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Entrevista Evandro

Pontes: “A Operação Lava


Jato nunca correu tantos
riscos”





Ana Paula Henkel

13 de agosto de 2019 | 11h03

Evandro Pontes é advogado, mestre e doutor em Direito

Societário pelo Largo São Francisco e discípulo de

Modesto Carvalhosa, um dos ícones do impeachment de

Dilma Rousseff. O Professor Evandro, como é chamado,

coleciona vários acertos em suas previsões políticas no

Brasil, nos EUA e também em Israel. Diante de tudo que


temos visto no STF e a enorme preocupação com os

destinos da Operação Lava Jato, resolvi bater um papo

com ele. Abaixo, a longa, rica e excepcional entrevista

na íntegra nos mostra uma visão preocupante e

provocativa sobre tudo o que estamos testemunhando

no STF neste ano de 2019. Vale cada palavra.

A melhor pergunta para começar esta entrevista é: o que anda

acontecendo no STF?

Bem, Ana, em breves linhas, podemos dizer que estamos

assistindo a uma quebra constitucional irreversível. O STF já

cruzou linhas que constituem verdadeira atividade paraestatal. Há

uma piada correndo por aí: no dia da diplomação do Presidente

Jair Bolsonaro pela Ministra Rosa Weber no TSE, dizem que foi

presenteado ao diplomado o último exemplar da Constituição que

o STF tinha a disposição. Depois daquele dia, o STF nunca mais

aplicou a CF.
O que seria essa quebra constitucional? Você está se referindo ao

ativismo?

Não. O ativismo é outra coisa. Ele já vem sendo consolidado no

sistema judicial há muito mais tempo. Lembro do tempo em que

eu tinha cabelos e frequentava o pátio da faculdade – se falava de

movimentos como ​direito alternativo,​ o ​direito achado na rua​ e

proselitismos afins. Isso começou a ser teorizado mais seriamente

até desaguar em um livro clássico, pouco conhecido e menos

ainda lido, do então diretor da faculdade, o Prof. Dalmo de Abreu

Dallari. Esse livro chamado ​O Poder dos Juízes​ é praticamente o

marco fundamental do ativismo judicial no Brasil. Nessa mesma

época, o mesmo Prof. Dallari participou da fundação da

Associação Juízes Para a Democracia​, vulgo AJD, que nosso

amigo em comum, o Professor André Figaro já cunhou de “Coreia

de Norte da Magistratura”. Mas veja – o que fazem essas pessoas

que subverteram (ao meu ver) as formas como o direito tem de ser

operado na sociedade, é ainda uma ​forma intrassistêmica,​ qual

seja: ela opera o próprio sistema de uma maneira diferente. Eu

discordo dessa forma de abordagem, mas reconheço que se trata


de um ​uso alternativo do sistema​: mas é ainda o sistema.

Tenta-se, sob uma perspectiva “revolucionária”, dar cumprimento

à lei.

Então o ativismo não é tão recente assim, certo?

Sim. Essa história de ativismo começou nessa época ou pouco

antes (fins dos anos 1980, início dos anos 1990) aqui no Brasil.

Em outros países essa abordagem também existe: algumas há

mais tempo, como no caso dos EUA, outras são contemporâneas

ao Brasil, como é o caso de Israel. Nos EUA o ativismo vem de

longe e um dos melhores autores a abordá-lo é um que sei que

você é especialista: Thomas Sowell. No ​Cosmic Justice​ e no

Intelectuals and Society​ ele vai nos detalhes de como surgiu o

ativismo por lá. Já Israel sofreu bastante com a queda do sionismo

trabalhista após a vitória de Begin em 1977, que desaguou no

surgimento de uma esquerda pós-queda do Muro de Berlim

liderada pelos ideais de Shimon Peres em meados dos anos 1990

(para quem tiver curiosidade, basta ler o livro ​O Novo Oriente

Médio​ de Peres). Em fins dos anos 1990, a Suprema Corte de


Israel incorporou esses ideiais, sobretudo na época em que a Corte

foi presidida por Aaron Barak.

