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JOGO, ESPORTE E SOCIEDADE: considerações preliminares para uma

análise correlacional

Prof. Dr. Wanderley Marchi Júnior1


marchijr@ufpr.br

Resumo

O presente ensaio tem por objetivo iniciar uma discussão acerca das possibilidades de
correlação entre os conceitos de mimesis social - apresentado no conjunto da obra de
Norbert Elias -, jogo, esporte e sociedade. Para tanto, buscamos num primeiro momento
entender a perspectiva clássica na definição de jogo trabalhada por Johan Huizinga,
passando pelas manifestações e interpretações do esporte moderno em H. Eicheberg,
finalizando com uma interpretação da sociedade de Norbert Elias vislumbrando
possíveis associações e perspectivas de análise.

Palavras-chave: jogo, esporte, sociedade, mimesis.

Introdução

Possivelmente, pouca seria nossa contribuição nesse simpósio se ao iniciarmos


nossa apresentação buscássemos apresentar o esporte moderno como um dos maiores
fenômenos sociais da atualidade. Também não estaríamos avançando se tentássemos
justificá-lo como um objeto de estudo significativo, cientificamente falando, e, portanto,
passível de inserção no campo das ciências sociais e humanas. Entretanto, acreditamos que
diante da magnitude desse evento, e das diversas interpretações focais da obra de Norbert
Elias, teríamos um espaço e a possibilidade de identificarmos alguns conceitos, definições
e propostas que pudessem nos auxiliar a construir uma análise mais substanciada do
fenômeno esportivo na sociedade contemporânea.
Nesse sentido, propomos nesse ensaio uma leitura do conceito de jogo a partir do
clássico Homo Ludens, de Johan Huizinga (1993), procurando interpretá-lo na suposta

1
Docente da Universidade Federal do Paraná (graduação e programas de pós-graduação dos departamentos
de Educação Física e Sociologia), coordenador de Centro de pesquisas em esporte, lazer e sociedade
(CEPELS/UFPR) e diretor do Centro de educação física e desportos da Pró-reitoria de extensão e cultura
(PROEC/UFPR).
diferenciação proclamada por H. Eichberg (1995) quando disserta sobre as manifestações
corporais e o esporte. Em adição, buscamos na obra de Norbert Elias (2001; 1994; 1992;
1980) uma articulação do conceito de mimesis com o jogo, o esporte moderno e as
características estruturais da sociedade contemporânea.

Um exercício de correlação

Ao iniciar sua obra Homo Ludens, Johan Huizinga (1993) procura deixar claro e
evidente sua preocupação, ou melhor, seu objetivo central com o desenvolvimento do
estudo, qual seja, integrar o conceito de jogo ao conceito de cultura e não demonstrá-lo
como uma manifestação constituinte desse espaço, dito de outra forma, podemos pensar
que Huizinga busca ver na função social do jogo elementos que comprovem sua hipótese
de que o “jogo precede a natureza e a cultura”, e como tal, estrutura-se concomitantemente
com ambas.
Em sua exposição, temos que o jogo, como um elemento cultural, possui uma
realidade autônoma, cria suas características e atende a determinadas funções previamente
estabelecidas num universo não material. Nessa esteira de análise, o autor passeia pela
historicidade das práticas corporais mais remotas, sustentando-se por ferramentas
antropológicas e filosóficas.
Sumariamente, o autor defende que o jogo tem sua essência no divertimento, na
alegria e na tensão, ou seja, toda referência constitutiva dos jogos, em seu contexto
cultural, deveria ser fundamentada numa sistematização que, a priori, atenderia a esses
princípios. Em contrapartida, ocorrem equivocadas interpretações nas quais o jogo é tido
como uma manifestação destituída de seriedade, justamente ausência do caráter que lhe
concederia posição de destaque no universo dos estudos culturais. A essa argumentação,
Huizinga rebate com o exemplo do jogo de xadrez, ou mesmo de uma partida de futebol
entre crianças, questionando se não há seriedade em ambas as ações, se não existe nos dois
exemplos respeito às regras, mesmo sendo elas construídas e/ou alteradas pelos próprios
participantes? Com isso, o autor pretende nos mostrar que não devemos trabalhar, ou
melhor, pensar o jogo e a cultura num contexto de polaridades ou submissões, pelo
contrário, é pertinente tecermos análises que partam do pressuposto da interdependência,
da correlação, da intimidade entre a seriedade e o divertimento, do riso e do prazer, do
sagrado e do profano. Para Huizinga,

