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Globalização e Cidadania

Democrática

Chantal Mouffe
Professor Chantal Mouffe, Quintin Hogg Research Fellow no Center for the Study of Democracy,
University of Westminster, Londres. Traduzido por Katya Kozicki, Professora Adjunta da
Faculdade de Direito da UFPR e Professora Titular da PUCPR.

principal argumento que desejo


apresentar nesta conferência é o de
que o tipo de teoria política demo-
crática que temos hoje não é capaz de con-
ceber uma forma de política democrática
adequada para esta era globalizada, pós
guerra fria. Este é o motivo pelo qual consi-
SUMÁRIO dero ser necessário desenvolver um novo
As imperfeições do modelo dominante; modelo, um modelo ao qual chamo de
Poder e antagonismo; “pluralismo agonista” e sobre o qual gosta-
ria de apresentar algumas reflexões.
Um modelo de democracia agonista;
Um novo projeto democrático;
As imperfeições do modelo
Qual unidade para um autogoverno de-
mocrático? dominante
As sociedades democráticas estão,
hoje, enfrentando um desafio em relação
ao qual elas estão mal preparadas para res-
ponder. Longe de ter levado a uma suave
transição para a democracia pluralista, o
colapso do comunismo abriu caminho para
uma explosão de conflitos étnicos, religio-
sos e nacionalistas, para os quais os liberais
não conseguem atribuir nenhum sentido.
Na visão destes, os antagonismos perten-
ceriam a uma era remota, uma era pré-mo-
derna, onde as paixões ainda não haviam

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sido eliminadas pelo “doce comércio” e agindo, na melhor das hipóteses, dentro dos
substituídas pela dominação racional dos limites da moralidade. As paixões são reti-
interesses e a generalização de identidades radas do campo da política, o qual é reduzi-
“pós-convencionais”. Daqui decorre a difi- do a um campo neutro de interesses que
culdade dos pensadores liberais em compre- competem entre si. Através da negação do
ender a corrente proliferação de antagonismo, esta perspectiva fecha a pos-
particularidades e a nova emergência de an- sibilidade de captar a dinâmica das suas
tagonismos supostamente “arcaicos”. possíveis formas de emergência. Não é de
se estranhar que, quando confrontados com
Seria um erro ver esta situação me-
os antagonismos que eles constantemente
ramente como um problema temporário,
negam, os teóricos liberais os vejam como
prestes a ser superado pelo progresso na
um retorno ao “arcaico”.
pesquisa empírica. De fato, pode-se argu-
mentar que é a própria estrutura da abor- Este tipo de racionalismo tem sem-
dagem dominante na teoria democrática pre constituído um obstáculo à compreen-
liberal que impossibilita o entendimento da são da natureza do político na sua dimensão
presente conjuntura. Caracterizada, como de conflito (antagonistic dimension). Entre-
ela é, pelo racionalismo, individualismo e tanto, na atual conjuntura, as deficiências
universalismo abstrato, este tipo de teoria desta concepção racionalista se tornam mais
necessariamente resta cega à natureza do evidentes do que nunca. As profundas
político e à inerradicabilidade do antago- transformações que vêm ocorrendo em vir-
nismo. Para sermos claros, o termo tude do processo de globalização exigem um
“política(o)” vem se tornando cada vez mais entendimento adequado do modo pelo qual
presente na filosofia liberal, mas o domínio se constituem as identidades políticas co-
do político é sempre concebido a partir de letivas e das possíveis formas de emergên-
uma perspectiva individualista e cia dos antagonismos, dentro de uma
racionalista, a qual reduz este espaço ao variedade de relações sociais. De fato, é fun-
domínio da ética ou da economia. Como damental dar-se conta de que o político não
conseqüência, a dinâmica da constituição é algo que tem uma localização específica,
dos sujeitos coletivos e o papel fundamen- determinada, na sociedade e que todos os
tal desempenhado pelas paixões e os anta- tipos de relações sociais podem tornar-se
gonismos neste campo não conseguem ser palco de conflitos políticos.
apreendidos. Aqui reside a explicação para
a impotência da maior parte dos liberais em Poder e antagonismo
providenciar respostas adequadas para os
atuais problemas. O que está realmente em questão
hoje é a necessidade de reconhecer a di-
De acordo com este cenário, os ato- mensão do poder e do antagonismo e seu
res políticos são vistos como indivíduos ra- caráter inerradicável. Ao postular a existên-
cionais direcionados somente para a cia de uma esfera pública na qual o poder e
obtenção de vantagens para si mesmos e o antagonismo teriam sido eliminados e na