E o nosso ativismo seria então dessa mesma época, coincidindo

com os anos pós-queda do Muro de Berlim?

Exato. A queda do Muro reformula o progressismo e pavimenta o

caminho do PT para o Planalto, politicamente falando. Nesse

trabalho de tomada do poder pelo voto, o progressismo já estava

se infiltrando nas instâncias inferiores de outros poderes,

sobretudo do Judiciário, de forma silenciosa mas muito eficaz.

Quando Lula assume o poder em 2002, inúmeras alterações na

Constituição começaram a ser boladas, o que permitiram que o

ativismo se emasculasse de forma incrível. E mais ou menos nessa

época o STF brasileiro começou, de maneira tímida, a cultivar um

ativismo. É a partir da Emenda Constitucional nr. 45, de 2004,

que se subverteu completamente o funcionamento da corte

criando-se as “Súmulas Vinculantes” e uma miríade de

mecanismos de acesso direto (como a Reclamação), reforçando o

poder de decretar aquilo que chamamos de “Constitucionalidade


Concentrada”. O STF passou, então, a operar o sistema de

maneira agressiva e no limite das interpretações possíveis. Mas

isso ainda deve ser reconhecido como uma atividade judicial que

está referida no sistema – os ministros, em muitos casos, estavam

amparados pelo sistema (qual seja, pela própria Constituição e

por sua Emenda 45).

E não é a mesma coisa que vem ocorrendo recentemente, com o

inquérito de censura à Revista Crusoé, por exemplo? No que as

recententes medidas, então, se diferenciam desse ativismo que

começou em 2004, 2005?

Bem, o que estamos vendo recentemente é algo muito diferente:

não há qualquer respaldo legal ou constitucional para as atitudes

que vem sendo tomadas. Pior: em alguns casos há exatamente

uma regra constitucional que proíbe expressamente os Ministros

de agirem da forma como vem agindo. Temos exemplos aos

borbotões: a ADO26, que afronta violentamente a própria

constituição e causa um problema gravíssimo de ordem política (e

se o “projeto de lei”, que foi forjado na própria Corte no Mandado


de Injunção apenso à ADO26 não obtiver votos suficientes no

Congresso? O que farão se o legislativo, no exercício regular de

seu poder de votar leis, rejeitar o projeto ou, pior, revogar o artigo

base em que foi fundada a analogia? O STF vai fazer o que? O STF

pode obrigar juridicamente deputados a votarem no sentido da

aprovação de um projeto bolado pelo próprio poder judiciário?); a

decisão de Toffoli em relação ao abastecimento de navios

iranianos; o incrível inquérito de censura à Crusoé (e todo o

procedimento sigiloso que visava investigar sabe-se lá quem e de

que modo) e a recente decisão do Ministro Gilmar Mendes

impedindo que o advogado e jornalista Glenn Greenwald seja

investigado – enfim, são muitos os exemplos em que temos

atuações que não são classificadas como “ativismo judicial”, elas

são concretamente ações ​contra legem.​

Interessante. Deu para entender bem a diferença. Você acha que

essas ações, que são, como você diz, “contra legem”, quais sejam,

ilegais, podem abrir caminho para uma “intervenção” na Corte

ou, pior, um golpe de estado?


Ótima pergunta, Ana. Em primeiro lugar, a Constituição não

prevê intervenção de um poder no outro. Muitos aventureiros

gostam de ler a constituição no browser do celular e achar um tal

de artigo 142, que definitivamente não serve para isso. O artigo

142 serve para que as FFAA suplementem as forças regulares

(polícias militares, por exemplo) com vistas da garantia da Lei e

da Ordem. É exatamente o que fez o ex-Presidente Temer na

intervenção do Rio de Janeiro. O artigo 142 não serve para dar

concretude e realidade à piada do “cabo e do soldado”.

