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UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA

AMANDA PEREIRA FONTOURA

A INEFICÁCIA DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA


NO ÂMBITO DE LUZIÂNIA GOIÁS

BRASÍLIA-DF
2019
AMANDA PEREIRA FONTOURA

A INEFICÁCIA DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA


NO ÂMBITO DE LUZIÂNIA GOIÁS

Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, apresentado


a UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA da cidade de
Brasília-DF, como exigência parcial à obtenção do
título de Bacharel em Direito.

Orientadora: Dra. Ana Isabel Seligmann Feitosa

BRASÍLIA-DF
2019
FONTOURA, Amanda Pereira.
A ineficácia das medidas protetivas de urgência no
âmbito de Luziânia Goiás. Brasília, 2019.

50f.

Orientador: Ana Isabel Seligmann Feitosa


Trabalho Monográfico (Graduação em Direito)
UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA de Brasília,
2019.

1. Ineficácia 2. Medidas Protetivas. 3. Luziânia.

UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA de Brasília.

CDD
000.000
AMANDA PEREIRA FONTOURA

A INEFICÁCIA DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NO ÂMBITO DE


LUZIÂNIA GOIÁS

Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, apresentado


à UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA de Brasília,
como requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Direito.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Titulação Nome do Professor


UNIP - Universidade Paulista de Brasília-DF

Prof. Titulação Nome do Professor


UNIP - Universidade Paulista de Brasília-DF

Prof. Titulação Nome do Professor


UNIP - Universidade Paulista de Brasília-DF
AMANDA PEREIRA FONTOURA

A INEFICÁCIA DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NO ÂMBITO DE


LUZIÂNIA GOIÁS

AUTORIZAÇÃO PARA DEPÓSITO DO


TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

Com base no disposto da Lei Federal nº 9.160, de 19/02/1998, AUTORIZO a UNIP -


Universidade Paulista de Brasília, sem ressarcimento dos direitos autorais, a disponibilizar na
rede mundial de computadores e permitir a reprodução por meio eletrônico ou impresso do
texto integral e/ou parcial da OBRA acima citada, para fins de leitura e divulgação da produção
científica gerada pela Instituição.

Brasília-DF, ______/______/______

-----------------------------------------------------------------
Amanda Pereira Fontoura

Declaro que o presente Trabalho de Conclusão de Curso, foi submetido a todas as Normas
Regimentais da UNIP - Universidade Paulista de Brasília e, nesta data, AUTORIZO o depósito
da versão final desta monografia bem como o lançamento da nota atribuída pela Banca
Examinadora.

Brasília-DF, ______/______/______

-----------------------------------------------------------------
Prof. Ana Isabel Seligmann Feitosa
AGRADECIMENTOS

Agradeço de forma única e especial a minha mãe, Joana, a qual sempre foi minha base
e meu exemplo de vida, exemplo de amor ao próximo, exemplo de honestidade, de trabalho e
mulher de Deus, mãe sabia, que sempre edificou nosso lar. Este mérito é da senhora que sempre
me incentivou e me incentiva até hoje a não desistir dos meus sonhos. Obrigada mãezinha por
sonhar comigo e acreditar em mim. De maneira ímpar, as minhas irmãs que sempre estiveram
ao meu lado e me apoiaram do início do curso até a conclusão do trabalho de curso. Vocês me
inspiram, sou apaixonada por vocês e agradeço por sempre estarem ao meu lado me fazendo
acreditar que tudo no tempo de Deus vai dar certo. Amo vocês. Agradeço ao meu colega
Samuel, que sempre muito prestativo me auxiliou, tirou as minhas dúvidas e me falava que ia
dar certo. Obrigado Samuel, você também faz parte desta conquista.

Agradeço ao Promotor de Justiça, Dr. Júlio Gonçalves Melo, pela entrevista concedida.
Obrigada pela disponibilidade em responder as perguntas e pela clareza em tudo que falava, e
por transmitir alguns desses conhecimentos a minha pessoa. O senhor serve de expiração para
a minha vida profissional.

Agradeço por fim, e não menos importante, a professora Dr. Ana Isabel Seligmann
Feitosa, minha orientadora, a qual sempre foi muito atenciosa, e disposta a me auxiliar em todas
as dúvidas relativas ao trabalho de curso e foi quem me auxiliou no desenvolvimento desta
monografia. Obrigada professora Ana Isabel, não só pelo trabalho, mas também pelos ótimos
conselhos de vida, agradeço a Deus por ter tido aula com a senhora e hoje está sendo minha
orientadora.
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho em primeiro lugar a Deus, que sei que sempre soube do meu sonho
e me sustentou até aqui. Em segundo a minha família, mãe, irmãs, cunhados e sobrinhas, que
sempre acreditaram nesse sonho, muitas vezes até mais do que eu, e me ajudaram em todos os
sentidos a chegar até aqui. Se hoje estou conquistando esta aprovação é porque sempre tive uma
excelente base familiar, que sempre seguraram minha mão e não me deixaram desistir.

Obrigada, Deus e familiar, vocês me ajudaram a fazer dar certo.


A todas as mulheres, porque amor não rima com dor.
O corpo é o primeiro livro que devemos descobrir;
por isso, é preciso reaprender a linguagem do amor,
das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo
se levante e se disponha a lutar.

(Rubem Alves)
RESUMO

A Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, surgiu com a intenção de proteger e
firmar as mulheres que sofrem algum tipo de violência dentro de seus lares, buscando coibir a
violência de gênero. Desta maneira, a partir da necessidade de cessar os delitos dessa natureza,
tornando-a realmente eficaz, a criação de políticas públicas no combate à violência doméstica
contra a mulher, as quais ampliaram e introduziram serviços especializados, bem como criar
serviços em prol das mulheres vítimas de violência doméstica. A finalidade do presente trabalho
monográfico é analisar no contexto acadêmico e social a discursão acerca da criação da referida
Lei 11.340/06, seus avanços desde sua criação até então. A Lei Maria da Penha além de punir
o agressor, visa a criação de políticas públicas para dar maior assistência às vítimas de violência
doméstica. A técnica utilizada foi a pesquisa bibliográfica, sendo assim, foram realizadas
leituras e analises críticas em doutrinas, a citada Lei, bem como, em artigos que se manifestaram
sobre o tema em questão. Também foi realizada uma entrevista com o promotor titular da
promotoria de violência doméstica em Luziânia, Goiás. Para que pudéssemos ter uma maior
clareza sobre a aplicação e efetividade da referida Lei. Desde a criação da referida Lei, uma
maior atenção foi voltada para as agressões contra as mulheres no ambiente doméstico.
Entretanto, necessário se faz erradicar a violência doméstica contra a mulher. Desta maneira,
apesar dos avanços que vem ocorrendo após a criação da Lei Maria da Penha, ainda se faz
necessária a adoção de medidas que a tornem realmente eficazes, portanto, através de políticas
públicas realmente eficazes, que protejam as mulheres vítimas de violência doméstica no
âmbito familiar.

Palavras chaves: Violência doméstica; efetividade; politicas publicas


ABSTRACT

Law 11.340 / 06, known as the Maria da Penha Act, came with the intention of protecting and
firming women who suffer some form of violence within their homes, seeking to curb gender
violence. In this way, the creation of public policies to combat domestic violence against
women, which has expanded and introduced specialized services, as well as the creation of
services for the benefit of women victims of domestic violence. The purpose of this
monographic work is to analyze in the academic and social context the discursion about the
creation of said Law 11.340 / 06, its advances from its creation until then. The Maria da Penha
Law, besides punishing the aggressor, aims to create public policies to give greater assistance
to victims of domestic violence. The technique used was the bibliographical research, and thus,
were readings and critical analyzes in doctrines, the mentioned Law, as well as in articles that
were manifested on the subject in question. An interview was also held with the owner of the
domestic violence prosecutor’s office in Luziânia,Goiás. So that we could have greater clarity
about the application and effectiveness od said Law. Since the creayion of the aforementioned
Act, greater attention has been focused on aggression against women in the domestic
environment. However, it is necessary to eradicate domestic violence against women. Despite
the advances that have been made since the creation of the Maria da Penha Law, it is still
necessary to adopt measures that make it truly effective, therefore, through effective public
policies that protect women victims of domestic violence in Brazil. Family.

Key words: Domestic violence; effectiveness; public policy


SUMÁRIO

1. CAPÍTULO 01 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O CONTEXTO DA


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER. ....................................................... 11

2. CAPÍTULO 02 – SURGIMENTO DA VIOLÊNDIA DOMÉSTICA. .................... 13

2.1. Noções introdutórias. .................................................................................................. 13

2.2. Ciclo da Violência Doméstica. .................................................................................... 16

2.3. Formas de Violência Doméstica. ................................................................................ 19

2.3.1. Violência Física ............................................................................................................. 20

2.3.2. Violência Psicológica. ................................................................................................... 20

2.3.3. Violência Sexual. ........................................................................................................... 21

2.3.4. Violência Moral. ............................................................................................................ 23

2.3.5. Violência Patrimonial .................................................................................................... 24

3. CAPITULO 03 – A LEI 11.340/2006 – LEI MARIA DA PENHA. ........................ 25

3.1. Medidas Protetivas de Urgência ................................................................................. 27

3.2. Crime De Descumprimento Das Medidas Protetivas De Urgência ......................... 30

4. CAPITULO 04 – MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NO ÂMBITO DE


LUZIÂNIA GOIÁS. ............................................................................................................... 32

4.1. Criação da DEAM – Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. ........... 33

4.2. Entrevista com o Promotor de Justiça Dr. Júlio Gonçalves Melo .......................... 35

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 36

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 38

APÊNDICE ............................................................................................................................. 40
1. CAPÍTULO 01 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O CONTEXTO DA
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER.

A Constituição da República foi promulgada em 1988, sendo essa a norma máxima em


que em seu corpo está inserida o artigo 5º que assegura a todos diversos direitos e obrigações, e
entre eles assegura-se que todos são iguais perante a lei, homens e mulheres são iguais em direitos
e obrigações. Porém, em decorrência de uma cultura em que o homem é o provedor do lar, o
cuidador. O faz muitas vezes entender que suas obrigações são maiores que as obrigações das
mulheres e em contrapartida por muitas vezes acreditarem ter mais obrigações podem levar a
entender que tem mais poder de voz, e por séculos confundiu o sistema, o que chegou até nosso
século atual. Isso porque ao longo dos séculos a mulher foi ensinada que deve ser cuidada,
protegida, não obstante ao homem foi transferido que ele deve ser o protetor. Essa ideia se
proliferou e vem pendurando ao longo dos anos. Da mesma forma que transmitiram à mulher
que ela deve cuidar do lar, da família e só pensar em trabalhar em segundo, terceiro ou em outros
planos, tornando-lhe assim refém da realidade social em que está inserida, e ao homem
remanesceu a função de executar o trabalho externo voltado ao sustento da família.

Conforme menciona o Dr. Júlio Gonçalves em sua entrevista1:

Então, assim, de fato as mulheres não tem muito espaço no mercado de trabalho, e sem
ser muito economicista, mecanicista aqui, isso se reproduz dentro do ambiente familiar,
isso colocar a mulher em uma situação de maior vulnerabilidade em relação ao homem
que faz a provisão das coisa dentro de casa, isso torna muito mais difícil ela levar para
frente certas denúncias, porque isso pode repercutir na qualidade de vida dela, dos
filhos, e daí por diante.

Desta forma, muitas vezes os papéis impostos pela sociedade, foi criada a identidade
social de homens e das mulheres. A mulher, tornou-se submissa ao homem e esse sentimento de
submissão, juntamente com o de inferioridade, pode ter sido um dos fatores que contribuíram
para que originasse a violência doméstica no âmbito familiar.

A violência doméstica contra a mulher, constitui uma problemática que atinge muitas
mulheres, independente da classe social, da raça ou etnia. Os valores adquiridos pelo sistema

1
GONÇALVES, Júlio. Entrevista concedida a Amanda Pereira Fontoura. Luziânia/GO, 29 de maio. 2019.
[A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" desta monografia].
11
patriarcalista continuam sendo reproduzidos e ainda reconfigurados de acordo com o momento
histórico em que estão inseridos.

