Você está na página 1de 132

LUA-DE-MEL

Violet Winspear
Clássicos da Literatura Romântica Nº.: 8

Sedução com sabor de ódio e gosto de prazer…

No luxuoso Rolls-Royce que a conduzia a lua-de-mel na paradisíaca praia de Sandbourne,


Geórgia fitava disfarçadamente o perfil de seu marido. Como duas safiras, seus olhos
faiscavam de ódio e ressentimento e não viam os belos traços que encantavam as mulheres,
nem os cabelos negros e brilhantes ou a boca sensual de Renzo Talmonte. A seu lado estava
um homem sem escrúpulos, um chantagista impiedoso que a forçara ao casamento para
executar uma vingança. A vítima era ela, mas os culpados verdadeiros, sua impulsiva irmã e
o irresponsável irmão dele, que haviam fugido juntos, deixando para trás um noivo
apaixonado, ficariam impunes.
Furiosa, Geórgia se perguntava por que deveria pagar pelos pecados alheios, unindo-se a
um homem que desejava destruir tudo à sua volta para aplacar a ira de ter sido traído. Foi
nesse instante que ela decidiu frustrar aquele plano de vingança: jamais daria a Renzo seu
corpo ainda virgem de carícias.

CAPITULO I
A magnífica construção em pedra rosada, abrindo suas incontáveis janelas para os verdes
gramados do Hyde Park, refletia o luxo clássico e toda a glória da época vitoriana. Por entre
os inúmeros salões, cheios de peças requintadas daquele período de poderio do Império
Britânico, já haviam passado grandes personalidades, chefes de Estado e a maioria dos
seletos freqüentadores do Buckhingam Palace.
Em tons de rosa, creme e dourado, o Palm Court abrigava agora centenas de convidados
que se agrupavam ao redor da magnífica fonte dourada ou entre as delicadas palmeiras
espalhadas pelo terraço.
Estava ali a nata da sociedade londrina. Mulheres belíssimas, cobertas de jóias, desfilavam
sua elegância ímpar e misturavam-se com o mundo das artes. Cantores famosos, artistas de
cinema mesclavam as vozes animadas e risadas alegres ao som da água que jorrava de três
golfinhos dourados.
— Cortem o bolo!
Com um sorriso indecifrável, o noivo rompeu a superfície brilhante e muito branca do
imenso bolo de casamento.
Só uma pessoa fitava aquela fabulosa criação dos mais famosos confeiteiros de Londres
como se a quisesse atirar ao chão e pisoteá-la até a total destruição… a noiva de Renzo
Talmonte!
O vestido clássico, em organdi e rendas francesas, transformava a jovem loira na modelo da
noiva perfeita. O véu, preso por singelas flores de laranjeira, não escondia o rosto delicado,
onde não se notava nem a sombra de um sorriso.
Era muito difícil sorrir quando as emoções a impediam de raciocinar e aceitar a realidade: o
reverendo Michael Norman se recusara a comparecer ao casamento da filha!
Geórgia não conseguia superar a terrível injustiça cometida por seu pai, que a obrigara a
entrar na igreja acompanhada por um desconhecido para ser entregue a outro estranho…
Sozinha, com um anel cujo significado era angustiante demais para pensar, ela reagia contra
o sentimento de revolta que crescia a cada momento.
Aquela situação trágica ocorrera apenas para o bem dele… para evitar uma profunda
decepção naquele homem austero e cumpridor das leis divinas!
Geórgia havia mergulhado num pesadelo, aceitando a aliança de Renzo por um dever de
consciência. Salvara o pai de descobrir quem era exatamente sua idolatrada filha predileta:
Angélica! A criatura tão amada revelara seu lado negro: não era o anjo de candura que
mostrava ser!
O aroma sofisticado de um perfume francês a fez lembrar da fragrância inocente das rosas
no jardim da residência paroquial do reverendo Norman.
Estavam distantes as flores singelas, os dias tranqüilos, o campo intocado pela corrupção do
mundo moderno.
Numa tarde de primavera, Renzo Talmonte surgira diante dela e, entre a inocência da
natureza, destruíra mais do que apenas a pureza do seu lar. Impassível, ele lhe entregou
algumas cartas de Angélica, e foi como se um raio desabasse sobre as campinas muito
verdes de Sussex!
Frases eróticas misturavam-se a pedidos insistentes para que Stélvio, o amante de Angélica,
abandonasse sua esposa e filhos. Cenas descritas com paixão, detalhes que não deixavam
nada à imaginação cobriam Geórgia de vergonha. Desesperada, ela rasgou as evidências
concretas do comportamento vil da irmã.
Levados pela brisa, os pedacinhos de papel espalharam-se elo jardim da casa de seu pai. Ao
levantar os olhos, Geórgia sentiu como se o chão lhe fugisse debaixo dos pés. Uma
premonição invadiu-a: algo terrível ia acontecer e nada poderia evitar a tragédia!

O olhar sarcástico e arrogante de Renzo, sem uma única sombra de piedade, demonstrava
claramente sua intenção de obter vingança.

— São apenas cópias, signorina… Não pensou que eu fosse tão tolo a ponto de entregar em
suas mãos os originais, não é? Pois ouça bem! Sua irmã conseguiu destruir um
casamento… Stélvio deixou a família, fugiram juntos! Meu irmão esqueceu-se de todos os
mandamentos de sua religião por causa dela, e eu pretendo fazer o mesmo. Quando ele se
cansar desse sórdido envolvimento e os dois voltarem para casa, me encontrarão casado… e
com a irmã de Angélica. Serei o seu marido!
As palavras cheias de ódio soaram como gritos no silêncio da tarde. Geórgia levou algum
tempo até compreender o significado do que escutara. O arrogante italiano, bem vestido e
ameaçador, pronunciara sua sentença de morte!
— Você enlouqueceu?
Recuando diante da expressão fria e implacável, ela observou melhor aquele homem que há
pouco menos de um mês nem sequer conhecia.
Quando Angélica trouxera o noivo para apresentar a sua família, Geórgia tinha ficado
extremamente surpresa com a escolha da irmã. Ela sempre insistia em sua fascinação por
homens altos e atraentes, porém Renzo Talmonte era mais do que apenas um indivíduo
bonito e charmoso. Ele mostrava claramente origens nobres e parecia ser bem mais
intelectual do que os habituais acompanhantes da jovem modelo, bela mas incapaz de
qualquer raciocínio mais complexo.
Ao serem apresentados, Renzo beijou-lhe a mão e Geórgia lutou para ocultar daquele olhar
penetrante seus sentimentos contraditórios. Pensamentos inquietantes cruzaram sua mente
por alguns segundos… Ele não era o homem ideal para Angélica! As normas rígidas de sua
moral católica, a profundidade de uma educação formal e bem cuidada o tornavam distante
demais daquela criatura fútil e superficial, sempre preocupada em brilhar!

O que Renzo teria lido em seu olhar naquela tarde? A verdade, ou tivera a impressão falsa
de que a irmã solteirona se apaixonara perdidamente por ele? Seria por acreditá-la
vulnerável ao seu fascínio que estava agora ali? Após a destruição das cartas obscenas de
sua irmã, ele a informara de suas intenções… Tinha esperanças de ser aceito?
Renzo também observava a figura esguia e muito loira, de traços delicados mas sem o
esplendor da irmã. Desceu o olhar até o decote discreto, onde uma cruz de ouro brilhava
sobre a pele muito alva, e percebeu a oscilação dos seios bem-feitos, a respiração ofegante
revelando uma tensão incontrolável. Nenhuma evidência do nervosismo extremo daquela
jovem que parecia viver isolada do mundo escapou do seu olhar atento. Jamais encontrara
alguém tão distante da realidade, como se não tivesse sido tocada pelo progresso do século
vinte. Nada porém poderia deter o curso dos acontecimentos. Ele planejara cuidadosamente
cada detalhe e seu plano seria executado a qualquer custo!
— Tem uma semana, signorina. Então voltarei e me responderá se aceita minha proposta
ou… se devo mostrar aquelas cartas encantadoras a seu pai. Tenho certeza absoluta de que
certos detalhes ousados das descrições de Angélica irão chocá-lo profundamente. A paz de
espírito do reverendo está em suas mãos… é a sua decisão que manterá a tranqüilidade dele
ou destruirá irreparavelmente a imagem falsa da filhinha inocente!
Sem sequer dizer adeus, Renzo afastou-se, apoiando-se na bengala de que dependia para
poder andar melhor.
Foram os sete dias mais longos da vida de Geórgia. Sentia um desespero profundo. Cada
minuto a levava para mais perto do desenlace e ela rezava fervorosamente para que Renzo
caísse em si, percebendo o absurdo de sua atitude.

Nunca a rotina plácida e monótona da casa paroquial lhe parecera tão agradável… Mas uma
espada pendente sobre sua cabeça ameaçava destruir a única vida que conhecia! Londres
lhe parecia estar num outro planeta, e, no entanto, iria viver naquela metrópole agitada se
Renzo levasse sua ameaça até o fim!
O sábado chegou finalmente e lhe bastou um único olhar para saber que haviam terminado
para sempre seus dias passados entre a pureza do campo e o perfume singelo das rosas!
Geórgia recebeu Renzo, como da outra vez, no jardim ainda úmido pela chuva e, sem emitir
um som, ouviu-o determinar em poucas palavras o futuro terrível à sua espera.
— Não me subestime, signorina. Estou com as cartas originais em meu carro e, sem dúvida,
seu pai reconhecerá a letra no instante em que as vir. Ele tem um código moral rígido, não é
verdade? Pois infelizmente não conseguiu transmiti-lo a sua filha caçula. No entanto, tenho
certeza de que a mais velha possui incontáveis virtudes!
— Como ousa falar em retidão moral, signore? Chegou à nossa casa fazendo ameaças que
irão destruir a felicidade de meu pai! Como…
— Está em seu poder a chave da futura tranqüilidade do reverendo Norman! É só casar-se
comigo!
— Isso é chantagem!
— Dê o nome que quiser, signorina!
Como quem perde subitamente todo o apoio, Geórgia oscilou e, ao tentar apoiar-se, fechou
a mão sobre os espinhos da roseira mais próxima.
Renzo viu a jovem cambalear e ouviu o seu gemido de dor quando os espinhos se cravaram
em sua mão delicada. Num gesto solícito, mas sem o menor calor humano, segurou-a e,
com toda delicadeza, começou a retirá-los. Sentiu-a ficar tensa e tentar recuar, porém a
manteve presa em seus braços, percebendo os contornos suaves do corpo escondido pêlos
trajes largos e austeros.

"Como alguém pode vestir-se de modo tão puritano e antiquado num mundo onde estar na
moda é uma obsessão? Será o Sussex tão afastado de Londres ou a jovem é impermeável ao
progresso?", pensou curioso.
Mas, se quisesse levar adiante seus planos meticulosos, precisava considerá-la como uma
inimiga ou com certeza ficaria com pena da pobre moça de olhar aterrorizado!
Num gesto brusco, empurrou-a na direção da casa, disposto a obrigá-la a enfrentar a difícil
decisão.
Foram os passos mais difíceis de toda a vida de Geórgia! Sem sequer dar-lhe tempo para
explicar a situação ao pai, Renzo comunicou que iriam se casar o mais breve possível!
— Como? Não estou entendendo…
— É muito simples. Geórgia e eu vamos nos casar.
— Mas… o senhor pretendia tomar Angélica como esposa! Eu nem sabia que o noivado foi
desfeito e já quer roubar minha outra filha?
— Não acha desumano manter uma jovem presa aos deveres domésticos da casa paroquial
por toda a sua vida?
— Geórgia não é mais uma garotinha!
— Mesmo assim tem direito a aproveitar sua juventude. Afinal o senhor permitiu que
Angélica deixasse o lar…
— As situações são totalmente diferentes! Angélica foi feita para brilhar, merecia ser
admirada por outros olhos que não os meus… Geórgia é feita de outro estofo… é calma e
dócil.
— A diferença é bastante clara, reverendo… a qualquer observador mais atento. Não há
como confundir as duas!
— Exatamente, signore. Embora muito parecidas, sempre tiveram temperamentos opostos.
Minha filha já está com vinte e sete anos e nunca sentiu a menor vontade de afastar-se do
meu lado… Geórgia! Por favor diga a este homem que seu dever filial vem antes de
qualquer outro desejo ou idéia sua! Não há possibilidades de deixá-la ir. Jamais darei minha
permissão!
— Pois sua filha já aceitou o meu pedido… — disse Renzo, com uma voz controlada e
baixa, enquanto apertava o ombro da jovem como se a desafiasse a desmenti-lo.
Ela percebeu, pelo olhar frio e pelo toque quase violento, que o orgulho de Renzo fora
mortalmente ferido pela traição de Angélica, e talvez até seu coração… se é que ele tinha
um!
Os dois homens se enfrentavam como dois lutadores na arena e não havia dúvida sobre qual
deles seria o vencedor!
— Deve haver alguma senhora que possa vir à casa paroquial e fazer o serviço pesado…
Geórgia tem direito de levar sua própria vida, é mais do que hora!
— Vamos, filha… diga alguma coisa! — rugiu o reverendo, olhando-a como que à espera
da costumeira obediência. — Você não deixará a minha casa, não pode!
— Por favor, cara, diga a seu pai que já decidimos a respeito do casamento!
Geórgia sentia-se como um joguete entre duas vontades inabaláveis, e, ao ver o olhar
ameaçador de Renzo, estremeceu em pânico. Jamais teria condições de lutar contra um
homem tão duro e decidido!
Sua experiência de vida limitava-se à rotina da casa paroquial, onde os maiores problemas
eram a alimentação do reverendo e o bem-estar dos paroquianos.
Havia uma única certeza: Renzo entregaria as cartas a seu pai se ela se recusasse a ceder
aos seus caprichos! E como ele seria magoado…
Desde a morte de sua mãe, Geórgia se transformara na imagem viva daquela mulher meiga
e doce; assumira todas as suas qualidades. O reverendo via a filha como o retrato da esposa
adorada e perfeita!
— Papai... eu aceitei o pedido de Renzo…
Por longos minutos suas palavras ecoaram no silêncio da sala, diante do olhar incrédulo do
reverendo Norman.
— Oh, Deus! O que fiz para ser atraiçoado… e por minha própria filha?
— Não ouse usar esta palavra! Traição é um termo vil e Geórgia não seria capaz de tal
indignidade.

A expressão de Renzo revelava o quanto ele fora ferido pela atitude de Angélica, a quem
perdera para seu irmão. Não havia dúvidas da intensidade de seu desejo por ela, mas, na
impossibilidade de tê-la, forçaria Geórgia a substituí-la num casamento baseado em
chantagem!
Se Geórgia não usasse aquele momento para contar a verdade, estaria condenada a viver ao
lado de um homem a quem não amava; iria jurar obediência e submissão por toda uma
vida!
No entanto, a paz de espírito de seu pai precisava ser mantida a qualquer custo.
— Tia Beatrice pode vir para tomar conta da casa, papai. Ela detesta a pensão em que está
morando, vai ficar feliz e…
— Esse dever é seu, Geórgia, de mais ninguém!
— Está agindo de maneira egoísta demais, reverendo! Não é justo prender a filha ao seu
lado, negando-lhe o direito de ter um marido, filhos… Nem parece um homem de Deus!
Até então, Geórgia não avaliara a que iria se submeter. Ele não pretendia aceitar um
casamento de conveniência... queria uma esposa… em todos os sentidos!
Ela estava disposta a tudo para salvar o pai de uma terrível decepção, porém… como
permitir a Renzo que a tomasse sem amor? E ele ainda amava a infiel Angélica, continuava
obcecado pela figura sensual e excitante de sua irmã!
Desesperada ao ver-se sem saída, Geórgia cerrou as mãos e não pôde evitar um gemido de
dor.
— O que tem na mão, filha?
— Eu... machuquei-a... os espinhos...
— Que isto seja um aviso! Se persistir nessa atitude inconcebível de casar-se com um
homem que pertence a sua irmã, os espinhos ferirão muito mais do que suas mãos!
— Por favor, papai…
O reverendo Norman olhou-a com desprezo antes de retirar-se da sala e Geórgia viu-se
abandonada, à mercê de Renzo.
Seu pai jamais saberia que ela o poupara de um grande sofrimento. Não descobriria a
falsidade da filha, a quem chamava de "anjo", nem abriria os olhos para a verdade!
E seu amor filial a colocara nas mãos daquele homem arrogante e amargo, disposto a
mostrar ao mundo como substituíra rapidamente um grande amor. Uma irmã iria ocupar o
lugar da outra!
Geórgia nunca sentira raiva de Angélica mas, diante da visão de seu futuro sombrio, teve
ímpetos de assassiná-la!
Em menos de dois meses Renzo Talmonte conseguiu realizar seu plano de vingança...
Na luxuosa limusine, ele tinha a seu lado a figura esguia da jovem loira, de quem dependia
para atingir sua meta. Fria, distante e contrariada, Geórgia seguia para a igreja, sem armas
para lutar contra ele!
— É mesmo uma pena que seu pai tenha decidido não comparecer ao casamento, cara.
Considero uma atitude inesperada para um homem de Deus... tão pouca capacidade de
perdoar, não acha?
— Se julgou que ele viria, foi muito ingênuo. Além disso, não se trata de perdão… você
roubou a filha dele, o seu consolo para a velhice! Papai jamais voltará atrás!
— É mesmo triste, cara… para o reverendo, é claro! No seu caso, deveria estar dando
graças aos céus por ter escapado daquela prisão dourada!
Geórgia afastou-se, repugnando as palavras brutais daquele homem que muito em breve
seria seu marido. Chegava a perder o fôlego ao pensar que em poucas horas estaria presa a
um indivíduo tão sem escrúpulos.
A figura de Renzo, extremamente elegante, era de chamar a atenção de qualquer mulher e,
se hoje ela estivesse entre os convidados do casamento de Angélica, o admiraria como um
noivo atraente e aristocrático. Mas…
Cada passo em direção ao altar lhe custou muito. As delicadas pétalas de rosa roçando seu
rosto pareciam-lhe pedras de gelo!
Sem dúvida todos deviam estar pensando em como ela fora rápida em ocupar o lugar da
irmã! Ninguém hesitaria em julgá-la uma jovem esperta e de muita sorte por ter conseguido
"agarrar" um noivo tão cheio de qualidades e... de dinheiro! Mas Geórgia sentia-se uma ilha
de dor em meio a tanta alegria. Discursos e risadas ecoavam ao longe, sem sentido ou
significado. Estava irremediavelmente perdida!
A inevitável crise de depressão que ameaçava tomar conta dela foi afastada pela chegada
providencial de Bruce Clayton, que colocou-lhe uma taça de champanhe nas mãos.
— Beba um pouquinho, querida, ou irá desmaiar. Sinto-me responsável por você, agora…
Afinal fui eu quem a conduziu até o altar!
— Obrigada, Bruce. Estou me sentindo completamente deslocada nesse ambiente
sofisticado.
— Deixe de tolices, Geórgia! Agradeça a Deus por não ser igual a esse bando de pessoas
infelizes e insatisfeitas. Você é diferente… para sorte de Renzo!
Ela lutou para sorrir àquele homem que lhe demonstrava simpatia e apoio durante as horas
mais difíceis de sua vida.
Renzo e Bruce haviam começado juntos a carreira no mundo do cinema e agora o italiano
temperamental escrevia as músicas para os filmes do amigo. Em muito pouco tempo, a
genialidade de Renzo o colocara entre os grandes compositores da Inglaterra. Ele conseguia
equilibrar com perfeição o lado artístico e o financeiro. Apesar de dedicar-se com paixão às
suas composições, não deixava de lado os investimentos que o tinham tornado um homem
muito rico.
Tão logo Geórgia curvara-se diante de sua vontade férrea, Renzo se vira na obrigação de
colocá-la a par das origens de sua família.
Os Talmonte vinham da mais alta aristocracia romana, um nome respeitado desde a época
dos Césares, quando viviam em palácios à beira do rio Tibre. Com o tempo, a fortuna
fabulosa da família foi diminuindo, até restar apenas um palazzo em Florença, cheio de
peças magníficas que jamais seriam vendidas, e dinheiro suficiente apenas para que ele e
seu irmão pudessem estudar.
O dom artístico de Renzo levou-o a entrar para o único ramo em que a música poderia
render algum dinheiro: o cinema. Em pouco tempo ele teve condições de restaurar a
morada ancestral e ajudar o irmão a terminar com mais conforto seu curso de advocacia.

Era impossível para Renzo disfarçar a amargura de ver Stélvio destruir uma carreira
brilhante e um casamento feliz por causa de Angélica! O irmão mostrara-se indigno do
nome ilustre que carregava ao deixar-se levar por impulsos, causando uma tristeza e uma
vergonha sem redenção para toda a família!
Como Bruce percebera que ela estava ficando tonta, Geórgia não soube como, mas, antes
de poder protestar, encontrou um prato com iguarias refinadas em suas mãos.
— Eu não… céus! Tudo está girando! Filha do pastor não costuma beber, desculpe-me…
— Acho melhor comer um pouco, assim se sentirá melhor. Vamos sentar, pois logo Renzo
se livrará daquela mulher terrível e virá ao seu encontro. Aposto como ela está tentando
conseguir alguma informação inédita para usar em sua coluna de mexericos sociais. Connie
Caswell é uma víbora!
— E esse casamento, sem dúvida, dará origem a grandes fofocas, não é, Bruce? Menos de
dois meses depois do rompimento de seu noivado com uma linda modelo, o famoso
compositor italiano… casa-se com a irmã da ex-noiva! Sem dúvida todos devem estar
comentando sobre o assunto… sobre como eu trabalhei rápido!
— Posso lhe garantir que muitos estão pensando na sorte de Renzo!
— Duvido muito! A maioria julga que a maior sorte foi minha.
Bruce analisou cada traço daquele rosto delicado, sem a sofisticação de todas as mulheres
que conhecia. Algo indefinível a tornava mais atraente, deixando as outras como que
figuras gastas, excessivamente maquiladas e falsas. Mas o olhar era melancólico, triste
demais para uma noiva!
Do outro lado da sala, Renzo conversava com Connie, e seu ar distante não ocultava sua
exaustão. Estaria sentindo dores na perna?

Renzo mal completara dezoito anos quando sofrera um terrível acidente durante uma
caçada nas colinas próximas a Florença. O cavalo caíra sobre sua perna, fraturando-a em
diversos lugares, e o cirurgião, ao ver a gravidade dos ferimentos, decidira amputá-la como
única solução possível. Sua mãe, porém, se opusera à decisão do médico e insistira para que
tentassem o engessamento antes de tão drástica medida.
O resultado não foi muito compensador, pois um dos ossos soldou de maneira imperfeita,
provocando um ligeiro claudicar. Ele usava uma bengala para disfarçar o defeito, o que,
sem dúvida, era melhor do que ter perdido a perna!
Renzo confessou a Geórgia o quanto seu defeito o perturbara quando muito jovem; com o
tempo, tornara-se mais tolerante, até finalmente superar o problema em definitivo. Chegara
mesmo a ver o lado positivo de sua lesão: não precisava estar constantemente provando sua
masculinidade em quadras de squash ou de tênis, ou correndo quilômetros todas as manhãs!
No entanto, Geórgia tinha grandes dúvidas quanto a essa atitude aparentemente tão segura.
Notara uma sombra de dor transformando a fisionomia de Renzo sempre que ele se
excedia; e agora, ao vê-lo em pé ao lado de Connie, poderia jurar que estava se controlando
para não demonstrar seu mal-estar.
A voz serena de Bruce interrompeu seus pensamentos depressivos.
— Coma um pouquinho, por favor! Você logo estará morrendo de fome. Quer que eu vá
buscar uma fatia do seu bolo?
— Oh! Não! Seria capaz de parar na minha garganta!
— Por Deus, Geórgia! Estou bastante preocupado com você! As noivas costumam ficar
nervosas e tensas no dia de seu casamento, mas sua aparência é de relutância!

— Verdade? Pois eu... — O ar preocupado de Bruce a deixou temerosa, e quis evitar que
seu segredo fosse descoberto. — Sempre levei uma vida muito tranqüila, isolada do mundo,
e nesta sala há mais de cem pessoas. Você e Renzo estão acostumados a essa agitação, eu
não! Toda essa gente, com sua conversa sofisticada, deixa-me tonta e com a sensação de ser
uma simplória.
— É só isso? Tem certeza?
— Lógico! Já pensou em como minha vida irá mudar? Sou uma pessoa acostumada a viver
entre a natureza e me casei com um homem da cidade, que aprecia as multidões! Embora
eu e minha irmã sejamos muito parecidas fisicamente, não há a menor semelhança entre
nossos temperamentos.
— Acredita mesmo que é parecida com Angélica?
— Renzo nos acha idênticas e isso basta! Ele não pode ter o original, aceitou a cópia... e
todos sabem que os valores jamais serão os mesmos aos olhos do dono.
— Pensa em seu marido como… um dono?
— Ora! Olhe bem para ele, Bruce! Não consegue notar a possessividade de Renzo
Talmonte? Eles são donos desde os dias dos Césares e seu sobrenome pertence à História…
bem ao lado dos Bórgia!
Ao perceber a exclamação de espanto e o olhar perplexo de Bruce, Geórgia recuou. Estava
revelando mais do que era prudente a respeito de seus sentimentos sobre o marido.
— Bem… estou muito perturbada por meu pai ter-se recusado a comparecer… Sempre
cuidei dele, desde a morte de minha mãe, e ficou muito magoado ao saber do meu
casamento. Achava que eu me sentia plenamente feliz em casa, isolada…
Quantas vezes Geórgia sentira inveja da irmã, de sua liberdade para ir de encontro ao
mundo alegre dos jovens!
No entanto, há muito ela deixara de pensar em casamento e vivia bastante feliz em
Duncton, um vilarejo perdido entre as campinas de Sussex. Os moradores da vila também
haviam acreditado que ela jamais partiria e estaria sempre ao lado do pai, seguindo uma
velha tradição: a da filha solteirona que permanece no lar à disposição da família. Então
Renzo apareceu.

Com a força de um furacão e deixando um rastro de destruição após sua passagem, ele
mudara todos os seus planos, arrastando-a como uma folha em meio à torrente caudalosa…
Tudo se transformara!
O olhar de Bruce alertou-a da chegada de seu marido. Apesar da bengala, Renzo tinha um
ar dominador, emanava autoridade! Como seria ele se aquele acidente não o tivesse tornado
diferente dos outros homens? Seria mais descontraído, menos distante?
Talvez por ter aprendido a controlar dores terríveis durante tantos anos, ele também tivesse
se tornado insensível aos sentimentos dos outros...
— Então, cara… que tal iniciarmos nossa lua-de-mel?
— Bem... eu... sim, é claro.
— Ê melhor acompanhar Flávia e trocar esse vestido logo.
Geórgia fez um esforço sobre-humano para não chorar. Aquele homem, muito próximo
dela, era agora seu marido e em poucas palavras estaria a sós com ele... Com toda a sua
ironia e arrogância!
— Bem, não está ansiosa por chegar à praia? Afinal, a escolha foi sua… Imagine só, Bruce!
Eu a convidei para conhecer Caribe em nossa lua-de-mel, e sabe o que ela disse? Afirmou
que adorava as praias inglesas, em especial Sandbourne, onde costumava ir quando criança
acompanhada pela mãe. Embora não me seja possível imaginar como alguém possa preferir
o clima horrível da Inglaterra em lugar das brisas cálidas dos trópicos… iremos para esse
paraíso de sua infância!
Bruce fitava os dois com uma expressão de perplexidade. Havia algo estranho mas não era
possível definir qual o problema.
— Enfim… o paraíso nos espera. Mas você parece ter se tornado uma estátua de pedra! Se
não trocar logo o seu vestido, eu a levarei daqui assim mesmo!
— Oh! Eu… já vou…
Acompanhada por Flávia, a jovem secretária italiana de Renzo que organizara a festa do
casamento, Geórgia deixou o salão sentindo o pânico crescer.
"Como poderei ficar a sós com esse homem… o meu marido?", pensou.

CAPITULO II
Um magnífico casaco de vison cor de mel, jogado sobre a cama com a displicência dos
muito ricos, esperava Geórgia no quarto reservado para que ela mudasse seus trajes de
viagem. Todo o resto de seu enxoval encontrava-se num luxuoso conjunto de malas, já à
sua espera no Rolls-Royce de Renzo.
Ruiva e falante, Flávia ajudou-a a soltar os minúsculos botões do seu delicado vestido de
noiva, porém a cada momento a sensação de abandono que Geórgia experimentava parecia
aumentar. Por que estava ali, casada com um homem quase desconhecido e tão distante de
sua vida, até então, sem surpresas mas também sem contrariedades?
— Céus, Geórgia! É tão difícil assim casar-se? Você está pálida, tensa. . .
— Eu... sinto-me um pouco distante da realidade. Talvez seja efeito do champanhe, nunca
bebo e…
— Verdade? Bem, não sei por que me espanto, é visível a qualquer um que você levou uma
vida recatada, longe da boemia e das noitadas de festa! Deixe-me ajudá-la a vestir seu traje
de viagem. É maravilhoso!
A seda francesa do vestido azul-hortênsia era de alta qualidade, como tudo o que Renzo
tinha escolhido para seu enxoval. Não fora uma seleção baseada na fabulosa fortuna e sim
no gosto impecável de seu marido.
Logo ao chegar a Londres, ela fora arrastada às lojas mais sofisticadas daquela cidade que
se vangloriava de ter as mercadorias mais luxuosas do mundo! Chanel, Burberrys, Laura
Ashley's eram templos da moda, imponentes e assustadoramente requintados para uma
jovem simples e pouco habituada a ambientes tão fantásticos.
Renzo, porém, dedicara dias a escolher cada peça com atenção, até mesmo a famosa
lingerie do Bradley's!
Ela se sentira encabulada ao ver os tecidos diáfanos e as rendas que mal esconderiam seu
corpo. Jamais teria coragem de apresentar-se diante do marido em trajes tão reveladores,
seria o mesmo que estar nua!
Renzo mantinha a habitual expressão enigmática e impassível e parecia estar escolhendo
livros ou acessórios para o carro.
No entanto, seria absurdo para Geórgia negar como sua imagem se tornara mais atraente. A
figura refletida na infinidade de espelhos surpreendia por seu encanto. Ela nunca se julgara
tão bonita!
Todavia, nada entre os artigos luxuosos escolhidos por ele teria sido do gosto de Angélica.
Tudo lembrava a personalidade mais recatada e sem sensacionalismos de Geórgia. Uma
simplicidade ilusória, pois o aspecto informal ocultava preços exorbitantes!
— Esse tom de azul é perfeito! Acentua a cor dos seus olhos… Como você e sua irmã são
parecidas! Bem… ao mesmo tempo que se parecem muito, são completamente diferentes.
Ouvindo o monólogo ininterrupto da jovem italiana, Geórgia perguntava-se até que ponto
ela sabia da verdade. "Terá Renzo conseguido ocultar os fatos dos amigos menos próximos
do que Bruce?", questionou-se.
Sem dúvida, ele devia ter pensado em seu irmão e impedido que estourasse um escândalo.
Havia a reputação profissional de Stélvio a ser salva, além da situação da jovem esposa e
do filho, que se magoariam demais com a repercussão de um assunto tão íntimo.
— Há uma diferença… indefinível entre vocês duas. Não sei bem o quê, mas…
— Angélica sempre foi arrojada e sociável, Flávia. Eu preferi viver isolada, apenas em
casa...
— Que ótimo os dois terem percebido a incompatibilidade antes do casamento, não acha?
Renzo, como a maioria dos italianos, é católico e jamais se divorciaria. Oh! Vou levar o
vestido de noiva para sua nova casa, em Hanson Square… Quer que eu lhe envie a
correspondência para o Hotel em Sandbourne?
— Se chegar alguma carta…
"Algum dia meu pai se arrependerá da atitude inflexível e injusta? Voltará atrás e me tratará
como uma filha querida?", Geórgia pensava, rezando com fervor para que ele deixasse de
considerá-la uma traidora. Seria terrível viver o resto de seus dias com esse peso na alma...
E saber-se injustiçada!

Mas ela jamais revelaria a atitude sórdida de Angélica ou seu pai perderia toda a razão de
viver. Só esperava que algum dia ele a visse novamente com olhos cheios de amor!
A figura elegante refletida no espelho não lhe parecia real… Onde estava aquela pessoa
simples e sem luxos, sempre de saias clássicas e blusas austeras, que vivia na casa
paroquial?
Longe ficaram os dias de poupar cada peça do vestuário que não poderia ser substituída tão
cedo! Hoje, Geórgia tinha mais do que jamais usaria em toda a sua vida, e por insistência
de Renzo, que queria vê-la vestida como uma princesa!
Sem dúvida, esse era o sonho de qualquer mulher: viver entre a elite, coberta de sedas e
peles! Geórgia sentia em cada presente um elo a mais nas correntes que a aprisionavam!
Ela evitou olhar-se no espelho. Não queria ver os cabelos cor de ouro iguais aos de
Angélica, nem os olhos azuis e os traços delicados da sua irmã! Tudo lembrava a jovem
cheia de vida, cujo objetivo na vida era seduzir e encantar o mundo!
Uma cópia, uma sombra apagada que brilhava apenas por estar longe do original! Seu
dono, porém, já tivera nas mãos a obra de arte verdadeira e jamais lhe daria o valor real,
nunca veria suas características pessoais…
Geórgia estremeceu ao pensar que pelo resto de seus dias estaria ao lado de um homem
para quem sua única qualidade era ser irmã da mulher que ele amava com desespero.
— Meu Deus, Geórgia! Estou preocupadíssima com sua aparência… Está tremula. Pelo
jeito o casamento é bem mais divertido para os convidados do que para os noivos, não?
— Sem dúvida alguma!
— Mas… por favor, tente sorrir e parecer menos contrariada. Deve ter notado aquela
víbora, Connie Caswell, interpelando Renzo, não? Ela tem olhos de águia, e é o terror de
Fleet Street, o centro do jornalismo londrino. Imagino que deve estar pensando em sua
irmã, mas… tente disfarçar. Tem que lembrar de Renzo… para o bem dele.
— Toda essa encenação foi pelo bem de Renzo, não é verdade, Flávia? — explodiu
Geórgia, apanhando a bolsa e levantando-se para sair.

Tanta generosidade só podia se igualar à imensa crueldade daquele homem, em cujas veias
corria o sangue dos Césares romanos que lançavam os cristãos aos leões em épocas
remotas!
Renzo colocara na bolsa Chanel de crocodilo as chaves de um carro, um perfume francês…
Todos os detalhes haviam sido lembrados e todas as necessidades supridas com luxo, sem
medir as despesas.
Se ao menos ela fosse do tipo que se impressiona com tanta riqueza! Nada, porém, tiraria o
peso terrível de seu coração por ter se deixado prender em um casamento sem amor!
O champanhe continuava a correr como água, as vozes e as risadas a cada minuto se
tornaram mais altas e Geórgia, ao voltar para o salão, teve a impressão de que até os
golfinhos dourados da fonte estavam embriagados!
Só Renzo mantinha-se intocado pela alegria reinante, frio e distante.
Não, não era verdade! Apesar de disfarçar muito bem, ele também começava a demonstrar
sinais de tensão. Para ele, o casamento não deixara de ser um sofrimento, com certeza
pensava que a mulher ao seu lado devia ser Angélica!
Um sorriso simpático de Bruce deu-lhe mais coragem para enfrentar a multidão festiva.
Como ele era diferente de Renzo!
Os traços perfeitos mas duros, os olhos ameaçadores como o aço de espadas mortíferas…
tudo a assustava em seu marido, um homem que parecia pertencer a outras épocas, mais
violentas e sem lei. No entanto, unira-se a ele e nada os separaria! A mão firme que a
segurou pelo braço e a dirigia lenta mas inexoravelmente para longe de todos era a mão de
seu marido… de seu dono!
— Bem, amigos… Geórgia e eu temos um compromisso bem mais agradável do que
conversar com vocês. Vamos deixá-los, e obrigado por terem vindo ao nosso casamento!
— O prazer foi todo nosso, querido! — replicou Connie Caswell, sorrindo. — Afinal, vocês
me proporcionaram um assunto excitante!
— Não tenho a menor dúvida!
Geórgia ergueu o queixo, desafiante, pensando em como a imprensa iria explorar o fato de
uma irmã ter substituído a outra no altar! Se a repercussão dessa notícia perturbasse Renzo,
tanto pior! Afinal, toda a sua infelicidade fora causada por ele mesmo. Todas as
contrariedades que se originariam de um casamento sem o menor laço de afeição eram
culpa exclusiva daquele homem implacável!
— Jogue o buquê… o buquê… — ele falou.
As vozes se elevavam, estridentes e ensurdecedoras, e, como num sonho, Geórgia atirou o
delicado arranjo de botões de rosa e flores de laranjeira para a multidão.
Nunca soube quem o pegou, pois Renzo a guiou com firmeza e pressa em direção à porta.
Geórgia se deixou levar, tomada por um pânico incontrolável. Agora não haveria mais
ninguém entre ela e aquele homem ameaçador.
Suas pernas recusavam-se a caminhar, mas ele parecia arrastá-la para longe de todos, ao
encontro do momento que mais temia…
O Rolls-Royce antigo ostentava um luxo tradicional, com bancos de veludo e revestimento
de madeira polida, A aparelhagem de som excepcional enchia o silêncio do carro com uma
melodia suave e romântica.
O trânsito do fim da tarde estava como sempre denso e congestionado. Multidões saíam dos
escritórios, espalhando-se nas calçadas, e todos olhavam com admiração para os dois belos
ocupantes daquele carro majestoso.
Entretanto, a idéia de um casal feliz partindo para uma lua-de-mel cheia de amor não podia
estar mais longe da realidade!
Geórgia fitava disfarçadamente o perfil do atraente italiano, e seus olhos brilhavam como
pedras preciosas, duas safiras frias e faiscantes de ódio. Não via os traços finos que
costumavam encantar todas as mulheres nem os cabelos negros e brilhantes ou os ombros
largos… Ao seu lado estava um homem sem escrúpulos, um chantagista impiedoso que a
forçara ao casamento. "Como alguém pode ser tão implacável em sua vingança? Ele quer
punir todos à sua volta quando os únicos culpados são uma mulher impulsiva e sem
princípios e o irmão irresponsável. Por que eu devo pagar pêlos pecados alheios?", refletiu
desolada.
No entanto, essa atitude lhe parecia típica, uma vingança brutal e sem perdão a todos os
membros da família que o magoara. E Renzo conseguira destruir tudo à sua volta: afastara
pai e filha de tal modo que seria muito difícil superar o abismo surgido entre eles!
Renzo Talmonte vivia há muitos anos na Inglaterra mas continuava a ter o sangue quente
dos latinos, o temperamento explosivo tão incompreensível para os controlados e calmos
ingleses. Ao tomá-la como esposa há poucas horas, ele dera mais um passo em direção a
uma vingança completa e arrasadora.
Geórgia tinha notado um sorriso de satisfação curvar os lábios bem desenhados e sensuais,
como se estivesse extremamente satisfeito por ver seus planos caminharem tão bem! E
agora ele devia estar planejando o próximo passo, mais uma tortura a ser enfrentada por ela,
por culpa de sua irmã!
Se ela soubesse como seus pensamentos eram transparentes!
Renzo observava a jovem encantadora sentada ao seu lado, uma imagem de inocência e
recato. Ou era ainda mais falsa do que imaginara, ou não se parecia tanto com Angélica
como ele havia julgado.
O vestido elegante realçava as formas delicadas, que muito em breve seriam reveladas ao
seu olhar e acariciadas por suas mãos. Ela talvez não tivesse o brilho cintilante da irmã,
porém seria um prazer único fazê-la enfrentar a realidade do relacionamento entre um
homem e uma mulher!
No instante em que a tivesse despida de todos os artifícios, saberia se era falso ou não o
pudor excessivo, o ar tímido de virgem assustada.
E então… a desforra seria ainda mais doce!
Iria desvendar os mistérios daquele corpo jamais tocado por um homem e arrastá-la para o
reino da volúpia, levando-a por todos os caminhos do sexo até destruí-la por completo!
Só assim se sentiria livre da imagem torturante de Angélica, o sorriso fascinante mas falso,
o corpo sensual e cheio de um primitivismo pagão mas que se oferecia sem restrições a
qualquer homem…
Seu olhar percorreu novamente cada curva da mulher que agora era sua esposa, e jurou
submetê-la a todos os seus caprichos e torná-la sua de todas as formas.
Gotas de chuva começaram a cair tornando a tarde ainda mais fria e desanimadora, e
Renzo, ao ver o tempo tão tipicamente inglês, úmido e cinzento, olhou-a com irritação.
— E pensar que poderíamos estar no Caribe, com sol e calor à vontade! Isso se você não
tivesse escolhido uma praia inglesa!
— Lugar algum seria quente ao seu lado, Renzo!
— A festa foi um sucesso! — continuou ele, deliberadamente ignorando o comentário
ferino. — Flávia organizou tudo , muito bem, ela é uma perfeição! Não sei o que faria sem
sua ajuda.
— Devia ter se casado com ela! — explodiu Geórgia, descontrolada pelas horas de tensão.
— Por que tinha que destruir minha vida? Qual o mal que eu lhe fiz?
— Você se tornou minha esposa há algum tempo, cara, enfrente a única realidade possível!
Todos a acharam linda apesar de parecer uma estátua de gelo. Pelo menos Connie Caswell a
descreveu assim! Ela chegou ao despropósito de perguntar-me se nos amávamos.
— Oh! Não diga! E o que lhe respondeu, Renzo? Contou-lhe sobre a paixão arrasadora
existente entre nós? Ou preferiu revelar-lhe toda a minha revolta contra você?
— Afirmei apenas que jamais discuto meus sentimentos em público!
— Seria muito difícil dizer a qualquer pessoa como o casal "encantador" que se prendeu
pêlos laços sagrados do matrimônio nem ao menos se conhece, não é? E que a única
emoção a nos unir é o seu ódio?
— Há quem diga que amor e ódio são tão inseparáveis quanto o dia e a noite, que não
existe um sem o outro.
— Pois eu discordo totalmente! O dia e a noite nem ao menos se parecem. É muito fácil
distingui-los, assim como essas duas emoções em completa oposição.
— Não pare, Geórgia! Sua teoria está me deixando interessadíssimo — retorquiu Renzo,
diminuindo a velocidade do carro ao entrar na avenida ao lado do rio Tamisa.
Ela olhou para a multidão que fugia da chuva e desejou estar entre eles, livre e ansiosa por
voltar para o aconchego de sua casa. Qualquer lugar no mundo seria melhor do que a
situação que a esperava quando chegassem a Sandbourne!
— Então, cara?
— Quando se ama alguém, o maior desejo é partilhar cada momento com o ser amado,
dividir as alegrias e todos os nossos pensamentos. Se existe ódio, porém, há a necessidade
de fugir, de estar o mais longe possível daquela pessoa, não vê-la ou ouvi-la…Tem idéia
agora dos meus sentimentos, Renzo?
— Você foi muito clara! Suponho que irá detestar cada segundo passado ao meu lado,
certo? É uma pena, pensei que gostasse de Sandbourne…
— Sempre adorei aquela praia mas, desta vez, sei que não me trará prazer algum.
— Sinto muito. Eu, pelo menos, tenho intenção de me divertir muito! Apesar de viver há
tantos anos na Inglaterra, jamais fui a nenhuma das cidades à beira-mar e estou esperando
ansiosamente pelos dias que passaremos lá.
— Mesmo na companhia de uma esposa que o odeia?
Geórgia usava a única maneira ao seu alcance para feri-lo: as palavras. Recusava-se a ser
uma vítima dócil e submissa às torturas provocadas por uma vingança insensata!
— Não estou absolutamente preocupado com os seus sentimentos a meu respeito! As
reações que você provoca em mim são muito mais importantes e, sem dúvida, irá se
surpreender com a intensidade de minhas emoções. Terei ao meu lado uma mulher atraente
e será extremamente agradável revelar-lhe os prazeres do sexo…
Era impossível ignorar o significado daquelas palavras cruas! Renzo pretendia tomá-la sem
a menor consideração por sua inocência, e quanto mais ela lutasse contra a degradação de
ser possuída sem amor, mais completa tornaria a sua intenção!
Uma onda de desespero invadiu-a e sentiu o rosto rubro de vergonha. Seria menos terrível
se ela se jogasse sobre a direção, fazendo o carro perder o rumo e cair nas águas geladas do
rio! A morte a atraía mais do que sentir-se um objeto de prazer para aquele homem sem
emoções dignas!
Uma imagem muito clara impediu-a de cometer esse ato de loucura: a casa paroquial
coberta de hera e seu pai, no escritório austero, escrevendo o sermão de domingo. Àquela
hora as luzes estariam acesas, tornando o ambiente acolhedor, e um aroma de tortas e doces
emanaria da cozinha, anunciando a hora do jantar.
Se ela agisse tão impensadamente, iria abalar todo o universo do pai e seu sacrifício teria
sido inútil e sem sentido!
Tomada por tremores de frio, Geórgia fechou mais o casaco e sentiu-se desprezível por
estar vestindo roupas compradas por ele. Lutara muito até ser vencida pela vontade férrea
de Renzo e aceitar aqueles vestidos luxuosos e magníficos demais para ela!
"Não adianta discutir, cara! Recuso-me a ver minha esposa mal vestida; você mais parece
uma… maltrapilha!", lembrou-se.

Ela tinha sido arrastada de uma loja a outra, de salão a salão, todos imponentes e faustosos.
Os incontáveis espelhos refletiam sua imagem de todos os ângulos e também mostravam as
expressões desdenhosas das vendedoras…Geórgia sentira-se como uma rude e desajeitada
simplória!
Todo o ódio, acumulado desde o dia em que Renzo surgira furioso no seu refúgio tranqüilo,
transbordou em suas palavras cheias de desespero!
— Vai se arrepender mortalmente, Renzo Talmonte! Eu o detesto e sei que vou detestá-lo
cada dia mais!
— Então posso me considerar um homem de muita sorte por não estar apaixonado por
você, cara.
— Nossa situação é trágica demais. Não há lugar para "paixões"! Seu amor por Angélica
foi a causa desse sofrimento todo. Mas, infelizmente, ela não será atingida! Os únicos a
serem magoados seremos nós dois!
— Você está sendo dramática demais, Geórgia! Não foi obrigada a casar-se comigo, eu lhe
dei uma opção. A escolha foi sua!
— Opção? Escolha? Não banque o cavalheiro bem-intencionado, Renzo! No minuto em
que pousou os olhos em mim, já me avaliou e julgou uma filha dedicada que amava o pai a
ponto de protegê-lo a qualquer custo, não é verdade? O tipo de filha que você despreza pela
falta de encanto, por não procurar diversões e deixar o lar vazio! Eu e Angélica temos
temperamentos opostos e você notou o contraste desde que me viu pela primeira vez. Já
sabia que eu não teria outra saída a não ser aceitar a sua chantagem, tornando-me sua
esposa. Sabia que eu não iria magoar meu pai!
— Mas é lógico, cara! Eu jamais teria voltado a Duncton se não tivesse certeza absoluta de
que você acabaria cedendo à minha vontade.

— Oh! Meu Deus! Não é possível existir tanta maldade... Deve haver um nome para
homens como você!
— Os franceses dizem… homme sans merci…
— Homem sem piedade?
— Sim, cara. Cai-me como uma luva, não acha?
As palavras carregadas de amargura não receberam resposta e um silêncio pesado e tenso
tomou conta do carro.
Geórgia olhou para aquela cidade frenética que seria seu lar quando voltassem da praia e
sentiu imensas saudades dos verdes campos de Sussex.
Cinzenta e fria, Londres lhe parecia um formigueiro agitado e hostil, cheio de sons
desagradáveis e odores repulsivos. As fisionomias fechadas, que transmitiam a
incomunicabilidade da cidade grande, a assustavam demais. No entanto, não havia como
fugir do futuro sombrio que a aguardava. Iria viver na casa de Renzo Talmonte, o
cavalheiro sem piedade!
Aos poucos, a cidade ficava para trás e a natureza tranqüila dos campos ingleses surgiu
diante dos olhos desesperados de Geórgia como um bálsamo bem-vindo.

CAPITULO III
O sol do final da tarde transformava a pequena cidade à beira-mar num poema cor-de-rosa.
As primeiras luzes começavam a se acender, rebrilhando ao longe nas poças de água
deixadas pela chuva.
O imponente Rolls-Royce de Renzo entrou pela ampla alameda que cortava os magníficos
jardins floridos do Duke's Hotel.
Geórgia não se lembrava qual tinha sido o primeiro ano em que viera com sua família para
Sandbourne, mas jamais conseguira esquecer a fascinação provocada por aquele luxuoso
hotel, desde que o vira, ainda muito criança.
Ela e Angélica admiravam a distância aquela construção suntuosa, de onde homens e
mulheres ricamente vestidos entravam e saíam como príncipes distantes e inatingíveis.
E, invariavelmente, a irmã mais nova, voluntariosa e consciente de seus desejos de
grandeza, repetia que algum dia estaria entre aquelas pessoas privilegiadas, freqüentando
hotéis de luxo e ostentando jóias preciosas.
Se não fosse pela presença de Renzo, que assinava as fichas na recepção, Geórgia se
sentiria realizando um sonho jamais admitido antes. Era a filha despretensiosa e sem
atrativos do reverendo Michael Norman que estava agora entre a elite, hospedando-se no
Duke's, um dos hotéis mais tradicionais e requintados da Inglaterra!
As colunas de mármore alcançavam o teto muito alto, onde imensos lustres de cristal
francês brilhavam, ofuscando a vista. No fundo do imenso saguão, uma escadaria larga
levava ao mezanino e, através de arcos dourados, podiam-se ver as inúmeras mesas onde os
hóspedes tomavam o tradicional chá das cinco.
Ah! Como seria bom saborear um chá tranqüilamente, sem pensar que, no final daquele dia
terrível, algo ainda mais traumatizante a esperava! Geórgia não percebeu o quanto sua
expressão era transparente e revelava seu desejo prosaico… Renzo notou-lhe o olhar
perdido entre as colunas do salão de chá e segurou-a firmemente pelo braço, levando-a em
direção aos elevadores.
— Vamos, cara! Apesar de achar-me impiedoso e desalmado, não é possível resistir a um
apelo tão claro como o que vejo em seus olhos.
Geórgia deixou-se dirigir-se e, ao entrar no salão suntuoso, sentiu que todos os olhares
convergiam em sua direção. Tímida e insegura, ela abaixou os olhos e sentou-se à mesa
escolhida por Renzo.
Como ele parecia à vontade naquele ambiente formal e refinado! Nem mesmo o fato de ser
um recém-casado tirava-lhe a calma! Mas, sem dúvida, seu marido já havia, freqüentado
hotéis até mais finos em companhia de outras mulheres… ou pelo menos tivera Angélica ao
seu lado!
Enquanto Renzo fazia o pedido, Geórgia tirou o casaco de vison e procurou ignorar o
exame detalhado que parecia despi-la. O olhar de Renzo percorreu seu rosto e desceu,
insultuoso, pelo seu corpo, sem o menor constrangimento.
"Estará lembrando-se de Angélica?", perguntou-se.
Sem dúvida, sua irmã partilhara inúmeras refeições com Renzo durante o longo noivado e
talvez tivesse até mesmo se tornado sua amante. Todavia, ela não queria pensar nessa
possibilidade, pois a traição de Angélica teria sido ainda mais grave. E sua situação
insustentável era um resultado direto dessas ações impensadas!
"Que emoções violentas estarão escondidas atrás da aparência formal e controlada de
Renzo Talmonte? Quando ele deixará cair a máscara fria, mostrando seus desejos
amargos?", pensou angustiada.
Seria uma insensatez ignorar o físico atlético daquele homem diabólico, subestimando sua
força pelo fato de usar uma bengala, Geórgia tinha plena consciência de que não poderia
resistir a ele no momento em que ficassem a sós num quarto. Afastados do mundo, as
paixões violentas certamente viriam à tona!

— Então? Não vai mostrar a educação de jovem de casa paroquial e servir-me o chá?
— Sim… é claro!
— Ótimo. Coma um doce, você mal tocou na comida durante a recepção, deve estar
faminta!
Renzo observava com frieza os gestos delicados de Geórgia enquanto analisava o corpo que
muito em breve seria seu.
Parecia com a irmã e totalmente diferente… Os seios menores, a cintura mais fina e as
pernas mais esguias evidenciavam em seu recato um corpo à espera do toque de um homem
para despertar paixões incontroláveis. Sim, ela não deixaria de reagir com volúpia às suas
carícias! Não havia no mundo uma mulher que fosse fiel aos seus princípios! Em muito
pouco tempo aquela jovem puritana se comportaria com tanto abandono quanto uma
cortesã, apreciando jóias e peles sem lembrar-se de seus ideais românticos e puros.
Naquele momento um pianista encheu o salão com sua melodia suave, uma canção antiga e
cheia de encanto.
A música romântica dedilhada ao piano espalhou-se por entre arcos dourados, trazendo uma
sensação de calma profunda a Geórgia. Subitamente ela se sentiu faminta pois, além de não
ter comido nada em sua festa de casamento, nem mesmo conseguira tomar o café da manhã
preparado por Flávia.
O apartamento da jovem italiana ficava numa pitoresca pracinha que parecia muita distante
do burburinho agitado de Londres, e Geórgia passara inúmeras manhãs sentada sob as
árvores, tentando superar a terrível tensão causada pela decisão categórica de Renzo em
desposá-la.
A situação na casa paroquial atingira limites insuportáveis e, tão logo tia Beatrice chegara
para tomar conta de seu pai, Geórgia havia aceitado de bom grado o convite de Flávia para
passar as últimas semanas no apartamento de Euston Mews.
A velha tia imediatamente percebera a irritação do reverendo Michael Norman e o
constrangimento de Geórgia, e rebelara-se contra a atitude ríspida do irmão.

