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Relato de caso

Case report

Amelogênese imperfeita – relato de caso


Imperfect amelogenesis – case report
Weider De Oliveira Silva1
Laryssa Lorranne Lacerda2
Cintia Barretos Fassine2
Gil Montenegro3
Tarcisio Pinto4

Resumo
Amelogênese imperfeita representa um grupo de alterações hereditárias que resultam
na formação anormal do esmalte, podendo ocorrer alterações na dentição decídua e/ou
permanente, sendo que essa alteração pode ser classificada de três formas: hipoplásica, hi-
pocalcificada e hipomaturada. O dente acometido apresenta alteração de cor para o branco
opaco, amarelo ou marrom, tendo sua superfície irregular e normalmente apresentando
sensibilidade, fato esse que dificulta a higienização, tornando-os mais predispostos à cárie.
O objetivo deste trabalho é relatar um caso clínico de amelogênese imperfeita, descrevendo
o tratamento realizado com a utilização de coroas totais diretas de resina composta reali-
zadas em placas de acetato. Por meio deste caso clínico, demonstra-se a importância do
diagnóstico precoce da amelogênese imperfeita e a intervenção com materiais resinosos
pode ser uma excelente alternativa para evitar danos funcionais, estéticos e psicológicos aos
pacientes acometidos por tal alteração.
Descritores: Estética dentária, amelogênese imperfeita, resinas compostas.

Abstract
Imperfecta amelogenesis represents a group of hereditary alterations that result in the
abnormal formation of the enamel. Alterations in the deciduous and/or permanent denti-
tion can occur, and this alteration can be classified in three ways: hypoplastic, hypocalcified,
and hypomaturated. The affected tooth presents a color change to opaque white, yellow
or brown, having an uneven surface and usually presenting sensitivity, a fact that makes
hygiene difficult, making them more predisposed to caries disease. The objective of this
work is to report a clinical case of imperfecta amelogenesis, describing the treatment per-
formed with the use of facets performed on acetate plates. This clinical case demonstrates
the importance of early diagnosis of imperfecta amelogenesis and intervention with resinous
materials may be an excellent alternative in order to avoid functional, aesthetic, and psycho-
logical damages to patients affected by this alteration.
Descriptors: Dental esthetics, imperfecta amelogenesis, composite resins.

1
Me. em Implantodontida, Esp. em Hamornização Orofacial, Esp. em Implantodondia, Esp. em Dentística, Esp. em Prótese.
2
Esp. em Dentística, Esp. em Prótese.
3
Dr. em Ciências da Saúde, Me. em Destística, Esp. em Prótese.
4
Me. em Prótese.

E-mail do autor: weidersilva@hotmail.com


Recebido para publicação: 11/06/2019
Aprovado para publicação: 20/09/2019

Como citar este artigo:


Silva WO, Lacerda LL, Fassine CB, Montenegro G, Pinto T. Amelogênese imperfeita – relato de caso. Full Dent. Sci. 2019; 11(41):76-83.
DOI: 10.24077/2019;1141-7683

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Full Dent. Sci. 2019; 11(41):76-83.
Introdução
Por meio da busca crescente pelo sorriso esteti- Dentre os tratamentos relatados na literatura para
camente agradável, cirurgiões dentistas e pacientes os pacientes com amelogênese imperfeita, destacam-
buscam cada vez mais alternativas de tratamento para -se extrações, restaurações diretas e indiretas, coroas
modificar a aparência dentária. A Odontologia Restau- de aço e/ou porcelana. Cabe ao profissional identificar
radora tem evoluído de forma significativa, apresentan- a alteração do esmalte e seu respectivo tratamento, o
do um número cada vez maior de técnicas e materiais, qual decidirá preservar quantidade máxima de esmalte,
com o propósito de trazer resultados cada vez melho- além de ser levado em consideração a idade do pacien-
res aos pacientes com relação à estética e função1,2. te, fator socioeconômico, tipo e severidade da hipopla-
O esmalte dentário é um tecido atípico que, uma sia, saúde bucal e desejo dos pacientes6.
vez formado, não sofre remodelação como outros teci-
dos duros. Por causa de sua natureza não remodelado- Material e métodos
ra, alterações durante sua formação são permanente-
mente registradas na superfície dentária3. Paciente do gênero feminino, 14 anos de idade,
A amelogênese imperfeita consiste num grupo de compareceu à clínica odontológica do curso de Especia-
doenças hereditárias que afetam o esmalte dentário lização em Prótese Dentária e Dentística Restauradora
em relação à qualidade e/ou quantidade. Está associa- da Associação Brasileira de Odontologia (Taguatinga/
da a malformações da coroa, assim como a densidade DF) com a queixa principal de “melhorar o sorriso”. (Fi-
anormal do esmalte, sendo que as características clíni- gura 1). No exame clínico, notou-se anatomia dentária
cas desta patologia variam de acordo com a alteração diferente, ou seja, dentes com alterações no tamanho,
do esmalte4. na forma e na cor. Os dentes anteriores apresentavam-
As sintomatologias da amelogênese imperfeita são -se pequenos e com diastemas. Os dentes posteriores
similares independentemente do tipo, como sensibili- apresentavam-se alguns com restaurações antigas,
dade dentária, estética insatisfatória, dentes impacta- desgastados e com manchas brancas (Figuras 2-4). A
dos, calcificação pulpar, dimensão vertical diminuída, paciente foi diagnosticada com amelogênese imperfei-
mordida aberta, alteração de tamanho, forma e cor dos ta e o plano de tratamento proposto foi a confecção
dentes, portanto, não se deve subestimar o impacto de coroas diretas em resina composta, com auxílio de
psicológico dos pacientes com alterações de esmalte5. placa de acetado, em todos os dentes.