Diante da forte pressão do movimento de cunho internacional, resultou em acordos e


tratados em prol das mulheres, tendo em vista que a sociedade não obtinha êxito em erradicar o
problema da violência doméstica contra a mulher, visto que antes da criação da Lei 11.340/06,
os crimes de violência doméstica eram tratados como crimes comuns e julgados pela justiça
comum, no máximo resultava em lesão corporal, não tendo o devido e necessário cuidado a cada
caso.

Com o intuito de reverter a situação, após a intervenção internacional, foi inserida no


ordenamento jurídico brasileiro a Lei 11.340/06, mas conhecida atualmente como Lei Maria da
Penha. Esta Lei apresentou-se dotada de características protetivas, de fato com o intuito de
proteger as mulheres vítimas de violência doméstica, com o intuito de consagrar esforços a fim
de efetivamente proteger as vítimas, dando mais celeridade ao processo investigatório e
instituindo novos procedimentos e medidas inovadoras no combate a violência doméstica.
Desta forma, através da presente pesquisa, analisar-se-á a efetividade das Medidas Protetivas de
Urgência da Lei Maria da Penha no âmbito de Luziânia.

Sendo assim, no segundo capítulo deste trabalho, será delineado um histórico acerca do
surgimento da violência doméstica, bem como a definição desta. Trazendo os sujeitos e as formas
de violência contra a mulher, e, na sequência, explicitará o ciclo pela qual esta percorre e será
finalizado com a temática formas de violência doméstica.

No terceiro capítulo, será abordado a criação da Lei 11.340/06, sua garantia conforme a
Constituição da República Federativa, em sequência será tratado o contexto histórico acerca da
criação da Lei Maria da Penha e o motivo que a levou a ter seu nome e será encerrado o presente
capitulo com a temática medidas protetivas de urgência, que está prevista na Lei 11.340/06, sendo
abordado de forma clara e explicativa como funciona, o que são, quais são e sua eficácia no
âmbito de Luziânia.

Terminante, no quarto capítulo será abordado as medidas protetivas de urgência no


âmbito de Luziânia, sendo verificado sua efetividade, aumento e revogações por meio de gráficos
com fatos reais. Será ainda, discorrido acerca da criação das delegacias de atendimento
12
especializado a mulher, as DEAMs. E o presente trabalho será encerrado com uma entrevista
feita com o Promotor de Justiça Dr. Júlio Gonçalves Melo, promotor titular da segunda
promotoria da Violência Doméstica, localizada em Luziânia.

2. CAPÍTULO 02 – SURGIMENTO DA VIOLÊNDIA DOMÉSTICA.

2.1. Noções introdutórias.

A violência doméstica é uma triste realidade existente nos dias atuais, tendo como
vítimas; crianças, adolescentes, principalmente aquelas do sexo feminino e mulheres em
decorrência da existente desigualdade no âmbito familiar. Resultando em uma verdadeira
discriminação de gênero. A história da submissão feminina infelizmente se confunde com a
própria história da humanidade. Desde a Grécia antiga, verifica-se na história que as algumas
mulheres não eram titulares de direitos, sendo que os homens nessa época exerciam verdadeiro
controle sobre algumas mulheres.

Nesse sentido, existe um poder simbólico das instituições conceituadas como patriarcais,
que influenciam em tal realidade, conforme leciona Pierre Bourdieu:

A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a
dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho,
distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu
local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de
assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou,
no interior desta, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o
estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o
ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação,
femininos. (BOURDIEU, 2012, p. 18).

Posteriormente, com a influência do cristianismo a mulher passa a ser vista como um ser
eminentemente pecador, e a culpada pelo desastre do paraíso, devendo por isso estrita obediência
aos homens como forma de salvação. Por conseguinte, a medicina também fora responsável pela
desvalorização da mulher, conforme Tânia Pinafi:

13
O Cristianismo retratou a mulher como sendo pecadora e culpada pelo desterro dos
homens do paraíso, devendo por isso seguir a trindade da obediência, da passividade e
da submissão aos homens, — seres de grande iluminação capazes de dominar os
instintos irrefreáveis das mulheres — como formas de obter sua salvação. Assim a
religião judaico-cristã foi delineando as condutas e a ‘natureza’ das mulheres e
incutindo uma consciência de culpa que permitiu a manutenção da relação de
subserviência e dependência. Mas não foi só a religião que normatizou o sexo feminino,
a medicina também exerceu seu poder, apregoando até o século XVI a existência de
apenas um corpo canônico e este corpo era macho. Por essa visão a vagina é vista como
um pênis interno, os lábios como o prepúcio, o útero como o escroto e os ovários como
os testículos. (PINAFI, 2007, p. 02).

As crenças da época resultaram no entendimento biológico que a mulher era um homem


ao avesso, e em decorrência disto, inferior aos homens, devendo ser obediente e subordinada a
estes. Podendo ter sido um dos fatores que geraram a violência doméstica no âmbito familiar,
embora, não se justifique a agressão.

Portanto, a violência doméstica é um fato social que acerta a população e o governo, tanto
na esfera global quanto na esfera local. No nosso País, é comum a construção simbólica da
superioridade dos valores masculinos, características da força do gênero, competições entre
homens, controle de mulheres e questão de honra. O homem tem que ter o domínio, o controle e
estar sempre em evidência as disputas entre eles sobre o sexo feminino. Entre todos os
desequilíbrios existentes entre os sexos, a violência doméstica é o fato mais cruel dessa
desigualdade, concretizada em razão da superioridade masculina, que não é restrita apenas a força
física.

A Violência doméstica significa agressividade, adversidade, coação, constrangimento,


cerceamento, ameaça, imposição e intimidação. Baseando-se em negar a existência do outro,
negar suas convicções, suas liberdades, bem como em subjuga-los. Eleva-se através da opressão,
da dominação e inclusive, pelo abuso de força, ocorre sempre quando é exercido o
constrangimento sobre uma pessoa a fim de que a obrigue a fazer ou deixar de fazer um ato
qualquer (GERHARD, 2014). Em seu significado mais atual, refere-se ao uso da força física,
intelectual, psicológica, moral e patrimonial, a fim de submeter o outro a fazer algo contra a sua
própria vontade. Controle e posse da mulher, desejo de ter, desejo de não perder, desejo de que
as mulheres não queiram a não ser eles mesmo, são o que deduzem as razões dos atos violentos
de que nos falam os homens agressores. Portanto, nesse contexto que a relação de submissão e
14
domínio existente entre homens e mulheres fez com que originasse a imensa discriminação
destas, colocando-as em condições de inferioridade, preponderante motivo de tê-las
transformado em vítimas da violência doméstica.

A violência doméstica não tem distinção de cor, classe social ou idade, atingindo não só
as mulheres, mas também aos seus filhos, familiares e os próprios agressores. É uma violação
direta aos direitos humanos de mulheres e meninas uma vez que amputa os seus direitos de
desfrutar das liberdades fundamentais, afetando a sua autoestima e sua dignidade.

É importante destacar, que a violência doméstica muita das vezes é subnotificada, o que
é conhecido como cifras negras. Dessa maneira, conforme menciona o Dr. Júlio Gonçalves em
sua entrevista2:

Isso existe, existe muito, isso não só no âmbito dos crimes, nos crimes de violência
doméstica contra a mulher ou violência familiar contra a mulher, isso acontece em
inúmeros outros crimes, há até uma expressão que você deve conhecer para não
mencionar “cifra oculta” no sentido de que enfim, não chega nem a 10% o número de
condenações pela pratica de todos os crimes que acontecem na sociedade. Essa
porcentagem ela é mínima de condenações, a justiça criminal tem que ser muito
questionada nesse ponto de vista. Porque, se você pune no máximo 10% de todos os
crimes que acontecem, você está me dizendo que a justiça criminal é seletiva, que ela
não pude todos, ela pude seletivamente, se ela é seletiva ela não respeita o próprio
princípio da igualdade, sendo seletiva e não respeitando o princípio da igualdade então
ela é ilegítima, se ela é ilegítima, a gente tem que questionar até que ponto ela é
necessária, são uma série de perguntas, isso obviamente acaba acontecendo no âmbito
da violência doméstica contra a mulher).

Portanto, o que poderia ser um fator contribuinte quanto a crença na impunidade, além
do temor, pode fazer com que muitas mulheres não denunciem a violência de que são vítimas.
Assim, entre o número de acontecimentos levados as delegacias e a realidade de mulheres vítimas
de violência doméstica são sempre inferiores a realidade vigente, até porque é difícil denunciar
alguém que reside sob o mesmo teto, pessoa essa que se tem um vínculo afetivo e na maioria das
vezes filhos em comum, e que comumente é o mantedor do lar e da família.

2
GONÇALVES, Júlio. Entrevista concedida a Amanda Pereira Fontoura. Luziânia/GO, 29 de maio. 2019.
[A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" desta monografia].
15
Na maior partes dos casos de violência doméstica, as mulheres em seus relatos falam da
dificuldade de sair da situação de violência, do medo das mudanças, do sentimento de não sabe
o que pode ser melhor para si e muitas vezes para os filhos em comum. E o velho ditado permeia
sempre o discurso “ruim com ele, pior sem ele”. Não só no Goiás como em outros Estados e
países, a mulher ainda sofre a influência do modelo patriarcal, de uma cultura machista
dominante.

De acordo com Gerhard:

O instante em que a mulher diz não querer mais permanecer com o seu agressor é o
momento mais delicado, pois se comprova pela estatística que o sentimento de posse
emerge e a frase do varão aparece: “se não é minha, não vai ser de ninguém”,
remontando ao tempo do patriarcado, onde culturalmente as mulheres eram
consideradas objetos, ou seja, posse do homem (GERHARD, 2014, p.40).

Desta forma, verifica-se que a violência doméstica é uma questão histórica e cultural, a
qual ainda faz parte da realidade de muitas mulheres no Brasil.

2.2. Ciclo da Violência Doméstica.

Embora tenha ocorrido alguns avanços na sociedade atual, ainda se cultiva valores que
incentivam a violência doméstica. Tanto pelo fato de que o homem vê a si mesmo como sendo
superior e mais forte que a mulher, como também em decorrência da desigualdade sociocultural.

A sociedade atual traz consigo entre outros alguns ditados populares que diversas vezes
são ouvidos e repetidos tais como: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, “ele
pode não saber o porquê bate, mas ela sabe o porquê apanha”. Esses mesmos ditados são
costumeiramente repetidos como brincadeira, quando na realidade sempre esconderam uma certa
conivência da sociedade para com a violência doméstica. Quiçá o mais terrível deles seja:
“mulher gosta mesmo de apanhar”, engano gerado pela dificuldade que elas têm de denunciar o
seu agressor. Seja por vergonha, por não ter para onde ir, por temor de não conseguir se manter
sozinha, em decorrência de uma dependência acostumada e ensinada ou ainda por medo. A
realidade é que a mulher resiste em buscar a punição de quem ama ou um dia amou.

16
O sexo masculino fora ensinado desde pequenos a serem fortes, que não devem chorar e
mais ainda que não se deve levar desaforo para casa. Ao longo dos séculos a sociedade construiu
uma imagem de superioridade ao sexo oposto, protegendo a sua agressividade, sendo estes
respeitados pela sua virilidade. No entanto, isso reflete nas famílias. Uma criança que presencia
desde pequena qualquer forma de violência doméstica vai achar natural que na fase adulta isso
ocorra dentro de seus lares. Além disso, também podem gerar em seus filhos a consciência de
que a violência é normal ao não ver o agressor punido, considerando que as crianças que crescem
em um ambiente de violência, quando adultas podem reproduzir as agressões presenciadas ou
sofridas quando ainda criança.

