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Psicanálise e infância: revisitando a obra de Françoise Dolto

La psychanalyse et l'enfance: revisiter l'oeuvre de Françoise Dolto

Harrison Rivello Louro

Universidade José do Rosário Vellano


UNIFENAS
Orientadora: Rosely Pennacchi

Resumo: Psicanálise e infância se encontram desde a invenção do legado


freudiano. Já nos primeiros trabalhos de Freud é possível entrever a
importância por ele dada ao infantil, sobretudo à sexualidade e sua relação
com os processos inconscientes. Todavia, Freud não amplia a psicanálise de
crianças a partir de sua técnica, tarefa que ulteriormente coube à outros
analistas que, não obstante as divergências, trouxeram enormes contribuições
à psicanálise de crianças. O presente trabalho pretende revisitar os conceitos
elaborados pela psicanalista francesa Françoise Dolto, no que tange ao
atendimento psicanalítico de crianças. Considerada uma grande personalidade
da psicanálise, desenvolveu conceitos originais a partir de sua experiência
clínica e de sua singular escuta.
Palavras-chave: Infância. Psicanálise. Psicanálise de crianças. Françoise
Dolto.

Résumé: La psychanalyse et l'enfant sont de l'invention de l'héritage de Freud.


Dans les premières œuvres de Freud peut entrevoir l'importance qu'il attribue à
l'enfant, en particulier la sexualité et leur relation avec les processus
inconscients. Cependant, Freud ne s'étend pas la psychanalyse avec les
enfants à partir de leur tâche technique qui est tombé ensuite à d'autres
analystes que, malgré les désaccords, des contributions apportées à la
psychanalyse d'énormes avec des enfants. Cet article se propose de revisiter
les concepts développés par les Français psychanalyste Françoise Dolto, en ce
qui concerne le traitement psychanalytique des enfants. Considéré comme une
grand personnalité de la psychanalyse, a développé les concepts originaux de
son expérience clinique et son écoute unique.
Mots clefs: Enfance. Psychanalyse. La psychanalyse avec les enfants.
Françoise Dolto.

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Desde a criação da psicanálise por fobia em um menino de cinco anos,
Sigmund Freud, a infância vem se ensaio também conhecido como “O
impondo e se difundindo em nossa Pequeno Hans”. Freud tencionava,
cultura como algo indelével. A a partir deste caso, além de aliviar
indissociabilidade entre psicanálise sintomas, dar um novo impulso às
e infância se dá na inauguração do suas teorias sobre a sexualidade
próprio discurso e legado freudiano, infantil, sobretudo acerca do
que a insere na base da complexo de Édipo. No entanto, ele
interpretação dos males psíquicos. se depara com uma dificuldade
A primeira direção dada por Freud técnica, que se resume na questão
foi a postulação da cena sexual da linguagem verbal da criança,
ocorrida na infância do sujeito, que que, para ele, é restrita. Desta
produziria, ulteriormente na forma, não obstante toda a sua
adolescência ou na vida adulta, contribuição, Freud não amplia a
sintomas psíquicos. Um infantil, análise de crianças de forma
digamos, adjetivado, que se refere a técnica. Em 1933 publica as Novas
uma cronologia do sujeito. A partir conferências introdutórias sobre
disso, é possível imaginar como as psicanálise, onde registra que a
postulações freudianas foram psicanálise de crianças é um campo
impactantes para as sociedades do a se obter os maiores êxitos,
século XX, onde situar a infância ressaltando a influência da relação
como palco de cenas sexuais era com os pais no tratamento, embora
algo um tanto repulsivo. Mas Freud a mesma se faça necessária.
foi além: não bastando descrever a
Mas a psicanálise de crianças nos é
sexualidade na infância, também a
apresentada hoje com uma história
considerou, por um certo caráter
um tanto peculiar. Passando por
excessivo, uma financiadora das
Hermine von Hug-Hellmuth (1871 -
neuroses dos adultos.
1924), próxima a Freud e
O primeiro trabalho freudiano a considerada por ele a primeira
abordar o sofrimento psíquico de analista de crianças, podemos ainda
uma criança ocorreu em 1909, com citar a também vienense Melanie
a publicação de Análise de uma Klein (1882 - 1960). Esta última,

