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Dimensões da Globalização

O Capital e Suas Contradições


Projeto Editorial Praxis
http://editorapraxis.cjb.net

“Trabalho e Mundialização do Capital


A Nova Degradação do Trabalho na Era da Globalização”
Giovanni Alves

“Dimensões da Globalização
O Capital e Suas Contradições”
Giovanni Alves

Série Risco Radical

1 - “O Outro Virtual - Ensaios sobre a Internet”


Giovanni Alves, Vinicio Martinez , Marcos Alvarez, Paula Carolei

2 - “Democracia Virtual - O Nascimento do Cidadão Fractal”


Vinicio Martinez

3 - “Leviatã - Ensaios de Teoria Política”


Marcelo Fernandes de Oliveira

4 - “Trabalho e Globalização - A Crise do Sindicalismo Propositivo”


Ariovaldo de Oliveira Santos

Pedidos através do e-mail editorapraxis@uol.com.br


Giovanni Alves

Dimensões
da
Globalização
O Capital e Suas Contradições

Praxis
Londrina
2001
Copyright © do Autor, 2001

ISBN 85-901933-1-4

Capa e Diagramação: Giovanni Alves

2ª Tiragem

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional


Bibliotecária Responsável: Ilza Almeida de Andrade CRB 9/882

A474d Alves, Giovanni


Dimensões da globalização : o capital e suas contradições
/ Giovanni Alves. – Londrina : G. A. P. Alves, 2001.
220p. ; 21cm

ISBN 85-901933-1-4

1. Globalização. 2. Capital (Economia). 3. Trabalho. I. Título.

CDU 339.9

Praxis
Free edition
home-page: http://editorapraxis.cjb.net

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

2001
Sumário

APRESENTAÇÃO

PARTE 1
Dimensões da Globalização

Capítulo 1
Introdução

Capítulo 2
Globalização Como Ideologia

Capítulo 3
Globalização Como Mundialização do Capital

Capítulo 4
Globalização Como Processo Civilizatório
Humano-Genérico

Parte 2
Sociologia da Globalização

Capítulo 5
A Globalização Na Perspectiva dos
Clássicos da Sociologia

Capítulo 6
Weber e a Globalização Como
Racionalização do Mundo
Capítulo 7
Durkheim e a Globalização como
Fonte de Solidariedade Social

Capítulo 8
Marx e a Globalização como
Lógica do Capital

Parte III
Globalização e Trabalho

Capítulo 9
Toyotismo Como Ideologia Orgânica da
Produção Capitalista

Capítulo 10
Toyotismo e Neocorporativismo Sindical
no Século XXI

Capítulo 11
Dimensões do Proletariado Tardio

Bibliografia
Apresentação

Apresentação

O
livro Dimensões da Globalização é um resultado
teórico-prático de um percurso de reflexão
intelectual buscando compreender, numa perspectiva
dialética, um tema maldito: o problema da globalização. É um
livro de ensaios, o que significa que possui ainda um caráter
iniciático e inacabado, sugerindo algumas linhas de reflexões que
procuram sair do lugar-comum sobre a discussão da
“globalização”. Procuramos organizar o livro em 3 partes – a
primeira, que dá título ao livro : Dimensões da Globalização; a
segunda, Sociologia da Globalização e a terceira, Globalização
e Trabalho.
A primeira parte do livro procura desenvolver uma
interpretação original do processo de globalização, procurando
apreender seu caráter dialético e amplamente contraditório.
Buscamos evitar as unilaterialidades perenes dos apologistas da
globalização e dos seus críticos vorazes. Procuramos ensaiar
uma crítica mordaz da globalização como mundialização do
capital, mas sem deixar de perceber que, na medida em que
representa o desenvolvimento amplo e contraditório do capitalismo
moderno, a globalização é um processo civilizatório humano-
genérico prenhe de promessas de uma nova civilização humano-
genérica, profundamente frustradas pelo sistema orgânico do
capital.
Portanto, a globalização, é, ao mesmo tempo, a promessa e a
frustração de uma realização histórico-social do gênero humano e a
prova cabal de que o sistema do capital, com sua sanha incontrolável
não oferece nenhuma perspectiva de futuro para a humanidade.

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Dimensões da Globalização

A tarefa intelectual suprema, na virado do século XXI, é


resgatar, mais do que nunca, a crítica radical do capital. Na
verdade, é o capital e sua incontrolável globalização que nos
oferece a oportunidade histórica de atualizarmos a sua crítica
social radical numa perspectiva histórico-materialista e dialética.
Na segunda parte, intitulada Sociologia da Globalização,
procuramos reunir alguns ensaios que tratam de abordagens
sociológicas sobre o tema da “globalização”. Nesse caso,
salientamos leituras de um dos sociólogos brasileiros mais prolíficos
no tratamento do tema “globalização” – Octávio Ianni.
Procuramos resgatar em sua obra, particularmente no livro
Teorias da Globalização, a contribuição de Marx e Weber para
uma interpretação da globalização. O ensaio sobre Durkheim,
um dos autores clássicos da sociologia, pouco utilizado por Ianni
em suas reflexões sociológicas sobre o tema “globalização”,
procura resgatar alguma contribuição do sociólogo francês para
uma interpretação da globalização.
É lógico que, ao tratarmos dos clássicos da sociologia, ao
dizermos “globalização”, dizemos desenvolvimento do
capitalismo moderno. Nesse caso, a globalização aparece como
um momento tardio de desenvolvimento do capitalismo moderno.
Na medida em que os clássicos da sociologia tratam do
desenvolvimento do capitalismo moderno, eles têm alguma coisa
a nos dizer sobre a globalização, mesmo sabendo que, para nós,
em sua particularidade histórico-concreta, a globalização é
mundialização do capital no sentido dado por Chesnais.
Finalmente, na parte 3, Globalização e Trabalho, reunimos
alguns ensaios sobre um objeto de estudo que temos tratado nos
últimos anos (em 1999, publicamos pela Editora Práxis o livro
Trabalho e Mundialização do Capital, e em 2000, pela Editora
Boitempo, publicamos o livro O Novo (e Precário) Mundo do
Trabalho). Estamos, portanto, em nossa área de especialização.
Na verdade, são ensaios publicados em algumas revistas e que
trazem reflexões sobre a nova lógica de organização capitalista

8
Apresentação

(só compreensível a partir da mundialização do capital) e seus


impactos na objetividade e subjetividade do mundo do trabalho.
O primeiro ensaio, “Toyotismo Como Ideologia Orgânica da
Produção Capitalista”, saiu publicado na Revista Organizações
e Democracia, em 2000; o segundo ensaio, “Toyotismo e
Neocorporativismo no Sindicalismo do Século XXI” saiu publicado
na Revista Outubro, em 2001; o último ensaio, “Dimensões do
Proletariado Tardio”, saiu publicado na Revista Debate Sindical,
em 2000.
Mais uma vez, ressaltamos o caráter ensaístico do livro,
totalmente aberto a críticas e sugestões. Não poderíamos deixar
de abrir à discussão pública alguns resultados teóricos ainda
preliminares de nossa pesquisa sobre as dimensões da
globalização. É um resultado, portanto, de leituras de vários
autores, economistas, sociólogos e politicologos – nacionais e
estrangeiros, que tratam de questões pertinentes à nova lógica
do capitalismo mundial. Agradecemos, portanto, a todos aqueles
que contribuíram, de algum modo, para a nossa reflexão crítica.
Procuramos nos apropriar de tais reflexões críticas e constituir
uma interpretação dialética da “globalização” que procure
resgata-la em sua dimensão contraditória plena.

Marília, 21 de abril de 2001

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Dimensões da Globalização

“[A integração dos indivíduos conflitantes, através do trabalho


abstrato e da troca], estabelece, pois um vasto sistema comunitário
e de mutua interdependência, uma vida ativa de mortos. Este sistema
move-se daqui para lá, de modo cego e elementar e, tal como um
animal selvagem, exige rigoroso e permanente controle e repressão”

Hegel

“Hoje em dia tudo parece levar em seu seio sua própria contradição.
Vemos que as máquinas, dotadas da propriedade maravilhosa de
reduzir e tornar mais frutífero o trabalho humano, provocam a fome e
o esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recém-descobertas
se convertem por artes de um estranho malefício, em fontes de
privações. Os triunfos da arte parecem adquiridos ao preço de
qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é cada vez
maior; mas ao mesmo tempo, o homem se transforma em escravo de
outros homens ou da sua própria infâmia.”

Karl Marx

10
1

Dimensões
da
Globalização
Introdução

1
Introdução

É do nosso interesse demonstrar que a globalização é um


fenômeno sócio-histórico intrinsecamente contraditório e
complexo que caracteriza, em nossa perspectiva, uma nova etapa
de desenvolvimento do capitalismo moderno.
Procuraremos salientar que o fenômeno da globalização é
resultado de múltiplas determinações sócio-históricas (e
ideológicas), isto é, destacaremos as três dimensões da
globalização que não podem ser separadas e que compõem uma
totalidade concreta sócio-histórica, completa e integral. São elas:

1. A globalização como ideologia


2. A globalização como mundialização do capital
3. A globalização como processo civilizatório humano-genérico

Portanto, o fenômeno da globalização tende a constituir novas


determinações sócio-históricas no (1) plano da ideologia e da
política; (2) no plano da economia e da sociedade e (3) no plano
do processo civilizatório humano-genérico, vinculado ao
desenvolvimento das forças produtivas humanas.
O que significa dizermos que tais dimensões da globalização
compõem uma totalidade histórico-social intrinsecamente
contraditória?
As dimensões da globalização são contraditórias entre si, tendo
em vista que, como iremos salientar, a ideologia (e a política)
da globalização tende a “ocultar” e legitimar a lógica desigual e
excludente da mundialização do capital e a mundialização

13
Globalização Como Ideologia

do capital tende a impulsionar, em si, o processo civilizatório


humano-genérico, isto é, o desenvolvimento das forças
produtivas humanas, que são limitadas (ou obstaculizadas)- pelo
próprio conteúdo da mundialização (ser a mundialização do
capital).
Qualquer leitura (ou análise) do fenômeno da globalização
que não procure apreender o seu sentido dialético – e portanto,
contraditório - tende a ser unilateral, não sendo capaz de ver o
fenômeno da globalização tanto como algo progressivo, quanto
regressivo, tanto como um processo civilizatório, quanto como
um avanço da barbárie, e tanto como a constituição de um “globo”
na mesma medida em que tente a contribuir para a sedimentação
de particularismo locais e regionais.

Conceitos

Seria importante recuperar o significado de alguns conceitos


tais como “globalitarismo”, “globalismo”, “globalidade” e
“glocalização”. São expressões utilizadas por alguns autores no
debate da globalização. De certo modo, procuraremos ver, em
cada um dos conceitos acima, as dimensões da globalização que
procuraremos salientar (a globalização como ideologia, a
globalização como mundialização do capital e a globalização como
processo civilizatório humano-genérico).
Globalitarismo
A idéia de regimes globalitários, utilizada por Ignácio
Ramonet no seu livro “Geopolítica do caos” (1997), procura
ressaltar o próprio sentido ideológico (e político) da globalização.
É uma noção que diz respeito, principalmente, a globalização como
ideologia. Na verdade, é um termo cunhado para ser utilizado
como uma contra-ideologia da globalização, ou melhor, contrapor-
se (ou justapor-se) à idéia de globalização. Ela explicita o
verdadeiro conteúdo da globalização como mundialização do
capital: o totalitarismo do mercado.

14
Introdução

Portanto, a idéia de globalitarismo expressa uma crítica


visceral à globalização como ideologia do império universal do
Ocidente (Del Roio, 1998). Ela surge para se contrapor (ou expor)
a globalização como a ideologia e a política de um novo
totalitarismo. Não o totalitarismo do Estado, que caracterizou
os regimes fascistas dos anos 30, mas um totalitarismo do
mercado, do “pensamento único”, expressão utilizada para
caracterizar o pensamento neoliberal, que é divulgado pelos
aparatos de mídia e pelas políticas levadas a cabo pelos governos
liberais (o jornal Le Monde Diplomatique, onde Ramonet é
jornalista, é um dos principais órgãos de crítica da globalização).
Vejamos com atenção a idéia de um totalitarismo de mercado,
implícita no conceito de regimes globalitários. Diz Ramonet:

Há pouco tempo, denominava-se ‘regimes totalitários’ os


que tinham partido único, não admitiam qualquer oposição
organizada e, em nome da razão de Estado, negligenciavam
os direitos da pessoa; além disso, neles, o poder político
dirigia soberanamente a totalidade das atividades da
sociedade dominada. A esses regimes, característicos dos
anos 30, sucede, neste final de século, um outro tipo de
totalitarismo, o dos ‘regimes globalitários’. Apoiando-se
nos dogmas da globalização e do pensamento único, não
admitem qualquer outra política econômica, negligenciam
os direitos sociais do cidadão em nome da razão competitiva
e abandonam aos mercados financeiros à direção total das
atividades da sociedade dominada (Ramonet, 1998)

A longa citação serviu para expor, com clareza, a idéia de


globalitarismo como sendo o totalitarismo do mercado que
sucede ou se justapõe a um outro tipo de totalitarismo, o de
Estado.
Numa época em que se dissemina pelo Ocidente a idéia de
democracia política, de que todos nós vivemos em regimes
democráticos, plenamente legitimados pelo sufrágio universal, a
idéia de um novo totalitarismo talvez possa soar como algo

15
Globalização Como Ideologia

estranho.Mas o totalitarismo da globalização não se dá mais sob


a direção do Estado, mas sim da economia:

O Estado deixou de ser totalitário, enquanto, na era da


mundialização, a economia tende cada vez vir a sê-lo
(Ramonet, 1998)

Deste modo, para ele, a globalização oculta o totalitarismo da


economia, o que não é novidade, tendo em vista que é próprio do
modo de produção capitalista o primado da economia sobre
quaisquer outras esferas da vida social.
Só que, talvez seja isto que Ramonet queira destacar, sob a
globalização, o primado da economia aparece com mais vigor, tal
como um totalitarismo de mercado que neutraliza os próprios
avanços da democracia no Ocidente.
A idéia de globalitarismo supõe a debilidade estrutural dos
Estados. Sob o regime globalitário, os Estados não têm meios de
se opor aos mercados. A globalização liquidou o mercado
nacional, que é um dos fundamentos do poder do Estado-nação.
A globalização, sustentada por regimes globalitários, isto é,
governos que promulgaram o monetarismo, a desregulamentação,
o livre-comércio, o livre fluxo de capitais e as privatizações
maciças, tenderam a diminuir o papel dos poderes públicos.
Veja bem: a globalização é, portanto, resultado, nessa
perspectiva, de regimes globalitários, de dirigentes políticos que
permitiram, através de atos políticos, a transferência de decisões
capitais (em matéria de investimento, emprego, saúde, educação,
cultura, proteção do meio ambiente) da esfera pública para a
esfera privada.
Foram os políticos liberais e conservadores que permitiram a
privatização da coisa pública, contribuindo para que algumas
decisões importantes para a vida social passasem para as mãos
da economia privada.
Quando dizemos economia privada, dizemos mercado, que é
representado (e determinado) pelas empresas, conglomerados e

16
Introdução

corporações transnacionais. A vida social, deste modo, passa a


ser mais determinada ainda pela esfera privada que não possue
nenhum compromisso social, nem preocupação com a qualidade
do emprego, saúde, educação, cultura e meio ambiente, mas
apenas com a quantidade de riqueza abstrata, ou dinheiro, que é
acumulada por tal atividade de negócio.
Ramonet destaca o poder das corporações transnacionais que
são, para ele, as principais beneficiárias dos regimes globalitários.
Por exemplo: atualmente, entre as duzentas primeiras economias do
mundo, mais da metade não são países, mas empresas:

O volume de negócios da General Motors é mais elevado do


que o produto nacional bruto (PNB) da Dinamarca; o da
Ford é mais importante do que o PNB da África do Sul; e o
da Toyota supera o PNB da Noruega (Ramonet, 1998)

Ramonet ressalta algo que iremos desenvolver mais adiante,


ao tratarmos da globalização como mundialização do capital. Diz
ele que uma Ford, Toyota ou General Motors, por exemplo,
pertencem ao campo da economia real, isto é, produz e troca
bens e serviços concretos. Mas, nos últimos trinta anos, os “novos
senhores da globalização” são os gestores do mercado financeiro,
os fundos de pensão e os fundos comuns de investimentos que
dominam os mercados financeiros e que movimentam, por dia,
trilhões de dólares. Na verdade são eles que, em linguagem de
especialista, a imprensa econômica denomina “os mercados”:

Do mesmo modo que os grandes bancos ditaram, no século


XIX, qual deveria ser a atitude de numerosos países, ou
como as empresas multinacionais procederam entre os anos
60 e 80, daqui em diante os fundos privados dos mercados
financeiros detêm em seu poder o destino de muitos países.
E, em certa medida, o destino econômico do mundo.

Ramonet continua destacando (em 1997, portanto, pouco


antes da crise asiática):

17
Globalização Como Ideologia

Que, amanhã, [os fundos privados dos mercados


financeiros] cessem de ter confiança na China (onde os
investimentos estrangeiros diretos atingiram, em 1994, US$
32 bilhões) e, como se fossem peças de dominó, os países
mais expostos (Hungria, Argentina, Brasil, Turquia, Tailândia,
Indonésia...) veriam os capitais se retirar sob o impacto do
pânico, provocando sua falência e a falência do sistema
(Ramonet, 1998)

Ao apresentarmos a globalização como mundialização do


capital iremos nos aprofundar no aspecto da mundialização
financeira, que, pode ser considerada um traço fundamental (e
fundante) da globalização.
Deste modo, regimes globalitários são regimes políticos que
“assasinaram” a política, concebida como gestão da coisa pública,
em prol do poder do mercado, dos grupos multinacionais que
dominam setores importantes da economia dos Estados do Sul –
tais como o Brasil e, inclusive, do Norte.
A globalização e a desregulamentação da economia, levada
a cabo pelos regimes globalitários, favoreceram a emergência
de novos poderes que, com a ajuda das novas tecnologias da
informática e da telemática, transbordam e transgridem,
incessantemente, as estruturas estatais.
Para Ramonet, portanto, a idéia de globalitarismo diz respeito
a um regime político que contribui para a dissolução do poder do
Estado e da esfera pública (em prol do mercado e da esfera
privada). O que se denomina “mercado” corresponde às
empresas, conglomerados e corporações transnacionais e,
principalmente, o mercado financeiro que possui como principal
gestor não apenas os bancos, mas os fundos de pensão e os
fundos mútuos de investimentos, americanos e japoneses.
A idéia de globalitarismo diz respeito a um regime político
que incentiva o livre comércio – um dos dogmas neoliberais,
sustentados pelas políticas da OMC. Ao dizer livre-comércio,

18
Introdução

queremos dizer o livre fluxo de capitais, de investimentos e de


bens e serviços (a “trindade” neoliberal) (Cassen,1999).
Ao tratarmos da ideologia (e da política) neoliberal no tópico
da globalização como ideologia, iremos nos aprofundar nessa
caracterização do globalitarismo. O que precisa ser ressaltado é
que, para os críticos da globalização neoliberal (termo
comumente utilizado) o livre-comércio de dinheiro e mercadorias
dissolve não apenas o Estado-nação, mas, como iremos destacar
logo mais, a cultura dos povos.
É claro que a multiplicação incrível das trocas e dos fluxos
comerciais e financeiros que ocorreu nos últimos trinta anos teve
o apoio decisivo das revoluções tecnológicas nas comunicações
e transportes, principalmente a informática e telemática. Tudo
isso contribuiu para a interpenetração dos mercados industriais,
comerciais e financeiros (o que coloca, segundo Ramonet,
problemas para a própria natureza da empresa capitalista global).
Portanto, além do “assassinato da política” e da dissolução
da democracia republicana e do Estado-nação em prol do
totalitarismo dos mercados, a idéia (e a realidade) da globalização
oculta o “assassinato” da diversidade cultural, tendo em vista
que a ideologia da globalização tende a dizer respeito a um
processo de mercantilização universal que homogeneíza tudo
– “o álibi da modernidade serve para dobrar tudo sob o implacável
nível de uma estéril uniformidade” (Ramonet, 1998:47).
Deste modo, sob o globalitarismo tende-se a constituir uma
cultura global sedimentada pelo livre-comércio. O principal
responsável, se poderíamos dizer assim, pela dissolução cultural
dos povos numa world culture é, na perspectiva dos críticos
republicanos da globalização cultural, o livre-comércio:
Um estilo de vida semelhante se impõe de um extremo ao
outro do planeta, divulgado pela mídia e prescrito pela
intoxicação da cultura de massa. De La Paz a Ouagadougou,
de Hyoto a São Petersburgo, de Oran a Amsterdam, mesmo
filmes, mesmas séries de televisão, mesmas informações,
mesmas canções, mesmos slogans publicitários, mesmos

19
Globalização Como Ideologia

objetos, mesmas roupas, mesmos carros, mesmo urbanismo,


mesma arquitetura, mesmo tipo de apartamentos, muitas
vezes, mobiliados e decorados de maneira idêntica...

E destaca o outro sentido do globalitarismo:

Nos quarteirões abastados das grandes cidades do mundo, o


requinte da diversidade cede o lugar a fulminante ofensiva da
padronização, da homogeneização, da uniformização. Por toda
parte, triunfa a world culture, a cultura global (Ramonet, 1998)

É claro que alguém poderia contra-argumentar que em outras


épocas históricas, como durante o Império Romano, ou ainda,
durante os vários impérios do Ocidente, até o século XIX,
inclusive sob o império Otomano no Oriente, a disseminação da
cultura imperial pelas bordas dominadas era algo comum.
Mas, o que é perceptível com a globalização neoliberal, que
assume proporções inéditas e ocorre numa velocidade
impressionante, é o caráter totalitário da imposição cultural (e
não apenas cultural, mas política, tendo em vista que a idéia de
globalitarismo é intrinsecamente política):

Na história da humanidade, nunca práticas características de


uma cultura tinham chegado a se impor, de uma forma tão rápida,
como modelos universais. Modelos que são também políticos
e econômicos; a democracia parlamentar e a economia de
mercado – fórmulas que estão sendo aceitas, quase por toda
parte, como atitudes “racionais”, “naturais” – participam, de
fato, da ocidentalização do mundo (Ramonet, 1998:48)

Na medida em que a globalização tende a reduzir tudo à lógica


mercantil, a tornar o mundo (e o pensamento) unidimensional,
instaura-se um novo totalitarismo, que, inclusive, inibe o
pensamento a pensar em alternativas para além do mercado.

20
Introdução

Não é à toa que se proclamou no início da década de 1990 o “fim


da história” e até o “fim das utopias”. Tais manifestações ideológicas
são expressões do globalitarismo que destila, no plano das práticas e
pensamentos, a ditadura e tirania do mercado, que aparece como
um deus ex machina, todo-poderoso, único capaz de contribuir para
o progresso dos povos rumo à modernidade.
É por ser produto ideológico de regimes globalitários que a
idéia de globalização aparece para o senso comum como algo a
qual todos nos devemos nos submeter e nos adaptar e não
impor resistência ou buscar alternativas. Este é o sentido do
discurso do globalitarismo que se inscreve nas falas de políticos,
empresários, jornalistas e intelectuais dos mais diversos espectros
político-ideológicos.
Deste modo, o que apresentamos através da idéia de
globalitarismo é uma vertente da crítica da globalização como
ideologia (e principalmente como política). É uma crítica
republicano-democrática radical, muito arraigada na inteligentsia
francesa de esquerda, que tende a salientar o livre-comércio como
a expressão do mal que atinge a civilização moderna. É o livre-
comércio que degrada a coesão social, moral e política dos povos
ocidentais, tendo em vista que os “regimes globalitários” atentam
contra o Estado-nação, o mundo do trabalho, a ecologia e o sistema
cultural-nacional.
Alguém poderia perguntar: o que é, portanto, o globalitarismo?
Diremos: o globalitarismo é a visão negativa da globalização, é
a globalização como ideologia negativa, como totalitarismo do
mercado. Mas qual seria a visão positiva da globalização, a
sua ideologia positiva?
Um termo utilizado para caracterizar a ideologia positiva
da globalização é globalismo. Ele sintetizaria o que a globalização
diz ser e como ela é abordada pelo pensamento neoliberal.
Nos interessa apresentar aqui, um concepção da idéia de
globalismo apresentada pelo sociólogo alemão Ulrich Beck. Depois,
apresentaremos uma outra visão da idéia de globalismo que é
totalmente diversa da apresentada por Beck (a idéia de globalismo

21
Globalização Como Ideologia

apresentada pelo sociólogo brasileiro Octávio Ianni). São aspectos


diversos do globalismo – como iremos ver, Beck destila o caráter
apologético da idéia de globalismo, o caráter positivo da globalização
como ideologia; enquanto Ianni nos apresenta o caráter sociológico
e fenomenológico do conceito de globalismo.

Globalismo

A idéia de globalismo, segundo Beck, entre outros, diz respeito à


ideologia da globalização. Não possui o sentido crítico (e negativo)
da noção de globalitarismo. Traduz apenas a idéia de ideologia (ou
política) da globalização, uma “ideologia positiva” da globalização.
Globalismo possui um significado totalmente diferente das
idéias de globalização ou globalidade. Globalismo diz respeito
a ideologia do império do mercado mundial, a ideologia do
neoliberalismo. A idéia de globalismo, segundo Beck, é uma
concepção “ideológica” da globalização e da globalidade que tende
a reconhecer a morte da política diante da nova situação do
mundo global (nesse caso, só cabe a nós nos adaptarmos à
globalização). O mercado mundial bane ou substitui, ele mesmo,
a ação política. A política não possue mais local ou sujeito e a
sua tarefa primordial se perdeu de vista.
O “encanto despolitizado do globalismo”, expressão utilizada
por Beck, tende a ver a globalização e a globalidade como algo
restrito ao aspecto econômico, reduzindo sua pluridimensionalidade
a uma única dimensão: a econômica.
A globalização e a globalidade são pensadas de forma linear
e deixa todas as outras dimensões (relativas à ecologia, às culturas,
à política e à sociedade civil) sob o domínio subordinador do
mercado mundial (Beck, 1999) .
Na verdade, a visão do globalismo liquida uma distinção
fundamental, a distinção entre economia e política. Para Beck, a
política, sob a primeira modernidade, teve (e ainda tem) um
papel primordial:

22
Introdução

... delimita e estabelece as condições para os espaços


jurídicos, sociais e ecológicos, dos quais a atuação da
economia depende para ser socializada e tornar-se legítima
(Beck, 1999).

Ao dizermos que a política para Beck ainda tem um papel


primordial, precisamos dizer que, com a globalidade e a
globalização, como iremos ver mais adiante, a política precisa
ser reinventada e reformulada. Antes de mais nada, Beck
distingue dois momentos da modernidade – a primeira
modernidade, que parece ter o seu clímax sob o Estado social
do pós-guerra, e a segunda modernidade, que surge a partir da
crise capitalista dos anos 70 e que alguns críticos da modernidade
acusam como sendo a pós-modernidade.
Portanto, não é que Beck exclua a política na segunda
modernidade, como faz o globalismo, mas ele concebe que ela,
tal como se constituiu na primeira modernidade, sob os auspícios
do Estado nacional e territorial, perdeu seu lugar. Suas respostas
às questões da segunda modernidade, diz ele, tornaram-se
contraditórias e inadequadas.
Na segunda modernidade, por outro lado, sob as condições
da globalização e da globalidade, impõm-se o imperialismo da
economia. Beck salienta que a economia de atuação global tende
a “derreter” a soberania do Estado nacional e a excluir a política
do quadro categorial do Estado nacional e até mesmo excluir o
papel esquemático daquilo que se entende por ação política ou
não-política.
O Estado nacional e o sistema político perdem seus recursos.
Por exemplo, o recolhimento de impostos e sua autoridade. Mas
Beck salienta que isto não diz respeito apenas a dimensão econômica:

...uma imensa variedade de lugares conectados entre si cruza


suas fronteiras territoriais, estabelecendo novos círculos

23
Globalização Como Ideologia

sociais, redes de comunicação, relações de mercado e formas


de convivência (Beck, 1999)

A crise do Estado nacional é uma condição da globalização


e da globalidade. Só que a ideologia do globalismo tende a reduzir
esta nova situação em que está o mundo (que ele tende a
caracterizar como sendo uma sociedade mundial), apenas à
dimensão econômica, reduzi-la, portanto, apenas a uma dimensão:
a da ótica do mercado mundial. A partir daí, o globalismo reduz
as lógicas particulares da globalização da ecologia, da cultura e
da sociedade civil, à lógica da economia de mercado. Perde-se
de vista a pluridimensionalidade da globalidade.
Por outro lado, a idéia de globalismo assume um outro sentido
sociológico na visão de Octávio Ianni. Para ele, globalismo é um
conceito sociológico para caracterizar

uma configuração histórico-social no âmbito da qual se


movem os indivíduos e as coletividades, ou as nações e as
nacionalidades, compreendendo grupos sociais, classes
sociais, povos, tribos, clãs e etnias, com as suas formas
sociais de vida e trabalho, com as suas instituições, os seus
padrões e os seus valores (Ianni, 1996)

Portanto, o globalismo é uma configuração histórico-social


abrangente, “surpreendente e determinante”, uma totalidade
histórica e teórica complexa, contraditória, problemática e aberta,
uma totalidade heterogênea, simultaneamente integrada e
fragmentária, “um novo ciclo da história quando esta se
movimenta como história universal”, uma

configuração geo-histórica original, dotada de


peculiaridades especiais e de movimentos próprios, que se
pode denominar de global, globalizante, globalizada ou
globalismo (Ianni, 1997).

24
Introdução

O globalismo inaugura um novo ciclo da história porque, como


salientamos, a história passa a se movimentar como história
universal:

No passado, inclusive, nos tempos do Iluminismo e por todo


o século XIX, a história universal podia ser vista
principalmente como idéia, ficção ou utopia. No século XX,
e cada vez mais ao longo desse século, a história universal
se revela real, um imesno e impressionante cenário, ainda
que como Babel e labirinto (Ianni, 1997)

Apesar de dizer que o globalismo se constitui ao longo do


século XX, Ianni salienta que ele, o globalismo, subsume histórica
e teoricamente o imperialismo.

Trata-se de duas configurações histórica e teórica distintas.


Podem ser vistas como duas totalidades diferentes, sendo
que uma é mais abrangente que a outra. O globalismo pode
conter vários imperialismos, assim como distintos
regionalismos, muito nacionalismos e uma infinidade de
localismos. Trata-se de uma totalidade mais ampla e
abrangente, tanto histórica como lógica (Ianni, 1997).

Para Ianni, o globalismo não se reduz ao neoliberalismo e


muito menos se expressa apenas nessa ideologia. O globalismo
tanto compreende o neoliberalismo como o socialismo. Deste
modo , Ianni resgata o globalismo como o resultado sócio-histórico
do processo de globalização que modifica mais ou menos
radicalmente realidades conhecidas e conceitos estabelecidos.
O globalismo, tal como o mercantilismo, o colonialismo e o
imperialismo, é uma história que acompanha o desenvolvimento
desigual e combinado do capitalismo pelo mundo afora, como
modo de produção e processo civilizatório.
Trata-de de uma realidade social, econômica, política e cultural
de âmbito transnacional, que em geral modifica o lugar e o
significado do que preexiste: “Tudo que é local, nacional e regional

25
Globalização Como Ideologia

recebe o impacto da transnacionalização.” Com o globalismo


passa-se a se desenvolver a sociedade global, um “cenário não
só problemático, mas contraditório” (Ianni, 1997).

Globalidade

Como vimos, a idéia de globalismo para Beck é totalmente


negativa e não pode ser confundida com a globalização e
globalidade. A idéia de globalidade, utilizada por Beck, no seu
livro O Que é Globalização, diz respeito a própria condição da
globalização, ou seja, àquilo que denominamos não apenas de
mundialização do capital, mas de processo civilizatório humano-
genérico, um processo sócio-histórico contraditório e avassalador,
de instauração de uma nova economia e sociedade modernas .
É claro que Beck amplia o próprio sentido da globalidade,
abrangendo não apenas a dimensão da economia global, mas
principalmente as dimensões da cultura, da ecologia, da política
e da sociedade civil. Para Beck, globalidade é a situação do mundo
sob a segunda modernidade, onde tende a se constituir uma
sociedade mundial, “o conjunto de relações sociais, que não estão
integradas à política do Estado nacional ou que não são
determinadas (ou determináveis) por ela”. Beck diria mais
adiante: “a vida e a ação cotidiana ultrapassam as fronteiras do
Estado nacional com o auxilio de redes de comunicação interativas
e interdependentes”(Beck, 1999).
Globalidade é uma situação do mundo em que todas as
descobertas, triunfos e catástrofes afetam a todo o planeta, e
que devemos redirecionar e reorganizar nossas vidas e nossas
ações em torno de um eixo global-local. Se globalidade é a
nova condição humana, globalização seria

os processos, em cujo andamento os Estados nacionais


vêem a sua soberania, sua identidade, suas redes de
comunicação, suas chances de poder e suas orientações
sofrerem a interferência cruzada de atores transnacionais.

26
Introdução

É um processo irreversível e dialético que

produz conexões e os espaços transnacionais e sociais, que


revalorizam culturas locais e põem em cena terceiras
culturas...(Beck,1999)

É um processo que possui uma especificidade histórica, o


que significa que o que ocorre hoje não é o mesmo o que ocorreu
na Europa desde o século XVI. A globalização que está em curso,
diz Beck,

... consiste na extensão, na densidade e na estabilidade


recíproca – que ainda está por ser comprovada empiricamente
– das redes relacionais regionais globais e sua autodefinição
dos meios de comunicação de massa, bem como do espaço
social e das correntes icônicas nos domínios culturais,
político, econômico e militar (Beck, 1999).

A constituição de uma sociedade mundial decorre da


globalização, uma sociedade mundial que é “um horizonte que se
caracteriza pela multiplicidade e pela não-integração, diversidade
sem unidade, sociedade mundial sem Estado mundial e sem
governo mundial”. Pelo visto, Beck tende a opor, de um lado, a
idéia de globalismo e de outro, as idéias de globalidade e
globalização. Poderíamos até dizer que, para ele, o globalismo é
a própria ideologia do neoliberais (“os desmontadores do
Ocidente”).

Glocalização

O conceito de glocalização, utilizado por sociólogos, diz


respeito a uma nova forma de ver a globalização, compreendida
mais em suas articulações entre o local e o global e não apenas
na dimensão global.

27
Globalização Como Ideologia

Na verdade, glocalização é um conceito-alternativo à noção de


globalização, tendo em vista que discorda da idéia de globalização
como um processo de negação do local pelo global (o conceito de
glocalização articula as noções de local e global). O local e o global
não se excluem. Pelo contrário: o local deve ser compreendido
como um aspecto do global (Robertson, 1999).
De certo modo, a utilização do conceito de glocalização tende
a ocorrer nas análises da cultura diante das transformações do
capitalismo mundial. Por isso, observa Beck, comentando o
conceito de glocalização:

Globalização quer também dizer: a conjunção e o encontro


de culturas locais que deverão ainda ser conceitualmente
redefinidas em meio a este clash of localities (Beck, 95)

A importância do conceito de glocalização é promover uma


renovação metodológico-pragmática da compreensão do processo
de globalização apreendido em seus aspectos contingentes e
dialéticos, contraditórios em sua própria unidade. Deste modo,
seriam indissociáveis, por um lado, a generalização e a unificação
de instituições, simbolos e modos de vida (por exemplo,
McDonald’s, blue jeans, democracia, tecnologia de informática,
bancos, direitos humanos, etc) e, por outro lado, a redescoberta
e a valorização, e mesmo a defesa das culturas e das identidades
locais (islamização, pop alemão e rai norte-africano, o carnaval
africano em Londres ou a salsicha branca do Havaí). Como
observa Beck, utilizando o exemplo dos direitos humanos,

...estas culturas [locais - G.A.], bem como todas as outras,


estão em primeiro lugar representando direitos universais e
que, em segundo lugar, são representadas e postas em cena
diferentemente conforme cada contexto (Beck, 96)

Nesse sentido, pode-se falar de paradoxos de culturas glocais,


onde mesclam-se como unidades contraditórias universalismo e

28
Introdução

particularismo, conexão e fragmentação, centralização e


descentralização, conflito e compensação.
O conceito de glocalização recupera a contraditoriedade
intrínseca à própria globalização, criticando, portanto, uma
ideologia da globalização que tende a concebe-la meramente
como um processo sócio-histórico “globalista” e homogêneo.

29
Dimensões da Globalização

2
A Globalização Como Ideologia

A
ideologia da globalização, tal como nós a
conhecemos hoje, surgiu (e se impulsionou) a
partir da mundialização do capital ocorrida a partir
da década de 1980. É só a partir de uma nova etapa de
desenvolvimento do capitalismo mundial, que a idéia de
globalização, com todos seus aspectos impressionistas, por
exemplo, as idéias de “aldeia global” ou de “sociedade global”,
tendeu a adquirir um conteúdo sócio-histórico concreto mais
desenvolvido e a constituir uma ideologia orgânica elaborada.
Com o desenvolvimento da mundialização do capital, o que
podemos denominar de ícones impressionistas da globalização
deixaram de ser uma mera projeção ideológica contingente e
residual, para assumir um substrato concreto efetivo.
O que procuraremos ressaltar é que a globalização se constituiu
através de uma operação ideológica que tendeu a ocultar a sua
natureza histórica e política de mundialização do capital.
O nexo essencial da ideologia da globalização é apresentar um
processo sócio-histórico concreto constituido através da luta de
classes, como um processo natural, de uma “segunda natureza”, a
qual todos nós, inclusive governos, somos obrigados a nos submeter.
De certo modo, a globalização tende a ser apresentada como um
processo homogêneo e homogeneizador que conduz ao progresso
e ao bem-estar universal, à globalização da democracia e à
desaparição progressiva do Estado-nação.Tais caracteristicas
da globalização, dissiminadas através dos aparatos midiáticos do

30
Globalização Como Ideologia

sistema orgânico do capital, são meras incrustações do que


consideramos a ideologia da globalização.
Em primeiro lugar, a globalização não é um processo homogêneo
e homogeneizador. Pelo contrário, é desigual e combinado, seletivo
e excludente, o que significa que ela não conduz ao progresso e ao
bem-estar universal. Na verdade, tende a acentuar a desigualdade,
a exploração e a exclusão universal.
Em segundo lugar, se a globalização tende a dissiminar através
do globo uma forma anódina de democracia política, reduzida a
seus protocolos jurídico-institucionais restritos, essa forma política
de democracia oculta, sob um poderoso aparato estatal-midiático,
a espoliação de direitos sociais e o desmonte do Estado-nação.
Sob as condições adversas da pressão social das massas excluídas
e exploradas, a forma política da democracia global tende a
expressar seu conteúdo autocrático-burguês.
A globalização da democracia segue, pari passu, o
aprofundamento da crise de legitimidade (e não apenas de
governabilidade) do Estado capitalismo sob as condições da
mundialização do capital.
Finalmente, ao contrário do mero desaparecimento do Estado-
nação, o que observamos é sua metamorfose politico-institucional,
num aparato burocrático-centralizado de dominação (e
reprodução) do capital global concentrado. A globalização tende
a criar um Estado mínimo para as necessidades das massas
populares excluidas e exploradas e constituir um Estado máximo
para os interesses de reprodução e acumulação do capital
financeiro global.
Deve-se falar não meramente de um Estado-nação burguês,
principalmente para os países capitalistas subalternos, mas de
um sistema mundial inter-estatal capitalista cada vez mais
“orgânico” tendo em vista que, com a mundialização do capital,
surge um nova elite capitalista desterritorializada - uma burguesia
transnacional comprometida com os interesses do novo sistema
mundial do capital financeiro.

31
Dimensões da Globalização

O sistema mundial inter-estatal capitalista, que poderia ser


apreendido como um rudimentar Estado global do capital financeiro,
com seus tentáculos tecnocrático-institucionais (tais como FMI, Banco
Mundial, OMC, etc), é a expressão político-institucional do que
Chesnais veio a denominar de oligopólio mundial. Na verdade, a
globalização como mundialização do capital é um construto político
de políticas estatais-nacionais à serviço dos interesses das empresas,
conglomerados e corporações transnacionais, a “espinha-dorsal” do
oligopólio mundial (Chesnais, 1995).
Além das caracteristicas principais da ideologia da globalização,
apresentadas logo acima, é importante salientar alguns de seus
traços essenciais:
1. Possui uma série de ícones impressionistas, ligadas ao
próprio desenvolvimento do capitalismo e de suas forças produtivas
(é o que observamos com as idéias de “aldeia global” ou mesmo de
“sociedade global” e “cultura global”) e que marcaram a pré-história
da ideologia da globalização.
2. A ocultação de seu caráter sócio-histórico, o que implica
na operação linguistico-conceitual de toda e qualquer ideologia (des-
historizar e ocultar o caráter de classe e de luta de classe intrinseco
a todo o processo sócio-histórico moderno).
3. A impressão de um conteúdo economicista/naturalista,
que permite apreender a globalização meramente como um resultado
da evolução civilizatória, a qual todos nós devemos nos submeter e
apenas nos adaptar.

Ícones impressionistas do novo capitalismo mundial

É possivel dizer que antes do surgimento e desenvolvimento da


ideologia da globalização propriamente dita, ocorrida em meados
dos anos 80, tendeu a se disseminar sob o capitalismo mundial do
pós-guerra, uma série de impressões conceituais que indicavam a
possibilidade de constituição de um “um mundo só” ou de um

32
Globalização Como Ideologia

globo. Surgem, de certo modo, as idéias de “aldeia global” e mesmo


de “sociedade global” e “cultura global”:

A partir dos anos 80, o anglicismo globalização domina o


discurso de marketólogos da economia e da política, apesar de
que essa ‘invenção’ data do final dos anos 60 (Castro, 1999)

Por exemplo, é de 1968 o livro Guerra e paz na aldeia global,


de Marshall McLuhan, um dos profetas da telemática. Os avanços
das transmissões ao vivo pelas redes de TV nos Estados Unidos,
tendeu a anunciar para Mcluhan o surgimento de uma “aldeia global”.
É a realidade dos novos meios de comunicação, que tendiam a criar
para milhões de espectadores, uma nova realidade virtual, que
impressionou McLuhan a sugerir a idéia de uma”aldeia global”,
expressão que veio a se dissiminar e caracterizar uma possibilidade
concreta posta pelo desenvolvimento da telemática e das
telecomunicações a partir dos anos 70.
Um outro autor que contribuiu para dissiminar mais um ícone
impressionista da globalização, na pré-história da ideologia da
globalização, é o politólogo, diretor do Instituto de Pesquisa sobre
o Comunismo, da Universidade de Columbia, conselheiro de
Segurança Nacional do Governo Carter e que criou a Comissão
Trilateral: Zbigniew Brzezinski, autor de A revolução
tecnotrônica (de 1969). É de Brzezinski a utilização das idéias
de sociedade global e cidade global para designar um novo
tipo de habit humano permeado pelas redes tecnotrônicas (a
conjugação de computador, TV e computadores) (Castro, 1999).
O modelo de sociedade global, para Brzezinski, são os
Estados Unidos, a principal força propulsora da revolução
“tecnotrônica” mundial:

É isso porque, primeiro, são o ponto de partida de ‘65% de


todas as comunicações mundiais’; segundo, porque com a
venda de produtos das suas indústrias culturais, junto à
exportação de ‘tecnologias, de procedimentos e de sistemas

33
Dimensões da Globalização

organizacionais’, os EUA oferecem ao mundo o ‘único modelo


global de modernidade’ com os correspondentes ‘padrões de
comportamento e valores universais (Castro, 1999).