Juridicamente não há previsão para isso. Outro problema,

entretanto, é o do ​golpe de estado.​ As pessoas costumam tratar o

tema do golpe de forma ainda um tanto quanto romântica: fixam

aquela imagem de um Napoleão de hospício qualquer se

autocoroando. Essa ideia de tomar a coroa para si transporta o

conceito popular de golpe exclusivamente para o Poder Executivo,

mas a definição técnica de golpe, decorrente da análise histórica

do ​coup d’État,​ é mais lógica e menos romântica. E não diz

respeito, na atual organização do Estado, exclusivamente ao Poder

Executivo. Hoje é possível um golpe de estado que leve em

consideração outros poderes constituídos – que é o caso

exatamente do nosso STF. Se formos olhar o Dicionário de

Política do Bobbio (um autor bastante apreciado por


progressistas, diga-se de passagem), notaremos que para haver

golpe, Bobbio fala na conjunção entre “emprego da violência”

mais “ruptura do sistema”. No quesito “emprego da violência”,

essa teoria do Bobbio traz vários problemas, pois em muitos casos

a definição do que é “violência” ou “violento” permite que se

questionem momentos históricos brasileiros como o de 1964 ou

mesmo o de 1968 (este sim, para mim, o momento em que o golpe

de fato ocorreu).

Gosto da definição do meu querido e saudoso Professor Goffredo

Telles Junior – ao longo de sua obra Goffredo sempre mostrou

grave preocupação com a união entre dois elementos: o da

“ruptura institucional” somada a uma “perda da legitimidade”.

Goffredo gostava de aproximar o conceito de legitimidade àquele

de “respaldo popular”. E é a falta desse “respaldo popular”, onde o

sistema é imposto “de cima pra baixo”, sem a participação ou o

consentimento do povo, que se extrai o aspecto “violento” (e “não

sangrento”) dos golpes – ainda que a ruptura ocorra sem ser dado

um tiro de festim sequer, se a “nova ordem” for imposta contra o

“prestígio popular”, isso pode ser imediatamente considerado

golpe​. Muitos progressistas vão espernear sobre o que vou lhe

dizer agora, mas esse conceito de legitimidade de Goffredo é bem


próximo do conceito de populismo de Bannon e Trump. Essa ideia

de ​ruptura​ ​respaldada pela legitimidade popular​ é o que permite

entender que o ​New Deal ​de FDR (único presidente na história a

ter 3 mandatos seguidos) não foi um ​golpe​. Do mesmo modo,

podemos entender que tanto o ​impeachment​ de Collor quanto o

de Dilma ​não foram golpes​ – o sistema foi usado regularmente e

nenhuma “nova constituição” ou “ato adicional” ou “ato

institucional” precisou ser implementado antes ou depois para

reconhecer as ilegalidades de ambos os mandatários expulsos do

poder. No golpe há a imposição de uma ordem não prevista “nas

regras do jogo em vigor” e que contraria frontalmente a vontade

popular (não por outra razão que a Constituição consagra que

“todo poder emana do povo” e em favor dele ser exercido). Pois

bem, o poder hoje é complexo e não é exercido apenas no âmbito

do Executivo – Judiciário e Legislativo são também poderes.

Dito isso, um golpe não ocorre apenas quando alguém usurpa “a

coroa” ou senta ​sponte propria​ no “trono”. É golpe também

quando um outro poder (legislativo ou judiciário) cria uma

estrutura ​paraestatal​, não prevista na constituição, e assim passa

a interferir na vida do povo. Exemplo? A tal “Revolução do Porto”

de 1820 – aquilo lá foi um claríssimo golpe que partiu das


chamadas “Cortes de Portugal” contra Dom João VI. Tanto é que o

nosso Dom Pedro I (lá, Dom Pedro IV) teve que “restaurar a

Ordem” em luta fratricida contra o irmão, Dom Miguel. Outro? O

golpe de 1889 aqui no Brasil – a ordem foi rompida sem o menor

respaldo popular. 1930 foi a mesma coisa e assim por diante.