Observa-se, que com a integração da mulher ao mercado de trabalho, se fez necessário a


divisão de tarefas dentro dos lares, o que fez com que alguns homens assumissem certas
responsabilidades dentro de casa. Podendo assim, ter ferido a masculinidade de alguns homens.
Dessa maneira, podendo ter sido mais um fator contribuinte para a violência doméstica no âmbito
familiar, conforme menciona o Dr. Júlio Gonçalves Melo3:

Na Promotoria da defesa da mulher, embora a gente trabalhe muito com a área criminal,
a gente tem condições de fazer defesa de uma minoria, que queira ou não ainda são as
mulheres no Brasil, principalmente em cidades mais ao interior do país, como é o caso
de Goiás e especificamente como é o caso de Luziânia, onde a mulher ainda é muito
coisificada, ela é muito reificada no sentido de ser tratada assim como um objeto
mesmo, é vista como uma pessoa que é menor, que vale menos, ainda é a pessoa contra
qual os homens ainda podem falar mais alto, ainda podem se impor, é visto como
alguém cujo as palavras nem sempre valem muito).

Diante desta situação, surge a violência doméstica no âmbito familiar, uma vez, que o
homem possa ter ficado insatisfeito com as imprecisões no cumprimento dos papeis de gênero.
Tendo em vista, que durante anos, muitas mulheres se sentiam realizadas exclusivamente com o
sucesso do seu companheiro e do desenvolvimento dos filhos. E por muito tempo isso fora
pregado e levado de geração em geração, fazendo com que novas meninas fossem ensinadas que
seu papel como mulher seria esse; sentir-se realizada apenas sendo donas de casa. Em decorrência
disto, de modo infeliz, muitas mulheres em seus pensamentos intrínsecos, creem serem
merecedoras de tais punições por não terem cumprido as tarefas que acreditam ser de sua
exclusiva responsabilidade.

3
GONÇALVES, Júlio. Entrevista concedida a Amanda Pereira Fontoura. Luziânia/GO, 29 de maio. 2019.
[A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" desta monografia].
17
É importante destacar que embora tenha ocorrido diversos avanços na sociedade e ainda
estamos a avançar rumo a uma certa igualdade, nem sempre as vítimas não denunciam o agressor
por não terem condições de sustentar a si e aos filhos sozinhas. Dessa maneira, menciona o Dr.
Júlio Gonçalves Melo4:

É fato que o mercado de trabalho no Brasil ele é predominante ocupado por homens,
não são poucas as pesquisas que mostram cargos de direção, de chefia, de liderança em
grandes empresas são ocupados por homens, a gente tem uma suprema corte no Brasil
composta por onze ministros, sendo que somente duas são ocupadas por mulheres. Se a
gente for ao Superior Tribunal de Justiça, a gente pode ver que essa proporção não
muda, talvez ela piore, não tenho os dados aqui para dizer, e eu arrisco a dizer que em
boa parte dos Tribunais de Justiça, dos tribunais Federias, Tribunais Regionais a
realidade seja bem semelhante, dentro do Ministério Público isso é bastante comum).

Dessa forma, a mulher facilmente pode ser induzida a pensar que não tem capacidade de
cuidar dos filhos e da casa sozinha. Acreditando que um lar ideal de sociedade é aquele que tem
um homem como o referencial, mantedor, e pai, independentemente dos tipos de violência que
possam ocorrer em seu ambiente familiar. O agressor buscar destruir a sua autoestima, fazendo
com que a mulher se submeta a sua vontade. Muitos utilizam críticas constantes e se aproveitam
de que a maioria das relações familiares tem origem em um elo de afetividade. E ainda, para
tiranizar a vítima, tenta isolá-la do mundo exterior, afasta-a da família, denigre sua imagem
perante conhecidos e amigos, proíbe amizades e de trabalhar fora. Assim, a mulher se distancia
das pessoas com as quais poderiam buscar ajuda ou ainda apoio.

O Ciclo da violência é cruel. Primeiro vem o silêncio seguido da indiferença. Depois


surgem as reclamações, reprovações, críticas e começam os castigos e punições. Os gritos
transformam-se em empurrões, tapas, socos, pontapés, num aumento sem fim, ou infelizmente e
comumente com o fim da vida da vítima. As agressões não se rodeiam apenas à pessoa da família,
o homem destrói seus objetos de estimação e a humilha diante dos filhos, pois sabe que estes são
seus pontos fracos e os usa como massa de manobra, ameaçando e maltratando afim de que a
mulher continue no ciclo vicioso de violência e não veja quaisquer possibilidade de sair dele. No
mais, o agressor é agradável socialmente e encantador, mesmo que dentro do seus lares seja o
inverso. Quando ocorrem as agressões tentam justificar a sua falta de controle na atitude da

4
GONÇALVES, Júlio. Entrevista concedida a Amanda Pereira Fontoura. Luziânia/GO, 29 de maio. 2019.
[A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" desta monografia].
18
vítima, e a mesma acaba reconhecendo ser sua a culpa do agressor ter feito o que fez. Nessa
situação; a vítima facilmente encontra explicações e justificativas para o comportamento do
parceiro. Acreditando que é uma fase, que vai passar, que ele anda estressado, trabalhando muito
e com pouco dinheiro. A vítima procura assim agradá-lo, ser mais compreensiva, boa parceira.
Para evitar problemas, afasta-se dos amigos, familiares, empregos quando tem, submetendo-se a
vontade do agressor, só usa as roupas que ele gosta, mesmo que ela não goste, deixa de se maquiar
por que o mesmo diz que não gosta e que não ver tal necessidade e para agrada-lo a vítima mais
uma vez faz suas vontades. Está constantemente assustada pois não saber quando será a próxima
explosão, e tenta não fazer nada “errado”. Torna-se insegura e, para não incomodar o parceiro,
começa a perguntar a ele o que e como fazer tais coisas, tornando-se dependente do agressor,
anulando a si própria, seus desejos, sonhos e realização pessoal. Neste momento a mulher vira
um alvo fácil.

Em seguida as agressões, vem o arrependimento. O agressor pede perdão, faz promessas


de nunca mais fazer tal coisa, não mais agir de tal forma, diz que ama a vítima e que não
suportaria viver sem a mesma e chega até mesmo a chorar, para provar arrependimento. Dá
explicações como quais que as cenas de ciúmes são vistas como prova de amor. Tudo fica bem
até a próxima ameaça, grito e tapa. Repete-se o mesmo ciclo.

Conforme esclarece DIAS (2007, p. 20): “a ferida sara, os ossos quebrados se recuperam,
o sangue seca, mas a perda da auto-estima, o sentimento de menos valia, a depressão, essas são
feridas que não cicatrizam”.

2.3. Formas de Violência Doméstica.

A violência doméstica não tem equivalência com os tipos penais, eis que o rol trazido por
esta Lei não é exaustivo. Da analise do artigo 7º da Lei nº 11.340/20065, depreende-se que este
utiliza a expressão “entre outras”. Desta forma, pode haver outras ações que configurem violência
doméstica e familiar contra a mulher.

Nas palavras de Nadia Gerhard:

5
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br
/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 mai. 2019.
19
O instante em que a mulher diz não querer mais permanecer com o seu agressor é o
momento mais delicado, pois se comprova pela estatística que o sentimento de posse
emerge e a frase do varão aparece: “se não é minha, não vai ser de ninguém”,
remontando ao tempo do patriarcado, onde culturalmente as mulheres eram
consideradas objetos, ou seja, posse do homem. (GERHARD, 2014, p. 40).

Por tanto, há diversas maneiras de violência contra a mulher dos quais, entre as principais,
destaca-se a física, psicológica, sexual, moral e patrimonial.

2.3.1. Violência Física

O artigo 7º, I da Lei n.º 11.340 de 07 de agosto de 20066, compreende que a violência
física entendida como qualquer conduta que ofenda a sua integridade ou saúde corporal, ainda
que a agressão não deixe marcas aparentes, tendo o uso de força física que ofenda o corpo ou a
saúde da mulher, define violência física. Verifica-se que a violência surge quando alguma pessoa
causa ou tenta ocasionar dano usando força física, com algum tipo ou instrumento que possa
causar lesão interna ou externa no corpo da vítima. Caracteriza-se por ser uma espécie de contato
físico, o qual provoque dor, podendo ou não resultar em lesão ou causar marcas no corpo. Têm
se como exemplos desta violência: beliscões, mordidas, puxões de cabelo, cortes, chutes, socos,
queimaduras, entre outros.

Embora na descrição do tipo penal não haja mudanças, a sua amplitude ocorreu no seu
âmbito, de tal forma que a mulher pode ser protegida pela Lei 11.340/06 e também pelo Código
Penal, devido ao artigo 129, a integridade física e a saúde corporal são objetos de proteção
jurídica. Conforme aduz DIAS (2007, p.47): “não só a lesão dolosa mas também a lesão culposa
constitui violência física, pois nenhuma distinção é feira pela Lei sobre a intenção do agressor”.

2.3.2. Violência Psicológica.

A violência psicológica foi inserida através da Convenção de Belém do Pará, igualmente


conhecida como Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência
doméstica. A Lei 11.340, de 07 de agosto de 2006 em seu artigo 7º, inciso II, disciplina o que é
uma agressão psicológica, inclusive, aduzindo que é uma forma de violência, atentemos:

6
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 mai. 2019.
20
Art. 7º - São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: (...)
II - A violência psicológica como qualquer conduta que lhe cause dano emocional,
diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou
que vise desagradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões,
mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância
constante, perseguição.

A vis compulsiva (ameaça) é configurada quando o comportamento típico se dá quando


o agente ameaça, rejeita ou discrimina a vítima, demonstrando prazer quando vê o outro
amedrontado, inferiorizado ou diminuído, e está correlacionada diretamente à outras formas de
violência doméstica, fazendo com que a mulher seja impedida de exercer sua liberdade e
condição distinta ao agressor. Ou seja, trata-se de qualquer ação que provoque dano emocional e
diminuição da autoestima intencionalmente, como por amostra: controlar decisões e
comportamentos da vítima, por meio de ameaça, manipulação chantagem, humilhação,
ridicularização, insulto, exploração ou através de qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à
autodeterminação ou à saúde psicológica, podendo ser através de atos como os de proibição de
usar determinadas roupas, proibição de trabalhar fora de casa, proibição de sair de casa e, até
mesmo, ser forçada a retirar a queixa e outras situações semelhantes. Quanto ao mais, as mulheres
que sofrem violência emocional sendo essa uma forma de violência considerada cruel, pois é
responsável por ocasionar terror psicológico na vítima, atentando-se contra a proteção da
autoestima e saúde psíquica, o que, inclusive, pode levar a depressão, medos, pânicos, quando
não ao suicídio.

A vítima muitas vezes nem se dá conta que agressões verbais, silêncios prolongados,
tensões, manipulações de atos e desejos, são violência e devem ser denunciados. São graves,
tendo em vista que afetam a saúde psicológica da mulher, mesmo que não lhe deixem cicatrizes
ou marcas aparentes. Embora esta seja uma das violências mais frequentes, é uma das menos
denunciadas.

2.3.3. Violência Sexual.

A violência sexual decorre de conceituação legal da norma retro mencionada, senão


vejamos7:

7
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 30 mai. 2019
21
Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: (...)
III - qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou participar de relação
sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a
induza a comercializar ou a utilizar de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça
de usar qualquer métodos contraceptivo ou que force ao matrimonio, a gravidez, ao
aborto ou a prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que
limite ou anule o exercícios de seus direitos sexuais e reprodutivos.

Desta forma, o Código Penal, já trazia o tipo penal no artigo 213 8 que trata sobre o
“estupro consistente em constranger a mulher a conjunção carnal, mediante violência ou grave
ameaça. Entretanto, embora também tenha sido reconhecida pela Convenção de Belém do Pará,
houve uma certa fortaleza da jurisprudência e da doutrina em reconhecer que poderia haver, nos
vínculos familiares, ocorrência de violência sexual.

Conforme DIAS (2007, p. 49), “a tendência sempre foi identificar o exercício da


sexualidade como um dos deveres do casamento, a legitimar a insistência do homem, como se
estivesse ele a exercer um direito”.