Portanto, como podemos observar, os ícones impressionistas


da globalização, que se disseminaram a partir dos anos 60, tenderam
a ter como substrato concreto imediato, a III Revolução Tecnológica,
cujo epicentro são os EUA e que impulsionou o desenvolvimento
das redes de telecomunicações e da telemática. A exuberância do
mundo sócio-técnico ocorrida no século XX tendeu a criar seus
ícones impressionistas, além de determinar as possibilidades concretas
de desenvolvimento do processo civilizatório humano-genérico.
Entretanto, cabe salientar que a globalização em-si possui como
próprio conteúdo sócio-histórico, o americanismo (o espírito da
dominação dos EUA no século XX). É através dele que podemos
apreender o conteúdo dos ícones impressionistas (e pré-históricos)
da ideologia da globalização propriamente dita.
Foi através da política de hegemonia cultural americana,
principalmente com a presença da indústria cultural americana
dissiminada atráves das redes teletrônicas e da constituição das
empresas multinacionais globais americanas, que disseminou-se
a idéia de uma sociedade global ou de uma cultura global,
antes mesmo que a ideologia da globalização propriamente dita
viesse a se constituir.
Além disso, a idéia de uma política global, levada a cabo
pelo Departamento de Estado americano nas circunstâncias da
Guerra Fria contribuiu sobremaneira, em vários aspectos, para a
construção de uma idéia impressionista (e rudimentar) de
globalização. Não apenas enquanto realização da política
imperial do EUA no Ocidente através da suas articulações políticas,
ideológicas e militares anti-comunistas na América Latina, África
e Ásia, mas inclusive no sentido tecnológico, tendo em vista que
foi através do apoio do Departamento de Estado americano que
ocorreram avanços significativos na telemática e na teletrônica

34
Globalização Como Ideologia

(por exemplo, a Internet, que veio a se disseminar sob a


globalização, originou-se de um projeto militar americano) que
iriam constituir o substrato tecnológico-material da globalização
propriamnete dita.
Portanto, por um lado, ocorre, a partir dos anos 60, a
constituição de uma economia mundial, através da expansão
das multinacionais globais, não apenas americanas, mas
japonesas e européias. Por outro lado, uma política mundial
assumia dimensões histórico-concretas através das diversas
articulações militares, políticas e ideológicas anti-comunistas.
Ela mesma, a nova política do capitalismo mundial do pós-guerra
tendeu a anunciar a sociedade global bem antes, a partir dos anos
40, com a constituição, naquela época, dos ícones institucionais
da globalização propriamente dita, tais como ONU, FMI, Banco
Mundial e mais tarde, OTAN e todos os aparatos de política e
economia global.
Além disso, cabe salientar os resultados, ainda imaturos, da III
Revolução Científico e Tecnológica até os anos 60, principalmente
no campo da comunicação e dos transportes, imprescindiveis para
acelerar o fluxo de comércio e de informações no globo (a idéia de
aldeia global). Todos essas múltiplas determinações contribuiram
para constituir os icones impressionistas de um discurso originário
da globalização.
Até os anos 1980, o anglicismo “globalização” ainda não era
utilizado para caracterizar uma série de ícones impressionistas
de um globo que se constituiu na política, na economia e na cultura,
atingindo os mais diversos países capitalistas (e socialistas) em
maior ou menor proporção, dependendo de sua inserção no
mercado mundial. Não se dizia “globalização”, mas se dizia ONU,
FMI, Banco Mundial, OTAN, Pacto de Varsóvia, Operacão Condor,
aldeia global, sociedade global, multinacionais etc.
Ora, tais ícones impressionistas não são arbitrários, mas
possuem como lastro histórico concreto, como salientamos,
realidades políticas sócio-históricas e tecnológicas de um

35
Dimensões da Globalização

capitalismo mundial em constituição no pós-II Guerra Mundial.


Até os anos de 1980, a ideologia da globalização propriamente
dita não surgia ainda como uma realidade sócio-histórica que se
impunha, tal como ocorre nos nossos dias, tendo em vista que a
própria globalização como mundialização do capital, ainda não
tinha se constituido plenamente.
Até fins dos anos de 1970, vive-se um processo sócio-político de
intensas lutas de classes, de percursos ainda sinuosos de
reestruturação capitalista, principalmente a reeestruturação produtiva,
num bojo de crise da economia capitalistas central.
A idéia de uma “globalização” apenas transparecia através
de seus ícones impressionistas originários, não tendo ainda
dominado o discurso da mídia e dos interesses discursivos do
Ocidente, o que ocorreria com maior vigor nos anos 80.
Como iremos verificar, é só nos anos de 1980 que a globalização
como mundialização do capital iria assumir um novo sentido sócio-
histórico. A ofensiva do capital na produção adquire um caráter
sistêmico e o avanço das políticas neoliberais nos principais países
capitalistas indica um novo padrão da acumulação capitalista mundial.
Constituem-se para a prática reprodutiva capitalista uma série
de constrangimentos estruturais, no campo da gestão política da
economia dos Estados-Nação, criando amplamente as condições
para o discurso (e a ideologia orgânica) de uma globalização
inexorável a qual todos - individuos, classes, empresas e governos -
têm que se submeter, sob pena de irem à ruina no mercado mundial.
A construção do cenário da globalização, onde o discurso da
resignação liberal tendeu a adquirir um maior poder ideológico, é
antes de tudo um construto político (a vitória de coligações
políticas conservadoras em fins dos anos de 1970 e no decorrer
da década de 1980) e um construto econômico (resultado de
uma série de decisões empresariais das multinacionais globais,
sedentas em recuperar um novo patamar de acumulação
capitalista).
A crise do capital, a partir de meados dos anos de 1970, é um
dado objetivo, intrinseco a própria lógica de desenvolvimento

36
Globalização Como Ideologia

capitalista no pós-guerra. São determinadas respostas políticas e


empresariais à crise do capital que constituiu o ambiente natural
para o surgimento e desenvolvimento de uma determinada ideologia
da globalização, a partir de seus ícones impressionistas que
salientamos acima.
O que procuramos caracterizar como sendo a ideologia da
globalização assume um caráter orgânico, a partir dos anos de
1980, porque emerge um complexo sócio-histórico constituido
pelas políticas neoliberais, com o mito do mercado auto-
regulador e otimizador, e pela reestruturação produtiva, que
articularam através do anglicismo “globalização”, ou
globalization, o sentido da nova ocidentalização do mundo.
A partir daí, todos aqueles ícones impressionstas da
globalização, consituidos, principalmente, no pós-guerra, passaram
a ter um novo sentido sócio-histórico.
A III Revolução Tecnológica, com o mito do primado da
tecnologia ou da modernidade “informacional” e o mito da realidade
virtual ou da suposta unificação do tempo e do espaço na aldeia
global”, através da telemática ou teletrônica, deu o substrato
concreto originário a tal processo de constituição da ideologia da
globalização propriamente dita.

A Negação da História (e da Luta de Classes)

Apesar de ter uma origem sócio-histórica e ser um resultado


da luta de classes, a globalização como mundialização do
capital tende a ocultar suas origens. Na verdade, é uma
caracteristica essencial de qualquer construto ideológico ocultar
suas origens sócio-históricas concretas. Não poderia ser diferente
com a ideologia da globalização. É deste modo que ela - a ideologia
da globalização - contribui para o desenvolvimento e legitimação
política do próprio processo sócio-histórico (e polítco) da qual se
originou.

37
Dimensões da Globalização

Como ideologia, a globalização aparece como resultado da


evolução natural da civilização. Como proceso natural e
inexorável, a globalização só poderia ser assim e seria ociosidade
e insensatez lutar contra ela, ou melhor, querer que as coisas
sejam de outro modo. É por isso que a ideologia da globalização
supõe apenas que devemos nos adaptar e não resistir à
mundialização do capital tal como ela é.
Na medida em que a idéia de globalização aparece como
uma ideologia, ela é “ideologia orgânica” de um amplo processo
de reestruturação capitalista. É um poderoso recurso ideológico-
linguístico que instrumentaliza (e mistifica) um novo processo
sócio-histórico instaurado pela mundialização do capital. Como
observou Batista, o poder mistificador da palavra globalização

se alimenta da percepção de processos reais que dominam a


economia mundial: progresso das telecomunicações e
informática, crescente integração comercial e financeira,
internacionalização de muitos processos de produção, etc.
(Batista Jr, 1996).

Tais recursos de instrumentalização e mistificação é próprio


de todo e qualquer construto ideológico-orgânico. Mas, se a
ideologia da globalização oculta e mistifica (e ainda
instrumentaliza) é porque existe um processo sócio-histórico de
novo tipo, uma nova dimensão civilizatória mundial que não pode
ser negado e que está pressuposto como substrato sócio-histórico
concreto.
A globalização não é meramente uma ideologia, apesar de que
possua uma ideologia, ou seja, um arcabouço de crenças e práticas
políticas (e culturais) inscritas nos discursos da mídia, de políticos e
empresários e intelectuais, cujo objetivo latente (ou manifesto) é
legitimar o novo regime de acumulação mundial do capital.
Portanto, a ideologia da globalização articula-se, mas não
pode se reduzir, à ideologia neoliberal. Não pode se reduzir
porque a ideologia da globalização propriamente dita é muita mais

38
Globalização Como Ideologia

ampla e diz respeito a um processo sócio-histórico de maior


envergadura civilizatória. Diz respeito a uma percepção
ideológica de novos processos civilizatórios inscritos no
desenvolvimento capitalista. Tais processos sócio-históricos
objetivos, é claro, tendem a ser recuperados (e incorporados) por
uma ideologia (o neoliberalismo) e sua classe dominante - a
burguesia transnacional emergente.
Desde os anos de 1940, as crenças neoliberais existiam no
cenário intelectual do establishment, só que, naquela época de
expansão capitalista, o arcabouço ideológico da reprodução
orgânica do capital era totalmente outro. Em decorrência da
correlação política da luta de classes no pós-guerra (e a situação
de Guerra Fria) tendia a predominar a ideologia estatista de
cariz social-democrata (Anderson, 1994).
Foi preciso a crise capitalista nos anos de 1970, colocando
novas exigências para a reprodução orgânica do capital, e a derrota
política (e sindical) do bloco social-democrata, para que o idéario
neoliberal surgisse como a ideologia organica do sistema do
capital.
A ideologia neoliberal é a ideologia política hegemônica da
globalização originária, que tenta impor uma nova ordem capitalista
mundial centrado no mercado. Na verdade, o neoliberalismo é
um discurso, uma crença e uma prática de economia política
do capital que se desenvolve (e se potencializa e se auto-reproduz)
nos períodos históricos de maior expansão capitalista mundial. É
a crosta ideológica do próprio projeto expansionista do capital
pelo mundo ou pelo globo.
Entretanto, a ideologia neoliberal não pode ser reduzido, como
temos salientado, à seu conteúdo sócio-histórico, o próprio
movimento de expansão e desenvolvimento do capital, que,
em outros momentos históricos, se apropriou, para a sua
reprodução orgânica, do Estado e de outra ideologia orgânica (a
ideologia estatista de cariz social-democrata).
Outro aspecto a ser salientado é que a ideologia da globalização
exacerba o pensamento positivo destilado sob o capitalismo

39
Dimensões da Globalização

industrial desenvolvido. É o “pensamento unidimensional”,


caracterizado por Marcuse (em meados dos anos de 1960), que
tende a ocultar a negatividade intrinseca do real, negatividade
decorrente dos interesses antagônicos de classe e que está na
origem das lutas sociais e políticas do século XX.
Entretanto, sua capacidade de sustentação ideológica é
deveras débil, pois, o verdadeiro conteúdo da mundialização do
capital, tende a exacerbar a desigualdade, a exploração e a
exclusão social no globo. Por isso, ocorrem novas determinações
da ideologia da globalização e principalmente na ideologia
neoliberal, que tende a incorporar um verniz social-democrata. É a
pressão dos resultados sociais da globalização, que desvela o seu
conteúdo real, que cria (e recria) a ideologia da globalização.

O Novo Economicismo

A ideologia da globalização incorpora um novo economicismo


como senso comum. Na medida em que nega o processo sócio-
histórico e de luta de classes, constitui um construto de pensamento
e de idéias apropriada pelo neoliberalismo e que se impõe ao senso
comum.
Já discutimos a idéia de globalismo e de globalitarismo como
recursos ligados à ideologia da globalização, seja num aspecto
positivo ou negativo. Ao dizermos o novo economicismo
queremos dizer que a mundialização do capital tende a apresentar
o mercado como o deus ex-machina que se torna a referência
universal dos processos decisórios políticos.
Beck critica o globalismo que reduz a globalização a
concepção de que o mercado mundial bane ou substitui, ele mesmo
a ação política. Para ele, como já salientamos, o globalismo tende
a ser a expressão da ideologia da globalização na medida em que
reduz a globalidade à ideologia do mercado mundial, a ideologia
do neoliberalismo:

40
Globalização Como Ideologia

O procedimento é monocausal, restrito ao aspecto econômico,


e reduz a pluridimensionalidade da globalização a uma única
dimensão – a econômica -, que, por sua vez, é pensada de forma
linear e deixa todas as outras dimensões – relativas à ecologia,
à cultura e à sociedade civil – sob o dominio subordinador do
mercado mundial (Beck, 1998)

Mas, o que Beck apresenta como um excrescência é


expressão contraditória daquilo que ele próprio denomina de
globalidade ou globalização. A ideologia da globalização como
novo economicismo se origina do próprio modo de ser essencial
da globalização como mundialização do capital. É o capital
que se explicita como sujeito de um processo sócio-histórico amplo,
de múltiplas determinações ecológicas, culturais e sociais.
Se predomina o aspecto economômico em detrimento da
pluridimensionalidade da globalização (o novo economicismo) é
porque a globalização, antes de ser um processo civilizatório, é a
mundialização do capital. É processo civilizatório,mas é, acima
disso, mundialização do capital.
Por isso, a ideologia da globalização, com seu novo economicismo,
tende a ocultar o caráter sócio-histórico e político do processos de
globalização, ligado a interesses de classe e imposto a partir de
processos de luta política, e expressa a realidade concreta da lógica
da globalização como mundialização do capital, que submete a
sociedade em suas mais diversas instâncias à lógica da rentabilidade
universal.
Ao analisarmos a globalização como mundialização do capital
iremos verificar que o novo economicismo que surge com a
globalização expressa tão-somente a própria natureza da
globalização em-si: ser o império universal do capital, representados
pelas empresas, conglomerados e corporações transnacionais e pelos
fundos de pensão e fundos mútuos de investimentos, centralizadores
de uma imensa massa monetária sedenta de valorização.

41
Dimensões da Globalização

Ao discutirmos o novo economicismo é importante salientarmos


que, o economicismo pode ser considerado, em suas diversas
expressões sócio-culturais e ideológicas, a ideologia do século XX.
Isso é sintomático da própria natureza do processo de modernização
capitalista. Sob as condições do capitalismo desenvolvido, o
economicismo penetra não apenas a ideologia hegemônica do
capitalismo moderno, com a globalização sendo a sua expressão
mais desenvolvida, mas inclusive a ideologia contra-hegemônica da
esquerda, que, em algumas percepções analíticas, pode negar os
processos sócio-históricos e políticos da luta de classses na
constituição do em-si da globalização.
A ideologia do economicismo é o próprio éter da modernização
capitalista, que possui tanto mais eficácia ideológica na medida em
que o capitalismo como modo de vida social se desenvolve. É o
que Weber salientou como um processo de desencantamento do
mundo, de redução do mundo humano-social à processos técnicos
e economicos que tendem a serem fetichizados.
Mas, antes dele, Marx salientou o fetichismo da mercadoria
como a própria caracteristica da estrutura da sociabilidade capitalista.
O que significa que o novo economicismo, expresso pela ideologia
da globalização, é a própria expressão imanente do fetichismo das
mercadorias, que se desenvolve cada vez mais na medida em que
o próprio capitalismo, não apenas como modo de produção, mas
principalmente como modo de civilização, com suas relações sociais,
institucionais, políticas e culturais, se dissimina pelo globo.
Portanto, a crítica do globalismo, ensaiada por Beck, ressalta
bastante o caráter de novo economicismo da ideologia da globalização.
A crítica do globalitarismo, salientada por Ramonet, ressalta bastante
o caráter natural e totalitário da ideologia da globalização. Tais
abordagens criticam uma ideologia constituida e amadurecida nos
anos 80.
Mas é importante salientar que, a globalização como processo
sócio-histórico concreto (como mundialização do capital e, ao
mesmo tempo, processo civilizatório humano-genérico, conduzido

42
pelo capital) “exala” uma ideologia orgânica, que tende a surgir
e se desenvolver nos anos de 1980. É uma ideologia que possui
bases concretas sócio-históricas reais (Gramsci, 1985).
Antes tinhamos apenas ícones impressionistas que apontavam
para o que hoje criticamos como globalismo e globalitarismo. Nos
anos de 1960, tais ícones impressionistas não se impunham como
ideologia orgânica pela própria imaturidade da mundialização do
capital. Contém grãos de verdade sem constituir ainda a verdade
que apenas iria se consolidar e se desenvolver a partir dos anos de
1980, em virtude de processos sócio-históricos e luta de classes.
Dimensões da Globalização

3
Globalização Como
Mundialização do Capital

A
o abordarmos a globalização como mun-
dialização do capital procuraremos tratá-la como
um processo sócio-histórico concreto que se
desenvolve a partir das últimas décadas do século XX. É uma
nova etapa de desenvolvimento do capitalismo mundial que surge
com a crise do capital em meados da década de 1970. É nessa
época que ocorre um complexo de fenomênos sócio-históricos
de novo tipo, com a mídia tendendo, mais tarde, a apreende-los
como a “globalização”. Entretanto, é do nosso interesse investigar
a lógica essencial de tal fenomêno sócio-histórico, apreendendo
suas múltiplas determinações.
Existe uma vastíssima literatura nas ciências sociais que trata
da globalização. Na verdade, tornou-se um tema da moda
intelectual do Ocidente no fin-du-siècle, uma palavra vadia que
procura traduzir a sensação íntima da profunda mudança sócio-
histórica que vivemos, de uma suposta ruptura com um passado
que nos parece distante. Sobre a globalização, ou a pretexto dela,
disseminaram-se, principalmente a partir da década de 1990, livros,
ensaios e artigos de revistas e jornais em diversos idiomas,
principalmente o inglês. Foi a partir dos anos 70 que dissiminou-
se uma vasta literatura das ciências sociais procurando discutir a
nova constelação do capitalismo mundial, buscando descobrir
as novas significações de um capitalismo criticamente em
expansão (a idéia de crítica é intrinseca a de expansão/
desenvolvimento do sistema mundial do capital).

44
Globalização Como Mundialização do Capital

Em sua maioria, as reflexões sobre a globalização tenderam


a sucumbir a uma perspectiva impressionista, isto é, meramente
descritiva e muitas vezes não-crítica. Como permanecem
vinculadas a um horizonte metodológico positivista, tendem a não
elaborar o conceito e se rendem à ideologia da globalização,
desrespeitando, portanto, seu conteúdo intrinsecamente histórico-
dialético.
O nosso intuito é tão-somente indicar alguns elementos para
uma teoria dialética da globalização, que reconheça, como seu
nexo essencial, a contradição sócio-histórica em processo.
Estamos nos utilizando de autores do campo histórico-dialético
para construir uma proposta de investigação da globalização que
seja capaz de incorporar as mais diversas contribuições das
ciências sociais.
Existe um debate acirrado sobre a globalização. Por um lado,
o debate circunscreve-se em torno da questão de saber se a
globalização representa ou não uma nova dimensão sócio-
histórica do capitalismo mundial, uma nova época histórico-social
do processo civilizatório. Por outro lado, discute-se a própria
natureza da globalização, se ela representa uma nova etapa de
desenvolvimento do capitalismo mundial, ou seja, uma “ruptura”
com o dinamismo capitalista do passado, como podemos
caracterizar suas conexões essenciais.
Para alguns autores, não haveria nada de novo com a
globalização. Ela apenas reproduziria dinâmicas de expansão
capitalista do passado, tais como as que ocorreram na virada do
século XIX para o século XX (Hirst e Thompson, 1998; Nogueira
Batista Jr, 2000).
Mas não é do nosso interesse abordar as nuances - não apenas
teórico-metodológicas, mas inclusive de caráter nacional, do
debate sobre a globalização. Nossa pretensão é tão-somente
apresentar uma breve interpretação ensaística sobre a natureza
da globalização que respeite sua legalidade histórico-dialética.
É claro que argumentos, sendo alguns de caráter empírico, contra
a idéia da globalização como uma “ruptura” com o dinamismo

45
Dimensões da Globalização

capitalista do passado são sustentáveis. É o que encontramos, por


exemplo, em Hirst e Thompson. Entretanto, tais autores tendem, no
geral, a desprezar, de certo modo, primeiro, a natureza essencial do
desenvolvimento capitalismo moderno e, segundo, a importância (e
significado qualitativamente novo) de alguns fenomênos da
produção (e reprodução) do capitalismo mundial a partir da crise
capitalista de meados dos anos 1970 (para uma crítica ponderada
de Hirst e Thompson, ver Chesnais, 1997).
Ora, o desenvolvimento capitalista mundial é intrinsecamente
dialético, e, portanto, contraditório. É comum presenciarmos no
decorrer do processo de desenvolvimento sócio-histórico do
capitalismo, momentos de superação de formas de
desenvolvimento do capital (utilizamos a palavra superação, no
sentido da palavra alemã aufhaben, que significa superação/
conservação).
Desde o século XVI, o sistema mundial do capital teve
diversas formas de desenvolvimento, todas caracterizadas como
modos de expansão do mercado mundial e de disseminação
contraditória do modo de produção (e de reprodução) capitalista.
Elas articularam um complexo de determinações políticas,
culturais e tecnológicas de dominação e poder a serviço dos
interesses de avanço da lógica da modernização. Mercantilismo,
colonialismo, imperialismo, neocolonialismo são termos que
caracterizam, desde o século XVI o avanço da expansão
capitalista mundial, sob a hegemonia (e supremacia) de impérios
e de Estados-nação (Arrighi, 1998).
O que veio a ser denominado de “globalização” é um novo
modo de expansão capitalista a partir de um novo regime de
acumulação capitalista. A globalização poderia ser considerada
o desenvolvimento mais avançado de apresentação do sistema
mundial do capital (que passaria a assumir um caráter realmente
orgânico). A partir dessa nova forma de desenvolvimento
capitalista instaurou-se, em meados dos anos de 1970, o que
poderiamos chamar de uma descontinuidade no interior de
uma continuidade plena (Alves, 1999).

46
Globalização Como Mundialização do Capital

É claro que a economia da globalização conserva ainda


hoje, num sentido ampliado e intensivo, relações, processos e
estruturas de produção e troca oriundos da passagem do
capitalismo liberal para o capitalismo monopolista. Por isso, alguns
argumentos empiricos de Hirst e Thompson, e de outros, podem
ser sustentáveis. A globalização até poderia ser identificada como
um momento mais avançado do “imperialismo” (termo utilizado
por Lênin para caracterizar, em 1905, a nova etapa do capitalismo
monopolista). Mas o conceito de imperialismo não seria mais
capaz de, por si só, expressar as novas significações do sistema
orgânico do capital, apesar de ser uma determinação originária
(e essencial) da nova ordem mundial.
Existem novas determinações postas na totalidade concreta
da economia mundial que nos permitem apreendê-la com novas
significações - uma delas, por exemplo, é a III Revolução
Tecnológica; uma outra, a nova estrutura do capital
financeiro, e ainda, the last but not the least, a derrota e a crise
radical da política da social-democracia clássica e do movimeno
operário de esquerda (Castells, 2000; Chesnais, 1996; Bihr, 1998).
O que procuramos salientar é que a crise capitalista mundial,
a partir de meados dos anos 1970, tendeu a constituir uma nova
dinâmica de produção capitalista (a discussão sobre a crise do
capital pode ser vista em Mandel,1997 e de modo mais acabado,
em Brenner, 1998). Subjacente a uma continuidade plena da lógica
expansionista do capital, que impulsionou processos de expansão
em vários períodos da história do capitalismo moderno (desde o
século XVI), instaurou-se, mais uma vez, uma descontinuidade
no tocante à dinâmica do sistema mundial do capital.
Mas não é uma mera descontinuidade sócio-histórica, mas
sim um momento de desenvolvimento mais avançado do sistema
mundial do capital, qualitativamente novo. É por isso que
poderíamos dizer que presenciamos a constituição real - e não
meramente formal - de um sistema orgânico do capital.
É deveras perceptivel, principalmente a partir dos anos 1980,
a ocorrência de alterações qualitativas, e não meramente

47
Dimensões da Globalização

quantitativas , no sistema mundial do capital. Ao dizermos sistema


mundial do capital procuramos caracterizar o capitalismo
mundial como uma totalidade concreta (Kosik, 1977). São
mudanças complexas e interrelacionadas nos múltiplos campos
da produção e reprodução do ser social capitalista, da ordem
produtiva, tecnológica e cultural, à ordem política, militar e social,
que atingem, em maior ou menor proporção, com impactos
diversos e particulares, o conjunto dos países capitalistas, sejam
eles centrais ou subalternos à “Triade” (EUA, Japão e Europa
Ocidental).
Esse determinado complexo de mudanças sócio-históricas,
que se desenvolve com vigor nos anos de 1960, e assumiria seu
ápice a partir da crise capitalista dos anos 1970, instigou, e continua
instigando, o pensamento e a ação sócio-humana. Por exemplo,
alguns autores do campo dialético - e inclusive, não-dialético - nos
anos 60 procuraram tratar da nova dinâmica capitalista, antevendo,
em alguns casos, novas determinações que só assumiriam seu
desenvolvimento pleno mais tarde. É o caso de André Gorz, com o
conceito de neocapitalismo e Herbert Marcuse, com o debate sobre
a sociedade unidimensional e inclusive, os teóricos do pós-
industrialismo, como Daniel Bell, entre outros.
Entretanto, o que todos eles não puderam vislumbrar é que a
nova dinâmica expansionista do capitalismo do pós-guerra
tenderia a ser conduzida, em termos hegemônicos, com a
globalização dos anos 80, pelo capital financeiro (o que
imprimiria uma marca determinada no próprio desenvolvimento
do sistema mundial do capital).
Como procuramos demonstrar, a globalização possui, antes de
tudo, uma ideologia que oculta seu verdadeiro significado histórico:
a mundialização do capital, que significa uma nova estrutura da
economia (e da política) mundial que dá uma nova dinâmica na
produção (e reprodução) do “sujeito” da modernização (o capital).
Mas, na medida em que compreendemos a globalização como
mundialização do capital, somos obrigados a apreende-la como
um processo sócio-histórico intrinsecamente dialético. É dialético
porque é contraditório e o capital, como salientou Marx, é a própria

48
Globalização Como Mundialização do Capital

“contradição viva” (Marx, 1985). É por isso devemos considerar


a globalização não apenas como ideologia ou então como
mundialização do capital, mas como um processo civilizatório
humano-genérico (o que iremos tratar mais adiante).

Globalização como Mundialização do Capital

A utilização do conceito de mundialização do capital para


caracterizar a globalização vincula-se a percepção analítica de
Chesnais, desenvolvida no livro A Mundialização do Capital
(edição original de 1994) e depois, em A Mundialização
Financeira (edição original de 1996).
Como constatamos, são obras delineadas no ápice de um
processo de desenvolvimento capitalista que assumiu na última
década do século XX, o seu mais pleno (e perverso)
desenvolvimento. O próprio desenrolar da conjuntura da economia
e da política dos anos de 1990, a “década da globalização”, iria
conduzir Chesnais a apurar sua percepção da centralidade plena
do capital financeiro, como ele iria reconhecer no livro de 1996:

A interpretação do movimento de conjunto do capitalismo


mundial proposta por mim em 1994 (ver o último capítulo de
“A mundialização do capital”) tomava ainda como ponto de
partida as operações do capital engajadas na produção
manufatureira e nos serviços. No referido capítulo,
salientava-se o papel das elevadas taxas de juros, assim
como a capacidade do capital financeiro (entendido aqui
como aquele que se valoriza conservando a forma dinheiro)
em imprimir sua marca no conjunto das operações do
capitalismo contemporâneo. A esse respeito, o livro coletivo
sobre a mundialização financeira [A Mundialização
Financeira, coordenado por Chesnais, de 1996 - G.A.]
apresenta uma mudança, que é mais do que a simples
consequência do fato de que o referido volume trata da
mundialização financeira como tal (Chesnais, 1997).

49
Dimensões da Globalização

Portanto, a globalização é, antes de mais nada, uma nova


etapa do desenvolvimento do capitalismo mundial, que possui
caracteristicas particulares em relação às etapas sócio-históricas
anteriores do desenvolvimento capitalista. Ela se caracteriza,
principalmente, pela predominância do capital financeiro no
processo de acumulação capitalista em detrimento das demais
frações do capital – a industrial e a comercial. É o que Chesnais
denomina de “regime de acumulação financeirizada mundial”.
Se antes, sob o fordismo, o regime de regulação e o regime
de acumulação era amplamente centrado no setor industrial e no
investimento em capital produtivo, isto é, o processo de
acumulação capitalista ocorria sob a direção hegemônica do
capital produtivo de valor, a partir de meados da década de 1970,
e principalmente a partir da década seguinte, uma série de
acontecimentos no campo da economia e da política do
capitalismo mundial, contribuiram para uma mudança de direção:
a fração do capital financeiro tornou-se hegemônica.
Para Chesnais, o capital financeiro é aquele que se valoriza
conservando a forma dinheiro - uma conceituação clássica de
capital financeiro, muito mais próxima da de Marx, apesar de
que em nenhum momento Marx utilize a expressão capital
financeiro, mas apenas capital a juros ou ainda capital ficticio.
A hegemonia do capital financeiro seria perceptivel através
da incorporação, pelas demais frações do capital (a fração do
capital industrial e a do capital comercial) da lógica do capital
financeiro que poderia ser traduzida através de uma expressão
- short-termismo (expressão utilizada nos EUA para caracterizar
o predomínio das politicas de curto prazo) e que tende a
predominar nas decisões de investimentos produtivos:

Imposto pelos mercados financeiros e frequentemente agravado


pelo ingresso massivo de fundos de pensão na propriedade do
capital, esse horizonte de curto prazo se impõe quase que
sistematicamente às custas do emprego, mas também do

50
Globalização Como Mundialização do Capital

investimento, assim como da pesquisa industrial nos setores


menos “rentáveis” (Chesnais, 1997: 27).

Horizontes de valorização muito curtos, ditados por imperativos


do mercado financeiro, tendem, portanto, a alterar a própria
natureza do investimento produtivo, que constituiu o core do
desenvolvimento do capitalismo moderno.
Uma anedota, relatada pelo antigo ministro das Finanças do
Japão, Toyoo Gyohteno, talvez possa ilustrar os imperativos do
mercado financeiro que tendem a se incrustrar (e constituir) a
própria lógica do capital industrial. Diz ele:

Há pouco falei com um operador de divisas. Perguntei-lhe


quais os fatores que levava em conta ao comprar e vender.
Ele respondeu: ‘Muitos fatores, a maioria de curtissimo prazo,
alguns de médio prazo e outros de longo prazo.’ Achei muito
interessante o fato de que pensasse também a longo prazo e
quis saber o que ele entendia por isso. Não sem hesitar por
uns instantes, disse-me com toda seriedade: “Talvez 10
minutos”. É nesse compasso que se move hoje o mercado.
(Apud Kurz, 1997:220).

Com a globalização, presenciamos uma verdadeira “ruptura”


do sentido de reprodução social, mais do que nunca ameaçada
pela lógica parasitária e rentista do capital financeiro:

As características do investimento produtivo, considerado do


ponto de vista de seu ritmo, seu montante e sua orientação
setorial (afora os semicondutores e a informática, são priorizadas
as empresas de telecomunicações, o transporte aéreo, as
indústrias de mídia, as indústrias de lazer de massa para os
aposentados da classe média, etc.) levam a formular a hipótese
de que, pela primeira vez na história do capitalismo, a acumulação
do capital industrial não está mais orientada, no centro do
sistema, para a reprodução ampliada (Chesnais, 1997:27-28).

51
Dimensões da Globalização

Os horizontes de valorização muito curtos construídos pelo


capitalismo-cassino (Kurz), tendem a imprimir a sua marca não
apenas sobre a natureza dos investimentos produtivos, mas sobre
a própria sociabilidade capitalista.

Acumulação flexível e mundialização do capital

Em seu livro de 1989, David Harvey constatou a “compressão


do tempo-espaço”, com impactos decisivos nas práticas político-
econômicas, no equilibrio do poder de classe, bem como sobre a
vida social e cultural. Harvey vincula tais mudanças nos usos e
significados do espaço e tempo à transição do fordismo à
acumulação flexível.
Inclusive, poderíamos dizer que, para David Harvey, a
globalização seria caracterizada principalmente pela transição
do fordismo para a acumulação flexível, um novo regime de
acumulação e modo de regulação social e política a ele associado.
A globalização seria para ele - e cabe ressaltar que Harvey não
utiliza em seu livro A Condição Pós-Moderna tal noção - o
processo de constituição de um novo mundo capitalista apoiado
na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de
trabalho, dos produtos e padrões de consumo:

A acumulação flexível [...] caracteriza-se pelo surgimento de


setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de
serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas
altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e
organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças
dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores
como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto
movimento no emprego no chamado ‘setor de serviços’, bem
como conjuntos industriais completamente novos em regiões
até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”,
Flandres, os vários vales e gargantas do silício, para não falar
da vasta profusão de atividades dos países recém-
industrializados). Ela também envolve um novo movimento que
chamarei de “compressão do espaço-tempo” no mundo

52
Globalização Como Mundialização do Capital

capitalista - os horizontes temporais da tomada de decisões


privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via
satélite e a queda dos custos de transportes possibilitaram
cada vez mais a difusão imediata dessas decisões num espaço
cada vez mais amplo e variegado (Harvey, 1992: 140).
Como observamos, é uma percepção analítica que,
contrastando com a de Chesnais, prende-se à dimensão
produtiva do sistema mundial do capital. Salienta-se o capital
industrial como dando a direção de tais processos de flexibilidade
e de mobilidade do capital, apesar de Harvey reconheçer que “o
capital industrial, mercantil e imobiliário se integram de tal maneira
às estruturas e operações financeiras que se torna cada vez mais
difícil dizer onde começam os interesses comerciais e industriais
e terminam os interesses estritamente financeiros.” E mais
adiante: “A acumulação flexível evidentemente procura o capital
financeiro como poder coordenador mais do que o fordismo o
fazia.” (Harvey, 1992: 154)
Na verdade, Harvey reconhece que o colapso do fordismo-
keynesianismo - como regime de acumulação e modo de regulação
social e político do sistema mundial do capital - sem dúvida
significou fazer a balança pender para o fortalecimento do capital
financeiro, tendo em vista que o abandono das taxas de câmbio
fixas e a adoção do sistema de taxa de câmbio flexivel em 1973,
com a completa abolição de Bretton Woods (o marco da passagem
do fordismo à acumulação flexivel, segundo ele), significou que
todas as nações-Estados passasem a depender do disciplinamento
financeiro, adotando medidas institucionais e políticas voltadas
para a abolição dos controles sobre os fluxos de capitais. Os
operadores financeiros privados passaram a desempenhar um
papel decisivo na determinação dos preços relativos das moedas
(as taxas de câmbio). Foi o primeiro passo na formação de um
mercado financeiro mundializado.
Portanto, surgem algumas interrogações: a predominância
do capital financeiro no seio do sistema orgânico do capital e
não meramente um novo regime de acumulação do capital

53
Dimensões da Globalização

industrial (a acumulação flexível), não seria a verdadeira


explicação para a exacerbada fragmentação, fluidez e caos
patente da vida moderna? Não seria o novo regime de acumulação
mundial financeirizada, o verdadeiro espírito da acumulação
flexível e, portanto, da própria globalização ?
Numa breve passagem, ao tratar do capital financeiro como
sendo um poder coordenador da acumulação flexível, Harvey
prevê (em 1989, portanto pouco depois do crash financeiro de
1987), uma maior potencialidade, muito maior do que antes, de
formação de crises financeiras e monetárias autônomas e
independentes,

apesar de o sistema financeiro ter mais condições de


minimizar os riscos através da diversificação e da rápida
transferência de fundos de empresas, regiões e setores em
decadência para empresas, regiões e setores lucrativos
(Harvey, 1992: 155).

E observa:

Boa parte da fluidez, da instabilidade e do frenesi pode ser


atribuída diretamente ao aumento dessa capacidade de dirigir
os fluxos de capital para lá e para cá de maneiras que quase
parecem desprezar as restrições de tempo e de espaço que
costumam ter efeito sobre as atividades materiais de
produção e de consumo. (Harvey, 1992: 155)

O que a década de 1990 iria demonstrar era o poder


exacerbado do capital financeiro como o coordenador da
acumulação flexivel. O conceito de mundialização financeira
como sendo o núcleo orgânico da mundialização do capital iria
traduzir tal percepção heurística.
Se uma das caracteristicas do capital em processo é tornar o
mundo a sua imagem e semelhança, o mundo capitalista que surge
com a globalização como mundialização do capital é um mundo
capitalista particularíssimo, imagem e semelhança das

54
Globalização Como Mundialização do Capital

peculiaridades ontológicas de uma fração do capital que expressa


com maior desenvoltura a própria forma de ser do “sujeito’ capital
(o capital financeiro).
É claro que a flexibildade é o ser-precisamente-assim do
capital em geral. Mas é o capital financeiro que expressa com
mais desenvoltura - e negatividade - essa flexibilidade do capital
em geral, acentuando, como ressaltou Harvey, “o novo, o fugidio,
o efêmero, o fugaz e o contingente da vida moderna, em vez dos
valores mais sólidos implantados na vigência do fordismo.”
(Harvey, 1992:161).

O Que é o Capital: Um Excurso Onto-Metodológico

Ao dizermos “lógica do capital” não salientamos apenas a


dimensão da economia, como alguns interpretes liberais podem
apreender. Na visão liberal, a cisão entre economia e política (e
outros dimensões do ser social) é que impede de apreender o
verdadeiro sentido do capital como “sujeito” do processo de
modernização.
Ora, o capital é, antes de tudo, uma relação social de
produção (e reprodução) da vida material, complexa e articulada,
voltada para a valorização do valor (ou seja, a acumulação
perpétua de riqueza abstrata) . É um modus vivendi, o que
significa considerar a série de dimensões reprodutivas sócio-
metabólicas voltadas para sustentar a lógica do “sujeito
automático”, insaciável, da acumulação de riqueza através da
produção de mercadoria (Marx, 1985).
Depois, o capital é um modo de controle social, capaz de
constituir (e reconstituir), de modo particular, a totalidade social
concreta, seja a economia, a política, a cultura, etc., na perspectiva
de uma sustentação orgânica de seu objetivo essencial - a
extração de sobretrabalho. Por isso que, ao dizermos capital,
pressupomos como sua contraparte orgânica e seu elo íntimo, o
Estado político e sua superestrutura jurídico-ideológica)
(Mészáros, 1995).

55
Dimensões da Globalização

Ao salientarmos o capital como o nexo orgânico articulador


da sociabilidade moderna, procuramos apreender o capital como
uma totalidade concreta e a globalização como expressão de
desenvolvimento tardio e complexo, com novas múltiplas
determinações, desta “totalidade concreta” que é o capital como
“sujeito” da modernização (Kosik, 1977).
É por isso que os processos da globalização só podem ser
apreendidos como a interconexão essencial da economia e
da política (e dizemos mais: da ideologia e da cultura, pois são
eles que sedimentam a nova totalidade concreta do capitalismo
mundial). Os movimentos da economia são intrinsecamente
políticos e os movimentos da política possuem uma dimensão
material-objetiva intrinsecamente vinculada à lógica da
acumulação do capital. Ou sendo mais rigoroso - não apenas
“vinculados”, no sentido de uma “exterioridade”, mas
verdadeiramente orgânicos. O capital e o Estado político, como
forma coesiva e abrangente que sedimentam as condições da
valorização do capital, são elementos profundamente
indissociáveis (uma verdade obnubilada pela ideologia liberal, com
sua estadofobia).
Deste modo, ver a globalização como o desenvolvimento da
lógica do capital exige apreender o capital como uma totalidade
concreta, com seus momentos predominantes e subordinados,
mas numa relação dialética, onde não podemos reduzir
meramente uma determinação a outra.
É comum, numa análise impressionista da globalização, não
apreende-la como um sistema orgânico do capital, possuindo,
inclusive, em sua forma-Estado político, o componente essencial
da própria fenomenologia da globalização. E mais ainda: não
apreender como “núcleo determinante” do sistema orgânico do
capital hoje, o capital financeiro. Muitas vezes perde-se suas
conexões essenciais e concretas (“o concreto como síntese de
múltiplas determinações”, como diria Marx) e tende-se a dissolve-
las num caótico emaranhado de fatos e acontecimentos. Por

56
Globalização Como Mundialização do Capital

isso que a apreensão do sentido verdadeiro da globalização exige,


como condição prévia de uma elaboração heurística rigorosa,
uma discussão ontológica (e metodológica), o que a maioria
dos analistas - sociologos, geográfos, politicológos e economistas
se recusam, tendo em vista que são, em sua maioria, presas
indolentes do neopositivismo vicejante.

O Conceito de Capital Financeiro

É preciso salientar que o conceito de capital financeiro, o


“sujeito” da globalização como mundialização do capital, assume
uma nova densidade ontológica nas últimas décadas do século
XX (nos primórdios do século XX ele já despontava com algumas
determinações concretas). Na verdade, ele é atingido por
mutações qualitativas, decorrente de alterações quantitativas
do sistema do capital.
Para apreender a particularidade concreta do desenvolvimento
do conceito de capital financeiro, devemos compreende-lo não
apenas como sendo a fusão do capital industrial e do capital
bancário (tal como apresentado por Hilferding e Lenin), mas como
aquele que se valoriza conservando a forma dinheiro e
assume a forma essencial não apenas de capital a juros, mas,
principalmente de capital fictício ou ainda de capital
especulativo parasitário.
Por exemplo, segundo Carcanholo e Nakatami, o capital
especulativo parasitário, que nós identificamos com o capital
financeiro, resultaria da conversão da forma autonomizada do
capital a juros quando este ultrapassa os limites do que é
necessário para o funcionamento normal do capital industrial.
Numa leitura atenta de Marx, os autores observam que tanto o
capital produtivo - o único capaz de produzir diretamente a mais-
valia, quanto o capital comercial e o capital a juros são formas
funcionais autonomizadas do capital industrial. Ao tratar do capital
comercial e do capital a juros observam que, sem a existência destes
dois, a magnitude de valor constituída pelo capital produtivo não seria
capaz de produzir a mais-valia na mesma medida. A divisão de

57
Dimensões da Globalização

tarefas, ao especializar-se cada um em funções específicas, os faz


mais “produtivos”, ou melhor, mais eficientes:

O volume total de valor resultante da soma dos três capitais


autonomizados não seria capaz de produzir e se apropriar da
mesma magnitude de mais-valia se funcionassem sem a
divisão de tarefas; se cada uma das empresas tivesse que
cumprir todas as funções necessárias ao capital industrial.

E logo a seguir:

Apesar do capital a juros (também o capital comercial) se


apropriar de parte da mais-valia sem produzi-la, ele não é
parasitário uma vez que contribui para que o capital produtivo
o faça. Permite até que o capital, em seu conjunto, seja mais
eficiente. O capital a juros se subordina à lógica do capital
industrial. Durante determinado estágio de desenvolvimento
do capital, o capital produtivo é o dominante, subordinado à
sua lógica tanto o capital a juros como o capital comercial.
Esse é o estágio da existência e do predomínio do capital
industrial no qual o pólo dominante é o capital produtivo
(Carcanholo e Nakatami, 1999).

Portanto, tanto o capital comercial quanto o capital a juros,


em determinado estágio de desenvolvimento capitalista,
apareceram como formas funcionais autonomizadas do capital
industrial. Nessa perspectiva, existe uma relação de
funcionalidade entre as formas autonomizadas do capital
industrial.
Por exemplo, os bancos, portadores institucionais do capital
a juros, através da concessão de créditos a outros, particulares
ou empresas - créditos ou emprestimos a prazos variados -
desempenham uma função central para qualquer economia de
mercado e para a economia capitalista em particular. Não é suficiente
produzir, é preciso vender, e na expectativa de realizar as vendas é

58
Globalização Como Mundialização do Capital

preciso continuar a produzir. Neste ponto é que os bancos


desempenham seu papel - eles garantem a continuidade das trocas
entre as indústrias e lhes permitem aguardar o momento da validação
social da produção pela venda no mercado final.
Quanto ao capital ficticio, conceito utilizado por Marx, ele é,
de certo modo, uma derivação do capital a juros. É uma forma
mais desenvolvida, própria de um desenvolvimento ampliado ( e
geral) da forma-mercadoria. O desenvolvimento, a expansão, a
existência generalizada do capital a juros no capitalismo
desenvolvido transforma todo tipo de rendimento regular em uma
receita que parece provir de um capital a juros.
A formulação de Marx no capítulo XXX do livro III d’O
Capital é clara:

A forma do capital produtor de juros faz que toda renda


monetária determinada e regular apareça como juro de um
capital, derive ela ou não de um capital [...] Todavia, essa
idéia (a de ser capital) é puramente ilusória, excetuando o
caso em que a fonte...seja diretamente transferível ou assuma
forma em que se torne transferível. (Apud Carcanholo e
Nakatami, 1999)

Uma das formas típicas do capital ficticio é constituido pelos


títulos da dívida pública, ou seja, os governos podem vender
direitos de apropriação sobre parcelas de sua receita com impostos
futuros. É claro que se o direito de apropriação de receita ou
rendimento regular for transferível comercialmente, o capital
criado dessa maneira - em virtude da propriedade daquele título
- aparece nas mãos de seu detentor como seu verdadeiro capital,
mas, para a sociedade como um todo, do ponto de vista da
totalidade social, não passa de um capital ilusório, de um capital
ficticio, com movimento próprio e com certa independência do
capital real (apesar do capital ser ficticio, do ponto de vista da
totalidade social, possui uma existênca real, com sua lógica
interferindo realmente na trajetória e nas circunstâncias da
acumulação e da acumulação de capital real).

