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Henri Lefebvre, inventor do direito à cidade

https://revistaforum.com.br/henri-lefebvre-inventor-do-direito-a-cidade/

→ Lefebvre repudia a postura determinista e metafísica do urbanismo modernista:


tem ciência de que os problemas da sociedade não podem ser todos reduzidos a
questões espaciais, muito menos à prancheta de um arquiteto.
→ Lefebvre repudia o caráter alienante da própria pretensão de tornar os problemas
urbanos uma questão meramente administrativa, técnica, científica, pois ela mantém
um aspecto fundamental da alienação dos cidadãos: o fato de serem mais objetos
do que sujeitos do espaço social, fruto de relações econômicas de dominação e de
políticas urbanísticas por meio das quais o Estado ordena e controla a população.

→ Sua realização só pode acontecer quando, confrontando a lógica de dominação,


prevalece a apropriação do espaço pelos cidadãos, sua transfomação para
satisfazer e expandir necessidades e possibilidades da coletividade. Apropriação
não tem a ver com propriedade, mas com o uso, e precisa acontecer coletivamente
como condição de possibilidade à apropriação individual. Lefebvre verifica que é
essa a forma de uso da cidade em períodos nos quais ocorre produção do povo
pelo povo, como na experiência da Comuna de Paris, quando os trabalhadores se
reapropriaram do centro da cidade, após terem sido jogados para a periferia pelo
planejamento haussmanniano.

→ Lutar pelo direito à cidade é romper com a sociedade da indiferença e caminhar


para um modo diferencial de produção do espaço urbano, marcado pelo
florescimento e interação igualitária de diversos ritmos de vida, expressão das
diferentes formas de apropriação do espaço. Avesso às “impecáveis matemáticas”,
ao planejamento metafísico que pretende resolver em definitivo os problemas
sociais e declarar o fim da história, a intervenção transformadora desse espaço é
ciente de sua historicidade, procurando no tempo sua reconstrução cotidiana pelas
tensões entre as experiências do real e as utopias construídas a partir delas.

→ Lefebvre distingue citadins (todos os habitantes da cidade) de citoyens (aqueles


a quem o Estado reconhece a cidadania política), esclarecendo que o direito à
cidade é de todos os seus habitantes, independentemente de seu reconhecimento
legal como cidadãos. Nossa compreensão de cidadania extrapola o aspecto formal
e estatal: reivindicamos a plena cidadania para todos os habitantes da cidade, e é
por isso que aqui os chamamos todos de cidadãos, independentemente de serem
ou não, em maior ou menor extensão, reconhecidos assim pelo sistema jurídico
formal (ao qual tampouco reduzimos o direito)

O DIREITO À CIDADE
https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-direito-a-cidade/

→ crescente dos ideais DIREITOS HUMANOS → pensam-se muito na garantia


desses direitos → MAS, a realidade urbana CONTINUA A MESMA → “lógica de
mercado hegemônica nem os modelos dominantes de legalidade e de ação do
Estado.” → A LÓGICA CAPITALISTA de EXPLORAÇÃO do ambiente urbano
CONTINUA → “Vivemos, afinal, num mundo em que os direitos da propriedade
privada e a taxa de lucro superam todas as outras noções de direito.”

→ A urbanização das cidades GARANTIU ESTE DIREITO? → A CIDADE É O


ESPELHO DA REALIDADE, É REFLEXO HUMANO DAS DESIGUALDADES

→ O direito à cidade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos
recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. Além
disso, é um direito coletivo e não individual, já que essa transformação depende do
exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. A
liberdade de fazer e refazer as nossas cidades, e a nós mesmos é, a meu ver, um
dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais
negligenciados.

→ Desde seus primórdios, as cidades surgiram nos lugares onde existe produção
excedente, aquela que vai além das necessidades de subsistência de uma
população. A urbanização, portanto, sempre foi um fenômeno de classe, uma vez
que o controle sobre o uso dessa sobreprodução sempre ficou tipicamente na mão
de poucos [pense, por exemplo, num senhor feudal]. Sob o capitalismo, emergiu
uma conexão íntima entre o desenvolvimento do sistema e a urbanização.

