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COMUNICAÇÃO E POLÍTICA

Espiral de silêncio:
uma hipótese
para explicar a
estratégia de poder
do PT no 1 Introdução

Rio Grande do Sul O Brasil é um país que apresenta um contraste


bastante aguçado e original, talvez único no
mundo, entre o altíssimo padrão de qualidade de
RESUMO sua televisão - tecnicamente uma das melhores
Este texto discute as estratégias de comunicação do Partido dos que se produz no mundo (sem entrar no mérito
Trabalhadores no Rio Grande do Sul à luz da hipótese da “Espiral do da qualidade dos conteúdos) - e a baixíssima
silêncio”. Tenta-se mostrar que há um descolamento entre um dis- qualidade de sua cidadania, resultante de
curso da transparência e uma prática que pode calar oponentes. um longo processo histórico marcado pela
desigualdade social, a falta de acesso da
população de baixa renda ao conhecimento
Abstract
proporcionado pela educação e o autoritarismo
In this text the author examines the communication strategies adopt- das elites nacionais em relação à sociedade.
ed by the Workes Party in the Rio Grande do Sul from the perspective O resultado dessa perversa combinação de
of the “Spiral of silence” hypothesis. He tries to show there is a signifi- fatores elevou a televisão brasileira à condição de
cant difference between its discourse of political transparency and its um vigoroso e influente meio de comunicação
practice of trying to keep its opponents’ mouths sut. social e, ao mesmo tempo, de fabricação e
reprodução do poder, historicamente já bastante
PALAVRAS-CHAVE concentrado em poucas mãos. A relação entre
- Comunicação (Comunication) os meios de comunicação de massas e o poder
- Política Partidária (Party politics) é objeto de estudo tanto da Ciência Política como
- Filosofia Polítca (Pollitical philosophy) da Comunicação Social contemporâneas, mas
no Brasil a relação entre mídia e poder parece
ter alcançado contornos ainda mais evidentes e
exacerbados do que em outros países.
Nesse contexto, a campanha eleitoral
de Fernando Collor de Mello à presidência da
República, em 1989, parece ter, por um lado,
contribuído para evidenciar ainda mais essa
constatação, e por outro lado, parece também
ter inaugurado uma “nova era” no marketing
político tal como até então era praticado no país.
O efeito combinado desses dois fatores,
isto é, do contraste entre a alta qualidade da
nossa televisão e a baixa qualidade da nossa
cidadania, por um lado, e por outro, do sucesso
da candidatura de Collor de Mello na eleição
de 89 - um candidato até então desconhecido
da maioria da nação e que ascendeu
meteoricamente à presidência da República
através de uma bem concebida estratégia de
Paulo Moura comunicação e marketing eleitoral -, parece ter
Professor da ULBRA/RS criado no mercado político brasileiro a falsa ilusão

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de que a publicidade eleitoral, especialmente da realidade sobrevalorizando prismas
através da TV, tem o poder de substituir a política. derivados de seus paradigmas e referenciais
Isto é, parece ter se consolidado entre boa parte teóricos. Dessa forma, psicólogos tendem
do sistema político brasileiro a falsa impressão a “psicologizar” suas análises da realidade;
de que um partido ou candidato pode conquistar politólogos tendem a politizar suas análises da
e preservar o poder conquistado, desprezando realidade e comunicólogos tendem a atribuir
as relações reais de poder que se estabelecem valor excessivo, e por vezes desproporcional, ao
entre os diferentes grupos e setores da sociedade, peso e papel da comunicação nos processos
e desses com o Estado, e substituindo seus sociais e políticos, e assim por diante.
vínculos sociais concretos pela mera exposição No presente caso, pretende-se trabalhar
bem “marketizada” da imagem do “príncipe” na entre a tênue interface entre a comunicação e
mídia. a política, para levantar uma hipótese explicativa
O apogeu da vigência dessa ilusão para a ascensão ao poder do PT no Rio Grande
ocorreu com a eleição da figura controvertida, do Sul, a partir de alguns pressupostos da Teoria
emblemática e estigmatizada do senhor Paulo da Espiral do Silêncio de Noelle-Neumann.
Maluf (PPB) à prefeitura de São Paulo em
1992; consolidou-se com o novo sucesso do 2 Comunicação interpessoal X mídia
publicitário Duda Mendonça, que após a eleição
de Maluf, elegeu também o então desconhecido “Não se confirmavam, assim, a hipótese de
sucessor do ex-prefeito, o senhor Celso Pitta que um maior uso da mídia correspondia à
(PSL), e, finalmente, parece ter entrado em maior capacidade de percepção do clima
decadência a partir das eleições de 1998. Sua de opinião ou que o maior uso da mídia
participação na campanha presidencial de Lula possibilitasse maior percepção quanto
em 2002 é uma tentativa de voltar à posição de à sua inclusão ou exclusão do grupo da
destaque de que desfrutava antes de 1998. maioria ou minoria de opinião em relação
Nesse ano, Duda Mendonça, o até então a tal tema. Concluía-se, ao contrário,
“mago” do marketing político brasileiro, abraçou, que a saliência do tema era um previsor
através de sua agência, nada menos do que muito mais poderoso da expressão de
dezoito campanhas eleitorais simultâneas, entre opinião do que o uso da mídia em si. (. . .)
candidaturas a governos estaduais, ao Senado e a comunicação interpessoal mostrou ter
à Câmara dos Deputados, em diferentes estados, maior capacidade de traduzir a correta
e fracassou em todas as principais eleições de percepção do lugar que ocupa o indivíduo
que participou. Seu erro fundamental parece em relação à maioria de opinião do que o
situar-se na tentativa frustrada de compartilhar uso da mídia”.1
custos e maximizar lucros, ao aplicar a
mesma fórmula “pasteurizada” e as mesmas A citação acima refere-se às conclusões a que
soluções publicitárias às diferentes realidades chegaram os pesquisadores Tony Rimmer e Mark
políticas, culturais, sociais e econômicas dos Howard ao desenvolverem uma experiência de
heterogêneos estados brasileiros em que suas aplicação da hipótese da espiral do silêncio, com
equipes trabalhavam, sob sua supervisão, a base no conceito de ignorância pluralística2, e
partir de uma luxuosa estrutura ancorada em que, a nosso ver, coincidem com a percepção
São Paulo, de onde o marqueteiro comandou empírica que origina a hipótese explicativa para
pessoalmente a derrota de Paulo Maluf para a estratégia de chegada ao poder do PT no Rio
Mário Covas, na eleição de 1998. Grande do Sul aqui apresentada.
Toda essa digressão inicial tem por objetivo Noelle-Neumann desenvolveu sua teoria
situar o ângulo de abordagem do tema que é ao observar séries de pesquisas feitas pelo
objeto do presente ensaio, cujo objetivo é o de Instituto Alensbach, sobre a percepção que
caracterizar o lugar e o papel desempenhado os alemães tinham de si mesmos, a partir da
pela comunicação e pela política na estratégia de influência das opiniões que a mídia alemã
ascensão ao poder do Partido dos Trabalhadores transmitia sobre essa questão. Com base na
no Rio Grande do Sul. Isto não só por causa dos constatação da existência de uma relação
motivos antecipados nos parágrafos anteriores, entre os conteúdos que a mídia veiculava sobre
mas também porque é comum a cada área do esse tema e o comportamento dos receptores
conhecimento enfocar as diferentes dimensões dessas mensagens, a pesquisadora constatou