O que quero dizer com isso? Ora – para mim é claro e mais do que

óbvio que ​esse golpe já ocorreu.​

Na medida em que o STF age ​a latere​ do sistema, age de forma a

violar a própria constituição, o próprio STF já consolidou um

verdadeiro ​golpe de estado​ em que ​todos​ os poderes foram

criminosamente usurpados pela Corte: ela julga, ela investiga, ela

legisla, ela manda abastecer navios, ela atua como executivo e

impede a extinção de conselhos, ela impede o executivo de

enxugar a máquina – enfim, o ​golpe de estado​ já foi dado diante

de nossos olhos e ninguém simplesmente não fez nada para

restaurar a ordem.
Mas espere um instante. Não seriam atos isolados dos Ministros?

Não teria como identificar, como vem fazendo o Professor

Carvalhosa, de que há crimes de responsabilidade sendo

cometidos isoladamente?

Adoro o professor Carvalhosa, a quem tenho como Mestre muito

querido, mas neste ponto eu discordo de meu Mestre sob o ponto

de vista estratégico. Veja: quando uma ordem do STF é emanada

por um Ministro usando papel timbrado da corte e todos os

demais se calam, não há dúvida que esse silêncio ​integra​ a

decisão ilegal dada pelo colega. O silêncio da Corte quando um

sistema ​paraestatal​ é montado e levado a plena operação,

significa exatamente que a ilegalidade contaminou

irremediavelmente a atuação dos demais ministros. Exemplo

contrário disso foi o do Desembargador Favretto: ao tentar lançar

mão de um expediente ilegal, a Corte como um todo se inurgiu e

impediu que a ordem ilegal saísse com o timbre do TRF4. Os

demais colegas preservaram a integridade institucional da Corte.

Se o STF não faz o mesmo e aceita que ordens sejam emanadas

em nome da Corte, a responsabilidade é sim colegiada e recai

sobre aqueles que preferem reclamar na imprensa (que não é


função de um juiz) e deixam de agir como juízes impedindo que

um sistema ​paraestatal​ seja colocado em operação.

O STF é hoje, sem a menor sombra de dúvida (por isso não falo

das pessoas, falo da corte mesmo pois no caso da decisão da

transferência do Lula, em que houve supressão de instância, a

Corte integrou a decisão com 10 votos favoráveis; pense-se

também no caso do Inquérito de Censura à Crusoé: foi claramente

um ato institucional da própria Corte e não de ministros

isoladamente), uma entidade de poder suprema e de atuação

paraestatal​. Suas decisões sequer são respaldadas em seus

próprios precedentes (um indício de que o seu histórico foi

completamente abandonado), nem mesmo na Constituição: basta

ler as decisões que citei e procurar o dispositivo constitucional que

serve de base para a decisão – não há, simplesmente não há. São

atos de puro ​totalitarismo​ gestados ​a latere.​ Desta forma, Ana, o

golpe já foi dado. Tudo o que decorrer dele é mera ​consequência

de um golpe​, jamais será uma resposta em ​ato isolado​ou um

golpe a parte​ ou ​contragolpe.​ Já estamos na marcha da história

para recobrar o sistema que já foi rompido por iniciativa clara e

desabrida do STF (e, repito, a responsável por isso é a corte sim e


não os ministros isoladamente) ou simplesmente aceitá-lo. A

escolha agora cabe ao povo brasileiro.

Isso é preocupante e espantoso. Não perceber que já houve uma

ruptura enquanto as pessoas se preocupam com miudezas…

Nesse quadro você acha que a Lava Jato corre riscos?

Ana, este é outro ponto polêmico e que talvez muitos não gostem

do que eu vá dizer. Sempre fui otimista em relação a essa

operação. Todas as vezes que via notícias dizendo “ah, a Lava Jato

acabou!…” eu sempre dizia “esperem… aguardem 2 semanas”.

Dito e feito: algumas semanas depois, fase X, Y ou Z da operação

mostrava que estava tudo andando normalmente. A dinâmica de

uma investigação policial complexa como essa não permite

“chutes” de um dia para o outro. É necessário observar o

comportamento das investigações ao longo de um período mais

extenso. E com base nessa observação, infelizmente, eu posso

afirmar hoje que esses 5 anos de trabalho da Força-Tarefa, seja de


Curitiba, seja do Rio de Janeiro, seja de Brasília ou de São Paulo,

estão em seu momento mais delicado e sob sério risco de ​pizza.​

Por que desta vez a situação é grave? O que te leva a ter essa

certeza?

