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A estética da mercadoria jornalística

Leandro Marshall⇤

Índice O jornalismo, submetido a este processo


haugniano de estetização da mercadoria,
1 Introdução 1 torna-se um apêndice da publicidade.
2 A estética da mercadoria 3
3 O consumo 8 Palavras-chave: Teoria da Comunicação;
4 Os paradigmas do jornalismo 10 Teoria do Jornalismo; Jornalismo.
5 A Hegemonização da publicidade 11
6 O Fim da História e o Jornalismo 12
7 Referências bibliográficas 14 1 Introdução
Na virada do século XX para o sé-
culo XXI, o universo da comunicação e
da informação está radicado no espaço
Resumo da pós-modernidade: livre-mercado, livre-
competição, marketização, estetização, vir-
A pós-modernidade e os seus paradigmas de tualidade, niilismo, trans-comunicação, lais-
relativização, fragmentação e flexibilização, sez faire, laissez passer, pastiche, rede, ultra-
estabelecem no universo da comunicação liberalismo, just in time, razão cínica, glo-
e da informação, nesta transição de milê- balismo, supernada, pluralidade, descrença,
nios, uma esfera complexa de mutação e hedonismo, velocidade, antropofagia, simu-
transgenia. Assiste-se o advento de uma lacro, localismo, orgia, pós-história e funda-
raiz da indústria cultural, com a erupção de mentalismos.
ícones, a hegemonia de signos e fetiches, Esta é uma era caracterizada por muta-
uma teia de redes e tecnologias e a volati- ções, hiper-discursos e metalinguagens. É o
lidade absoluta de conceitos, gramáticas e espaço da anomia, da crise do sentido, dos
paradigmas. O locus pós-moderno instala no vazios teóricos e, ao mesmo tempo, ambi-
habitat social uma cultura híbrida, paradoxal guamente, do avanço da tecnologia, da trans-
e universal, e erige uma ultra-estética, que nacionalidade da cultura e da economia e da
se superpõe à estética da sociedade e que afirmação da ciência.
nasce sob o signo da linguagem publicitária. O regime de ultra-liberdade contemporâ-

Especialista em Comunicação - UPF – RS. Mes- nea, erigido com o apogeu do neoliberalismo
tre em Comunicação - UMESP – SP. Doutor em Co- no século XX, flexibiliza as regras sociais,
municação – PUC RS. Professor da UNIP e do UNI- econômicas e políticas e institucionaliza o
CEUB – Brasília – Brasil.
2 Leandro Marshall

modelo de ‘vale-tudo’ na sociedade, esva- nome. Formata, sobretudo, uma mutação


ziando e enfraquecendo os poderes e lin- sintetizada pelo capital para operar como fer-
guagens estabelecidas, e criando um regime ramenta da civilização capitalista. Uma cul-
de ambigüidade e fragmentação universali- tura feita com os valores e anti-valores do ca-
zadas. pital.
Panteísta, livre e iconocêntrica, a arena so- Esta meta-cultura emergente desconhece
cial descobre uma nova semântica e passa a limites e contamina e modifica o próprio ge-
observar a dialética entre a verdade e a falsi- noma da comunicação e da informação, ca-
dade, entre a objetividade e a subjetividade, racterizados contemporaneamente pela me-
entre a realidade e a virtualidade, entre a ra- diação à distância, pela tecnologização, pela
zão e o êxtase dos sentidos. linguagem audiovisual, pela oligopolização,
Os saberes mergulham numa racionali- pela universalização em rede, pelo fenômeno
dade de próteses, ícones e ânsias, que anta- das massas, pela estetização e pelos fait di-
gonizam as formas e imagens, pluralizam os vers. Ela fabrica o senso de realidade e os
conceitos, refundam as ideologias, desisto- modos de metabolizá-la e passa, em certa
rizam a consciência e domesticam a própria medida, a erigir uma nova e universal esté-
razão. tica.
O espaço da pós-modernidade torna-se, Uma estética de signos sem significantes,
nesta grande síncope de extremos, uma es- mais válida do que os valores arbitrários da
fera complexa de mutação e transgenia. modernidade e que não se submete a conven-
Assiste-se o advento de uma raiz da indústria ções. Uma estética que se superpõe às éti-
cultural, a erupção de ícones, a hegemonia de cas da sociedade humana e que nasce sob o
signos e fetiches, uma teia de redes e tecno- signo da linguagem publicitária, encarregada
logias e a volatilidade absoluta de conceitos, de dar expressão à nova era.
gramáticas e paradigmas. A linguagem da publicidade pós-moderna
As certezas da modernidade dão lugar ao torna-se a estética maior, o código que cola
profundo e antagônico estranhamento do ter- e dá sentido à realidade e às ações huma-
ritório pós-moderno, singular, teleológico, nas e por onde se transmitem e se consti-
de vertentes e ontologias, onde o último tuem os conceitos e os sentidos. Ela vira uma
homem de Fukuyama precisa pragmatizar forma de vacina, antídoto ou nirvana para as
a crise e a irracionalidade da razão e, in- agruras da pós-modernidade, uma espécie de
condicionalmente, adaptar-se a uma hiper- meca para onde se viram e rezam os mem-
realidade cultural em novas e escorregadias bros da classe de ‘novos consumidores’ de
verdades e universalidades. todo o mundo.
Uma cultura que já vem pronta para con- Este processo de estetização cultural gene-
sumo. O locus pós-moderno instala no ha- ralizada, que estetiza a própria ética e entro-
bitat social uma cultura híbrida, paradoxal e niza a publicidade, acaba subjetivizando os
universal, mais profunda que a cultura ambi- processos contemporâneos de comunicação
valente da modernidade. Esta mutação, sim- e os modos de produção, transformação e de
biose da própria natureza humana, determina circulação de uma informação tratada cada
os conceitos e significados de uma era sem vez mais como mercadoria.