→ ÓTICA CAPITALISTA: GERAR LUCRO E MAIS LUCRO → EXPLORANDO A


CLASSE MAIS POBRE → UMA RODA PERPETUA → O capitalista também deve
descobrir novos recursos naturais, o que exerce uma pressão crescente sobre o
meio ambiente.
→ As inovações definem novos desejos e necessidades, reduzem o tempo de giro
do capital e reduzem a distância que antes limitava o âmbito geográfico onde o
capitalista pode procurar outras fontes de mão de obra, matérias-primas e assim por
diante.
→ Considere, primeiro, o caso de Paris no Segundo Império. O ano de 1848 trouxe
uma das primeiras crises nítidas, e em escala europeia, de capital não reinvestido e
de desemprego. O golpe foi especialmente duro em Paris, e provocou uma
revolução fracassada de trabalhadores desempregados e de utopistas burgueses. A
burguesia republicana reprimiu violentamente os revolucionários, mas não
conseguiu resolver a crise. O resultado foi a ascensão ao poder de Luís Napoleão
Bonaparte, ou Napoleão III, que arquitetou um golpe de Estado em 1851 e se
proclamou imperador no ano seguinte.
→ Sua maneira de lidar com a situação econômica foi implantar um vasto programa
de investimentos em infraestrutura → a reconfiguração da infraestrutura urbana de
Paris → Haussmann.
→ Em Paris, a campanha para deter a via expressa na margem esquerda do rio
Sena e a destruição de bairros tradicionais por torres e arranha-céus, como a Torre
Montparnasse, influenciaram a revolta de 68. Foi neste contexto que o sociólogo e
filósofo marxista Henri Lefèbvre escreveu A Revolução Urbana, que afirmava que a
urbanização era essencial para a sobrevivência do capitalismo e, portanto, estava
destinada a tornar-se um foco crucial da luta política e de classes; e que a
urbanização estava apagando as distinções entre a cidade e o campo, com a
produção de espaços integrados em todo o território do país. Para Lefèbvre, o
direito à cidade tinha de significar o direito de comandar todo o processo urbano,
que ia ampliando seu domínio sobre o campo, por meio de fenômenos como o
agronegócio, as casas de campo e o turismo rural.
→ É um mundo em que a ética neoliberal de individualismo, acompanhada pela
recusa de formas coletivas de ação política, se torna o modelo para a socialização
humana.
→ DESIGUALDADE SOCIAL → Os resultados estão indelevelmente gravados no
espaço das nossas cidades, que cada vez mais consistem de fragmentos
fortificados, condomínios fechados e espaços públicos privatizados, mantidos sob
vigilância constante.
→ CAMPO DE DESIGUALDADES, CAMPO DE INDIVIDUALIZAÇÃO → Há, porém,
movimentos sociais urbanos tentando superar o isolamento e remodelar a cidade
segundo uma imagem diferente daquela apresentada pelas incorporadoras
imobiliárias, apoiadas pelos financistas, as grandes corporações e um aparato
estatal local com mentalidade cada vez mais influenciada pelos negócios.
→ NA HISTÓRIA DA REFORMA URBANÍSTICA: O investimento capitalista na
transformação das cidades tem um aspecto ainda mais sinistro. Ele acarretou
repetidas ondas de reestruturação urbana através da “destruição criativa”, que
quase sempre tem uma dimensão de classe, uma vez que são os pobres, os menos
favorecidos e os marginalizados do poder político que sofrem mais com o processo.
A violência é necessária para construir o novo mundo urbano sobre os destroços do
velho.
→ Haussmann arrasou os velhos cortiços parisienses, usando o poder de
expropriação do Estado em nome do progresso e da renovação cívica. Ele
organizou deliberadamente a remoção de grande parte da classe trabalhadora e de
