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Brasil

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Editoração e org. literária: Roberta Hang M. Soares

ISBN 85.326.2689-0
DEDICATÓRIA

Ao sociólogo e militante negro


Eduardo de Oliveira e Oliveira
in memoriam
Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Paleologl social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento


no Brasil / lray Carone, Maria Aparecida Silva Bento (organizadoras). -
Petrópolis, RJ : Vozes, 2002.
Vários autores.
1. Negros - Brasil 2. Preconceitos - Brasil 3. Psicologia social - Brasil
1. R cismo - Brasil 1. Carone, lray. li. Bento, Maria Aparecida Silva.

CDD-305.800981
01-6147

Índices para catálogo sistemático:


1. Brasil: Racismo: Psicologia social: Sociologia 305.800981

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


SUMÁRIO

I refácio (Kabengele Munanqa), 9

1. Breve histórico de uma pesquisa psicossocial sobre a questão


racial brasileira (Iray Carone), 13

· Branqueamento e branquitude no Brasil (Maria Aparecida


Silva Bento), 25
AGRADECIMENTOS 3. Porta de vidro: entrada para a branquitude (Edith Píza), 59

~. Cor nos Censos brasileiros (Edith Piza e Fúlvia Rosernberg), 91


Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Ü. De café e de leite ... (Rosa Maria Rodrigues dos Santos), 121
Científico e Tecnológico, pelo apoio financeiro
durante dois biênios (1992-1996). ·A flor da pele (Lia Maria Perez B. Baraúna), 131

'I. Branquitude: o lado oculto do discurso sobre o negro (Maria


Aparecida Silva Bento), 147
A todos os pesquisadores e bolsistas que
integraram a equipe no Instituto de Psicologia da · Faíscas elétricas na imprensa brasileira: a questão racial em
Universidade de São Paulo. [oco (Iray Carone e Isildinha Baptista Nogueira), 163

· A flama surda de um olhar (Iray Carone), 181

À Mariangela Nieves, pelo seu preciso trabalho


de digitação dos textos.
PREFÁCIO

A psicologia brasileira é uma área que teria muito a contribuir


11 produção do conhecimento sobre o racismo e suas conseqüên-
c:1, s na estrutura psíquica tanto dos indivíduos vítimas como dos
1I1.,criminadores. Se os comportamentos sociais numa sociedade
r. c.:istacomo a nossa podem ser objeto de um olhar interdiscipli-
nnr, cabe a cada disciplina implicada dar a sua contribuição den-
l/o de sua especificidade, tornando-se, ipso facto, auxiliar e com-
1>1 mentar das disciplinas afins. No que toque aos estudos sobre o
/1 gro no Brasil, iniciados há mais de 100 anos, com os trabalhos
uíonetros de Raimundo Nina Rodrigues, observa-se quantitativa-
/li nte uma distância muito grande entre as ciências sociais e a
pulcoloqía social que, na sua especificidade, teria auxiliado as prí-
/11 iras a captar os fenômenos psíquicos do racismo, sobre os quais
I I s não têm dominio metodológico.

O preconceito racial é um fenômeno de grande complexidade.


I' r isso, costumo cornpará-lo a um iceberg cuja parte visível cor-
/I ponderia às manifestações do preconceito, tais como as prátí-
I' I discriminatórias que podemos observar através dos comporta-
11\ ntos sociais e individuais. Práticas essas que podem ser anali-
, 1 S e explicadas pelas ferramentas teórico-metodológicas das
(lI ncias sociais que, geralmente, exploram os aspectos e signifi-
tJ Idos socíolóqícos, antropológicos e políticos, numa abordagem
I uutural elou diacrônica. À parte submersa do iceberg corres-
pondern, metaforicamente, os preconceitos não manifestos, pre-
m ntes invisivelmente na cabeça dos indivíduos, e as conseqüências
110 efeitos da discriminação na estrutura psíquica das pessoas.
Os desajustados e perturbados mentais, vítimas do preconcei-
II da discriminação racial, mereceriam a atenção de uma ciência
nnlcolóqica, tanto no plano individual sob o olhar de uma psicolo-
,lI clínica, como no plano coletivo, sob o olhar de uma psicologia
/10 '1. L Não vejo, portanto, disciplina mais qualificada que a psico-
11111 e sua derivada, a psicanálise, para analisar os fenômenos
I I li J tivos ligados aos processos de identificação do sujeito negro

9
individual e coletivo e aos processos de sua auto-estima. Infeliz- Porcorrenoo a história das idéias sobre a mestiçagem, pode-
mente, a psicologia social no Brasil tem reservado um espaço de 111Il/Jperceber que a Raciologia, ou ciência das raças, filha do pen-
pouco significado ao estudo desses fenômenos que tocam à vida 1111nto dos naturalistas e filósofos iluministas, não inocentou os
de mais de 60 milhões de cidadãos brasileiros de origem afro-des-
1IIIIILI~os:, que ~onsiderou como f~utos do cruzamento indesejá-
cendente. Essa pouca preocupação da psicologia não deixa de ser
VI I ntre raças decretadas supenores e inferiores. Na reflexão da
inquietante, principalmente nesta era da globalização, que por
I11uona desses filósofos, os mestiços são vistos sempre como se-
toda parte provoca movimentos de afirmação das identidades,
/I /I ambívalentss, degenerados, anormais, pois são frutos de
contrariamente aos mecanismos de homogeneização ditados pela
mundialização do mercado, do capital, das técnicas e meios de 111110 8 escandalosas e contra a natureza; "raça" bastarda imoral
t ril, etc. Os mais generosos viam nos mestiços a raça maís vi~
comunicações de massas. I

'1'11o f~sicame~te, por ter conservado o melhor de cada raça. A


Foi a partir da consciência sobre as lacunas provocadas pela Id ip açao ao clima e ao meio ambiente dos indígenas, a força
ausência da psicologia social no Brasil que Dra. Iray Carone, pro- 1111/cular e os dons artísticos dos negros e a luz ou racionalidade
fessora e pesquisadora do Instituto de Psicologia da Universidade til 11brancos, todos estes atributos se encontrariam - segundo di-
de São Paulo, iniciou, em 1992, com a participação de seus orien- um concentrados no mestiço.
tados e colegas convidados, um estudo sobre a negritude em São
Paulo, visando captar justamente os efeitos psicológicos do lega- Mas o que nesse pensamento mais interessa às ciências do
do do branqueamento sobre o processo de construção da identi- homem, a psícoloqía social incluída, são as atitudes e os compor-
dade negra. Os resultados desta pesquisa - concluída em 1996 e I 1/t1ntos SOCIaISdesenvolvidos, cuja interiorização deixa marcas
intitulada A [orça psicológica do legado social do branqueamento luvlstveís no imaginário e nas representações coletivas marcas
- um estudo sobre a negritude em São Paulo - constituem o ceme I / /1 8 que interferem nos processos de identificação individual e
do presente livro, que a organizadora e as demais co-autoras colo- III onstrução da identidade coletiva. A ínteriorização pode a ri-
cam à disposição da sociedade como um tributo capaz de desen- I I, levar à alienação e à negação da própria natureza humana
cadear um debate e uma reflexão conscientizadores sobre os efei- p I 08 que nasceram escuros, oferecendo-lhes como único camí-
tos psicológicos provocados pelo racismo na sociedade brasileira. 11110 de redenção o embranquecimento físico e cultural trilhado
O racismo à brasileira, como os demais racismos que se desen- II( I miscigenação e pela mestiçagem cultural. Como todas as ideo-
volveram em outros países, tem sua história diferente da dos outros 10 Ias, o branqueamento precisaria ser reproduzido através dos
e suas peculiaridades. Entre estas, podemos enfatizar notadamente 111canis mos da socialização e da educação. Neste sentido a
o significado e a importância atribuídos à miscigenação ou mestiça- 1I1110riada população brasileira, negra e branca, introjetou o ideal
gem no debate ideológico-político que balizou o processo de cons- Ilc ranqueamento, que inconscientemente não apenas interfere
trução da identidade nacional e das identidades particulares. Nesse lI( pr.ocesso de const:-ução da identidade do ser negro individual e
debate de idéias, a miscigenação, um simples fenômeno biológico, I ( letlV? como tambem na formação da auto-estima geralmente
recebeu uma missão política da maior importância, pois dela de- IJtíxíssíma da população negra e na supervalorização idealizada
penderia o processo de homogeneização biológica da qual depen- do população branca.
deria a construção da identidade nacional brasileira. Foi nesse con-
texto que foi cunhada a ideologia do branqueamento, peça funda- ~odas ess~s ~uestões estão no centro das preocupações dos
mental da ideologia racial brasileira, pois acreditava -se que, graças I IlSalOSe descnçoes que os autores do livro Psicologia social do te-
ao intensivo processo de miscigenação, nasceria uma nova raça I'i mo - Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil
brasileira, mais clara, mais arianizada, ou melhor, mais branca feno- (Ir recem ao leitor em geral, e ao pesquisador brasileiro da área
tipicamente, embora mestiça genotipicamente. Assim desaparece- (I s relações raciais, em particular.
riam índios, negros e os próprios mestiços, cuja presença prejudica-
ria o destino do Brasil como povo e nação.
Kabengele Munanga

10 11
1. BREVE HISTÓRICO DE UMA PESQUISA
PSICOSSOCIAL SOBRE A QUESTÃO
RACIAL BRASILEIRA

Iray Carone
De 1992 a 1996 desenvolvemos uma pesquisa intituladaA Iot-
t' psicológica do legado social do branqueamento - Um estudo
notne a negritude em São Paulo, no Instituto de Psicologia da Uni-
ve rsidade de São Paulo, com o suporte financeiro do Conselho Na-
ulonal de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Na qualidade de projeto integrado, contou com pesquisadores
{ !TI diferentes níveis de formação acadêmica: graduandos, gradu-
I tos. mestres, doutorandos e doutores. Até o final de 1994 o proje-
Lc Levea participação do antropólogo Andréas Hofbauer na condi-
, Ode pesquisador-visitante estrangeiro, especializado nessa área
(I estudos sobre o Brasil.

O projeto derivou do contato com a literatura sociológica bra-


I11 ira da chamada "escola paulista" da Universidade de São Paulo
ql1 ,nos anos 50, com a ajuda financeira da Unesco, deu início ao
'\laior empreendimento científico de compreensão das relações
, cíaís no Brasil. Sem dúvida esses estudos tiveram seus prece-
(I ntes históricos nas antropologias de Nina Rodrigues e Gilberto
li', yre, mas proporcionaram um avanço significativo na visão de
Il njunto da falsa democracia racial brasileira, com base nos estu-
(I( de campo e levantamentos históricos analisados, de modo ge-
, 11, por um viés teórico funcionalista ou marxista.

Um dos elementos mais intrigantes dessa nova interpretação


(I \ realidade racial brasileira, já descolada da visão luso-tropicalis-
1. I de Gilberto Freyre, era o conceito de ideologia do branquea-
11 J rito. O branqueamento poderia ser entendido, num primeiro ní-
v( I, como o resultado da intensa miscigenação ocorrida entre ne-
I' s e brancos desde o período colonial, responsável pelo aumen-

13
to numérico proporcionalmente superior dos mestiços em relação Diante do racismo ortodoxo de Gobineau, a elite abolicionista,
ao crescimento dos grupos negros e brancos na composição racial composta sobretudo de juristas e médicos, ficou extremamente
da população brasileira. O branqueamento, todavia, não poderia dividida entre condenar a mestiçagem ou adaptar o discurso racis-
deixar de ser entendido também como uma pressão cultural exer- ta à realidade social do país, mediante o relativo abandono da hi-
cida pela hegemonia branca, sobretudo após a Abolição da Escra- pótese poligenética.
vatura, para que o negro negasse a si mesmo, no seu corpo e na Nina Rodrigues, médico e antropólogo, representou a primei-
sua mente, como uma espécie de condição para se "integrar" (ser ra posição, influenciado pela sua participação em discussões cien-
aceito e ter mobilidade social) na nova ordem social. tíficas européias da escola criminalista italiana e da escola médi-
A miscigenação entre negros e brancos, exaltada por Gilberto co-legal francesa. Supunha que a lei biológica nos dava indicações
Freyre como um embrião da "democracia racial" brasileira e base de que os produtos do cruzamento eram tanto menos favoráveis
de nossa identidade nacional - "povo mestiço", "moreno" - foi quanto mais se encontravam afastadas as espécies dentro de uma
parte da escravidão colonial. Mas o cruzamento racial não foi um hierarquia zoológica. No caso das raças humanas, embora não se ti-
processo natural, e sim determinado pela violência e exploração vesse comprovado a hibIidez fisica dos produtos do cruzamento
do português de ultramar contra o africano sob o cativeiro. ( sterilidade, por exemplo), poder-se-ia verificar uma certa bibtidez
moral, social e intelectual dos mestiços, de acordo com uma certa
No período pré-abolicionista, que culminou com a assinatura scala de mestiçagem, dos "degenerados" aos "intelectualmente
da Lei Áurea no dia 13 de maio de 1888, foram-se desenvolvendo mpenores" . De acordo com essa escala, Nina Rodrigues propunha
vários argumentos a favor da extinção do regime de produção co- \ revisão do código penal brasileiro para o julgamento diferencia-
lonial, bem como as idéias de branquear o povo brasileiro diante 10, caso a caso, da responsabilidade criminal dos mestiços.
do fato irreversível da miscigenação. Esses argumentos pró-bran-
queamento procediam, de modo geral, de uma adaptação brasilei- Foram os juristas positivistas brasileiros, no entanto, que cons-
ra da "teoria científica" de Joseph Arthur Gobineau, que disse, 1,1tuíram uma nova ordem de argumentos baseados na chamada
após uma visita ao Brasil em 1869: "I i dos três estádios", de Auguste Comte. À marcha para o pro-
Ir sso ou para a positividade das ciências humanas, principal-
Nem um só brasileiro tem sangue puro porque os exemplos de ca-
111 nte da SOCiologia,deveria corresponder uma evolução das ins-
samentos entre brancos e negros são tão disseminados que as nu-
1,1tuíções sociais primitivas, tais como a escravidão e o cativeiro
ances de cor são infinitas, causando uma degeneração do tipo
mais deprimente tanto nas classes baixas como nas superiores.' 110 homens praticado pelas sociedades antigas. Embora fossem
111 ressistas na condenação da escravidão tanto na Europa como
1I II1 Américas, eles defendiam as concepções racialistas, segundo
o racismo de Gobineau estava fundado numa visão poligenis-
Ifl quaís as raças não só eram definidas pelas características físi-
ta da humanidade e condenava o cruzamento inter-racial, que te-
I II1 comuns, mas também pelas diferenças mentais transmitidas
ria como conseqüências a perda da pureza do sangue da raça
111)1 1 ereditariedade. Do ponto de vista político, supunham que as
branca e superior e a produção de seres ínférteís e incapazes - os
I 1t.J \ com maior desenvolvimento evolutivo deveriam civilizar tu-
sem-raça - que viriam a comprometer o potencial civilizatório de
II I I OU absorver as raças com desenvolvimento num estágio i~fe-
nosso povo. O mestiço seria o mulato, equivalente ao mula, animal
II!)J, sem dúvida alguma, os positivistas foram os principais artícu-
híbrido e infértil derivado do cruzamento do jumento com a égua
1'11li)1 s de argumentos pró-branqueamento da população negra
ou do cavalo com a jumenta.
111) 1I Abolição, com uma postura otimista diante da mestiçagem
I 111,1 negros e brancos, índios e brancos, etc.
utra linha de argumentação pró-branqueamento se funda-
1. Skidmore, Th. E. (1976). Preto no branco - Raça e nacionalidade no pensamento brasilei-
11I1 jJ 1L va no pensamento liberal a favor da modernização industrial
ro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 46.

