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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

LITERATURA PORTUGUESA IV
PROFª Marcia Maria Arruda Franco

ANTOLOGIA POÉTICA:

Camões revisitado por diferentes autores contemporâneos

Camila Barbosa Ceccato :: 8978405


Giuliana Nogueira Romano :: 8975548
Joana Cintra Araujo :: 8974804

São Paulo
2017
1. Introdução

A revisitação de clássicos é uma constante dentro da literatura. Os renascentistas,


considerados os grandes poetas, já não poderiam não ser inclusos nessa atitude.
A revisitação de Camões, o grande poeta português, é o tema escolhido para essa
antologia. Sua obra foi lida e relida por milhões de pessoas ao longo dos séculos, o que o
torna um autor que transita por todos os tempos. Com esse status, obviamente surgiriam
releituras de seus trabalhos, e é exatamente isso que será explorado neste trabalho.
De Gastão Cruz a Manuel de Freitas, foram selecionados poemas de poetas
contemporâneos portugueses que souberam reaproveitar temas que haviam sido previamente
abordados pelo grande poeta português. Algumas vezes reiterando valores, outras,
desconstruindo e resignificando-os, através de diferentes recursos, como a paródia, a ironia, e
a construção e desconstrução das formas tradicionais da poética portuguesa.

2. Autores e suas revisitações


2.1 MANUEL DE FREITAS

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,


Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,


Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,


Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,


Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões

***
Camões Burguer

O mesmo Camões, agora treslido por um jovem poeta português.

É conforme. Já lá vão mais de


quatrocentos anos de tal “conversa
fiada” que poucas penélopes encontrou.
Para alguns, doutos e moralíssimos,
o comércio com as musas não era compatível
com fodas de foder bem dadas, em redondilhas
um pouco maiores do que eles, os necrófagos de serviço.

Os tempos mudaram, claro (e as vontades foram


encontrando novos alvos), mas a comédia dos ossos
veio para ficar, incerta, numa praia
insigne de enganos e misérias.
Agora, num intervalo cibernáutico medido
pela ignorância pública, lembram-se
d‟O Poeta e de uns versos que a memória canta,
propícios às presidências que tão mal presidem.
São gajos novos, ou nem tanto assim,
místicos do “progresso” em que seus redondos
cus assentam, isto é, sobre um povo analfabeto e tudo
que ainda não lê nem sonha a pátria que foi, apenas, pretexto.
Porque um homem, por menos que valha,
valerá sempre mais do que esse conluio
de gestos sem alma dentro. A pátria,
meus senhores a pátria, foi esse ocidental
falo lusitano que gostava como Pessoa
de vinhos e de ironia fera. O resto foi cuspir,
cuspir raro na inércia e no inconclusivo ardor
com que um país em saldo se cumpre.
Manuel de Freitas

***

Manuel de Freitas, poeta português pós-moderno, é também conhecido pela organização e


prefácio da Antologia Poetas sem Qualidades (2002), marco da poesia contemporânea
portuguesa. Essa literatura manifesta uma outra formatação da realidade, onde há lugar para o
diminuto, o prosaico e tudo aquilo sem qualidade, mas ainda assim, é uma literatura que
recorda e exalta (com uma dose de ironia) os grandes nomes da história da literatura
portuguesa, principalmente Camões, símbolo de uma ideologia nacional.
O poema de Freitas não quer esconder que trata-se de uma revisitação, inclusive a epígrafe do
poema já deixa isso claro:

“O mesmo Camões, agora treslido por um jovem poeta português.”

Treslido, particípio do verbo tresler, que pode significar “ler de maneira confusa; aquilo
que é lido às avessas, ou que também pode ser entendido como „dizer tolices‟”. Tolices essas
ditas pelo autor revisitado, ou pelo autor que o treslê?
Manuel de Freitas fará uso da paródia, para revisitar o tão louvado autor, resignificando e
desconstruindo os valores nacionalistas, e coloca em cheque o fato de Camões ser
considerado símbolo nacional, levando-se em conta de que à sua época, a parcela da
sociedade portuguesa que poderia ler a obra camoniana era mínima, assim, não podendo ser,
efetivamente representante do povo lusitano.
O autor vai reiterar a ideia de transformação e mudança que traz o soneto de Camões,
porém a transformação em Manuel de Freitas é decadente, e isso é afirmado nos versos
paralelísticos ao poema camoniano “Os tempos mudaram, claro (e as vontades foram /
encontrando novos alvos)”, o que já indica uma nova forma de recepção da obra, ideia
essa que será retomada nos versos “Agora, num intervalo cibernáutico medido pela
ignorância pública, lembram-se / d‟O Poeta e de uns versos que a memória canta, / propícios
às presidências que tão mal presidem.”
Seriam os cibernáuticos, navegantes da era da internet, responsáveis pela reprodutibilidade
em massa de valores já esquecidos, e que já não fazem mais sentido, numa tentativa ignorante
de se afirmar uma identidade nacionalista e moralmente estúpida? São esses alguns dos
questionamentos que a “poesia sem qualidade” de Manuel de Freitas vai nos fazer pensar,
concluindo que a “tal conversa fiada”, ou o soneto de Camões que aconteceu há mais de 400
anos, seria só o “progresso” onde a sociedade “assenta os seus cus”. Condenando assim, o
progresso, como uma ilusão.