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junto a Donald Woods Winnicott Desde cedo dizia que seria uma
(1896 - 1971), contribuiu “médica de educação”, fruto de um
consideravelmente para o desejo, segundo alguns
desenvolvimento da escola inglesa. comentadores, de proporcionar uma
A psicanálise de crianças, ainda na vida melhor para as crianças.
Inglaterra, contou com a presença Melhor, neste caso, do que fora sua
(não tão marcante quanto a de própria.
outros analistas, mas historicamente
A jovem Françoise teve uma
considerada) de Anna Freud (1895 -
infância marcada por inúmeras
1982), também analista e última
dificuldades, que contou desde
filha de Sigmund e Martha Freud.
incômodos com sua aparência à
Klein e Anna Freud: duas analistas
graves desentendimentos com a
marcadas por divergências em
mãe. Aos 12 anos perdeu sua irmã
relação à psicanálise de crianças,
mais velha em consequência de um
sobretudo à formação teórico-
câncer, o que agravou ainda mais a
prática.
qualidade da relação com a mãe. A
Na França, destacamos a pioneira mãe, Suzanne Marette, que a
Sophie Morgenstern (1875 - 1940), culpava por não ter rezado o
conhecida por suas ideias sobre o suficiente a fim de salvar a irmã.
desenho, o brinquedo e a forma
Quatorze anos mais tarde, inicia
diferenciada de compreender as
uma análise com René Laforgue,
relações parentais. Esta exerceu
que foi fundamental para Françoise.
enorme influência sobre outra
Como analisa Roudinesco,
analista, também francesa, da qual
discorreremos a partir de agora. Françoise tornou-se outra mulher:
uma mulher consciente de si
Françoise Marette nasceu em 6 de mesma e não mais alienada, uma
novembro de 1908, em Paris, e é mulher capaz de sentir-se
sexualmente mulher ao invés de ter
considerada, com Jacques Lacan,
de si mesma uma imagem infantil e
do qual foi fiel amiga, a segunda
mortífera (1998, pp. 157-58).
grande personalidade do freudismo
francês (Roudinesco, 1998, p. 157). Resolve estudar medicina,
sobretudo especializar-se numa

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pediatra convicta em tratar crianças começasse a falar. O caso foi um
de forma inovadora. Seus contatos verdadeiro precursor de uma das
com Édouard Pichon (1890 - 1940), principais postulações de Dolto, a
primeiramente, e com Sophie imagem inconsciente do corpo, que
Morgenstern, posteriormente, a será exposto adiante. Embora o
torna psicanalista. Em 1938 presente artigo não tenha
ingressa na Sociedade Psicanalítica pretensões biográficas extensas,
de Paris, defendo sua tese de cabe aqui ressaltar que Françoise
medicina em 1939, onde busca Dolto faleceu em 25 de agosto de
relacionar pediatria e psicanálise. 1988, aos seus 79 anos, de
Começa aí a sua grande jornada a complicações pulmonares. Deixou
partir do tratamento psicanalítico de uma vasta bibliografia, entre livros,
crianças. Em 1942, casa-se com o entrevistas, artigos e transcrições
médico russo Boris Dolto, com o de seus seminários, além de
qual teve três filhos. A parisiense gravações em áudio e vídeo.
Françoise Marette passa a assinar
A obra de Françoise Dolto nos
Françoise Dolto.
apresenta teorizações inovadoras e,
Em 1949, impressiona muitos sobretudo, originais, uma vez que
membros da Sociedade era tida como uma analista
Psicanalítica de Paris com sua autêntica e genial. As falas e as
exposição do caso de Bernadette, reflexões de Dolto eram também
uma criança psicótica com conhecidas como emanações de
dificuldades graves de expressão sua clínica e de uma escuta singular
verbal. A partir deste caso, do inconsciente. A seguir,
Françoise Dolto sugere à mãe de discorreremos sobre os conceitos
Bernadette que confeccione um fundamentais da autora.
objeto singular: uma boneca de
Para Dolto, o ser é inscrito num
tecido, sustentada por uma haste e
mundo transgeracional. É ser de
com uma flor de margarida
linguagem e de linhagem, o que fez
representando o rosto. Isso permitiu
a autora pensar no termo filiação
que a criança projetasse suas
linguageira para dizer que a fonte
pulsões de morte no objeto e