14 15
do Brasil e da imigração de mão-de-obra européia. Desde o perío- pelo próprio fato de ser mero discurso ideológico: e se o resultado
do anterior à Abolição, já havia defensores da vinda de trabalhado- final não fosse a extinção do negro, mas sim o aumento numérico
res europeus para o desenvolvimento econômico do país, não só de não-brancos na população brasileira?
com a suposição da superioridade racial dos brancos, como tam- As políticas imigrantistas do Estado brasileiro refletiam a
bém da produtividade maior da mão-de-obra européia com rela- preocupação de impedir a "decadência dos brancos" pela vitória
ção à mão-de-obra negra e escrava. Mas foi Joaquim Nabuco o dos mestiços através de propostas públicas de favorecimento
melhor representante do projeto econômico e político-liberal do maciço de imigrantes europeus, considerados superiores aos
país que consistia em abolir as relações escravistas e reordenar as africanos e asiáticos.
condições de trabalho pela importação da força produtiva já adap-
tada à economia industrial capitalista. No entanto, esse projeto de Forjada pelas elites brancas de meados do século XIX e come-
modernização carregava consigo idéias preconceituosas sobre os ços do XX, a ideologia do branqueamento foi sofrendo importan-
negros, a despeito de pretender representar o Brasil como um pa- tes alterações de função e de sentido no imaginário social. Se nos
raíso de convivência ínter-racíal O tom otimista do argumento li- períodos pré e pós-abolicionistas ela parecia corresponder às ne-
beral visava mobilizar as elites brasileiras para arrancar o país do cessidades, anseios, preocupações e medos das elites brancas
isolamento da economia mundial e fornecer uma imagem atrativa hoje ganhou outras conotações - é um tipo de discurso que atribuI
aos negros o desejo de branquear ou de alcançar os privilégios da
do país para a importação de mão-de-obra européia.
branquitude por inveja, imitação e falta de identidade étnica positi-
Mas, o que fazer dos negros e dos seus descendentes? Como va. O principal elemento conotativo dessas representações dos
integrá-los no mundo dos negócios capitalistas e da mão-de-obra negros construídas pelos brancos é o de que o branqueamento é
livre e qualificada para a industrialização do país? uma doença ou patologia peculiar a eles.
Não houve, da parte dos liberais, nenhuma preocupação con- Como é que um problema explícito das elites brancas passou a
creta definida por medidas relativas aos escravos libertos, com o er interpretado ideologicamente como um problema dos negros-
destino da população negra. Os seus argumentos visavam ou ti- desejo de branquear?
nham como destinatárias as elites brancas, de modo a conven-
cê-Ias de que a imigração aumentaria o coeficiente de "massa ari- Durante o desenvolvimento da pesquisa, até 1994, não tínha-
ana" no país: o cruzamento e o recruzamento acabariam por bran- InOS ainda percebido todas as implicações de um estudo sobre a
quear o Brasil num futuro próximo ou remoto. (Houve quem pen- pressão cultural do branqueamento na esfera psicológica do negro
sasse que a solução da questão do negro após, a Abolição deveria I lr sileiro. De certa maneira, ainda estávamos cativos e presos à li-
1,( ratura sociológica brasileira dos anos 50. Não estaríamos caindo
ser a extradição e a fundação de colônias na Africa, ou quem de-
fendesse, como Sylvio Romero, a manutenção da escravidão até I\ equívoco de considerar o branqueamento uma patologia dos
que os negros sucumbissem no terreno econômico pela concor- /li gros, embora determinada societariamente? Afinal de contas,
11\1 m eram os agentes sociais que lhes atribuíram tal "doença" e
rência do trabalho livre do imigrante europeu.)
IJII ts foram as motivações conscientes e inconscientes dessas
A ideologia do branqueamento era, portanto, uma espécie de 11)] mações ideológicas?
darwinismo social que apostava na seleção natural em prol da
"purificação étnica", na vitória do elemento branco sobre o negro Havíamos tratado o branqueamento, até então, de modo exte-
com a vantagem adicional de produzir, pelo cruzamento ínter-ra- Ilul bipolaridade tensa das relações raciais entre negros e bran-
I (lIl, como se fosse possível alcançar a sua inteligibilidade psicoló-
cíal, um homem ariano plenamente adaptado às condições brasi-
leiras. Se ela aliviava os espíritos dos brancos diante da questão lllu \ sem levar em consideração o sujeito preconceituoso, o verda-
dos negros, após a resolução da questão do escravo com a muda?- d, li autor dessas representações sobre o negro.
ça do regime econômico de produção, também deixava a desejar

16 17
Dentre os pesquisadores do projeto, a doutoranda Maria Apa- mento poderia atuar de modo negativo no movimento negro, difi-
recida da Silva Bento já havia articulado essa bipolaridade ao mos- cultando não só a construção política de uma identidade negra
trar na sua dissertação de mestrado' que a categoria negro era como também diminuindo a sua capacidade de mobilização junto
construída pelo olhar do branco, que revelava muito mais a sua às comunidades negras. Pesquisas jornalísticas já haviam detecta-
própria psicologia (a dimensão projetiva da imagem) do que aque- do que 54% de negros e 71 % de mestiços haviam respondido nega-
la do negro. A pesquisadora Edith Píza, por seu turno, baseada na tivamente à pergunta: Você já se sentiu discriminado por sua cor?"
U

bibliografia norte-americana sugerida pela antropóloga Angela


Além disso, a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio
Gilliam, passou a expor em seminários os estudos sobre bienqui-
(PNAD), em 1976, que preparou a inclusão do quesito cor no Cen-
tude de Ruth Frankenberg (1995) e Janet Helms (1990). Essas des-
a de 1980 - assunto tratado no artigo de Edith Piza e Fúlvia Ro-
cobertas não tiveram poucas conseqüências nos métodos, técni-
emberg sob o título A cor nos censos brasileiros - mostrou que os
cas e sujeitos da entrevista. li o-brancos se identificavam segundo graus e matizes de cor, tais

Em 1992 começávamos uma pesquisa de campo com um ro- 'orno: amarela queimada, miscigenação mista, morena bem che-
teiro de temas (vida familiar, vida escolar, vida profissional, religio- Ieda, puxada para branca, queimada de praia, roxa, sapecada, tui-
sidade, relacionamento interpessoal, vida afetiva, movimento ne- v , verde, etc., num total de 136 expressões diferenciadas. Para os
gro e episódios de discriminação racial) para orientar o pesquisa- mllítantes do movimento negro, no entanto, não só essas expres-
dor de modo a não perder de vista as representações, atitudes e I1 es ou maneirismos verbais eram inaceitáveis, como também
valores, bem como os possíveis suportes inconscientes que se ma- rqueles que se referiam ao negro como pessoa de cor, mulato es-
nifestassem durante as falas dos sujeitos negros. Entrevistamos 17 I uio, mulato claro e preto.
pessoas, de 20 a 55 anos de idade, sendo 7 do sexo feminino e 10
Embora esse descompasso entre uns e outros tivesse sido
do sexo masculino. I) ntuado inúmeras vezes, o esquema das entrevistas dos mílítan-
Foi utilizada uma ficha socioeconômica a ser preenchida dire- 1,1 IJ cabou por privilegiar as suas histórias de vida e as posições
tamente pelos sujeitos para que houvesse auto-atribuição de cor, 1)( 11tícas que assumiam, na década de 90, a respeito da relação do

bem como informações preliminares sobre automóveis, banhei- III vlmento negro com o Estado. Houve muita divergência quanto
ros, rádios, empregados domésticos, etc. que possuíssem em casa. I( ignificado político da participação da militância nos órgãos
De acordo com os dados obtidos por essa ficha (criada pelo méto- ItlV rnamentais e na criação de fundações, conselhos e secretarí-
do de H.W. Haisser e Piagentino M. de Almeída), os sujeitos per- 11 specializadas da condição do negro no Brasil. A maior parte
tenciam às classes média e baixa, com algum grau de escolarida- lI! ntrevistados era favorável ou já participante dos governos
de, do ensino fundamental completo ao superior. A pesquisa era ,li 11 ocráticos, embora alguns julgassem a participação uma forma
enunciada como um estudo sobre as dificuldades e possibilida- ,I, ,ooptação desmobílizadora de um movimento de base e caráter
des das relações raciais no Brasil. Embora de caráter psicológico, populares ou de uma funaização (Funaí) da questão do negro.
as entrevistas eram de curta duração e sem qualquer enquadra- Nesse período da pesquisa, descobrimos os relatórios do faleci-
mento clínico. 1111 militante negro de São Paulo, Eduardo de Oliveira e Oliveira, re-
1.IIIvo ao seu projeto de dissertação de mestrado -na área de Antro-
Paralelamente, fizemos entrevistas com vários militantes do
I" Iltl)1 Social da Universidade de São Paulo, de 1974 a 1976. Os ele-
movimento negro de São Paulo, mas com um roteiro diferente de te-
1111 ntos subjetivos da ideologia racial já se encontravam presentes
mas e perguntas. A hipótese era a de que a ideologia do branquea- 1111 obr inacabada desse grande militante, ao qual prestamos a nos-
I homenaçem no artigo intitulado A flama surda de um olhar.

r... análises das entrevistas dos sujeitos não-pertencentesao


2. Bento, MAS. (1992). Resgatando a minha bisavó: discriminação racial e resistência nas
vozes de trabalhadores negros. São Paulo, Dissertação de Mestrado na Puc·SP.
III Ivlm nto negro, por sua vez, mostraram que eles percebiam ter-

18 19
ritórios sociais de brancos e negros como lugares bem demarca- sendo afetada pelas tensões entre brancos e negros. O pesquisa-
dos, sobretudo pela experiência derivada de episódios discrimina- dor negro não estaria, nesse sentido, em melhores condições que
tóríos, não importando o sexo, nível econômico e grau de escolari- um pesquisador branco (ou de fenótipo branco) para entrevistar
dade. Mesmo aqueles com escolaridade superior e posições ocu- ujeitos negros? Será que brancos deveriam entrevistar brancos e
pacionais mais elevadas admitiram ter sofrido pressões para bai- noqros entrevistar negros, de acordo com uma espécie de parida-
xo' passando a temer a rejeição do branco e a não confiar nos dis- ele racial nas entrevistas?
positivos legais e na eficácia do movimento negro no combate à
discriminação. Houve até um entrevistado que chegou a respon- A antropóloga norte-americana Angela Gilliam, num seminá-
sabilizar o negro pelos episódios de discriminação. Além da per- 110para a equipe e com base na sua experiência científica, já havia
cepção de limites territoriais de um apartheid não-declarado ofici- 11 rtado para a necessidade de se atender à paridade racial sobre-
almente, os sujeitos mostraram dificuldades e ambigüidades na tudo por pertencermos a um país racíalízado, atravessado por ten-
definição de sua identidade étnica, quer pela "vergonha" de sua I s nem sempre explícitas e declaradas entre brancos e negros.

própria aparência, quer pela preferência por relacionamentos afe- fi paridade surgiu, portanto, como uma nova exigência a ser ob-
tivos com brancos. I ( rvada nas entrevistas para propiciar o discurso livre do entrevis-
I I 10,a despeito desse discurso livre ser entendido como modula-
Essas entrevistas padeciam de várias deficiências, no ponto I/ / ntrecortado pela angústia e ansiedade psicológicas.
de vista psicolóqíco, que tentamos superar por meio de uma alte-
ração na postura do entrevístador, limitando ao máximo a sua in- Solicitamos nesse passo à psicóloga clínica Lia Maria Perez
tervenção no discurso do entrevistado. De acordo com uma pro- I1 lL lho Baraúna que fizesse uma análise comparativa entre uma
posta de Arakcy Martins Rodrigues, do Instituto de Psicologia da I IILr vista formal de 1992 e uma entrevista de discurso livre "pari-
Universidade de São Paulo, a primeira parte das entrevistas deve- I 11/ " de 1994. Os resultados dessa análise comparativa foram
ria permitir um discurso livre do sujeito, de modo que a seqüência, 1III11LO expressivos e encontram-se consubstanciados no artigo de
a forma de organizar os assuntos, os esquecimentos e as otmssôes, /111 I utoria intitulado A flor da pele.

os temas interrompidos, as passagens incompreensíveis pudes- Além da paridade e da alteração da postura do entrevistador
sem aparecer com mais freqüência e propiciar elementos para I1 IJ Ir. de conceitos branqueamento/branquitude passou a víqorar
uma análise psicológica mais profunda. Na segunda parte, o en- II I Ii J ção dos sujeitos das entrevistas, com a finalidade de aban-
trevistador deveria voltar com insistência, por meio de perguntas, I Ir innr a visão reducionista do branqueamento. A pesquisadora e
aos temas incompletos e abandonados. l/I li I to a em Psicologia, Edith Píza, começou então a realizar uma

As primeiras entrevistas sem o enquadre formal de perguntas /1 I1 e entrevistas sobre a questão racial com mulheres brancas
e respostas ocorreram nos finais de 1994 com a contribuição sig- I1I1 !'I I de de Itapetininga. Possuidora de grande experiência nos
nificativa da psicanalista negra e doutora em Psicologia, Isildi- I I 1,11 los de relações raciais no Brasil, sob a orientação de Fúlvia
nha Baptista Nogueira. Foram utilizadas as técnicas de pontua- Illltll mbero. Edith havia tematizado na sua tese3 o olhar branco so-
ção e apoio de entrevistas clínicas, embora dentro de um contex- 111 ( noçro, através da análise de estereótipos de mulher negra
to não-clínico, como recursos mínimos de intervenção do entre-
vista dor de modo a propiciar a emergência de ansiedade e angús-
tia associadas aos conteúdos inconscientes do sujeito na relação
II 111 =
illllclos na literatura juvenil escrita por mulheres brancas. Maria
_daSilva Bento já tinha oferecido, também, uma grande
,111111uiçao nesses estudos dos elementos projetívos da percep-
assim estabelecida. III I1 I ranco sobre o negro, referidos anteriormente.