Todo jogo se processa e existe no interior de um campo previamente


delimitado, de maneira material ou imaginária, deliberada ou espontânea. Tal
como não há diferença formal entre o jogo e o culto, do mesmo modo o “lugar
sagrado” não pode ser formalmente distinguido do terreno do jogo. A arena, a
mesa de jogo, o círculo mágico, o templo, o palco, a tela, o campo de tênis, o
tribunal etc., têm todos a forma e a função de terrenos de jogo, isto é, lugares
proibidos, isolados, fechados, sagrados, em cujo interior se respeitam
determinadas regras. Todos eles são mundos temporários dentro do mundo
habitual, dedicados à prática de uma atividade especial.2

2
HUIZINGA, J. Homo Ludens. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 13.
Objetivamente, não é esta a fatia da obra de Huizinga que pretendemos degustar,
muito embora ela seja muita atrativa e permissiva de novas abstrações. Para nosso ensaio
buscamos do autor o que ele chamou de “características formais do jogo” e as principais
“funções do jogo” para que nessa leitura possamos identificar suas diferenciações e/ou
aproximações com o esporte moderno. Pensando nas características formais, encontramos
a síntese de que o jogo deve ser considerado como:

uma atividade livre, conscientemente tomada como “não-séria” e exterior à vida


habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa
e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a
qual não se pode obter lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais
próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de
grupos sociais com tendências a rodearem-se de segredo e a sublinharem sua
diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou outros meios
semelhantes.3

Com respeito às funções do jogo, basicamente elas se resumem em duas, a saber: a)


no jogo, luta-se por alguma coisa; b) no jogo, temos que representar alguma coisa.4 Para o
momento vamos nos furtar de um aprofundamento nessas questões, apenas destacamos que
ao pensarmos preliminarmente nas manifestações do esporte moderno, invariavelmente,
encontraremos simulacros que atenderam a essas funções.
Seguindo com a organização proposta para este texto, temos em H. Eichberg
(1995)5 a proposta de um modelo de análise do esporte moderno que define alguns
pressupostos, por exemplo: para o autor, quando falamos em modelos esportivos, temos
que levar em consideração que os mesmos não se apresentam em uma forma monolítica,
ou seja, os modelos, fundamentalmente a partir da década de 1970, apresentam-se em
manifestações de rupturas. Algumas são destacadas na sua argumentação.
A primeira delas seria a evidente ruptura entre os “esportes clássicos” e os
movimentos culturais alternativos que desembocou no que o autor chamou de “sociologia
dos conflitos culturais”. Na sua lógica de explanação, Eichberg (1995) destaca a
contraposição do mercado do corpo frente às práticas tradicionais dos clubes
sociorecreativos, desse contexto, emerge a “sociologia dos estilos de vida”. Por fim, há a
correlação estabelecida entre a perspectiva do esporte de alto rendimento e o circo
midiático na qual tem-se a definição e a luta pelos espaços sociais, as delimitações do
amadorismo e do profissionalismo, e a perspectiva do coletivo frente ao processo de
individualização. Conclama-se para essa manifestação a “sociologia do espetáculo”.
Com base nesse mapeamento histórico-sociológico do esporte, o autor propõe uma
taxionomia para pensarmos o esporte moderno a qual, no decorrer do texto, nos permitirá
um exercício de associação quando pensarmos na tríade jogo, esporte e sociedade. Em seu
estudo, Eichberg (1995), ao pensar o homem e sua maneira de “estar no mundo”, ratificou
três manifestações para identificar as práticas corporais e o esporte. São elas:

3
Id. Ibid., p. 16.
4
Cf. HUIZINGA, op. cit., p.16.
5
EICHBERG, H. Problems and future research in sports sociology: a revolution of body culture?
International Review for Sociology of Sport, 30: 1-19, 1995.
a) o Corpo-isso: trata-se do consubstanciamento das práticas corporais por
conta das referências do produtivismo da sociedade industrial. É o
processo de reificação ou de materialização dos corpos associando-se, em
termos de paradigmas, na constituição do esporte como uma manifestação
social que coisifica o humano, faz dele um produto a ser vendido,
consumido, produzido, ou seja, mercantilizado.

b) o Corpo-eu: trata-se da manifestação do “esporte não esportivo”, ou seja,


são práticas corporais que observam a necessidade estética prescrita
socialmente, e buscada incondicionalmente. É a percepção
individualizada do ser humano no contexto coletivo, Eichberg destacou
esse processo como o resultado da sociedade da informação corroborando
com a perspectiva do “self-fenomenológico”.