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de seu desejo vem desde a bebê que lhe dão as condições de
concepção. Ela faz uso do termo ser falante e receptivo, à espera de
encarnação para ilustrar que, ao trocas linguageiras vocais ou
nascer, já existe um primeiro desejo gestuais. Segundo Dolto, aí está o
de se assumir; um devir desejante. que ela chamou de comunicação
Somente assim o bebê pode ser interpsíquica. Quando o infans não
lançado num espaço triangular. encontra respostas aos seus apelos
Ledoux destaca que por trocas, perde-se da
mediatização das vivências que lhe
Françoise Dolto chegava até a
afirmar que a criança escolhe seus dão sentido. É o que ocorre na
pais: por isso tem deveres para ausência da mãe, que promove uma
com eles, assim como os pais os descontinuidade no que Dolto
têm em relação a ela (1991, p.
chamou de co-ser da criança.
19).
Imaginemos uma alternância,
Uma forma mais do que elegante de
conforme propôs Dolto, no co-ser
dizer que a introdução no campo da
com a mãe e o não-co-ser. Para a
linguagem é antes um desejo de
autora, ainda que temível, essa
ser.
alternância é também pontuadora,
Dolto introduz dados importantes no pois inicia a experiência da falta no
que se refere à relação mãe-bebê. fluxo temporal do infans e espacial
Para ela, a triangulação é da mãe. A mãe também deseja em
concepcional, sendo o nascimento outros lugares. Não obstante
uma consumação do encontro de existem configurações diversas da
três desejos. Uma díade que será relação mãe-bebê, Dolto sinaliza
tríade. Mas enquanto díade, é para as consequências, graves ou
preciso que o bebê fundamente sua não, de eleger o bebê como objeto
existência, seu desejo de ser, reparador, excessivamente
através da relação com um outro erotizado. Como nos diz Dolto:
tutelar. Essa relação é a primeira e “... considero que a mãe tanto pode
principal segurança narcísica, que é ser símbolo da morte quanto da
o que permite a mediação de vida” (1988, p. 84).
percepções. São as percepções do