59
Dimensões da Globalização

Além dos títulos da dívida pública, uma parcela significativa


do capital ficticio no capitalismo desenvolvido está constituido
por títulos privados como ações, debêntures e letras de câmbio,
papéis que conferem diretos de apropriação sobre parcelas de
riqueza real produzida. Por isso, no caso dos títulos privados,
dentro de certos limites, seu valor tem uma correspondência real.
Pelos menos uma parte do capital ficticio corresponde à
magnitude de capital real, tem um lastro em termos de atividade
produtiva real ou de ativos físicos.
O problema é que, seu valor tende a crescer ou diminuir por
razões aleatórias (ou especulativas) à atividade produtiva
real, existindo ao lado do capital real como outro capital que se
soma a este. De maneira que uma parte do capital ficticio pode
realmente ter uma existência puramente ilusória do ponto de vista
da totalidade social.
As formas do capital ficticio são múltiplas sob o capitalismo
tardio. O que, num primeiro momento, pode ser constatados, por
exemplo, pelo crescimento do mercado de títulos públicos e títulos
privados tradicionais tais como ações, debêntures, letras de
câmbio, etc e, num segundo momento, por outras formas de direito
de propriedade, ou seja, um complexo de inovações no mercado
de capital ficticio, inclusive, como iremos ver adiante, o mercado
das “marcas” tende a tornar-se um importante capital ficticio
para algumas importantes corporações globais.
Nem todo capital a juros deve ser considerado capital
ficticio, isto é, pode ser capital bancário, desempenhando uma função
produtiva na atividade industrial. Nem todo capital ficticio pode
ser considerado capital a juros tal como explicitamos, isto é, como
aspecto do capital industrial e portanto como uma forma funcional
autonomizada deste. Por exemplo, como destacam Carcanholo e
Nakatami, o capital ficticio representado pelos títulos da dívida pública
não podem ser considerados como forma funcional do capital
industrial, ou seja, a rigor, não cumprem uma função útil para a
circulação do capital industrial.

60
Globalização Como Mundialização do Capital

O capital a juros, tal como o capital ficticio, é um capital não-


produtivo. Entretanto, o capital a juros cumpre uma função útil e
indispensável à circulação do capital industrial na medida, embora
improdutivo. No caso do capital ficticio, além de ser improdutivo,
pode ser considerado parasitário. Não cumpre função necessária
dentro da lógica do capital industrial, sendo sua remuneração
puro ônus para este.
Como observam Carcanholo e Nakatami, dentro de certos
limites, o volume do capital ficticio não compromete
substancialmente a lógica da acumulação do capital industrial e
a sua trajetória. Entretanto, uma explosão no volume do capital
ficticio, que pode ocorrer sob determinadas condições, tais como
as que constituiram a mundialização do capital, pode alterar a
lógica do capital industrial

...o crescimento acelerado da dívida pública de vários


Estados nacionais; elevados déficits da balança comercial
ou das transações correntes; de circunstâncias em que se
incrementem substancialmente as taxas de juros ou se
produza instabilidade nos mercados de câmbio fruto de
dificuldades no padrão monetário. A questão do
descolamento ou explosão do capital ficticio torna-se um
problema para o capitalismo. (Carcanholo e Nakatami, 1999)

Ocorre o descolamento entre a massa de dinheiro e a


produção real. Nessa perspectiva, o que podemos caracterizar
como sendo o capital financeiro é o próprio capital ficticio
exacerbado, quando ultrapassa em volume os limites
suportados pela reprodução do capital industrial. O capital
financeiro, ou o capital especulativo parasitário, é um capital que
não produz mais-valia ou excedente-valor e não favorece nem
contribui para a sua produção. Apesar disso, ele se apropria de
excedente e o exige em magnitude crescente:

61
Dimensões da Globalização

Sua lógica é a apropriação desenfreada da mais-valia, ou


melhor, do lucro (o lucro especulativo); realiza assim, ou
pelo menso pretende fazê-lo, os anseios derivados da própria
natureza íntima do capital: o não compromisso com o valor-
de-uso e, apesar disso, a autovalorização. Ele conduz ou
pretende conduzir a contradição valor/valor-de-uso ao
extremo do seu desenvolvimento, isto é, teoricamente à
destruição do valor-de-uso (Carcanholo e Nakatami, 1999)

A globalização como mundialização do capital é, portanto,


um processo de desenvolvimento do capitalismo mundial sob a
direção do capital financeiro num sentido preciso - o capital
ficticio exacerbado, o capital especulativo parasitário,
representação contundente, exacerbada (e degradada, na
perspectiva da totalidade social) da forma de circulação D-D’
(ser capital-dinheiro que se valoriza conservando a forma
dinheiro).
De certo modo, o capital financeiro, tal como o capital a juros,
expressa a qualidade essencial do capital em geral, isto é, “...a
finalidade absoluta que determina o movimento [do capital] é o
valor-de-troca e não o valor-de-uso.” (Marx). O motivo que
impulsiona a produção capitalista é fazer dinheiro e não satisfazer
necessidades humanas. É o valor de troca e não o valor de uso.
O dinheiro é a representação universal do valor de troca e do
valor. É a sua forma autônoma, pálpavel de manifestação. A
lógica do capital financeiro, tal como o capital a juros, é a do
ciclo do capital dinheiro, onde é perceptivel a capacidade do
dinheiro fazer frutificar seu próprio valor com independência
relativa da reprodução social. Marx, por exemplo, dizia ser o
capital a juros, a “mistificação capitalista em sua forma mais
brutal”.
Mas, sob o capital ficticio, o fetichismo do capital-dinheiro
assume sua forma estranhada mais desenvolvida. Segundo a
perspectiva do ciclo do capital-dinheiro, “o processo de produção
não passa de elo intermediário inevitável, de mal necessário do

62
Globalização Como Mundialização do Capital

mister de fazer dinheiro.” (Marx). Sob a mundialização do capital,


a vigência do capital ficticio exacerbado aparece como um
contorno estrutural desse “mal necessário” do processo de
produção, dando uma autonomia quase-absoluta ao ciclo do
capital-dinheiro.
Por isso, o conceito de capital financeiro decorre de alterações
qualitativas do ciclo do capital-dinheiro, decorrentes de
alterações quantitativas do próprio sistema orgânico do capital
que explicitaram, com muito maior “luminosidade”, a sua forma
de ser essencial. Por capital financeiro deve-se entender não
o capital a juros propriamente dito, mas o capital ficticio,
principalmente em sua forma exacerbada, parasitária e rentista.
É uma nova determinação do dinheiro como figura autônoma e
pálpavel do valor em processo (o “sujeito” da modernização):

Por realizar os anseios mais íntimos, mas não confessáveis,


do capital e por apresentar-se não dependente da lógica do
capital industrial, o capital especulativo parasitário
contamina todo o capital existente que com ele se relaciona.
(Carcanholo e Nakatami, 1999)

Na medida em que se desenvolve, assumindo novas dimensão


quantitativas, o capital ficticio exacerbado tende a imprimir a
sua marca sobre o próprio processo de produção/acumulação e
reprodução capitalista.
O capital produtivo, o capital comercial e o capital a juros,
que cumprem funções autonomizadas de capital produtivo, tendem
a se submeter à lógica do capital ficticio exacerbado, uma lógica
cada vez mais especulativa. Sob a globalização como
mundialização do capital, a hegemonia da produção (e
reprodução) capitalista está nas mãos do capital financeiro. O
capital industrial tende a introjetar em si a lógica especulativa,
convertendo-se em capital financeiro:

63
Dimensões da Globalização

O capital industrial, cuja lógica era a apropriação baseada na


produção de mais-valia, converte-se não em capital
parasitário, mas em capital especulativo. Na verdade,
enquanto este é síntese, o capital especulativo parasitário,
dentro dele, é a dimensão daquele que se remunera
parasitariamente; é, portanto, seu aspecto parasitário e
domina toda a sua lógica (a lógica do capital especulativo,
como síntese) (Carcanholo e Nakatami, 1999).

Os representantes diretos do capital financeiro, ou capital


ficticio exacerbado, isto é, capital parasitário e especulativo, seriam
hoje, os “sujeitos” portadores de uma massa de capital-dinheiro
(fundos mútuos de investimentos e de pensão, companhias de
seguros e bancos) cuja lógica constituitiva de sua valorização é a
do ciclo do capital-dinheiro - D-D’ que incorporam uma dimensão
parasitária especulativa.
Os bancos são os portadores clássicos do capital a juros,
cujo negócio, desde eras pré-capitalistas, sempre foi “fazer
dinheiro com dinheiro”. Na verdade, eles tendem a desempenhar
uma função indispensavel na produção capitalista. Entretanto,
podem se tornar portadores diretos do capital ficticio quando
passam a deter, por exemplo, a propriedade de títulos da dívida
pública e através de atividades altamente especulativas - e não
propriamente de incentivo à produção - valorizam o capital.
A partir da liberalização e a desregulamentação financeira
ocorrida na década de 1980 nos principais países capitalistas
centrais (principalmente EUA e Reino Unido), os grandes bancos
foram lesados, tendo em vista que passaram a ter uma
concorrencia acirrada de instituições financeiras nao-bancárias
(por exemplo, fundos mútuos de investimento e de pensão).
Forçados a obter lucros a qualquer preço para manter sua cotação
na bolsa, muitos passaram a conceder emprestimos arriscados a
empresas e países, além de emprestar a fundos especulativos
especializados e sobretudo lançar-se a atividades altamente

64
Globalização Como Mundialização do Capital

especulativas (contribuindo deste modo para valorizar o capital


ficticio).
A promiscuidade entre os bancos e o mercado financeiro
mundializado, dominado por atividades especulativas (tais como
o mercado de câmbio), contribuiram, de certo modo, para tornar
vulnerável (e instável) os sistemas de crédito nacional, instituição
indispensáveis para o próprio desenvolvimento da economia
capitalista.
É claro que os grandes bancos comerciais e os bancos de
investimento, extrairam lucros bastante substanciais nas
operações de mercado de câmbio. Para os bancos mais bem
posicionados, as comissões sobre as operações de câmbio são
uma fonte crucial de lucros, além é claro de emprestimos
internacionais geradores de fluxos de rendimentos por meio de
juros elevados a que são concedidos os empréstimos (dirigidos
aos “promissores” países capitalistas em desenvolvimento, aos
seus sistemas bancários nacionais e às empresas desses mesmos
países).
Por isso, sob a mundialização do capital, o capital a juros
tende cada vez mais a desprezar a sua funcionalidade às
atividades produtivas e a comprometer-se com atividades
altamente especulativas, vinculadas à lógica do capital ficticio
que permeia um mercado financeiro mundializado.
É provável que a crise estrutural de valorização do capital,
expressa numa crise de superprodução em alguns setores
industriais, possa ser a determinação essencial do escarçamento
das frações funcionais autonomizadas do capital industrial e a
consolidação do poder hegemônico do capital financeiro (ou do
capital ficticio exacerbado) na produção (e reprodução) do
capitalismo tardio.
Sob a globalização como mundialização do capital, as
instituições privadas mais poderosas do mercado financeiro
mundializado são as instituições financeiras não-bancárias,
com enorme poder político e financeiro. São as organizações
financeiras que não têm responsabilidade de criação de crédito,

65
Dimensões da Globalização

como os bancos, e que se especializam apenas na frutificação


da liquidez de uma massa de capital-dinheiro que recolheram e
concentraram em suas mãos. É o caso, portanto, das companhias
de seguro, os fundos de previdência privada por capitalização
(os fundos de pensão) e os fundos mútuos de investimentos,
administradores de carteiras de títulos (Mutual Funds, bancos
de investimento ou companhias de seguro).
Por exemplo, uma das instituições centrais do capital financeiro
são os fundos de pensão por capitalização. Eles centralizam
uma imensa massa de capital-dinheiro resultado acumulado de
contribuições sobre salários e benefícios. É claro que a sua
finalidade declarada é garantir a esses assalariados, quando se
aposentarem, uma pensão regular e estável. Em virtude da crise
da previdência pública, os governos neoliberais tendem a
incentivar a constituição de fundos de pensão por capitalização
privada. Na verdade, eles constituem formas institucionais de
centralização de poupança.
Entretanto, a partir do momento em que a poupança acumulada
ultrapassa certo limite, os fundos passam a figurar entre as
instituições financeiras não-bancárias, tendo a função de fazer
frutificar um montante elevado de capital monetário, preservando
a liquidez e a máxima rentabilidade deste. A lógica dialética da
passagem da quantidade à qualidade, aplicada a uma massa
de dinheiro é perceptivel. A partir daí, muda a natureza econômica
dos fundos, tendo em vista que eles deixam de ser a expressão
de uma poupança modesta e se tornam instituições centrais do
capital financeiro e das “finanças especulativas”, contribuindo
para a germinação de um capital ficticio exacerbado.
O capital financeiro, compreendido como capital ficticio
exacerbado ou capital parasitário e especulativo, adquiriu um
caráter estruturante da mundialização do capital, a partir dos anos
1980, em virtude de um amplo movimento de desregulamentação
monetária e financeira (que ainda não se encerrou), levada a
cabo pelas políticas neoliberais e monetaristas decididas por

66
Globalização Como Mundialização do Capital

dois importantes países da OCDE: EUA e Reino Unido, com a


nomeação de Paul Volcker para o Federal Reserve e a ascenção
de Margaret Thatcher ao poder).
Num primeiro momento, elas se caracterizam pela rápida
constituição (e expansão) dos mercados de títulos liberalizados
que vieram atender aos interesses dos governos e dos grandes
grupos que centralizavam poupança. Na verdade, atendeu, em
primeiro lugar, às necessidades de financiamento dos déficits
orçamentários dos governos dos países capitalistas
industrializados. Diante de uma crise orgânica do Estado
capitalista, de origem fiscal, a implantação de um mercado de
títulos, com a “mercadorização” dos títulos públicos, ou seja, a
colocação de títulos do Tesouro e outros títulos da dívida nos
mercados financeiros, permitiu o financiamento dos déficits
orçamentários.
Os mercados de títulos público tornaram-se a “espinha dorsal”
dos mercados de títulos internacionais com 30% dos ativos
financeiros mundiais em busca de rendimentos estáveis e liquido,
liquidez assegurada pelos mercados secundários, onde os títulos
são negociáveis o tempo todo.
A partir daí, a economia mundial tende a entrar na era das
taxas de juros reais positivas, tendo em vista que era através
da elevação das taxas de juros reais (ou do jogo com o nível da
taxa de câmbio de sua moeda) que os governos poderiam tornar
as emissões de títulos mais atraentes para os investidores
financeiros (por exemplo, em 1980, através da elevação súbita
do preço do dólar os Estados Unidos atrairam rapidamente a
liquidez mundial).
Deste modo, a “mercadorização” dos títulos públicos pôs
nas mãos do capital financeiro a capacidade de determinar o
nível de “remuneração” dos empréstimos, isto é, das taxas de
juros a longo prazo. É o que Chesnais salientou como sendo o
sistema da “ditadura dos credores” como regime de caráter
mundial,

67
Dimensões da Globalização

a era do credor vitorioso, o regresso do capital especulativo


que passou a centralizar uma riqueza equivalente a muitos
pontos do PNB dos países da OCDE e a muitas dezenas de
pontos do PNB de certos países em desenvolvimento
(Chesnais, 1998).

Mas a “mercadorização” dos títulos públicos, resultado da


“securitização” da dívida pública, tendeu a provocar a explosão
da dívida federal, com o serviço da dívida crescendo
exponencialmente. O caso dos EUA, o “olho do furação” da
financeirização internacional, é exemplar: em 1998, segundo o
FMI, só a dívida pública norte-americana representa 39% do
total da dívida pública dos países da OCDE. Não é nada
desprezível o impacto da dimensão (em termos absolutos) da
dívida norte-americana, com todas as consequências que tem
para a estrutura dos fluxos internacionais de capitais e para os
níveis de taxas de juros.
Essas reformas constitutivas da mundialização financeira, que
tiveram origem nos Estados Unidos e depois no Reino Unido e
tenderam a se disseminar pelo mundo capitalista nas décadas
seguintes, beneficiaram as instituição financeiras de mercado,
principalmente as organizações financeiras não-bancárias,
possuidores de uma imensa massa de capital que atua quase
exclusivamente na esfera financeira. Como observa Chesnais,
diante dos fundos de pensão e dos mutual funds e organismos
de aplicação coletiva em valores mobiliários ou OPCVM, os
maiores bancos parecem nanicos (Chesnais, 1999).
Além dos mecanismos institucionais de “securitização” da
dívida pública, uma série de determinações ligadas ainda à política
neoliberal e seus resultados sociais (e tributários) alimentaram e
retro-alimentaram o desenvolvimento de uma esfera financeira,
parasitária e especulativa, berço de um capital fictício exacerbado.
Por exemplo, a diminuição do imposto sobre os rendimentos
do capital e a distribuição desigual de renda. Por um lado,

68
Globalização Como Mundialização do Capital

ela - a diminuição do impostos sobre os rendimentos do capital,


item programático de governos neoconservadores, contribui, de
certo modo, para o déficit público, retro-alimentando a
securitização da dívida pública; e por outro lado, ao aprofundar
a distribuição desigual de renda, tende a transferir e concentrar
uma poupança que pode ser “investida” em títulos públicos -
créditos sobre as receitas fiscais futuras dos Estados ou em ações
- promessas ou expectativa de participação nos lucros a serem
realizados pelas empresas. Como resultado final, sempre o
incentivo à obtenção de rendimentos financeiros, especulativos
e parasitários, não associado a uma atividade específica como a
do assalariado, do capitalista ou do funcionário público.
Portanto, o capital financeiro, como temos caracterizado como
capital ficticio exacerbado ou capital parasitário e especulativo
obteve, nos últimos trinta anos, uma série de incentivos estruturais
que impulsionaram a mundialização financeira que tornou-se o
“núcleo orgânico” da expansão capitalista do final do século XX
(a globalização).

A fenomenologia do capital financeiro

Após a caracterização do capital financeiro, podemos nos


interrogar: quais os dados empíricos que nos permite supor que
se constituiu, e se constitui, um regime de acumulação
financeirizada mundial, principalmente nas últimas décadas do
século XX?
Em primeiro lugar, a instabilidade crônica da economia
capitalista, caracterizada pela oscilação e “exuberância irracional”
do mercado financeiro.
Em segundo lugar, o ritmo de crescimento muito baixos da
economia capitalista mundial, próximos da estagnação, tanto no
centro quanto na periferia do sistema mundial do capital (o que
explica os indices mediocres das taxas de investimento produtivos
nos países da OCDE, a maior parte dos fluxos de investimentos

69
Dimensões da Globalização

de capital que cresceu, de modo exuberante, na década de 1990,


não agregam capacidade produtiva).
Em terceiro lugar, o crescimento do desemprego de massa,
acompanhado de um alinhamento tanto dos niveis salariais como
da “flexibilidade” das condições de contratação e de trabalho
com aqueles dos países capitalistas em que a força de trabalho é
superexplorada.
Em quarto lugar, a ampliação da desigualdade entre (e no interior)
dos países capitalistas e das suas regiões, seja desigualdade de renda
e das condições de existência. Por exemplo, a “desconecção forçada”
de regiões do continente africano dos fluxos de investimento
capitalistas atestam as mutações qualitativas ocorridas na estrutura
do sistema mundial do capital.
Em quinto lugar, as políticas monetaristas ortodoxas de cariz
neoliberais levadas a cabo pelos Bancos Centrais da OCDE e
capitalistas “emergentes” (a política de juros altos e a obsessão
pelo combate à inflação).
Em sexto lugar, a cultura da pós-modernidade e o culto da
fluidez, contingência e individualismo, próprias de uma ordem
capitalista exacerbada pelo fetichismo da mercadoria.
Na verdade, tais acontecimentos são expressões contingentes
do advento da mundalização do capital e caracterizam, de certo
modo, o núcleo essencial do processo de globalização.
A vinculação entre a financeirização dos mecanismos de
produção e reprodução do capitalismo mundial e os vários
aspectos da vida social e política capitalista são flagrantes.
Por um lado, podemos salientar, com respeito a dimensão
organizacional do empreendimento capitalista, a constituição das
sociedades holdings com cariz financeirizado; e , por outro lado,
com respeito a dimensão da programática política capitalista no
tocante a gestão da macroececonomia do sistema do capital, as
políticas neoliberais de cunho monetaristas. Em ambos os casos
são perceptiveis a marca da direção hegemônica do capital
financeiro.

70
Globalização Como Mundialização do Capital

- A organização em “holding” e a “empresa-rede”

É perceptivel que, quase sem exceção, o grande grupo


industrial é uma sociedade holding, que se distingue da grande
massa de empresas capitalistas, por serem grupos financeiros
de domínio industrial, mas com diversificações nos serviços
financeiros, bem como com uma atividade cada vez mais
importante como operadores dos mercados de câmbio e dos
mercados em que se negociam as formas mais notáveis de capital
fícticio, particularmente dos “produtos derivados”.
Segundo a OCDE, uma firma constitui uma holding quando
sua função consiste em deter investimentos ou créditos de outras
firmas, no mesmo ou num terceiro país. Ela é considerada como
sociedade financeira e, em certos países, pode empregar apenas
um pequeno número de pessoas, o necessário para manter os
livros em dia. Frequentemente, a escolha geográfica da sede das
holdings depende das vantagens fiscais oferecidas pelos países
receptores (Chesnais, 1995:56).
A organização em holding permite que o grupo industrial
possua um banco de grupo, além de confiar a responsabilidade
das operações financeiras ao seu Departamento Financeiro. Por
isso, torna mais fácil seu acesso às finanças globalizadas,
participando o capital industrial da tendência ao fortalecimento
das posições rentistas do capitalismo contemporâneo.
Mas, a organização em holding não possui apenas uma
funcionalidade estrutural com respeito à lógica especulativa
das finanças globalizadas, mas, possui, outrossim, uma
funcionalidade estrutural com respeito à lógica da apropriação
parasitária de mais-valia criada através das redes de produção
de mercadorias. Vejamos como.
Uma das características do capitalismo tardio desenvolvido
é a amplitude e intensidade do processo de concentração e
centralização do capital e a constituição predominante de uma
estrutura de oferta oligopólica (que reúne o pequeno círculo dos

71
Dimensões da Globalização

“melhores”). É perceptivel, principalmente a partir das últimas


décadas do século XX, o acirramento dos processo de aquisição-
fusão através do investimento externo direto que não implica,
algumas vezes, em crescimento positivo do capital social,
contribuindo apenas para deter a baixa da taxa de lucro
absorvendo outras firmas, agregando suas partes do mercado às
que elas já détem, integrando eventualmente alguns elementos
de sua capacidade de produção e de investigação técnica, mas
desmantelando a maior parte.
Portanto, a organização em holding tornou-se adequada a uma
forma de grande empresa capitalista caracterizada por múltiplas
participações acionárias minoritárias e sobretudo com numerosos
convênios de subcontratação e de cooperação interempresarial com
sócios de poder econômico amiúde muito desigual, na maioria dos
casos, o subcontrato industrial tem o caráter de uma “quase-
integração”, que obriga o subcontratista e seus assalariados a suportar
a maior parte dos riscos de mercado).
Surge um tipo de grande firma capitalista designada pela
expressão empresa em rede - “multinacionais de novo estilo”,
cujas fronteiras são deveras permeáveis, não apenas no tocante
a natureza da atividade industrial e ou de serviços, mas
principalmente no tocante a fronteiras entre lucro e a renda na
formação dos lucros de exploração dos grupos.
Na verdade, em virtude tão-somente do poder econômico
resultante do seu tamanho e de seu poder de mercado, o grande
grupo industrial, organizado em holding, tende a se apropriar,
através de um direito de propriedade de cariz rentista, da mais-
valia criada coletivamente no seio de um conjunto de empresas
trabalhando em rede:

Os direitos de propriedade apresentam muitas formas. Em


principio, títulos de qualquer tipo podem ser comprados e
vendidos. Os governos podem vender direitos de
apropriação sobre parcelas de sua receita com impostos
futuros. Os títulos de propriedade sobre mercadorias podem

72
Globalização Como Mundialização do Capital

ser vendidos sem que elas mudem realmente de mãos ou,


como acontece nos mercados futuros, antes mesmo da
produção real delas. Os títulos de propriedade sobre a terra,
sobre os edíficios e sobre os recursos naturais (direito de
perfuração de campos petrolíferos, de exploração de minerais,
etc.) também podem ser vendidos e comprados. Sob o
capitalismo, existem, segundo parece, tantos tipos de
mercados de capital fictício quanto diferentes formas de
propriedade.” (Harvey, 1982 Apud Carcanholo e Nakatani).

Ora, a apropriação da mais-valia criada coletivamente no seio


de um conjunto de empresas trabalhando em rede, pelo grupo
industrial organizado em holding, não deixa de ser, de certo modo,
mais uma forma de intrusão paradoxal da lógica do capital
especulativo na estrutura do capital industrial.
Existe um tendência dominante de grupos industriais
assumirem, de vez, seu caráter rentista, se apropriando de parcelas
da mais-valia criada no seio da rede de subcontratação em virtude
de deterem o direito de propriedade da marca. É, com certeza,
um flagrante da mundialização financeira.
A ironia da mundialização financeira, como iremos ver mais
adiante, é que um regime de acumulação predominantemente
financeirizado, portanto, especulativo, parasitário e rentista, tenha
ainda como ideologia orgânica da organização e da produção
capitalista, o toyotismo, uma ideologia produtivista (tal como o
taylorismo-fordismo).

As políticas neoliberais

A adoção de políticas neoconservadoras de cariz liberal a


partir de fins da década de 1970, como uma resposta à crise das
economias capitalistas centrais e fracasso das políticas clássicas
da macro-economia keynesiana, contribuiram para o
desenvolvimento da mundialização do capital e a constituição,

73
Dimensões da Globalização

em seu núcleo orgânico, de uma tendência à financeirização


dos processos de produção, acumulação e reprodução capitalistas.
Antes da crise do capital em meados da década de 1970,
percebia-se a constituição - ainda pontual - de uma economia de
mercado financeiro mundializado e de um capital financeiro
robusto e ávido de valorização fictícia.
Por exemplo, desde metade dos anos 60, no auge do fordismo,
o mercado de eurodoláres prefigurava um mercado mundial do
dinheiro e do crédito, totalmente livre do controle público, um
mercado de dinheiro sem Estado anunciando as possibilidades
da mundialização financeira.
O mercado financeiro do eurodólar beneficiava as corporações
americanas e os bancos internacionais, interessados em romper
as amarras das nações-Estados e suas regulamentações fiscais
e financeiras. Tornou-se uma imensa concentração de capitais
que conservavam a forma dinheiro e procuravam obter lucros
sem sair da esfera financeira (ele se expandiu de 50 bilhões de
dólares em 1973 para quase 2 trilhões em 1987, aproximando-se,
segundo Harvey, do montante de agregados monetários existente
nos Estados Unidos). O capital-dinheiro que se achava depositado
juntos aos bancos internacionais constituia-se, principalmente, dos
lucros industriais das corporações americanas realizados na
Europa Ocidental e não repatriados (Chesnais, 1999; Harvey,
1992).
No decorrer da década de 1970, com a crise do fordismo e
diante da crise orgânica do Estado capitalista, principalmente
em sua dimensão fiscal, a linha de menor esforço do capital,
conduzida pelo seu pólo hegemônico, os Estados Unidos, foi adotar
políticas de desconstrução das formas de regulação social
e da economia fordista-keynesiana.
O passo decisivo foi o rompimento unilateral dos Estados
Unidos dos acordos de Bretton Woods, em 1973, com o abandono
das taxas de câmbio fixas e a adoção do sistema de taxas de
câmbio flutuantes, que passaram a dar aos operadores financeiros

74
Globalização Como Mundialização do Capital

privados um maior poder na determinação dos preços relativos


das moedas (a taxa de câmbio).
No cenário de meados dos anos 70, o desenlance da crise
capitalista mundial ocorreu com a crise do petróleo, em 1974,
um fato contingente que detonou o decrescimento do ciclo
depressivo da economia capitalista central (entre 1974 e 1975
tivemos a primeira recessão generalizada da economia capitalista
internacional desde a Segunda Guerra Mundial) (Mandel, 1997).
A inconsistência e fracasso sucessivo das políticas
keynesianas clássicas diante da crise da economia capitalista,
caracterizada pela inflação crescente e instabilidade do ciclo da
economia, e a derrota política do movimento operário, contribuiram
para a chegada ao poder de partidos neoconservadores (foi o
aconteceu no Reino Unido, com a vitória eleitoral de Thatcher, em
1979, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos em 1980). As políticas
keynesianas tinham se mostrado inflacionárias à medida que as
despesas públicas cresciam e a capacidade fiscal estagnava.
As determinações estruturais da série de políticas neoliberais
que sedimentaram a economia de mercado financeiro
mundializado, a partir de meados dos anos 70, são, por um lado,
a crise orgânica do Estado capitalista, cuja dimensão fiscal é
decisiva, e por outro lado, como determinação essencial, a crise
estrutural do capital, posta como crise de superprodução.
Tais determinações estruturais dizem respeito a crise do
sistema orgânico do capital, que articula seus mecanismos de
controle social e político, sendo portanto, as determinações onto-
genéticas da globalização como mundialização do capital.
A crise orgânica do Estado capitalista, principalmente em
sua dimensão fiscal, contribuiu para a instituição de mecanismos
de financiamento da dívida pública que tenderam a exacerbar a
predominância do capital financeiro.
Como salientamos acima, ao titularizar a dívida pública, os
governos capitalistas não apenas aproveitaram a oportunidade
histórica de um mercado financeiro desenvolvido e de uma massa
de capital-dinheiro à disposição para uma valorização fictícia,

75
Dimensões da Globalização

como exacerbaram essa própria macroestrutura financeira,


rentista e parasitária mundial. Os governos neoliberais adotaram
um conjunto amplo de medidas destinadas a liberalizar e
desregulamentar os mercados de títulos públicos para, a partir
daí, aplicar os bônus do Tesouro e outros papeis da dívida pública
por adjudicação (Chesnais, 1998).
Portanto, a securitização dos títulos da dívida pública
contribuiu para a constituição do núcleo orgânico da
mundialização do capital (a mundialização financeira), dando
respaldo a formação das instituições de base de um mercado
financeiro mundializado.
Foi no decorrer da década de 1980, principalmente com o big
bang, isto é, a desregulamentação dos mercados financeiros e a
liberalização dos fluxos de capital desregulamentação dos
mercados financeiros e a liberalização dos fluxos de capital da
City de Londres e Wall Street em Nova York, seguidas das
múltiplas inovações financeiras, que se constituiram as
determinações para a predominância do capital financeiro,
surgindo a mundialização do capital ou a globalização propriamente
dita.
Ocorreu, de fato, a sedimentação do poder político de uma
oligarquia financeira internacional, cada vez mais voltada para o
empreendimentismo com papéis, portanto, mais interessada em
obter lucros estritamente financeiros sem dar importância à
produção real. As políticas neoliberais ortodoxas, tenderam a
compor, portanto, um cenário político bastante subalterno às
injunções da massa de capital-dinheiro sedenta de uma valorização
fictícia.
Por um lado, portanto, a crise orgânica do Estado capitalista,
avassalado por uma crise fiscal crônica, conduzindo à
subordinação orgânica do poder capitalista às novas formas de
financiamento da dívida pública.
Por outro lado, uma crise estrutural de superprodução de
mercadorias que conduziu a que os lucros retidos tivessem uma
valorização ficticia na esfera financeira. Na verdade, a

76
Globalização Como Mundialização do Capital

financeirização do capital industrial e da própria riqueza


capitalista, é um sintoma da crise estrutural de valorização do
capital em sua dimensão tardia.
Um movimento de políticas neoliberais que originou-se no
“núcleo orgânico” do sistema do capital em fins da década de
1970, no Reino Unido e EUA, atingindo a Europa Ocidental e os
demais países da OCDE, tendeu a se disseminar pelas “bordas”
do sistema mundial do capital na década de 1990, atingindo a
América Latina e Leste Europeu.
Em fins da década de 1980, a política do Consenso de
Washington, elaborada pelos think-tanks da globalização e da
hegemonia americanista, surge como um programa capaz de
recuperar a expansão capitalista em importantes mercados para
um mundo capitalista à sombra da superprodução endêmica de
mercadorias. São mercados potenciais de aquisitividade
capitalista, pois permanecem ainda, até fins dos anos 80, assolados
pela instabilidade estrutural da economia e da política. A hiper-
inflação e as margens restritas de legitimidade democrática, para
os interesses das elites das finanças globais, criavam um ambiente
política nada propicio para a macroestrutura financeira dominante
no “centro orgânico” do sistema do capital.
Para o bloco de poder do capital financeiro global era urgente
um plano de reconstrução capitalista nos moldes do Consenso
de Washington. Ele é posto como política de expansão capitalista
para a América Latina e Leste Europeu (inclusive Rússia, a ex-
URSS) - o primeiro, buscando se recuperar da crise da dívida
externa, que paralisou as economias latino-americanas nos anos
80, e o segundo, tentando se reconstruir, agora numa perspectiva
de mercado, sua economia degradada pelo débacle das
economias socialistas de Estado.
A investida final, a verdadeira terceira onda da globalização como
mundialização do capital, é a inclusão da China socialista no novo
sistema financeiro e comercial. A sua dimensão continental e sua
imensa população promete ser a “última fronteira” para a expansão
do mercado capitalista no século XXI.

77
Dimensões da Globalização

Estamos diante de um processo político complexo que avança,


não apenas por meio de um poderoso arsenal ideológico-mídiático
(o próprio termo globalização é parte dele, como vimos na
capítulo 1 - globalização como ideologia), criando um “pensamento
único”, um rol de políticas da nova macro-economia liberal postas
como única alternativa à crise estrutural do sistema do capital,
mas através de um processo politico concreto, com a construção
paulatina de um arcabouço político e institucional quase-
consensual a uma economia de mercado financeirio mundializado.
No círculo do poder capitalista do “núcleo orgânico” do
sistema do capital desde meados da década de 1970, buscou-se
uma maior articulação política (e geopolítica), além de gestões
da macroeconomia, entre os principais países capitalistas. A
Comissão Trilateral, o G-7, ou ainda, o Fórum Econômico de
Davos, “clubes de países ricos”, totalmente sob a hegemonia
liberal, tentam conduzir um mundo capitalista instável e volátil.
Apresentam-se como gestores da macroeconomia financeira
mundializada dominante.
Entretanto, apesar da coordenação macroeconômica e
financeira desenvolvida, não conseguiram prever (e evitar) o
crash financeiro de 1987 (ou outras crises financeiras que iriam
se repetir na década de 1990: México, Ásia, Rússia e Brasil)
demonstrando o caráter de instabilidade sistêmica de uma ordem
do capital à mercê do capital especulativo e rentista.
A construção da hegemonia neoliberal ortodoxa é lenta, mas
persistente até fins dos anos 1980. Na década seguinte, derrotas
de governos conservadores, nos EUA, Reino Unido, Alemanha
e França apontam para impasses do “pensamento único”, que
indicam a busca de um novo consenso capitalista (uma “Terceira
Via”?), preocupado com as bases de sua legitimidade política e
democrática. É o que trataremos, mais adiante, nas mutações da
globalização.
Portanto, o sistema orgânico do capital, cuja aparência
essencial é dada pela globalização como mundialização do

78
Globalização Como Mundialização do Capital

capital, teria como seu núcleo orgânico, a mundialização


financeira e a hegemonia e supremacia do capital financeiro. É a
partir daí que se desenvolve uma série de novos fenomênos
produtivos (o toyotismo e o que Harvey iria denominar de
“acumulação flexível”), culturais e ideológicos (a “pós-
modernidade”), tecnológicos (o que Castells iria denominar
sociedade em rede que incorpora, em sua forma material, a fluidez
e a virtualidade plena intrinseca à forma-dinheiro) e políticos (os
neoliberalismos e a nova social-democracia) e geopolíticos (os
blocos de comércio regional, tais como NAFTA e ALCA, dentre
outros), além de fenomênos de necrose social, resultados sociais (e
culturais) de um sistema do capital sob a hegemonia do capital
especulativo e parasitário - o narcotráfico e a precarização/exclusão
social (o vínculo entre narcotráfico, lavagem de dinheiro e os circuitos
financeiros globais são deveras unívocos).
Na verdade, o sentido da mundialização do capital como sendo
uma nova etapa da acumulação capitalista mundial sob a
predominancia do capital financeiro possui implicações radicais.
Ela tende a significar um aprofundamento do fetichismo da
mercadoria e das próprias relações sociais. Como o dinheiro é a
mercadoria-mor e sob a globalização ele passa a ser, mais do
que nunca, o único referente da sociabilidade humana, o fetichismo
tende a ser mais dilacerante.

A plenitude da lógica do capital

Ao dizermos globalização como mundialização do capital


precisamos salientar o adjetivo “do capital”. É uma mundialização
do capital, o que implica uma série de significações essenciais,
ou seja, é uma globalização desigual, excludente e seletiva.
O desenvolvimento da globalização tende a exacerbar as
próprias caracteristicas da sociabilidade capitalista - exploração,
desigualdade e exclusão social, dando-lhes novas formas sociais
e institucionais.

79
Dimensões da Globalização

Além disso, a globalização é seletiva, o que significa que ela


atinge apenas regiões e países capitalistas que possuem uma
suposta capacidade aquisitiva, ou seja, um mercado capaz de
remunerar o capital-dinheiro. Os investimentos buscam áreas de
rentabalidade líquida e segura, além de serem excludentes e
intrinsecamente desiguais (despreza-se áreas imensas, regiões e
continentes, que não oferecem garantias de rentabilidade para a
massa de dinheiro em circulação) e combinada em seus
resultados sociais, políticos e culturais.
Por isso, o termo “globalização” oculta algo, isto é, o seu
próprio caráter seletivo, sua própria natureza de mundialização
do capital. Na verdade, como temos salientado, o capital é incapaz
de realizar o globo, apesar das promessas de realização humano-
genéricas.
Portanto, a rigor, a globalização é mundialização do capital e
não propriamente mundialização do homem (apesar de que
possamos constatar, por exemplo um incremento dos fluxos
migratórios mundiais). De certo modo, no processo de
modernização tardio, o “sujeito” é o capital, um “sujeito” sem
subjetividade, e o homem é tão-somente o predicado do processo.
Por isso, mesmo tais fluxos migratórios assumem as
caracteristicas de fluxos de mercadorias ou de forças de trabalho
sedentas de inserção no processo de valorização do capital.
A globalização tende a exacerbar a lógica do capital como
sujeito de uma modernização que dissemina, numa escala
ampliada, a desigualdade estrutural e a segmentação do
trabalho (cuja lastro originário é a expropiação dos produtores
de seus meios de produção de sua vida material e a divisão técnica
e social do trabalho), a nova exploração e precariedade do
novo mundo do trabalho (de caráter intensivo e nem tanto
extensivo, em virtude dos avanços na produtividade do trabalho)
e a exclusão social (em virtude do desemprego estrutural e da
corrosão da esfera do trabalho).

80
Globalização Como Mundialização do Capital

Deste modo, desigualdade, exploração e exclusão ampliadas


é a nova tríade do sistema orgânico do capital que surge a
partir da “globalização”.

A desigualdade estrutural e segmentação do mundo do


trabalho

Com a globalização, exacerba-se os processos de


centralização e concentração do capital, tanto no plano regional,
nacional e internacional. A onda de fusões e aquisições de capitais
expressa o desenvolvimento de uma nova desigualdade estrutural
entre os senhores do mundo - por um lado, o oligopólio mundial
e por outro lado, os servos recolonizados (os novos países
industrializados que apesar de serem expressão do
desenvolvimento capitalista mundial, constituindo um mercado
interno e uma estrutura de negócios sustentável, mantém-se
subalterno à nova ordem do capitalismo central, como é o caso,
por exemplo, do Brasil) e os condenados da terra (regiões,
países, classes e individuos expropriados das caracteristicas da
nova ordem competitiva mundial).
O próprio incremento da produtividade do capital, em virtude
da III Revolução Tecnológica, sob as condições da ordem política
neoliberal, tende não só a aumentar a capacidade relativa (e
absoluta) de produção de riqueza, mas, na mesma medida, a sua
concentração nas mãos do oligopólio mundial. Já se observou
que a nova economia mundial – a da mundialização do capital –
tende a aumentar o grau de oligopolização, apesar do crescimento
quantitativo de empresas globais (Chesnais, 1995).
Mas o crescimento da desigualdade não atinge apenas a
relação social estrutural do capital, caracterizada entre proletários
e capitalistas, mas atinge o próprio mundo do trabalho. Aprofunda-
se a segmentação intra-classe social, principalmente na classe-
que-vive-do-trabalho (Antunes, 1999). O discurso da “nova

81
Dimensões da Globalização

economia” e seus requisitos básicos de competitividade e


produtividade tende a reforçar no interior do mundo do trabalho,
a segmentação relativa entre, por um lado, os possuidores das
novas competências profissionais e, por outro lado, os
expropriados de seu saber e de sua capacidade fisica e espiritual
de continuarem sendo força de trabalho efetiva: são os
trabalhadores desempregados estruturais e os que não tem
acessos à nova ordem sistêmica do capital.
É esse movimento acelerado de polarização intra-classe
trabalhadora, no tocante a sua habilidades e competências
profissionais, que exige de cada homem e mulher trabalhadora, a
preocupação recorrente de uma constante atualização,
treinamento e requalificação da sua força de trabalho, sob pena
de não terem a mera possibilidade de uma inserção produtiva
na nova ordem da globalização.
Mesmo entre o contingente massivo daqueles que vivem da
venda da força de trabalho simples, preenchendo a “borda” de
cadeias industriais, a segmentação profissional e a precariedade
complexa e fragmentária é a sua principal caracteristica (por
exemplo, o setor de serviços, que abrange um universo heteroclito
de atividades produtivas que dão suporte à nova indústria). O
novo (e precário) mundo do trabalho é, portanto, imerso numa
série de novas clivagens de ordem profissional, de gênero e por
faixa etária, além de origem étnica (Alves, 2000).
Portanto, a globalização deve ser vista como a produção (e
reprodução ampliada) de uma desigualdade estrutural (e de uma
segmentação do pólo do trabalho) que atinge classes e indíviduos
no interior dessa classe social, além de regiões e continentes
inteiros.