A violência sexual ofende a dignidade da pessoa humana da mulher, o direito de escolha


e disposição do próprio corpo, ou seja, o preceito fundamental da liberdade e igualdade matéria,
o que deve ser evitado diante da grande aversão social a esse tipo de violência.

Por conseguinte, violência sexual é qualquer conduta que force a vítima a manter,
presenciar ou participar de uma relação sexual não desejada; que impeça a vítima de utilizar
métodos contraceptivos ou que a force à gravidez, à prostituição, ao casamento, ao aborto, seja
mediante chantagem, ameaça, manipulação ou até mesmo suborno; ou também, que possa limitar
ou anular o exercício de seus direitos reprodutivos ou sexuais. A exemplo: quando o parceiro,
namorado ou marido pratica atos sexuais que não lhe agradam ou até mesmo, quando obriga a
mulher a manter relações sexuais sem que ela aceite.

Entre os prováveis sujeitos ativos do crime está o marido, posto que “uma vez a esposa
não é objeto sexual, possui iguais direitos no contexto da sociedade conjugal, como lhe garante
a Constituição Federal e o Código Civil, conforme entende Nucci, in verbis:

8
BRASIL. Decreto-Lei No 2.848, De 7 De Dezembro De 1940. Código Penal. Disponível em:
< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm>. Acesso em: 06 de agosto de 2019.
22
Não se pode crer que na atual sociedade, inexistindo naturalidade no relacionamento
sexual de um casal, tenha o homem o direito de subjugar a mulher a conjunção carnal,
com o emprego de violência ou grave ameaça, somente porque o direito civil assegura
a ambos o débito conjugal. (NUCCI, 2006, p. 816).

2.3.4. Violência Moral.

A violência moral, pode ser entendida como qualquer conduta que configure calúnia,
difamação ou injúria, conforme dispõe o artigo 7º, V, da Lei 11.340/20069.

Desta forma, Maria Berenice Dias discorre que:

A violência moral encontra proteção penal nos delitos contra honra: calúnia, difamação
e injúria. São denominados delitos que protegem a honra mas, cometidos em
decorrência de vínculo de natureza familiar ou afetiva, configuram violência moral. Na
calúnia, fato atribuído pelo ofensor à vítima é definido como crime; na injúria não há
atribuição de fato determinado. A calúnia e a difamação atingem a honra objetiva; a
injúria atinge a honra subjetiva. A calúnia e a difamação consumam-se quando terceiros
tomam conhecimento da imputação; a injúria consuma-se quando o próprio ofendido
toma conhecimento da imputação. (DIAS, 2007, p. 54).

Sendo assim, ocorre a violência doméstica quando a mulher é injuriada, caluniada ou


difamada. A injuria acontece nos casos em que o agressor ofende a honra subjetiva da mulher,
como a exemplo, chama-la de safada, idiota, burra, entre outras ofensas. Na calunia, é
configurada quando o agressor afirma falsamente que a vítima praticou um crime que não
cometeu, como dizer que a vítima é prostituta que faz programas, ou que roubou seu relógio que
estava no carro. Por fim, a difamação acontece quando o agressor atribui à mulher fatos que
denigram a sua reputação, quando diz que a vítima é bêbada, drogada, entre outros. Insta destacar
que a violência moral pode ocorrer através de contato telefônico ou mesma pela internet.

A violência moral ocorre de forma quase que simultânea, senão no mesmo momento em
que se dá a violência psicológica.

9
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.gov
.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 30 mai. 2019
23
Este tipo de agressão tem um diferencial principal entre as demais que é a dificuldade de
se chegar o caso a justiça, em razão do longo tempo em que já se encontra o estado de violência,
em muitas das situações a mulher sequer compreende que é vítima de violência moral. Este tipo
de afronta a autoestima e o prestigio social, ofende a honra que é um dos bens protegidos pela
Constituição Federal.

2.3.5. Violência Patrimonial

E por fim, a Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 200610, em seu inciso IV, também lastreia o
quem vem a ser a violência patrimonial: “IV - Entendida como qualquer conduta que configure
retenção, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos
pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer
suas necessidades.”

Posto isto, a violência patrimonial refere-se ao ato de subtrair objetos da mulher, quando
o agressor se apodera ou destrói objetos próprios da vítima, podendo ser seus documentos
pessoais, bens, instrumentos de trabalho, como também o ato de vender um determinado bem
sem o consentimento da mulher, apossa-se ou destruir carros, joias, roupas, documentos ou até
mesmo a casa onde vivem.

Dentre outras formas de exemplo, Maria Berenice Dias menciona a:

“violência patrimonial, à subtração de valores, direitos e recursos econômicos


destinados a satisfazer as necessidades da mulher”, a qual dispõe que é inadmissível a
ausência da pena ao violador praticante deste crime, seja contra sua esposa ou
companheira, porque geralmente, o patrimônio é comum do casal, ou ainda uma parente
do sexo feminino.” DIAS (2012, p.72).

Essa violação nada mais é do que a pratica do crime de furto, ocasionando, inclusive, o
agravamento da pena determinada nos termos do artigo 61, II, “f” do Código Penal, se cometido
contra a vítima com quem o executor mantém vinculo efetivo ou familiar.

10
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.gov
.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 12 jun. 2019
24
Esse mesmo autor, entende que “este conceito também se encaixa o não pagamento dos
alimentos”, que se por ventura, o marido ou companheiro deixar de suprir a obrigação alimentícia
quando dispõe de condições financeiras, pode caracterizar-se violação de abandono material.
Nesse caso, não fala somente da obrigatória da responsabilidade alimentícia decorrente de
determinação judicial, mas por disposição do próprio Código Civil (Lei n. 10.406, de 10 de
janeiro de 2002) que dispõe em seu artigo 1566 sobre a mútua assistência e sustento.

De acordo com GERHARD (2014), em relação à etnia das vítimas de feminicídio no ano
de 2013, tem-se: 83,70% brancas, 15,22% pardas e negras e 1,09 indígenas. Quanto à
escolaridade, verifica-se que 72,50% das vítimas cursaram apenas o ensino fundamental, 13,75%
cursaram o ensino médio, 7,50% o ensino superior e 6,25% são apenas semialfabetizadas.

Desta forma, é perceptível que as mulheres com mais instrução possuem maior poder
aquisitivo, então possuem condições de solicitar outros serviços de proteção para resolver suas
demandas judiciais em relação à violência doméstica.

3. CAPITULO 03 – A LEI 11.340/2006 – LEI MARIA DA PENHA.

A Lei nº 11.340/06, decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo ex-presidente


Luiz Inácio Lula da Silva em 7 de agosto de 2006, entrou em vigor no dia 22 de setembro de
2006. Veio com o intuito de corrigir uma perversa realidade, agravada pela falta de uma
legislação própria, assim como pelo tratamento inadequado que as mulheres recebiam ao dirigir-
se à uma delegacia em busca de socorro.

Atualmente no Brasil, verificasse um longo e triste histórico de violência doméstica


contra a mulher, situação esta que chegou ao conhecimento da Comissão Interamericana dos
Direitos Humanos, através do caso emblemático de Maria da Penha Maia Fernandes, onde a
referida corte reconheceu que se tratava de crime de violência doméstica, resultando em pressão
internacional para que o Brasil providenciasse meios para coibir tais condutas.

Quem foi Maira da Penha: Maria da Penha Maia Fernandes, lutou por vinte anos para ver
o seu agressor preso. Maria da Penha é biofarmacêutica, cearense, e foi casada com o professor
universitário Marco Antônio Herredia Viveros. Em 1983 ela sofreu a primeira tentativa de
assassinato, quando levou um tiro nas costas enquanto dormia. Viveros foi encontrado na
25
cozinha, gritando por socorro, alegando que tinham sido atacados por assaltantes. Desta primeira
tentativa Maria da Penha saiu paraplégica. Todavia, as agressões não se encerraram por ai, a
segunda tentativa de homicídio aconteceu meses depois, quando Viveros empurrou Maria da
Penha da cadeira de rodas e tentou eletrocuta-la no chuveiro. Apesar da investigação ter
começado em junho do mesmo ano, a denúncia só foi apresentada ao Ministério Público Estadual
em setembro do ano seguinte e o primeiro julgamento só aconteceu oito anos após os crimes.
Entretanto, em 1991, os advogados de Viveros conseguiram anular o julgamento. Todavia, já em
1996, Viveros foi julgado e culpado e condenado há dez anos de reclusão, mas conseguiu
recorrer. Mesmo após 15 anos de luta e pressões internacionais, a justiça brasileira ainda não
havia dado decisão ao caso, nem justificativa para a demora. Com a ajuda de ONGs, Maria da
Penha conseguiu enviar o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA),
que, pela primeira vez, acatou uma denúncia de violência doméstica. Entretanto, Vivero só fora
preso em 2002, para cumprir apenas dois anos de prisão.

O processo da OEA condenou o Brasil por negligência e omissão em relação à violência


doméstica. Uma das punições foi a recomendações para que fosse criada uma legislação
adequada a esse tipo de violência. E esta foi a sementinha para a criação da Lei. Um conjunto de
entidades então reuniu-se para definir um anti-projeto de lei definindo formas de violência
doméstica e familiar contra as mulheres e estabelecendo mecanismos para prevenir e reduzir este
tipo de violência, como também prestar assistência às vítimas.

Por tanto, a Lei nº 11.340/06, foi criada para coibir e tratar com mais efetividade a
violência doméstica contra a mulher, além de viabilizar tutela jurídica isonômica para tais casos.

Com a entrada em vigor da Lei Maria da Penha a violência contra a mulher deixa
finalmente de ser tratada como um crime de menor potencial ofensivo. Diante da repercussão
internacional do caso Maria da Penha, o Estado elaborou tal lei específica para proteger, evitar e
se for o caso amparar mulheres que ainda são vítimas dessa triste realidade. Com o objetivo de
prevenir a violência doméstica contra a mulher, a Lei Maria da Penha visa aumentar a punição
do agressor e resguardar a vítima por meio das medidas protetivas daquela agressão, seja física
ou psicológica. A Lei nº 11.340/06 também inovou o Código Penal trazendo grandes alterações
pertinentes à violência doméstica, assegurando a proteção da mulher ofendida. Mas, mesmo com
toda essa proteção advinda da Lei, percebe-se que tais medidas de assistência e proteção não são
um meio totalmente eficaz para impedir que a mulher seja agredida.
26
3.1. Medidas Protetivas de Urgência

Quando vítima de violência doméstica a mulher busca a autoridade policial para fazer
uma denúncia objetivando segurança contra o agressor. O legislador estabeleceu medidas
protetivas de urgência na lei com o propósito de afastar o agressor da vítima e também do lar,
buscando a proteção da mulher. Na Lei 11.340/06 em seu artigo 2211, podemos verificar as
medidas protetivas que obrigam o agressor a não estar no mesmo ambiente que a mulher
ofendida, vejamos:

Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou
separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras: I - suspensão
da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos
termos da Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003; II - afastamento do lar, domicílio
ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entre
as quais: a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o
limite mínimo de distância entre estes e o agressor; b) contato com a ofendida, seus
familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; c) frequentação de
determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de
atendimento multidisciplinar ou serviço similar; V - prestação de alimentos provisionais
ou provisórios.

Adiante da garantia determinada pela Lei, o afastamento do agressor visa diminuir os


riscos de possíveis novas agressões, além de contribuir para a integridade física e emocional da
vítima, conforme aduz Alice Bianchini:

A retirada do agressor do interior do lar, ou a proibição de que lá adentre, além de


auxiliar no combate e na prevenção da violência doméstica, pode encurtar a distância
entre a vítima e a Justiça. O risco de que a agressão seja potencializada após a denúncia
diminui quando se providencia para que o agressor deixe a residência em comum ou
fique sem acesso franqueado a ela (BIANCHINI, 2013, p. 167).