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A cultura estética estrutura as empresas prensa com o poder de um deux ex machina


jornalísticas em unidades de produção e pro- da pós-modernidade. A antes imaculada lin-
cessamento capitalista, submetidas à ultra- guagem do interesse público acaba tornando-
lógica do mercado, da audiência e do lucro, e se preferencialmente uma esfera de manipu-
potencializadas para a meta-produção, meta- lações e licenciosidades. A imprensa passa,
processamento e meta-distribuição dos sig- conseqüentemente, a falar a linguagem do
nos da publicidade. capital. A erupção dos vazios e dos senti-
Nesta nova lógica, os produtos da indús- dos e a fratura da realidade dão lugar ao pan-
tria midiática indicam serem produzidos e teísmo dos signos e das mercadorias, plura-
vendidos a partir das máximas do marketing lizados por este processo pós-histórico e es-
ultra-pós-moderno que industrializa e vende tético da relativização.
sabonetes, vassouras e guarda-chuvas, mas, Este texto procura pensar, à luz da dialé-
mais do que isso, que condiciona a supra- tica e das contradições da pós-modernidade,
engrenagem da sociedade de consumo pelo como o processo universal de estetização e
marketing da estética que industrializa e co- a hegemonização da publicidade repercutem
mercializa os gostos, os valores, os sentidos sobre o newsmaking jornalístico nesta tran-
e as consciências dos próprios consumido- sição de milênios. A questão é saber se es-
res. tamos caminhando para a reforma do para-
A nova estética universaliza e radicaliza a digma do jornalismo ou mesmo se o cha-
práxis de mercado e atinge a essência da im- mado Fim da História supõe o fim do Jor-
prensa, das notícias, dos noticiários, da in- nalismo.
formação e dos próprios jornalistas. As pá-
ginas dos jornais, tele-jornais, rádio-jornais e
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net-jornais incorporam as novas premissas e
passam a relativizar os conceitos de verdade, A matriz do processo de mutação dos
de realidade, de conhecimento, de informa- paradigmas do jornalismo na era pós-
ção, de saber, etc. Os discursos da publici- moderna parece ser uma espécie de ideologia
dade e da estética, e junto com eles do sensa- publicitária-mercadológica-liberal_. Nesta
cionalismo, da espetacularização, da carna- transição de eras, a linguagem jornalística
valização, da mais-valia, dos fait divers, ino- incorpora antes, durante, depois, sob, sobre,
culam o ethos do jornalismo. intra, inter e trans, a palavra, a linguagem e o
Acossado diretamente por este ‘novo’ pa- discurso da racionalidade econômica da so-
radigma cultural e pela ordem do mercado, ciedade. Não só da razão pura do mercado,
o jornalismo pós-moderno transforma-se em mas da estética, do simulacro e do teatro do
um amálgama estético e capitalista, um mercado representados na mercadoria.
instrumento-meio dos objetivos diretos ou Desta forma, na sociedade contemporâ-
indiretos do sistema e da lógica ultraliberal. nea, a informação, a notícia, o jornal e a im-
O jornalismo sofre mutações radicais e prensa em geral são estetizados, marketiza-
passa a ser constituído e normatizado pela dos e mercadorizados. A realidade dá lugar
ética da liberdade capitalista pós-moderna. à estética da realidade. O esforço de obje-
A ética do capital penetra e se imiscui na im- tividade dá lugar à estética da subjetividade.

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A apresentação torna-se uma representação irreversivelmente pela lógica publicitária-


protética e artificial. mercadológica-liberal.
As mutações, enfim, são generalizadas
Diz-se que o grande empreendimento do
e subvertem as lógicas da comunicação e
Ocidente é a mercantilização do mundo,
da informação. O ultra-mercado, através
de tudo entregar ao destino da mercado-
de sua ideologia publicitária-mercadológica-
ria. Parece, porém, que foi a estetiza-
liberal, altera o DNA da realidade, em sua
ção do mundo, sua encenação cosmopo-
essência e em sua aparência, e produz uma
lita, sua transformação em imagens, sua
estética pós-moderna e transgênica, que do-
organização semiológica. Estamos assis-
mestica os espaços, os corpos, os sentidos e
tindo, além de ao materialismo mercan-
as tangências e sintetiza uma forma de ‘Re-
til, a uma semi-urgia de cada coisa atra-
nascimento Imagético’, que orbita com liber-
vés da publicidade, da mídia, das ima-
dade na sociedade midiática.
gens. Até o mais marginal, o mais banal,
O que conforma a realidade e o que de-
o mais obsceno estetiza-se, culturaliza-
termina a verdade é uma derivação da ética
se, musealiza-se. Tudo é dito, tudo se
da estética, uma ética-ultra-ética, estabele-
exprime, tudo toma força ou modo de
cida pela derrisão dos princípios e das ma-
signo. O sistema funciona não tanto
trizes epistemológicas e sociais.
pela mais-valia da mercadoria, mas pela
Nesta dimensão, esta estetização promove
mais-valia estética do signo (BAUDRIL-
proporcionalmente a mutação do gene da in-
LARD, 1996, p. 23).
formação e realoca a racionalidade do jorna-
lismo. Hibridrizadas pela pós-modernidade, Para Belarmino Costa (2000, p.153), neo-
as mutações desencadeiam uma instabili- frankfurtiano brasileiro, a estetização da
dade genética generalizada na imprensa, mercadoria notícia transcende a própria ex-
que reforma sua natureza epistemológica, e posição do conteúdo em si, já que “uma man-
acaba internalizando, nos cromossomos, a chete no jornal, as infografias e utilização
idiossincrasia volátil do mercado. de fotos, a computação gráfica que permite
A mídia torna-se um universal teatro vir- simulações na TV, o recorte, a montagem
tual e a vida, midiatizada e artificializada, e a exposição de imagens, que se agregam
transforma-se em simulação. Em síntese, a à matéria-prima informação, são condições
pós-modernidade estética transforma o uni- para expor à venda e à circulação da merca-
verso da imprensa e da mídia em uma era doria notícia” (COSTA, 2000, p.153).
essencialmente Adorniana_, Baudrillariana_ Na verdade, na nova era, em princípio não
e Nietzscheriana_. A simulação, de que existe mais uma ordem cartesiana ou mate-
fala o teórico francês Jean Baudrillard, a mática, nem um processo de causa e con-
alienação, a mercadorização e a irraciona- seqüência. A nova estética, que Wolfgang
lidade do consumo, denunciados pelo filó- Fritz Haug (1997) denomina de estética da
sofo alemão Theodor Adorno, e a falsidade e mercadoria, determina, em tudo, o valor de
a inconsciência, apontados pelo iconoclasta troca, gangrenando o valor de uso das coisas.
Frederic Nietzsche, representam a essência A divisão do valor das mercadorias em va-
da nova civilização midiática, contaminada lor de troca e valor de uso foi proposta pelo