A nova exploração e precariedade do mundo do trabalho

A capacidade de exploração da força do trabalho pelo capital


elevou-se à enésima potência em virtude da III Revolução

82
Globalização Como Mundialização do Capital

Tecnológica. A extração de mais-trabalho assumiu proporções


inéditas na história do capitalismo moderno, uitilizando novas
tecnologias microeletrônicas na produção. A nova base técnica
do capital permitiu que a exacerbação da exploração da força de
trabalho não implicasse, em alguns ramos da indústria e dos
serviços, em degradação das condições materiais (e civilizatórias)
de trabalho. Pelo contrário, o capital, apoiado na extração da
mais-valia relativa, demonstrou, no decorrer do século XX, a sua
capacidade de criar “grilhões de ouro” para uma parcela da
classe dos trabalhadores assalariados.
Mesmo estando submetidos às injunções da condição de
trabalhadores assalariados e portanto, escravos das contingências
de mercado (o que explica que nem o empregado mais altamente
qualificado e melhor remunerado está estável em seu posto de
trabalho), tais homens e mulheres da nova produção capitalista
tendem a não se auto-identificarem como proletários (a rigor,
não são proletários, apesar de serem trabalhadores assalariados,
pois sua força de trabalho tornou-se complexa, garantindo a eles
uma habilidade vendável que eles identificam como um ativo a
ser negociado no mercado). É o caso dos técnicos, cientistas e
engenheiros inseridos, direto ou indiretamente, na produção de
mercadorias de maior valor agregado. Na verdade, eles tendem
a incorporarem um “viés” subjetivo de uma nova pequeno-
burguesia, apesar de pertencerem objetivamente à classe dos
trabalhadores assalariados, pois não deixam de ser explorados
e possuirem uma precariedade estrutural.
Entretanto, cabe salientar que, a nova exploração da força de
trabalho, de uma força de trabalho altamente qualificada e
remunerada, não apenas na indústria mas em setores dos serviços
que produzem mercadorias com maior valor agregado, convive,
muitas vezes, lado a lado, numa mesma unidade produtiva, com
uma universo de exploração e precariedade, que articula, com
desenvoltura, a extração de mais-valia absoluta e mais-valia
relativa (por exemplo, o interior de uma montadora de automovéis
pode ser perceptivel a presença de trabalhadores assalariados

83
Dimensões da Globalização

com variados estatutos salariais, desde um trabalhador


terceirizado, responsável pela vigilancia ou limpeza, até um técnico
ou engenheiro de uma empresa subcontratada, passando por um
operário “polivalente” da linha de montagem).
A exploração da força de trabalho, aquela que cria valor,
assumiu caracteristicas múltiplas de acordo com a divisão social
e técnica do trabalho, indo desde a preservação (e o retorno) de
formas arcaicas de exploração da força de trabalho, típicos do
capitalismo industrial da I Revolução Industrial (onde o traço
marcante era a precariedade explícita), até a exploração da força
de trabalho mais qualificada e escolarizada nas novas indústrias
(que preserva ainda como traço estrutural sua condição precária).
A exploração da força de trabalho é acompanhada por um
novo léxico da administração da produção capitalista centrado
na noção de flexibilidade, um eufemismo para caracterizar a
nova exploração e precariedade da classe trabalhadora. Mas ela
é uma realidade material - a flexibilidade atinge os mais diversos
aspectos do processo de produção e de trabalho capitalista.
A representação organizacional da nova forma de exploração
da força de trabalho é dada pelo toyotismo (mais adiante, na
Parte 3 deste livro, iremos desenvolver a análise do toyotismo). Ele
é a ideologia orgânica da produção capitalista que sintetiza em seus
dispositivos centrais a lógica da flexibilidade, que incorpora novas
formas hegemônicas, de consentimento e de captura da
subjetividade, imprescindivel para a nova base técnica utilizada e
para os novos padrões de concorencia capitalista. Ainda de acordo
com a lógica do toyotismo, o mercado de trabalho tende a assumir
uma feição estrutural nova, com um centro e uma ampla periferia
(o que observamos, no tópico acima, quando tratamos da nova
segmentação do mundo do trabalho).
Portanto, é perceptivel o contraste entre as teses que
proclamam a “perda da centralidade do trabalho” nas supostas
“sociedades pós-industriais” (tão proclamadas na década de 1980)
e a realidade do mundo capitalista da “globalização”. O mundo

84
Globalização Como Mundialização do Capital

do trabalho, objeto da exploração e da exclusão, não apenas


preserva a sua centralidade ontológica na ordem do capital, mas
tornou-se complexo, fragmentário, altamente segmentado em seus
vários aspectos sociológicos, políticos e psicoculturais.
E dizemos mais: um novo (e precário) mundo do trabalho
estranhado, tendo em vista que os produtores, os agentes diretos
(e indiretos) do trabalho material e imaterial, continuam
totalmente “alienados” do produto de suas próprias mãos, mesmo
assumindo, sob o toyotismo, o controle operacional do processo
produtivo (sugerindo portanto uma “ruptura” com os dispositivos
fordistas-tayloristas).
Ora, mesmo sob o toyotismo, a “ideologia orgânica” da
organização da produção de mercadorias na época da
globalização, os operários e empregados são “alienados” das
decisões fundamentais do processo de produção - o que produzir
e para quem produzir, assumindo apenas as decisões
operacionais meramente instrumentais no local de trabalho (como
fazer). E muitas vezes, na maioria dos processos produtivos, a
alienação do como fazer permanece, com os empregados e
operários subordinados aos dispositivos tayloristas e fordistas.
Na verdade, o capital e seu staff executivo, preservam a
divisão social do trabalho e sua prerrogativas decisórias no tocante
à lógica da alocação (e controle) da riqueza produzida.É por isso
que o incremento da produtividade elevou e potencializou a
exploração da força de trabalho, a produção exacerbada de
riqueza social, sem o acompanhamento proporcional de salários
reais da classe trabalhadora (o exemplo da economia mais
dinâmica, os EUA é exemplar). É por isso que clamar contra a
desigualdade social e de renda, que tende a se acirrar sob a
mundialização do capital e com a III Revolução Tecnológica sem
criticar, e ir contra, o controle capitalista da produção de
riqueza social é não atingir o cerne das coisas. É meramente
“atirar pedra na lua”.
O crescimento do desemprego estrutural aponta para o
surgimento de algo novo, um patamar de desemprego elevado
que não regride com o crescimento da economia. Deste modo, o

85
Dimensões da Globalização

jobless growth, o crescimento sem emprego, indica o


desenvolvimento de uma nova fonte de exclusão, não apenas
nos países capitalistas centrais, mas nos novos paises capitalistas
industrializados (Alves, 1999).
Entretanto, o termo exclusão social tende a parecer
inadequado para caracterizar a incapacidade do sistema orgânico
do capital absorver parcelas da população proletária que nunca
foram “incluidos” no circuito produtivo (jovens, que são um
componente importante do desemprego massivo). Além disso, a
noção de “exclusão social”, utilizada com abuso tanto quanto o
termo “globalização”, que só adquire maior precisão conceitual
se vista como sendo a mundialização do capital, tende a ocultar
o cerne essencial do sistema orgânico do capital: a exploração.
Ao se clamar contra a exclusão social sem abolir - ou fazer
referência - à exploração, tende-se apenas a ocultar a lógica
do capital e pressupor que é possivel “incluir” uma massa de
despossuidos estruturais sem abolir as relações sociais capitalistas
de produção.

Dimensões da mundialização do capital

A mundialização do capital possui um “núcleo orgânico” que


é constituído pela mundialização financeira. É o que temos
salientado como sendo a “verdade” da globalização. É o que
Chesnais procurou salientar nos livros supracitados e que a
maioria das apreensões sociológicas tendem a desconsiderar.
Apesar do capital financeiro (ou seja, o capital especulativo e
rentista) imprimir sua marca sobre a lógica da acumulação do
capital como um todo, contribuindo para a incorporação
substancial, pelo capital industrial, de sua própria forma de ser,
existe, pari passu à constituição do regime de acumulação
financeirizada, o desenvolvimento de uma mundialização da
produção (e do comércio) capitalista, caracterizada pelo
crescimento do investimento externo direto (IED), o

86
Globalização Como Mundialização do Capital

investimento produtivo no exterior, a transnacionalização


produtiva, pelo crescimento das empresas, conglomerados e
empresas transnacionais, pela expansão do mercado mundial,
através do intercâmbio comercial.
A mundialização do capital em sua dimensão produtiva (ou
corporativa) pode ser observada através dos dados de
crescimento do IED, o responsável pela constituição das
interdependências entre países capitalistas:
O IED suplantou o comércio exterior como vetor principal no
processo de internacionalização; seu papel é tão importante nos
serviços como no setor de manufaturas. O IED caracteriza-se
por alto grau de concentração dentro dos países adiantados,
especialmente os da Tríade (ao longo da década de 80, os IED
se concentrou, em mais de 80 %, dentro da área da OCDE).
Esse acerto de alvo se fez às custas dos países em
desenvolvimento (Chesnais, 1995:33).
O significado do IED é deveras importante pois ele expressa
uma forma de expansão do capital que contém um componente
estratégico, evidente na decisão de investimento da companhia.
Ao contrário do comércio exterior, o horizonte do IED é
sensivelmente mais amplo, como também as motivações
subjacentes são muito mais ricas. Diz Bourguinat:

A idéia de penetração, seja para depois esvaziar os concorrentes


locais, seja para ‘sugar’ as tecnologias locais, faz parte desse
aspecto ‘estratégico’ do investimento direto e, geralmente, está
inserido num processo complexo de tentar antecipar as ações e
reações dos concorrentes. (Apud Chesnais, 1995:55)

O uso do termo “sugar” (siphonner) remete, segundo


Chesnais, a existência, no contexto do capitalismo tardio altamente
oligopolizado, de mecanismos de apropriação e de
centralização, pelas companhias mais fortes, de ativos ou
riquezas produzidos por agentes econômicos (além dos
assalariados, claro); no caso, pequenas empresas industriais,
comerciais ou de pesquisa.

87
Dimensões da Globalização

O crescimento do IED, que é o nexo essencial da


mundialização produtiva, é impulsionado, portanto, por uma
exacerbação da concorrência capitalista no mercado mundial
(cada vez mais concentrado na OCDE e em algumas “bordas”
industrializadas), da ânsia de um processo de valorização em
escala planetária num contexto de crise de superprodução, da
constituição de canais complexos e interligados (em rede) de
apropriação de valor.
Na verdade, o IED aparece como um multiplicador de
influência, que nasce das participações em cascata, permitindo,
por exemplo, à companhia central, organizada em holding,
controlar uma empresa com uma participação muito reduzida.
Além disso, a partir do IED, tende a ocorrer a integração horizontal
e vertical das bases industriais nacionais separadas e distintas. O
grau de interpenetração entre os capitais de diferentes
nacionalidades aumentou (o que nos permite dizer que a idéia do
“imperialismo” assume cada vez mais um conteúdo transnacional).
O investimento internacional cruzado e as fusões-
aquisições transfronteiras engendram, segundo Chesnais,
“estruturas de oferta altamente concentradas a nível mundial”, o
que propiciou o surgimento de oligopólios mundiais num número
crescente de indústrias (constituido sobretudo por grupos americanos,
japoneses e europeus que delimitam entre si um espaço privilegiado
de concorrência e de cooperação)(Chesnais, 1995).
As corporações transnacionais, os grupos industriar
organizados como “empresas-rede”, beneficiam-se tanto da
liberalização do comércio (levada a cabo pelas políticas neoliberais
e pelos protocolos da OMC), quanto da adoção de novas
tecnologias e do recurso a novas formas de gerenciamento da
produção (o toyotismo).
As novas formas de gerenciamento e controle, valendo-se de
complexas modalidades de terceirização, visam a ajudar os grandes
grupos a reconciliar a centralização do capital e a descentralização
das operações, explorando as possibilidades proporcionadas pela
tele-informática e pela automatização (Chesnais, 1995)

88
Globalização Como Mundialização do Capital

Portanto, a globalização tende a significar mais poder para as


corporações transnacionais, poder para criar o globo à sua
imagem e semelhança.
No caso da mundialização do capital em sua dimensão
comercial é bastante perceptivel através da forma dominante do
comércio exterior, o intercâmbio intra-setorial, ou seja, o
intercâmbio intra-grupo, no quadro dos mercados privados das
multinacionais, bem como por suprimentos internacionais,
organizados pelos grupos, em insumos e produtos acabados.
Os resultados concretos, principalmente no plano geográfico
- e geopolítico- é a instauração exacerbada de processos de
integrações regionais e continentais, tais como a União
Européia, o NAFTA e o Mercosul (e o ALCA - Acordo de Livre
Comércio das Américas). Tais acordos de integração regional
tendem a assumir - com a exceção particular da União Européia
- um perfil de meros acordos comerciais à serviço dos interesses
estratégicos das corporações transnacionais e de seu sistema de
poder político dominante (no caso da ALCA, a supremacia
potencial dos EUA é bastante visivel).
As implicações disso sobre os Estados-nação subalternos é
flagrante - sua diluição como estruturas estatais efetivas e soberanas,
totalmente subsumidas, de modo real, e não apenas de modo formal,
à “estatalidade dominante” (no caso da ALCA, os EUA).
O globo torna-se cada vez mais, o globo do capital e da
“produção pela produção”. Com a ascensão de um capital muito
concentrado, que conserva a forma monetária, a lógica de uma
“produção pela produção” tende a ser imbuida de uma dimensão
financeira, acentuando, portanto, os aspectos financeiros dos
grupos industriais e imprimindo uma lógica financeira ao capital
investido no setor de manufaturas e serviços.
Deste modo, a mundialização financeira, que sedimenta o
“núcleo orgânico” da reprodução do capital na virada para o
século XXI, tende a incluir e determinar as dimensões da
mundialização do capital, tais como a transnacionalização
produtiva e a mundialização comercial.

89
Dimensões da Globalização

É claro que a transnacionalização produtiva é anterior à


mundialização do capital propriamente dita, ou seja, à
mundialização financeira. Entretanto, com o avanço da novas
tecnologias de comunicação e transporte, no pós-guerra, ela
assume novas dimensões, amplitude e intensidade. Torna-se mais
integrada e interdependente entre os capitais de diferentes
nacionalidades. É por isso que os grupos industriais se
reorganizam como empresas-rede, incorporando uma nova lógica
de organização da produção capitalista (o toyotismo, que iremos
tratar mais adiante) e incorporando novas tecnologias telemáticas
e informáticas. O que procuramos salientar é que essas nova
morfologia do capital industrial investido no setor de
manufaturas e serviços, com a mundialização do capital, é
determinada pela lógica do capital financeiro.

Os agentes orgânicos e suportes institucionais e político-


militar do novo capitalismo mundial

Podemos dizer que a globalização como mundialização do


capital é a mundialização financeira criando (e recriando) formas
exacerbadas de desenvolvimento do capital industrial -
mundialização da produção e do comércio de mercadorias. São
elementos indissociáveis do desenvolvimento incontrolável do
“sujeito’ capital como um todo.
Por outro lado, os “agentes supremos” e beneficiários plenos
e diretos do sistema orgânico do capital, expressos na
mundialização do capital seriam, os grandes fundos monetários
de investimentos, companhias de seguro e bancos e por outro
lado, as multinacionais globais, as empresas, conglomerados e
corporações transnacionais da produção e distribuição
concentrada de mercadorias.
Além disso, os suportes institucionais e ideológicos, propulsores
da mundialização do capital, são as tecnoburocracias mundiais
multilaterais - Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco
Mundial, Organização Mundial do Comércio (OMC) e inclusive
ONU, que tentam regulamentar e dar um substrato político-

90
Globalização Como Mundialização do Capital

ideológico à globalização. Como suporte político-ideológico e


militar à globalização, temos a OTAN e as Forças Armadas dos
EUA, a representação política do “Império universal” e seu
parceiros e aliados.
É claro que não estamos diante de um bloco homogêneo,
mas de um condominio de interesses que possuem, entretanto,
divergências não-antagônicas e que concorrem entre si, por
hegemonia no bloco de poder do capital.

A hegemonia americanista e as mutações da globalização

A mundialização do capital disseminou-se sob a hegemonia


americanista, pois coube aos EUA ser a representação política
do desenvolvimento capitalista mundial, principalmente sob a
mundialização do capital, com o débacle da URSS.
O século XX, o mais sangrento da história, com 200 milhões
de mortos, tornou-se um “século americanista”. Foi por meio da
articulação político-militar transnacional sob a hegemonia
americana e envolvendo outros países capitalistas (o G-8) que
“construiu-se” a mundializaçào do capital.
Cabe salientar que não estamos diante de um conspiração
imperialista, como uma leitura de esquerda vulgar e ortodoxa,
mas de um processo político e cultural complexo, de expansionismo
sistêmico (e irrefreável) de um “sujeito automático”, o capital e
suas personificações fetichizadas, que expõe, em maior ou menor
proporção, suas contradições sociais e históricas latentes e
manifestas.
A armação do capital como “sujeito” da modernização tardia,
articula, em suas relações internacionais, a partir do centro
capitalista dominante, os mais diversoso países capitalistas e
“socialistas de mercado”, que cultivam pretensões hegemonicas
regionais, articulando inclusive obstáculos à globalização neoliberal
(como é o caso da China) e negociando novas modos de inserção
no processo de mundialização do capital.

91
Dimensões da Globalização

No plano cultural, como uma determinação ineliminável do


processo de reprodução social da mundialização do capital, temos
a mídia global, os conglomerados de mídia que contribuem para
o construto ideológico da globalização. Criou-se, a partir daí, o
discurso (e a ideologia) da globalização.
É claro que a mundialização do capital inclui em seu
desenvolvimento histórico mundial uma mundialização da política
e de seus movimentos e ideologias, além de uma mundialização
da cultura. O avanço das multinacionais globais, que exportam
não apenas capital, mas relações sociais, culturais e institucionais.
Tão importante quanto a constatação de que cresceu a
exportação de produtos simbólicos pelas corporações globais é a
apreensão do modo como tais mercadorias culturais está sendo
incorporado pelos consumidores locais. Por isso alguns autores,
observando a globalização cultural procuram utilizar o termo
“glocalização” e não meramente “globalização”, posto que, no
caso da cultura (o que pode ocorrer, em menor proporção, com
outras esferas da sociabilidade), a dimensão local é deveras
determinante.
A globalização como mundialização do capital possui, desde
os anos 1980, formas hegemônicas, delineadas pelas políticas
internacionais dissiminadas pelos organismos multilateriais, do
Consenso de Washington ao Consenso de Berlim, além de
uma diversidade de modos de inserção.
Do neoliberalismo à governaça progressista (ou suposta
“Terceira Via”), o capitalismo mundial tende a constituir
arcabouços políticos intrinsecamente liberais, alguns inclusive,
totalmente híbridos, de cariz social-democrata e mais amplos
que sustentam o sistema orgânica do capital predominante; sem
deixar de considerar que o sistema orgânico do capital, como
ressalta muito bem Mészáros, não se confunde apenas com suas
representações capitalistas predominantes, mas inclusive com
seu elos pós-capitalistas alternativos à via neoliberal e social-
democrata (a China, por exemplo) (Mészáros, 1995).

92
Por isso, o que pode parecer uma “ruptura” ou débacle da
globalização, como alguns discursos podem pressupor, é tão-
somente, o indicio de uma mutação da globalização, que procura
criar uma nova forma social e política capaz de reproduzir a
lógica predatórioa e autoritária do capital financeiro. Um capital
financeiro, que vale a pena ressaltar, tende a incrementar e
acelerar o sentido de regressão civilizatória intrinseco à lógica
de desenvolvimento sócio-histórico do próprio capital.
Existem, é claro movimentos sociais que pleiteam uma ruptura
com a globalização. São movimentos anti-capitalistas que, se não
se atinge o lastro estrutural de reprodução da ordem do capital, a
propriedade privada e sua contraparte orgânica, o Estado
político, tenderão a encenar tão-somente mutações da
globalização.
A globalização, isto é, a reprodução orgânica do sistema do
capital mundial, sob a hegemonia finnaceira, pode ter, certamente,
continuidade sob outras formas político-institucionais
administráveis, conduzindo e aprofundando as contradições
societais e a dilapadição paulatina de um sentido civilizatório que
o desenvolvimento sócio-histórico do capital ainda possa ter.
Dimensões da Globalização

4
Globalização Como
Processo Civilizatório
Humano-Genérico

A
globalização é um momento tardio de desenvol-
vimento do capitalismo moderno em sua dimen-
são imperialista. É a mundialização do capital, do
“sujeito” capital em geral, como agente histórico da
modernização universal. Ela possui, em seu sentido originário,
uma ideologia e uma política que se desenvolve a partir do processo
da mundialização do capital.
É impossível separar a ideologia e a política da globalização
de seu movimento sócio-histórico como mundialização do capital,
até porque é deste modo que ela organiza processos hegemônicos
de construção das bases político-institucionais e culturais que
propiciam o poder e a dominação ampliada do capital.
Enquanto ideologia, a globalização tende a ser um construto de
idéias que ocultam/distorcem a apreensão do movimento do capital
como desenvolvimento de instauração/conservação/extensão/
intensificação da desigualdade, exploração e exclusão societária.
Entretanto, por ser expressão tardia do desenvolvimento
capitalista, a globalização traz em seu bojo, as contradições
candentes do capital. Por isso que, se por um lado, a globalização
é intrinsecamente mundialização do capital, por outro lado,
tende a ser processo civilizatório humano-genérico. Ela tende
a contribuir, de certo modo, para o desenvolvimento da integração/
desintegração, objetivação/subjetivação do gênero humano em-
si e para-si.

94
Globalização Como Processo Civilizatório

É por ser intrinsecamente contraditória, isto é, representar


também processo civilizatório humano-genérico, que a
globalização como mundialização do capital é capaz de (re)criar
os homens e mulheres como agentes sócio-históricos de
transformação social.
É tal contradição sublime, intrínseca à globalização, que
possibilita, apesar do cerco planetário do capital em geral, os
movimentos sociais e suas utopias de um outro mundo possível.
E não apenas isso. É tal contradição entre mundialização do
capital e processo civilizatório humano-genérico que cria como
seu efeito ideológico particular, as explicitações espectrais de
um “admirável mundo novo”.
Portanto, a globalização como desenvolvimento tardio do
capital, é a síntese contraditória (e concreta) da história
moderna. Por um lado, cria/recria, de modo inédito (e inaudito) o
gênero humano em-si, instituindo a idéia de “um mundo só”, que
tende a aproximar, cada vez mais, homens e mulheres, através
das novas tecnologias telemáticas e informáticas, além de contribur
para o desenvolvimento das forças produtivas e da criação da riqueza
social. Deste modo, na perspectiva do gênero humano em-si, ela
possui um sentido progressista para o todo social. É a sua dimensão
de processo civilizatório humano-genérico.
Por outro lado, a globalização, na medida em que é
efetivamente mundialização do capital, ameaça a própria
sobrevivência de bilhões de indivíduos, homens e mulheres em
todo o globo (“um mundo só” excludente, seletivo e desigual),
além de criar, através da supremacia do mercado, as condições
objetivas/subjetivas para desintegração/fragmentação dos
indivíduos humanos em particularismos sócio-culturais e políticos
diversos que tendem a negar os próprios avanços do processo
civilizatório (a degradação e “privatização” dos espaços públicos
tende a impedir a criação de uma consciência humano-genérico
das individualidades modernas).
É em virtude da mundialização do capital ser a posição quase-
absoluta de supremacia do capital financeiro, na sua determinação

95
Dimensões da Globalização

parasitária e rentista, que tende a ocorrer a potenciação do sentido


de reversão civilizatória da lógica do capital.
Cabe salientar que a instauração do sistema do capital
contribuiu, desde muito tempo, para o desenvolvimento da
civilização humana sócio-genérica. Entretanto, o capital em
processo sempre possuiu, e hoje mais do que nunca, um sentido
de reversão civilizatória intrinseca à insaciabilidade da busca
da riqueza abstrata.
Na verdade, a globalização exalta, por um lado, como
possibilidade concreta, um novo elemento da individualidade
humana (os “indivíduos histórico-mundiais”, utilizando uma
expressão de Marx), na mesma medida em que exacerba a lógica
e os valores do individualismo de mercado que degradam e
frustram a promessa de uma genericidade humana.
Além disso, a ciência e tecnologia, resultados do
desenvolvimento das forças produtivas da modernização
capitalista, apesar de contribuírem para o recuo das barreiras
naturais, com o homem dominando, por exemplo, tempo e espaço
e os próprios segredos do “código da vida” (o Projeto Genoma),
contribuem, por outro lado, para o desenvolvimento das forças
destrutivas da ecologia sócio-humana e natural: a crise ecológica
propriamente dita e a exploração/exclusão humana. Por exemplo,
o crescimento do desemprego estrutural, o incremento do controle
da força de trabalho e a intensificação da exploração capitalista.
O que procuraramos destacar é que a globalização é
intrinsecamente contraditória em virtude dela ser
fundamentalmente desenvolvimento tardio do capital, isto é,
expansividade tardia (e irrefreável) do “sujeito” da modernização
- o capital, a “contradição viva” (Marx).
É do nosso interesse apresentar, após a caracterização da
globalização como mundialização do capital, as determinações
antropológico-sociológicas que instauram a globalização como
processo civilizatório humano-genérico e que propiciam os
múltiplos nexos contraditórios do desenvolvimento tardio do

96
Globalização Como Processo Civilizatório

capitalismo moderno, criando, a partir daí, as possibilidades


concretas de sua superação sócio-histórica.

Uma dupla determinação antropológico-sociológica da


globalização

A globalização pressupõe o homem como ente natural e


universal

O capitalismo moderno se desenvolveu não apenas explorando


a força de trabalho e instaurando desigualdades e miséria social,
mas colocando o homem diante de si mesmo, como um ser
genérico, natural, histórico e universal.
Por exemplo, no alvorecer do capitalismo industrial, tal
percepção tornou-se bastante intensa. É o que observamos ao
lermos o Manifesto Comunista de 1848, de Karl Marx e Friedrich
Engels. Naquele texto clássico, um verdadeiro Manifesto
Modernista (Berman, 1981), seus autores revolucionários
vislumbraram, pela primeira vez, a idéia de uma globalização como
processo civilizatório humano-genérico. O mercado mundial e a
produção universal de mercadorias tendiam a criar “indivíduos
histórico-mundiais”, expressão utilizada por Marx e Engels n’A
Ideologia Alemã, com necessidades radicais capazes de
subverter o próprio sistema do capital (Marx, 1983).
Ora, o processo sócio-histórico de desenvolvimento do
capitalismo mundial, ou seja, do sistema mundial de produção e
circulação de mercadorias, é intrinsecamente contraditório, pois
desenvolve, como invólucro social do ser humano-genérico, o
estranhamento universal (Entfremdung).
Por estranhamento universal podemos entender, como Marx
(em “A Ideologia Alemã), “uma força estranha situada fora deles
[dos indivíduos], cuja origem e destino ignoram, que não podem
mais dominar” e que representa tão-somente o poder da própria
cooperação de vários indivíduos exigida pela divisão do trabalho

97
Dimensões da Globalização

(por exemplo, o mercado), mas que aparece a estes indivíduos


como “independente do querer e do agir dos homens e que, na
verdade, dirige este querer e agir.” (Marx e Engels, 1987)
A rigor, podemos afirmar que este estranhamento universal
é provocado pelo capital como modo de controle do metabolismo
social da produção e reprodução humana, ou seja, da própria
cooperação social que não é voluntária, mas natural (Mészáros,
1999).
O homem se afirma como ser genérico [Gattungswesen]
tão-somente através da construção de um “mundo objetual”. É
através do processo de objetivação/exteriorização, do trabalho,
que o homem se faz homem. O desenvolvimento ampliado de
um “mundo objetual” cria, pelo menos, a possibilidade concreta
de uma consciência em-si do homem como ser genérico. É através
dele, do desenvolvimento do mundo objetual, que o homem tende
a adquirir a consciência de seu ser genérico, cuja atividade vital
é o trabalho.
A categoria do trabalho assume sua plenitude sob as
condições do desenvolvimento tardio da sociedade burguesa. Ela
torna-se mais concreta, ou seja, aparece como trabalho sans
phrase, “trabalho em geral”, tendo em vista que a sociedade
burguesa tende a ampliar (e tornar mais complexa) as mediações
da vida social, através do desenvolvimento multíplice da atividade
mediadora da produção da vida material, das novas tecnologias,
dos objetos, meios de trabalho ou ferramentas que o homem situa
entre si e o objeto de suas necessidades:

A indiferença em relação a uma espécie determinada de


trabalho pressupõe a existência efetiva de uma totalidade
muito desenvolvida de espécies de trabalho, onde já
nenhuma delas predomina sobre todas as outras. Assim, as
abstrações mais gerais só surgem como tais, no
desenvolvimento concreto mais rico, onde o que é comum a
muitos aparece como comum a todos. Desaparece, então, a

98
Globalização Como Processo Civilizatório

possibilidade de se poder pensar em uma forma particular


[...] A indiferença em relação a uma forma determinada de
trabalho corresponde a uma forma de sociedade
[Gesellschaftsform] onde os indivíduos passam facilmente
de um trabalho para outro, tornando-se-lhes fortuita e,
portanto indiferente, a espécie determinada de trabalho. O
trabalho, aqui, não está somente na categoria, tornou-se uma
realidade efetiva [Wirklichkeit], como meio de criação da riqueza
em geral e deixou de ser uma determinação vinculada ao que
os indivíduos têm de peculiar.” (Marx, 1997: 635)

Ora, sob a mundialização do capital como momento tardio de


desenvolvimento do capitalismo moderno, é perceptível a plena
realização do objeto de trabalho. O desenvolvimento capitalista
através do desenvolvimento ampliado das forças produtivas
comprovou ser o desenvolvimento universal e intenso do mundo
objetual, o que Marx iria dizer que “a riqueza das sociedades
em que domina o modo de produção capitalista aparece como
uma ‘imensa coleção de mercadorias’”(Marx, 1996: 165).
É claro que a atividade humana do trabalho nas condições
do modo de produção capitalista é uma atividade estranhada
[Entfremdung]. Mas é também, na mesma medida, atividade
objetivada, ou ainda objetivação [Entäusserung] e, portanto,
apropriação dos objetos pelos sujeitos, homens e mulheres, e como
subordinação dos objetos às finalidades subjetivas, transformação
dos objetos em resultados e recipientes da atividade subjetiva
(apesar de que tais finalidades subjetivas apareçam como
estranhadas por serem atividades subjetivas do capital).
Na medida em que “é precisamente ao trabalhar o mundo
objetivo que o homem, primeiro, se prova de maneira efetiva
como um ser genérico”, ou ainda, “o objeto do trabalho é a
objetivação da vida genérica do homem” (Marx,1984:157), o
desenvolvimento tardio da sociedade burguesa, ou seja, a
globalização, tende a possuir, de certo modo, um conteúdo
civilizatório, pois ela representa o desenvolvimento tardio do

99
Dimensões da Globalização

mundo objetual, o resultado pleno do processo de trabalho que


é processo de valorização, e que origina constantemente objetos
novos e que tende sempre a alterar intensamente o mundo
circundante dos homens e mulheres.
É o que tem ocorrido nos últimos duzentos anos de capitalismo
industrial, que criou e ampliou o mundo sensorial-objetual,
produto histórico da indústria, “...resultado de toda uma série de
gerações, cada uma das quais se ergueu sobre os ombros da
anterior, desenvolvendo e ampliando a indústria e o comércio e
modificando sua ordem social de acordo com as necessidades
alteradas.” (Marx, 1987).
A constituição ampliada de um mundo objetual , de objetos
artificiais, tangíveis e intangíveis, que aparecem como “uma
imensa coleção de mercadorias”, possui uma significação
ontológica.
Ora, objetos artificiais possuem uma função particular
qualitativamente diversa das coisas naturais, ou seja, todo objeto
natural tal como, por exemplo, uma pedra ou uma árvore, pode
ser utilizado de vários modos de acordo com situações concretas.
Entretanto, os produtos do trabalho possuem uma utilização
particular e concreta no interior da matriz da vida social. São
valores de uso cuja utilização usual tem uma quase-
corporificação como norma na própria forma física dos objetos
de trabalho (Markus, 1973).
Enquanto portadores, ou suportes, objetuais das normas, os
produtos do trabalho não são apenas objetos de uso, mas também
valores de uso (inclusive, precisam ser valores de uso antes de
serem valores de troca). Por isso, na medida, em que se
desenvolve o mundo objetual, os indivíduos têm que desenvolver
em si mesmos, em alguma medida, as qualidades humanas
particulares que permitem o uso “adequado” dos objetos
de trabalho, ou seja, têm que se apropriar efetivamente dos
produtos do trabalho. O que impica o desenvolvimento daquilo
que Lukács iria denominar de novos tipos de posição teleológica,
as posições teleológicas secundárias, tais como a ideologia,

100
Globalização Como Processo Civilizatório

qualitativamente diferentes da posição teleológica primária


voltada para a transformação da natureza) (Lukács, 1988).
Por isso, ao contrário da natureza, a esfera social, em suas
manifestações elementares, aparece permeada de normas sociais.
De certo modo, eis o fundamento ontológico do desenvolvimento
complexo de um campo lingüístico-comunicativo ampliado sob
as condições de desenvolvimento tardio da sociedade burguesa.
É tal constatação ontológica do ser social que permite
apreender que o processo de desenvolvimento capitalista não é
apenas processo de estranhamento, mas processo de
objetivação do ser humano-genérico, que ocorre intensivamente
através do desenvolvimento de sua capacidade de produção do
“mundo objetual”. Como observa, Marx,

O que realmente se ‘amontoa’, mas não como massa morta, mas


sim como algo vivo, é a habilidade do trabalhador, o grau de
desenvolvimento do trabalho (de todos os modos...o estágio
de desenvolvimento da força produtiva do trabalho alcançado
em cada caso e do que, em cada caso se parte, não existe só
como disposição, capacidade de trabalho, mas também, e ao
mesmo tempo, nos órgãos objetuais que esse trabalho tem
procurado e que se renova cotidianamente). Este é o verdadeiro
‘prius’ que constitue o ponto de partida, e este ‘prius’ é
resultado de um decurso evolutivo. (Apud Markus, 1973)

Além disso, o processo de desenvolvimento capitalista, a partir


da atividade do trabalho, tende a criar necessidades sociais
completamente novas, necessidades sociais tanto por sua origem,
quanto por seu conteúdo. Inclusive, necessidades radicais que
por sua própria natureza, ultrapassam as possibilidades produtivas
e sociais dadas pelo sistema do capital (Heller, 1981). O que nos
leva a pensar o caráter contraditório do próprio desenvolvimento
da produção capitalista, expressa pela contradição essencial entre
as forças produtivas conquistadas e as condições e relações
sociais existentes.

101
Dimensões da Globalização

Portanto, na medida em que a globalização é, antes de tudo, o


desenvolvimento tardio da sociedade burguesa, ela tende a ser o
momento mais desenvolvido do processo civilizatório humano-
genérico, destilando necessidades individuais de caráter histórico-
social e necessidades radicais (como por exemplo, o intercâmbio
com os semelhantes, necessidades estéticas e espirituais ampliadas).
O desenvolvimento capitalista tende a criar, na medida em
que é também processo civilizatório humano-genérico, uma
relação entre o homem e seu meio sócio-histórico cada vez mais
complexa e diversa, abundante de aspectos sócio-individuais e
menos determinada pelas necessidades biológicas. O que pode
ser compreendido como a redução dos limites naturais, que
permanecem, apesar disso, como pressupostos negados
inelimináveis.
A idéia da globalização como processo humano-genérico
decorre da concepção de que a categoria do trabalho como
atividade vital consciente constitui o ser do homem. É através
do trabalho que o homem se desenvolve não apenas como ente
natural universal, mas como ente social e universal,
constituindo um mundo objetual ampliado, permeado de normas
e de novas necessidades individuais e de caráter histórico-social
(além das necessidades radicais), desenvolvendo, portanto,
complexas mediações entre ele e seu meio sócio-histórico
concreto, reduzindo os limites das barreiras naturais:

O homem é essencialmente um ser natural universal, tanto


no sentido de que é potencialmente capaz de transformar em
objeto de sua necessidade ou de sua atividade, todos os
fenômenos da natureza, quanto no sentido de que assume
em si e irradia de si todas as ‘forças essenciais’ da natureza,
isto é, capaz de adaptar crescentemente sua atividade à
totalidade das leis naturais e, por conseguinte, de alterar
com penetração cada vez maior seu próprio entorno em
expansão progressiva (Markus, 1973:19)

102
Globalização Como Processo Civilizatório

Deste modo, ao tratarmos a globalização como processo


civilizatório humano-genérico, lidamos com uma determinação
histórico-ontológica intrínseca ao próprio desenvolvimento
capitalista. Ora, se a globalização é um forma concreta e tardia
do desenvolvimento capitalista, ela não poderia deixar de
expressar, de um modo particular, tais determinações histórico-
ontológicas.
Ao tratarmos da globalização como mundialização do capital,
procuramos salientar o verdadeiro processo de produção (e
reprodução) do estranhamento universal sob a forma particular
da predominância do capital financeiro. De certo modo,
salientamos a posição da mundialização do capital como “sujeito”
de uma modernização tardia.
Mas as contradições dilacerantes do processo de
desenvolvimento capitalista, com seus movimentos sociais e
necessidades humano-genéricas ampliadas, apontam para uma
pressuposição, uma pressuposição negada, no sentido dialético,
deste próprio processo. Ou seja, a globalização não é tão-somente
um processo histórico-universal do capital posto como “sujeito”
do processo capitalista, mas é, na mesma medida,
universalização do homem como ente natural e social.
Portanto, o processo de universalização do homem, intrínseco
ao desenvolvimento da sociedade burguesa, possui um duplo
aspecto: é naturalização do homem, isto é, metamorfose do
homem de um ente natural limitado a um ente natural cada vez
mais universal e, por outro lado, humanização da natureza, ou
seja, transformação da natureza pela atividade humana,
transformação que faz com que os objetos em torno do homem
se convertam em objetivações das forças da natureza humana.
De algum modo, a globalização como desenvolvimento
capitalista tardio não deixa de ser expressão destas determinações
ontológicas da evolução humano-genérica. É por isso que ela é
um processo civilizatório humano-genérico.
É a apreensão da globalização como processo civilizatório
humano-genérico que coloca as bases objetivo-estruturantes da

103
Dimensões da Globalização

própria possibilidade da utopia sócio-histórico. Ora, tal


concepção da globalização como processo civilizatório humano-
genérico só é possível a partir de uma concepção do trabalho
como processo de auto-produção do homem, de sua auto-criação
na história: “O trabalho é o fogo vivo, configurador, a caducidade
das coisas, sua temporalidade, enquanto que é sua formação pelo
tempo vivo.” (Marx, 1987: 306) Ou ainda: “...toda denominada
história universal não é mais que a produção do homem pelo
trabalho humano, o devir da natureza em homem.” (Marx, 1988).

A globalização pressupõe o homem como ente social e


comunitário

Ao dizermos que o homem é um ser genérico, dizemos que


ele é efetivamente um ente social e comunitário. É tal apreensão
essencial da natureza humana, apenas pressuposta sob o sistema
do capital, que pode explicar, em nossos dias, a resistência radical
do homem a processos de dessocialização do ser social intrínsecos
à mundialização do capital, uma resistência radical que se dá,
como iremos ver adiante, através de associações e movimentos
anti-globalização.
Ao dizermos que o homem é um ser genérico, isto é, um
ente social e comunitário, estamos dizendo que ele só pode ser
homem, na medida em que se relaciona com os demais homens
e em conseqüência dessa relação com os demais homens.
Na verdade, a concepção do homem como átomo metafísico
e seu pressuposto, a idéia da possibilidade de uma existência
humana fora ou independentemente da comunidade social, é
uma ilusão filosófico-ideológica produzida pelos indivíduos que
vivem em condições (e relações) coisificadas da produção
mercantil.
O individuo humano-concreto é um produto histórico-social e
só é individuo humano na medida em que se apropria das
capacidades sociais, das formas de conduta sociais, das idéias e

104
Globalização Como Processo Civilizatório

normas originadas e produzidas pelos indivíduos que o precederam


ou que coexistem com ele, e as assimila (mais ou menos
universalmente) à sua vida e a sua atividade individual. Deste
modo, o individuo humano-concreto é um produto, em si mesmo,
histórico-social:

A atividade social e o espírito social não existem de modo


algum só na forma de atividade imediatamente comum e
espírito imediatamente comum...Quando atuo cientificamente,
etc., atividade que só posso executar em atividade imediata
com outros, sou ativo socialmente porque assim sou como
homem. Não apenas o material de minha atividade me é dado
como produto social - igual a linguagem utilizada pelo
pensador - mas meu próprio existir é atividade social...O
indíviduo é o ser social. Por isso sua manifestação vital -
embora não se apresente na forma imediata de uma
manifestação comunitária, realizada junto com outros - é
manifestação e confirmação da vida social. A vida individual
e a vida genérica do homem não são diferentes, por mais
que, necessariamente, o modo de existência da vida individual
é um modo mais ou menos particular ou geral da vida
genérica, e a vida genérica, vida individual mais ou menos
particular ou geral (o grifo é nosso). (Marx, 1988)

Por isso que a idéia de globalização como processo civilizatório


humano-genérico se expressa, de certo modo, pelo menos como
possibilidade concreta, através do desenvolvimento das redes
de comunicação mundial, da constituição da Internet como
resultado do desenvolvimento das novas tecnologias telemáticas
e informáticas. A Internet é a própria metafóra do indivíduo como
ser social-comunitário (apesar da sua perversão mercantil, ou
seja, sua utilização suprema para o e-commerce).
Por trás do “dilúvio de Outros” (Lévy), proporcionada pelo
desenvolvimento das tecnologias telemáticas, presenciamos, de
fato, a globalização como processo civilizatório humano-genérico.

105
Dimensões da Globalização

Mas não apenas isso. Presenciamos a validação ontológica do


trabalho enquanto atuação humana particular. Ele, o trabalho, é
o próprio modelo ontológico do desenvolvimento do homem
como ente social e comunitário.
Por um lado, o trabalho não é possível senão como atividade
coletiva, realizando-se esse caráter coletivo diretamente ou
através de múltiplas mediações sociais. Nos primórdios da história,
enquanto as forças produtivas sociais dos indivíduos, tanto no
sentido objetivo-coisal, quanto no sentido subjetivo, estão
relativamente pouco desenvolvidas, enquanto enfrentam uma
natureza pouco alterada, o trabalho é de caráter imediatamente
coletivo, é trabalho de um grupo ou então trabalho determinado e
condicionado pelo pertencimento dos indivíduos a uma comunidade
“espontânea” (Marx diria nos Grundrisse: “A comunidade mesma
aparece como a primeira grande força produtiva”).
É com o desenvolvimento das forças produtivas que seria
possível a produção autônoma dos indivíduos isolados, uma produção
não regulada por vínculos comunitários imediatos. Mas esse
desenvolvimento mesmo não é possível senão através de uma divisão
do trabalho e do intercâmbio social, em virtude dos homens
produzirem uns para os outros, pelo fato de que seus produtos se
complementam reciprocamente.
Por isso. a abolição/superação [Aufhebung] do caráter
imediatamente coletivo da atividade produtiva só é possível através
da socialização [Vergesellschaftung] de seu conteúdo e de sua
determinação interna:

O homem não se singulariza como indivíduo senão através


do processo histórico. Originariamente aparece como ser
genérico, um ser tribal, um animal gregário, e de modo
algum como “animal urbano” [em grego no original] no
sentido político. O intercambio mesmo é um meio fundamental
da singularização do homem como indivíduo. O intercâmbio
torna supérfluo seu caráter gregário e o dissolve. Isto ocorre
na medida em que a situação se transformou de tal modo

106
Globalização Como Processo Civilizatório

que o homem singularizado como indivíduo, já se relaciona


só consigo mesmo, mas os meios necessários para pôr-se
como homem singular se converteram em atividade geral e
comum (Marx,1987:457)

Deste modo, é em virtude da globalização como


desenvolvimento tardio do capitalismo, em sua etapa de
mundialização do capital, pressupor, de qualquer modo, um
desenvolvimento ampliado (e intenso) do intercâmbio social , que
podemos admitir, como uma de suas dimensões inelimináveis, a
globalização como processo civilizatório humano-genérico, ou
seja, a construção intensa da singularidade humano-genérica
(apesar dos processos de dessocialização intrínsecos à
mundialização do capital).
Ora, a idéia de globalização implica, de certo modo, a
intensificação da coletividade humano-social. O individuo só pode
apropriar-se das forças materiais e espirituais historicamente
produzidas através da coletividade humana, do intercâmbio social
com outros homens e mulheres. É um traço particular do processo
sócio-histórico e que só tendeu a se acelerar com o capitalismo
industrial no século XX.

A posição do campo linguístico-comunicativo como nova


determinação do processo civilizatório humano-genérico.