outros elementos indisciplinados do Centro da cidade, onde constituíam uma
ameaça à ordem pública e ao poder político.
→ Revoltas e caos nos subúrbios onde se tenta engaiolar os marginalizados, os
imigrantes, os desempregados.
→ LIMPEZA URBANA → A pressão para limpar o terreno – por motivos ambientais
e sociais que mascaram a usurpação das terras – aumenta dia a dia. Poderes
financeiros apoiados pelo Estado pressionam pelo despejo forçado das favelas.
Desse modo a acumulação de capital pela atividade imobiliária vai ao auge, uma
vez que a terra é adquirida a custo quase zero.
→ DESAPROPRIAÇÕES: Como não possuem direitos de propriedade, o Estado
pode simplesmente removê-las por decreto, oferecendo um pequeno pagamento
para ajudá-las na transição antes de entregar a terra para as construtoras, com
grandes lucros → há relatos de resistência generalizada.
→ O efeito duradouro da privatização feita por Margaret Thatcher da habitação
social na Grã-Bretanha foi criar uma estrutura de renda e de preços em toda a área
metropolitana de Londres que impede as pessoas de baixa renda, e até mesmo de
classe média, de ter acesso à moradia em qualquer lugar perto do centro urbano.
Posso apostar que dentro de quinze anos, se as tendências atuais continuarem,
todos os morros do Rio agora ocupados por favelas estarão cobertos por prédios
altos com uma vista fabulosa, enquanto os antigos moradores das favelas terão sido
filtrados, excluídos e estarão morando em alguma periferia remota.
→ CONCLUI-SE : PROCESSO DE URBANIZAÇÃO → papel fundamental no
reinvestimento dos lucros.
→ A resposta a essa pergunta é bastante simples em princípio: um maior controle
democrático sobre a produção e a utilização do lucro. E uma vez que o processo
urbano é um dos principais canais de uso desse dinheiro, criar uma gestão
democrática da sua aplicação constitui o direito à cidade. Ao longo de toda a história
do capitalismo, uma parte do lucro foi tributada, e em fases social-democratas a
proporção à disposição do Estado aumentou significativamente. O projeto neoliberal
dos últimos trinta anos caminhou para privatizar esse controle.
→ O neoliberalismo também criou novos sistemas de governança que integraram os
interesses estatais e empresariais, garantindo que os projetos governamentais para
as cidades favoreçam as grandes empresas e as classes mais altas.
→ movimentos sociais focados na questão urbana. Em 2001, o Brasil aprovou o
Estatuto da Cidade, depois de anos de pressão de movimentos sociais pelo
reconhecimento do direito coletivo à cidade. Mas esses movimentos não
convergiram para o objetivo único de ganhar mais controle sobre os usos do
dinheiro – e muito menos sobre as condições da sua produção.
→ A Cidade hoje o ponto de confronto
→ em torno da acumulação de capital pela desapropriação dos menos favorecidos e
do tipo de desenvolvimento que procura colonizar espaços para os ricos.
→ adotar o direito à cidade → levanta a questão de quem comanda a relação entre
a urbanização e a produção do lucro.
→ A democratização desse direito, e a construção de um amplo movimento social
para fazer valer a sua vontade são imperativas para que os despossuídos possam
retomar o controle que por tanto tempo lhes foi negado e instituir novas formas de
urbanização. Lefèbvre estava certo ao insistir em que a revolução tem de ser
urbana, no sentido mais amplo do termo; do contrário, não será nada.
REFLEXÕES SOBRE O “DIREITO À CIDADE” EM HENRI
LEFEBVRE: OBSTÁCULOS E SUPERAÇÕES

