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15/12/2019 Não se deve desesperar da salvação de ninguém!

Não se deve desesperar da salvação de ninguém!

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê senão um golpe


fulminante da justiça divina, existem mistérios de misericórdia.
Deus às vezes se revela, no último instante de vida, àquelas almas
cuja maior desgraça foi ignorá-lo.

O Padre Ravignan, um santo e ilustre pregador jesuíta, nutria grande


esperança pela salvação dos pecadores arrebatados por uma morte
súbita, quando, em circunstância diversa, não teriam ódio no coração
pelas coisas de Deus. Ele pregava com frequência sobre esse momento
derradeiro, e considerava que muitos pecadores se convertiam nos
últimos instantes de vida e reconciliavam-se com Deus, sem poder
expressar isso com um sinal exterior.

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê nada além de um


golpe fulminante da Justiça divina, existem mistérios da
Misericórdia. Como último lampejo de luz, Deus às vezes se revela
àquelas almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo; e o último suspiro,
compreendido por Aquele que penetra os corações, pode ser um gemido
que clama por perdão, isto é, um ato de contrição perfeita.

“Um dia conheceremos as maravilhas indizíveis da divina


Misericórdia.”

O general Exelmans, um parente desse saudoso sacerdote, faleceu de


forma repentina em um acidente e, infelizmente, não havia sido fiel
na vivência da fé. Ele prometeu que um dia faria sua confissão, mas
não tivera a oportunidade de realizá-la. Quando soube da morte de
Exelmans, Padre Ravignan — que, por um longo tempo, orou e pediu
orações por ele — ficou profundamente consternado. No mesmo dia, uma
pessoa habituada a receber mensagens sobrenaturais pensou ter ouvido
uma voz interior que lhe disse: “Quem então conhece a extensão da
misericórdia de Deus? Quem sabe quão profundo é o oceano, ou quanta

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água está contida nele? Muito será perdoado àqueles que pecaram por
ignorância.”

O biógrafo de quem tomamos emprestado esse relato, Padre de


Ponlevoy, continua dizendo: “Nós, cristãos, colocados sob a lei da
esperança não menos do que sob a lei da fé e da caridade, devemos
elevar-nos continuamente das profundezas de nossos sofrimentos à
meditação sobre a bondade infinita de Deus. Neste mundo, não há
nenhum limite para a graça de Deus; enquanto permanece uma centelha
de vida, não há nada que não possa agir sobre a alma. Portanto,
devemos sempre ter esperança e pedir a Deus com humilde
persistência. Não sabemos até que ponto podemos ser ouvidos. Grandes
santos e Doutores empenharam-se em exaltar a eficácia poderosa da
oração pelos entes queridos que partiram, por mais infeliz que tenha
sido seu fim. Um dia conheceremos as maravilhas indizíveis da divina
Misericórdia. Nunca devemos deixar de suplicar com imensa
confiança.”

Outro relato acerca desse tema foi publicado no Petit Messager du


Coeur de Marie [1], em novembro de 1880. Um religioso, pregando uma
missão para damas de Nancy, recordou-as em uma conferência de que
nunca se deve desesperar da salvação de uma alma, e de que às vezes
ações menos importantes aos olhos humanos são recompensadas por Deus
na hora da morte. Quando ele estava prestes a deixar a igreja, uma
senhora vestida de luto aproximou-se dele e disse:

Padre, você acabou de nos recomendar confiança e


esperança; um fato ocorrido comigo justifica
perfeitamente as suas palavras. Tive um marido que era
muito gentil e carinhoso e que, apesar de ter levado
uma vida irrepreensível, negligenciou completamente a
vivência da fé. Minhas orações e exortações
persistiam, mesmo sem surtir efeito. Durante o mês de
maio que precedeu sua morte, eu havia montado no meu
quarto — como estava acostumada a fazer — um pequeno
altar para a Santíssima Virgem, e o decorei com
flores, renovadas de tempos em tempos. Meu marido
passou o domingo no campo e me deu algumas flores, que
ele mesmo havia colhido, e com elas eu adornava o
oratório. Ele percebeu isso? Ele fez isso para me dar
prazer, ou foi através de um sentimento de piedade
pela Virgem? Eu não sei, mas ele nunca deixou de me
trazer as flores.