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a ocorrência do efeito de acumulação sugerido costumam chamar de “a profecia que se auto
mo hipótese de agenda setting, a partir da qual realiza”. Isto é, terminam por transformar em
concluiu que a influência da mídia era bem mais pensamento da maioria aquilo que talvez não
forte do que se poderia imaginar. Segundo sua o fosse na origem, se não existisse esse tipo de
constatação, “esta influência, ao contrário do que comportamento que, como resultado do efeito
se dissera nas últimas décadas, não se limitava dessa espiral do silêncio, acaba angariando
apenas ao sobre o que pensar ou opinar, como prestígio e a adesão da maioria. As pesquisas de
afirmava a hipótese de agenda, mas também opinião publicadas, conforme Noelle-Neumann,
atingiria o que pensar ou dizer.³ A partir daí a somam-se a esse processo, na medida em
preocupação de Noelle-Neumann dirigiu-se que externalizam e conferem visibilidade e
para a tentativa de entender como se dava essa quantificação “concreta” à percepção, antes
conexão entre a mídia e a mudança de opinião apenas imaginada, do que sejam essas alegadas
na sociedade. maiorias, ou do que seja “a opinião pública”.8
Segundo Michael Singletary e Gerald Stone, Para que esse movimento constante e
a pesquisa de Noelle-Neumann “indicou que ascensional da espiral do silêncio se viabilize,
as pessoas são influenciadas não apenas pelo deve ocorrer o que N. Luhmann9 denomina de
que as outras dizem, mas pelo que as pessoas tematização. Esse conceito foi incorporado a
imaginam que os outros poderiam dizer. Ela partir da hipótese da agenda setting, e vem a ser
sugeriu que se um indivíduo imagina que sua a colocação de um determinado tema, elevado
opinião poderia estar em minoria, ou poderia a uma condição de importância e urgência,
ser recebida com desdém, essa pessoa estaria na pauta da atenção do público receptor. Essa
menos propensa a expressá-la”.4 pesquisa aventou a hipótese de que os defensores
Assim, a pesquisadora concluiu que, “para da facção vencedora de opinião são unificados
o indivíduo, o não-isolamento em si mesmo e confidentes, enquanto que os aderentes
é mais importante que seu não-julgamento. da facção perdedora estão isolados em suas
Parece ser esta a condição da vida humana em perspectivas e, eventualmente,resignados (p.9),
sociedade: caso contrário, não será concretizada enquadrando-se num comportamento social
uma integração suficiente”.5 Segundo Antonio que James Bryce caracteriza como fatalismo da
Hohlfeldt, para Noelle-Neumann a dúvida sobre multidão.10
a capacidade de julgamento que o indivíduo tem A hipótese aqui aventada como explicação
sobre si mesmo funciona como componente para o sucesso da estratégia de poder do PT
aliado ao medo que torna as pessoas vulneráveis gaúcho guarda coerência com a proposição
à opinião das demais, especialmente no caso teórica de Noelle-Neumann, mas incorpora
de pertencimento a grupos sociais que podem também a contribuição que a ela agregaram
punir aquele que discorda por ele ir além da linha Rimmer e Howard, visto atribuirse, no presente
autorizada.6 Estudos posteriores de Solomon caso, papel fundamental à comunicação
Asch comprovaram que a maioria das pessoas interpessoal como instrumento original da
tende a moldar-se ao pensamento da maioria fabricação de um determinado clima de opinião
das pessoas que integram seus círculos de favorável a esse partido e seu sistema de
convivência.7 crenças e valores, na cidade de Porto Alegre,
Assim, as pessoas desenvolveram a num primeiro momento, e no estado do Rio
capacidade de perceber o que ela denomina Grande do Sul, em seguida. No caso, trata-
de clima de opinião, independentemente do se da comunicação interpessoal orientada
que elas mesmas sintam ou pensem sobre a partir da organização partidária e de seus
determinados assuntos. Dessa forma, ao líderes de opinião em direção à sociedade civil
perceberem ou imaginarem o clima de opinião e seus grupos organizados, e a partir daí em
sobre certos temas, num primeiro momento direção aos cidadãos em geral, num processo
elas tendem a se calar e, depois, a adaptarem, contínuo desenvolvido ao longo de vinte anos.
mesmo que apenas retoricamente, “suas” Não obstante o desgaste provocado pela
opiniões ao referido clima de opinião, ou ao burocratização da máquina partidária e pela
que elas imaginam ser o pensamento da presença no governo estadual, o partido segue
maioria. Ao assim agirem, as pessoas tendem investindo nesse tipo de estratégia, sendo o
a produzir como conseqüência e resultado de Orçamento Participativo um instrumento-chave
seu comportamento aquilo que os americanos para a consecução de seus objetivos.

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Dessa forma, remete-se a um segundo plano populares eventualmente capacitadas ao
- complementar, mas também fundamental na exercício de funções de governo.
escala de importância - os diferentes usos que b) O Partido de Células corresponderia ao
esse partido faz e fez dos diversos instrumentos modelo dos partidos comunistas, organizados
de comunicação que utiliza, o papel de em termos de grupos de militantes profissionais,
ferramentas a serviço dessa mesma estratégia geralmente organizados por local de trabalho.
de poder. Isto porque, desde as suas origens Suas estruturas são relativamente menores do
até muito recentemente, o PT não possuía a que a dos partidos de seção, variando, segundo
quantidade de poder e a influência que detém Duverger, entre 15 e 20 membros, números que
hoje sobre o Estado e a mídia, para que pudesse coincidem com o de integrantes dos chamados
agendar os meios de comunicação de massas núcleos de base através dos quais originalmente
de forma a desenvolver, a partir deles exclusiva organizava-se o PT.
e centralmente, o processo de espiral do silêncio Por sua inserção em locais de trabalho
tal como originalmente sugerido por Noelle- e associação com vínculos de solidariedade
Neumann. estabelecidos em mobilizações de reivindicação
sindical, as estruturas de células tendem a
3 Um partido como emissor; uma ideologia desenvolver padrões de autoridade mais fortes
como mensagem; a conquista da do que no caso dos partidos de seção. Os
hegemonia como meta objetivos desse tipo de organização partidária
seriam, fundamentalmente, os de agitação
Para compreender o papel político que o PT política e propaganda, sendo que no Ocidente
cumpriu no desenvolvimento dessa estratégia em geral atuavam na clandestinidade, e
é preciso, em primeiro lugar, caracterizar bem relegando as preocupações parlamentares
esse partido e sua cultura política. A tipologia e eleitorais, em geral vistas como terrenos
elaborada por Maurice Duverger, adaptada ao burgueses de luta política, a um segundo plano.
caso, parece a mais adequada a essa finalidade. Um mistura desses dois modelos,
O autor parte de um conceito de partido político guardadas certas características específicas,
segundo o qual ele seria formado por um mais se aproximaria do perfil de atuação, no
conjunto de comunidades, uma reunião de primeiro caso, e de organização, no segundo
pequenos grupos disseminados através do caso, idealizado pelos fundadores do Partido
país (seções, comitês, associações locais, etc.), dos Trabalhadores na sua fase de formação,
ligados por instituições coordenadoras. 11 nos primeiros anos de sua existência.12
Sua classificação considera a existência de Enquanto esteve fora do poder de Estado,
quatro tipos de partidos, quais sejam, o Partido o PT desenvolveu uma poderosa estrutura
de Comitês, o Partido de Seções, o Partido de organizativa que atuava junto à sociedade
Células e o Partido de Milícias. No caso presente, através de núcleos de vinte ou mais militantes,
interessa-nos a tipificações do Partido de Seções que agiam junto às comunidades, locais de
e do Partido de Células, tais como reproduzidas trabalho ou movimentos sociais. Aos poucos,
abaixo: tornou-se o maior partido da esquerda
a) O Partido de Seções apresenta como brasileira, controlando a Central Única dos
característica fundamental o apelo às massas, Trabalhadores (CUT), principal central sindical
através de métodos de recrutamento e afiliação do país, o Movimento dos Trabalhadores Sem
de membros. Esse tipo de partido buscaria Terra (MST) - considerado o maior movimento
transcender às ações exclusivamente eleitorais, social de massas no mundo hoje -, dentre
procurando difundir e implantar processos outras organizações não-governamentais e
de educação e socialização políticas. Para movimentos sociais existentes no Brasil atual.
Duverger, esse tipo de estrutura partidária Progressivamente, foi também galgando postos
é ligada à tradição socialista (refere-se aos de Estado em decorrência de um vertiginoso
partidos socialdemocratas europeus da virada processo de crescimento eleitoral, que o
do século XIX para o século XX, cuja organização transformou num dos principais partidos do país.
tinha bases regionais correspondentes aos Uma das transformações significativas
distritos dos sistemas eleitorais desses países) ocorridas durante o breve processo evolutivo
e seu objetivo original seria o de enquadrar as do partido foi detectada por uma pesquisa
massas, educá-las e criar, no seu seio, lideranças desenvolvida em 1990, que demonstra, através

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de diversos dados quantitativos, o crescimento diferenciada em relação à tradição partidária da
da presença de setores de classe média - política brasileira.
especialmente funcionários públicos -, em Inicialmente formadas por uma maioria
detrimento de setores sindicais e populares composta de sindicalistas e lideranças
urbanos e rurais, encontrados em maior número comunitárias e de movimentos sociais de
nos seus organismos dirigentes nos primeiros origem popular, as estruturas intermediárias
anos de sua existência. 13 do PT foram, gradativamente, sendo tomadas
Outro estudo de 199514, que analisa o perfil por militantes de classe média, formados pela
dos integrantes do Partido dos Trabalhadores, tradição leninista de militância profissional,
conclui que, tomando-se como base a herdada dos grupos de esquerda que foram
comparação entre o perfil socioeconômico aderindo ao PT ao longo de seu processo de
e demográfico da população brasileira e a construção.16
composição social do partido vista através do Esse progressivo avanço da militância
mesmo corte, o PT deve ser considerado como das organizações de esquerda – tendências
um partido de massas, embora não passível segundo o jargão interno - provocou mais uma
de classificação como um partido classista nos transformação no PT. Tratouseda mudança na
moldes tradicionais, pois para isso precisaria correlação de forças internas que compõem
apresentar composição majoritariamente seus organismos dirigentes, cuja culminância
integrada por militantes e filiados ligados ao setor evidenciou-se no Encontro Nacional do partido
secundário ou trabalhadores diretos. Por este que antecedeu as eleições presidenciais de
critério, então, o PT mais se aproximaria do perfil 1994, quando os setores caracterizados como
dos partidos multiclassistas contemporâneos esquerda do espectro ideológico interno à
(por acompanhar tendências de modificação da legenda tornaram-se maioria pela primeira vez,
economia em direção ao crescimento do setor derrotando Lula e os setores caracterizados pela
terciário em detrimento dos setores primário sua militância como de “centro” e “direita”.
e secundário). Além disso, revela que o PT se Essa transformação, embora só tenha se
compõe majoritariamente de integrantes de tornado evidente ao público externo naquele
renda média e de escolaridade elevada, assim momento, é fruto de um processo de longo
como de parcela considerável de assalariados prazo que tem origem na adesão ao partido dos
rurais e de pequenos proprietários rurais e vários grupos marxistas-leninistas e trotskistas
urbanos. oriundos das experiências malsucedidas de luta
O bloco social a que pertencem os política das esquerdas nas décadas anteriores.
integrantes do PT compõe-se, portanto, Esses grupos políticos, embora não mais
de segmentos integrados ao processo de atuem formalmente sob o princípio leninista
modernização recente do país, sendo parte de do centralismo democrático17 e nem possam
sua força de trabalho e do mercado consumidor, mais - por decisão de um congresso partidário
ainda que de forma diferenciada.15 Uma análise que mudou seus estatutos e regulamentou as
dos resultados eleitorais alcançados pelo PT em tendências - recorrer a organismos próprios
todo o Brasil, e também no Rio Grande do Sul paralelos às estruturas oficiais do PT, mantêm
e em Porto Alegre, confirmará a constatação vícios característicos da cultura política
de que o principal contingente de eleitores autoritária leninista, componente que marca sua
desse partido também se enquadra nesse perfil atuação como correntes internas do PT e que
socioeconômico e cultural. influencia decisivamente as práticas e posições
Outro elemento constitutivo do PT, digno políticas que o partido assume, tanto mais
de registro para fins do presente ensaio, diz quanto mais influência esses setores exercem
respeito à cultura política de sua militância que, sobre as diferentes instâncias partidárias nos
conseqüência das características organizativas vários estados do país.
mistas, ao mesmo tempo inspiradas na tradição São traços característicos das práticas
dos partidos socialistas europeus e no tipo desses grupos, entre outras:
de organização do antigo Partido Comunista a) O dogmatismo ideológico que privilegia
russo (ver nota de rodapé número 17 abaixo), estratégias apoiadas na defesa conservadora de
transformou esse partido numa poderosa posições ortodoxas (alianças eleitorais somente
máquina política de massas, mas com uma com partidos de esquerda; tratamento de
cultura de militância extremamente ativa e adversários eleitorais como inimigos de classe;