— Você devia estar contente por sua filha, mano! Tem idéia do que é viver sozinha, entre
mulheres solitárias e sem família, num hotel de quinta categoria, como eu faço? Não sabe
como se torna dura a vida quando se depende de uma pensão escassa para pagar o quarto e
a comida. Não há dinheiro para diversões, nem mesmo um cinema, e nossas refeições são
frugais, quase sempre chá e pão!
O pai de Geórgia saíra da sala furioso. Depois de várias insinuações deste tipo, ela dera
graças a Deus por trocar Duncton e aquela casa sombria pelo moderno e alegre apartamento
de Flávia.
Nos seus intermináveis passeios por Hyde Park, quase deserto no começo da manhã, ela
pensava na incrível mudança de sua vida em tão poucos meses. Mas nada a reconciliava
com o futuro que a esperava!
Aquele homem atraente fascinaria qualquer mulher, e mesmo Geórgia, quando observava
os traços perfeitos e os olhos muito verdes em contraste com os cílios negros, deixava-se
levar por fantasias, lembrando-se das estátuas de heróis romanos cheios de bravura. Só
quando via o sorriso frio e irônico vinham à sua mente as intenções vingativas de Renzo e
sentia o coração apertar!
— Você está muito pensativa, Geórgia.
— Há tanto em que pensar…
— E nada a meu favor, certo?
— Nada! Se espera uma reação afetuosa da minha parte, Renzo… engana-se por completo!
Cumpri a minha parte casando-me com você, como era seu desejo, mas as promessas feitas
diante do padre foram tão vazias quanto está o meu coração.
— Ora… há muitos anos já não acredito que as mulheres tenham um coração! Parecem
anjos doces e ternos e no fundo não passam de frias calculistas mercenárias! Veja o seu
comportamento, cara… uma noiva frágil e etérea… e agora come doces como uma
trabalhadora braçal! — A sugestão foi sua, Renzo! Eu não comeria…
— Calma! Nunca vi ninguém tão sensível assim! Se você tomar como um insulto pessoal
tudo o que digo, brigaremos noite e dia.
— Pois é exatamente isso que acontecerá! Você me julga uma pessoa cordata e dominável
porque fui uma filha dedicada e permaneci ao lado de meu pai cuidando da casa e dos
paroquianos. Talvez ignore que foi uma escolha minha! Preferi essa vida sem brilho e
nunca me arrependi por não ter feito uma carreira ou procurado o sucesso. No entanto, se
pensa que vai pisar em mim… prepare-se para ter uma terrível surpresa!
— Eu jamais perderia meu tempo brigando ou tentando dominá-la, cara. Uma mulher assim
tão delicada e virginal foi feita para ser saboreada… tenho planos muito mais agradáveis do
que pisar em você!
Os dedos longos e morenos, num gesto rápido, tomavam o pulso frágil de Geórgia e ela,
sobressaltada, tentou soltar-se.
— Deixe de agir como um noivo apaixonado, signore! Sabemos o quanto é mentira e, além
disso, detesto ser vista como recém-casada! Há uma senhora na mesa atrás de nós que não
pára de olhar-nos como se fôssemos animais estranhos!
— Talvez ela esteja esperando o momento em que comecemos a nos agredir fisicamente!
— Talvez não demore muito!
Ao menos a atitude fria de ambos poupava Geórgia do terrível embaraço de ser considerada
uma noivinha inocente à espera da tão desejada noite de núpcias!
Ela jamais pensara em casar-se, mas agora percebia que tinha perdido uma chance, ainda
que remota, de unir-se a um homem por amor. Nunca seria tocada com carinho nem
partilharia seus pensamentos com alguém querido…
— Coma o último doce — murmurou Renzo com uma doçura fingida e um sorriso
malicioso. — Não deve ficar muito fraca...
— Deixei-o para você, "querido"!
— Prefiro conservar meu apetite. Há tantos petiscos mais do meu gosto!
— Não diga! Provavelmente você prefere salgados, não é? — retorquiu Geórgia, tentando
mostrar-se calma diante da alusão clara às próximas horas.
Embora Renzo tivesse a expressão tranqüila, algo em seu tom de voz fez Geórgia
estremecer. No minuto em que fossem para o quarto, estariam completamente desligados do
mundo e ninguém poderia evitar a sua degradação. Olhando para a mão-ainda presa à do
marido, ela viu as cicatrizes deixadas pêlos espinhos no dia em que o recebera entre as
roseiras de sua casa. Eram marcas profundas, lembrando-a de como fora forçada a se
submeter.
E agora nada mais poderia salvá-la! Ele se sentia com todos os direitos de impor sua
vontade como marido e, a portas fechadas, tomaria seu corpo sem consideração alguma por
sua repulsa e seu terror.
— Terminou o chá, cara? Estou ansioso para irmos até nosso quarto. Este salão tem gente
demais para o meu gosto. Quero ficar a sós com minha noivinha… virginal!
— Não! E eu… preciso caminhar um pouco…
— Deixe de agir como uma idiota, Geórgia!
— Vou dar uma volta!
Sem ouvir mais nada, ela se levantou da cadeira, não se preocupando com a raiva que iria
provocar naquele homem violento. Nada mais importava nesse instante a não ser fugir de
Renzo! Jamais sentira tanto medo de alguém em toda a sua ! Agarrando o casaco, correu
pelas escadas e atravessou o saguão do hotel como se estivesse sendo perseguida.
Ele permaneceu imóvel, observando através das arcadas o pânico e o desespero que
impeliam-na a fugir. Um sorriso curvava seus lábios bem desenhados e sensuais, mas o
olhar frio e cheio de ódio revelava sua irritação por ter sido abandonado em público.

Mas havia muito tempo para domar aquela criatura ao mesmo tempo assustada e rebelde.
Ele a imaginara menos ousada, uma jovem puritana e fraca, mas aquela faceta inesperada
de um temperamento combativo só lhe traria mais prazer. Tinha se preparado para levar
uma mulher passiva e atemorizada a aceitar suas carícias, e a reação de Geórgia o tomara de
surpresa.
Ao caminhar para a suíte luxuosa que reservara para a lua-de-mel, Renzo antecipava os
prazeres da noite tão próxima, quando, com toda certeza, seria obrigado a dominar Geórgia
pela força.
Como as mulheres sabiam fingir bem! Aquela tola demonstrava por todas as suas ações
uma inocência na qual ele jamais acreditaria! Esperava ansiosamente o momento de
desmascará-la. Iria levá-la a se comportar como uma cortesã, destruindo aquela falsa
pureza, e só quando a visse implorar por ele poderia rir vitorioso!

Uma brisa suave soprava, trazendo o cheiro agreste do mar, e, apesar das poças de água da
chuva entre as pedras da alameda em frente ao hotel, Geórgia corria em direção à praia.
Renzo não podia alcançá-la se andasse depressa pois o chão irregular iria dificultar sua
perseguição; isso se ele estivesse disposto a trazê-la de volta.
Atravessando a avenida, Geórgia chegou até a escada que levava à praia e, com passos
rápidos, alcançou os grupos que aproveitavam as poucas horas antes do jantar. Rodeada de
gente, ela se sentia segura, apenas uma entre tantas pessoas felizes por estarem passando as
férias em Sandbourne… sorridentes e sem problemas!
Três jovens, de braços dados, eram a imagem da despreocupação e Geórgia invejou-as
como jamais invejara alguém em toda a sua vida.
Depois do passeio vespertino pela praia, elas voltariam à pensão simples, e sem luxo onde,
sem dúvida, estavam hospedadas e, depois de um banho, se vestiriam para o jantar. A noite
lhes reservava prazeres despreocupados: um baile ou uma peça teatral ou até mesmo um
passeio nas ruas pitorescas da cidade.

As lágrimas começaram a correr pelas faces de Geórgia, quê lutou para controlar uma onda
de autopiedade. Como Renzo se cansara de repetir, ela havia escolhido o seu caminho e não
tinha como escapar. Se essa mesma situação fosse apresentada a Angélica, ela jamais
hesitaria em destruir a felicidade do pai, pois não suportaria sacrificar-se aceitando um
homem a quem não amava!
Por que Geórgia não era como a irmã? Não só na aparência mas também no temperamento?
Mas, desde muito pequenas, elas se pareciam como duas rosas, uma cheia de espinhos e a
outra desprotegida!
Angélica sempre fora egoísta e preocupada apenas consigo mesma, mas todos a agradavam
e desculpavam, enquanto ela própria era tratada como uma garota responsável e sem
desejos pessoais. Era dez meses mais velha, muito mais frágil e miúda e no entanto a viam
como uma pessoa adulta, que já ultrapassara o período despreocupado da infância.
A mãe morrera muito perto de seu décimo quinto aniversário e os deveres da casa passaram
a ser função sua… por que motivo, Geórgia jamais soube! Aos poucos, toda a
responsabilidade doméstica recaíra sobre seus ombros. Ao voltar da escola, fazia seus
deveres rapidamente e procurava preparar um jantar simples ou passariam a chá e torradas.
A velha mulher que fora contratada para tomar conta da casa quando a sra. Norman
adoecera estava com mais de sessenta anos e Geórgia começara a ajudá-la em pequenos
serviços, mas, gradualmente, suas tarefas aumentaram até que assumisse todo o trabalho.
E Angélica… jamais se dignara a assumir tarefas tão prosaicas!

Com um dom inato de fugir das responsabilidades, a irmã assumiu o papel de anjo
caridoso, ocupada sempre em consolar o pai acabrunhado pela perda da esposa. Com um
sorriso brilhante e uma expressão de falsa modéstia, ela insistia em declarar-se uma
péssima dona-de-casa, ao mesmo tempo exaltando as qualidades de Geórgia como
cozinheira. Suspirando desanimada, afirmava que jamais se encontraria alguém tão
desajeitada ao varrer uma casa que, como ela, batesse nos móveis e arrancasse lascas das
portas.
— Tenho inclinações artísticas. É uma pena, pois gostaria de ser uma mulher prendada!
O mais incrível não eram as declarações de Angélica e sim a sua capacidade de convencer a
todos, incluindo ao reverendo Norman!
Sem dúvida, ela tocava um pouco de piano e copiava vestidos das revistas de moda, mas
jamais criava nada. Além disso, tinha a reputação de ser a bela filha do pastor, embora as
duas se parecessem demais para que Geórgia fosse considerada feia.
Essas brilhantes qualidades — inexistentes na "pobre" irmã mais velha — levaram o
reverendo a aceitar sem protestos a partida da filha para Londres, onde freqüentaria uma
escola de modelos. O pai retirou do banco o dinheiro posto de lado para garantir-lhe a
velhice e Angélica partiu para o mundo da fama com a certeza absoluta de que se tornaria
um sucesso.
Uma autoconfiança inabalável e sua capacidade de convencer a todos de ser uma criatura
excepcional logo deram frutos. Revistas famosas como Bon Marche e Exclusive
disputavam a jovem modelo, tão fotogênica e sedutora que chamava a atenção,
sobressaindo-se sobre as outras.
O orgulhoso pai carregava as revistas por toda a parte, mostrando-as aos paroquianos, cujos
comentários eram inevitavelmente os mesmos: todos sabiam que uma garota fascinante e
simpática como Angélica só poderia ter sucesso e ficar muito famosa!
Quanto a Geórgia, a filha meiga e dedicada apenas em tornar agradável a vida do
reverendo, receberia sua recompensa no céu!

Portanto, não era surpreendente a reação indignada do pai ao saber que ela o deixaria
sozinho. Sem dúvida, sentira-se traído pois cansara de ouvir que Angélica colheria os
louros da fama e da glória enquanto Geórgia continuaria a cozinhar, tomar conta da casa e
do jardim, sem esquecer do chá e dos bolos a serem oferecidos às senhoras da comunidade
uma vez por semana!
O bater insistente das ondas sobre as pedras, o grito das gaivotas e o som dos próprios
passos faziam eco aos pensamentos torturantes de Geórgia, que, levantando o olhar, viu a
praia quase vazia.
A luz surgia iluminando os poucos veranistas que se apressavam em voltar aos hotéis, e
preparar-se para o jantar.
"O que fazer, para onde ir?", questionou-se.
Havia fugido do Duke's sem ao menos pegar a bolsa, estava sem um tostão! Sozinha na
praia, ela não tinha nada além das roupas que vestia e do anel de safiras no quarto dedo da
mão esquerda. O anel! Se ao menos não fosse tão tarde talvez ela encontrasse uma loja
aberta onde tentaria vender aquela jóia cara e pesada.
Era impossível evitar as lembranças do momento em que aquele aro de pedras frias fora
colocado em seu dedo. Um homem odioso tornara-se seu marido e, mesmo tendo apenas
murmurado os juramentos, ela se comprometera a amá-lo e respeitá-lo diante de um padre.

Que respeito poderia sentir por alguém que a obrigara através de chantagem a participar da
farsa de um casamento forçado? Como pensar em afeição se entre ela e Renzo existia
apenas ódio e não um amor terno unindo duas almas gêmeas?, refletiu.
O vento frio lembrou-a de que não poderia passar a noite na praia. Precisava voltar ao hotel
e tentar convencer Renzo da loucura cometida num impulso de raiva.
Existiria alguém tão impiedoso e cruel a ponto de esquecer a decência e a moral por causa
de uma vingança fútil? Poderia um homem dobrar uma mulher pela força física, com o
intuito de destruí-la moralmente?
Renzo era um artista, um gênio musical cujas melodias românticas encantavam o mundo e,
sem dúvida, uma pessoa culta e com princípios e ideais elevados. Devia haver um ponto
fraco na atitude dura e ela tentaria apelar para o sentimento de dignidade daquele homem
famoso pelo temperamento artístico e sensível.
Relutante, Geórgia começou a voltar, rezando para não encontrá-lo à sua espera num lugar
público onde todos veriam sua humilhação ao ser repreendida como uma criança
irresponsável…

CAPITULO IV
A escada imponente do hotel, coberta por espessos tapetes, estava deserta. Por sorte, todos
os hóspedes encontravam-se em seus quartos, preparando-se para o jantar!
Geórgia preferiu evitar os elevadores, onde poderia encontrar alguém que testemunhasse
seu estado de perturbação profunda.
O imenso corredor abria-se à sua frente como o caminho para a guilhotina! Nunca foi tão
terrível, percorrer um trajeto pequeno como o que levava ao seu quarto! Diante da porta,
Geórgia parou, em pânico.
À sua espera estava um homem que pretendia arrasá-la e que, depois de sua fuga
indesculpável, com certeza ficara ainda mais irritado. Mas nada podia ser feito para evitar
aquele encontro desagradável e inevitável.
Geórgia tocou a campainha e esperou por um longo tempo. Talvez Renzo não fosse abrir a
porta, deixando-a em pé no meio do corredor como uma criança que merecia ser punida.
Seu coração batia forte e lhe dava a impressão de que o som ecoava pelo hotel silencioso e
deserto!
Subitamente a porta se abriu e Renzo, os cabelos úmidos do banho e um roupão de seda
verde que mal cobria o corpo magnífico, a fitava com uma expressão sarcástica.
— Ora! Seja bem-vinda, signora! Afinal, o que seria de uma noite de núpcias sem a
presença da noivinha tremula e ansiosa?
— Eu não sou sua "noivinha"!
— Pois devia ser! O noivo a espera, se não tremulo, com muita ansiedade. Estava me
preparando para recebê-la, cara… nosso quarto foi preparado com todo o requinte
necessário para uma noite tão gloriosa!
Geórgia deu apenas alguns passos e parou, intimidada pela grandiosidade do aposento. A
saleta era bem maior do que toda a casa paroquial e sua decoração, tão requintada quanto a
de um palácio!
Paredes recobertas de tecidos preciosos, sofás de veludo e uma infinidade de espelhos
dourados recriavam o ambiente de esplendor da época georgiana. As cortinas de brocado já
haviam sido fechadas e velas em castiçais de prata iluminavam romanticamente os
inúmeros vasos de flores espalhados em mesinhas delicadas.
Entretanto nada estava mais longe da realidade do que uma situação romântica! Bastava
olhar para o homem alto e ameaçador, cujos olhos tinham um brilho frio, para esquecer
toda a suntuosidade que a rodeava e fazê-la estremecer de medo e revolta.
Mas Geórgia estava decidida a enfrentá-lo antes que fosse tarde demais!
— Mas eu precisava ficar sozinha por alguns minutos! Não imagina o quanto este dia foi
desgastante para mim. Nem sei como consegui suportar tanto tempo e…
— Pois o dia ainda não terminou, cara! Você suportou o anel em sua mão esquerda, as
bênçãos do padre e a assinatura do casamento civil. Agora, goste ou não, somos marido e
mulher. Não há nada além da morte que possa nos separar!
— É... é sobre isso que gostaria de conversar. Esta situação é insustentável, Renzo! Nós
dois nunca deveríamos ter casado… você ainda ama Angélica, apesar de tudo, seria imoral
se eu e você... se nós…
— Continue, Geórgia. Diga exatamente o que está pensando! Não banque a pura e tímida
donzela pois somos ambos adultos e sabemos muito bem o que acontece na noite de
núpcias. Aliás, esta noite promete ser diferente de todas as outras.
Geórgia tremeu ao notar-lhe o tom carregado de malícia e encarou-o como se o visse pela
primeira vez.
Com o robe de veludo verde, Renzo perdia o ar formal e polido, transformando-se num
deus pagão cuja sensualidade era clara e inegável. Como poderia resistir a um homem forte
e disposto a forçá-la? Como escapar à mente vingativa que decidira usá-la dos modos mais
sórdidos, possuindo-a com um desejo nascido do ódio, sem a menor parcela de amor?

— Por favor, Renzo! Para que continuar esta farsa absurda? — Quase em lágrimas, Geórgia
recuava como se estivesse diante de um animal selvagem.
— Já conseguiu o seu objetivo… Colocou uma barreira intransponível entre você e
Angélica, caso ela tente voltar. Por que ir às últimas conseqüências?
— Ora, quando você aceitou meu pedido de casamento, sabia muito bem que eu iria exigir
o uso de seu corpo. Se tinha tanto medo desta última… "conseqüência", devia ter recusado
há muito tempo, agora é tarde demais. E cuidado com o próximo passo para trás ou
derrubará o belo vaso na mesinha às suas costas!
Geórgia virou-se para olhar e Renzo, como um felino ágil, aproveitou o momento de
desatenção e prendeu-a num abraço.
— Cara mia… desista de lutar contra mim, não tem condições de vencer! Fugiu hoje do
hotel sem ao menos levar a bolsa, o que me poupou o trabalho de segui-la. Não poderia ir a
parte alguma sem dinheiro ou documentos, portanto esperei a sua volta sem qualquer
preocupação.
— Voltei com esperanças de que pudéssemos discutir racionalmente sobre o nosso
casamento. — Geórgia lutava para escapar dos braços que a prendiam, como um círculo de
ferro, mas em vão. Os ternos clássicos e o uso da bengala disfarçavam um corpo musculoso
e atlético, capaz de subjugá-la sem esforço algum. Se não o convencesse a manter um
casamento apenas de aparências, seria tomada à força! — Somos muito diferentes, Renzo,
não existe nem uma sombra de afeição entre nós! Não sou o tipo de mulher à qual está
acostumado; jamais conseguiremos viver em harmonia e…
— Sei muito bem qual é o seu tipo, cara. Uma jovem que não só vivia fora do mundo mas
também o envolvia em fantasias românticas! Quando lhe sobrava algum tempo livre,
enfiava o nariz nos livros de poesia e acreditava num amor ideal e perfeito, não é? Uma
emoção rara que envolve alma e coração, tão espiritual e refinada a ponto de ser o paraíso
na Terra! — Não! Eu não sou romântica assim, mas...
— Então enfrente a verdade! O único paraíso a ser encontrado em vida vem do prazer dos
sentidos, e só saberá quando entregar o seu corpo…
— Não! Prefiro atirar-me da janela! Eu…
Geórgia sentiu as mãos de Renzo deslizando sobre a seda muito fina de seu vestido em
carícias mais íntimas e tentou afastá-lo. O corpo nu, apenas coberto pelo roupão,
amedrontava-a, trazendo uma realidade dolorosa à sua mente.
— Por favor, Renzo, não faça isso! Solte-me…
— Está realmente com medo de mim? Mal posso acreditar que você e Angélica tenham
crescido juntas! Percebi o quanto ficou chocada ao ler aquelas cartas obscenas, mas…
nunca passou pela sua cabeça, nem por um instante, sentir os lábios de um homem
descobrindo os segredos de seu corpo?
— E eu… não sou Angélica! Você quer acreditar que nós duas somos iguais para ter a
sensação de estar casado com ela, mas eu prefiro morrer a deixá-lo me… a permitir que…
— Ah! Que esposa tola e… engraçada! Você tem um senso de humor único, Geórgia! Por
um mero acaso eu sou o seu marido e, como tal, pretendo deliciar-me com o corpo da
minha esposa! Quando eu a vi pela primeira vez percebi um brilho em seu olhar que me
deixou intrigado. Sentiu alguma atração proibida pelo noivo de sua irmã? Se não me
enganei, você me desejou sem o saber, portanto agora poderá libertar suas fantasias
proibidas!
— É mentira! Eu odeio você, sempre odiei e…
Uma dúvida tênue mas perturbadora invadiu Geórgia. Teria mesmo sentido algum desejo
por Renzo há tanto tempo atrás?, pensou. Ela jamais pensara em homem algum, mas a
imagem do italiano atraente e sensual não saíra de sua mente por muito tempo.

— Há uma estranha alquimia entre o ódio e o desejo, cara! Nós dois sabemos disso…
A voz de Renzo se transformava numa melodia sensual e seus lábios tocaram levemente o
rosto de Geórgia.
Em pânico, ela tentou se esquivar da boca possessiva que procurava a sua. Iria se desprezar
até o fim de seus dias se deixasse aquela sensação nova e perturbadora tomar conta dela.
De nada adiantou sua luta pois Renzo já lhe alcançara os lábios e forçava-os a se abrirem,
num beijo dominador e violento que anunciava claramente o seu domínio sobre ela, uma
invasão ao mesmo tempo brutal e perturbadora.
Enquanto ele começava a desabotoar-lhe o vestido sem pressa, Geórgia procurava
desesperadamente uma maneira de destruir aquela barreira de indiferença que o impedia de
vê-la como um ser humano, cujos princípios morais estava destruindo sem a menor
consideração.
Mas Renzo continuava a tocá-la cada segundo com mais ousadia, tirando-lhe a capacidade
de raciocinar com clareza.
— Duas irmãs… uma tão ávida pêlos prazeres da vida, a outra tão indiferente e fria! Ou
será que você criou essa imagem de virgem pura por ter medo de aceitar um temperamento
tão sensual quanto o de Angélica? Que tal provar-lhe que existe um vulcão ardente sob a
aparência puritana e etérea da jovem Geórgia?
— Só estará me provando que precisa de fantasias para se iludir!
— Quem precisa de ilusões diante de uma realidade tão perfeita, cara? Seu corpo é cálido,
feito para ser saboreado…
Paralisada de pânico e prazer, Geórgia sentiu que Renzo a deitava sobre as almofadas do
sofá e abria os últimos botões de seu vestido.
Fitando os seios rijos, mal cobertos pela renda transparente, Renzo soltou um murmúrio
rouco e, num gesto brusco, retirou o último obstáculo que o impedia de tocar a pele muito
alva e sedosa.
Eram seios perfeitos, ainda mais belos do que os de Angélica porque jamais haviam sido
tocados antes por homem algum. O prazer de colar os lábios nos mamilos que se enrijeciam
à espera de seu toque seria maior por saber que era o primeiro. O primeiro a ouvir os
gemidos de prazer e sentir o tremor do desejo incendiando aquela mulher que ainda lutava
para não se entregar ao delírio dos sentidos!
Geórgia viu as mãos morenas e finas cobrirem seus seios e tomarem os delicados botões
entre os dedos, pressionando-os sensualmente. Ela estava perdendo a noção de tudo à sua
volta e revoltou-se contra sua fraqueza. Aquele homem a estava dominando através de
carícias hábeis, sempre dono da situação e surdo aos seus protestos. O que o faria parar?
— Por favor… eu não sou Angélica, você está se iludindo, eu…
— Não quero mais ouvi-la pronunciar este nome! — explodiu Renzo com a voz dura e
amarga.
Não, ela não era aquela mulher sensual e traiçoeira para quem o sexo não passava de uma
mercadoria, um favor a ser dispensado em troca de benefícios!
No entanto, ele só se recuperaria da terrível humilhação que sofrera nas mãos de uma irmã
através da destruição da outra.
Geórgia percebeu o momento em que o toque de Renzo perdeu toda a delicadeza e o
respeito. Lábios quentes sugavam os mamilos sensíveis com avidez e selvageria e ela
sentiu-se submergir numa onda de prazer intenso. Gemidos de paixão escapavam
incontroláveis e o corpo se arqueava contra sua vontade, oferecendo-se sem pudor.
Seus sentidos a haviam traído, mostrando a força que tinham, reprimidos num corpo jovem.
Deixara de lado todos os seus escrúpulos, caindo sem resistência nos braços daquele
homem sensual, desejando apenas perder-se no abismo da paixão. Mostrara-se uma presa
fácil, mesmo sabendo que não era o seu corpo que Renzo acariciava com tanto ardor, não
era ela a fonte de tanto desejo…
Ele beijava e acariciava outra mulher, gemia de prazer por Angélica!
Mas a força do desejo iria arrastá-la para a maior das degradações: oferecer seu corpo a um
homem que não a via como mulher e a possuiria pensando em outra.
— Não, por favor, pare…
O tom de desespero contido na voz suave da mulher em seus braços lembrou-o da
inocência que ele iria destruir. Renzo sentiu um ódio profundo de si próprio e de Geórgia.
Cerrando os dentes no mamilo rosado, ele mordeu-o até ouvir o grito de dor ecoar no
quarto.
O som de sua própria voz fez com que Geórgia reagisse violentamente. Num último
recurso, ela esbofeteou o rosto curvado sobre seu corpo, tentando feri-lo tanto quanto se
sentia magoada por estar sendo usada.
— Você é um selvagem! Afaste-se de mim, não suporto que me toque!
— Sou assim tão insuportável, Geórgia?
— Sim! Disse que me faria sentir o mesmo que minha irmã, não foi? Pois agora eu sei por
que ela agiu daquela maneira. Nós dois sabemos por que ela o deixou para ficar com
Stélvio!
Por alguns segundos, um silêncio absoluto reinou no quarto e Geórgia sentiu apenas a
pressão dos dedos cravados em seu braço aumentar brutalmente.
Finalmente Renzo soltou-a e levantou-se do sofá, indo até a mesinha onde havia uma caixa
de charutos.

Desde que ela chegara ao quarto, Renzo não tinha usado a bengala e parecia andar sem o
menor sinal de defeito em sua perna. Agora, porém, notava-se claramente que ele mancava.
— Está absolutamente certa, cara. Jamais tive a menor dúvida sobre o motivo pelo qual
Angélica preferiu meu irmão. Ela apenas se entrega a homens ricos e de sucesso mas…
— Ë mentira! Você a fez parecer uma… cortesã sem princípios, uma mulher que se oferece
pelo maior preço, e eu jamais acreditarei nisso!
— Não seja mais inocente e ingênua do que é possível, Geórgia! Ela nunca aceitaria um
homem pobre. Seus gostos são caros demais. A única superioridade de Stélvio sobre mim é
que ele não precisa de uma bengala para andar!
Geórgia ficou muda e imóvel diante da violência amarga das palavras de Renzo. Não
poderia supor que seu defeito o perturbasse tanto!
Ele acendeu um charuto e fitou a jovem tremula que tentava se recompor depois de breves
momentos de paixão. O corpo delicado ainda mostrava as marcas de suas carícias e uma
onda de desejo invadiu-o. Já não sabia mais se a queria por vingança ou pela sensualidade
ingênua e sem malícia daquela mulher ainda adormecida para o prazer. Fosse qual fosse o
motivo, não iria deixar-se levar por simpatia ou piedade! Se Geórgia não cedesse,
comportando-se como uma esposa verdadeira, ele a forçaria a submeter-se!
— É melhor vestir-se para o jantar, Geórgia, ou iremos nos atrasar.
— Eu não tenho fome…
— Pois eu estou faminto e não tenho intenções de jantar sozinho! Vá trocar de roupa, a não
ser que prefira trocar o jantar por um encontro mais íntimo e agradável!
— Não! Você sabe muito bem o que eu prefiro…Se tivesse um pingo de decência, me
deixaria ir embora! Não sou um objeto, um brinquedo para seus caprichos…

— Você é minha esposa, Geórgia Talmonte! Como tal, deve-me obediência e respeito. Ou
será que já esqueceu de suas promessas diante do padre? Existem apenas duas opções à sua
espera: ou partilha da cama de seu marido… ou irei até o seu "piedoso" pai e lhe fornecerei
material suficiente para uma dúzia de sermões sobre adultério e conduta pecaminosa! Ele
não me pareceu ser um homem com muita capacidade de perdoar e até mesmo a filha
adorada seria castigada por cometer atos tão vergonhosos, não acha?
— É isso o que mais deseja, não? Quer ver minha irmã tão humilhada quanto você o foi?
Pobre coitado… você gostaria de sentir ódio de Angélica e não consegue!
— Sentir ódio é uma capacidade que você tem por nós dois, cara.
— Ficarei ao seu lado já que não me resta nenhuma outra opção. Mas prepare-se, Renzo
Talmonte! Eu não vou ceder aos seus caprichos sem luta, não sou uma boneca frágil, nem
me dobro facilmente.
— Não mesmo? Pois eu vejo uma mulher delicada, um anjo de olhos azuis... Linda! E
pensar que me casei com uma solteirona tímida, puritana e tive a sorte única de encontrar
uma mulher fogosa e sensual!
Geórgia enrubesceu diante da verdade daquelas palavras. Não havia como negar a sua
reação ao toque de Renzo: ela vibrava ao sentir as mãos fortes acariciando-a com volúpia e
desejava perder-se no tumulto de sensações inebriantes. Sempre ignorava, seu próprio
corpo e pela primeira vez na vida percebia que ansiava pelos carinhos de um homem…
Mas o que Renzo sentia por ela a não ser um desejo físico nascido do ódio?
— Nada poderá nos aproximar, signore! Eu jamais o escolheria para ser meu amigo e…
Uma gargalhada sonora ecoou pela sala.
— Amigo? Queria um esposo… amigo? Você é realmente cômica, cara! No meu país, os
homens escolhem os amigos entre seus companheiros do mesmo sexo. As mulheres não
foram criadas para serem "amigas"! Acho melhor explicar-lhe bem o papel da mulher na
vida de homens como eu. O lugar de uma donna é na cama, dando prazer e carinho ao seu
esposo!
— Esqueceu-se de que está na Inglaterra, signore! Aqui, marido e mulher se completam,
são amantes e amigos! As dedicadas esposas não se limitam a cozinhar ou manter a casa
limpa. Elas participam de uma vida em comum, tem sua vontade própria, enfrentam os
homens num mesmo palco e... muitas vezes os vencem!
— Está insinuando que pretende me enfrentar, donna!
— Talvez…
— Quem sabe é mais excitante ter na minha cama uma esposa combativa e disposta a
vencer do que uma "amiga" suave? Tenho impressão de que nossa noite será muito
estimulante!
Geórgia saiu precipitadamente da sala, prestes a perder o controle. As repetidas menções de
que muito em breve os dois iriam partilhar de uma experiência tão íntima a deixavam
atemorizada e... ansiosa!

CAPITULO V
Os cabelos loiros brilhavam como ouro sob a luz das velas. Geórgia parou de escová-los
para colocar os brincos de brilhantes e safiras. Não era ela a mulher bela e sofisticada
refletida no espelho!
O vestido de seda azul-noite fora escolhido por Renzo e o decote a perturbava por julgá-lo
excessivo. A típica filha do pastor jamais teria usado um traje tão ousado! A curva dos
seios, realçada pelo tecido muito fino, mostrava ainda a marca de carícias, cujas sensações
atordoantes ela não conseguia esquecer.
Um beijo e afagos banais, talvez um fato costumeiro na vida de tantas jovens, tinha sido
uma revelação espantosa para Geórgia. Homem algum tocara seu corpo até Renzo tê-la
tomado nos braços.
Os únicos sinais da terrível situação em que fora envolvida eram uma certa palidez e
olheiras, que tornavam seus olhos ainda maiores. Perdera muito naquele dia fatídico: sua
independência, sua dignidade ao se tornar uma esposa que deve obediência ao marido.
Mas… ainda lhe restava um bem precioso, prestes a ser arrebatado: a sua virgindade.
Arrebatado? Nunca ela tomara consciência com tanta intensidade de seu corpo. A seda
tocando a pele provocava-lhe arrepios e despertava um desejo inconfessável de sentir as
mãos de Renzo a desencadear deliciosas sensações.
Como queria voltar a ser a jovem controlada que passava os dias ocupada por incontáveis
tarefas na casa paroquial!
Essa paz de espírito, porém, não voltaria jamais. Renzo destruíra sua tranqüilidade,
revelando uma faceta de seu temperamento até então sufocada.
Ela se tornara a esposa de Renzo Talmonte e iria viver numa belíssima mansão georgiana
em Hanson Square, uma praça calma e exclusiva, quieta mas a poucos passos do
movimento do Strand. E muito…muito longe da simplicidade rústica do Sussex, onde
Geórgia levara uma vida modesta e sem luxos. Precisava acostumar-se a tanto requinte e
sofisticação.
No entanto, estavam ainda mais distantes da Itália, da terra natal daquele homem que,
embora tivesse se tornado um sucesso em Londres, jamais se afastaria das noções
arraigadas sobre moral, típicas de seu povo. Nem toda a aparência requintada de Renzo
ocultava seus princípios rígidos em relação às mulheres.
Para Geórgia era mais evidente a intolerância de Renzo do que sua beleza máscula, uma
herança de seus antepassados romanos. Embora continuasse a ansiar por Angélica com um
desejo inextinguível, ela se transformara numa mulher indigna e desprezível aos olhos dele.
Ao entregar seu corpo a outros homens, de acordo com a visão de Renzo, passara a ocupar
agora a posição mais ínfima — uma prostituta a vender-se por dinheiro ou prazer! Apesar
de tudo, ele não podia tirá-la de seu coração nem sufocar o desejo de tê-la nos braços…
"Oh, Deus! E eu? O que serei na vida desse homem? Uma substituta para um corpo que ele
já não mais pode tocar?", lamentou-se.
Naquele momento, Renzo entrou no quarto, vindo da saleta, Geórgia recuou até as portas
de veneziana que se abriam para o terraço, temerosa. Não podia deixá-lo chegar mais perto,
a cena interrompida pelo tapa nascido do desespero não podia prosseguir!
Imóvel, ela observou o homem alto e elegante atravessando o quarto apoiado numa bengala
de ébano. Por que razão ele insistia em usá-la sempre que estavam em lugares públicos?
Seria medo de vacilar e cair na frente de desconhecidos?
No entanto, ele andava em segurança quando estavam a sós... Talvez fosse insegurança.
Geórgia não entendia como alguém tão sofisticado e sedutor podia sentir-se inseguro!
Um smoking muito bem cortado realçava os ombros largos e as pernas musculosas e a
camisa branca destacava o rosto moreno, onde os olhos verdes brilhavam como esmeraldas,
tão frios quanto as pedras preciosas de suas abotoaduras de brilhantes.
— Vim ver se já estava pronta para irmos até o restaurante do hotel... ou se tinha decidido
ficar e iniciar mais cedo a nossa noite de prazer.

— Não, eu também estou com fome. Vamos…


— Ótimo! Ainda continua pálida, mas belíssima! Quando a vejo, sinto-me satisfeito por tê-
la arrancado de uma vida sufocante e monótona. Você não foi feita para se ocultar e sim
para brilhar… — murmurou Renzo, retirando um pequeno pacote do bolso e colocando-o
nas mãos de Geórgia.
Em silêncio, ela aceitou o presente; ao abri-lo, porém, soltou uma exclamação de surpresa.
No veludo negro da caixa rebrilhava o colar mais luxuoso que já vira. Safiras e brilhantes
formavam um cordão grosso, de onde pendia uma conta branca e brilhante.
— E-eu preferia que você não me desse presentes… ainda mais jóias. Não sou do tipo de
usá-las com graça e…
— Sinto prazer em dar presentes e... deixe-me colocá-lo — disse ele retirando-lhe o colar
das mãos e prendendo-o no pescoço esguio e delicado. — Você fará o papel de minha
esposa até nos menores detalhes, cara, mesmo revoltada e sem vontade. Dei-lhe o roteiro
completo naquela tarde de sol entre as roseiras da casa paroquial e, hoje de manhã, você
recitou as suas linhas quase com perfeição diante das centenas de convidados. Creio que
chegou a convencer a todos!
— Duvido muito! Bruce Clayton ao menos não se iludiu…
— O que ele lhe disse? — perguntou Renzo segurando o queixo delicado com violência e
obrigando-a a encará-lo.
— Foi apenas gentil comigo e achou que eu parecia relutante.
— Verdade? Preste bem atenção, donna, eu valorizo demais a nossa amizade. Faça o
possível e o impossível para que esse laço não seja destruído.
— Não entendo…
— Oh! Você entende e muito, Geórgia! Quando voltarmos para Londres iremos encontrá-lo
com muita freqüência.
— Tem medo de que eu aja como Angélica? — perguntou ela, tomada de ódio. Algum dia
seria vista como uma pessoa? Renzo a olharia sem ver apenas a outra? Se ao menos
pudesse ter certeza de não estar sendo constantemente comparada com a irmã! — Vou
avisá-la apenas uma vez para que você não tenha a desculpa de ignorar a minha visão das
coisas. Se eu perceber que está encorajando as atenções de outro homem, tornando-me
ridículo e motivo de zombaria diante da sociedade, juro que se arrependerá de ter nascido,
donna
— E como sabe se já não estou me sentindo assim? Ignoro o que realmente quer de mim,
Renzo, porém eu vou lhe dar um aviso agora: jamais conseguirá me comprar com jóias
caras. Sempre preferi flores dadas com amor!
— Isso foi no passado. Aos poucos você se sentirá igualzinha a todas as mulheres, poderá
ser comprada!
Renzo, que não a soltara ainda, afastou-se e admirou a beleza esguia e a elegância de
Geórgia. O tom do vestido realçava o azul dos olhos imensos, muito mais bonitos que os da
irmã.
— Se as pessoas de Duncton pudessem vê-la agora, não acreditariam. Você não tem meios
de negar-me o prazer de olhá-la, donna bella.
Ele estava vendo uma mulher bonita ou apenas a imagem que criara para substituir a
criatura infiel que, apesar de desprezar, não conseguia esquecer?
Cada momento ao lado daquele homem aumentava o ódio de Geórgia! Ela não queria ser
vista como um reflexo da irmã. Era uma criatura diferente, com valores próprios, e
recusava-se a ser comprada com jóias ou lisonjas!
— Dispenso os seus elogios, Renzo! São falsos, a sua sinceridade é uma qualidade que
você desconhece!
— Grazie, donna bella… Sente algum prazer em usar esses lábios macios e tentadores
apenas para dizer palavras duras e ofensivas? Mas… não importa, quem sabe a magia do
vinho a torne mais doce e sensível aos meus desejos?
— Nunca! Nem mesmo uma adega inteira seria capaz de mudar minha opinião!

Impulsivamente, Geórgia saiu do quarto e, depois de atravessar a saleta, dirigiu-se à escada.


Mas parou e voltou até os elevadores, à espera de Renzo. Gostaria de ser tão egoísta e
insensível quanto Angélica. Por que preocupar-se com a dificuldade de Renzo em descer as
escadas? Talvez ele caísse e a deixasse livre para sempre!
Assim que entraram no antigo elevador de ferro trabalhado, ele a segurou pela cintura, num
gesto possessivo destinado a mostrar ao mundo sua supremacia masculina.
Geórgia já não suportava mais o olhar fixo sobre ela, como se quisesse ler seus
pensamentos, nem o sorriso irônico nos lábios bem desenhados. Ele parecia divertir-se
muito com as suas tentativas de agredi-lo! Sem dúvida achava a discussão estimulante e sua
reserva um obstáculo a ser conquistado, um desafio! Pois encontraria uma oponente à
altura!
Renzo deslizava a mão na cintura esguia, tocando levemente os seios rijos. Estava adorando
ver as reações de indignação daquela jovem puritana ao ser acariciada em público. Antes
que ela pudesse esboçar qualquer reação, beijou-a com uma selvageria inesperada,
mergulhando na boca cálida e macia como um conquistador sem escrúpulos. Em muito
pouco tempo, ele a teria como uma gatinha dócil enroscando-se a seus pés à espera de
carícias, dependente de seu amor!

Quando a porta do elevador se abriu, Geórgia lutava para recuperar o controle perdido
diante do beijo violento de Renzo. Quando conseguiria prever as ações daquele homem
incompreensível? Entretanto, nada era mais importante do que manter as aparências diante
de todos!

No imenso salão, mesas redondas rebrilhavam com cristais e pratarias, e os enormes lustres
pendentes do teto iluminavam centenas de hóspedes impecavelmente vestidos.
Era uma visão surgida de um passado glorioso, quando se considerava o Duke's como o
ponto de encontro da elite inglesa. Ao caminhar por entre as mesas, Geórgia sentiu uma
onda de insegurança. Ela não pertencia a esse mundo! Ao seu lado estava um homem
atraente, de maneiras perfeitas, e ninguém poderia imaginar que, sob os trajes elegantes,
escondido atrás da fisionomia máscula, ocultava-se um demônio impiedoso!
Como tinham ficado distantes os dias em que as duas garotas loiras olhavam as luzes
daquele palácio de sonho… Tudo mudara desde aquela época feliz, quando limonada e
castelos na areia simbolizavam o mais completo dos prazeres!
O reverendo Norman era então um homem alegre e cheio de entusiasmo, apaixonado pela
bela e jovem esposa. Tinha sido a morte daquela mulher encantadora o motivo da
transformação de seu pai num indivíduo duro e sem condescendência para com os que
acreditavam ser possível encontrar a felicidade na Terra. Seu único ponto fraco passara a
ser Angélica. O encanto e a beleza superficiais da moça ocultavam um temperamento
egoísta e disposto a conseguir a realização de todos os seus desejos, não importando os
obstáculos a serem destruídos na sua passagem.
Suspirando, Geórgia abriu o cardápio escrito à mão. A não ser pelo chá da tarde, ela pouco
se alimentara e começava a sentir-se fraca de fome.
— Ë um hotel excelente. Agora sei por que você preferiu vir para cá em vez de conhecer o
sol dourado das Bermudas, Geórgia.

— Oh! Sempre quis conhecer o Duke's por dentro! Desde criança, admirava sua
imponência e os hóspedes que entravam e saíam em seus carros magníficos. Era o tipo de
lugar que despertava a imaginação de pessoas que, como eu, se hospedavam em pensões
modestas. Comenta-se que membros da família real vinham para cá no passado,
misturando-se com artistas famosos, milionários... A maioria dos visitantes de Sandbourne
compra um cartão deste hotel para enviar aos amigos.
— E está à altura do que imaginou, Geórgia?
— Ë muito bonito mas nada se iguala aos sonhos infantis.
Como aquele poderia ser o lugar maravilhoso criado em sua mente se o conhecia na
companhia de um marido que detestava? Por certo Renzo devia ter pago uma fortuna
incalculável pela suíte, mas não era problema dela! Talvez a única maneira de atingi-lo era
fazê-lo gastar rios de dinheiro. O colar de brilhantes e safiras fora comprado na Asprey's,
uma das lojas mais exclusivas e caras de Londres. Mas quem poderia afirmar que ele não
tinha sido escolhido para combinar com a cor dos olhos de Angélica?
O garçom aproximou-se para anotar os pedidos e, depois de muita hesitação, Geórgia
decidiu-se pelo pato com laranja, enquanto Renzo preferiu o rosbife.
— Nossa escolha criou um problema, donna.
— Oh! O vinho?
— Exatamente. Tomaremos branco ou tinto?
— Eu... podíamos pedir um champanhe…
— Ora, ora! A garota inocente da casa paroquial descobriu que tem uma paixão secreta por
champanhe?
— Que tal a Belle Epôque Rosé?
— Não se importa de tomar… um champanhe rosé?
— Não, deve ser deliciosa!

Geórgia vira esse tipo de bebida numa das revistas de moda para a qual Angélica havia
posado. A irmã enviava os números atrasados para o pai pois sabia o quanto ele apreciava
mostrar aos fiéis da paróquia a prova evidente do sucesso da filha adorada.
Ao ouvir o marido discutir em francês com o garçom, Geórgia percebeu o quanto se
mostrara ingênua e sem sofisticação… A "garota da casa paroquial" não sabia comportar-se
em companhia tão requintada nem escolher a bebida certa! Ela tivera essa mesma sensação
quando a irmã voltara para casa depois do primeiro mês em Londres. Angélica adquirira um
verniz de jovem cosmopolita, que contrastava com seus modos simples e suas roupas
modestas. Sem dúvida, elas não tinham nada em comum a não ser a semelhança de traços.
— Quantas línguas você fala, Renzo?
— Várias. Isso a faz sentir-se orgulhosa de seu marido?
— Não me causa surpresa alguma… apenas o torna ainda mais perigoso. Para um homem
esclarecido e conhecedor do mundo é ainda mais incompreensível a sua necessidade de
vingança maquiavélica!
— Você me julga mal, cara. Sou um homem comum…
— Oh, não! Você me faz recordar os aventureiros cruéis da época dos Médici. Homens
orgulhosos e enigmáticos mas sem coração, dispostos a matar para atingir seus objetivos.
— Por certo não me acredita capaz de tentar apunhalá-la pelas costas, não é?
— Já o fez quando me obrigou a aceitar esta farsa absurda e cruel! Sei que é inútil discutir
racionalmente com você, pois fará o impossível a fim de saciar a sua sede de justiça, mas…
nunca passou pela sua cabeça que eu também gostaria de ser tratada com retidão? Não
sentiu a consciência doer por ter destruído minha família, Renzo?
— E você não sentiu um impulso de gratidão por ter sido salva de uma escravidão sem
fim? Alguma vez seu pai lhe agradeceu pelas horas de trabalho pesado, Geórgia? Mostrou-
se reconhecido por sua dedicação total? Pois eu duvido que ele a tenha notado a não ser no
dia em que alguém tentou roubar a filha apagada, cuja tarefa era tornar-lhe a vida mais
fácil!
— Com que direito você ousa julgar os meus sentimentos ou os de meu pai? Até a sua
chegada, vivíamos felizes e nos entendíamos muito bem. Foi a sua interferência a causa de
um desentendimento lamentável.
— É lógico que ele não reclamava! Você se matava de trabalhar sem nunca se queixar,
fazendo o papel de criada enquanto sua irmã recebia os louvores e era considerada a
perfeição da família. Seu coração é mole demais, cara.
— Em relação a você, Renzo, meu coração é feito de pedra! — murmurou Geórgia lutando
contra as lágrimas. Seria a humilhação mais arrasadora se ela desatasse a chorar em pleno
salão de jantar. E como Renzo se divertiria!
— Um coração de pedra… Acredite em mim, cara, eu sei perfeitamente como dói! Por
acaso imagina que não sofri terrivelmente quando minha cunhada mostrou-me as cartas de
Angélica? A mulher que eu amava declarando uma paixão devastadora… e logo a quem?
Ao meu irmão Stélvio! Aquele imbecil devia tê-las queimado, mas por certo não conseguiu
resistir à tentação de reler páginas tão… excitantes! Pelo menos não podia guardar
documentos de tal importância em sua própria casa, onde Mônica as encontraria por acaso.
Mas o amor nos torna cegos… cegos e idiotas!
— Reconheço que você se magoou profundamente, porém eu não o feri, não sou culpada
do seu sofrimento. Por que arrastar-me para o meio de tanta traição e dor?
— Sossegue, Geórgia! Não sou um discípulo do Marquês de Sade, não tenho intenções de
torturá-la, muito pelo contrário!

— Eu jamais leio pornografia!


— Ah! Você leu as cartas de Angélica, lembra-se?
— Oh! Deus! Como pode ser tão cruel?
— Não me considero cruel, Geórgia. A vingança, embora maldosa, é um impulso bastante
natural.
— Seria assim se você estivesse maltratando Angélica. Mas sou eu a vítima de seus
impulsos maldosos!
— Dio! E quando a tratei com maldade ou grosseria, donna! Minhas mãos a tocaram
apenas para sentir a maciez de sua pele aveludada, não para agredi-la…
— É... é exatamente isso…
— Como? Seja sincera! Quando a toco, sente-se agredida? Ou não sente nada?
— Eu... não…
— Tive em meus braços uma jovem sem experiência, ansiando por conhecer os prazeres do
sexo. Você vibrou quando eu a beijei e por pouco não se entregou no sofá! Qual é o
problema de soltar os seus desejos ocultos e deixar-se levar pelo delírio dos sentidos? O
homem ao seu lado é também o seu marido... Qual a grande dificuldade?
— E o amor?
— Santo Dio! Não posso acreditar que você viva no mesmo mundo das outras mulheres!
Acho que o tempo parou em Duncton e tenho diante de mim a última das virgens na face da
Terra!
— Você… — Geórgia corou e mal podia falar, tal a sua indignação. — Você parece aqueles
selvagens que raptavam as Sabinas, um bruto sem moral…
— Ao menos minha esposa conhece bastante História. Em menos de vinte e quatro horas, já
lembrou de todos os piores bandidos para comparar com o seu marido!
— Um marido… com um coração de pedra!
— E você tem o coração mole demais… Somos um casal equilibrado, cara, bem
combinado, não acha?
— É… como um coelho e uma cascavel!
— Você faz comparações perfeitas, donna mia!
Com um sorriso irônico, Geórgia concentrou sua atenção na comida deliciosa que fora
servida há poucos instantes. O champanhe era excelente e seu copo mantinha-se cheio por
obra de um garçom atencioso. Ela jamais bebera tanto em toda a sua vida, nem comera com
tanto apetite. Se o excesso a deixasse indisposta, pagaria de bom grado esse preço para
escapar das intenções de sedução de Renzo quando voltassem a ficar completamente sós!
— A comida está do seu gosto, Geórgia?
— Excelente!
— Percebe-se que seu apetite é…saudável!
Geórgia sentiu-se embaraçada pelo sorriso malicioso de Renzo. Realmente ela comera
como se estivesse em jejum há semanas! Mas Sandbourne sempre abria o seu apetite e o
passeio solitário pela praia ajudara a aumentá-lo. Ah! As resoluções tomadas durante a
caminhada tinham sido ignoradas por Renzo! Para fugir ao olhar penetrante do marido ela
examinou com atenção os outros hóspedes do hotel.
Quantas mulheres elegantes… e todas pareciam à vontade e seguras em meio ao fausto e ao
luxo que as circundavam. Será que elas alguma vez questionavam o seu direito de receber
tanta atenção? Sentiam-se merecedoras do trabalho exaustivo dos criados que preparavam
pratos perfeitos e os serviam com amabilidade?, pensou desanimada.
Geórgia não conseguia identificar-se com aquelas pessoas, apesar de estar tão ricamente
vestida e com jóias tão fabulosas quanto as das outras mulheres. Reconhecia a sua
simplicidade e para ela o imenso salão mais parecia um teatro, onde cada um
desempenhava um papel longamente ensaiado. Só ela parecia não ter decorado as suas
linhas!

Uma risada ecoou no salão e Geórgia a achou tão artificial que sentiu novamente o impulso
de fugir da vida de Renzo Talmonte antes de transformar-se numa criatura vazia, vivendo
apenas para o luxo. Precisava escapar do modelo de mulher no qual ele desejava enquadrá-
la, um ser desprezível que pagava as jóias e as peles com um corpo onde os sentimentos
não existiam.
Renzo percebeu a fisionomia transtornada da jovem e sentiu um surpreendente remorso por
tê-la tirado da tranqüilidade da vida campestre do Sussex.
— Por que está tão absorta, cara?
— Eu pensava em...
— Isso é mais do que claro! Sobre o quê?
— Você admira estas mulheres elegantes e sofisticadas? Sei que é esse o seu mundo mas…
— Que resposta devo lhe dar? Está querendo ser elogiada? Como comparar um botão de
rosa a orquídeas artificiais e sem viço?
— E-então também vê o ar falso delas, como de atores a desempenharem um papel?
— Não foi um grande autor conterrâneo seu quem afirmou que a vida é um palco?
Shakespeare, estou certo?
— Sim… mas será que não entende, Renzo? Jamais terei condições de comportar-me como
a esposa ideal para você! Seu mundo é sofisticado demais, eu não conseguirei tomar conta
de sua casa em Londres… Por favor, deixe-me ir embora! Escolheu a atriz errada para a sua
peça!

— Povero me! Outra vez o mesmo assunto! Já estou ficando saturado de ouvir sempre as
mesmas queixas! Ouça bem, cara! Você teve seis semanas para criar coragem e enfrentar
seu pai, contando-lhe a verdade sobre Angélica. E o que fez? Preferiu mantê-lo na santa
ignorância a respeito da vida pecaminosa de sua filha querida, deixou que ele continuasse a
viver uma mentira! A escolha foi sua! Além disso, seria capaz de voltar àquela vida
provinciana e sem horizontes? Quer continuar a ser tratada como o burro de carga da casa
enquanto sua irmã recebe amor e homenagens pelo brilhantismo de sua "carreira"? Se é este
o seu desejo, Geórgia…como você adora ser punida!
Ela baixou os olhos, chocada pela violência das palavras de Renzo, que, no fundo,
revelavam uma grande verdade. Tivera realmente mais de um mês para contar tudo ao
reverendo Norman… e não o fizera! A cada manhã tentava reunir forças e, a cada noite,
deitava-se e passava horas acordada, perturbada por não encontrar uma solução para o seu
dilema. Não podia submetê-lo à tortura de ler aquelas cartas sórdidas onde Angélica
descrevia com detalhes crus o comportamento do seu amante. Além de citar cada uma das
carícias feitas por Stélvio, num relato pornográfico, repetia inúmeras vezes o fato de ele ser
um homem casado e insistia em que se separasse da mulher e do filho para poderem ficar
juntos.
Para um homem tão religioso quanto o reverendo Norman, cuja visão da vida se baseava na
fidelidade aos votos matrimoniais, o fato de sua filha adorada ter destruído um casamento
seria um choque brutal!
— Pelo amor de Deus, não chore, cara! Todos os homens no salão a olham embevecidos e
irão julgar-me um selvagem grosseiro por maltratá-la!
— E terão toda razão! No entanto, não se preocupe! Jamais terá o prazer de ver minhas
lágrimas! E... poupe-me a sua ironia, Renzo!
— Eu… irônico? Você está sonhando! — Não sou tão simplória assim, a ponto de não
perceber quando alguém está se divertindo às minhas custas! Há um duplo sentido em tudo
o que diz... Nós temos um ditado no campo, sabe? "Nunca acredite num homem de cabelos
negros como a noite!"
— E no meu país costuma-se dizer que não é aconselhável colher frutas verdes. Talvez eu
devesse ter esperado que você amadurecesse antes de... colhê-la!
— Como assim? Não entendo.
— Céus! Se não compreende é ainda mais imatura do que eu julgava.
Apesar de sua ingenuidade, Geórgia não pudera deixar de entender o significado oculto
daquelas palavras. Renzo jamais recuaria, por mais que ela implorasse! Nada o faria
renunciar ao prazer de sua vingança.
— Escolha os ditados que quiser, Renzo... eu sei muito bem o que quer!
— Por acaso imagina que eu esteja irremediavelmente preso ao seu encanto, cara? Acredita
que não possa resistir ao seu charme?
— Você é incapaz de resistir ao desejo de recuperar cada centavo que investiu em mim!
Quer recebê-los de volta!
— Que visão mais mercenária! Eu a julgava uma jovem idealista, distante do materialismo
do mundo, mas vejo que me enganei!
— Não sou "mercenária"! Esquece-se de que passei toda a minha vida tentando subsistir
com o reduzido salário de meu pai? Quando os paroquianos nos davam de presente um
frango ou ovos, era uma verdadeira festa.
— Deve ter sido muito duro, não? Sinceramente, lamento as dificuldades pelas quais
passou, eu também não…

— Você não imaginará jamais o que é uma vida onde é preciso contar cada centavo! Apesar
de sua família ter perdido a fortuna, havia um fundo que o ajudou a terminar os estudos…
Não foi isso que me contou? Eu mal tinha tempo para fazer os deveres da escola depois da
morte de minha mãe! Se alguém não tomasse as rédeas da casa, tudo se tornaria um caos
insuportável. Veja bem, não estou me queixando! Nunca tive o temperamento ambicioso de
Angélica e me bastava saber o quanto eu era necessária a todos.
— Será essa a sua maior mágoa agora, cara! Perdeu a única razão de sua vida?
A fisionomia enigmática de Renzo não revelava se suas palavras eram como sempre
irônicas ou se ele começava a enxergá-la como uma pessoa muito diferente da irmã.
Mas, antes que pudesse descobrir as intenções de seu marido, o garçom chegou com o
restante do jantar. Um rapaz, quase um garoto ainda, que o ajudava, não tirava os olhos do
decote de Geórgia, como se estivesse hipnotizado pelo brilho do colar.
Geórgia sentia-se tão insegura e pouco à vontade naquele ambiente que não parecia notar os
olhares admirados de todos os homens no salão do jantar. Considerou o comentário de
Renzo, sobre o efeito causado por ela nos outros, como mais uma prova de que ele
acreditava estar sempre com Angélica, o centro de todas as atenções. Aliás, sua irmã
aceitava esses tributos como uma obrigação e ela jamais poderia ser tão atraente!
Se Renzo esquecesse por algum tempo sua obsessão pela mulher fascinante que o traíra,
veria Geórgia como realmente era: uma jovem imatura e inexperiente, para quem ser
possuída sem amor significava uma degradação tão grande como vender seu corpo por
dinheiro!
A voz grave e melodiosa de Renzo interrompeu seus pensamentos, a cada minuto mais
angustiantes. O jantar chegava ao fim e logo não haveria no mundo nada que evitasse seu
aviltamento.
— Se eu sugerir que façamos um brinde ao nosso futuro, irá julgar-me sarcástico e irônico?