Quero fazer aqui o paralelo que já foi feito inúmeras vezes quando

a operação se iniciou mas que, misteriosamente, todos

esqueceram de fazer de uns tempos pra cá: refiro-me à Operação

Mani Pulite​ na Itália. Embora alguns, como o procurador Rodrigo

Chemin, tenham feito estudos excepcionais de comparação dessas

duas operações, essas comparações levam em consideração

aspectos de conteúdo e semelhanças operacionais, sobretudo

como ambas as operações começaram. Não há, nem no Brasil nem

em lugar algum, uma análise das ​estratégias​ e uma comparação

detalhada desse aspecto em ambas as operações. As diferenças

estratégicas são profundas e elas podem explicar não como as

operações começaram e quão abrangentes elas foram, mas sim

como a Lava Jato pode acabar, baseado na experiência de como

acabou a Mani Pulite. Por isso é que hoje ninguém sabe ao certo
explicar ​como​ a Mani Pulite foi por água abaixo e, com certeza,

são poucos os que sabem explicar ​porque​ ela acabou. E sem saber

essas causas, fica difícil prever como a Lava Jato ​deve​ acabar (e,

sinto informar, mas creio que esse final está próximo).

Quais as semelhanças?

A Operação Mani Pulite, que na verdade se chamava Operação

Tangentopoli (tradução ao pé da letra de “Cidade da Propina”)

começa com um tropeço de um político italiano chamado Mario

Chiesa, pego em um esquema de corrupção local com asilos e

hospitais. Isso foi em 1992 e nessa época, o Juiz Falcone, tantas

vezes usado para comparações com Moro, já estava morto fazia

algum tempo. Falcone foi o juiz que combateu a Máfia e foi

assassinado pelas pessoas que investigava. Ele nada tem a ver com

a Operação Mani Pulite. A Lava Jato, por sua vez, não começa

com um problema local, mas sim em um problema de âmbito

nacional – a Petrobras. Na Mani Pulite, quando as investigações

chegam na ENI (a estatal italiana de óleo e gás) a operação já está

bem evoluída. No Brasil as investigações já começam “de cima pra


baixo” – na Itália é o oposto, elas começam “de baixo pra cima”

até chegar no ex-PM Bettino Craxi.

A Mani Pulite é disparada pelo núcelo milanês de investigações,

liderado pelo Juiz Antonio Di Pietro. Integravam o ​pool​ (nome

que os italianos usavam para designar aquilo que chamamos aqui

de força-tarefa) os sub-procuradores Piercamillo Davigo,

Francesco Borrelli e Gherardo Colombo. Na Itália há uma figura

que não temos no Brasil, que é a do “juiz do inquérito” (​giudice

delle indagini preliminari)​ . Esse era o papel de Di Pietro e da

mesma forma, nesse caso, a comparação com Moro é imprópria

pois os sistemas funcionam de forma diferente. Essas diferenças

são fundamentais nas estratégias de investigação que, ao meu ver,

tornam a Mani Pulite muito menos semelhante à Lava Jato do que

muitos imaginam.

Pois bem, depois que Chiesa é pego, as investigações começam a

escalar até chegar na figura do ex-primeiro ministro Bettino Craxi.

Tudo isso acontece no ano de 1992. Do topo da liderança política,

a investigação atinge empresários importantes, como Sergio

Cragnotti e, o principal deles, Silvio Berlusconi, que entra para a

política posteriormente, como forma de se refugiar da ação da


Mani Pulite. No Brasil, nenhum dos empresários atingidos fez da

política seu refúgio. Seria como se Marcelo Odebrecht, sentindo o

peso das investigações, se candidatasse a deputado federal em

2014 para evitar que a operação lhe calçasse mais tarde. Entre

1992 e 1995 a Operação é um sucesso. Seu ano derradeiro é 1996

quando ela atinge a cúpula do Poder Judiciário, quando Renato

Squillante, chefe da Magistratura em Roma, é pego em uma

escuta ambiental. No ano anterior, Di Pietro havia sido alvo de

acusações falsas na imprensa e abandona a Magistratura para

assumir o Ministério da Justiça.

