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A LEI DAS PRIMÍCIAS

Quando damos a Deus o primeiro lugar, não nos frustramos. Pelo contrário, há um
sentimento de realização em nosso interior que testifica que de fato fomos criados
justamente para isto. Sem Deus em primeiro lugar, há um desequilíbrio em nossas
vidas. Perdemos o propósito da nossa existência.

PRIMÍCIAS NO NOVO TESTAMENTO

Alguns crentes têm dificuldades com qualquer menção de princípios ligados ao


Antigo Testamento, e, antes de aceitarem qualquer doutrina, já começam
indagando: “Qual é a base disto no Novo Testamento?”

Pois bem! Na Igreja Neo-Testamentária não se guardava mais a Lei de Moisés


com o peso das ordenanças que ela tinha no Antigo Testamento. O Concílio de
Jerusalém deixou claro que não havia encargo algum a ser imposto aos gentios,
além daquelas quatro áreas mencionadas: abstinência da carne sufocada, do
sangue, do sacrifício aos ídolos, e da prostituição.

Isto não quer dizer que, depois do Concílio, a Igreja Gentílica não precisasse de
mais nenhuma instrução ou doutrina. Caso contrário, o Novo Testamento não teria
sido escrito. Aquilo limitava, naquele momento, a herança mosaica a ser passada
aos gentios. Contudo, posteriormente, ao ensinarem os princípios divinos à Igreja
Neo-Testamentária, os apóstolos ainda apresentavam figuras poderosas para
fortalecerem doutrinas da Nova Aliança prefiguradas no que se fazia anteriormente
nos dias do Antigo Testamento. Isto não significava que eles estavam tentando
retroceder, e sim que queriam esclarecer as figuras que Deus havia projetado por
intermédio dos princípios praticados na Antiga Aliança.

“Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca
jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano,
perpetuamente, eles oferecem.” (Hb 10.1 – Tradução Brasileira)
A sombra é diferente do objeto real que a projeta. Assim também, o que se via nas
ordenanças da Antiga Aliança eram características similares às dos princípios que
Deus revelaria nos dias da Nova Aliança. As observâncias materiais eram figuras
das práticas espirituais.

O cordeiro sacrificado na Lei Mosaica foi apontado como uma figura (ou sombra)
de Jesus, que veio para morrer em nosso lugar (Jo 1.29). A oferta de incenso do
Tabernáculo passou a ser reconhecida como uma figura da oração dos santos (Ap
5.8). A Ceia da Páscoa deixou de ser praticada, e esta festa passou a ser uma
aplicação espiritual dos princípios que ela figurava (1 Co 5.7,8). Assim também,
outros detalhes da Lei que envolviam comida, bebida, e dias de festa, começaram
a ser vistos, não como ordenanças materiais pelas quais quem não as praticasse
poderia ser julgado, mas como uma revelação de princípios espirituais, cabíveis na
Nova Aliança:
“Ninguém, portanto, vos julgue pelo comer, nem pelo beber, nem a respeito de um dia de festa,
ou de lua nova ou de sábado, as quais coisas são sombras das vindouras, mas o corpo é de
Cristo.” (Cl 2.16,17)
Foi com esta mentalidade (de se aplicar as sombras e figuras), e não tentando
retroceder a uma prática material da Lei Mosaica, que o apóstolo Paulo nos
revelou a aplicação espiritual da Lei das Primícias no Novo Testamento:

“Mas se as primícias são santas, também a massa o é; e se a raiz é santa, também os ramos o
são.” (Rm 11.16 – Tradução Brasileira)
Os israelitas receberam do próprio Deus a ordem de consagrarem a Ele os
primeiros frutos do ventre de suas mulheres, do ventre de seus animais, e também
dos frutos da terra. Na hora da colheita, o primeiro feixe pertencia a Deus e deveria
ser apresentado pelo sacerdote perante o Senhor, numa oferta de movimento.
Destes primeiros frutos, também era feita uma oferta de cereais.

Portanto, Paulo estava ensinando que, ao santificar a primeira parte (a mais


importante), você santifica também o restante, que vem depois dela. Quando
alguém santificava as primícias (primeiros frutos), santificava também tudo o que
depois seria feito com a colheita, incluindo a massa da oferta de cereais e dos
pães que eles comeriam depois.