Portanto, com o destino de cessar a violência doméstica a vítima ou o agressor podem se


afastar do lar ou do local no qual havia convivência entre eles. Igual afastamento deve ser feito
observando o caso concreto e suas peculiaridades, a fim de que a vítima não seja prejudicada.
Nesse sentido, leciona Maria Berenice Dias:

11
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto
.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 12 jun. 2019
27
Para garantir o fim da violência é possível a saída de qualquer deles da residência
comum. Determinado o afastamento do ofensor do domicílio ou do local de convivência
com a ofendida (art. 22, II), ela e seus dependentes podem ser reconduzidos ao lar (art.
23, II). Também pode ser autorizada a saída da mulher da residência comum, sem
prejuízo dos direitos relativos a bens, guarda de filhos e alimentos (art. 23, III). A
previsão justifica-se. Sendo casados os envolvidos, o afastamento com a chancela
judicial, não caracteriza abandono de lar, a servir de fundamento para eventual ação de
separação. Em qualquer das hipóteses, trata-se de decreto de separação de corpos (art.
23, IV) decorrente de crime e não de outras questões de natureza exclusivamente civil.
(DIAS, 2008, p. 84).

Portanto, no inciso III, as condutas ali tipificadas proíbem o agressor de se aproximar da


vítima, onde o juiz deve fixar um limite mínimo de distância entre a ofendida e o agressor,
ficando vetado o contato por qualquer meio de comunicação. De tal forma, Maria Berenice Dias
entende que:

Outra forma de impedir o contato entre agressor e ofendida, seus familiares e


testemunhas é fixar limite mínimo de distância de aproximação (art. 22, III, a). Para isso
o juiz tem a faculdade de fixar, em metros, a distância a ser mantida pelo agressor da
casa, do trabalho da vítima e do colégio dos filhos. (DIAS, 2008, p. 85).

Salientando o ordenado no artigo 22, em seus incisos II e III, a Lei tenta de várias
maneiras distanciar o agressor da vítima. O afastamento do lar é de suma importância para a
proteção da vítima, tendo em vista que o agressor não estará mais convivendo com a mesma, mas
tais medidas de afastamento não são eficazes quando a vítima acaba aceitando a permanência do
agressor nos mesmos locais em que ela esteja.

A Lei 11.340/2006 em seu artigo 23 e 2412, prevê medidas protetivas de urgência à


ofendida como, por exemplo, o encaminhamento a programa de proteção e atendimento a mulher
em situação de violência doméstica, tanto a vítima quanto aos seus dependentes; garantia de
retorno ao lar, juntamente com seus filhos, após ser determinado o afastamento do agressor;
direito da vítima sair do lar com seus filhos, em situação de perigo ou de permanecer, com o
afastamento ou prisão do agressor. Conforme o artigo 23 da citada Lei, determina ainda a
separação de corpos13:

12
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 jun. 2019
13
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 jun. 2019
28
Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras medidas: I -
encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de
proteção ou de atendimento; II - determinar a recondução da ofendida e a de seus
dependentes ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor; III - determinar o
afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos direitos relativos a bens, guarda dos
filhos e alimentos; IV - determinar a separação de corpos.

Até este momento, em relação aos benefícios da mulher em quanto aos bens patrimoniais,
têm-se: devolução dos bens que o agressor possa ter tirado da vítima; proibição temporária do
agressor alugar ou vender imóveis pertencentes ao casal; suspensão de procurações que a vítima
venha ter dado ao agressor; pagamento de caução provisória à ofendida por prejuízos materiais
em razão das agressões cometidas, por meio de depósito em juízo; inclusão da mulher no cadastro
de programas assistenciais do Governo Municipal, Estadual e Federal; quando for servidora
pública da Administração Direta ou Indireta, terá acesso prioritário a remoção, bem como acesso
aos serviços de contracepção de emergência, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
e aborto previsto em Lei, conforme dispõe a Lei 11.340/200614, vejamos:

Art. 24. Para a proteção patrimonial dos bens da sociedade conjugal ou daqueles de
propriedade particular da mulher, o juiz poderá determinar, liminarmente, as seguintes
medidas, entre outras: I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à
ofendida; II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos de compra,
venda e locação de propriedade em comum, salvo expressa autorização judicial; III -
suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao agressor; IV - prestação de
caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos materiais decorrentes
da prática de violência doméstica e familiar contra a ofendida.

Com a entrada em vigor da Lei Maria da Penha, as mulheres vítimas de violência


doméstica, ao registrarem a ocorrência, poderão requerer ao juiz o deferimento das medidas
protetivas de urgência. As medidas protetivas tem como principal objetivo afastar o agressor da
vítima, fazendo com que evite a continuidade ou ainda o agravamento da violência. O pedido
será encaminhado ao juiz, pela autoridade policial, dentro do prazo de 48 horas. Ao recebe-lo, o
juiz deverá decidir em 48 horas. Ainda, a medida protetiva de urgência poderá ser requerida por
intermédio do Ministério Público, da Defensoria Pública, como também, pela própria vítima, sem
a necessidade de advogado.

14
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 jun. 2019
29
Impedir o agressor e garantir a segurança pessoal e patrimonial da vítima e seus filhos
está a cargo tanto da Polícia como do Juiz e do próprio Ministério Público. Devendo ambos agir
de modo imediato e eficiente. A autoridade policial deve tomar as providências legais cabíveis
no momento em que tiver conhecimento de episódio que configura violência doméstica. Devendo
o mesmo compromisso o Ministério Público de requerer a aplicação de medidas protetivas de
urgência ou ainda a revisão das que já foram concedidas. Todavia para o juiz agir deverá o mesmo
ser provocado, sendo que as providências de natureza cautelar estão condicionadas à vontade da
vítima, sendo da vítima a iniciativa de pedir proteção em sede de tutela antecipada.

Para que a mulher possa usufruir dessas medidas, se faz necessário a constatação da ação
de modo que se especifique a violência no campo das relações domésticas ou familiares dos
abrangidos, conforme entendimento de Souza e Fonseca (2006, p.4). Todavia, em atenção ao
princípio da efetividade da lei, basta que a vítima procure uma autoridade policial e narre a
situação que está acometida, bem como solicite as medidas de proteção do Estado, para que o
Estado-Juiz lhe conceda esse amparo.

3.2. Crime De Descumprimento Das Medidas Protetivas De Urgência

Com efeito, ante a atipicidade penal do descumprimento de medida protetiva de urgência,


rechaçava-se a possibilidade de lavratura da prisão em flagrante em caso de violação da medida
judicial, admitindo-se tão somente a decretação da prisão preventiva, conforme disposto no artigo
20 da Lei 11.340/06 e no artigo 303, inciso III do Código Processual Penal, o que ainda sim,
poderia se mostrar suficientemente célere para deter uma ameaça iminente à vida ou a integridade
física e psíquica da mulher, uma vez que o ofensor permanecia livre até a apreciação judicial da
representação por sua prisão preventiva.

Entretanto, com a intenção de assegurar maior efetividade à Lei Maria da Penha, no que
concerne a política criminal de proteção a mulher em situação de violência doméstica e familiar,
há pouco tempo fora editada a Lei 13.641/2018, que teve vigência a partir de 04 de abril de 2018,
que acrescentou o artigo 24-A na Lei 11.340/06, tipificando a conduta de “descumprir decisão
judicial que defere medidas protetivas de urgência prevista em Lei, independente de outras
sanções cabíveis.

Portanto, tratando-se de uma norma penal incriminadora, pode-se concluir que a novidade
legislativa se sujeita ao princípio da irretroatividade da lei penal, consagrado no artigo 5º, inciso
XXXIX e XL, da Constituição Federal.
30
Diante do exposto, o crime previsto no artigo 24-A da Lei 11.340/06 visa tutelar
primariamente a administração da justiça, ante a violação da decisão judicial pelo sujeito ativo e,
secundariamente, a incolumidade da mulher vítima de violência doméstica e familiar.

Devendo ainda ser verificado o cabimento da prisão em flagrante, a concessão de fiança,


a competência e o rito para processar e julgar. Vejamos:

Consoante apregoa o § 1º do art. 24-A da Lei 11.340/0615: “a competência para decretação


da medida não se restringe ao juízo criminal, configurando-se o crime independentemente da
competência cível ou criminal do juiz que tenha deferido as medidas.”

Importante frisar, que para ser considerada violada a medida protetiva de urgência, e,
portanto configurado o delito, não basta a mera ciência quanto à solicitação da protetiva de
urgência por parte da vítima ofendida ou mesmo a existência de decisão impondo-a, sendo
primordial que o investigado seja devidamente intimado para tomar ciência da concessão judicial
da Medida Protetiva.

Um fato interessante a ser destacado é que em razão da pena máxima ser de 2 dois anos,
levaria a conclusão de que se trata de infração de menor potencial ofensivo e, portanto, de
competência dos Juizados Especiais Criminais, conforme a Lei 9.099/95. Ocorre, que o artigo 41
da Lei 11.340/06 afasta a incidência da Lei 9.099/95 em relação aos crimes e contravenções
penais praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independente da pena
cominada.

Importante destacar que o STF, no bojo da ADC Nº 19 16, declarou a constitucionalidade


do artigo 41 da Lei 11.340/06, ao afastar a incidência da Lei 9.099/95 nos crimes de violência
doméstica contra a mulher, reconhecendo portanto, sua compatibilidade com o artigo 226, § 8º
da Carta da República, que prevê a obrigatoriedade de o Estado adotar mecanismos que coíbam
a violência no âmbito das relações familiares.

15
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 jun. 2019
16
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 19. 1. T. Relator: Ministro
Marco Aurélio, j. 09/02/2012. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 12 maio 2014a. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28ADC%24%2ESCLA%2E+E+19%2E
NUME%2E%29+OU+%28ADC%2EACMS%2E+ADJ2+19%2EACMS%2E%29&base=baseAcordaos&url=http:
//tinyurl.com/bxc8b7q >. Acesso em: 12 de junho 2019

31
Portanto, a razão de ser uma Medida Protetiva é justamente tutelar a integridade física e
psíquica da mulher, evitando que sofra qualquer tipo de violência. Pois, a partir do momento em
que for descumprida a Medida Protetiva, demonstra-se evidente afronta à administração da
Justiça, consubstancia-se também numa espécie de violência contra a mulher.

Dessa maneia, a tipificação penal do crime de descumprimento de medida protetiva de


urgência representou um fortalecimento da proteção estatal a mulher face ao contexto de histórica
e sistemática violência doméstica e familiar, visando conferir maior efetividade às Medidas
Protetivas de Urgência, em consonância com o preceituado no artigo 7º alínea “e”, da Convenção
de Belém do Pará (Decreto nº 1973, de 01/08/1996)17, segundo qual o Brasil assumiu o
compromisso de tomar todas as medidas adequadas, inclusive legislativas, para modificar ou
abolir lei e regulamentos vigentes ou modificar práticas jurídicas ou consuetudinárias que
respaldem a persistência e a tolerância da violência contra a mulher.

4. CAPITULO 04 – MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NO ÂMBITO DE


LUZIÂNIA.

As Medidas Protetivas de Urgência são providências garantidas por Lei especifica, às


vítimas de violência doméstica, que tem por finalidade a garantia a sua proteção e de sua família.
Por se tratar de medida de urgência a vítima pode solicitar a medida por meio da autoridade
policial, ou do Ministério Público, que vai encaminhar o pedido ao juiz. E assim, a Lei prevê que
a autoridade judicial deverá decidir o pedido no prazo de 48 horas.

Cumpre mencionar a efetividade das Medidas Protetivas de Urgência no âmbito de


Luziânia, vez que se faz necessário verificar seu possível avanço quanto a proteção das mulheres
vítimas de violência doméstica.

Dessa forma, fora feito uma pesquisa que permitiu verificar a quantidade de pedidos de
Medidas Protetivas de Urgência entre o segundo semestre de 2018 aos cinco primeiros meses de
2019, até maio. E foi verificado um aumento significativo nos pedidos das Medidas Protetivas
de Urgência, vez que a pesquisa fora levantada um mês a menor que no ano anterior e já se nota
um aumento quase que se passando o segundo semestre.