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No início do mês seguinte, ele morreu de forma súbita,


sem conseguir receber os sacramentos. Eu estava
inconsolável, principalmente porque vi desaparecerem
todas as minhas esperanças do seu retorno a Deus.
Devido a esse sofrimento, minha saúde ficou muito
abalada e meus familiares pediram que eu fizesse um
passeio ao sul da França. Como tive de passar por
Lyon, desejei ver o Cura d’Ars. Por isso, escrevi-lhe
solicitando atendimento e pedindo orações pelo meu
marido, que havia morrido de forma súbita. Não lhe dei
mais detalhes.

Cheguei a Ars, mal havia entrado na sala do venerável


Cura e, para meu grande espanto, ele se dirigiu a mim
com estas palavras: “Senhora, estás desconsolada; mas
esqueceste aqueles buquês de flores que te foram
trazidos todos os domingos do mês de maio?” É
impossível expressar meu espanto ao ouvir o padre
Vianney recordando-me de uma circunstância que eu não
havia mencionado a ninguém, e que ele só poderia ter
conhecido por revelação. Ele continuou: “Deus teve
misericórdia daquele que honrou sua Santa Mãe. No
momento de sua morte, teu marido se arrependeu; sua
alma está no purgatório; nossas orações e boas obras
alcançarão sua libertação”.

Lemos também na vida de uma religiosa consagrada, Irmã Catarina de


Santo Agostinho, que no lugar onde ela morava havia uma mulher
chamada Maria, que em sua juventude se entregara a uma vida muito
desordenada e, mesmo com mais idade, não se converteu, senão que,
pelo contrário, ficou ainda mais obstinada no vício, a ponto de os
moradores, que não toleravam mais seus escândalos, a expulsarem da
cidade. Ela não encontrou outro asilo além de uma gruta na floresta,
onde, depois de alguns meses, morreu sem a assistência dos
sacramentos. Seu corpo foi enterrado em um campo, como se fosse algo
contagioso.

Irmã Catarina, que estava acostumada a recomendar a Deus as almas de


todos aqueles de cuja morte tomava conhecimento, não pensou em orar
pela alma daquela mulher, julgando, como todos os outros, que ela já
estava condenada.

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Às vezes ações menos importantes aos olhos humanos são recompensadas


por Deus na hora da morte.

Quatro meses depois, a serva de Deus ouviu uma voz dizendo: “Infeliz
de mim, Irmã Catarina! Tu recomendas a Deus as almas de todos; eu
sou a única de quem não tiveste piedade”. “Quem és tu?” Respondeu a
irmã. “Eu sou a pobre Maria, que morreu na gruta”. “Maria, estás
salva?”, ao que ela respondeu: “Sim, estou, pela Misericórdia
divina. No momento da morte, aterrorizada com a lembrança dos meus
pecados, e ao ver-me abandonada por todos, invoquei a Santíssima
Virgem. Em sua terna bondade, ela obteve para mim a graça da
contrição perfeita, com o desejo de confessar-me, se estivesse ao
meu alcance fazê-lo. Assim, recuperei a graça de Deus e escapei do
Inferno. Mas fui obrigada a ir ao Purgatório, onde sofri muito. Meu
tempo será encurtado e em breve serei libertada, se algumas Missas
forem oferecidas por mim. Oh! querida irmã, ofereça-as por mim e
sempre me lembrarei de ti diante de Jesus e Maria”.

Prontamente, a irmã Catarina buscou atender ao pedido e, depois de


alguns dias, a referida alma voltou a revelar-se, agora brilhante
como uma estrela, e agradeceu à religiosa por sua caridade.

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