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centralização de poder e controle rígido dos Hegemonia aplicado à relação do partido com
organismos partidários; tentativas de ressuscitar, a sociedade. A concepção mais vinculada à
quando no poder, práticas fracassadas de tradição leninista, e que pode ser encontrada
intervenção do Estado na economia; por em escritos do próprio Lenin, de Bukharin e de
exemplo), em detrimento de uma atuação Stalin, aproxima o conceito de Hegemonia mais
apoiada na consulta às bases e na análise da à noção de coação do que a de persuasão;
realidade concreta e sua dinâmica;18 mais à noção de imposição do poder pelo uso
b) O privilégio tático conferido a uma política da força do que à capacidade de liderança;
de acúmulo de forças para uma almejada mais à condição de submissão política de quem
tomada do poder (pela via revolucionária, se é vítima da Hegemonia de outros do que à
necessário) no futuro; noção de legitimação do poder pelo consenso,
c) A atuação política nos movimentos via processos de longo prazo de construção de
sociais, nas instâncias internas do partido e influência cultural, intelectual, moral e através da
nas instituições e na sociedade, inspirada na comunicação persuasiva.
teoria leninista da tomada do poder, inclusive Na cultura política italiana, influenciada
por meios não pacíficos e/ou não-institucionais pelo legado intelectual de Gramsci, parece
se necessário; e também a rígida disciplina prevalecer a concepção de Hegemonia
de grupo na luta pela conquista de espaços predominantemente entendida como
nos organismos partidários, que muitas vezes capacidade de direção intelectual e moral, a
leva-os a sacrificar objetivos estratégicos partir da qual a classe dominante ou aspirante
gerais da legenda (deixar de apoiar um ao domínio consegue se fazer aceita como
candidato moderado bem posicionado nas dirigente legítima dos destinos da sociedade,
pesquisas de opinião, em detrimento de um através da conquista do consenso ou da
candidato radical numa prévia ou acordo pré- submissão passiva da maioria da sociedade às
eleitoral, sacrificando a conquista de apoio de metas impostas à vida social e política dessa
segmentos conservadores da sociedade e a mesma sociedade.
vitória numa eleição, para demarcar posições A “teoria da Hegemonia” ocupa lugar
e fazer propaganda, por exemplo), em nome de central nas reflexões teóricas de Gramsci sobre
objetivos de controle interno sobre as estruturas a política e o Estado modernos e encontra-se
do partido, sob hegemonia de grupos alinhados explicitada nos Quaderni del cárcere. Para o
com seus pontos de vista ideológicos. Ou seja, autor, a supremacia de uma classe sobre uma
tendem a considerar melhor perder a eleição determinada sociedade ocorre pelo recurso
com um candidato de perfil radical, identificado complementar e integrado de formas de domínio
com as posições do “nosso campo”, do que e Hegemonia. O domínio se impõe através de
vencer a eleição com um candidato “reformista mecanismos de coerção típicos da sociedade
e conciliador”.19 política, e a Hegemonia é exercida sobre
No caso específico do Rio Grande do Sul grupos sociais aliados ou neutros (neutralizados
e da cidade de Porto Alegre, esse segmento talvez?), através de mecanismos hegemônicos
mais à esquerda do espectro ideológico interno típicos da sociedade civil.
ao PT compõe, através de uma aliança dos Todo Estado, portanto, apóia-se, segundo
grupos mais ortodoxos, a maioria que controla Gramsci, sobre combinações variáveis,
a máquina partidária e comanda o governo do conforme o grau de desenvolvimento de cada
Estado, ao qual o partido chegou nas eleições sociedade civil, dos fatores força e consenso.
de 1998. Para ele, a sociedade civil é o locus da formação
Aos ingredientes anteriormente referidos, e difusão da Hegemonia, e por isso, é sobre a
cabe agregar mais um, fundamental para a tentativa de construí-la que deve ser dirigido
compreensão da cultura política petista, de todo o esforço estratégico do partido. Trata-
seus métodos de atuação e suas estratégias se de um pré-requisito estratégico da classe
de poder. Trata-se da influência da concepção revolucionária. A força que ambiciona “fazer-se
gramsciana20 de estratégia de esquerda para Estado” não assegurará o domínio por longo
a tomada do poder a partir da conquista da tempo sem primeiro fazer-se hegemônica no
Hegemonia. bloco social antagônico ao que está no poder,
Na cultura política de esquerda, existem diz ele. Por isso, são freqüentes nos escritos de
pelo menos duas concepções do conceito de Gramsci sobre o conceito de Hegemonia e sua

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operacionalização política expressões como Grande do Sul. Muito embora, é preciso destacar
“guerra de posições” e “ocupação gradual das que no caso do estado esse processo ainda
casamatas do campo inimigo” por parte das não se consolidou, e encontra-se em disputa no
forças revolucionárias. presente momento.
Lenin construiu sua teoria da tomada do Segundo Candido Monzon Arribas23, desde
poder pelo partido revolucionário da classe o final da Idade Média até a segunda metade do
operária, inspirando-se no processo insurrecional século XVIII, acontecimentos sociais e políticos
que marcou a Revolução Francesa. Já Gramsci começam, aos poucos, a mudar a mentalidade
inspira-se na análise dos mecanismos de social da época, preparando o surgimento do
construção hegemônica da burguesia como fenômeno a que a expressão “opinião pública”
classe social ascendente para desenvolver se refere.
sua teoria da Hegemonia. Para o autor, assim O século XV marca a emergência de uma
como o parlamentarismo, os partidos liberal- verdadeira revolução científica que transformou
democráticos e a opinião pública cumpriram a maneira como a sociedade passou a entender
a função de instrumentos de informação a a si mesma e as diferentes dimensões da
serviço dos interesses de classe da burguesia realidade. Conseqüência da influência que as
mais avançada, operando de forma combinada novas descobertas científicas exercem sobre
com as funções sociais estruturadoras da a mentalidade da época, a razão começa a se
emergente economia de mercado e da então libertar da influência da fé religiosa e a ganhar
nova organização do trabalho em padrões autonomia como forma de explicação das
fabris, a concepção gramsciana de luta pelo diferentes dimensões da realidade. As esferas
poder vê nos conselhos operários (equivalentes social e política da realidade não ficam imunes
funcionais ao Orçamento Participativo), nos a essas transformações. O exercício do poder
sindicatos e organizações da sociedade civil antes era explicado a partir da Doutrina Primitiva
e no partido revolucionário os instrumentos da Igreja Católica, que justificava a existência
análogos de luta política do proletariado. Ao de uma hierarquia natural entre os homens.
partido cabe a tarefa de recrutar e selecionar os Segundo essa visão, alguns indivíduos nasciam
“intelectuais orgânicos” aos interesses das forças predestinados, por direito divino e/ou herança
revolucionárias, organizar sua Hegemonia, e consangüínea, a governar, e outros, também
muni-los de uma teoria e de uma estratégia que por desígnio divino, nasciam e viviam excluídos
permitam confrontar e reverter a Hegemonia da política e condenados a serem eternamente
das classes dominantes.21 governados. O fim do feudalismo traz a extinção
de um modo de vida vinculado à agricultura, no
4 De Gramsci à moderna teoria da opinião qual os indivíduos viviam isolados no campo.
pública Ressurge o fenômeno urbano e a ascensão
social da burguesia cria as condições para
Segundo Noelle-Neumann, opinião pública é “a a efervescência política decorrente da ação
conexão – da controvérsia, que alguém é capaz revolucionária da nova classe social emergente,
de expressar sem o risco de auto-isolamento – num contexto de concentração da população
que tem duas fontes: os mídia e a observação nas cidades. Essa conjunção de fatores faz com
imediata do meio ambiente, do que as outras que o direito ao exercício dompoder passe a
pessoas pensam e do que elas expressam em ser explicado por justificativas racionais que
público” (p. 146).22 substituíssem àquelas de ordem metafísica.
Coerente com o ponto de vista Santo Tomás de Aquino (1225-1274),
expresso anteriormente, qual seja, o de que assistindo ao renascimento das cidades, à
a comunicação interpessoal cumpriu papel intensificação do comércio e, em decorrência
essencial e preponderante sobre o recurso aos disso, à entrada do povo na cena política, muda
mídia na estratégia de poder do PT, dedicaremos o enfoque das preocupações teóricas da época,
um primeiro esforço à caracterização do que e sob influência dos textos de Aristóteles (função
aqui se entende como sendo o processo de política da cidade para a realização das virtudes
fabricação da opinião pública e que, ao nosso humanas) passa a reconhecer que o estudo da
ver, corresponde à tecnologia de construção da política requer o uso da razão e não pode se
Hegemonia do PT, inicialmente na cidade de limitar ao âmbito teológico.
Porto Alegre e, em seguida, no estado do Rio Já no início do século XVI, Nicolau