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Dentre as diversas singularidades Veremos a seguir as consideráveis
das ideias de Dolto, destaca-se a castrações simboligênicas de
função do pai, que, na relação mãe- Françoise Dolto.
bebê, tem a função primordial, e
A primeira castração doltoiana é a
humanizante, de tirar a criança de
castração umbilical. Dolto lança
uma situação regressiva e
mão deste termo para explicar,
puramente imaginária com a mãe.
sobretudo, a passagem de um meio
Ele é o eixo da tríade, de função
líquido para um meio aéreo, a perda
separadora, que visa indicar sua lei
de uma condição essencial à vida
dissociativa à criança. A mãe não
do bebê. É uma saída difícil,
pertence à criança, assim como a
embora primordial, onde o bebê
criança não é o seu produto. O pai é
perde a segurança do corpo inteiro
a barra do choro e do sorriso e de
(Dolto, 2001). Essa perda, esse
toda a sua necessidade no contexto
desencontro com o único estado
da díade. Esse princípio doltoiano,
vital até então conhecido, significa
diga-se, coincide com a ideia de
um importante momento simbólico,
Jacques Lacan do pai como um
como se a alternativa fosse “saia de
privador do objeto.
teu envoltório, é tua placenta ou a
Dolto nos traz também uma noção morte” (Ledoux, 1995, p. 217). É
de castração que, embora não uma cicatriz que permitirá ao bebê
superponha a noção freudiana, é um sopro pulmonar, o primeiro
bastante original. Ela mantém a contato com o ar, a fundação de seu
castração no status da Lei, como esquema corporal e o
uma experiência de separação reconhecimento dos limites do
simbólica e operacional. Não corpo. Para Dolto, a castração
obstante “lei” possa significar uma umbilical é a primeira fonte vital
repressão, como noção geral, Dolto simbólica, concomitante ao
a trata psicanaliticamente como nascimento, ainda que esteja ao
iniciadora, humanizante e, em outro nível do narcisismo dos pais. É
tempo, sublimatória. Ao interditar como imaginar que o bebê, a partir
um desejo, a castração permite de agora, necessita de um outro
outros encontros pulsionais. objeto além da ligação umbilical.

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Dolto, em seguida, nos traz a noção em parte, obstruídas, permitindo
de castração oral, concomitante ao trocas lúdicas e socializadoras e o
desmame. A criança é privada aqui prazer na intersubjetividade. É o
de uma parte de si mesma, o leite, reconhecimento dos limites. Dolto
separando-se, ao mesmo tempo, do adverte ainda sobre o qualidade da
objeto parcial seio. Ante a proibição castração anal, não devendo esta
do corpo-a-corpo, instaura-se na nunca assumir o desejo de controle,
criança o desejo da fala, pois de mutilação ou de adestramento.
permite à relação mãe-bebê
Um dos conceitos mais originais de
comunicar-se de outros modos que
Françoise Dolto, de unanimidade
não pelos cuidados corporais. Dolto
entre os comentadores, é a
não permite em suas teorizações
supracitada imagem inconsciente
uma noção de substituição a partir
do corpo. Literalmente original por
de uma castração. Opta por
ser estruturante em toda sua obra e
transmutação, transmudar-se. Ou
por estar de forma íntima ligado à
seja, a castração oral viabiliza uma
sua prática analítica com crianças.
nova vicissitude para as pulsões
Trata-se, primeiramente, de uma
orais: o comportamento linguageiro.
amarração do corpo e do psíquico
A terceira e última é a castração proposta por Dolto. O corpo e sua
anal, que permite a separação da imagem inconsciente é aquele que
mãe em relação à uma dependência não existe sem linguagem, que é
excrementícia. Ou seja, marca a um substrato relacional do sujeito
término da assistência ao corpo e o com o outro (Dolto, 2001).
início da autonomia motora da
Dolto enfatiza que sua ideia de
criança. Para Dolto, existem duas
imagem inconsciente do corpo não
acepções acerca da castração anal.
se refere à imagem especular;
A primeira, é o reconhecimento do
refere-se à uma questão de
agir da criança, da possibilidade de
identidade. Todavia, a autora trata a
autonomia. A segunda, que se
construção das imagens do corpo
articula com a primeira, é o acesso
como pré-especulares. O espelho
ao dizer. Dolto nos diz que as
que, para Dolto, é uma assunção do
pulsões da criança deixam de ser,