— Haverá um futuro para nós, Renzo? Que espécie de vida devemos esperar?
— Como você gostaria que fosse?
— Bem… não sei... muito depende de você, não acha?
— Por tudo que disse até agora deduzo que prefere ser considerada um enfeite em minha
casa e jamais uma… propriedade minha, estou certo?
— Pelo menos poderia tratar-me como uma hóspede…
— Santo Dio! O que pensariam os meus criados se a signora Talmonte agisse como uma
visitante temporária? Vai precisar ao menos fingir que vivemos juntos…
— Quer dizer que irá aceitar essa farsa de casamento apenas como uma barreira no caso de
Angélica tentar uma reconciliação? Não me obrigará a...
— Seria absurdamente ridículo forçá-la a me aceitar, cara. Eu a estaria violentando se
agisse assim. Além disso, pode imaginar uma cena tão grotesca quanto um aleijado
correndo atrás de uma noiva apavorada por entre os móveis do quarto?
— Por favor, não gosto quando você usa essa palavra, eu...
— Que palavra? Violentar?
— Não, minha sensibilidade não é tão exagerada assim. — Geórgia evitou o olhar
penetrante de Renzo, sem coragem de encará-lo.
— Você não é um aleijado. O defeito de sua perna quase não se percebe e a maioria das
pessoas vê a bengala como parte de sua elegância clássica.
Ela se surpreendeu com o silêncio de Renzo, que concentrava toda a sua atenção no jantar.
Tinha imaginado receber uma resposta ferina e ele não fizera comentário algum sobre suas
palavras. Aquele homem era um enigma indecifrável, não havia como prever as suas
reações.
Mas sua maior surpresa foi saber que não seria obrigada a partilhar com ele atos sobre os
quais sofria só em pensar! Ele afirmara que não a forçaria a entregar-se e Geórgia apreciou-
o com outros olhos. Talvez conseguissem estabelecer um relacionamento amigável, sem
exigências da parte de nenhum deles; talvez o casamento não se tornasse uma tragédia
irremediável. Cheia de esperanças, ela admirou o desembaraço daquele homem num
ambiente tão requintado, e decidiu olhá-lo como um tutor, um amigo que a ensinaria a viver
entre tanto luxo!

CAPITULO VI
A melodia alegre vinda do magnífico salão de baile ecoava no estado de espírito de
Geórgia, muito mais aliviada e feliz depois da conversa com Renzo. Saber-se liberada de
cumprir seus deveres de esposa a deixava descontraída e disposta a aproveitar cada
momento naquele hotel fabuloso.
Num impulso, ela segurou o braço do marido e pediu-lhe para apreciarem, ao menos por
alguns minutos, os pares que dançavam.
— Como quiser, donna… se você contentar-se apenas em olhar, pois não poderei ser seu
par.
— Oh! Eu também não sei dançar!
Na verdade, Geórgia já participara de algumas festas no salão paroquial de Duncton, onde,
como filha do vigário, não podia recusar nenhum convite. Mas as modestas instalações de
Sussex não se comparavam ao luxo daquele salão com piso de mármore rosa e imensos
candelabros de cristal refletindo seu brilho sobre os dançarinos.
Renzo conduziu-a a uma das arcadas, que rodeavam todo o aposento e se abriam para o
terraço, até uma mesa de onde podiam apreciar as belas mulheres e seus elegantes
cavalheiros deslizando ao som de um excelente conjunto.
Geórgia sentia-se livre de todas as preocupações que a haviam atormentado por tantas
semanas, e disposta a conversar com aquele homem cuja aparência exterior era de polidez e
extrema firmeza.
— É como se o tempo tivesse parado durante o reinado de George V... Tenho a impressão
de pertencer àquela época requintada e sem as pressões da vida moderna!
— Só que a música não é uma valsa. Estão tocando uma balada de Jerome Kern, um dos
compositores mais populares que já houve!
— Você conhece muito sobre música, não?
— É a minha profissão, cara.

Ele desviou o olhar em busca de um garçom para pedir-lhe um conhaque e Geórgia


admirou novamente o desembaraço e a perfeição do comportamento social de Renzo. Até
mesmo a perna, seu único defeito visível, não destoava em seus modos elegantes.
Mas como teria ficado a perna depois do acidente em que os ossos se haviam quebrado? O
cirurgião quisera amputá-la mas a mãe de Renzo não o permitira. Subitamente ela desejou
saber mais sobre essa senhora corajosa que enfrentara uma luta árdua ao lado do filho até
sua completa reabilitação. Seria viva ainda? Onde morava? Entretanto, se o marido não
julgara necessário tocar nesse assunto, sua curiosidade poderia ser mal interpretada. A
situação entre eles era tão delicada que ela deveria se ater apenas a temas neutros.
— Conhece esta música, Renzo?
— Chama-se Fine Romance, bem apropriada à nossa situação, não concorda?
— Bem, não sei...
— Então a minha puritana esposa não ouve nem rádio?
— Quase nunca… O nosso quebrou e meu pai sempre se esquecia de mandá-lo para o
conserto.
— A letra é bastante significativa. Trata-se de um romance frustrado. Não há abraços ou
beijos e o rapaz queixa-se de sua namorada, que permanece tão fria quanto uma manhã de
inverno e é excitante como um jogo de gamão com sua tia solteirona de setenta anos. A
moça não reage nem a carícias nem a provocações. Enfim... o romance não tem chance!
— Exatamente como o nosso?
—- Sem dúvida, cara!
O garçom aproximou-se para servir-lhes o conhaque e, tão logo a música recomeçou, um
rapaz aproximou-se da mesa deles com um sorriso nos lábios.
— O senhor permitiria que eu dançasse com a jovem?
— Oh! Eu não sei dançar…

— É muito fácil, eu lhe ensino em dois minutos.


— Por que não tenta, Geórgia? — murmurou Renzo com um olhar irônico. — Aproveite a
música, não vai querer ficar a noite toda sentada ao meu lado.
— Mas…
— Vamos! Eu não aceitarei uma negativa! O conjunto é excepcional e logo você estará
deslizando nessa pista de mármore como se fosse uma bailarina — afirmou o rapaz
segurando-a pela mão para ajudá-la a levantar-se.
— Tem certeza, Renzo? Eu... — Geórgia morria de vontade de dançar mas não lhe parecia
justo abandonar o marido, que apenas não a acompanhava devido ao seu defeito.
Antes que Renzo pudesse responder, o jovem puxou-a em direção à pista com um ar
satisfeito.
Geórgia deixou-se levar pela música. Sempre adorara dançar mas seus parceiros tinham
sido conhecidos de longa data. Pessoas simples e sem malícia, que nunca a haviam apertado
tanto em seus braços! Tímida e envergonhada, ela tentou afastar-se do corpo másculo que
se colava ao seu.
— Ora, ora! Por que me disse que não sabia dançar? Você é esplêndida! Foi para não ferir
os sentimentos de seu amigo? Eu os vi entrando no salão… ele usa uma bengala, não é?
— Sim... e ele não é meu amigo. Somos casados.
— O quê? Está brincando!
— E por que não?
— Bem, ele parece um pouco mais velho do que você, mas isso não seria nada de
excepcional, porém… é um estrangeiro! Nota-se imediatamente que não é inglês e, além
disso, não se comporta como um marido amoroso. Se fosse assim, não a teria deixado
dançar comigo.
— Há muitos tipos de casamentos…
— Sem dúvida! — O rapaz fitou com arrogância as jóias de Geórgia e declarou num tom
insolente: — Ele deve ser muito rico!
— Não me casei por dinheiro!
— Então qual foi o motivo tão fascinante que a levou a aceitar um homem com essa
aparência autoritária?
— Você é curioso demais.
— Lógico que sim! Vejo sempre os seus retratos nas capas das revistas e mal pude acreditar
nos meus olhos quando a reconheci no salão de jantar!
As palavras do rapaz provocaram um impacto tão grande em Geórgia que ela perdeu o
ritmo.
— Desculpe-me, acho que pisei no seu pé.
— Não foi nada. Espere até eu contar aos meus amigos que dancei com Angélica Norman!
Eles vão se morder de raiva! Acho que não vou mencionar o fato de você ter um marido…
Geórgia não se deu ao trabalho de explicar a verdade. O vestido sofisticado e as jóias
valiosas aumentavam sua semelhança com a modelo famosa. Este fato a deprimia
intensamente, pois provava que nem Renzo nem este rapaz a viam como uma mulher bonita
ou com qualidades próprias. Ela não passava de um reflexo, uma sombra, uma cópia
vulgar!
Mas os seus aborrecimentos ainda não haviam terminado. Com um sorriso insultuoso, o
rapaz aproximou ainda mais o rosto do seu.
— Tenho uma perguntinha bem íntima a fazer... É verdade que você apareceu num filme
pornográfico? Um amigo meu jura tê-la visto e disse que nunca assistiu a cenas tão
"quentes".
Por alguns segundos, Geórgia não absorveu a verdade. Subitamente, o significado daquele
comentário a atingiu como uma bofetada! À sua volta, o salão e as luzes começaram a girar
com uma velocidade incrível e, involuntariamente, ela agarrou-se ao ombro de seu par a
fim de não cair.
O jovem, convencido e arrogante, interpretou a pressão das mãos de Geórgia como um
convite e a apertou mais contra si, colando o rosto ao dela.

Esse tipo de intimidade provocou uma sensação de repulsa violenta em Geórgia.


Empurrando-o com violência, ela tentou recuperar uma aparência calma, mas o choque
tinha sido grande demais. Gostaria de negar, de acusá-lo de mentiroso, mas, depois de ter
lido as cartas da irmã, nada lhe parecia impossível! Já não tinha mais certeza de conhecer a
verdadeira personalidade de Angélica, a mulher sem moral que se escondia atrás de uma
fisionomia angelical e pura.
Nesse momento a música parou e ela sentiu um alívio enorme. Afastando-se de seu par, só
queria fugir para algum lugar tranqüilo e recuperar-se da revelação chocante.
— Não vai dançar a próxima…
— Não! Eu…
— Ah! É esse o segredo que está escondendo de seu "maridinho" milionário? Ele não sabe
nada sobre os filmes de décima categoria em que você apareceu?
— Afaste-se de mim!
— Mesmo sem saber, ele deve estar se deliciando com sua experiência! Pelo que me
disseram, você mostrou-se uma perita na arte de satisfazer um homem! Eu...
Geórgia não queria ouvir mais nada e saiu desesperada do salão à procura de Renzo.
Ela não poderia saber como seus olhos revelavam toda a angústia e o desamparo de
encontrar-se sozinha, depois daquela cena desagradável. Mas uma senhora que a notara
desde a hora do chá e sentara-se na mesa ao lado do casal durante o jantar aproximou-se
dela com pena.
— Está procurando o seu marido, não é? Eu o vi entrar no salão de jogos…
— O-obrigada… por avisar-me.
— Não quer tomar um licor comigo? Minha amiga e eu também estamos no hotel, e como
não gostamos de jogar…
— A senhora é muito gentil, mas estou um pouco cansada. Acho que vou deitar-me...
— Realmente sua aparência é de exaustão, querida. Com certeza foi por causa da viagem.
Veio de muito longe, não é? Como seu marido parece italiano, eu julguei…
— Sim… foi a viagem… Boa noite!
Geórgia tinha certeza de que, quando a senhora se reunisse à sua amiga, as duas discutiriam
com avidez o italiano distinto e sofisticado e sua esposa sem atrativos ou refinamento. Pois
que falassem à vontade! Jamais chegariam nem perto da verdade trágica de seu casamento!
Havia um grupo de pessoas à espera do elevador e Geórgia correu até as escadas, incapaz
de suportar por mais tempo os olhares curiosos e penalizados.
Só ao chegar ao refúgio tranqüilo do corredor deserto, lembrou-se de que não tinha a chave
do quarto! Ficara com Renzo, e ele não teria coragem de entrar no salão de jogos.
Para seu alívio a porta abriu-se e a camareira saiu, dando-lhe um sorriso educado.
— Desculpe-me, madame. Eu não imaginava que a senhora fosse recolher-se tão cedo. O
quarto já está pronto.
— Muito obrigada…
Geórgia fechou a porta atrás de si e acendeu os abajures e as velas da saleta para criar um
ambiente acolhedor. Sentia-se enregelada e exausta como se estivesse no fim de suas
forças. Todos os seus problemas pessoais haviam se desvanecido diante da baixeza do
comportamento de Angélica.
Não podia ser verdade! Sua irmã jamais se rebaixaria a tal ponto… Como aceitar que a
filha de um pai amoroso mas severo e rígido em seus princípios se sujeitaria a participar de
filmes sórdidos, exibidos em festas exclusivamente masculinas para o deleite e a cobiça de
um grupo de bêbados?
E se não fosse apenas uma invenção maldosa daquele rapaz insolente? Que tipo de mulher
se despiria diante de uma câmera e praticaria atos além de sua imaginação com homens
estranhos, apenas por dinheiro? questionou-se. 06/09/2006 06:58 Por mais reveladoras que
fossem as cartas de Angélica, ela parecia estar sinceramente apaixonada por Stélvio
Talmonte e as escrevera para serem lidas apenas por ele. Ninguém mais saberia dos
detalhes íntimos descritos com minúcias por uma mulher perdida de amor! Mas os filmes
seriam exibidos ao mundo!
Esgotada, Geórgia deitou-se no sofá para esperar por Renzo. Saberia ele dessas atividades
degradantes de sua ex-noiva? Ela porém jamais teria coragem de denunciar a irmã e muito
menos desencadear a fúria daquele homem de temperamento tempestuoso.
Talvez seu marido ficasse jogando até tarde da noite. Conhecia-o muito pouco para saber se
casara ou não com um jogador.
Com as emoções descontroladas após um dia tão desgastante e cheio de tensão, Geórgia
começou a rir histericamente.
Uma noite de núpcias inacreditável! Ela permanecia sozinha, às voltas com pensamentos
torturantes sobre a mulher que a colocara naquela situação trágica… e seu marido de
apenas dez horas jogava cartas com desconhecidos!
Muito ao longe, Geórgia ouviu o relógio bater dez horas antes de mergulhar num sono
profundo.
Quando Renzo chegou, muito mais tarde, ficou imóvel um longo tempo diante da figura
adormecida no sofá.
Tão parecida com um anjo mas no fundo feita do mesmo material que todas as outras
mulheres: fácil de ser corrompida pelo dinheiro, luxo ou prazer!
Duraria muito pouco tempo esse ar etéreo de flor pura e inocente. Logo a ambição
transformaria os traços doces numa máscara dura e implacável!
Nenhuma mulher merecia um amor verdadeiro…
Renzo lembrava como se fosse ontem o dia em que conhecera Angélica…
Entre a multidão agitada e ruidosa que sempre circulava nos ambientes boêmios, festas,
estréias de filmes ou peças, lançamentos de discos, reuniam-se as mesmas mulheres:
maquiadas com perfeição, cobertas de jóias e vestidas na última moda! Entre tantas figuras
sem brilho ou frescor, ele divisou uma jovem cujas feições doces o faziam lembrar de uma
madona de Boticelli!
Desembaraçada e até mesmo ousada em público, ela comportava-se como uma namorada
meiga e afetuosa na intimidade. Recusava-se terminantemente a permitir carícias mais
sensuais, alegando que precisava ter certeza de ter encontrado o amor verdadeiro.
— Meu comportamento social é ditado pelas obrigações da minha profissão, querido. Onde
já se viu uma manequim tímida e envergonhada? Mas não passa de uma encenação sem a
qual eu perderia meu emprego. Quando estamos a sós tudo muda: posso ser eu mesma, uma
jovem criada na casa paroquial, para quem os hábitos desta cidade depravada são
chocantes.
Encantado por ter encontrado a personificação de seu ideal feminino, ele a cobriu de
presentes caros, sempre surpreendendo-se com o ar quase relutante de Angélica ao recebê-
los.
— Não há necessidade de gastar tanto dinheiro comigo… Eu me contentaria com uma flor!
Apesar de não ser uma italiana, a jovem trouxe-lhe à mente imagens do amanhecer nos
campos da Toscania. Cabelos dourados como o trigo, olhos azuis como o céu puro da
manhã e um frescor inexistente nas fisionomias gastas pêlos prazeres excessivos da vida
londrina.
Ele se considerava um homem cínico, incapaz de se envolver por ardis femininos, mas
todas as barreiras que erguera em torno de si ruíram facilmente.
Com uma capacidade digna de uma grande atriz, Angélica mostrou-se tímida, recatada e ao
mesmo tempo brilhante e sedutora. Todos os homens a desejavam mas ela não escolhia
nenhum. Afirmava com convicção que estava se guardando para um grande amor.

"Não vou mentir e dizer que sou virgem, amor. Houve um único homem em minha vida e
eu julguei estar perdidamente apaixonada. Deixei-me levar por juras falsas e perdi o que
tinha de mais precioso, minha pureza", Renzo relembrava.
Até hoje ele não saberia dizer quando ou como percebera um brilho de ambição naquele
olhar aparentemente tão puro. Mas, aos poucos, pequenos descuidos foram revelando uma
alma não tão doce quanto seria de se esperar.
Talvez tivesse sido logo após pedi-la em casamento, quando pudera pela primeira vez tocar
o corpo que o enlouquecia há meses!
No instante em que Angélica abriu a caixinha de veludo negro onde rebrilhava um brilhante
quadrado, que a maioria das mulheres só via nas vitrinas das joalherias, ela mudou. A
recusa categórica de ceder aos avanços amorosos dos namorados caíram por terra diante de
um "noivo".
E a mulher inexperiente que se entregara a um único homem revelou-se uma amante
sensual e sem qualquer vestígio de timidez.
O abandono às suas carícias foi tão grande que ele, embora fascinado e preso pelo prazer
provocado por Angélica, sentiu a primeira dúvida.
Torturado pela incerteza, observava cada sorriso e cada gesto daquela mulher que tinha o
dom de conquistar os homens. E dia a dia suas suspeitas se avolumavam.
À medida que Angélica sentia-se mais segura em relação ao casamento, cada dia mais
próximo, sua doçura se transformava em ambição e sua pureza se esvaía como fumaça.
Em muito pouco tempo já não mais existia a jovem que o atraíra por sua personalidade
íntegra, mas ainda o prendia a mulher sensual inigualável nos momentos de prazer.
O golpe final naquele romance nascido com base em mentira e dissimulação ocorrera na
ocasião da visita a Florença. Renzo queria apresentar sua noiva à mãe e nessa ocasião
Angélica conheceu Stélvio.

O irmão caçula, apesar de não ter ainda uma situação tão sólida quanto a sua,
impressionou-a muito mais. Com um palazzo em Roma — que não lhe pertencia — e todos
os privilégios de um título de nobreza, era o alvo ideal para as ambições de Angélica.
E aquela jovem adormecida no sofá, com os cabelos louros formando um halo dourado
como o dos anjos barrocos…também não permaneceria pura!
Ele se encarregaria de transformá-la, a faria igual a todas as mulheres, uma cópia da irmã.
Só que jamais a deixaria livre!

CAPITULO VII
Os raios do sol forte atravessaram as venezianas do terraço e acordaram Geórgia, que logo
se assustou por estar num quarto estranho. Imóvel, ela tentou localizar-se, como quem sai
de um sonho agitado e não sabe onde está. Ela adormecera no sofá da saleta. Como
acordara na cama?
Sua mente começou a clarear e ela percebeu, atônita, que estava nua! Alguém a despira
antes de cobri-la com o lençol! Suas roupas jaziam espalhadas sobre uma das cadeiras; o
vestido, o sutiã, as meias…Só uma pessoa poderia ter sido tão ousada: Renzo Talmonte!
Como em resposta a seus pensamentos, a figura alta e atlética surgiu à porta do quarto. Um
estranho atraente mas ameaçador e com todos os direitos de vir até sua cama sem sequer
pedir licença!
— Buongiornol Não vou lhe perguntar se dormiu bem, donna, porque já sei que repousou
bastante. Quando voltei para o quarto ontem, perto das duas horas da manhã, você dormia
como uma pedra e nem percebeu que eu a carreguei para a cama.
— Oh! Então foi você quem…
— Quem mais poderia ter sido? E não me olhe com esse ar de ofendida… Se na minha
idade eu não conhecesse de sobra o mistério das formas de um corpo feminino, seria bem
estranho, não acha? Sua expressão dá a entender que você tem algo a esconder, algum
defeito terrível…
— Devia ter-me acordado… — O rubor cobriu o rosto de Geórgia, embaraçando-a ainda
mais.
— Seria um crime despertar um anjo adormecido. Além disso, não sou tão incapaz quanto
pensa, tenho perfeitas condições de carregar uma mulher, ainda mais sendo leve como
você.
— Eu sei. Nunca me passou pela cabeça. Devo ter adormecido enquanto a camareira
arrumava o quarto. Foi ela quem abriu a porta para mim. Uma senhora avisou-me que você
tinha ido para a sala de jogos e eu não quis perturbá-lo. Dormiu na saleta?
— Sabe muito bem que sim! Não foi assim que combinamos durante o jantar de ontem? Ou
imaginou que eu iria aproveitar-me da pureza de seu sono? Não sou um adolescente
desesperado por sexo nem estou tão ávido assim por seu corpo, embora poucas vezes tenha
visto um tão perfeito.
Geórgia desviou o olhar, embaraçada. As palavras de Renzo despertavam-lhe imagens
perturbadoras. Aquelas mãos morenas, de dedos longos e fortes, tinham retirado a sua
roupa, até mesmo as peças mais íntimas. O sangue correu-lhe agitado nas veias, deixando-a
desnorteada. Tinham sido gestos de um amante…
Ele percebeu o embaraço da jovem e sentiu uma onda de desejo. Quando vira a pele alva
como a neve, lembrara-se de uma deusa nórdica… Seria Geórgia tão fria quanto as geleiras
do norte ou cálida como o sol que banha de ouro as planícies da Itália? Só poderia sabê-lo
de uma única maneira…
Geórgia não esperava o movimento de Renzo, que, aproximando-se da cama, inclinou-se e
tomou-lhe a boca de maneira possessiva. Por mais que sua mente a avisasse para
interromper aquele beijo, ela não reagiu. Uma carícia suave, com a ponta da língua, tentava
entreabrir-lhe os lábios.
Invadida por uma onda de calor, ela permitiu a entrada da língua morna e úmida, numa
exploração sensual dos recônditos misteriosos de sua boca. Tentou ainda protestar, mas o
beijo aprofundou-se, excitante, e Renzo empurrou sua cabeça de encontro ao travesseiro e
puxou os lençóis de cetim.
— Lindos… seios feitos de alabastro... — murmurou ele baixinho, antes de circundar um
dos mamilos excitados com os lábios ávidos.
Uma sensação estranha e desconhecida crescia no âmago de seu ser, e Geórgia, embora
amedrontada, permitiu que Renzo cobrisse de beijos os seios palpitantes.

Perplexo pelo prazer — que o deixava descontrolado como nunca — de tocar o corpo
delicado e inexperiente de Geórgia, ele deslizou a mão sob o lençol e acariciou as pernas
esguias, em busca da parte mais secreta de uma mulher.
O coração de Geórgia quase parou ao perceber que os dedos forte a tocavam com tal
ousadia, numa intimidade jamais imaginada por ela. O choque foi ainda mais brutal por
que, ao mesmo tempo em que se revoltava, desejava entregar-se à onda de prazer que a
arrastava.
Nesse instante, batidas à porta quebraram o feitiço que a envolvera e Geórgia cobriu-se,
envergonhada de sua atitude.
— Deve ser o camareiro trazendo o nosso café da manhã. Pedi para que o servissem no
terraço, já que o dia está lindo.
— Irei daqui a pouco… Gostaria de tomar um banho antes.
— Esteja à vontade, cara — Renzo sorriu com malícia e abriu a porta que dava para o
enorme terraço.
Mais uma vez Geórgia surpreendeu-se com a elasticidade de Renzo em caminhar sem a
ajuda da bengala, que ele jamais dispensava em público, quase como se fosse um
complemento de seu vestuário elegante e clássico. No entanto, quando a deixava de lado,
parecia muito mais jovem e flexível e notava-se claramente a força física e a intensa
masculinidade daquele homem atraente.
Um pensamento proibido cruzou a mente de Geórgia por uma fração de segundos. Angélica
não só agira mal ao traí-lo mas também demonstrava ser muito tola em desprezar um
homem por quem todas as mulheres lutariam para obter atenções!
Mas ela não queria vê-lo assim, precisava continuar a odiá-lo ou se envolveria numa
situação trágica. Renzo amava sua irmã e jamais sentiria nada pela jovem sem atrativos ou
qualquer refinamento. Além disso, não estava gostando nenhum pouco das reações que ele
lhe provocava, obrigando-a a enfrentar aspectos desconhecidos de sua personalidade.
Enrolando-se no lençol, Geórgia entrou no banheiro e ficou alguns minutos admirando o
luxo daquela peça, tão diferente de tudo a que estava acostumada.
Paredes cobertas de espelhos, mármores e toalhas felpudas com o monograma do hotel
bordado em dourado convidavam a permanecer um longo tempo na banheira, ao lado da
qual havia toda espécie de xampus e sais de banho.
Ela passara anos usando um banheiro rústico em que a água jamais ficava realmente quente
e onde as frestas da porta permitiam a passagem de correntes de vento gélidas. Ou a pessoa
se enxugava com toda a rapidez possível ou morria congelada! Os planos para reformá-lo
eram sempre adiados, pois o dinheiro nunca sobrava para luxos. Apesar de dizer que
ganhava fortunas posando como modelo, Angélica vivia pedindo quantias exorbitantes ao
pai que preferia morrer a negar qualquer desejo da filha adorada.
Além disso, o reverendo Norman acreditava piamente na teoria de que o ser humano devia
aprender a viver sem luxos desnecessários! Nunca lhe passara pela cabeça que a visão do
que é supérfluo ou não variava de pessoa para pessoa!
Ao enxugar-se com a aveludada toalha do Duke’s, Geórgia sentia pela primeira vez o
conforto e o prazer proporcionados por certos detalhes que tornavam a vida mais agradável.
Aliás, seu pai se chocaria com tudo que a rodeava! O vestido de cambraia semitransparente,
de alças final e saia esvoaçante, causaria um ataque de fúria no reverendo, acostumado a
vê-la sempre coberta dos pés à cabeça com camisas fechadas e saias austeras.
Até ela estava se sentido ousada demais com aqueles trajes modernos, muito mais
adequados a Angélica, que mostrava seu corpo sem qualquer pudor. Precisou forçar-se a ir
vestida daquela maneira para o terraço, onde Renzo a esperava.
Sempre cortês, ele levantou-se para recebê-la e mostrou em seu olhar toda a admiração que
aquela visão primaveril lhe causava.
— Você está encantadora, donna. Depois de tomarmos o café, gostaria de mostrar-me as
belezas de Sandbourne?
— Seria ótimo! Numa manhã ensolarada como esta, o ideal é caminhar sem destino…
— Se puder suportar a lentidão que o defeito em minha perna irá causar…
— O problema de sua perna não me perturba absolutamente, Renzo.
— Não mesmo? Ontem você deixou bem claro que se importava e muito!
— Você interpretou dessa forma as minhas palavras?
— Não devia tê-lo feito?
— Ah! Eu jamais usaria o seu defeito para atingi-lo. Não ouviu comentário algum da minha
parte sobre sua perna e tudo o que eu disse foi provocado por sua atitude…
— …amorosa? Sua mente puritana revoltou-se contra intimidades, tão banais entre marido
e mulher, mas que em nossa situação considera imorais e pecaminosas?
Geórgia tentou manter uma aparência de calma, pois fora profundamente atingida pela
capacidade de Renzo em analisar seus receios mais profundos. Não devia apenas ao fato de
ter sido criada na casa paroquial ter se tornado uma pessoa idealista. Provavelmente tinha
crescido com idéias elevadas sobre os seres humanos mas, a cada dia, as pessoas mais
próximas a ela vinham mostrando suas fraquezas. Sempre reconhecera falhas na
personalidade de Angélica, pequenos defeitos que o encanto e a vivacidade da irmã
ajudavam a desculpar. Todos desconheciam a verdadeira mulher oculta atrás da máscara
brilhante e sedutora!
E Renzo? Conheceria todas as atividades de Angélica?, pensou. Sem dúvida, seria um golpe
brutal ao seu orgulho se algum dia visse os filmes onde ela se entregava a todo tipo de
atividades sexuais com homens desconhecidos.
Como sempre Renzo parecia ler seus pensamentos.
— Gostou de seu companheiro de ontem, Geórgia?
— Bem… não muito.
— Por acaso ele tentou conquistá-la?
— De certo modo...
— Só há uma maneira de seduzir mulheres, cara.
— Ele… O rapaz julgou que eu fosse Angélica.
— Santo Dio! Há uma certa semelhança, principalmente quando você usa maquilagem e
vestidos luxuosos, mas não é possível confundi-las. Aborreceu-se com esse mal-entendido?
Esclareceu o engano?
— Não… não disse nada. Que diferença faria?
— Você não se importa que a tomem por sua irmã? Não acredito!
— Achei que seria perda de tempo e de esforço! Pouco me importa o que aquele idiota
pense ou não! Detesto esse tipo de rapaz, com todo refinamento resultante da educação
primorosa de uma escola particular, mas que no fundo tem uma mente suja!
— Céus! Você tem opiniões bem definidas sobre esse assunto, não?
— Minhas críticas não foram causadas por ter sido confundida com Angélica. Sempre
julguei que nossas escolas particulares, acessíveis apenas a quem tem muito dinheiro,
produzem um tipo de esnobe sem qualquer qualidade positiva. Eles não se dedicam aos
estudos, mas o fato de terem pertencido a uma escola de prestígio os faz pensar que são
donos do mundo.
— Então não se divertiu ontem à noite… Julguei que apreciasse mais a companhia de um
jovem inglês, criado com os mesmos hábitos que os seus, às minhas atitudes de estrangeiro!
— Ele se mostrou extremamente enfadonho — concluiu Geórgia, concentrando-se no farto
desjejum à sua frente. Em hipótese alguma iria revelar a Renzo que sua opinião sobre o
rapaz tinha se deteriorado ainda mais quando o ouvira mencionar um aspecto revoltante da
vida de Angélica.
Mas o olhar de Renzo não se afastava dela, fazendo-a perder o apetite.
— Seu país é estranho para um italiano acostumado a um clima estável e ensolarado. Aqui
o tempo me surpreende constantemente. Cinzento e úmido num dia e cheio de sol no outro!
Aliás, não é apenas o tempo que revela uma instabilidade imprevisível… As mulheres
também!
Se Renzo não conseguia prever as suas atitudes, não era o único! Ela também já não tinha
mais controle sobre suas reações, agindo como uma mulher desconhecida, aos poucos
perdendo a força do ódio que a consumira para ceder a sentimentos estranhos e… perigosos
demais!
A proximidade daquele homem a perturbava e Geórgia levantou-se da mesinha de junco
onde fora colocado o café. Apoiando os braços no parapeito de pedra do terraço, deliciou-se
com a vista dos jardins do hotel.
A enorme piscina reluzia como uma safira ao sol da manhã, entre gramados extremamente
bem cuidados e canteiros de flores.
— O terraço é enorme!
— Você tinha toda razão ao sugerir que viéssemos passar nossa lua-de-mel em Sandbourne.
Como a vida dá voltas e cria situações inacreditáveis! Geórgia jamais poderia imaginar que
seu sonho infantil de conhecer o Duke's se tornaria realidade. As risadas alegres vindas da
piscina, o sol aquecendo as pedras do parapeito e o homem alto que se levantava da mesa e
vinha postar-se ao seu lado eram a sua vida agora!
O aroma másculo do perfume de Renzo já se tornara tão familiar quanto as nuances daquela
voz grave, ora revelando ódio e desprezo, ora murmurando sensualmente.
— Gostaria de ir à piscina, cara? Eu prefiro nadar no mar, mas se você quiser... — Ao
perceber o ar de surpresa dela, continuou com a voz amarga: — Pareço assim tão incapaz?
— De maneira alguma! Eu apenas ia…
— Fique sabendo que na água eu sou tão normal quanto qualquer outro homem!
— Meu Deus, Renzo! Você tem um complexo profundo a respeito de sua perna, não? No
entanto, eu duvido que tenha deixado de fazer esportes ou qualquer atividade que lhe desse
prazer. Continua a andar a cavalo?
— Tenho dois puros-sangues num estábulo em Londres. Você também morre de medo de
montar, como Angélica?
— Não… eu gosto muito. Estou começando a ficar cansada com essa insistência em me
compararem com ela! Sinto-me como se fosse apenas uma sombra e não uma pessoa com
gostos próprios, medos e ousadias apenas minhas. Desejaria muito…
— Não ser irmã de Angélica?
— Exatamente! Tenho a impressão de estar vivendo a vida dela. Há uma falsidade em
nosso casamento que nada poderá sanar: sou uma substituta da estrela da peça!
— Você é a signora Talmonte! E ela... o que é? A amante daquele idiota do meu irmão, que,
como a maioria dos homens, voltará humilde e arrependido para os braços da esposa tão
logo a excitação da novidade esmorecer. E isso fatalmente acontecerá, sabe? Romances
furtivos têm tendência de perder muito rapidamente o encanto… Além disso, Stélvio é um
católico fervoroso e sua consciência culpada o levará em primeiro lugar a um padre. Vai
sentir um impulso irresistível de pedir perdão pelo mal que causou e, quando receber a
absolvição, correrá de volta à família.
— E acha que a esposa o aceitará?
— Mônica continua apaixonada por aquele patife! As mulheres italianas são muito
compreensivas e amorosas, sabem perdoar os maus passos de seus maridos. Talvez porque
eles sempre voltem para casa arrependidos!
— Mas foi sua cunhada quem lhe mostrou as cartas do marido, não?
— Ah! Mônica o fez apenas porque estava tomada pelo ódio e sofrendo demais… Você
também não se sentiria revoltada numa situação semelhante? Bem, se amasse seu esposo
tanto quanto ela ama Stélvio, é claro.
— Tenho a impressão de que você acha absolutamente normal a mulher aceitar de volta o
homem infiel. No entanto, recusa-se a desculpar Angélica, não é? Por que essa
discriminação?
— A mulher recebeu o dom divino de gerar filhos e, como tal, deve preservar-se. Foi
colocada numa categoria especial como criadora de novas vidas. Quando ela se entrega a
um relacionamento ilícito é o mesmo que… atirar pedras numa igreja!
O tom violento das palavras de Renzo fez com que Geórgia o fitasse e ela surpreendeu-se
ao ver a máscara de ódio transfigurando aquelas feições geralmente frias e controladas.
— Angélica… ifiore delia morte.
— Você… e-está desejando a morte dela?
— Disse apenas que ela me faz lembrar das flores brancas que nós colocamos sobre os
mortos na Itália. Mas pode considerá-la morta para mim!
Geórgia recuou diante da intensidade dos sentimentos de Renzo. Sua vida no pacato
vilarejo de Duncton não a preparara para encontrar pessoas que colocavam tanta emoção
em suas reações.
No verdejante vale do Sussex, os dias corriam tranqüilos e só tempestades que arruinavam
a colheita ou uma vaca que perdia seu bezerrinho alteravam o ritmo dolente e sem
excitações da vida campestre.
Ou será que ela teria vivido isolada do mundo real entre as roseiras e os velhos muros de
pedra da casa paroquial? Procurara não ver a verdade nas pessoas que a rodeavam, todas
extasiadas com os triunfos de Angélica, como se as imperfeições de um caráter cheio de
falhas as deixassem mais à vontade com os seus próprios defeitos?, refletiu.
Porque nem todo o brilho e vivacidade de sua irmã seriam capazes de ocultar seu egoísmo
se alguém quisesse realmente vê-la com olhos críticos!
Pela primeira vez na vida, Geórgia perguntou a si mesma se teria, ainda que sem sabê-lo, se
ressentido com a popularidade da irmã. Tentou lembrar-se de alguma vez em que a tivesse
olhado sem sentir-se fascinada e envolvida pelo encanto irresistível. Não havia ninguém
que escapasse ao fascínio daqueles olhos sedutores, à magia do sorriso envolvente… e
Renzo também não tivera forças para resistir! Só agora, traído e humilhado, ele a via como
uma mulher falsa e sem princípios, mas no início fora conquistado como todos os outros.
Mesmo assim, era difícil acreditar que ele desejasse a morte de uma criatura tão cheia de
entusiasmo e alegria.

CAPITULO VIII
A tarde de verão em que Angélica trouxera seu noivo até Duncton ficara gravada na mente
de Geórgia com uma nitidez surpreendente. Como uma bela pintura, impossível de se
esquecer, ela lembrava a chegada do casal atraente e sofisticado, que tornara a sala sem
luxos da casa paroquial ainda mais deprimente em sua rusticidade.
Angélica era a essência da formosura feminina inglesa: pele alva, faces rosadas, olhos
muito azuis e uma gloriosa cabeleira dourada. E Renzo… parecia um herói romano, cujos
olhos verdes lembravam as águas do Mediterrâneo.
Apenas um detalhe quebrava a perfeição daquele quadro: o defeito de Renzo, que o fazia
mancar levemente, era uma afronta à obsessão de Angélica pela perfeição física.
Talvez naquele dia Geórgia vira nascer um pensamento reprovável a respeito da irmã, e
uma reação instintiva e pouco louvável a fizera desconfiar das intenções verdadeiras de
Angélica. A sensação desagradável de não confiar numa pessoa capaz de colocar a
satisfação de seus desejos acima da felicidade dos outros, sem importar-se em ferir ou não a
quem a rodeava, foi prontamente abafada pelo amor fraternal.
A amargura profunda de Renzo só podia resultar de um amor não correspondido e
igualmente profundo pela fidanzata, muito mais fascinada com o magnífico brilhante
cintilando em sua mão do que com o noivo.
Nos poucos momentos em que as duas irmãs ficaram a sós no quarto, ocupado por elas
desde a infância, Angélica estendeu a mão fina e bem tratada, mostrando o símbolo
concreto de sua vitória.
— Já viu algo mais fabuloso? Esta pedra custa milhões e milhões! Mas Renzo é milionário,
um gasto desses nem o afeta! E sua família tem um título de nobreza na Itália. Me aborrece
bastante o fato de ele não usá-lo aqui na Inglaterra. Eu adoraria ser a Condessa Talmonte!
— Só há um aspecto importante, mana. Você o ama?

— Ai! Para você é apenas o amor que conta, não? Nunca me apaixonaria do mesmo modo
que minha romântica irmãzinha!
— O que quer dizer com isso, Angélica?
— Bem…quando você der seu amor a um homem, se entregará de corpo e alma. Esse tipo
de paixão absoluta já está fora de moda, sabia? Hoje em dia, uma mulher precisa ser, antes
de tudo, prática. Na minha profissão, é importante garantir o futuro enquanto se está no
auge, e eu pretendo viver com muito... muito luxo!
— O seu noivo me pareceu sinceramente apaixonado por você… Isso não a perturba?
— Espero mesmo que ele esteja loucamente preso aos meus encantos! —exclamou
Angélica, sorrindo, sem deixar de se olhar no espelho nem por um minuto, como fizera
desde que tinham entrado no quarto. — Se você soubesse como me esforcei para levá-lo a
pedir-me em casamento! Foi uma luta dura mas venci! Se não fosse aquela perna
defeituosa, ele seria perfeito… Sei que é um homem atraente e que todas as mulheres
dariam alguns anos de sua vida para tê-lo como amante, porém ainda não me conformei
com a impossibilidade de fazê-lo submeter-se a uma operação. Renzo insiste que nada
recuperará a flexibilidade do joelho, no entanto para quem tem tanto dinheiro nada é
impossível.
— Eu nem notei que ele tinha algum defeito...
— Na certa ficou encantada com aqueles olhos verdes e não viu mais nada, não é?
Geórgia lembrava de cada palavra dita entre as paredes do quarto gracioso, onde nada fora
mudado desde que Angélica partira para Londres. Até mesmo a cama da irmã, com a
delicada colcha de babados, permanecera intocada, sempre à espera de uma visita nos fins
de semana.
Infelizmente, a jovem modelo tornara-se logo um sucesso e não tinha tempo para visitar a
família num lugar tão pacato como Duncton. Compromissos importantes impediam sua
vinda; não podia perder contatos valiosos para subir mais em sua carreira. Só quando
decidiu casar-se, trouxe o noivo para conhecê-los, mais uma obrigação do que uma visita
causada por saudades do pai ou da irmã.

Logo depois da partida dos dois, no reluzente carro de Renzo, Geórgia foi ao encontro do
pai, sentado na sala de visitas às escuras. Ela sabia o quanto ele devia estar sofrendo por ver
sua filha predileta prestes a casar-se e a abandonar o lar definitivamente.
Solícita, ela preparou um chá e sentou-se ao lado do reverendo, tentando mostrar-se o mais
à vontade possível.
— O que achou da grande novidade, papai?
— Meu único desejo na vida é ver Angélica feliz. Quero apenas que ela consiga realizar
todos os seus sonhos de garota romântica. Se para isso minha filha adorada precisa casar-se
com um… italiano, aceito de bom grado. Pelo menos escolheu um cavalheiro, um homem
fino e educado.
Como o reverendo Norman mudara sua opinião a respeito de Renzo! No dia em que
Geórgia deixara a casa paroquial para tornar-se uma noiva… de "segunda mão", ouvira
palavras terríveis. O distinto cavalheiro transformou-se num crápula, um oportunista sem
escrúpulos, que, além de roubar-lhe a filha destinada a cuidar de seus anos de velhice, iria
magoar a adorada Angélica!
Durante a viagem de trem até Londres, a chuva tornava a paisagem cinzenta e hostil,
ecoando os pensamentos depressivos de Geórgia, que só via diante de seus olhos a
fisionomia amarga e desdenhosa do pai.
Angélica não tinha o dom de trazer alegria, como todos julgavam, e sim de ferir sem
remorsos!

Geórgia estremeceu ao se lembrar de sua partida de Duncton, e Renzo, julgando-a com frio
colocou o braço sobre os ombros frágeis.
— Seu vestido é muito leve… Não acha melhor pegar um agasalho?
— Não, não é frio, eu estava apenas pensando…
— Sobre o quê?
— Não consegue adivinhar? Você é um perito em ler meus pensamentos!
— Já sei! Acha que deveria ser Angélica a partilhar comigo estes momentos, não é?
— Exatamente!
— Já lhe disse, vezes sem conta, mas você parece não ter compreendido bem, Geórgia! Ela
não tem mais lugar em minha vida! Pode se humilhar, ficar de joelhos implorando para
voltar... Eu não a aceitaria em hipótese alguma. É um caso terminado e enterrado para
sempre!
— Eu tenho minhas dúvidas…
A mão no ombro de Geórgia parecia queimar e a fisionomia de Renzo transformou-se numa
máscara de ódio, ameaçadora e dura. Era a imagem da desigualdade de força entre o
homem e a mulher, uma força intensificada pela súbita onda de fúria.
— Como ousa duvidar de minhas decisões? Mal me conhece e não tem a menor noção do
comportamento masculino. Quem é você senão uma ingênua, criada entre as quatro paredes
de uma casa paroquial, que nem mesmo sabe beijar?
Com um gesto quase brutal, Renzo apertou-a de encontro ao seu peito musculoso,
apoderando-se dos lábios macios e inexperientes. Era um beijo nascido do ódio, selvagem e
possessivo, obrigando-a a ceder à invasão de sua boca.
Geórgia tentou ainda escapar daquele domínio contra o qual não tinha forças para lutar. Ele
perdera a noção de tudo e só queria obrigá-la a se submeter.
— Eu devia tê-la possuído ontem à noite em vez de aceitar seus planos sem sentido. Quem
sabe teria agora em meus braços uma verdadeira mulher, uma donna sensual e ardente, e
não uma pedra de gelo! Vou acabar de uma vez por todas com a puritana e frígida filha do
pastor!

Entre palavras cruéis, Renzo continuava a beijá-la, a cada momento com mais ousadia. Os
lábios ávidos desceram do pescoço esguio para os ombros descobertos em busca das curvas
semi-ocultas pelo decote. Arrebatado por um desejo onde não existia amor, ele desnudou-
lhe os seios e mergulhou o rosto no vale macio e muito alvo.
Subitamente, Renzo afastou-se e fitou a jovem de olhos arregalados e boca tremula.
Controlando-se com dificuldade, desviou o olhar do corpo delicado que ele quisera tomar
com violência.
— A lição foi suficiente, cara? Trate de vestir-se ou os hospedes do terraço vizinho terão a
visão inesquecível de seus seios marcados pela paixão dos meus beijos. Eles nunca
acreditariam que um corpo tão sensual jamais foi tocado antes!
Geórgia não se movia, ainda em choque diante daquela atitude dominadora. Não podia nem
mesmo protestar, pois ele agira apenas como um marido diante de uma esposa relutante. E
aquela onda de sensualidade não a deixara incólume: sentira-se arrastada por emoções
novas e extremamente perturbadoras.
Enquanto Renzo, segurando-lhe a mão, conduzia-a através da suíte em direção aos
elevadores, ela pensava naquelas palavras ditas num momento de fúria. Seria mesmo
frígida e puritana? Sem dúvida estava sendo comparada com Angélica, ardente e
voluptuosa. Teria sido assim que ele a beijava? Mas com sua irmã Renzo fora impulsionado
pelo desejo e não pelo ódio intenso de encontrar apenas a cópia esmaecida de seu amor.
Geórgia chegou até o saguão como se estivesse num sonho confuso. Nada lhe parecia real a
não ser a pressão dos lábios rijos sobre os seus, o corpo atlético colando-se às suas
curvas… A exuberante senhora que na noite anterior a avisara do paradeiro de seu marido
aproximou-se sorridente, trazendo-a bruscamente de volta à realidade.
— Preciso apresentar-me a vocês. Sou a sra. Cartwright e fico feliz por encontrar um casal
tão distinto entre nós, aqui no Duke's. Por sorte, este é um dos únicos hotéis na Inglaterra
onde podemos conviver apenas com pessoas de nossa classe social! Aliás, ele mantém o
mesmo padrão luxuoso desde a época em que vim pela primeira vez em lua-de-mel com
meu finado esposo, e jamais deixei de voltar todos os anos! Ah! Encontrei sua jovem
esposa ontem à noite… Ela lhe contou, não? A pobrezinha parecia completamente
desorientada por não saber onde achá-lo e eu me encarreguei de informá-la sobre sua ida ao
salão de jogos. Ela estava quase chorando…
— Muito obrigada, senhora. Foi muito gentil de sua parte ajudá-la. Como pode notar, eu
não danço, mas achei um desperdício privar minha esposa de divertir-se um pouco.
— Ah! Sua queridinha é muito tímida, signore. Ela dançou apenas uma música e saiu do
salão, ansiosa, à sua procura. Sem dúvida, prefere a sua companhia a qualquer outra. Eu
também era assim quando recém-casada!
Geórgia enrubesceu ante aquelas palavras ditas em voz tão alta que todas as pessoas do
saguão não poderiam deixar de ouvir.
— Não se preocupe, querida! Não contarei a ninguém que vocês estão em lua-de-mel.
Lembro-me muito bem de como eu ficava embaraçada diante dos olhares curiosos dos
outros hóspedes. As pessoas são tão intrometidas, não é verdade?
— Incrivelmente, senhora… Por favor, desculpe-nos mas estamos de saída para um
passeio. Ë minha primeira visita a Sandbourne e estou bastante ansioso por caminhar à
beira-mar.
— Oh! Não deveria ir a pé! Há carruagens cômodas e muito pitorescas à disposição dos
turistas. Precisa poupar sua perna… Eu também tenho um problema de coluna; sei como
são exaustivas longas caminhadas quando se tem um defeito. 06/09/2006 21:28 Geórgia
queria morrer diante da insensibilidade grosseira daquela mulher, mas Renzo aceitou o
comentário sem o menor constrangimento. E, com sua polidez característica, despediu-se
rapidamente, afastando-se do saguão em direção aos jardins.
— Você precisa aprender a não se ferir com insignificâncias, cara. Damas da idade da sra.
Cartwright se julgam no direito de tomarem atitudes de intimidade.
— Ela nos observou desde que chegamos e… eu não estava quase chorando, foi um
exagero!
— Que pena! Começava a sentir-me envaidecido. Por um minuto, acreditei que minha
esposa tinha se desapontado porque não fiquei admirando sua "evolução" na pista de
danças!
— Foi você quem insistiu para que eu dançasse! Na verdade, preferia ficar apenas
apreciando o baile e, se você queria tanto ir jogar, não precisava ter usado um pretexto tão
tolo! Bastava ter-me dito, não tenho a menor intenção de me pôr no seu caminho!
— Não seja petulante só porque ficou embaraçada com as insinuações da sra. Cartwright.
Por que se aborrecer por todos saberem que você é recém-casada e está em viagem de
núpcias? Qual o problema de imaginarem que nos amamos a todo momento? Não é isso
que fazem os casais em lua-de-mel? Ou é o fato de pensar em intimidades conjugais que lhe
causa repulsa?
— É isso mesmo! Sabendo o que eu sei…
— E o que julga saber? — perguntou Renzo, lutando para manter a calma. — Vamos deixar
esta explicação para mais tarde, cara. Agora quero aproveitar a manhã sem lamúrias ou
queixas amargas!
Geórgia não respondeu, fascinada com a família que passava diante deles numa carruagem.
Duas meninas, excitadas com o passeio, riam felizes. Ah! Como seria bom poder fechar os
olhos e voltar àquela época despreocupada, ser outra vez a criança inconsciente dos
problemas que a vida adulta traz!
— Para que lado gostaria de ir, Renzo? À esquerda fica o centro da cidade e, à direita,
Ocean Head, a parte mais agreste de Sandbourne.
— Então vamos para onde não haja essa multidão de turistas com máquinas fotográficas e
sorrisos embevecidos!
— Temos que chegar até a praia e... a escada é íngreme…
— Posso muito bem descê-la sem causar um espetáculo ridículo em público!
— E eu... É muito difícil para mim saber o que você pode ou não fazer… Você já está
acostumado!
— E você logo se acostumará, cara! Em muito pouco tempo, acredite!
Renzo desceu a escadaria íngreme com muito menos dificuldade do que se poderia
imaginar e, juntos, os dois atravessaram um trecho de praia para alcançar o atalho que os
levaria ao Ocean Head, a ponta de pedras mais afastada do movimento.
Um grupo de rapazes disputava uma partida de vôlei. Ao notarem a aproximação do casal,
pararam de jogar para admirar com insolência a jovem loira.
— Quem é a boneca?
— Bem que você gostaria de saber, não?
— Ela é um pedaço de mulher!
Geórgia enrubesceu e olhou para Renzo, a fim de certificar-se de sua reação. Ele porém
permanecia impassível, como se não tivesse ouvido nada!
Sem dúvida, os rapazes a estavam apontando como sendo a modelo que participara de
filmes pornográficos! Muito em breve esse rumor se espalharia pêlos hóspedes do hotel e
ela seria criticada em voz baixa! E um silêncio profundo se faria cada vez que eles
entrassem em qualquer local público!
As mulheres se entreolhariam e, com sorrisos maliciosos, comentariam que seu ar inocente
nunca as convencera. E os homens teriam no olhar a insolência de seu parceiro de dança!
Quando conseguiria apagar a sombra funesta de Angélica Norman?, pensou, angustiada.

Aquele lugar agreste, onde o mar chocava-se contra as rochas num duelo eterno,
despertava-lhe tantas lembranças! Gostaria de partilhar com Renzo recordações agradáveis
de sua infância, mas, ao tocar no passado, colocaria entre eles a imagem da irmã! Ela era
um fantasma constante a destruir os momentos presentes...
Sempre em silêncio, alcançaram um bosque de pinheiros à beira das rochas pré-históricas
onde as gaivotas pousavam, enchendo o ar com seus gritos estridentes.
Geórgia sentia ainda mais a força da personalidade de Renzo quando ele permanecia
calado, talvez pensando em Angélica. Era preciso encontrar um assunto que excluísse sua
presença indesejável.
— Um lugar bonito como este não o inspira a criar novas músicas, Renzo?
— Estou realmente surpreso com essa beleza primitiva. Não imaginava que houvesse,
numa cidade tão freqüentada por turistas, um refúgio ainda intocado pela mão destrutiva
dos homens!
— Poucos se aventuram até aqui... A maioria prefere a agitação dos bares e teatros.
— Ë o paraíso da sua infância, não? Você se recorda de dias dourados com um céu azul sem
nuvens… uma criança livre e sem visões de um futuro complexo. Sem preocupações ou
tristezas, aproveitando apenas o escoar de minutos de sonho.
— Quando fala assim, eu compreendo a sua vocação de compositor. Há sensibilidade nas
palavras como também na melodia.
— Você gosta de música, Geórgia?
— Muito!
— Deixe-me adivinhar… Prefere, acima de tudo, o tema de amor de Romeu e Julieta,
melodias irlandesas tocadas por harpas românticas…
— Se está querendo me colocar na categoria de jovem sentimental, esqueceu-se de Chopin!
— Ah! É lógico! O Sétimo Prelúdio quando seu estado de espírito é de alegria e o Segundo
Noturno nos momentos de enlevo.
— Nunca houve tempo para momentos românticos…
— Mas agora tem todo o tempo do mundo, cara. Renzo parou de caminhar e encostou-se
numa pedra, à espera da resposta de Geórgia.
As gaivotas já haviam partido em revoada e reinava o silêncio, rompido apenas pelo
estourar das ondas. Os pinheiros filtravam os raios do sol que formavam manchas douradas
na relva macia.
Geórgia também parou, inquieta. As palavras dele pareciam ter um significado oculto e
vagamente assustador. O rosto de traços firmes e fascinantes não demonstrava nenhuma
emoção mas os olhos, de um verde intenso, a fitavam como se quisessem hipnotizá-la.
Renzo cerrou os punhos, exasperado. Aquela jovem tremula e ingênua não era Angélica,
mas ele não conseguia abafar o desejo que sentia de apoderar-se de tanta pureza. O sol
transformava os cabelos loiros numa cascata de ouro reluzente e a brisa, agitando o tecido
fino do vestido, moldava as curvas perfeitas.
— Está em suas mãos transformar uma farsa em uma relação satisfatória, donna.
— Mas… nós já decidimos sobre isso ontem à noite… durante o jantar, não foi?
— Sei muito bem sobre o que discutimos ontem! Mas hoje é outro dia e, depois de pensar
muito sobre nossas resoluções, cheguei à conclusão de que não seria possível. Um homem e
uma mulher jamais conseguiriam viver numa mesma casa, ignorando a atração inevitável
do sexo. Somos apenas seres humanos. Talvez fosse melhor iniciarmos um relacionamento
conjugal normal! Uma longa espera poderá trazer resultados bastante desagradáveis para
você, cara. Concorda?
Ela continuava tentando decifrar as intenções de Renzo. Olhou-o sem saber o que
responder.
— Santo Dio! Você não pode ser ingênua a esse ponto!
Num relance, voltou-lhe à mente a cena de momentos atrás, no terraço junto ao quarto.
Renzo a tinha beijado com ardor e a proximidade dos corpos revelara a força do desejo do
homem que a prendera em seus braços. Ele não dissera claramente, mas queria avisá-la de
um lado seu sobre o qual não tinha controle e, por mais inocente que fosse, não devia
ignorar.
Havia se comportado com muita ingenuidade ao acreditar que poderiam discutir
racionalmente as correntes subterrâneas dos impulsos sexuais masculinos à mesa do jantar.
Tinha sido uma tola em imaginar que um homem tão viril quanto Renzo fosse aceitar que
vivessem como frades num convento!
O olhar, a cada instante mais sensual, percorrendo seu corpo, fez Geórgia estremecer.
Imagens que ela sempre abafara vieram à tona. Quais seriam as sensações causadas pelo
corpo de um homem sobre o seu? Como reagiria à invasão de sua intimidade, oferecendo
sem obstáculos a visão de sua nudez? Teria as mesmas emoções arrebatadoras e
apaixonadas que seu amante?, questionou-se.
Envergonhada, Geórgia desviou o olhar antes que Renzo pudesse ler seus pensamentos. Ele
conhecia, através da experiência, o que existia apenas em sua imaginação. Não podia saber
dos terrores profundos de uma jovem que nem ao menos tinha sido beijada até a noite
anterior.
Renzo Talmonte fora apresentado a ela como noivo de Angélica e jamais imaginara nada
além de um beijo na mão, pois seria vergonhoso alimentar fantasias eróticas com seu futuro
cunhado.
No entanto, Geórgia nunca pensara em homem algum em termos de intimidades físicas, e,
quando Renzo a beijara, tinha despertado um lado desconhecido de sua personalidade.

