 10 Campos interpretava o advento da República como um acontecimento que
representava a incidência temporal de um presente que se faria futuro, nos anos 30 ele
percebe, na República, que o tempo de desorientação deve dar lugar ao verdadeiro destino
do país: continuar a realização dos seus quatro séculos (anteriores a 1889). Em seus textos
de 30 Campos sustenta, então, que a 1ª República é um hiato, um acidente histórico do qual
o Brasil começou a recuperar-se com a Revolução de 30.
Mas permaneceu, com a queda da 1ª República, uma tensão entre passado e futuro.
Se no seu texto da década de 10 Francisco Campos identificava o Império como uma força
positiva do passado, em 1935 está percebendo a 1ª República como um passado deletério e
incapacitado de orientar virtuosamente o futuro. O processo revolucionário, por ter gasto
suas energias no combate aos velhos instrumentos do federalismo, acabou sendo dragado
por eles: ―[a]penas iniciada, a Revolução foi captada pela política, que a fez abortar
mediante seus processos emolientes e dilatórios‖. Assim, a Constituição de 1934 representa
o processo de ―restauração‖ de uma ordem política convencional que desfigurava a verdade
histórica da pátria. Vê-se que, em Campos, a história não é uma simulação intelectual ou
uma reconstrução intelectual que permite interpretar a realidade a partir de um determinado
arcabouço moral.55 É a revelação da verdade dos fatos, é res factae. Tempo e história são os
elementos que orientam sua obra, numa exegese crítica da Revolução, que não tinha, ainda,
experiência suficiente para perceber a ―absurda futilidade, para uma revolução, de transigir

53
CAMPOS, Francisco. Diretrizes do Estado nacional (1937), p. 36.
54
Cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários à Constituição Federal de 10 de
novembro de 1937, p. 169.
55
Sobre o sentido da história como reconstrução, ver KOSELLECK, Reinhart. Terror and dream:
metodological remarks on the experience of time during the Third Reich. In: KOSELLECK, Reinhart.
Futures past: on the semantics of historical time. TRanslated by Keith TRibe. Cambridge,
Massachusetts/London, England: The MIT Press, 1985, pp. 213-230., p. 214.

246
no seu começo, e antes de firmada nas suas posições, com a política interessada,
principalmente em iludir, protelar e amortecer os impulsos criadores‖. A tensão entre o
modo de fazer política do liberalismo republicano, representando a permanência indevida
do passado, e a dinâmica da Revolução, que indica o nascimento —ainda incipiente— do
futuro, permite-lhe afirmar que ―a Revolução de 30 só se operou, efetivamente, em 10 de
novembro de 1937‖.56
Tendo em mente que a 1ª República representava o passado que se interpunha,
indevidamente, entre a tradição e as aspirações gerais pelo progresso da nação, Campos
indica, um a um, os males de um sistema democrático orientado pela fragmentação da
identidade nacional em facções partidárias e pela corrupção endêmica de suas práticas. A
perda de confiança no Estado e em suas instituições era ―o resultado infalível das
democracias de partidos, que nada mais são virtualmente do que a guerra civil organizada e
codificada‖. 57 A inadaptação da democracia liberal à situação objetiva do país devia-se à
necessidade intrínseca de preservar suas instituições, viciadas em sua origem: a) por uma
divergência em relação à própria história do país, cuja origem virtuosa é o Império e; b) por
uma divergência em relação à realidade concreta da nação, caracterizada, sociologicamente,
pela política de massas, ou seja, por uma incompreensão sobre o sentido do futuro. No que
respeita à realidade presente, a democracia liberal, fundada em partidos, não consegue
comportar as novas necessidades planificadoras do Estado no setor econômico: a
conseqüência é a ameaça constante de guerra civil. 58 A inadaptação à tradição refere-se,
basicamente, à incapacidade técnica das instituições liberais —como o Poder Legislativo—
de garantir a existência da nação, já que trabalham com interesses regionalistas que
conduzem à corrupção. O contraste com o futuro é a periculosidade que uma democracia
partidária representa ante as novas formas de antagonismo político em uma sociedade de
massas:
O uso da violência, como instrumento de decisão política, passou para o primeiro
plano, relegando os processos tradicionais de competição, e onde quer que se abra a
perspectiva dessa luta, torna-se imprescindível reforçar a autoridade executiva,

