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Fernando R.

Casério de Almeida

o vasto deserto de idéias e Para ilustrar esta tese lembra ele que
críticas, à ação da arquitetura mesmo dentro destas profissões existem
brasileira e do urbanismo pra- diferenças que nascem das relações das
ticado no Brasil, surgem, de pessoas com o poder — os profissionais
quando em quando, alguns remotos "bem sucedidos", donos de consultórios
oásis. Neste caso, o recente artigo do ou escritórios muito freqüentados, são
professor Gabriel Bolaffi (A Arquite- totalmente distintos em seu status social
tura do Poder e o Poder da Arquitetura, de seus colegas assalariados que prestam
publicado em Novos Estudos/CEBRAP, serviços em empresas públicas ou priva-
n.º 9) representa um alívio para quem das. Sem o amparo do poder, aqueles
deseja discutir os rumos da arquitetura ficariam "reduzidos" à situação destes.
e do urbanismo brasileiros. Dependem, portanto, do poder e a ele
É evidente que este comentário não devem aliança.
implica concordar com todas as idéias Continuando, Bolaffi envereda por um
lançadas por Bolaffi. Mais adiante fica- caminho mais específico — ele concentra
rão claras quais são as minhas principais suas observações numa camada profissio-
discordâncias com ele. Por outro lado, di- nal —, os arquitetos. Começa ele por
versas de suas afirmações recebem minha analisar as queixas profissionais de que
aprovação, com restrições ou entusiasmo, "uma proporção insignificante das edifi-
dependendo do caso. cações construídas a cada ano é projetada
A tese central do artigo de Bolaffi por arquitetos" (pág. 48). Esta queixa
consiste na afirmação de que a maior pode ser considerada como ridícula, se
parte das chamadas profissões liberais compararmos a capacidade de trabalho
"se constituiu e se manteve sempre à dos arquitetos com o explosivo cresci-
sombra, proteção e dependência do po- mento das cidades contemporâneas, pelo
der" (pág. 47). menos no Brasil. Assim, esta colocação

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(de que os arquitetos não vêem seu tra- das grandes obras dos mestres ou, pelo
balho devidamente aproveitado) não sub- menos, pelos programas de serviço ao
siste face ao montante dos problemas poder —, residências burguesas, edifícios
urbanos brasileiros. Na verdade, o pro- de luxo, grandes equipamentos públicos
blema é outro e corresponde à questão etc. Os programas que envolvam a resi-
da inserção social do trabalho dos arqui- dência ou equipamento social da massa
tetos na sociedade brasileira contempo- da população estão ausentes do ensino.
rânea. Mas, ao mesmo tempo, "já faz pelo
Segundo Bolaffi, o "verdadeiro drama menos vinte anos o grande tema (dos
das escolas de Arquitetura, e mesmo da ateliers de projeto) é a habitação popu-
prática da Arquitetura, tal como ela con- lar" (pág. 49), e aí é que se chocam os
tinua a ser concebida e exercida, resulta programas e os modelos intelectuais da
de sua inequívoca dependência do po- arquitetura nobre européia e norte-ame-
der" (pág. 48). E esta dependência é for- ricana. E é face a tal ambigüidade que
mulada nas escolas e faculdades de Arqui- os estudantes (e entendemos, também,
tetura através de um ensino ambíguo e os arquitetos ex-estudantes), (e apenas
"esquizóide". a ela?), "acabam por se refugiar naquilo
Bolaffi compara, então, o que ele con- que chamei de não-soluções; ( . . . ) pro-
sidera como padrões médios de ensino postas que se limitam a devolver aos po-
de Teoria e de Prática de Arquitetura. bres os problemas que nem a economia
Ao lado de uma linguagem liberal ou so- de mercado e nem o Estado se mostra-
cialista, de qualquer maneira "anti-esta- ram capazes de resolver. Trata-se daqui-
blishment", tem-se como leitmotiv a de- lo que, no Brasil, vem sendo chamado
pendência do poder — a "arquitetura de mutirões (autoconstrução organizada
boa" a ser ensinada passa pela repetição comunitariamente). . ." (pág. 50). A se-