Havia terrores… tantos! O maior deles era ser tomada como se fosse outra mulher; por isso
queria ser o mais diferente possível de Angélica. Onde sua irmã se mostrara sensual e
ardente, ela precisava ser fria e distante. Mas, ao ser envolvida pêlos braços daquele
homem, Geórgia sentia desaparecer a sua própria identidade. Quando ele a tocava com
dedos mágicos, conseguia transformá-la, moldando-a na imagem da qual queria fugir!
No momento em que se deixasse possuir, teria se igualado a Angélica!
— Olhe para mim, Geórgia.
Mas ela não podia encará-lo. Em seu rosto estariam claros tomo a luz do sol todo o seu
dilema, suas incertezas… Levantando-lhe o queixo com os dedos, Renzo obrigou-a a fitá-
lo. A pressão aumentava enquanto ele tocava com o polegar o lábio inferior tremulo e
rosado.
— Vou lhe perguntar mais uma vez e peço que olhe bem para dentro de si mesma e
responda apenas a verdade. O fato de pensar em intimidades conjugais causa-lhe repulsa ou
esse sentimento existe só em relação a mim?
— E-eu… não sei!
— Precisa saber! O meu toque deve causar alguma reação. Repulsa, desejo, raiva? O que
sente?
— Não posso deixar de pensar que é Angélica quem você deseja, é ela quem está beijando,
acariciando... não eu! Recuso-me a ser usada como uma substituta!
— Dio! Voltamos a este assunto irritante. Já cansei de discuti-lo!
O olhar de Renzo, cheio de desejo segundos atrás, mostrava-se agora duro, com um brilho
quase selvagem. A expressão revelava os sentimentos controlados bem melhor do que
palavras raivosas poderiam fazê-lo. Com um gesto brusco segurou o braço de Geórgia.
Sentindo a resistência dela em aproximar-se, usou de força para prendê-la bem junto ao seu
corpo.
— Esqueça de uma vez por todas a existência de sua irmã. Da minha parte, ela não existe
mais. Faça o mesmo, Geórgia. Agora!

Numa carícia leve e sensual, ele beijou-lhe o queixo, e, sem pressa, circundou os lábios
delicados com a ponta da língua, numa tentativa de penetrá-los.
— Abra a boca, donna… Entregue-se ao prazer de ser beijada como uma mulher...
Geórgia sentia as mãos percorrendo seu corpo, provocando-lhe arrepios de prazer, e,
incapaz de resistir, obedeceu-o. Uma sensação arrebatadora invadiu-a ao deixar que as
línguas se tocassem, numa exploração íntima e sensual.
A virilidade agressiva de Renzo fazia com que ela perdesse o contato com a realidade. A
pressão esmagadora da boca firme tornara-se menos violenta e mais sensualmente
persuasiva.
Apenas semiconsciente, ela percebeu, sem poder reagir, que Renzo descobrira-lhe os seios.
Sentiu os mamilos enrijecerem sob o toque ainda muito leve e desesperou-se ante a
incapacidade de controlar as reações de seu corpo.
Embora soubesse que seu comportamento era o de uma mulher depravada e permissiva,
permitiu que a boca de Renzo se apoderasse dos bicos rijos, soltando um gemido
involuntário de prazer.
Sem pressa, ele a inclinou sobre a superfície cálida da rocha banhada pelo sol e, afastando o
tecido diáfano do vestido, tocou as pernas esguias. Suas mãos exploravam a maciez das
coxas, buscando a suavidade dos recantos mais secretos do frágil corpo de mulher.
Como uma folha girando ao vento, Geórgia estremeceu. Perdera algo tão importante quanto
a sua virgindade: o seu amor-próprio!
Sem forças para voltar ao seu estado normal, deixava-se acariciar num lugar público, onde
a qualquer momento alguém poderia surgir, presenciando aquela cena chocante! Entretanto,
como evitar o fogo que ardia dentro dela, transformando-se em labaredas pelo simples
contato daquele corpo rijo contra o seu? Músculos e toques tão diferentes e desconhecidos
para ela atraíam-na de tal modo que liberavam uma paixão urgente, fazendo-a esquecer por
momentos que ele destruíra a harmonia de sua família, arrasara a sua vida apenas para se
vingar de Angélica!

Quando Renzo percebeu que a resistência às suas carícias desaparecia, dando lugar a uma
vibração nascida do desejo, sentiu uma exultação intensa tomar conta dele.
Finalmente derrubara as barreiras erguidas em torno daquela jovem puritana e libertara a
mulher ardente… idêntica à irmã! Iria destruir-lhe todos os ideais românticos,
transformando-a numa presa fácil do delírio dos sentidos!
Por um instante, sentiu uma pontada de remorso diante do olhar meigo e confiante que o
fitava cheio de desejo. Mas sua hesitação durou muito pouco. Deitou-se sobre ela,
obrigando-a a admitir a força de seus desejos.
Um apelo mudo para que a poupasse dessa tortura não chegou aos lábios de Geórgia! Não
podia sentir prazer nas mãos dele, precisava alimentar o ódio existente em seu coração…
Hesitante e tímida, ela segurou os ombros musculosos, sentindo-os ondularem sob o seu
toque e, como se fosse afogar-se num mar de emoções, agarrou-se a Renzo, esquecida de
tudo.
Sua vida até aquele momento deixara de existir; agora havia apenas o toque dos lábios
ávidos, a carícia das mãos fortes e peritas a despertar-lhe desejos incontroláveis.
Acima de todos os sentimentos, estava a necessidade de pertencer àquele homem, a
urgência de tornar-se mulher nos braços de Renzo… Jamais poderia ser indiferente ao
toque erótico de seu marido!
Mas ele queria prolongar ao máximo o prazer de sua vingança!
— Percebeu agora a força dos desejos reprimidos por sua educação puritana, donna? Está
pronta a libertar-se de preconceitos absurdos e partir para uma viagem ao mundo dos
prazeres físicos? Só continuarei a tocá-la se me disser que está pronta a se entregar.
Geórgia acreditava no fundo de sua alma que o sexo era a união íntima de dois seres
apaixonados mas, naquele momento, aceitaria submeter-se à vontade de um homem...
Afinal existia um tênue laço ligando-os. O casamento!

CAPITULO IX
Uma sensação de pânico incontrolável voltou a tomar conta de Geórgia no momento em
que Renzo, trancando a porta, atravessou a saleta em direção às janelas. Apesar de ter se
deixado levar pelo domínio dos sentidos há poucos instantes, a caminhada de volta ao hotel
a ajudara a recuperar um estado de espírito mais racional e equilibrado. Era uma situação
jamais enfrentada antes. Sentia-se indefesa sem saber como agir. Imóvel, esperava que
Renzo desse o primeiro passo para ultrapassar o embaraço daquele momento tão difícil.
— Prefere que eu feche as cortinas, donna?
— Sim... é melhor.. .
O sol iluminava a saleta de ponta a ponta e o ritual que se desenvolveria naquele quarto
pertencia à penumbra aveludada de desejos noturnos.
O brocado pesado transformou o ambiente num recanto de sombras suaves e Renzo, com
uma lentidão exasperante, começou a acender as inúmeras velas dos candelabros de prata
espalhados pelo recinto. Ao terminar, voltou-se e encarou a jovem que, como uma estátua,
permanecia parada no centro da sala.
— Assim fica mais aconchegante e íntimo, não acha?
Geórgia não conseguia emitir um único som. Sua garganta parecia cerrada e ouvia apenas
as batidas descompassadas do coração ao ver o brilho dos olhos dele. Uma nova mulher
surgiria nos braços de Renzo!
Ela sabia que não havia amor: estava sendo dominada por desejos físicos, naturais e que
haviam sido reprimidos por um tempo excessivo. Tornara-se uma pessoa apagada e sem
vontade própria, ocupando-se apenas em servir ao pai. Abafara por completo o seu lado
feminino, que ansiava por carinho e paixão.
Aproximando-se com cautela, como se Geórgia fosse um animalzinho assustado, Renzo
segurou-a pela cintura e mergulhou o rosto na cabeleira dourada.
— Seus cabelos são como os trigais maduros sob o sol da minha terra… e macios como
seda…

A voz suave e murmurante aplacou o intenso nervosismo de Geórgia, que se deixou levar
pela gentileza do toque em seu rosto. Os lábios de Renzo deslizavam em suas faces, tão
leves como o roçar das asas de uma borboleta. Não havia a exigência e o domínio dos
beijos anteriores. Ele parecia apenas querê-la nos braços.
— Sua pele também é macia como seda, tão branca… Quero tocá-la sem pressa ou receio
de que chegue alguém…
O momento de harmonia afetuosa fora rompido pela chegada do desejo físico que ela temia
e, ao mesmo tempo, ansiava. E a perícia das mãos daquele homem, que já despira tantas
mulheres, deixou-a nua antes de poder protestar.
Uma vergonha intensa invadiu-a ao perceber que seu corpo se revelava ao olhar ávido de
Renzo, mal coberto por duas minúsculas peças de renda. No entanto, sentia-se incapaz de
reagir, um calor espalhando-se em suas veias à medida que as mãos ardentes continuavam a
fazer carícias ainda suaves.
Não havia como controlar o desejo febril que se apoderava dela e seus seios se
intumesceram antes mesmo de serem tocados.
A luz das velas iluminava o corpo agora totalmente nu, transformando-o numa estátua de
mármore, perfeita e imóvel. Nos olhos de Renzo, o fogo de um desejo ardente irradiava-se
por toda a sua fisionomia.
— Você é a encarnação da primavera, donna. Cabelos como trigo maduro, seios como
frutas firmes e prontos para serem colhidas e saboreadas . . .
E, como se quisesse provar a doçura de uma uva, Renzo tomou em seus lábios o mamilo
rosado e latejante. Geórgia tremia ao ver desvendadas as partes de seu corpo secretas e
sempre ocultas por roupas austeras. Apenas o espelho do banheiro tinha sido testemunha de
sua feminilidade, e agora olhos semicerrados e cheios de prazer sensual deleitavam-se em
vê-la e tocá-la.
— Meu desejo por você é tão grande que me faz agir de modo grosseiro…Uma noiva tem
o privilégio de preparar-se, vestir a camisola escolhida com carinho para esse momento
supremo… e eu me precipitei. Se não tivesse visto o temor em seus olhos, talvez a
possuísse aqui mesmo na sala, e não seria correto. A noite de núpcias exige um ritual
delicado, mesmo num casamento sem amor como o nosso.
Geórgia sentiu-se abandonada quando Renzo não mais a tocou e, com passos incertos,
dirigiu-se ao quarto. Sobre a cama estava uma das inúmeras camisolas que ele lhe comprara
e a que menos a atraía. Todas lhe pareciam ousadas demais mas aquela não passava de uma
nuvem de gaze azul, onde a renda delicada deixava os seios quase totalmente à mostra.
Seria o tipo de lingerie escolhida por Angélica e isso a desagradava demais.
Não! Recusava-se a pensar na presença incômoda e constante da irmã! Queria viver aquela
noite como se fosse ela mesma quem Renzo desejava com loucura… e iria consegui-lo!
Mal terminara de vestir-se quando seu marido entrou no quarto com uma garrafa de
champanhe. Ela não percebeu o tremor em suas mãos quando aceitou a taça de cristal com
o líquido dourado.
Renzo lutou para controlar a surpresa brutal de ver Geórgia com aquela camisola azul.
Como não percebera, ao comprá-la, o quanto era idêntica a uma de Angélica? Apenas o
olhar tímido e a pose recatada diferiam aquela jovem sentada à cama da mulher sensual e
vibrante que o enlouquecera de desejo.
— Faz parte do ritual celebrarmos com champanhe o momento de sua passagem de jovem
virgem a mulher plenamente realizada…
Mas para ele o encanto se rompera! Tinha saído de sua mente a imagem da virgem frágil a
quem deveria introduzir no prazer com delicadeza e paciência. Em seu lugar, surgira a
sombra maléfica de uma mulher destrutiva.

Suas carícias já não mais se destinavam a excitá-la sem causar-lhe medo. Soltou as rédeas
de sua paixão, uma torrente tempestuosa e sem retorno.
Retirando-lhe a taça das mãos, Renzo tomou posse dos lábios trêmulos, aumentando a
intimidade de seu toque até forçá-la a entreabrir a boca delicada. A exploração sensual de
sua língua desvendava todos os recantos, provocando-lhe chamas de um desejo
incontrolável.
As mãos percorriam o corpo delicado como se tivessem vida própria, buscando cada
centímetro da pele febril e despertando reações jamais imaginadas por Geórgia, que se
entregava sem pensar em mais nada.
Só quando Renzo despiu o roupão e revelou sua beleza máscula, Geórgia voltou a si. De
repente, todas as histórias sussurradas pelas mulheres, às quais não deveria estar ouvindo,
voltaram à sua mente. Ameaçadores e apavorantes, vinham retalhos de comentários sobre
esse momento crucial da vida de uma jovem: o sofrimento, a dor, a dominação! Incertezas e
medos provocados por distorções da verdade e pelo desconhecimento do que a esperava a
impeliram a fugir. Precisava escapar daquele tormento!
Virando-se bruscamente na cama, ela tentou alcançar o outro lado e sair para a saleta, mas
Renzo segurou-a, alcançando apenas o tecido fino da camisola, que se rompeu em suas
mãos.
Geórgia subestimará a agilidade daquele homem e, em uma fração de segundo, estava de
volta à cama, sentindo o calor ardente do corpo musculoso colado ao seu.
— Fique calma, bambina. Você não passa de uma criança apavorada diante de algo que não
conhece. Se soubesse o paraíso que a espera, não tentaria fugir e se jogaria em meus
braços… — Ele tomou o seio rijo em suas mãos, acariciando-o com ardor. — Nada poderá
evitar a realização dos meus desejos e…verá logo que serão também os seus!
Os dedos de Renzo percorriam o corpo de Geórgia, em busca da pele macia no interior das
coxas e do recanto mais íntimo de uma mulher.

Ao sentir o corpo forte pressionando o seu, Geórgia foi invadida por um desejo enorme e
desconhecido. Todo o pânico desapareceu para dar lugar a uma ânsia urgente de ser
possuída. Os lábios úmidos e quentes sugavam o mamilo sensível e, quando ele começou a
mordiscá-lo, Geórgia não pôde mais conter os gemidos de prazer. Seu corpo se arqueava de
encontro ao dele, sentindo a virilidade possante tocar-lhe a coxa macia.
— Quer mesmo tornar-se minha, donna?
— Por favor, Renzo... Eu o desejo...
Renzo separou-lhe as pernas e musculosos, Geórgia deixou que ele a guiasse pelos
caminhos do prazer. Lábios firmes abafaram seu grito de dor e braços fortes seguraram seu
corpo, que se debatia em pânico. Mas, tão rapidamente quanto viera, a sensação brutal se
transformou numa chama ardente.
Nada mais havia a não ser o domínio absoluto da paixão, o clamor de um desejo
incontrolável, arrastando seu corpo para regiões desconhecidas onde reinavam a volúpia e o
prazer.
Nada mais havia a não ser o homem viril e ardente, mãos e lábios de um fogo intenso, um
amante que a tornara prisioneira da loucura dos sentidos.
A melodia suave das palavras murmuradas em italiano acompanhava os dois corpos unidos
numa fusão completa. Momentos antes do êxtase, ele tomou o mamilo entre os lábios e,
segurando-a com mais firmeza, mergulhou sem receios na maciez do corpo feminino,
arrastando-os a uma explosão inesquecível de gozo!
Mesmo sem amor ou ternura, seus corpos se completavam com perfeição. Em movimentos
harmônicos, pareciam alçar-se num vôo sem limites, num espaço único onde existiam
apenas sensações partilhadas.

Geórgia movia-se num ritmo instintivo, inocente das artes do sexo, e, entre suspiros e
gemidos de delírio, desejava viver o resto de seus dias envolvida pelos braços de Renzo,
sentindo-o parte de seu corpo... ou então morrer!
— Você é linda… excitante, minha puritana sensual…
Toda a paixão reprimida durante anos de uma vida vazia e sem sonhos de realizar-se como
mulher explodiu, apagando os limites entre a realidade e o sonho.
Numa melodia erótica suas vozes se mesclaram no momento de supremo prazer…
Um beijo muito suave secou-lhe as lágrimas de alegria… Geórgia não sabia se ria ou
chorava diante da imensa descoberta do prazer. Ela se sentia uma mulher desconhecida,
capaz de vibrar de paixão e de dar a mesma sensação indizível a um homem.
Renzo a tirara da enorme e velha cozinha da casa paroquial e a tornara mulher, mas não
desnudara apenas o seu corpo. Sua alma também se entregara por completo. Um arrepio de
medo percorreu-a: teria se apaixonado após alguns minutos de sexo? Ou seria ela tão
puritana que não admitia um relacionamento sexual satisfatório sem haver amor?,
questionou-se.
Ele sentiu o tremor do corpo em seus braços e procurou transmitir-lhe seu calor.
— Donna… donna bella, tão branca e tão suave! Seus lábios são vermelhos como os cravos
das colinas da Florença, feitos para beijar, E não há estátua feminina cujo corpo se iguale
ao seu. São todas de mármore frio e sua pele é cálida, sedosa como as pétalas de uma rosa.
— Você tem o dom da poesia, Renzo... Ou melhor da música das palavras…
— Talvez eu componha algum dia uma canção sobre uma virgem ardente como as
chamas... — Ao vê-la enrubescer ele sorriu e, incapaz de manter as mãos longe do corpo
fascinante, acariciou-a docemente. — Desculpe-me, Geórgia… Você é intensa, entrega-se
por completo, não nega parte alguma de seu corpo ou de sua alma a seu amante; isso é
muito raro. Descanse um pouco. Foi uma experiência desgastante, tenho certeza.
— Oh! Não, estou me sentindo tão bem…

Não era hora de pensar no que o futuro traria para eles! Geórgia deveria apenas desfrutar
cada segundo daqueles dias dourados de sua lua-de-mel. Mesmo que fosse uma ilusão tênue
e que seria facilmente arrasada, eterna apenas enquanto durasse. A sensação de euforia e
satisfação lhe bastaria pelo momento presente. Depois…
As carícias de Renzo ainda em seu corpo tornavam-lhe difícil exprimir tudo o que sentia.
— Está muito quieta. Por acaso a magoei com a urgência de meu desejo?
— Não, estou feliz, realizada…
— Jamais senti tanto prazer ao possuir uma mulher como com você, donna. E agora tenho
nos braços não mais uma jovenzinha ingênua, não é? Se eu pudesse dizer-lhe em italiano
tudo o que penso, seria tão bom! É uma língua feita para os amantes, doce, sonora e…
sensual. Mas, como você não me entenderia, tentarei explicar-lhe em seu próprio idioma…
ou a embaraçarei?
— Talvez um pouco, mas não faz mal.
— Ótimo. Eu, como todos os homens latinos, aprecio seu comportamento refinado e
discreto em público. Mas, na cama, desejo uma mulher ardente. Sua entrega, sem pudores
ou reservas, foi...
— Por favor, Renzo. Ainda não consegui aceitar por completo meus... impulsos.
— Não há por que se envergonhar. Entre marido e mulher, nada é errado, proibido ou
pecaminoso. Vamos provar esta teoria? Quero que você me conheça com tanta intimidade
quanto eu a conheci… Não se acanhe, toque-me.
O corpo de um homem era ainda um mistério para Geórgia. Ângulos rijos, músculos… tudo
a intimidava. Com dedos trêmulos e hesitantes, ela começou uma viagem a um mundo
desconhecido. Tímida, fechou os olhos, temendo revelar o quanto desejava tocá-lo. Seria
prova de que era uma mulher depravada? Ou Renzo estava certo dizendo que nada era
errado ou proibido?, pensou.

Subitamente, uma imagem interpôs-se entre ela e o corpo moreno cuja pele tocava. Quantas
vezes Renzo estivera nessa mesma situação com Angélica? Teria ela tocado a pele dourada
com igual volúpia, ouvindo o murmúrio sempre crescente de prazer? Com os olhos cheios
de lágrimas, Geórgia tentou afastar a visão da irmã naqueles momentos só seus. Era ela e
não Angélica que estava nua ao lado daquele homem sensual, era ela a vibrar de prazer e
gemer com as carícias enlouquecedoras. Aqueles dias seriam só seus!

Talvez Renzo tivesse aberto as cortinas enquanto ela dormia, pois o quarto resplandecia
como se fosse de prata com o luar que entrava pelas portas do terraço.
Imóvel. Geórgia queria desfrutar a sensação de proteção por estar entre os braços do
marido, cuja respiração indicava um sono profundo. Seus braços o rodeavam como se
temesse que a ilusão de tê-lo dormindo ao seu lado pudesse se desvanecer. Um grande
mistério fora revelado a ela naquela tarde de amor… Um mistério que tinha sido sufocado
por anos e só existia nos livros lidos em horas roubadas de um horário rígido de trabalho.
Como estava longe o vale de Duncton!
Ninguém mais do que ela se surpreenderia ao imaginar-se tão à vontade nos braços de um
homem, partilhando seu corpo sem medo ou pudores. Tudo mudara em sua vida e a
realidade agora era aquele quarto e não a serenidade distante de Sussex. Real e atraente era
a cabeça pousada sobre seus seios, num sono plácido.
Renzo porém não dormia. Os acontecimentos daquela tarde o haviam perturbado de tal
forma que não conseguia conciliar o sono.

Não estava em seus planos sentir tanto prazer na posse de Geórgia! Sua vingança se baseara
num ato de degradação, onde a despojaria de sua inocência sem remorsos ou ternura. No
entanto, a diferença entre o dia de hoje e o relacionamento com Angélica…
Sempre soubera que ela não era virgem mas aceitara sem hesitar a existência de um único
homem antes dele. As negativas de Angélica diante de qualquer carícia mais ousada
confirmavam a pureza de sua índole.
Quando ela finalmente cedera, agira como se fosse ainda uma garota inexperiente, mas com
uma capacidade incrível de aprender!
Depois da noite em que ele a possuíra no tapete, diante da lareira de seu apartamento, foi
tomado por uma obsessão inelutável. Queria-a a todo momento, vivia para os instantes em
que estariam juntos, amando-se loucamente.
Cego, ele não percebera o desembaraço, a falta de recato de sua noiva, cuja peça única
sobre o corpo escultural era o magnífico anel de noivado. E a cada dia ela se mostrava mais
ousada e audaciosa em suas carícias.
Então houve a festa em que ele assistiu ao filme…
Uma onda de revolta cresceu dentro de Renzo e, ao ver o mamilo delicado de Geórgia
próximo aos seus lábios, tomou-o com violência. Não tivera tanto trabalho em arquitetar
um plano cuidadoso e cheio de detalhes para sentir ternura pela jovem que representava a
sua vingança!
Suas mãos tocaram o corpo adormecido sem ternura, exigentes e ávidas. Não era Geórgia a
mulher que ele arrastava em direção a um prazer intenso e primitivo, era Angélica!
Mal desperta de um sono feliz, de realização e sonhos de um amor apenas seu, ela sentiu a
avidez do homem que a acariciava com urgência e possessividade.
Até então, as sombras das velas haviam ocultado a fisionomia de Renzo durante os
momentos de paixão suprema. Agora, o luar muito claro revelava o corpo musculoso e um
olhar cheio de um desejo selvagem.

Frio e determinado, ele a excitou de todas as maneiras, sempre mantendo-se distante e com
um sorriso gélido nos lábios duros.
Geórgia, apesar de chocada com a atitude de Renzo, não conseguiu controlar suas reações
de prazer e, envergonhada, seguiu-o na escalada de um desejo incontrolável!
Não era mais o seu marido, um músico sensível, um homem refinado do século vinte quem
a tocava no leito conjugal… Um deus pagão, indomável como os elementos da natureza,
levava-a a um mundo onde os desejos eram livres e primitivos, sem falsos pudores ou
limites ditados pela sociedade.
Esgotada por orgasmos sucessivos, Geórgia estremeceu em pânico, ao perceber que Renzo
ainda não terminara de despertar-lhe os sentidos.
Erguendo-a como se fosse uma pluma, ele a deitou sobre o peito amplo e musculoso e,
segurando-lhe as nádegas macias com firmeza, mergulhou no calor daquele corpo feminino
vibrante e receptivo.
Num bale erótico, eles ultrapassaram todos os limites da paixão, dissolvendo-se num êxtase
tão profundo que os deixou surpresos e abalados.
Geórgia escondeu o rosto no peito de Renzo para ocultar a vergonha de ter-se entregado
com tanto abandono. Jamais julgara que algum dia fosse deixar se levar por tanta
sensualidade. E Renzo… sentiu-se ainda mais perdido! Não havia como identificar aquela
jovem esposa, onde doçura e volúpia se mesclavam com harmonia, com a mulher de
sensualidade sem disfarces cuja imagem ainda o torturava…

Com todo o cuidado para não acordá-lo, Geórgia saiu da cama e, sem acender as luzes, foi
até o banheiro.
Sentia uma enorme timidez por estar nua e queria esconder seu corpo dos olhares ávidos de
Renzo. Talvez ainda não tivesse se acostumado às intimidades do casamento ou... quem
sabe seria mesmo uma puritana?

Ao olhar seu corpo no imenso espelho do banheiro, a pele muito alva cheia de marcas da
paixão, ela sorriu. Como julgar-se puritana depois de ter partilhado momentos de um prazer
sem limites?, refletiu.
Subitamente, ela viu refletida uma outra mulher no espelho. Os cabelos revoltos, as faces
coradas e os olhos quase negros de paixão eram de Angélica…
Um frio intenso invadiu-a. Teria sido ela a quem Renzo amara com tanta loucura ou a sua
irmã? Fora uma fantasia que acendera o fogo de um desejo infinito no corpo másculo de
seu marido?
Seus olhos encheram-se de lágrimas. A consciência de que ela e sua irmã eram semelhantes
em sua sensualidade à flor da pele a deprimia. Sabia que jamais voltaria a ser a mesma! A
partir da experiência da tarde de amor tornara-se uma prisioneira do desejo, dependente das
sensações vividas nos braços de Renzo Talmonte.

CAPITULO X
A jovem que entrou na saleta, com uma camisola branca e muito simples, os cabelos
brilhantes e cuidadosamente escovados, mais parecia ter saído do dormitório de um colégio
ou talvez de um convento. O rosto delicado em nada fazia lembrar a mulher sensual e
ardente que estivera há poucas horas vibrando em seus braços.
Renzo sentiu, para grande surpresa sua, uma enorme satisfação por não ter conseguido
destruir o ar inocente e puro de Geórgia. Embora não fosse esse o objetivo de seus planos,
era-lhe muito agradável saber que aquela garota podia mudar tanto apenas com algumas
carícias suas.
— Você parece uma menininha de quinze anos, jamais tocada por um homem, donna.
— E você lembra-me as estátuas gregas de deuses pagãos…
— Qual delas especificamente?
— A de Adonis…
— Ah! O deus do amor?
— Bem… pelo menos a divindade da arte de fazer amor.
— Você compreendeu finalmente que pode existir uma satisfação plena dos sentidos sem o
que chama de amor? Sem arrependimentos, donna?
Geórgia apenas acenou afirmativamente, incapaz de confiar na firmeza de sua voz. Lembrar
de suas ilusões românticas sobre a união de dois seres apaixonados destruiria o tênue laço
que haviam conseguido estabelecer. Sua vida, presa a um casamento forçado, estendia-se
diante dela sem possibilidades de fuga, e era melhor esquecer por completo as ilusões
juvenis sobre o amor e se contentar com o único elo que os unia: uma sensualidade
poderosa!
Tomando-a nos braços, Renzo tocou a pele alva exposta pelo modesto decote da camisola.
— Quero dar-lhe pérolas para brilharem sobre sua pele sedosa, rubis para mostrarem que
seus lábios são ainda mais rubros. Diamantes são frios demais, não combinam com sua
doçura, e safiras... há quem as julgue sinistras, de mau agouro. Não sei no que estava
pensando quando lhe comprei o colar. Geórgia não tinha dúvida sobre em quem Renzo
pensara ao escolher aquela jóia suntuosa e cara!
— Eu preferiria flores...
— Ah! Elas fenecem rapidamente e quero vê-la adornada com pérolas e rubis. Você é ainda
mais bela do que eu imaginava.
— Oh! É apenas gratidão que o faz julgar-me bonita…
— O que quer dizer com... gratidão?
— Por hoje… pelos momentos que…
— Está insinuando que estou grato por você ter-se entregado a mim?
— É... eu... — O olhar sardônico de Renzo a fez enrubescer .
— Não sou um adolescente ávido que se sente privilegiado por receber os favores sexuais
de uma mulher bonita!
— Oh! Sem dúvida você não é um garoto. É um homem viril e fascinante e eu é que estou
grata por ter-me tornado uma mulher completa. Vivi tão longe de qualquer contato físico…
Depois da morte de minha mãe, jamais soube o que é um abraço ou um carinho…
Houve um momento de profundo silêncio e então Renzo cobriu o rosto velado de tristeza
com beijos delicados e cheios de ternura.
— Dio! Como conseguiu tornar-se uma mulher sensível e generosa tendo vivido numa casa
tão fria e sem calor humano? Devia ter-se transformado numa criatura dura e não nessa
jovem ardente e ao mesmo tempo doce que me enlouqueceu esta tarde! — Ele se afastou
sorrindo com malícia. — Acho melhor eu tomar um banho gelado! Pedi o jantar e, se
continuar a beijá-la, nem ouviremos as batidas à porta!

Sozinha na saleta, Geórgia desejou ardentemente que nada rompesse a magia daqueles
momentos. Os laços muito frágeis que os uniam eram apenas desejo e volúpia, mas não
queria vê-los se partirem. Renzo despertara nela sensações desconhecidas e não mais se
sentiria feliz sem a presença viril e ardente ao seu lado todas as noites. No entanto, sabia o
quanto esse relacionamento era instável e que muito pouco poderia destruí-lo. Ele mesmo
afirmara que, tão logo o sabor da novidade se tornasse insípido, Stélvio se cansaria da
amante…
Não! Ela não devia preocupar-se agora com problemas ainda pertencentes ao futuro! Para
distrair sua mente agitada por pensamentos perturbadores, decidiu arrumar o quarto.
Roupas jogadas pelo chão, cobertas amassadas, tudo ali lembrava as horas de prazer
partilhadas com um amante, por mero acaso o seu marido!
Ao voltar para a sala, encontrou Renzo fechando a porta para o camareiro, que trouxera o
jantar. Na mesinha em frente às portas do terraço, prata e cristais brilhavam à luz das velas.
— Pedi seus pratos prediletos... e champanhe rosé! Temos muito o que brindar, não acha?
— Sim... eu...
— Continua a mesma tímida donzela, donna? Aliás, notei que arrumou o quarto.
— Bem, estava tão desarrumado que mais parecia o desembarque da Normandia.
— Dio! O que sabe sobre essa batalha? Por certo ainda não tinha nascido e…
— Meu pai lutou na guerra. Embora o julgue uma espécie de monstro, lembro-me dele
quando minha mãe ainda vivia… Era apaixonado pela esposa.
— Se ela se parecia com você…
— Era uma mulher em que as qualidades se igualavam à beleza. Alegre, doce e muito
amorosa… Eles se amavam muito e meu pai jamais foi o mesmo depois de sua morte.
Lembro-me de cada detalhe do enterro… Segurei-me com força no braço dele, temia que se
jogasse sobre o caixão…

Geórgia calou-se, comovida demais para continuar. Além disso, não queria contar a Renzo
que, no caminho de volta à casa paroquial, tinha sido em Angélica que seu pai se apoiara.
Nunca tivera dúvidas sobre o fato de sua irmã ser a filha predileta. Aliás, sua tia Beatrice
sempre dissera que Angélica dominaria qualquer homem com seu olhar, seu sorriso. E a
essência da arte feminina de enfeitiçar corações!
— Não fique triste, Geórgia. Vamos pensar apenas em nós dois, é um privilégio dos recém-
casados em lua-de-mel. Existimos apenas um para o outro…
— Você se sente feliz, Renzo? — murmurou Geórgia, em dúvida quanto aos verdadeiros
sentimentos daquele homem que continuava a ser um desconhecido para ela.
Teria tocado seu coração ou os elogios e as atitudes ternas eram resultado do prazer que
sentira ao possuí-la? Seria apenas o seu corpo que ele desejava, a excitação dos sentidos e
nada mais?,perguntou-se.
— Sem dúvida, minha aparência é de um homem plenamente satisfeito, não acha? Se
encontrarmos de novo aquela senhora intrometida, agora você terá motivos para
enrubescer! — Renzo deu uma risada feliz ao ver o ar envergonhado da esposa. — Ela
tinha toda razão ao elogiar o Duke’s. além do excelente serviço, a cama é uma das maiores
em que já dormi, ou melhor, não dormi!
— Sei que me julga muito puritana por ter arrumado o quarto, mas não quis que a
camareira visse a desordem e, imaginasse…
— …imaginasse cenas de paixão? Pois eu não ligo a mínima sobre comentários desse tipo!
Aliás, vai ficar muito pouco tempo arrumado!
Geórgia baixou os olhos, tremula só em pensar na noite à espera deles. As sensações que
Renzo despertava nela apenas com palavras ou olhares a deixavam cheia de expectativa.
— Você tem olhos imensos, donna… Lagos plácidos, mas muito profundos. Jamais
encontrei tão belos…
Qualquer elogio à sua aparência trazia a presença indesejável de Angélica entre eles. Elas
eram tão parecidas! Aflita, Geórgia procurou um assunto neutro.

A música! Esse era um tema seguro!, pensou.


— Você compõe o fundo musical de um filme depois de terminado ou trabalhado junto com
Bruce… com o sr. Clayton, desde o início da filmagem?
— Chame-o de Bruce. Somos muito amigos e, afinal, foi ele quem a entregou a mim, não
é?
— Eu gostaria de conversar sobre seu trabalho, Renzo, partilhar dos seus interesses e... —
Ao ver a expressão do marido transformar-se numa máscara fria, ela se irritou. — Não quer
que eu demonstre nenhum interesse em sua vida, só me quer partilhando sua cama?
— Existe lugar melhor para partilhar, donna?
Bem… a magia dos momentos de paixão terminara! Renzo tinha voltado a ser o homem
duro e sem piedade que a obrigara a ceder sob ameaças. Sem esforço algum ele apagara as
horas de prazer!
Como havia sido tola ao pensar que poderia ser mais do que uma simples companheira de
cama! Seu marido não pretendia abrir-lhe as portas de sua intimidade. Apenas um homem
apaixonado divide todos os problemas e alegrias com a mulher amada… Com aquela que
lhe dá prazer, ele divide apenas sexo!
— Julguei que seria interessante termos assuntos comuns. Não é possível para um casal
comunicar-se apenas no plano físico.
Por um longo tempo Renzo a fitou sem responder. Seu olhar tinha o mesmo brilho frio e
cortante daquela tarde terrível em que lhe mostrara as cartas de Angélica. Mas então ele era
um completo estranho, embora houvessem se tocado com tanta intimidade e paixão!
Mesmo revoltada contra a sua fraqueza diante da atração física por um homem sem
escrúpulos, ela o desejava com desespero, e só o seu orgulho a salvaria de humilhar-se
diante dele.
— Como não respondeu à minha pergunta, devo deduzir que deseja de mim apenas esse
tipo de comunicação. Uma ligação meramente física. Recusa-se a discutir sua carreira
com… uma meretriz?
A palavra ofensiva ecoou no silêncio da sala até que Renzo, num gesto rápido, segurou-a
pelos braços e a colocou de pé. Geórgia estremeceu, certa de que seria castigada por ter
reagido com agressividade excessiva às atitudes de desprezo de seu marido.
— Como ousa falar assim? Julga que eu tolerarei tal insolência? Nunca em toda a sua vida
você se dirigiu a alguém com tanta grosseria, portanto não tente fazê-lo comigo!
Como sempre, Geórgia subestimará a explosividade do temperamento latino. A fúria de
Renzo era arrasadora e deixava-a indefesa e à mercê de um homem cujos limites da
violência ela não conhecia.
— Grande Dio! Já não sei mais como tratá-la! Pelo jeito mentiu ao dizer que não havia se
arrependido!
— Não, apenas acho que, se tivéssemos mantido a distância entre nós, eu não estaria
forçando-o a partilhar algo mais de você do que apenas o desejo! Sou pouco sofisticada,
vivi num mundo diferente do seu, Renzo... Ê difícil saber como agir num casamento tão…
diferente quanto o nosso.
— E pensa que eu acho fácil? Há um ditado da minha terra que diz: "Quando cessam os
beijos, começam as perguntas!" E não tenho intenções de perder um tempo precioso, que
podemos utilizar de modo extremamente agradável, respondendo a perguntas!
Renzo levou-a até o sofá, afastando-se apenas para pegar duas taças de champanhe.
— Vamos, beba, a situação é realmente difícil para nós dois, mas conseguiremos superá-la,
não é?
Na verdade, Geórgia não via saída alguma para aquele relacionamento. Sentia-se como a
personagem de uma tragédia, sem futuro ou ilusões quanto à possibilidade de ser feliz
algum dia. Se ela não tivesse ideais tão românticos, talvez conseguisse aceitar o fato de que
Renzo desejava apenas o seu corpo e se sentisse feliz por haver ao menos esse ponto de
contato entre eles. Todavia, sua imagem de um casamento incluía ternura, uma
comunicação íntima e sincera de almas, não apenas um desejo incontrolável!

Aléx 09/09/2006 22:59 Perdida em seus pensamentos, ela estremeceu quando Renzo a
puxou para mais perto. Com rapidez, ele abaixou a alça da camisola e expôs o seio amplo e
palpitante. Tocando o mamilo rosado, que enrijeceu, sorriu vitorioso.
— Está vendo, querida? Seu corpo foi feito para ser acariciado… e não adianta afirmar que
seus desejos não são tão ardentes quanto os meus! Tire essa camisola de freira! Quero ver a
beleza de sua nudez…
— Afaste-se de mim! Não me toque!
— Ora! Voltou a ser a solteirona frígida? Não pense que vou aceitar a senhorita puritana
depois que conheci a mulher ardente!
Geórgia sabia muito bem que Renzo seria capaz de obrigá-la a ceder e a possuiria com
ódio, punindo-a através de seus desejos, e tentou explicar-se.
— Não quis ofendê-lo mas… você não me vê como uma pessoa!
— Dio! Esta tarde toda eu a tratei como o quê?
— Estou me referindo à maneira de me ver… fora da cama, Renzo! Só se preocupa com o
exterior: meus seios, minha boca, com o que lhe dá prazer. Nem por um minuto pensou em
mim como pessoa com sentimentos e idéias próprias!
— Muitas mulheres dariam alguns anos de sua vida para serem admiradas pela beleza de
seu exterior apenas. Ou serem elogiadas por sua sensualidade e ardor… Mas você tem toda
razão, Geórgia. Eu vejo apenas sua aparência, que me excita, e suas reações às minhas
carícias, que me levam ao delírio. Nada mais quero de você! Entretanto, não irei implorar
para que me permita tocá-la. Como minha esposa, estará à disposição de meus desejos e a
terei quando, como e onde eu quiser. Entendeu bem?
— Independentemente dos meus desejos? Você seria capaz?

Aléx 09/09/2006 23:01 Como Geórgia gostaria de retirar aquelas palavras ditas num
impulso! Era evidente que ele jamais iria pensar nos seus desejos. A harmonia que haviam
encontrado na fusão de seus corpos, o êxtase intenso do ato sexual não mudaram em nada
as intenções de Renzo. Continuava a ser para ele a irmã de Angélica, com quem ele se
casara para vingar-se e para obter o mesmo prazer num corpo muito semelhante ao da
mulher que o abandonara. Um ódio profundo contra aquele homem cruel cresceu em seu
íntimo!
— Sofre-se apenas uma vez ao ser rejeitado por uma mulher... na primeira recusa!
Aproveite o resto da noite em sua solidão pois eu vou à procura de companhias menos
desagradáveis, minha cara esposa! Jogar cartas é mais satisfatório do que partilhar um
quarto com uma… puritana amarga!
— Prefiro mesmo ficar livre da sua presença arrogante e grosseira! E pode ir jogar com o
diabo! Eu o odeio!
— Bem… sinto-me muito mais tranqüilo por ter o seu ódio. O amor de uma Norman é
muito mais perigoso e falso!
A porta bateu com estrondo e Geórgia sentiu que as lágrimas começavam a correr
livremente em seu rosto. Renzo afirmara que amor e ódio eram inseparáveis e só agora ela
percebia a verdade daquelas palavras. Duas emoções, como dois lados de uma moeda, tão
imprevisíveis… ora uma, ora outra se revelava com violência, alternando-se num duelo
destrutivo.
A beleza do luar atraiu Geórgia até o terraço e a paisagem prateada provocou-lhe uma
angústia profunda. Estava sozinha, não apenas sem a presença física de Renzo, mas sem
nada que o ligasse a ela.
"Sofre-se apenas uma vez ao ser rejeitado por uma mulher”… Geórgia não tinha dúvida
alguma de que essa mulher não era ela.

No quarto, Renzo lutava para controlar o ódio que a rejeição de Geórgia despertara nele.
Nem mesmo a traição de Angélica tocara-o tão fundo.

Aléx 09/09/2006 23:06 Aquela jovem doce e tímida se entregara a ele com tanta paixão e
abandono que o abalara até o mais íntimo de sua alma. Tinha-a obrigado, através de
chantagem, a casar-se com ele, haviam discutido com ódio e, no entanto, seus corpos
atingiram uma harmonia muito rara.
Com Angélica, jamais desaparecera a sombra do outro homem a quem ela se entregara…
Mesmo obcecado pelo corpo da modelo fascinante e sensual, sabia que algum dia haveria
outro. Por esse motivo decidira casar-se; julgara que laços matrimoniais seriam fortes o
suficiente para prendê-la ao seu lado.
No dia em que soube da fuga de Angélica com seu irmão, uma fúria intensa o levou a beber
como jamais fizera antes. Os amigos de bar, desconhecidos até aquela ocasião, o
convidaram para uma festa, e ele, como uma nau perdida na noite, aceitou.
Nada o preparara para a terrível revelação. Quando as luzes diminuíram e as imagens do
filme surgiram na tela improvisada na sala, Renzo sentiu o mundo desabar à sua volta. A
mulher que jurara ter pertencido a apenas um homem, a quem se entregara por amor,
mostrava seu corpo nu diante dos olhos cobiçosos de todos, praticando atos vergonhosos
frente a uma câmera! A habilidade de dar e receber prazer não fora tão instintiva e sim uma
arte longamente apurada em muitas camas, em muitas noites de abandono nos braços de
quem pudesse pagar o luxo de ter por algumas horas a fascinante Angélica Norman.
Ele tinha sido o tolo, o bem-intencionado namorado que esperara para possuí-la só após ter-
lhe colocado um anel de noivado na mão delicada mas maculada por tantas carícias
compradas!
Sua sede de vingança naquele instante atingiu limites absurdos. Hoje, já não mais sabia se
os seus planos lhe trariam a satisfação almejada!

Aléx 11/09/2006 18:12 CAPITULO XI


Antes de sair para o salão de jogos, Renzo foi até o terraço e colocou um casaco sobre os
ombros de Geórgia.
— Está muito frio, cara… embora talvez o vento ajude a esfriar sua raiva! Você é bem
temperamental, apesar da aparência doce, não? E não fique aqui fora a noite toda, sim?
— O que você tem a ver com isso?
— Céus, Geórgia! Como começamos essa briga absurda? Num minuto, a criatura doce e
meiga tornou uma fera, afirmando ser a minha… meretriz!
— Talvez não seja exatamente esse o termo, mas sou algo desse tipo. O fato de termos
estado diante de um padre não muda os motivos que nos levaram até o altar.
— Motivos? Se pensar bem, donna, só existe um! Você descobriu o prazer e vibrou cada
minuto passado em meus braços. É um absurdo sentir-se culpada. Não tenho dúvida alguma
de que sua reação desproporcional de momentos atrás foi provocada por um profundo
sentimento de culpa. Somos marido e mulher e como tal não é pecado sentir desejo e
entregar-se à paixão. Você é muito inocente para saber que a sua reação ao sexo é bastante
rara. Muito poucas conseguem esse nível de satisfação na primeira experiência. Liberte o
seu corpo, donna.
— Como você o faz, não é?
— Exatamente! Eu não tenho preconceitos puritanos. — Num gesto rápido, Renzo
apoderou-se dos lábios frios de Geórgia, forçando-os a aceitar o seu domínio. — Ainda
quer que eu vá jogar cartas com o diabo ou prefere passar o resto da noite fazendo amor
comigo?
A palavra "amor" transformou-a numa estátua de gelo. Se houvesse um mínimo de afeição
nos sentimentos daquele homem, e não apenas desejo, teria cedido sem hesitar, pois o
desejava mais do que tudo. Entretanto, nem mesmo o desejo que o atormentava era
provocado por ela. Renzo possuíra alguém que era o reflexo de Angélica!
Seria humilhante demais aceitar carícias que não lhe pertenciam, só porque ele lhe
despertara uma onda avassaladora de desejos desconhecidos e irresistíveis.

Aléx 11/09/2006 18:13 Sua única resposta foi afastar-se bruscamente. Por alguns instantes,
Renzo fitou-a com uma intensidade ameaçadora. Parecia estar em dúvida se aceitava sua
recusa ou a forçava a aceitar suas intenções. Mas a máscara de impassibilidade não
permitiu saber se ele sentia alívio ou pena por deixá-la a sós no terraço.
Por muito tempo, Geórgia permaneceu com os braços apoiados na balaustrada de pedra do
terraço, revivendo os momentos que haviam mudado sua vida. Não havia dúvida alguma de
que o desejava como jamais pensara ser possível. A lembrança das mãos morenas, tocando
seu corpo com a mestria de um artista, deixava-a tremula e ansiosa por tê-lo ao seu lado
novamente.
Como fora orgulhosa e tola ao recusar a oferta de paz! Mas, no fundo, sua recusa vinha da
necessidade de mostrar-se o mais diferente possível de sua irmã. Queria que Renzo
confiasse em sua capacidade de não ceder aos impulsos do corpo, entregando-se sem medir
as conseqüências. Será que alguém, além dela mesma, entenderia suas atitudes?, pensou.
A música flutuava na noite, vinda do salão de baile. Uma melodia plangente trazia à tona
todo o romantismo de uma jovem recém-casada…
Teria se apaixonado pelo marido ou apenas pelo prazer que ele lhe provocava? Sentia-se tão
despreparada para julgar esse tipo de emoção!
No dia em que conhecera Renzo, tinha achado que ele era o homem mais atraente do
mundo e, sem dúvida, o mais apaixonado… por sua fascinante irmã. O amor por Angélica
estava gravado em cada traço daquele rosto aristocrático e jamais acreditaria que ele tivesse
forças de recusar-se a aceitá-la de volta. Nem todos os juramentos do mundo a
convenceriam de que Renzo fecharia todas as portas a Angélica. Ninguém consegue fugir
da tirania de um amor profundo. Agora ela sabia quão fortes podiam ser os laços de uma
emoção. Amor ou desejo, não importa qual deles fosse, mas o resultado seria o mesmo:
uma prisão inescapável! Se o que sentia pelo marido era mesmo amor, estava cometendo
um grande erro. Iria passar o resto de seus dias dominada por um terror infinito. A volta de
Angélica ameaçaria sua vida pois, com um sorriso ou um olhar, faria qualquer homem
esquecer-se de tudo para segui-la.
Talvez desde criança Geórgia já desconfiasse de que jamais escaparia da supremacia da
irmã. Outrora, ela amara os pássaros que vinham comer as migalhas de pão no jardim das
roseiras, e hoje transformara-se no pássaro que se contentava com as migalhas deixadas por
Angélica.
Por mais que tentasse se convencer de sua capacidade em aceitar o amor de Renzo pela
irmã, sofria ao pensar em como teria sido perfeita a união dos dois sem uma sombra a
colocar-se entre eles.
Geórgia sabia ter qualidades mais louváveis, como constância, lealdade, meiguice… mas
quem pode dominar os rumos de uma paixão? Ela não vê as virtudes e quase sempre pousa
na árvore mais florida, porém incapaz de dar frutos, ou numa folhagem densa para evitar o
frio do inverno. A única maneira de escapar aos pensamentos deprimentes que a impediam
de raciocinar com coerência era tentar dormir, esquecendo-se de que estava sozinha.
Mas, no escuro do quarto, a cama lhe parecia um deserto imenso e frio sem a presença de
Renzo. Como podia ter-se apegado em tão pouco tempo ao calor daquela pele bronzeada,
do corpo rijo e musculoso junto ao seu?
Um desejo intenso de sentir-se envolvida pelos braços fortes que a levavam ao mundo
indistinto das sensações a fez gemer de frustração. Ninguém tinha culpa a não ser ela
própria! Por um orgulho idiota se privara de momentos sublimes e, se pudesse retirar suas
palavras ofensivas, o faria de bom grado, em troca do prazer selvagem de ser amada por
Renzo.

Aléx 11/09/2006 18:14 Embora muito raramente, na vida de Geórgia houve momentos em
que pensou nas sensações do contato íntimo entre um homem e uma mulher. Evitava
sempre demorar-se conjecturando sobre um assunto do qual jamais conheceria a verdade
por experiência própria. Mas, mesmo em suas mais loucas fantasias, não chegara nem perto
de sonhar com uma união tão profunda e sublime. Quando dois seres se tornavam um só,
atingiam uma outra dimensão, alcançavam algo além do humano, talvez a fusão das almas
ao atingir o êxtase do corpo.
Esse tipo de comunicação perfeita com Renzo valia todo e qualquer sacrifício. Se ela não
vivesse cada minuto dessa lua-de-mel encantada com toda a intensidade, com certeza se
arrependeria no futuro. Precisava desfrutar o dia de hoje; o amanhã era uma incógnita.
Principalmente se Angélica voltasse para exigir o que lhe pertencia!
Na enorme cama vazia, Geórgia usou toda a força de seu pensamento para trazer Renzo de
volta e, murmurando seu nome, adormeceu à espera de novos momentos de paixão.

Entrando silenciosamente no quarto, Renzo viu a figura adormecida, iluminada pelo luar
que atravessava as cortinas entreabertas. Pôde observá-la em cada detalhe: um corpo
delicado e ao mesmo tempo sensual em suas curvas perfeitas. A seda fina da camisola
moldava os seios altos e as coxas esguias, e a cabeleira dourada espalhada no travesseiro
lembrava-lhe um anjo adormecido.
Ele devia estar sofrendo de alucinações! Em sua mente se alternavam as imagens de uma
mulher doce e sensível e as da criatura devassa e desleal. Mas, a cada hora que se passava,
as diferenças se acentuavam e se sobressaía a meiga Geórgia.
No entanto, Angélica destruíra toda a sua fé nas mulheres, que já não era muito profunda.
Sempre desconfiara das atitudes sedutoras mas fingidas, dos beijos ardentes mas falsos.
Tinha certeza de que, algum dia, sua esposa se mostraria tão facilmente corruptível quanto
as outras.

Aléx 11/09/2006 18:16 Mas essa transformação degradante pertencia ao futuro. Nesse
momento existia apenas um corpo cálido, uma boca rosada, todo um universo de delícias à
sua espera.
Despindo-se rapidamente, Renzo deitou-se ao lado dela, sem no entanto acordá-la. Queria
saber se sua presença apenas a tiraria do sono profundo!
Alguns segundos depois, Geórgia moveu-se inquieta, murmurando:
— Renzo! Você voltou?
— Sim, querida. Acordei-a?
— Não... eu o esperava. .. Renzo, eu... por favor, me ame...
As mãos quentes tocaram-na, retirando a camisola que o impedia de alcançar a pele ainda
mais macia do que a seda.
Tomando os seios em suas mãos, ele ouviu o suspiro de prazer e aumentou a intensidade de
seu toque até fazê-la gemer.
— Então, donna bella, agora me quer?
— Sim, eu fui muito orgulhosa. Você tinha razão quando me chamou de tola, eu o quero…
— Diga-me quanto.
— V-você sabe...
— Quero ouvi-la dizer.
— Com palavras?
— Ou gestos, donna...
— Você consegue ser cruel, não, Renzo? Eu era uma pessoa tranqüila e equilibrada até ser
tocada e…
— Não fale mais, minha linda prisioneira, minha garota dourada, minha...
Os lábios de Renzo a excitavam com paixão crescente. Geórgia enterrou os dedos nos
cabelos negros como a noite enquanto as chamas irradiadas pelas carícias transformavam
seu sangue em lava ardente. Aos poucos, a suavidade se perdia e a língua dele percorria
todos os recônditos de sua boca.

Aléx 11/09/2006 18:16 Subitamente, Renzo afastou-a e, levantando-se da cama, começou a


acender os abajures espalhados pelo quarto. Uma luz coloriu o ambiente de tons rosados,
dando ao corpo de Geórgia um brilho de madrepérola.
— Estou cansado de amá-la na penumbra, donna. Já não é mais a virgem apavorada que
necessita de escuro para ocultar seus temores. Quero ver seu corpo e seus olhos brilhando
de prazer.
O coração de Geórgia batia desordenadamente diante da onda de sensualidade que a
envolvia. Quando Renzo iniciou uma lenta exploração erótica de seu corpo, ela gemeu e
arqueou-se para a frente, com os seios palpitantes à altura dos lábios dele.
Renzo tomou o mamilo rosado com avidez, sugando-os até sentir que ela perdia o controle.
Numa busca apaixonada e mútua de sensações alucinantes, os corpos se moldaram,
enlouquecidos de desejo. O ardor de Renzo contagiou-a, aumentando o prazer de oferecer a
sua feminilidade com um abandono total.
Mas ele queria prolongar ao máximo aqueles momentos de volúpia, queria ouvi-la implorar
pela posse. Buscando o recanto mais íntimo do corpo fremente, Renzo tocou-a e sentiu em
suas mãos as vibrações descontroladas de Geórgia.
— Renzo…agora… não me faça esperar…
E então mergulhou no calor de seu corpo, que, como uma flor úmida de orvalho abrindo-se
diante do calor do sol, o recebeu com um abandono ousado.
Numa ciranda alucinante, ela sentiu o desejo aumentar até um ponto jamais alcançado, e
juntos mergulharam num êxtase quase insuportável de tanta intensidade.