Uma outra ilustração também é apresentada para fortalecer o entendimento deste


princípio: se a raiz (que é a parte mais importante, que surgiu primeiramente na
formação da planta) for santificada, então os ramos e tudo o que surgir dela
também serão santificados. Este era o entendimento que os judeus receberam da
Lei de Moisés. Se santificassem ao Senhor as primícias de sua renda, estariam
santificando o restante da renda que ficava em suas mãos. Por isso Deus poderia
fazer com que se enchessem fartamente os seus celeiros e transbordassem de
vinho os seus lagares!

Isto não apenas explica o que são as primícias, mas também nos mostra o poder
que elas têm de santificar o restante daquilo de onde foram tiradas.

AS PRIMÍCIAS NO ANTIGO TESTAMENTO

Deus ordenou ao povo de Israel, de forma clara e explícita, a entrega das primícias
(primeiros frutos) por meio de Moisés:

“As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à Casa do Senhor, teu Deus; não cozerás
o cabrito no leite de sua mãe.” (Êx 34.26)
A Tradução Brasileira (SBB), ao invés de traduzir “primícias dos primeiros
frutos” neste versículo, optou por “as primeiras das primícias da tua terra”, pois
duas palavras foram usadas juntamente, com a ideia de “primícias” e “primeiros
frutos”.
De acordo com a Concordância de Strong, a primeira palavra usada no original
hebraico é “re’shiyth”, que significa “primeiro, começo, melhor, principal; princípio;
parte principal; parte selecionada”.

A segunda palavra usada no original hebraico é “bikkuwr”, que significa “primeiros


frutos, as primícias da colheita e das frutas maduras que eram colhidas e
oferecidas a Deus de acordo com o ritual do Pentecostes; o pão feito dos grãos
novos de trigo oferecidos no Pentecostes; o dia das primícias (Pentecostes)”.

Vemos, portanto, que as primícias eram uma ordenança da Lei de Moisés. Porém,
mesmo antes da instituição desta Lei, já percebemos o Senhor Deus trabalhando
nos homens a compreensão da importância da entrega da oferta de primícias;
vejamos a seguir alguns exemplos.

AS OFERTAS DE CAIM E ABEL

O diferencial encontrado nas ofertas de Caim e Abel está diretamente ligado à


entrega das primícias. Muitas pessoas acreditam que o erro de Caim foi trazer uma
oferta dos frutos da terra, ao invés de ofertar um cordeiro (uma tipologia do
sacrifício de Cristo), mas eu não penso que este seja o verdadeiro problema.

A Lei das Primícias fazia com que cada um trouxesse os primeiros frutos do seu
trabalho, e a Bíblia nos revela qual era o trabalho de cada um deles: Abel foi pastor
de ovelhas, e Caim, lavrador (Gn 4.2). Logo, as primícias de Caim teriam que ser
do fruto da terra!

A Bíblia diz que Deus atentou na oferta de Abel, a oferta correta. E a primeira
menção das primícias nas Escrituras é encontrada justamente nesta oferta:

“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor.
Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o
Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn
4.3-5a)
Por outro lado, note quando foi que Caim trouxe a sua oferta ao Senhor: “no fim de
uns tempos”. Independentemente do que sejam estes tempos a que a Bíblia se
refere (tempo de colheita, de ofertas, etc.), o fato é que Caim não honrou a Deus
com os seus primeiros frutos. A entrega das primícias é uma forma de se
reconhecer a Deus em primeiro lugar. Por outro lado, deixá-Lo para o fim significa
não dar a Ele o primeiro lugar. E o Senhor não aceitou isto de Caim, assim como
Ele não aceita isto de nós hoje.

Se Caim não soubesse a forma correta de se oferecer algo ao Senhor, ele não
poderia ser culpado, mas ele sabia a forma correta de se ofertar. Vemos isto na
conversa que Deus teve com ele, depois de rejeitar a sua oferta:

“Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe disse o Senhor: Por
que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que
serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será
contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4.5b-7)
O Senhor falou que Caim sabia que, se ele procedesse bem, seria aceito, e que se
ele procedesse mal, o pecado estaria à sua porta. Abel procedeu bem, ao fazer de
Deus o Primeiro e ao trazer as suas primícias, enquanto que Caim procedeu mal,
ao deixar Deus por último, para o fim. Mas isto não foi algo que cada um deles
houvesse feito acidentalmente, e sim por conhecerem o que Deus esperava deles.

