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AMOR E CELIBATO NA IGREJA MEDIEVAL

DALARUN, Jacques. Amor e Celibato na Igreja Medieval. Coleção o homem e a história.


1ª edição. Livraria Martins Fontes Editora. 1990. 174 p.
Jacques Dalarun é um medievalista francês, nascido em 1º de novembro de 1952. Contribuiu
bastante para a História da Idade Média, descobrindo fontes até então desconhecidas, sobre
tudo, sobre o fim da vida de Robert d’Arbrissel, personagem principal do livro “ Amor e
celibato na Igreja Medieval”. Um dos seus trabalhos mais recentes é a pesquisa sobre as
experiências religiosas femininas na Itália a partir do décimo terceiro século XV.

Em “ Amor e celibato na Igreja Medieval, Dalarun se debruça na pesquisa para localizar


vestígios sobre a vida de uma figura carismática que viveu na virada do século XI para o XII,
Robert d’Arbrissel. O livro é prefaciado por Georges Duby que revela que Robert é uma
“personagem tão estranha aos nossos olhos quanto aos de seus contemporâneos”. Isso porque
Robert era um monge de opiniões diferentes e incômodas para muitos contemporâneos seus,
que falavam dele como se fosse um louco, um herege. O motivo? Dentre os muitos discípulos
que o seguiam, estavam muitas mulheres. Estas eram esposas de padres, sim! Esposas de padres
que após a reforma do clero que prescreveu o celibato aos padres, ficaram sem paradeiro;
esposas de príncipes repudiadas, mulheres escarnecidas e também mulheres que fugiam do
maltrato dos maridos. Eram mulheres que buscavam refúgio e o monge deu muito mais que um
refúgio, mas fez algo que é inconcebível de imaginar em nosso tempo, que dirás na idade média:
Fundou uma ordem onde os homens estavam subordinados às mulheres. Durante as 171 páginas
da narrativa e seus 6 extensos capítulos o autor nos revela a história de um acontecimento que
fugia a regra da época.

Antes de contar mais sobre a ordem de Fontevraud, é preciso dizer que como um bom
historiador que Jacques Dalarun é, em seu livro ele nos conta um pouco da sua busca por fontes.
E o que o instigou a procurar saber sobre a vida desse curioso monge. Uma das coisas que ele
fala é sobre o curioso silêncio da ordem de Fontevraus sobre o seu fundador que o motivou a
querer pesquisar sobre. As fontes que ele utilizou foram duas hagiografias sobre Robert
d’Arbrissel e duas cartas endereçadas a Robert. Essas fontes duas a duas se confrontam, pois,
as cartas não presta grande elogio como as duas outras narrativas.

As duas hagiografias foram escritas mediante pedido da abadessa de Fontevraud, Pétronille.


Por que duas? A primeira foi escrita por Baudri, após a morte de Robert em 1116 e consistia
em uma narrativa bem breve do nascimento à morte. Diz-se que parecia mais um “ curriculum
vitae” e por isso viu-se a necessidade do complemento. O complemento foi feito por André,
pessoa fiel a ordem que acompanhava o monge Robert. André narrou os últimos seis meses de
Robert com muitos detalhes o que conferiu uma obra maior que a de Baudri. Como já se pode
observar Robert é realmente um personagem com características peculiares.

Não se tem certeza sobre a data do seu nascimento, mas é atribuído o ano de 1045 para o
nascimento de Robert. O local, porém, se sabe com precisão: no seio da Cristandade, na
Pequena Bretanha, na província de Rennes, em Arbrissel. Por isso ficou conhecido como Robert
d’ Arbrissel. Robert descende de uma geração de padres. Ele nascera numa época em que o
celibato não era aplicado aos padres, por tanto era muito comum que eles tivessem família.
Robert adquire saberes porque era enviado as cidades vizinhas com tal finalidade. Com a morte
de seu pai ele o sucede e, como era natural, devia se casar, porém esse opta pelo celibato, na
verdade nada pode se afirmar quanto a isso, Baudri diz que ele abraçou a castidade o quanto
pôde, porém, as cartas acusavam o monge de coabitar com as irmãs da ondem de Fontevraud,
era difícil para os homens da época acreditarem que os dois sexos convivessem sem se
relacionar, até porque a mulher era vista como aquela que conduzia o homem ao pecado. Robert
passa por uma fase de conflitos internos, pois presenciou o debate sobre o celibato dos padres
e ele acreditara que era fruto do pecado, já que seu pai era padre. O desejo de perfeição levava-
o a se afastar da carne o tornando um eremita. Eremum é o deserto, momento em que a pessoa
se converte, muda sua vida. O deserto nem sempre se trata de um deserto mesmo, mas sim de
um espaço espiritual.