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qual um consenso racional teria sido obti- gar entre duas identidades pré-constituídas,
do, o modelo dominante na política demo- mas antes como constituidor destas mes-
crática acaba por negar a dimensão do poder mas relações. A prática política em uma
e do conflito e o papel central que ela de- sociedade democrática não consiste em
sempenha na formação das identidades co- defender os direitos de identidades pré-
letivas. constituídas, mas consiste antes em consti-
tuir estas mesmas identidades em um
Ao contrário, esta questão do poder
terreno precário e sempre vulnerável.
e do antagonismo está precisamente no cen-
tro da abordagem que desejo desenvolver e A perspectiva que estou defenden-
cujas bases teóricas foram delineadas no li- do envolve um deslocamento das relações
vro Hegemony and Socialist Strategy.1 O que tradicionais entre democracia e poder. De
se buscou neste livro foi captar todas as acordo com a versão habermasiana acerca
conseqüências que a inerradicabilidade do da democracia deliberativa, quanto mais
poder e do antagonismo poderiam ter para democrática fosse a sociedade, menos o
uma concepção democrática radical e tam- poder seria constitutivo das relações sociais.
bém tornar claro o fato de que a emancipa- Mas se nós aceitarmos que as relações de
ção do sujeito nunca será total mas sempre poder são constitutivas do social, a princi-
parcial. Isto significa que a sociedade de- pal questão já não seria como eliminar o
mocrática não mais pode ser concebida poder, e sim como constituir formas de po-
como uma sociedade que teria realizado o der que sejam compatíveis com os valores
sonho da perfeita harmonia ou transparên- democráticos. Reconhecer a existência de
cia. Seu caráter democrático só pode ser relações de poder e a necessidade de sua
dado pelo fato de que nenhum ator social, transformação, ao mesmo tempo em que se
isoladamente, pode atribuir a si mesmo uma renuncia à ilusão de que podemos nos li-
representação do todo, no sentido de ter o bertar por completo do poder, constituem,
“domínio” da fundação. A tese central des- pois, a especificidade do projeto de “demo-
te livro é que toda objetividade social é cracia radical e plural” delineado no livro
constituída através de atos de poder. Isto Hegemony and Socialist Strategy.
implica que toda objetividade social é, ao
Outro ponto característico de nossa
final, política, e que esta deve tornar claros
teoria diz respeito à questão da
os traços de exclusão que governam sua
desuniversalização dos sujeitos políticos.
constituição. O ponto de convergência en-
Nós tentamos romper com todas as formas
tre objetividade e poder é precisamente o
de essencialismo. Não somente o
que nós denominamos “hegemonia”.
essencialismo que perpassa, em grande me-
Esta maneira de colocar o problema dida, as categorias básicas da moderna so-
revela que o poder não deve ser concebido ciologia e do pensamento liberal – de acordo
como uma relação externa, a qual teria lu- com o qual toda identidade social é perfei-

1 LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemony and Socialist Strategy. Towards a Radical Democratic Politics. London, 1985.