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Maquiavel, em “O Príncipe”, revoluciona o discursos nos cafés e salões ingleses, franceses
pensamento político de seu tempo separando e alemães. O público pensante, cada vez mais
a ética religiosa da ética política. Com isso, amplo, reforça-se com a imprensa crítica e
confere autonomia à política, ao desenvolver independente que começa a surgir na época,
novas idéias para explicar a comunicação entre e a tornar-se o veículo de comunicação desse
governantes e governados, e introduz a ética da público.
razão de Estado para justificar a nova lógica da Com o absolutismo ilustrado surgem as
ação política. O pensador florentino defendia primeiras teorias democráticas sobre a coisa
a idéia de que o príncipe precisa do apoio pública, juntamente com o surgimento, ao
popular para governar, e por isso deve recorrer longo do século XVIII, de segmentos intelectuais
a uma certa técnica de relacionamento com o preocupados com assuntos públicos em
povo, técnica essa que precisa ser reformulada academias, institutos, laboratórios, clubes,
constantemente, sempre que as circunstâncias salões, cafés, tornando clara a significação da
assim o exigirem. Para ele, em suas relações opinião pública e seu papel na sociedade.
com o povo, o príncipe deve cuidar de sua Emergem na cena social, intelectual e
imagem, da sua reputação, e manipulará a política da época os pais do pensamento político
opinião pública para manter-se no poder, moderno. A obra de Thomas Hobbes introduz
sempre que necessário. a noção da consciência que se converte em
Na época, o movimento da Reforma opinião, a partir da qual os atos de crer, julgar
Protestante também jogara papel importante e imaginar se nivelam à esfera do opinar,
para impulsionar essas transformações sociais, pertencendo todos eles ao âmbito do privado.
na medida em que mobilizou as consciências Locke fala da Lei da Opinião que se erige em juiz
européias, tanto no plano religioso quanto de virtudes e vícios, e que seria algo mais do que
político. As seitas religiosas que dele derivaram a mera opinião; significando a malha informal de
foram fundamentais na luta pela conquista de crenças populares cujo controle social indireto é
liberdades, na medida em que defendiam a mais eficaz que a censura formal sob ameaças
liberdade de culto, a tolerância religiosa (e, por de sanções eclesiásticas ou estatais.
conseqüência, política) e uma nova moral da Rousseau, em 1750, no “Discurso sobre
ação em relação à busca do lucro e da riqueza. as ciências e as artes” proferido na Academia
Nesse período surgem as primeiras concepções de Dijon, além de utilizar pela primeira vez a
de submissão do rei à lei, os questionamentos expressão “opinião pública”, denuncia o papel
à licitude da tirania e a concepção do poder negativo da cultura sobre o homem, afirmando
do soberano como emanando da soberania que o novo ser social, aculturado e público, vive
popular e não do direito divino. dependente de formas e da opinião pública,
A invenção da imprensa por Gutenberg, enfim, da observação dos demais. Para o
no século XV, será outro marco na história da pensador suíço, no início o homem não se guiava
comunicação humana, que conferirá novo por leis, mas por costumes. Era uma sociedade
impulso a esse ciclo de transformações sociais natural, e a opinião era resultado do contato com
e políticas, dando origem ao surgimento da os demais. Com a passagem do estado natural
propaganda, das “folhas de notícias”, dos para o estado social, o homem separa-se do
panfletos polêmicos, do jornalismo opinativo, seu entorno. Surgem as formas de organização,
da formação das correntes de opinião e, o progresso econômico, aumentam as
conseqüentemente, da censura. Em seguida, necessidades e ganha novo significado social
o surgimento do correio dará outro impulso a a preocupação com as aparências. A opinião
essas transformações, permitindo a expansão primitivamente pública da comunidade torna-se
da comunicação das opiniões escritas e opinião privada dos poderosos que fazem valer
impressas por toda a Europa. seus critérios sobre o conjunto da sociedade. Há,
Paralelamente, os recém-surgidos cafés e assim, uma permanente traição da coletividade,
salões de chá vão se consolidando como pontos que se sente afastada de sua vontade e juízo
de encontro e como verdadeiras incubadoras pela imposição de critérios que, não sendo seus,
de agitação política na segunda metade do pretendem representá-la no mais espontâneo
século XVII24. A partir daí, as idéias passam a de sua existência. Segundo Rousseau, opinião
difundir-se através de diversos meios impressos pública tem a ver com o estilo da democracia
e de discussões grupais, controvérsias e grega com o conjunto de cidadãos reunidos

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em assembléia e votando por aclamação. No à Declaração dos Direitos do Homem.
Contrato Social, o tema da opinião vem unido Emerge o liberalismo que trata de impor-
ao da vontade geral, ainda que seu sistema se e dominar as consciências, as instituições,
pretenda negar a opinião pública; não havendo o Estado, a economia, primeiro contra a
lugar para os públicos ilustrados que questionam mentalidade conservadora, e depois, frente às
o Estado; a opinião pública seria domínio total correntes socialistas, marxistas e anarquistas
do Estado e de seus aparatos ideológicos.25 que denunciam os pressupostos teóricos e
Segundo H. Béjar26, a opinião pública perde práticos do liberalismo e da burguesia como
“o caráter libertador e racional que tinha nos classe nas instituições públicas, num processo
círculos intelectuais e se converte em aclamação que se completará na Primeira Guerra Mundial.29
constante de um Estado cuja perfeição não Stuart Mill, em 1859, escreve “Sobre a
se questiona. A crítica dos grupos passa a ser liberdade”, defendendo o direito dos cidadãos
considerada traição e crime. A opinião converte- ou dos grupos de divergir pacificamente e
se na própria voz do Estado que se caracteriza expressar sua divergência sem ser prejudicados
por sua extensão em todas as esferas e se faz por isso, contestando o despotismo político
porta-voz da comunidade, que não conseguiu moderno e produzindo repercussão no campo
unir em harmonia política, moral e natural, e por da opinião pública e dos conflitos trabalhistas
identificar o homem e o cidadão”. no que diz respeito ao direito de greve, às
Não obstante todas essas referências manifestações de fé religiosa e à publicação
anteriores ao conceito de opinião pública, são de idéias políticas. Os escritos de Tocqueville
os fisiocratas (“economistas” que procuravam caminham na mesma direção, e o debate sobre
formular leis científicas pretensamente a ampliação do sufrágio faz com que a opinião
naturais) que podem ser considerados como pública apareça dividida, convertendo a opinião
os primeiros expoentes da doutrina da opinião pública dominante em um poder coercitivo.
pública, ao atribuírem ao público ilustrado o Ambos reconhecem a opinião como uma força
papel de compreensão, discussão e exposição que pode servir para limitar o poder.30
das leis naturais frente ao poder do Estado, cujo Segundo o liberalismo, o ponto de partida
soberano tem a missão de custodiar a ordem encontra-se na esfera privada da sociedade
natural.27 civil, formada por pessoas que têm interesses,
Esses princípios inspiram as revoluções problemas e opiniões particulares. No âmbito
americana e francesa no século XVIII, privado, o homem guia-se por leis naturais
consolidando a noção que se tinha da e defende os direitos naturais, cabendo aos
opinião pública como sendo um poder que se indivíduos, segundo seus dons, dentro da
contrapõe a uma ordem e a um poder que não iniciativa privada e da competição, conseguir
correspondia aos desejos do povo. No campo suas aspirações humanas. De outro lado está a
político e social, os povos americano e europeu esfera pública; o poder público, o Estado, que,
iniciaram as lutas por independência, liberdades através dos governantes e da administração,
e pelos direitos do homem, resultando daí a trata de regular os assuntos de interesse geral.
constituição dos parlamentos, do sufrágio, da Há, portanto, duas esferas, a privada e a pública,
democracia e a luta por igualdades e liberdades, que correspondem à ordem social e a ordem
que passam a ser temas de preocupação e política. O homem pertence à sociedade civil e
debate permanente nos séculos XIX e XX. como cidadão participa da vida pública.
Com a Revolução Francesa, triunfa a Em teoria, os liberais admitiam a
liberdade de expressão, e a opinião deixa de ser autonomia da esfera privada sobre a pública,
patrimônio dos ilustrados e passa a ser do povo, mas interesses comuns e uma agressividade
ainda que se tenha de suportar manipuladores própria do Estado impediriam tal autonomia.
de opinião, conforme se denunciava na Como resposta, o cidadão se interessa pelo que
Comuna de Paris28. Essa é a origem das é público e busca formas de controlar o poder
questões teóricas que darão corpo à noção de a sua atuação. A comunicação política entre
soberania popular; da lei como expressão da governantes e governados se faz necessária
vontade geral; da defesa dos direitos naturais à e os acontecimentos que ocorrem a partir da
liberdade, igualdade, segurança, propriedade, Revolução Francesa são o melhor exemplo de
resistência à opressão; à realização de eleições tais relações. Com a revolução, a burguesia
livres para escolha de representantes do povo, e ascende ao poder, situação que a impede de se