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A ARQUITETURA RÉ-CONSTRUÍDA

guir se descreve no que consiste a auto- ara ser correto com Bolaffi, ele
construção, não como concepção abstrata não faz afirmações sobre seu
dos "arquitetos", mas como a concepção ponto de vista desprovidas de
oficial, o próprio programa de lotes urba- considerações atenuantes —
nizados que é o atual dernier cri do nos- ressalta que não foi possível ainda reali-
so mastodôntico órgão federal de finan- zar uma pesquisa sistemática sobre as
ciamento — o BNH, ao que eu saiba, famílias que vivem em Itaquera, e que
jamais em sua história foi dirigido por suas impressões vêm de visitas freqüen-
arquitetos. tes e do contato com as assistentes so-
Bolaffi passa, então, a descrever a im- ciais que convivem com a população lo-
possibilidade da ocorrência do mutirão cal. É em função destas fontes que ele
em São Paulo, segundo ele um "mito ideo- faz o seu diagnóstico, altamente favorá-
lógico incapaz de realizar-se" (pág. 50). vel à construção do conjunto.
Evidentemente o fato de haver já diver- A inexistência de pesquisa sistemática
sos mutirões na cidade não perturba a nos conduz a uma discussão impressio-
tese do "mito ideológico". nista: em meus contatos com assistentes
Abro um parêntese para um esclare- sociais e demais funcionários da Secre-
cimento: apesar de arquiteto, acho justi- taria Municipal da Família e Bem-Estar
ficáveis diversas das críticas bolaffianas, Social (FABES) que trabalham em Ita-
principalmente ao caráter triunfalista e quera, apurei justamente o oposto das im-
egocêntrico da percepção social dos ar- pressões de Bolaffi — o conjunto suscita
quitetos ou, pelo menos, daqueles que o conflitos sociais permanentes, demanda
próprio Bolaffi chama de Arquitetos — crescente de equipamentos que o poder
os grandes nomes da profissão. Não pen- público não tem condições de implantar,
so que nenhuma categoria profissional e uma ansiedade geral nos moradores,
tenha sido agraciada com o dom de pro- face ao medo de despejo por incapacida-
por sempre as soluções mais adequadas de de pagamento. De tal maneira aumen-
e justas. Há muita besteira escrita, de- tou o trabalho na FABES/Itaquera, que
senhada e proposta por arquitetos e por existem propostas de se estabelecer até
Arquitetos. Mas não haverá então um mesmo uma unidade de atendimento so-
papel social para os arquitetos, mesmo cial dentro de FABES, apenas para a
para aqueles que não se apegam aos pre- população residente nas COHABs de
conceitos generalizados da categoria a Itaquera, o que dá uma certa dimensão
que pertencem? ao problema.
Felizmente, Bolaffi parece abrir uma Por outro lado, não fazem parte da
oportunidade de redenção para a arqui- avaliação das vantagens de Itaquera as
tetura brasileira — "existem outras po- óbvias desvantagens da implantação ur-
tencialidades" que não estão condenadas bana do conjunto — a distância dos cen-
"a se perpetuar eternamente à sombra tros de empregos, a falta de transporte
do poder". coletivo adequado, o custo que represen-
Quais serão elas? Vejamos a seguir. tou para o município a extensão dos ser-
Uma nova potencialidade é representa- viços urbanos até a localização do con-
da pela. . . "Companhia Metropolitana junto. Tudo isso não consta da avaliação
de Habitação de São Paulo — COHAB- do êxito do projeto, o que representa,
SP, desde que sua presidência foi assu- pelo menos, uma ausência não explicada.
mida pelo engenheiro J. C. Bourroal". . . Observa Bolaffi que as faculdades de
Curioso que a forma dos arquitetos apre- Arquitetura demonstram total ignorân-
sentarem novas soluções sem ser "à som- cia quanto ao projeto de Itaquera, e nes-
bra do poder" seja a inserção no trabalho te ponto chegamos a concordar; com efei-
de uma poderosa empresa pública que to, não é raro encontrar-se entre os pro-
utiliza recursos do muito mais poderoso fessores de Arquitetura opiniões do tipo
BNH. Estranha alternativa. "não vi e não gostei". Bolaffi aqui acer-
São, então, descritos sumariamente os ta o alvo.
projetos da COHAB-SP, detendo-se o Críticas de caráter estético têm, real-
autor no conjunto habitacional de Ita- mente, sido enunciadas seguidamente por
quera, cuja ocupação permitiu tais be- arquitetos que mal conhecem o projeto,
nefícios à vida das famílias lá residentes e traduzem sim "uma elevada dose de
de tal forma que se convenceu Bolaffi preconceito", como aponta ele (pág. 53).
tratar-se "da principal obra de arquitetu- Mas as razões do preconceito elitista
ra jamais realizada no Brasil" (pág. 52). que Bolaffi aponta já são mais discutíveis