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tamente definida no processo histórico de da hostilidade e em tentar neutralizar o


revelação do ser – mas também o que se antagonismo potencial que existe nas rela-
lhe opõe diametralmente: uma extremada ções humanas que poderemos colocar as
fragmentação pós-moderna do social, a qual questões fundamentais para a política de-
se recusa a dar aos fragmentos deste qual- mocrática. Esta questão, a despeito do que
quer tipo de identidade relacional. pensam os racionalistas, não é como che-
Enfatizando exclusivamente a heteroge- gar a um consenso racional obtido sem ex-
neidade e a incomensurabilidade, tal visão clusão, o que, com certeza, seria impossível.
nos impede de reconhecer como certas di- A política objetiva a criação da unidade em
ferenças são construídas como relações de um contexto de conflito e diversidade; ela
subordinação e deveriam, desta forma, ser está sempre se ocupando da criação de um
desafiadas por uma política democrática “nós” através da determinação de um “eles”.
radical. A novidade da política democrática não é
superar esta distinção entre “nós/eles” mas
Um modelo de democracia estabelecê-la de uma diferente maneira. O
agonista ponto crucial aqui é como estabelecer esta
discriminação entre “nós/eles” de uma ma-
As teses acima mencionadas trazem neira que esta venha a ser compatível com
inúmeras conseqüências para a política de- a democracia pluralista.
mocrática. Elas nos dão o suporte teórico
necessário para formular um modelo alter- No reino da política isto pressupõe
nativo de democracia ao qual venho cha- que o “outro” não mais seja visto como um
mando de “pluralismo agonista”. inimigo a ser destruído, mas como um ad-
versário, isto é, alguém cujas idéias nós
Para explicitar as bases desta visão questionamos mas cujo direito em defen-
alternativa, proponho uma distinção entre der tais idéias não é colocado em questão.
“o político” e “política”. Por “o político”, Entretanto, esta categoria do adversário não
refiro-me à dimensão de antagonismo ine- elimina o antagonismo e deve ser diferen-
rente a todas as sociedades humanas, anta- ciada da noção liberal de competidor, com
gonismo este que pode tomar diferentes a qual é às vezes confundida. Um adversá-
formas e emerge em diversas formas de re- rio é um inimigo legítimo, um inimigo com
lações sociais. “Política”, por outro lado, se quem nós comungamos a adesão aos mes-
refere ao conjunto de práticas, discursos e mos princípios ético-políticos da democra-
instituições que buscam estabelecer uma cia. Mas o desacordo referente ao
certa ordem e organizar a coexistência hu- significado e implementação destes (prin-
mana em condições que são sempre poten- cípios) não é do tipo que se possa resolver
cialmente conflituosas porque são afetadas através da deliberação e discussão racional
pela dimensão do “político”. e daqui decorre o elemento antagônico da
É somente quando reconhecermos relação. Para se chegar à aceitação da posi-
esta dimensão do “político” e entendermos ção do adversário, é necessário processar
que a “política” consiste na domesticação uma mudança radical na identidade política;

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seria mais uma espécie de conversão do que A especificidade da democracia moderna