A busca de maior densidade psicológica nas entrevistas inspi-


radas na clínica não poderia, ao nosso ver, desconsiderar a possi-
bilidade de a relação entre o entrevista dor e o entrevistado estar I1 I, I': (1 98). Os caminhos das águas: personagens femininas negras escritas por mu-
IIIIIIIC S. São Paulo, Edusp/Fapesp.

20 21
Outros estudos foram realizados no interior de instituições, Questões antigas retomaram nessa investigação, sendo uma
por exemplo num hospital/dia municipal de atendimento psico- delas o próprio conceito de raça. Por mais que a ciência venha a
lógico a crianças com distúrbios de comportamento. A psicóloga lemonstrar que "raça" é uma construção social e ideológica quan-
clínica Rosa Maria Rodrigues dos Santos realizou aí um estágio 10 se trata da espécie humana, ainda assim não será fácil desmisti-
no qual deu assistência com fins terapêuticos a uma menina ne- ficá-Ia no plano do cotidiano social. Intelectuais negros norte-ame-
gra que se considerava loira, mas que no contato interpessoal al- rlcanos costumam dizer, em tom de pilhéria, que as suas pesquí-
terou a sua auto-imagem para morena clara. O resultado dessa s têm demonstrado a falsidade ideológica do conceito de raça,
relação terapêutica se encontra no artigo de sua autoria intítula- mas isso não os ajuda a conseguir tomar um táxi no meio da noi-
do De café e de leite ... t .. No Brasil não são poucas as vezes que motoristas de táxi e
nibus interurbanos deixam de atender aos acenos de negros, tar-
Fizemos também um estudo analitico de representações so- c1p da noite ou não. Parece que no fragor da batalha do trânsito das
bre a questão racial na imprensa, a partir de uma coleta de notícias 'Idades, o racismo, com mais freqüência, mostra a cara.
e comentários publicados nos grandes jornais de São Paulo e em
algumas revistas nacionais. Essa análise se encontra no artigo Fa- Assim, se um negro estacionar o seu carro num lugar proibido,
íscas elétricas na imprensa brasileira: a questão racial em foco. Ti- Ilguém poderá exclamar com fúria: "só negros fariam isso!"; no
vemos, nesse caso, a intenção de detectar alguns sintomas ou in- ( ntanto, se um branco cometer a mesma irregularidade, ninguém
dicadores do grau de elaboração da questão racial na nossa socie- II lembrará de culpar a coletividade dos brancos.

dade através do espelho da grande imprensa. Por quê?


Em 1997, ao compor o último relatório de pesquisa, pudemos No artigo Porta de vidro: entrada para a branquitude, Edith
perceber que até 1994 havíamos realizado apenas a primeira nave- I' Z analisou a diferença de percepção social de negros e brancos
gação4, feita com a propulsão das velas ao vento, ao sabor da litera- lI( sa ocorrência vulgar de trânsito: um branco é apenas e tão-so-
tura corrente escrita por brancos a respeito dos negros no Brasil. No I' I nte o representante de si mesmo, um indivíduo no sentido ple-
entanto, a segunda navegação, o remar duro sem a força dos ven- 110 da palavra. Cor e raça não fazem parte dessa individualidade.
tos, começou quando a crítica dessa literatura nos privou dos seus 111n negro, ao contrário, representa uma coletividade racializada
elementos conceituais, dos seus métodos e técnicas enos obrigou a t 111 bloco - cor e raça são ele mesmo.
dar uma verdadeira guinada na busca do conhecimento. Foi aí que
começamos a descobrir os segredos dabranquitude. Retratos dessa O racismo, a despeito de todas as leis antidiscriminatórias e
jornada branquitude adentro permitiram esboçar os privilégios nun- I1I norma politicamente correta da indesejabilidade do preconcei-
ca ditos, os medos paranóicos, as pulsões negadas e projetadas 1I I convivência social, apenas sofreu transformações formais de
I I ressão. Não é posto nem é dito, mas pressuposto nas represen-
para fora, os racismos inconfessos dos sujeitos brancos.
I içõos que exaltam a individualidade e a neutralidade racial do
As pesquisas e os artigos de Maria Aparecida da Silva Bento e 111 II1CO - a branquitude - reduzindo o negro a uma coletividade
Edith Piza abriram novas cartas de navegação para os estudos da I 1(;1 lizada pela intensificação artificial da visibilidade da cor e
branquitude no Brasil - um continente a ser explorado e conheci- I1I outros traços fenotípicos aliados a estereótipos sociais e mo-
do por aqueles que reconhecem a importância política de se focali- I IIIL As conseqüências são inevitáveis: a neutralidade de
zar cientificamente o preconceito e a discriminação raciais nas re- I '1111t ça protege o indivíduo branco do preconceito e da díscrímí-
lações sociais. I1 I~l .0 raciais na mesma medida em que a visibilidade aumentada
11111\ gro o torna um alvo preferencial de descargas de frustrações
11111 estas pela vida social.
4. As expressões "primeira navegação" e "segunda navegação" pertenciam à linguagem
dos antigos marinheiros gregos, que foram utilizadas por Platão para se referir às passagens
da dialética - do esforço mínimo ao esforço máximo na busca do conceito.

22 23
2. BRANQUEAMENTO E
BRANQUITUDE NO BRASIL

Maria Aparecida Silva Bento


Este texto procura abordar as dimensões do que podemos no-
111 nr como branquitude, ou seja, traços da identidade racial do
III mco brasileiro a partir das idéias sobre branqueamento, um dos
II m S mais recorrentes quando se estuda as relações raciais no
111 I íl. Ao longo do texto serão focalizados alguns aspectos refe-
11 IIL s ao entrelaçamento dessa dimensão subjetiva das relações
I 11'1 ts. com outras mais concretas e objetivas, uma vez que am-
1I \I reforçam mutuamente para funcionar como potencializado-
11\11 1 reprodução do racismo.

Aspectos importantes da branquitude, como o medo que ali-


1111 11L a projeção do branco sobre o negro, os pactos narcísicos
111,1 ( S brancos e as conexões possíveis entre ascensão negra e
Ili 111 lU eamento serão abordados.
No Brasil, o branqueamento é freqüentemente considerado
I 111110 um problema do negro que, descontente e desconfortável
1 I 11II/lUa condição de negro, procura identificar-se como branco,
IIllr I'i .onar-se com ele para diluir suas características raciais.
N descrição desse processo o branco pouco aparece, exceto
, '(1111) modelo universal de humanidade, alvo da inveja e do desejo
d, Ir tros grupos raciais não-brancos e, portanto, encarados
(11)

, 111/) IJ o tão humanos. Na verdade, quando se estuda o branque-


11111 111.(l constata-se que foi um processo inventado e mantido pela
1111 tunnca brasileira, embora apontado por essa mesma elite
111111111111 problema do negro brasileiro. Considerando (ou quiçá
111 I I11 I lido) seu grupo como padrão de referência de toda uma es-
'111, I ( llte fez uma apropriação simbólica crucial que vem forta-
1 1 1 111 li 1 uto-estima e o autoconceito do grupo branco em detri-
I 1IIIItlD demais, e essa apropriação acaba legitimando sua su-
II 1I1 li 'I I conômica, política e social. O outro lado dessa moeda é

25
t lnístrando cursos dirigidos ao movimento sindical. tornou -se
o investimento na construção de um imaginário ext~emam~nte n ís aguda a percepção de que muitos brancos progressistas que
negativo sobre o negro, que solapa sua ide.?tidade racial, danifica C! mbatem a opressão e as desigualdades silenciam e mantêm seu
sua auto-estima, culpa-o pela discriminaçao que sofre e, por fím, JIupo protegido das avaliações e análises. Eles reconhecem as de-
justifica as desigualdades raciais. II ualdades raciais, só que não associam essas desigualdades ra-
Em meu trabalho nos últimos catorze anos, o primeiro e mais t'l 1sà discriminação e isto é um dos primeiros sintomas da bran-
importante aspecto que chama a atenção.nos. de~ate~, nas pes~ uuítude. Há desigualdades raciais? Há! Há uma carência negra?
quisas, na implementação de proqramas lI:'StltuclO~alS d~ com 11 I Isso tem alguma coisa a ver com o branco? Não! É porque o
bate às desigualdades é o silêncio, a ornissao ou a dístorçao que 11 Oro foi escravo, ou seja, é legado inerte de um passado no qual
há em torno do lugar que o branco ocupou e_ocupa, de fato, nas li brancos parecem ter estado ausentes.