***
2.2 ADÍLIA LOPES

Amor é um fogo que arde sem se ver;


É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;


É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;


É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor


Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís Vaz de Camões

***
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
Adília Lopes

***
O poema de Adília apresenta uma forte intertextualidade com o célebre soneto camoniano.
A autora vai expandir o significado do amor, através da paródia e do uso da ironia para
aconselhar o leitor “a não brincar com fogo”, ou seja, que tome cuidado ao cair nas garras do
amor, pois este sim queima muito mais do que o fogo do fumo. Mas diferente de Camões,
Adília usa uma linguagem muito menos rebuscada, mais próxima dos ditados populares, que
pode ser facilmente reconhecida já no primeiro verso “Com o fogo não se brinca”, em alusão
à fala popular “quem brinca com fogo pode se queimar”.
Enquanto que nos versos de Camões o amor é representado por meio de metáforas mais
paradoxais, como “o fogo que arde sem se ver” ou “a dor que não se sente”, Adília usa a
comparação do fogo com fumo com o fogo do amor e o linguajar popular, mesclando a forma
erudita com a do provérbio popular, para alertar aos leitores o perigo iminente do “brincar
com fogo”. Assim, Adília mantém a temática do amor, tal como o soneto de Camões, porém
dá um tom mais leve e bem humorado, através do recurso da ironia sobre um tema tão
relevante na poesia desde sempre: o amor.
O sentimento de contradição em relação ao amor é uma ideia fortemente presente nos dois
poemas, talvez por ser uma característica extremamente humana. Porém, para falar de tal
sentimento, ela vai escolher apenas uma das metáforas presentes no poema camoniano, a do
fogo, e vai compará-la ao fogo da brasa com fumo, fácil de ser apagado e controlado, ao
contrário do “fogo do amor”, o qual devemos manusear com cuidado, pois este queima
muito, e nem sempre podemos controlá-lo.
O poema de Adília pode ser lido como uma continuidade do poema de Camões, ou
também como uma extensão metafórica de um tema recorrente na literatura universal.

***

2.3 GASTÃO CRUZ

Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.


Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Luís Vaz de Camões

***

Erros
Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama


lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou


o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença


frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno
Gastão Cruz

***

Gastão Cruz faz uma revisitação a Camões no poema Erros, o qual está inserido numa
coletânea publicada em 2009, Poemas (Os). Enquanto que o poeta
clássico introduz o tema afirmando que seus erros, juntamente com a má fortuna foram a
causa de sua perdição, o poeta contemporâneo introduz o mesmo tema na forma
interrogativa, sem solucionar, entretanto, a resposta de sua questão. Assim, ele questiona se
seria a má fortuna ou seus “erros decerto / erros somente?” que o levaram a perder seu amor.
Camões segue por outro viés, tomando como tema seus próprios erros sendo a causa de
suas aflições. E por causa das mágoas que passara, não querer mais “ser contente”. Seus erros
ao longo dos anos fizeram com que a Fortuna, a deusa romana do acaso, o castigasse e o
fizesse não ter mais esperanças. Por causa disso, “De amor não vi senão breves enganos”, ou
seja, neste soneto, Camões retrata a efemeridade de seus amores como resultado de seus
erros, lamentando que não houvesse alguém para compensar o sofrimento e que “fartasse este
[meu] duro gênio de vinganças!”. Concluindo assim a ideia da primeira estrofe de que os seus
erros e a Fortuna foram de sobra, mas o que lhe bastava era ter somente amor.
Já o viés principal de Gastão Cruz é o lamento pela efemeridade de seu amor
propriamente, iniciando por questionar se ainda há a possibilidade de um amor ardente, por
algum tempo omitido, voltar “neste presente”, ou seja, não num futuro, mas neste momento,
mesmo que seja por um breve período (“que de pouco já serve a sua chama”). Os dois
primeiros versos da terceira estrofe retratam essa efemeridade: “em que tudo era eterno e só
durou / o espaço da manhã do teu sorriso”, ou seja, retrata a ilusão de achar que momentos
bons podem durar uma eternidade, quando acabam durando apenas “o espaço da manhã do
teu sorriso”. Então conclui com os últimos versos da terceira estrofe, mais os quatro da
última: “como a rosa que tarde já chegou / e pousou devagar no corpo liso / e frio não de
morte ou indiferença / frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas e não há presença /
nem chama do amor que o torne eterno”. A imagem que faz da rosa que pousa sob o corpo
liso e frio faz alusão à morte. O leitor é propenso a pensar que esse amor curto teve seu fim
por causa da morte da amada, mas logo o poeta nega essa ideia e explica que não foi por
morte, ou sequer por indiferença, mas porque tudo é efêmero, tanto as rosas, como o amor
pode simplesmente acabar.
Assim, a revisitação do poeta contemporâneo ao poeta clássico se dá de forma que ele
tanto reitera certos aspectos, quanto modifica ou nega outros. A estrutura do poema de
Camões é quase repetida por Gastão, de forma que o conceito de dialética dos sonetos, em
que deve haver uma introdução ao mote, um desenvolvimento e a conclusão que retome o
mote, se realiza. Entretanto, a estrutura estrófica é quebrada, uma vez em que o poema de
Gastão possui quatro versos em todas as estrofes, e não quatro nas duas primeiras e três nas
duas últimas, como seria de acordo com as regras convencionadas para um soneto. Já a
métrica decassilábica é executada de acordo com o soneto camoniano, mantendo uma
sonoridade característica do classicismo.
Mesmo que Gastão Cruz utilize o tema do “erro” e “fortuna” provenientes da poética de
Camões, o poeta traz para esse tema uma ideia que traduza melhor a contemporaneidade. De tal
forma demonstrando que a obra poética de Camões é clássica, no sentido de tratar de temas que
podem dialogar em qualquer tempo, mesmo passados quinhentos anos. Demonstra também que
ser contemporâneo não é simplesmente utilizar sempre estruturas e temas novos, mas que se
valer de formas clássicas sem ficar preso a elas é uma maneira de ser contemporâneo.

***

2.4 SOPHIA DE MELLO BREYNER

Camões e a Tença
Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram


Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram


Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente


Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


Sophia de Mello Breyner Andresen

***
Em Camões e a tença, poema publicado em seu livro “Dual” (1972), Sophia de Mello
Breyner Andresen não faz sua revisitação ao autor clássico quinhentista Camões no âmbito
do tema ou da forma, mas o faz como um diálogo ao poeta, como se ele fosse um personagem
a quem o eu-lírico se dirige, na intenção de dar uma resposta ao problema que o quinhentista
aborda em seu soneto Erros Meus, má Fortuna, Amor Ardente.
Ora, Camões dá a causa de seus problemas e sofrimentos como sendo seus erros e a má
Fortuna, descrevendo essas mágoas sofridas na segunda estrofe: “Tudo passei; mas tenho tão
presente / A grande dor das cousas que passaram, / Que já as frequências suas me ensinaram /
A desejos deixar de ser contente”. Então Sophia responde a esse sofrimento com o conselho:
“Irás ao paço. Irás pedir que a tença / Seja paga na data combinada”. Pois, para ela, o
sofrimento é causado não pelos seus erros e Má Fortuna, mas pelas falhas e defeitos que seu
país, Portugal, possui e que serão retratados ao longo do poema.
No segundo verso: “País que tu chamaste e não responde”, lendo-se o “tu” como sendo o
próprio Camões, ela faz alusão ao chamado que o poeta faz ao povo português, no canto X
d‟Os Lusíadas, a ser forte novamente como o foi no tempo das navegações. Sendo assim, o
país que tu (Camões) chamastes não respondeu, quer dizer que o chamado do poeta ao povo
luso voltar a ser forte não foi atendido nem mesmo à época de Sophia. Retomará o diálogo
depois, na terceira estrofe: “E aqueles que invocaste não te viram / Porque estavam curvados
e dobrados / Pela paciência cuja mão de cinza / Tinha apagado os olhos no seu rosto”,
novamente, “aqueles que invocaste”, como sendo a invocação de Camões ao povo português,
estes não atendendo ao pedido, porque estavam curvados e dobrados, ou seja, posições que
remetem à covardia frente aos desafios e à falta do posicionamento corajoso de que o país
urge. Traz também a imagem dessa posição encurvada e dobrada como sendo produzida pela
paciência que o povo possui. A mão de cinza dessa paciência então “tinha apagado os olhos
no seu rosto”, imagem da alienação do povo.
Finaliza então com os três últimos versos: “Irás ao Paço irás pacientemente / Pois não te
pedem canto mas paciência // Este país te mata lentamente”. Retomando o mote inicial,
concluindo que o poeta, que aqui representa o povo, irá ao Paço como mais um ato de
paciência que o povo possui frente às necessidades, e não “com canto”, ou seja, como poeta
sem seu canto, a representação do povo calado frente às injustiças. De tal forma, a poeta
contemporânea faz a sua revisitação ao clássico quinhentista como forma de glosar a situação
de seu país, tecendo críticas e intervenções à questões sociais.