SEMENTE DE BÊNÇÃOS

Na verdade, a entrega das primícias é uma semente que dá acesso às bênçãos de


Deus. O Senhor fez uma promessa a Abraão e à sua descendência. Mas, como
Paulo escreveu aos romanos, a forma de santificarmos o restante de alguma
coisa, é santificando ao Senhor as suas primícias. Portanto, Deus, que Se move
por Seus princípios, pediu a Abraão as primícias de sua descendência: Isaque.
Depois, Ele passou a defender toda a descendência de Abraão como se todos
fossem aquele primogênito entregue. Veja a mensagem que Deus deu para
Moisés entregar ao Faraó egípcio:

“Dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito. Digo-te, pois: deixa ir
meu filho, para que me sirva; mas, se recusares deixá-lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu
primogênito.” (Êx 4.22,23)
Deus mandou Moisés dizer que Israel era Seu primogênito (fruto da consagração
das primícias de Abraão), e que, se Faraó não o libertasse, então os primogênitos
do Egito é que sofreriam. E foi o que aconteceu. Mas, num registro posterior, no
Livro de Salmos, observe como é descrito o juízo divino sobre os primogênitos
egípcios:

“Feriu todos os primogênitos no Egito, primícias da força deles nas tendas de Cão.” (Sl 78.51 –
Tradução Brasileira)
“Também feriu de morte a todos os primogênitos da sua terra, as primícias do seu vigor.” (Sl
105.36)
Em ambos os casos eles são chamados de “as primícias” dos egípcios. Isto faz
com que entendamos a mensagem de Moisés a Faraó em Êxodo 4.22,23 da
seguinte maneira:

“Assim diz o Senhor: Israel é o Meu primogênito, as primícias consagradas de Meu servo
Abraão. Liberta-o para que Me sirva, senão Eu julgarei os teus primogênitos, primícias da tua
força”.
A prática da Lei das Primícias (ou a falta dela) sempre traz consequências
espirituais. Honrar ao Senhor com a entrega das primícias traz bênçãos, mas
brincar com Deus no tocante a isto gera juízo!

A COMPRA DOS PRIMOGÊNITOS ISRAELITAS

Deus ordenou aos israelitas a consagração de todos os primogênitos:


“E disse o Senhor a Moisés: Consagre a mim todos os primogênitos. O primeiro filho israelita
me pertence, não somente entre os homens, mas também entre os animais.” (Êx 13.1,2 – NVI)
E Ele explicou a razão disto:

“Depois que o Senhor os fizer entrar na terra dos cananeus e entregá-la a vocês, como jurou a
vocês e aos seus antepassados, separem para o Senhor o primeiro nascido de todo ventre.
Todos os primeiros machos dos seus rebanhos pertencem ao Senhor. Resgatem com um
cordeiro toda primeira cria dos jumentos, mas se não quiserem resgatá-la, quebrem-lhe o
pescoço. Resgatem também todo primogênito entre os seus filhos. No futuro, quando os seus
filhos lhes perguntarem: Que significa isto?, digam-lhes: Com mão poderosa o Senhor nos tirou
do Egito, da terra da escravidão. Quando o faraó resistiu e recusou deixar-nos sair, o Senhor
matou todos os primogênitos do Egito, tanto os de homens como os de animais. Por isso
sacrificamos ao Senhor os primeiros machos de todo ventre e resgatamos os nossos
primogênitos.” (Êx 13.11-15 – NVI)
Além de ensinar-lhes um princípio, o Senhor também estava Se movendo de
acordo com um direito legal. Na verdade, quando Deus protegeu e guardou os
primogênitos dos filhos de Israel, Ele os comprou. Usando a linguagem bíblica,
podemos dizer que o Senhor os resgatou e Se fez Dono deles. Daí em diante, todo
primogênito era d’Ele, e a consagração ao Senhor era o meio de se reconhecer
isto.