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filósofo Karl Marx, em O Capital. Estes pa- sas imagens evidenciam-se às pessoas os
drões de medida decorrem, segundo Marx, lados sempre insatisfeitos de seu ser. A
das naturezas diversas dos objetos a medir e aparência oferece-se como se anunciasse
das convenções sociais atribuídas às merca- a satisfação; ela descobre alguém, lê os
dorias. desejos em seus olhos e mostra-os na su-
O valor de uso é definido pela utilidade da perfície da mercadoria. Ao interpretar as
coisa e só se realiza com a utilização ou o pessoas, a aparência que envolve a mer-
consumo. O valor de uso constitui o con- cadoria mune-a com uma linguagem ca-
teúdo material da riqueza, qualquer que seja paz de interpretar a si mesma e ao mundo.
a forma social dele, e, na forma da sociedade Logo não existirá mais nenhuma outra
capitalista, o valor de uso é o veículo mate- linguagem, a não ser aquela transmitida
rial do valor de troca. pelas mercadorias (HAUG, 1997, p.77).
“O valor de troca revela-se de início na re-
O cidadão/consumidor pós-moderno lê a
lação quantitativa do valor de uso de espécies
si mesmo em cada nova notícia e sente as
diferentes, na proporção em que se trocam,
suas próprias pulsões em cada nova imagem.
relação que muda constantemente no tempo
A mídia e a imprensa fraudam o poder de
e no espaço. Por isso, o valor de troca pa-
criar, recriar, ocultar ou transformar a reali-
rece algo casual e puramente relativo e, por-
dade, reproduzindo-a num novo espaço me-
tanto, uma contradição em termos, um va-
ramente ilusório.
lor de troca inerente, imanente à mercadoria”
A catarse psicológica e a inconsciência co-
(MARX, 1982, p. 42).
letiva dão forma e sentido à grande embala-
A ética da publicidade, com a força
gem social, racionalizada em parte pelos sig-
energizada do valor de troca, acaba, desta
nos estéticos do jornalismo e da publicidade.
forma, invertendo a racionalidade e baudril-
Na esteira dos estudos de Herbert Marcuse
larizando o jornalismo. Nesta inversão, o va-
e Walter Benjamin, Wolfgang Fritz Haug,
lor de troca escraviza o valor de uso.
em sua obra Crítica da Estética da Merca-
A aparência na qual caímos é como um doria, de 1971, ajudou a desvelar a racio-
espelho, onde o desejo se vê e se re- nalidade imanente à estetização do mundo
conhece como objetivo. Tal como em aparente fermentado pela sociedade de mas-
uma sociedade capitalista monopolista, sas, afirmando que a tendência para a “tec-
na qual as pessoas se defrontam com nocracia da sensualidade situa-se economi-
uma totalidade de aparências atraentes e camente desde os primórdios do capitalismo
prazerosas do mundo das mercadorias, na subordinação do valor de uso ao valor de
ocorre por meio de um engodo abominá- troca”.
vel algo estranho e pouquíssimo conside- A produção de mercadorias não tem
rado em sua dinâmica. É que seqüências como objetivo a produção de determi-
intermináveis de imagens acercam-se das nados valores de uso como tais, mas
pessoas atuando como espelhos, com em- a produção para a venda. O valor de
patia, observando o seu íntimo, trazendo uso desempenha no cálculo do produ-
à tona os segredos e espalhando-os. Nes- tor de mercadorias o papel esperado pelo

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comprador, fato que é preciso considerar sumo, onde as mercadorias desta nova soci-
(HAUG, 1997, p. 26). edade são produzidas não mais para satisfa-
zer demandas ou necessidades, mas apenas
Na verdade, Wolfgang Fritz Haug traduz para alimentar o processo surreal das fanta-
os princípios do fetichismo do objeto de sias e fetiches criados artificialmente pela in-
consumo, apresentado por Karl Marx, como dústria da publicidade. A cultura simbólica
parte do processo do modo de produção ca- cristalizou-se como indústria cultural.
pitalista. Segundo Marx, a mecânica do ca- Este conceito frankfurtiano de ‘indústria
pitalismo fetichiza produtos para adaptá-los cultural’ foi o que mais próximo conseguiu
ao consumo e, assim, “capitalizar” o capita- cercar os fenômenos simbólicos do século
lismo. XX. A indústria cultural emanada pelas cha-
“À primeira vista, frisa Marx (1982, p. minés das fábricas de bens imateriais homo-
79), a mercadoria parece ser coisa trivial, geneizou e pasteurizou a arte, a cultura, a
imediatamente compreensível. Analisando- filosofia, instalando, em seu lugar, a era do
a, vê-se que ela é algo muito estranho, cheia kitsch, do pastiche, do simulacro, adaptados
de sutilezas metafísicas e argúcias teológi- todos para a linguagem da mercadoria.
cas”. O fetichismo não provém do valor de Na nova realidade, a cultura, com a in-
uso, nem tampouco dos fatores que determi- tervenção técnica e a reprodução em massa,
nam seu valor. perdeu a sua aura e passou a ser comerci-
alizada, desligando-se de sua característica
A mercadoria é misteriosa simples- de manifestação artística. Moldada eminen-
mente por encobrir as características temente para agradar aos padrões da massa
sociais do próprio trabalho dos ho- consumidora, a cultura de massa rebaixou
mens, apresentando-os como caracterís- o nível dos produtos culturais (carregados
ticas materiais e próprio dos sociais ine- de ideologia dominante), homogeneizando e
rentes aos produtos do trabalho; por ocul- deteriorando os padrões e valores sociais.
tar, portanto, a relação social entre os tra- No século XX, a indústria cultural erige
balhos individuais dos produtores e o tra- enfim o signo da falsificação e da manipu-
balho total, ao refleti-la como relação so- lação. Tudo o que a indústria cultural co-
cial existente, à margem deles, entre os munica está marcado pela patologia da reali-
produtos do seu próprio trabalho. Atra- dade, isto é, foi organizado para seduzir e al-
vés dessa dissimulação, os produtos do vejar mercadologicamente os consumidores
trabalho se tornam mercadorias, coisas no nível psicológico.
sociais, com propriedades perceptíveis Os produtos são fabricados para atender
e imperceptíveis aos sentidos (MARX, desejos e o “homem não é mais sujeito de
1982, p. 81). sua história, encontra-se em poder de uma
sociedade que o manipula a seu bel-prazer: o
Na transição da modernidade para a pós- consumidor não é soberano, como a indústria
modernidade, a ética do capitalismo trouxe, cultural queria fazer crer, não é o seu sujeito,
a partir da metade do século XX, um mo- é o seu objeto”. (ADORNO, 1987, p. 30) O
delo de sociedade condicionada para o con- ser humano vira um autômato e a nova racio-