Aléx 11/09/2006 18:17 Mas, mesmo durante os momentos de delírio, Geórgia não
conseguiu esquecer que Renzo a chamara de "garota dourada", como todos se referiam a
Angélica. Ela continuava em seus braços mas fora de seu coração, onde só havia lugar para
uma mulher. Apesar de toda a dor e mágoa, sua irmã ainda dominava os sentimentos do
homem que agora era seu marido.
— Renzo?
— Sim, bella?
— E se… eu ficar grávida? O que acontecerá?
— Ora! Os fatos habituais, creio eu: seus seios ficarão maiores, o ventre arredondado…
você tem medo de engravidar?
— Não sei ainda…
— Bem, realmente devíamos ter tocado neste assunto antes. Foi muito egoísmo da minha
parte não conversar com você… Céus, Geórgia, está tremendo como se estivesse com
febre!
— Eu não estou, mas. .. não sei por que tremo tanto.
— Precisa tomar uma bebida forte, um conhaque.
Enquanto Renzo dirigiu-se à saleta, Geórgia tentou controlar-se, mas em vão. Sabia muito
bem o porquê de sua reação violenta. Aqueles momentos de paixão alucinada seriam tão
magníficos se fosse ela a mulher a quem Renzo possuíra! Mas ele usava o seu corpo
pensando na "garota dourada", egoísta, desleal, traidora, mas sempre fascinante e sempre
amada.
Depois de alguns goles de conhaque, Geórgia voltou à temperatura normal, pelo menos no
exterior.
— Bella… você mesma disse que muita coisa mudou em sua vida em tão pouco tempo. Eu
devia ter sido mais atencioso e menos ávido, deixando-a acostumar-se a tantas alterações.
Tirei-a de um mundo calmo e sem agitação e joguei-a em meu ritmo de vida frenético. É
mais do que natural a sua perturbação. Beba mais um pouco.

Aléx 11/09/2006 18:18 Como Renzo tinha razão! Jamais tivera em Duncton
acontecimentos tão excitantes como os do dia que terminava agora. Se nem mesmo havia
tido um namorado! Talvez fosse esse o momento de pedir-lhe para deixá-la voltar àquela
vida pacata à qual estava acostumada. Mas, as palavras não vinham, já não mais havia a
urgência de fugir para o refúgio seguro da casa paroquial. No lugar dessa necessidade,
tinham surgido outras! Não seria mais possível para ela afastar-se de Renzo…ele se
apoderara de seu corpo! As palavras de Angélica sobre a forma como ela amaria um
homem voltaram à sua mente. Corpo e alma…
— Foi a primeira crise de nervos de toda a minha vida!
— Por excesso de novidades, desgaste e tensão... Não podia ter esquecido nossas diferenças
de idade, experiência e temperamento.
— Já não importa mais.
— Não! Não devo perder de vista como tudo é novo para você e como é jovem!
— Não quero ser tratada como uma criança, Renzo!
— Seria uma criança precoce demais, não acha? Agora trate de dormir.
No escuro, Geórgia esperou que ele a tomasse nos braços para confortá-la. Mas os minutos
passaram e Renzo não se moveu.
Ela permaneceu imóvel e angustiada, sem coragem de tomar a iniciativa de aconchegar-se.
Sem dúvida, seu ataque de nervos, típico de uma virgem em pânico, o fizera perceber o
quanto ela era diferente da auto-suficiente modelo que cruzava as passarelas partindo
corações e destruindo casamentos sem perder o sorriso de felicidade!
Tarde demais, seu marido se lembrara de como as intimidades conjugais iriam perturbá-la.
Agora ele a levara passo a passo até o mundo das sensações físicas, despertando-lhe desejos
tão intensos que chegara a se humilhar, implorando para ser amada. Colocara nela sua
marca e já não era mais dona de seu corpo.

Aléx 11/09/2006 18:19 Incapaz de conciliar o sono, Geórgia pensou na possibilidade de ter
um filho de Renzo. O bebê se moveria em seu ventre, lembrando-a de que não estava mais
sozinha, e logo teria nos braços um pequeno ser. Já não mais importaria então se Renzo a
amava ou não. Seu filho a fitaria com os olhos cheios de amor, uma afeição sem motivos
ocultos ou dúvidas. E, acima de tudo, ela teria dado ao marido algo que jamais receberia de
Angélica.
Uma gravidez significava a deformação do corpo, enjôos constantes, pés inchados e sabe
Deus quais outros sintomas desagradáveis. Sua vaidosa irmã sempre tivera idéias bem
definidas a esse respeito! Completamente devotada à perfeição de suas formas, ela havia
jurado jamais arriscar sua beleza pelo mero gosto de tornar-se mãe. Nunca se apaixonaria
por homem algum a ponto de cometer a loucura de dar-lhe um filho!
Mas Geórgia sonhava em ter nos braços um bebê que representasse uma parcela de Renzo
que seria realmente sua. Rememorando cada detalhe daquele dia dedicado ao amor, ela
rezou para que já carregasse no ventre um filho dele…

Ao acordar na manhã seguinte, Geórgia estava sozinha e, depois de procurar Renzo por
toda a suíte, decidiu vestir-se. Talvez ele tivesse resolvido tomar o café da manhã no salão.
O sol quente convidava a usar vestidos leves e diáfanos, e Geórgia escolheu um dos que ele
mais gostava. Queria mostrar-se bela aos olhos de Renzo.
Depois de percorrer inúmeros salões e corredores infindáveis, ela começou a se preocupar.
Onde estaria Renzo? Quando descobriu a sala de leituras, sentiu as esperanças renascerem.
Sem dúvida, resolvera ler os jornais!
Entretanto, não havia ninguém no aposento bem decorado mas sombrio. Desanimada,
resolveu voltar para o quarto e esperar.
No momento em que ia sair, viu sua passagem bloqueada pelo jovem com quem dançara na
primeira noite passada no Duke’s.

Aléx 11/09/2006 18:20 — Alô, boneca… Senti sua falta ontem no baile!
Geórgia tentou alcançar a porta mas ele a segurou pelo pulso.
— Tinha compromissos mais agradáveis.
— Compromissos consigo própria?
— O que o fez pensar que eu estava sozinha? Tenho um marido, sabia?
— E ele jogou cartas até tarde da noite. Eu o vi entrar no salão de jogos… mancando!
O tom de voz cheio de desprezo despertou a fúria de Geórgia.
— Meu marido é muito mais homem do que você jamais será. É mais fascinante dormindo
do que você acordado, seu pirralho insolente.
Os olhos azuis muito claros revelaram o choque causado por aquelas palavras ofensivas.
Ele não estava acostumado a ser contrariado e, rubro de ódio, empurrou-a de encontro a um
vão escondido entre duas estantes.
— Vagabunda!
Geórgia sentiu uma onda de pânico envolvê-la. Não havia ninguém na sala e ele conseguira
encurralá-la num canto onde quem entrasse não os veria. Sentiu as coxas musculosas sobre
as suas e a revoltante evidência de um desejo voraz.
Lutou para fugir dos beijos úmidos sobre seus ombros enquanto ele a tocava ousadamente.
— Solte-me ou vou gritar por socorro!
— E alguém irá acreditar? Você não passa de uma prostituta que se despe diante de uma
câmera e é possuída por um bando de homens, das maneiras mais aviltantes! Esse seu olhar
inocente é uma farsa! Sua capacidade como a triz convence até o Papa!
Sem que ela soubesse como, o rapaz conseguiu agarrar um dos seios com sua mão rude.
Com a outra, tentava descobrir-lhe as pernas.

Aléx 11/09/2006 18:28 — Que tal vir até meu quarto fazer uma demonstração de sua
perícia em satisfazer um homem? Deve ter truques incríveis, próprios da sua profissão!
Desesperada, Geórgia ergueu o joelho com toda a força e atingiu-o no ponto mais
vulnerável. Enquanto o rapaz se dobrava de dor ela fugiu do salão, desejando tê-lo
incapacitado para sempre!
Correndo sem rumo, Geórgia encontrou uma saída para os jardins e para o sol. Sentia-se
suja e corrompida pelo ataque à sua feminilidade. Até quando a sombra de Angélica iria
destruir sua vida?, pensou angustiada.
Ao mesmo tempo, não conseguia parar de pensar nos atos cometidos por sua irmã, agora
gravados num filme acessível a quem o quisesse ver! Por dinheiro, ela permitira
intimidades que significam a expressão máxima do amor entre um homem e uma mulher.
Sem perceber a atenção que sua figura esguia e atraente despertava, ela seguia sem direção
certa, cega a tudo. Não tinha meios de escapar a um destino cruel. A cada pequena alegria
alcançada, surgiria uma evidência dolorosa do comportamento devasso de sua irmã.
Entre ela e o marido existiria sempre uma sombra, uma presença maligna da qual jamais
conseguiriam se libertar.
Se ao menos Geórgia tivesse confiança em suas qualidades, talvez a figura de Angélica lhe
parecesse menos ameaçadora. Mas vivera sempre em segundo plano, apagada e sem
desejos próprios. Os elogios sempre tinham sido dirigidos à outra...
Sentando-se num banco no recanto mais isolado do jardim, deixou o pranto correr livre.
Não adiantava iludir-se! Renzo queria dela exatamente o mesmo que aquele rapaz
insolente, Um era elegante e refinado, o outro um grosseiro e vulgar estudante, mas seus
desejos não eram diferentes: queriam apenas o seu corpo!

Aléx 11/09/2006 20:49 CAPITULO XII


Como era difícil para Geórgia conviver com um aspecto de sua personalidade que até então
desconhecia: o lado sensual! Nunca assumira essa faceta tão importante na vida de uma
mulher, e aceitara o papel bem menos perturbador de dona-de-casa. Mas ela possuía um
corpo, com desejos e reações independentes à sua vontade racional.
E, à medida que tomava conhecimento do mundo novo das sensações, também começava a
notar o efeito de sua feminilidade nos homens. Jamais prestara a menor atenção se a
olhavam ou admiravam; vivia num mundo onde a haviam catalogado como a filha do
pastor, solteirona e dedicada aos afazeres domésticos e aos problemas da paróquia de
Duncton.
A mulher que fazia os homens perderem a cabeça, sensual, atraente e cheia de magia... era
Angélica, não Geórgia!
Nem mesmo depois de seu noivado com Renzo ou durante a cerimônia do casamento
reconhecera os olhares lisonjeiros dos homens.
Só após o despertar de seus sentidos, numa explosão inesperada de prazeres sensuais
através das mãos hábeis de Renzo, Geórgia descobrira a força de ser mulher!
No entanto, o poder da atração a atemorizava. Era tudo muito recente ainda e temia, aos
poucos, perder todos os princípios rígidos de sua educação para entregar-se à escravidão de
satisfazer seus desejos acima de tudo.
Perturbada, Geórgia abandonou o refúgio entre os canteiros floridos e dirigiu-se à praia,
procurando a paz que o mar sempre lhe trouxera.
Queria evitar a qualquer custo a multidão de turistas e o único lugar onde não os
encontraria era em Ocean Head. Entretanto, voltar àquele recanto onde descortinara a
intensidade de seus desejos seria péssimo para seu estado de espírito, já bastante
conturbado.
Entre tantos pensamentos conflitantes, Geórgia viu os pôneis…
Bandos de crianças esperavam entusiasmadas sua vez de montarem um dos três cavalinhos
à disposição delas na praia. Inconscientes e mimadas, gritavam e puxavam as rédeas,
tentando forçá-los a andarem mais depressa. Subitamente, Geórgia esqueceu-se de todos os
seus problemas. A visão do dono dos pôneis, batendo com um chicotinho justamente no
mais frágil deles para que se movesse, fez com que ela perdesse a cabeça.
Com uma violência inexistente em sua personalidade meiga, empurrou sem remorsos o
grupo numeroso de pais que se deliciavam em ver seus filhos se divertirem mesmo às
custas do sofrimento de um animal.
Ela alcançou o proprietário no momento exato em que ia tornar a bater no pônei, que, além
de ligeiramente manco, parecia subnutrido e sedento. Mesmo sabendo que estava se
intrometendo, a falta de compreensão e sensibilidade daquelas pessoas levou-a a agir num
impulso.
— Pare já com isso! Não percebeu que o animal está com uma das patas machucadas? Se
tornar a bater-lhe, é capaz de cair!
O homem olhou-a sem a menor surpresa, totalmente indiferente ao seu comentário
indignado.
Sem dúvida, ele tinha pleno conhecimento das condições precárias do animal e não lhe
importava a mínima o seu sofrimento.
— Por que não vai tratar da própria vida, moça? Tomo conta de pôneis há mais de trinta
anos e não preciso de nenhuma intrometida me ensinando como lidar com eles.
— Pois então fique sabendo que estou disposta a ir até a Sociedade Protetora dos Animais.
Se ganha seu sustento através do trabalho deles, tem a obrigação de tratá-los com
humanidade e respeito. Este pobrezinho não está só manco… vai cair a qualquer momento!
E se derrubar uma criança e ela se machucar será processado pelos pais!
Geórgia conseguira atingi-lo! O homem, com um ar enfurecido, foi até o pônei cor de mel,
que recusava o mover-se. O garoto em cima dele batia em vão com os punhos e os
calcanhares para incitá-lo a galopar.
— Vamos descer, garoto…

Aléx 11/09/2006 20:50 Imediatamente, os pais do menino vieram verificar por que motivo
o filho não pudera continuar seu "inocente" passeio.
— O pônei está machucado… É melhor o garotinho montar um dos outros…
Enquanto o proprietário explicava tudo aos pais ofendidos, Geórgia aproximou-se do
animal e sentiu uma vontade imensa de chorar. O pobrezinho estava tão maltratado!
Sem ao menos pensar na reação do marido quando ela aparecesse ao hotel com um
companheiro de quatro patas, Geórgia decidiu comprá-lo.
— Este animal tem direito a uma vida melhor do que seus maus tratos. Quanto quer por
ele?
— A senhora é uma lunática, sabia? Não tenho intenções de vendê-lo, ele rende muito
dinheiro para mim. Hoje não está bem mas sempre trabalhou duro. Dependo disso!
— O que acha de cinqüenta libras? Em suas mãos, não irá durar muito tempo mais e,
quando for vendê-lo, não receberá nem a metade do que estou lhe oferecendo.
Depois de poucos segundos de hesitação, ele aceitou a oferta, que ultrapassava muito o
valor daquele animal no fim de suas forças.
— É todo seu, madame… O nome dele é "Melado", por causa da cor do pêlo.
Uma multidão os rodeava, interessada na discussão acalorada. Geórgia podia ver os olhares
irônicos dirigidos a ela. Todos a julgavam uma idiota por comprar um pônei tão maltratado.
Pois ao diabo com o que as pessoas pensavam!
Aquele animalzinho agora era seu e receberia uma alimentação decente, cuidados de um
bom veterinário e muito carinho. Estava saturada da desumanidade das criaturas,
preocupadas em viver no luxo, esquecendo-se de princípios básicos como a compaixão!
Tomando as rédeas do pônei, olhou com desprezo para os curiosos e dirigiu-se para as
cocheiras do hotel. Em Londres, ela o acomodaria junto com os cavalos de Renzo… Ele era
rico o bastante para satisfazer-lhe um capricho tão pouco dispendioso.

Aléx 11/09/2006 20:50 No momento em que entrou no gramado bem cuidado ao redor das
cocheiras, quatro cavalheiros chegavam, montados em magníficos animais. Ao vê-la,
caíram todos numa gargalhada desdenhosa.
— Será que não se enganou de endereço? Este hotel não irá aceitar um traste desses entre
as melhores montarias do país. O lugar dele é na praia!
— Foi de lá mesmo que eu o trouxe… e vai ficar aqui! Comprei-o há poucos minutos e
duvido que o gerente do hotel coloque algum impedimento à vontade do meu marido!
Entretanto, a situação mostrou-se bem mais difícil do que Geórgia previra.
— Deve estar brincando, madame! — disse o rapaz da cocheira.
— Não o faria a respeito de um animal ferido! Meu marido e eu somos hóspedes do Duke's
e exijo que o veterinário o examine. Não tenha medo, vocês serão pagos!
— Vai lhe custar uma fortuna!
— Pouco me importa! Não existe mais compaixão neste país?
— Bem… nem todos têm um coração sensível como o seu, madame. O gerente do Duke's,
por exemplo, é famoso por sua intransigência, e vai ser uma tarefa árdua convencê-lo…
— Pois terá que se conformar! Meu marido, Renzo Talmonte, costuma conseguir tudo o
que quer!
Como se a tivesse ouvido, Renzo aproximou-se, curioso com o grupo exaltado que discutia
e gesticulava. Para surpresa total, viu, no centro da acirrada disputa, sua discreta e tímida
esposa.
Simultaneamente, chegou um senhor de aparência severa, que fora chamado às pressas — o
gerente do Duke's!
Enquanto Renzo e o gerente discutiam, Geórgia tentava analisar as reações do marido.
Estaria apenas defendendo-a por solidariedade? Teria ficado com raiva ou se divertia com
toda aquela confusão?, questionou-se.

Aléx 11/09/2006 20:50 Desesperada por garantir o bem-estar de seu protegido, ela o olhou
num apelo mudo mas veemente. Sabia que Renzo tinha condições de forçar o gerente a
ceder. Quem resistia ao poder que emanava daquele homem?
E, realmente, em menos de quinze minutos, o gerente capitulou e pediu ao rapaz para que
cumprisse as ordens de madame Talmonte.
Assim que ficaram a sós, Geórgia deu um sorriso agradecido ao marido mas Renzo não
moveu um músculo do rosto impassível.
— Dio! Não posso deixá-la sozinha nem por meia hora? Precisei resolver alguns negócios
urgentes no banco e... veja o que aconteceu! Explique-se!
Depois de contar toda a sua aventura, Geórgia dirigiu-se a Freddy, o rapaz que cuidava dos
animais, dando-lhe todas as instruções sobre o tratamento de "Melado".
Impaciente, Renzo apressou-a. Já passava de meio-dia e ele estava faminto!
— Vamos logo, cara. Seu pônei de três pernas receberá alfafa, mas eu também preciso me
alimentar. Acompanhe-me para o almoço ou prefere fazer companhia a "Melado"?
— Oh! Eu vou com você, querido! Muito obrigada por ter me ajudado… Fui arrastada por
um impulso incontrolável. Não pude suportar a maneira com que tratavam o pobrezinho.
Está zangado comigo?
— Não, de modo algum!
— Então por que… esse ar estranho?
— Quero apenas beijá-la… e não em público. Deixei-a dormindo esta manhã e foi difícil
não tocá-la. Há quanto tempo não ficamos a sós?

Aléx 11/09/2006 20:51 Aquelas palavras tocaram na mente de Geórgia, que baixou o olhar,
envergonhada. Ainda não conseguia aceitar o seu comportamento da noite anterior, como
também não tinha superado a vergonha de falar em assuntos tão íntimos como se fossem
fatos habituais de sua vida.
No elevador que os levava até o segundo andar, um silêncio tenso tornou-a ainda mais
inquieta. Numa manhã ensolarada, eles se dirigiam para o quarto! Era quase imoral!
Mas Renzo fechou a porta atrás de si, envolveu-a num abraço, os olhos brilhando com um
desejo intenso e indisfarçável. Fitou por um longo tempo os inocentes olhos azuis até que
Geórgia criou coragem e abraçou-o também.
— Ah!... A cada momento me é revelada uma nova faceta da personalidade de minha
esposa. Uma surpresa após a outra… e todas agradáveis até agora.
— E-eu também estou surpresa com minhas atitudes inesperadas... Nunca fui assim...
No momento em que Renzo a beijou, todas as suas objeções quanto aos desejos masculinos
em relação ao seu corpo se desvaneceram. Os músculos rijos pressionando-a apagaram a
lembrança repulsiva do jovem insolente que a insultara aquela manhã. As mãos, que
desciam lentamente até alcançar-lhe os quadris, desencadeavam uma tormenta em seus
sentidos e ela só podia deixar-se envolver pelo calor da paixão.
Se Geórgia se surpreendia por suas reações inesperadas, Renzo perdera totalmente a visão
de seus objetivos frios e racionais. O feitiço que aquela jovem ingênua exercia sobre ele
ultrapassara todos os limites sensuais que esperava encontrar numa mulher. A própria
inexperiência e timidez de suas carícias ainda hesitantes não escondiam que, em cada gesto,
havia uma entrega total, uma magia nascida do instinto.
Com a ponta dos dedos, ele percorreu os contornos dos lábios vermelhos e ainda molhados
de seus beijos. Sem qualquer pressa, despiu-a, saboreando cada detalhe do corpo sensual
revelando-se aos poucos diante de seus olhos.

Aléx 11/09/2006 20:51 Geórgia sentia as emoções tumultuadas, preparando-se para o


prazer de ser possuída por Renzo. Mas, para sua surpresa, ele a carregou até o banheiro
com um sorriso malicioso nos lábios.
— Onde… o que vai fazer?
— Há uma infinidade de prazeres a serem partilhados numa lua-de-mel, donna bella. Você
irá experimentar todos, e um deles é ver seu corpo molhado, brilhando como se estivesse
coberto por minúsculos diamantes.
Apesar de ter conseguido uma certa descontração diante do marido, sua nudez em plena luz
do dia ainda a encabulava. Mas tomar banho com alguém era… uma depravação!
Tentou escapar dos braços de Renzo, mas, à medida que os beijos tornavam-se mais
urgentes e possessivos, suas resistências caíram por terra. O toque mágico dos dedos longos
em sua pele a transformava numa mulher ardente e repleta de desejo.
Sob a água morna, ele procurou cada centímetro do corpo esguio em busca de um prazer
sempre mais intenso e embriagador. Os minutos se escoavam lentos enquanto as mãos
fortes deslizavam-lhe pelas coxas e alcançavam as nádegas, num passeio erótico e
alucinante.
Só então Geórgia ousou acariciar o corpo másculo que apenas tocara no escuro na noite
anterior. Vencendo a hesitação, procurou conhecê-lo em cada detalhe, até ouvi-lo gemer de
prazer.
Incapaz de suportar a ânsia incontida de possuir aquela muIher-menina, Renzo levantou-a
e, encostando-a na parede, beijou-a com sofreguidão enquanto tocava o recanto mais
secreto do corpo feminino, o centro de todo o prazer. Ao sentir as vibrações incontidas,
prendeu entre os lábios os seios enrijecidos de desejo, sugando-os com avidez até Geórgia
implorar para que ele a possuísse.
Erguendo-a pêlos quadris, colocou-lhe as pernas em torno de sua cintura e, sem poder mais
esperar, penetrou-a num movimento rápido.

Aléx 11/09/2006 20:52 O ruído de água encobria os suspiros de prazer e apenas o gemido
incontrolável do êxtase superou todos os sons…
Envolvendo-a numa toalha, Renzo carregou para a cama a mulher que despertara nele
emoções jamais sentidas antes. Unidos na paz de perfeita harmonia, deixaram que o sol que
entrava pela janela secasse as gotas de água… Já não mais constrangida por sua nudez,
Geórgia revelou toda a glória de um corpo jovem saciado de amor…

O som, agudo e insistente, penetrou finalmente as barreiras erguidas pelo desejo em torno
deles, uma muralha não de pedras, mas de beijos e carícias.
Sem soltar aquele corpo cuja entrega despertara nele a mais pura forma de prazer, Renzo
atendeu o telefone e ouviu por um longo tempo, sem dizer uma única palavra.
Mas Geórgia percebia claramente que as feições até então refletindo paixão iam perdendo
todo o calor. A cada segundo, seus traços se endureciam mais até que ele a soltou e
concentrou-se apenas em ouvir… A notícia não devia ser nada agradável!
Quem poderia ser tão sem consideração a ponto de absorvê-lo por tanto tempo? Teriam se
esquecido de que estavam interrompendo as atividades típicas de um casal em lua-de-mel?
E porque Renzo não dizia logo que não queria ser perturbado por telefonemas
inoportunos?, refletiu.
O relógio ao lado da cama indicava que haviam perdido a hora do almoço. Afinal, a fome
de amor era muito mais urgente e aqueles dias seriam poucos e muito especiais. Dentro de
pouco tempo, o mundo voltaria a se fazer presente e toda a ilusão criada naquele quarto de
hotel se desfaria como cinzas ao vento.

Aléx 11/09/2006 20:52 O homem moreno e musculoso, nu ao seu lado, deixaria de ser um
amante apenas para se tornar um marido, e a jovem sensual… uma esposa! Que tipo de
vida teriam pela frente? Breves momentos de profundo prazer e longas horas de
incomunicação e ódio… Voltaria a sentir a ânsia intensa nos braços de Renzo, onde perdia
todas as noções de vida que a haviam guiado até então? E ele? Tornaria a possuí-la com
tanta avidez, enlouquecendo-a com carícias ousadas, ou deixaria o afastamento das mentes
transformar em indiferença a necessidade de seus corpos?
Como uma estátua de Michelangelo, cada músculo se desenhava na pele dourada de Renzo
como uma obra de arte esculpida por séculos de sangue nobre.
Subitamente a voz fria rompeu seu devaneio:
— Si, você tinha razão em telefonar-me, Flávia. Comunicarei a Geórgia seu pedido de
desculpas por ter-nos perturbado. Arriverdérci!
— O que houve, Renzo? Algum problema sério? — perguntou Geórgia, em pânico. Seria
algo relacionado a Angélica?
— Nossa lua-de-mel terminou…agora! Preciso voltar a Londres com urgência, sinto muito.
— Mas… por que motivo? — murmurou ela, rezando para que a irmã não tivesse voltado a
fim de reclamar a sua… "propriedade"!
— Chegou um telex em meu escritório, enviado por Mônica, de Roma. Ela avisa que minha
mãe embarca hoje à noite para Londres, onde irá consultar um cardiologista de Harley
Street. Foi uma decisão muito súbita e isso me inquieta, mas o fato de Mônica pedir-me
para encontrar mamãe no aeroporto ainda aumenta mais minha preocupação. Seu coração é
fraco e talvez tenha havido alguma piora em seu estado geral.
— Oh! Temos que voltar… é lógico! — exclamou Geórgia, preocupada com o ar
perturbado de Renzo. Parecia haver uma ligação profunda entre ele e a mãe, embora pouco
soubesse da vida daquele homem a não ser detalhes desconexos e banais.

Aléx 11/09/2006 20:53 No entanto, foi-lhe difícil esconder o terrível desapontamento.


Tivera esperanças de que uma semana passada em Sandbourne os aproximasse, ajudando a
criar um elo mais forte entre duas criaturas unidas sem o menor laço de afeição ou pontos
em comum. Poderiam conversar, descobrir a verdadeira personalidade um do outro e, quem
sabe, alcançar um grau de envolvimento para impedir que alguém se colocasse entre eles,
destruindo o pouco que tinham conseguido: a harmonia dos sentidos!
Infelizmente, esses dias mágicos haviam terminado cedo demais! Seu marido começava a
vestir-se, e sua expressão distante evidenciava que nem mais se lembrava da existência de
uma esposa!
— Mamãe sofreu um enfarte há dois anos e, desde então, tem vivido em tratamentos
bastante severos. De acordo com as palavras de Flávia, parece que as palpitações
aumentaram e o remédio já não faz nenhum efeito... — Olhando à sua volta, Renzo deu um
suspiro exasperado. — Como iremos arrumar tudo em tão pouco tempo? Chamarei a
camareira para ajudar…ou será que você não prefere ficar aqui no hotel até o final da
semana, como havia sido previsto?
— Oh! Não! Eu o acompanharei.
— Tem certeza absoluta? E seu pônei?
— Tomarei providências para que o enviem a Londres o mais rapidamente possível.
Geórgia teve a sensação de estar sendo deliberadamente afastada da vida do marido. Só o
fato de Renzo jamais ter mencionado o nome da mãe evidenciava sua intenção de mantê-la
de fora dos aspectos mais importantes de sua existência. Uma dor inesperada invadiu-a.
Sentiu ódio de si mesma por ter sido tão vulnerável ao estado de espírito de um homem
para quem não significava nada além de um corpo à disposição nos momentos de prazer.
— Renzo querido… não acha melhor comermos algo antes de ir?
— Não! Quero partir o mais depressa possível para Londres. Talvez no caminho, se você
tiver muita fome, possa comer um sanduíche.
Aléx 11/09/2006 21:04 — Como preferir… — murmurou Geórgia, e uma sensação de
abandono tomou conta dela. Embora o sol ainda banhasse o quarto de dourado, sentia um
frio intenso. As portas haviam se fechado novamente entre os dois.
— Pelo amor de Deus, Geórgia! Não fique parada… vista-se depressa.
Sem olhá-la mais, Renzo saiu do quarto com passos rápidos, deixando-a sozinha.
Avaliando a desordem à sua volta, Geórgia permaneceu imóvel por alguns segundos, sem
saber por onde começar. Então, reunindo coragem para enfrentar a situação, vestiu-se e
chamou uma camareira para fazer as malas.
A única lembrança daquela lua-de-mel, abruptamente cortada, permaneceria nos estábulos
do Duke's, onde o veterinário terminaria de examiná-lo. O simpático homem tinha afirmado
que o pônei magro e de pêlo sem brilho logo se tornaria um belo animal, ideal para
crianças.
Enquanto reunia as miudezas espalhadas pelo quarto, Geórgia pensou nos caminhos
tortuosos do destino... Seria "Melado", um maltratado e subnutrido pônei, o animalzinho
predileto de um filho que ela daria a Renzo?
Os poucos dias passados naquele belo hotel à beira-mar, um recanto de ilusão e fantasia,
tinham sido repletos de paixão. Se não existia amor, ao menos o desejo os impelira
desenfreadamente a se procurarem… Estaria já carregando a semente de um futuro ser?

Como iria sentir saudade da construção branca, rodeada de jardins floridos. Chegara ali
uma jovem tímida, inexperiente e aterrorizada diante da realidade da vida conjugal. Partia
agora uma mulher plenamente realizada, desperta para o prazer. ..
O amor físico havia se desdobrado em todas as suas formas, apurando a harmonia de dois
corpos até que seus sentidos alcançassem o requinte máximo. Naquele quarto, o mundo não
penetrava, era um refúgio contra as pressões, as mágoas e principalmente um esconderijo
da verdade. 11/09/2006 21:04 Mesmo tendo sido muito curta, a lua-de-mel transformara
um breve espaço de tempo numa eternidade… Dias longos em que ela vibrara e fora
arrastada por uma paixão sem limites. Vivera, com intensidade, mais do que muitas
mulheres em muitos anos, e tinha plena consciência disso.
Com os olhos cheios de lágrimas, Geórgia olhou uma última vez para o terraço que se abria
para o mar e sentiu uma vontade insensata e inútil de que o tempo parasse!

Aléx 14/09/2006 18:27 CAPITULO XIII


A fisionomia de Renzo parecia talhada em granito enquanto tomava seu café da manhã, já
pronto para ir receber sua mãe no Heathrow Airport de Londres. Ele não pronunciara uma
única palavra nem olhara para a esposa desde que haviam saído do quarto.
Geórgia se ressentira profundamente por não ter sido convidada para acompanhá-lo, e
sentia-se outra vez a simples filha do pastor, sem refinamentos ou desembaraço social.
O silêncio foi rompido pela voz ríspida de Renzo.
— Mia Madre adora flores, mas apenas brancas. Faça o favor de encomendar uma grande
quantidade para colocá-las na saleta e no quarto de hóspedes. Ah… você não sabe ainda, só
as encomendo na Gudrun's, uma das melhores floriculturas de Londres, portanto basta
mencionar o meu nome. Providencie também um rádio e uma televisão. Há tanto tempo a
condessa não fica em minha casa... Só me perturba que esta visita seja ocasionada por
motivos de saúde.
A maneira rude de seu marido dar-lhe ordens em vez de pedir-lhe favores a magoava e
destruía sua autoconfiança ainda tão frágil.
— Sei tão pouco sobre sua mãe…
— Por acaso acha que os homens discutem as mães durante a lua-de-mel, cara?
— Não… suponho que não. Mas você é tão fechado, jamais conta nada sobre sua família.
Preciso saber um pouco mais sobre todos. Por exemplo…
— Sim? Pergunte o que quiser, a curiosidade é sua!
— Ela é realmente uma condessa?
— Deve ser, não acha? Seria crime usar um título falso.
— Renzo! Está me tratando como se eu não tivesse o direito de mencionar o nome de sua
mãe! Por acaso vai nos apresentar? — reagiu Geórgia, ofendida com o tom de desprezo.
Ele a fitou por algum tempo, enquanto se servia de mais café. O sol entrava pela janela
aberta do gracioso salão da luxuosa casa onde era servido o desjejum todas as manhãs,
fazendo brilhar a porcelana de delicados arabescos dourados.

Aléx 14/09/2006 18:28 — Bem, cara… acho melhor colocá-la a par da situação difícil em
que nos encontramos. Minha mãe não tem a menor idéia do nosso casamento, acredita que
minha noiva ainda seja Angélica…
— Meu Deus! Como pôde…
— A esposa de Stélvio e eu decidimos ocultar-lhe a fuga do meu irmão com aquela…
depravada. O coração de minha mãe já apresentou problemas sérios, e saber que o filho
querido abandonou o lar para viver em pecado poderia afetá-la. Além disso, nós dois
acreditamos que esse caso sórdido será de pouca duração.
O choque daquela revelação deixou Geórgia sem voz. Como enfrentar uma sogra que nem
ao menos sabia que o filho tinha se casado? E não com a noiva a quem já conhecera,
pensou desanimada.
— Estou começando a entender por que queria tanto que eu ficasse em Sandbourne! Seria
muito mais fácil, não? Longe dos olhos, longe do coração… Nenhuma explicação,
nenhuma mentira!
— Sua permanência lá teria tornado a visita de mamãe bem menos tensa e, mais tarde,
numa ocasião oportuna, eu lhe contaria tudo.
— Mas sua "esposinha" recusou-se a separar-se do marido, e agora será obrigado a explicar
por que se casou com uma irmã e não com a outra! Céus! Que situação absurda e confusa!
Sua mãe vai ficar curiosa por saber o motivo do rompimento de seu noivado, não acha?
— Sem dúvida, cara.
— E…”sem dúvida", não poderá dizer a verdade ou lhe causará um choque que será
perigoso para a saúde dela.
— Stélvio sempre foi o filho predileto, o menino dourado da condessa… Saber de sua
atitude indecorosa de abandonar a família magoaria demais minha mãe. Evitarei isso a
qualquer custo.

Aléx 14/09/2006 18:28 — Pelo menos já pensou em quais mentiras irá inventar? Passou
uma boa parte da noite na saleta. Pensei que estivesse lendo mas, pelo jeito, quebrava a
cabeça para encontrar uma saída, não? É uma pena não poder dizer-lhe que foi tudo apenas
uma... vingança!
— Ouça bem, Geórgia. Se mencionar algo a minha mãe e ela desconfiar… só Deus sabe o
que eu farei! A história oficial, repetida por nós dois, será a de que Angélica preferiu a
carreira ao casamento e eu desposei sua irmã.
— É... não me parece muito convincente mas terá que servir! — comentou Geórgia,
pensativa. Sem dúvida aquela explicação a colocava bem em seu lugar! Uma noiva de
"segunda mão"! Se deixara as noites de paixão afastarem essa noção de sua mente, a culpa
era só sua! Mas, para o bem do marido, devia comportar-se como uma esposa real e
amorosa.
— Você não comeu nada, Renzo.
— Não tenho fome, cara.
— Por favor, não fique tão ansioso assim! Tudo vai dar certo, você vai ver! Diga-me, então
é o conde Talmonte?
— Não uso o título. Quando decidi lutar por um lugar ao sol no mundo do trabalho sério,
ocultei minhas origens nobres. Há uma idéia preconcebida de que membros da aristocracia
são irresponsáveis, jogadores ou playboys, nunca homens de negócio estáveis ou talentosos.
— Mas Angélica sabia, não?
Foi uma pergunta difícil de fazer, pois Geórgia lembrava-se muito bem de quando a irmã
tinha mencionado o título do noivo. Hoje, conhecendo melhor o lado negativo de Angélica,
acreditava que ela tivesse sido atraída mais pelo fato de ser um dia uma condessa do que
pelo casamento!

Aléx 14/09/2006 18:29 — Julguei que ela tivesse sabido só quando conheceu Stélvio, mas
descobri depois que já tinha conhecimento de minha posição logo após nosso primeiro
encontro. Manteve em segredo esse fato pois queria a qualquer custo pertencer a uma
família nobre. Para azar de sua irmã, ela não sabia que apenas o filho mais velho herda o
título e fugiu com o mais novo!
O olhar de Renzo revelava todo o ódio de um temperamento latino ofendido e disposto a
levar a cabo a sua vendetta.
— Agora você é minha condessa, donna, mesmo que eu mantenha meu título sob a rosa.
— Sob a rosa? Não entendo!
— Desde a época de glória dos romanos, nos aposentos dissimulados onde se deliberavam
os destinos dos povos, havia no teto um medalhão com uma rosa esculpida. E era sob essa
rosa que os juramentos secretos se faziam com toda solenidade.
Pela primeira vez naquela manhã, Renzo sorriu e, levantando-se da mesa, teve um gesto de
ternura com Geórgia. Beijou-lhe levemente a testa... um toque muito leve e distante.
— Deu-me um beijo em lugar de uma tiara? Prefiro mil vezes ler beijada do que ostentar
jóias, sabe disso, não?
— Pois eu continuo achando que uma mulher bonita foi criada pela natureza para usá-las!
Geórgia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha quando Renzo tocou a pele delicada de
sua nuca sob os cabelos soltos. Tornara-se tão sensível àqueles dedos mágicos que um
simples toque despertava-lhe um desejo intenso. Suas reações chegavam a atemorizá-la!
Como pudera tornar-se tão sem decoro ou amor-próprio diante de um homem?, questionou-
se.
A mão deslizou do pescoço para os ombros, roçou levemente os seios e, firmando-se na
cintura, levantou-a e prendeu-a num abraço.
— Preciso ir embora já, donna, ou chegarei atrasado para receber minha mãe. Vou explicar-
lhe tudo muito bem, portanto não passe as próximas horas se torturando. Lembre-se apenas
das flores e discuta o cardápio do almoço com a sra. Alberti, a cozinheira. Seja gentil mas
firme com os criados. Você é a dona desta casa.
Aléx 14/09/2006 18:29 — Que, por sinal, é belíssima, Renzo.
— Significa muito para mim. — Segurando o rosto delicado entre as mãos, ele a beijou por
um longo tempo. — Donna Bella… mesmo com camisolas sofisticadas, você mais parece
uma garotinha. Aliás, uma criança perdida, sem saber onde está nem para onde vai. É assim
que se sente?
— Um pouco. Estou tão ansiosa! Queria tanto que sua mãe gostasse de mim… Acha que
ela vai me apreciar?
— Ora, eu gosto de você, não? — Um olhar ao relógio o fez soltá-la abruptamente. — Dio!
Se não correr vou perder a chegada do avião! Fique à vontade e sem preocupações,
Geórgia. Minha mãe vai achá-la tão encantadora quanto eu… Arriverdérci!
— Até logo mais — murmurou Geórgia, incapaz de conter a onda de desânimo que a
envolveu no momento em que a porta se fechou.
Ela estava sozinha agora, numa casa que não lhe era familiar, numa cidade estranha, e nem
ao menos podia sentir-se segura em relação ao marido. Há poucos instantes ele afirmara
que "gostava" dela, uma maneira gentil de dizer-lhe que não a amava!
— Posso retirar o café, madame?
Sylvia, a imponente criada, permanecia parada à porta, esperando as ordens da signora
Talmonte.
Lembrando-se das instruções de Renzo, Geórgia tentou manter um ar de quem convivera
com arrumadeiras, cozinheiras — sem mencionar um mordomo — por toda a sua vida. Não
ia ser nada fácil fingir!
— Sim, eu já terminei, Sylvia. Depois de vestir-me, gostaria ir até o quarto que será
ocupado pela condessa para verificar se tudo está perfeito. Logo encomendarei as flores e
meu marido quer um rádio e uma televisão na saleta da suíte.

Aléx 14/09/2006 18:30 — Tenho certeza de que tudo estará prefeito, madame. A signorina
Flávia veio ontem aqui e já deu todas as ordens a Torrence a esse respeito. Organizou todos
os detalhes para que a condessa fique bem acomodada.
— Ótimo, Sylvia. Obrigada.
Geórgia lutou para esconder seu desapontamento. Sua presença em Hanson Square era
totalmente desnecessária! Flávia mostrava-se indispensável a Renzo por sua capacidade de
organização, os criados dirigiam a casa sem que fosse preciso dar-lhes ordens… Qual era a
sua função ali? Apenas dar prazer ao dono da casa?
Depois de saber que seu casamento não fora mencionado à mãe de Renzo, uma sensação
terrível de ser uma pessoa sem valor invadiu-a. Ele não quisera esposa alguma a não ser
Angélica. Sua presença naquela casa era a prova concreta de uma vingança, a arma a ser
usada contra a mulher que o traíra. Precisava prevenir-se contra a tentação de transformar
momentos gloriosos de comunicação física em sinais de afeição. Continuava a ser apenas
uma companheira de sexo, desejável e que dava um prazer supremo, mas, fora do quarto,
não havia lugar para ela na vida dele!
Aliás, o quarto do casal era o aposento mais lindo que Geórgia já vira em toda a sua vida.
Entre as paredes forradas de brocado azul, o tempo parecia ter parado. Duas portas se
abriam para um balcão de ferro batido, de onde se via o jardim dos fundos da casa. Uma
enorme cama de madeira rosada, com incrustações em ouro e marfim, dominava o aposento
cheio de peças preciosas. Alguém com um gosto extremamente refinado encolherá cada
detalhe e Geórgia não duvidava de que essa pessoa tinha sido Renzo. Ele criara um interior
tão belo quanto a arquitetura graciosa e elegante daquela casa em estilo georgiano.
Aléx 14/09/2006 18:30 Outrora, a mansão tinha pertencido a um destacado juiz, temido e
respeitado por sua justiça implacável. No vestíbulo havia um quadro desse homem
imponente e assustador e, sempre que o via, Geórgia pensava no quão significativo era o
fato de Renzo morar agora ali: ele também acreditava no castigo sem apelação. Na verdade,
Geórgia não tinha nada a fazer a não ser encomendar as flores. Flávia já tomara todas as
providências e ela se sentia inútil e desocupada. Não fora criada como uma boneca, sempre
trabalhara duro!
A enorme banheira antiga, cujas torneiras eram sereias douradas, a atraíra desde a noite de
sua chegada. Sem pressa ou compromissos, Geórgia tomou um longo banho. Sentia-se uma
estrela de Hollywood ao telefonar para a floricultura, enquanto relaxava entre bolhas de
espuma perfumadas.
Mas, bem no fundo, uma pontada de medo a deixava tensa. Como seria a condessa
Talmonte? Uma senhora altiva e orgulhosa, extremamente bem vestida por um famoso
costureiro de Roma? Uma mãe possessiva e ciumenta dos filhos atraentes, que se ressentiria
com a nora inesperada e desconhecida?
Enquanto se enxugava, lembrou-se de que Angélica havia conhecido a mãe de Renzo e sido
aprovada como a noiva do filho mais velho. Alguém deixaria de se fascinar pelo sorriso
insinuante de sua irmã? Quem poderia adivinhar que, atrás de tanta beleza e aparente
integridade, existia uma mulher egoísta e decidida a obter tudo para si mesma à custa do
sofrimento alheio? Se nem mesmo ela, sua irmã, aceitara essa verdade até há poucos dias!
Geórgia não pretendia iniciar seu relacionamento com a sogra com bases falsas. Não era
igual à irmã, não atraía pessoas como o mel atrai as moscas e não tentaria convencê-la de
ser uma esposa adorada. Queria mostrar-se como uma jovem simples e qualidades
exteriores admiráveis: seu valor só se revelaria através de um longo tempo de convivência,
e talvez isso nunca chegasse a acontecer.

Aléx 14/09/2006 18:30 Escolheu o vestido mais simples e não usou jóias. Não haveria
fingimentos: ou seria apreciada pelo que era ou rejeitada. Mais valia a pena arriscar!
Ao olhar-se no espelho, sua autoconfiança diminuiu assustadoramente. Aquela jovem de
vestido azul, muito simples, com os cabelos soltos, não parecia ser a dona de uma mansão
magnífica num dos bairros mais refinados de Londres!
E nem ao menos conhecia sua casa!
Quem sabe depois de familiarizar-se com cada recanto do seu novo lar se sentisse mais
segura?, pensou.
Descendo a escadaria curva, Geórgia atravessou o vestíbulo e entrou num aposento
suntuoso, em tons de verde e dourado. Do lado pendia um lustre de cristal de Veneza, como
uma imensa jóia brilhante. Sofás e poltronas espalhadas informalmente amenizavam a
suntuosidade daquela sala onde todas as peças eram antiguidades valiosas. Alguém tossiu
discretamente para chamar sua atenção e, ao virar-se, viu Torrence, o mordomo, que a
fitava com um olhar perplexo.
— Gostaria de tomar seu chá na saleta do jardim, madame? São onze horas…
— Estamos na sala de visitas, não?
— Sim, madame.
— É belíssima! E estas portas são do salão de jantar?
— Exatamente, madame.
Nem por um minuto, Geórgia acreditou ter enganado o mordomo com seu ar
desembaraçado. Ele sabia perfeitamente que a patroa vinha de um ambiente muito mais
simples e jamais vivera numa casa tão luxuosa. O requinte das paredes forradas de tecido,
cortinas de veludo e tapetes persas tornavam ainda mais deprimente a aparência da casa
paroquial, cuja mobília antiga passava de família a família.
— Bem... eu gostaria de ir até o jardim…Se você indicar me o caminho, por favor,
Torrence.

Aléx 14/09/2006 18:31 Geórgia seguiu-o até uma porta de ferro que se abria para uma
saleta toda de vidro. As paredes pareciam não existir e tinha-se a impressão de estar no
meio do jardim.
Móveis de junco estofados em motivos florais e vasos com gerânios transformavam aquele
aposento num refúgio aconchegante. Havia até uma pequena fonte de mármore com uma
estatueta do Deus Pan.
Geórgia ficou encantada com a saleta, o local onde se sentia mais à vontade naquela casa
requintada.
— Há peixes no laguinho, Torrence?
— Eles se escondem sob as plantas. São dourados, prateados e pretos e, se jogar-lhes
comida, sairão de seus esconderijos.
O mordomo indicou-lhe um valioso vaso chinês, onde era guardado o alimento, avisando-a
que lhe enviaria a criada com o chá. Torrence deixou-a a sós para explorar os detalhes
requintados daquele paraíso.
Numa estante de junco, além dos livros havia um aparelho de som e inúmeras fitas. Geórgia
podia imaginar Renzo, sentado ah, no final da tarde, fumando um charuto e ouvindo a
música que compusera enquanto o aroma da natureza enchia a sala com o perfume eterno
da primavera.
Alguns minutos mais tarde, sentada em uma das confortáveis poltronas de junco, Geórgia
saboreava seu chá, enquanto ouvia a melodia ritmada das gotas que jorravam da flauta de
Pan e caíam como o ruído da chuva sobre a superfície plácida da água.
À sua frente, estendiam-se os gramados, verdes como esmeraldas, onde salgueiros e
cerejeiras sombreavam canteiros de hortênsias. Pássaros cantavam como se estivessem em
pleno campo e uma serenidade profunda permeava o ambiente. Era difícil imaginar que
além dos altos muros existia todo o tumulto de uma metrópole. Todos os problemas que
tanto a perturbavam pareciam distantes, pertencentes a outra realidade. Nesse momento
Renzo estava voltando com a mãe para Hanson Square mas, como sempre, em harmonia
com a natureza, Geórgia sentia-se segura e em paz naquele jardim. Não era preciso muito
esforço para imaginar os habitantes desta casa em outras épocas mais gentis!
Damas com longos vestidos rebordados e cavalheiros elegantes teriam jogado pólo no
gramado verde, sua intimidade protegida pelos muros altos… ou conversado em vozes
sussurrantes ao passar entre os canteiros de flores. A arquitetura requintada, os quadros
cheios de detalhes vívidos e as magníficas peças de arte daquele passado distante levavam a
crer num tipo de vida onde a qualidade era bem mais valorizada do que a quantidade!
Geórgia não tinha dúvidas de que Renzo se adaptaria muito melhor àqueles dias de luxo e
refinamento. Sua aparência e a maneira cortês de tratar as mulheres pertenciam ao período
de glória que havia sido o reinado de George IV.
O sol batendo em sua aliança trouxe-a de volta à realidade, seria difícil ajustar-se a um
casamento baseado em falsidade gora que a condessa testemunharia o comportamento de
ambos! O desgaste de fingir cada segundo que não havia ressentimento algum entre Renzo
e Angélica acabaria por esgotá-los!
Desde muito pequena, Geórgia aprendera a respeitar os mandamentos divinos, e a verdade
lhe parecia ser o melhor caminho sempre. Uma mentira desencadeia uma série infinita de
fingimentos e dissimulações, tornando a vida num labirinto sem saída!
A ansiedade em conhecer a sogra crescia a um nível acima do normal porque seu
casamento diferia de todos os outros. Como gostaria de receber a condessa com um sorriso
afetuoso e seguro por saber que seu marido a amava e nada, nem ninguém, conseguiria
separá-los!

Aléx 14/09/2006 18:55 Seria a visão de um paraíso. Mas havia uma serpente no jardim do
Éden! Precisava fingir que Renzo a adorava para ocultar uma presença secreta entre os
dois. A condessa ficaria ansiosa para saber como o filho trocara tão rapidamente de noiva!
Geórgia levantou-se num salto. Aquela saleta iria ser o seu refúgio e não queria maculá-lo,
lembrando-se da irmã. Ali, ela seria a esposa adorada de Renzo, a condessa Geórgia
Talmonte… uma mulher apaixonada!

Aléx 15/09/2006 21:30 CAPITULO XIV


Rosas, crisântemos, lírios, espécies sem fim de flores brancas enchiam o vestíbulo com seu
aroma e beleza. A encomenda da Gudrun's chegara.
Imediatamente, Geórgia dirigiu-se à suíte da condessa para fazer os arranjos. Em menos de
meia hora, sala e quarto assemelhavam-se a um jardim encantado.
A cada novo aposento que conhecia naquela casa, mais fascinada ficava. Ali o motivo
predominante era uma estampa oriental em tons de rosa e dourado, que se repetia nos
tecidos das paredes, de brocado luxuoso, e nas cortinas, leves e diáfanas. Na cama, uma
colcha de cetim de um rosa muito claro servia de fundo para inúmeras almofadas em forma
de coração, desde o branco rosado até o carmesim. Um quarto digno de uma princesa!
Preocupada em rever todos os detalhes, Geórgia distribuiu melhor os vasos entre o quarto e
a saleta e pediu a Torrence que providenciasse uma cesta de frutas. A televisão e o rádio
funcionavam perfeitamente bem. Enfim, tudo estava de acordo com os desejos de seu
marido.
Um santuário de paz e beleza fora criado para receber a mãe de Renzo e Geórgia só
esperava que nada acontecesse durante aquela visita para perturbar a saúde da sogra. E
tantos problemas poderiam surgir, principalmente por causa de Stélvio.
Ela se esforçaria ao máximo por aparentar uma felicidade serena, um amor profundo, como
era de se esperar numa recém-casada. Renzo também faria sua parte, mas, se chegasse
alguma notícia até a condessa sobre as atitudes de seu filho mais novo, tudo estaria perdido.
Renzo dera a entender que seu irmão sempre tinha sido o favorito da mãe, um fato bastante
comum em relação ao caçula. Era como se o primogênito sempre pertencesse ao pai e o
mais novinho fosse um bebê para o resto da vida.
Quando Sylvia trouxe-lhe as frutas, ela voltou ao quarto e ficou por um longo tempo
admirando a perfeição de cada detalhe… um recinto cheio de encanto e conforto!

Aléx 15/09/2006 21:31 Uma onda de tristeza invadiu-a ao lembrar-se de sua mãe e de
como tinha lutado com dignidade e coragem contra a doença que a destruíra. Num quarto
frio e desprovido de qualquer luxo e até mesmo de conforto, Anne Norman enfrentara a
morte com um sorriso doce e confiante nos lábios.
Aborrecida, Geórgia tentou afastar aqueles pensamentos depressivos. Sem dúvida, a sogra
reagiria ao tratamento que viera fazer em Londres. Os Talmonte eram ricos o bastante para
consultarem os melhores médicos e fazerem os mais caros exames e tratamentos. Mas…
nem sempre o dinheiro conseguia afastar a presença fatal da morte! Ricos e pobres estavam
ao alcance de tragédias sem retorno mas, ao menos, a mãe de Renzo teria todo o conforto e
o apoio do filho mais velho.
Fechando a porta do quarto, Geórgia dirigiu-se às escadas, pensando nos ombros largos e
na força física de Renzo. Como seria fácil apoiar-se nele, deixando-se levar pelo fascínio de
sua sensualidade! A condessa certamente perceberia o quanto a nora se afetava com a
proximidade do marido!
Um barulho na rua avisou-a da chegada do carro e, ansiosa, ela abriu a porta de entrada e
viu Renzo ajudando a mãe sair do carro.
Quando os dois se voltaram para a porta, viram uma jovem loira e esguia, dourada pelo sol
à espera deles. A condessa segurou-se ao braço do filho como se fosse cair e murmurou
algumas palavras em italiano.
Mesmo sem entender a língua, Geórgia sabia qual tinha sido o comentário. A mãe de Renzo
com certeza se surpreendera ao ver sua semelhança com Angélica. Em seguida, o olhar
curioso tornou-se duro.
Nunca ficaria livre das comparações? Todos teriam sempre a mesma reação ao encontrá-la,
ligando-a à figura vistosa da irmã? Em Duncton, isso jamais acontecia pois quem iria
confundir a jovem expansiva e vestida com ousadia com a irmã austera e sempre dedicada
aos afazeres domésticos?