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— será, com efeito, a casa ou o edifício mercado de trabalho existente) parece-
o "último refúgio do guerreiro", "a últi- me de longe a principal meta a ser atin-
ma das marcas visíveis e manifestas dos gida no momento. Se não conseguirmos
privilégios sociais", o que provoca, nos qualquer alternativa, só nos restará real-
arquitetos, produtores destas "marcas", mente a "arquitetura do poder", inclusi-
esta específica mentalidade preconceituo- ve, e por que não?, a arquitetura do po-
sa? Ou, muito mais que a fachada, não der da COHAB, entrevisto ao longo do
serão a localização do edifício na cidade, texto como a SOLUÇÃO da arquitetura,
o usufruto ostensivo de alguns bens como de seu ensino, e de sua prática.
o modelo de carro etc. que constituem Parece-me, como conclusão, importan-
hoje a verdadeira marca distintiva das te negar esta afirmação: não há uma
posições de classe? SOLUÇÃO; as linhas acima escritas co-
Assim sendo, parece que o preconcei- locam algumas das críticas passíveis à
to revelado pelos críticos da COHAB ação da COHAB, a qual pode ser des-
nasce de outras fontes. E aqui é necessá- crita, por outro modo, como um artefato
rio se destacar a ingenuidade intelectual de transferência de contratos a grandes
de uma certa ideologia difundida entre construtoras, e de compras de terras des-
os arquitetos, que pode ser razoavelmen- valorizadas nos entornos urbanos. Mais
te resumida com a crença de que a arqui- do que sagrar uma SOLUÇÃO deste tipo
tetura condiciona a revolução social. E, parece-me importante desenvolver novas
neste ponto, parece-me que suas farpas alternativas do colocar a arquitetura a
atingem novamente o alvo. Com efeito serviço da população.
não há conta dos malefícios que esta Não quero, por convicção de que não
crença ingênua já provocou, principal- existem SOLUÇÕES ideais, apresentar
mente no descrédito da própria atuação nenhuma idéia salvadora, mas devemos
profissional de arquitetos e urbanistas. registrar que existem muitas idéias e ex-
Colocar a arquitetura (ou o urbanis- periências práticas (algumas até pratica-
mo) a serviço da política, pelo menos das por arquitetos, inclusive professores
numa perspectiva anti-sistema, é decla- em faculdades de Arquitetura) desenvol-
radamente fútil — nem o espaço cons- vidas e que podem ser seriamente estu-
truído constrange tanto assim o compor- dadas como alternativas viáveis no mo-
tamento social; nem alguma sociedade mento. Uma idéia que me parece exigir
organizada já permitiu o desenvolvimen- um grande esforço de racionalização é a
to de ações contrárias à sua própria con- modificação total da atual política habi-
tinuidade. A arquitetura, como as outras tacional voltada exclusivamente para a
artes e ofícios, esteve sempre a serviço construção de enormes conjuntos na ex-
do poder, e só pôde se realizar quando trema periferia; a viabilização de ocupa-
enquadrava as exigências do poder. ção de áreas mais centrais por pequenos
O exemplo de Brasília, lembrado por conjuntos de habitação (inclusive de alu-
Bolaffi, parece-me perfeito: se Lucio guel) para a população de renda mais
Costa pretendia com seu projeto criar baixa parece-me, no momento, reunir
uma "cidade democrática", acabou por muito mais condição de apresentar uma
erigir espaços que simplesmente serviram solução para o problema de grande maio-
à simbologia do poder autoritário. ria da população urbana, mesmo palia-
tiva, do que as macro-SOLUÇÕES exis-
tentes.
Enfim, a solução única para a demo-
solução entrevista por Bolaffi cratização da arquitetura só pode residir
é o que ele chama de "politi- numa democratização da sociedade; ou
zar a arquitetura", ou seja, co- então cairemos de volta na mesma arma-
locá-la "a serviço dos setores dilha de sempre: criticaremos a arquite-
carentes da população". Aplausos. Mas tura (ou os arquitetos) por se comportar
como conseguir isso? O próprio Bolaffi de acordo com os padrões que norteiam
aponta as dificuldades a encontrar, não a sociedade; continuaremos a ver a arqui-
pequena é a falta de liberdade dos pro- tetura produzida como ré, ao invés de
fissionais que, obrigados pelo mercado de fazer esforços para reconstruí-la.
trabalho, acabam por desenvolver tare-
fas que eles próprios consideram inócuas. Fernando Régis Casério de Almeida é professor na
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo — FAU/USP.
A abertura da possibilidade de desen-
volver trabalhos alternativos (mais autô- Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
nomos face ao poder do Estado e ao n.º 12, pp. 62-65, jun. 85

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