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nalidade é uma racionalidade apenas instru- deles isoladamente, mas só a todos em


mental, que serve para manter o controle da conjunto na sociedade. Inevitavelmente,
própria alienação humana. O homem torna- cada manifestação da indústria cultural
se um ser compulsivamente vazio, perdido reproduz as pessoas tais como as mode-
em meio a um território kafkaniano. lou a indústria em seu todo (ADORNO
Frederic Nietzsche chega a afirmar que, & HORKHEIMER, 1985, p. 119).
nesta sociedade de consumo de signos, o ser
humano está preso ao regime de violência se- Para Baudrillard, a nova cultura é apenas
miótica da sociedade, a uma camisa-de-força farsa, já que deixou de ser real para se tor-
simbólica. nar hiper-real. Segundo ele, a simulação é
Em sua tese, o homem, esta ‘nova criatura mais verdadeira do que o verdadeiro, afinal
moral’, é “um sujeito ‘estetizado’, na medida de contas, argumenta, a “presença não desa-
em que o poder agora se transformou em pra- parece diante do vazio, ela desaparece diante
zer, mas ela prenuncia a falência do velho es- de uma duplicação de presença que desfaz a
tilo animal humano estético, que vivia seus oposição da presença e da ausência” (BAU-
instintos belos e bárbaros em esplêndida li- DRILLARD, 1996, p. 10).
berdade”. Se a nova arte mercantilista é estu- O filósofo francês acredita que a socie-
pro e violação, diz Nietzsche, o “sujeito hu- dade chega, na pós-modernidade, ao beco-
manista haure um prazer estético perverso de sem-saída da subjetividade, onde as coisas e
uma contínua auto-violação” (EAGLETON, os objetos submetem o homem a uma ins-
1993, p. 174). tância de super-representação. “Chegamos,
Em Dialética do Esclarecimento, obra edi- diz ele, ao paradoxo de que, nessa conjun-
tada em 1947, Adorno e Horkheimer, identi- tura em que a posição de sujeito se tornou
ficam o processo capital de corrosão da cul- insustentável, a única posição possível é a
tura contemporânea e acusam a indústria cul- do objeto. A única estratégia possível é a do
tural de ser a responsável pela mistificação objeto. Com isso precisamos entender não o
das massas. Para eles, objeto ‘alienado’ em em vias de desaliena-
ção, o objeto subjugado e reivindicando sua
a violência da sociedade industrial autonomia de sujeito, mas o objeto tal como
instalou-se nos homens de uma vez por ele desafia o sujeito, tal como ele o remete
todas. Os produtos da indústria cultural à sua posição impossível de sujeito” (BAU-
podem ter a certeza de que até mesmo os DRILLARD, 1996, p. 102).
distraídos vão consumi-los alertamente. No âmago deste processo de industriali-
Cada qual é um modelo da gigantesca zação da cultura, do esvaziamento da reali-
maquinaria econômica que, desde o dade e da verdade, da denúncia da inconsci-
início, não dá folga a ninguém, tanto no ência, do êxtase dos signos e dos sentidos,
trabalho quanto no descanso, que tanto da geopolítica dos objetos, o jornalismo pós-
se assemelha ao trabalho. É possível moderno vira pó na iconosfera da publici-
depreender de qualquer filme sonoro, de dade e torna-se um mero instrumento da ico-
qualquer emissão de rádio, o impacto nocracia cultural. A mais-valia da publici-
que não se poderia atribuir a nenhum dade ajuda a operar a espoliação industrial

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das sensibilidades e das consciências, e a vam a apropriação e o uso de produtos ma-


usurpar a racionalidade e o ideal de emanci- teriais e espirituais, próprio das sociedades
pação do homem presente na modernidade. capitalistas industriais. O consumo escoava
Por causa da publicidade, lembra Pinotti, a produção da sociedade e alimentava como
apud Ferres (1996, p. 34), a civilização oci- um dínamo a máquina do capitalismo.
dental transformou-se hoje em um ubíquo Consumir significava, na epistemologia
e universal supernada. Esta expressão, cu- convencional, gastar, destruir, esgotar, extin-
nhada em 1976, traduz a “parafernália ex- guir, enfraquecer. O conceito dava sentido
pressiva, o extravasamento de efeitos especi- a um estado de transformação no processo
ais, o deslumbramento dos recursos técnicos econômico e social do capitalismo.
visuais e sonoros, a proliferação de figuras Hoje, entretanto, o consumo pós-moderno
retóricas visuais e verbais” que servem para amplia seus significados e torna-se per si um
esconder um imenso vazio de conteúdos. projeto de racionalidade, uma forma de or-
“É a sociedade do supernada, do superís- ganização semântica do universo. Consumir,
simo, ou seja, do superlativo sem substan- na pós-modernidade, significa possuir, apro-
tivo, do vazio, da forma sem conteúdo, do priar, ostentar, diferenciar, revelar, estetizar.
superficial sem substância” (FERRÉS, 1996, A pós-modernidade pluralizou as formas
p. 34). e linguagens do consumo e passou a empre-
O paradigma do jornalismo na pós- ender uma ação de mutação cultural global.
modernidade passa a evidenciar um estado Derivado da mentalidade capitalista da mo-
de volatilidade. Os imperativos categóricos dernidade, consumir transformou-se na ce-
dão lugar a imperativos relativos e a episte- lebração totêmica do livre-mercado na pós-
mologia assume uma postura de tolerância. modernidade. O consumo transcende, atual-
Em lugar do modelo mítico clássico, nasce mente, o processo de transformação do capi-
um jornalismo transgênico, já com 25 muta- tal e as condições do valor de uso e do va-
ções diferentes. lor de troca. Estetizados, a economia, o mer-
O conceito, derrotado pela modernidade, cado, a mercadoria e o consumo viram me-
passa a celebrar a multidisciplinaridade ubí- táforas.
qua e o relativismo universal. Evaporam-se Nesta nova era, em cada objeto consu-
os truísmos axiomáticos na era da estética mido, consome-se intrinsecamente um, dois,
da mercadoria. O que existe é uma verdade três ou inúmeros signos. O ato elementar do
fractal essencialmente baudrillariana. A es- consumo deixa de ser a concretização sim-
tetização da vida passa a ser o código chave ples de uma demanda ou de uma necessi-
do estado da meta-indústria de consumo cul- dade pontual. Consumir reveste-se de uma
tural. lógica de ubiqüidade, intensidade e onisci-
dade. Consumir é um processo que compre-
ende a apreensão de signos antes, durante e
3 O consumo
após a apropriação ou o uso das mercadorias.
Na sua forma histórica tradicional, o con- Um objeto carrega em si símbolos, íco-
sumo caracterizava-se como um conjunto de nes, fetiches, ideologias, fantasias, sensa-
processos sócio-culturais, onde se realiza- ções, status, alegria, luxo, conforto, etc. É