Para poder ficar com os seus filhos, os pais deveriam resgatá-los por meio de
ofertas. Mas, ao consagrarem o primogênito, estavam santificando a Deus o
restante de sua descendência.

CONSEQUÊNCIAS ESPIRITUAIS

O melhor ensino que já encontrei sobre a questão das primícias foi no


livro “Quando Deus é Primeiro” (editado em português pela Willën Books) do
pastor Mike Hayes. A sua leitura ampliou o meu horizonte acerca das primícias, e
eu o recomendo de coração. Ele me abriu os olhos para o que foi de fato o pecado
cometido por Acã em Jericó.

Jericó era a primeira cidade a ser conquistada em Canaã. Portanto, de acordo com
a Lei das Primícias, o despojo de guerra não era deles, e sim do Senhor:

“Tão-somente guardai-vos das coisas condenadas, para que, tendo-as vós condenado, não as
tomeis; e assim torneis maldito o arraial de Israel e o confundais. Porém toda prata, e ouro, e
utensílios de bronze e de ferro são consagrados ao Senhor; irão para o seu tesouro.” (Js
6.18,19)
Os israelitas estavam proibidos de se apropriarem de qualquer coisa em Jericó. Os
tesouros deveriam ir para o Templo, e as demais coisas (chamadas de coisas
condenadas) deveriam ser destruídas.

A Concordância de Strong mostra que a palavra hebraica traduzida aqui como


“condenadas” é “cherem”, que significa: “uma coisa devotada, uma coisa dedicada,
proibição, devoção, algo que foi completamente destruído ou designado para
destruição total”. Ela tem como raiz a palavra hebraica “charam”, que por sua vez
quer dizer: “consagrar, devotar, dedicar para destruição”.

Algumas traduções bíblicas, como a Versão Corrigida de Almeida, traduzem esta


palavra como “anátema”, dando a entender que a razão pela qual os bens de
Jericó não poderiam ser possuídos era o fato de serem amaldiçoados. A definição
bíblica, no entanto, era a de algo consagrado à destruição. Isto poderia trazer
maldição, pela quebra de um princípio, mas não era uma coisa maldita em si
mesma. Assim como o primogênito da jumenta, que não podia ser sacrificado e
tinha que ser resgatado ou desnucado, assim também Deus especificou o que Ele
queria que fosse dedicado a Ele e o que Ele queria que fosse destruído. O
importante não era a descoberta de um uso para aquelas coisas, e sim não tocar
no que era sagrado: as primícias do Senhor. E o exército de Israel obedeceu a
ordem que lhes foi dada:

“Porém a cidade e tudo quanto havia nela, queimaram-no; tão-somente a prata, o ouro e os
utensílios de bronze e de ferro deram para o tesouro da Casa do Senhor.” (Js 6.24)
Um soldado, no entanto, desobedeceu a ordem que o Senhor havia dado:

“Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de
Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do Senhor se
acendeu contra os filhos de Israel.” (Js 7.1)
A consequência da quebra deste princípio foi que a bênção para as demais
conquistas foi retirada de sobre Israel. Eles foram derrotados na próxima batalha,
que exigia muito pouco deles, pois a Lei das Primícias não havia sido obedecida.

Quando santificamos as primícias de alguma coisa ao Senhor, também


santificamos o restante daquilo de que foi tirada. Portanto, inversamente, quando
roubamos a Deus nos primeiros frutos, também perdemos a Sua bênção no
restante!

Este princípio funciona em todas as áreas. Ao separarmos um tempo pela manhã


para buscarmos a Deus e oferecermos em nosso devocional as primícias do nosso
dia, também estamos santificando o seu restante ao Senhor. Quando separamos
as primícias da nossa renda, também estamos santificando o restante da nossa
renda a Deus!