Aléx 15/09/2006 21:31 Só as roupas caras e o ambiente elegante as tornavam mais


parecidas, além de um brilho nos cabelos e na pele radiante, que ela devia muito a Renzo. O
amor cria beleza e Geórgia não podia ignorar o quanto se apaixonara pelo marido! Pena que
seu amor não fosse retribuído!
Apoiada pelo braço musculoso do filho, a senhora miúda e esbelta aproximou-se com um
sorriso hesitante e Geórgia lutou contra um nervosismo intenso para retribuí-lo. Estava
ainda mais tensa do que no dia do seu casamento, quando se sentira perdida numa multidão
de desconhecidos, sem ninguém ao seu lado para dar-lhe forças.
Mas agora, muitos fatos tinham diminuído para contribuir a sensação de abandono.
Angélica estava a milhares de quilômetros daquela casa magnífica e quem vibrava nos
braços de Renzo, partilhando sua cama e tocando cada centímetro daquela pele morena…
era Geórgia Talmonte!
A condessa Evelina, um exemplo de elegância discreta, originária de séculos de
aristocracia, chegou até a porta da mansão.
— Então é você a grande surpresa que meu filho preparou para receber-me?
— Sim, condessa. — Geórgia sorriu, já muito mais descontraída, para aquela simpática
senhora que mostrava a afetividade do temperamento latino e não lhe parecia fria ou hostil.
A mãe de Renzo viera da Itália acompanhada por uma senhora que, após ser apresentada,
insistiu para que saíssem do sol. No vestíbulo, reuniu as malas perguntando onde era o
quarto da condessa, que deveria ir imediatamente repousar.
— Calma, Cosima. Nem ao menos pude trocar duas palavras com minha nora. — Voltando-
se para Geórgia, ela mostrou no olhar toda a sua curiosidade. — Foi bastante súbito o
casamento, não? Às vezes me pergunto se os jovens de hoje levam realmente a sério
juramentos que a minha geração considerava… sagrados e indissolúveis! Bem… teremos
tempo para um aprofundamento de nossa amizade, não é?

Aléx 15/09/2006 21:31 — Oh! Eu gostaria muito! Sabe, perdi minha mãe quando era
muito jovem e ficarei imensamente feliz de tornar-me amiga da mãe de Renzo.
Sorridente, a condessa olhou para o filho.
— Você comentou o quanto sua esposa era modesta e recatada mas esqueceu de mencionar
o encanto dessa jovem mulher.
— É... ela é encantadora mesmo — concordou Renzo. — Agora, mamma, vá direto para
seu quarto repousar até a hora do almoço.
— Estou precisando descansar e…
Antes que ela pudesse impedir, Renzo carregou a mãe e subiu as escadas com agilidade
enquanto Geórgia o observava em pânico. Temia que sua perna o fizesse tropeçar!
A acompanhante da condessa subiu mais devagar e explicou a situação da pobre senhora:
— Ela jamais deveria ter enfrentado uma viagem dessas! Há médicos tão capazes quanto os
daqui em Roma, mas seu verdadeiro objetivo era ver o filho.
— Ela tem tido problemas?
— Está bastante mal, creio eu. Palpitações constantes, e, até mesmo no avião, teve uma
crise respiratória. É uma mulher, corajosa, prefere morrer a queixar-se, porém sofre com o
fato de os filhos não morarem em Florença. Sempre desejou o sucesso deles, mas é triste
envelhecer sozinha.
Geórgia sentia uma angústia profunda. A condessa jamais iria saber do comportamento
reprovável de Stélvio ou seu coração se partiria. Só agora entendia a intensidade da
preocupação de Renzo em ocultar a verdade da mãe: não era preciso ir medico para
perceber o quão frágil e debilitada ela estava! Apesar do cansaço evidente, a gentil senhora
não poupou elogios à nora pelas flores e o cuidado e carinho em acomodá-la com todo o
conforto.
— Cara… eu amo as flores brancas; têm um perfume muito intenso! Renzo mencionou a
minha preferência?

Aléx 15/09/2006 21:32 — Sim, ele avisou-me.


— Minha esposa passou uma manhã bastante tensa, com medo de não ser aprovada por
você, mamãe. Ela é, sem dúvida, uma das últimas jovens recatadas e tímidas que ainda
restam no mundo.
— Realmente? Quando você decidiu viver rodeado pela elite, julguei que iria escolher
outro tipo de esposa, nunca uma jovem despretensiosa. Parecia mais propenso a... — ela se
irrompeu, numa pausa repleta de significado. — Mas as pessoas mudam muito mais
rapidamente de idéia hoje. São os dias agitados em que vivemos! Por falar nisso, esta casa é
tão serena, um oásis em meio a tanta agitação e ruído!
Acomodando-se na poltrona de veludo, Evelina Talmonte chamou Geórgia para sentar-se
ao seu lado.
— Vivo isolada e tranqüila, apenas com a companhia de Cosima, minha amiga de muitos
anos, numa villa em Florença. Convença seu marido a levá-la até lá. Ficarei tão feliz em
mostra-lhe as belezas da minha cidade! Isto depois que meu especialista tiver determinado
um tratamento para pôr um fim nessas desagradáveis palpitações.
— Mamma! Sente alguma dor? Diga-me a verdade… — perguntou Renzo, ansioso.
— Compreendo sua preocupação, filho, mas… fique tranqüilo! Não tenho dores, apenas
canso-me com muita facilidade e Cosima coloca vários travesseiros em minha cama, pois
as piores palpitações vêm à noite. São bastante desconfortáveis mas tenho certeza de que o
dr. Jarmon terá um remédio específico.
— Não posso evitar minha ansiedade, mamãe. Você tem que ficar conosco até sentir-se
perfeitamente bem outra vez, eu insisto!
A condessa sorriu, mostrando admiração pelo filho másculo e autoritário.
— Posso ver que o casamento lhe fez muito bem, filho. Sua encantadora esposa inglesa
adoçou o seu lado temperamental.
— Temperamental? Eu?

Aléx 15/09/2006 21:32 — Ora! Desde bebê você sempre foi independente, teimoso e…
"mandão"! Deve estar achando seu marido um osso duro de roer, não, Geórgia? Porém, se
uma mulher decide partilhar sua existência com um homem, é melhor que seja ela a cabeça
do casal, não acha? Afinal, nós mulheres somos o sexo fraco…
— Não vou discutir esse assunto com você, mamma, ou levaríamos horas debatendo, sem
chegar a nenhuma conclusão.— Segurando Geórgia pelo braço, Renzo a fez levantar-se. —
Descanse um pouco e... quem sabe será melhor que sirvam seu almoço aqui no quarto?
— Gostaria muito, filho. Almoçarei entre estas flores maravilhosas e os verei à hora do chá.
Estou realmente cansada. Até mais, cara Geórgia…
— Até mais… condessa.
— Oh! Não quer chamar-me de mamma, como Renzo o faz?
— E-eu poderia? — balbuciou Geórgia, enrubescendo.
— Agora, você se tornou minha filha através do casamento… Gostaria tanto de tê-los visto
nesse dia. Usou um vestido branco?
— Sim…
Geórgia lutou com todas as forças para evitar que o sofrimento daquele dia transparecesse
em sua expressão. Ficar de pé no altar, ao lado de um orgulhoso e frio desconhecido.
Parecia um pesadelo! O noivo cruel e insensível forçara sua mão ao colocar-lhe a aliança,
uma pressão insuportável e ameaçadora. Hoje, os mesmos dedos sobre os seus
provocavam-lhe desejo.
Mas Geórgia aprendera a temer bem mais as carícias de do que sua crueldade! Seria através
delas que perderia o seu amor-próprio e toda a sua dignidade.

Aléx 15/09/2006 21:33 — Deve ter sido uma visão inesquecível vê-la vestida de noiva,
filha! — Com um olhar de reprovação dirigido ao filho, ela prosseguiu: — Considerou-me
frágil a ponto de perder a calma quando soubesse que tinha trocado uma irmã pela outra,
não foi? É tempo de aprender o quanto as mulheres têm força, Renzo Tive dois filhos de
temperamentos fortes e criei-os sozinha porque fiquei viúva muito cedo, antes dos vinte e
oito anos. Minha aparência engana, como provavelmente também a de sua esposa, esguia e
delicada. Nós, mulheres, não temos músculos… mas nossa força vem de dentro e é
imbatível!
— Peco-lhe desculpas, mamma. Temo que a maioria dos homens tenha uma tendência de
subestimar as mulheres, e não sou uma exceção. Estou desculpado?
— Não… Queria que você tivesse se casado na Itália como Stélvio, numa grande festa
familiar. Renzo, caro mio, não se esqueça nunca de suas origens italianas! Há um sangue
romano que há séculos corre em nossas veias, uma herança de honra e valor. Lembre-se
sempre, seu irmão jamais deixou de se orgulhar dessa dádiva de nossos ancestrais!
As palavras da condessa atingiram Geórgia como punhaladas! Ela quase gemeu de dor, tal a
pressão da mão de Renzo apertando a sua.
Mas aquele homem orgulhoso conseguiu controlar sua mágoa e, com um sorriso, beijou
ternamente as mãos da mãe.
— Jamais poderia esquecer-me, mamma. É o passado que nos molda… pense apenas que
julguei melhor poupar sua saúde e evitar-lhe um cansaço prejudicial.
— Está bem, aceito sua explicação. Não posso negar que jamais o conheci tão
profundamente como a Stélvio. Há aspectos seus que nunca consegui desvendar. Talvez o
casamento o faça partilhar seus sentimentos e suas emoções com mais facilidade… O
tempo nos mostrará, não?
— E é tempo de descansar agora. Teremos dias e dias para conversar sem preocupações.
Cosima lhe fará companhia e... até a hora do chá, mamma…

Aléx 15/09/2006 21:37 Geórgia acompanhou o marido pelo corredor atapetado que ligava
o quarto da condessa ao deles, tremula de fúria. Uma sensação de injustiça cruel
transformava suas feições delicadas numa máscara de indignação.
— Não é justo! Como sua mãe pode elogiar tanto Stélvio e censurar você, quando foi ele
quem desonrou todas as tradições, as...
— Calma, donna — murmurou Renzo, entrando no quarto. Após fechar a porta, tomou-a
nos braços. — Devo deduzir que toda a sua raiva é porque fui magoado?
— Evidentemente! Sua mãe é uma senhora encantadora, compreendo que queria evitar-lhe
aborrecimentos, ocultando-lhe a verdade sobre o nosso casamento… Mas revolto-me ao vê-
la considerar seu irmão um cavalheiro sem mácula!
— Foi devido a esse amor profundo de minha mãe por Stélvio que fiz tudo para não lhe
destruir essa visão idealizada sobre meu irmão. Viu com seus próprios olhos o estado de
saúde precário em que ela se encontra… Eu tenho uma couraça dura, Geórgia, não me
magôo com facilidade.
— As marcas de suas mágoas não aparecem, mas eu sei que você as tem!
— Sabe mesmo, donna bella?
A boca de Renzo se colou quase com violência à dela e prendeu entre os dentes o lábio
inferior macio e cheio, provocando-lhe um gemido de dor. Mas Geórgia cedeu ao contato
agressivo, sabendo o quanto ele necessitava amenizar o sofrimento causado pelas palavras
cruéis de poucos minutos atrás. O único remédio entre dois seres, cuja comunicação se
fazia apenas através do contato físico, era esquecer a dor mergulhando no mundo das
sensações.
Sem resistir, ela se deixou despir, percebendo que a expressão tensa dava lugar a uma
emoção primitiva e voluptuosa. O zíper correu silenciosamente e o vestido caiu-lhe aos
pés. A intuição de Geórgia lhe dizia que seria amada de um modo muito diferente de todas
as outras vezes em que Renzo a possuirá. Havia uma ansiedade em seu toque, um ardor
contagiante. O tom da voz que murmurava palavras em italiano não mais lembrava uma
melodia romântica, mas um canto erótico, apelando a emoções selvagens.
Por um breve instante, Renzo admirou o corpo excitante que se oferecia a ele, sem outra
intenção a não ser dar-lhe o máximo de prazer e fazê-lo esquecer. Seios amplos e firmes,
onde os mamilos rosados se erguiam à espera de seu toque, a cintura fina, os quadris
arredondados e o triângulo dourado… como trigal sob o sol!
— Bella… Bella comme nessuna altra!
Tremula de excitação, Geórgia sentiu-se naquele momento realmente bela… bela como
nenhuma outra!
Pela primeira vez não houve ternura nas carícias preliminares. Arrastado pela
impetuosidade de seu desejo, Renzo dobrou-a aos seus impulsos. O fino verniz de ternura
desaparecera e um lado oculto, primitivo e pagão, se fez presente.
Geórgia soltou uma exclamação de susto ao sentir seu corpo sobre a colcha de cetim e o
rosto de Renzo perder-se entre suas coxas. Queria pedir-lhe para trancar a porta, lembrá-lo
dos criados, da mãe… mas sua voz se limitava a ecoar uma ânsia profunda que a impedia
de resistir.
Olhou-o enquanto despia-se com urgência, ávido por encontrar nas curvas macias o
bálsamo do esquecimento, a graça da ilusão, esquecendo-se de que aquele era o corpo de
sua esposa e não o da outra.

Aléx 15/09/2006 21:42 Como uma estátua de bronze, Renzo parecia tão tenso quanto uma
mola de aço, mas era apenas nesses momentos de delírio que ele realmente lhe pertencia.
Geórgia tornava-se parte de cada músculo vibrante, de cada movimento ritmado e
impetuoso. Ao sentir-se preenchida pela virilidade possante daquele homem, transformava-
se numa verdadeira mulher e nem mesmo uma sombra podia se interpor entre dois corpos
fundidos como se fossem um só na paixão que os consumia.
Renzo ainda hesitou um instante antes de entreabrir-lhe os joelhos, mas o aroma daquele
corpo, o sabor da boca febril, o brilho dos olhos faiscantes o faziam perder a consciência e
todo o seu controle se dissolveu. Apossando-se dela com voracidade, penetrou-a com
violência, ignorando os apelos de Geórgia e seus gemidos de dor.
O corpo feminino finalmente cedeu ao desejo desenfreado e agora o fogo da paixão ardia
como uma só chama. Liberta de toda a inibição, Geórgia movimentava-se sinuosamente.
Eram o primeiro homem e a primeira mulher na face da Terra descobrindo o amor sem
limites.
Ainda mais excitado pelas reações delirantes da jovem angelical que se transformava numa
deusa pagã da volúpia em seus braços, Renzo puxou-a sobre si, ávido por ver nos olhos
puros o brilho do êxtase. Segurando-lhe a cintura, cerrou os dentes nos mamilos
escurecidos de prazer e os gemidos aumentaram de intensidade.
Geórgia sentia-se perdida num turbilhão, incapaz de controlar um corpo que sempre
obedecia a sua mente e agora pertencia totalmente ao domínio sensual de um homem. A
cada momento mais impetuosa e livre, ela ofereceu tudo de si a Renzo. Como uma folha
levada pela torrente, era uma mulher sem passado ou futuro, vivendo apenas a vibração
suprema do presente.
Renzo soltou-a apenas quando suas vozes se uniram numa explosão devastadora de prazer.

Aléx 15/09/2006 21:51 O espelho do quarto refletia os corpos enlaçados como uma estátua
de amantes pagãos, unidos apenas por um engano do destino. Tímida diante da intensidade
daquele ato onde sabia não existir amor, Geórgia tentou estabelecer um elo entre dois seres
que se completavam com tanta perfeição.
— Renzo… nós partilhamos algo de importante, não é verdade?
— Está pensando nas palavras de minha mãe sobre minha resistência em abrir meu
coração?
— É... eu...
— Esqueça esta parte, donna. Você se tortura com perguntas sem resposta. Quando estamos
apenas os dois, na cama, somos felizes. Isso deveria ser suficiente, não acha?
— Não é possível ser parte de alguém apenas durante… quando há um relacionamento
físico. Deve existir muito mais, algo vívido e profundo, maior do que a mera intimidade dos
corpos.
— Muitos casais não conseguem nem mesmo isso, cara. Contente-se com o seu dom de
completar-me como mulher alguma o fez. Agora, vamos almoçar. Se ficarmos discutindo
este assunto, eu serei capaz de ter outras idéias e só sairemos do quarto para jantar.
Em silêncio, Geórgia começou a vestir-se. Compreendera muito bem as declarações de
Renzo: a paixão apenas física permitia a ambos esquecerem os fatos básicos de um
casamento com amor. A presença da condessa fatalmente traria de volta entre os dois a
presença de Angélica e a traição de Stélvio. Apenas quando seus corpos se buscavam,
ávidos, nenhum problema existia.
Depois de vestidos e preparados para enfrentar o mundo, uma distancia imensa os separava.
Os lábios de Renzo retomaram o rictus de frieza, que os tornava tão diferentes daquele que
formavam a boca sensual que a beijava com ardor.

Aléx 15/09/2006 21:53 Envolvidos por seus problemas pessoais, a comunicação se


interrompera e, durante o almoço requintado acompanhado por um vinho francês de ótima
qualidade, não havia nada a dizer entre dois estranhos.
CAPITULO XV
Todas as tardes, o chá era servido na saleta do jardim e, sobre uma mesa de vidro,
resplandeciam as peças de prata e cristal onde eram apresentados os mais delicados
sanduíches, biscoitos e bolos de vários tipos.
A cada dia, Geórgia gostava mais daquele ambiente sereno e repousante, seu lugar predileto
numa casa que ainda não conseguia considerar sua. O sol batia na loira cabeleira enquanto
ela servia à condessa o seu chá predileto, uma mistura de ervas chinesas e indianas.
— Grazie, cara. Seus cabelos brilham como ouro, tenho a impressão de estar perdida num
trigal… Bionda bella…
Geórgia se policiava constantemente para não demonstrar a profunda ansiedade que a
situação da sogra lhe provocava, por isso escondeu a emoção causada pelas palavras
carinhosas.
Depois da visita ao cardiologista, a frágil senhora se submetera a uma infinidade de testes
na Regency Clinic. Uma junta médica chegara à conclusão de que seria absolutamente
necessária uma operação para aliviar a artéria bloqueada.
A condessa Evelina, apesar de sua iminente internação na manhã seguinte, apresentava uma
calma exterior, mas suas mãos tremiam ao segurar a xícara de chá.
— Esta é uma casa tipicamente inglesa, com uma esposa bem britânica... para meu filho
italiano! Renzo jamais deixará de reagir como um latino e foi uma surpresa enorme para
mim quando soube de sua decisão em fixar-se definitivamente em seu país, cara. É preciso
ver também o seu lado, não acha?
— Que tal ser casada com um italiano? Está se adaptando… Como posso me explicar…
não a perturba o excesso de autoridade? Sem dúvida, Renzo deve ser bem diferente do tipo
de homem que você conhece.
— Só posso julgá-lo comparando-o a meu pai. Como pastor, ele dedicou toda a sua vida a
uma pequena paróquia do Sussex. Sempre tomei conta da casa, não havia tempo para levar
uma vida social mais…intensa.
— O que quer dizer com isso?

— Nunca tive nenhum amigo do sexo masculino e... também nunca namorei. Ao casar-me
com Renzo, eu era tão inocente e ingênua que poderia ser considerada quase… uma freira.
— Foi desse tipo de vida que sua irmã fugiu, não é? Ela queria a agitação de uma cidade
grande, o sucesso…
— Ë. Angélica não poderia ter permanecido em Duncton — respondeu Geórgia, rezando
para que a sogra não notasse sinal algum de tensão em sua voz. Há muito esperava o
momento em que a condessa dirigisse o assunto para a ex-noiva do filho. Afinal, ela
conhecera Angélica e não teria deixado de notar, como Geórgia, a atração de Renzo pela
jovem sedutora e provocante.
— Angélica preferiu seguir a carreira de modelo a casar-se? Foi quando Renzo descobriu a
irmãzinha?
Geórgia acenou afirmativamente, lembrando-se com nitidez daquele dia terrível.
— Compreendo muito bem por que meu filho agiu assim. Angélica sempre me pareceu um
pouco dura… Como um brilhante, sabe? Todos gostam de ostentar uma jóia mas… não tão
vistosa! Você me lembra de pérolas! Há nelas um brilho acetinado e precisam estar em
contato com a pele cálida para revelar toda a sua beleza. — Geórgia baixou a cabeça para
esconder seu rosto. — Pensou que eu não tivesse notado como reage à proximidade de
Renzo, cara? Todo o seu ser volta-se para ele e na sua expressão há o brilho das pérolas no
calor do contato de quem as possui. Ah! Ficou tensa? Ë o seu lado inglês se revoltando
contra a idéia de o marido ser o dono da esposa?
— Sempre pensei no casamento como uma amizade profunda, não um relacionamento
baseado em possessividade.
— Os homens latinos são sempre possessivos em relação às suas mulheres. Talvez sua irmã
tenha percebido isso e reagido… Afinal, ela teve a independência de deixar a casa paterna,
fazer uma carreira. Mas deve saber melhor do que eu os motivos, pois cresceram juntas e
não há uma diferença de idade grande. Você é a mais nova, certo?

— Não, ela é a caçula.


— Realmente? Bem... seus caminhos foram diferentes, as experiências diversas, daí a
impressão de mais idade. Pareceu-me que Angélica aprecia, acima de tudo, ser o centro de
todas as atenções. Já você se contentaria em ser apenas o centro da vida de Renzo, não é?
— E-eu… jamais seria absorvente demais. Sei o quanto ele precisa de tempo para criar sua
música magnífica. Há uma carreira brilhante à sua frente, tem que dedicar-se…
— Pelo amor de Deus, não se torne uma dessas esposas apagadas, cara miai Há uma
tendência dominadora em todos os homens e eles logo se aproveitam de uma atitude
maleável, doce. Em muito pouco tempo, você estaria relegada a um papel secundário. É
uma jovem bonita e charmosa, precisa ser vista ao lado dele em todas as ocasiões
importantes. Lute contra essa timidez provocada por sua vida isolada. Se Renzo tivesse
mesmo casado com Angélica, acredita que ela aceitaria apagar-se para deixar o marido
brilhar?
— Oh! Nunca! Mas... posso fazer-lhe uma pergunta indiscreta, mamma?
— Sem dúvida, cara!
— Ficou desapontada por Renzo não ter se casado com minha irmã?
— Desapontada? Não, só um tanto surpresa. Serei sincera com você, embora o querido
Stélvio seja dois anos mais novo do que Renzo, casou-se antes. Mônica é uma jovem
italiana, muito linda e cheia de qualidades... eu a adoro. Sempre insisti com Renzo para
distrair-se mais, mas ele me parecia interessado apenas no trabalho. Já começava a duvidar
que algum dia o veria casado.
A condessa deu um sorriso tão enigmático quanto o do filho antes de prosseguir.

— Renzo me acalmava, jurando que, se por um milagre se apaixonasse, não deixaria a


maravilhosa vida de solteiro. Mas, um dia, ele surgiu em Florença acompanhado por sua
irmã. Tinham ficado noivos e me pareceram um par perfeito, não só na beleza. Ambos
tinham a capacidade de entrar num recinto e tornar-se de imediato o centro das atenções...
Um nunca colocaria o outro na sombra! Angélica brilharia ao lado do marido e eu julgava
que Renzo precisasse desse tipo de esposa.
A condessa parou de falar, perdida em alguma lembrança distante, e Geórgia, sentada à
beira da fonte, mergulhou os dedos na água.
Sem dúvida, uma mulher como Angélica ajudaria Renzo em sua carreira num ambiente
onde a beleza reinava — o cinema! No entanto, onde estaria a segurança de que ela também
não o trairia com qualquer homem atraente ou mais rico?
— Sempre acreditei que Renzo tivesse necessidade de uma esposa vistosa para chamar a
atenção do mundo para sua carreira e não uma mulher com quem partilhar sua intimidade.
Quando conheci Angélica, vi nela tudo o que faltava a meu filho para tornar-se um homem
de sucesso entre os grandes nomes do cinema. Entenda-me, cara… Renzo, desde menino
até hoje, jamais foi fácil de ser compreendido. Nunca teve o temperamento aberto e
espontâneo de Stélvio e mantinha seus pensamentos inacessíveis a todos. Acabei julgando-o
distante e orgulhoso e desisti de tentar decifrar sua personalidade enigmática. Não pense
que o estou diminuindo! Apesar de muito mais inteligente, talentoso e brilhante do que
Stélvio, ele é uma pessoa difícil para se amar. Espero não tê-la chocado, cara.
— Não… Eu entendo.

Era muito fácil ver esse aspecto do marido, mesmo estando casados há tão pouco tempo.
Ainda não compreendia o homem cuja intimidade não ultrapassava as portas do quarto de
dormir! Quando os beijos e as carícias ardentes culminavam num êxtase e vinha uma
serenidade feita para ser partilhada, ele se retraía, encerrando-se numa concha. Geórgia
então se esforçava para não sentir-se excluída por completo da vida dele!
Mas o amor tem tantas faces! A cada dia, ela descobria mais um aspecto dessa emoção
complexa e apavorava-se, pensando se não seria mais sensato conformar-se com pouco e
não tentar alcançar os picos mais altos.
— Acho que nós duas não conseguimos entender as complexidades de Renzo, não é? Já
sentiu vontade de ter um filho?
— Sim, gostaria muito.
— E sua irmã não aceitaria esse fardo, certo?
— Bem… não sei.
— Eu sei! Com um corpo tão perfeito, para o que ela não poupa tempo ou esforço,
Angélica lutará para mantê-lo assim enquanto for possível. — Notando o bolo apetitoso de
chocolate ainda intocado, a condessa insistiu: — Coma um pedaço, cara, ou a cozinheira
ficará ofendida. Além disso, você também não precisa preocupar-se com seu corpo, é
perfeito. Se eu não estivesse um pouco nervosa devido à minha operação de amanhã, e
portanto sem apetite, o experimentaria também. Mas você é jovem, apaixonada... o amor
precisa ser bem cuidado.
— Está bem! A senhora conseguiu me convencer!
Enquanto se servia do bolo, Geórgia ouviu a música vinda de dentro da cada. Renzo estava
criando o tema de amor de um novo filme, e ela suspeitava que apenas o trabalho
conseguiria deixá-lo menos nervoso em relação ao dia seguinte. Quando fora decidida a
operação da condessa, ele ficara extremamente abalado.
Todos os especialistas haviam afirmado que não haveria grandes riscos, mas, se a artéria
não fosse reaberta, logo viria uma crise fatal.
— Deve achar a vida aqui em Londres muito diferente do que no campo, onde sempre
morou, não? Barulhenta, agitada, o ar poluído pelo escapamento dos carros que não param
de buzinar dia e noite! Você me parece ser do tipo que aprecia campos verdes, o cheiro de
feno recém cortado, o som do vento nas árvores, a chuva… uma verdadeira filha da
natureza, à vontade com a mudança das estações, não alguém para viver presos entre
prédios, ruas e muros. Sabe, eu também me considero assim. Tenho uma pequena villa,
muito rústica, nas colinas de Fiesole, perto de Florença, que herdei de minha mãe. Meus
filhos nunca se adaptaram à vida sem luxos dos campo, mas passei ali as férias mais
inesquecíveis de minha infância. Como tenho uma irmã, que mora na Grécia, esta
propriedade não passou para o nome de meu marido, é apenas minha. Foi meu refúgio em
momentos difíceis. Todos precisamos as vezes nos isolar e pensar. Há apenas um casal de
velhos, caseiros, e a solidão inebriante dos grandes espaços livres.
Ao deixar a simplicidade agreste de Duncton, arrastada pela vingança implacável de Renzo,
Geórgia julgara que iria morrer afastando-se de tudo o que mais amava. Entretanto, como
por um passe de mágica, aquela mansão georgiana no centro de Londres passara a ser o
único lugar no mundo onde desejava estar: ouvir a música criada pó ele, partilhar de sua
vida, por mais breves que fossem os momentos de comunicações, andar pelas salas que
refletiam a personalidade daquela homem… enfim, sentir-se próxima de Renzo, respirando
o mesmo ar!
Por mais que tentasse diminuir essa emoção absorvente, estava irremediavelmente presa ao
marido. Talvez um lado primitivo do seu temperamento vibrasse ao ser dominada por um
homem autoritário, ou quem sabe o tivesse desejado desde o primeiro olhar…
Provavelmente seu ideal masculino era ter para si Renzo Talmonte… ou homem nenhum no
mundo!

Estava desafiando abertamente toda uma nova tendência de vida, apregoada pelas
feministas, que desprezavam as mulheres tolas o bastante para mar e ceder a posição de
comando ao homem amado, tanto na cama como na direção do lar.
— Seu sorriso demonstra muita satisfação, cara.
— Oh! É… é o bolo. Estava delicioso.
— Gosta de cozinhar?
— Fui cozinheira, lavadeira, arrumadeira e jardineira. Ainda me sinto um pouco estranha e
inútil por não ter mais afazeres domésticos obrigatórios. Acho terrível apertar um botão
para que uma criada faça o meu serviço. Lazer foi um luxo fora do meu alcance, jamais tive
tempo para dedicar a mim mesma…
— Seu pai deve estar sentindo muita falta de sua presença…
— Eu…bem… não nos comunicamos desde o casamento. Ele não compareceu à cerimônia.
Achou uma atitude indecorosa da minha parte aceitar o homem que tinha sido noivo de
minha irmã. Meu pai sempre a tratou como a imagem da perfeição e queria que ela tivesse
os mínimos desejos satisfeitos. Seu objetivo principal era a felicidade de Angélica. Mais eu
não lhe roubei o noivo, jamais sonhei sequer em me casar com ele. Simplesmente…
aconteceu!
— Sabe qual é a minha opinião sincera, cara? Você se deixou abafar pela personalidade
forte de sua irmã! É uma criatura maravilhosa e julgo uma imensa injustiça o seu pai tê-la
feito sentir-se culpada. Renzo soube dessa atitude reprovável?
— Oh! Sim…

Cenas vívidas voltaram a mente de Geórgia: a angústia, o desespero de romper com o pai,
de abandonar a casa paroquial. Às vezes pensava que jamais conseguiria esquecer a
expressão desdenhosa do reverendo Norman… como se ela estivesse quebrando votos de
uma noviça! Uma mágoa profunda por ser apreciada apenas por suas qualidades domésticas
ainda doía muito. Seu pai esperava que ela se negasse todos os prazeres, os mesmos que
Angélica desfrutava com avidez!
— Perdeu-se em suas memórias, não é, cara?
— Lembrava-me de Duncton, onde ficava a paróquia de meu pai. Nunca tive intenções de
ou ambição em sair de lá. Minha vida girava num ritmo constante e rotineiro, chegava a
parecer eterno! Um lago tranqüilo…
— E então Renzo surgiu e atirou um seixo nas águas plácidas.
— Naqueles dias… o seixo mais parecia um racha colossal!
— Foi tomada de surpresa?
— Completamente!
— Entretanto, foi impossível dizer-lhe não…
— Ele não aceitaria uma recusa.
— Quer dizer que tentou resistir? Desculpe-me a curiosidade, mais há um lado dos filhos
que as mães jamais conhecem, só as mulheres a quem eles amam.
— Eu realmente tentei, pois acreditava, e ainda acredito, que Renzo jamais se esqueceu de
Angélica.
— Cara… eu…
— Não faz mal, mamma — mentiu Geórgia. — Ninguém mais do que eu conhece o poder
de atração de minha irmã sobre os homens. Quando nós éramos crianças e nos
fantasiávamos com as roupas de mamãe, Angélica sempre fazia o papel de Fada Morgana.
É impossível para ela não partir os corações! — Como? Está dizendo que sua irmã magoou
Renzo? Desdenhou o seu amor?
Geórgia hesitou, revendo como num sonho a paixão e a fúria da expressão de Renzo
quando ele lhe mostrara as cartas vergonhosas de sua irmã.
— Creio que Angélica fechou as portas do coração de Renzo e jogou fora as chaves. Às
vezes, chego a pensar que ela ainda permanece lá dentro, trancada… como ele julgou que
fosse a verdade.
— Ele a julgava ainda dona de seu amor? Chega de evasivas, Geórgia. Que espécie de jogo
sujo foi esse? Como Angélica tratou os sentimentos de Renzo? Tenho a impressão de que
há algo mais nessa história e estão me escondendo. O que aconteceu realmente entre eles?
Geórgia viu a condessa colocar a mão sobre o coração e sentiu o mundo desabar. Soubera
desde o início que a verdade não poderia ser revelada àquela senhora doente e quase
provocara uma crise perigosa. Tinha que usar toda a sua habilidade para afastá-la dessa
linha de pensamentos e tranqüilizá-la.
— Aconteceu exatamente o que lhe contei, mamma. Angélica sempre foi uma criatura de
interesses intensos mas de pouca duração. Inquieta e agitada, mudava de uma paixão para
outra em questão de dias. Há uma diferença muito grande em casar-se simplesmente e em
ser a esposa de um homem com o temperamento de Renzo, ainda mais sendo uma modelo
requisitada. Seu encanto pelo casamento desapareceu diante do fascínio supremo de
continuar a brilhar nas passarelas.
— Jura que não está me escondendo nada? É bem típico de Renzo manter sua vida em
segredo. E, como qualquer um pode ver o quanto você vive em função dele, seria muito
fácil convencer a jovem e inocente esposa a dizer apenas o que ele quisesse! Talvez tenha
até um pouco de medo de seu marido, não?

— Oh! Não! Na verdade, Angélica escolheu as luzes da fama à monotonia de ser apenas
uma esposa. Pode imaginar Renzo permitindo que sua mulher posasse para revistas?
— Bem... talvez esteja sendo sincera. Mas ainda acredita que meu filho a ame, apesar de ter
se casado com você?
— Angélica é belíssima...
— Ora! E você, não é?
— Não da mesma maneira…
— Ela apenas exibe o que você nem tem consciência de possuir, cara. Para sua irmã, atrair
o sexo oposto é uma necessidade vital. Nota-se o seu instinto de conquistadora pela
maneira de andar, ondulando os quadris mais do que você, vestindo roupas mais justas e
curtas do que as suas... Só isso a torna mais atraente aos homens, fique certa disso!
Atônita, Geórgia fitou a mãe de Renzo. Aquela senhora um tanto distante, aristocrática e
fina não era tão cega quanto seu pai. Não se deixara enganar pela aparência encantadora e
superficial de Angélica. Vira mais longe e tinha percebido defeitos ocultos com muita
habilidade. Já o reverendo Norman seria incapaz de acreditar em algum comentário
maldoso sobre a filha, a luz de sua vida!
Se algum dia a verdade chegasse aos ouvidos dele…
Geórgia tentava bloquear as imagens chocantes que os fatos recentes revelados a ela sobre a
vida de Angélica teimavam em despertar. Essas atividades degradantes destruiriam não só
as ilusões mas a vida de seu pai. Quando os anjos transformam-se em demônios, nem
sequer sentem-se culpados: não existe em suas almas nobreza suficiente para perceber o
rastro de destruição deixado por sua queda. Mas aqueles que os amavam são arrasados e
vivem o resto de suas vidas chorando a perda de ilusões por tanto tempo acalentadas.

— Sinto-me muito feliz por ver meu filho casado com você, cara. Você o fará feliz… ouça
a melodia que ele está criando. Parece-me a melhor de todas até hoje! Renzo traz no sangue
o amor do povo italiano pela música. Ê claro que eu tive sonhos de vê-lo criar sinfonias,
tornar-se um mestre da música erudita ou compositor de belas óperas, como Puccini, um
gênio, a alma lírica da Itália! Mas ele sempre seguiu apenas sua própria cabeça e fez apenas
o que quis. Você tem algum dom artístico, Geórgia?
— Nenhum, a não ser admirar o talento.
— Não é verdade. Parece-me que seu dom consiste em criar harmonia e serenidade. Já
notou como Renzo tem usado cada vez menos a bengala? Sempre acreditei ter sido o medo
de falhar em público que o levou a depender de um artifício desnecessário. Agora, é como
se começasse a se libertar de traumas antigos, como se as inibições em relação ao seu
defeito tivessem diminuído. Ele lhe contou sobre o terrível acidente?
— Muito pouco... Só o essencial.
Como desejava conhecer mais sobre aquele homem, como queria estabelecer pontos e
contato com o jovem sem complexos, com o rapaz a quem o acidente ainda não tornara
amargo! O menor detalhe seria importante!, pensou ansiosa.
— Meus dois filhos sempre foram muito ativos e constantemente empenhados em competir
entre si. Numa tarde em que disputavam uma corrida a cavalo, houve o acidente. Os dois
saltaram um obstáculo, mas a montaria de Renzo tombou e caiu sobre ele, debatendo-se em
agonia. Enfim conseguiram afastá-lo mas vários ossos da perna de Renzo estavam
quebrados, quase esfacelados. Levado às pressas para o hospital, os médicos já se dirigiam
para a sala de cirurgia, onde pretendiam amputar-lhe a perna, quando eu me opus com uma
violência e uma obstinação inabaláveis. Colocaram pinos para soldar os ossos mas não
tinham muitas esperanças.
A condessa limpou disfarçadamente uma lágrima antes de prosseguir.
— Pobre rapaz! Sentiu dores tão violentas e por tanto tempo... Foi nessa época que o
temperamento de Renzo modificou-se por completo. Inseparáveis até o acidente, ele e
Stélvio aos poucos foram se distanciando. Não mais podiam jogar tênis, correr ou lutar
como dois jovens cheios de energia… Não mais estavam juntos nos salões de baile,
disputando a jovem mais bonita... De uma vida sempre ao ar livre, Renzo passou a dedicar-
se a atividades intelectuais. Retomou as aulas de música, que abandonara há alguns anos
por desinteresse, e creio que foi essa a maior ajuda para que ele superasse as dores
cruciantes. Tocava horas sem fim… Sei que tinha momentos de revolta profunda, sentia
ódio de mim por não ter permitido que amputassem sua perna, pois uma artificial não lhe
causaria tantas dores. Mas... o que eu poderia ter feito? Como ver meu filho, um rapaz
atraente, ser obrigado a usar uma prótese? A teimosia dele venceu todos os desconfortos e
seu defeito deixou de ser uma carga opressiva, mas, então, Renzo já não era mais o mesmo.
Tinha se tornado um homem, e um homem difícil de ser compreendido.
— Deve ter sido um período terrível para vocês dois, não só para Renzo…
— Uma mãe faz o que julga melhor para o filho: nunca; erra propositalmente. Algum dia
me compreenderá, Geórgia. Espero e rezo para viver o bastante e poder embalar em meus
braços o filho de Renzo.
Ajoelhando-se ao lado da cadeira da condessa, Geórgia pousou o rosto sobre a mão frágil,
quase transparente.
— Mamma, sua operação lhe proporcionará muitos anos de vida. Hoje se fazem milagres
com novas técnicas e aparelhos especiais. Logo estará se sentindo tão bem quanto uma
garotinha.
— Fico feliz por vê-la com tantas esperanças.
— Mas a senhora também precisa acreditar! Com fé, a metade da batalha já está ganha, e a
senhora a teve quando acreditou na cura de Renzo. Sabia que ele tinha condições de
derrotar todos os obstáculos, aquelas dores terríveis. Como eu gostaria…
— De quê, cara?

— De ter estado com ele nessa época... Gostaria de poder dar-lhe algum conforto. A dor
sempre é mais atemorizante à noite, não é verdade? Eu era ainda uma garota quando minha
mãe adoeceu e lembro-me de haver uma luz sempre acesa ao lado da cama dela. Não
importava o quão tarde fosse, meu pai permanecia ali, lendo algum trecho dos livros que
ela amava. Pela porta entreaberta, Angélica e eu ouvíamos o suave murmúrio da sua voz,
lendo ou consolando-a, e também nos sentíamos confortadas por saber que mamãe nunca
ficava a sós com sua dor. Procuro lembrar-me de meu pai como ele era naquela época: um
homem amoroso, numa vigília constante à beira da cama da esposa até a noite em que ela
se foi. Chamou-nos para que víssemos a paz em seu rosto e nunca tivéssemos medo da
morte. É um longo sono sereno e sem ansiedades, não há mais dor ou angústia… gosto de
pensar que nossas almas se transformam em pássaros ou borboletas, deslizando sobre a
água, rebrilhando ao sol...
Uma voz irada ecoou na sala.
— Como ousa tocar num assunto fúnebre assim na frente de minha mãe? Não tem uma
migalha de bom senso nesse seu cérebro infantil? Ou é tão imbecil a ponto de não perceber
o alcance de suas palavras?
Como se tivesse se transformado numa estátua, Geórgia permaneceu imóvel, os lábios
entreabertos, quase sem respirar. A violência de Renzo a deixara arrasada e sem ação.
Naquele instante, o homem que a fitava com evidente repulsa não era apenas o estranho que
se transformava numa criatura acessível durante os momentos de paixão. Um inimigo hostil
e cheio de ódio, emanando uma frieza glacial que a congelou até o fundo da alma, a
encarava como se fosse agredi-la.
— E-eu… não tive… intenção.
— Renzo! Seu tom de voz foi extremamente grosseiro e desnecessário. Magoou sua esposa
de uma maneira imperdoável! Veja como ela está lívida.

— Geórgia não tinha o direito de abordar um assunto tão impróprio na sua presença, uma
falta de sensibilidade que chega às raias da inconsciência. Tenho todo o direito de censurá-
la por tagarelar como uma criança, em vez de agir como uma mulher adulta. Não há
desculpas para tal irresponsabilidade.
As palavras cruéis de Renzo atingiram-na com o impacto de uma agressão física. Num
salto, ela ergueu-se e, sem dizer nada, saiu da sala correndo, antes de perder o pouco
controle que lhe restava. Seus olhos ardiam de lágrimas contidas mas prestes a rolarem
pelas faces rubras de vergonha.
Por alguns segundos, ela sentiu um ódio corrosivo contra aquele homem brutal e insensível,
mas, ao lembrar-se de quanto a doença da mãe o deixava nervoso, tentou controlar-se.
A operação seria nas primeiras horas da manhã seguinte e já há uma semana Renzo não
dormia, passando as noites a caminhar pela saleta da suíte. Mas, mesmo dando-lhe a
desculpa de estar à beira de um colapso nervoso, não havia condições de justificar a atitude
grosseira e agressiva. Gritar com ela como se fosse uma criança desmiolada e, acima de
tudo, diante da condessa, era um abuso imperdoável.
Não poderia ao menos ter esperado até que estivessem a sós?, refletiu angustiada.
No vestíbulo, Geórgia parou, sem saber onde se esconder. Não queria ir para seu quarto,
onde a presença de Renzo era forte demais e as lembranças perturbadoras!
Ao acaso, abriu uma das portas e viu-se na biblioteca sombria e silenciosa. Encostando-se
contra a porta que acabara de fechar, Geórgia caiu num pranto convulsivo.

CAPITULO XVI
As paredes cobertas de livros encadernados em fino couro testemunhavam, impassíveis, a
fragilidade do espírito humano. Depois de tantos dilemas mais difíceis de serem superados,
algumas frases ditas num tom de voz alto e ríspido haviam desencadeado um desespero
incontrolável!
Só depois de alguns minutos Geórgia teve a certeza de que não fora seguida pelo marido e
sentou-se em uma das amplas poltronas de couro, diante da lareira apagada, tão fria e sem
vida quanto ela.
Ante seus olhos úmidos, as letras douradas nas lombadas de centenas de obras-primas da
literatura, reunidas por Renzo, dançavam imprecisas. Quantas tragédias, paixões e lutas
havia naquelas páginas… tantos homens e mulheres perdendo-se em desencontros de
opinião, cultura ou temperamento! Quantos amores destroçados e tão belamente
descritos…
Mas palavra alguma, mesmo escrita pela pena genial de um grande autor, doía com a
mesma intensidade do sofrimento sentido na própria carne!
Geórgia mal conseguia acreditar que Renzo tivesse perdido o controle e a tratado com tal
grosseria diante da mãe. Que tipo de atitude era essa da parte de um homem recém-casado e
supostamente apaixonado pela bela e jovem esposa? Ele se mostrara descontente e sem
paciência com um casamento que, a olhos observadores, se mostraria vazio de qualquer
vestígio de paixão.
Com uma única ação, Renzo destruíra todos os esforços — nada fáceis — de mostrarem à
condessa a aparência de um casal feliz. A velha senhora, muito mais perceptiva do que
deixava transparecer, iria suspeitar da existência de algum problema bastante sério entre os
dois.
No entanto, tinha sido ele o mais determinado a mostrar à mãe o quanto viviam bem,
apaixonados como dois "pombinhos" saindo em lua-de-mel. Aliás, uma demonstração que
se fazia necessária para provar que não restara arrependimento ou mágoa ante a decisão de
sua ex-noiva ao deixá-lo em favor de uma carreira brilhante.

Geórgia já sentira ódio ao ser forçada a aceitar aquele casamento, mas tinha conseguido
superar sua revolta e tentara, de todas as formas, adaptar-se ao temperamento imprevisível
do marido, fazendo o possível para agradá-lo durante aquela primeira semana de casados.
Mas a ferocidade daquele ataque, uma explosão tipicamente latina, provocara o
renascimento de sua raiva! E ela apenas julgara estar fazendo um bem à sogra ao transmitir-
lhe sua crença na imortalidade da alma. Ao contar sua atitude no período trágico em que
perdera a mãe, Geórgia tinha procurado evidenciar a beleza de um mundo onde tudo se
renova sob as mãos divinas.
Cerrando os dentes, ela lutou para abafar sua mágoa. Estava sendo egoísta e infantil. Sua
sogra iria atravessar dias difíceis. Frágil e idosa, se submeteria a uma perigosa cirurgia. Por
respeito à situação da condessa, precisava deixar seus problemas num plano secundário.
A rispidez de Renzo devia ser afastada de seus pensamentos ainda que dificilmente
chegasse a perdoá-lo por completo. Tinha a impressão nítida de que seu marido se
esforçava por destruir e arrasar a sua sensibilidade e idealismo, qualidades que a tornavam
completamente diferente de Angélica. Ao se conhecerem um pouco mais, esses detalhes
tornavam-se mais evidentes e as diferenciavam, restando apenas a semelhança física.
Geórgia podia suportar que Renzo a possuísse, certo de ter nos braços a mulher amada;
aceitava vestir-se como uma princesa para lembrar-lhe a fascinante modelo… Tudo era
válido pelos momentos arrebatadores de paixão física, mas, se ele pretendia mudar sua
personalidade, moldando-a à semelhança de Angélica, iria enfrentar uma guerra!
Ela passou o resto da tarde escondida na biblioteca, tentando avaliar seus sentimentos e o
rumo que deveria dar à sua vida. Só pouco antes do jantar voltou para o quarto a fim de
vestir-se. Estava terminando de abotoar o vestido de gaze, em tons degrades de azul,
quando Renzo entrou.
— Então? Continua ofendida e cheia de ressentimentos, cara?
— E você? Continua ofensivo e grosseiro?
Ele se aproximou e fitou-a com ódio.
— Onde estava com a cabeça? Minha mãe já se sente terrivelmente nervosa, sua operação
será em menos de vinte e quatro horas… Não precisava ser perturbada, ainda mais com
discussões sinistras sobre morte e almas voando como passarinho! Essas suas idéias
mórbidas devem ser o resultado de ter passado toda a sua vida numa casa ao lado de um
cemitério!
— Talvez… Só que minha intenção não foi deixá-la ainda mais nervosa e sim tranqüilizá-
la. Simpatizei com sua mãe à primeira vista e, se meu intuito fosse perturbá-la, eu estaria
agindo com uma maldade infinita. Posso ter inúmeros defeitos, mas esse não é um deles.
Houve em minha vida uma experiência muito preciosa sobre a morte e recebi-a de meu pai.
Ele mostrou um carinho profundo por mamãe, nos momentos de dor; ensinou-me como
enfrentar as tristezas sem perder o controle ou deixar-me dominar pelo desespero. Quis
partilhar uma visão menos amarga sobre o sofrimento e tenho certeza absoluta de que a sua
mãe compreendeu perfeitamente bem a minha intenção... Enquanto você torceu minhas
palavras!
Geórgia foi até a cômoda para colocar os brincos, mas, ao sentir as mãos de Renzo sobre
seus ombros nus, afastou-se dele, sobressaltada.
— Não… não quero que me toque!
— Ah! Então eu tinha razão! Continua ofendida, com raiva e disposta a castigar-me,
negando-me seu corpo, é isso?
— Não, Renzo. Não quero brigar com você pois imagino o quanto está ansioso com a saúde
de sua mãe. No entanto, não posso aceitar essa atitude dupla! Grita comigo, me rebaixa
diante de outras pessoas e depois vem à minha procura como se nada tivesse acontecido.
Embora você jamais tenha me visto como uma criatura com idéias e sentimentos próprios,
lembre-se ao menos de que não sou apenas um corpo de mulher!
Mas ele nem sequer tomou conhecimento da recusa de Geórgia e puxou-a de encontro ao
seu peito.
— Ora, donna… deixe de dramatizar a situação. Sou eu quem tem todos os motivos para
sentir-me ofendido, com direitos de castigá-la por sua insensatez. E essa irritação está
aumentando a cada palavra sua, já que meu estado de espírito esta noite não é nada
apropriado para debater "probleminhas" existenciais com uma esposa… adolescente. Pela
idade, você deveria ser uma mulher madura, mas sua experiência de vida a torna uma
garota tola de mais ou menos quinze anos! Faça o impossível para conscientizar-se de sua
posição como esposa e deixe de bancar a ofendida. Trate de apoiar o seu marido numa
situação difícil... É esse o seu dever! Estou terrivelmente tenso e preocupado.
— Sei o quanto você teme pela vida de sua mãe. Mas, mesmo assim, não tinha o direito de
gritar comigo diante dela. Sua reação grosseira não ajudará nada, nem a ninguém, a superar
esta crise. Passei a tarde toda tentando convencê-la da nossa felicidade conjugal…
— E não é verdade?
Renzo estava muito próximo dela, mas, pela primeira vez, o calor que emanava daquele
corpo másculo não a perturbou. Seus sentimentos mais profundos tinham sido atingidos, a
tentativa de destruição de seus valores mais queridos ainda era recente demais.
— Só conseguimos uma parcela de felicidade, muito breve e fugaz. Existe uma
comunicação entre nós apenas quando estamos… ali. — Geórgia indicou a cama com um
gesto, surpresa por ter tido a coragem de declarar o que considerava ser uma verdade
inconfessável e vergonhosa.
Renzo olhou para a cama já preparada para a noite, os lençóis de cetim brilhando
convidativos e, em sua expressão, evidenciou-se o desejo nascente.
Geórgia recuou ainda mais. Ali haviam passado horas de prazer intenso, vibrando como se
fossem um único corpo, numa fusão perfeita de emoções. Ali ele murmurava apenas
palavras sensuais e a envolvia na intensidade de uma paixão delirante. Não a agredia ou
gritava…

As lembranças daqueles momentos eram muito perigosas pois poderiam fazê-la esquecer
sua mágoa, mergulhando no mundo das sensações, e não queria transformar-se nesse tipo
de mulher!
— Desde a primeira noite em Sandbourne, você não quis de mim nada além do meu corpo.
Em cada hora, minuto e segundo que passávamos juntos, apenas quando me tinha em seus
braços sentia-se satisfeito e era acessível. Passada a emoção do encontro físico, fechava-se
em seu mundo, ignorando a minha presença. Quer por força esquecer que sou eu a sua
esposa e, hoje à tarde… conseguiu! Falou comigo como se me considerasse uma criatura
abaixo de todos os padrões aceitáveis, diminuiu-me e arrasou-me por completo. É como se
todos os momentos em que estivemos juntos fazendo amor não tivessem significado nada,
não houvessem criado um mínimo de afeição por mim… nem uma migalha!
Os olhos de Geórgia faiscavam como as safiras que adornavam seu colo e, como as pedras
preciosas, emanavam um brilho perigoso e frio.
— Oh, meu Deus! Se eu pudesse, o abandonaria esta noite! Sairia desta casa, onde não
significo nada além de uma presença em sua cama! Mas nós dois sabemos que não posso
seguir
esse impulso. O seu querido irmão deveria estar aqui ao seu lado, dividindo com você as
preocupações e a angústia do dia de amanhã, enquanto durar a operação de sua mãe. Como
ele
não cumpriu seu dever filial, ou não lhe avisaram para que pudesse fazê-lo, eu ficarei e
partilharei esses momentos penosos por consideração a ela, não a você! E… sabe o que
mais? Não há a menor diferença entre vocês dois, ambos são feitos do mesmo barro!
Disputaram durante toda a juventude para provar quem era o melhor nos cavalos, no tênis,
nas competições de natação. Hoje, é Angélica, certo? Os dois a tiveram mas nenhum
venceu!
As palavras ecoavam no quarto e Renzo parecia a ponto de sacudi-la até que passasse a
crise de histeria quando uma batida à porta interrompeu uma situação que ameaçava tornar-
se violenta e sem possibilidades de retorno.

Ao abri-la, Renzo deparou-se com Torrence, pálido e transtornado.


— Desculpe-me incomodá-lo, signore, mas… sua presença no quarto da condessa é
indispensável. Ela não está bem e...
Renzo nem esperou que o mordomo terminasse de transmitir sua mensagem e Geórgia
perguntou ansiosa se alguém já havia telefonado para o médico.
— Ainda não, achamos melhor que o signore…
— Não faz mal, eu providenciarei tudo, Torrence. Geórgia correu para o telefone e discou o
número da residência de sir Richard Jarmon, que lhes fora dado exatamente para o caso de
uma emergência. Por sorte, encontrou-o em casa, à mesa do jantar.
Quando ouviu a explicação de Geórgia sobre a súbita crise da condessa Talmonte, ele não
hesitou um segundo.
— Irei imediatamente!
A urgência na voz do médico deixou-a ainda mais transtornada. Ele não ficaria tão aflito se
não houvesse sérios riscos! Ao desligar o telefone, notou que Torrence permanecia parado à
porta, hesitante e extremamente apreensivo.
— Oh! Madame… todos nós estávamos rezando para que a condessa resistisse até que
pudesse ser feita a operação…Ela é uma senhora tão cheia de calor humano, afetuosa…
O mordomo a fitava como uma amiga, alguém em quem podia confiar, e não mais como no
dia de sua chegada a Hanson Square. Naquela ocasião, fora olhada com um certo desdém,
como uma jovem inexperiente, sem desembaraço social e pouco interessada em ocupar-se
com a casa.
Durante os dias de convivência, tinham aprendido a respeitá-la, não só por sua gentileza em
dar-lhes ordens como pelo esforço incessante de tornar a vida do signore mais serena e
agradável.