56
CAMPOS, Francisco. Diretrizes do Estado nacional (1937), pp. 36-7. Esse texto, muito mais político que
doutrinário, é uma clara aproximação à doutrina e às idéias golpistas dos generais que comandavam as Forças
Armadas —Góis Monteiro e Gaspar Dutra— nos anos que o Brasil ficou sob estados de sítio sucessivos,
antes do advento da Constituição de 1937.
57
Idem, p. 39.
58
Idem, p. 40.

247
única cujos métodos de ação podem evitar o conflito ou impedir que ele assuma a
figura e as proporções da guerra civil.
Daí o fato de termos vivido, durante mais de quarenta anos, em regime
constitucional teórico e em estado de inconstitucionalidade crônica, mal
dissimulado por instituições que já haviam caducado antes de viver. 59

Em resumo, para Campos, ecoando límpida e literalmente o decisionismo de


Schmitt, ―o Brasil reclamava decisão‖, enquanto o fundamento histórico do liberalismo era
discussão, a proteção do indivíduo contra o Estado através de formalismos e instituições
ultrapassadas. A necessidade do tempo presente é a de organizar o poder. Em assim sendo,
por uma necessidade do tempo histórico, a Constituição do Estado Novo seria construída
com uma única idéia: ―o governo gravita em torno de um chefe‖. 60 O decisionismo de
Campos adquire maturidade entre uma concepção substantiva de democracia e a
configuração de Vargas como o líder político, aclamado pelo povo, que trazia dentro de si a
responsabilidade de decidir, pela força de sua vontade, os destinos da Revolução.
A democracia antiliberal, substantiva significa, portanto, essa ligação orgânica entre
a vontade do povo e o seu representante direto, a ser aclamado plebiscitariamente, que é o
Presidente da República. 61 A soberania da vontade pessoal do Líder, ―a pessoa que decide‖,
elemento que o autor reputa como a categoria fundamental da política, é no final das contas
―a encarnação do Estado‖.62 Em afastando as instituições formais que impediam a
Revolução de se materializar, Campos identifica, pois, no Estado Novo um modelo de
ordem política cuja simplicidade representa a força que o liberalismo não poderia jamais
adquirir. O símbolo desta força seria a idéia de unidade: ―[o] poder, na Constituição de 10
de novembro, tem unidade. Há vários poderes e um só Poder; onde há vários poderes e não
existe um só Poder, não há governo, porque governo é um só pensamento e uma só ação‖.63
Como diria dois anos depois, por ocasião do aniversário da Constituição de 10 de
novembro, ―[a] vontade pessoal foi apenas o instrumento das decisões já tomadas pela

59
Idem, p. 41.
60
Idem, pp. 47 e 54.
61
CAMPOS, Francisco. Problemas do Brasil e soluções do regime (1937), p. 75.
62
CAMPOS, Francisco. Estado nacional (1938). In: CAMPOS, Francisco. O Estado nacional: sua estructura,
seu conteúdo ideológico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940, pp. 209-215., p. 212.
63
CAMPOS, Francisco. Diretrizes do Estado nacional (1937), p. 67.

248
história‖. 64 O mito do César teria a condição de levar as massas brasileiras à realização de
seu destino histórico.

64
CAMPOS, Francisco. Segundo aniversário do Estado Novo (1939). In: CAMPOS, Francisco. O Estado
nacional: sua estructura, seu conteúdo ideológico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940, pp. 227-234., p. 228.