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opor ao Estado democrático. A opinião pública, poder e sua situação. Esse público é
de certo modo, se canaliza e se converte no formado, principalmente, por proprietários,
parlamento, que passa a ser o lugar onde se burgueses e ilustrados.
passa a ouvir sua voz através dos representantes 4º Este público demanda os meios
do povo. No entanto, quando os liberais falam necessários para fazer ouvir sua voz perante
de opinião pública, referem-se àquele público o poder e a sociedade. Entre os meios que
que pensa como personalidades privadas considera fundamentais se encontram a
sobre assuntos públicos, mantendo uma atitude educação, a informação e a articulação da
crítica frente ao poder, agora democrático e vida pública, aspectos que tornam possível
constitucional.31 a comunicação política.
Mas, inquire Arribas, “quem é esse público? 5º Pressupostos os fatores anteriores,
São todos os cidadãos? Pode-se dizer que o debate será possível, em primeiro lugar,
público é todo o mundo, ou deve-se limitar a um no Parlamento, em segundo lugar, através
grupo reduzido que, por gozar de privilégios, são do raciocínio público que exercem as
de fato do raciocínio público? - os liberais referem- pessoas privadas sobre os assuntos de
se aos interesses da burguesia (os proprietários interesse geral.
e ilustrados), obviamente, e inclusive colocavam 6º Esta segunda forma é o que os
obstáculos para que o povo ocupe espaços civis liberais chamam propriamente de opinião
e políticos; e ainda exigem que se articulem os pública. Constitui e se manifesta como uma
meios para que sejam educados e informados força moral e crítica sobre a sociedade, o
sobre os assuntos públicos, a educação pública bem público, o Parlamento e o poder em
transforma-se em direito e dever; e a imprensa geral.
se converte em mediadora entre os cidadãos e
o Estado.32 Segundo o autor, o marxismo critica e
Suposta a existência de um público tenta desmascarar a postura liberal, afirmando
interessado nos assuntos de interesse geral, e que não existe uma opinião pública, mas tantas
suposta a informação, o debate; o contraste de opiniões quantas são as classes sociais e o que
opiniões será o passo seguinte até chegarse ao normalmente se entende por opinião pública
consenso. Os liberais partem do princípio de não é outra coisa que não a opinião da classe
que ninguém detém o monopólio da verdade dominante.
e que só o diálogo e o debate público levam O marxismo não explicita essa crítica
os cidadãos ao conhecimento e à solução diretamente, mas ela pode ser depreendida
dos problemas públicos. Teoricamente todos da explicação marxista clássica sobre a
os homens adultos eram cidadãos, mas na estrutura social, os tipos de sociedade, a teoria
realidade somente os proprietários o eram. A do reflexo e os conceitos de ideologia como
opinião pública, portanto, restringia-se àquele falsa consciência ou alienação, segundo os
grupo de pessoas privadas que podiam exercer preceitos do materialismo histórico e dialético.
o raciocínio sobre os assuntos públicos, ou seja, Na concepção marxista, a ideologia não é
restringia-se à classe dominante.33 apenas a inversão refletida da realidade ou
Monzon Arribas sintetiza em seis tópicos ilusão, mas também é uma força que utiliza
básicos o que ele define a articulação da opinião a classe dominante para dominar e impor a
pública segundo a ótica liberal.34 crença da legitimidade de seu domínio. As idéias
e valores da classe dominante são assimilados
1º Uma sociedade civil com dinâmica pelas massas populares da classe antagônica, e
própria, formada por um conjunto de sua força é tal que, ainda que desapareçam as
cidadãos que procuram seus interesses condições objetivas que lhes dão sustentação,
pessoais, constitui a esfera privada. seguem vivos na mente das pessoas.35
2º Um Estado que administra os A crítica marxista da opinião pública ganhou
assuntos de interesse geral, a coisa pública, leituras modernas, especialmente no que diz
e que deve intervir o menos possível na respeito ao papel dos meios de comunicação de
esfera privada, constitui a esfera pública. massas e das pesquisas de opinião publicadas
3º Um público, formado por aquelas pela mídia. Pierre Bourdieu36 e Patrick
pessoas da sociedade civil que se Champagne37 destacam-se no desenvolvimento
interessam pelos assuntos públicos, o dessa nova visão crítica do conceito de opinião

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pública na sociedade contemporânea. com mais competência, souber vencer a guerra
Para Bourdieu, a opinião pública no de imagens, criando ou manipulando fatos e
sentido que é conferido a esse conceito pelas versões e fazendo-os prevalecer, nos espaços
pesquisas de opinião publicadas pela mídia não privilegiados da mídia, como “a verdade”.
existe; é apenas mais um dos instrumentos de Transformar um fato ou sua versão em “verdade”
manipulação política a serviço dos interesses muitas vezes é algo que ocorre pela capacidade
dominantes. Para o autor, o que importa é a de um agente político de divulgar seu ponto de
opinião mobilizada, as opiniões constituídas em vista sobre a interpretação desse fato, mediante
grupos, em torno de um sistema de interesses. a execução de uma eficaz estratégia de
Opinião consiste, nas palavras de Platão divulgação, orientada à ocupação de espaços
reproduzidas por Bourdieu na epígrafe de seu nos meios de comunicação segmentados e de
artigo A opinião pública não existe, em “explicitar massas.
posições em um discurso pronunciado”, o que É sob a influência dessas circunstâncias
pressupõe a capacidade de elaboração de um que as pesquisas de opinião adquiriram
raciocínio analítico sofisticado, muito diferente proeminência no tabuleiro da política
daquilo que ocorre com o indivíduo estimulado midiatizada. Mais do que isto, as pesquisas
a responder enquetes de opinião. transformaram-se em instrumento fundamental
Segundo essa visão crítica do conceito, o para o jogo do poder. Nesse contexto, os
jogo político se reorganizou e se reestruturou resultados de pesquisas de opinião eleitorais
na sociedade contemporânea, em função ou de avaliação de desempenho de governos
dos meios de comunicação e das pesquisas passaram a cumprir um duplo papel. Por
de opinião. A política virou espetáculo. Um um lado servem, aos atores políticos e aos
espetáculo no qual o cidadão virou público espectadores, como “placar” medidor de
espectador, estimulado a aplaudir ou a vaiar os força política, entendida como capacidade de
atores políticos. É nesse contexto que o território influenciar a opinião pública. Por outro lado,
da política, antes espaço privilegiado e exclusivo formuladas que são por agentes políticos de
dos políticos, vem sendo gradativamente alguma forma interessados nos seus resultados,
invadido por novos personagens. elaboradas e tornadas públicas no momento e
Neo-sofistas, publicitários, comunicadores, da forma que melhor interessa ao agente político
profissionais de marketing, spin doctors que as patrocinou, ao serem publicadas pelos
(expressão da língua inglesa que designa o meios de comunicação servem também como
agente político cuja função, atuando a serviço de instrumento de manipulação da opinião pública,
governos e/ou políticos, é fabricar fatos e fazer a serviço, portanto, de interesses que agem
prevalecer versões através da manipulação direta e/ou indiretamente sobre o tabuleiro das
da mídia); e por fim, cientistas políticos que, disputas por poder. Constituem-se em novo
cumprindo as funções de analistas simbólicos, ingrediente da comunicação persuasiva e do
interpretam comportamentos e expectativas conjunto de instrumentos de regulação social da
políticas e eleitorais das massas e concebem sociedade pós-industrial.
estratégias para influenciá-las, transformaram- Dessa forma, segundo Patrick Champagne,
se em protagonistas de bastidores, às vezes os agentes políticos que pretendem jogar o novo
mais influentes que os próprios políticos, hoje, jogo do poder da sociedade midiatizada em
melhor definidos; atores políticos. que as pesquisas de opinião exercem o papel
Fazer política, conquistar poder, não anteriormente descrito precisam se articular a
consistem mais em aglutinar massas em partidos agir como “autores da opinião pública” através
e grandes mobilizações de rua, cujo destino de formas modernas, visto que a luta política
seria a praça em frente ao palácio do governo, tende a se reduzir mais e mais a uma batalha
ou mesmo a conquista (às vezes pela força) pela conquista da opinião pública medida de
do próprio palácio. Fazer política na sociedade forma aparentemente científica e indiscutível
da mídia eletrônica consiste em fabricar e pelos institutos de opinião.
veicular imagens, fatos e versões, destinados Bourdieu mostra, no artigo A opinião
a persuadir e influenciar o comportamento pública não existe (ver nota nº 27), que as
do público espectador, e a estimulá-lo a reagir pesquisas de opinião, ao proporem uma mesma
favoravelmente aos interesses do agente questão para inúmeros indivíduos socialmente
político emissor. Conquista poder aquele que, heterogêneos, interrogados em função de