relações raciais brasileiras. A falta de reflexao sobr~ o papel


branco nas desigualdades raciais é uma forma de reIter~r persis-
= Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes dímen-
I) do privilégio. Mesmo em situação de pobreza, o branco tem o
tentemente que as desigualdades raciais no Brasil constltuerr: um IlIlvllégio simbólico da brancura, o que não é pouca coisa. Assim,
problema exclusivamente do negro, pois só ele é estudado, disse- 1I 11 nr diluir o debate sobre raça ana lisando apenas a classe social é
cado, problematizado. 1111\1 saída de emergência permanentemente utilizada, embora to-
I 111/ OS mapas que comparem a situação de trabalhadores negros e
Nas pesquisas que viemos re~zand?
(Estudos sobre branquitude, USP , Projeto =r=:
com branco.s desd~ 199~
19uBlS
para todos em Belo Horizonte2, Eqüidade de genero e r~ça no tra-
111,111008, nos últimos vínte anos, explicitem que entre os explora-
11111, ntre 08 pobres, os negros encontram um déficit muito maior
balho para mulheres e negros - Uma experiência na reglao do ABe 1111 todas as dimensões da vida, na saúde, na educação, no traba-
paulista3) e nas questões que surgem. n?s debates com dlferente~ 11111 I\. pobreza tem cor, qualquer brasileiro mirlimamente irlformado
grupos (movimentos sindicais, ísmirústas. e~p.regado~es, fu~ 1IIII xposto a essa afirmação, mas não é conveniente considerá-Ia.
cionários do poder público envolvidos com polltlC~s de mclusao 1111 o jargão repetitivo é que o problema limita-se à classe so-
no trabalho) o que se observa é que, morment~ as oíterentcs con- , I ti om certeza este dado é importante, mas não é só isso.
cepções e práticas políticas desses grupos, há algo ~emelhante a N verdade, o legado da escravidão para o branco é um assun-
um acordo no que diz respeito ao modo como exoucam a~ ~es?- 11111\1 o país não quer discutir, pois os brancos saíram da escraví-
gualdades raciais: o foco da discussão é o negro e ha um sílêncío 11111 o m uma herança simbólica e concreta extremamente posítí-
sobre o branco. VII, nuto da apropriação do trabalho de quatro séculos de outro
Assim, o que parece interferir neste process~ é uma espécie Jlllfl! .Há benefícios concretos e simbólicos em se evitar caracte-
de pacto, um acordo tácito entre os brancos de nao s: re.conhece- 11 ,li o lugar ocupado pelo branco na história do Brasil. Este sílên-
rem como parte absolutamente essencial na pe:manencla das de- , 1'1 I 'gueira permitem não prestar contas, não compensar, não
sigualdades raciais no Brasil. E, à medida que nos, no Ceert, fomos 111111 IIlx r os negros: no fínal das contas, são interesses económí-
" I II1)ogo. Por essa razão, políticas compensatórias ou de ação
11111\ uíva são taxadas de protecionistas, cuja meta é premiar a ín-
'111111 l ncia negra etc., etc. Como nos mostra Denise Jodelet
1. Pesquisa A força psicológica do legado social do branqueamento, Coordenadora: Profa.
Dra. Iraí Carone, Instituto de Psicologia da USP, 1993-1996, apoio CNPq. 1I11j), políticas públicas direcionadas àqueles que foram excluí-
III IIi 110SS0S mercados materiais ou simbólicos não são direitos,
~~~;~~~~d~p;:n6~:~ef~~~::~ ~:r~:~~~~~~0:SV~~;~ç~oe~ ~:~::~~f! ~e~:!~g~~l~~:~~: 111 /11111 favores das elites dominantes.
1995.
111)1 utro lado, há benefícios simbólicos, pois qualquer grupo
3. Projeto Gestão local, empregabilidade e eqüidade ddegê~ero e ra~~~:r:~~P;~~~~~~c~:
política públíca na região do ABCpaulista, apresenta o a apesp I I 11 I I referenciais positivos sobre si próprio para manter a sua
Públicas, São Paulo, 1998.

27
26
auto-estima, o seu autoconceito, valorizando suas características e, I lho. A grande incoerência é que, poucas semanas antes desse
dessa forma, fortalecendo o grupo. Então, é importante, tanto sim- II mínárío. havia sido divulgado na grande imprensa do país o
bólica como concretamente, para os brancos, silenciar em torno do M pa da população negra no mercado de trabalhd, no qual a mu-
papel que ocuparam e ocupam na situação de desigualdades raciais 111r negra foi apontada como o segmento mais discriminado do
no Brasil. Este silêncio protege os interesses que estão em jogo. 111 rcado de trabalho brasileiro, nas sete capitais pesquisadas. No
I ntanto, as lideranças femininas conseguiram passar dois dias fa-
Discriminação racial e defesa de interesses I 111 o sobre a discriminação da mulher no trabalho, sem sequer to-
I' 1 na discriminação da mulher negra. Eu resolvi, então, apontar
No campo da teoria da discriminação como interesse, a noção I /1/, questão usando um termo com o qual ando brincando muito:
de privilégio é essencial. A discriminação racial teria como motor ,I Indignação narcísica. Há um sentimento de indignação com a vio-
a manutenção e a conquista de privilégios de um grupo sobre ou- 1,1"10 dos direitos das trabalhadoras, mas só quando essa violação
I I I
tro' independentemente do fato de ser intencional ou apoiada em li, ta o grupo de pertença.

preconceito.
Denise Jodelet (1989) coloca essa questão que, segundo ela,
Em minha dissertação de mestrado, discuto essa questão que VIII1 parecendo em muitas pesquisas da atualidade: o que é que
sempre me inquietou, que é o fato de que a discriminação racial I I:, com que pessoas que cultuam valores democráticos e igualitá-
pode ter origem em outros processos sociais e psicológicos que 1111/1 ceitem a injustiça que incide sobre aqueles que não são seus
extrapolam o preconceito. O desejo de manter o próprio privilégio 1' 1I1 ou não são como eles?
branco (teoria da discriminação com base no interesse), combina- !I. explicação desses vieses, segundo ela, diz respeito à neces-
do ou não com um sentimento de rejeição aos negros, pode gerar 1111 10do pertencimento social: a forte ligação emocional com o
discriminação. É esta perspectiva de análise que levou Antonovs-
" I" O ao qual pertencemos leva -nos a investir nele nossa própria
kí" a advogar a distinção entre discriminação provocada por pre- li 11 ntldade. A imagem que temos de nós próprios encontra-se vin-
conceito e discriminação provocada por interesse. I 1IIIrl à imagem que temos do nosso grupo, o que nos induz a de-

Esse tipo de discriminação racial é bastante explicitado nos I, IIlI rmos os seus valores. Assim, protegemos o "nosso grupo" e
debates que tenho feito ao longo dos últimos doze anos com gru- I 11IImosaqueles que não pertencem a ele.
pos de feministas e de lideranças do movimento sindical, indigna- I ssa forma, exclusão passa a ser entendida como descom-
das com a opressão sobre as mulheres. É constrangedor o silêncio 111I O político com o sofrimento de outro. Nesse caso, é impor-
111 [
dessas mulheres sobre a situação da mulher negra. Recentemen- I 11111 focalízar uma dimensão importante da exclusão: a moral,
te, eu vivi uma experiência em um semínárío' que aconteceu em
'1"1 t erre quando indivíduos ou grupos são vistos e colocados
São Paulo, no segundo semestre de 2000, em que mulheres de to- , II I 110limite em que estão vigindo regras e valores morais'. Os
das as centrais sindicais, assessoras do poder público, pesquisa- I I' IIL da exclusão moral compartilham de características fun-
doras de reconhecidos institutos de pesquisa, consultoras empre- 111111 ItL ís, como a ausência de compromisso moral e o distancia-
sariais, debatiam as diferentes dimensões da discriminação da 111 111 o sicológico em relação aos excluídos.
mulher no trabalho. Na verdade, foram dois dias inteiros de deba-
tes sem qualquer menção sobre a situação da mulher negra no tra- () prímeíro passo da exclusão moral é a desvalorização do ou-
I I 11111 pessoa e, no limite, como ser humano. Os excluídos mo-

4. Apud Feagin & Feagin, 1986, p. 8


~III "i 1111 população negra no mercado de trabalho. São Paulo, 1999. Encomendado pelo
5. Seminário internacional sobre a questão de gênero no mundo do trabalho: experiências e 1111111 I"L(ramericano sindical pela igualdade racial (Inspír) à Dieese, Fundação Seade.
propostas, 11 e 12 de maio de 2000, Parlatino - São Paulo. 'I"IIIIW (1990), apudBento, 1992.

28 29
ralmente são considerados sem valor, indignos e, portanto, passí-
universal de humanidade, e sentir-se ameaçado pelos que es-
veis de serem prejudicados ou explorados. A exclusão moral pode
llo fora deste padrão foi estudado, a partir de outro ângulo, por
assumir formas severas, como o genocídio; ou mais brandas, como
/I:c!wardW. Said "...temos um Roma sinicus, um homo arábicus (e
a discriminação. Em certa medida, qualquer um de nós tem limi-
/ler que não?, um homo eeçypticus, etc.), um Roma afIicanus, e o
tes morais, podendo excluir moralmente os demais em alguma es-
11 mem, o homem normal, bem entendido, fica sendo o homem
fera de nossas vidas. Em geral, expressamos sentimentos de obri-
I uropeu do período histórico, isto é, desde a antiguidade grega"
gações morais na família, com amigos, mas nem sempre com es- (d íd, 1990, p.107).
tranhos e, menos ainda, com inimigos e membros de grupos nega-
tivamente estereotipados. Pelos processos psicossociais de exclu- Em sua obra, Orientalismo: Oriente como invenção do Ociden-
são moral, os que estão fora do nosso universo moral são julgados t, (1990), Said estuda a europeização analisando o olhar do euro-
com mais dureza e suas falhas justificam o utílítarísmo. a explora- 11 sobre os não-europeus. Ele desenvolve seu estudo revelando
11
ção, o descaso, a desumanidade com que são tratados. In
neíra pela qual, do século XVIII ao século XX, a hegemonia
1/1/1 minorias possuidoras e o antropocentrismo são acompanha-
Assim, o que se observa é uma relação dialógica: por um lado,
111)/1 pelo Eurocentrismo na área das ciências sociais e humanas,
a estigmatização de um grupo como perdedor, e a omissão diante
11. uelas áreas mais diretamente relacionadas com os povos
da violência que o atinge; por outro lado, um silêncio suspeito em
torno do grupo que pratica a violência racial e dela se beneficia, uropeus. Assim, o homem europeu ganhou, em força e iden-
concreta ou simbolicamente. É flagrante observar que alguns es- , uma espécie de identidade substituta, clandestina, subter-
I li, ,colocando-se como o "homem universal" em comparação
tudos das primeiras décadas do século XX focalizaram o branco, l'lrlll os não-europeus.
não para compreender seu papel nas relações entre negros e bran-
cos, mas para garantir sua isenção no processo de escravização da olhar do europeu transformou os não-europeus em um di-
parcela negra da população brasileira. Hasenbalg (1979) chama a fi 11 nte e muitas vezes ameaçador Outro. Este Outro, construí-
atenção para o fato de que, dessa maneira, esses estudos ~eraram IIrI IJ 10 europeu, tem muito mais a ver com o europeu do que
um modelo de isenção da sociedade branca e, por consegumte, de I IIIl/lIgo próprio.
culpabilização da população negra, que tem variado muito pouco,
I' ses dois processos - ter a si próprio como modelo e projetar
independentemente das linhas teóricas de pesquisa.
11 ti" I O outro as mazelas que não se é capaz de assumir, pois ma-
O silêncio, a omissão, a distorção do lugar do branco na situa- I uhun O modelo - são processos que, sob certos aspectos, podem
ção das desigualdades raciais no Brasil têm um forte componente I' ti Ias como absolutamente normais no desenvolvimento das
narcísico, de autopreservação, porque vem acompanhado de um 111 o S. O primeiro está associado ao narcisismo e, o segundo, à
pesado investimento na colocação desse grupo como grupo de re- 1I'IIIrfi o. No entanto, no contexto das relações raciais eles reve-
ferência da condição humana. Quando precisam mostrar uma fa- 111 rI I1 m faceta mais complexa porque visam justificar, legitimar a
mília, um jovem ou uma criança, todos os meios de comunicação I It I 1 ti superioridade de um grupo sobre o outro e, conseqüente-
social brasileiros usam quase que exclusivamente o modelo bran- 11I 11/, as desigualdades, a apropriação indébita de bens concre-
t

co. Freud identifica a expressão do amor a si mesmo, ou seja, o I I I imbólícos, e a manutenção de privilégios. Ambos os proces-
narcisismo, como elemento que trabalha para a preservação do ín- I' O tratados mais adiante.
díviduo e que gera aversões ao que é estranho, diferente. E como
Nl "ta altura, destacamos um outro elemento importante que
se o diferente, o estranho, pusesse em questão o "normal", o "uni-
, Illil rênese desses processos, e que é ressaltado por vários estu-
versal" exigindo que se modifique, quando autopreservar-se re-
1/1 "H 111 elas relações raciais no Brasil: omedo. Esta forma de constru-
mete exatamente à imutabilidade. Assim, a aversão e a antipatia
IIrIIr utro a partir de si mesmo, é uma forma de paranóia que traz
surgem. Esse processo de considerar o seu grupo como padrão
'li 111 1 nese o medo. O medo do diferente e, em alguma medida,

30
31
o medo do semelhante a si próprio nas profundezas do inconscien-
(I(sde os povos tidos como primitivos até as sociedades contem-
te. Desse medo que está na essência do preconceito e da represen-
tação que fazemos do outro é que nos fala também Célia Marinho
de Azevedo em sua obra Onda negra, medo branco (1987).
1)1r =
I)l)! áneas. A partir desse estudo podemos iluminar o grande medo
pelo negro, ~a elite branca brasileira, que não por coíncí-
I11nela tinha ascendência européia, e que não por coincidência na
O estudo de Azevedo evidencia como o ideal do branquea- peca era protagonista de uma intensa importação das teorias ra-
mento nasce do medo, constituindo-se na forma encontrada pela I'I IJSda Europa.
elite branca brasileira do final do século passado para resolver o
Delumeau se pergunta se certas civilizações foram ou são mais
problema de um país ameaçador, majoritariamente não-branco.
1IJl) rosas qu~ outras, em particular a civilização européia. A ou-
Esse medo do negro que compunha o contingente populacío- I I, pergunta e se. os eurooeus, atormentados pelas epidemias, a
I I nal majoritário no país gerou uma política de imigração européia nmplo das cívílízaçôss antigas, não repetiram várias vezes, en-
por parte do Estado brasileiro, cuja conseqüência foi trazer para o I f) séculos XN e XVIII, a sangrenta liturgia de tentar apaziguar
Brasil 3,99 milhões de imigrantes europeus, em trinta anos, um IIIvll1dades encolenzadas por meio de sacrifícios humanos.
número equivalente ao de africanos (4 milhões) que haviam sido
A.s epidemias que devastaram a Europa nos séculos XVI e
trazidos ao longo de três séculos.
VII, em particular na Itália, na França e na Inglaterra, vitimaram
Azevedo investiga essa dimensão histórica do medo de "...toda 11.1 cios europeus, gerando um grande medo e, como conseqüên-
uma série de brancos esfolados ou bem-nascidos e bem-pensan- I I I, busca pelos culpados, que estavam em primeiro plano na vi-
tes que, durante todo o século XIX, realmente temeram acabar 11111tnça, nas aldeias prÓximas ou entre clãs rivais, no interior de
sendo tragados pelos negros mal-nascidos e mal-pensantes ..." 111111 mesma localidade.
(1987, p. 18).
Os culpados potenciais, sobre os quaís voltou-se a agressividade
tlva, foram os considerados "estrangeiros", os Viajantes os mar-
I I lI!

1IIIIIIne todos aqueles que não estavam bem integrados a 'uma co-
Do medo do outro
1I1I1111c!
de e, por esse motivo, eram, em alguma medida, suspeitos.
"Quando a civilização européia entrou em contato com o negro, ... ) len:or do povo aparecia tanto na cidade como no campo, no
todo o mundo concordou: esses negros eram o princípio do mal... 110mais concreto dos mendigos. Observa-se que ao longo dos
1111
negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da ter-
,,' ::"1 s, os ,~ue mais gerar,:m tem~r foram os "ho~ens supérflu-
ra, as profundezas abissais ... " (Fanon, 1980, p. 154)
,I sas vrtímas da evoluçao economica excluídas pela ação me-

Fanon (1980) discorre sobre o medo do europeu frente ao


Iltlllo I = ~gl~tinadores de terras; trabalhadores rurais no limite
ti 1 , ()1)reVlVe?~Iaem ra~~o do crescimento demográfico e das fre-
africano, e destaca que esse medo era o medo da sexualidade. IjI"IIILs penunas; operanos urbanos atirIgidos pelas recessões pe-
Como a igreja européia condenava pesadamente a sexualidade, '~"II/('ns e pelo des~mpr~go. Todos esses verdadeiros mendigos
esta dimensão sexual era negada pelo europeu e projetada so- 11111111 Iovam, em maior numero em épocas de crise, uma das quais
bre o negro e as mulheres, provocando inúmeros genocídios ao I IIH /Ili às vesperas da Revolução Francesa.
longo dos séculos.
Il( lumeau chama a atenção para o fato de que é uma atitude
Jean Delumeau (1989) fez um brilhante estudo sobre a história 1111 Icll1,da.parte de um grupo dominante, encurralar uma catego-
do medo no ocidente, focalizando particularmente a Europa. Ele I II1I dominados no desconforto material e psíquico. Essa recusa
destaca que o historiador não precisa procurar muito para identifi- I I 11"IOC e da ,:'relação ': não pode deixar de gerar medo e ódio. Os
car a existência do medo no comportamento dos grupos, em parti- I I ibundos do Antíqo Regime, os rejeitados dos quadros so-
cular o medo das elites diante dos considerados despossuídos, 11 ,I 11gendraram em 1789 o Grande medo dos proprietários, até

32
33
\
mesmo os modestos e, conseqüentemente, a ruína dos privilégios As explosões periódicas de medo acompanham a história eu-
jurídicos sobre os quais estava fundada a monarquia. A política do opéía do final do século XIII ao começo da era industrial.
apartheid criou no sul da África verdadeiros paióis cuja explosão Em nosso tempo, o fascismo e o nazismo beneficiaram-se dos
gerou batalhas sangrentas. ilarmes dos possuidores de rendas e dos pequenos burgueses que
As inibições, repressões e fracassos vividos por um grupo ge- L miam as perturbações sociais, a ruína da moeda e o comunismo.
ram nele cargas de rancor que podem explodir, da mesma maneira As tensões raciais na África do Sul e nos Estados Unidos são mani-
que, em nível individual, o medo ou a angústia liberam e mobili- I stações dos medos que atravessam e dilaceram nosso mundo.
zam no organismo forças incomuns. Urna coletividade, em geral incitada pela sua elite, posiciona -se
corno vítima e justifica antecipadamente os atos de injustiça que
Pode-se considerar urna pedagogia de choque a ação da Igre-
II o deixará de executar. Imputando aos acusados toda espécie de
ja na Europa, que fomentou essa violência entre os grupos ao ?U~- I/ Imes e de vícios, ela se purifica de suas próprias intenções turvas
car substituir, por meio de medos teológícos, a pesada anqustía
lt nsfere para outrem o que não quer reconhecer em si própria.
coletiva resultante de estresses acumulados. A Igreja tentou com-
NIIIil tempo em que a Igreja reprimia pesadamente a sexualidade,
partilhar com as populações seus temores, intrometendo-se na
11111 particular a da mulher encarada como mensageira de Satã, a li-
vida cotidiana da civilização ocidental (na época clássica, ela inva-
Illr 10transformou -se em agressividade. Seres sexualmente frustra-
dirá tanto os testamentos de modestos artesãos quanto a alta lite- 11,)/ colocaram diante de si bodes expiatórios que podiam desprezar
ratura, inesgotável no terna da graça). Não só a Igreja, mas t,am- I \ 'usar em seu lugar. A estreita solidariedade dos comportamen-
bém o Estado (estreitamente ligado a ela) reagiram, num peno do
II de perigo, contra urna civilização rural e pagã, qualificada de satâ-
IlIt olltístas da classe dominante é visível, urna vez que esses bo-
111 I xpiatórios eram freqüentemente os pobres, chamados "vaga-
nica. As mulheres eram satanizadas, e a caça às bruxas é um 1IIIIIetoS agressivos, desprovidos de terra e de salário".
exemplo acabado desse processo; os negros, os judeus, os mendi-
1\ íntensífícação desse processo, na atualidade, é um dos des-
gos, todos eram mensageiros de Satã e podiam ser violentados,
I \1/1 I S que Mariangela Belfiore Wanderley (1999) aponta, à medi-
queimados, etc.
,11 une personagens considerados incômodos politicamente, os
Há urna coincidência cronológíca entre a grande caça às feiti- IIt I (J misados de Collor"-, e podemos acrescentar aqui os "sem",
ceiras que ensangüentou o Velho Mundo, a batalha contra a peste I 111 I, rra, sem-teto e tantos outros passam a ser representados
e a luta sem trégua conduzida além do Atlântico contra negros e I 111111 eres perigosos, verdadeiras ameaças sociais pois além de
índios considerados corno pagãos. De um lado e de outro, perse- 11111111 /I são bandidos potenciais e, além disso, desnecessários eco-
guia-se o mesmo inimigo - Satã - e usando a mesma linguagem e ""t 11 I :nmente, pois são despreparados e dificilmente conseguirão
as mesmas condenações. Legislações perseguindo mendigos fo- d'll I I mprego.
ram repetidas e agravadas em toda a Europa, traduzindo o dura-
II douro sentimento de insegurança que oprimiu durante séculos os
/Ir lm. o medo e a projeção podem estar na gênese de proces-
li, ( Ligmatização de grupos que visam legitimar a perpetuação
habitantes estáveis das cidades e dos campos II1 IJI ualdades, a elaboração de políticas institucionais de ex-
I' 111 , f) té de genocídio. Adorno e Horkheimer (1985) destacam
Um exemplo é o estatuto de 1553, determinando que mendi-
gos seriam perseguidos, transferidos aos tribunais do juiz de paz, I I 11/ mais poderosos impérios sempre consideraram o vizinho
II II \ 'Ocomo uma ameaça insuportável. antes de cair sobre eles.
fustigados até sangrar, depois reenviados aos lugares de seu nas-
',11" 1111 que o desejo obstinado de matar engendra a vítima; dessa
cimento. O ato de 1547, ainda mais duro, estipulava que qualquer
III I I I I e torna o perseguidor que força a legítima defesa.
homem que ficasse três dias sem trabalhar seria marcado com fer-
ro em brasa, depois entregue corno servo por dois anos, seja ao de- 11:, I ( medo assola o Brasil no período próximo à Abolição da
nunciante, seja à sua com una de origem. I IV uur . Urna enorme massa de negros libertos invade as ruas

34 35
do país, e tanto eles como a elite sabiam que a condição miserável 1 rm os primeiros a trazer a psí 1 .
dessa massa de negros era fruto da apropriação indébita (para ser- /I culo XIX, Patto (1997 . SICOoçia que se aplicava na Europa no
mos elegantes), da violência física e simbólica durante quase qua- '11Mental, formada o; va~m~strar que a LIga Brasileira de Higie-
tIO séculos, por parte dessa elite, I "Lcrilização dos de~en:rS~qUlatras no RIOd~ Janeiro, defendia a

I 11 negros alcoólatras os t~b~:~ entre os cn:aI~,estavam incluídos


É possível imaginar o pânico e o terror da elite que investe, en-
IlIr,ntores N- .' uIosos, os sIfIlítICOS,OSloucos e os
tão, nas políticas de imigração européia, na exclusão total dessa , ao so os zelosos médico "
I 'I'I'sdos com o co f' s e pSIqmatras estavam preo-
massa do processo de industrialização que nascia e no confina- n mamento dos con
mento psiquiátrico e carcerário dos negros, '11 I tamb' d SI era d os ",crora da norma"
id
II,ro apres~~~~a~P~~:~~:sdas assembléia~ legisla!ivas de todo ~
Maria Clementina Pereira Cunha, em seu livro O espelho do g
IlIopeus, objetivando um P,ro~ostas e ImIgraçao massiva de
mundo - Juquery, a história de um asilo (instituição que, "por co- 11) ao desapareciment admIscIgenaçao que levaria à assimila-
incidência", foi criada em período próximo ao final da Abolição), o o negro,
mostra que as mulheres internas, quase todas negras, eram ci- Azevedo (1987) destaca a te d S 1 . •, .
111" promotor, juiz e deputado: se e YVlORomero, cntIcolIterá-
tadas nos laudos como degeneradas em razão das característi-
cas raciais: "Os estigmas de degeneração física que apresenta A minha tese pois é que ' ,
são os comuns à sua raça: lábios grossos, nariz esborrachado, pertencerá no' porvir ao bra a V1~onana luta pela Vida, entre nós,
seios enormes e pés chatos" (1988, p, 124), Quando eram en- Vitória, atento às agruras don~r mas que este, para essa mesma
contradas viajando sozinhas essas mulheres recebiam o diag- t r-se do que é útil' ima, tem necessIdade de aprovei-
ms a preta com ~: outras d,uas raças lhe podem fornecer, rnáxí-
nóstico de nínfomaníacas.
I via, dep~is de p~est~~~ :~~ru~ado, Pela seleção natural, to-
Jurandir Costa" analisa esse período da psiquiatria no Brasil 11' tomando a preponde' , ~o e que necesSIta, o tipo branco
apontando-a como racista, moralista, xenófoba, desejosa de imo- V lho mundo S· rancia ate mostrar-se puro e belo como no
bilizar um povo tido como degenerado e insubordinado, Essa psi- I1 nte D ' t' era quando já estiver de todo aclimatado no conti-
, OIS atos contribuirão Ia t
quiatria, como nos mostra Patto, se apoiava na antropologia crimi- IIJnlado a extinção do tráfi rgamen e para tal resultado: de
I Illte dos índios e d co afn~ano ~ o desaparecimento cons-
nal de Lambroso, psiquiatra italiano que acreditava que as propor- , e outro a lmlgraçao européia! (p. 90-91),
ções do corpo eram o espelho da alma,
1,1111 Montz Schwarcz t mbé
O biotipo do criminoso nato de Lambroso era o biótipo do ne- I I li/O das raças (1993 sa em enfoca este período em O es-
gro, eram os negros que estavam, sob o rótulo de criminosos, pre- fll l( tính .): egundo ela, nossos CIentistas sociais
sos nas casas de detenções, submetidos à mensuração. Patto cha- I arn um seno problema 1
I1I" /I história d '. , a reso ver, ou seja, como
ma nossa atenção para o fato de que estas são as bases de uma I III I P e um pais ma]ontariamente negro e mestiço
psicologia que se faz presente até hoje, que explica as condiçõe rosperado sob a égide d ' - '
11111 ~( mpo . . a escravIdao negra e, ao
dos que vivem em desvantagem, tidos como perdedores a partir , manter -se proxImo aos mold
11 qllO considerava ' es e~ropeus de cívi-
de distúrbios ou deficiências presentes em seu aparato físico Oll I I IIIxl'lveis, m negros e mestiços nao civilizados e
psíquico, absolutamente naturalízados. Ela lembra, por exemplo,
que os hospitais psiquiátricos no Brasil, desde o começo do sécu IIWIITCZ evidencia que ' ,
10, são lugares de exclusão, de confinamento e, principalmente, do . (I, cníto como um ' por- meio de dIferentes maneI'ras , o
I I

11111 ( m em transiçã; ~açao composta por raças miscige-


extermínio, com uma taxa de mortalidade em torno de 80% a 90%
li 'I Irado d ' ssas raças passanam por um pro-
Os psiquiatras são citados por ela como nossos ancestrais, pois [O
"f 10natur:l ~~~:~ento e seriam depuradas mediante
I '11nJgum dia br ez mlla~rosa), levando a supor que o
8. Apud Patto (1997), I I IIIancos. anco, Ou sela, os negros senam assimila-

36
37
Projetar e assimilar
rio preconceito racial d b
Esta idéia de assimilação, planejada e levada a efeito pela nos- "110S el . o ranco Contra
sa elite branca do final do século XIX, parece associar -se à dimen- I'( se~, a~e~~;ro90U cerca de 500 indiVíd~o~~~ro. Durante quatro

são coletiva daquilo que Freud chamou de o amor canibal, que no tas apresen~'a~ngleses, Italianos. Quase seis ~za. branca: fran-
pressupõe incorporar ou devorar o outro. 11, eSporti am-se desta forma' ne ro _ . . CImos das res-
I/O, terrível~t~~~~~~le.' boxeador, sel~ag~m, ~~~~~fi~o~exo, for-
Pode-se pensar também no ódio narcísico. O ódio narcísico,
1111 o do bioló' no, robusto. Ou seja ter t . ' I o, peca-
em relação aos out-groups, é explicado por Adorno e Horkheimer II1l11 explica qU~lCO,POISo ?egro só é Visto'com~bJa bdOn,e~ro é ter
(1985) pela paranóia, também pautada nas defesas primitivas em dI) "para o afncano nãoh' ser 101og1CO. Fa-
que se expulsa tudo o que possa representar uma ameaça à auto- eXual e apreSentad ' a esse medo do biol' .
preservação egóica. Chamam de "falsa projeção" o mecanismo , /lIme, durante toda a su~ ~~~~ ~atural. O africano co~~~~o~r~
por meio do qual o sujeito procura livrar-se dos impulsos que ele , , .nquanto que o e ,er presente no espín
não admite como seus, depositando-os no outro. Aquilo, portanto, 'IlIlplexo de culpabilid u~opeu conservará inconscient~ o esta no-
/li 11, cOnseguirão t a e, que nem a razão nem a e m~nte ~m
que lhe é familiar passa a ser visto como algo hostil e é projetado
/1 /(. I no tende a con:~~ desapm:ecer comPletamen:e~en?la )a-
para fora de si, ou seja, na "vítima em potencial".
II1,I (I íológica com
J rar sua vída sexual como um . ssnn, o
Representar o outro como arauto do mal serviu de pretexto "11111 I ara o fato d o comer, beber e dormir Ele h ramo de sua
para ações racistas em diferentes partes do mundo. A agressivida- ,1'11 e que as representa _ . c ama a atenção
I /lI S negros estão matizadas de çoes.que os europeus têm
de pôde ser dirigida contra esse inimigo comum (a outra raça), I uropeu foi el b sexualIdade: " .
sentida como ameaça, ainda que na maioria dos lugares ela não ti- 1111, ! IJt ~o adormec~d~::~o um 9rescendo excessiv~~:t~~~ns-
vesse nenhum poder. Os sujeitos perdem a capacidade de díscer- I'n/l[essáveis" (1980 Pulsoes maIS imorais os d . gro
nir entre o que é deles e o que é alheio, e então tudo vira falsa-pro- , p. 154) ,ese)OS me-
jeção, exterioridade. Sob a pressão do superego, o ego projeta no Ill/lli'anon,onegrore r .
mundo exterior, como intenções más, os impulsos agressivos qu 1II111lll lectual. Eleafir p esenta o perigo biológico O· d
provêm do id e que, por causa de sua força, constituem uma amea- "11 I, Ir / .o negro é senh:~ que nas representações Úgad~ :u, o
ça para ele próprio. Ao projetar os impulsos consegue livrar-se de- 1//"" dIz negro . o espeCIalista da questa- . s~-
. o. quem dIZ
les e, ao mesmo tempo, reagir a eles, como algo que pertence ao 11/11/110 Sartre d'
lSCorre sob
mundo exterior. É um tipo de paranóia que caracteriza freqüente I I 111. Um elemento que ;e a SeXUalidade do negro ele
mente quem está no poder e tem medo de perder seus privilégios,
Assim, projeta seu medo e se transforma em caçador de cabeças. I;~'/I/JtLr ~.r~~~d:~~~~~~~dO
"'i
:;~~~~s
~~~!~~e:: !7:~~~~er
110 caso do Brasil; o t~upaçao bastante visível, particu~
Na representação do negro brasileiro este fenômeno é traru
parente segundo o que se pode observar nos estudos de Octavl 1/1 (/lU compunha o conn mor gerado pela constata ãa
Ianni (1972), Fúlvia Rosemberg (1985), Ana Célia da Silva (1991) " '. ,,' ICl princípio do sécur;;ente populacional braSilei;o m~~
J 'J('IIWarcz (1993) , segundo estudos de A
muitos outros que se ocupam desse tema, no Brasil. Estes estudo
I ' e que poderia "engolir" b zevedo
revelam que, na comunicação visual. o negro aparece estigma LI I IlOssamos conclu' os rancas.
zado, depreciado, desumanizado, adjetivado pejorativamente, li I , 1111 Ihor a branqUitu~~ ~ue uma boa maneira de se com-
gado a figuras demoníacas. I , r' IlIojeção do branco s o Processo de branqueamento é
Franz Fanon (1980), psicanalista negro, num extenso estud , I Ii 1//1 ncío, fiel guardião °dbre o ?e~r~, nascida do medo
os pnvIleglOs r
feito com europeus, enfatiza o processo de projeção na construç 1"' /I V comprometid .
I I "/1'1 li IIlc ção com o p~ó:~:;~ pr~cesso é a própria capaci-
, cnando-se desse m d
I 38
' o o, as