Nas conversas noturnas depois de servido o jantar, todos os criados eram unânimes em
considerá-la uma jóia de raro valor entre as jovens modernas, tão sem modos, egoístas e
pouco interessadas em criar um ambiente familiar harmonioso.
— Eu também tenho rezado tanto, Torrence! O coração dela está tão debilitado que
qualquer crise poderá… — Ela se interrompeu ao ver Cosima entrar no quarto às pressas, a
fisionomia transtornada e lágrimas correndo-lhe pelas faces.
— Por favor, corra! A condessa quer vê-la… e não creio que haja muito tempo!
Geórgia jamais soube como atravessou os corredores que ligavam a ala norte à ala sul da
mansão. Lembrava-se apenas da sogra, muito pálida, os lábios azulados, apoiada por
inúmeros travesseiros.
Renzo segurava as mãos da mãe, esfregando-as delicadamente como se quisesse transmitir-
lhe seu calor e energia.
Quando entrou no quarto, ele a fitou de um modo que Geórgia jamais esqueceria: uma
angústia infinita, uma impotência profunda diante de algo que não poderia ser controlado
ou modificado… O inevitável!
— Cara bella…
Ao ver a nora, um brilho tornou mais vivos os olhos da condessa, que, com esforço, soltou
suas mãos das do filho e estendeu-as para Geórgia, num convite cheio de amor e
compreensão.
Os dedos frágeis e muito, muito frios descontrolavam Geórgia por completo. Não era
possível! A condessa precisava agüentar apenas mais algumas horas e a operação poderia
ser
efetuada. E então ela voltaria a sentir-se bem, sem esses ataques e palpitações que a
impediam de respirar. O destino não podia ser tão cruel… Outra vez perderia uma amizade
que só existia no coração de uma mãe! Sem a sogra, dificilmente resistiria às pressões do
seu casamento!
— Poupe suas forças, mamma… — suplicou ela, — O médico já deve estar chegando e
logo lhe dará um remédio!
— Não existem mais dores. Nem angústias… foram estas as suas palavras, não é, cara?
Como me ajudou a nossa conversa desta tarde... Só sinto não haver mais tempo para
conhecê-la melhor, você me deu a sensação feliz de ter encontrado uma filha.
Geórgia já não podia conter as lágrimas e percebeu que a condessa colocava a sua mão
entre as do marido. Um olhar cheio de compreensão revelou-lhe que a sogra percebera toda
a verdade oculta atrás da farsa de recém-casados felizes e, com aquele gesto, quisera uni-los
ao menos por sua bênção.
— Lembre-se, cara… às vezes precisamos da solidão para pensar… ficar sozinhos…
Foram as últimas palavras daquela senhora que, através do pior, notara a falta de um elo
mais profundo entre um par ainda inexperiente nos caminhos tortuosos e difíceis de um
casamento.
Ela, indiretamente, pedira a Geórgia para suportar os problemas e a dificuldade de amar
Renzo, o filho que sempre se mantivera distante e fechado. Tão menos afetuoso que
Stélvio, mas o único presente ao seu lado no momento da partida… Sua derradeira
sensação devia ter sido a do contato das três mãos unidas num gesto de amor silencioso.
Renzo soltou um soluço estrangulado e Cosima desatou num choro de desespero. O quarto
se encheu de tristeza diante da presença cruel da morte!
Geórgia foi invadida por lembranças penosas do sofrimento de sua própria mãe e, sentindo
que perdera a madre, uma substituta do envolvente amor materno, ajoelhou-se ao lado da
cama. A luz suave do abajur brilhava em seus cabelos, transformando-os num halo dourado,
e Cosima teve a impressão de estar vendo um anjo…
— Eu a amei, mamma. Sinto-me feliz por tê-la conhecido, ainda que por tão pouco tempo.
Quando Geórgia levantou a cabeça, encontrou o olhar de Renzo fixo sobre ela. Havia uma
dor profunda e o brilho de lágrimas mas, acima de tudo, aquele olhar anunciava distância e
recusa em receber qualquer tipo de consolo.
— Quero ficar sozinho com minha mãe.

Tomando o braço de Cosima, Geórgia saiu do quarto, deixando a sós aquele homem
incapaz de partilhar suas emoções. Alegrias ou tristezas sempre pertenceriam a ele
apenas…
Conseguiria algum dia ultrapassar as barreiras desmedidas com que Renzo rodeara seu
coração?, pensou. Toda uma vida fechada dentro de si mesmo não seria fácil de modificar.
No entanto, ela imaginava existir uma riqueza imensa de sentimentos contidos naquela
alma de artista. Só alguém de grande sensibilidade teria a capacidade de criar melodias tão
belas, de um romantismo mesclado de sensualidade.
Ah! Como ela ansiava ter acesso a esse mundo glorioso, dividindo com Renzo todos os
prazeres e tristezas que a vida traz…
Mas aos poucos começava a perder as esperanças, descrente por senti-lo mais longe e
distante do que jamais estivera antes!

CAPITULO XVII
A profundidade do ressentimento de Renzo em relação a Stélvio só foi percebida por
Geórgia quando seu marido afirmou categoricamente que a condessa seria sepultada num
cemitério inglês.
— Stélvio que vá para o inferno! Foi cercado de amor e carinho e retribuiu tanta afeição
com ausência no momento em que sua presença seria obrigatória. Não partilhou a dor ou a
angústia e não haverá lugar para sua opinião agora. Eu decidi que mia madre será enterrada
no solo da terra onde construí meu lar. Não pretendo retornar à Itália!
Renzo escolheu um cemitério no meio de um bosque, nos arredores de Londres, e, na
capela simples de pedra cinzenta, repousou o caixão da condessa Evelina Talmonte. Apenas
flores brancas enfeitavam o recinto, perfumando-o com sua fragrância intensa.
Geórgia preferiu ir sozinha à capela para passar as últimas horas ao lado da mamma e, ao
mesmo tempo, rememorar sua verdadeira mãe, tão cedo perdida. Entre os vitrais coloridos e
as flores, a morte já não era mais uma presença assustadora e sim um estado de serenidade
e paz.
Apesar de ter desencadeado uma explosão de raiva em Renzo no último dia de vida da mãe,
Geórgia sentia-se extremamente feliz por terem conseguido uma oportunidade de conversar
sobre assuntos tão importantes.
Talvez, sem que nenhuma das duas soubesse, uma premonição as fizera se abrirem com
tanta sinceridade. A tarde cheia de sol não poderia evocar uma idéia tão fúnebre como a
morte, mas ambas haviam conversado como se a intuição as prevenisse de que aquela seria
a última chance.
Rezando fervorosamente, Geórgia agradecia a Deus que a sogra não tivesse sofrido, pois
seu ataque viera muito rapidamente.

De acordo com Cosima, Evelina estava se penteando enquanto ela preparava o traje a ser
usado no jantar. Quando se levantou da penteadeira, deu alguns passos em direção à cama
e, murmurando algo incompreensível, só não caiu porque Cosima a amparou. Deitando-a
sobre o tapete, ela julgou que uma bebida forte pudesse reanimá-la e chamou Torrence. O
mordomo, ao ver a aparência da mãe de Renzo, correu para chamá-lo.
Tinha sido o filho a carregá-la até a cama e, em menos de meia hora, tudo havia terminado.
Após alguns minutos, sir Richard Jarmon chegava à mansão de Hanson Square e
confirmara a morte por parada cardíaca.
Geórgia aproximou-se do caixão e fitou por um longo tempo a fisionomia serena da mulher
cuja amizade teria sido tão importante para ela. Se não a tivesse perdido, talvez seu
casamento pudesse algum dia se tornar um verdadeiro relacionamento conjugal. Agora, já
não tinha mais esperanças.
Evelina, através de seus próprios sofrimentos, desenvolvera a capacidade de sentir as
vibrações dos seres que amava. Notara a distância entre o filho e a nora, apesar de ter visto
claramente a atração física entre os dois. Com sua compreensão e diplomacia, teria
conseguido aproximá-los, mas o destino não o permitira…
Geórgia pegou um dos magníficos crisântemos colocados em torno do rosto plácido, agora
sem as marcas de um sofrimento que a acompanhava há anos, e guardou-o em sua bolsa.
Tinha implorado a Renzo para entrar em contato com Stélvio, comunicando-lhe o dia do
enterro. Mas quem conseguia dobrar a Vontade férrea daquele homem?
Renzo recusara-se a tomar a menor providência! Mônica, que deveria chegar à Inglaterra
dentro de algumas horas, supunha que seu marido estivesse em algum ponto do Adriático,
no iate de um amigo, num cruzeiro sem roteiros estabelecidos e, provavelmente, ainda na
companhia de Angélica. Era quase impossível localizá-lo!

— Eu já lhe disse, cara! Quero vê-lo arder no fogo do inferno e não moverei uma palha
para dar-lhe o "prazer" de vir ao funeral de nossa mãe. Agradeço a Deus por ela jamais ter
desconfiado de como o esposo perfeito, o filho adorado e o pai amoroso mostrou-se pouco
digno de sua confiança. Por mim, ele e sua vagabunda podem afundar bem no meio do
oceano!
Não havia como discutir com Renzo quando ele se enfurecia e já estavam quase
desaparecendo de sua memória os dias em que não o via cheio de ódio e raiva. A doença da
mãe o transformara demais e fechava-se a qualquer conselho, palpite ou tentativa de
consolo.
O fato de a condessa ser sepultada na Inglaterra e não no túmulo da família em Florença
perturbava Geórgia profundamente.
— Por Deus, Renzo! Sem dúvida, ela gostaria de repousar ao lado do marido. Seu pai está
enterrado lá, não é?
— Ele morreu há muito tempo, quando seu avião explodiu, e apenas cinzas restaram. Havia
uma mulher em sua companhia, jamais conseguimos identificá-la. No túmulo da família
misturaram-se as cinzas de meu pai e as da desconhecida que o acompanhava… Acha que
minha mãe faria questão de ficar ao lado dele? Deixe de alimentar fantasias românticas
sobre a vida, a realidade é bem diferente.
Enquanto relembrava o tom áspero de Renzo ao falar com ela — agora uma atitude
constante —, Geórgia cruzou o parque em frente à capela. Ia atravessar a rua quando um
Porsche prateado parou à sua frente, impedindo-lhe a passagem.
— Ei! Quer uma carona? Lembra-se de mim? Fui o cavalheiro que a entregou ao seu
marido na igreja!
— Oh! Bruce! Como vai?! — exclamou Geórgia, sem conseguir ocultar o tom de alegria
em sua voz, e, sem hesitar, ela entrou no carro. — Ë tão bom vê-lo outra vez! — Concordo
plenamente! Sinto muito pela morte de sua sogra… você deve ter sofrido, apesar de
conhecê-la muito pouco, mas Evelina era uma mulher que cativava todos à primeira vista.
Eu a conheci há muitos anos em Florença e, se não tivesse idade para ser minha mãe, me
apaixonaria por ela!
— Apesar de termos tido muito pouco tempo, nos tornamos amigas. Eu tinha tantas
esperanças nesse novo tipo de operação! Infelizmente, ela não agüentou…
— Soube da notícia através de Flávia e imediatamente entrei em contato com Renzo para
oferecer minhas condolências. Pelo tom de voz, percebi o quanto ele estava perturbado,
mas nada me preparou para sua reação violenta ao lhe perguntar quando iria enviar o corpo
da mãe para a Itália. Respondeu-me com uma fúria contida que o enterro seria em
Richmond, na sexta-feira.
— Renzo é teimoso e não há como fazê-lo mudar de idéia… Tentei argumentar mas ele não
dá ouvidos a ninguém, ainda menos a mim. Não faz nada para avisar o irmão e recusa-se a
tomar qualquer providência nesse sentido. Tenho a impressão de que, quando ele se decide
a tomar um rumo, nem um furacão ou um maremoto o faz mudar sua meta!
— Ë a pura verdade… E eu sei qual é o grande problema que os tornou praticamente
inimigos. É algo ligado à sua irmã.
— Oh... ainda bem que você sabe! Ë tão desgastante fingir o tempo todo! Fica bem mais
fácil…
— Mais fácil para nós dois, Geórgia?
— S-sim...
Pela primeira vez em muitos dias, ela percebeu a tensão diminuir e uma certa alegria por
sentir-se viva! Quando Renzo estava presente, tinha a impressão de encontrar-se ao lado do
Vesúvio prestes a entrar em erupção! Luto, ódio e amargura se mesclavam numa torrente
violenta de lava vulcânica que, a qualquer momento, alcançaria seu limite máximo,
destruindo tudo à sua volta!

— Está precisando de um ombro amigo para ouvir suas confidências? Posso ser
considerado um confidente ideal: sou discreto, compreensivo e sei ouvir. Não se acanhe se
necessitar de apoio. Ouça! Vou almoçar sozinho, bem perto daqui. Que tal poupar-me a
tristeza de uma refeição solitária fazendo- me companhia? Não tem nenhum compromisso
urgente que a obrigue a voltar logo para casa, certo?
— Na verdade, nada nem ninguém está à minha espera…
— Maravilhoso!
Bruce parecia tão entusiasmado que Geórgia olhou-o extremamente surpresa. Era um
homem muito atraente e as mulheres da sua vida com certeza seriam beldades exóticas e
atrizes fascinantes que ele dirigia em seus filmes. Por um momento de ansiedade, ela
pensou no quanto ele saberia sobre Angélica e se tinha conhecimento de certos aspectos
obscuros e sensacionalistas de sua carreira no cinema... e na vida particular!
— Não consigo imaginá-lo almoçando ou jantando sozinho!
— E por que não? Acha que vivo rodeado por estrelas de cinema sedutoras e famosas?
— Deve ser assim a maior parte do tempo, não?
— Tempo demais! Coloque um homem numa estufa entre orquídeas magníficas… Em
poucas horas, ele estará desesperado por respirar o ar puro e o perfume das mais singelas
violetas! Pode imaginar que, desde as sete horas da manhã, estive tentando filmar uma cena
com Amanda Miles? Céus! Foi uma das experiências mais exaustivas de toda a minha vida.
Ela aparece nas telas como um anjo de candura e não gagueja nem uma vez sequer, não é?
Pois nos ensaios, minha amiga, é bem diferente! Amanda não tem um pingo de inteligência,
mal consegue decorar duas frases de cada vez e as esquece num piscar de olhos. Além
desse pequeno "defeito", é temperamental, caprichosa e exige ser o centro de todas as
atenções ou se torna decididamente venenosa!
— Que manhã terrível! Sua profissão não é tão glamourosa quanto pensam os fãs do
cinema…

— Ê bem pior! Portanto, acredite quando lhe digo que tê-la ao meu lado agora é a paz
depois do caos. Só de olhar para você, sinto-me repousado.
Geórgia sorriu discretamente, imaginando que a maioria das mulheres reagiria mal ao ser
julgada "repousante". Preferiam ser consideradas excitantes, estimulantes. Mas ela
compreendia muito bem a necessidade de Bruce. Também passara uma manhã debatendo-
se entre pensamentos conflitantes e seria um alívio passar algumas horas serenas, sem
pensar nos problemas ainda sem solução.
— Onde iremos almoçar?
— Num dos meus restaurantes prediletos. Para mim, o mais importante é a qualidade da
comida, não a decoração vistosa e um luxo desnecessário, usado apenas para disfarçar a
falta de um bom cozinheiro. Além disso, esses lugares da moda estão sempre cheios de
executivos, alertas a qualquer boato e distribuindo sorrisos aos diretores dos bancos ou a
qualquer indivíduo de uma certa importância… Ë um circo! O Silk Lantern não se parece
nada com esses mercados de peixe, você vai gostar.
— Tenho certeza de que sim. — Abaixando o olhar, Geórgia perguntou timidamente: — Irá
ao funeral, Bruce?
— Provavelmente sim. Sabe, eu entendo bem a decisão de Renzo em escolher um cemitério
inglês para a mãe. Ele vai tão raramente à Itália… A última vez… bem, não me lembro. —
Bruce calou-se, aborrecido por ter tocado naquela visita a Florença junto com Angélica. —
É reconfortante poder colocar flores no túmulo, sentir-se perto. Mônica virá?
— Chega hoje de Roma…
Como ia ser difícil o encontro com a esposa de Stélvio! Mia deixara o filho com os pais na
Itália e permaneceria em Hanson Square, nos dias de sua estada na Inglaterra. Haveria
condições de esquecer que a esposa de Renzo era a irmã da mulher que lhe roubara o
marido?, refletiu.

Tudo que a condessa tinha mencionado a respeito de Mônica, despertara-lhe o desejo de


conhecer aquela jovem com qualidades tão semelhantes às suas, mas a aproximação entre
elas apresentaria obstáculos intransponíveis que só a boa vontade de ambas poderia superar.
Da mesma forma que com a mãe de Renzo, uma amizade com a cunhada ajudaria a tornar
seu casamento mais sólido, menos frágil diante de problemas que fatalmente surgiriam no
futuro, em especial se sua irmã fosse abandonada por Stélvio e voltasse disposta a
conquistar o seu marido!
— Percebe-se que está bastante preocupada com esse encontro, Geórgia.
— Realmente, sinto-me despreparada para enfrentar uma esposa magoada e ferida, por
alguém tão ligado a mim.
— Precisa reagir à tendência de sentir-se responsável pelos sentimentos dos outros, minha
cara. Não imagina como as pessoas conseguem reagir e superar os problemas mais sérios,
se continuar a ter essa sensibilidade excessiva, sofrerá muito… principalmente no amor.
— Que palavras cheias de ceticismo, Bruce! Nunca o julguei um homem descrente...
— Considero-me apenas cauteloso. O trabalho me colocou num mundo onde o amor dura
uma semana quando as pessoas têm muita sorte! Esse sentimento toma a forma de uma
emoção banal e facilmente substituível. Desde os dezesseis anos, vivo nesse meio. Eu era
um garoto pobre mas fascinado pelo cinema e comecei fazendo o que ninguém mais se
dignava a aceitar. Hoje estou no topo! Em todos estes anos, além de tornar-me um perito na
arte cinematográfica, aprendi algo ainda mais importante: conhecer as pessoas! Encontrei
os tipos mais variados, dos mais encantadores aos mais repulsivos, mas todos ambiciosos
ao extremo. Siga o meu conselho: mantenha uma barreira sólida protegendo sua
sensibilidade, não se envolva demais nos problemas dos outros e no final vai ver que seu
sofrimento não será tão profundo.
— Sem dúvida, você tem razão, Bruce, mas... já é tarde demais no meu caso.

Era tarde demais também para retirar aquelas palavras reveladoras, que fizeram Bruce
encará-la cheio de suspeitas.
— Seja sincera, Geórgia. Renzo a está fazendo sofrer?
— Não é intencional… pelo menos creio que não. Ele fecha-se e repele qualquer
aproximação da minha parte. Emocionalmente meu marido não me aceita. Talvez eu tenha
sido;romântica demais sonhando com o impossível, pois sempre acreditei que o casamento
significasse uma comunicação total em todos os níveis…
— Por que se casou com ele, Geórgia? Não posso nem calcular o número de casamentos
que presenciei, e juro, nunca vi uma noiva igual a você. Parecia estar vivendo um sonho,
nada era real, principalmente o seu noivo. Eu a entreguei a Renzo mas deveria mesmo tê-la
arrastado para fora da igreja antes da cerimônia! Assim não estaria com esse anel em seu
dedo…
— Por favor, Bruce, não continue…
Bruce tomou a mão delicada entre as dele e tocou a aliança pesada como uma algema!
— Foi pressionada de algum modo, tenho certeza! Sei que jamais contará a verdade, porém
conheço bem o meu amigo! Ha um lado obscuro e violento em sua personalidade, e uma
jovem meiga como você não seria uma oponente à altura de Renzo caso ele usasse força ou
capacidade de sedução. Qual das duas foi a arma apontada contra você?
— Uma combinação desses dois elementos... Eu não podia evitar o casamento mesmo
sabendo que... ele ainda desejava Angélica.
— Por Deus! Essa situação só existe em romances medievais. Casamentos desse tipo não
acontecem mais no século vinte! Não pode submeter-se a um absurdo desses, a não ser que
ele a obrigue a permanecer ao seu lado por pura maldade!
— Não é tão simples quanto parece, Bruce… — murmurou Geórgia, desviando o olhar. —
Que tal entrarmos no restaurante… estou faminta.

— Eu não tinha a menor idéia de que jovens como você ainda existissem neste mundo
depravado, baseado em interesse e corrupção. Julgava todas as mulheres iguais, envolvidas
num brilho de falsidade e ambiciosas ao extremo.
— Ë... sei que sou uma pessoa antiquada e fora de moda, Bruce!
Segurando-a pela mão, Bruce atravessou a rua. Entraram numa viela que os levou a uma
pracinha tranqüila e cheia de árvores. Um pequeno restaurante com toldos brancos tinha
mesinhas na calçada, onde jovens descontraídos tomavam cerveja enquanto desfrutavam o
calor do sol, tão raro em Londres.
Recebidos por um garçom que cumprimentou Bruce como a um freqüentador habitual,
foram levados a uma saleta aconchegante no primeiro andar. Lanternas de seda cor de
laranja espalhavam uma luz difusa sobre as mesas impecáveis e um aroma delicioso enchia
o ambiente.
— Que lugar encantador!
— Costumo vir freqüentemente. Gosto da serenidade e da paz deste lugar. Nem perguntei
se preferia ficar ao ar livre porque aqui teremos mais chances de conversar. O que quer
beber?
— Vinho do Porto. Assumo a minha posição de mulher antiquada!
Enquanto ele fazia os pedidos, Geórgia notou com surpresa seu prazer por estar com Bruce.
Era tão bom ser confortada e mimada em momentos de tensão! Tentara de todos os modos
dar a Renzo seu carinho para que suportasse melhor a dor de ter perdido um ente querido,
porém fora repelida com indiferença e irritação. Sentira-se magoada e triste e seu
sofrimento só diminuíra quando desistira por completo de atingir o íntimo daquele homem
de coração impenetrável.
Geórgia deixou que Bruce escolhesse os pratos, satisfeita por ter alguém tomando decisões
por ela. Nos últimos dias, vivera completamente afastada de qualquer calor humano!

— Que bom comer um frango à moda do campo! Nós ficávamos felizes quando algum dos
paroquianos nos dava um de presente e eu o preparava com ervilhas e cenouras… Nunca
mais… — Geórgia interrompeu-se diante do olhar intenso de Bruce. — Julga-me ingênua
demais, não é? Ainda continuo a ser a filha do pastor, sem sofisticação alguma, que sem
dúvida entedia Renzo até o fundo de sua alma.
— Oh! Deus! Se aquele idiota não consegue enxergar essas qualidades raras de sinceridade
e candura, eu saberia fazê-lo, e como gostaria de poder! Por que nunca pedi a Angélica para
nos apresentar?
— Se algum dia ela falou sobre mim, o que eu duvido muito, deve ter pintado minha
imagem como a de uma solteirona ácida e conformada por levar uma vida isolada em
Sussex. Talvez não o dissesse por maldade, nunca me viu interessada em homem algum. Só
depois da primeira vez que ela levou Renzo nossa casa percebi que sua presença havia
deixado uma impressão muito profunda em mim.
— Profunda demais para ser eliminada?
— Por favor, Bruce! Não devíamos deixar nossa conversa tomar esse rumo…
— Talvez nosso destino fosse ter essa conversa no momento que nos conhecemos.
— Não é verdade! Você e Renzo são grandes amigos e eu… a esposa dele. Esteve presente
na igreja quando fizemos juramentos de fidelidade e aceitamos viver juntos nos momentos
de alegria ou de dor…
— E vai cumpri-los à risca, mesmo sabendo que ele não o irá? Apesar de acreditar que
Renzo ainda ama sua irmã?
— Sempre soube disso… desde o dia em que ele me propôs casamento.
— Mas o que ele queria afinal? Um jeito de vingar-se de Angélica, usando-a como arma
para feri-la?
As antigas lembranças continuavam a doer! Geórgia não podia enfrentar o olhar de Bruce
ou ele leria a verdade estampada em sua expressão de angústia.

Mas o seu silêncio forneceu a confirmação que ele desejava.


— Não posso acreditar! É absurdo demais, é… irreal! Aquele miserável não tinha esse
direito! Sempre soube que Renzo seria capaz de violências e atitudes tempestuosas, mas
julgava que tivesse alguma sensibilidade. Afinal, é um músico, um artista, devia ter a
delicadeza de levar em conta os seus sentimentos. Sem dúvida, ele não pode ignorar que
você tem sentimentos sobre os quais Angélica nem sequer ouviu falar!
— Nada pode dirigir e comandar as nossas emoções, não acha?
Geórgia tomou um gole de seu vinho, esperando que ao menos seu corpo se aquecesse, pois
seu coração estava frio… gelado com a morte de todas as suas ilusões.
Se algum dia alguém lhe dissesse que o amor é tão impetuoso como um vendaval, ela
jamais teria acreditado, julgando ser mais um dos incontáveis exageros criado em nome de
uma emoção romântica e serena. Só agora, arrastada como uma folha na tempestade, sem
rumo diante de forças sobre as quais não mais podia atuar, Geórgia admitia que se tornara
uma prisioneira voluntária da tortura mais dilacerante: um amor não retribuído.

CAPITULO XVIII
Até quando Renzo a consideraria culpada pela morte de sua mãe? Até quando haveria em
cada olhar uma ofensa, em cada silêncio, uma censura?, Geórgia questionou-se.
Como numa fortaleza glacial e varrida por ventos gelados, a graciosa mansão georgiana de
Hanson Square guardava entre suas paredes, cobertas de quadros delicados e preciosos,
dois inimigos, dois estranhos que se cruzavam por mero acaso nas salas ou corredores.
Até mesmo os criados, percebendo a tensão insuportável, como a calma ilusória antes da
tormenta, não se faziam presentes a não ser quando a situação exigia.
Na noite em que a condessa falecera, Renzo tinha ficado no quarto da mãe, sozinho, até a
manhã seguinte. Com a barba por fazer, o olhar distante e uma indiferença completa pelas
pessoas que o rodeavam, passara a manhã na saleta do jardim. Só então, depois de arrumar-
se, voltou a ser o homem elegante e dono da situação. Mas uma cortina velava seus olhos,
ocultando qualquer sinal de emoção.
Eficiente, ele tinha tomado todas a decisões necessárias, inclusive a de não enviar o corpo
da mãe para sua terra natal.
Geórgia mal o vira durante aqueles dias tumultuados por inúmeras providências a serem
tomadas. Nos poucos momentos em que seu marido permanecia em casa, trancava-se no
salão de música e tocava piano por horas a fio.
Ela se lembrou das palavras da sogra sobre como a música o ajudara a suportar as dores
terríveis em sua perna depois do acidente. Quem sabe conseguiria amenizar a dor causada
pela morte da mãe através da criação de melodias magníficas?
Entretanto, Geórgia encontrava-se completamente perdida num mundo estranho cujo único
elo de ligação até agora tinha sido Renzo, e ele se distanciara a ponto de ignorar sua
presença. Depois de tanta solidão, não podia deixar de sentir-se feliz pela companhia
amistosa de Bruce! Mas ele continuava fitando-a com um olhar interrogativo e preocupado.
— Você ama Renzo, Geórgia?

Ela não respondeu, confusa com sua incapacidade de dar-lhe uma resposta direta e precisa.
Seus sentimentos estavam tão tumultuados que já não mais sabia onde encontrar a verdade.
Sentia-se magoada, confusa e perturbada, pois só quando tinha os braços de Renzo ao seu
redor, ansiando-o com tanto ardor quanto ele a desejava, o seu mundo estava completo e
nada podia ameaçá-la. Todavia, no momento em que seu marido afastava-se, plenamente
satisfeito, ela se encontrava ainda mais sozinha. O único elo existente entre eles se desfazia,
provocando uma sensação de abandono e desespero.
Só se sentia viva nos momentos em que ele a possuía! E depois… tudo mudava. A voz
murmurante e sensual tornava-se seca e impaciente, o corpo cálido e elástico retomava sua
postura rígida e formal. Como era possível conviver com um conflito tão evidente e
dilacerante?
— Renzo é como Janus, o deus de duas faces. Não consegui ainda descobrir qual é a
verdadeira.
— Ah, minha querida! Apesar de casada, você parece jamais ter sido tocada por homem
algum, tal a sua inocência. Está querendo dizer que ele tem uma face noturna e outra
diurna? Bem, só se ele fosse cego não usaria seus privilégios de marido tendo uma esposa
tão atraente como você!
— Bruce… por favor, não…
— Oh! Geórgia... nem, sei o que eu daria para ouvi-la dizer: por favor, sim!
— Bruce!
— Escute-me apenas uma vez, querida. Eu gostaria de poder cobri-la de atenções e mimos,
fazê-la perceber o quanto um homem pode valorizar uma mulher, quando encontra a pessoa
certa. Merece um homem completo, não apenas um companheiro para os momentos de
sexo! Sinto muito se estou sendo sincero a ponto de parecer grosseiro, mas é a pura verdade
e você sabe disso, não?
— Eu não sei como chegamos a discutir um assunto tão… impróprio. É melhor parar, sim?
Desafiante, Geórgia fitou o homem à sua frente, surpreendentemente fixando o olhar sobre
os lábios dele. Uma boca firme e máscula mas com contornos que prometiam doçura e
delicadeza. Ninguém, nem mesmo Renzo, tinha conversado com ela, respeitando sua
individualidade, aceitando-a como uma criatura com idéias e sentimentos pertencentes
apenas a ela.
Geórgia tinha a impressão de que ao lado de Bruce seria considerada valiosa e querida o
suficiente para ser colocada num pedestal e adorada como sempre acontecera com sua irmã.
Suas atitudes provocariam admiração e seriam aguardadas com ansiedade! No entanto,
precisava reagir contra esse tipo de fuga da realidade.
— Você quer que eu pare, porém talvez nunca mais encontremos uma oportunidade de
voltar a falar sobre nós dois.
— E provavelmente será melhor...
— E o melhor para você é continuar a ser a chave que Renzo insiste em usar para abrir as
portas de um coração fechado e pertencente a outra?
Geórgia estremeceu diante da realidade evocada pela pergunta de Bruce, Precisaria de uma
resistência férrea para não ceder às suas ilusões sobre um futuro cheio de ternura. Como
gostaria de sentir o olhar de Renzo, vindo do outro extremo de um recinto, como se
estivessem unidos, apesar da distância.
Que sonho irrealizável! Jamais se tornaria real, pois, sempre que a fitasse, Renzo veria
apenas a figura esguia e resplandecente de Angélica, a sedutora e cativante serpente,
destruindo a harmonia do modesto jardim onde ela plantara as frágeis sementes de um amor
impossível!
— Talvez você tenha vivido muito tempo num mundo onde as pessoas ignoram suas
responsabilidades no instante em que deixam de ser uma fonte de alegria ou prazer. O
ambiente do cinema criou uma fama que não se baseia em constância ou fidelidade, não é?
Vive-se de fantasias. Mas, no mundo real, todos nós precisamos assumir nossos
compromissos, e é esse o meu dever, Bruce.

— Como pode ser tão inocente e bem-intencionada, minha querida?


— Por favor, não me chame de… querida! E, definitivamente, vamos mudar de assunto.
Renzo tem trabalhado bastante em uma nova música… isto é, antes… bem, me parece
muito bonita. O filme é romântico?
— Será mais um drama passional. Por sorte conseguimos uma excelente atriz, sem ataques
temperamentais de "estrela" e com uma responsabilidade rara hoje em dia. O enredo é
excelente, bastante trágico… Sabe que Renzo financiou cinqüenta por cento dos custos?
— Verdade? Então ele deve ter muita fé no filme. Não me parece ser uma pessoa fácil de
empregar seu dinheiro em projetos duvidosos.
— Tem toda razão. Seu marido é dono de uma habilidade excepcional para o mundo das
altas finanças, o que é bastante raro em músicos…
O garçom interrompeu a conversa com sua chegada, trazendo os pedidos.
O aroma do frango trouxe de volta à mente de Geórgia a imagem da sala de refeições da
casa paroquial, sombria e austera: o papel de parede em tons de cinza, as cadeiras de
encosto alto… Uma onda de saudade e melancolia envolveu-a, tirando-lhe o apetite.
Precisava telefonar a seu pai assim que voltasse para Hanson Square. Não podiam deixar
uma mágoa persistir a ponto de destruir os laços familiares!
A morte da condessa mostrara-lhe como são imprevisíveis golpes do destino.. . e tão
inesperados! Se não tentasse .na reconciliação, talvez se arrependesse pelo resto da vida!
Preocupado com o olhar ausente de Geórgia, Bruce procurou trazê-la de volta ao presente.
— Então Mônica chega hoje?
— Sim, Renzo irá buscá-la no aeroporto e, como já lhe disse, estou bem nervosa por
recebê-la em minha casa.
— É perfeitamente natural, Geórgia. Haverá sem dúvida alguns momentos tensos, mas logo
tudo se normalizará. Lembre-se do meu conselho e mantenha-se calma, não se envolva.
Afinal, você não é responsável pela conduta de sua irmã.

— Mas Angélica destruiu a vida de Mônica e eu…


— Pelo amor de Deus, Geórgia! Evite essa atitude de se culpar pelos pecados de toda a
humanidade! Já notou como Renzo se aproveitou dessa sua delicadeza de sentimentos,
usando-a sem escrúpulos? Como saber se Mônica também não irá hostilizá-la ao perceber
que se sente responsável por tudo? Se sua irmã agiu mal, o problema não lhe diz respeito.
Tenho dúvidas profundas de que você conseguiria cometer um ato maldoso, mesmo se
tentasse com toda a sua força de vontade…
— Não entendo bem, Bruce. O que quer dizer?
— Os mártires carregam cruzes, não flores! Você é uma pessoa meiga e cheia de calor
humano. Tenho muito medo de que as pessoas se aproveitem de sua doçura para maltratá-
la. Tente ser justa consigo própria, não sofra pelos outros. Evite que a atinjam com suas
próprias culpas!
— Não posso mudar…Eu sou assim…
— Exatamente assim? Ou existe no fundo de sua alma uma outra mulher lutando para sair
da prisão, onde grades são o resultado da sua preocupação pelo sofrimento do próximo?
Viva, seja feliz, aproveite cada minuto, porque, se continuar carregando os problemas de
todos sobre seus ombros, eles irão egoisticamente deduzir que você gosta de ser usada!
As palavras de Bruce tinham um fundo de verdade e Geórgia não possuía argumento algum
para contradizê-lo. Seu pai sempre dissera que ela não tinha a menor necessidade dos
prazeres banais de uma jovem e aceitava sua dedicação completa aos afazeres domésticos.
Nunca lhe passara pela cabeça quão pesado era o encargo de cuidar de uma casa velha e
sem nenhuma facilidade de aparelhos domésticos modernos, ou quanto tempo perdia
aconselhando e tentando resolver os dilemas dos paroquianos que a procuravam.

Naquela época, Geórgia nem chegara a perceber quanto era exigido dela. Agora, ao
relembrar sua adolescência, percebia apenas um enorme vazio. Onde estavam os sonhos
juvenis de um futuro romântico, quando pensava em roupas ou estilo de penteado, como
todas as jovens?
Nunca lhe sobrara tempo para se preocupar consigo mesma: ou alguém tomava as rédeas de
tudo ou os três moradores da casa paroquial iriam viver entre teias de aranha e poeira,
comendo apenas pão com queijo!
— Ah, Bruce! Estou quase chegando à conclusão de que eu seria mais adequada como
esposa de Renzo se tivesse o temperamento de Angélica. Meu marido, meu pai, você…
Todos ficariam bem mais satisfeitos.
— Deus me livre! Não foi essa a minha intenção, não quis dizer…
— Como não? insinuou que eu deveria preocupar-me menos com os outros, aproveitar a
minha vida sem tomar conhecimento do que acontece ao meu redor, não é? Pois Angélica
age exatamente como você descreveu! Ela pensou apenas em si própria, não se importando
com os problemas que causaria com suas atitudes egoístas... A mulher fatal, a quem homem
algum resiste! Bem, minha irmã nasceu assim e não pode evitar ou mudar de atitude... Eu
nasci com um coração mole. Não posso ser diferente.
Bruce olhou comovido para aquela mulher que, apesar da aparência frágil e jovem, era
dona de uma sabedoria profunda e uma força imensa. E, acima de tudo, com capacidade de
ver o lado irônico de um mundo onde anjos e demônios se debatem num eterno conflito!
— Sabe o que eu gostaria de fazer, Geórgia? Tomá-la em meus braços e fugir para bem
longe. Nunca mais a deixaria pôr os pés na casa de Renzo! Jamais desejei uma mulher
como a quero... e você mesma afirmou que ele ainda está apaixonado por Angélica!
— Oh… Não diga essas barbaridades. Eu…

Dividida entre um profundo mal-estar e uma certa alegria, Geórgia não imaginava como
agir numa situação daquelas. Nunca convivera com rapazes e aquela fase despreocupada de
flertes sem compromisso era uma experiência desconhecida para ela. Essa falha importante
em seu desenvolvimento como mulher causava-lhe dificuldades incríveis em se relacionar
com os homens. Se já se atrapalhava com alguém tão transparente e sem complexidades
como Bruce, como ter condições de entender o marido, cujas atitudes enigmáticas,
provenientes do temperamento latino, a desconcertavam por completo? Da mais total
indiferença, ele se transformava num amante ardente e sensual…
— Por que fica tão tensa com minhas palavras, Geórgia? Não lhe agrada nem um pouco o
fato de estarmos a sós no meu restaurante predileto, sem que ninguém o saiba?
Conversando com tanta intimidade e nos conhecendo melhor? Seja sincera consigo
mesma...
— Eu nem devia ter aceitado seu convite! Meu lugar é em casa, preparando tudo para que
Mônica seja bem recebida e acomodada com todo o conforto.
— Ah! A minha querida prisioneira do dever… Sempre preocupada com as necessidades
dos outros antes de pensar em si mesma. Você não existe, sabia?
— Ë a sua visão da vida que o faz pensar assim, Bruce. Não disse que as mulheres do seu
mundo vivem envolvidas em si mesmas?
— Não conheci todas elas intimamente. Talvez tenham até algumas virtudes ocultas, mas,
neste momento, só posso pensar na garota que eu entreguei a outro homem. Se eu pudesse
mudar tudo...
— Naquele dia ainda não me conhecia, éramos dois estranhos. Aliás tudo me parecia
estranho e irreal! Só era concreta a consciência de que eu estava evitando um sofrimento
a meu pai…

Em pânico, Geórgia parou de falar mas percebeu que fora longe demais. Se pudesse retirar
suas palavras impensadas! Com uma sentença incompleta, revelara a Bruce um segredo tão
arduamente mantido.
— Com os diabos! Então foi esse o motivo? Renzo ia revelar toda a história sórdida sobre o
envolvimento de Angélica com Stélvio, não é? E só não o faria se você se casasse com ele,
mostrando a todos que não se magoara com a traição da noiva. Aquele miserável nunca
pensou que a estava arrastando, destruindo sua dignidade como mulher? Por Deus,
Geórgia! Como pode continuar com um inescrupuloso, chantagista…
Se Bruce soubesse quantas vezes ela se fizera estas mesmas perguntas! E como jamais
encontrara uma única resposta satisfatória!, pensou.
Desde o início, um lado de Geórgia resistira bravamente à arrogância de Renzo, mas... em
Sandbourne, descobrira que outro lado seu ansiava pelo toque daquele homem viril!
Quando ele a tomava nos braços, só lhe importava sentir o calor de uma paixão irracional e
irresistível!
Seu maior problema era admitir e aceitar uma verdade que a revoltava: fora conquistada por
Renzo através da atração física, vivia dominada por um desejo insaciável e não conseguia
afastar-se dele, mesmo admitindo o quanto fora inescrupuloso. E recusava-se a ouvir a
vozinha prudente que a alertava constantemente: '"Não são para você as carícias e os
beijos… são de Angélica!"
No entanto, Bruce não podia ver o que havia atrás da figura controlada da mulher à sua
frente. Sabia que sua aparência era a de uma fria e recatada inglesa e não revelava nada da
mulher sensual que vibrava com ardor nos braços do marido!
Por mais delirantes que fossem os momentos de paixão física, só ficavam as lembranças
depois que os corpos se afastavam, saciados. O rosto mantinha-se tão puro quanto sempre o
fora e o corpo não mostrava as emoções do êxtase: os desejos ardentes permaneciam um
segredo dos sentidos.

— Será que algum ser humano pode ser obrigado a fazer algo realmente inaceitável aos
seus princípios mais rígidos? Talvez, nos tortuosos meandros desconhecidos da nossa
mente, os desejos ocultos nos impulsionem a seguir caminhos estranhos…
— Percebeu o que está afirmando, Geórgia? Admite que desejou, em segredo, o noivo de
sua irmã?
— Parece tão impossível assim? Eu era uma jovem cujo mundo não ultrapassava as paredes
da casa paroquial. Nos poucos momentos de lazer, meus livros prediletos eram os romances
de Charlotte Brontë e Jane Austen. Heróis autoritários e dominadores povoavam minha
mente e não havia outras figuras masculinas com quem compará-los a não ser meu pai.
Quando Angélica chegou, acompanhada de um homem que parecia ter saído das páginas
dos romances em que eu fugia da monotonia da minha vida para um mundo de fantasia,
fiquei em estado de choque! Renzo vestia-se com uma elegância desconhecida para mim, e,
ao ser apresentado, beijou-me a mão. Eu mesma me prendi numa armadilha cruel… Parece-
lhe impossível ou inacreditável, Bruce?
— Não. Posso entender as reações da jovem romântica que não conhecia nada do mundo ou
dos homens. Mas agora tudo mudou, não acha? Só quero saber se ainda continua presa a
sua própria armadilha…
Geórgia baixou a cabeça e um raio de sol, batendo em seus cabelos, tornou-os um manto
dourado…
Bruce sentiu uma onda de ódio contra o amigo. Será que aquele homem fechado e sem a
menor confiança nas mulheres de um modo geral sabia o tesouro que tinha nas mãos?
Poderia ser tão imbecil e continuar pensando na ex-noiva, fútil e vazia, dedicada apenas a
tirar todo o possível da vida apenas para seu próprio proveito?

Enquanto tomava o café no final da refeição, Geórgia olhou para o homem que tinha o dom
de fazê-la sentir-se tão descontraída a ponto de falar sobre seus assuntos mais íntimos.
Bruce conseguira abrir as portas de seu coração e levá-la a trair a confiança do marido.
Renzo nunca afirmara que a amava, porém sempre tivera plena confiança nela… como
todos que a conheciam!
— Bem, querida… o que vamos fazer? Entre nós há uma ligação instintiva e…
— Não há nada a ser feito, Bruce. Simplesmente nos encontramos por acaso e decidimos
almoçar juntos como bons amigos... é só! Na sexta-feira, nos veremos no enterro e
trocaremos um sorriso cortês e distante… A conversa de hoje não existiu…
— Você se comportaria assim se não tivesse essa aliança em sua mão esquerda?
Geórgia fitou suas mãos por um longo tempo…
Por que caminhos teria enveredado sua vida se Bruce surgisse em Duncton, antes do dia
fatídico em que Renzo a visitara levando as cartas de Angélica? Sabia que teria se sentido
atraída por aquele homem tão sedutor quanto seu marido, embora tão diferente! No entanto,
duvidava que ele seria capaz de arrancá-la das correntes pesadas que a prendiam à casa
paroquial e a seu pai. Nem mesmo ela percebera o quanto tinha se tornado prisioneira
daquela vida sem horizontes até a atitude fria e sem remorsos de Renzo quebrar seus
grilhões!
— Olhe bem para mim e diga que não gosta de minha companhia.
— E-eu não posso negar, Bruce, mas nada pode alterar a realidade. Sou casada com seu
melhor amigo e não vivo no seu mundo, onde as pessoas trocam de marido como quem
muda de roupa. Não cometa o terrível engano de pensar que minha semelhança com
Angélica vai além do exterior. Temos traços parecidos mas jamais pensarei ou agirei como
minha irmã; ela segue seu caminho visando um prazer egoísta, ignora os sentimentos dos
outros.
— E você não é assim, eu admito. Então por que ignorar os meus sentimentos?
— Sabe, Bruce… acho que está um pouco entediado e desiludido com o tipo de mulheres
que o rodeia.
— Foi por conhecê-las que eu pude perceber o quanto estou perdendo da vida.
— Então agora já sabe o que quer, certo? Procure uma garota que mora no campo e prefere
ver a pele dos animais neles mesmos, e não em magníficos casacos, e para quem o sol
brilhando nas águas cristalinas de um riacho vale mais que o maior dos diamantes das
joalherias de Londres.
— E não quer ser o brilho da minha vida?
— Pelo amor de Deus, Bruce… Não é uma brincadeira sem compromissos.
— Eu gostaria de beijá-la, Geórgia. No amor todas as armas são válidas, não há regras.
Angélica não quebrou todas elas? Colocou irmão contra irmão e ambos continuam amando-
a. Enfrente a realidade, Geórgia! No minuto em que sua irmã quiser Renzo de volta, os seus
sentimentos não serão levados em conta. Aliás, ela nunca se incomodou com sua
sensibilidade, não é? E quanto ao seu marido… acredita sinceramente que ele se importará
com o que você irá sofrer?
Geórgia recuou como se tivesse sido agredida fisicamente. Bruce não estava lhe dizendo
nada que ela já não tivesse pensado milhares de vezes. No entanto, ouvir aquelas palavras
dos lábios de outras pessoas as tornavam muito mais verdadeiras e infinitamente mais
dolorosas.
— Eu... está mesmo na hora de voltar para casa, Bruce. Agradeço o almoço, foram
momentos deliciosos e tranqüilos. Eu estava mesmo precisando passar algumas horas longe
dos problemas da minha casa. Adorei o restaurante!
— Nunca trouxe mulher alguma aqui. Ê o meu esconderijo, um refúgio contra as pressões
do meu trabalho. Considere meu convite um elogio…
— Sinto-me privilegiada, Bruce…
Por uma fração de segundo, seus olhares se encontraram e Geórgia sentiu-se tentada a
confessar como temia retornar à graciosa mansão de Hanson Square. A expectativa do que
iria acontecer no funeral deixava-a em pânico.
Como reagiria Renzo ao enfrentar a ausência de sua mãe? Ele teria que encontrar um modo
de conciliar sua dor e o possível arrependimento de não ter avisado seu irmão. Estaria
sozinho, a não ser por Mônica e uma esposa a quem não amava, no momento trágico de
enterrar um ser querido.
A necessidade de confiar em alguém tão compreensivo como Bruce era tão forte que ela se
precipitou para fora do restaurante ou não conseguiria deter as confissões prestes a sair de
seus lábios.
Já traíra a confiança de Renzo ao revelar involuntariamente o segredo do motivo de um
casamento incompreensível para a maioria das pessoas. Não podia piorar ainda mais a
situação!
— Acho melhor eu tomar um táxi, Bruce…
— Ficou louca? Eu a levarei. Ou está com receio de que eu tente beijá-la?
— Você não pode... é...
— Por que tem tanto medo, Geórgia? Talvez seu temor exista porque sabe que irá gostar, e
muito…
Quando Bruce a abraçou, Geórgia sentiu novamente a tentação traidora de se entregar a
uma afeição segura, sem as incertezas e as mágoas de seu casamento. Descobrira sua
sensualidade nos braços de Renzo, mas talvez não fosse ele o único homem a despertar seus
desejos. E ela precisava tanto de carinho e afeição, queria tanto ser amada… não como
Angélica, mas como Geórgia!
Talvez encontrasse tudo o que mais queria nos braços de Bruce, pois, para ele, seria sempre
Geórgia. Nunca a tentação se mostrara tão forte, atraindo-a como um imã. Qualquer mulher
menos reprimida aceitaria aquele convite terno e se deixaria levar, mas infelizmente ela não
conseguia esquecer-se de seus deveres, por mais penosos que fossem.
— Então… sua casa ou vamos para o meu apartamento?
— Por favor, leve-me para Hanson Square. — Eu já sabia… Era esperar demais da sorte!
Enquanto ligava o carro, Bruce tentou abafar o sentimento de melancolia que o invadira.
Como era cruel o destino que lhe oferecia uma mulher ideal sem dar-lhe direito algum a
ela. E, ao mesmo tempo, sabia que aquele casamento iniciado com bases falsas ruiria como
um castelo de cartas no momento em que Angélica Norman voltasse a Londres e fosse à
procura de Renzo.
Ele a conhecia tão bem! Muito mais do que Geórgia e, principalmente, do que Renzo
poderia suspeitar.
Naquele mundo de fantasia e ilusão do cinema, um diretor tinha nas mãos um poder quase
ilimitado: fazer de uma desconhecida a estrela disputada, brilhando em todos os filmes! A
quantidade de jovens que o procuravam era tanta que Bruce já perdera a conta. Belas, com
corpos esculturais, elas ofereceriam a alma ao diabo para conseguir uma "ponta" em qual
quer de seus filmes. Seriam capazes até de se entregar a um homem repugnante e, ao
deparar com o atraente diretor, redobravam sua atitude de conquistadoras.
Em geral ele as dispensava com alguns conselhos e um sorriso, apenas para saber logo
depois que haviam repetido a mesma rotina com outros diretores.
Mas com Angélica fora impossível não se deixar atrair! Diante de tanta sedução e
sensualidade, ele não conseguira resistir. O envolvimento tinha sido muito breve pois, uma
tarde em que repousavam enlaçados, depois de horas de paixão desenfreada, ela lhe
comunicou que ficara noiva de Renzo há uma semana.
Revoltado, Bruce quase agrediu-a, quando um sorriso malévolo o impediu de tocá-la.
Angélica revelaria ao noivo que seu melhor amigo a seduzira depois de saber do noivado!
A ameaça o perturbou por muito tempo mas, no final, á situação resolveu-se sozinha. Agora
retornava todo o seu temor. Geórgia era tão doce e meiga que a irmã a destruiria por
completo. Se ao menos ele pudesse envolvê-la nos braços, protegendo-a de tanta
amargura...

CAPITULO XIX
O céu se tornara subitamente escuro e uma garoa fina começava a cair quando Bruce entrou
pela Chelsa Embankment, a alameda que seguia ao lado do rio Tamisa. Seu espírito
brincalhão e descontraído parecia ter-se transformado como o tempo, agora sombrio,
prenunciando uma tempestade.
— Ouça bem, Geórgia! Há muito tempo à nossa frente… tenho esperanças de que, algum
dia, você se canse de suportar consolar quem não necessita de seu amor e lembre-se de
pensar em si mesma. Mas, mesmo que isso nunca aconteça, prometa me procurar, se houver
algum problema. Conte comigo como um amigo pronto a ajudá-la. Jura fazê-lo?
— Juro, Bruce. Se eu chegar a um ponto em que não souber mais como resolver sozinha a
minha situação tão absurda e complexa, o procurarei.
— Moro numa casa em Ranleigh Court, uma pequena pracinha em Knightsbridge…
número doze. Sempre será bem-vinda, Geórgia.
— Sabe que foi uma das poucas pessoas a me oferecer apoio? Agradeço-lhe por isso,
Bruce.
— Sinto desapontá-la, querida, minhas intenções não são tão puras quanto julga. Se, neste
minuto, eu a levasse a qualquer lugar, menos para casa, onde enfrentará um casamento
fracassado e infeliz, estaria lhe fazendo um enorme favor. No entanto, você se recusa. Então
esperarei até… Olhe! Por que não faz a mala e sai de Hanson Square? Não estou lhe
fazendo um convite mal-intencionado só para levá-la ao meu apartamento. Poderia ficar
alguns dias num hotel sossegado e tentar pôr em ordem as suas idéias. Precisa de solidão e
tempo para pensar.
— Não posso, Bruce. Acrescentar mais um problema a tantos na vida de Renzo neste
momento seria irresponsabilidade e falta de compreensão da minha parte. Tenho que
manter-me ao seu lado nesta crise.
— E, sem dúvida, já sabe que não receberá nem um muito obrigado por sua atitude decente,
não é?
— Provavelmente não, mas Renzo está enfrentando tudo sozinho, pois decidiu não localizar
Stélvio para avisá-lo da morte da mãe.
— E Stélvio continua com Angélica, divertindo-se sem saber de nada?
— Sim... — murmurou Geórgia, olhando os pingos de chuva diminuírem e uma réstia de
sol iluminar os jardins que margeavam o rio.
No entanto, a tudo se sobrepunha a fisionomia dura de Renzo. Tinha certeza absoluta de
que o marido não se comunicara com o irmão por causa de Angélica. Como saber o que
Stélvio faria ao receber a notícia? Talvez até trouxesse a amante para a Inglaterra junto com
ele!, pensou indignada.
— Ficou tão quieta de repente… Sobre o que está pensando, Geórgia?
— Se por algum motivo eu deixar Renzo, devo voltar a Duncton. Meu pai iria reagir mal e
passar o resto da vida me censurando, mas… para onde poderia ir uma pessoa como eu?
Sabe, o amor não foi feito para criaturas muito sensíveis. Nós queremos demais, não nos
contentamos apenas com a perfeição dos sentidos. Sem dúvida, é magnífico um ato de amor
onde haja harmonia e satisfação de ambas as partes... Mas a verdadeira maravilha é sentir o
amor, não apenas fazê-lo.
O carro chegava a Hanson Square. Bruce segurou as mãos de Geórgia como se não fosse
deixá-la entrar naquela casa que, embora graciosa, era uma concha vazia, sem amor.
— Vejo-o na sexta-feira. Adeus, Bruce.
— Espere um pouco. Se voltar a Duncton, irei a sua procura para provar-lhe como estava
errada em fugir de mim.
— Preciso entrar, Bruce.
— Ouviu o que eu disse, Geórgia?
— Sim... perfeitamente bem.
— Você se recusaria a me receber se eu a procurasse na casa de seu pai?
— Lógico que não! Retribuiria esse almoço delicioso que você me proporcionou hoje.

— Ah, Geórgia… Sempre fugindo das respostas diretas… é uma mulher incompreensível.
— Sou apenas uma novidade para um atraente diretor de cinema que está cansado de ser
perseguido por mulheres.
— Pelo menos me considera um homem atraente. Graças a Deus!
— Considero-o muito mais do que isso, porém sou uma mulher casada e, se for vista de
mãos dadas com você, bem diante da casa do meu marido, por certo terei sérios problemas.
É o que você quer? Provocar mais complicações na minha vida?
— Sim e não… Se houvesse uma crise, ao menos tudo seria exposto às claras.
— Deixe-me entrar, Bruce.
— Tem certeza? Então convide-me para tomar um café!
— De maneira alguma!
Geórgia começava a ficar alarmada com o desejo crescente de acompanhar aquele homem e
deixar para sempre os torturantes problemas que a atormentavam. A casa parecia emanar
calma e dignidade, mas, atrás das paredes brancas… quanta dor, quantos sofrimentos!

— Renzo já deve ter chegado e Mônica também.


— Tudo seria mais fácil para você se eu a acompanhasse. Uma cena desagradável com a
esposa de Stélvio talvez fosse evitada…
— Não tem a menor idéia do estado de espírito de Renzo nestes últimos dias, Bruce… é
assustador. E, se me acompanhasse, ele poderia tirar conclusões erradas a nosso respeito.
— Seriam tão "erradas"?
— Já sabe qual é a minha resposta! Posso não ser amada, porém continuo casada com ele, e
Renzo não se tornou um inglês só pelo fato de morar na Inglaterra. Para os latinos, o
comportamento digno de uma esposa é tão importante quanto a morte!

— Não está querendo me dizer que ele a ameaçou! Tem medo de Renzo? Diga a verdade,
Geórgia! Nunca passou pela minha cabeça o tipo de relacionamento entre Renzo e suas
namoradas. Com Angélica, sem dúvida os dois se equivaliam em determinação e egoísmo,
mas com você... Se ele lhe fizer algum mal...
— Calma, Bruce. Meu marido não me maltrata.
— Não fisicamente! Entretanto, se é obrigada a viver à mercê de estados de espírito
instáveis e imprevisíveis, se não sabe como agradá-lo ou dar-lhe consolo, está sendo
maltratada e muito! Mande esse homem para o inferno! Não vou deixá-la entrar…
Naquele momento, a porta da casa se abriu e Torrence veio até o portão, interrompendo a
explosão de Bruce.
— Signora Talmonte… Esperam-na na sala de visitas.
— Adeus, Bruce…
— Quero entrar com você, Geórgia.
— Pelo amor de Deus, não torne minha situação ainda mais difícil. Vá embora!
Relutante, Bruce soltou a mão delicada e seguiu com um olhar ansioso a figura esguia que
corria para dentro de uma casa que não era um lar e sim uma prisão.
No vestíbulo, Geórgia tirou o casaco e, tremula de medo de que a cena entre ela e Bruce
tivesse sido presenciada por mais alguém, perguntou ao mordomo:
— O signore Talmonte já voltou do aeroporto?
— Sim, madame. Ele a viu pela janela da sala e pediu-me que fosse chamá-la.
Ela sentiu o coração disparar de terror! E, quando ouviu o ruído do Porsche de Bruce se
afastando, teve ódio de si mesma. Se conseguisse ser menos responsável, poderia estar ao
lado daquele homem atraente, sem complicações e claramente disposto a amá-la com
paixão! Como podia ser tão fiel a juramentos que fizera num casamento cujas bases eram
falsas? Teriam valor aquelas promessas?, refletiu.