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demandas políticas, fazem parecer que todos os pesquisas de opinião entre os jornalistas e
indivíduos possuem uma única opinião e que se especialistas da “ciência política” e, até mesmo,
colocam sempre diante das mesmas questões, por que esta tecnologia social é transportada
e ainda que, desde um ponto de vista social, para a lógica do campo político, ainda que
todas as opiniões se equivalem. O autor procura suas origens não estejam relacionadas à
comprovar, assim, que os institutos de opinião “mediatização do campo político”, assim como
não medem verdadeiramente a opinião pública, a TV. Para o autor, assim como a fotografia - que
mas sim constroem artefatos valendo-se de um veio a responder uma necessidade socialmente
exercício ilegítimo da ciência e esquecendo-se preexistente de representação realista -, o
da existência de outra “opinião pública” situada sucesso destas técnicas é explicado pelo fato
além dos grupos de pressão dos “lobbies”. de que elas permitem pôr em prática, com
Com isso, Bourdieu propõe uma verdadeira as garantias da aparente cientificidade, uma
teoria sociológica sobre a produção da opinião. forma moderna de “democracia direta” como
Em dois artigos posteriores (1976/77), a partir uma complementação da lógica democrática,
de análises secundárias de diversas enquetes expressão onipresente e inacessível da ideologia
realizadas pelos próprios institutos de pesquisa, democrática.
ele demonstrou que a probabilidade de haver Este processo exige, portanto, o
uma opinião dita “pessoal” varia segundo redirecionamento do foco da análise, menos
os grupos sociais, especialmente segundo sobre as pesquisas de opinião e mais em
a formação cultural e, sobretudo, que a direção à nova lógica do funcionamento mesmo
competência para responder a uma questão do campo político. Este, por sua vez, impõe
política é técnica e socialmente inseparável sua força sobre o campo social específico e
como bem se vê pelos índices “políticos” de relativamente autônomo da conquista dos
“não-respostas”, ocasionadas por diversos postos de poder sobre a administração do
motivos, desde o fato de que alguém possa não Estado, pela via da mobilização eleitoral de uma
se reconhecer no direito de opinar sobre algo, maioria de cidadãos em torno de uma mesma
até a possibilidade de não ter interesse sobre a representação do mundo social.
questão. Segundo Norbert Elias, a luta no interior
Segundo o autor, o contexto em que os dos campos políticos nacionais, que são cada
indivíduos formam opinião sobre campos vez mais morfológica e geograficamente vastas,
temáticos de seu interesse “natural” é tendem a ser de natureza essencialmente
completamente diferente das circunstâncias simbólica, pois esta luta se faz com as palavras
que lhe são impostas pelas técnicas e visando a fazer crer ou fazer ver, de maneira
homogeneizantes das enquetes. que a história do espaço político consiste, em
Em colaboração com Luc Boltanski, grande parte, em analisar as diversas formas
Bourdieu analisou a contribuição da “ciência desse poder simbólico particular e cada vez
política” com respeito à “produção da ideologia mais autônomo.38
dominante”, demonstrando que a essência da Assim, a luta, nos debates político-eleitorais,
dominação política é de ordem simbólica. A por exemplo, passa a ser a luta pela última
ação política, assim, baseia-se na imposição de palavra. Os profissionais da política tentam,
um sistema de classificação do mundo social por todos os meios disponíveis e admissíveis
que, embora não sendo verdadeiro, alguém nesse espaço de jogo, impor o maior número de
dotado do poder e da propriedade específica de pontos de vista, ou ainda, procuram por esses
manipular meios simbolicamente eficientes faz meios apropriar-se da visão do mundo social
parecer verdade, à medida que são trabalhados que eles crêem ser a da maioria dos cidadãos.
esses meios, anunciando como desejável o que Os confrontos na mídia moderna (rádio e TV)
se pretende que venha a acontecer. são saturados de índices que manifestam as
Essa constatação, segundo o ponto de preocupações dos jornalistas de ser ou aparecer
vista aqui explicitado, remete a uma sociologia árbitros imparciais desta luta verbal.
dos usos políticos de uma prática que tem A heterogeneidade política e social
por característica principal apresentar todos da audiência dos meios de comunicação
os signos exteriores como científicos, o que, de massa nacionais obriga os jornalistas a
segundo Champagne, requer um esforço convocar representantes de todas as tendências
em direção à compreensão do sucesso das e também, cada vez mais, aos especialistas em

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Para esse autor, a análise de Durkheim O desmoronamento brutal dos regimes
ou de Cassier sobre a construção social da comunistas da Europa do Leste decorre,
realidade pela matriz dos sistemas simbólicos, então, daquilo que Champagne define como
e especialmente dos sistemas classificatórios, desmoronamento de uma crença, mantidos
é especialmente válida em política. A ordem que eram por sua capacidade de imposição
política é um efeito da abordagem de uma ordem pela força. Este desmoronamento seria análogo
mental e as estruturas políticas existem em ao das práticas religiosas antigas nas zonas
grande parte sobre a forma de representações rurais, que se acelerou com o afastamento da
sociais incorporadas em cada agente social, agricultura por parte dos filhos dos agricultores.
como bem se pode ver nas situações de Este processo constitui uma mediação ou um
mudança política radical. A instauração do elo indispensável para a compreensão dos
voto “democrático” em países autoritários, por mecanismos de dominação simbólicos, que
exemplo, mostra que a questão não se reduz apelam à “moral” de um grupo social constituinte
ao dispositivo material que o organiza (urna, da expressão subjetiva da interiorização de
pluralidade de cédulas, cabines indevassáveis), estruturas sociais objetivas. Como os agricultores
mas implica correlativamente uma verdadeira que não podem mais se reproduzir socialmente
aculturação política da população.39 e biologicamente por não conseguirem
A livre concorrência política que caracteriza mais reproduzir a crença coletiva no valor da
os regimes de tipo democrático tende a ocultar agricultura tradicional e no modo de vida que
o trabalho de imposição que existe nesses lhe é condizente, os regimes políticos da Europa
regimes também, e que tem por objetivo criar do Leste não conseguiram perdurar porque eles
um consenso sobre os sujeitos de possíveis não reuniam mais a capacidade de reproduzir
desacordos. Nos regimes autoritários, esses a crença no seu valor como sistema político.40
esforços por tentar impor uma só visão de Uma das maiores diferenças entre os
mundo se tornam mais evidentes. Esses regimes políticos autoritários e os democráticos
regimes botam, geralmente, toda a sua pode bem residir, portanto, na forma de
atenção e energia sobre a socialização política empreender esta luta simbólica pelo poder.
precoce das novas gerações. Enquadrando-se Nas democracias ocidentais a luta se inscreve
prioritariamente os movimentos de juventude na lógica do mercado e da concorrência aberta
fortemente politizados, porque eles procuram e pública. O capital político específico que os
criar uma verdadeira crença política, ou pelo homens políticos devem acumular, individual e
menos um sentimento de evidência e de coletivamente, é um capital simbólico formado
aceitação, que é precisamente induzido pela pelo crédito de confiança que o cidadão/eleitor
existência de estruturas de percepção política lhe confere, ou seja, uma combinação variável
e social idênticas no interior de uma mesma de crença em sua competência e moralidade.
sociedade, ou seja, de princípios de visão e de O valor desse capital, que pode ser brutalmente
divisão universalmente distribuídos. afetado pela revelação de um “escândalo” na
Por isso, segundo Champagne, as maiores imprensa, expediente cada vez mais usado na
crises políticas atuais são crises de opinião. As guerra por poder entre políticos adversários,
mudanças recentes que emergiram na URSS, e é permanentemente medido nas múltiplas
mais geralmente nos países do Leste Europeu, eleições, mas também pelas manifestações de
são sobretudo mudanças de visão, por uma protesto público e, mais recentemente, pelas
grande parte dos cidadãos, da realidade política pesquisas de opinião.
de seus países. É chocante, diz ele, observar Os regimes autoritários praticam mais
que a maioria dos intelectuais e autoridades voluntariamente a manutenção da credibilidade
soviéticas declara que as transformações em política, o sistema de curso forçado e de
curso eram “impensáveis”, ao passo que ao sustentação assistida pelo aparelho e Estado.
responsável cultural parecia “normal” e “natural” A adesão da população a esses regimes que
há dez anos selecionar jovens artistas e seus se dizem “populares” é inteiramente produzida
trabalhos para uma exposição, em colaboração por um trabalho político visando, pela via da
com a KGB. As reformas impulsionadas por denegação, a fazer crer a todos, e em primeiro
Gorbatchev foram recebidas com ceticismo, lugar talvez aos próprios dirigentes, que existe
porque foram percebidas a partir de estruturas sustentação popular.
mentais anteriormente constituídas. O que se observa, então, destaca