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sujeito em seu narcisismo. estas foram elaboradas. É
Entretanto, é preciso que o estádio importante destacar ainda que a
seja para o sujeito um efeito de imagem do corpo diferencia-se do
corpo próprio-integração; que ele esquema corporal. Para Dolto,
reconheça este corpo como sendo o
O esquema corporal é uma
seu e, sobretudo, seja uma mais- realidade de fato, sendo de certa
valia de suas pulsões, a natureza de forma nosso viver carnal no contato
seu afeto (Dolto, 2001). com o mundo físico. Nossas
experiências de nossa realidade
O sujeito, em sua origem, é fonte dependem da integridade do
autônoma de desejo, portanto vai organismo, ou de lesões
transitórias ou indeléveis,
ganhando um corpo imerso em
neurológicas, musculares, ósseas
linguagem e se apoiando em seus
e também, de nossas sensações
vínculos mais imediatos, que são fisiológicas viscerais, circulatórias
substanciais. Nesse sentido, (2001, p. 10).
entendemos por substancial todos
Dolto utiliza de um exemplo para
os objetos parciais que permitem
nos explicar a diferença
trocas, bem como as sutilezas das
fundamental entre imagem do corpo
percepções. Os afetos e as palavras
e esquema corporal. Uma criança
se associam às vivências corporais,
paraplégica que projeta, apesar de
marcando de forma somato-
sua enfermidade no corpo, uma
psíquica o infans e permitindo
imagem sã do corpo. Ela encontra
atividades representativas. Quando
na mãe alguém que aceita, com ela,
trazemos a ideia da imagem do
este jogo projetivo. A mãe lhe fala
corpo como uma marca da clínica e
sobre correr, saltar e atividades que
da obra de Dolto, queremos dizer
as crianças de sua idade fazem. Ou
que as inconsistências dessas
seja, permite trocas simbólicas por
imagens são reveladas pelas
meio de palavras e representações
crianças a posteriori, a partir do
gráficas; e ali pode-se encontrar
desenho e da modelagem. A
seus fantasmas e suas satisfações.
imagem do corpo é um vestígio das
Um brincar verbalmente, como
representações precoces do sujeito,
escreve Dolto (2001).
sobretudo do momento em que

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Uma criança com um déficit físico desejar do sujeito, que depende de
deve ter em palavras o seu concessões dos adultos tutelares.
passado, sua diferença congênita
O segundo é o aspecto genético,
em relação às demais crianças e,
que são as reformulações da
sobretudo, poder expressar-se a
imagem do corpo, o reconhecimento
partir de suas trocas. Como observa
da imagem. Tem, portanto, um
a autora, a imagem do corpo é
contexto especular.
estrutural e está ligada às relações
intersubjetivas tutelares, enquanto o Por fim, o aspecto relacional, que se
esquema corporal se sustenta na ordena no sentir e no dizer do outro.
fisiologia corporal, ou, como nos A fala do outro é o substrato da
traz Dolto, no viver carnal. imagem e organiza o cruzamento
entre imagem do corpo e esquema
Françoise Dolto ainda aprimora sua
corporal.
noção de imagem do corpo a partir
de três aspectos. O aspecto Abordemos a questão edípica na
estrutural se refere à imagem de obra de Françoise Dolto. Ela situa o
base, que corresponde ao ser em complexo de Édipo no desejo que
sua coesão narcísica (uma ocupa o imaginário, num momento
continuidade de ser e uma já de autonomia e de manutenção
mesmidade de ser), sendo que do corpo da criança. Menino e
qualquer ameaça a esta imagem menina estabelecem uma relação
pode ser sentida como mortífera; à primária com a mãe, e são as
imagem funcional, que é castrações simboligênicas, também
enraizadora e veicula as pulsões de primordiais, que encaminham o
vida; e à imagem erógena, que se sujeito para o Édipo. Ou seja, a
refere às relações com o outro, superação da angústia primária de
relações de prazer e desprazer. castração é que inicia o sujeito na
Essas imagens descritas, segundo realidade de seu corpo, dando início
Dolto, podem ser entretecidas pela à problemática de seu sexo. Este é
imagem dinâmica, que é nada mais o momento (do desejo) de atingir
que o advir do desejo e o direito de um corpo adulto e tentar retirar o
genitor de seu lugar. A fase edípica