Em virtude da aceleração sócio-histórica do desenvolvimento


capitalista e da construção ampliada de um mundo objetual e,
por conseguinte, do processo civilizatório humano-genérico que
lhe é intrínseco, se desenvolve, de forma ampliada, como uma
nova determinação ontológica do ser do homem e sob a base de
desenvolvimento material do trabalho, um campo linguístico-
comunicativo. Ele coloca, cada vez mais, a linguagem e a
interação intersubjetiva, inclusive (e principalmente) no interior

107
Dimensões da Globalização

de relações sociais antagônicas entre o capital e o trabalho, como


o nexo ineliminável do processo civilizatório humano-genérico.
É a partir do desenvolvimento ampliado do campo lingüístico-
comunicativo que surgiram, por exemplo, a esfera pública e
tudo aquilo que procuramos relacionar a ela, tais como, por
exemplo, as doutrinas políticas de democracia social, além da
predominância, como importante superestrutura ideológica, as
filosofias hermenêuticas e da linguagem, com suas diversas
filiações (Wittgenstein, Heiddegger, Gadamer, etc), que tanto
marcaram o século XX.
É claro que o desenvolvimento do campo lingüístico-
comunicativo antecede a globalização propriamente dita, tendo
em vista que está ligado ao próprio desenvolvimento do
capitalismo moderno (e das lutas sociais no interior do sistema
do capital). Mas, com a globalização, ela tende a ampliar-se
mais ainda e assumir novas formas sócio-históricas. E, a partir
da mundialização do capital, os limites de desenvolvimento (e até
de regressão e distorção político-ideológica) do campo lingüístico-
comunicativo são bastante perceptíveis.
Podemos dizer que seria impossível a reprodução social do
capitalismo tardio sem a esfera pública e sem os rudimentos de
um Estado social-democrata (Welfare State), apesar da vontade
política da burguesia (com sua ideologia neoliberal). Ela surge e
assume múltiplas formas sócio-históricas determinadas sob o
capitalismo tardio, em decorrência não apenas das próprias
necessidades estruturais da reprodução do sistema orgânico do
capital, mas das necessidades civilizatórias dos indivíduos
sócio-históricos que a própria burguesia tem que reconhecer
(sob a pressão social da luta de classes).
Por exemplo, mesmo sob a onda neoliberal dos anos de 1980,
alguns pilares do Welfare State permaneceram quase intactos.
Seu desmanche poderia atingir a legitimidade social e política do
sistema orgânico do capital, inviabilizando sua reprodução
sistêmica. Na verdade, sob a onda neoliberal ocorreram reformas

108
Globalização Como Processo Civilizatório

do Estado social-democrata que não aboliram de vez, mas deram


um novo formato institucional, seletivo e excludente, à demanda
civilizatória, aprofundando, deste modo, no limite, a contradição
intrínseca à própria ordem do capital.
É importante salientar que o problema da legitimidade ou, no
sentido gramsciano, da hegemonia “latu sensu, tornou-se
decisivo, mais do que nunca, para a reprodução do sistema
orgânico do capital tendo em vista o próprio desenvolvimento
ampliado do campo linguístico-comunicativo, que seria, no plano
ontológico, o fundamento real do desenvolvimento dos meios de
comunicação e de transportes na modernidade capitalista.
Entretanto, o problema da legitimidade tende a apresentar, cada
vez mais, a sua irresolubilidade nas condições da globalização
como mundialização do capital.
Portanto, na perspectiva de uma crítica da economia política,
poderíamos dizer que o paradoxo e uma das principais
contradições do sistema orgânico do capital, é que o
desenvolvimento ampliado (e a expansão contínua) do valor de
troca não significa que ele tenda a “suprimir” a importância e o
próprio fundamento - do valor de uso, mas pelo contrário, ocorre
o próprio desenvolvimento rico e multilateral do valor de uso que
tende, inclusive, a entrar em contradição com o valor de troca
em expansão.
Esta é a dialética ineliminável do sistema produtor de
mercadorias, que reproduz, como sua própria condição ontológica,
a contradição entre o desenvolvimento das forças humanas
produtivas e das próprias necessidades humanas sócio-
históricas,que exigem sempre novos valores de uso, nem todos
pertinentes à demanda civilizatória, é claro, para satisfazer
necessidades humano-genéricas criadas no processo de
desenvolvimento histórico, e as relações sociais de produção
capitalista, baseadas no valor de troca e no valor (que quando
não realiza tais demandas civilizatórias, as distorce ou limita seu
desenvolvimento social e histórico).

109
Dimensões da Globalização

Além disso, a constituição ontológica de um campo lingüístico-


comunicativo ampliado como demanda civilizatória vai se exprimir,
no plano do pensamento filosófico, na constituição de filosofias
hermenêuticas e da linguagem. Não é à toa que a filosofia do
século XX é caracterizada pela reflexão linguistico-comunicativa
que, em suas formas mistificadas tende a ocultar (e inclusive
negar) a centralidade ontológica da categoria do trabalho.
Por exemplo, Habermas tende a salientar a passagem de um
paradigma do trabalho para o paradigma da interação.
Apesar de ser verdadeira a percepção em Habermas do valor
fundamental de uma esfera intersubjetiva nas condições de
desenvolvimento do capitalismo moderno, ou seja, a constituição
de uma esfera pública que esteja baseada na interação
intersubjetiva e na linguagem como uma condição ineliminável
do processo civilizatório, é totalmente equivocado considerar
que o campo linguistico-comunicativo (e da interação
intersubjetiva) seja o verdadeiro fundamento da sociabilidade
humana, negando, portanto, a esfera do trabalho como a base
ontológica estruturante do próprio desenvolvimento do campo
linguístico-comunicativo.
O que ocorre é que, com o desenvolvimento tardio do
capitalismo moderno, o campo linguístico-comunicativo tende a
sobredeterminar, inclusive como complexo problemático das
“posições teleológicas secundárias” (Lukács), a própria atividade
humana cujo modelo ontológico é dado pela categoria do trabalho.
A esfera do trabalho tende a ser cada vez mais
sobredeterminada pelo campo linguístico-comunicativo, o que
pode ser percebido, por exemplo, na centralidade estratégica da
busca do consentimento pró-ativo do trabalhador assalariado na
nova ideologia orgânica da produção capitalista, o toyotismo.
Éstamos diante de um resultado do processo civilizatório humano-
genérico que é apropriado pelo capital. Entretanto, cabe
salientar que a posição do campo linguistico-comunicativo não
suprime, mas apenas sobredetermina, a centralidade ontológica
do trabalho como fundamento da sociabilidade humana.

110
Globalização Como Processo Civilizatório

O desenvolvimento do campo linguistico-comunicativo, isto


é, da esfera pública como matriz originária do Estado social-
democrata e das políticas sociais e das ideologias da democracia
e da cidadania como valor universal, e o próprio desenvolvimento
do complexo ideológico-político da filosofia hermenêutica e da
linguagem, tendem a assumir, em nossos dias, uma dimensão
mistificadora e paradoxal em virtude de seu desenvolvimento
ocorrer no interior do sistema orgânico do capital.
Se o campo linguistico-comunicativo tende a sobredeterminar a
esfera do trabalho como base ontológica do próprio desenvolvimento
das mediações linguistico-comunicativa, as determinações materiais
(e sociais) do sistema orgânico do capital tendem, na mesma medida,
a sobredeterminar, até com maior intensidade, o campo linguistico-
comunicativo, explicitando seus limites de desenvolvimento no
interior das relações sociais capitalistas.
Por isso, com a globalização como mundialização do capital tornam-
se perceptíveis os paradoxos (e limites) do campo linguístico-
comunicativo nas condições sócio-históricas postas pelo capital como
“sujeito” da modernização.
Por exemplo, limites (e paradoxos) da democracia como valor
universal, uma tese política que se origina nas condições de um
desenvolvimento civilizatório tardio e que tende a cair em verdadeiras
antinomias políticas diante da limitações estruturais postas pelo sistema
orgânico do capital à democracia radical e universal; e limites e
distorções das filosofias hermenêuticas e da linguagem , que tendem
a ocultar a base material e as próprias relações de intercâmbio
material e espiritual, que determinam e condicionam, o campo
linguistico-comunicativo, conduzindo, portanto, a construtos filosóficos
idealistas.
Tais paradoxos do campo linguístico-comunicativa tendem a
ser os verdadeiros paradoxos do processo civilizatório humano-
genérico nas condições da mundialização do capital.
Por um lado, a globalização tende a exacerbar, em si, a
qualidade ontológica do homem como ente social comunitário e,
portanto, linguistico-comunicativo. Entretanto, por outro lado,
tende a constituir, a subversão da esfera lingüístico-comunicativa,

111
Dimensões da Globalização

limitando e degradando seu desenvolvimento civilizatório. O


exemplo-mor é a impossibilidade social, e não-técnica, da
constituição de uma verdadeira democracia radical e universal
através da utilização da Internet. Pelo contrário, ela, a Internet,
tende a tornar-se a imagem e semelhança da própria sociedade
burguesa: seletiva, excludente e banalizada pelo consumismo
volátil. O paradigma da rede é a metáfora (e a promessa) da
plena realização política e social do homem como ente social e
comunitário, totalmente frustrado pela lógica do capital.

Individuo e sociedade na era da globalização

O desenvolvimento tardio do capitalismo mundial tende a


revelar um aspecto importantes da relação do individuo com a
sociedade. Primeiro, o “individuo histórico-mundial”, constituído
em-si (e não para-si) com a intensificação dos intercâmbios
sociais e com a própria constituição da sociedade em “rede”,
tende a depender cada vez mais, apesar da sua singularidade
humano-genérica, de outros indivíduos para desenvolver sua
própria individualidade singular (ora, a própria idéia de “rede” é
a materialização estrutural do desenvolvimento tardio da
singularidade humano-genérica).
Na verdade, a vida social tende a produzir novas necessidades
individuais, principalmente necessidade de contato humano,
apesar de que, nas condições estranhadas da sociedade burguesa
ocorram limites estruturais para o desenvolvimento pleno da
socialização de homens e mulheres, o que salientamos quando
tratamos dos limites e paroxismo de desenvolvimento do campo
lingüístico-comunicativo, principalmente de uma verdadeira esfera
pública no interior do sistema orgânico do capital.
Depois, o individuo tende, cada vez mais, a se imiscuir e ter
sobre si a herança das gerações passadas. Foi Marx que
observou, e não apenas ele, mas Comte também chegou a
observar, que: “A tradição de todas as gerações mortas oprime
como um pesadelo o cérebro dos vivos.” (Marx, 1986:17).

112
Globalização Como Processo Civilizatório

Entretanto, nas condições do sistema orgânico do capital, o


crescimento do mundo objetual tende a impor a homens e
mulheres novas condições de sociabilidade que possuem como
principal característica o perpetuo trato com normas e dispositivos
linguisticos-comunicacionais que lidam com um passado “que se
desmancha no ar”, mas que tende a ser sempre reiterado (“como
um pesadelo”, na asserção de Marx):

...o desenvolvimento do individuo está condicionado pelo


desenvolvimento de todos os demais com os quais se
encontra em relação direta ou indireta, e que as distintas
gerações de indivíduos que entram em relação umas com as
outras têm uma determinada conexão entre elas, que os
indivíduos posteriores estão condicionados em sua
existência fisica por seus predecessores, assumem as forças
produtivas e as formas de intercâmbio acumuladas por estes
e permanecem assim determinados em suas próprias relações
recíprocas. Na verdade, está claro que ocorre uma evolução
e que a história de um individuo singular não pode ser, de
modo algum, desvencilhada da história de todos os
indivíduos precedentes e coetáneos, mas sim, está
determinada por esta. (Marx, 1985)

Essas determinações ontológicas. o lastro das gerações


passadas e a interdependência dos indivíduos sociais, que
adquirem maior plenitude nas condições de um capitalismo tardio,
não podem ser vistas apenas como um obstáculo que atrofia e
reprime as inclinações (e aspirações) “autênticas” do individuo
singular.
Pelo contrário, elas tendem a ser as condições autênticas para
o pleno desenvolvimento da sua individualidade concreta. Como
temos salientado, é através das capacidades herdadas e das
necessidades e formas de intercâmbio social dadas através de
suas relações com outros indivíduos (a práxis social), que o
individuo singular irá se apropriar do ser humano do individuo e
da individualidade concreta particularmente humana.

113
Dimensões da Globalização

Ao tratarmos do homem como ente natural e universal,


dizemos que a atividade do trabalho constitui o ser do homem.
Mas o homem é um ser genérico na medida em que é um ente
comunitário ou social.
A socialidade do homem não se reduz a esfera de produção
ou do trabalho como atividade sócio-humana propriamente dita,
principalmente sob um capitalismo tardio, onde as mediações
sociais tornaram-se mais complexas, e onde se constituíram, no
curso da evolução histórica, esferas, de certa forma, específicas
de atividade social, dotadas de uma independência relativa, como
a distribuição e o intercâmbio social, a estatalidade com suas
instituições históricas, etc., e a própria esfera linguístico-
comunicativa.
A socialidade é um traço essencial do individuo singular
inteiro, penetrando em todas as suas formas de atividade vital.
Entretanto, contra aqueles que afirmam a perda da centralidade
ontológica da categoria do trabalho, seu descentramento
sociológico apenas expõe a constituição de mediações complexas
autônomas originárias do próprio desenvolvimento da atividade
do trabalho material.
É através da história como atividade de produção e
reprodução da vida social, que o homem torna-se um ente natural
e universal e mais ainda, um ente social e universal. É a
intensa ampliação da produção material que torna o homem um
ente social universal, na medida em que ela, a produção material,
adquire caráter social, não apenas em sua forma abstrata, mas
também através de seu conteúdo concreto.
Porque os indivíduos começam a produzir uns para os outros,
seus produtos se complementam reciprocamente, seu trabalho
se converte “às suas costas”, é claro, em componente integrante
de um trabalho social total e os produtos se convertem em
produtos comuns do trabalhador coletivo.
Ora, a idéia de globalização como processo civilizatório
humano-genérico pressupõe um estágio histórico tardio do modo

114
Globalização Como Processo Civilizatório

de produção (e reprodução) capitalista, onde os indivíduos


singulares, tornados indivíduos histórico-mundiais em si pelo
desenvolvimento sócio-histórico do capital, trabalham (e vivem)
de uma forma ou de outra, uns para os outros. É o momento
mais desenvolvido de uma divisão social do trabalho que se realiza
numa perspectiva global.
É cada vez mais perceptível que a atividade do individuo se
faz objetivamente dependente da atividade de um âmbito de
indivíduos singulares, homens e mulheres, cada vez mais amplos.
Qualquer idéia impressionista da globalização tende a incorporar
tal percepção.
Por outro lado, cabe salientar que, com a globalização como
processo civilizatório humano-genérico, se constituem, para os
indivíduos singulares, as condições sócio-históricas mais elementares,
pelo menos no campo das possibilidades concretas, para que eles
possam se apropriar (e utilizar) das experiências civilizatórias do
“globo”, acumulada pela humanidade inteira:

Só com o desenvolvimento universal das forças


produtivas...passa a existir um intercâmbio universal entre
os homens...o que passa a existir finalmente indivíduos
histórico-universais, empiricamente universais, no lugar dos
locais.(Marx, 1987:4)

Essa ampliação do intercâmbio humano-social produz as


condições de autonomia do homem singular e as condições de
desdobramento da interioridade humana e da individualidade
humana real. Mesmo nas condições da globalização como
mundialização do capital, tende a ocorrer a posição de tais
demandas civilizatórias. É claro, condicionadas e determinadas
pelo capital.
Entretanto, eis a raiz da contradição essencial da evolução
histórica, pois o desenvolvimento da esfera do “estranhamento”
ocorre, pari passu, à constituição de um intercâmbio humano-

115
Dimensões da Globalização

social cada vez mais universal, que tende a dissolver as pequenas


comunidades sociais isoladas e autárquicas.
A universalização e a individualização singular do homem
são um processo unitário, apesar dessa unidade se realizar apenas
através de contradições e contraposições, como temos salientado.
Por exemplo, a universalização poderia ser considerada, na era da
globalização, como a unidade da individualização e da
despersonalização (Markus, 1971).
Além disso, a universalização prática dos homens também
é universalização espiritual (e “humanização ampliada dos
sentidos”), isto é, a tendência do conhecimento humano
transpor todas as barreiras concretas, não apenas no sentido
extensional (uma simples ampliação quantitativa dos
conhecimentos), mas um processo de universalização da
consciência humana que tende a alterar a consciência mesma
e inclusive o caráter da atividade consciente em sua relação
com o sujeito e em sua relação com o objeto.
Salientamos que a globalização pressupõe o homem como
ente natural e universal e ente social e comunitário. Ao utilizarmos
o termo “pressupõe”, nos apropriamos de uma sintaxe dialética
que distingue posição de pressuposição (no plano da exposição
lógica - e ontológica - do conceito).
Em virtude da globalização ser mundialização do capital, isto
é, ser expressão da posição do capital como “sujeito” do processo
de modernização (inclusive o “sujeito” capital sob a forma
predominantemente financeira), os atributos da globalização como
processo civilizatório humano-genérico só podem estar
pressupostos, o que não significa que não significa que não
tenham uma efetividade sócio-histórica.
É por tais pressupostos ontológicos da globalização terem
uma efetividadade sócio-histórica que (1) a contradição do sistema
orgânico do capital é um dado concreto da evolução histórica da
globalização e (2) a utopia da emancipação humana preserva
seu valor histórico-ontológico, contra aqueles que anunciam o
“esgotamento das energias utopicas” (Habermas).

116
Globalização Como Processo Civilizatório

Mundialização do Capital como Ocaso Civilizatório?

Seria a globalização como mundialização do capital um


momento de ocaso civilizatório, onde todos aqueles pressupostos
concretos da evolução histórica, intrínsecos ao desenvolvimento
capitalista, seriam subvertidos pela constituição de um sistema
orgânico do capital que tenderia a inverter a lógica produtiva?
Por exemplo, Chesnais salienta que, com a mundialização do
capital, a “lógica produtiva” não seria mais dominante, mas sim a
“lógica especulativo-parasitária”. Pela primeira vez na história a
reprodução social ampliada estaria ameaçada pelo grau de
parasitarismo que o capitalismo mundial mostrou ser capaz de
gerar (Chesnais, 1995).
Na virada do século XX, o conceito de imperialismo em Lênin
e Trostsky pressuponha também a percepção de uma etapa
superior de “apodrecimento” do capitalismo mundial, um
“capitalismo agonizante” ou ainda um “capitalismo de transição”,
o que significaria que o desenvolvimento do capitalismo
internacional só tenderia, segundo os autores bolcheviques, a
aprofundar a barbárie, perdendo, definitivamente qualquer
elemento civilizatório propriamente dito. A passagem para o
capitalismo monopolista implicaria numa mudança estrutural do
processo de socialização capitalista.
Na verdade, o imperialismo seria uma fase superior de
desenvolvimento do capitalismo mundial que repousaria na
degradação acelerada das condições de vida das massas
oprimidas. Por isso, acreditava-se, nos primórdios do século XX,
que diante do esgotamento absoluto das energias civilizatórias
do capitalismo, estariam sendo colocadas as premissas objetivas
irremediáveis da revolução proletária.
Ora, o que sugerimos é que a idéia de um esgotamento
absoluto das energias civilizatórias do desenvolvimento
capitalista não é correta. Ela tenderia a desprezar a própria
dialética da evolução sócio-histórica. O que procuramos mostrar
é que, mesmo nas condições do capitalismo mundial tardio, ocorre

117
Dimensões da Globalização

o desenvolvimento das energias civilizatórias. Cabe ressaltar,


limitado, é claro, cada vez mais, pelo sistema orgânico do capital.
O que precisa ser salientado é o caráter contraditório do
desenvolvimento do sistema orgânico do capital, o que quer dizer
que o capitalismo mundial desenvolve, cada vez mais, numa
proporção ampliada, diríamos, planetária: a barbárie e a
civilização, pelo menos como possibilidade concreta.
Na passagem para o capitalismo monopolista, na virada do
século XX, o que ocorre é uma superação das possibilidades
civilizatórias colocadas pelo desenvolvimento anterior. O conceito
de imperialismo, apresentado por Lênin, por exemplo, procurou
expressar a nova forma de ser do sistema mundial do capital.
O mesmo ocorre, hoje, na virada do século XXI, com a
globalização como mundialização do capital. Com ela ocorre uma
nova superação das possibilidades civilizatórias colocadas pela
etapa pretérita da evolução sócio-histórica. Só que a idéia de
“superação” (Aufhebung) - no sentido de negação/conservação
dos elementos civilizatórios intrínsecos à evolução sócio-histórica
do capitalismo, serve para tornar claro o acirramento das
contradições e contraposições do sistema orgânico do capital.
É o conteúdo intrinsecamente contraditório do sistema orgânico
do capital que precisa ressaltado mais do que nunca, pois é a
partir daí que poderemos vislumbrar a negação da negação,
pelo menos como possibilidade concreta. “Hoje em dia tudo
parece levar no seu seio a sua própria contradição”, diria Marx
(ele proferiu tal frase no discurso de aniversário do jornal cartista
The People’s Paper em 1857).
O que significa que a globalização como processo
civilizatório humano-genérico é tão-somente a unidade crítica,
ampliada e contraditória, entre o estranhamento universal que
atinge o individuo inteiro em suas relações sociais mais complexas,
em decorrência do sistema orgânico do capital e a explicitação
espectral do homem como ente natural, consciente, social e
universal, isto é, ser humano-genérico.

118
Globalização Como Processo Civilizatório

O conceito de explicitação espectral, que ora apresentamos,


pode servir para caracterizar a objetivação, mesmo que
mistificada, das capacidades humano-genéricas mais plenas e
das possibilidades concretas de realização do “ser humano”. A
promessa de emancipação é apenas um espectro sob o sistema
orgânico do capital. O espectro é uma realidade virtual mistificada
e mistificadora, obnubilando suas próprias condições de
irrealização estrutural.
A idéia da globalização como processo civilizatório humano-
genérico conduz à percepção da evolução histórica não apenas
como progresso técnico, mas também como progresso
“antropológico”, como persistente ampliação e aprofundamento
das capacidades, necessidades e formas de intercâmbio e
conhecimentos desenvolvidos pelo conjunto da sociedade.
É claro que é deveras provocador afirmar que a “civilização
da globalização”, do “bazar cultural mundializado” e do “centro
comercial mundializado” (global shopping mall), com sua cultura
da insignificância, possa representar progresso “antropológico”.
Entretanto, o que queremos salientar é que (1) tal percepção
da “banalização civilizatória” que ocorre na era da ‘globalização”
(e que decorre das próprias condições de reprodução cultural e
ideológica do capitalismo tardio) é verdadeira do ponto de vista
do individuo social, mas é falsa do ponto de vista do todo social
Na verdade, (2) ela traduz a exacerbação intrínseca à
“globalização”, das contradições do sistema orgânico do capital:
a contradição entre o desenvolvimento humano-génerico, dado
pelo recuo das barreiras naturais e pela constituição de um campo
de possibilidades concretas à emancipação do homem da
escassez, representada pelo desenvolvimento das forças
produtivas humanas, e o desenvolvimento dos individuos
determinados e condicionados pela sociedade de classes e pelo
estranhamento intrínseco às relações sociais capitalistas.
Do ponto de vista do todo social, a evolução histórica como
um todo, aparece como um processo progressivo de
universalização e liberação do homem. Entretanto, até agora, o

119
Dimensões da Globalização

progresso global da história não possui o mesmo sentido para os


indivíduos singulares, tendo em vista que a evolução histórica
não se traduziu na produção plena de indivíduos cada vez mais
universais e mais livres, embora, mais do que nunca, ocorra a
possibilidade concreta de “indivíduos histórico-mundiais”, postos,
entretanto, como meros entes espectrais.
É claro que, mesmo nas condições do sistema do capital, se
produziu, sob a base de um desenvolvimento social ascendente,
períodos históricos mais ou menos breves, nas quais algumas camadas
sociais, mais ou menos numerosas de indivíduos singulares, dispunham
de possibilidades de desenvolvimento humano relativamente
multilateral e harmoniosa. Mas se tomarmos como exemplo, não
seus indivíduos representativos, mas seus indivíduos médios, o
que observamos é o contrário (Markus, 1973).
Portanto, do ponto de vista dos indivíduos singulares não existe
um critério unitário e unívoco para captar a história como evolução
humano-genérica. O que observamos na época da “globalização”
é um abismo completo (e absoluto) entre a evolução individual
e a evolução social-global.
Deste modo, do lado dos indivíduos singulares é impossível
caracterizar o processo histórico atribuindo-lhe uma direção única e
determinada. Essa impossibilidade decorre das próprias contradições
tendenciais do processo civilizatório do sistema do capital.
Portanto, do ponto de vista dos indivíduos típicos que se sucedem
na história, a história transcorre até agora, não como um processo
progressivo ou como um processo regressivo, em virtude de que
não podemos descreve-la como um processo unitário.
O que significa que a universalização do gênero humano
não tem porque implicar a produção histórica de indivíduos cada
vez mais universais. Pelo contrário, sob o sistema orgânico do
capital o que observamos são indivíduos cada vez mais unilaterais,
mais limitados e mais “abstratos”, apesar de que - e eis a sublime
contradição ! - mais do que nunca, tenha se constituído um campo

120
Globalização Como Processo Civilizatório

de possibilidades concretas para o surgimento de “indivíduos


histórico-mundiais” (Marx).
Na perspectiva do todo social, a globalização e as
possibilidades concretas abertas no campo tecnológico, e inclusive
antropológico, tendem a significar um processo progressivo de
universalização e liberação do homem.
É a base sócio-material de desenvolvimento do sistema do
capital que permite que sejam possibilidades concretas e não
meramente fantasias utópicas, a idéia de indivíduos histórico-
mundiais. São tais condições materiais que constituem o lastro
real dos espectros humano-genéricos subjacentes às promessas
irrealizadas, e portanto, meramente ideologias, de uma nova
civilização do tempo livre, etc.
Ao invés da idéia de um “ocaso civilizatório”, que poderia ser
meramente uma idéia metafísica, pois tenderia a negar
absolutamente a própria evolução histórica. o que tenderia a
significar, em última instância, o fim da história, é preferível uma
apreensão dialética que saliente as contradições (e
contraposições) irremediáveis e candentes do sistema
orgânico do capital.

Globalização “em-si” e Globalização “para-si”

Alguns autores utilizam a expressão globalização pelo alto


e globalização dos debaixo, principalmente no que se refere a
necessidade de constituir novos movimentos sociais globais
(Brecher e Costello, 1994)).
Na verdade, é o que constatamos, principalmente a partir da
crise da globalização nos últimos anos da década de 1990,
com o surgimento de novíssimos movimentos sociais,
perceptíveis a partir das manifestações populares em Seattle
(1998) e culminados no I Fórum Social Mundial em Porto Alegre,
em 2001. Eles sugerem uma globalização dos debaixo.

121
Dimensões da Globalização

Mas colocamos uma nova determinação : a globalização


em-si é o que temos analisado até o momento como sendo a
mundialização (e a ideologia) do capital, onde os homens e
mulheres aparecem como meros predicatos de um processo
sócio-histórico cujo verdadeiro “sujeito” é o capital, em sua esfera
de produção e reprodução do valor abstrato (o dinheiro). É a
globalização como “coisa” que se impõe a todos nós e que
aparece como uma segunda natureza - quase-phísis - onde
não vislumbramos as teias políticas e ideológicas tecidas pela
luta de classes.
Mas a globalização, apesar de ser um processo em-si, pois é
desenvolvimento sócio-histórico material-objetivo, coloca as
possibilidades concretas de um processo para-si, instigado até
mesmo pela própria base material (e tecnológica) desenvolvida
pelo sistema orgânico do capital (por exemplo, é indiscutível o
papel da Internet na “globalização dos debaixo”):

A humanidade não se coloca nunca problemas que não pode


resolver, pois, ao mirá-lo de perto, ver-se-á que o problema
mesmo só surge no lugar onde as condições materiais para
resolvê-lo já existem ou ao menos estão em vias de aparecer.
(Marx, 1985).

A expressão da associação, dos movimentos e da consciência


de contestação, num sentido global, mesmo que, num plano
contingente, seja corporativista e particularista, aponta para o
surgimento de “espectros” de indivíduos histórico-mundiais. São
rudimentos de uma globalização para si, como resultado
necessário de um processo intrinsecamente contraditório do
sistema orgânico do capital.
A globalização em-si cria novos problemas civilizatórios, de
conteúdo transnacional e que se põe numa outra dimensão sócio-
histórica. Eles são postos pelo desenvolvimento do capitalismo
mundial e exigem, para o seu enfrentamento real, a constituição
irremediável de novas estruturas associativas, políticas e culturais

122
Globalização Como Processo Civilizatório

de nível global, integrativas e não substitutivas. O que significa


que a sociedade nacional-estatal tende apenas a ser sobre-
determinada - e não meramente anulada - pelos desenvolvimentos
de uma sociedade burguesa transnacional.
As novas tecnoburocracias transnacionais e seus antípodas,
as associações (ONG’s) e movimentos de contestação, se
constituíram para dar uma resposta histórica efetiva (e eficaz) às
novas provocações do capital.
Inclusive, algumas associações (ONG’s) de cariz anti-globalização
podem expressar o surgimento (e o conteúdo) de necessidades sociais
(e individuais) qualitativamente novas, até mesmo necessidades
radicais, de intercâmbio humano-genérico no interior de um sistema
orgânico do capital permeado de processos de dessocialização e
caracterizado por uma lógica da produção destrutiva (Mészáros,
1996).
Por exemplo, movimentos agrários de contestação à OMC e
sua política de liberalização comercial, que atenta contra
comunidades de pequenos produtores rurais (tais como a União
Campesina) e o Movimento dos Sem-Terra (MST), constituído
por excluídos da nova ordem global do capital, possuem um
significado histórico que transcende suas referencias de classe
originárias. Não são meramente movimentos camponeses
clássicos, apesar de suas demandas corporativas expressem
interesses particulares de pequenos agricultores e excluídos da
terra.
Na verdade, eles expressam a associação de homens e
mulheres imersos na lógica destrutiva do sistema orgânica do
capital. Eles resistem (e se contrapõem) conscientemente ou não,
à lógica estrutural da globalização como mundialização do capital
que dessocializa e ressocializa ininterruptamente homens e
mulheres.
Portanto, a globalização como mundialização do capital implica
na constituição de movimentos – e organizações – sociais globais
que levam, como bandeiras de luta, uma série de demandas
civilizatórias cujo enfrentamento histórico e político efetivo

123
Dimensões da Globalização

transcendem o campo nacional ou até mesmo regional (por


exemplo, o problema ecológico, que remete, em última instância,
à própria lógica da produção destrutiva do capital).
É claro que, muitas vezes, o enfrentamento político de tais
demandas sociais globais podem até incorporar a forma
associativa adequada: a trasnacionalização das articulações
sociais.
Entretanto, em geral, permanecem aquém de um conteúdo
político efetivo para enfrentar tais problemas civilizatórios
decorrentes do sistema orgânico do capital.
Muitas de tais associações globais, criadas no bojo da
globalização em-si, com o avanço da consciência humano-
genérica, dos espectros de indivíduos histórico-mundiais tendem
a não compreender a necessidade radical de atingir a lógica
destrutiva do sistema orgânico do capital, permanecendo,
apesar de sua abrangência (e do discurso) global, imersos no
particularismo corporativista (pode-se, portanto, ser plenamente
corporativismo, apesar de ser “global”).
Ao perderem o ponto de vista da utopia social do trabalho
como pólo estrutural antagônico do capital, tanto no campo político,
com o abandono da organização sindical e política alternativa do
novo (e precário) mundo do trabalho, tanto no campo
epistemológico, com a recusa da crítica da economia política,
rendem-se à própria aparência necessária do sistema produtor
de mercadoria.
Além do avanço da associação e da consciência global contra
uma multiplicidade de problemas sociais (e ecológicos) dos mais
diversos tipos, decorrentes do desenvolvimento intensivo e não
meramente extensivo do sistema do capital, inclusive como
processo civilizatório e não apenas como modo de produção (e
circulação) de mercadorias, a globalização coloca a
possibilidade concreta de demanda social por uma cidadania
global, o que envolveria (re)pensar/negar o próprio conceito de
cidadania.. Ou seja, uma cidadania global que articule, através

124
de uma rede de direitos de um amplo espectro civilizatório, o
avanço de associações transnacionais do mundo humano-genérico
voltado para o controle social (e para além) do capital.
Ora, a possibilidade concreta de uma cidadania global, para
se contrapor como elo resistente à exacerbação do sistema
orgânico do capital, se contrasta com a diluição real do estatuto
da cidadania nacional, através das políticas neoliberais de amplo
espectro. Talvez essa possa ser mais uma contradição
irremediável da globalização como desenvolvimento tardio do
capitalismo moderno.
Na verdade, tais elementos, as associações e os movimentos
sociais globais e a perspectiva de construção de uma cidadania
global como resultado de uma globalização para-si e não apenas
em-si, podem ser considerados aspectos (ou explicitações
espectrais) da globalização como processo civilizatório humano-
genérico e de todos os seus pressupostos negados pelo sistema
orgânico do capital.
Dimensões da Globalização

126
2

Sociologia
da
Globalização
A Globalização na Perspectiva da Sociologia

5
A Globalização Na Perspectiva dos
Clássicos da Sociologia

E
m sua obra Teorias da Globalização, publicada
em 1995, Octávio Ianni procurou recuperar, de
certo modo, a perspectiva dos clássicos da sociologia
para tratar da globalização. Não apenas isso, é claro, pois a obra
contém impressões de outras vertentes teóricas da sociologia
moderna.
A trilogia sociológica e ensaística, de Octávio Ianni, publicadas
na década de 1990 - A Sociedade Global, Teorias da
Globalização e A Era do Globalismo - é uma provocação
interessante, pois contém um potencial heurístico capaz de capturar,
em seus múltiplos aspectos, o que ele denominou de era do
globalismo (em 2001, Ianni acabou de publicar Enigmas da
Modernidade-Mundo). Além, é claro, de procurar instaurar
uma problemática sociológica no limite do próprio estatuto
sociológico clássico, que surgiu vinculado a uma perspectiva
nacional, principalmente em Durkheim e Weber.
É do nosso intuito, a partir da leitura de Ianni, demonstrar
como algumas idéias sociológicas presentes nas obras de Max
Weber, Karl Marx e Émile Durkheim podem ser utilizadas para
uma interpretação da globalização. Cabe salientar que, nesse
caso, a idéia de globalização adquire o sentido essencial e mais
geral de desenvolvimento do capitalismo moderno, não
significando, portanto, a rigor, o que temos tratado até agora, ou
seja, globalização como mundialização do capital, isto é, uma

129
Dimensões da Globalização

etapa sócio-histórica concreta do desenvolvimento do capitalismo


mundial caracterizada pela predominância do capital financeiro.
Numa perspectiva dialética, pode-se dizer que a globalização,
em seu sentido mais geral, tende a significar desenvolvimento
do capitalismo moderno, tal como tratado pelos clássicos da
sociologia; e em seu sentido mais particular, mundialização do
capital, um momento tardio desse desenvolvimento do capitalismo
moderno. Cabe salientar que a idéia de globalização como
processo civilizatório humano-genérico vincula-se às
determinações mais gerais da globalização como desenvolvimento
do capitalismo moderno.
Na seção intitulada Sociologia da Globalização, nos
utilizamos amplamente, inclusive com longas transcrições, do livro
Teorias da Globalização, de Octávio Ianni, para constituir uma
síntese do potencial heurística contido nas obras de Weber e
Marx para interpretar e compreender a globalização.
De certo modo, corremos o risco de incorporar alguns vieses
analíticos de Ianni, ou modos peculiares de apreender as obras
de Marx e principalmente de Weber. É o caso da sua peculiar
apreensão da contribuição sociológica de Max Weber, claramente
imbuída de um olhar marxista de cariz frankfurtiano. Por exemplo,
Ianni utiliza as categorias de valor de uso e valor de troca para
apresenta-las como algo que é intrínseca à própria lógica da
racionalização do mundo, tratada por Weber. O que demonstra,
portanto, que a leitura de Weber, realizada por Ianni, incorpora
um marxismo de linhagem ocidental, próximo de um Lukács de
História e Consciência de Classe. Mais do que uma mera
contaminação marxista da leitura de Weber, o que Ianni nos
apresenta é a demonstração de que existem pontos de contato
complementares na obra de Marx e Weber, com Marx servindo,
de certo modo, para interpretar Weber.
Por outro lado, o ensaio sobre Durkheim que apresentamos,
é independente dos demais (os que tratam de Weber e o de Marx),
apesar de prosseguir a mesma problemática: a globalização na
perspectiva dos clássicos da sociologia.

130
A Globalização na Perspectiva da Sociologia

É curioso que em sua reflexões sociológicas sobre a


globalização, utilizando os clássicos da sociologia, Ianni não tenha
desenvolvido, com maior amplitude, a contribuição durkheiminiana.
Na verdade, a presença de Durkheim numa diagnóstico da
globalização apresentada por Ianni é bastante tímida. Através
do ensaio que apresentamos, procuramos mostrar que Durkheim
é mais atual que possamos imaginar.
Os ensaios sobre Marx e Weber, que ora apresentamos, são
anotações de um curso de extensão universitária intitulado O Que
é Globalização, ministrado na UNESP/Campus de Marília em 1997
e o ensaio sobre Durkheim decorre de uma palestra proferida na
mesma época.
Depois de tais esclarecimentos, resta-nos perguntar - após a
caracterização das dimensões da globalização, em que medida é
legítimo buscar uma contribuição dos clássicos da sociologia (Karl
Marx, Max Weber e Émile Durkheim) para uma interpretação
da globalização?
Em primeiro lugar, como caracterizamos na Parte I, a
globalização é uma ideologia, além de ser, é claro, um processo
sócio-histórico concreto, a mundialização do capital. O que
significa que não podemos reduzi-la meramente a outros
momentos da expansão capitalista.
Mas a globalização, por ser mundialização do capital e destilar
uma ideologia, é um processo civilizatório humano-genérico,
com um sentido essencial intrinseco à própria lógica de
desenvolvimento do capitalismo moderno.
Deste modo, a globalização possui um sentido originário, ou
seja, é um momento sócio-histórico de desenvolvimento do
capitalismo moderno. E o desenvolvimento do capitalismo
moderno tornou-se objeto privilegiado de reflexão dos clássicos
da sociologia no século XIX e na passagem para o século XX.
Por isso é que podemos dizer que, a perspectiva da globalização
que tais clássicos da sociologia nos apresentam, inclusive Marx,
com seu o olhar mais aguçado sobre a natureza do capitalismo
moderno, é a globalização não como mundialização do capital,

131
Dimensões da Globalização

como temos tratado na parte I, mas uma dimensão pressuposta


originária da globalização como expansividade do capitalismo
moderno, ou seja, a globalização como o desenvolvimento
tardio do capitalismo moderno, de um processo de
modernização cujos nexos originários (e ontogenéticos) puderam
ser apreendidos, seja em sua dimensão essencial, através de Karl
Marx, seja em sua dimensão contingente, através dos clássicos
da sociologia propriamente dita: Émile Durkheim e Max Weber.
Tanto Weber quanto Durkheim são autores clássicos porque
conseguiram apreender, apesar de seus limites heurísticos e
metodológicos, a natureza plena do desenvolvimento, ou seja, da
produção/reprodução da sociabilidade do capitalismo moderno.
Em seus múltiplos aspectos contingentes, Weber e Durheim,
enquanto sociólogos, souberam traduzir os problemas da sociedade
burguesa. E não apenas isso. Apesar de seus horizontes
metodológicos limitados, conseguiram apreender os problemas
e dilemas do desenvolvimento da sociabilidade burguesa. Na
verdade, comprometeram-se com eles. Esta é a riqueza (e
miséria) dos clássicos da sociologia, excetuando-se Karl Marx,
que, a rigor, não poderia ser considerado um mero clássico da
sociologia, tendo em vista o caráter conservador, e quase
reacionário, da disciplina autônoma “sociologia”, na perspectiva
marxista.

132
Max Weber e a Globalização

6
Weber e a Globalização Como
Racionalização do Mundo

P
ara a sociologia de Weber, o processo de desenvol-
vimento do capitalismo moderno pode ser
apreendido como um processo de racionalização do
mundo. Deste modo, pode-se dizer que, para Weber, a
globalização, em seu sentido originário, poderia ser considerada
uma etapa superior da racionalização do mundo, de um vasto e
complexo processo de racionalização e intelectualização, cujo produto
e condição é dado pelo próprio desenvolvimento das ciências e da
tecnologia. É um processo de racionalização que nos atinge há milhares
de anos e que penetra as mais diversas esferas da vida social, em
maior ou menor proporção, o que implica considera-lo um processo
complexo e totalmente heterogêneo.
Em seu livro Teorias da Globalização, Octávio Ianni aborda
a globalização como racionalização do mundo, incorporando
contribuições de Weber, com sugestões analíticas de Marx. Deste
modo, o processo de racionalização do mundo é apreendido como
um processo de subordinação do principio da qualidade pelo
principio da quantidade. O mesmo principio que funda a
racionalidade da empresa e do mercado, da cidade e do Estado,
aos poucos impregna todos os círculos da vida social,
compreendendo o partido político e o sindicato, a mídia e a escola,
a Igreja e a família.
Ainda que o principio de qualidade jamais seja suprimido, ele
perde prerrogativas na maioria dos espaços públicos, e tende a

133
Dimensões da Globalização

perdê-las também em espaços privados. Ou ainda, o principio da


qualidade subjacente ao ascetismo presente na origem do espírito
do capitalismo (como salientou Weber), progressivamente foi
sendo substituído pelo principio da quantidade. A mesma dinâmica
deflagrada com a ética protestante, com a profissão como
realização da vocação, ou com a atividade econômica disciplinada
e produtiva como missão, essa mesma dinâmica engendra a
substituição da qualidade pela quantidade.
Isto significa que, na perspectiva de Weber, a matriz originária
do capitalismo, sintetizada na ética protestante, na profissão como
vocação e no ascetismo como negação do hedonismo,
progressivamente rotiniza-se, seculariza-se e dissolve-se no jogo
das forças sociais presentes e crescentes no mercado. Assim,
aos poucos, o consumismo que é um traço característico da era
do globalismo, se constitui em outra esfera de dinamização das
ações, relações, instituições e organizações sociais, em escala
local, nacional, regional e mundial (Ianni, 1996).
Além disso, a partir de Weber, o processo de racionalização
do mundo pode ser apreendido a partir de seu conceito de
racionalidade, que está na base de seu pensamento. Tudo que é
social, em qualquer época e lugar, pode ser analisado em termos de
formas e gradações de racionalidade das ações sociais de indivíduos,
grupos ou coletividades. Os conceitos típico-ideais de ação social
tradicional e ação social afetiva adquirem maior clareza quando
em contraponto com os conceitos de ação racional com relação a
valores e ação racional com relação a fins.
Em outro nível, o conceito de dominação racional legal ajuda
a clarificar os de dominação tradicional e dominação
carismática. É a partir de tais conceitos típico-ideais que Weber
procura caracterizar e explicar o desenvolvimento da
racionalidade específica e peculiar que distingue a civilização
ocidental moderna de todas as outras. E a mesma racionalidade
que singulariza a civilização ocidental transforma-se em parâmetro
de análise de todas as outras civilizações ou formações sociais
diferentes da ocidental (Weber, 1999).