Em 1997, após a Operação, rebatizada de “Togas Sujas”, atingir o

espectro quase total da sociedade italiana (políticos, empresários,

advogados, juízes e imprensa), um núcleo de procuradores de

Brescia começa a investigar os procuradores de Milão e a

Operação Mani Pulite começa a ruir. Na Itália a destruição da

Operação partiu de dentro (e não de fora) do próprio corpo de

procuradores e investigadores. Lembre-se que na Itália não há o

conceito que nós temos aqui no Brasil de “foro privilegiado”: no

Brasil um procurador ou promotor não pode sair investigando um

colega seu a torto e a direito – na Itália isso é possível. E foi assim

que a operação começou a ruir em 1997. Até hoje as tentativas de


macular a Lava Jato partiram de fora do Judiciário ou do

Ministério Público, por isso nunca me preocuparam os ataques

sofridos pela força-tarefa. O que vem acontecendo em 2019 é

diferente.

Você acredita, então, que desta vez os ataques à Lava Jato estão

tomando uma forma mais, digamos, “institucional”?

Exato! Esse é o ponto-chave. Voltemos à Mani Pulite para isso

ficar mais claro: 1998 foi um ano crucial, pois várias reformas na

legislação italiana, alimentadas por uma ideologia ​garantista,​

criaram embaraços às investigações, que já estavam esterilizadas

pelos ataques ​interna corporis​ partidos pelo núcleo de Brescia,

simpático a Berlusconi. Agindo em um bate-bola com o

parlamento, ajudaram a encurtar as penas e os prazos de

prescrição fornecendo inteligência para reformar a legislação.

Uma grande anistia ainda foi negociada e a maioria dos

envolvidos saiu impune. A corrupção venceu e praticamente foi

incorporada ao ​modus vivendi​ italiano. A eleição de Matteo

Salvini é uma quebra nessa mentalidade: com o apoio do


movimento 5 estrelas do humorista Beppe Grillo, a direita italiana

começou a revolucionar a política por lá colhendo apenas em 2018

e 2019 aquilo que o ​pool​ da Mani Pulite plantou em 1992.

Comparemos agora com a situação no Brasil. Há inúmeras

diferenças muito relevantes para que possamos chegar na

semelhança que importa, a do ataque ​interna corporis.​

Comecemos pelo caso do juiz (hoje Ministro) Sergio Moro. Sua ida

para o Ministério guarda circunstâncias completamente diversas

das que motivaram Di Pietro a seguir pelo mesmo caminho. Di

Pietro foi em algum momento questionado por parte daqueles que

o apoiavam: Moro não – ele continua com forte legitimidade.

Segundo aspecto: Di Pietro foi questionado e começou a ser

“investigado” quando ainda estava no cargo e atuando como

procurador. Mais: sua ida para o executivo não foi instantânea –

demorou um certo tempo entre a renúncia e assunção do cargo. Di

Pietro se associou a uma linha política de centro-esquerda na

Itália e teve uma atuação apagadíssima na política – fundou um

partido que em pouco tempo foi lhe tomado das mãos por

políticos profissionais.
Moro não – ele nunca foi investigado ou questionado enquanto

atuava como titular da 13ª Vara Criminal; sua ida para o

Ministério da Justiça foi ​causa​ de sua renúncia e não

consequência dela; a migração foi instantânea; Moro jamais se

filiou a qualquer partido político e está completamente alinhado a

um governo de perfil conservador e sua atuação está muito longe

de ser uma atuação apagada: Moro é disparado o mais importante

Ministro da Justiça dos últimos 50 anos no Brasil e seu trabalho

na reforma do sistema penal é absolutamente incomparável, além

ainda de seu incansável trabalho de combate às facções

criminosas que atuam nos presídios e fora dele, sobretudo no

tráfico de entorpecentes e armas. Um outro detalhe é que Moro,

logo após assumir seu cargo no governo Bolsonaro, passou a ser

investigado – mas não foi por qualquer autoridade pública: Moro

teve seu celular ​hackeado​ e passou a ser investigado por cidadãos

comuns, todos eles militantes de esquerda em uma ação

criminosa e estupefaciente. Ouso arriscar que contra Moro

nenhum desdobramento ocorrerá.