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imanente ao objeto hoje a sua qualidade com Num olhar mais agudo que o oferecido
um bem de sentido social. Não é mais o in- pela Escola de Frankfurt, com Adorno,
divíduo, em sua esfera de identidade e perso- Horkheimer, mas principalmente Benjamin,
nalidade, que conferem significação ao pro- e sua crítica à reprodutibilidade técnica da
duto. O objeto de consumo na sociedade, o arte e da cultura, Jean Baudrillard antecipou
significante, já vem recoberto por um con- os indícios do que, de forma impressionista,
junto de atributos conferidos, não pelo pro- revelariam a civilização do consumo.
duto, mas pela sociedade, em sua lógica de
representações. À nossa volta, existe hoje uma espé-
Em síntese, o imperativo da iconosfera é cie de evidência fantástica do consumo e
estabelecer no nível do ícone o processo de da abundância, criada pela multiplicação
consumo. O objeto torna-se parte acessó- dos objetos, dos serviços, dos bens mate-
ria da demanda individual. A racionalidade riais, originando como que uma catego-
neste processo associa, desta forma, o con- ria de mutação fundamental na ecologia
sumo não só à satisfação, mas, sobretudo, à da espécie humana. Para falar com pro-
estética do consumo. Quando consumo, digo priedade, os homens da opulência não se
quem sou ou o que penso, e, mais do que encontram rodeados, corno sempre acon-
isso, digo que eu sou e o que penso porque tecera, por outros homens, mas mais por
consumo. objetos (BAUDRILLARD, 1995, p. 15).
Além de um processo de apropriação e uso
de signos, o consumo também se revela, por- Dispensado das preocupações que o escra-
tanto, um estado de poder, originário dire- vizavam à ética do trabalho, o homem pós-
tamente do signo poder, mas materializado moderno entrega-se, na pós-modernidade,
pela condição do ter-poder. aos prazeres hedonistas do consumismo, que
O consumo transforma-se conseqüente- reorganiza os sentidos e as novas menta-
mente no território anterior da racionalidade, lidades. Sem ideologias, o homem pós-
da ética e da estética, onde se negociam ou moderno tem numa espécie de consumocra-
se disputam os objetos processados da natu- cia a chance de sublimar a sua importância
reza ou da força humana. As relações sociais e a irrealidade da vida pós-moderna. A esté-
saem do palco da produção ou do trabalho tica da alienação alivia o que a ideologia hoje
e passam a serem realizadas previamente no não mais satisfaz.
terreno do signo. O perigo maior é de que a estetização ge-
A emergência de uma sociedade fundada neralizada da vida aparente poderá provocar
em torno da produção e recepção de signos a derrisão total da verdade e da realidade.
e objetos foi esboçada por Jean Baudrillard, O signo artificialmente fabricado pode levar
em sua obra, de 1967, a Sociedade de Con- à falsificação plena da verdade, à simulação
sumo. Para o sociólogo do simulacro, a soci- protética da realidade e, à conseqüente, este-
edade de consumo deriva do processo de in- tização mercadológica absoluta da informa-
dustrialização econômica e cultural que mar- ção.
cou os séculos XIX e XX, em meio aos es-
tertores da modernidade.

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4 Os paradigmas do jornalismo alfabética ou livresca, fase importante e


chave na evolução histórica da huma-
O processo de mutação dos paradigmas do
nidade. O discurso jornalístico é uma
jornalismo no século XX está inscrito den-
modalidade de discurso moderno. A
tro da moldura cultural das mutações dos pa-
pergunta que viemos arrastando é a se-
radigmas da era da modernidade_. Criado
guinte: uma vez substituída a tecnologia
como uma convenção social diante da neces-
do alfabeto e da imprensa pela tecnolo-
sidade de difusão de informações comerciais
gia eletrônica, poderá subsistir esta ins-
rápidas na sociedade pré-capitalista do sé-
tituição chamada jornalismo ou ela terá
culo XVI e para saciar o apetite da humani-
que submeter-se a uma reforma radical
dade por informações e conhecimento, o jor-
de suas essências? (ALBERTOS, 1997,
nalismo nasce, amplia-se e desenvolve-se no
p. 37).
húmus criado pelo Renascimento, pelo Ilu-
minismo e, mais tarde, pela Revolução In- Ciro Marcondes Filho (2000, p. 37) ob-
dustrial. serva que “não seria coerente que num mo-
Durante cerca de quatro séculos, a lingua- mento de introdução revolucionária de téc-
gem jornalística foi uma das tantas ferramen- nicas de inscrição, armazenamento e reapro-
tas intelectuais que sustentaram a dinâmica e veitamento de informações - como é a infor-
a lógica da modernidade. O jornalismo assu- mática - sobrevivessem derivações de outras
miu uma papel chave na sociedade e tornou- épocas históricas”. Para ele, “o jornalismo é
se o código universal que contribuiu para a síntese do espírito moderno: a razão (a ver-
viabilizar a profunda transformação social, dade, a transparência) impondo-se diante da
econômica e política provocada pela irupção tradição obscurantista, o questionamento de
dos paradigmas da modernidade, que refor- todas as autoridades, a crítica da política e a
mou radicalmente a dinâmica social. confiança irrestrita no progresso, no aperfei-
Portanto, hoje, quando os paradigmas da çoamento contínuo da espécie”.
modernidade a partir do século XX entram Este jornalismo perde o rumo e a iden-
em crise e inicia-se um processo de muta- tidade quando desmoronam os alicerces da
ção social generalizada, o jornalismo tam- modernidade e fica desorientado quando essa
bém entra em mutação. O desmanche da (o progresso do homem) começou a perder
civilização da Segunda Onda, a da Revo- terreno diante da sedução mediática irracio-
lução Industrial, numa nova era provisoria- nal e mágica (TV) e da hegemonia das téc-
mente identificada como pós-moderna_, ou nicas no fim do século (Marcondes Filho,
pós-história, a photisthorie, implica inextri- 2000, p. 09).
cavelmente a implosão dos fenômenos e das Na modernidade, a função da linguagem
criações que fazem parte da essência desta jornalística foi a de capilarizar a lógica e o
era. sistema da racionalidade moderna e moder-
O jornalismo é, sem dúvida, uma das ins- nizante, arregimentando as sociedades para
tituições básicas do mundo moderno, sur- a nova era e galvanizando o ethos da socie-
gido desta mentalidade hierárquica, se- dade de massas, da sociedade do trabalho e
quencial e cronológica, típica da etapa da sociedade do consumo.