O PRIMEIRO DIA

“Disse mais Jeová a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando entrardes na terra
que eu vos hei de dar, e comerdes as suas searas, trareis ao sacerdote um molho das
primícias da vossa seara. Ele moverá o molho diante de Jeová, para que seja aceito a vosso
favor; no dia depois do sábado o moverá.” (Lv 23.9-11 – Tradução Brasileira)
A entrega do molho das primícias ao sacerdote tinha um dia certo para ser feita. A
Tradução Brasileira diz: “no dia depois do sábado”. A Versão Atualizada de
Almeida usa o termo “no dia imediato ao sábado”, e a Versão Corrigida de Almeida
diz: “ao seguinte dia do sábado”.
Todas estas frases são claras e apontam para um dia certo: o domingo. Não creio
que este princípio santifique o domingo, como o fazia com o sábado no Antigo
Testamento, mas ele revela que a entrega dos primeiros frutos deve ser feita no
primeiro dia da semana.

Por que é importante observarmos isto? Porque temos que dimensionar qual é a
aplicação prática da simbologia deste princípio hoje. E, referindo-se à simbologia
da Lei das Primícias, o apóstolo Paulo declara aos coríntios um fato importante
acerca da ressurreição de Jesus:

“Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.” (1
Co 15.20)
A ressurreição de Jesus Cristo é vista como um cumprimento da tipologia das
primícias, e aconteceu no dia depois do sábado (Mt 28.1).

Porém, cinquenta dias depois desta oferta de primícias, era necessário que uma
nova celebração fosse feita ao Senhor, a qual também caía num domingo, depois
de sete sábados da entrega da primeira oferta de primícias.

“Depois, para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o
molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia seguinte ao sétimo sábado,
contareis cinquenta dias; então, oferecereis nova oferta de manjares ao Senhor.” (Lv 23.15,16
– ARC)
Este era o significado da Festa de “Pentecostes” (que significa “cinquenta”), a qual
era celebrada cinquenta dias depois da entrega dos primeiros frutos. Esta festa,
mesmo sendo celebrada depois de sete semanas, ainda era uma extensão da
festa das primícias (Lv 23.17). E isto também aparece no cumprimento da tipologia
do Antigo Testamento no Novo Testamento:

“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente,
veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam
assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre
cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas,
segundo o Espírito lhes concedia que falassem.” (At 2.1-4)
A Igreja recebeu o selo da aprovação divina numa festa que era uma extensão da
celebração das primícias. Esta é a razão pela qual também passamos a ser
chamados de primícias para o Senhor.

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como
que primícias das suas criaturas.” (Tg 1.18)
Portanto, a aplicação da Lei das Primícias não é somente financeira, ou literal, mas
também simbólica, pois somos chamados de “primícias”.

E qual é a relação que o Novo Testamento faz entre as nossas contribuições e


esta figura?

Paulo escreveu aos coríntios, fazendo uma destas aplicações simbólicas quanto
às ofertas:
“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da
Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa,
conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas
quando eu for.” (1 Co 16.1,2)

A orientação apostólica do dia específico para esta contribuição continua sendo o


dia seguinte ao sábado: o domingo. Parece-me que a idéia das primícias abordada
no Novo Testamento não se prende tanto ao fato de ser o ganho do primeiro dia
ou o primeiro décimo da renda que está sendo entregue. O que precisa ser
destacado é que eles separavam a parte de Deus no primeiro dia da semana. Ou
seja, eles a entregavam em caráter de primazia.

O que aprendemos com isto é que não importa tanto se é o ganho do primeiro dia
dado à parte, ou se são os dízimos e ofertas entregues em caráter de primazia. O
mais importante é darmos primeiro a parte de Deus, antes de gastarmos com as
outras coisas. Ao falar sobre a entrega das primícias, o Senhor instruiu claramente
aos israelitas:

“Não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até ao dia em que
trouxerdes a oferta ao vosso Deus; é estatuto perpétuo por vossas gerações, em
todas as vossas moradas.” (Lv 23.14)

Ninguém comia do fruto do seu trabalho antes de entregar os primeiros frutos ao


Senhor. Creio que os dízimos e as ofertas devem ser o item “número um” no plano
de contas do nosso orçamento. Além de ser dados primeiro, eles devem refletir o
fato de que Deus vem em primeiro lugar. Este é o ponto mais importante. Por outro
lado, ofertar o ganho do primeiro dia do mês também pode ser uma forma de se
observar esta lei bíblica. Quando honramos ao Senhor com as primícias da nossa
renda, Ele também nos honra em nossas finanças. Por outro lado, quando
pensamos somente em nós mesmos, e não nos preocupamos com as coisas do
Senhor, também ferimos a Sua primazia e perdemos as Suas bênçãos.