249
CONCLUSÃO

Tanto nos livros de Schmitt quanto nos textos de Campos, pode-se perceber a lenta
gestação do constitucionalismo antiliberal no século XX. No Brasil, a Constituição de 1937
representará o ápice de um movimento de décadas, crítico ao liberalismo e construtor de
um modelo alternativo de sociabilidade. Este modelo transcende, inclusive, o instrumental
analítico que identificava na tradição a orientação suficiente para superar a propalada
leniência do modelo de Estado liberal. Ao alegado processo de estetização da política pelo
liberalismo, o constitucionalismo antiliberal irá opor um movimento de emocionalização. A
política será percebida como o espaço por excelência do conflito. A violência da dinâmica
política não poderá, então, ser domesticada pelas instituições liberais, como as instituições
jurídicas e o parlamento.
Na Teologia Política de Schmitt, a modernidade é reconstituída pela interpretação
de que a racionalidade técnica oculta a permanência da dimensão pessoal do político. O
Estado, mais que um simples instrumento neutro, incapaz de encaminhar decisões políticas
concretas, constitui-se como o local de exposição da soberania, no que esta tem de
pessoalidade e excepcionalidade. A soberania política, afastada pela Teoria do Estado
liberal representa, segundo o autor, a manifestação existencial de uma decisão que constitui
a ordem política concreta, que dá origem à Constituição.
O poder soberano é, nesse sentido, muito próximo ao poder burocratizado,
discricionário e técnico da administração da justiça. O soberano, que decide sobre o estado
de exceção e, com esta decisão, realiza a finalidade do Estado —que é a manutenção da
ordem—, funciona à imagem e semelhança de um magistrado. Este último realiza o direito
na medida em que representa a tradição judicial na aplicação das normas ao caso concreto.
Esta normalização da discricionaridade, característica da função judicial, serve de
inspiração para que Schmitt construa seus conceitos de soberania e representação política.
Neles, a personificação do poder político aparece como uma garantia de sedimentação das
formas sociais e culturais de vida organizadas em torno de uma unidade comunitária.
Unidade em comunidade é uma idéia que significa a manutenção da homogeneidade

250
substancial através da diferenciação política. A exclusão do que é politicamente estranho
significa, assim, uma necessidade de uma comunidade de igualdade e a característica
nuclear da democracia substancial de Schmitt.
As instâncias da democracia liberal não representam, desta forma, uma garantia
da manifestação da identidade democrática substancial, dado que nas sociedades de massa,
o Parlamentarismo, os partidos políticos e as eleições não correspondem mais aos interesses
originários e identitários de uma nação politicamente organizada. A substancialização da
democracia representa, para o autor, a necessidade de se determinar a unificação da fonte
decisória fundamental, a sua personificação e a ligação direta, emocional, com a unidade do
povo. A legitimidade democrática da ditadura é chancelada, então, pela prática da
aclamação pública. Da mesma forma, em Francisco Campos, a crítica da 1ª República
brasileira revela o descontentamento do autor com a função desestabilizadora da
democracia liberal. Democracia significa, para ele, unidade nacional, centralização do
poder político e organização do Estado para a planificação dos interesses nacionais. Já na
década de 10 do século XX, Campos atenta para a necessidade de organizar as massas e
identifica no princípio da liderança pessoal, da personalidade —que, então, vincularia à
tradição—, como aquele capaz de realizar seu modelo de democracia nacional. Nesse
primeiro momento do pensamento campiano, os juristas irão representar esse princípio:
ordem pela concentração de autoridade.
A ditadura, em Schmitt, reveste-se de uma juridicidade afiançada pelo seu conceito
personalizado de soberania. Se a vontade de decisão constitui a unidade política de um
povo, constitui, igualmente, o ordenamento jurídico que lhe dá suporte. O Estado ditatorial
sustenta-se, para o seu constitucionalismo, na medida em que é capaz de manter a ordem
social, e assim o faz, utilizando-se dos instrumentos jurídicos que permitem a realização do
próprio direito. A possibilidade de se suspender as normas jurídicas para que direito seja
garantido é a característica de uma ditadura nos padrões estabelecidos por Schmitt. O
regime jurídico ditatorial é, assim, aquele em que existem normas de realização do direito,
normas jurídicas que funcionam em situações excepcionais, suspendendo o ordenamento
jurídico no todo ou em parte, para operar a proteção constitucional do próprio direito.
A personalização do poder político, a substancialização da democracia, a
eliminação das instituições representativas de origem liberal e a existência dos instrumentos