***
2.5 FIAMA BRANDÃO

A poetisa portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) recorrentemente utilizava os


cânones como inspiração. O autor de Os Lusíadas não poderia ficar de fora dessa, então ela
lhe dedicou um poema:

A Camões
Tanto quanto outrora ele se dissociara ou associara
à matéria ou ao exterior – Natureza, escrita, pena,
eu, neste tempo, sou tudo. Serras, praias de Aónio,
de onde provinha o eco do eu desses homens
a espelhar-se na superfície das coisas
e a ser reconduzido à solidão. Agora são sucessivas imagens
que eu opero entre si próprias, ou seja o meu conhecimento.
A visão que lhe instituía o real é, neste tempo,
a que me institui a mim. Separado, foi. E as
gárrulas aves, levantando vozes desordenadas
em seu canto como no meu desejo, se incendeiam,
deixou escrito alguém.

***

Observa-se que o poeta está associado a imagens bucólicas que são consideradas imagens
recorrentes em sua obra e eram frequentemente evocadas em seus trabalhos: a “Natureza”,
“Serras”, “praias de Aónio”.
No poema, é trabalhado a junção de dois “eus”, o “eu” camoniano que lhe empresta
figuras, temas e ideias e o “eu” atual representante da poetisa. Isso pode ser percebido pelo
jogo criado pela alternância no uso dos pronomes “eu”, “ele”, “lhe”, “me” e “mim”, a
exemplificar os versos “Tanto quanto outrora ele se dissociara [...] / eu, neste tempo, sou
tudo”. “A visão que lhe instituía o real é, neste tempo, / a que me institui a mim”, numa
revisitação que une o presente e o passado. Em outro de seus poemas, Fiama retoma a obra
camoniana:

***
Inês de Manto

Teceram-lhe o manto Também com o choro


para ser de morta lhe deram um estrado
assim como o pranto um firmal de ouro
se tece na roca o corpo exumado

Assim como o trono O vestido dado


e como o espaldar como a choravam
foi igual o modo era de brocado
de a chorar não era escarlata

Só a morte trouxe Também de pranto


todo o veludo a vestiram toda
no corte da roupa era como um manto
no cinto justo mais fino que roupa

***

Comparemos a narração da história de Inês feita por Camões em Os Lusíadas:

Episódio de Dona Inês de Castro


(Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135)