É o que ocorreu nos dias de Ageu, quando ele profetizou que o povo israelita só se
preocupava com as suas casas, enquanto a Casa do Senhor estava em ruínas. E
justamente por colocarem-se a si mesmos em primeiro lugar e deixarem a Deus
por último é que eles perderam as bênçãos divinas.

COMO ENTREGAR AS PRIMÍCIAS HOJE

O assunto das primícias tem sido resgatado e restaurado recentemente (apesar de


ser encontrado na “Didaquê” – um dos documentos mais antigos da História da
Igreja, uma espécie de catecismo da Igreja do Primeiro Século). Eu mesmo nunca
havia sido exposto a nenhum ensino sobre o assunto até alguns anos atrás,
apesar de eu haver sido criado num lar cristão. Portanto, creio que ainda
precisamos amadurecer na compreensão e aplicação prática deste princípio. Em
função disto, eu gostaria de apresentar alguns conselhos (e não dogmas) sobre
como podemos proceder para honrarmos ao Senhor com as primícias da nossa
renda.

Alguns pregadores fazem uma distinção entre as primícias e os dízimos (e de fato


era assim no Antigo Testamento) e ensinam o cristão a, além de entregar os seus
dízimos, a também doar o equivalente ao ganho do seu primeiro dia de trabalho do
mês. Uma vez que vivemos numa cultura de trabalho diferente, onde a maioria das
pessoas não extrai os frutos da terra ou do gado para separar as primícias, como
era feito na Antiga Aliança, estes pregadores nos aconselham a dividirmos o
salário (que é um ganho mensal) em 1/30 avos, e entregarmos o ganho
equivalente ao primeiro dia de trabalho do mês. Esta, acreditam eles, seria a forma
contemporânea de se praticar este princípio.

Outros pregadores ensinam a prática das primícias na própria entrega dos dízimos
e ofertas. Eles acreditam que os dízimos (e ofertas) devem ser entregues em
caráter de primazia, ou seja, como sendo os primeiros frutos. A primazia, segundo
estes pregadores, é determinada pelo fato de não gastarmos nada antes de
dizimarmos.

Embora eu tenha sido ensinado desde criança que a oferta das primícias significa
darmos a primazia a Deus na entrega dos dízimos e ofertas (como sendo os
primeiros frutos porque os entregamos antes de gastarmos com outras coisas), e
embora eu ainda veja muitas pessoas sendo abençoadas ao caminharem de
acordo com este nível de entendimento, penso que podemos ir além e fazer algo
mais na prática desta poderosa lei bíblica.

À luz do ensino do Novo Testamento, não consigo (nem ouso) afirmar que a
entrega das primícias tenha que ser, necessariamente, uma contribuição a mais,
além dos dízimos e demais ofertas. E eu não quero afirmar, em hipótese alguma,
que a visão de contribuirmos, dando a Deus a primazia, não cumpra a Lei das
Primícias. Por outro lado, não vejo nada nas Escrituras que nos impeça de agirmos
assim. Não há nenhum princípio bíblico que venha a ser quebrado se assim
procedermos! Portanto, com a devida consciência do ensino bíblico que diz: “A fé
que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus” (Rm 14.22), e sem impor isto como
um mandamento ou obrigação sobre outros, pergunto:

Por que não entregarmos as nossas primícias como mais uma forma distinta de
contribuição?

No Antigo Testamento, os dízimos e as primícias eram duas contribuições bem


distintas e complementares. Os cristãos do Primeiro Século, segundo a Didaquê,
entregavam as suas ofertas de primícias (normalmente aos profetas ou líderes
cristãos), embora estivessem vivendo sob a Nova Aliança. Os sacerdotes da
Antiga Aliança eram sustentados pelos dízimos, porém eram honrados com as
primícias. O Novo Testamento fala deste sustento dos ministros por meio de
salários (2 Co 11.8; 1 Tm 5.17), mas nos instrui a procedermos com outras formas
de honra aos que nos ministram a Palavra de Deus (Gl 6.6).
O fato de não podermos impor a oferta de primícias não significa que não
podemos praticar este princípio! Em nossa igreja local, não ensinamos isto como
uma imposição a ninguém, mas eu mesmo pratico este princípio e dou total
liberdade (e incentivo) a quem quiser praticá-lo também. Contudo, uma vez que
não vivemos nos dias da Antiga Aliança e não temos que seguir literalmente a Lei
Mosaica, como aplicamos hoje a entrega das primícias?