17
BRASIL. Convenção de Belém do Pará. Decreto nº 1973, de 01/08/1996. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1996/D1973.htm>. Acesso em 06 de agosto de 2019.
32
Na referida pesquisa, na data de 22/05/2019, considerando os relatórios gerenciais da
comarca de Luziânia do período de 01/06/2018 a 22/05/2019, no períodos de junho, julho, agosto,
setembro, outubro, novembro e dezembro de 2018 houveram, respectivamente, quarenta e três,
cinquenta e sete, noventa e quatro, oitenta e dois, cento e dois, oitenta e três e oitenta e três
solicitações de medidas protetivas, totalizando, portanto, quinhentos e quarenta e quatro pedidos.
Em relação aos meses de janeiro, fevereiro, março, abril e maio de 2019 houveram,
respectivamente, duzentos e oito, oitenta e quatro, sessenta e dois, oitenta e sete e quarenta e três
solicitações de medidas protetivas, totalizando, portanto, quatrocentos e um pedidos.

Portanto, fora verificado um aumento, significativo, devendo ser levado em conta que
entre o período do dia 20/12 à 10/01 tem-se o recesso forense no Poder Judiciário, devendo ser
considerado então o aumento relativo ao mês de janeiro.

Todavia, verificando tal aumento, poderá se ter duas conclusões, tais quais: ou as medidas
protetivas de urgência tem se mostrado eficazes ou seu aumento decorre de um maior
conhecimento das vítimas que antes não conheciam seus direitos e garantias.

A verdade é, que de acordo com o gráfico, os pedidos de medidas protetivas de urgência


no âmbito de Luziânia vêm tendo um aumento significativo. Entretanto, não podemos garantir
que a Lei tenha sua eficácia no sentido total, vez que muito ainda temos a percorrer, mas podemos
acreditar que a Lei tem chegado ao conhecimento de mais mulheres, e que muitas tem tentado
sair do papel de vítima e dominas por homens machista por uma cultura de séculos e tem buscado
ser a protagonista de sua própria “estória”. Nota-se que, embora muito ainda precisa ser
avançado, verifica-se a possibilidade de melhora na diminuição de violência doméstica no âmbito
familiar em futuro próximo.

4.1. Criação da DEAM – Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher.

As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, são unidades especializadas da


Policia Civil para atendimento às mulheres em situação de violência. Suas atividades tem caráter
preventivo e repressivo, devendo realizar ações de prevenção, apuração, investigação e
enquadramento legal, as quais dever ser pautadas no respeito pelos direitos humanos e pelos
princípios do Estado Democrático de Direito. Com a promulgação da Lei Maria da Penha, as

33
DEAMs passam a desempenhar novas funções que incluem, por exemplo, a expedição de
medidas protetivas de urgência ao juiz no prazo máximo de 48 horas.

A primeira delegacia da mulher, DEAMs, surgiu em São Paulo, no ano de 1985,


compondo a estrutura da Policia Civil. Os seus integrantes eram quase que na totalidade
mulheres. Tais órgãos passaram a ter suas ações voltadas para a prevenção e investigação nos
casos que envolvessem mulheres que, de alguma forma, tivessem sido vítimas de violência
derivada da relação de casal, em seu sentindo mais amplo. O intuito era atender de forma mais
humanizada as vítimas que sofreram agressões físicas e sexuais de desconhecidos, mas os
atendimentos eram na sua maioria de mulheres agredidas pelos seus próprios companheiros.

As delegacias de atendimento a mulher, é um importante instrumento de combate a


violência contra a mulher e como forma de repudio a maneira como elas eram tratadas nas
delegacias comuns, que em sua quase totalidade eram administradas por homens que, não raro,
apresentavam grande dificuldade de reconhecer como crime a violência doméstica, preferindo
entender agressões ocorridas no lar como meros desentendimentos familiares.

As delegacias das Mulheres, como se convencionou chamar, nasceram com o desiderato


de, num primeiro momento, criar um ambiente mais acolhedor para a vítima, de forma que ela
fosse tratada com mais atenção, mais respeito. A finalidade das DEAM não é apenas de punir os
agressores, mas também amparar as vítimas, explicando e defendendo seus direitos, estimulando
as denúncias das agressões, e ainda realizar estudos para identificar o perfil dos ofensores.

A lei Maria da Penha em seu art. 8º, IV18, prevê “a implementação de atendimento policial
especializado para as mulheres, em particular nas Delegacias de Atendimento à Mulher”.

Cumpre destacar, que as denúncias não precisam ser feitas exclusivamente nas delegacias
de mulheres, uma vez que todas as delegacias podem receber a denúncia e após transferir o caso
para as especializadas.

Todavia, certo é que não se conseguiu chegar a um modelo ideal voltado para a proteção
da mulher, é inegável que os avanços na proteção da mulher ofendida são de suma importância

18
BRASIL. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 18 mar. 2019
34
para enfrentar a violência desferida contra elas. O enfrentamento dessa problemática foi por
muito tempo esquecido, ignorado, sem que a sociedade civil organizada se apercebesse que a
violência doméstica é sim, sem dúvida, um caso de extrema gravidade e que clamava por uma
atuação mais dinâmica por parte do Poder Público.

As providências que as autoridades policiais devem tomar quando se deparar com


situações de violência doméstica estão elencadas na citada Lei 11.340/06.

A proteção policial é entendida como o encaminhamento da vítima ao hospital, transporte


para um local seguro, acompanha-la até o local dos fatos para retirar seus pertences e ainda
informar seus direitos e serviços disponíveis. Entretanto para o efetivo cumprimento das regras
estipuladas na Lei Maria da Penha, é preciso que as delegacias sejam estruturadas com
profissionais qualificados e para isso o Estado deve investir na segurança pública e no
aprimoramento dos policiais civis e militares.

4.2. Entrevista com o Promotor de Justiça Dr. Júlio Gonçalves Melo

No dia 29 de maio de 2019, às 14:00 hrs, em Luziânia, fora feita uma entrevista com o
Dr. Júlio Goncalves Melo, Promotor titular da 2º Promotoria de Violência Doméstica contra a
mulher, no qual o mesmo se prontificou a responder nove perguntas, referentes a sua atuação a
frente da 2º promotoria de Violência Doméstica. Casos marcantes, relevância temática entre
outras, vejamos:

Conforme menciona o Dr. Júlio Gonçalves, titular da 2º Promotoria de Violência


Doméstica de Luziânia, desde a criação da Lei 11.340/06, verifica-se que houve uma possível
melhora nos casos de violência doméstica contra a mulher. Dessa forma, a Lei foi um grande
ganho e de fato, ela tem contribuído para no mínimo diminuir ou se não reduzir esses tipos de
crimes, a partir da criação da Lei os autores passam a ser mais severamente responsabilizados.
Tendo assim, a Lei sido um ganho.

Menciona sobre a retratação das mulheres vítimas de violência doméstica, enquanto ao


homem ser o mantedor do lar, descrevendo que embora não seja a causa determinante, pode sim
ser um dos fatores, devendo este motivo ser levado em conta, uma vez que muitas mulheres são
35
dependentes economicamente do varão, o que pode contribuir para a dificuldade das vitimas
denunciar seus parceiros.

Descreve ainda a sua visão quanto ao mercado de trabalho atualmente, em que o mercado
de trabalho no Brasil é predominantemente ocupado por homens, não sendo poucas as pesquisas
que mostram cargos de direção, de chefia e de lideranças em grandes empresas sendo ocupados
por homens, o que deve ser também levado em consideração.

Por fim e não menos importante, o Dr. Júlio Gonçalves Melo, promotor fala um pouco
sobre sua atuação a frente da 2º Promotoria de Violência Doméstica, descrevendo seus pontos
positivos e os pontos negativos de atuar nesta promotoria, fala sobre algum caso que vivenciou
e que mais te chamou a atenção e descreve um pouco o dia a dia dos trabalhadores a frente da
promotoria.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A violência doméstica contra a mulher no âmbito familiar, parecia um assunto silencioso


e muita das vezes invisível dentro da sociedade atual, ocorre que a cada dia em decorrência dos
diversos casos midiáticos em razão da violência contra a mulher, verifica-se um possível, lento,
mas um avanço na proteção da mulher.

Se for verificado ao longo da história até os dias atuais, descobriremos enumerados casos
que começaram em seus lares, e ali mesmo fora encerrado, seja com a morte da vítima, seja com
o costume em acreditar que a mulher deveria ser corrigida ou até mesmo punida quando o homem
agressor não gostava de algo. Todavia, atualmente essa situação tem tido melhoras significativas,
e tudo em decorrência da criação da Lei 11.340/2006, Lei Maria da Penha, que surge em especial
como uma resposta da pressão internacional, em razão do reconhecimento pela Organização dos
Estados Americanos do caso Maria da Penha Fernandes Maia, sua situação ficou reconhecida e
resultou em recomendação para que o Brasil adotasse políticas para proteção contra a violência
doméstica em descredito da mulher.

Diante da situação, procurando acolher uma recomendação internacional e sanar uma


questão histórica e social, surgiu a Lei 11.340/2006, como ferramenta de viabilização de melhor
proteção estatal nos casos de violência doméstica contra a mulher.
36
A criação da Lei, incentivou as mulheres a pedir proteção estatal e colocar um fim nas
violências sofridas dentro dos seus lares. Devendo o Estado por tanto, criar e assegurar maior
proteção as mulheres que sofrem violência doméstica no âmbito familiar.

Talvez seja muito difícil afirmar uma única solução para os casos ocorridos, mas
certamente a criação de políticas públicas conforme a própria Lei já preconiza, traria maiores e
mais avanços na Lei, seja criando projetos voluntários que envolvam mulheres que sofreram
algum tipo de violência doméstica, bem como, trazendo oficinas que conscientizam as mulheres
de que elas não podem ficar caladas, e menos ainda, não são obrigadas a viverem uma realidade
em que são colocadas diuturnamente como merecedoras dos castigos ou violência que sofrem
por seus parceiros. Ou seja, a criação de políticas públicas reais de acolhimento das vítimas, pois
verifica que embora já exista Lei a violência doméstica contra a mulher se mostra a cada dia
como um atual e grave problema de cunho social e com proteção ineficiente. Facilmente, verifica-
se que muitas mulheres temem denunciar seus companheiros para não se arriscarem de
perseguições futuras, vez que muitas embora sejam vítimas preferem silenciar, continuando ao
lado do agressor do que acreditar que as medidas protetivas de urgência prevista na Lei são de
fato eficazes.

A Lei Maria da Penha trouxe diversas inovações, dentre elas a inaplicabilidade da Lei no
9.099/95, ao excluir a Lei no 11.340/06 do âmbito dos Juizados Especiais Criminais, visto que a
violência doméstica não constitui crime de menor potencial ofensivo, os quais são competência
deste Juizado, visando à efetiva proteção da mulher.

Neste viés, apesar das inovações trazidas pela Lei Maria da Penha, após entrar em vigor,
almejou-se que está se tornasse realmente efetiva e eficaz no combate à violência a mulher. No
entanto, para isso, percebe-se que é necessário que todos os componentes da Rede De
Atendimento Da Segurança Pública ajam de forma integrada e conjunta, com o objetivo de atingir
a qualidade de vida e a segurança que é necessária a todos.

Diante de todo o elencado, conclui-se que as medidas protetivas de urgência no âmbito


de Luziânia se mostram ineficazes, no âmbito prático. Uma vez que seria necessária uma
verdadeira criação de políticas públicas de conscientização para as mulheres vítimas de violência
doméstica no âmbito familiar. Dessa maneira, embora existam mesmo que em casos isolados a
eficácia das medidas protetivas de urgência, muito ainda se tem a avançar para que a Lei se torne
no âmbito pratico satisfatória.
37
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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12 de junho de 2019,

38
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combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. São Paulo: Revista dos Tribunais,
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GERHARD, Nadia. Patrulha Maria da Penha. 1. ed. Porto Alegre: Age Editora, 2014.

