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MAGE

Magistratura Estadual

CURSO EXTENSIVO

Direito da Criança
e do Adolescente
Lições preliminares

MATERIAL DE APOIO

coordenador:

Jamil Chaim

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Referência bibliográfica: BARROS, Guilherme Freire de Melo.

Direito da Criança e do Adolescente – coleção sinopses para concursos. 7ª edição.

Salvador: Editora Juspodivm, 2018.

1. INTRODUÇÃO

Atualmente, na esteira do pós-positivismo jurídico (e também do neoconstitucionalismo), o


estudo de toda e qualquer disciplina deve se iniciar pela Constituição Federal. Partindo dessa
premissa, vale destacar, no tocante ao Direito da Criança e do Adolescente, o teor do art. 227,
“caput”, da CF:

Art. 227, CF. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao


adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de
toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

A expressão-chave do art. 227, “caput”, da CF é a “absoluta prioridade” a ser conferida às 1


crianças e aos adolescentes.

O ECA substituiu o antigo Código de Menores (Lei 6.697/79), havendo inúmeras


diferenças entre tais diplomas normativos. Vejamos as principais diferenças no quadro abaixo:

Código de Menores ECA

Incidência voltada, precipuamente, ao “menor” Assegura proteção integral a todas as “crianças”


em situação irregular (“doutrina menorista”) e “adolescentes” (“doutrina da proteção
integral”)

“Menor” como objeto de direitos “Criança” e “adolescente” como sujeitos de


direitos

Ressalte-se que, hodiernamente, é preferível (e recomendável) utilizar as expressões


“criança” e “adolescente” em substituição ao termo “menor”, até porque este último faz alusão à
antiga doutrina menorista, orientadora do Código de Menores.

O ECA é o principal diploma legal relativo aos direitos das crianças e dos adolescentes,
possuindo forte inspiração nas normas de índole constitucional.

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2. PROTEÇÃO INTEGRAL E ABSOLUTA PRIORIDADE

O ECA se funda no princípio (ou doutrina) da proteção integral, posto que tem por objetivo
tutelar as crianças e os adolescentes de forma ampla, nos mais diversos aspectos da vida, desde o
nascimento até a maioridade. Segundo Guilherme Barros, por proteção integral deve-se
compreender o “conjunto amplo de mecanismos jurídicos voltados à tutela da criança e do
adolescente”. A proteção integral é consagrada logo no primeiro artigo do ECA:

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.

A doutrina da proteção integral se relaciona intimamente com o princípio do melhor


interesse da criança e do adolescente, segundo o qual os operadores do Direito (juízes,
promotores de justiça, defensores públicos, advogados etc.) devem buscar, em cada caso
concreto, a solução que proporcione o maior benefício possível para a criança ou
adolescente.

E a absoluta prioridade? O que significa especificamente? Tal conceito é esmiuçado


pelo art. 4º, parágrafo único, do ECA. Senão vejamos. 2

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade,
ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à


infância e à juventude.

3. CRIANÇAS E ADOLESCENTES SÃO SUJEITOS DE DIREITO

Se à luz do ordenamento anterior os “menores” eram vistos como meros objetos de direito,
atualmente a percepção não é a mesma. No âmbito da CF/88 e do ECA, as “crianças” e
“adolescentes” são efetivos sujeitos de direito.

Isso resta muito claro a partir da simples leitura dos arts. 3º e 5º do ECA:

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Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à
pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-
lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes
facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de
liberdade e de dignidade.

Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e


adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia
ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e
aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra
condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem.

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência,


discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei
qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

4. CONCEITO DE CRIANÇA E ADOLESCENTE

O ECA define criança e adolescente em seu art. 2º, “caput”:

Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade
incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.
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Assim, temos:

a) Criança: pessoa de 0 a 12 anos incompletos;

b) Adolescente: pessoa de 12 anos completos a 18 anos incompletos;

c) Maior: a partir de 18 anos completos.

OBS.: A distinção entre criança e adolescente é relevante, por exemplo, no que se refere à
aplicação das medidas socioeducativas. Para o adolescente que pratica ato infracional, pode ser
aplicada medida socioeducativa ou medida de proteção. Por outro lado, à criança que pratica ato
infracional, só é cabível a aplicação de medida de proteção.

5. APLICAÇÃO DO ECA A QUEM JÁ COMPLETOU A MAIORIDADE

A possibilidade de aplicação do ECA àqueles que já atingiram a maioridade vem expressa


no art. 2º, parágrafo único:

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto
às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.

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Note, portanto, que é cabível a aplicação do ECA, excepcionalmente e nos casos previstos
em lei, às pessoas entre 18 e 21 anos de idade.

Dois exemplos são importantes nesse ponto da matéria:

a) Se um adolescente praticar ato infracional aos 17 anos e 11 meses de idade, por força da
teoria da atividade, estará sujeito às normas do ECA e, portanto, a processo e julgamento pela
Justiça da Infância e Juventude, mesmo após completar a maioridade. A aplicação do ECA cessará
apenas quando a pessoa completar 21 anos (art. 121, §5º, ECA);

§ 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade.

b) A adoção de maior poderá ser pleiteada perante a Justiça da Infância e Juventude, mas
apenas se o adotando já estiver sob a guarda ou tutela dos adotantes (art. 40, ECA).

Art. 40. O adotando deve contar com, no máximo, dezoito anos à data do pedido, salvo se
já estiver sob a guarda ou tutela dos adotantes.

6. INTERPRETAÇÃO DO ECA 4

As diretrizes interpretativas do ECA foram positivadas no bojo do art. 6º:

Art. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige,
as exigências do bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição
peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento.

A primeira parte do dispositivo reflete a necessidade de que a intepretação do ECA leve em


conta fins sociais e as exigências do bem comum, de modo a se abandonar a postura individualista
que prevaleceu durante muito tempo no âmago da interpretação jurídica.

A segunda parte é ainda mais relevante: destaca que a interpretação do ECA deve estar
atenta à condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento.
As crianças e os adolescentes vivem o período de maior transformação do ser humano, haja vista
que ainda estão desenvolvendo a sua personalidade. Nesse passo, é evidente que a interpretação
dos textos normativos precisa considerar tal peculiaridade.

7. COMPETÊNCIA LEGISLATIVA

A competência legislativa para a proteção da infância e juventude é concorrente da União,


dos Estados e do DF, nos termos do art. 24, XV, da CF.

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Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre:

XV - proteção à infância e à juventude.

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