de persuasão racional (dentro da mesma no- repousa no reconhecimento e legitimação
ção que THOMAS KUHN colocou que a do conflito e na recusa em suprimi-lo atra-
adesão a um novo paradigma científico re- vés da imposição de uma ordem autoritá-
quer um tipo de conversão). Com certeza ria. Rompendo com a representação
compromissos são possíveis, eles fazem par- simbólica da sociedade como um corpo or-
te do processo político. Mas eles devem ser gânico – o qual é característico de uma for-
vistos como temporários dentro de uma ma holística de organização social – a
constante confrontação. sociedade democrática cria espaço para a
Daqui decorre a importância de se expressão de valores e interesses conflitan-
distinguir entre dois tipos de relações polí- tes. É claro que a democracia pluralista de-
ticas: uma de antagonismo entre inimigos, manda um certo consenso, mas este
e uma de agonismo entre adversários. Nós consenso deve referir-se apenas a alguns
podemos dizer que o objetivo da política princípios ético-políticos. Mas, uma vez que
democrática é transformar o antagonismo estes princípios ético-políticos podem exis-
em agonismo. Isto tem importantes conse- tir somente através de diferentes e confli-
qüências para a forma pela qual nós enca- tantes interpretações, este consenso está
ramos a política. Contrariamente ao modelo fadado a ser sempre um “consenso confli-
da “democracia deliberativa”, o modelo do tuoso”. Por isto a democracia pluralista ne-
“pluralismo agonista”, que estou advogan- cessita criar espaço para o dissenso e criar
do, afirma como tarefa primeira da demo- instituições através das quais este possa se
cracia não a eliminação das paixões e manifestar. Sua sobrevivência depende de
também não o seu afastamento para a esfe- identidades coletivas formadas em torno de
ra privada, de modo que o consenso racio- posições claramente delineadas, bem como
nal pudesse ser obtido, mas mobilizar estas da possibilidade de escolher entre alterna-
paixões em direção à promoção de metas tivas reais. Emprestando um termo da teo-
democráticas. Longe de ameaçar a demo- ria dos sistemas, nós podemos dizer que a
cracia, a confrontação agonista é a própria política pluralista pode ser concebida como
condição de sua existência. um “jogo misto”, isto é, parte colaborativo
e parte conflituoso e não como um jogo
Negar que seria em algum momento
completamente colaborativo, como os libe-
possível um processo público de delibera-
rais o conceberiam. Quando a dinâmica
ção livre e sem restrições em relação a pro-
agonista do sistema pluralista é impedida,
blemas comuns é uma tarefa crucial para a
em razão da falta de identidades democrá-
política democrática. Quando nós aceita-
ticas com as quais o indivíduo possa identi-
mos que todo consenso existe como resul-
ficar-se, existe um risco real de que haja a
tado de uma hegemonia provisória, como
multiplicação de confrontos relacionados a
estabilização do poder e que ele sempre
identidades vistas em uma perspectiva
implica alguma forma de exclusão, nós po-
essencialista e valores morais não-nego-
demos começar a visualizar a esfera pública
ciáveis.
democrática em uma diferente perspectiva.

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Isto revela o porquê de uma perspec- ternativas reais. Esta é precisamente a fun-
tiva que explicite a impossibilidade de esta- ção da distinção entre esquerda/direita. A
belecer um consenso sem exclusão ser tão oposição esquerda/direita é o caminho atra-
importante para a política democrática. Nos vés do qual o conflito legítimo ganha forma
advertindo acerca da ilusão de que a de- e é institucionalizado. Se esta estrutura não
mocracia possa algum dia ser realizada, nos existe ou é enfraquecida, o processo de
força a manter a confrontação democrática transformação do antagonismo em
viva. Uma perspectiva agonista da demo- agonismo é obstado e isto pode ter conse-
cracia reconhece a real natureza de suas qüências terríveis para a democracia. Este
fronteiras e também as formas de exclusão é o motivo pelo qual discursos sobre o “fim
que ela contém, ao invés de tentar disfarçá- da política” ou a necessidade de ir além da
las sob o véu da racionalidade ou da esquerda/direita, em prol de uma terceira
moralidade. Estando consciente do fato de via, devem ser recusados. A distinção es-
que a diferença é condição de possibilidade querda/direita não deve ser abandonada
para constituir unidade e totalidade, ao mas reformulada, para que ela possa levar
mesmo tempo em que gera seus limites, esta em consideração as transformações das
perspectiva agonista pode contribuir para identidades coletivas resultantes do proces-
subverter a sempre presente tentação que so de globalização.
existe nas sociedades democráticas para
tornar suas fronteiras algo “natural” e suas Existe hoje uma necessidade urgen-
identidades algo “essencial”. Desta forma, te de reestabelecer a centralidade da políti-
ela será muito mais receptiva à ca e isto requer o esboço de novas fronteiras
multiplicidade de vozes que uma sociedade políticas capazes de dar um real impulso à
pluralista contém – e à complexidade da democracia. Um dos principais desafios para
estrutura de poder que esta rede de dife- a política democrática é começar oferecen-
renças implica – do que o modelo da de- do uma alternativa ao neoliberalismo. É a
mocracia deliberativa. atual e não desafiada hegemonia do
neoliberalismo que explica o porquê da es-
Um novo projeto democrático querda ser incapaz de formular um projeto
alternativo viável. A costumeira justifica-
Conceber a moderna democracia ção para o dogma “não tem alternativa” é a
como uma forma de pluralismo agonista traz globalização. É verdade que o freqüente
importantes conseqüências para a política. argumento ensaiado contra alguns tipos de
Uma vez que seja reconhecido que este tipo políticas social-democráticas redistributivas
de confrontação agonista constitui a é o de que os rígidos limites fiscais que atin-
especificidade da democracia pluralista, nós gem os governos são hoje a única realidade
podemos entender por que esta democra- possível em um mundo onde os eleitores se
cia requer a criação de identidades coleti- recusam a pagar mais taxas e onde o mer-
vas ao redor de posições diferenciadas bem cado global não permite nenhum desvio da
como a possibilidade de escolha entre al- ortodoxia neoliberal. Este tipo de argumen-