O problema está com o procurador Deltan Dallagnol, um dos

pilotos da força-tarefa da Lava Jato. Por estar ainda no cargo de

procurador, estrategicamente ele se tornou a figura mais


vulnerável de todas: mais vulnerável inclusive que o Ministro

Moro. E uma vez disparada e focada a investigação privada em

sua pessoa, o Conselho Nacional do MP partiu pra cima de

Dallagnol, com base na atuação dos investigadores privados. Foi

montada uma força-tarefa ​paraestatal​ para investigar os

investigadores e esse esquema conta com o respaldo franco do

STF, que legalizou o uso de provas ilícitas, desde que protegidas

por um esquema de jornalismo que se entrincheirou em uma falsa

interpretação do sigilo de fonte.

Eis aqui a semelhança estratégica de duas ruínas que me parecem

beber da mesma fonte – finalmente a operação Lava Jato começa

a ser fuzilada a partir das entranhas do sistema: é um ataque

partido de dentro do sistema. A impossibilidade de se investigar

um procurador foi desfeita, muito embora a origem dessa

investigação seja privada e baseada em provas ilícitas. Mas o

CNMP não está nem aí pra isso e com o apoio da estrutura

paraestatal​ montada no STF, a Lava Jato começa a ser

desmantelada a partir do núcleo curitibano.

O esforço de tornar estéril a atuação da Polícia Federal, hoje

comandada por Moro, começa a se tornar uma séria realidade a


partir de órgãos superiores (coincidentemente, crias da Emenda

Constitucional 45 que comentei com você há pouco) que operam

como “puxadinhos” do STF, a saber, o CNJ e o CNMP. Os

tentáculos “soviéticos” do STF, que hoje atua como verdadeiro

órgão paraestatal, lançam mão de provas ilícitas e

confessadamente manipuladas para reinstituir uma

Tangentocracia​ no Brasil.

Isso é preocupante. Há algo a se fazer? Temos alguma solução

que seja jurídica e pacífica, não violenta e ao mesmo tempo

válida?

Concordo, é preocupante. E o que temos a fazer é simplesmente

cumprir a lei e não cumprir o que é ilegal, seja quem for o autor

dessa ordem ilegal. A esquerda usa muito a tática da

desobediência civil.​ Não é bem isso que proponho, pois a

desobediência​pressupõe descumprimento de ordens emanadas de

um sistema jurídico que é legítimo. Aqui não é bem isso que está

ocorrendo. Estamos diante de uma ​Nova Ordem​ imposta em um

golpe de estado e que se assenta em ordens ilegítimas,


inconstitucionais e ilegais, formando assim um ​poder paraestatal​.

Ninguém está obrigado a se submeter a ordens senão em virtude

de lei. É direito de todo cidadão e dever de toda autoridade

negar-se a cumprir ordens tirânicas e ditatoriais.

Sabe quem é o melhor “Professor” para isso? O Senador Renan

Calheiros. Sim, ele mesmo. Um dos investigados na Lava Jato,

mas também um dos políticos mais hábeis do Brasil, quando foi

confrontado de forma ilegal pelo STF, não pensou duas vezes e

imediatamente se negou a cumprir uma decisão visivelmente

ilegal do STF. O que fez o STF? Fez exatamente o que lhe cabia

fazer: nada! Reconheceu a sua ilegalidade e baixou a cabeça para

Renan, que naquele momento agiu de maneira corretíssima.

Simplesmente fazer o que é certo e reconhecer que o STF, quando

estiver errado, precisa ser questionado, é isso?