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caracteriza-se por ser um tempo menina que marca sua entrada no
onde a criança Édipo. Todas as suas pulsões orais
e anais são dirigidas para esse
“observa todos os detalhes do
comportamento e da vida dos campo, como o coleguismo, e toda
outros e igualmente a natureza” sua rivalidade, as tarefas
(Dolto, 1996, p.181) domésticas ou quaisquer outras
ações que visam ativar o interesse
Para Dolto, a menina se descobre
do sexo oposto.
menina a partir de seu sexo, e não a
partir da menina que lhe é dita ou O menino, diante de sua diferença
de sua forma de se vestir ou de ser de sexo, transforma o pênis num
penteada, por exemplo. A menina glorioso e valorizado instrumento,
perceberá o seu sexo junto a um ainda que lhe seja misterioso. É um
suposto semelhante (Dolto, 1996): apêndice, embora altamente
um menino. Uma decepção inquieta erógeno, de função exclusivamente
a respeito do pênis que lhe falta tão mictória. Mas toda essa glorificação,
logo se manifesta e, a partir de que faz o menino exibir-se ainda
palavras tranquilizadoras ditas, mais, apresenta para ele perguntas
sobretudo pela mãe, é preciso que mudas sobre o sentido de se ter um
haja uma conformação de ser. As pênis, sobretudo de ser ter ereções.
palavras maternas lhe permitirão Ao observar o sexo da menina,
certificar de que, mais tarde, pode experimentar uma angústia

“terá seios como as mulheres, e especular de constatação, vendo ali,


também de que trará filhos ao em seu suposto semelhante, uma
mundo, como sua mãe; mas é-lhe mutilação. São as palavras do pai,
impossível imaginar que esses
sobretudo, que poderão confirmar
filhos sejam outra coisa senão
suas constatações, dar um sentido
excrementos singulares, mágicos,
procedentes de uma ingestão oral” às ereções e à função paternal.
(Dolto, 1996, p.181).
Françoise Dolto, ao longo de toda
Essa conformação ingressa a sua obra, preocupou-se com a ética
menina no campo do feminino. A psicanalítica, em parte influenciada
castração é um momento para a por sua leitura freudo-lacaniana, em

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parte construída a partir de seu filiação, sobre sua mãe, sobretudo,
estilo próprio. Estilo que se e sobre seus novos tutores. Em
construiu nos seus quarenta anos Dolto podemos encontrar a ideia de
de experiências clínicas com que as palavras têm, sim,
crianças e adolescentes. importâncias simbólicas, mas os
não-ditos são os mais patológicos.
Recusando-se a aceitar a
Uma palavra não-dita sobre a
psicanálise como uma
história de um sujeito pode vir a ser
especialidade, deixou palavras que
um silêncio angustiante.
inovaram a técnica. Tratou da
dimensão subversiva da Dolto discutiu amplamente a
psicanálise; psicanálise, que psicanálise de crianças e a função
segundo Dolto, não é algo que se do analista. Para Dolto, é
põe a serviço de cuidados e fundamental ouvir o cotidiano da
necessidades, mas sim do sujeito e criança e, sobretudo, sua
do seu desejo. A psicanálise está no genealogia, seus mortos, seus
adulto como também na criança que heróis, seus silêncios e seus
este foi, e essa visão de Dolto segredos. Todos os detalhes devem
marcou, posteriormente, sua forma fazer-se ouvir, como a forma de
de trabalhar com os pais e de brincar, o sono e a relação com os
estruturar suas entrevistas parentes. Ela adverte sobre os
preliminares. riscos da normalização imposta e o
abuso do poder dos adultos sobre
Muitas crianças repetem o que
as crianças. As crianças não podem
foram seus pais, e esta não é uma
ser um “brinquedo de outros”, um
questão moral, ou de bem ou mal,
objeto do qual se fala e que
mas de sofrimento de gerações.
constantemente é aniquilado como
Dolto dizia que uma mãe tem o
sujeito. Ela provocou
pleno direito de não querer criar seu
categoricamente a tradição que
filho, de negar sua tutela a este.
chamou de “adulto-centrismo”
Para tanto, no contexto da adoção,
(Dolto, 2005).
é indispensável, independente de
seu tempo, dizer ao bebê sobre sua