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to toma como pressuposto o terreno ideo- espécie de extraterritorialidade. Eles con-


lógico que vem sendo estabelecido como seguiram se emancipar do poder político e
resultado de anos de hegemonia neoliberal aparecem como o real espaço (locus) da so-
e transforma o que é um estado de coisas berania.
conjuntural em uma necessidade histórica. Revelando as estratégias de poder
Aqui, como em várias outras situações, o que informaram o processo de globalização,
mantra da globalização é invocado para jus- a perspectiva de GORZ nos permite ver a
tificar o status quo e reforçar o poder das possibilidade de uma contra-estratégia. Cla-
grandes corporações transnacionais. ro que seria fútil simplesmente recusar a
Quando isto é apresentado como di- globalização ou tentar resistir a ela no con-
rigido exclusivamente pela revolução da texto do Estado-nação. Somente opondo ao
informação, a globalização é separada de sua poder do capital transnacional outra
dimensão política e aparece como um fato globalização, informada por um projeto po-
ao qual todos nós temos que nos submeter. lítico diferente, é que poderemos ter uma
Aqui é precisamente onde nossa crítica chance de resistir com sucesso ao
deve iniciar. Escrutinando esta concepção, neoliberalismo. Começar a conceber tal al-
ANDRÉ GORZ argumentou que, ao invés ternativa é a mais urgente tarefa que a es-
de ser vista como conseqüência da revolu- querda tem que encarar hoje. Em verdade,
ção tecnológica, o processo de globalização esta é a pré-condição para a revitalização
deve ser entendido como um movimento da esfera pública democrática que um mo-
do capital para providenciar o que era uma delo de democracia agonista requer.
necessária resposta política à “crise de É claro que tal alternativa para o
governabilidade” dos anos setenta.2 Na sua neoliberalismo não pode consistir somente
visão, a crise do modelo fordista de desen- em um retorno ao modelo social-democrá-
volvimento levou ao divórcio entre os in- tico keynesiano com todos os seus proble-
teresses do capital e os interesses do mas. A luta pela igualdade, que está no
Estado -nação. O espaço da política centro da social-democracia, deve ser vista
dissociou-se do espaço da economia. É cla- de um modo mais amplo, levando-se em
ro que o fenômeno da globalização tornou- consideração a multiplicidade das relações
se possível pelas novas formas de tecnologia. sociais que envolvem desigualdades, as
Mas esta revolução tecnológica requereu, quais devem ser combatidas. Em verdade,
para a sua implantação, uma profunda as deficiências da tradicional social-demo-
transformação nas relações de poder entre cracia são devidas à falta de entendimento
grupos sociais e entre corporações capita- das formas de subordinação cuja natureza
listas e o Estado. O movimento político foi não é exclusivamente econômica. Por isto
um movimento fundamental. O resultado a emergência de novos movimentos sociais
é que hoje as corporações ganharam uma foi um momento definidor na crise do mo-