251
jurídico-constitucionais de exceção, todos esses elementos, temperados com uma crítica
feroz ao liberalismo político como o movimento romântico da indecisão, informam a
filosofia política antiliberal de Schmitt. Filosofia decadentista e elitista que desconfia
profundamente não só da capacidade, mas da própria racionalidade das massas na
composição do processo político. Essa verdadeira filosofia da história vê a dissolução de
uma meta-narrativa orientadora da ação como motivo da decadência moral da modernidade.
Tanto em Schmitt quanto em Campos, a angústia de um tempo incapaz de decisão política
só pode ser superada pela ação orientada pelo mito do indivíduo capaz de exercer a decisão.
A avaliação e o conceito do tempo político são, para ambos os autores, de natureza
substancial.
Num mundo interpretado de forma a ver na razão um instrumento ineficaz de
realização da ordem, a emocionalização da política é o caminho identificado pelo
constitucionalismo antiliberal: à regularidade da norma, impõe-se a irrefragabilidade da
vontade pessoal; em oposição à educação vinculada a valores, predomina a irracionalidade
do mito político. O estranhamento do constitucionalismo antiliberal em relação à
movimentação política das massas representa o estranhamento das elites com o atrevimento
do povo. Esta posição redundou na aniquilação filosófica da subjetividade de uma
coletividade social nascida dos movimentos operários do final do século XIX. Para o
constitucionalismo antiliberal, o homem contemporâneo, se é massa, perde um tanto de sua
humanidade. Incivilizado no princípio e, afinal, incivilizável, é tido como incapaz e
medicado com a curatela política da liderança cesarista. A ―irracionalidade das massas‖, o
―baixo profundo de Caliban‖ seria um fenômeno do tempo, que reclamaria, assim, o
chamado pelo César.
Também o positivismo comteano reconhece, no liberalismo, a origem da decadência
moral da sociedade moderna e identifica, nas classes intermediárias e na moralização do
Estado, a alternativa concreta à democracia liberal. O governo de perfil positivista de Júlio
de Castilhos e de seus seguidores via na centralização e na moralização do poder político as
armas necessárias para o progresso econômico da sociedade. Assim, imbuído da
responsabilidade pública máxima, o Presidente do Estado do Rio Grande do Sul
comandava, do Poder Executivo —no que seria uma antecipação de elementos cardeais do

252
Estado Novo— todo o processo de produção legislativa, assim como as eleições, a sucessão
e uma assembléia limitada a votar o orçamento e as contas do Estado.
Esse deslocamento da função legislativa para o Poder Executivo, percebido apenas
como funcional, é corroborado por Oliveira Vianna, que recepciona de Schmitt a idéia do
Poder Executivo como guardião da Constituição, como capaz e previamente autorizado a
fazer funcionar mecanismos jurídicos e administrativos excepcionais na defesa da ordem
social. A administrativização ou burocratização do processo de produção e aplicação da lei
se coaduna com a institucionalização do corporativismo pela Constituição de 1937. Como o
idealizava Vianna, as instituições coorporativas nasceram no Brasil, coordenadas pelo
Estado, fundadas na necessidade do princípio da eficiência do serviço público. Desta
simples argumentação derivou a necessidade daquelas instituições. O direito, lugar
privilegiado na construção da ordem moderna, embora não tenha necessitado abandonar a
cena, teve que ser completamente reconfigurado, adaptado a uma situação de flexibilidade
que perdurou durante a vigência do Estado Novo.
Ao se avaliar como o antiliberalismo brasileiro se organizou no momento de crise
social, fica mais claro identificar suas origens e perceber a existência de um momento
antiliberal nos anos 30 do século XX. A ameaça do comunismo e o avançar das forças
sociais organizadas demandou um novo modelo de Estado que se estabeleceu em primeiro
lugar na Alemanha sob Hitler. Inspirado por Schmitt, o Estado alemão optou pela
administração política da crise através dos instrumentos de emergência e viu, nas
instituições coorporativas, uma forma de controle dos movimentos sindicais. Um segundo
passo, que seria notado na Polônia, foi a previsão constitucional da situação de crise social
que orientou a conformação da sua Constituição em 1935. Já existindo, portanto, um
arcabouço teórico sólido (Schmitt) e uma experiência histórica concreta (Polônia), o
momento antiliberal no Brasil avançou firme sob a batuta de Vargas, com a chancela
teórica e técnica de Campos e Vianna.
O constitucionalismo antiliberal deriva do pensamento antiliberal, mas não se
confunde com ele. Uma forma de compreender o pensamento antiliberal é pelos
fundamentos que postula para a relação política de autoridade, distintos dos do pensamento
liberal. Nos séculos XIX e XX, este último retira sua legitimidade ou da tradição, como em
Walter Bagehot, Aléxis de Tocqueville e Joaquim Nabuco; ou dos procedimentos racionais