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS: REFLEXÕES SOBRE O PROJETO DA SOCIEDADE


URBANA A PARTIR DA OBRA DE LEFEBVRE

 Sociedade Urbana, essa Sociedade, por ser em parte real, em parte virtual, estando em
contínua transformação, exige não apenas uma articulação entre prática e teoria, mas também
um estudo sobre quais caminhos teóricos e práticos abririam as possibilidades para pensá-la e
construí-la, considerando a tese de Lefebvre de que “a cidade e a realidade urbana dependem do
valor de uso
 Para a constituição da Sociedade Urbana, com a urbanização completa da sociedade, é
preciso entender a transição da sociedade e da racionalidade industrial para o Urbano.
 Para entendê-lo, retomando o “urbano como horizonte” e como “problemática” (LEFEBVRE,
2004, p.103), é preciso considerar as contradições que marcam este período de transição
(concentração e dispersão, centralidade e segregação, uso e troca, habitar e habitat, obra e
produto, historicidade e História, desenvolvimento e crescimento, apropriação e dominação...)
 Nessa Cidade Obra (em oposição à cidade produto), haveria um espaço
marcado pela produção (em seu sentido filosófico) e pela possibilidade de criação (para
além da dominação e da propriedade), constituindo-se uma apropriação criativa do
mundo pelo indivíduo e definindo também um Projeto Poiético. As noções de uso e de
apropriação plena do espaço pertencem à essência do Direito à Cidade, no qual a
articulação entre as categorias de produção e reprodução, centrais à obra de Lefebvre e
vinculadas à de totalidade, ganha papel central
 A discussão sobre o projeto do Direito à Cidade envolve as categorias de produção
e de reprodução já que seria preciso, para a Sociedade Urbana, romper com a reprodução
das relações de produção e construir um novo momento da produção do espaço e do
próprio ser.
 Na manutenção das relações de produção capitalistas, destaca-se o papel da
dominação do espaço e do cotidiano, com a cristalização da Sociedade Burocrática de
Consumo Dirigido.
 “produção no sentido amplo: produção de relações sociais e reprodução de determinadas
relações. É nesse sentido que o espaço torna-se o lugar dessa reprodução, aí incluídos o espaço
urbano, os espaços de lazeres, os espaços ditos educativos, os da cotidianidade, etc.”
 Ao se considerar que a produção do espaço é resultado de um processo
articuladamente marcado por aspectos econômicos, políticos e sociais, percebe-se que o
espaço é político e instrumental, constituindo-se em “lugar e meio onde se desenvolvem
estratégias, onde elas se enfrentam”
 A partir das noções de produção e reprodução e das cisões que marcam a produção
do espaço e do conhecimento – e tomando o espaço como político e ideológico no qual as
estratégias de diversos agentes se desdobram e entram em conflito – como pensar o que
impede o Direito à Cidade e o rompimento das dominações impostas ao espaço e ao
cotidiano?
R: em “primeiro lugar, uma confrontação incessante com a experiência e, em segundo lugar, visa
à constituição de uma prática global, coerente, a prática da sociedade urbana (a prática da
apropriação, pelo ser humano do tempo e do espaço, modalidade superior da liberdade)”
 então, potencializar essa prática urbana? caracterizado como um “período de apropriação” e
que “só pode ser pensado em
função da sociedade urbana”?
Na manutenção do campo cego, também se destaca o papel dos mitos: como o da
tecnocracia, no qual a técnica não é colocada a serviço da vida cotidiana (LEFEBVRE, 1970,
p.220); e da participação, no qual há uma “participação ilusória” e não uma “intervenção
ativa e contínua dos interessados” (LEFEBVRE, 1970, p. 226-227), com uma “integração
desintegrante” vista como democracia plena e que “permite obter pelo menor preço a
aquiescência das pessoas interessadas e em questão” (LEFEBVRE, 2006, p.100).
 A sociedade atual, submetida à
cegueira da racionalidade industrial, também é sujeitada aos constrangimentos impostos
pelo Nível Global, – marcado pelas “relações mais abstratas e, no entanto, essenciais:
mercado de capitais, política do espaço” (LEFEBVRE, 2004, p.78) – que se sustenta pelos
mitos e ideologias, reproduzindo o modo capitalista de produção.
 O espaço passa a pertencer a estratégias de classe, que precisam do Urbanismo
para realizá-lo como vazio e produto da segregação. Impõe-se a privação da vida urbana
(LEFEBVRE, 2006, p. 101), com segregações e fragmentações que impedem encontros e
oposições. Reproduzem-se contradições na medida em que todas as classes (inclusive a
operária) estão submetidas à Sociedade Burocrática de Consumo Dirigido e à ideologia
que oculta através do consumo o conflito entre propriedade privada e apropriação.
 O Direito à Cidade se confunde muitas vezes com a questão da moradia, que por sua vez,
também é reduzida ao mero habitat (em oposição ao habitar). Em uma percepção apenas
no plano do imediato, “a questão da moradia, sua urgência nas condições do crescimento
industrial inicialmente ocultaram e ocultam ainda os problemas da cidade”
 O urbano como forma e realidade nada tem de harmonioso. Ele também reúne os conflitos. Sem
excluir os de classes. Mais que isso, ele só pode ser concebido como oposição à segregação que tenta
acabar com os conflitos separando os elementos no terreno (...). O urbano se apresenta, ao contrário,
como lugar dos enfrentamentos e confrontações, unidade das contradições
 o urbano apenas pode ser “confiado a uma estratégia que ponha em
primeiro plano a problemática do urbano, a intensificação da vida urbana, a realização
efetiva da sociedade urbana (isto é, de sua base morfológica, material, prático-sensível)”