No Antigo Testamento, as primícias envolviam a entrega dos primeiros frutos da


colheita (que ocorria num intervalo de alguns meses), dos primogênitos dos
animais (que ocorria uma vez na vida de cada animal), e dos primogênitos dos
homens (que deveriam ser resgatados). Isto não significava uma contribuição
substancial, a ponto de se garantir a sobrevivência dos sacerdotes, mas era
apenas mais uma expressão de honra que Deus permitiu que Lhe oferecêssemos.
E é com este entendimento que praticamos a entrega das primícias.

O PRIMEIRO DIA DE SALÁRIO

A nossa cultura atual, como já afirmamos, já não tem muito a ver com o cultivo da
terra e com animais, como nos dias antigos. Porém, uma vez que fazemos parte
de uma geração de cultura mensalista em seus recebimentos salariais, vários
pregadores nos aconselham a ofertarmos como primícias o equivalente ao
primeiro dia de trabalho do mês (dividindo-se o nosso salário por trinta e
entregando-o como primícias). No entanto, é aqui que surge uma divergência entre
alguns doutrinadores. Esta divergência advém principalmente do fato de que,
excetuando-se o trabalhador assalariado (que sabe antecipadamente o quanto
ganhará), a maioria dos profissionais liberais, autônomos, comerciantes,
vendedores e muitos outros trabalhadores sem salário fixo, precisa primeiramente
fechar um balanço (semanal ou mensal) para saber o quanto ganhou, e somente
então apurar o valor das primícias e dos dízimos a ser entregue. Isto significaria
uma oferta feita na parte final do processo, e não mais com o caráter de primazia!

Como, antigamente, ninguém poderia comer dos grãos da colheita antes da


entrega da oferta de primícias (Lv 23.14), aconselhamos, no caso dos
trabalhadores que não têm renda fixa, a entrega do primeiro ganho do mês (o lucro
da primeira comissão, por exemplo). Neste caso, a entrega do valor referente ao
ganho real do primeiro dia de trabalho poderia ser feita antes de se apurar o
balanço final de ganhos (e de se comer dos frutos do trabalho). Quanto aos
dízimos, eles poderiam ser entregues depois desta apuração de lucros.

ONDE DEVEMOS ENTREGAR NOSSAS PRIMÍCIAS?

Muitos me perguntam onde eles deveriam entregar as suas ofertas de primícias.


Sugiro que o façam no mesmo local onde entregam os seus dízimos: na igreja
local onde se congregam. Alguns dizem que as primícias devem ser entregues ao
sacerdote. Isto era um fato na Antiga Aliança, mas, naquela época, os sacerdotes
também recebiam diretamente para si os dízimos, porém isto não ocorre no Novo
Testamento! Portanto, prefiro ser honesto e não “enlatar” a doutrina sem uma
clareza bíblica. Não vejo uma base bíblica para dizermos que as primícias só
podem ser entregues aos sacerdotes (os ministros). Por outro lado, também não
vejo problema algum se isto for feito desta forma, uma vez que a Bíblia ensina este
tipo de honra (embora sem necessariamente relacioná-lo com as primícias). Eu só
não quero criar regras que não são claras no Novo Testamento.

Em nossa igreja local, as ofertas de primícias (que são assim identificadas no


envelope de contribuição) são direcionadas a um fundo sacerdotal e visam tão-
somente o apoio de ministérios em suas necessidades (tanto os de dentro como
os de fora da igreja). No entanto, o ideal é que cada igreja, através da sua
liderança e governo, decida qual é a melhor forma de se receber esta contribuição,
como também a sua melhor aplicação!

Texto extraído do livro “Uma Questão de


Honra”

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