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contemporaneidade. Acesso em: 15 de junho de 2019. Disponível em:
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Supremo Tribunal Federal. ADC 19: dispositivos da Lei Maria da Penha são constitucionais.
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portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=199845>. Acesso em: 12/06/2019.

Supremo Tribunal Federal. Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 19. 1. T. Relator:


Ministro Marco Aurélio, j. 09/02/2012. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 12 maio 2014a.
Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.
asp?s1=%28ADC%24%2ESCLA%2E+E+19%2ENUME%2E%29+OU+%28ADC%2EACM
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>. Acesso em: 12 de junho 2019

39
APÊNDICE

• APÊNDICE – A (Entrevista Com o Dr. Júlio Gonçalves).

Amanda – AM Doutor Júlio Gonçalves Melo – DR.J

AM- Fale um pouco sobre a Promotoria da Maria da Penha. Quais são as dificuldades e os pontos
positivos, no âmbito de Luziânia.

DRJ. – Os pontos positivos e os negativos? Sim. Bom, a 2º Promotoria de Luziânia, era uma
Promotoria especializada na defesa da mulher, eu particularmente prefiro chamar de Promotoria
da defesa da mulher do que Promotoria de Violência Doméstica, ou familiar contra a mulher ou
de Promotoria de Maria da Penha, embora, possa ser até mais correto do ponto de vista da
atribuição que foi fixado pelo Colégio de Procuradores assim para Promotoria de Justiça, eu acho
mais adequado falar em defesa da mulher. Ela era uma Promotoria com uma atribuição única,
era só para esse tipo de papel, era só para esse trabalho, mas hoje, em razão de uma reformulação
que todos nós fizemos, ela se tornou uma Promotoria com distintas atribuições, então há tanto
uma defesa da mulher, quanto a defesa do meio ambiente. A Promotoria de Justiça se divide e dá
atenção a essas duas atribuições, tanto ao meio ambiente quanto a defesa da mulher. Bem, os
pontos positivos: para mim eu nunca fui muito ligado a essa atuação mais de cunho repressor por
parte do Ministério Público, essa coisa muito persecutória, punitiva, que é uma tarefa muito
importante que o Ministério Público tem a desempenhar, mas que não me atrai exatamente de
forma mais forte. E na Promotoria da defesa da mulher, embora a gente trabalhe muito com a
área criminal, a gente tem condições de fazer defesa de uma minoria, que queira ou não ainda
são as mulheres no Brasil, principalmente em cidades mais ao interior do país, como é o caso de
Goiás e especificamente como é o caso de Luziânia, onde a mulher ainda é muito coisificada, ela
é muito reificada no sentido de ser tratada assim como um objeto mesmo, é vista como uma
pessoa que é menor, que vale menos, ainda é a pessoa contra qual os homens ainda podem falar
mais alto, ainda podem se impor, é visto como alguém cujo as palavras nem sempre valem muito.
Então, os pontos positivos apesar de todas essas dificuldades é poder estar atuando ao lado de
uma minoria com a qual eu me identifico mais, e que não necessariamente se faz a partir da
repressão de alguém, punindo uma pessoa, mas, pode se fazer muitas vezes pela reconstrução do
lar, pela reconstrução da família, pela restauração da dignidade da mulher, as vezes elas podem

40
ser ouvidas aqui no Ministério Público, ela pode saber que o homem não pode fazer tudo dentro
de casa, e que, sem paternalismo, ela pode contar com alguém, com o órgão do próprio Estado
que está ali também para fazer a proteção dela. Os pontos negativos: É que é muito difícil você
lutar com uma cultura que é extremamente machista, que é a cultura do nosso país, hoje em dia,
especificamente hoje em dia, por conta da nossa conjuntura política, principalmente em âmbito
nacional, há um discurso predominantemente machista, inclusive dentro do nosso governo
Federal hoje, a uma predominância de gênero muito nítida que se institucionaliza hoje em dia até
mesmo por conta do próprio Estado, por conta do governo o que torna muito mais difícil dentro
de uma cultura que já é machista a gente trabalhar em favor da defesa da mulher, e isso a gente
verifica os reflexos disso dentro dos casos que a gente atua, muitas vezes as próprias mulheres
não se veem como vítimas, ou se veem no primeiro momento, depois se arrependem como se
elas tivessem causado algum mal ao cara ou ao homem no qual havia a agredido, ofendido, etc.
e a gente tem que muitas vezes lutar contra aquilo que até inconscientemente está dentro das
próprias mulheres, no sentido de que realmente elas não pensam como essas palavras “eu sou
menos”, mas no sentido de que elas não podem exagerar, não podem se defender tanto, porque
as vezes, parece, que elas chegam a pensar que certas agressões, certas ofensas são justificadas,
do tipo; ah ele estava bêbado, ele estava muito bravo, eu dei razões, eu provoquei ciúmes nele, e
por ai vai. Então, os muitos pontos negativos, muitas vezes é, no interior do país, numa cidade
muito pequena, com uma ranço de coronelismo muito grande, e dentro de uma estrutura maior
do nosso governo federal, em âmbitos nacional onde o machismo está institucionalizado, uma
grande dificuldade que se produz nos casos concretos em que a gente atua, eu diria, que, é
exatamente estas, a ponto de as vezes até as próprias mulheres ainda que inconscientemente
realmente se verem no papel de inferior ao homem e não ter tantos direitos quanto os homens.

AM – Quais são as dificuldades encontradas pela Promotoria em ocorrências de violência


doméstica contra a mulher, (provas fechadas, testemunhas), tendo só a palavra da vítima como
uma verdade?
DR.J. – Bem, as dificuldade eu meio que já comecei a introduzir, que são essas questões de
alguma maneira estão institucionalizadas, fazem parte da nossa cultura e que tem reflexos no dia
a dia dentro dos caso que a gente trabalha, tem reflexos dentro do dia a dia da família, e isso
repercute inclusive nos processos que a gente instaura aqui perante o poder judiciário. Bem, a
dificuldade em ter somente a palavra da vítima, da mulher como elemento de prova. Em primeiro
lugar a gente tem que ressaltar que isso decorre muitas vezes da situação na qual esse tipo de
violência é cometida, esse tipo de violência normalmente é cometida dentro de casa, no âmbito
41
da intimidade, no âmbito da privacidade, onde ali o homem realmente tende a crescer, tende a se
sentir o dono do espaço, proprietário não só da casa, o cara que mantem a casa, o homem que
sustenta a casa, o proprietário da mulher, o proprietário do corpo da mulher, dono da história da
mulher, o senhor do destino da mulher. E uma atitude como essa que já é naturalmente covarde,
só pode ser feita de forma escondida, sem outras pessoas para verem, de tal forma que é um
pouco natural e absolutamente compreensível o fato de em muitas situações a gente ter a palavra
da mulher. A grande dificuldade disso, é que no ponto processual que tá com todas as razões,
que isso não é errado, que está cercado de muitas garantias, inclusive a favor do acusado, é muito
difícil a gente trabalhar com apenas um único elemento de prova e poder convencer seja um juiz
de direito, togado, seja um jurado que é um juiz leigo nos crimes dolosos contra a vida. A questão
é mais de valoração da prova, do quanto aquela prova vale e do quanto ela é segura o suficiente
para fundamentar a condenação de alguém. Então o problema seria mais no ponto de vista
processual, e o que se agrava diante daquilo que eu te falei; normalmente as mulheres voltarem
atrás daquilo que inicialmente elas disseram e começarem a desdizer certas coisas que lá no
início, no calor das emoções quando as agressões realmente aconteceram elas disseram. Então, a
dificuldade acaba sendo mais uma questão de prova e obviamente, a consequência maior disso
tudo não é simplesmente deixar de condenar alguém, a consequência é que é mais um caso de
uma mulher que não se emancipou e se manteve naquela condição de submissa, de sujeita
inclusive a autoridade de um homem que cometeu violência contra ela. A consequência pior é
esta.

AM – De acordo com o que o Dr. falou, o senhor acredita que muitas mulheres e retratam, por
serem a maioria ou pelo menos metade serem dependente economicamente do acusado?

DR.J. – Certamente, isso tem grande influência, eu não digo que essa seja a causa determinante,
eu acho que isso é um dos fatores, é um dos motivos que a gente pode levar em conta. É fato que
o mercado de trabalho no Brasil ele é predominante ocupado por homens, não são poucas as
pesquisas que mostram cargos de direção, de chefia, de liderança em grandes empresas são
ocupados por homens, a gente tem uma suprema corte no Brasil composta por onze ministros,
sendo que somente duas são ocupadas por mulheres. Se a gente for ao Superior Tribunal de
Justiça, a gente pode ver que essa proporção não muda, talvez ela piore, não tenho os dados aqui
para dizer, e eu arrisco a dizer que em boa parte dos Tribunais de Justiça, dos tribunais Federias,
Tribunais Regionais a realidade seja bem semelhante, dentro do Ministério Público isso é
bastante comum. Então, assim, de fato as mulheres não tem muito espaço no mercado de trabalho,
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e sem ser muito economicista, mecanicista aqui, isso se reproduz dentro do ambiente familiar,
isso colocar a mulher em uma situação de maior vulnerabilidade em relação ao homem que faz
a provisão das coisa dentro de casa, isso torna muito mais difícil ela levar para frente certas
denúncias, porque isso pode repercutir na qualidade de vida dela, dos filhos, e daí por diante, e
paralelamente nós temos outras situações de ordem histórica, cultural, até mesmo psicológica,
que enfim, contribuem para isso.

AM – É necessário enxergar a vítima como alguém que se insere no ambiente familiar e que
sofre violência. Desta forma, a condenação do juiz não significa necessariamente que o caso
encerrou. Em que medida isso irá prevenir uma nova onda de violência?

DR.J. – Bem a condenação apenas não basta, por isso que eu gostaria mais que chamasse a
Promotoria mais de Defesa da mulher, do que de combate a violência doméstica e familiar contra
a mulher, porque isso não é uma questão que se resolve só por meio do direito penal condenando
pessoas, condenando autores de violência doméstica contra a mulher no âmbito criminal. Isso é
uma questão que envolve política pública, é preciso que essa política pública ela seja levada a
efeito no âmbito das três unidades da federação, não só pelo governo federal que hoje em dia eu
acho que as esperanças são muito poucas, mas assim, até mesmo no âmbito estadual e
principalmente no âmbito local seja por meio da municipalidade, por meio do executivo
municipal, mas por meio dessas instituições fora do executivo, como o Ministério Público, as
vezes o próprio poder Judiciário e mais do que isso, por meio de organizações sociais, por meio
de movimentos sociais que fazem a defesa de mulheres, fazerem mais lutas , mais organizações
por mais reinvindicações, mais pressões, no sentido haver uma conscientização social muito
maior no sentido de que a mulher ainda tem o seu local de espaço para conquistar, que ele ainda
não foi conquistado. E essa questão da igualdade, está garantida na Lei, pelo menos na
Constituição de 88, pelo menos nos planos do fato, na realidade concreta a gente sabe que é um
abismo entre o que diz a Constituição e o que acontece na realidade e que a igualdade ela é muito
mais uma meta a se atingir do que um dado, uma situação que está ou não presente. A igualdade
é uma coisa que vai se renovando, que vai sendo conquistada não só aos poucos mais ao mesmo
tempo reconquistada quando se chega a um determinado nível, então, essa é uma luta que não se
pode parar nunca, e isso não se faz só condenando pessoas no âmbito criminal, para isso é preciso
tanto políticas públicas quanto uma atuação civil, fora do Estado, mas assim, principalmente
levada em efeito por movimentos de mulheres mesmo, elas tem de ser as protagonistas da
mudança do seu próprio destino, sem paternalismo por parte do Estado que tá praticamente
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ocupado por homens, então seria até contraditório falando de forma bem rasa, mas me parece
que realmente condenar criminalmente lesões corporais e ameaça que é algo grosso dos crimes,
só isso não basta.