c) o Corpo-tu: seria a possibilidade de manifestações corporais a partir da


identificação do coletivo sustentadas e exemplificadas nos processos de
musicalização e carnavalização. Nesta perspectiva, reside uma espécie de
“cultura do riso” na qual as atividades circenses, teatrais e musicalizadas
poderiam fazer o redimensionar da correlação “seriedade e divertimento”,
“o eu e o nós”.6

Obviamente, estamos nos pautando em uma proposta, em um estudo localizado


para pensarmos o esporte moderno, entretanto, se, comparativamente, o pensarmos com
outros autores, tais como Allen Guttmann, Richard Holt, Jean-Marie Brohm, Eric Dunning,
John Hargreaves, Marshall McLuhan, Joe Maguire, Roger Callois, Gerhard Vinnai,
Noronha Feio ou Richard Giulianotti, para citarmos alguns, ou até mesmo o verbete
desporto na recente publicação nacional do Dicionário Crítico da Educação Física (2005),
perceberemos que o esporte apresenta-se invariavelmente como uma expressão
sociocultural que incorpora e correlaciona-se com as características estruturais da
sociedade moderna. Mas como se define a sociedade moderna? Quais são as suas
referências? E, em quais circunstâncias visualizamos o mimetismo social?
Para respondermos a essas questões, ou pelo menos direcionarmos nossas respostas,
procuramos nos deter no tratamento dado por Norbert Elias (1992; 1980) no estudo,
interpretação e análise da sociedade sob o crivo da categoria “jogo”. Nesta tarefa, tomamos
Alain Garrigou7 como uma leitura complementar. Nossa problemática transcende a questão
levantada por Garrigou, sobre o “grande jogo da sociedade”, e tenta suscitar o
conhecimento das características e as possíveis correlações existentes na sociedade
contemporânea.
Na sociologia configuracional, a sociedade é definida e estruturada num processo
competitivo, ou seja, a categoria central para o entendimento da sociedade é a competição
definida no conjunto das suas interdependências e interconexões. Nesse sentido, o jogo
passa a ser uma expressão para a análise das relações sociais. Ao tornar-se uma entrada
para pensar a sociologia configuracional, e as relações de interdependência, o jogo assume

6
Cf. EICHBERG, op.cit.
7
GARRIGOU, Alain e LACROIX, Bernard. Norbert Elias: a política e a história. São Paulo: Perspectiva,
2001.
uma ambivalência entre ser um instrumento de análise e uma noção mais realista da
sociedade. Sobre esta observação, Garrigou acrescenta:

O jogo é invocado para explicar a dimensão concorrencial das relações sociais.


[...] Ele pode ser, assim, um instrumento analítico tomado da realidade social ou
imaginado para as necessidades de análise. [...] O jogo ou a competição
caracterizam as relações de interdependência que ligam os indivíduos e que
constituem os grupos sociais, quaisquer que sejam sua dimensão e sua posição
social.8

Quando Norbert Elias (2001; 1994) estudou a sociedade de corte, ele a definiu
como um “grande jogo”, não no sentido metafórico, mas sim como uma descrição realista
e analítica das relações sociais existentes naquela configuração. Para Elias o jogo reporta o
desenvolvimento de um código de condutas e sentimentos detectado nas e pelas relações
sociais. Para Garrigou, “o jogo não é uma entrada como outra qualquer na sociologia de
Norbert Elias. É sua marca específica, uma espécie de esquema paradigmático pelo qual a
sociologia se ilumina”.9
Em Elias (1980), encontramos a hipótese de que a sociedade é uma estrutura de
competição passível de ser estudada a partir do jogo situado e definido no conceito de
configuração, de sistemas de interdependência social e no processo de civilização.
Objetivamente, temos que ter a dimensão que no modelo de análise eliasiano a sociedade e
o esporte receberam a leitura de um jogo de ação estrutural, qual seja, uma estrutura de
competição.
Se a redução e a simplificação permitem analisar relações sociais amplas e
complexas a partir de modelos de jogo, existe apenas uma diferença de escala e
não de natureza das relações sociais. [...] O jogo serve, portanto, para pensar
relacionalmente os grupos sociais, os quais não são adições de agentes, mas são
compreendidos como conjuntos de relações de interdependência.10