3. O DIREITO À CIDADE: PENSANDO E CONSTRUINDO CAMINHOS

 É preciso considerar, inicialmente, que o Direito à Cidade vai além dos direitos
individuais e imediatos, não sendo o “direito à opinião (mutável, flutuante, manipulada) ou
ao voto (para eleger representantes, sem mandato imperativo)” (LEFEBVRE, 1986, p.9). O
Direito à Cidade aparece como uma “necessidade social” (1973, p. 40; 2006 p. 103), na
qual há a necessidade da criação e da obra, e se constitui, juntamente com o “Direito à
Diferença” (LEFEBVRE, 1973, p. 38) e com o “Direito à Informação” (LEFEBVRE, 1986, p.
9), em um caminho para a constituição da Sociedade Urbana.
 Apenas pode ser concebido como o “direito à vida urbana, transformada,
renovada” (LEFEBVRE, 2006, p.117), resultado de uma implosão onde o capital se
reproduz, ou seja, nas relações sociais de produção, no espaço e no cotidiano. O Direito à
Cidade aparece no “direito à obra e no direito à apropriação (bem distinto do direito à
propriedade)” (LEFEBVRE, 2006, p.135). Seria o “direito à vida urbana, à centralidade
renovada, aos locais de encontro e de trocas, aos ritmos de vida e empregos do tempo que
permitem o uso pleno e inteiro desses momentos e locais” (LEFEBVRE, 2006, p.143). A
vida urbana, para o autor (LEFEBVRE, 2006, p.15), pressuporia “encontros, confrontos das
diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos (inclusive no confronto
ideológico e político) dos modos de viver (...)”. A centralidade (da reunião, do poder, da
troca) é, nesse contexto, essencial, opondo-se às segregações e fornecendo o sentido mais
profundo à cidade, cuja relevância ao projeto da Sociedade Urbana decorre principalmente do
fato de que é pela concentração e reunião, da “quantidade que nasce a qualidade”
(LEFEBVRE, 2004, p. 81).

 O Direito à Cidade supõe, portanto, uma “transformação da sociedade segundo um


projeto coerente, respondendo as interrogações e resolvendo teoricamente (no sentido
forte, implicando o momento da prática) os problemas e, de outro lado, criações nos
domínios nos quais interferem a arte e o conhecer, o cotidiano e o global (...)” (LEFEBVRE,
1986, p.9).

 Destaca-se novamente o papel da práxis, na


medida em que é preciso tanto uma ação prática – já que “apenas a força social capaz de se
investir a si mesma no urbano, no decorrer de uma longa experiência política, pode se
encarregar da realização do programa referente à sociedade urbana” (LEFEBVRE, 2006,
p.114) – quanto teórica, na qual a “ciência da cidade traz um fundamento teórico e crítico”
à construção do Direito à Cidade. Nesse contexto e refletindo sobre a práxis, Lefebvre
afirma que (1991, p. 82):