I 39
bases de uma intolerância generalizada contra tudo o que possa 1
:1 :::/
impulsos socialmente condenáveis do sujeito para o objeto. Se
representar a diferença.
pessoa afIrma que alguém quer atacá-Ia e não existe nenhu-
Podemos levantar a hipótese de que, nas relações raciais hie- "1.1prova de que esta af' -,
. Irmaçao e verdadeira temos boas razões
rarquizadas, o que ocorre é o oposto, e de certa forma similar, ao , 1I SuspeItar que é ela . ' _
, . ' ." mesma que tem mtençoes agressivas e
que ocorre no amor narcísico. O amor narcísico está relacionado I iocura JustIfIca-Ias pela projeção. Kaes (1997) b d _
I ( \ partir d a or a essa ques
com a identificação, tanto quanto o ódio narcísico com a desiden- , / o grupo, argumentando que o pressuposto básico luta
tificação. O objeto do nosso amor narcísico é "nosso semelhante", J/1J"uarepousa ~obre a fanrasía coletiva de atacar ou de ser ataca-
depositário do nosso lado bom. A escolha de objeto narcísica se g~ul?oesta convrcto de que existe um mau obieto encarnado
faz a partir do modelo de si mesmo, ou melhor, de seu ego: ama -se I 'I um immtqo E ".
'. .Esss mImIgo pOderá ser abertamente atacado ou
o que SE é, ou o que se foi, ou o que se gostaria de ser, ou mesmo a . Illl/JtJtmr-se em alv d dí '. - '
"11J/ " • o e Iscnmmaçao cotidiana. Os benefícios
pessoa que foi parte de si. Por outro lado, o alvo de nosso ódio nar- I l,'}OS da dlScn.mm~ção são permanentemente negados ou jus-
císico é o outro, o "diferente", depositário do que consideramos • 1I.iuos por expllcaçoes estruturais,
nosso lado ruim.
Adorno et alo (1965) destacaram a projeção presente no etno- I 1sismo e brancura
centrismo, ao desenvolver uma extensa série de estudos que de-
semboca na teoria de A personalidade autoritária. Esta teoria tem o ciclofechado do CI1;Ie
é eternamente idêntico torna-se o sucedâ-
a psicologia profunda como base de estudos da ideologia. Um dos neo da onrpotência E '
. . . como se a promessa, feita pela serpente aos
pontos de partida desse enfoque é o de que características huma- pnmeIros homens de se t '.
, ornarem IguaISa Deus houvesse sido
nas essenciais, como o medo, a rigidez, os ressentimentos, a des- resgatada com o paranóico, que cria o mundo todo segundo sua
confiança, a insegurança são reprimidas e projetadas sobre o Ou- magem (Adorno e Horkheimer, 1985),
tro, o desconhecido, o diferente. Sociedades muito repressoras,
que punem ou censuram a expressão de aspectos humanos fun- I 1i que se P?~e o~servar é que, na problemática racial brasilei-
damentais considerados negativos, favorecem a proliferação de °dé comcIdencIa o fato de que os estudos se refiram ao "pro-
pessoas que podem negar partes de si próprias, projetá-Ias no ou- l'
I / 1111 °
negro brasil' "
erro , sendo, portanto, sempre unilaterais,
tro e dirigir sua agressividade contra o outro.
I()( / bem se neg~ a discriminação racial e se explica as desí-
Segundo Adorno e Horkheimer (1985), de certa forma, perce- 11I (/11~s em funçao de uma inferioridade negra apoiada num
ber é projetar. O fenômeno da projeção é, na verdade, uma heran- 1101 lI! no no qual o " " '
negro aparece como feio maléfico ou ín-
ça de nossa pré-história animal, um mecanismo para se conseguir " '1I1f1('L n te o h '
, use recon ece as desigualdades raciais explicadas
proteção e comida, a ampliação da combatividade com que as es- '1111) uma herança d ' '
. negra o penodo escravocrata. De qualquer
pécies animais superiores reagiam ao movimento, com prazer ou /11", OSestudos silenciam sobre o branco e não abordam a he-
desprazer e independentemente da intenção do objeto. A proje- li' / I ranca da escravidão, nem tampouco a interferência da
ção tomou-se reflexa nos humanos tal como as outras funções de ll1ljlillude como uma guardiã silenciosa de privilégios,
ataque e proteção. No entanto, na sociedade humana, a pessoa 111/m não é à toa q .
necessita controlar a projeção; ela tem que aprender simultanea- ue mesmo os pesqUIsadores mais progres-
I /1 o percebam o seu ".
mente a aprimorá-Ia e a inibi-Ia. I 111'11
" . grupo racial lITIplicados num processo
I I Llvelmente relacíonaí. Não é por acaso a referência apenas a
A doença, de fato, não é o comportamento projetivo em si, /',,1,'1"\~~oOutro, o negro, considerado diferente, específico em
mas a inexistência da reflexão que o caracteriza. A projeção pato- 110 içao ao humano universal, o branco. Esse daltonis~o e
lógica ou falsa projeção é, segundo a psicanálise, a transferência 11"I/ Icara?terizam um estranho funcionamento de nossos cien-
I ( I stUdlOSOSa '. luíd .,
, qUI mc Ul os pSlCologos e psicanalistas, que