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Champagne, é que o processo de é medida por índices em pesquisas de opinião
“democratização” política é cada vez mais publicadas, sob as circunstâncias anteriormente
marcado pela autonomização do campo político descritas. Dessa forma, essa mudança pode ser
e por sua crescente diferenciação interna, ou compreendida como uma mudança do próprio
seja, pelo surgimento e desenvolvimento de campo social, onde os jovens atores sociais sem
subcampos de agentes sociais relativamente capital político e não engajados tentam reverter
autônomos - jornalistas políticos, politólogos, as regras tacitamente aceitas e interiorizadas
pesquisadores, especialistas em comunicação, pela regulação da competição política.
etc. - que, cada um a sua vez e com seus Champagne, fazendo referência a
interesses próprios e apostas específicas, pesquisas sobre o comportamento do eleitorado
participam mais ou menos diretamente o jogo francês, observa que a quantidade de pessoas
político. que se dizem “muito” interessadas pela política
Dessa forma, o jogo político se tornará mantém-se estável desde os anos 50 e gira em
incompreensível para quem não perceber essa torno dos 10% a 14%.42 Por outro lado, observa
difusão de subprodutos das ciências sociais uma diminuição regular e importante da maioria
e o fato de que os atores políticos se cercam dos excluídos e despossuídos que se dizem
de conselheiros em comunicação política “nada” interessados em política, sendo que a
formados em técnicas publicitárias, e, sobretudo, proporção cai de 40% nos anos 50, para 20%
para quem não levar em conta as numerosas em 1984. Aumenta notadamente, também, com
enquetes publicadas ou não, que são feitas o crescimento da escolarização a quantidade de
permanentemente para medir o “impacto de pessoas capazes de exercer um “olhar oblíquo”
uma audiência de TV” ou de uma “campanha sobre a política, mais exatamente sobre aquelas
publicitária”, para prever resultados possíveis a quem a mídia atinge.
de uma eleição a partir de enquetes sobre Através de um processo circular freqüente
“intenção de voto” ou sobre a “popularidade” dos em política, pode-se inventar interesse por
principais líderes políticos, ou ainda para testar determinada política, pois os responsáveis pela
um “produto” eleitoral (programa eleitoral, tema grande mídia, através da lógica das audiências
de campanha) antes de lançá-lo. máximas com que trabalham, procuram
Em realidade, reafirma Champagne, explicitamente conduzir o interesse do olhar pelas
repetindo Bourdieu, a “opinião pública” não emissões que eles fabricam sobre a política, pois
existe, nem mesmo “a opinião medida pelas segundo a sua definição, a política na definição
pesquisas de opinião”, mas sim existe um novo tradicional não interessa. Assim, a “competência
espaço social dominado por esse conjunto de política” adquirida pela maioria do público é do
agentes - institutos de pesquisa, politólogos, espectador e situa-se na mesma ordem que a
conselheiros de comunicação e marketing da minoria ativa que fala e “faz” a política. De fato,
político, jornalistas - que utilizam as tecnologias os comportamentos e os discursos dos agentes
modernas como as pesquisas de opinião e sociais devem ser restituídos como produtos das
os meios de comunicação, conferindo, por aí, estruturas mentais através das quais a política é
existência política autônoma a uma “opinião percebida e que estão longe de ser idênticas às
pública” que eles mesmos fabricaram, como dos politólogos.
profissionais da análise e da manipulação, Votar em um partido político não significa
transformando, da mesma forma, a atividade necessariamente dar-lhe sustentação na forma
política tal como se vê na TV e tal como é vivida como ele se define no espaço político, mas sim
pelos próprios políticos.41 que uma certa visão da política e da posição
Assim, a mudança da definição da política dos diferentes atores conduziu à escolha dessa
tende a inverter as formas tradicionalmente legenda na cédula de votação. Da mesma forma,
estabelecidas de capital político na fase anterior afirma Champagne, não se pode dizer, após
à era do marketing na política. A legitimidade uma enquete, como fazem classicamente os
das lideranças e das organizações políticas politólogos, que tal ou qual fração da população
antes se media pela autoridade acumulada nos é de esquerda ou de direita. Seria pretender
partidos mediante a capacidade de recrutar que essas categorias fossem imediatamente
e mobilizar multidões; à arte da eloqüência compreensíveis por todos, ou como se o seu
retórica nas assembléias parlamentares ou conteúdo fosse unívoco e universalmente
nas reuniões partidárias e sindicais, etc., agora conhecido e reconhecido. O objeto científico

30 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 19 • dezembro 2002 • quadrimestral


da ciência social crítica contemporânea, das esquerdas. O PT incorporando, em suas
portanto, reside, segundo esses pontos de vista, práticas, elementos da visão liberal; marxista
precisamente na análise dessas categorias clássica e contemporânea, do conceito de
utilizadas em política, isto é, na luta simbólica opinião pública, tendo como base elementos
que joga cada ator político (emissores) e nas teóricos aqui explicitados a partir da síntese
diversas significações que lhes são dadas teórica de Monzon Arribas, Bourdieu e Patrick
pelos diferentes grupos sociais (receptores/re- Champagne, e finalmente também, em função
emissores).43 da eficácia na aplicação desses métodos e
dessa estratégia, conseguiu desenvolver, na
5 Da moderna teoria da opinião pública a cidade de Porto Alegre (e pode desenvolver
Gramsci: o jogo do PT no estado do Rio Grande do Sul), um processo
de espiral do silêncio tal como sugerida como
Nos tópicos anteriores do presente ensaio hipótese atualizada pelos estudos de Rimmer e
acreditamos ter sintetizado os ingredientes Howard da teoria de opinião pública de Noelle-
teóricos capazes de corroborar para a Neumann.
confirmação da hipótese aqui aventada como Tomando por base os ingredientes teóricos
possível explicação para a bem-sucedida anteriormente descritos, seriam os seguintes os
estratégia de poder do PT no Rio Grande do Sul. vetores teóricos que orientaram a estratégia de
De forma geral e esquemática, portanto, poder do PT:
seriam os seguintes os vetores do sucesso da a) A sociedade civil é entendida como
estratégia de poder do PT em Porto Alegre e no possuindo dinâmica própria e sendo formada
Rio Grande do Sul: por um conjunto de cidadãos que procuram
a) A organização de um partido unindo a seus interesses pessoais, constituindo esta a
experiência da tradição de inserção por base esfera privada da sociedade.
regional dos velhos partidos socialistas europeus, Como o poder público interfere nas
mas também fortemente influenciado pela circunstâncias que influenciam a vida privada
tradição da militância profissional de inspiração dos cidadãos, estes agem, de forma individual
leninista (células militantes inseridas em e/ou coletiva, para reagir a essa interferência.
sindicatos; movimentos sociais e organizações O partido, então, atua no ambiente social,
comunitárias, atuando diariamente coladas na procurando conquistar para seu campo
base da sociedade organizada); ideológico os cidadãos integrantes dos
b) A adoção, ainda que de forma segmentos médios da população com bom
ambígua e não explicitada, por esse partido, grau de instrução e razoável nível de renda
das concepções de estratégia gramsciana de (intelectuais, produtores culturais, jornalistas,
chegada ao poder pela via da conquista gradual professores, artistas, entre outros líderes de
da Hegemonia sobre a sociedade, conforme opinião), a partir dos quais multiplica e irradia
explicitada anteriormente; seu potencial de influência social e política para
c) A incorporação ao arsenal retórico outros segmentos da sociedade;
desse partido, como se seu monopólio fosse, b) O Estado, sob comando do partido,
de um conjunto de valores universais positivos é entendido como a entidade à qual cabe
e socialmente aceitos como consensuais, tais administrar os assuntos de interesse geral da
como a identificação com a defesa incondicional sociedade, a coisa pública, inclusive intervindo
da justiça social; com a defesa da ética na política na esfera privada sempre que necessário e que o
e a prática da austeridade administrativa a partir “interesse coletivo” assim o demandar, trazendo
de uma alegada e inquestionável idoneidade para o debate político na esfera pública temas
moral; e, igualmente, a atribuição de valores que seus critérios ideológicos definem como de
negativos e opostos a esses anteriormente interesse “da sociedade”;
explicitados a todos os seus adversários no c) Seu público-alvo inicial é formado por
sistema político e na sociedade; aquelas pessoas da sociedade civil que se
d) A adoção combinada, a partir dessa interessam pelos assuntos públicos, o poder e sua
estratégia de conquista da Hegemonia, de situação. Esse público é formado, principalmente,
métodos modernos de formação e conquista por segmentos médios e intelectualizados
da opinião pública, combinados aos da sociedade, notadamente por funcionários
tradicionais métodos de luta político-partidária públicos, os quais o partido estimula a participar

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 19 • dezembro 2002 • quadrimestral 31


do debate político em espaços públicos formais e aos demais organismos do Estado, os quais
e informais, através do que constitui uma pressiona para que atendam a suas demandas,
poderosa rede de fabricação social de opinião se não detém o poder de controle sobre eles;
pública e de resistência e enfrentamento político ou, então, os quais manipula a serviço de seus
às opiniões divergentes da sua, emitidas a partir interesses políticos e perspectivas de poder,
do sistema político, cultural, social ou da mídia. quando tem sob seu controle fatias do poder de
Incorporam-se a esses métodos de “marketing Estado ou do parlamento;
direto” (abordagem direta dos cidadãos/eleitores f) Reproduz-se, dessa forma, o mecanismo
por militantes partidários, eventos políticos e da espiral do silêncio proposto por Noelle-
culturais, distribuição de literatura e propaganda Neumann, constituindo o que os liberais chamam
partidária e ideológica de produção própria, propriamente de opinião pública, que se
etc.), a partir da concepção de Bourdieu sobre manifesta como uma força moral e crítica sobre
a opinião pública - para quem o que importa é a a sociedade, o bom público, o parlamento e o
opinião mobilizada, as opiniões constituídas em poder em geral. Conquistado o poder, o PT alia a
grupos, em torno de um sistema de interesses -, esses métodos e mecanismos o uso do aparato
os métodos contemporâneos de luta simbólica do Estado e das instrumentalidades disponíveis
através da ocupação de espaços nos meios de aos governantes como ferramentas auxiliares
massa (cooptação política de profissionais de desse processo de construção de Hegemonia,
comunicação), via uso de espaços legais na sem nunca descuidar do enraizamento da
mídia formal para a propaganda partidária; a organização partidária na sociedade.
participação de seus membros e simpatizantes Aplicando toda essa tecnologia aos seus
em debates públicos nos meios de métodos de luta política, o PT gaúcho construiu
comunicação; o uso de instrumentos alternativos uma poderosa máquina partidária, infinitamente
de comunicação impressa e audiovisual; superior às organizações políticas que lhe são
d) Exatamente como explicitado por adversárias, em termos de poder de mobilização
Monzon Arribas, no item 4º de sua síntese da visão social e de fabricação de opinião pública, obtendo
liberal da opinião pública, este público demanda como resultado, primeiramente em Porto Alegre
os meios necessários para fazer ouvir sua voz – onde o processo de sua Hegemonia está
perante o poder e a sociedade. Entre os meios consolidado - , e em seguida no estado do Rio
que considera fundamentais para fabricação Grande do Sul – onde a conquista da Hegemonia
e reprodução de sua ideologia, destacam-se o pelo PT ainda está em disputa, mas já reproduz
sistema educacional - inicialmente através da as mesmas tendências de constituição de uma
cooptação sindical e partidária dos professores, verdadeira espiral do silêncio -, a conquista do
e depois de conquistado o Estado, através da poder de Estado.39
ideologização dos conteúdos programáticos A eleição de 2002 para o governo do Estado
adotados em sala de aula -; a informação e a do Rio Grande do Sul constitui-se num marco de
articulação da vida pública a partir da participação referência capaz de indicar se essa máquina
de seus militantes e simpatizantes no debate partidária que o PT construiu, e a penetração
político formal e informalmente realizado na que conquistou na sociedade, serão capazes
sociedade e na mídia, seja através da criação de compensar o medíocre desempenho
de espaços formais novos, como é o caso do administrativo do partido, permitindo a reeleição
Orçamento Participativo, seja através da simples de sua proposta.
discussão informal de idéias sobre assuntos Não obstante, mesmo podendo perder
vários, que tende a acontecer naturalmente nos a eleição, o que é impossível antecipar no
ambientes sociais das classes médias;38 momento em a redação desse artigo é
e) Pressupostos os fatores anteriores, o PT concluída, a candidatura petista apresenta
inverte a lógica liberal, fazendo primeiro o debate forte competitividade, ainda que enfrentando
político junto com a sociedade, a partir de seus as adversidades decorrentes do ônus de ter de
segmentos organizados e intelectualizados - defender um governo de desempenho regular
através do raciocínio público que exercem as aos olhos da opinião pública. Certamente estará
pessoas privadas sobre os assuntos de interesse no segundo turno, e as projeções indicam
geral -, e a partir das organizações sociais, crescimento significativo de sua bancada
políticas e culturais que controla, e somente legislativa estadual e federal, o que, por si só,
posteriormente leva o debate ao parlamento, corrobora a análise aqui explicitada. A eventual