Figura 2 – Arcada superior apresentando-se com


amelogênese imperfeita. Silva WO, Lacerda LL, Fassine CB, Montenegro G, Pinto T.

Figura 1 – Foto inicial do sorriso da pacien- Figura 3 – Arcada inferior apresentando-se com
te. amelogênese imperfeita.

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Figura 4 – Oclusão em máxima intercuspidação habitual.

Inicialmente, modelos iniciais foram obtidos e os lúcidos. Em todas as regiões dentárias das placas de
mesmos foram encerados e, em seguida, placas de acetato superior e inferior, foram realizadas, sequen-
acetatos foram confeccionadas sobre os modelos. Na cialmente, a primeira camada, considerada a camada
primeira consulta clínica foi realizada gengivoplastia a palatina, utilizando uma resina composta translúcida.
laser (Figura 5) para melhorar a estética da gengiva e, Em seguida, foi feita a inserção de uma camada de resi-
com isso, conseguiu-se melhor harmonização do sorri- na composta de dentina na cor A2 e, por último, foram
so. Em seguida, foi realizada a regularização do esmal- inseridos incrementos de resina composta de esmalte
te, assim como remoção das restaurações antigas e dos cor A1 (Figura 8). Logo após, as placas de acetato fo-
tecidos cariados presentes. Após, foi realizado condi- ram posicionadas nas arcadas dentárias atuando como
cionamento com ácido fosfórico 37% (Condac– FGM), guias para a confecção das restaurações diretas (Figu-
por 15 segundos, em todos os elementos dentários (Fi- ras 9 e 10). Em seguida, as restaurações foram fotoa-
gura 6). Posteriormente, foi aplicado o sistema adesivo tivadas por 40 segundos em cada elemento dentário
Ambar - FGM e fotoativado por 20 segundos em cada (Figuras 11 e 12), sendo que, todas as resinas compos-
dente (Figura 7). Na próxima etapa, foi realizada a es- tas usadas nesse caso foram da Opallis (FGM). Por fim,
tratificação das restaurações, que equivale à coloração foi confeccionado o ajuste oclusal na arcada superior e
do esmalte dentário, da dentina e dos efeitos trans- inferior (Figuras 13 e 14).
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Figura 5 – Gengivoplastia a laser.

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Figura 6 – Ataque ácido com ácido fosfórico 37% (Condac – FGM).

Figura 7 – Aplicação de sistema adesivo (Ambar – FGM). Figura 8 – Estratificação de cor das restaurações em resi-
na composta inseridas nas placas de acetato.

Silva WO, Lacerda LL, Fassine CB, Montenegro G, Pinto T.

Figura 9 – Restaurações em resina composta com o uso Figura 10 – Restaurações em resina composta com o uso
de placas de acetato. de placas de acetato.

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Figura 11 – Placa de acetato superior inserida com incre- Figura 12 – Placa de acetato inferior inserida com incre-
mentos de resina composta e fotoativada. mentos de resina composta e fotoativada.

Figura 13 – Ajuste oclusal superior. Figura 14 – Ajuste oclusal inferior.

Na consulta seguinte, foi realizada o acabamento limento dessas restaurações em resina composta (Figu-
para remoção de excessos grosseiros (Figura 15) e po- ras 16 e 17).
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Figura 15 – Acabamento de restaurações em resina com- Figura 16 – Polimento de restaurações em resina com-
posta. posta.

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Figura 17 – Polimento de restaurações em resina com-
posta.

Resultados
Por fim, as imagens finais deste relato de caso ilus- naturais devolvendo estética e função) comprovando o
tram o fato finalizado, com a paciente com um sorriso sucesso do tratamento (Figuras 18A-C).
harmônico (dentes com tamanho, coloração e formato

Silva WO, Lacerda LL, Fassine CB, Montenegro G, Pinto T.

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B

C D
Figura 18 (A-D) – Sorriso final da paciente.