253
que instituem a representação, como em Hans Kelsen. Já o pensamento antiliberal, que vem
da reação católica à Revolução Francesa (De Maistre, Bonald e Donoso Cortés),
desenvolve, nos anos 20, outro fundamento para a autoridade. A representação política —
isto é, a relação entre povo e governo—, pode se estabelecer tanto pela existência de
corporações profissionais, como por uma elite esclarecida ou através do plebiscito. Nesses
casos, o Estado reconhece um parlamento geralmente restrito a funções orçamentárias.
Agora, quando se fala especificamente de constitucionalismo antiliberal, o elemento
distintivo é a possibilidade da suspensão do direito autorizada pelo próprio direito. É deste
modo que o Poder Executivo pode exercer a sua vontade livre de limitações jurídicas. Esta
engenharia constitucional da exceção, justificada pela necessidade dos fatos, se vale de um
modo específico de legitimação democrática, colhido no pensamento antiliberal, a
legitimação plebiscitária.
O Estado Novo tem uma base constitucional antiliberal. Como junção de tradições,
combina a legitimação democrática antiliberal —corporativismo, elitismo e plebiscito,
com a forma jurídica da ditadura constitucional —a exceção. Como notado por Graciliano
Ramos, a justificação jurídico-constitucional do Estado Novo acompanhou o movimento de
administrativização do direito, isto é, a transferência do poder legislativo para a
administração pública, cristalizada no estado de emergência.
Não se pode, portanto, chancelar a visão segundo a qual do Estado Novo foi
simplesmente a manifestação de um modelo de Estado autoritário, cuja fonte doutrinária
torna-se indistinta na maré de críticas à desagregação política da 1ª República. O
constitucionalismo antiliberal que se consolida no Brasil sob Vargas é a forma jurídica da
manifestação ditatorial do César, sob uma sociedade de massas. Nesse sentido, a tradição
das regras jurídicas deixa de ser a única arma de organização política da autoridade quando
as massas eclodem. A moralização da política, a formação de elites, o processo
civilizacional que a tradição do pensamento conservador e reacionário mobiliza
representam o passado. As massas trazem o mito, o irracional de forma definitiva à
constituição do espaço da política. De tal modo, o poder político não precisa mais de
orientação da tradição —esta função se torna destituída de sentido—, mas de liberdade total
para agir na pacificação social. O direito revela sua importância na consolidação do Estado
burocrático-policial mas, se se pensa na sua realização como garantia de direitos e

254
segurança jurídica, está na periferia do sistema político antiliberal. O constitucionalismo
antiliberal opera, portanto, na lógica jurídica da emergência, mas não pretende organizar
um Estado provisional. O cesarismo pretendido é constitutivo da política para as massas e a
ditadura plebiscitária não é, assim, um recurso extremo e limitado temporalmente, mas
configura-se como uma fórmula usual de governo e como um modelo específico de Estado:
o Estado antiliberal plebiscitário, cesarista e de massas.

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