2 GORZ, André. Misères du prèsent, richesse du possible. Galilée, Paris, 1997.

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delo social-democrata. Em vários países a dupla regionalização, isto é, em um nível a


direita foi capaz de tomar vantagem desta formação de um número de unidades regio-
crise para mobilizar suporte para o advento nais de diversas nações-estado, unidades
neoliberal contra o Estado do bem-estar. O que seriam elas mesmas compostas por sub-
que se requer hoje é uma forma de política regiões compostas por partes de várias na-
“democrática pós-social”, mas com a con- ções-estado. Esta nova forma de pluralismo
dição de que esta não signifique um regres- poderia fortalecer em muito a capacidade
so atrás da social-democracia, para alguma para a participação popular nas decisões
forma de democracia liberal pré-social. E concernentes à forma da associação políti-
este é precisamente o tipo de movimento ca e à natureza da cidadania.
por detrás da lógica de muitas políticas
É neste contexto que encontro diver-
advogadas como a “terceira via”.
sas tentativas de elaborar uma nova con-
cepção de federalismo particularmente
Qual unidade para um interessante. Por exemplo, algumas propos-
autogoverno democrático? tas que vêm sendo feitas nesta direção por
A atual situação coloca uma nova MASSIMO CACCIARI, o prefeito de
série de questões que não podem ser enca- Veneza, que argumenta que nós precisamos
radas ao nível do Estado-nação, mas somen- hoje de uma revolução copernicana, a qual
te em um contexto mais amplo. Mas com desconstruiria radicalmente o centralizador,
certeza este contexto mais amplo não pode autoritário e burocrático aparelho do tradi-
ser coextensivo com o planeta inteiro. O cional Estado-nação. De acordo com ele, o
governo democrático requer a existência de Estado moderno vem sendo deixado de lado
unidades onde a soberania popular pode ser em conseqüência de dois tipos de movimen-
exercida e isto implica fronteiras. É uma tos: um micronacional, outro suprana-
perigosa ilusão imaginar a possibilidade de cional; de uma parte, a partir de dentro, sob
uma cidadania cosmopolita, que seria ba- a pressão de movimentos regionalistas ou
seada exclusivamente em uma idéia abstra- tribais; de outra parte, a partir de fora, como
ta de humanidade. A democracia é conseqüência do incremento de poderes e
impensável sem a delimitação de um demos. instituições supranacionais e do crescente
Daqui a importância de estabelecer as con- poder do mundo financeiro e das corpo-
dições para um efetivo autogoverno demo- rações transnacionais. Ele vê o federalismo
crático. Estas unidades precisam ser como a resposta para tal situação; um fede-
idênticas ao Estado-nação e existe muito a ralismo que reconheceria a identidade es-
questionar acerca da coexistência de peque- pecífica de cada região, de diferentes
nas e grandes unidades, de acordo com os cidades, não separando umas das outras
tipos de problemas que precisam ser enca- mas, ao contrário, para estabelecer as con-
rados e o tipo de questões a ser resolvido. dições de uma autonomia concebida e or-
A globalização, de acordo com tal perspec- ganizada nos moldes de múltiplas relações
tiva, é melhor concebida em termos de uma de troca entre estas regiões e estas cidades.

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Este federalismo iria combinar solidarieda- formas de solidariedade baseadas no reco-


de e competição e iria constituir uma for- nhecimento da interdependência, ela pode-
ma de autonomia exercida em sistemas que ria prover uma das idéias centrais em torno
são integrados de uma forma conflituosa.3 das quais as forças democráticas podem ser
Se nós queremos impedir as conse- organizadas e isto daria vida à luta pelo con-
qüências da globalização no sentido de im- flito agonista que venho defendendo aqui.
por um único modelo homogêneo de Contra as ilusões antipolíticas de um governo
organização da sociedade, é urgente imagi- mundial cosmopolita, e contra a estérile e fa-
nar novas formas de associação nas quais o lida fixação no Estado-nação, a redescoberta
pluralismo poderia florescer e onde a capa- e reformulação do ideal do federalismo repre-
cidade de participação popular pudesse ser sentam, em minha opinião, um promissor
fortalecida, e isto é o motivo de eu consi- modo de encarar os desafios que confrontam
derar esta nova visão do federalismo tão a democracia no século vinte e um.
sugestiva. Permitindo-nos conceber novas

3 Algumas destas idéias podem ser encontradas no documento Towards a New Federalism, que CACCIARI escreveu para uma
discussão política na Itália. Uma versão em francês foi publicada em Krisis, nº 22, mar./99.

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