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EFEITO DA TEMPERATURA NOS ENSAIOS DE

DETERMINAÇÃO DO TEOR DE CARGA EM COMPOSTOS


POLIMÉRICOS CONTENDO CARGAS INSTÁVEIS
TERMICAMENTE
Amélia S. F. e Santos1, Ângela M. Rabello1, Selma B. Jaconis1*

1
Laboratório de Plásticos e Borrachas do IPT – ameliafs@ipt.br; angral@ipt.br; *sbjaconi@ipt.br

Effect of temperature on the ash content tests of polymeric compounds containing thermally unstable fillers.

In this work, the effect of temperature in the ash content determinations of polymeric matrix involving mixed inorganic
fillers was evaluated. The use of elevated temperatures can promote reactions between inorganic fillers and/or
decomposition reactions, which may cause errors in the determination of ash content. Polymeric masterbatch containing
calcium carbonate, one of the most used mineral filler in polymeric matrixes, was used to show this effect. Additionally,
X-Ray Diffraction was performed to identify the chemical composition of the ash after the calcination procedure.
Calcium carbonate is known to decompose above 530ºC due to its unstable nature. Furthermore, when calcium
carbonate was present with another filler, its poor stability can result in secondary reactions between constituents, as
observed in this work for calcination temperature of 800ºC. On the other hand, reliable determinations of both the ash
content and the chemical composition was achieved at 500 ºC.

Introducão ensaio de teor de cinza, devido às reações desidroxilação


A determinação do teor cinzas em polímeros é um que as mesmas são susceptíveis.
ensaio comum e usual nessa área. Muitos estudos de Especificamente nesse trabalho, foi avaliada a importância
desformulação e de caracterização de compostos do controle de temperatura na exatidão e na composição
poliméricos incluem essa determinação como uma do teor de cinzas obtido por meio da calcinação direta de
etapa importante. um composto polimérico contendo carbonato de cálcio
No entanto, a estimativa precisa e exata do teor de que é a carga mineral de maior aplicação na área de
cinzas pelos métodos de calcinação em mufla citados polímeros [4].
nas normas ASTM D 5630 e ISO 3451-1 método A, Experimental
depende do tipo de matriz polimérica e do tipo e Material: foram utilizados um masterbatch com 65 % de
diversidade de cargas minerais presentes. Na escolha dióxido de titânio e 5 % de carbonato de cálcio e dióxido
do método de determinação do teor de carga é de titânio em pó tratado, ambos fornecidos pela
necessário ponderar sobre os compostos resultantes da Cromex S.A.
decomposição da matriz polimérica, a reatividade entre Teor de cinzas: foi determinado de acordo com o método
os diferentes tipos de cargas minerais presentes e o A da norma ASTM D 5630, porém utilizando duas
comportamento de perda de massa versus temperaturas diferentes, 500ºC e 800ºC, até massa
transformações de fase com a temperatura de cada constante.
mineral presente, de forma a garantir a exatidão do Difração de Raios-X: foi utilizado um difratômetro
resultado de teor de cinzas a ser obtido. RIGAKU RINT-2000, com radiação Kα do cobre e
Cargas minerais hidratadas, por exemplo, quando potência da fonte de Raios-X de 20 mA e 40 kV.
aquecidas, são susceptíveis a reações envolvendo a Resultados e Discussão
perda de água constitucional. As temperaturas em que Na Tabela 1 estão apresentados os resultados do teor de
essas reações ocorrem dependem do tipo de carga cinzas a 500ºC e 800ºC para os dois tipos de materiais
mineral e são da ordem de aproximadamente 220ºC e analisados nesse trabalho. De acordo com os resultados
325ºC, respectivamente, para a alumina trihidratada e o obtidos, houve perda de massa diferenciada em função da
hidróxido de magnésio [1, 2]. Quantitativamente, a temperatura de calcinação utilizada para o masterbatch de
perda de massa da alumina trihidratada atinge valores dióxido de titânio contendo carbonato de cálcio. Esse
de aproximadamente 30 a 36%, quando aquecida acima comportamento indica que a 800ºC ocorreu decomposição
de 220ºC [2, 3]. Deste modo, como a decomposição da e/ou reações entre as cargas minerais presentes. Por outro
grande maioria dos polímeros, em temperaturas da lado, como o dióxido de titânio é estável termicamente
ordem de 200ºC, não é termodinamicamente favorável, para a faixa de temperatura avaliada, a amostra de dióxido
pelo menos num curto espaço de tempo, o cálculo do de titânio puro apresentou resultados semelhantes,
teor de cinza, contendo carga(s) mineral(is) independente da temperatura de calcinação.
hidratada(s), deve ser corrigido em função da perda de
massa correspondente à perda de água constitucional
da carga mineral hidratada para a temperatura do