40
41
conseguem investigar, problematizar e teorizar sobre questões re- I)()teriormente reconhecer o impacto do racismo sobre a vida dos
ferentes aos indivíduos de nossa sociedade de forma completamen- 111 aros,mas evitando reconhecer o impacto sobre as suas próprias
te alienada da história dessa sociedade, que já tem 400 anos. vktas. Ela destaca o depoimento de uma das mulheres brancas
qll participava do curso sobre relações raciais na Universidade:
Mas sempre há exceções. Edith Píza (1998) é uma das raras es-
tudiosas brancas brasileiras que se dedicou ao estudo dos brancos. Comouma pessoa branca, me dei conta de que pensava sobre ra-
cismo como alguma coisa que coloca outras pessoas em desvan-
Segundo ela, no discurso dos brancos é patente ,uma invisibili- tagem, mas não tinha pensado no aspecto de seus resultados,o
da de distância e um silenciamento sobre a exístencia do .outro privilégiodos brancos, o que colocavaem vantagem...Euviao ra-
"...não vê, não sabe, não conhece, não convive ...". A rac~alidade cismo somente como atos individuais de agressão, não comoum
do branco é vivida como um círculo concêntrico: a branquítude se sistema invisívelconferindo dominância para o meu grupo.
I expande, se espalha, se ramifica e direciona o olhar do branco.
Segundo as palavras de uma das suas entrevistadas .....ser Janet Helms (1990, p. 3) descreve a evolução de uma possível
racial branca não-racista que pode ser alcançada se a
! branco [...] é não ter de pensar sobre isso [...] o síqnífícado de s~r
1111 ntídade
uoa aceitar sua própria branquitude. e as implicações cultu-
I
branco é a possibilidade de escolher entre revelar ou 19norar a pro-
"'li políticas, socioeconômicas de ser branca, definindo uma vi-
I
pria branquitude ... não nomear-se branca ..." I) o eu como um ser racial.
Piza destaca alguns pontos sobre a branquitude: II Ia identifica seis estágios no seu modelo de desenvolvimento
_ algo consciente apenas para as pessoas negras, til cI ntidade racial branca: contato, desintegração,reintegração,
, l/I I independência, imersão/emersão e autonomia.
_ há um sílêncío em torno da raça, não é um assunto a ser
estágio inicial. de contato, geralmente inclui uma curíosída-
tratado;
IIc ou medo de pessoas negras, baseada em estereótipos
I li lmítíva
_ a raça é vista não apenas como diferença, mas como hie- 11111 11 idos com amigos, na família ou na mídia, cujo objetivo,
rarquia; Ir 111.1 outros, era restringir a própria consciência das questões ra-
_ as fronteiras entre negros e brancos são sempre elabora- 11111 a interação com pessoas negras. Pessoas que estão nesse
das e contraditórias; I I no, quando querem elogiar um negro, fazem comentários do
I[ ti 1'1 ) "Você não age como uma pessoa negra" (p. 57).
_ há, em qualquer classe, um contexto de ideologia e de
prática da supremacia branca; 1\1 umas dessas pessoas podem permanecer neste estágio
I unlttvamente, porém, certos tipos de experiência (interação
_ a integração entre negros e brancos é na:r~da sempre 11 1'( nte com pessoas negras e novas informações sobre racís-
como parcial, apesar da experiência de oonvivio; I I), Ir vezes, levam a uma nova compreensão da existência do
_ a discriminação não é notada e os brancos se sen~e.mdes- 11 1110 institucional e cultural, o que pode assinalar o início do
confortáveis quando têm de abordar assuntos raciais; I 1(f1 de desintegração.
_ a capacidade de apreender e aprender com o outro, como N ele estágio aparece o desconforto da culpa, vergonha e, al-
11111ir! Vzes, raiva diante da identificação de suas próprias vanta-
um igual/diferente, fica embotada; 1I 11 1 serem brancos e o reconhecimento do papel dos indíví-
_se o negro, nas relações cotidianas, aparece como igual, (1 111I 111 ncos na manutenção do sistema racista.
interpretação é de exibicionismo, de querer se mostrar. II 11 n reduzir este desconforto, as pessoas podem convencer a
Tatum (1992), psicóloga norte-americana, afirma que os bran 11'1111'11 s de que racismo realmente não existe ou, se existe, é
cos negam inicialmente qualquer preconceito pessoal, tendendo I II1 I II suas vítimas.

42 43
Neste ponto, o desejo de ser aceito pelo seu próprio grupo r cial não tivesse fortes matize id I' . ,.
racial, no qual a crença dissimulada ou explícita na superiorida- cos e simbólicos que expli SI eo OgIcos, POIltICOS,econômi-
de branca está muito presente, pode levar a pessoa a readequar uílêncio e o medo. cam e, ao mesmo tempo, desnudam o
seu sistema de crenças para tornar-se mais coerente com a acei-
tação do racismo.
A culpa e a ansiedade associadas com a desintegração podem ctos narcísícos
ser redirecionadas sob a forma de medo e raiva contra negros, que
são agora acusados de ser fonte de mal-estar emocional. onélIcisismo solicita a cum li 'â d ' .
membros do grupo e do 'P Cl a e n~rc1S1ca do conjunto dos
grupo em seu conjunto (Kaes, 1997, p. 262).
Helms (1990) sugere que é realmente fácil para brancos fica-
rem paralisados no estágio de reintegração, particularmente se é É compreensível o silêncio e o medo
possível evitar negros. Todavia, se há um catalisador para conti- ,I, o envolveu apropria ão in ' . ' uma vez ~ue a escravi-
nuar a auto-reflexão, a pessoa questiona sua definição de ser bran- 1IItitucionalizada de drreitosd~blta ~oncreta e slmbolIca, violação
co e a justificação do racismo. I1rn o país. Assim, a sociedade ~~n e quase 40~ dos 500 anos que
Ip gar essa "mancha ne ra da h·pr~engeu açoes concretas para
O indivíduo experimenta, então, um senso de alienação
1/11 queimou importante ~ocum Istor!a , como fez Rui Barbosa,
em relação aos outros brancos que não examinaram o seu pró-
prio racismo. 1IIIança silenciada grita na subi e~~I~Ç~osobre esse ~eríodo. Essa
, /I Iras, em particular dos brlnc a e cont~~por~ne~ dos bra-
Desconfortável com sua própria branquitude, ainda incapaz I'I)/Ieretos dessa realidade. os, benefIcIarIos simbolicos ou
de ser verdadeiramente qualquer coisa, o indivíduo pode buscar
uma nova maneira, mais confortável. de ser branco. Esta busca é a No entanto, o silêncio não pod
IIIII ermanente desconforto a e abag~r o passado: esse tema é
característica do estágio de desenvolvimento imersão/emersão.
IIII110S se espera. p ra os rasilelros e emerge quando
Finalmente, ler biografias e autobiografias de pessoas brancas
que têm atravessado processos semelhantes de desenvolvimento Hené Kaes (1997) pode nos auxílí .
I'11111 relação a esse tipo de h Ele a problematlzar o silêncio
da identidade oferece aos brancos modelos para mudança. Estu-
dar sobre brancos antí-racístas pode também oferecer aos negros ," I,'r ud, que nada pode se~r~~~~·do~ destaca, a partir de textos
I 1111 ,como o sinal do que não foi _em que apareça, cedo ou
a esperança de que é possível ter aliados brancos.
,111 ou simbolizado pelas _ .ou nao pode ter SIdo reconheci-
Para brancos, a internalização de uma nova percepção do que geraçoes precedentes.
é ser branco é a tarefa básica do estágio de autonomia. Os senti- IEle destaca a noção de uma t . - .
," 11 'Onteúdos inconscientes .d ,. r~nsmlssao mtergeneracional
mentos positivos associados a esta redefinição energizam os es-
I1I 11m ato transgressivo com~~~oe~a e um recalc~,ento coletivo
forços pessoais para confrontar a opressão e o racismo na sua vida
lI/li de massa ou ainda a L de comum, a hlpotese de uma
cotidiana. É um processo sempre em andamento, no qual a pessoa , a ma e grupo:
precisa estar continuamente aberta a novas informações e novas Nascemos para o mundo já com
formas de pensar sobre variáveis culturais e raciais prio encaixado em outros grup o membros de um grupo, ele pró-
mos elos no mu d . os e com eles conectado. Nasce-
Os estudos de Piza e Helms são fundamentais porque nos au- ubjetividade ;e ~~~~~~~~~:' :~~Vidores e beneficiários de uma
xiliam a focalizar o problema das relações raciais como um proble- r neos: seus discursos sonhos s que nfs tornamos contempo-
ma das relações entre negros e brancos e não como um problema ele que servimos e que ~os serv;m~~s ;eca C~dOSque herdamos, a
do negro, como habitualmente se faz no Brasil; como se o branco ujeitos do inconsciente subm . ' azem e cada um de nós os
não fôsse elemento essencial dessa análise, como se identidade 'Ol1stituídas e constituintes de etídos a. esses conjuntos, partes
sses conjuntos (p. 95).