Passada esta tão próspera vitória, Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Tornado Afonso à Lusitana Terra, Nem com lágrimas tristes se mitiga,
A se lograr da paz com tanta glória É porque queres, áspero e tirano,
Quanta soube ganhar na dura guerra, Tuas aras banhar em sangue humano.
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra, Estavas, linda Inês, posta em sossego,
Aconteceu da mísera e mesquinha De teus anos colhendo doce fruito,
Que despois de ser morta foi Rainha. Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Tu, só tu, puro amor, com força crua, Nos saudosos campos do Mondego,
Que os corações humanos tanto obriga, De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Deste causa à molesta morte sua, Aos montes insinando e às ervinhas
Como se fora pérfida inimiga. O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam De noite, em doces sonhos que mentiam,
As lembranças que na alma lhe moravam, De dia, em pensamentos que voavam;
Que sempre ante seus olhos te traziam, E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Quando dos teus fernosos se apartavam; Eram tudo memórias de alegria.
E despois, nos mininos atentando,
De outras belas senhoras e Princesas Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Os desejados tálamos enjeita, Cuja orfindade como mãe temia,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas, Pera o avô cruel assi dizia:
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas, (Se já nas brutas feras, cuja mente
O velho pai sesudo, que respeita Natura fez cruel de nascimento,
O murmurar do povo e a fantasia E nas aves agrestes, que somente
Do filho, que casar-se não queria, Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Tirar Inês ao mundo determina, Terem tão piedoso sentimento
Por lhe tirar o filho que tem preso, Como co a mãe de Nino já mostraram,
Crendo co sangue só da morte ladina E cos irmãos que Roma edificaram:
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina, ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
Que pôde sustentar o grande peso (Se de humano é matar hûa donzela,
Do furor Mauro, fosse alevantada Fraca e sem força, só por ter sujeito
Contra hûa fraca dama delicada? O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Traziam-na os horríficos algozes Pois o não tens à morte escura dela;
Ante o Rei, já movido a piedade; Mova-te a piedade sua e minha,
Mas o povo, com falsas e ferozes Pois te não move a culpa que não tinha.
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes, E se, vencendo a Maura resistência,
Saídas só da mágoa e saudade A morte sabes dar com fogo e ferro,
Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Sabe também dar vida, com clemência,
Que mais que a própria morte a magoava, A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Pera o céu cristalino alevantando, Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Com lágrimas, os olhos piedosos Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Onde em lágrimas viva eternamente.
Um dos duros ministros rigorosos);
Põe-me onde se use toda a feridade, As espadas banhando e as brancas flores,
Entre leões e tigres, e verei Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se neles achar posso a piedade Se encarniçavam, fervidos e irosos,
Que entre peitos humanos não achei. No futuro castigo não cuidosos.
Ali, co amor intrínseco e vontade Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Naquele por quem mouro, criarei Teus raios apartar aquele dia,
Estas relíquias suas que aqui viste, Como da seva mesa de Tiestes,
Que refrigério sejam da mãe triste.) Quando os filhos por mão de Atreu comia !
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
Queria perdoar-lhe o Rei benino, A voz extrema ouvir da boca fria,
Movido das palavras que o magoam; O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Mas o pertinaz povo e seu destino Por muito grande espaço repetistes.
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino Assi como a bonina, que cortada
Os que por bom tal feito ali apregoam. Antes do tempo foi, cândida e bela,
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros, Sendo das mãos lacivas maltratada
Feros vos amostrais e cavaleiros? Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Qual contra a linda moça Polycena, Tal está, morta, a pálida donzela,
Consolação extrema da mãe velha, Secas do rosto as rosas e perdida
Porque a sombra de Aquiles a condena, A branca e viva cor, co a doce vida.
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena As filhas do Mondego a morte escura
(Bem como paciente e mansa ovelha), Longo tempo chorando memoraram,
Na mísera mãe postos, que endoudece, E, por memória eterna, em fonte pura
Ao duro sacrifício se oferece: As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Tais contra Inês os brutos matadores, Dos amores de Inês, que ali passaram.
No colo de alabastro, que sustinha Vede que fresca fonte rega as flores,
As obras com que Amor matou de amores Que lágrimas são a água e o nome Amores
Aquele que despois a fez Rainha,

***

O poema de Fiama, de 1967, remete ao trecho camoniano de 1572. Em uma primeira


observação, vemos que ambos os poetas têm as lágrimas de Inês em seu leito de morte como
tema. A injustiça do ocorrido também ecoa em ambos os poemas, assim como a tragicidade
do amor. A poetisa dá maior ênfase para as vestimentas de Inês em tal momento – o manto
que é tecido pelo pranto – dando às lágrimas características de vestimentas, resultando em um
poema com uma grande carga de sinestesia e semiótica.
Já o poema de Camões tem como característica uma maior narrativide. Além de na
apresentar a sequência de fatos de maneira mais detalhada, insere outros personagens, e
descreve mais objetivamente os tristes acontecimentos que levaram à tragédia. Ainda assim,
as lágrimas têm um papel importante no poema e aparecem em diferentes versos ao longo do
poema.
Bibliografia
ANDRESEN, Sophia M. B. Grades. Dual: 1972
CAMÕES, Luis - Lírica Completa. Edição de Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa, INCM, 1980.
CAMOES, Luís de - Os Lusíadas. Lisboa : em casa de Antonio Gonçalves: 1572
CRUZ, Gastão. O conceito de modernidade e a poesia portuguesa contemporânea. In: A
Poesia Portuguesa Hoje. Relógio D'Água Editores: 1999.
CRUZ, Gastão. Os Poemas (1960-2006). ed. Assírio & Alvim, 2009.
FREITAS, M. de. Game over. Lisboa, & etc. 2002, p. 45-6.
LOPES, A. Um Jogo Bastante Perigoso. 1985. p. 33.

Sites
http://seer.fclar.unesp.br/letras/article/viewFile/62/54.
http://www.ufjf.br/darandina/files/2012/06/Valor-e-projeto-final-3.pdf.
http://www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/CunhaCL.pdf.
http://www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/CunhaCL.pdf.
http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/DOSSI%C3%8A-
FIAMA.pdf.