Ao estudarmos as dimensões propostas por Elias (2001; 1994; 1992; 1980) para
entender os mecanismos de funcionamento da sociedade percebemos que a mesma, diante
do seu processo civilizacional, apresenta particularidades históricas as quais permitem uma
definição metodológica de análise a partir do sentido da concorrência, do estabelecimento
de interdependências e das relações sociais de poder. Esta consideração é o princípio
explicativo da postura teórica que pretendemos defender.
Quando pensamos em correlacionar Huizinga, Eichberg e Elias, pensávamos em
identificar elementos discursivos comuns em suas obras os quais permitiriam a construção
de uma linha analítica que percebesse articulações entre o jogo, o esporte e a sociedade. E
esse processo, em nossa análise, se efetivou por conta da mimesis social. Ao assimilarmos
o efeito mimético, mesmo que sumariamente definido como o conjunto de representações
sociais estabelecidas no micro em relação ao macrossocial, teremos que a competitividade
presente no jogo e no esporte pode perfeitamente nos ajudar a estudar e a compreender os
mecanismos geradores de comportamentos, habitus e poder existentes na sociedade, e
vice-versa. Contudo, é fundamental destacarmos que em nossa análise tomamos como

8
GARRIGOU, op. cit., p. 75-76
9
GARRIGOU, op. cit., p. 67.
10
GARRIGOU, op. cit., p. 76-77.
referência o jogo, o esporte e a sociedade em seu estado ou manifestação hegemônica
atual, ou seja, mercantilizado, espetacularizado e/ou performático.

Considerações finais

Em síntese, diante desse exercício de correlação, tendemos a acreditar que o


mimetismo social, apresentado e defendido em termos conceituais e especificamente
trabalhados por Norbert Elias nas manifestações de tensão e catarse do lazer moderno11,
identifica-se sobremaneira nas caracterizações tanto do esporte moderno de Eichberg
quanto no estudo do jogo como elemento cultural de Huizinga. E podemos ir além. Essa
correlação, ou melhor, esse entendimento de manifestações socioculturais a partir de
categorias de análise não fica restrito a esses dois exemplos utilizados propositalmente
neste texto. Muito provavelmente, nas diversas interpretações do fenômeno esportivo e do
jogo disponíveis na literatura nacional e internacional, iremos identificar a pertinência, a
possibilidade e a incorporação da mimesis social na construção de suas propostas e
análises.
Para finalizar, gostaríamos de deixar claro que as argumentações aqui apresentadas
foram de ordem sumária, o que por si demanda um aprofundamento maior em cada tópico
ou teoria abordada. Entretanto, tal como nos propusemos no próprio título deste ensaio,
tratam-se de “considerações preliminares”, portanto, está aberta a palavra e o convite para
esse exercício correlacional e fundamentalmente de novas ou emergentes possibilidades de
se pensar teorias, conceitos e análises. No nosso ponto de vista, teorias e clássicos apontam
e confirmam a possibilidade dessas correlações, cabe a nós desenvolvermos o que o
sociólogo norteamericano Charles Wright Mills chamou de “imaginação sociológica” para
podermos compreendê-las e desenvolvê-las com os devidos critérios e rigorosidade.

PLAY, SPORT AND SOCIETY: introdutories considerations


for a correlational analysis

Abstract: the present text has for objective to begin a discussion concerning the possibles
correlations among the concepts of social mimesis - presented in the group of Norbert
Elias's work -, play, sport and society. For this, in a first moment, we tried to understand
the classic perspective of the game worked by Johan Huizinga, the manifestations and
interpretations of the modern sport in H. Eicheberg, concluding with an interpretation of
the society by Norbert Elias to identifying possible associations and analysis perspectives.

11
“O desporto, tal como outras actividades de lazer, no seu quadro específico pode evocar através dos seus
desígnios, um tipo especial de tensão, um excitamento agradável e, assim, autorizar os sentimentos a fluírem
mais livremente. Pode contribuir para perder, talvez para libertar, tensões provenientes do stress. O quadro
do desporto, como o de muitas outras actividades de lazer, destina-se a movimentar, a estimular as emoções,
a evocar tensões sobre a forma de uma excitação controlada e bem equilibrada, sem riscos e tensões
habitualmente relacionadas com o excitamento de outras situações da vida, uma excitação mimética que pode
ser apreciada e que pode ter um efeito libertador, catártico, mesmo se a ressonância emocional ligada ao
desígnio imaginário contiver, como habitualmente acontece, elementos de ansiedade, medo – ou desespero.”
ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992, p. 79.
Key words: play, sport, society, mimesis.

Referências

EICHBERG, H. Problems and future research in sports sociology: a revolution of body


culture? International Review for Sociology of Sport, 30: 1-19, 1995.
ELIAS, N. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.
------------. A Sociedade de Corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
------------. Introdução à sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
------------. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar,
1994, vol. 1.
GARRIGOU, A. e LACROIX, B. Norbert Elias: a política e a história. São Paulo:
Perspectiva, 2001.
HUIZINGA, J. Homo Ludens. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.

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