Robert d’Arbrissel é conhecido pela sua voz como de um trovão e seu dom de pregar, por conta
disso o papa Urbano II o convida a pregar e d’Arbrissel se sai muito bem, tanto que foi
condecorado com o título de “Dei seminiverbum”, semeador do verbo divino, tagarela de Deus
(p.36). Ele funda uma congregação em La Röe onde os padres seguiam as exigências morais
dos monges que consistiam em castidade, pobreza e obediência.

Buscando sempre se assemelhar a Cristo e seus discípulos, Robert durante toda sua vida
perambula pregando livremente. Porém há uma ressalva feita pelo próprio Baudri na
hagiografia, os discípulos de Robert eram de ambos os sexos. E por isso ele era criticado por
muitos. Mas as pessoas que o seguiam o tinham como um mestre.

Sobre as mulheres de Fontevraud, diz-se que lhes eram dados dois tipos de tratamentos. A
algumas agia com familiaridade excessiva, o leito compartilhado. A outras ele falava com
dureza excessiva, com muito rigor, chegando até a tortura-las pela fome, nudez e sede. Em
Fontevraud havia quatro estabelecimentos: Saint-Jean, que era destinado aos homens, Saint-
Lazare para os leprosos e dois claustros para as mulheres, O Grande-Mosteiro dedicado à
Virgem, e a Madeleine. Se descobriu que no Grande-Mosteiro ficavam as virgens e as viúvas
bem-nascidas e no Madeleine, as pecadoras. O autor observa que as categorias morais são
substituídas por uma segregação social, pois a separação moral seria as virgens separadas das
não-virgens, porém as viúvas refinadas se desagradavam por dividir o mesmo espaço que
mulheres repudiadas, prostitutas e por isso foi adotada a segregação social. As mulheres que
tinham alguma posse se destacavam das demais cujos nomes não são notados. Um exemplo
disso é a abadessa Pétronille que era uma conversa-laica e “viúva”. “ Viúva”, porque se tem
dúvidas sobre sua viuvez. Ela é escolhida para ser abadessa pela sua experiência era considerada
conhecedora do mundo.

Neste livro nos deparamos com algo que é exceção, numa época em que a mulher não tem valor
algum, são objetos muito maltratados e encontram refúgio em Fontevraud. Táo sério isso que o
próprio autor menciona em um capítulo a proibição de mulheres na igreja, pois a mulher era
associada ao pecado, criava-se mitos para disseminar tal pensamento e numa ocasião o nosso
personagem entra em uma igreja acompanhado das suas discípulas desmitificando as crenças
populares de que era castigada por Deus a mulher que tentasse adentrar uma igreja. E Robert
defende que a mulher que abre às mulheres o caminho da salvação é Madalena. Mas por que
ele confiou o mosteiro as mulheres?

No penúltimo capítulo Dalarun nos conta que Fontevraud, é concebido antes de tudo para a
salvação dos irmãos (homens). Pois há sete degraus de humildade, e o sétimo degrau é quando
a humildade se torna humilhação. Então, é por isso que Robert submeteu os homens às ordens
das mulheres, pois não há nada mais humilhante que obedecer a um superior que, secretamente,
consideramos indigno de sua posição.

Foi quando já estava doente que Robert d’Arbrissel se reuniu e escolheu para abadessa
Pétronille de Chemillé. Quando ele faleceu em 25 de fevereiro de 1116 houve uma disputa pelo
seu corpo. O monge havia pedido para ser enterrado na lama de Fontevraud porém como se
tratava de um homem santificado muitos queriam lhe conferir um lugar melhor. Na verdade,
havia todo um jogo de interesse pois se sabe que quando um santo morre... vira relíquia. Quem
venceu a disputa? Onde ele foi sepultado? Deixo aqui um suspense....

Confesso que o livro foi uma surpresa, eu o escolhi pelo título “ Amor e Celibato na Igreja
Medieval”, que me conduziu a pensar que trataria de outras coisas. Sendo mais específica, achei
que falaria, restritamente, de amores proibidos pelo celibato. Não imaginava encontrar uma
história fascinante sobre um monge tão diferente que graças a persistência de Jacques Dalarun
foi exposto. Porém, a ressalva que eu faço é no que diz respeito ao título do livro, acredito que
o título original casa melhor com o conteúdo “ Robert d’Arbrissel”. No mais, é um livro que
não se concentra apenas na personagem, mas no contexto histórico em que ele viveu, nos revela
a mentalidade da época, as mudanças ocorridas como a fundação de Cister, as cruzadas, o
feudalismo, tudo isso circunda a vida de Robert d’Arbrissel, enriquecendo a obra.

Marília Gabriele Grilo da Silva.