44
45
Branqueamento e identidade nacional
Kaes ressalta que, segundo Freud. a psicologia dos povos
existe como conseqüência da transmissão dos processos psíqui- o ideal da brancura ... nas condições atuais, é uma sobrevivência
cos de uma geração para outra. Caso contrário, cada pessoa esta- que embaraça o processo de maturidade psicológica do brasilei-
ria obrigada a recomeçar seu aprendizado de vida. ro e, além disso, contribui para enfraquecer a integração social
dos elementos constitutivos da sociedade nacional (Alberto Guer-
A hipótese é que, na psique da massa, os processos psíquicos
reiro Ramos).
ocorram de forma similar aos que acontecem na psique individual.
Uma tendência reprimida deixa um substituto, um traço, que
prossegue sua trajetória até tomar corpo e significado para um s~- Para finalizar esse breve ensaio sobre conexões possíveis en-
jeito singular. Este sujeito pode ser entendido como elo da cadela 11 branqueamento e branquítude no Brasil, seria interessante
dos "sonhos e dos desejos" não realizados das gerações que o pre- 111aacar alguns pontos que surgiram no percurso da construção
cederam, ou seja, ele é o servidor, o beneficiário e o herdeiro da ca- do t xto.
deia intersubjetiva da qual procede. Primeiramente, o problema do branqueamento, abordado nas
A psicanálise revelou-nos que todo ser humano tem, na ativi- 1IIIImasquatro ou cinco décadas como um problema exclusivo do
dade inconsciente de sua mente, um aparelho que permite inter- 111gro, nasce do medo da elite branca do final do século XIX e íní-
pretar as reações dos outros seres humanos, corrigindo as defor- ulr do século XX, cujo objetivo é extinguir progressivamente o
mações que o outro submeteu, e compreendendo os costumes, as I1 jmento negro brasileiro.
cerimônias e os preceitos, enfim, a herança de sentimentos das Como pudemos ver, Schwarcz (1993), Azevedo (1987) e tantos
gerações anteriores. 11111ros estudiosos evidenciam que, por meio de diferentes maneiras,
Com base nos escritos de Kaes, talvez possamos tentar com- Illlnfs era descrito como uma nação composta por raças rniscigena-
preender algo como o que Hasenbalg chamou de "acordo tácito" IIIIIJ,porém em transição. Havia uma expectativa de o Brasiltomar -se
na sociedade brasileira, que é o de não falar sobre racismo e sem- 11111aís branco, como conseqüência do cruzamento de raças.
pre encarar as desigualdades raciais como um problema do negro. Esta visão não estava presente só na ciência, mas também nas
Talvez possamos ainda problematizar a noção de privilégio 1111,( S, nos escritos dos pesquisadores, na imprensa, evidenciando
com a qual as pessoas raramente querem se defrontar, transfor- 11II1 I resposta ao medo gerado pelo crescimento da população ne-

mando-a rapidamente num discurso de mérito e competência que JIfi mestiça que, segundo o Censo de 1872, chegava a 55% do to-
justifica uma situação privilegiada, concreta ou simbólica. ?uan- 111I ti brasileiros.
do se deparam com informações sobre desigualdades raciats ten- De certa maneira, desde o início do período colonial. o cruza-
dem a culpar o negro e, ato contínuo, revelar como merecem o lu- 1111IILoracial foi a saída encontrada pela elite branca para resolver
gar social que ocupam. 11/1diferentes problemas que a afligiam.
Kaes nos mostra que os produtos do recalque e os conteúdos !\. relativa ausência de mulheres brancas e a subordinação da
do recalcado são constituídos por alianças, pactos e contratos in- 1IIIIII1Gr na família foi, segundo Gilberto Freyre (1980), a justificati-
conscientes, por meio dos quais os sujeitos se ligam uns aos o~- I mra o homem branco procurar as mulheres índias e mais tarde
tros e ao conjunto qrupal. por motivos e interesses superdeterml- I I ucravas africanas. Em sua obra Casa grande e se~zala Freyr~
nados. Esse acordo inconsciente ordena que não se dará atenção a li 11IIU rica-se com os ideais da miscigenação e do branqueamento:
um certo número de coisas: elas devem ser recalcadas, rejeitadas,
".0 problema do negro, entre nós, está simplificado pela miscige-
abolídas. depositadas ou apagadas. Mas enfatiza que, ao possuir nação larga que alagou tudo, só não chegando a um ou outro resto
um ar de falsidade, elas possibilitam um espaço onde o possível mais só e isolado de quilombo ou a um outro grupo ou reduto de
pode ser inventado.

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46
brancos mais intransigente nos seus preconceitos de casta ou de
raça (p. 649). gualdades raciais, que se observa '.
es autores (em geral as mais 't dnas pnmeIras publicações des-
I'adores), auxiliam a ~ompree~~: ~s nos te.xtos de outros pesqui-
Em sua obra, Freyre postula que a distância social entre domi- r guns SITIaISda branquitude
nantes e dominados é modificada pelo cruzamento ínter-racíal Ao ler os dois volumes de A . - .
que apaga as contradições e harmoniza as diferenças levando a tte ~lasses, de Florestan Fernand mt~f!raça~ do negro na sociedade
uma diluição de conflitos. Ao postular a conciliação entre as raças In CIsmo, a violência da escravid:s, ica VISIvela.r?dIgnação com o
e suavizar o conflito, ele nega o preconceito e a discriminação, I ncía sobre o negro' no ent t ~ e as consequencias desta vío-
possibilitando a compreensão de que o "insucesso dos mestiços e I, .nco, como bran~o. Ele ~~l;'f~ee I:JTatIcamente deixou de fora o
negros" deve-se a eles próprios. Desta forma, ele fornece à elite quencIaS, o impacto da escra idã quentemente sobre as conse-
I, j I I u VI ao sobre o negro ·t· .
branca os argumentos para se defender e continuar a usufruir dos la avra deformação'" "a' e CI a, ínclusivs
, balho, impedindo qU~ o n:scraVIdão deforr~ou o seu agente d~
seus privilégios raciais. Estes postulados constituem a essência
do famigerado Mito (ou ideologia) da Democracia Racial Brasileira. Illilidades de colher os frutos ~o e o mulato tl~essem plenas pos-
lI/lI condições de forte com eraymvers~lzaçao do trabalho livre
Esse mito, ao longo da história do país, vem servindo ao triste pa-
pel de favorecer e legitimar a discrirninação racial.
IlIlInanos" (1978, v. I, p.
d'/formação que a escravidã'
52tNIçao ImedIata com outros agentes
o eruanto Florestan não aborda a
O branqueamento passa a ter um outro tratamento a partir de I () l\liás, a decisão de escr:vf;ovocou na pe:sonalidade do bran-
meados de 1940, quando surge, na Universidade de São Paulo, um I , /'/ vocrata já carre a em " a~ ou ~ 0I?lSsao frente ao sistema
grupo de estudiosos tais como Florestan Fernandes, Octavio Ian- 1110/1 e ética. Como u~ est ~. mdIscutIvels sinais de deformidade
ni, Fernando Henrique Cardoso, Roger Bastide, que vão desenvol- ,Ir lnalisar detidamente e~s~o~~e su~ en~ergadura pôde deixar
ver importantes estudos sobre as relações raciais no Brasil. Tra- 11/ ItlCO, ao mesmo tempo em ensao t.ao explícita do grupo
tando da revolução burguesa como fenômeno estrutural, cujos in- 'd, I rmidade" negra? que conseguIU debruçar-se sobre a
teresses em formação e expansão no Brasil apontavam novas for-
ILá uma outra questão que .
mas de organização do poder, eles procuraram contextualizar a si- 1I'Jl/OS, como Nina Rodrigues (f:g~~sa ser destacada: vários estu-
tuação do trabalhador negro e iniciaram um processo de desmítífí- 1111 I r inferior e por isso foi . e outros, achavam que o ne-
cação da ideologia da democracia racial brasileira. O valor da obra L' 1 escravIzado.

de Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de II'lorestan Femandes não concord . ,. .


classes, publicada em 1965, é imenso porque revela uma socieda- 1111, 11 gra, no entanto ao f a com essa Id81ade mferiori-
de profundamente desigual. Não só por essa contribuição, mas "'1/ ri formado, acaba por a~ Iibrmarqueo ?egro escravizado aca-
" . r uir mfenondade ao negro.
também pela sua trajetória de compromisso indiscutível com o 1,1 vai mostrar ainda que de
combate à violação dos direitos do povo negro, Florestan Fernan- , t /I "1/queriam se emancipar' ult ntro do Contexto da época, se os
des, juntamente com Octavio Ianni, provavelmente estão entre os /I I r , teriam de superar por' co r:pas~ar as barreiras da discrimi-
intelectuais mais respeitados pelo movimento negro que freqüen- n
I" r ~ , da inércia SOCiocultural a prop!Ia os mconvenientes da
temente os convida para participar de eventos, seminários, deba- I ,r ',~ Ir o estado da díscrí . ,o~ entao eles se condenariam a
tes com a esquerda do movimento negro. 11/1'1) neste processo, ele rà:~~a~o"racial; quanto ao lugar do
j 1II1I1Issãodo branco e - _. por paradoxal que pareça
Justamente devido a essa trajetória de vida e de compromisso nao a açao que r d d '
I ,Ir , ••••ietus quo ante" (1978 I e ~n ou na perpetua-
tão absolutamente inatacáveis, os escritos desses intelectuais
""1/11Ião o papel da elite b;a~'c' p. ~~~). Nao podemos chamar
permitem uma análise cristalina de algumas dimensões da bran-
,,1'11 111vista que ela virou a de . VIrar as costas ao negro"
quitude no Brasil. Assim, a omissão ou a abordagem simplista do . as costas SIm m . '
1/ "I I1SJgotoda a riqueza Prod ld ' as sem deixar de car-
papel que o branco ocupa, como branco, na perpetuação das desí- 11li, ilho escravo. UZI a em quase quatro séculos

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49
A exclusão e a marginalização do negro foram interpretadas brancos" . Em um trecho do seu li A' -
ciedade de classes, Fernandes c~~~a ~:egraçao do negro na so-
também como resultado de seu despreparo: "o isolamento econô-
mico, social e cultural do negro com suas indiscutíveis conse- claro")
u
que ag a esse "mesrIÇO e, com frequencia "mulato
negro trânsfuga" u ( •. -