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derrota do PT nesta eleição pode ser mero
acidente de percurso. Fruto de sua estratégia de
poder, esse partido seguirá sendo um dos mais 13 RODRIGUES, Leôncio Martins. Partidos e Sindicatos.
fortes, senão o mais forte, do sistema partidário São Paulo : Ed. Ática, 1990.
gaúcho.
14 CÉSAR, Benedito Tadeu. Verso, Reverso, Transverso – O
PT e a Democracia no Brasil. São Paulo, 1995, Tese de
Doutorado : UNICAMP, 1995.
Notas
15 Ver MOURA, Paulo G. M. de. PT: Comunismo ou Social-
1 HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera
Veiga. (orgs.). Teorias da Comunicação. Editora Vozes. democracia? Ed. Soles. Porto Alegre : 2001. p. 29-30.
Petrópolis, 2001..
16 Id.; Ibid., p. 31.
2 RIMMER, Tony; HOWARD, Mark. Pluralistic ignorance and
the spiral of silence: a test of the roles on the mass midia 17 Princípio organizativo adotado pelo Partido Bolchevique
in the spiral of silence hypothesis, in: Mass Comunication russo e seus seguidores, segundo o qual, sob o pretexto
Rewiew, 1990, vol. 17, n. 1 e 2. de preservar a imagem externa de unidade política
e demonstrar força e união perante adversários, os
3 HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera militantes partidários são proibidos de manifestar em
Veiga. (orgs.). Teorias da Comunicação. Editora Vozes. público posições divergentes da linha oficial do partido,
Petrópolis, 2001, p. 222. sendo-lhes reservado, em tese, o direito de questionar
essas diretrizes oficiais apenas nas instâncias internas
4 SINGLETARY, Michael W e STONE, Gerald. Communication à organização. Na prática, o princípio do centralismo
theory & Research application. Apud Id.; Ibid., p. 229. democrático revelouse uma forma antidemocrática
de controle da direção sobre a base dos partidos de
5 NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. La espiral del silencio o inspiração marxistaleninista. Segundo definiu Rosa
Opinión Pública: nuestra piel social. Ed. Paidós . México : Luxemburgo, que divergia de Lênin em relação à
1995, p. 118. aplicação desse princípio, o centralismo democrático é
uma forma de impor a ditadura do Comitê Central sobre
6 HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera o partido, do Birô Político (direção executiva) sobre o
Veiga. (orgs.). Teorias da Comunicação. Editora Vozes. Comitê Central, e finalmente, do Secretário Geral (cargo
Petrópolis, 2001, p. 229. mais importante na hierarquia dos partidos leninistas)
sobre o Birô Político.
7 Id.; Ibid., p. 229.
18 A política pragmática de alianças que o grupo de Lula
8 Id.; Ibid., p. 230-231. (hoje majoritário em nível nacional) patrocina na eleição
presidencial de 2002, coligando-se com o Partido
9 LUHMANN,Niklas.Politischeplanung.AufsätzezurSociologie Liberal e buscando compor-se regionalmente com
von Politik und Verwaltung, Opladen,Westdeutscher Verlag, inimigos históricos do passado, como Orestes Quércia
1971, p. 9-34, apud Elisabeth Noelle-Neuman, Return to the e Luis Antônio Medeiros em São Paulo, Itamar Franco e
concept of powerful mass midia, op. cit., p. 92, apud Id.: Ibid, José Alencar em Minas Gerais, entre outros casos, não
p. 232. elimina esta constatação, visto que grupos ortodoxos
da esquerda petista combatem internamente esse
tipo de política de aliança, reafirmando a possibilidade
10 BRYCE, James. The american commonwealth. Nova
de o PT vencer eleições sem precisar recorrer a esse
Iorque, 1924, vol. 1 e 2, apud Id.; Ibid., p. 232.
tipo de iniciativa. No Rio Grande do Sul, notadamente,
o ex prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, expoente
11 Ver DUVERGER, Maurice. Os partidos políticos. Zahar
da tendência trotskista Democracia Socialista (DS),
Editores. Rio de Janeiro : 1970.
defende abertamente esse ponto de vista.
12 MOURA, Paulo G. M. de. Como o PT e o Plano Real
19 Ver MOURA, Paulo G. M. de. PT: Comunismo ou Social-
derrotaram Lula nas eleições presidenciais de
democracia? Ed. Soles. Porto Alegre : 2001. p. 31-33 e
1994. Dissertação de Mestrado. PPG Ciência Política –
nota de rodapé 18.
UFRGS. Porto Alegre : 1998.

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20 Antônio Gramsci foi um dos principais ideólogos do 37 CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião – O novo jogo
Partido Comunista Italiano, e formulador de uma político. Ed. Vozes. Petrópolis : 1988.
concepção estratégica de tomada do poder a partir do
conceito de hegemonia. 38 ELIAS, Norbert. La dynamic de l’occident. Calmann-Lévy.
Paris : 1975. In CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião
21 A interpretação da teoria da Hegemonia de Gramsci – O novo jogo político. Ed. Vozes. Petrópolis : 1988. p. 21.
aqui sintetizada foi extraída de: BOBBIO, Norberto;
MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário 39 CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião – O novo jogo
de Política. Ed. UNB. Brasília : 1992. V. 1, p. 579-581. político. Ed. Vozes. Petrópolis : 1988, p. 25.

22 Apud HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, 40 Id.; Ibid., p. 25.
Vera Veiga. (orgs.). Teorias da Comunicação. Editora
Vozes. Petrópolis, 2001, p. 233. 41 Id.; Ibid., p. 32.

23 ARRIBAS, Candido Monzon. Origines y primeras teorías 42 GAXIE. D. Le cens caché. Inégalités culturelles et
sobre opinión pública: El liberalismo y el marxismo. ségreation politique. Ed. Du Soleil. Paris : 1978 ; e
Revista de Estudos Sociais. Mar./Abr. 1985 – Centro de
Estudos Contemporâneos. Madrid. SOFRES. Opinion publique 1984. Gallimard. Paris :
1984, apud Id.; Ibid., p. 35.
24 HABERMAS. J. Historia y crítica de la opinión pública.
Gustavo Gilli, Barcelona, 1981, p. 129-130. apud Id.; Ibid., 43 Id.; Ibid., p. 36.
p. 85.
Referências
25 Id.; Ibid., p. 86-88.
Béjar, Helena. Rousseau: opinión pública y voluntad general. In
26 H. Béjar, Rousseau: opinión pública y voluntad general. Revista Española de Investigaciones, nº 18, abr.-jun. De 1982.
In REIS, nº 18, abr.-jun. De 1982, p. 75, apud Id. Ibid., p. 88
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco.
27 Id.; Ibid., p. 89. Dicionário de Política. Brasília: Ed. UNB, 1992.

28 HABERMAS. J. Historia y crítica de la opinión pública. BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não existe. In: Crítica
Gustavo Gilli, Barcelona, 1981, p. 129-130. apud Id.; Ibid., Metodológica, Investigação Social e enquete operária. São Paulo:
p. 91. Ed. Pólis. , 1987.

29 DUVERGER, M. Instituiciones políticas y Derecho BRYCE, James. The american commonwealth. Nova Iorque,
constitucional. Ariel. Barcelona, 1980, p. 196, apud 29 Id.; 1924, vol. 1 e 2.
Ibid., p. 92.
CÉSAR, Benedito Tadeu. Verso, Reverso, Transverso – O PT e
30 Id.; Ibid., p. 93. a Democracia no Brasil. São Paulo, 1995. Tese de Doutorado:
UNICAMP, 1995.
31 Id.; Ibid., p. 97.
CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião – O novo jogo político.
32 Id.; Ibid., p. 97. Petrópolis: Ed. Vozes, 1988.

33 Id.; Ibid., p. 98-100. DUVERGER, Maurice. Os partidos políticos. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1970.
34 Id.; Ibid., p. 100.
DUVERGER, Maurice. Instituiciones políticas y Derecho
35 Id.; Ibid., p. 108. constitucional. Barcelona: Ariel, 1980.

36 BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não existe. In ELIAS, Norbert. La dynamic de l’occident. Calmann-Lévy. Paris:
Crítica Metodológica, Investigação Social e enquete 1975. In CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião – O novo jogo
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