Mas ninguém pode mudar o temperamento e as características da personalidade só por


capricho e, agora, o seu dever era enfrentar o marido.
Na imponente sala de visitas, a figura alta e extremamente sedutora de Renzo parecia mais
impressionante do que qualquer das peças preciosas e raras que adornavam o aposento. As
cortinas de brocado cor de ouro velho formavam a moldura perfeita para o homem moreno
e sombrio!
No momento em que ela entrou, Renzo examinou-a dos pés à cabeça, com um olhar
absolutamente indiferente, sem o menor sinal de alegria. Também não havia ódio, e a
ausência dessa emoção, à qual Geórgia já se acostumara, era ainda mais assustadora.
— Pretendia passar o resto da tarde na calçada com Clayton? E de mãos dadas como dois
namoradinhos?
— Bruce foi muito gentil em convidar-me para almoçar… Nós nos encontramos quando eu
saí da capela. Ele também sentiu a morte de sua mãe.
Geórgia esperara aqueles momentos em pânico, porém havia algo de muito estranho na
expressão de Renzo. Instintivamente, percebeu que a tensão não se relacionava ao fato de
ter almoçado com Bruce. Problemas mais importantes o preocupavam. Ela obedeceu ao
sinal do marido para que se sentasse. O que poderia ter acontecido de tão grave?
— Mônica chegou? Está aqui em casa?
— Oh, sim! Sem dúvida, ela chegou!
— O que há, Renzo? Qual é o problema?
— Minha cunhada veio e adivinhe quem a acompanhou? Meu irresponsável "irmãozinho"!
Agora estão os dois juntos, no quarto de hóspedes, tentando discutir alguns detalhes íntimos
demais para serem abordados num avião!
— Oh, Deus… Então Mônica conseguiu localizá-lo?

— Não foi ela, eu a proibi de fazê-lo! A minha eficiente secretária, Flávia, tirou conclusões
apressadas e bastante erradas de que eu gostaria da presença de meu irmão no funeral. Com
sua habitual capacidade de organização, descobriu que Stélvio já havia deixado o iate do
amigo há vários dias e estava em Roma, onde, sem coragem de voltar para casa, hospedou-
se num hotel. Um amigo conseguiu encontrá-lo e Flávia entrou em contato direto com ele,
informando-o do dia em que Mônica viria para a Inglaterra. Não sei como mas meu irmão
conseguiu reservar um lugar no mesmo vôo!
Perguntas que jamais teria coragem de formular se cruzavam na mente de Geórgia. E
Angélica, onde estaria? Stélvio abandonara o iate porque os dois tinham brigado?,
questionou-se.
Renzo também parecia perturbado pelas mesmas indagações e caminhava de uma ponta à
outra da sala, como um felino inquieto em sua jaula.
— Mônica vai ficar no mesmo quarto que…
— Já lhe disse que estão juntos no apartamento de hóspedes, ou não estava prestando
atenção? Stélvio aparenta um descontrole total por causa de mamãe, e a "doce" Mônica
deve estar tentando consolá-lo. A tragédia serviu para criar uma ponte entre eles,
suavizando uma reaproximação difícil de ser enfrentada.
— E você? Sentia-se tão furioso contra ele...
— Bem… Quando os vi juntos no aeroporto, que saída tinha eu a não ser recebê-los? Os
olhares de Mônica me imploravam para ter um pouco de condescendência, e Stélvio parecia
realmente chocado com a morte da mamma. Foi por ela que me controlei, pois seu desejo
seria ver-nos como irmãos e não como inimigos.
— Sinto-me tão feliz por isso! — Geórgia levantou-se e foi até Renzo.
Ao tocar o braço musculoso, sentiu uma emoção envolvente. Há dias não havia o menor
contato físico entre os dois e esquecera-se de como seus sentidos tornavam-se mais vivos
com a proximidade daquele homem.

Mas Renzo afastou-se, como se os dedos levemente pousados nele o incomodassem


demais.
— Eu… esperava que vocês se reconciliassem… Por respeito a ela, pelo menos.
— Pois eu preferia continuar brigado com Stélvio e ter minha mãe viva… Ela foi a única
presença constante em minha vida. Uma mulher forte, sempre serena, estável e muito sábia
em seus conselhos, jamais deixou de me dizer a verdade, por mais dolorosa que fosse, e
nunca se desviou de seus princípios por preço algum. Não havia no mundo jóias ou ouro
suficientes para comprar sua alma pura! As outras mulheres… que falsas! Criaturas vivendo
o momento presente, prontas a se venderem pelo melhor preço, seja ele dinheiro, posição
social ou poder. Tolo é quem confia em seres sem capacidade de julgamento, de constância
ou de honra!
Esguia, quase etérea entre os móveis pesados da sala, a silhueta de Geórgia parecia prestes
e se dissolver na penumbra que começava a invadir a sala. Não havia ainda nenhuma luz
acesa e seus cabelos eram apenas uma mancha clara e brilhante. Naquele instante soube que
já não havia mais lugar para ela naquela farsa!
— Diga-me, Renzo… Quem decidiu desistir?
— Precisa perguntar? Não é óbvio?
Geórgia não respondeu. Seu marido já se preparava para quebrar o primeiro de muitos
juramentos! Angélica logo estaria de volta e ele iria recebê-la de braços abertos, apesar de
ter negado tantas vezes!
Não havia mais nada a ser dito. Era seu dever acompanhar o enterro da condessa e depois
enfrentar as recriminações do pai. Iria esconder sua alma ferida nos vales tranqüilos do
Sussex.
Voltando para o vestíbulo, Geórgia encontrou um casal que descia as escadas: Mônica e
Stélvio.
A jovem morena, com um casaco de vison negro, era muito bonita, com imensos olhos
negros, uma cabeleira brilhante como a noite e traços delicados. Stélvio mostrava
nitidamente ser irmão de Renzo, mas faltava-lhe o ar aristocrático, a força de caráter que
torna os traços mais distintos e nobres.
Apesar de irritada com o olhar surpreso, idêntico ao de todos que a viam, Geórgia sentiu
pena dele ao perceber o choque que levara ante a esposa do irmão. Sem dúvida, não a
imaginara tão parecida com a mulher que quase destruíra seu casamento.
— Sou Geórgia. Espero que tenham feito uma boa viagem e estejam bem acomodados.
— Oh! Tudo está perfeito. Eu sou Mônica e fico muito feliz por conhecê-la finalmente,
Geórgia. Tenho certeza de que nos tornaremos amigas… Vamos voltar a ser uma família
outra vez, não é?
O tom da jovem demonstrava toda a sua tensão e o abraço que deu em Geórgia foi sincero e
cheio de calor humano. Comovida com a atitude sem rancores de Mônica, ela olhou para
Stélvio, parado ao pé da escada.
Havia uma resignação em seu olhar, o desespero de um homem que voltara aos braços da
esposa porque fora afastado de onde queria estar. Pobre tolo! Tinha sido arrastado para uma
festa inebriante nos braços de Angélica e agora... as luzes haviam se apagado, o brilho
tornara-se uma ilusão amarga. Entretanto a magia permanecera em seu coração, prendendo-
o como fizera a tantos outros.
O grande sofrimento porém era de Mônica. Cada toque, beijo ou carícia de seu marido não
mais lhe pertenceriam! Seria o corpo da amante que ele estaria abraçando, e a sombra
maléfica da outra não os deixaria, principalmente nos momentos mais íntimos.
Geórgia conhecia todas as nuances, cada detalhe desse desespero. Reconhecia-o pela
intensidade no olhar, uma certa inflexão na voz, a mudança do ritmo do amor… Nada lhe
era estranho num casamento onde a esposa sempre fora apenas uma substituta.

Mas, se ela aprendera a viver sob o domínio de um fantasma, Mônica também seria capaz!

O motorista de Renzo estava à espera do casal para levá-los até a capela. Depois de
acompanhá-los até a porta, Geórgia foi para o seu quarto. Sentia-se esgotada, como se as
emoções daquele dia tivessem consumido até a última gota de suas energias.
Deitou-se no sofá da saleta e fechou os olhos, mas seus pensamentos reviviam cada
acontecimento do dia.
Quais teriam sido os pensamentos mais secretos e inconfessáveis de Renzo quando ele a
vira parada à frente da casa, acompanhada pelo seu melhor e talvez único amigo? Seria
impossível não ter notado as mãos entrelaçadas. E, no entanto, nem perguntara sobre o que
os dois haviam falado durante tantas horas juntos.
E por acaso sua intenção involuntária teria sido obrigá-lo a fazer perguntas? A sentir
ciúmes?, refletiu.
Se tinha esperado esse tipo de reação, fora uma completa idiota! Estava cansada de saber
que não pode haver ciúme sem amor ou desejo… Aliás, não havia emoção alguma entre
estranhos, e eles haviam se tornado ainda mais distantes do que ela poderia imaginar
possível. Ao fitá-lo, via apenas o desconhecido frio e impiedoso que a forçara a ler as cartas
de Angélica naquela tarde fatídica. Aumentava alarmantemente a impressão de que deixara
de existir aos olhos de Renzo.
Se naqueles dias fora importante por ser uma arma de vingança, agora já cumprira sua
função e perdera todo o valor. Até mesmo o único elo que os unira fora cortado pela
tragédia que descera sobre aquela casa enlutada.
Ah… o desejo! Que emoção impulsiva, tão fácil de levar alguém a descaminhos e traições!
"Não posso passar mais nem um minuto longe de você Stélvio! Quando estou em seus
braços e sinto seus lábios tocarem cada centímetro do meu corpo, nada mais existe para
mim. Quero apenas ser possuída e me perder na sua virilidade…”
Palavras tão ardentes e tão facilmente esquecidas... Onde estaria Angélica agora? Passara-se
tão pouco tempo desde que ela declarara a impossibilidade de viver sem os carinhos de
Stélvio!
Teria encontrado um novo amor? Ou planos ainda mais maquiavélicos dirigiam os
pensamentos daquela criatura sem respeito por nada, a não ser seus próprios desejos?
Geórgia ouviu o som da chuva, agora bastante forte, batendo nos vidros das portas do
terraço, e pensou em Mônica e Stélvio na pequena e aconchegante capela, isolados do
mundo por uma densa cortina de água. A trágica perda talvez o ligasse novamente à esposa,
um elo que se refaria através do choque causado por um fato muito mais sério do que a
infidelidade conjugal.
Quem sabe, com o tempo, ele conseguiria esquecer a mulher-feiticeira que incendiara seus
desejos, desencadeando uma paixão delirante… Talvez, algum dia, tivesse condições de
enxergar as mentiras e falsidades de um rosto angelical que ocultava uma maldade sem
limites!
Havia uma tênue esperança de que o casamento de Mônica e Stélvio conseguisse se
reerguer das ruínas, como a Fênix renasce das próprias cinzas. Tinham partilhado muitos
momentos de amor, pertencentes apenas a Mônica, e bastaria o tempo apagar a imagem de
Angélica para que Stélvio voltasse a amá-la, reencontrando a jovem por quem se
apaixonara.
Havia sido apenas uma quebra, um espaço onde outra tomara para si corpo e alma de um
homem, mas um passado de amor os ligava e esses dias se mostrariam mais fortes do que
momentos de ilusão.
Mas, quanto a seu casamento com Renzo… Nada poderia salvar uma união cujo começo já
fora uma farsa!

Ele nunca a vira como uma mulher, ela sempre havia sido o reflexo de Angélica. Como
recuperar algo que jamais lhe pertencera? Todo o amor de que Renzo era capaz tinha sido
entregue a sua irmã e, só por ter sido desprezado, ele a procurara para salvar o orgulho
ferido.
As palavras de Bruce durante o almoço haviam tornado mais absurda a sua ilusão de
conquistar um homem para quem ela jamais existira! Como um Dom Quixote lutando
contra moinhos de vento e dragões imaginários, estava gastando suas forças numa batalha
sem esperanças e sem glória.
Essa certeza lhe fora revelada na tarde da morte de Evelina Talmonte: o que havia
começado como uma vingança, um relacionamento baseado no ódio, perdera totalmente o
sentido em comparação à magnitude da morte!
Naquele dia, Geórgia fitara Renzo bem no fundo dos olhos e encontrara a dor e o choque de
um homem que, subitamente, via diante de si quão mesquinha e vergonhosa era sua atitude.
Naquele momento, ele reconhecera ter perdido todos os princípios de uma moral católica
para executar uma vingança sem sentido, ultrajante.
E... desde então, Renzo não mais tomara conhecimento de sua presença! Sem uma única
explicação, a colocara para fora de sua vida afastando-se do quarto onde haviam partilhado
emoções intensas. Passava as noites no salão de música, onde os acordes melódicos
enchiam a madrugada, provocando lágrimas de desespero na mulher que o esperava
solitária no leito vazio.
Geórgia tomava o café da manhã, almoçava e jantava sempre à espera da chegada do
marido, mas Renzo parecia ter desaparecido da face da Terra, ou pelo menos… da sua
existência.
Nos encontros ocasionais e raros, ele a fitava como se fosse de vidro transparente, fixando
o olhar num ponto distante; apenas palavras indispensáveis saíam de seus lábios.
Já não podia mais se iludir… Seu destino a colocara diante de uma encruzilhada: ou
esperava que ele a mandasse embora ou partia antes dessa terrível humilhação!
Porque já não mais duvidava de que, em muito pouco tempo, ao abrir a porta, depararia
com Angélica, que, passando por ela sem sequer tomar conhecimento, iria se aninhar nos
braços do seu marido!
E Geórgia preferia morrer a presenciar esse reencontro.

CAPITULO XX
A penumbra invadira o quarto e, quando o telefone tocou, Geórgia, incapaz de enxergar o
ambiente em detalhes, tateou á procura do aparelho. Foi uma surpresa ouvir a voz do
marido.
— A ligação é para você, Geórgia. Um amigo seu quer lhe falar.
A voz de Bruce, do outro lado da linha, parecia ansiosa e tensa.
— Geórgia?
No mesmo instante, ela ouviu o barulho da extensão sendo desligada.
— Geórgia, eu tinha que ligar para saber como você está! Houve algum problema?
— Não, tudo correu bem, Bruce.
Mesmo ouvindo aquela voz reconfortante, Geórgia só conseguia pensar na expressão de
Renzo, com certeza tão indiferente quanto sua voz. Ele não revelara aborrecimento ou
surpresa por saber que Bruce lhe telefonara. Uma sensação terrível invadiu-a: conhecera
nos últimos dias uma faceta ainda mais destrutiva de seu marido. Nem as carícias que a
faziam perder a identidade, nem o ódio, ameaçando-a fisicamente, eram tão arrasadores
quanto a punição pela indiferença!
— Renzo nos viu juntos, hoje à tarde, não foi?
— É, ele estava na janela da sala…
— E o que lhe disse? Ficou irritado ou bravo com você?
— Não me pareceu nada preocupado. Na verdade, havia outros problemas sérios a serem
encarados… Renzo tinha chegado do aeroporto há poucos minutos… Mônica não veio
sozinha, Bruce, Stélvio a acompanhou.
— Céus! Stélvio? Então ele…
— …já estava em Roma há vários dias… sozinho!
— Com os diabos! O romance mais ardente e escandaloso do ano terminou muito
rapidamente, não acha?
— É… creio que sim!
— E Angélica? Soube dela? Telefonou-lhe ou escreveu?
— Não…
— Sua voz… O que há, Geórgia? Está com medo do que sua irmã possa fazer?
— Com medo, não!… Mas é melhor preparar-me para o pior, não acha?
— Aquela miserável sem escrúpulos! Corrompe tudo em que toca, deixa um rastro de
destruição à sua passagem, com se fosse um furacão de maldade. Precisa abandonar já essa
casa, Geórgia! Estou de saída para tirá-la daí antes que a sua maldita irmã chegue, afiando
as garras para caçá-la como um pássaro indefeso. Você cometeu um pecado imperdoável,
sabe disso, não? Casou-se com um dos homens que pertenciam a ela e jamais será
perdoada. Quando um homem pertence a Angélica, é para sempre, mesmo depois de tê-lo
transformado num farrapo! Faça suas malas, estarei aí em menos de vinte minutos…
— Não, Bruce. Não vou sair daqui fugindo como uma covarde, apavorada e derrotada antes
mesmo…
— Pelo amor de Deus, tente enxergar a realidade e não fatos dourados por lembranças de
infância. Angélica não é mais a garota com quem conviveu há décadas atrás, Geórgia. Essa
aventura com Stélvio foi um jogo, uma brincadeira perigosa mas bem ao seu gosto, a
atração do perigo! Ela vai voltar… Você sabe disso e eu também! O que talvez ignore é que
a carreira de uma modelo não dura muito: alguns anos de glória e depois vem o
esquecimento completo. Para quem viveu sob as luzes e envolvida pela admiração, essa
privação pode levar a uma tragédia. Em geral, todas tentam conseguir um lugar no cinema,
e, se não têm sucesso, a única saída é um bom casamento. Você mesma afirmou que Renzo
ainda a deseja, não foi?
— Sim, eu disse isso mas…

Aléx 20/09/2006 18:29 — Então saia do meio da arena, Geórgia. Vai ser uma luta cruel e
você não tem as mesmas armas que sua irmã. Se Renzo ainda quer Angélica a ponto de se
submeter, suportando toda a dor e a humilhação causadas pelo prazer duvidoso de dormir
com ela, deixe-o, ele não é digno de você! Alguém tão cego e estúpido assim merece sofrer!
Saia com a cabeça erguida, será a vencedora por não se prestar a participar de uma briga
sórdida. Mostre a esse homem que, apesar de tudo, ainda conserva a sua honra intacta.
Venha para minha casa, sabe o quanto eu a quero… Em muito pouco tempo o amor poderá
florescer entre nós, exatamente como foram seus sonhos de adolescente romântica. Nunca
encontrei antes em toda a minha vida uma jovem tão meiga, sem segundas intenções e
sincera assim, e, além disso… eu a desejo. Aliás, creio que a desejei desde o dia de seu
casamento.
— Você é um homem maravilhoso e tenho certeza de que eu chegaria a amá-lo muito,
Bruce…
— Então comece a fazer as malas.
— Não. — A firmeza de sua própria voz surpreendeu Geórgia. — Não vou fugir!
— Tentarei ser mais claro ainda, querida. Há muitos fatos que preferi não mencionar, pois
não vi necessidade alguma de feri-la ou chocá-la, mas Angélica já não está mais recebendo
tantas propostas para posar. Centenas de jovens com dezoito e vinte anos chegam a Londres
diariamente e sua única bagagem é um belo rosto, um corpo perfeito e a disposição de fazer
qualquer negócio para ver sua foto publicada. Aos poucos, sua irmã precisará se rebaixar
ainda mais do que já o fez para conseguir uma mera propaganda de sabão em pó! Ela está
ficando desesperada e fará tudo para ter Renzo de volta; perdeu um casamento por um erro
de cálculo e vai procurar convencê-lo a reconsiderar.
— Não acredito… Ele é católico…

— Não pode ficar, Geórgia, e ser destruída por um marido que não a ama e uma irmã que
magoaria a própria mãe para atingir seus objetivos, cujos caprichos e desejos precisam ser
satisfeitos a qualquer custo. Ela se acostumou a ser adulada e não irá aceitar com facilidade
o fato de ter sido derrotada por você. Além disso, sei que não vai gostar, mas sua irmã
tentou ser atriz e apenas conseguiu trabalhar num certo tipo de filmes, tão indecentes que
uma garota como você nem sabe que existem. Pagam muito bem, mas as atrizes executam
todo o tipo de atividades sexuais… as mais degradantes possíveis! Angélica participou de
inúmeros filmes desse tipo…
— Eu já sabia. Não vou sair de Hanson Square porque aqui é a minha casa e tenho a mesma
intuição que você, Bruce. Angélica está de volta a Londres... em alguma parte desta cidade
seus pensamentos estão dirigidos para Renzo…
— Meu Deus… Seu tom de voz me assusta, Geórgia! O que pretende fazer?
— Eu a matarei! Se ela tentar roubar o meu marido, a luta será um duelo mortal!
A veemência de Geórgia era tão assustadora que Bruce calou-se, chocado. Quando tornou a
falar, toda a energia de sua voz se dissipara. Involuntariamente, sem pronunciar as palavras,
ela lhe revelara uma verdade na qual não quisera acreditar, embora já o desconfiasse.
— Você o ama tanto assim?
— É. Os acontecimentos se precipitaram de tal modo que sou obrigada a admitir o que
tenho tentado ocultar de mim mesma. — Uma energia contagiante transbordava de suas
palavras. — Há poucos momentos, eu estava deitada no sofá descansando e fui tomada por
uma sensação nunca experimentada antes, algo inquietante e belo! Tive a certeza absoluta
de que vou ter um bebê! Não foi nada concreto como um desmaio ou tonturas, enjôos ou o
desejo súbito de comer morangos com creme. Apenas um flutuar ligeiro, como as asas de
uma borboletas, tocou meu coração, avisando-me para não desistir, para lutar e conservar o
que é meu por direito. Tudo o que consegui ao pronunciar os juramentos de amar, cuidar e
viver ao lado do homem com quem me casei me pertence!
— Mas foi obrigada a casar-se com Renzo, ele a coagiu através de chantagens! Foram
promessas forçadas…
— Não há dúvida alguma sobre essa parte. No entanto, Renzo não me tomou à força. Eu
me entreguei a ele por vontade própria. A escolha foi minha.
— Oh! Deus! Como fará se Renzo lhe disser claramente que não a quer mais? Que pretende
viver com Angélica?
— Ele vai querer o seu filho, tenho certeza absoluta!
— E aceitará ser apenas a mãe do filho dele? Renunciará à possibilidade de viver rodeada
de amor para ocupar um papel secundário?
— Se for preciso...
— Minha garota inocente e meiga… Eu faria tudo para não vê-la sofrer, e você se recusa a
ser salva!
— Reconheço que sou ingênua, tola e romântica, mas também sei de um fato muito
importante. Muitas vezes, uma criança vem ocupar o lugar de um ente querido que deixou
de existir e eu sou capaz de ser tão inescrupulosa e egoísta quanto Angélica para conseguir
atingir esse objetivo. Pode acreditar, em mim, Bruce.
— Só me resta resignar-me a perdê-la e torcer por você, querida...
— Muito obrigada por ter telefonado. Gostei de ouvir sua voz.
— Foi meu telefonema que provocou sua decisão de tomar uma atitude de autodefesa?
— Sim… acho que foi... Adeus.. .
No quarto às escuras, Geórgia sorriu. Alguns dias depois da morte da sogra ela sentira pela
primeira vez a premonição de que logo seria mãe. Era como se a presença de Evelina
naquela casa tivesse diminuído os atritos entre ela e Renzo, permitindo que o amor fosse
mais terno e os unisse com maior intensidade, gerando um fruto.
E agora ela iria enfrentar sua primeira batalha… Renzo Talmonte!
Procurou o vestido de que ele mais gostava, mas não usou jóias. Naquele momento, não
queria lembrar-se de sua semelhança com Angélica. Era Geórgia e como Geórgia iria forçá-
lo a se definir!
Só depois de saber das intenções exatas do seu marido lhe revelaria o grande segredo!

Logo ao descer as escadas, ela notou que a sala, onde Renzo a recebera à tarde, estava
totalmente iluminada mas deserta. Foi até o salão de música e, ao entreabrir a porta, viu o
magnífico piano aberto e tão silencioso quanto os gravadores. Havia partituras espalhadas
pela sala, cobertas de símbolos que se tornariam melodias românticas e cheias de encanto,
porém faltava ali o gênio que as criara.
Será que Renzo sairá de casa, apesar da chuva incessante?, pensou.
A necessidade de ficar a sós com seus pensamentos se tornara uma obsessão depois da
morte da mãe… O difícil era saber onde ele se escondia para pensar!
— Está procurando seu marido, madame? Sobressaltada, Geórgia virou-se e deparou com
Torrence, que tinha um ar preocupado e tenso.
— Por acaso ele saiu?

— Não, madame. Pediu para que lhe servissem um café na saleta do jardim.
— Vou até lá… Obrigada.
Enquanto atravessava as salas às escuras, Geórgia pensava na preocupação de Torrence e
dos outros criados em relação a ela. Já devia ser assunto aberto que o casal não mais
partilhava a mesma cama, pois as criadas de quarto com certeza tinham passado a notícia
aos outros.
Subitamente, ela percebeu o quanto se ressentira por não ter os braços do marido
envolvendo-a enquanto dormia. Queria sentir-se novamente aquecida pela força daquele
corpo másculo, ver os olhos verdes tornarem-se quase negros de desejo. Como pudera
pensar que um outro homem conseguiria desencadear a mesma violência dos desejos em
seu corpo? Ninguém despertaria, com um simples beijo, uma onda de prazer tão intensa
quanto Renzo!
Geórgia tinha certeza de ser desejada com igual ardor, a única dúvida era se Renzo, quando
a possuía, pensava em Angélica e esse seria o primeiro ponto a ser esclarecido entre eles.
Renzo estava sentado num sofá de junco próximo à fonte, e apenas um abajur iluminava a
sala com uma luz cor de âmbar. Ele contemplava o jardim molhado e parecia
completamente concentrado em seus pensamentos.
Geórgia sentiu um momento de hesitação e pânico, mas, reagindo, aproximou-se com
passos firmes.
— Posso fazer-lhe companhia, Renzo? — Sem esperar pela resposta, sentou-se ao lado
dele. — Achei que precisávamos ter uma conversa e, por sorte, encontrei-o aqui. É o
aposento mais aconchegante da… nossa… casa. Sente o cheiro da grama molhada pela
chuva? É um perfume único...
— Uma fragrância inocente como o despertar do mundo.
— Já lhe disse uma vez que às vezes suas palavras me fazem lembrar a música magnífica
que você compõe?
— Ë meu lado bom falando.
— Bem, ninguém tem apenas bondade…Somos todos um estudo de contraste, onde luz e
sombra se alternam. Há muito poucos que podem afirmar com segurança possuírem apenas
o lado bom.
— Pode ser… Mas existem pessoas que não merecem se magoadas. Elas dão tudo de si
sem perguntar se aquele que recebe tanto amor é digno de uma dádiva tão valiosa…
Subitamente, para grande perturbação de Geórgia, um soluço interrompeu as palavras de
Renzo. Num impulso, ela o puxou para perto de si e prendeu-o em seus braços. A cabeça
pousada sobre seus seios tentava ainda sufocar os soluços e ela acariciou levemente os
cabelos negros e brilhantes.
— Renzo, querido… O que posso fazer para ajudá-lo? Sei como está sofrendo com a morte
de sua mãe.
— Não… não é apenas esse o meu mal.
— Então…tente falar. Se você partilhar a sua dor, ela ficará mais leve. Não lute contra a
necessidade de se abrir, amor.
— Como pode me chamar de amor? Como suporta ficar perto de mim? Por que não está
com Bruce? Ele telefonou, percebi o quanto a deseja… Pensou que eu não fosse adivinhar?
— Bruce realmente me ligou porque julgava que eu fosse deixá-lo.
— Então foi sobre isso que conversaram na hora do almoço?
— Entre outras coisas... O maior problema debatido foi... o seu amor por Angélica.
— Mas eu lhe afirmei que não a aceitarei em hipótese alguma…
— Eu sei! No entanto, não consegue tirá-la do seu coração! Pensei muito sobre esse
assunto, Renzo, desde a primeira noite em Sandbourne, quando… me revelou um mundo
novo do sensações arrebatadoras. Eu sabia perfeitamente que a mulher em seus braços era
minha irmã. Revoltei-me, senti ódio, mas, aos poucos, a minha necessidade de ser amada
superou tudo. Já não mais me importava saber quem você enlouquecia com suas carícias.
Afinal, mesmo se fosse Angélica a dona do seu coração, era eu quem estava ao seu lado.
Confessei a Bruce esses meus receios, e ele me assegurou que eu tinha qualidades
próprias… Decidi lutar por elas, Renzo. Não quero mais ser apenas uma sombra. Se não
tem condições de me aceitar como Geórgia… diga a verdade, por favor!
— Não posso negar que minha intenção quando a forcei a casar-se comigo, além de mostrar
àquela traidora que eu não sofria ao ser deixado de lado, era ter em minha cama uma cópia
perfeita na qual me vingaria. Meu objetivo principal se resumia em destruir por completo a
sua inocência e pureza para torná-la igual a todas as outras: vaidosas, corruptas, prisioneiras
do luxo e dos impulsos de seus corpos. Jurei que iria degradá-la, transformando-a numa
criatura tão vil e desprezível quanto Angélica! Por que acha que insisti para que fosse
dançar com aquele rapaz, na nossa primeira noite em Sandbourne?
— Para que eu me divertisse?
— Sabia que ele iria confundi-la com sua irmã e tratá-la como uma mulher à venda pelo
preço mais alto. Queria vê-la humilhada!
— Não... não acredito!
— É verdade. Se vergonha matasse, Geórgia… eu já não estaria mais vivo. Voltei do salão
de jogos disposto a possuí-la sem a menor delicadeza devida a uma virgem inocente.
Pretendia descarregar meu ódio por uma mulher sem moral no corpo intocado de outra. Por
sorte minha, ao vê-la dormindo como um anjo… perdi a coragem. Mas, quando a despi, seu
corpo reacendeu meus desejos e não por se parecer com o de Angélica. Suas formas
delicadas jamais tinham sido tocadas, sem sequer vistas por homem algum… Esse fato as
tornava únicas. Você tinha uma jóia muito rara para me entregar: a sua virgindade. E sua
irmã já tinha sido de muitos outros.
— Ela está de volta, Renzo. Agora pode ter a mulher que o humilhou e obrigá-la a rastejar a
seus pés. Angélica vai procurá-lo, quer um casamento rico e fará tudo o que lhe for pedido
para ter um marido que possa dar-lhe o luxo tão necessário para viver como sempre
desejou. Vou lhe fazer um pedido... Se vai aceitá-la de volta, diga agora. Não pretendo
passar minhas noites sozinha e desesperada enquanto você vibra de prazer nos braços da
minha irmã.
— Esqueceu-se de que é minha esposa e casou-se numa igreja onde não existe a
possibilidade de divórcio?
— Mesmo assim, você pode manter-me em sua casa como a figura ideal de mulher que
cumpre o seu dever e ter ao lado uma amante que o completa fisicamente.
— Alguma vez eu disse que você não me satisfazia?
— Não, mas também não afirmou ser "Geórgia" quem o fazia vibrar.
— Muito deixou de ser dito, não acha? Quando eu a possuíu pela primeira vez, soube no
mesmo instante que mulher alguma havia me completado daquela forma. Entre nós, criou-
se um elo mágico e muito raro, uma harmonia perfeita entre nossos corpos. Eu podia amar
você sem pensar que os outros haviam desfrutado dos mesmos prazeres, podia entregar-me
à paixão sem obstáculos… Com Angélica, sempre houve inúmeras barreiras. A pior delas
era nunca saber se suas reações de prazer eram verdadeiras ou um fingimento de atriz!
Sinto ter que dizer-lhe, mas eu a vi num filme onde ela se entregava a vários homens e foi
um choque brutal reconhecer os mesmos gestos, as mesmas expressões da mulher que eu
julgava me amar.
— Eu fiquei sabendo desses filmes terríveis...
— No início, amei apenas o seu corpo, o prazer que me proporcionava, sem confundi-la
nunca com sua irmã. Além de ser mais sensual, você fazia de cada gesto uma entrega total.
— Quando soube que ela estava de volta descobri que o amor tem um outro lado, Renzo…
não tão romântico nem cheio de ternura como eu sonhava, um lado de violência que não
entrega a ninguém o que conseguiu para si próprio. Estou disposta a lutar com unhas e
dentes para defender meu lar. Sei que posso lhe dar muito mais, fazê-lo infinitamente feliz
e, se minha irmã chegar perto do homem que eu amo... vai se arrepender!
Geórgia sentiu os lábios ávidos de Renzo buscando os seus com urgência. A sensação
continuava a ser tão delirante como sempre, mas precisava reagir e obrigá-lo a se definir.
Ela sempre se entregaria àquele homem, mas uma outra vida dependia de um casamento
verdadeiro e cheio de amor. Uma criança merecia ser criada num ambiente feliz, onde
houvesse compreensão e uma partilha absoluta, não só de corpos mas de almas e corações,
num encontro perfeito. E até agora, Renzo não pronunciara a palavra "amor".
— Ainda não me disse o que fará quando Angélica vier reclamar o que lhe pertence, Renzo!
— Por Deus! Como posso demonstrar-lhe que já não existe mais nada em mim que lembre
aquela época terrível? Eu... espere um instante.
Levantando-se, Renzo foi até o aparelho de som e colocou uma fita. A melodia romântica
que ele estivera compondo nos últimos dias de vida da condessa encheu o ambiente. Era
realmente uma das mais belas criações do compositor Renzo Talmonte.
Voltando ao sofá, ele a tomou em seus braços e, mergulhando o rosto nos cabelos dourados,
murmurou com a voz rouca de emoção:
— Gosta desta música? A letra ainda não foi aceita por mim, apesar de terem me
apresentado centenas... Mas ela já tem um nome...
— Sim?
— Donna…
— Oh, Renzo… Não há palavras que possam exprimir melhor… Sei agora tudo o que
precisava.
Inclinando-a no sofá, Renzo cobriu de beijos a pele suave exposta pelo decote do vestido,
mas, insatisfeito, abriu com mãos tremulas os botões e desnudou os seios palpitantes de
desejo.
— Geórgia, dolce mia… há quanto tempo quero possuí-la por completo, não apenas
desejando e tomando seu corpo e sim todo o seu ser.
Numa mistura de inglês e italiano, Renzo murmurava palavras de amor e desejo enquanto a
música declarava toda a sua paixão.
— Depois de tanta maldade e destruição por parte de Angélica, como eu poderia acreditar
que você não estava apenas fingindo ser tão pura? Como um alucinado, eu procurava sem
cessar motivos para culpá-la, queria descobrir defeitos… Como pude agir assim? Aqui,
nesta mesma sala, eu a agredi sem piedade diante de mamãe. Queria destruí-la por ter tantas
virtudes! Ela ficou tão brava comigo que pode ter sido esta a causa de seu enfarte!
— Não! Nem diga isso! Quando eu telefonei ao médico, ele me disse que estava esperando
uma crise desse tipo. Acredito piamente que sua mãe soubesse que lhe restavam poucos
dias de vida e quis passá-los ao seu lado. Ela falou de sua alegria por nos ver reunidos... Há
um ponto em que não podemos suportar mais uma gota de sofrimento…
Depois de alguns minutos de silêncio, Renzo fitou os olhos muito doces de Geórgia.
— Se o seu amor por mim alcançou esse ponto e não tem condições de sobreviver, preciso
saber, donna. Não aceito sacrifícios, fingimentos ou apenas uma parte de seu amor e desejo.
Quero cada átomo de seu corpo, cada pensamento, cada sorriso ou lágrima, cada alegria ou
dor.
— Tudo será partilhado, querido… A começar por algo ainda muito pequeno mas que é
uma prova de como iremos nos fundir num único ser…
— Você está…? Não… não é possível!
O olhar maravilhado de Renzo ainda mostrava uma certa dúvida. Nada naquele corpo
esguio poderia indicar uma gravidez!
Mas Geórgia, com um sorriso confiante, colocou as mãos morenas sobre seu ventre muito
alvo e ainda liso.
— É muito cedo para notar qualquer diferença. Porém, em breve, meu corpo não será mais
tão atraente como agora. Vai continuar me amando?
Ele não respondeu, ocupado em cobrir de beijos a pele delicada que abrigava o fruto de um
amor…
Aquela união nascida do ódio e da vingança se transformara num encontro mágico de dois
seres que se completavam com perfeição. Em pouco tempo, da avidez de uma ligação sem
amor, surgiria um fruto, a prova de que todas as barreiras tinham sido superadas.
Na sala, Donna ecoava seus últimos acordes, embalando em sua melodia os dois corpos,
que se procuravam com ânsia, numa união agora mais perfeita e repleta de significado.
Donna bella, sei mia...

CAPITULO XXI
Donna bella…
As músicas de Renzo, sempre bem-aceitas pelo público, jamais tinham alcançado antes um
sucesso tão estrondoso. Rádio, televisão, discotecas, toda Londres se embalava ao som
daquela melodia romântica, uma canção feita para enamorados, cantando o amor em sua
infinita beleza.
Geórgia e Renzo, porém, mal percebiam toda a euforia e agitação do mundo musical... Os
dois viviam isolados de tudo, embevecidos em sua descoberta pessoal do amor. Cada hora
dos dias longos e cheios de encanto era dedicada a usufruir a felicidade que dominava suas
vidas.
A paixão física, sempre intensa entre eles, se desdobrava em mil formas, nos corpos que se
uniam agora com a fusão de seus corações.
A casa de Hanson Square irradiava o calor daquele encantamento e até mesmo o austero
Torrence mantinha um discreto sorriso constantemente nos lábios. Apenas ele entrava na
saleta do jardim, o refúgio predileto do casal, evitando que os criados perturbassem os
momentos de paixão, tão freqüentes agora.
Renzo acompanhava, com reverência, as menores modificações no corpo adorado de
Geórgia. Era o seu filho que a tornava menos esguia e com as formas mais cheias, como um
fruto que amadurece à luz do sol.
E, qual uma flor se abrindo ao amor, Geórgia a cada dia parecia mais bela, irradiando uma
serenidade em suas feições que fascinava a todos que a viam.
Apesar de tanta felicidade, ela ainda lutava a fim de entender a alma complicada de Renzo.
Para um homem que levara toda uma vida guardando suas emoções apenas para si mesmo,
não era fácil partilhar os pensamentos mais íntimos. Uma mudança tão profunda levaria
tempo…
Mas Geórgia, infinitamente paciente, desdobrando-se em atenções e dedicação como
alguém que trata de uma planta rara e muito frágil, conseguiu enfim derreter o gelo que
cercava, como uma muralha intransponível, a alma de seu marido.
Renzo passava quase todas as manhãs no salão de música, e mandara abrir uma porta de
comunicação com a saleta do jardim, onde Geórgia sentia-se completamente feliz em meio
às árvores, às flores e aos pássaros. A música magnífica apenas se interrompia nos
momentos em que o desejo de estar próximo daquela mulher doce e sensual o faziam deixar
tudo o mais para tomá-la nos braços.
Tão freqüentes se tornavam esses encontros apaixonados que Torrence assumiu
definitivamente a função de guardar as portas que levavam àquele aposento, destinado
apenas ao abandono do prazer.
Mesmo embriagada de paixão, Geórgia ainda evitava pensar na irmã. O ciúme é um
sentimento negativo mas incontrolável, e ela temia ver Angélica entrando em sua casa,
fascinante e esguia, enquanto ela a cada dia assumia as formas arredondadas da
maternidade. Evitava ler as pequenas notícias nos jornais sobre as aventuras e novos
contratos da bela modelo e, acima de tudo, procurava ocultar de Renzo o seu temor.
Entretanto, sempre perceptivo, ele se tornara ainda mais sensível às nuances de expressão
da mulher que aprendera a amar. Percebendo uma inquietação crescente à medida que a
gravidez prosseguia seu curso, resolveu afastá-la de Londres. Afinal, a lua-de-mel tinha
sido interrompida e ele queria provar-lhe que seu amor não se limitava à adoração de um
corpo perfeito!
O inverno chegara e o ideal seria partir em busca do sol. Lembrando-se de sua sugestão de
conhecerem as Bermudas, tocou no assunto com Geórgia e, mais uma vez, ela lhe fez um
pedido especial.
Queria conhecer a Itália e, em especial, a pequena villa nas colinas de Fiesole da qual a
condessa falara com tanto amor. O que ela não mencionou foi o desejo de provocar uma
reunião entre os dois irmãos e conhecer melhor a cunhada, que se mostrara tão afetiva e
ansiosa por tornarem a ser novamente uma família.

Stélvio e Mônica tinham se mudado para o palazzo de Florença, outrora ocupado pela mãe.
Numa tentativa de recuperar um casamento abalado, procuraram novos amigos e um novo
ambiente, onde nada os lembrasse da fase terrível que quase os destruíra.
Nas duas semanas passadas em Florença, Geórgia aprendeu a conhecer melhor aquela
jovem italiana que havia mostrado a força de seu amor ao receber de volta o marido que a
abandonara para seguir uma paixão desenfreada, um delírio dos sentidos que o deixou vazio
e amargo.
Aos poucos, Mônica fora conseguindo trazer de volta à vida familiar aquele homem que a
fizera tão feliz no passado. E, antes da partida de Geórgia para a villa nas colinas,
confidenciou-lhe um segredo. Também estava grávida, e seu filho nasceria perto do
aniversário da condessa Evelina Talmonte.
Apesar de Geórgia estar maravilhada com Florença e com o convívio familiar, vendo os
dois irmãos dia a dia mais descontraídos, Renzo insistiu para que partissem. Queria tê-la só
para si, retomando uma lua-de-mel que jamais se completara.
Entre os campos dourados de Fiesole, a villa muito branca os acolheu em sua simplicidade
campestre. Ali não havia nada que os lembrasse da sofisticação de Hanson Square, e
Geórgia deixou os vestidos de seda para usar as longas saias de algodão e as blusas
folgadas das camponesas daquela região.
Foi no contato diário com aquele povo altivo e orgulhoso que ela pôde entender tantas
facetas incompreensíveis do temperamento de seu marido.
Ao mesmo tempo violentos e meigos, os habitantes do local viviam para o amor. A música
parecia ser um dom de Deus para aquela gente calorosa e aberta. Suas vozes sonoras
ecoavam pelos campos desde o amanhecer e, nas noites cheias de magia, cantavam sempre
um amor apaixonado e sensual.

Dias inesquecíveis e repletos de paixão fluíam lentos, e Geórgia ostentava com orgulho o
ventre distendido e os seios túrgidos que evidenciavam o milagre que se realizava em seu
corpo.
Renzo tocava, com um olhar embevecido, os mamilos escurecidos pela gravidez e tomava-a
nos braços a todo momento, incapaz de manter as mãos afastadas da pele ligeiramente
dourada pelo sol mediterrâneo.
No pátio interno da villa, onde os dois passavam os dias afastados de qualquer presença
humana, Geórgia deixava os raios dourados colorirem seu corpo por inteiro diante dos
olhares fascinados de seu marido. Não mais sentia-se inibida ao exibir sua nudez, era
amada como uma mulher integral, não apenas pelo corpo, capaz de despertar desejos
físicos.
Saciados de paz e amor, os dois retornaram a Londres tristes por ver chegar ao fim um
período tão maravilhoso. Mas Renzo a queria perto de todo o conforto e dos progressos da
medicina.
Geórgia alcançara um grau de felicidade tal que implorou a Renzo para que tentassem se
reconciliar com seu pai. Era apenas esse mínimo detalhe que a impedia de usufruir
completamente de uma vida perfeita.
O reverendo Norman não se negou a recebê-los e, na tarde passada em Duncton, chegaram
a um relativo entendimento. A notícia de que iria ser avô o deixou satisfeito mas, a cada
referência à gravidez, ele mencionava mais um dos sucessos do Angélica.
Mesmo assim, Geórgia ficou feliz por ter dado o primeiro passo para apagar uma época
terrível em que sua família, já tão reduzida, quase se esfacelara por completo.
Não havia mais nuvem alguma a perturbar os dias serenos de Geórgia. Os vestidos leves e
soltos só disfarçavam suas formas, já cheias nesse estágio de gravidez, e ela passava horas
sentindo apenas o prazer de esperar pelo momento supremo da trazer seu filho ao mundo.
Até a violência da tempestade chegar, pois Angélica, como sempre, planejara com extrema
eficiência os seus movimentos!

Nas duas últimas semanas, Renzo, que praticamente não saía mais de casa, precisou afastar-
se várias vezes de Hanson Square por problemas relacionados a um de seus investimentos
em Bristol. As ausências constantes no final da gravidez da esposa o perturbavam, mas
mantinha contato por telefone e muito raramente passava as noites fora de casa. Mesmo
assim, Geórgia sentia-se melancólica por estar mais solitária.
Naquela manhã, como sempre, ela se instalou na saleta do jardim para bordar mais uma
peça do delicado enxoval, quando sua tranqüilidade foi interrompida por Torrence.
— Há... uma visita, madame.
— Faça entrar no salão, por favor, Torrence.
— Sinto muito, madame, mas ela já entrou. Sei que a senhora não recebe estranhos aqui na
saleta, porém não consegui impedi-la…
Como uma miragem, uma figura fascinante entrou, desfazendo em mil pedaços a
serenidade daquele refúgio de amor.
— Angélica?!
— Céus, irmãzinha! Você está mesmo deformada! Eu jamais me sujeitaria a essa vergonha,
mas você sempre foi muito presa aos deveres familiares, não é verdade?
— O que veio fazer em minha casa?
— Vê-la, é claro! Há quanto tempo não ponho os olhos em minha única irmã? Desde
alguns meses antes de seu casamento, certo?
— Diga logo o que quer, Angélica. Sua presença não me agrada e o quanto antes for
embora, melhor!
— Ah! Primeiro vai me ouvir, querida! Fiquei tão surpresa ao saber de seu casamento! E
logo com quem? Renzo estava tão apaixonado por mim que rastejou, implorando para que
eu não o deixasse. Quem poderia imaginar que se casaria em tão pouco tempo? E você?
Como sempre, aceitou os restos, as migalhas… Ele a desposou apenas para ter a ilusão de
que era eu a partilhar sua cama! Ou foi tola o bastante para pensar em outro motivo?

— Fora daqui! O que eu aceito, ou não, não é da sua conta, Angélica.


— Pensou que eu fosse ficar quietinha e deixar tudo na mais perfeita paz? Pois enganou-se,
irmãzinha. Stélvio nunca se mostrou à altura do irmão, foi um engano imaginá-lo mais
sensual ou ardente. Renzo é, sem dúvida, o melhor amante que já encontrei... E você, tão
puritana, como reagiu à noite de núpcias? Deve ter sido uma tragédia, ou melhor, uma
comédia, não?
Geórgia já não podia mais conter o desespero. A fúria de Angélica distorcia as feições tão
parecidas com as suas e ela temia que a irmã chegasse ao ponto de tentar fazer-lhe algum
mal. Bruce a prevenira de que ela voltaria para retomar o que lhe pertencia, mas agora
havia um filho a caminho e Renzo não o abandonaria. Apenas o bebê seria um obstáculo.
— No entanto, não foi para discutir suas crises de nervos ao ver pela primeira vez um
homem nu que eu vim aqui, querida. Quis apenas lhe comunicar como se enganou ao
pensar que conseguiu tirar um homem de Angélica Norman! Renzo voltou a possuir meu
corpo com a mesma loucura de antes…Quem perdeu foi você!
— É mentira!
— Tem certeza? Onde ele tem passado algumas noites das últimas semanas? Ao lado da
mulherzinha deformada pela gravidez ou… Pensou que um homem tão sensual e hábil na
arte de fazer amor fosse se contentar com uma esposa ingênua e sem a menor noção de
como dar-lhe prazer?
— Renzo tem ido a Bristol e, por mais que tente me envenenar, não acreditarei em uma só
palavra. Meu marido me ama, você está apenas enfurecida por ter perdido a única chance
de um casamento rico. Seu nome está sendo arrastado na lama e sua participação em filmes
pornográficos já é do conhecimento de todos. A brilhante carreira chegou ao fim, Angélica,
e você morre de ódio por não ter sido esperta o suficiente para ficar com Renzo.
— Está mostrando as unhas, irmãzinha? Então vou avisá-la... Já tenho seu marido de volta
na minha cama e logo o terei definitivamente na minha vida. Pretendo recuperar Renzo e
farei o impossível para consegui-lo.
Angélica aproximou-se com um olhar tão cheio de maldade que Geórgia recuou. A irmã lhe
causava medo, dava-lhe a impressão de estar fora de si!
Seria capaz de cometer alguma loucura! Onde estaria Torrence… e Renzo?
Como se seus pensamentos tivessem sido ouvidos, ela ouviu passos. Não podia saber que
Torrence, ao escutar a voz alterada de Angélica, entrara em contato com Flávia pedindo-lhe
que avisasse Renzo com urgência. Era uma questão de vida ou morte!
Por sorte, Renzo desistira de ir até Bristol aquela manhã e estava no escritório, pronto para
voltar para casa. Ao saber da notícia, correu para Hanson Square, em pânico. Só Deus sabia
os malefícios que Angélica poderia provocar!
Ao entrar na saleta, Geórgia estava pálida e com os olhos arregalados de pavor, pois
Angélica praticamente bloqueara sua saída.
— Ora! Que reunião encantadora! Veio nos visitar, Angélica?
— Oh! Querido! Que bom que você chegou! — exclamou ela, sem perder a compostura. —
Sua "esposa" teve uma crise de nervos, efeitos da gravidez, sem dúvida. Aliás, como é
terrível essa deformação, não acha?
Angélica, com a típica pose de modelo, postou-se ao lado da irmã como para evidenciar a
perfeição de seu corpo escultural.
Renzo apenas sorriu e, aproximando-se de Geórgia, pousou as mãos no ventre distendido
com reverência.
— Não é uma deformação, é um milagre. Não existe beleza igual à de um corpo de mulher
grávida. Sinto por você, Angélica, que nunca perderá sua vaidade monstruosa, e por isso se
privará desse prazer. Agora… posso saber o que pretende em minha casa?
— Visitar minha irmã… Ou estou proibida de vê-la?
— Depende... Se sua visita a perturbar, serei obrigado a impedir sua entrada nesta casa.
— Renzo, por favor… Deixe-a despedir-se, ela já ia embora, não é? — balbuciou Geórgia,
em pânico. Queria evitar um confronto entre os dois, pois, se seu marido soubesse o que
Angélica insinuara, seria capaz de uma violência incontrolável.
— Não, querida… vou ficar mais um pouco. É sempre um prazer admirar um homem tão
fascinante quanto o… seu marido. Está plenamente satisfeito, caro, ou ainda sente o mesmo
desejo alucinado pelo meu corpo? Foi sua mulherzinha que possuiu durante a lua-de-mel ou
a ex-noiva que o fez atingir os limites máximos do delírio?
— Angélica, já lhe disse uma vez. Se perturbar Geórgia…
— Que tal se eu lhe contasse como você costumava implorar que...
— Fora daqui! Você nunca teve lugar no meu coração, Angélica... Só uma parte do meu
corpo reagia à sua presença, e por muito pouco tempo! Sua única qualidade positiva é ter
Geórgia como irmã! Fique avisada de que, se tornar a pôr os pés em minha casa, não serei
eu a expulsá-la como farei hoje. A polícia se encarregará desse serviço.
— Você deve estar ficando louco!
— Absolutamente não… Previ que você voltaria para tentar envenenar Geórgia com
mentiras! Provavelmente até lhe disse que voltamos a nos encontrar ou outro absurdo
assim. Já me preveni contra suas atitudes perigosas, reunindo uma série de informações
sobre sua vida que interessarão muito aos policiais. Detalhes como filmes pornográficos,
drogas… minúcias sem importância.
Angélica empalideceu e recuou. Não era tão tola a ponto de ignorar quando perdia uma
partida. Com um olhar cheio de ódio, dirigiu-se para a porta, não sem antes lançar um
insulto final.
— Sejam muito felizes... Se pode sentir prazer em fazer amor com… um elefante, Geórgia
também será capaz de vibrar com um aleijado! Vocês se merecem… Adeus!
Apenas os braços de Renzo impediram que Geórgia caísse no momento em que Angélica
saiu da saleta. Muito pálida, ela estava prestes a ter o primeiro desmaio de sua vida.
Ele a deitou sobre o sofá, apoiando-lhe a cabeça nas almofadas. Um pânico profundo o
invadiu: se Geórgia tivesse algum problema com o bebê por causa de Angélica, ele mataria
aquela víbora sem pestanejar!
— Você está bem? Pelo amor de Deus, fale comigo!
— Calma, Renzo. Senti apenas uma tontura, foi a tensão, logo estarei ótima como sempre.
— Donna bella, o que aquela mulher lhe disse? Não há nada no mundo que eu ame tanto
quanto você, portanto apague todos os absurdos, as calúnias e viva apenas pensando em
nosso amor.
— Eu sei, Renzo, o quanto você me ama mas… — As lágrimas escorriam pelo rosto pálido
de Geórgia. A beleza e sofisticação da irmã a tinham feito sentir-se tão inadequada para ser
esposa de um homem tão atraente quanto Renzo! Sua insegurança retornara com força
total!
— Diga, amor e, qual o problema então?
— Eu estou disforme, e ela... tão linda…
— Pelo amor de Deus! Como pode pensar assim? Venho provando há meses que meu
desejo por você jamais deixou de existir… É como uma sede jamais saciada, um anseio
incontrolável que nada pode alterar…
Com suavidade, ele afastou o tecido fino e leve, expondo-lhe os seios. O contraste das mãos
muito bronzeadas em sua pele alva a lembrara das tardes de amor na villa, e, quando ele
tomou entre os lábios quentes o bico dolorido e sensível, Geórgia soltou um gemido de
prazer.
Sensações inebriantes tomaram conta de seu corpo enquanto Renzo acariciava lentamente o
ventre redondo e brilhando como madrepérola.
— Bella comme nessuna…

Aquelas palavras mágicas fizeram a saleta do jardim transformar-se novamente no refúgio


de amor e Geórgia deixou-se levar pela paixão.
Apenas o toque daquelas mãos a levava a um delírio alucinante, transformando-a numa
chama ardente, incapaz de controlar as ondas de prazer.
Renzo percorreu com as mãos e os lábios os mistérios infinitos do corpo feminino,
buscando, no prazer que lhe proporcionava, a afirmação de um amor que não diminuíra
jamais.
Enquanto sugava avidamente o mamilo escurecido e dilatado, procurou a flor úmida e
cálida que acolheria sua virilidade fremente de desejo.
Geórgia soltou um gemido de volúpia ao receber em seu corpo a prova do amor daquele
homem que conseguia levá-la ao delírio.
Apenas as gotas de água caindo na fonte respondiam aos murmúrios apaixonados que, num
ritmo crescente, se transformavam em gemidos até o grito de prazer de um êxtase glorioso.
O sol do meio-dia banhava os corpos entrelaçados na comunhão do amor. Geórgia
adormeceu na segurança dos braços de Renzo, que continuava a beijar os seios
transbordantes, prontos a alimentar mais do que a paixão de um homem.

A cada ano Londres se tornava mais agitada e cheia de carros, punks, turistas… Um caos
perturbador!
Mas Hanson Square permanecia um oásis, uma ilha verde, imobilizada num momento
histórico de tranqüilidade e elegância.
Entre as impecáveis babás, que escolhiam os bancos à sombra de árvores centenárias, havia
agora mais uma. Em dois reluzentes carrinhos, um menino e uma menina atraíam a atenção
de todos. Duas crianças de tal formosura que era impossível não parar para olhá-los.

Giórgio e Evelina… gêmeos e tão diferentes. Ele tinha os olhos tão azuis quanto os da mãe
e a pele dourada do pai, e a menina, duas esmeraldas brilhantes, contrastando com a pele
alva e os cabelos muito negros.
Mas o que impressionava acima de tudo era a perfeição dos traços… Os pequenos seres
eram frutos de uma paixão sem limites, que crescia a cada dia.
À porta da graciosa mansão georgiana, uma bela mulher os esperava, e seus traços
emanavam a mesma serenidade vinda do amor, uma donna bela… amada como nessuna
altra…

****

FONTE: Digitado por ALEX do Orkut da COMUNIDADE Carole Mortimer & Amigas
http:www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=7831132&tid=2484959410513842866&na=3
&nst=161&nid=7831132-2484959410513842866-2487551105449398962

Você também pode gostar