Não apenas. Na situação em que vivemos hoje, quando estamos

diante de um golpe que já foi dado, é necessário não apenas

reconhecer a ilegitimidade das ordens futuras baseadas em


autoridade usurpada, mas também passar a limpo tudo o que

aconteceu até hoje e todos os desmandos ocorridos após o trágico

falecimento do Ministro Teori. Num estado como esse, a

força-tarefa deve decretar oficialmente o fim das investigações e

tornar público o resultado de ​todo o trabalho efetuado até o

momento,​ expondo todos os fatos e mostrando as razões pelas

quais as investigações pararam. Chamar a imprensa: não apenas

este veículo prestigiado, mas a imprensa toda, sem exceção, e

compartilhar com todos a íntegra da documentação, todas as

delações premiadas, concluídas ou não. É necessário dar total

exposure.​

É recomendável também que os promotores que trabalharam nas

investigações contra autoridades com “foro privilegiado”, que hoje

estão protegidas pela estrutura ​paraestatal​montada no STF,

reconheçam que essa atividade ​paraestatal​ no STF serve para

proteger os envolvidos e não mais para investigá-los. Passados já

mais de 5 anos de investigações, hoje travestidas de proteção

pessoal, é necessário que as autoridades de 1ª Instância façam o

mais abrangente ​exposure​ dos fatos, apresentando à imprensa

todo o material colhido até hoje e ressaltando os embaraços que

sofreram em sua tarefa de investigação. É necessário se tirar lições


do método ao qual os promotores estão sendo submetidos e

montar um centro de informações em que toda a verdade é

revelada, doa a quem doer. Não vivemos mais um estado de

normalidade democrática depois que atividade criminosa de

espionagem passou a ser não só aceita, mas sobretudo motivação

e fundamento para se perseguir autoridades, cuja função é

investigar crimes.

Da noite para o dia, a narrativa de que o investigador é que seria o

criminoso entrou com facilidade na vida das pessoas, cruzando

uma linha ética que autoriza plenamente que os procuradores

encerrem as investigações e tornem público o material colhido em

sua integralidade. Mantê-lo em sigilo é um perigo aos

investigadores, um desserviço ao Brasil e uma tolice estratégica

que não faz mais sentido a essa altura dos fatos.

Entendo ainda que sobretudo em relação ao material

compartilhado com o STF por força de “prerrogativa de função”,

seja dado ​total e absoluto “exposure”​ desse material para que

todos saibam quem são as pessoas privilegiadas que receberam

propina, quanto foi gasto com eles e a razão pela qual as

investigações dessas autoridades se transformaram em verdadeira


atividade paraestatal de proteção a esses investigados. E quanto às

ordens emanadas por esse núcleo paraestatal, obviamente as

pessoas devem ignorá-la, da mesma forma que ignorariam um

palhaço de circo que se veste de policial para multar motoristas

que estejam dirigindo de janela aberta ou parando no sinal

vermelho. Ordens absurdas não se cumprem. Elas devem ser

ignoradas e isso não é desodebidência – é o inverso: é obedecer a

lei e ignorar quem a infringe. Devem serguir o exemplo de Renan,

nesses casos.

Vamos ver quem ao final tem mais ​guts​ (como dizem nos EUA)

para aguentar esse jogo de forças: se é o tirano ou se é aquele que

resiste ao tirano.

Você acredita que uma exposição dessa magnitude não pode

prejudicar reformas em andamento e forçar a concluir essa

ruptura? Como evitar que um movimento como esse não desague

em caos social?
Se uma grande ruptura for causada pelo reconhecimento da

ampla ilegitimidade dos poderes, tornando até a constituição

não-operacional, então que assim seja. Estamos na hora de sentar

e repensar o sistema, reformá-lo e rediscuti-lo, sem essa história

de “cabo e soldado”. E quanto as reformas, o Presidente da

República pode muito bem acelerá-las usando aquilo que ele tem

ao seu lado – o povo brasileiro. Submeta reformas necessárias a

uma democracia plebiscitária, convoque o povo para votar a

reforma da previdência, a reforma da legislação penal, a reforma

tributária ou até mesmo uma reforma abrangente do Judiciário.

Entregue ao povo a palavra final sobre os destinos da nação. Não

tenhais medo.

Muito obrigada pela entrevista, Evandro!

Eu é que agredeço a você , Ana, pela generosidade em me ouvir.

Obrigado!