134
Max Weber e a Globalização

Aliás, o próprio Ocidente e o capitalismo moderno é analisado


a partir desse parâmetro. É como se muito do que se situa no
Ocidente só aos poucos se tornasse racional, organizado segundo
as características da dominação racional. Simultaneamente, é
como se muito do que é tradicional, carismático, patrimonial ou
oriental só aos poucos se deixasse penetrar por características
da dominação racional legal.
O que implica em dizer que a globalização poderia ser
compreendida a partir de Weber, segundo a ótica aguçada de
Octávio Ianni, não apenas como o desenvolvimento da
racionalização que gerado no Ocidente (e no Norte) se espalha
pelo Oriente, e pelo Sul, mas como o próprio desenvolvimento
da racionalidade penetrando o próprio Ocidente.
Ainda que na mesma sociedade subsistam distintos tipos de
dominação, tais como o carismático e o tradicional, entre outros,
quando a dominação racional começa a predominar, ela tende a
influenciar, recobrir, tensionar, modificar, recriar ou mesmo
dissolver outras modalidades de organização das atividades
produtivas e da vida social (Ianni, 1996)

Globalização, Direito Racional e Racionalidade Social

Com o desenvolvimento do capitalismo moderno, desenvolve-


se e generaliza-se em escala mundial, o direito racional, pela
codificação jurídica das responsabilidades, normas e
procedimentos, estipulando os parâmetros das ações e relações,
das instituições e organizações.
Para Weber, o direito racional é o coroamento do processo
de racionalização inerente ao desenvolvimento do
capitalismo como processo civilizatório. Ele é o parâmetro
universal das atividades, ações, relações, instituições e
organizações, envolvendo indivíduos e coletividades, nações e
nacionalidades.
A partir dos princípios de liberdade e igualdade de proprietários,
formalizados no contrato, institucionalizam-se, generalizam-se e

135
Dimensões da Globalização

cristalizam-se as condições e possibilidades formais de


intercâmbio, negociação e parlamentação, controvérsia, prêmio
e punição. O direito se constitui em uma espécie de parâmetro
universal da sociabilidade característica da ordem
capitalista. Na era da globalização, ou do capitalismo moderno
amplamente desenvolvido, tal parâmetro tenderia apenas a
disseminar-se.
Em todas as esferas da vida social, da empresa ao Estado, do
mercado à cidade, da escola à igreja, em todas essas e outras
esferas da vida social está presente o parâmetro constituído pelas
disposições jurídicas que ordenam e disciplinam as ações e
relações de uns e outros em moldes racionais (Ianni, 1996).
Mas, o que é o capitalismo para Weber?
É um vasto e complexo processo social, econômico, político e
cultural que implica no desenvolvimento de formas racionais de
organização das atividades sociais em geral, compreendendo as
politicas, as econômicas, as jurídicas, as religiosas, as educacionais
e outras.
O desenvolvimento do capitalismo moderno, numa perspectiva
weberiana, salientada por Ianni, é caracterizado, portanto, como
a racionalização das ações e relações, das instituições e
organizações, conduzindo à modificação das práticas e
ideais, padrões e valores sócio-culturais, transformando o
imaginário e as atividades de uns e de outros.
Na medida em que se forma, consolida e expande, o
capitalismo moderno pode infuenciar, criar, tensionar e modificar;
recobrir e/ou mesmo dissolver outras formas de organizações
das atividades produtivas e da vida sócio-cultural. Fazer
predominar amplamente a dominação racional nas outras
sociedades, nações, nacionalidades, tribos, comunidades ou povos,
em diferentes gradações, segundo padrão inaugurado com o
moderno capitalismo europeu e progressivamente mundial. É
claro, sem deixar de apresentar-se em múltiplas combinações
com a dominação tradicional e a dominação carismática, pois
para Weber a realidade social é sempre complexa, múltipla,

136
Max Weber e a Globalização

caótica e infinita.
Este poderia ser, portanto, o verdadeiro sentido da
globalização, segundo Weber:

O que o capitalismo criou, em definitivo, foi a empresa


duradoura e racional, a contabilidade racional, a técnica
racional, o direito racional; a tudo isto haveria que
acrescentar a ideologia racional, a racionalização da vida, a
ética racional em economia (Weber, 1999)

É essa capacidade permeadora totalmente incontrolável do


capitalismo que a globalização tendeu a explicitar na virada para
o século XXI.

O Capitalismo como Processo Civilizatório

Ocorre que o capitalismo, como produto e condição da ampla


e generalizada racionalização do mundo, logo se impõe ou
sobrepõe às mais diversas formas de organização da vida social.
Tanto pode conviver como absorver, tanto modificar, como recriar,
as mais diferentes modalidades de organização social do trabalho
e da produção.
As formações sócio-culturais de tribos e clãs, nações e
nacionalidades, províncias e regiões, muitas vezes sedimentadas por
séculos de histórias, tradições e mitos, tudo pode ser alterado, abalado,
mutilado ou recriado pelas relações, processos e estruturas que
constituem a organização e a dinâmica do capitalismo como processo
civilizatório. Ianni observa, citando Weber:

Existe capitalismo onde quer que se realize a satisfação de


necessidades de um grupo humano com caráter lucrativo e
por meio de empresas, qualquer que seja a necessidade de
que se trate. Em especial, dizemos que uma exploração
racionalmente capitalista é uma exploração com contabilidade
de capital, é uma ordem administrativa por meio da

137
Dimensões da Globalização

contabilidade moderna, com base no balanço, exigência


formulada pela primeira vez no ano de 1698 pelo teórico
holandês Simon Stevin. Naturalmente uma economia
individual pode orientar-se de modo diferente da capitalista;
parte da satisfação de suas necessidades pode ser capitalista
e parte não-capitalista, ou seja, de organização artesanal ou
senhorial. (...) A premissa mais geral para a existência do
capitalismo moderno é a contabilidade racional do capital
como norma para todas as grandes empresas lucrativas que
se ocupam da satisfação das necessidades cotidianas. As
premissas dessas empresas, por sua vez, são as seguintes:
1) apropriação dos bens materiais de produção (a terra,
aparelhos, instrumentos, máquinas, etc.) como propriedade
de livre disposição por parte de empresas lucrativas
autônomas; 2) a liberdade mercantil, ou seja, a liberdade de
mercado em face de toda limitação irracional de intercâmbio;
3) técnica racional, ou seja, contabilizável ao máximo e, em
conseqüência, mecanizada; 4) direito racional, ou seja, direito
calculável. Para que a exploração econômica capitalista se
processe racionalmente precisa confiar em que a justiça e a
administração seguirão determinadas normas; 5) trabalho
livre ou seja, que existam pessoas, não só em seu aspecto
jurídico mas também no econômico, obrigadas a vender
livremente sua atividade em um mercado; 6) comercialização
da economia, sob cuja denominação compreende-se o uso
geral de títulos de valor, para os direitos de participação nas
empresas e igualmente para os direitos patrimoniais. Em
resumo, a possibilidade de uma orientação exclusiva, no que
se refere à satisfação das necessidades no sentido mercantil
e da rentabilidade (Weber, 1999)

Deste modo, o que pode ser salientado é que devido à força,


complexidade, a abrangência e expansividade do capitalismo
como processo civilizatório, as mais diversas formas de
organização das atividades produtivas e da vida social tendem a
ser recobertas, subordinadas, modificadas ou dissolvidas por esse
processo incontrolável do capital.

138
Max Weber e a Globalização

Ou ainda, o padrão de sociabilidade envolvido no processo de


racionalização das ações, relações, instituições, organizações e
formações sociais podem influenciar, tensionar, modificar, recobrir
ou mesmo dissolver os padrões de sociabilidade não-capitalistas,
tais como o carismático e o tradicional. O que se apresenta
como dominante é o padrão de sociabilidade capitalista.

A Globalização Como Expansividade do Capitalismo

Este processo de expansividade capitalista, que assume seu


ápice em nossos dias, com a globalização, é intrinseco ao próprio
capitalismo moderno, que inaugura uma época excepcionalmente
singular da história européia e mundial.
O próprio Weber debruçou-se sobre a singularidade do
capitalismo ocidental com respeito a outras civilizações históricas.
Apesar de ser uma singularidade européia, o capitalismo passa a
influenciar outras partes do mundo. Mas do que isso, desde o
início há nele algo de mundializado. Portanto, o que parecia
característico e peculiar do Ocidente, logo se revela compatível
e até mesmo próspero no Oriente; parecendo-lhe característico
do hemisfério norte, também expande-se pelo hemisfério sul (Ianni,
1994).
Desde o mercantilismo, o colonialismo e o imperialismo, vastos
processos por meio dos quais se tecem laços, comunicações,
redes, geo-economias e geopoliticas desenhando o mapa do
mundo, sempre compreendendo culturas e civilizações também
muito diferentes entre si e das ocidentais, desde esses vastos
processos todo o mundo foi sendo permeado por padrões, valores,
instituições e organizações mais ou menos característicos do
capitalismo (Ianni, 1994).
Desde modo, segundo Weber, o capitalismo pode ser visto,
como salienta Ianni, como

139
Dimensões da Globalização

um processo civilizatório gerado no Ocidente, mas


espalhando-se pelo Oriente, originário do norte, mas
difundindo-se pelo sul, marcadamente ocidental, mas
progressivamente mundial (Ianni, 1994).

Portanto, a globalização poderia ser, na perspectiva de Weber,


a realização plena do capitalismo ocidental e seu processo
civilizatório. É nessa perspectiva que a globalização (como
apreendeu Ianni a partir das leituras de Weber), pode ser vista
como um novo surto de mundialização da racionalidade
própria da racionalização capitalista ocidental.

A Peculiaridade da Globalização: As Tecno-Estruturas


Mundiais

Mas existe algo que é próprio e peculiar do novo processo


civilizatório que surge com a mundialização em curso: a sua
racionalidade adquire uma categoria global. É uma
racionalidade global, com dinamismo próprio, que incute nas
sociedades nacionais, como observa Ianni, algo de novo, distinto,
próprio da sociedade global (Ianni, 1992).
Como expressão dessa globalização temos a tecnocracia
internacional, transnacional ou mundial. Há empresas, corporações
e conglomerados, bem como agências multilaterais, desde a ONU
ao FMI e à OIT ou ainda OMC, que expressam muito bem os
primórdios e os horizontes da racionalização possível, almejada,
realizada ou em curso em escala global.
Na verdade, tais tecno-estruturas mundiais tenderam a se
disseminar pelo globo no pós-II Guerra Mundial. Para Ianni,
elas representariam uma caracteristica essencial da globalização.
Por isso, ele tende a situar a globalização como sendo a etapa
histórica do capitalismo mundial após 1945. É a partir daí
que se formam, generalizam e predominam as tecno-estruturas
destinadas a diagnosticar, planejar e implementar diretrizes gerais
e decisões especiais. Elas podem ser vistas coma organizações

140
Max Weber e a Globalização

sistêmicas; expressando muito do que é a racionalidade


instrumental ou técnica predominante do capitalismo.
As tecno-estruturas reúnem profissionais sofisticados de todas
as qualificações, do economista ao matemático, do sociólogo ao
publicitário, de modo a pensar as condições sociais, políticas,
culturais e econômicas para a seleção e implementação de
investimentos, operações publicitárias, inauguração de temas,
preparação da opinião pública, em conformidade com decisões
que podem interessar a governos, corporações, igrejas, lobbings,
correntes de opinião pública e outras instituições e organizações.
Elas promovem os think-tanks, produções de equipes de
intelectuais dedicados, em geral de modo exclusivo e sistemático,
à realização de estudos, diagnósticos e prognósticos relativos
aos mais distintos problemas locais, nacionais, regionais e mundiais
(Ianni, 1996).

Globalização como Etapa Superior do Desencantamento


do Mundo”

A partir de Weber, seguindo a leitura de Ianni, podemos


apreender a globalização como um sintoma da burocratização
do mundo, onde tudo está marcado pela calculabilidade,
contabilidade, ordenamento jurídico, racionalidade, eficácia,
produtividade, lucratividade. Tudo se burocratiza segundo um
padrão burocrático, racional e legal - o mercado, a empresa, a
cidade, o Estado e o direito, as atividades intelectuais.
Deste modo, a globalização, em seu sentido originário, seria
um avanço da racionalização (e burocratização) do mundo, do
vasto complexo processo de racionalização do mundo, do padrão
de racionalidade do moderno capitalismo. Segundo Ianni, aí
nascem e desenvolvem-se a empresa, o mercado, o planejamento,
a administração, a contabilidade, as técnicas de produção e
controle, a divisão do trabalho social, o taylorismo, o fayolismo, o
fordismo, o toyotismo, a flexibilização, a produtividade, a

141
Dimensões da Globalização

lucratividade e a acumulação, tudo isso articulado nos moldes da


racionalidade capitalista.
O que era um processo circunscrito a alguns países da Europa,
e transplantado para os Estados Unidos, logo se revela mais ou
menos generalizado e, às vezes, avassalador, em escala mundial.
O processo de racionalização pode ser apreendido como algo
que submete o indivíduo, singular e coletivamente, aos produtos
de sua própria criação. Apesar disso, preserva-se, reproduz-se e
desenvolve-se, locus de outros tipos de racionalidades de cariz
tradicional ou carismática, que resistem, se poderíamos dizer
assim, à racionalização ocidental.
Ocorre a inversão de meios e fins: o que era produto, meio
ou instrumento transforma-se em finalidade, objetivo por
excelência. Aqui, mais uma vez, Ianni incorpora numa leitura
weberiana, de modo criativo, a ótica marxista da “alienação”.
Assim ocorreu com o ascetismo da ética protestante que
impulsionou o espírito do capitalismo e que, depois, é aprisionado
pela sua própria criação. O mesmo poderia ser dito da
globalização enquanto processo de racionalização, que como
um estágio avançado de desencantamento do mundo, aprisiona,
de repente, o indivíduo e a coletividade na gaiola de ferro que
eles próprios construíram:

Pois quando o ascetismo foi levado para fora dos mosteiros


e transferido para a vida profissional, passando a influenciar
a moralidade secular, fê-lo contribuindo poderosamente para
a formação da moderna ordem econômica e técnica ligada à
produção em série através da máquina, que atualmente
determina de maneira violenta o estilo de vida de todo
indivíduo nascido sob esse sistema, e não apenas daqueles
diretamente atingidos pela aquisição econômica, e, quem
sabe, o determinará até que a última tonelada de combustível
tiver sido gasta. De acordo com a opinião de Baxter,
preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir
os ombros do santo como um tênue manto, do qual a toda

142
Max Weber e a Globalização

hora se pudesse despir. O destino iria fazer com que o manto


se transformasse numa prisão de ferro. Desde que o
ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se
desenvolver, os bens materiais foram assumindo uma
crescente, e, finalmente, uma inexorável força sobre os
homens, como nunca antes na História. Hoje em dia – ou
definitivamente, quem sabe - seu espírito religioso safou-se da
prisão. O capitalismo vencedor, apoiado numa base. mecânica,
não carece mais de seu abrigo... Ninguém sabe ainda a quem
caberá no futuro viver nessa prisão, ou se, no fim desse
tremendo desenvolvimento, não surgirão profetas inteiramente
novos, ou um vigoroso renascimento de velhos pensamentos
e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas - a eventualidade de
uma petrificação mecanizada caracterizada por esta convulsiva
espécie de autojustificação. Nesse caso, os “últimos homens”
desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como
especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades
que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes
alcançado (Weber, 1987 )

Todos os círculos da vida social, desde a empresa à escola,


do mercado ao Estado, da igreja à familia, são progressivamente
organizados e dinamizados pelas tecnologias da racionalização,
compreendendo recursos das ciências naturais e sociais, da
cibernética à psicologia.
Mas isso não significa que os indivíduos hoje em dia possuam
um maior conhecimento das suas condições de vida. Para Weber,
um índio americano ou um hotentote possui maior conhecimento
das suas condições de vida do que nós. Apenas significa que
poderíamos ter esse conhecimento maior e geral das condições
de vida se quiséssemos.
Na perspectiva de Weber, vivemos em um mundo complexo
e caótico, com o nosso cotidiano cercados de criações das
ciências e tecnologias, desenvolvidas por especialistas nas mais
diversas áreas das ciências sociais e naturais. Diz ele:”...a ciência

143
Dimensões da Globalização

entrou numa fase de especialização antes desconhecida que


continuará.” Ao tratar do processo de racionalização e
intelectualização que o Ocidente vive há milhares de anos, Weber,
em sua palestra intitulada “A Ciência Como Vocação” (1919),
disse o seguinte:

...A menos que seja um físico, quem anda num bonde não
tem idéia de como o carro se movimenta. E não precisa saber.
Basta-lhe poder ‘contar’ com o comportamento do bonde e
orientar a sua conduta de acordo com essa expectativa; mas
nada sabe sobre o que é necessário para produzir o bonde
ou movimentá-lo. O selvagem tem um conhecimento
incomparavelmente maior sobre suas ferramentas. Quando
gastamos dinheiro hoje tenho certeza que, até mesmo se
houver colegas de Economia Politica neste auditório, cada
um deles terá uma diferente resposta pronta para a pergunta:
como é possível comprar alguma coisa com dinheiro - por
vezes mais, por vezes menos? O selvagem sabe o que faz
para conseguir sua alimentação diária e que instituições lhe
servem nessa empresa. A crescente intelectualização e
racionalização não indicam, portanto, um conhecimento maior
e geral das condições sob os quais vivemos. Significa mais
alguma coisa, ou seja, o conhecimento ou a crença em que,
se quiséssemos, poderíamos ter esse conhecimento a
qualquer momento. Significa principalmente, portanto, que
não há forças misteriosas, incalculáveis, mas que podemos,
em princípio, dominar todas as coisas pelo cálculo. Isto
significa que o mundo foi desencantado. Já não precisamos
recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos
espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes
misteriosos existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam
o serviço. Isto, acima de tudo, é o que significa a
intelectualização (Max Weber, 1988)

O desencantamento do mundo, como observa Corriot-


Thelene, é produto do processo de intelectualização. A

144
Max Weber e a Globalização

intelectualização é um outro nome para a racionalização,


considerada no plano das imagens do mundo.
Um mundo intelectualizado é um mundo no qual reina a
convicção de que tudo o que é e que advém neste mundo está
regido pelas leis que a ciência pode conhecer e a técnica científica
dominar; em que não há nada, em outras palavras, que não seja
previsível. É mundo de eventos previsíveis e calculáveis. É um
mundo sem magia, sem dúvida, pois exclui toda intervenção do
supra-sensível na ordem das coisas naturais e humanas; mas é
também, Weber insiste nisso, um mundo desprovido de sentido.
O desencantamento do mundo não é apenas, portanto, a negação
da interferência do sobrenatural sobre este mundo, mas também a
ausência do sentido do mundo e do devir (o que é incompatível
com os postulados das religiões em geral, singularmente das religiões
portadoras de uma ética) (Corriot-Thelene, 1990).
O desencantamento do mundo não pode ser tomado por
resultado da ética puritana, como era o caso em A ética
protestante... (de Weber): ainda que orientada na direção deste
mundo, a ética puritana era ainda um caminho de salvação, e
para isso dependente de uma teodicéia, ou seja, de uma declaração
do sentido do mundo, ainda que fosse sob o modo da
desvalorização (Corriot-Thelene, 1990)
Pode-se mesmo afirmar que é com o protestantismo que
começa a criação do mundo moderno, “desencantado” na
acepção segunda do termo, pois a racionalização das condutas
de vida que induziu, segundo a interpretação weberiana, a difusão
do protestantismo acarretou a formação de estruturas cujas
coerções quase mecânicas terminaram por tornar supérflua a
ética de onde elas procediam:

O puritano queria ser um homem atarefado [ein Berufsmensch]


- e nós somos forçados a sê-lo. (Weber, 1987)

Apenas quando a lógica da economia capitalista produziu, dela


mesmo, os comportamentos que ela requer para se perpetuar, é
que o desencantamento pode ser considerado cumprido.

145
Dimensões da Globalização

Na perspectiva de Weber, o capitalismo moderno e, por


conseguinte, seu desenvolvimento exacerbado, tenderiam, com
certeza, a intensificar e generalizar o estranhamento, uma
expressão que, vale ressaltar, não é de Weber, mas de Marx e
que pode traduzir muito bem a sensação que se apossa de cada
um de nós quando nos deparamos com um maior
desconhecimento das nossas ferramentas cotidianas, tendo em
vista que a complexidade do mundo social é diretamente
proporcional à nossa ignorância sobre os mecanismos do processo
socio-histórico planetário que nos atinge.
E por outro lado, eleva a um novo patamar, o
desencantamento do mundo, tendo em vista que possuímos
consciência de que, o que move o desenvolvimento tardio do
capitalismo moderno, não são forças misteriosas e incalculáveis,
mas resultados de cálculos e decisões de indivíduos.
É sob a globalização que se exacerba a nossa percepção de
que podemos dominar todos as coisas pelo cálculoe pelas novas
tecnologias que reduzem, cada vez mais, os limites naturais,
inclusive o espaço e o tempo, partes intrínsecas dos nossos limites
naturais.
Na perspectiva de Weber, a globalização como
desenvolvimento tardio do capitalismo moderno, não poderia ser
considerada nem algo bom, nem algo mal, pois isso implicaria
em juízos de valor. É provável que Weber a considerasse apenas
como um patamar superior da ocidentalização do mundo, de
algo que se realiza ad infinitum, quase como um destino, de
alguma coisa que, tal como o progresso científico e tecnológico,
na realidade jamais chega, e jamais pode chegar a um fim.

146
Durkheim e a Globalização

7
Durkheim e a Globalização como
Fonte de Solidariedade Social

D
urkheim nos apresentou em sua obra A divisão
do trabalho social, de 1893, a divisão do traba-
lho como fonte de solidariedade social. Ele
caracterizou, por outro lado, a anomia, como sendo algo
decorrente de um período de rápidas transformações da economia
e da sociedade, em virtude do próprio desenvolvimento da divisão
do trabalho social. Em virtude disso, indicou a necessidade de
regulamentações mais complexas, salientando o papel do Estado-
nação e do governo.
Mas, para Durkheim, com o tempo tenderia a se formar tais
regulamentações sociais, capazes de instaurar e realizar a natureza
da própria divisão do trabalho mais desenvolvida: a solidariedade
orgânica. Deste modo, para ele, a anomia seria temporária e
um fenômeno excepcional nas sociedades mais complexas. Na
sua perspectiva, está implícito um otimismo com o
desenvolvimento das sociedades modernas.
Se Durkheim criticou o otimismo dos utilitaristas e dos
economistas diante da mão invisível do mercado, de certo modo,
ele próprio acreditava que o desenvolvimento da divisão do trabalho
social tenderia a incrementar a solidariedade social. Para isso,
depositou seu otimismo nas instâncias da regulamentação
juridico-moral da sociedade, como uma mera manifestação da
natureza da própria divisão do trabalho mais desenvolvida.
A ênfase de Durkheim no consenso social caracteriza um ponto
de vista corporativo que, de certo modo, iria predominar nas

147
Dimensões da Globalização

sociedades capitalistas desenvolvidas européias, no pós-guerra, com


as experiências de Estado social e que hoje, encontram-se em crise
diante da globalização.

Globalização Como Fonte de Solidariedade ?

Na ótica de Durkheim, a globalização poderia ser considerada


expressão de um desenvolvimento ampliado do capitalismo moderno,
que tenderia a impulsionar a divisão do trabalho social compreendida
como sendo a especialização ligada à produtividade do trabalho.
Ela, a divisão do trabalho enquanto especialização, é, na
linguagem dos economistas, o resultado de um esforço inteligente
do homem para tirar o maior produto e o maior proveito dos fatores
de produção, incluindo seu próprio trabalho. Sob a globalização,
assistimos a exacerbação da lógica da especialização numa escala
planetária:

Em uma economia global, nem o capital, nem o trabalho, nem as


matérias-primas constituem, em si, o fator econômico
determinante. O importante é a melhor relação entre esses três
fatores. Para estabelecê-la, a ‘firma global’ não leva em
consideração as fronteiras nem as regulamentações, mas
somente a exploração inteligente que pode fazer da informação,
organização do trabalho e revolução da gestão (Romanet, 1998)

Entretanto, Durkheim reconheceu que a busca pelos produtores


da mais alta produtividade através da especialização mais inteligente
não basta para assegurar uma divisão do trabalho viável. A divisão
do trabalho e a concorrência criam problemas à medida que os
resolvem. A divisão do trabalho supõe uma alocação prévia dos
recursos e uma divisão ulterior do produto, das quais não são e não
podem ser de antemão calculados e desejados todos os aspectos e
conseqüências. Diz ele:

148
Durkheim e a Globalização

Se, normalmente, a divisão do trabalho produz a solidariedade


social, pode acontecer contudo que ela tenha resultados
completamente diferentes, ou mesmo opostos (Durkheim,
1985:145)

Deste modo, num primeiro momento, Durkheim critica o viés


otimista que os evolucionistas e os utilitaristas atribuíram a mão
invisível do mercado (Smith e Spencer). Apesar disso, como iremos
ver, ele não deixa de incorporar um certo otimismo diante da direção
natural da divisão do trabalho.
Para Durkheim, a “direção natural” da divisão do trabalho é a
solidariedade social, mas algo a faz desviar-se da sua direção
natural. Esse algo é a anomia, o desregramento. Para ele, a divisão
do trabalho, mesmo acompanhada de uma especialização das
tarefas, no nível da alocação dos recursos e de uma elevação da
produtividade no que concerne ao produto, é também e antes de
tudo, um fato de organização, ou seja, utilizando a acepção de
Durkheim, um fenômeno de solidariedade. Ela não é um
fenômeno natural, mas propriamente social; além disso, esse
fenômeno não é espontâneo, mas, por assim dizer,
sistematicamente organizado e coordenado.
Durkheim enfatiza a coordenação das tarefas, principalmente
sob a solidariedade orgânica, correspondente a nossa época,
onde a diferenciação das atividades produtivas ocorre de acordo
com critérios de eficácia e de competência. Ocorre, segundo ele,
uma mudança marcante e incessante na hierarquia do status, que
exige um enorme desenvolvimento das funções de coordenação,
que se tornam cada vez mais metódicas e conscientes. Por exemplo,
Durkheim salienta a preponderância do direito cooperativo sobre
o direito repressivo como uma manifestação da solidariedade
orgânica que caracteriza as sociedades complexas.
Como as diferenças resultantes da especialização provocam
o aumento da freqüência e da intensidade das trocas entre os
produtores, com os riscos de conflitos inerentes a esses contatos
e a essas trocas, a divisão do trabalho deve ser colocada sob a

149
Dimensões da Globalização

vigilância de autoridades dotadas de uma visão mais abrangente do


processo de produção do que cada um dos produtores. Para
Durkheim essa função de coordenação e de reflexão é tanto
mais importante quanto mais diferenciadas forem as tarefas
produtivas.
A série de citações abaixo demonstram a importância dos
meios de coordenação para o desenvolvimento da solidariedade
social em sociedades mais complexas:

À medida que as diferenças se tornam mais numerosas, a


coesão torna-se mais instável e tem necessidade de ser
consolidada por outros meios (Durkheim, 1985b:157)

..essa falta de regulamentação não permite a harmonia regular


das funções (Durkheim, 1985b:160)

Se a divisão do trabalho não produz solidariedade, é porque


as relações dos órgãos não são regulamentadas, é porque
estão num estado de anomia (Durkheim, 1985b:162)

A divisão do trabalho é para Durkheim não somente


especialização das aptidões e das competências; é também
coordenação das tarefas. O que supõe como necessidade da
reprodução social de uma maior organização e maior coordenação
das trocas. Alguns diriam: uma nova “regulação”, termo utilizado
por uma escola de economistas franceses.
Ora, o que é a globalização senão o desenvolvimento ampliado
do capitalismo moderno, com a agudizarão da divisão do trabalho
social numa escala planetária, cujos resultados perversos, na
perspectiva de Durkheim, seriam decorrentes de uma anomia
universal (Durkheim não utiliza tal expressão) ?
Na ótica durkheiminiana, a especialização, o aumento da
freqüência e da intensidade das trocas não é acompanhado, na
mesma medida, de uma maior organização e coordenação por
parte das autoridades do processo produtivo. Por isso, ela tende
a gerar uma série de fenômenos anormais ou patológicos.

150
Durkheim e a Globalização

A falência do Estado social-democrata (Welfare State). que


conseguiu nas últimas décadas do século XX, constituir uma coesão
social relativa, instaurando a solidariedade orgânica a partir de
uma série de regulamentações sociais e jurídicas, tendeu a conduzir
o mundo capitalista a um novo período social e histórico
caracterizado pela desregulamentação, pelo predominio da lógica
privatista em detrimento do espaço público, onde a crise dos valores
agudiza, cada vez mais, a capacidade do sistema social recompor-se
e, quem sabe, de reproduzir-se (utilizando uma analogia organicista).
O mérito de Durkheim foi salientar a importância das normas
e valores para a reprodução de organismos sociais complexos,
como são as sociedades capitalistas modernas, principalmente
na era da globalização, onde é maior a integração e intensidade
das trocas e da produção.
Na medida em que processos sociais vinculados a divisão do
trabalho social em escala planetária conduzem o mundo capitalista a
uma série de transformações muito rápidas, criando uma situação
de anomia, a inexistência de um Estado mundial, de um governo
global como impulsionador da coesão social, receptáculo de valores
da solidariedade orgânica, tenderia a complicar, ainda mais, a
capacidade de resolver a situação de anomia, intrinseca a própria
natureza das transformações rápidas proporcionadas pelo
desenvolvimento da divisão do trabalho social.
O que percebemos, hoje, é que, o que era considerado por
Durkheim como excepcional, tende a torna-se crônico. A saída, com
certeza, na perspectiva durkheiminiana, seria uma nova
regulamentação mundial, através da constituição de organismos
de coordenação global, rudimentos ainda pouco eficazes de um
governo e de autoridades mundiais, capazes de exercer uma vigilância
mais abrangente do processo do “globalismo” (utilizando a expressão
de Ianni).
Deste modo, para Durkheim, seria a natureza da divisão do
trabalho social, cada vez mais complexa, que poderia explicar,
por exemplo, o surgimento de órgãos de coordenação multilaterais,
tais como o G-8 ou ainda, a OMC, o FMI e o Banco Mundial.

151
Dimensões da Globalização

Com certeza, Durkheim seria um crítico da globalização tal como


ocorre em nossos dias, na medida em que ela se desenvolve sem
uma coordenação global, propiciando, portanto, uma situação de
anomia. Mas ele não seria um crítico da globalização em si, na
medida que iria reconhecer nela uma positividade: o
desenvolvimento de novas formas de solidariedade, inevitável no
atual estágio da divisão do trabalho.

Globalização e a Anomia Universal

A anomia é uma entidade observável apenas através de


manifestações diversas. É um fenômenos de desregramento que
possui significações múltiplas. Ela se vincula aos malogros do sistema
de divisão do trabalho que caracterizam as sociedades industriais.
Para Durkheim, a anomia seria um conceito que poderia explicar,
por si só, a série de resultados perversos da globalização, não podendo,
ser identificada meramente com o conceito de alienação, utilizado
pelos marxistas, tendo em vista que a alienação decorreria de algo
que iria além dela mesma: a propriedade privada).
Para Durkheim, os seguintes fenômenos sociais são
manifestações da anomia. É claro que podem haver outras formas
de anomia, “mas aquelas que vamos falar – disse ele - são as
mais gerais e as mais graves” (Durkheim, 1985):
1. As “rupturas parciais da solidariedade orgânica” são as
propiciadas pelas crises industriais e comerciais, tais como as
falências, que testemunham que certas funções não estão
ajustadas umas às outras. Por exemplo, elas poderiam ser
vinculadas às crises capitalistas, à própria instabilidade sistêmica
da economia moderna sob a direção hegemônica do capital
financeiro. Na ótica de Durkheim poderiamos apreender que tende
a ocorrer hoje, uma série de “disfuncionalidades” entre a economia
nacional e a economia global. O surgimento de um mercado
mundial cada vez mais integrado pelo livre comércio, tenderia a
incrementar, ainda mais, o que Durkheim denominou de “rupturas
parciais” da solidariedade orgânica.

152
Durkheim e a Globalização

2. O “antagonismo entre o trabalho e o capital” ocorre


principalmente na medida em que a especialização se desenvolve
no mundo do trabalho, constituindo a grande indústria (cabe salientar
que para Durkheim a alienação, no sentido marxista, seria apenas
uma manifestação e uma conseqüência da anomia). Para ele, a
pequena indústria - e vamos pensar hoje nas oficinas “pós-fordistas”-
é mais suscetível de cultivar uma solidariedade orgânica, com a
unidade e a concertação proliferando entre capital e trabalho, sendo
a grande indústria propicia a desenvolver o antagonismo entre trabalho
e capital. Na medida em que prolifera a grande indústria e seu espaço
de atuação, indo além dos mercados locais e nacionais, tende a tornar
mais agudo o antagonismo entre capital e trabalho. Diz ele: “é apenas
na grande indústria que estes conflitos se encontram em estado
agudo.”(Durkheim, 1985:149). Ao salientar a agudeza do antagonismo
entre capital e trabalho na grande industria , Durkheim prenunciara
uma das principais causas da crise do fordismo, salientadas pelos
“regulacionistas” franceses, a organização taylorista-fordista do
trabalho, baseada na especialização radical do trabalho (Lipietz, 1985;
Boyer, 1985).
3. A especialização sempre crescente da pesquisa científica
acarreta um efeito de atomização, decorrente do próprio processo
de especialização das ciências. Contra a atomização das
especialidades da ciência, Durkheim sugere que é necessário
“encarregar uma ciência nova de a reconstituir”. Diz ele,“aquilo
que o governo é, face à sociedade no seu todo, a filosofia deve
sê-lo face às ciências.”
A situação de anomia, salientadas por Durkheim, não decorre
de uma natureza da divisão do trabalho mais complexa, que, para
ele, é fato de solidariedade social. O que poderia nos levar a
perceber que, para ele, a globalização, compreendida como uma
etapa superior da divisão do trabalho social, tenderia a não
conduzir, por sua própria natureza, a tais resultados sociais
perversos.
A perversidade da globalização no campo social, na ótica de
Durkheim, poderiam ser situações excepcionais. Tais perversidade

153
Dimensões da Globalização

sociais que ela produziria seriam decorrentes da falta de


regulamentação, isto é, da anomia (para Durkheim, a ausência
de normas explica a anormalidade):

A divisão do trabalho não produz estas conseqüências em


virtude de uma necessidade da sua natureza, mas apenas em
circunstâncias excepcionais e anormais (Durkheim,1985:166)

A imagem da sociedade-organismo é que incontestavelmente


transparece na noção durkheiminiana de solidariedade orgânica. Por
isso, ele considera os fenomênos de perversidade social, decorrentes do
desenvolvimento do capitalismo moderno, como anormais e excepcionais
e não como a verdadeira situação normal das sociedades modernas.
Disse ele: “...como todos os fatos biológicos, ela apresenta formas
patológicas, que é necessário analisar” (Durkeim, 1985:145)
Na obra O suicidio, de 1897, a noção de anomia é imersa
num conjunto de dicotomias conceituais que esclarecem novos
aspectos do conceito, aplicável a época em que vivemos. Por
exemplo: ele contrapõe egoísmo x altruísmo e ainda anomia e
fatalismo. Na obra de 1893, ele já criticava a especialização
“egoísta”, que cria a anomia:

...que o indivíduo não se feche aí estreitamente, mas se


mantenha em relação constante com as funções
vizinhas..(Durkheim, 1985b:167)

Ou ainda:

...o indivíduo curvado sobre a sua tarefa, isola-se na sua atividade


particular; deixa de sentir os colaboradores que trabalham ao seu
lado na mesma obra que ele, deixa absolutamente de ter idéia desta
obra comum (Durkheim, 1985b:150).

Tais desdobramentos conceituais da anomia, principalmente no


campo da relação do indivíduo com a sociedade e seu grupo social,

154
Durkheim e a Globalização

poderiam apreender uma série de aspectos do “desregramento” não


postos na obra pretérita A divisão do trabalho social.
É importante a percepção analítica de Durkheim (ainda baseada na
imagem de uma sociedade-organismo) de que a complexificação dos
sistemas sociais ocasiona uma individualização crescente dos membros
da sociedade, o que propicia efeitos crescentes de “desregramento”,
considerado por ele como situações excepcionais:

A diversidade das funções é útil e necessária; mas, tal como


a unidade, que não é menos indispensável, não surge delas
espontaneamente, o cuidado de a realizar e de a manter deverá
constituir, no organismo social, uma função específica,
representada por um órgão independente. Este órgão é o
Estado ou o Governo (Durkheim, 1985:151)

Entretanto, Durkheim não defende um governo forte, que


imponha de cima para baixo a regulamentação que propicie a
unidade e o consenso entre as partes da sociedade. Diz ele que,

O que faz a unidade das sociedades organizadas, como de


todo o organismo, é o consensus espontâneo das partes, é
essa solidariedade interna, que não é só tão indispensável
como a ação reguladora dos centros superiores, mas que é
também sua condição necessária, porque eles apenas a
traduzem num outra linguagem e, por assim dizer, a consagram
[...] As partes devem ser já solidárias uma das outras para
que o todo tome consciência de si e reaja como tal.” (o
grifo é nosso) (Durkheim, 1985:153)

A complexificação social é que produz a solidariedade


orgânica. Na visão dos utilitaristas, como é o caso de Spencer, a
solidariedade orgânica seria exclusivamente contratual, seria livre
de toda a regulamentação. Entretanto, para Durkheim, tal
solidariedade seria instável: “O que manifesta a extensão da ação
social é a extensão do aparelho jurídico”. É necessário, portanto,
uma regulamentação complexa, um aparelho jurídico.

155
Dimensões da Globalização

Durkheim ansiava por uma sociedade em que os indivíduos


fossem guiados por um sistema de valores e normas, isto é, por
uma moral, que os encorajasse e os convidasse a se satisfazerem
com sua posição no sistema de divisão do trabalho. Ele assimila
sociedade e organização, sociedade e organismo: “O papel da
solidariedade não é suprimir a concorrência, mas modera-la.”. E
mais adiante salienta que

...estas perturbações são naturalmente tanto mais freqüentes


quanto mais especializadas forem as funções; porque quanto
mais complexa é uma organização mais se faz sentir a
necessidade de uma regulamentação complexa (Durkheim,
1985b:161)

Durkheim acreditava que o estado de anomia seria temporário.


Decorre de uma fase do desenvolvimento social caracterizado por
rápidas mudanças. Por exemplo, ele pergunta: de onde provém o
estado de anomia ? Durkheim responde:

Uma vez que um corpo de normas é a forma definida que tomam


com o tempo as relações que se estabelecem espontaneamente
entre as funções sociais, pode-se dizer a priori que o estado de
anomia é impossível em toda a parte em que os órgãos solidários
estão em contacto suficiente e suficientemente prolongado
(Durkheim, 1985)

Por isso, na medida em que as partes contíguas perceberem,


em cada circunstância, a necessidade que têm uma das outras, e
viverem, através da troca, um sentimento vivo e contínuo de sua
mútua dependência, elas irão consolidar, com o tempo, a solidariedade,
prevendo e fixando as condições do equilíbrio do organismo. Na
perspectiva de Durkheim, portanto, com o tempo, os conflitos
tendem a se equilibrar.
A situação de anomia é bastante perceptível na época histórica
de Durkheim. Lembremos que ele viveu a época de passagem

156
Durkheim e a Globalização

do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista, uma


etapa do desenvolvimento capitalismo moderno caracterizada pelo
“imperialismo” (a virada para o século XX). Ele pertence a uma
época de transformações rápidas na vida social e na economia
internacional, nas empresas e na própria ciência.
Na ótica de Duirkheim poderíamos dizer que a divisão do
trabalho, e por que não dizer, a globalização que ocorre hoje
trazendo em seu bojo uma série de resultados sociais perversos,
deve seus resultados a rapidez das transformações capitalistas,
sendo que, com o tempo, ela ira tender a alcançar uma condição
de equilíbrio que desvendaria seu verdadeiro sentido e finalidade:
ser uma fonte de solidariedade e não apenas, como os
economistas muitas vezes salientam, um meio de aumentar o
rendimento das forças sociais.
A seguinte longa transcrição de Durkheim é importante para
mostrar como as transformações do mercado, segundo ele,
atingem a empresa e a relação capital e trabalho e possuem
implicações na própria ciência social e moral. São implicações na
economia, no mundo do trabalho e na própria atividade científica:

...à medida que o tipo organizado se desenvolve, a fusão dos


diversos segmentos uns nos outros implica a dos mercados
num mercado único, que abraça aproximadamente toda a
sociedade. Este estende-se mesmo para além dela e tende a
torna-se universal, porque as fronteiras que separam os povos
esbatem-se ao mesmo tempo que as que separam os
segmentos de cada um deles. Daí resulta que cada indústria
produz para consumidores que estão dispersos sobre toda a
superfície do País, ou mesmo do mundo inteiro. O contato
não é portanto já suficiente. O produtor não pode abarcar o
mercado com olhar, nem mesmo com o pensamento; não
pode já representar-lhe os limites, uma vez que ele é, por
assim dizer, ilimitado. Por conseqüência, a produção carece
de freio e de regra; ela apenas pode tatear ao acaso e, no
decurso destas tentativas, é inevitável que a medida seja

157
Dimensões da Globalização

ultrapassada quer num sentido quer no outro. Daí essas crises


que perturbam periodicamente as funções econômicas. O
aumento dessas crises locais e restritas, que são as falências,
é verdadeiramente um efeito desta mesma causa.
À medida que o mercado se estende, a grande indústria surge.
Ora, ela tem por efeito transformar as relações dos patrões e
dos operários. Uma maior fadiga do sistema nervoso, junta à
influência contagiosa das grandes aglomerações aumenta as
necessidades destes últimos. O trabalho mecânico substitui o
do homem; o trabalho na manufatura, o da pequena oficina. O
operário está arregimentado fora da família todo o dia; vive
cada vez mais afastado daquele que o emprega, etc. Estas
condições novas da vida industrial reclamam naturalmente uma
organização nova; mas, como estas transformações se realizam
com uma extrema rapidez, os interesses em conflito não tiveram
ainda tempo para se equilibrar.
Finalmente, o que explica que as ciências morais e sociais
estejam no estado que dissemos é que foram as últimas a
entrar no círculo das ciências positivas. Com efeito, há pouco
mais de um século que este novo campo de fenômenos se
abriu à investigação cientifica. Os cientistas instalaram-se,
num ou noutro lado, segundo os seus gostos naturais.
Dispersos sobre esta vasta superfície, permaneceram até o
presente demasiado afastados uns dos outros para sentir
todos os laços que os unem. Mas, porque levarão as suas
pesquisas sempre mais longe dos seus pontos de partida,
acabarão necessariamente por atingir-se e, por conseguinte,
por tomar consciência da sua solidariedade. A unidade da
ciência formar-se-á assim por si mesma; não pela unidade
abstrata duma fórmula, de resto demasiado exígua pela
infinidade de coisas que ela deve abarcar, mas pela unidade
viva de um todo orgânico. Para que a ciência seja una, não é
necessário que ela caiba inteira no horizonte de uma e mesma
consciência – o que de resto, é impossível – mas basta que
todos aqueles que a cultivam sintam que colaboram numa
mesma obra. (o grifo é nosso)(Durkheim, 1985b:63-165)

158
Durkheim e a Globalização

As partes grifadas por nós salientam portanto dois aspectos


importantes do pensamento durkheiminiano:
1. A anomia é decorrência de rápidas transformações sociais e
portanto, possuem um caráter de excepcionalidade, o que leva a
crer que, com o tempo, os interesses em conflito tenderão a se
equilibrar.
2. O equilíbrio social, salientado por Durkheim, tende a ocorrer,
na medida em que surgirem, no decorrer do próprio desenvolvimento
social, regulamentações mais complexas, por parte do Estado-nação
e dos governos que apenas manifestariam um consenso espontâneo
das partes, que não poderia ser imposto pelos centros superiores.
O que quer dizer que, Durkheim cultiva um viés otimista sobre os
desdobramentos da divisão do trabalho social e, por conseguinte, do
que poderíamos considerar, hoje, a globalização.
Surge uma questão crucial: não haveria em Durkheim uma
valorização exacerbada e idealizada do aparelho jurídico, do
Direito, como cimento ideológico e regulador da coesão social,
contra o movimento do capital ? E mais do que isso: uma crença
inabalável na capacidade reguladora do Estado-nação sobre o
desenvolvimento irremediável da modernização capitalista (o
Estado-nação posto como o referencial heurístico da sociologia
clássica) ?
Com certeza, Durkheim teve a importante percepção de um
aspecto da sociabilidade na etapa moderna do capitalismo: o Direito
como sendo a expressão-mor da ideologia que coordena e regula a
reprodução social, principalmente numa época onde o movimento
do capital,sob a etapa da mundialização financeira, possui duas
dimensões paradoxais: por um lado, o capital financeiro tem um medo
pânico das regulamentações públicas que poderiam se opor a esse
livre movimento de financeirização (por exemplo, uma “taxa Tobin”)
e, por outro lado, os investidores institucionais - e os governos - têm
um temor visceral das instabilidades sociais provocadas pelo
movimento exacerbado do capital financeiro.
Algo a ser destacado é que Durkheim salientava que a nova
regulamentação social capaz de superar as anomias da

159
Dimensões da Globalização

modernidade deveria nascer do “consenso espontâneo entre as


partes”, ao invés de serem impostos por um Estado onisciente,
verdadeiro Leviatã, tal como surge hoje, no receituário neoliberal.
Na verdade, Durkheim é um dos precursores ideológicos dos
pactos tripartites de cariz neocorporativo tal como proposto
pela social-democracia moderna.