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Discussão
A amelogênese imperfeita foi relatada pela pri- 6. Cogulo D, Becerik S, Emingil G, Hart PS, Hart TC. Oral rea-
bilitation of a patient with amelogenesis imperfecta. Pediatr
meira vez em 18907,8. Essa alteração pode ser dividida
Dent. 2009; 31(7):523-527.
em 14 subtipos, porém, 3 tipos são os mais citados 7. Sabatini C, Guzmán AS. Um tratamento conservador para a
na literatura: 1- Amelogênese imperfeita hipoplásica amelogênese imperfeita com restaurações de resina direta
composta: um relato de caso. J Esthet Restor Dent. 2009;
com quantidade de esmalte reduzido; 2- Amelogênese
21:161-169.
imperfeita hipomaturada com esmalte normal, porém 8. Sundell S, Valentin J. Hereditary aspects and classification of
muito macio e 3- Amelogênese imperfeita hipomine- hereditary amelogenesis imperfecta. Dental Oral Epidemiol.
1986; 14:211-216.
ralizada, esmalte normal no período de erupção, mas
9. Crawford PJM, Aldred M, Bloch ZA. Amelogenesis imperfec-
com alguns meses erupcionados podem ser totalmen- ta. Orphanet J Rare Dis. 2007; 2-17.
te perdidos9,10. Em alguns casos, o esmalte pode estar 10. Elizabeth J, Lakshmi PE, Umadevi KM, Ranganathan K. Ame-
logenesis imperfecta with renal disease – a report of two
totalmente ausente, além de ter variações quanto à
cases. J Oral Pathol Med. 2007; 36:625-628.
textura11. 11. Ribas A, Czlusniak G. Anomalias do esmalte dental: etio-
A identificação da amelogênese imperfeita é feita logia, diagnóstico e tratamento. Publ UEPG Ci Biol Saúde.
Ponta Grossa. 2004 Mar; 10(1):23-36.
principalmente pelo exame clínico, como esmalte de-
12. Wright JT, Hart PS, Aldred MJ, Seow K, Crawford PJ, Hong
ficiente; ausência de ponto de contato e alteração de SP, et al. Relationship of phenotype and genotype in X-linked
tamanho, forma e cor12. Radiograficamente, manifes- amelogenesis imperfecta. Connect Tissue Res. 2003; 44:72-78.
13. Mesko MA, Cenci MS, Loomans B, Opdam N, Pereira CT.
ta-se como uma fina camada radiopaca de esmalte11.
Reabilitação oral do desgaste dentário severo com resina
A utilização de placas de acetato fabricadas sobre composta. RFO UPF. 2016; 21(1):121-129.
os modelos de enceramento facilita a confecção de 14. Schmidlin PR, Filli T, Imfeld C, Tepper S, Attin T. Three-year
evoluation of posterior vertical bite reconstruction using
restaurações com anatomia adequada, oclusão ideal
direct resin composite - a case series. Oper Dent. 2009;
e menor chance de defeitos7. Além disso, essa técnica 34(1):102-108.
também auxilia no modelamento da resina composta
aplicada diretamente sobre esta placa e evita o acúmu-
lo de material restaurador14.

Conclusão
Por meio do caso clínico apresentado, constatou-
-se que a amelogênese imperfeita é uma alteração na
fase de formação da matriz do esmalte. Com os avan-
ços dos sistemas adesivos, o tratamento reabilitador
em pacientes com amelogênese imperfeita é extrema-
mente viável. Por fim, a reabilitação com resinas com-
postas e suas boas propriedades mecânicas garantem
a estética e a função, com um baixo custo comparado
com os materiais cerâmicos.

Referências
1. Castro JCM, Castro MAM, Pedrine D, Panzarini SR, Pelielo
AR. Prótese adesiva: uma opção estética, conservadora e
Silva WO, Lacerda LL, Fassine CB, Montenegro G, Pinto T.
funcional. RGO, Porto Alegre. 2006 jul/set; 54(3):225-229.
2. Silva NR, Thompson VP, Valverde GB, Coelho PG, Powers
JM, Farah JW, et al. Comparative reliability analyses of zir-
conium oxide and lithium disilicate restorations in vitro and
in vivo. J Journal of the American Dental Association. 2011;
142(2):4-9.
3. Hoffmann RHS, Sousa MLR, Cypriano S. Prevalência de de-
feitos de esmalte e sua relação com cárie dentária nas den-
tições decídua e permanente. Indaiatuba, São Paulo, Brasil.
Cad Saúde Pública. 2007 Fev; 23(2):435-444.
4. Coffield KD, Philips C, Brady M, Roberts MW, Strauss RP,
Wright JT. The psychosocial impact of developmental dental
defects in people with hereditary amelogenesis imperfect.
The Journal of the American Dental Association. 2005 May;
136(5):620-630.
5. Seow WK. Clinical diagnosis and management strategies
of amelogenesis imperfecta variants. Pediatric Dent. 1993;
15:384-393.

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