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A estética da mercadoria jornalística 11

Sem o jornalismo, a sociedade da moder- tipo de chantagem e libertinagem diante de


nidade não conseguiria estabelecer os prin- outras linguagens. Ela transforma-se numa
cípios do nacionalismo, das identidades cul- forma de pragmática da liberdade, livre para
turais, das fronteiras estéticas, da massa crí- libertar, coagir, corromper, subverter, cor-
tica, da formação da chamada opinião pú- roer, deturpar, manipular.
blica e dos signos da sociedade da informa- A estética da mercadoria torna-se a pró-
ção. Os jornais representaram ainda o es- pria materialização do mercado, do libera-
paço da esfera pública onde se estabelece- lismo político e econômico, das estratégias
ram os diálogos e a dialética da democracia, de marketing e da ética do capital, que en-
da (ir)racionalidade, dos conflitos ideológi- volve toda a iconosfera da publicidade. À
cos, da emergência das utopias, da emanci- publicidade e aos publicitários, tudo é possí-
pação humanística, da socialização, da natu- vel e tudo é permitido.
ralização da tecnologia, da luta de classes, Desenvolvida para equacionar as contradi-
da industrialização e da revolução burguesa. ções surgidas nas relações de troca (SANTO
O alfabeto e a mentalidade jornalística iman- BARBOSA, apud CORREA, 1995), a publi-
taram per si a racionalidade da sociedade cidade, a partir da primazia econômica da
burguesa, organizando um olhar orgânico e pós-modernidade, acaba se desenvolvendo e
pragmático da realidade. tornando-se um dos principais sustentáculos
O jornalismo representa assim, nesta pers- da lógica capitalista contemporânea. A pu-
pectiva da transição da modernidade para a blicidade torna-se a espinha dorsal do sis-
pós-modernidade, o locus da mentalidade or- tema, do capital e da engrenagem inconsci-
gânica que caracteriza a sociedade contem- ente e coletiva que a legitima.
porânea, marcada pela razão técnica e ins- Desta forma, livre para realizar a reali-
trumental, pelo positivismo social, pela dei- dade, a publicidade sintetiza a materializa-
ficação estética, pela banalização do cotidi- ção das aberrações da pós-modernidade, a
ano doméstico e pela ética do non sense. própria ética do anti-iluminismo. A estética
da mercadoria e a estética das idéias (a pro-
paganda) denotam a marketização de uma
5 A Hegemonização da
vida pós-moderna.
publicidade Irmã gêmea da liberdade nascida com a
A crescente hegemonização da publici- Revolução Burguesa e consolidada na Revo-
dade em nossa sociedade pós-moderna é lução Francesa, de 1789, a linguagem jorna-
conseqüência manifesta do estado de ul- lística é intrínseca à liberdade moderna em
traliberdade existente no espaço da pós- todas as suas conotações e, portanto, só po-
modernidade. A liberalização e a relativi- deria ter nascido e prosperado em um ambi-
zação dos princípios da economia, da polí- ente onde prosperasse também a liberdade,
tica, da sociedade, da cultura e, globalmente, não só econômica e política, mas também
da liberdade, potencializados e deificados cultural. A publicidade, por sua vez, é in-
pela hegemonização do neoliberalismo_, au- trínseca à livre-liberdade pós-moderna.
torizam a publicidade contemporânea a todo Fez parte da cultura do jornalismo, du-
rante toda a modernidade, a perspectiva de

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12 Leandro Marshall

ser uma estrutura de códigos que ajudasse o 6 O Fim da História e o


homem, idealística e utopicamente, a estabe- Jornalismo
lecer uma nova sociedade, transformando e
edenizando o universo. A especulação teórica de Francis Kukuyama
No âmago da máquina industrial da infor- sobre o Fim da História_ (1992), associado
mação, existia uma convenção social legiti- ao fim da modernidade (Daniel Bell, Fran-
mando o direito do jornalista proteger a so- cis Lyotard, Jean Baudrillard) e ao fim da
ciedade como um manto. O ofício jornalís- Segunda Onda (Alvin Tofler), instala um re-
tico dispunha de uma procuração da socie- gime de fatalismos compulsivos. Esta seria a
dade para investigar e defender os interes- era do fim da economia (Paul Ormerod), do
ses da coletividade, com liberdade total. O fim da ciência, do fim da natureza (Anthony
próprio direito de liberdade de expressão, o Giddens), do fim da democracia (Jean Maria-
direito à liberdade de opinião e o direito à li- Guéreno, Norberto Bobbio), do fim da polí-
berdade de imprensa, são conquistas da soci- tica (Alain Touraine, Michel Mafesoli), do
edade que emergem paralelamente à conso- fim de Deus (Frederic Nietszche), do fim do
lidação dos direitos de liberdade econômica trabalho (Jeremy Rifkin) e do fim do capi-
e de liberdade política. talismo (Lester Thurow), entre tantos outros
Isto tudo acaba na pós-modernidade. A fins.
liberdade moderna, constrangida pela ética As mutações generalizadas parecem ins-
da utopia e do projeto socializador, era uma talar um buraco negro universal que tudo as-
liberdade cerimoniosa, com compromisso pira e tudo liquida. E quanto mais “o que
social. A ultra-liberdade da era da pós- é sólido desmancha no ar”, mais parece au-
modernidade é uma energia que rompe os li- mentar o desmanche. O modelo de civili-
mites e as convenções de cavalheiros da mo- zação moderna naufraga pela ambigüidade
dernidade. e pelos próprios sofismas da racionalidade.
O modelo niilista da pós-modernidade Nesta visão, não há nada a comemorar e a
derrota e domina as forças que nasceram na civilização agonizante já se apresenta em um
modernidade. A racionalidade da moder- estado de anomia.
nidade dá lugar à irracionalidade moderna. Mesmo estando naturalmente marcadas
A objetividade vira um terreno de subjetivi- pelo niilismo do final de um modelo de ci-
dade. vilização, estas hipóteses fatalistas encerram
Assim, a publicidade faz parte da ética da perspectivas que contemplam parte do cená-
plus-liberdade da pós-modernidade. O jor- rio pós-moderno. Por um lado, a implosão
nalismo faz parte da ética da liberdade da de uma sociedade estabelecida em cima da
modernidade. ética do trabalho, do modo de produção ca-
Neste novo jornalismo, não há mais limi- pitalista, da luta de classes, da sociedade re-
tes, parâmetros ou referências. A linguagem gida pelo capital, do projeto da ciência e da
incorpora, em dimensões variáveis, a densi- política, e de outro, a inflação de filosofias
dade e a linguagem características da persu- que esquadrinham uma era sem rosto.
asão publicitária. O ocaso da aventura moderna, sem dú-
vida, compreende o sepultamento das inú-