160
Marx e a Globalização

8
Marx e a Globalização Como
Lógica do Capital

U
tilizando algumas caracterizações gerais salien-
tadas por Octávio Ianni na obra Teorias da
Globalização, procuraremos apresentar as
implicações e impressões da globalização como
desenvolvimento ampliado do capitalismo moderno, na
perspectiva de Marx.
Na perspectiva de Octávio Ianni, a globalização pode ser
compreendida como uma nova condição e possibilidade de
reprodução do capital surgida principalmente após a Segunda
Guerra Mundial, quando começaram a predominar os movimentos
e as formas de reprodução do capital em escala internacionais.
A princípio, por capital se entende um signo do capitalismo,
o emblema dos grupos e classes dominantes em escala nacional,
regional e mundial. Isto é, o capital de que se fala aqui é uma
categoria social complexa, baseada na produção de mercadoria
e lucro, ou mais-valia, o que supõe todo o tempo a compra da
força de trabalho; e sempre envolvendo instituições, padrões
sócio-culturais de vários tipos, em especial os jurídico-políticos
que constituem as relações de produção (Ianni, 1996).
Ora, aos poucos, as formas singulares e particulares do capital
no âmbito nacional e setorial, subordinaram-se às formas de
capital em geral, conforme seus movimentos e suas formas de
reprodução em âmbito internacional.
Utilizando os termos da dialética materialista, verificou-se uma
metamorfose que é não apenas quantitativa, mas qualitativa,

161
Dimensões da Globalização

de tal maneira que o capital adquiriu novas condições e


possibilidades de reprodução.
A internacionalização do capital se tornará mais intensa e
generalizada, ou propriamente mundial, com o fim da Guerra Fria,
em fins dos anos de 1980, com a desagregação do bloco soviético e
as mudanças de políticas econômicas nas nações de regime socialista.
A partir desse momento, as economias das nações do ex-mundo
socialista transformam-se em fronteiras de negócios, inversões,
associações de capital, transferências de tecnologias e outras
operações, expressando a intensificação e a generalização dos
movimentos e das formas de reprodução do capital em escala mundial.
Mas, é no período da Guerra Fria, de 1946-1989, que ocorreu
um desenvolvimento extensivo e intensivo do capitalismo pelo
mundo. O que parecia ser uma espécie de virtualidade do
capitalismo como modo de produção mundial, tornou-se cada
vez mais uma realidade do século XX (Ianni, 1996).

As Categorias Marxianas no Desvelamento da Globalização

Utilizando a obra de Marx, Ianni procurou interpretar vários


aspectos da globalização: Empresas Transnacionais, Crise do
Estado-Nação, Fábrica Global, Shopping Center Global,
Penetração do Capital nas Economias Socialistas e
Internacionalização da Questão Social.
Ianni nos apresenta as bases materialistas da nova
internacionalização do capital, da globalização, utilizando para isso o
desenrolar da série de categorias marxistas (modo de produção,
relações de produção, forças produtivas, reprodução ampliada do
capital, concentração e centralização do capital, alienação).
É possível destacar alguns pontos-chaves capazes de dar um
sentido concreto à problemática posta pela internacionalização
do capital e que salientamos logo acima.
O ponto principal a ser destacado é que, para Marx, o
capitalismo é um processo civilizatório mundial, um processo
de amplas proporções complexo e contraditório, mais ou menos
inexorável, avassalador, simultaneamente social, econômico,

162
Marx e a Globalização

político e cultural, que, ultrapassando fronteiras geográficas,


históricas, culturais e sociais, influencia feudos e cidades, nações
e nacionalidades, culturas e civilizações.
Configura-se como um modo de produção que nasce,
desenvolve-se e generaliza-se, atravessando as crises, realizando-
se por ciclos de curta, média e longa durações, e transformando-
se continuamente. É um todo complexo, desigual, contraditório e
dinâmico, uma totalidade aberta ou propriamente histórica. Está
sempre em movimento, no sentido de que transforma e expande,
entra em crise e retoma sua expansão, de maneira errática mas
progressiva, com frequência inexorável (Ianni, 1995).
Ainda que se preservem economias de subsistência,
artesanatos, patrimonialismos, tribos, clãs, nacionalidades e
nações, entre outras formas de organização da vida e do trabalho,
ainda assim o processo capitalista influencia, tensiona, modifica,
dissolve ou recria todas e quaisquer formas com as quais entra
em contato. Exerce influência moderada ou avassaladora,
dependendo do Estado com o qual se defronta (Ianni, 1995:136).
Na medida em que se torna dominante, o modo capitalista de
produção lança luz e sombra, formas e movimentos, cores e sons,
sobre muito do que encontra pela frente. No curso da história da
globalização do capitalismo, muito do que se encontra pelo
caminho se altera, tensiona, modifica, anula, mutila, recria ou
transfigura:

A burguesia não pode existir sem revolucionar


continuamente os instrumentos de produção e, por
conseguinte, as relações de produção, portanto todo o
conjunto das relações sociais...o contínuo revolucionar da
produção, o abalo constante de todas as condições sociais,
a incerteza e a agitação eternas distinguem a época burguesa
de todas as precedentes. Todas as relações fixas e
cristalizadas, com seu séquito de crenças e opiniões tornadas
veneráveis pelo tempo, são dissolvidas, e as novas
envelhecem antes mesmo de se consolidarem. Tudo o que é

163
Dimensões da Globalização

sólido e estável se volatiliza, tudo o que é sagrado é


profanado, e os homens são finalinente obrigados a encarar
com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas
relações recíprocas. A necessidade de mercados cada vez
mais extensos para seus produtos impele a burguesia para
todo o globo terrestre. Ela deve estabelecer-se em toda parte,
instalar-se em toda parte, criar vínculos em toda parte.
Através da exploração do mercado mundial, a burguesia deu
um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos
os países. Para grande pesar dos reacionários, retirou de
baixo dos pés da indústria o terreno nacional. As antigas
indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser
destruídas a cada dia. São suplantadas por novas indústrias,
cuja introdução se torna uma questão de vida ou morte para
todas as nações civilizadas; indústrias que não mais empregam
matérias-primas locais, mas matérias-primas provenientes das
mais remotas regiões, e cujos produtos são consumidos não
somente no próprio país, mas em todas as partes do mundo. Em
lugar das velhas necessidades, satisfeitas pela produção
nacional, surgem necessidades novas, que para serem
satisfeitas exigem os produtos das terras e dos climas mais
distantes. Em lugar da antiga auto-suficiência e do antigo
isolamento local e nacional, desenvolve-se em todas as direções
um intercâmbio universal, uma universal interdependência das
nações. E isso tanto na produção material quanto na intelectual.
Os produtos intelectuais de cada nação tornam-se patrimônio
comum A unilaterialidade e a estreiteza nacionais tornam-se
cada vez mais impossíveis, e das numerosas literatura nacional
e local formam-se uma literatura mundial (Marx e Engels, 1985)

O capitalismo é um processo civilizatório que “invade todo


o globo”, envolve o “intercâmbio universal” e cria as bases de
“um novo mundo”, influenciando, destruindo ou recriando outras
formas sociais de trabalho e vida, outras formas culturais e
civilizatórias:

164
Marx e a Globalização

O período burguês da história está chamado a assentar as


bases materiais de um novo mundo; a desenvolver, de um
lado, intercâmbio universal, baseado na dependência mútua
do gênero humano, e os meios para realizar esse intercâmbio;
e, de outro, desenvolver as forças produtivas do homem e
transformar a produção material num domínio científico sobre
as forças da natureza. A indústria e o comércio burgueses
vão criando essas condições de um novo mundo do mesmo
modo que as revoluções geológicas criavam a superfície da
Terra (Marx, 1981)

A Dialética da Globalização

No capitalismo, as forças produtivas, compreendidas sempre


como forças sociais, encontram-se todo o tempo em interação
dialética. As forças produtivas básicas, tais como o capital, a
tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho social, o
mercado e o planejamento, entre outras, entram em contínua e
ampla conjugação, desenvolvendo-se de forma intensiva e
extensiva, ultrapassando fronteiras geográficas e históricas,
regimes políticos e modos de vida, culturas e civilizações.
É a expressão do capital como modo de socialização e de
controle sócio-metabólico ampliado, caracterizado pela
expansividade, intensiva e extensiva, e pela incontrolabilidade
(Mészáros, 1995).
A concorrência entre os capitais, a busca de novos processos
produtivos, a conquista de outros mercados e a procura de lucros
provocam a dinamização das forças produtivas e da forma pela
qual elas se combinam e aplicam nos mais diversos setores de
produção, nas mais diferentes nações e regiões do mundo.
Estão em marcha os processos de concentração do capital,
o que implica na contínua reinversão dos ganhos no mesmo ou
em outros empreendimentos, e os de centralização do capital,
o que implica na contínua absorção de outros capitais, próximos
e distantes, pelo mais ativo, dinâmico ou inovador.

165
Dimensões da Globalização

À medida que se liberam e agilizam as forças produtivas,


juntamente com as relações de produção demarcando as
condições de liberdade e da igualdade dos proprietários de capital
e força de trabalho, organizadas em forma contratual, intensifica-
se e generaliza-se a reprodução ampliada do capital:

[No capitalismo], da mesma forma que o método de produção


e os meios de produção são constantemente ampliados,
revolucionados, assim também a divisão do trabalho
necessariamente provoca maior divisão do trabalho, o
emprego de maquinaria provoca maior emprego de
maquinaria, o emprego de trabalho em ampla escala provoca
o emprego de trabalho em escala ainda mais ampla. Esta é a
lei que continuamente empurra a produção capitalista além
dos seus velhos limites e compele o capital a mobilizar
sempre mais forças produtivas de trabalho, pela mesma razão
que ele já as mobilizou anteriormente. [...] Portanto, se
compreendermos esta agitação fabril como ela opera no
mercado mundial como um todo, estaremos em condições
de compreender como o crescimento, a acumulação e a
concentração do capital trazem consigo uma cada vez maior
renovação das velhas máquinas e uma constante aplicação
de novas máquinas: processo que segue ininterruptamente,
com uma velocidade febril e em escala cada vez máis
gigantesca (Marx,1980)

O dinamismo da reprodução ampliada do capital, que seu caráter


progressivo, influencia contínua e reiteradamente as mais diferentes
formas de organização social e técnica do trabalho e da produção:

Em todas as formas de sociedade existe uma determinada


produção que confere a todas as outras sua correspondente
posição e influência; uma produção cujas relações conferem
a todas as outras a posição e a influência. É uma iluminação

166
Marx e a Globalização

geral, em que se banham todas as cores, e que modifica as


particularidades destas (Ianni, 1995:141)

A dinâmica da reprodução ampliada realiza-se pela contínua


concentração do capital, ou reinversão do excedente, isto é, da mais-
valia, e pela contínua centralização ou absorção de outros capitais
pelo mais ativo, forte ou inovador. Esses são processos que tornam
o capitalismo uma realidade histórica e geográfica, atravessando
fronteiras, mares e oceanos.
Ainda que desenvolvendo-se de maneira desigual, combinada e
contraditória, o capitalismo expande-se pelas mais diferentes nações
e nacionalidades, bem como culturas e civilizações, dinamizado pelos
processos de concentração e centralização, concretizando sua
globalização.
Ianni observa que o que se anunciava nos primeiros tempos
do capitalismo, revela-se claro no século XIX e mais ou menos
avassalador no XX.
Ao longo da história, desde o século XVI ao XX, e já
prenunciando o século XXI, multiplicam-se as empresas,
corporações e conglomerados, compreendendo monopólios,
trustes, cartéis, multinacionais e transnacionais. São
empreendimentos que estão sempre ultrapassando fronteiras
geográficas e históricas, atravessando mares e oceanos,
instalando-se em continentes, ilhas e arquipélagos.
Assim, se é verdade que o mercantilismo, o colonialismo e o
imperialismo tinham raízes no nacionalismo e ajudaram a difundir
o modelo de Estado-nação pelo mundo afora, é também verdade
que quebraram fronteiras de tribos, clãs, povos, nacionalidades,
culturas e civilizações.
Nesse sentido é que o capitalismo entra decisivamente no
desenho (e redesenho) do mapa do mundo, criando nações e
colônias, metrópoles e impérios, geoeconomias e geopoliticas,
ocidentes e orientes:

167
Dimensões da Globalização

Enquanto que o capital, por um lado, deve tender a destruir


toda barreira espacial oposta ao comércio, isto é, ao
intercâmbio, e a conquistar toda a Terra como um mercado,
por outro lado tende a anular o espaço por meio do tempo,
isto é, reduzir a um mínimo o tempo tomado pelo movimento
de um lugar a outro. Quanto mais desenvolvido o capital,
quanto mais extenso é portanto o mercado em que circula,
mercado que constitui a trajetória espacial de sua circulação,
tanto mais tende simultaneamente a estender o mercado e a
uma maior anulação do espaço, através do tempo. [...]
Aparece aqui a tendência universal do capital, o que o
diferencia de todas as formas anteriores de produção (o grifo
é nosso) (Marx, 1985)

A dinâmica da reprodução ampliada do capital, envolvendo


concentração e centralização, produz e reproduz o
desenvolvimento desigual e combinado, em escala nacional,
regional e mundial.
Na medida em que essa dinâmica se realiza, provoca
necessariamente a reiteração de algo estruturalmente semelhante à
acumulação originária, como uma espécie de “revolução” que
periodicamente transforma ou moderniza as mais diversas formas
sociais e técnicas de organização do trabalho e da produção.
Isto significa que, como salienta Ianni, a acumulação originária
pode ser vista como um processo simultaneamente genético e
estrutural, inerente ao capitalismo, desenvolvendo-se todo o tempo,
em todas as partes.
A dinâmica desse modo de produção cria e recria, contínua e
reiteradamente, as forças produtivas e as relações de produção, seja
pelo desenvolvimento extensivo como pelo intensivo. É um processo
que se desenvolve e reitera ao longo da história:

O divórcio entre o produto do trabalho e o próprio trabalho,


entre as condições objetivas de trabalho e a força subjetiva
de trabalho é, pois, como sabemos, a premissa real dada, o
ponto de partida do processo capitalista de produção. [...] O

168
Marx e a Globalização

processo capitalista de produção reproduz, portanto, pelo


seu próprio mecanismo, o divórcio entre a força de trabalho
e as condições de trabalho, reproduzindo e eternizando
desta maneira as condições de exploração do trabalhador.
Obriga constantemente o trabalhador a vender a sua força
de trabalho para viver e permite constantemente ao capitalista
comprá-la para enriquecer-se. [...] O regime do capital
pressupõe o divórcio entre os trabalhadores e a propriedade
das condições de realização de seu trabalho. Quando já se
move por seus próprios pés, a produção capitalista não só
mantém esse divórcio como o reproduz e acentua em uma
escala cada vez maior. Portanto, o processo que engendra o
capitalismo somente pode ser um: o processo de dissociação
entre o trabalhador e a propriedade sobre as condições de
trabalho, processo que, de um lado converte em capital os
meios sociais de vida e de produção, e por outro converte
os produtores diretos em trabalhadores assalariados. A
chamada acumulação originária não é, portanto, mais do que
o processo histórico de dissociação entre o produtor e os
meios de trabalho (o grifo é nosso) (Marx, 1996)

Portanto, o que já se revelava uma característica fundamental


da gênese do capitalismo europeu no século XVI, a acumulação
originária, revela-se uma característica também fundamental dos
desenvolvimentos do capitalismo global no século XX, continua a
realizar-se e generalizar-se reiteradamente o divórcio entre a força
de trabalho, ou seja, o trabalhador, e as condições de trabalho, ou
seja, a propriedade dos meios de produção (Ianni, 1995).

Ciência e Técnica Enquanto Forças Produtivas

As metamorfoses da ciência e da técnica em força produtiva


correspondem a um desenvolvimento fundamental do modo de
produção capitalista. São metamorfoses que multiplicam
amplamente as condições e as possibilidades de produção ampliada
do capital, intensificando o caráter “civilizatório” deste:

169
Dimensões da Globalização

Se o processo produtivo torna-se esfera de aplicação da


ciência , então...a ciência torna-se um fator , uma função, do
processo produtivo. Cada descoberta converte-se na base
de novos inventos, ou de um novo aperfeiçoamento das
formas de produção. O modo capitalista de produção coloca
desde o início as ciências naturais a serviço imediato do
processo de produção, ao passo que o desenvolvimento da
produção oferece, em troca, os instrumentos para a conquista
teórica da natureza. A ciência alcança o reconhecimento de
ser um meio de produzir riqueza, um meio de enriquecimento.
Desta maneira, os processos produtivos apresentam-se pela
primeira vez como problemas práticos, que somente podem
ser resolvidos cientificamente. A experiência e a observação
(e as necessidades do próprio processo produtivo) alcançam
agora, pela primeira vez, um nível que permite e torna
indispensável o emprego da ciência...O desenvolvimento das
ciências naturais (que também formam a base de qualquer
conhecimento), como o de qualquer noção (que se refira ao
processo produtivo) realizam-se, por sua vez, com base na
produção capitalista que, pela primeira vez, oferece em ampla
medida às ciências os meios materiais de pesquisa,
observação e experimentação. Os homens de ciência, na
medida em que as ciências são utilizadas pelo capital como
meio de enriquecimento e, portanto, convertem-se elas
mesmas em meios de enriquecimento, inclusive para os
homens que se ocupam do desenvolvimento da ciência,
competem entre si nos intentos de encontrar uma aplicação
prática da ciência.” (Marx, 1982)

As metamorfoses da ciência em técnica e da técnica em força


produtiva adquirem ritmos crescentes e surpreendentes no século
XX. E na segunda metade desse século, com os desenvolvimentos
das ciências naturais e sociais, e suas transformações em
técnicas, tudo isso agilizado e generalizado pelas conquistas da
eletrônica e da informática, impõe outros surtos de potenciação
da força produtiva do trabalho, em todos os setores da

170
Marx e a Globalização

economia, em âmbito nacional, regional e mundial. Esta pode ser


considerada uma das características mais notáveis da globalização
do capitalismo (Ianni, 1995).
As metamorfoses da ciência em técnica e da técnica em
força produtiva permitem intensificar a reprodução do capital
e, simultaneamente, contribuir para a concentração e a
centralização do capital.
Como essas metamorfoses realizam-se sob o controle das
corporações transnacionais, muitas vezes apoiadas e estimuladas
por governos nacionais e organizações multilaterais, as maravilhas
da ciência e da técnica do trabalho não se traduzem e não
poderiam se traduzir em diretrizes ou realizações destinadas a
reduzir ou eliminar desigualdades sociais, econômicas, políticas
e culturais (Ianni, 1995):

Hoje em dia, tudo parece levar no seu seio a própria


contradição. Vemos que as máquinas, dotadas da
propriedade maravilhosa de reduzir e tornar mais frutífero o
trabalho humano, provocam a fome e o esgotamento do
trabalhador. As fontes de riqueza récem-descobertas se
convertem, por artes de um estranho malefício, em fontes de
privações. Os triunfos da arte parecem adquirir ao preço de
qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é
cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se
transforma em escravo de outros homens ou da sua própria
infâmia. Até a pura luz da ciência parece só poder brilhar
sobre o fundo tenebroso da ignorância. Todos os nossos
inventos e progressos parecem dotar de vida intelectual as
forças materiais, enquanto reduzem a vida humana ao nível
de uma força bruta. Esse antagonismo entre a indústria
moderna e a ciência, de um lado, e a miséria e a decadência,
de outro, este antagonismo entre as forças produtivas e as
relações sociais da nossa época é um fato palpável,
esmagador e incontrovertivel. (Marx, 1985)

171
Dimensões da Globalização

Sob o Comando do Capital Em Geral

Essa dinâmica é comandada pelo capital, pelos que detêm a


propriedade e os movimentos do capital, em âmbito nacional e
mundial. Ainda que o capital não possa nunca atuar de maneira
independente e, além disso, dependa em essência da capacidade
da força de trabalho produzir valor, é inegável que pode determinar
as direções e os ritmos da reprodução ampliada.
Para que se realize a sua reprodução ampliada, o capital
desenvolve-se, desdobra-se e articula-se em distintas formas de
organização do trabalho e da produção. Adquire configurações
singulares, particulares e gerais, reciprocamente referidas e
determinadas, mas cada vez mais sob a influência do capital em
geral, abstrato e real (Ianni,1995)
No âmbito da economia global, desenvolve-se ainda mais a forma
do capital, uma espécie de síntese e matriz do singular e do particular,
todos reciprocamente referidos, mas determinados pelo geral.
Nesse sentido é que a globalização como mundialização do
capital pode ser vista como produto e condição do capital em
geral (sob a hegemonia do capital financeiro) no qual se realizam e
multiplicam todas as outras formas de capital.
O que Marx observava como algo incipiente em seu tempo,
na medida em que se desenvolve o capitalismo, revela-se
crescentemente efetivo e generalizado. O capital, sob formas
novas e renovadas, desenvolveu-se e fortaleceu-se assinalando
a sua lógica pelos quatro cantos do mundo. No fim do século XX
adquire características propriamente globais.

Alienação

São várias as formas de alienação que se desenvolvem e


multiplicam com o capitalismo, visto como processo civilizatório.
Na medida em que transforma continuamente as condições
sociais de vida nos países em que ele já se encontra enraizado, e

172
Marx e a Globalização

revoluciona as condições sociais de vida em tribos, clãs,


nacionalidades e nações nos quais não haviam chegado ou
encontrava-se pouco desenvolvido, o modo de produção capitalista
provoca a emergência de outras forma de sociabilidade:

Algumas formas de sociabilidade são realmente inovadoras,


libertadoras ou deslumbrantes. Abrem novas possibilidades
de emancipação individual e coletiva, permitindo outras
formas de criação também individuais e coletivas. Florescem
idéias filosóficas, científicas e artísticas, ao mesmo tempo
em que se criam distintas condições sociais de
individualização, mobilidade social, organização de
movimentos sociais e correntes de opinião pública. Também
os movimentos artísticos podem dispor de outras condições
de emergência, desenvolvimento e generalização. A
multiplicação dos meios de comunicação e as possibilidades
de circulação das coisas, gentes e idéias, em âmbitos
nacional, regional e mundial, abrem outros horizontes para
indivíduos e coletividades (Ianni, 1995).

Octávio Ianni observa que, paralelamente à emergência de


formas de sociabilidades inovadoras, liberadoras ou mesmo
deslumbrantes, desenvolvem-se também as que limitam, inibem
ou propriamente alienam. Elas podem ser totalmente novas,
ou acrescentam-se às preexistentes, podendo recriá-las ou
agravá-las. Nestes casos, intensificam as limitações ou mesmo
as mutilações que atingem indivíduos e coletividades, ou mesmo
nações e nacionalidades.
Sob vários aspectos, como observa Ianni, é possível dizer que
o capitalismo desacorrentou Prometeu do castigo que lhe havia
imposto Zeus, por ensinar aos homens o segredo do fogo, para
que pudessem emancipar-se das forças da natureza. Mas também
é possível dizer que Prometeu escapou da tutela de Zeus e foi
colocado sob a tutela do Capital. O mistério da metáfora não
foi desfeito, desenvolveu-se, foi refeito (Ianni, 1995)

173
Dimensões da Globalização

À Título de Conclusão: A Reconstrução da Sociologia na


Era do Globalismo

Poderíamos considerarmos a sociologia como o registro dos


ícones da modernidade, capaz de elaborar e re-elaborar seus
princípios explicativos, que são múltiplos, mas que podem ser
complementares (como demonstrou com habilidade inaudita,
Octávio Ianni).
Mas os limites da sociologia são seus próprios méritos: ser a
autoconsciência empírica do nosso tempo, a fenomenologia
da mundanidade, inversa absoluta da homônima hegeliana.
Por isso, o intento de Octávio Ianni é reconstruir, indicar, mais
propor que resolver ou desenvolver, mais problematizar que
concluir. É a partir daí que podemos explicar o caráter múltiplo,
diverso, de seus ensaios que retratam, a partir da tradição
sociológica, os vários aspectos da globalização, não apenas em
seus ícones, mas em seus princípios explicativos, que se cruzam,
se sobrepõem e se complementam para compor a riqueza de
uma nova realidade histórica, mas também sociológica que surge.
Ao recitarmos algumas passagens longas da obra de Ianni
procuramos salientar duas tradições clássicas do pensamento da
sociologia clássica incorporadas por ele para compor um retrato
ou registro do nosso tempo, da era do globalismo.
Lendo Marx, pode-se dizer que a globalização surge com o
domínio do capital em geral, do capital financeiro, do débacle do
socialismo real, do domínio das empresas, conglomerados e
corporações transnacionais e não apenas isso, mas do predomínio
das instituições e tecno-estruturas transnacionais, da cultura global,
shopping center global, que se impõe sobre as culturas regionais
e nacionais. O sentido da globalização, como apreendemos a
partir da leitura de Marx, através de Ianni, é contraditório como
o próprio capital, emancipa e escraviza.
Lendo Weber, diremos isso e outras coisas, quando vemos a
globalização que surge do processo de racionalização, da
burocratização universal, do desencantamento do mundo. É claro

174
Marx e a Globalização

que há outras perspectivas explicativas, mas destacamos as mais


ricas e promissoras, onde diremos, Marx mais que Weber e Durkheim.
Mas o maior problema é encontrar o lugar da sociologia na
era do globalismo, numa perspectiva que vai além do paradigma
nacional, do Estado-nação, onde se originou e se desenvolveu as
tradições sociológicas clássicas.
Como pensar o ser social na época da desterritorialização,
não apenas do mercado mundial, mas do capital em geral, da
racionalização universal, do desencantamento planetário ?
É nesse momento que a sociologia, para ter o seu lugar, precisa
ir além de si mesmo, de ser mero registro empírico da
modernidade esgotada com a globalização.
Se procuramos resgatar a reflexão sobre a globalização com
a visão sociológica é porque a consideramos essencial,
principalmente como um convite à reflexão criativa, disruptiva
e corajosa de ir além de si mesma.
Mas procuramos destacar um modo de conceber a globalização
na perspectiva dialético-materialista, pelo seu potencial heurístico
de dizer algo mais que a sociologia poderia nos propor.

175
3

Globalização
e
Trabalho
Toyotismo e Produção Capitalista

9
Toyotismo Como
Ideologia Orgânica
da Produção Capitalista

O
objetivo deste ensaio é tentar apresentar uma
breve caracterização do toyotismo, que conside-
ramos como sendo a ideologia orgânica da
produção capitalista sob a mundialização do capital.
Ao dizermos ideologia orgânica procuramos salientar a
amplitude de valores e regras de organização da produção que
sustentam uma série de protocolos organizacionais. Tais
protocolos organizacionais do toyotismo que aparecem sob
as mais diversas formas, atingem os empreendimentos
capitalistas, seja na área da indústria, seja na área de serviços
(inclusive, por analogia, na administração pública), tentando
articular, no plano da organização subjetiva da produção
capitalista latu sensu, um novo regime de acumulação centrado
no principio da flexibilidade, que consideramos a categoria
dominante da acumulação capitalista num cenário de crise
estrutural.
Na verdade, todo empreendimento capitalista é coagido pela
concorrência a adotar procedimentos organizacionais oriundos
da matriz ideológico-valorativa do toyotismo. Eles se articulam
e se mesclam com dispositivos tayloristas-fordistas, mesmo não
participando da criação de valor, organizações de serviços e de
administração pública incorporam, por analogia, tais valores do
neoprodutivismo toyotista.

179
Dimensões da Globalização

Na década de 1990, o impulso ideológico do toyotismo atingiu


o empreendimentismo capitalista no Brasil, no bojo do complexo
de reestruturação capitalista e do ajuste neoliberal propiciado
pelos governos Collor e pelo governo Cardoso. A abertura da
economia, o acirramento da concorrencia e a proliferação dos
valores de mercado contribuíram sobremaneira para a adoção
da nova forma de gestão da exploração da força de trabalho.
Noutros momentos procuramos desenvolver a reflexão sobre
o significado do toyotismo, mais iremos nos concentrar aqui em
elaborar uma rápida caracterização que procure ir além da
concepção restrita de toyotismo, procurando recuperar sua
gênese histórica e seu significado ontológico para a nova
etapa de desenvolvimento do capitalismo mundial (Alves, 1999).
O toyotismo é regido pelo principio da flexibilidade, que
articula um nexo essencial, o nexo do envolvimento subjetivo
do trabalho, que implica na captura da subjetividade do trabalho
pelo capital e os nexos contingentes da produção fluída e da
produção difusa (Bihr, 1999).
O cerne do toyotismo é a busca do engajamento estimulado
da força de trabalho, principalmente do trabalhador central, o
assalariado “estável”, para que ele possa operar uma série de
dispositivos organizacionais que sustentam a produção fluída e
difusa.
Como exemplo do toyotismo, percebemos os mais diversos
tipos de Programas de Gerenciamento pela Qualidade Total, pela
busca da produção just-in-time e pela utilização do kan-ban,
pelas novas formas de pagamento e de remuneração flexivel, e
principalmente pela difusão da terceirização. Tais dispositivos
organizacionais contingentes são múltiplos, tornando-se, inclusive,
senso-comum nos manuais da nova administração das empresas.
Mas o que cabe resgatar são seus dispositivos materiais de
busca do envolvimento subjetivo da força de trabalho e da busca
recorrente de uma produção difusa, através da terceirização, e
de uma produção fluida, recorrendo, nesse caso, em última
instância, a utilização de novas tecnologias microeletrônicas.

180
Toyotismo e Produção Capitalista

Portanto, seja na indústria, onde tal sistema de gerenciamento


da produção capitalista se originou, seja, por analogia, nos bancos
e serviços em geral, o toyotismo se tornou um senso comum da
produção do capital, mesclado, é claro, com formas tayloristas-
fordistas. Estamos diante, portanto, de um conceito com maior
densidade ontológica do que imaginam sociólogos ou engenheiros
de produção, muitos deles voltados para a mera análise empirista.

A gênese do toyotismo

A partir da mundialização do capital, o que veio a ser


denominado de toyotismo assumiu a posição de objetivação
universal da categoria da flexibilidade, tornando-se um valor
universal para o capital em processo.
É claro que a projeção universal do toyotismo, a partir dos
anos 80, vincula-se ao sucesso da indústria manufatureira japonesa
na concorrência internacional. Durante os anos setenta e oitenta,
diversas técnicas foram importadas do Japão, em diversas ondas,
com diferentes ênfases, para diversos países e setores.
A primeira onda foi a dos CCQ’s e, quase que em paralelo, a do
Kanban / JIT. Posteriormente, diversos outros elementos foram
adicionados, como TQC (Total Quality Control), Kaizen, técnica
dos 5S’s, TPM (Total Productive Maintenance) e outras
(Zilbovicius, 1999).
Entretanto, o novo método de gestão da produção, impulsionado,
em sua gênese sócio-histórica, pelo sistema Toyota, conseguiu
assumir um valor universal para o capital em processo, tendo
em vista as próprias exigências do capitalismo mundial, das novas
condições de concorrência e de valorização do capital surgidas a
partir da crise capitalista dos anos 70.
Isso significa dizer que o toyotismo não pode mais ser reduzido
às condições históricas de sua gênese, tornando-se adequado,
sob a mundialização do capital, não apenas à nova base técnica
do capitalismo, com a presença de novas tecnologias
microeletrônicas na produção, o que exige um novo tipo de

181
Dimensões da Globalização

envolvimento subjetivo da força de trabalho, e, portanto, uma


nova subordinação formal-intelectual do trabalho ao capital, mas
a nova estrutura da concorrência capitalista no cenário de crise
de superprodução, onde está colocada a perspectiva de
“mercados restritos”.
Mas, o valor ontológcio do toyotismo não se vincula apenas à
sua morfologia intrinseca adequada a mercados restritos, mas a
ser ele, o toyotismo, o resultado de um processo de luta de classes.
O toyotismo é a expressão plena de uma ofensiva do capital na
produção. Ele é um dispositivo organzacional e ideológica que
busca debilitar (e anular), ou “negar” , o caráter antagônico
do trabalho no seio da produção do capital.
Por isso, muitas vezes, a sociologia do trabalho deixa de salientar
que a construção do toyotismo é decorrente, ou é resultado sócio-
histórico, de um processo de intensa luta de classes, onde ocorreram
importantes derrotas operárias, que tornaram possível a introdução
de uma nova organização social da produção.
Por exemplo, a instauração do sindicalismo por empresa,
surgido nos anos 50 no Japão, tornou-se uma das pré-condições
do próprio desenvolvimento do toyotismo. Na verdade, é possível
considerar, como uma das condições institucionais do
comprometimento operário, a instauração de um sindicalismo
de envolvimento, pró-ativo, que procure colaborar com o capital
na busca de soluções para os problemas da produção de
mercadorias.
O sucesso do sistema Toyota vincula-se, numa perspectiva
histórica, às grandes derrotas da classe operária, à própria
decapitação e neutralização do seu intelectual orgânicos no plano
produtivo: o sindicato industrial, de classe, transformado num sindicato
de empresa, corporativo e interlocutor exclusivo do capital.
Este processo de neutralização político-ideológica da classe
operária no espaço da produção é tão importante para o sucesso do
toyotismo que, no país capitalista de origem, o Japão, uma das
passagens essenciais que asseguram a promoção dos dirigentes
e a formação das elites da empresa Toyota é a atividade sindical.

182
Toyotismo e Produção Capitalista

O que queremos salientar, portanto, é que, ao surgir como o


momento predominante do complexo de reestruturação sob a
mundialização do capital, o toyotismo passou a incorporar uma
nova significação, para além das particularidades de sua gênese
sócio-histórico (e cultural), vinculado com o capitalismo japonês.
Deste modo, ao utilizarmos o conceito de toyotismo, queremos
dar-lhe uma significação particular, delimitando alguns de seus
aspectos essenciais. São tais aspectos essenciais do toyotismo,
seus protocolos organizacionais e institucionais, voltados para
realizar uma nova captura da subjetividade operária pela
lógica do capital, que possuem um valor heurístico, capaz de
esclarecer seu verdadeiro significado nas novas condições da
mundialização do capital.

A Lógica do Toyotismo

O que consideramos como sendo o toyotismo pode ser tomado


como a mais radical e interessante experiência de organização
social da produção de mercadorias sob a era da mundialização
do capital. Ela é adequada, por um lado, às necessidades da
acumulação do capital na época da crise de superprodução,
e, por outro lado, é adequada à nova base técnica da produção
capitalista, sendo capaz de desenvolver suas plenas
potencialidades de flexibilidade e de manipulação da subjetividade
operária.
Os princípios organizacionais do toyotismo tenderam, no
decorrer dos anos 80, a serem adotados por várias corporações
transnacionais nos EUA, Europa e Ásia ou ainda América Latina,
principalmente no setor industrial (ou até nos serviços). É claro
que, nesse caso, eles, os princípios organizacionais se adaptaram
às particularidades concretas da produção de mercadorias,
surgindo como o momento predominante do complexo de
reestruturação produtiva.
Ao assumir um valor universal, o toyotismo passou a mesclar-
se, em maior ou menor proporção, a suas objetivações nacionais

183
Dimensões da Globalização

e setoriais, com outras vias de racionalização do trabalho,


capazes de dar maior eficácia à lógica da flexibilidade. É por
isso que a instauração do toyotismo articula, em seu processo,
uma continuidade/descontinuidade com o taylorismo/fordismo, a
via predominante de racionalização pretérita do trabalho.
O aspecto original do toyotismo é articular a continuidade da
racionalização do trabalho, intrínseca ao taylorismo e fordismo,
com as novas necessidades da acumulação capitalista. É uma
“ruptura” no interior de uma continuidade plena. Por isso, “embora
consciente das diferenças e de suas contribuições específicas,
Taichi Ohno [o “criador” do toyotismo – G.A] preferiu insistir
antes sobre as continuidades que sobre as rupturas” [com relação
a Taylor e Ford] (Coriat, 1993).
Além disso, o próprio autor do rótulo pelo qual ficou conhecido
o toyotismo: lean production, ou Produção Enxuta,
posteriormente consagrado mundialmente através do estudo do
MIT (Womack et al., 1990), Krafcik, observou que “muitos dos
princípios de Ford em suas formas mais puras são ainda válidos
e formam a própria base do que conhecemos agora como Toyota
Production System...Fordismo original com um sabor japonês.”
(Krafcik Apud Zilbovicius, 1997).
Tanto o taylorismo/fordismo, como, de certo modo, o toyotismo,
trazem, em si, o “espírito profundo” da Segunda Revolução
Industrial (a utilização “científica da matéria viva, o trabalho vivo”.
Todos eles, em maior ou menor proporção, estariam preocupados
com o controle do elemento subjetivo no processo de produção
capitalista.
Apesar de o toyotismo pertencer à mesma lógica de
racionalização do trabalho, o que implica considerá-lo uma
continuidade com respeito ao taylorismo/fordismo, ele tenderia,
nesse caso, a surgir como um controle do elemento subjetivo
da produção capitalista que estaria posto no interior de uma
nova subsunção real do trabalho ao capital; o que seria uma
descontinuidade com relação ao taylorismo/fordismo. É o que

184
Toyotismo e Produção Capitalista

Fausto denominou subordinação formal-intelectual ou espiritual


do trabalho ao capital)(Fausto, 1989).
Por isso, é a introdução da nova maquinaria, vinculada à III
Revolução Tecnológica e Científica, o novo salto da subsunção
real do trabalho ao capital, que exige, como pressuposto formal
ineliminável, os princípios do toyotismo, onde a captura da
subjetividade operária é uma das pré-condições do próprio
desenvolvimento da nova materialidade do capital. “É como se a
forma material exigisse uma posição adequada na forma”, diria
Fausto.
As novas tecnologias microeletrônicas na produção, capazes
de promover um novo salto na produtividade do trabalho,
exigiriam, portanto, como pressuposto formal, o novo
envolvimento do trabalho vivo na produção capitalista.
Entretanto, como o próprio Ohno (e Krafcik) reconheceram,
é mais importante insistir sobre as continuidades que sobre as
rupturas do toyotismo com respeito ao taylorismo/fordismo. De
certo modo, o toyotismo conseguiu superar, no sentido dialético
(superar/conservando), alguns aspectos predominantes da gestão
da produção capitalista sob a grande indústria no século XX,
inspirados no taylorismo e fordismo, que instauraram a
parcelização e repetividade do trabalho.
Mas, por trás da intensificação do ritmo do trabalho que existe
no toyotismo, em virtude da “maximização da taxa de ocupação
das ferramentas e dos homens” (Coriat), persiste ainda uma nova
repetitividade do trabalho.
É claro que existe uma ampliação do ciclo do trabalho em
virtude da “desespecialização”. Só que, ampliar o ciclo do trabalho
não significa desenvolver o processo de requalificação do
trabalho. A “desespecialização”, ou polivalência operária, não
quer dizer que eles tenham se convertido em operários
qualificados, mas representam, como salientou Aglietta, “o
extremo da desqualificação, ou seja, seus trabalhos foram
despojados de qualquer conteúdo concreto.” (Aglietta, 1978)

185
Dimensões da Globalização

Deste modo, a uniformização que o toyotismo realiza é apenas


a expressão organizacional da coletivização do trabalho, sob a
forma de trabalho abstrato, que permite a ampliação das tarefas.
O trabalho ampliado, dos operários “pluri-especialistas”, resulta
tão vazio, e tão reduzido à pura duração, como o trabalho
fragmentado (Aglietta, 1978).
Portanto, tal como o taylorismo e o fordismo, o objetivo
supremo do toyotismo ou da “Produção Enxuta” continua sendo
incrementar a acumulação do capital, através do incremento da
produtividade do trabalho, o que o vincula à lógica produtivista
da grande indústria, que dominou o século XX.
O toyotismo pertence, tal como o taylorismo e fordismo, ao
processo geral de racionalização do trabalho e, portanto, de sua
intensificação instaurado pela grande indústria.
Por outro lado, cabe ao toyotismo articular, na nova etapa da
mundialização do capital, uma operação de novo tipo de
captura da subjetividade da força de trabalho, uma nova
forma organizacional capaz de aprofundar e dar uma nova
qualidade à subsunção real do trabalho ao capital inscritas na
nova forma material do capitalismo da III Revolução Científica
e Tecnológica.
Surge então a pergunta: por que o toyotismo pode ser
considerado um valor universal para a produção de mercadorias
sob as condições da mundialização do capital ?
Ora, em primeiro lugar, as suas condições ontológicas
originárias, determinaram suas próprias possibilidades de
universalização. É preciso salientar, mais uma vez, que o
toyotismo é instaurado, originariamente, pela lógica do “mercado
restrito”, surgindo sob a égide do capitalismo japonês dos anos
50, caracterizado por um mercado interno débil.
Por isso, tornou-se adequado, em sua forma de ser, às
condições do capitalismo mundial dos anos 80, caracterizado por
uma crise de superprodução, que coloca novas normas de
concorrência. Foi o desenvolvimento (da crise) capitalista que

186
Toyotismo e Produção Capitalista

constituiu, portanto, os novos padrões de gestão da produção de


mercadoria, tal como o toyotismo, e não o contrário.
Em segundo lugar, a constituição do toyotismo tornou-se
adequada à nova base técnica da produção de mercadorias,
vinculada à III Revolução Industrial, que exige uma nova
subjetividade da força de trabalho – pelo menos dos trabalhadores
centrais à produção de mercadorias. As novas tecnologias de
base microeletrônica, em virtude de sua complexidade e alto
custos, exigem uma nova disposição subjetiva dos operários em
cooperar com a produção.
Ora, é o toyotismo que irá propiciar, com um maior poder
ideológico, no campo organizacional, os apelos à administração
participativa, salientando o sindicalismo de participação e os
CCQ’s (Círculos de Controle de Qualidade); reconstituindo, para
isso, a linha de montagem e instaurando uma nova forma de
gestão da força de trabalho.

A centralidade ontológica do envolvimento subjetivo da


força de trabalho

O valor universal do toyotismo como momento predominante


do complexo de reestruturação produtiva e como nova ofensiva
do capital na produção é instaurar, no plano da produção de
mercadorias, uma nova hegemonia do capital, articulando, de
modo original, coerção capitalista e consentimento dos
trabalhadores.
De certo modo, o taylorismo/fordismo, sob as condições de
racionalização propiciadas pelo desenvolvimento histórico no
século XX, principalmente nos EUA, tornou-se, a partir dos anos
20, o pioneiro na articulação entre coerção capitalista e
consentimento operário. Com ele, procurou-se operar, de modo
pleno, a subsunção real da subjetividade da força de trabalho
à lógica do capital, a articulação hábil da “força” (destruição
do sindicalismo de base territorial) com a “persuasão” (altos
salários, benefícios sociais diversos, propaganda ideológica e
política habilíssima”). Como diria Gramsci, com o fordismo, “a

187
Dimensões da Globalização

hegemonia vem da fábrica” (Gramsci, 1985: 381). De certo modo,


o toyotismo dá continuidade à lógica de racionalização do trabalho
na perspectiva da hegemonia do capital na produção.
Entretanto, no taylorismo e no fordismo, a “integralização”
da subsunção da subjetividade da força de trabalho à lógica do
capital, a “racionalização total”, ainda era meramente formal ou
“formal-material”, como poderia dizer Fausto, já que, como
salientou Gramsci, na linha de montagem, as operações produtivas
reduziam-se ao “aspecto físico maquinal” (Gramsci, 1985:382).
O fordismo ainda era, de certo modo, uma racionalização
inconclusa, pois, apesar de instaurar uma sociedade
“racionalizada”, não conseguiu incorporar à racionalidade
capitalista na produção as variáveis psicológicas do
comportamento dos trabalhadores, que o toyotismo procura
desenvolver através dos mecanismos de comprometimento dos
trabalhadores assalariados, que aprimoram o controle do
capital na dimensão subjetiva.
O toyotismo não possui a pretensão de instaurar uma
sociedade racionalizada, mas apenas uma fábrica
racionalizada. É a partir do processo de produção intra-fábrica
e na relação entre empresas, que ele procura reconstituir a
hegemonia do capital, instaurando, de modo pleno, a subsunção
real da subjetividade da força de trabalho pela lógica do capital.
Ele procura, mais do que nunca, reconstituir algo que era
fundamental na manufatura: o “velho nexo psicofísico do trabalho
profissional qualificado – a participação ativa da inteligência, da
fantasia, da iniciativa do trabalho” (Gramsci, 1984:397).
Portanto, o toyotismo restringe o nexo da hegemonia do capital
à produção, recompondo, a partir daí, a articulação entre
consentimento operário e controle do trabalho. É por isso que,
mais do que nunca, salienta-se a centralidade estratégica de seus
protocolos organizacionais e institucionais. É apenas sobre eles
que se articulam a hegemonia do capital na produção.
Este é, com certeza, o “calcanhar de Aquiles” do toyotismo,
na medida em que, ao reduzir o nexo da hegemonia do capital

188
Toyotismo e Produção Capitalista

apenas à esfera intra-fabril ou entre empresas, não o ampliando


para além da cadeia produtiva central, para o corpo social total,
o toyotismo permanece limitado em sua perspectiva política,
principalmente se o compararmos ao arranjo fordista.
Por isso, sob o toyotismo, agudiza-se a contradição entre
racionalidade intra-empresa e irracionalidade social. É na
época do toyotismo que explicita-se a racionalidade destrutiva
do sistema do capital (Mészáros, 1995).
Sob o toyotismo, a competição entre os operários é intrínseco
à idéia de trabalho em equipe. Os supervisores e os líderes de
equipe desempenham papéis centrais no trabalho em equipe.
No caso do Japão, os líderes da equipe de trabalho ou do team
são, ao mesmo tempo, avaliadores e representantes dos sindicatos.
Permanece ainda, de certo modo, uma supervisão rígida, mas
incorporada, integrada, vale salientar, à subjetividade contingente
da força de trabalho.
Em virtude do incentivo à concorrência entre os operários,
cada um tende a se tornar supervisor do outro. “Somos todos
chefes”, é o lema do “trabalho em equipe” sob o toyotismo. Eis,
portanto, o resultado da captura da subjetividade da força de
trabalho pela lógica do capital, que tende a se tornar “mais
consensual, mais envolvente, mais participativa: em verdade, mais
manipulatória”. Surge um “estranhamento pós-fordista”, sob o
toyotismo, que possui uma densidade manipulatória maior do que
em outros períodos do capitalismo monopolista (Antunes, 1999).
Não é apenas o fazer e o saber operário que são capturados
pela lógica do capital, mas a sua disposição intelectual-afetiva
que é constituída para cooperar com a lógica da valorização. O
trabalhador é encorajado a pensar “pró-ativamente”, a encontrar
soluções antes que os problemas aconteçam (o que tende a
incentivar, no plano sindical, por exemplo, estratégias
neocorporativas de cariz propositivo). Cria-se, deste modo, um
ambiente de desafio contínuo, onde o capital não dispensa, como
fez o fordismo, o “espírito do trabalhador.