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Dolto rejeitava o trabalho com crianças com seus pais, numa
brinquedos. As crianças tinham à época em que França vivia um
disposição sua fala, lápis e massa momento de muita fragilidade nas
de modelar, e tudo era dito. Dizia-se relações de sociabilidade. No
de tudo, mas não se fazia tudo. Um espaço, as crianças podiam brincar
desenho pode ser compreendido desenvolvendo livremente sua
como uma fantasia, uma revelação autonomia motora, mas não sem
da imagem do corpo ou uma algumas regras, como brincar com
projeção; mas, sobretudo, é preciso água somente utilizando avental e
que a criança fale sobre sua não ultrapassar os limites
produção, que associe livremente. estabelecidos no espaço de
Toda produção, todo agir e todo convivência. Era permitido às mães
falar são testemunhos da relação conviverem com outras mães e os
transferencial com a criança. Deve- pais com outros pais, e isso dava ao
se, no tocante da transferência, espaço um status nem de escola,
escutar as crianças ao nível de suas nem creche, mas sim de um lugar
idades, de suas falas, de sua de vida, de convivências e trocas.
subjetividade. E essa escuta só é No final dos anos 1980, as casas de
permitida a partir das imagens do acolhimento de pais e crianças,
corpo e de suas bases. inspiradas na Maison Verte, se
multiplicaram na França. Como a
Traduzia na língua da criança o que
própria Dolto nos relata:
ela estava sentindo, ensinando que
o maior desafio é ouvir as crianças A transformação operada nas mães
que frequentam a Maison Verte é
segundo o seu pensamento e seu
espetacular. Elas têm tempo para
expressar, sem para isso ter de sair
pensar e para ser, ao passo que
da posição de analista. As crianças antes eram atropeladas por suas
foram seus mestres. crianças que as devoravam (…) A
criança se ocupa, a mãe se ocupa,
Em 1980, Françoise Dolto, junto a elas se comunicam, não ficam mais
outros colegas, fundou em Paris a coladas uma à outra (…) e o pai
Maison Verte, uma instituição com o também, quando chega aqui,

objetivo de facilitar as relações das descobre seu filho com outras


crianças; ele descobre sua mulher

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com outras mulheres (…) ele se cultura a partir de Françoise Dolto é
descobre em uma dimensão de pai
um exercício único, pois é na cultura
e ao mesmo tempo de esposo em
que encontramos todos os
relação a sua mulher (Dolto, 2005,
p. 345)
deslocamentos de objetos, toda
essa dinâmica desejante que serve
A obra de Françoise Dolto no Brasil,
à linguagem e à comunicação entre
embora existam muitos títulos já
os sujeitos. Françoise Dolto, por sua
traduzidos e publicados, bem como
ética, pelo seu senso de valor
artigos sobre a autora, ainda
humano e pela sua confiança no
necessita de uma maior difusão.
outro, fez da vida um lugar acima de
Conhecer toda a sua originalidade e
qualquer saber.
dar de encontro com sua escrita e
sua fala requer, primeiramente, um
desejo de escuta para com as
crianças. Quando escreve que “todo
aquele que se põe a ouvir a
resposta das crianças é um espírito
revolucionário” (Dolto, 2005), ela
quer nos dizer que o saber
psicanalítico, sobretudo sua forma
de escutar os sintomas, pode
auxiliar pais e professores a
compreenderem melhor as crianças.
Para ela, seja qual for a posição
social do adulto, é primordial sua
disponibilidade para entrar em
contato verbal e afetivo com as
crianças. É preciso falar com elas
de seus desejos, recusando a
satisfação e a consumação total do
corpo. É isso que permite a
introdução de toda criança na
cultura. Compreender a criança na

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