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A estética da mercadoria jornalística 13

meras ferramentas que ajudaram a susten- gem. As mutações sociais reformam os sen-
tar esta era. Evaporam-se linguagens, con- tidos e a natureza do seres, além da natureza
venções, paradigmas, manuais, referenci- dos próprios objetos. A informática organiza
ais, perspectivas, lógicas, sensibilidades e uma dinâmica totalmente nova no conceito
mentalidades. Todavia, ao mesmo tempo, de fazer.
inauguram-se novas, e ainda disformes for- As hipóteses estão colocadas e indicam
mas e simbologias. perspectivas, sem dúvida, de reforma e de
A pergunta que aqui cabe levantar é se o transformação.
Fim da História conduz inevitavelmente ao José Martínez Albertos (1997, p. 38) lem-
Fim do Jornalismo? Este cenário de mu- bra que os “valores que fizeram possível
tações transgênicas compreende a morte da o discurso da modernidade chamado jorna-
linguagem jornalística? A era da terceira lismo têm cada vez menos importância para
onda, com suas tecnologias digitais, junto as atuais gerações de jovens e adolescentes”.
com a pós-modernidade, poderão fazer de- E ele teme que “em poucos anos deixem de
sabar o universo do jornalismo? Mais do ter importância alguma para as sucessivas
que isso, a sociedade da consumocracia re- gerações de cidadãos que vem aparecendo
presentará o golpe mortal no jornalismo? sobre o planeta Terra”.
As hipóteses levantadas por diversos teóri- Howard Kurtz (1993, p. 329) alerta que
cos do universo da comunicação indicam, até “um cheiro de morte permeia o negócio jor-
o momento, um processo de mutação aguda nalístico nestes dias. Todos os meses há a re-
do paradigma do jornalismo. Teses aporta- petição de um ritual familiar: a desesperada
das por Marcondes Filho, Bordieu, Alber- busca por um comprador, uma angustiante
tos, Bagdikian, Medina, Ramonet, indicam contagem regressiva, a edição final, a mágoa
que o jornalismo atravessa na aurora da pós- na comunidade, a última bateria de repórte-
modernidade um estado de transgenia. res e editores despejados nas ruas. Mais de
A ruína da sociedade letrada acarreta apa- 150 jornais diários tem fechado desde 1970”.
tia intelectual da juventude. A queda da ci- É certo que o modelo de jornalismo clás-
vilização da Segunda Onda, fundada na in- sico não sobreviverá ao terremoto midiático
dústria, reforma os processos de produção, da transição do século XX para o século
transmissão e armazenamento de dados e in- XXI, já que não deriva, nem em lembrança,
formações na sociedade. As novas tecno- da racionalidade fundada no regime de liber-
logias abrem a possibilidade de uma comu- dade autêntica, liberdade de expressão, de
nicação horizontal, descentralizada, intera- opinião e de imprensa, na verdade, no bem-
tiva, on line e barata (mas virtual). A ética estar e no interesse público, que existiram
do capital, em transformação, mobiliza no- pelo menos no mito, mas deriva hoje, sim,
vas oportunidades e novas possibilidades. A de uma racionalidade determinada aprioris-
racionalidade passa a ser operada em outro ticamente pelo princípio liberal do valor de
patamar de cognição e cultura. A técnica troca. Que recria a racionalidade e reifica a
desloca o homem do protagonismo social. estética do consumo.
O consumo instaura um regime de simula- Os paradigmas da sociedade pós-moderna
ção. A iconosfera radicaliza o poder da ima- estão fundados numa racionalidade funcio-

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14 Leandro Marshall

nalista. A sociedade é e está, sem história, FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Porto
sem porquês, sem causas e sem consciência. Alegre: Artes Médicas, 1996.
Nenhuma linguagem e nenhum discurso po-
derão assim abalar uma realidade estetizada, HAUG, Wolfgng Fritz. Crítica da estética
virtualizada e artificial. A ética está na ilu- da mercadoria. São Paulo: Unesp,
são. 1997.
Conseqüentemente, a priori, o jornalismo MARX, Karl. O Capital. Tomo 1. São
tem tratado de cumprir uma racionalidade Paulo: Difel, 1982.
eminentemente bancária, instrumental, ex-
plicada apenas pela religião do consumo.
Embora o Fim da História deva revelar-se
apenas como uma conjectura, o fim do jorna-
lismo é uma hipótese singular. As pulsações
do estado de mutação pós-moderna devem Notas
operar a reforma dos suportes, da linguagem 1. Esta expressão procura contemplar a associação
e, sobretudo, do papel do jornalismo. dos valores e princípios do liberalismo de Smith,
Hayek e Friedman, do regime hegemônico do livre-
mercado e do processo de estetização publicitária
7 Referências bibliográficas contemporânea. A união dos termos, apesar da tauto-
logia, visa dar, através de um artifício léxico, a devida
ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, dimensão à supra-ideologia da pós-modernidade, que
Max. Dialética do Esclarecimento: domina e governa a sociedade apenas com o poder
fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: dos signos.
Zahar, 1985. 2. Estética é compreendida, neste sentido, como
percepção, sensação, segundo a origem etimológica
ALBERTOS, José L. Martínez. El Ocaso da expressão, que vem do grego aesthesis.
do Periodismo. Barcelona: Editorial
CIMS, 1997. 3. O alemão Theodor Adorno (1907-1969) é o
símbolo máximo da Escola de Frankfurt, fundadora
BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de da Teoria Crítica. Junto com Max Horkheimer,
Consumo. Rio de Janeiro: Elfos, 1995. Adorno é autor das mais profundas críticas sobre
a industrialização da cultura, a mistificação do
BAUDRILLARD, Jean. A transparência do iluminismo, o fim da arte autêntica e a cosificação
do ser humano no secúlo XX, após a emergência dos
mal: ensaio sobre os fenômenos extre- meios eletrônicos de comunicação e da cultura de
mos. Campinas: Papirus, 1996. massa. Para ele, a ‘indústria cultural’ veio a instalar
a irracionalidade do consumo, a estandartização dos
COSTA. Belarmino Cesar Guimaraes da. gostos, a homogeneização dos sentidos, a alienação
Estética da Violência.: Jornalismo e do homem, a inconsciência coletiva, a corrosão dos
Produção de Sentidos. Tese de Douto- valores superiores e da moral e criar uma era em que
tudo vira apenas mercadoria.
ramento, Unicamp, 2000.
4. O francês Jean Baudrillard é um dos filósofos
EAGLETON, Terry. A ideologia da estética.
mais importantes da pós-modernidade. Suas obras
Rio de Janeiro: Zahar, 1993. impressionam pela originalidade de estilo e de idéias