189
Dimensões da Globalização

Aliás, não é que sob o fordismo, o operário na linha de


montagem convencional não pensasse. Pelo contrário, como
salientou Gramsci, sob o fordismo

...o operário continua ‘infelizmente’ homem e, inclusive [...]


durante o trabalho, pensa demais ou, pelo menos, tem muito
mais possibilidade de pensar, principalmente depois de ter
superado a crise de adaptação. Ele não só pensa, mas o fato
de que o trabalho não lhe dá satisfações imediatas, quando
compreende que se pretende transformá-lo num gorila
domesticado, pode levá –lo a um curso de pensamentos
pouco conformistas”. (Gramsci, 1984:404)

Com certeza, Ford tinha consciência de que operários não


eram “gorilas domesticados”. Só que procurava resolver o dilema
da organização capitalista através de iniciativas educativas extra-
fábrica. O toyotismo, pelo contrário, através da recomposição da
linha produtiva, com seus vários protocolos organizacionais e
institucionais, procura capturar a subjetividade da força de trabalho,
integrando suas iniciativas afetivas-intelectuais nos objetivos da
produção de mercadorias. É por isso que, por exemplo, a auto-ativação
centrada sobre a polivalência, um dos nexos contingentes do toyotismo,
é uma iniciativa educativa do capital, é, entre outros, um mecanismo
de integração e controle do trabalho à nova lógica do complexo
produtor de mercadorias.
Se no fordismo tínhamos uma integração mecânica, no
toyotismo temos uma integração orgânica, o que pressupõe,
portanto, um novo perfil de trabalhador central (Ravelli,
1995:190).
Mas o que é integração orgânica para o capital, de certo
modo, é expressão de uma fragmentação sistêmica para o
trabalho assalariado, em sua consciência contingente e em seus
estatutos salariais.
Apesar disso, o capital continua dependendo da destreza
manual e da subjetividade do coletivo humano, como elementos

190
Toyotismo e Produção Capitalista

determinantes do complexo de produção de mercadorias.


Enquanto persistir a presença do trabalho vivo no interior da
produção de mercadorias, o capital possuirá, como atributo de
si mesmo, a necessidade persistente de instaurar mecanismos
de integração (e controle) do trabalho, de administração de
empresas, mantendo viva a “tensão produtiva”.
Além, é claro, de procurar dispersar os inelimináveis momentos
de antagonismo (e contradição) entre as necessidades do capital e
as necessidades do trabalho assalariado, intrínsecos à própria
objetivação da relação social que instaurou o processo de valorização.
É claro que as contrapartidas do capital sob o toyotismo são
de natureza histórica. Existe um vinculo ineliminável entre o
toyotismo e a luta de classes. A série de contrapartidas do
toyotismo destinadas à captura da subjetividade operária, capazes
de permitir o pleno desenvolvimento dos nexos contingentes do
toyotismo, podem assumir diversas particularidades sócio-
históricas (e culturais).
Na verdade, elas se alteram, acompanhando o
desenvolvimento do capitalismo e da própria luta de classes. É
o que podemos constatar hoje, por exemplo, com a debilitação
relativa de algumas condições sócio-institucionais que garantiram,
no passado, sob o período de crescimento do capitalismo japonês,
a moldura do toyotismo original. Diante crise do capitalismo no
Japão nos anos 90, os mercados internos das empresas, o
emprego vitalício e o salário por antiguidade, por exemplo,
estão sendo revistos pelas corporações transnacionais sediadas
no Japão.
A generalização universal do toyotismo, sob a forma da lean
production, implica adequá-lo, em suas contrapartidas para o
trabalho assalariado, às novas realidades sócio-históricas da
concorrência capitalista mundial.
Diante da debilitação estrutural do mundo do trabalho, a partir
dos anos 80, em decorrência da lógica da modernização capitalista,
as contrapartidas sociais clássicas do toyotismo tenderam a ser

191
precarizadas, revistas ou abolidas pelo capital, com suas condições
institucionais originárias, tal como se constituíram no seu país
capitalista de origem – o Japão, sendo negadas em virtude de
seu próprio desenvolvimento mundial.
O que tende a predominar é meramente o estímulo individual
através da concessão de bônus salariais, debilitando alguns
protocolos institucionais clássicos, como o emprego vitalício.
Toyotismo e Sindicalismo

10
Toyotismo e Neocorporativismo
No Sindicalismo do Século XXI

U
ma série de analistas sociais constatam o avanço,
no Brasil dos anos 1990, de uma nova postura
sindical de cariz neocorporativo. Ela seria
caracterizada pela mudança do padrão de ação sindical da CUT,
que tenderia a privilegiar não mais a confrontação, tal como
ocorreu no decorrer dos anos 80, mas a negociação ou a
“cooperação conflitiva”. Diz Rodrigues:

De uma atuação mais confrontacionista evolui-se para uma


atividade que poderíamos chamar de cooperação conflitiva,
em que o conflito é explicitado mas, ainda assim, há uma
preocupação com a cooperação (Rodrigues, 1995:125).

Teríamos o predomínio de um sindicalismo caracterizado por


novo corporativismo de participação:

Essa transformação político-ideológica do novo sindicalismo


pode ser sinteticamente caracterizada como a transição de
um sindicalismo de ‘massa e confronto’ para um sindicalismo
marcado pelo ‘neocorporativismo.’ (Boito, 1994:23).

Estamos diante, portanto, de uma significativa metamorfose


política-ideológica da CUT nos anos 90, que se caracterizaria
por uma política sindical de cariz concertativo permeada por uma
lógica corporativa setorial. O maior exemplo do sindicalismo

193
Dimensões da Globalização

neocorporativo dos anos 90 foi a experiência da câmara setorial da


indústria automotiva (1992-1994), considerada, segundo vários
autores, um modelo de novas relações entre capital e trabalho
assalariado no Brasil, (Arbix, 1995; Frederico, 1994; Oliveira, 1993).
Na verdade, é um novo modelo social-democrata centrado
num mesocorporativismo constituído através de fóruns tripartites
setoriais. Seriam considerados novos modelos de elaboração e
implementação de política pública ou de “gestão econômica”
capazes de apontar a saída para a crise brasileira (Arbix, 1995).
O sindicalismo neocorporativo, diante do novo complexo de
reestruturação produtiva e da ofensiva neoliberal que atinge o
mundo capitalista no Brasil dos anos 90, tendeu a privilegiar a
“influência propositiva” (Alves, 2000), isto é, a concertação social
ou ainda as “estratégias de enfrentamento propositivo” que
privilegiam a negociação e a participação dos trabalhadores
assalariados no processo decisório da reestruturação produtiva
setorial ou por empresa, buscando, no mundo da produção, uma
convergência de interesses entre capital e trabalho assalariado,
capaz de instaurar uma relação tipo ganha-ganha entre capital
e trabalho assalariado (Salerno, 1993).
Ou ainda, uma relação permeada por um neopragmatismo
social-democrata, onde admite-se que o capital tendeu a ganhar
mais, só que o trabalho perdeu, só que perderia mais se não
implementasse tais acordos neocorporativos (Arbix, 1995).
A nova praxis sindical neocorporativa e propositiva tende a
avançar nas negociações por empresas, favorecendo as
realidades mais avançadas e privilegiando a organização sindical
vinculada aos locais de trabalho. O objetivo de implementar a
capacidade organizativa é apenas para aumentar o poder de
barganha nas negociações setoriais e por empresa, num sentido
pró-ativo e sem uma postura classista e antagônica para com o
capital. O sindicalismo propositivo é, portanto, uma outra
denominação da nova praxis sindical neocorporativa que
caracterizou a CUT nos anos 90 (Leite, 1997).

194
Toyotismo e Sindicalismo

Após uma breve caracterização deste novo fenômeno político


(e ideológico) do sindicalismo da CUT nos anos 90 baseado num
sindicalismo neocorporativo com sua lógica concertativa, é do
nosso interesse tentar apresentar seus fundamentos histórico-
ontológicos.
Vamos procurar não reduzir seus determinantes causais
meramente aos processos político-organizacional (e ideológicos).
Pelo contrário, é do nosso interesse apresentar um outro tipo de
analise que recupere as múltiplas determinações concretas da
praxis sindical neocorporativa de cariz concertativo, salientando
principalmente seus vínculos histórico-ontológicos com o
desenvolvimento de um novo padrão de acumulação capitalista
que impulsiona um complexo de reestruturação produtiva cuja
principal característica é o aprofundamento da fragmentação de
classe no bojo de um novo e precário mundo do trabalho (Alves,
1999).
Consideramos que o fundamento ontológico do sindicalismo
neocorporativo é a própria natureza do novo complexo de
reestruturação produtiva que atinge o mundo do trabalho sob a
mundialização do capital. Para nós, o novo complexo de
reestruturação produtiva, intrínseco à mundialização do capital,
possui como seu momento predominante, o toyotismo, a nova
prática e ideologia do espirito capitalista na produção, cujo traço
principal é a elevação da fragmentação da classe e a
constituição de dispositivos de novo tipo voltados para a captura
da subjetividade da força de trabalho.
Portanto, iremos tentar reconstituir e apreender o porquê
daquilo que Tapia considerou como sendo a “afinidade eletiva”
entre a reestruturação produtiva e a lógica corporativa
setorial (Tapia, 1994:76), expresso na nova praxis neocorporativa
de cariz concertativo que caracterizou o sindicalismo brasileiro
no curso dos anos 90.
Tal processo sócio-histórico objetivo que dá o substrato
material das novas práticas políticas (e ideológicas) caracteriza
não apenas o sindicalismo neocorporativo, incorporado pela política

195
Dimensões da Globalização

sindical da CUT nos anos 90, mas principalmente o novo arranjo


corporativista social-democrata que traduzem as novas
determinações da reprodução sistêmica do capital mundial.
Privilegia-se um novo tipo de política sindical social-democrata
que tende a articular arranjos mesocorporativistas postos como
uma defensividade de novo tipo do trabalho diante da ofensiva
do capital na produção (o novo complexo de reestruturação
produtiva) e na política (o neoliberalismo).
A partir daí, desenvolve-se todo um novo modo de organização,
elaboração e implementação de política (e ideologia) sindical,
uma praxis sindical neocorporativa de cariz setorial.

A nova social-democracia como o lastro político (e


ideológico) do sindicalismo neocorporativo

É um pressuposto político do corpo analítico da sociologia e


economia do trabalho no Brasil e das estratégias sindicais
hegemônicas na CUT nos anos 90, a necessidade de transposição
da experiência social-democratas para o Brasil. Nessa
perspectiva, o corporativismo societal (Schmitter) seria uma
saída para a crise brasileira e para a crise do novo sindicalismo
diante da nova ofensiva do capital na produção (a reestruturação
produtiva) e na política (o neoliberalismo).
O corporativismo societal seria alternativa ao
corporativismo estatal que tem caracterizado as estruturas de
representação de interesses no Brasil desde a era Vargas.
Entretanto, a partir de meados dos anos 80, a social-democracia
tende a assumir um novo formato político-ideológico, incorporando
as novas necessidades de reprodução sistêmica do capital. É tal
novo modelo da social-democracia, que prega não mais um
corporativismo societal, mas um corporativismo setorial,
redescobrindo o meso e o micro e não mais o macro, que dá o
lastro político e ideológico do sindicalismo neocorporativo que
influencia a estratégia da CUT dos anos 90, apesar, é claro, do

196
Toyotismo e Sindicalismo

imaginário social-democrata permanecer vinculado às ilações


clássicas da social-democracia.
A partir de meados dos anos 80, o desenvolvimento da
mundialização do capital, a crise do Estado e um novo padrão de
acumulação capitalista tenderá a promover importantes
metamorfoses no arranjo corporativo social-democrata.
De um corporativismo societal, salientado por Schmitter,
tende a desenvolver-se, portanto, um corporativismo setorial.
Lehmbruch e principalmente Regini salientam a concertação.
Vários autores constatam a tendência de declínio das práticas
de concertação social-democrata, com o esvaziamento das
esferas de macrocorporativismo e uma redefinição das condições
de negociação entre o capital e o trabalho no nível meso e micro
(Tapias e Araújo).
O predomínio do “mesocorporativismo” tende inclusive a
alterar a percepção analítica de sociais-democratas que passam
a perceber arranjos corporatistas nos Estados Unidos (Arbix,
1995). Ao invés de perceber um avanço do capital e, portanto,
de perda política da social-democracia e de sua perspetiva
classista, a redução do arranjo corporativista é visto como um
valor positivo.
É a partir de meados da década de 1980, que o discurso e a
prática social-democrata na Europa e, mais tarde, no Brasil tende
a incorporar tais novas percepções políticas e ideológicas da
reprodução sistêmica do capital.
Observa-se a tendência de descentralização das negociações
coletivas, a erosão da regulação social-democrata clássica
centralizada e nacional e o seu deslocamento para a empresa,
que passa a ser o novo centro de gravidade político e ideológica
do arranjo corporatista social-democrata.
Na verdade, a crise do Estado e da economia capitalista, e o
momento predominante do complexo de reestruturação
produtiva (o toyotismo), tendem a contribuir para o deslocamento
político e ideológico do arranjo neocorporativo social-democrata

197
Dimensões da Globalização

clássico, da sua redução para os limites do setor ou ainda da


grande empresa.
De certo modo, é tal reformatação do arranjo neocorporativo
social-democrata que ocorre nos anos de 1980, sob o influxo da
mundialização do capital, que vai legitimar, no plano político e
ideológico, a vinculação concreta entre o sindicalismo
neocorporativo e a lógica corporativa setorial posta (e imposta)
pelo toyotismo.
A praxis sindical neocorporativa vai traduzir, no plano
“egoístico-corporativo”, o novo momento da política social-
democrata. Alteram-se as perspectivas e signos da prática
sindical, ocorrendo uma transformação da ação sindical,
salientada por vários autores. No caso da CUT, o explorador
passa a ser parceiro e a classe dá lugar a atores sociais
(Rodrigues, 1990).
Portanto, o paradigma corporativo social-democrata clássico
do pós-guerra, que servia, até certo ponto de modelo para a CUT
nos anos de 1980, tende a se deteriorar e o novo padrão de
acumulação o reconstitui sob uma nova forma institucional mais
adequado à lógica do momento predominante do complexo de
reestruturação produtiva - o toyotismo.
A nova social-democracia tende a incorporar novas demandas
do padrão de acumulação mundial, inclusive com uma nova
concepção do Estado. Mais do que nunca urge para a social-
democracia reconstituir o compromisso da coesão social,
redimensionando sua legitimidade social e política.
Ao redimensionar o paradigma corporativo, a social-
democracia tende a incorporar o novo espírito de reprodução
sistêmica do capital. Pode-se até considerar o novo arranjo político
e ideológico da social-democracia como um “corporativismo
enxuto” – um lean corporativism em contraposição a um strong
corporativism, que caracterizava o corporativismo societal
clássico.
Pelo seu formato político e ideológico, o “corporativismo
enxuto” é mais adequado à prática organizacional e ideológica

198
Toyotismo e Sindicalismo

do toyotismo universal, levado a cabo pelas corporações


transnacionais. É a partir dele que se desenvolvem, sob as mais
diversas formas, as novas práticas organizacionais e tecnológicas
do capital.
Portanto, é tal (re)arranjo político-ideológico da social-
democracia no centro capitalista que tende a dar o espírito e a
necessidade da concertação social restrita, tal como se desenvolve
no Brasil nos anos 90, um país capitalista em avançado estádio
de integração à nova lógica do capital transnacional.
É claro que, se, por um lado, o sindicalismo neocorporativo
tende a refletir as imensas dificuldades objetivas da ação sindical
diante do novo complexo de reestruturação produtiva e da política
neoliberal no Brasil dos anos 90; por outro lado ele expressa, a
rendição subjetiva, ou seja, político-ideológica, de importantes
lideranças da classe trabalhadora organizada diante da lógica do
capital. Incapazes de articular uma nova contra-hegemonia e
resistência à voracidade do capital, eles tendem a render-se à
perspectiva ideológica do pólo antagônico.
O novo padrão de ação sindical, sustentado na lógica
corporativa setorial é, portanto, a própria síntese propositiva da
captura da subjetividade do trabalho tal como pressupõe e impõe
os dispositivos organizacionais e ideológicos do toyotismo. Este
é um dos importantes elemento da crise do sindicalismo moderno
(Alves, 2000).
Antunes iria caracterizar o novo corporativismo que atinge
o conjunto do movimento sindical, em inúmeros países, neste final
do século XX, como “um neocorporativismo societal, excludente,
parcializador e que preserva e acentua o caráter fragmentado
da classe-que-vive-do-trabalho.” (Antunes, 1997:82)
A transformação complexa da social-democracia européia,
que sempre exerceu influência em parcelas hegemônicas na CUT,
ocorre sob o influxo da ideologia neoliberal que impulsiona e é
impulsionada pela mundialização do capital. É importante salientar
que a mundialização do capital é, antes de tudo, o momento de
transformação da produção e da política, da política da produção

199
Dimensões da Globalização

e da produção da política. Estamos diante de um processo sócio-


histórico de amplo espectro, com rebatimentos políticos e
ideológicos, como resposta à crise estrutural da valorização do
capital.
Na medida em que a crise do capital é posta e impulsiona-se
o o neoliberalismo como a ideologia da globalização, a própria
social-democracia como a ideologia do capitalismo organizado, é
obrigada a encontrar um novo ponto de equilibrio político e
ideológico.

Toyotismo como o modelo ontológico da produção


sistêmica do capital

A partir da mundialização do capital, nos anos 80, o toyotismo


tornou-se, através do discurso da lean production, a ideologia
universal da produção sistêmica do capital (Womack, Jones e
Roos, 1992). Seus princípios e dispositivos ideológicos e
organizacionais passaram a permear uma série de discursos
voltados para a administração de empresas. Surgiram um
complexo de variações populares do toyotismo, tais como
benchmarking, reengenharia, gerenciamento pela qualidade
total, etc (Babson, 1995).
O toyotismo tornou-se a ideologia orgânica da produção
capitalista com uma série de variações concretas, decorrentes
de suas particularizações setoriais, regionais e nacionais. A partir
daí, ele tendeu a se articular e a mesclar-se com dimensões
pretéritas da produção capitalista, tais como o taylorismo e
fordismo.
A nossa caracterização do toyotismo procura ir além de uma
mera identificação com o modelo japonês. Como salientamos,
ao desenvolver-se e assumir uma dimensão universal, as novas
práticas gerenciais e empregaticias, tais como o just-in-time/
Kan-ban, controle de qualidade total e engajamento estimulado,
levado a cabo pelas corporações japonesas, assumiram uma nova
significação para o capital, não mais se vinculando às suas

200
Toyotismo e Sindicalismo

particularidades concretas originárias. Elas surgem como uma


nova via original de racionalização do trabalho, centrada na lean
production, adequadas a uma nova etapa do capitalismo mundial,
onde, a rigor, a distinção entre Oriente e Ocidente perde a sua
significação central para a lógica da valorização (Alves, 1999).
Procuramos ver o toyotismo como sendo principalmente uma
nova articulação de dispositivos organizacionais da produção
capitalista, com poderosa carga ideológica, cujo objetivo primordial
é a captura da subjetividade da força de trabalho, o que o
diferencia, em termos qualitativos, do fordismo e do taylorismo.
Ao utilizarmos o conceito de toyotismo procuramos
representar um modelo que possui, de modo ineliminável, uma
crosta ideológica necessária. Como qualquer outros conceitos-
modelo, tais como fordismo ou keynesianismo, o de toyotismo só
se constituiu como modelo ontológico da produção capitalista
na era da mundialização do capital quando assumiu uma
concretude universal.
O toyotismo sintetizou, sem esgotar, o fenômeno de uma nova
lógica da produção sistêmica do capital. Passou a representar
nos traços essenciais, as exigências necessárias da produção
capitalista a partir da III Revolução Tecnológica e Científica.
A construção do toyotismo como um modelo ontológico da
produção capitalista ocorreu a partir de uma prática gerencial,
a prática de um staff administrativo e intelectual, com uma nítida
pretensão ideológica. Na medida em que consubstanciou-se como
lean production, na última metade dos anos 80, o toyotismo
alcançou a sua dimensão ideológica plena:

A lean production é...um construto que aspira – e nesse


caso, é bem sucedido – à condição de modelo; seus
inventores têm o objetivo estrito de conferir legitimidade a
um conjunto de técnicas e proporcionar, assim, sua difusão
em um mundo que depende de mais elementos, além de
resultados, para incorporar determinados elementos à sua
prática (Zilbovicius, 1997:310) .

201
Dimensões da Globalização

O sentido lógico (e ontológico) do toyotismo é dado pelo próprio


conteúdo sócio-histórico da nova etapa de desenvolvimento
capitalista denominada mundialização do capital ou “regime
de acumulação mundializada predominantemente financeira”
(Chesnais, 1999).
As determinações histórico-ontológicas do novo regime de
acumulação é que irão constituir o lastro necessário do toyotismo
como o momento predominante da produção sistêmica do
capital. Ele surge como o arcabouço ideológico e organizacional
da nova produção capitalista flexível.
Em primeiro lugar, a nova etapa de desenvolvimento capitalista
a partir dos anos 70 é caracterizada por uma estrutura de
valorização intrinsecamente instável, uma instabilidade sistêmica
decorrente de uma crise crônica de superprodução (Brenner,
1999) que impulsiona e é impulsionada pela financeirização
(Chesnais, 1999).
É tal característica da estrutura de valorização que instaura a
necessidade histórico-ontológica, para o capital, de um regime de
acumulação flexível, que tende a mudar a estrutura de espaço-tempo
da reprodução sistêmica do capital.
A instabilidade sistêmica e a fluidez do mercado mundial exige
flexibilidade das condições sociais de produção. Flexibilidade, por
conseguinte, tende a torna-se um principio basilar do toyotismo, que
surge como o momento predominante dos regimes de acumulação
flexível.
Mas, por outro lado, fluidez/flexibilidade tende a significar
insegurança de expectativas, risco redobrado. O que exige a
busca desesperada de um novo consentimento capitalista no
campo da produção, mais intensivo e menos extensivo.
Por isso, no complexo da produção, convulsionado pelas novas
tecnologias e pelo acirramento da concorrência intercapitalista,
expressão da crise crônica de superprodução, a captura a
subjetividade do trabalhador assalariado, é posta como uma
necessidade imperativa das novas condições de produção

202
Toyotismo e Sindicalismo

capitalista. O campo da produção tornou-se alvo de um intenso


exercício ideológico e organizacional voltado para a captura da
subjetividade da força de trabalho. Exige-se que o trabalhador
assalariado seja colaborador ativo do capital no campo da
produção, tenha uma série de novas qualificações técnicas (e
emocionais) que o tornem apto a exercer a polivalência e a
multifuncionalidade. A extrapolação disso para o campo da
educação profissional é o surgimento, na retórica pedagógica, dos
“modelos de competência” e da “empregabilidade”.
Na verdade, deve o trabalhador tornar-se não apenas déspota
de si mesmo, mas déspota de outros trabalhadores, pois o novo
ambiente de trabalho toyotista é capaz de desenvolver a
individualidade dos trabalhadores e com ela o sentimento de
liberdade, a independência e o auto controle, ao mesmo tempo
que instaura, em toda a sua plenitude, a concorrência e a emulação
entre os próprios trabalhadores, apesar da retórica do “trabalho
em equipe”.
É claro que, estamos diante de um processo dialético, onde
entre o taylorismo-fordismo e o toyotismo não existem
propriamente “rupturas”, mas superação/conservação, sendo o
toyotismo uma descontinuidade no interior de uma
continuidade plena de racionalização do trabalho pelo capital
que percorre todo o século XX.
O nexo essencial da acumulação flexível, não reside em
dispositivos tecnológicos, mas sim em dispositivos organizacionais,
assentados em substratos tecnológicos, voltados para um novo
patamar de subsunção real do trabalho assalariado ao capital.
Algo que Ruy Fausto percebeu como sendo uma “subordinação
formal-intelectual - ou espiritual - do trabalho ao capital”(Fausto,
1993).
Surge, a partir daí, como uma nova exigência do regime de
acumulação flexível, novas formas de controle capitalista na
produção, uma esfera da produção convulsionada pela crise
estrutural de valorização. Urge, portanto, instaurar o que
poderíamos denominar de controle convergente em

203
Dimensões da Globalização

contraposição ao controle antagônico do capital sobre o trabalho,


predominante sob o fordismo-taylorismo. Entretanto, vale
salientar, o toyotismo como dispositivo organizacional e ideológico
da grande indústria, prepara o desenvolvimento da própria pós-
grande indústria (Fausto, 1993), criando seu arcabouço
espiritual-formal.
Por um lado, o toyotismo irá sintetizar, num complexo de
dispositivos organizacionais e ideológicos, a necessidade radical
da produção capitalista em instaurar uma nova hegemonia do
capital na produção, integrando, através da captura da
subjetividade da força de trabalho, o pólo antagônico do capital.
Mas, por outro lado, o toyotismo tende a incorporar, em si,
através de seus próprios dispositivos organizacionais, a
vulnerabilidade sistêmica intrínseca ao novo regime de
acumulação mundial.
Krafcik diria que o toyotismo é um sistema de produção
“fragile”, o que pode ser percebido, por exemplo, através da
introdução do sistema just-in-time, que torna muito mais
vulnerável a produção capitalista diante de uma greve de
trabalhadores (Krafcik and MacDuffie, 1989).
A nova revolução tecnológica, que ocorre a partir dos anos
70, irá propiciar, ao toyotismo, uma oportunidade para reestruturar
custos através de uma nova organização do espaço-tempo. O
capital irá aproveitar os recursos da informática e da telemática
para dissolver os obstáculos politicos-institucionais postos pelo
trabalho organizado nas décadas passadas.
A proliferação da terceirização e da subcontratação
internacional irão expressar um tipo de flexibilidade orgânica,
síntese de uma ânsia de otimizar custos. Surge um novo tipo de
empreendimento capitalista. Dissemina-se a empresa-rede
(network firm).
A empresa-rede é a materialização organizacional do espirito
do toyotismo, onde a descentralização da produção ou a
fragmentação sistêmica (Alves, 1998), é capaz não apenas de
propiciar a otimização de custos através de uma reconstituição

204
Toyotismo e Sindicalismo

da hierarquia capitalista, mas, de promover, através da


fragmentação da classe, um novo patamar de controle da
produção pelo capital. A dissolução dos coletivos operários atesta
a descentralização como uma ofensiva do capital na produção.
O enxugamento do centro e a dispersão da periferia incorpora
a lógica secular do divide et impera.
Se o toyotismo possui como sua alma ideológica, a captura
da subjetividade da força de trabalho pelo capital, ou a
sedimentação de uma implicação convergente entre capital e
trabalho assalariado, é porque ele tende a incorporar a casca
ideológica da mundialização do capital, ou seja, a ideologia da
globalização, que passa a idéia da homogeneização (e
convergência) universal, onde as classes e as nações se curvam
aos imperativos da produtividade e da competitividade.
O controle convergente que ocorre dentro da grande empresa
toyotista, é expressão, portanto, daquilo que ocorre no tecido
social através da ideologia convergente da globalização, onde o
antagonismo de classe tende a ser, mais do que nunca, negado.

O toyotismo como fundamento ontológico do sindicalismo


neocorporativo

Salientamos que o toyotismo expressa a necessidade radical


de uma nova hegemonia do capital na produção. Por isso a
centralidade da cooperação ativa e de um postura pró-ativa do
trabalhador assalariado no campo da produção.
Além disso, a “acumulação flexível”, que surge na época da
crise estrutural de superprodução, tendeu a promover uma
contração do espaço-tempo do metabolismo sistêmico do capital,
reduzindo e restringindo o campo hegemônico do capital em seu
locus de valorização, a grande empresa. A partir daí, tende a
surgir arranjos neocorporativos de novo tipo, correspondentes
ao novo espaço-tempo do circuito de valorização capitalista.
Em virtude de sua vulnerabilidade sistêmica, o toyotismo
tende a recortar o campo de atuação das classes (decorrente, é

205
Dimensões da Globalização

claro, da própria fragmentação sistêmica da produção


desenvolvida por ele). Ele promove, num novo patamar, a
fragmentação ou diluição das classes, principalmente, da
(consciência de) classe dos trabalhadores assalariados.
A lógica da captura da subjetividade da força de trabalho,
decorrente da diluição radical da consciência de classe, é
impulsionada através dos novos arranjos de negociação,
circunscrito a grande empresa, reduzidos ao nível meso ou micro.
Mas se o despotismo esclarecido do capital tende a ganhar
intensidade no locus da produção, através de um novo
consentimento do trabalho, por outro lado ele perde em
legitimidade social, precarizando sua hegemonia política na
sociedade.
Por isso, a volatilidade da hegemonia capitalista nas condições
de uma reprodução sistêmica centrada na lógica do toyotismo.
O “risco” torna-se intrínseco à reprodução da ordem
metabólica do capital (Giddens e Beck, 1994), tanto quanto a
crise de legitimidade. Nesse caso, a racionalidade intra-firma se
contrasta com a irracionalidade societária, expressão maior da
“produção destrutiva” capitalista (Mészaros, 1996).
Diante disso, não interessa para o capital, o sindicato com
política social-democrata no sentido clássico, tendo em vista
que a percepção social-democrata clássica do espaço-tempo da
produção (e reprodução) sistêmica do capital não corresponde
àquela nova realidade posta pela reprodução sistêmica do capital
na era da mundialização.
O que é exigido é um tipo de sindicalismo de empresa, com
política de atuação restrita e setorial; um sindicalismo que preserve
um controle sócio-burocrático sobre os trabalhadores, exercendo
o papel de regulador das expectativas capitalistas e das demandas
corporativas dos trabalhadores.
Mas exige, antes de tudo, um sindicalismo pró-ativo e
propositivo diante das novas estratégias do capital na produção.
Por isso, a idéia de concertação social que incorpora o espírito
da colaboração ativa entre capital e trabalho e da participação

206
Toyotismo e Sindicalismo

dos próprios trabalhadores assalariados, visto sob a perspectiva


do trabalhador individual e parcelar e não do trabalhador
coletivo, na implementação das estratégias produtivas.
Ao mudar o centro de gravidade político e ideológico da
implicação corporativa para a grande empresa, a nova social-
democracia apreendeu o avanço do poder das corporações
transnacionais nos anos 80, sob a mundialização do capital, e por
conseguinte, a nova necessidade sistêmica da acumulação
capitalista flexível, com seu momento predominante, o toyotismo.
É tal deslocamento sócio-ontológico que contribuiu para a
constituição, no plano político-ideológico, dos novos arranjos
neocorporativos, baseados nesse novo espaço-tempo da estrutura
de acumulação de capital. São tais novos arranjos corporativos
que deram o lastro político-ideológico para o sindicalismo
neocorporativo de participação que passou a predominar na CUT
Por exemplo, no Brasil dos anos 90, mesmo o sindicalismo
corporativo tende a se curvar à lógica da grande empresa, com
as comissões de fábrica quase atuando como sindicatos de
empresa. É a partir dela que os capitalistas, imbuídos dos princípios
do toyotismo, tendem a incentivar os acordos sindicais, tornando-
se ela, a empresa, o referencial central para a ação sindical.
Diante de um cenário de crise capitalista, de ofensiva do
capital na produção e na política, o sindicalismo neocorporativo,
baseado na lógica corporativa setorial, com sua ideologia e a
prática da concertação social restrita e dos fóruns tripartites
setoriais, tendem a ser expressão de um novo defensivismo do
trabalho, que quando assume a dimensão de uma ideologia política
estruturada, através do staff administrativo de partidos ou
sindicatos, tende a promover uma rendição subjetiva da classe à
lógica do capital, sendo um dos componentes da crise do
sindicalismo no Brasil.
Dissemos ideologia política estruturada porque se a
condição de defensividade é intrínseca à pratica sindical tout
court, tal como a negociação, a redução taticista da praxis sindical

207
à mera resistência, ou melhor, a um jogo de influência
propositiva, considerado como uma nova defensividade do
trabalho diante do capital reestruturado, possui um significativo
conteúdo ideológico, de poderosa afinidade eletiva com o espírito
do toyotismo.
Na medida em que ela, a prática sindical imbuída da ideologia
política do sindicalismo neocorporativo, tende a negar e a
segmentar a dimensão da luta e da perspectiva política de classe,
reduzindo o sindicalismo à prática da influência propositiva, do
consenso e da parceria, mesmo conflituosa, entre capital e trabalho,
ela promove na política sindical, um redimensionamento ideológico
que só interessa à classe capitalista.
Proletariado Tardio

11
Dimensões do
Proletariado Tardio

A
crise do capital não anula a expansão e
reprodução da modernização tardia, que se
desenvolveu, nos últimos trinta anos, através de ciclos
de recessão e recuperação desiguais e não-sustentáveis das
principais economias capitalistas.
Sob a crise do capital é perceptivel a exacerbação da
modernização e de sua própria “negação”, o que demonstra que
o sistema do capital contém uma contradição, que se manifesta
em tendências e fenomênos contraditórios, tais como a afirmação
e negação do trabalho.
A pletora de capitais, o avanço da indústria no globo,
indústria no sentido amplo, não se restringindo apenas à produção
material, mas principalmente à produção imaterial, e a expansão
da base produtiva do capital pelas mais diversas áreas da atividade
humana, incluindo os serviços e os novos negócios que surgiram
com a “globalização”, recriam, sobretudo nas fronteiras da
modernização, nos países do Ásia, da América Latina e do Leste
Europeu, um novo e precário mundo do trabalho, no bojo de uma
reestruturação produtiva que impulsiona a produção e acumulação
do capital e um novo patamar de exploração da força de trabalho.
Na economia capitalista mais desenvolvida do sistema mundial
do capital, a economia dos EUA, que teve um crescimento
exuberante na década de 90 é perceptivel que, para homens e
mulheres, o tempo de vida está se tornando, cada vez mais, tempo
de trabalho e, por conseguinte, objeto de exploração do capital.

209
Dimensões da Globalização

O que demonstra que é cada vez mais bizantino e meramente


ideológico, a afirmação da perda da centralidade do trabalho, de
que vivemos numa “sociedade pós-industrial” ou que caminhamos
para uma “sociedade do tempo livre”.
Ao utilizarmos a expressão novo (e precário) mundo do
trabalho salientamos, por um lado, o novo caráter do trabalho
industrial e dos serviços, decorrente da incorporação de novas
tecnologias microleterônicas na produção, e por outro lado, o
acerbamento da fragmentação da esfera do trabalho, a
constituição tendencial de uma sociedade do trabalho dual,
caracterizada pelos proletários “estáveis” e pelos proletários
“instáveis” (Alves, 2000)
Além disso, o novo e precário mundo do trabalho é constituído
por um contingente imenso de uma superpopulação proletária
excedente e excluida, que pertence irremediavelmente, mesmo
como estigma da negatividade, à esfera do trabalho estranhado, posta
como determinação reflexiva do capital.
Os trabalhadores desempregados são proletários que vivem a
radicalidade da despossessão instaurada pelo sistema do capital,
apesar de ser uma radicalidade estéril, pois a partir da sua exclusão
da ordem do capital são incapazes de articular um movimento para
além do capital).
Os desempregados afirmam a sociedade do trabalho, mesmo
sendo a expressão da negação do trabalho. Mais uma vez, só a
lógica dialética é capaz de apreender o modo de ser da categoria
dos proletários desempregados.

Os Espectros do Capital

A partir da crise do capital é que o processo de devassamento


do mundo social pela lógica da mercadoria e do dinheiro tende a
se ampliar e a aprofundar-se, assumindo um caráter desigual e
combinado. As contradições e os paradoxos intrinsecos à própria
lógica do capital constituem, mais do que nunca, a sociabilidade
moderna.

210
Proletariado Tardio

É a partir do avanço do capital, posto, por um lado, como


processo de exploração e de bárbarie e, por outro lado, como
processo civilizatório e posição das possibilidades concretas
do gênero humano que aparecem os espectros que encantam
alguns analistas sociais incautos, tais como o espectro da
sociedade do tempo livre e seus sucedâneos.
Os espectros da pós-modernidade, ou suas explicitações
espectrais dizem respeito à sociedade tecnológica, posto que
a racionalidade tecnológica está arraigada na lógica do capital
em seu desenvolvimento tardio.
Das percepções otimistas de liberais como Gates ou
Negroponte, ideológos vulgares do tecnologismo afluente, à
percepção pessimista de sociólogos como Baudrillard e Virilio, a
tecnologia é não apenas um fetiche, mas um imenso espectro
das possibilidades irrealizadas da ordem do capital.
Aqueles que acreditam que seja possivel constituir uma
sociedade do tempo livre ou aqueles que acreditam que vivemos
numa sociedade pós-industrial, onde a categoria trabalho não
teria mais a centralidade, vislumbram tão-somente espectros
produzidas pelo capital. São “miragens” ideológicas oriundas do
fetiche do capital, do avanço da III Revolução Tecnológica e das
prossibilidades objetivas criadas pelo próprio desenvolvimento
capitalista mas obstaculizadas pelas relações sociais de produção
capitalista.
Tais explicitações espectrais do capital ocultam um novo e
precário mundo do trabalho, pleno, intenso e complexo,
profundamente fragmentário e contraditório, mas cada vez mais
partícipe de uma só condição de estranhamento, de sujeição à
lógica da exploração e da mercantilização uniuversal, submetido
à rede complexa de nódulos de valorização sob a direção das
corporações industriais.
O capital faz o mundo à sua imagem e semelhança. É do
globo do capital que surge com mais plenitude um proletariado
universal, objeto de exploração e estranhamento. É apenas nas
condições da plena valorização do capital, da era da globalização,

211
Dimensões da Globalização

como salientam alguns, que a verdadeira afirmação do trabalho


aparece, no plano contingencial, como a negação do trabalho.
É um processo dialético onde a negação do trabalho, transposta
no plano objetivo pelo desemprego estrutural e no plano
ideológico-subjetivo, pela negação da centralidade do trabalho e
pela perda do seu antagonismo de classe (o trabalho assalariado
é meramente um parceiro do capital, como salientam as políticas
sindicais neocorporativas), expressam, na realidade, a plena
afirmação do trabalho como determinação reflexiva do “sujeito”
da modernização tardia.

As Faces do Proletariado Tardio

O desemprego é um problema universal, da maior importancia


para a classe do trabalhadores assalariados, tendo em vista que
debilita a coesão social, como salientam preocupados os ideológos
da ordem capitalista ou ainda debilita o próprio movimento sindical
e operário.
Entretanto, tão importante quanto o problema do desemprego
deve ser o problema da ampliação e da organização de classe do
neoproletariado tardio, do contingente imenso de homens e
mulheres explorados pelo capital, locis de criação de valor para
o sistema do capital. É deles que deve vir a promessa da
emancipação do trabalho.
É uma tarefa urgente de partidos e sindicatos comprometidos
com o socialismo analisar as dimensões do proletariado tardio,
desvendar sua estrutura interna e discutir a organização politica
e cultural do novo e precário do mundo do trabalho.
O proletariado tardio é caracterizado, principalmente, pelos
trabalhadores assalariados instáveis e precários, não atingidos
pelos sindicatos e partidos.
Cabe salientar que, nos últimos cincoenta anos, sindicatos e
partidos preocuparam-se em organizar os trabalhadores
assalariados “estáveis” e “privilegiados”, que constituiam um
imenso núcleo do mundo do trabalho. Mas a partir da ofensiva

212
Proletariado Tardio

do capital na produção, que atinge o Brasil nos anos de 1990, o


núcleo amplo da classe dos trabalhadores assalariados implodiu.
O capital tendeu a instaurar a produção dispersa, uma das
caracteristicas da nova ideologia orgânica da prdoução capitalista
(o toyotismo).
No Brasil, os sindicatos sempre tiveram imensas dificuldades
não apenas para organizar o núcleo moderno do mundo do
trabalho, mas principalmente para atingir os contingentes
assalariados precarizados. Com a ampliação da borda precarizada
do mundo do trabalho, resultado da implosão do “núcleo” moderno
dos assalariados, sindicatos e partidos tenderam a perder seu
eixo organizativo.
No decorrer da década de 1990, alguns sindicatos tenderam
a optar pela política neocorporativa de cariz concertativo,
voltando-se apenas para seu pequeno contingente de assalariados
sindicalizados, um “base sindical” cada vez mais restrito do mundo
do trabalho, tais como, por exemplo, as categoria de metalúrgicos
e bancários.
Os sindicatos reagiram às avessas, aceitando a lógica da
fragmentação do proletariado, dissolvendo a perspectiva do
antagonismo de classe, um dos corolários principais para realizar
os interesses históricos da classe trabalhadora (o socialismo).
Portanto, diante da ofensiva do capital na produção sob a era
neoliberal, explicitou-se não apenas os limites estruturais do
sindicalismo corporativo, mas a pobreza política e ideológica do
sindicalismo brasileiro. Eis apenas uma das determinações da
crise do sindicalismo no País.
Na verdade, o novo (e precário) mundo do trabalho é cada
vez mais vertical, heteroclito, vasto e desigual, exigindo das
estruturas organizativas sindicais e partidárias, corporativas,
burocratizadas e verticalizadas, uma imensa capacidade de
recriação. Mais do que nunca urge articular novas questões sociais
que atingem a classe. É uma tarefa que a luta de classes deverá
colocar para o avanço do movimento social do trabalho.

213
Dimensões da Globalização

Além da questão organizativa, surge a questão política e


ideológica. Mais do que nunca, a luta pela consciência de classe
é o momento essencial da luta de classes. No século XXI, sob o
bojo do toyotismo, cujo principal nexo é a captura da
subjetividade da força de trabalho pela lógica do capital,
cabe à intelectualidade orgânica da classe dos trabalhadores
assalariados recuperar a perspectiva da classe, do antagonismo
universal entre capital e trabalho, sob pena de sucumbirmos à
barbárie vigente da nova ordem do capital.
Portanto, cabe articular o momento da resistência e o
momento da estratégia socialista. É o que denominamos de
resistência estratégica, capaz de, por um lado, resistir à voracidade
do capital, criando obstáculos à degradação do trabalho, e por
outro lado, preservar e avançar na perspectiva anti-capitaista,
criando condições políticas e, principalmente geopolíticas, para a
construção de um movimento social ampliado de cariz socialista.

214
Bibliografia

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