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Tabela 1 – Valores do teor de cinza para os materiais Figura 3 – Difratograma de Raios-X da amostra de
avaliados em cada temperatura de calcinação utilizada. dióxido de titânio calcinada a 500ºC.
Amostra Temp. Teor de cinzas (%) (*) 200

Intensidade (cps)
TiO2: 500ºC (71,07 ± 0,015) 150
CaCO3 800ºC (68,39 ± 0,031)
100
TiO2
500ºC (99,54 ± 0,030)
50
800ºC (99,36 ± 0,023)
0
(*) Média e desvio padrão dos resultados obtidos em triplicata.
0 20 40 60
Visando comprovar e verificar as alterações estruturais 2 theta (º)
e na composição química das cargas minerais obtidas
após o cada procedimento de calcinação foi realizada Figura 4 – Difratograma de Raios-X da amostra de
análise por Difração de Raios-X nas respectivas dióxido de titânio calcinada a 800ºC.
frações inorgânicas obtidas. Os difratogramas de Esse comportamento se deve a importância da temperatura
Raios-X obtidos estão exibidos a seguir (Figuras 1-4) e na cinética de reações, como por exemplo, reações no
eles confirmam que na calcinação à 800ºC ocorreu estado sólido de interdifusão de átomos para formar uma
reação química entre o carbonato de cálcio e o dióxido solução sólida, reações de oxidação, de vaporização,
de titânio (vide eq. 1), uma vez que o padrão de desidroxilação e de decomposição [1]. No caso de cargas
difração para as cargas calcinadas nessa temperatura minerais, como os carbonatos, por exemplo, as mesmas
apresentou picos de difração que podem ser atribuídos são susceptíveis à decomposição em temperaturas
a presença do titanato de cálcio (2θ = 33 e 59º), elevadas. A temperatura de decomposição do carbonato de
corroborando para explicar a redução observada no teor cálcio é da ordem de 530ºC [1]. Portanto, quando esse tipo
de cinza com o aumento da temperatura de calcinação. de carga mineral está presente, o uso de temperaturas
CaCO3 + TiO2 Æ CaTiO3 + CO2 [eq. 1] superiores a 500ºC no ensaio de teor de cinzas não é
recomendado. Além disso, o uso de temperaturas na faixa
200
de 800ºC favoreceu reações do carbonato de cálcio com
Intensidade (cps)

150 dióxido de titânio, comprometendo estudos posteriores de


100 desformulação, conforme verificado experimentalmente.
Por último, com relação ao tratamento interfacial
50
geralmente aplicado nas cargas inorgânicas voltadas ao
0 segmento de plásticos carregados, sua contribuição nos
0 20 40 60 valores de perda de massa geralmente é desprezível, visto
2 theta (º) que estes representam pequenas proporções mássicas no
Figura 1 – Difratograma de Raios-X do masterbatch produto final [4, 5].
contendo 65 % de dióxido de titânio e 5 % de Conclusões
carbonato de cálcio calcinado a 500ºC. De acordo com os dados obtidos nesse trabalho para a
mistura de cargas minerais estudada, ou seja, dióxido de
200
titânio e carbonato de cálcio, é possível concluir que o uso
Intensidade (cps)

150 de temperaturas na faixa de 800ºC compromete a


100 determinação por calcinação do teor de cinzas, assim
como análises posteriores de recomposição de
50
formulações.
0 Agradecimentos
0 20 40 60 Os autores agradecem ao grupo do Laboratório de Análise
2 theta (º) Químicas Inorgânicas do Centro de Metrologia Química
do IPT pelas análises de Difração de Raios-X.
Figura 2 – Difratograma de Raios-X do masterbatch Referências Bibliográficas
contendo 65 % de dióxido de titânio e 5 % de 1. W. D Kingery, H. K. Bowen, D. R. Uhlmann.
carbonato de cálcio calcinado a 800ºC. Introduction to ceramics. New York, Wiley, 1976.
200 2. Alumina Trihydrate. Informação técnica, Akrochem
Intensidade (cps)

150 Corporation, Ohio.


100
3. P. S. Santos; H. S. Santos. Ciência e tecnologia de
argilas. Sao Paulo, Edgard Blucher, 1989.
50
4. Sousa, J. A.; Ciminelli, R. B. Plásticos carregados e
0 reforçados. Associação Brasileira de Polímeros, São
0 20 40 60 Carlos, 1995.
2 theta (º) 5. J. A. Brydson. Plastics additives. Oxford,
Butterworth-Heinemann, 1999.

Anais do 8o Congresso Brasileiro de Polímeros

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