AM – Em seu tempo de atuação a frente da 2º Promotoria o Dr. já prosseguiu com o pedido das
medidas protetivas de urgência mesmo a vítima tendo pedido para serem revogadas? Se sim, por
qual motivo?

DR.J. – Eu imagino que sim, eu não tenho em minha memória algum caso concreto, mas eu
imagino que sim. Normalmente, quando elas chegam em um segundo momento pedindo a
retirada dessa medida a gente tenta verificar a partir das palavras dela qual realmente é a situação,
se de alguma maneira ela está sendo induzida, seja pelo advogado do réu, o que pode acontecer,
seja por conta do fato de que ela pode estar sendo intimidada por familiares do réu, seja porque
pode ser pode conta dessas razões econômicas que foram mencionadas, em razão da dependência.
A gente precisa ter muito cuidado porque as vezes pode ser também não que ela estivesse ou
esteja mentindo, não é isso, mas que surgiu depois da aplicação das medidas protetivas, muitas
vezes um descumprimento das medidas protetivas que hoje é crime na Lei de violência
doméstica, então, muitas vezes em razão das consequências que surgem na aplicação das medidas
protetivas, muitas vezes surgem realmente uma oportunidade para que a família se reorganize,
para que o relacionamento entre o homem e a mulher ali de alguma maneira ele se refaça, e é
muito perigoso mas não é descartável a possibilidade das coisas recomeçarem, então, assim, me
parece que essa é uma oportunidade que é deixada pela própria Lei, eu acho que isso é valido em
alguns momentos, apesar de alguma agressão que deve ser punido, se for lesão corporal vaio ser
punida, o STF já entendeu que é ação penal pública incondicionada, mas há certas situações as
quais se o Estado tirar um pouco o braço repressor dele que só vem confirmar um pouco o que a
gente já vem dizendo, a atuação tem que ser muito pra além do direito penal, se o Estado tirar
um pouco o braço dele, as vezes isso é melhor para a restauração familiar, do núcleo familiar do
que a manutenção de medidas protetivas ou uma condenação quando a vítima não quer mais, ah
sim, são situações que a gente tem que ver com muita cautela. Que já aconteceu aqui da gente do
prosseguimento, acredito que sim, não me lembro de um caso especifico, mas em regra se ela
chega aqui e ela de livre e espontânea vontade pede, a gente tende a pedir o afastamento das
medidas proteção.

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AM – O fato de a ação ser pública incondicionada no caso de lesão corporal, aumentou o
quantitativo de processos no judiciário?

DR.J. – Bem, eu não sei ao certo se aumentou, do ponto de vista quantitativo eu não saberia dizer.
Eu imagino que sim, porque, assim, era uma forma mais fácil de você resolver problemas né,
você, a sua mulher desiste, era um caso a menos que ocupava o Ministério Público o Judiciário,
e ai por uma questão de volume de trabalho, eu acredito que era mais fácil você já resolver a
questão ali na hora se valendo de um elemento que era muito poderoso no ponto de vista das
provas que era a palavra da própria mulher, eu imagino que em razão disso, tenha aumentado o
número de processos. Mas não sei se essa é a melhor pergunta porque eu acredito que a gente
tem que se perguntar o seguinte que demandaria uma análise empírica muito mais aprofundada,
no quê que isso realmente contribuiu para a redução da violência doméstica e familiar contra a
mulher. Se o Supremo Tribunal Federal ele tem que ser colocado muito a prova, hoje o supremo
se arroga muito no direito de dizer a última palavra, é uma questão que fica na boca de muitos
ministros do STF, de mente aqui já me vem pelo menos três ministros que costuma dizer isso,
mas assim, para você ter o poder de dizer que tem a última palavra, e poder dizer que tem a última
palavra porque é guardião da Constituição a gente precisa fazer uma comprovação fática da
legitimidade da tua atuação, se a tua atuação justifica realmente esse poder de você se auto
intitular guardião da Constituição e detentor de última palavra. Então a gente vai verificar até
que ponto a tua atuação realmente contribui para a proteção de direitos fundamentais, no caso
das mulheres até que ponto essa atuação do Supremo Tribunal Federal em ter tornado isso em
ação penal pública incondicionada realmente, no plano dos fatos, foi efetivo para uma maior
proteção da mulher dentro de casa, isso daí é uma resposta que talvez seja mais interessante que
ainda está para ser buscada, do que, que isso realmente aumentou ou não o volume de processos
no Poder Judiciário.

AM – O Dr. acredita que com a criação da 11.340/2006, diminuiu os casos de violência doméstica
ou ainda existem um quantitativo exorbitante que nunca chegará ao conhecimento das DEAMs
e do Judiciário?

DR.J. – Que esse quantitativo que nunca vai chegar, isso é fato. Isso existe, existe muito, isso
não só no âmbito dos crimes, nos crimes de violência doméstica contra a mulher ou violência
familiar contra a mulher, isso acontece em inúmeros outros crimes, há até uma expressão que
você deve conhecer para não mencionar “cifra oculta” no sentido de que enfim, não chega nem
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a 10% o número de condenações pela pratica de todos os crimes que acontecem na sociedade,
essa porcentagem ela é mínima de condenações, a justiça criminal tem que ser muito questionada
nesse ponto de vista, porque, se você pune no máximo 10% de todos os crimes que acontecem,
você está me dizendo que a justiça criminal é seletiva, que ela não pude todos, ela pude
seletivamente, se ela é seletiva ela não respeita o próprio princípio da igualdade, sendo seletiva
e não respeitando o princípio da igualdade então ela é ilegítima, se ela é ilegítima, a gente tem
que questionar até que ponto ela é necessária, são uma série de perguntas, isso obviamente acaba
acontecendo no âmbito da violência doméstica contra a mulher. Todavia, isso não retira o mérito
da Lei 11.340/06, a Lei 11.340/06 eu acho que ela é de fato, é um marco, é uma grande conquista
na medida em que ela se institucionalizou, por ter virado Lei, isso quer dizer que houve em
determinado momento da nossa história uma expressão majoritária da nossa política que resolveu
dizer aquele momento de que de fato a mulher é digna de uma proteção especial, e que ela é
vítima sim, inclusive das pessoas que mais são próximas a ela, seja um pai, seja um irmão, seja
um filho, seja um marido. Isso ao mesmo tempo serve um pouco para chamar a atenção da
sociedade para uma coisa que de fato existe, que não há igualdade entre homens e mulheres.
Então, para mim, ainda que fosse meramente simbólico, esse ganho já é bastante na medida em
que houve um reconhecimento pelo próprio Estado de afirmar uma necessidade de proteção
especial para a mulher de que ela precisa conquistar o seu espaço, e de que os homens precisam
respeitar e de alguma maneira não atravancar, não inibir esse avanço e a conquista desse espaço
pelas mulheres. Então, eu acho que nesse sentido a Lei de violência doméstica foi um grande
ganho e de fato, ela contribuiu para no mínimo se não para reduzir os crimes, no mínimo para
que esses crimes fossem mais punidos, para que os autores desses crimes fossem mais
severamente responsabilizados, então, isso também é um ganho, então, acho que ela é uma Lei
Bastante valida sim.

AM – Foi feita uma pesquisa entre o mês de junho ao mês de dezembro de 2018, e entre janeiro
ao dia 22/05/2019, e foi verificado que vem aumentando de forma gradativa os pedidos de
medidas protetivas de urgência. Esse aumento em seu entendimento poderia demonstrar um
avanço na Lei 11.340.2006?

DR.J. – Eu não sei se isso decorre exatamente do avanço da Lei, isso mostra mais um trabalho
que de certa maneira foi feito não só pela Lei de violência doméstica, apesar de que ela é um dos
instrumentos mas que de alguma maneira, aos poucos o país vem ganhando uma consciência
cada vez maior de que é necessário que se estabeleça regras para uma proteção especial para a
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mulher. E as mulheres aos poucos, elas vão se conscientizando, muito embora esse avanço seja
ainda muito lento, mas há um avanço, é como se a história ainda que a passos de tartaruga sim,
mas é como se ela estivesse andando para a frente, talvez isso demonstre, talvez essa seja umas
das razões, uma das quais a gente verifica um aumento no número dessas medidas de proteção,
porque em regra, eu diria que quase 90% disso tudo, eu diria que as próprias mulheres procuram
o Ministério Público ou a delegacia de defesa da mulher, então se percebe que há uma iniciativa
delas no sentido de dar respostas as violências que elas estão sofrendo. Então, talvez isso não
decorra só de haver uma previsão de uma Lei que coíba a violência no âmbito familiar contra a
mulher, mas mais no sentido de uma conscientização ainda que muito lenta de que as mulheres
podem procurar as autoridades para fazer reinvindicações dos seus direitos.

AM – Em seu tempo à frente da Promotoria, o Dr. certamente se deparou com diversos casos,
dentre eles, qual o que mais prendeu a sua atenção e porquê?

DR.J. – Não tem muito tempo, eu participei de uma audiência de um crime que a gente costuma
não atribuir até muita importância, um crime de lesão corporal, quando a gente compara com
outros crimes como estupro ou homicídio. Me impressionou o fato porque ele era muito
simbólico. Era uma senhora de idade que tinha um relacionamento muito turbulento com o seu
próprio filho, era uma senhora que tinha dificuldade para andar, dificuldade para falar, e foi
vítima de uma agressão, o filho simplesmente a pegou por trás, a segurou pelo pescoço, deu uma
gravata nela, pegou um pedaço de pano e colocou sobre a boca dela, ela se debatendo ali, quase
que perdendo o folego, conseguiu se soltar um pouco, e depois chegaram outras pessoas que
viram a situação e foram lá separar a confusão. Foi uma situação envolvendo drogas, a gente
pode colocar isso, mas era muito simbólico no sentindo de ver assim quão frágil de fato é a
situação da mulher dentro de casa, entendeu, não era só uma senhora de idade, era a figura da
própria mulher ali diante de um rapaz novo de trinta anos de idade, forte, que não sei, a discursão
era do tipo; não tenho coisa para comer em casa, nunca tem nada, começa a briga, me dar
dinheiro, eu não tenho dinheiro e enfim, começa a agredir a mãe por conta disso. Então, é um
dos muitos casos, poderia enfim, falar de outras situações em crimes de homicídios que a gente
verifica uma dificuldade em provas exatamente porque esses crimes não tem testemunhas, e é
até interessante porque o júri em Luziânia ele é basicamente composto por mulheres, eu não sei
por que isso acontece, mas normalmente os jurados convocados a maioria é de mulheres, e até
mesmo elas costumam aceitar um privilégio para o cara, nem sempre elas acreditam na palavra
da própria mulher que diz ter sido vitima de um homicídio tentado. É uma coisa que mexe muito
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comigo, eu queria entender isso, porque as próprias mulheres, elas próprias não conseguem
entender aquele contexto de violência e muitas vezes não é só uma questão de dificuldade de
provas, sabe, a ideia de que só a palavra dela não basta, o jurado não é técnico o suficiente para
chegar a esse tipo de conclusão, o que há assim é um descrédito. A ideia da falta de provas é um
discurso que estar pela frente, ele é utilizado do fundo para justificar aquilo que é mais intenso,
é mais forte e que tá no inconsciente ali no sentindo de que a palavra da mulher vale menos, é
isso, e talvez vale menos do que a palavra do cara que é réu e chegou aqui e negou a pratica desse
crime, entendeu, é uma coisa curiosa porque isso acontece e acontece muito. O que explica
inclusive um júri majoritariamente em boa parte das vezes composto por mulheres chegar a esse
tipo de conclusão, então daí que eu acho que demanda uma política pública de muito maior
conscientização assim, para que haja um esclarecimento maior. Enfim, casos que impressionam
normalmente são de violência sexual, ainda hoje a situações em que o homem chega em casa
bêbado da rua e acha que pode ter ali relações sexuais com tua mulher, porque a mulher é dele,
como se ela não tivesse as próprias vontades, e muitas das vezes também são crimes de estupros
envolvendo crianças, crianças mulheres que obviamente acabam chegando aqui para gente
também.

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