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A estética da mercadoria jornalística 15

e têm abalado os círculos acadêmicos acostumados sociais, imperalismo cultural, globalização, simula-
a um pensar filosófico convencional. Baudrillard cro, pastiche, crise ética, apatia política, hedonismo,
é considerado o filósofo da simulação, pois suas irrealidade, diversidades étnicas, além da própria
principais obras advogam que a pós-modernidade é morte de Deus.
um espaço de virtualidade e falsificação, estando o
homem preso a uma situação de farsa irremediável. 7. A pós-modernidade parece ser assim um terri-
tório teleológico, com um profundo vazio epistemo-
5. O alemão Frederic Nietszche (1844-1900) é lógico, ético e estético. A pós-modernidade permite
considerado como um dos mais radicais e cáusticos a alforria da ética do mercado, que passa assim, sem
filósofos da modernidade. A teoria nietszcheriana mais nenhum constrangimento, a tomar conta de uma
funda-se na corrupção e na inversão de todos os sociedade desencantada, desorganizada e fragilizada.
valores: a verdade, o conhecimento, a metafísica, Numa perspectiva histórica, a pós-modernidade é
a religião. Nietszche destrói e desconfia de todas o resultado dos escombros dos princípios, das matri-
as crenças humanas. Para ele, o homem é um ser zes e dos vetores que construíram a modernidade. É
amoral, tirano, egoísta. O cristão é um ser derrotado. uma era dos sem-utopia, da doença das ideologias, da
Deus é uma criação imaginária dos povos fracos. derrisão do homem como detentor da sua vida e do
Por essas idéias, Nietszche é considerado um dos seu devir, a terra arrasada da modernidade.
maiores iconoclastas da humanidade. O filósofo Contraditoriamente, a pós-modernidade é a pri-
alemão procurou derrubar um a um, em suas obras, meira etapa histórica sem nome próprio. Isto denota
os principais paradigmas da era moderna. Partiu dele, uma crise orgânica de identidade e de paradigmas,
inclusive, a afirmação de que Deus está morto. além da própria irracionalidade do seu projeto.
Para muitos, é uma época que, pelas suas cica-
6. Inspirado pelos ideais humanísticos e filosóficos trizes, não pode ser nem associada à natureza da
do Renascimento e da Ilustração, o projeto da moder- modernidade. Seria uma época sim trans-moderna ou
nidade foi uma tentativa frustrada de empurrar a hu- mesmo meta-moderna, num contexto que dê conta
manidade para um novo estágio de desenvolvimento da irracionalidade imanente e da conflitante perda
social através da equação que imaginava o progresso universal de sentido.
humano, cultural e ético, alicerçado através da razão,
da ciência e da tecnologia, o que acabou revelando-se 8. Empregado de maneira muitas vezes equivo-
equivocado. cada, o liberalismo contemporâneo transformou-se
Esta era da modernidade apresentou ao mundo o em um conceito guarda-chuva plural. Por um lado,
pensamento e as obras de Einstein, Darwin, Nietzs- refém do senso comum, o termo é aplicado generica-
che, Freud, Rosseau, Keynes, e parece ter atingido mente com tom pejorativo. Por outro lado, para algu-
seu ápice quando garantiu os direitos universais mas parcelas de capitalistas, o termo é uma referência
da igualdade e da liberdade, através da Revolução positiva.
Francesa, em 1789, e da Revolução da Independência Francisco Vergara (1995, p. 21) lembra que exis-
Norte-americana, em 1776. Entretanto, ao invés de tem muitas doutrinas que têm esse nome ou nomes
melhorar a qualidade de vida e o bem estar geral da parecidos, como o liberalismo utilitarista de Adam
humanidade, a aventura da modernidade evidenciou- Smith, o liberalismo do Direito Natural de Turgot, o
se como uma profunda involução histórica. Nos ultraliberalismo de Milton Friedman, que propõe a li-
séculos XIX e XX ocorreram as maiores barbáries berdade como critério último, e o ultraliberalismo de
da humanidade, como o fascismo, o nazismo, Bastiat, que propõe um Direito Natural reduzindo ao
Auschwitz, Hiroshima, Chernobyl, Bopal, Ural, mínimo os deveres do Estado.
Tianamen, Sarajevo, além da manifestação de uma A espinha dorsal destas doutrinas revela a progres-
sinistra série de convulsões sociais, crashs, endemias, siva busca da liberdade, seja econômica, seja política.
pestes, levantes, chacinas, etc. Ao mesmo tempo, o A consolidação de todo o processo está na Revolução
projeto da modernidade está revestido hoje por um Francesa, que concretizou os ideais de igualdade e li-
niilismo crônico, anomia, fanatismos, desencanto, berdade, e que teriam sido levados, mais tarde, para
fundamentalismos religiosos, amoralidade, neuroses

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16 Leandro Marshall

o resto da Europa e depois para todo o planeta, pelos


exércitos de Napoleão Bonaparte.
Na ideologia liberal atual, denominada contem-
poraneamente de neoliberalismo ou liberalismo
econômico, exalta-se o mercado, a concorrência
e a liberdade de iniciativa, estabelecendo-se a
intervenção mínima do Estado na economia (BOITO
Jr, 1999, p. 23). Acelerada por Margaret Tatcher,
na Inglaterra, e por Ronald Reagan, nos Estados
Unidos, a ideologia neoliberal enreda hoje o mundo
da cultura, da política, da economia, da ciência, da
educação, da religião, da informação, etc. A palavra
de ordem tem sido o livre mercado, o estado-mínimo
e a desregulamentação.

9. Em um artigo publicado em 1989, na Revista


National Interest, nos Estados Unidos, Francis Fu-
kuyam argumenta que o liberalismo, associado à de-
mocracia, é o sistema econômico e político ideal para
a humanidade, tendo provado isso ao longo de 400
anos de história. No início do século XX, o libera-
lismo estava presente em apenas dois países impor-
tantes do planeta, Estados Unidos e Inglaterra, e hoje
domina 90% do cenário mundial.
Mais do que isso, Francis Fukuyama pondera que
a democracia liberal será o sistema econômico polí-
tico da humanidade até o fim dos tempos. Depois de
“evolução” tumultada da teocracia para a monarquia,
desta para o feudalismo, desta para os totalitarismos,
o modelo de sociedade definitiva é a democracia libe-
ral, uma economia baseada no livre-mercado combi-
nada com a política da maioria. Com base nesta pre-
missa, o teórico norte-americano chegou a qualificar
este momento como o do Fim da História.

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