qüências funestas foi um produto natural de sua incapacidade re- , e como super-bran C " '
esse "negro que sobe" constrc co. amo o negro ordeiro",
lativa de sentir, pensar e agir socialmente como um homem livre" ta à imagem estereotipada d~ ~~ :~p~r-ego Ideal como respos-
(idem, ibidem, p. 95). pode exagerar, transformando-se ~a . As v:,zes, no entanto, ele
Outrossim, a monopolização dos postos de trabalho pelos imi- gra e em lacaio dos brancos. exceçao que confirma a re-
grantes europeus, na sociedade de classes que emergia, interpre-
tado como fruto de um melhor preparo desses imigrantes, foi pos- Fernandes fala, ainda, do self-m d .
teriormente contestado por vários estudiosos. Na verdade, o que pode acomodar-se ao preconceito d a e man e do mero n~gro que
se deu foi a mais cristalina discriminação racial com o objetivo ex- 111 nifestações mais chocantes (l'de e cib~r
'd amoldar-se ate as suas
m, 1 em, p. 454).
plícito, como veremos mais adiante, de excluir o negro, uma vez
Octavio Ianni (1972) a li
que os imigrantes que aqui vieram tinham o mesmo nível de pre- II um estudo realizad na sa e d e fí!ne o branqueamento a partir
paro que o negro. Assim, omissão e inércia não são bons conceitos uópolís. Segundo ele '?a~o:~~e~s~~uaç~ ~~ contato racial em Floria-
para caracterizar a atitude da elite branca da época. O que se pode n
do aos brancos, se orientam em sd IVI uos d~ ~or, com 2"eferên-
observar é que uma questão de fundo sempre permanece: a difi- 1'1 nsão social" (p 153) I . f OlSsentidos. mtegraçao e as-
. . anm a lrma que analí ld
culdade de olhar para o seu grupo. q\1 amento é enfocar um dos adrõ isar o I eal de bran-
Entenda-se que nada dissonascia ou ocorriasobre o propósito (de- ('( I stituição das famíli d p oes fundamentais envolvidos na
as e negros e mulatos.
claradoou oculto)de prejudicaro negro.Na maispura tradição bra-
sileira,tal coisanão se elevavaà esferada consciênciasociale onde Ele afirma que "branquear é .-
se descobrisse algo parecido, nas atitudes, nos comportamentos 111\11 tos escuros e mulatos claros ~~; aspiraçao universal. Negros,
de certos imigrantes e discriminações anacrônicas mantidas em 1II \0 casamento ínter-racíal Ia~ni r~s querembr~nq~ear". Ouan-
determinadas situações, desses mesmos círculos sociais partia o 1111 nto com indivíduo mais cl~ ., .s~alta qu~ o simples casa-
ro a
gritode alarmee de reprovaçãocategórica (idem, fuidem, p. 252). ( I 11 lentes mais claros e' motl ld satlgulhs
az o mais escuro. Ter des-
vo e or o" (p.123).
Diversas formas de ascen - .
Ou seja, a ação racista aparece como algo isolado, de um ou dld 1 como branqueamento' ~ao~no cas.o dos negros, =
enten-
outro fanático racista, e não como uma ação sistemática, constan- 11111 n ascensão social e econê ". guns tIpOSde ocupaçoes facili-
te, que impedia a inserção e a ascensão do negro na sociedade de 1111/ I ais fechados de b .cosd ou permitem a entrada em gru-
classes. Ele destaca que essa omissão do branco, essa inércia em rancos e camadas . I
1111 entar-se trajado conforme os - mais e,e~adas [...]
nossa sociedade permite concluir que "a cidade não foi especial- 11 II I minada classe social" (p. 123)padroes do vestuano de uma
mente desumana ou hostil ao negro, ela repeliu neste o escravo e o
liberto, por não possuírem os atríbutos psicossociais requeridos
II I, ~Ios~~~~:~~~:ie~tde suas trajetórias Florestan Fernandes e
para a organização do horizonte cultural e do comportamento so-
cial do homem livre" (idem, ibidem, p. 93). A pergunta que se pode 11111.1 ssim para a esqule~d~~~ outra abordagem. sobre o branco,
111 quadro em que se podo para os progressistas, interessou
fazer é: por acaso o ex-senhor, o ex-escravocrata tinha esses atri-
1"1 /I! podia tratar o proble~: ~econhecer as desíqualdades, em
butos psicossociais de comportamento de homem livre?
I 111 iulleíro. Infelizmente o negro, ~a.s sem abordar o bran-
Fernandes aponta as tentativas de integração e ascensão so- li I (I tura das rela _ ,p~r sererr: claSSlCOSdos mais citados
cial feitas pelos negros como sintoma do seu desejo de branquear, III tI( um problemaÇ~:~r~~I~I~'Ié~~~~tosestudos posteriores tra-
uma vez que define essa sociedade de classes como "mundo dos

50 51
11111111111It 111'1IvI di /I (IILUlJosos da chamada escola pau- I .uuoda. Considerando os diferentes momentos de trajetória pro-
I l 111111\1111111111110 o 11 inqueamento é legitimado como um 11, I nal do negro estudados por Bento, aqueles em que as práti-
111111 ti 111"tlll 11 11 xprsssa uma forma de manipulação do ne- I ,11tllscriminatórias ocorreram com mais intensidade e mais fre-
jlll, viI 111<11 JJlL gração e a ascensão sociais. 'III! 11 cia foram os ligados à promoção profissional e à ocupação de
I 1IJOs de comando. Estudos recentes publicados pelo Inspir -
No entanto, o desejo da "europeização" expresso por essa elite
1IIIILILuto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial- são con-
vídencía que não só os negros se sentem desconfortáveis com a tundentes em revelar que quanto mais aumenta a escolaridade do
su~ c?ndição. racial, mas o próprio branco brasileiro desejava e de- 11\Ire mais a discriminação se revela nos diferenciais de remune-
seja ainda hoje (vide os meios de comunicação de massa) perder-se
I I ' o entre negros e brancos. Ou seja, são os momentos em que o
no Outro, o europeu ou o norte-americano. Isso torna o problema do II( ro vai ascender, ou "trocar de lugar" com o branco. O negro
branqueamento urna questão que atinge a todos os brasileiros. 'li de lugar. Isso pode significar que esse negro fora de lugar, isto

Não ternos só um problema de perda de identidade negra, mas I ocupando o lugar que o branco considera exclusivamente dele,
I

um problema de nacionalidade: quem quer ser brasileiro? Corno o I()I escolhido corno alvo preferencial de análises depreciativas nos
negro brasileiro se representa e é representado? Corno o branco studos sobre branqueamento.
brasileiro se representa e é representado? Assim, creio que é importante destacar a reflexão imprescin-
Se, corno diz Hasenbalg (1979), o Brasil não é um terreno fértil dível sobre o lugar de onde fala o estudioso, do lugar de onde ele
para o surçírnento do orgulho racial, parece também não o ser para p rte para fazer as análises que poderão orientar concepções e
o floresCImento do orgulho nacional! práticas de diversificados atores sociais.
Um segundo ponto a considerar é o fato de que o período em
que a teoria do branqueamento ganha força coincide com o perío-
Do lugar de onde se fala
do do início da industrialização no Brasil.
,Nesse período, a população do país é majoritariamente negra e A violência da relação originária entre o europeu branco invasor e
violador da mulher índia ou negra permeou também a forma como
esta liberta, constituindo-se numa poderosa reserva de força de tra-
uma cultura se impôs sobre a outra, como visões de mundo não
balho que deve ter gerado o medo, não só o medo do diferente, mas
brancas e não européias foram amputadas, destruidas ... estamos
o medo do diferente que poderia monopolizar os postos de trabalho. dentro do espectro europeu do conhecimento ... no espaço branco
Então esse diferente ameaçador ou foi tratado corno um ser despre- da nossa mestiçagem (Montánhez, 1990, p. 2).
parado p~ra ínteqrar a sociedade de classes ou corno um trânsfuga
que manipulava sua condição racial para poder ascender. Em minha dissertação de mestrado ressaltei trechos de um
, .Não é por acaso que todos os estudos que tratam da proble- texto muito interessante escrito por Montánhez (1990). Ela chama
manca do branqueamento no negro associam-na ao desejo de as- a atenção para o fato de que se o referencial do pesquisador está
censão social. instalado naquilo que simbolicamente tem representado o poder
masculino e europeu branco, este olhar é o do opressor, que desde
Branqueamento e ascensão social aparecem corno sinônimos
a colonização buscou ocultar suas razões e seus interesses, des-
quando relacionados ao negro. Parece-nos que isso decorre do
considerar ou deturpar as conseqüências de sua ação condenável,
fato de que essa sociedade de classes se considera, de fato, corno
culpando e desvalorizando o colonizado. Estudos que se apóiam
um "mundo dos brancos" no qual o negro não deve penetrar.
neste modo de ver o mundo caracterizam -se pela reconstrução de
O estudo de Bento (1992) vem confirmar outros estudos ante- uma ação condenável destituída de sua carga de horror, por meio
riores que evidenciam que, quanto mais ascende, mais o negro ín-

52 53
da racionalização dos motivos e dos fatos. Isto podemos verificar ser bem ,sucedido se abarcar a relação negro e branco, herdeiros
largamente nos estudos sobre o negro no Brasil. I ~n~f~Clanos~u herdeiros expropriados de um mesmo processo
Montánhez nos instiga a fazer diferente, a não optar pelo lugar IlJstor~co,partlclpes de um mesmo cotidiano onde os direitos de
do pai europeu, e sim, pelo da mãe índia ou negra. "Optar pela uns s~o VIolados permanentemente pelo outro. A insustentabili-
mãe" é procurar compreender a dominação do ponto de vista do dade etíca e moral dessa realidade cresce incessantemente em
dominado, permitindo-lhe explicitar seus próprios mecanismos de particular nos últimos 20 anos, tempo em que o Movimento Neqro
defesa e de ataque à dominação. É, também, considerar essa fala t m colocado ~~b fogo cruzado a violação de direitos do povo ne-
como elemento constitutivo da relação entre dominador e domi- jro e tem explícítado a verdadeira cara desse país. Esse movimen-
to ~era condições não só para a recriação das identidades e, con-
nado e não como fonte de confirmação das "constatações" do
II quentemente, o deslocamento das fronteiras, mas possibilita um
olhar masculino branco. É tentar desvelar a contradição e o confli-
I ncontro .dopaís consigo próprio, com sua história, com seu povo,
to que as relações estabelecem, sem escamoteá-Ios, justificá-Ios
I um sua ídentídads
ou excluí-Ios.
Assim, ainda que o branqueamento se constitua numa inven-
ção da elite branca para enfrentar o medo do grande contingente I ferências bibliográficas
populacional negro e, posteriormente, se afigure como uma res-
posta à ascensão negra, não há como negar seu impacto sobre a AI)O~~O, T.W. etal. Lapersonalidadautoritaria. Buenos Aires: Proyec-
população negra. É importante tentar compreender também o que clOn,1965.
ocorre com o negro no processo de branqueamento. Neuza Souza ADORNO, r.w & ~ORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento:
(1983), psicanalista negra, chama a atenção para impacto da ideo- fragmentos filosoncos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
logia do branqueamento sobre a personalidade do negro. Ela pare- AMJ\RAL, Mônica Guimarães Teixeira do. O espectro de narciso na mo-
ce compreender o branqueamento do negro não como manipula- dermdade: de Freud a Adorno. São Paulo: Estação Liberdade, 1997.
ção, mas sim corno a construção de uma identidade branca que o '~INJ?~O, Célia M.M. de. Onda negra medo branco: o negro do imagi-
negro em processo de ascensão foi coagido a desejar. nano das elites do século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Ela afirma: "para o psiquismo do negro em ascensão, que vive IIII:WUEL,Maria Maia de. A identidade fragmentada: as muitas maneiras
o impasse consciente do racismo, o importante não é saber viver e de ser negro. São Paulo, 1988. [Tese de doutorado, FFLCH-USP.]
1
pensar o que poderia vir a dar-lhe prazer, mas o que é desejável 111 11 ; 'CH, Ernest E. Reflexiones psicológicas sobre el prejuicio racial. In:
pelo branco" (p. 7). Souza é enfática em salientar, em seu estudo, o , VBIRATIS, E. (orq.). Psicologia política como tarea de nuestra épo-
8. Barcelona: Barral, 1971.
sofrimento do negro nessa questão de branqueamento, entendida
por ela como inevitável no processo de ascensão. I' IlONE, Iray.A distância subjetiva entre as classes, de acordo com
IIlexls de Tocqueville. São Paulo: Abrapso, 1999.
Diferentes estudiosos têm se preocupado com a maneira como
IINIIA,M.C.P. o espelho domundo: Juqueiy, amstóriadeumasilo 2 ed
os negros foram e vêm sendo atingidos pela ideologia do branquea- IUode Janeiro: Paz e Terra, 1988. '. .
mento no Brasil. A militância negra tem destacado persistente-
mente as dificuldades de identificação racial como um elemento I"'~I,lJME~U.Jea~. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cide-
ti ~Jt.Jada.. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1989. [Tradução de
que denuncia urna baixa auto-estima e dificulta a organização ne-
Mnna LUCiaMachado, tradução das notas de Heloísa Jahn]
gra contra a discriminação racial.
I r H N,Frantz. Pele negra, máscarasbrancas. Rio de Janeiro: Fator, 1980.
Assim, compreender o branqueamento versus perda de iden-
I (lAt:J, Joe R. & FEAGAN, Clairece B. Discrimination american style:
tidade é fundamental para o avanço na luta por uma sociedade
/111 'LI tu tionel racism and sexism. Malabar: Robert E. Krieger Publi-
mais igualitária. Porém, esse estudo tem mais possibilidades de IIlngCompany, 1986.

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56
57
3. PORTA DE VIDRO: ENTRADA
PARA A BRANQUITUDE

Edith Piza
Este ensaio baseia-se no texto do relatório final da pesquisa
Iercepção de mulheres negras por mulheres brancas, no espaço
(I escola e dolazer, durante os anos entre 1960 e 1970, em uma ci-
II de do interior de São Paulo' e seu objetivo é antes o de comuni-
onr uma experiência de pesquisa do que discutir aprofundada-
111 nte os dados coletados e a bibliografia lida. Trata-se, portanto,
li, dar a conhecer uma perspectiva de pensar as relações raciais,
III opondo uma reflexão conjunta sobre o tema, mais do que explo-
I Ir os modelos teóricos (muitas vezes conflitantes) e as perspecti-
v I metodológicas para tratar a branquitude (ainda não inteira-
III nte definidas ou adequadas ao universo brasileiro). Embora mui-
11) do que esteja aqui possa já ser do conhecimento e da experiên-
l'in cotidiana de todos, convido-os a iniciarem uma breve sonda-
1)1 m sistematizada sobre o sentido de ser branco, no Brasil.

Quando iniciei esta pesquisa (Píza, 1998), não tinha muita cer-
II y.n
do que encontraria. Não se tratava de não ter um objetivo,
III 111de não saber quais os rumos que a pesquisa tomaria, o que eu
IIII ncontrar como resposta às perguntas iniciais': O que signifi-
I IV ser branco, num mundo de brancos? Como era construída
, li/identidade? De onde vinham os sinais dessa suposta superio-
I IiI I te? Qual o possível grau de percepção que homens e mulheres
"'i/lICOS tinham de serem racializados? Por que havia uma intensa

Iltlllquisafoirealizada como parte das atividades do récem-doutorado, no Instituto de Psí-


"llIIIIli USP,Departamento de Psicologia da Aprendizagem, Desenvolvimento e Personalí-
II'/u llSA.com financiamento do CNPq, sob a coordenação da Profa. Dra. Iray Carone.
1/11) De que as entrevistas sobre assuntos raciais feitaspor pesquisador de mesma
1 1111,111tio pesquisado apresentam maior índice de respostas
não evasivas, o que justifica,
1 1,"IIl/ogicamente, a paridade racial como estratégia de pesquisa em relações raciais.

59
uível ~, mais do que isso, ina~eitável para os estudantes negros,
nomeação de não-brancos, e uma aparente neutralidade da cor,
!~areCl~-meabsolutamente evidente. de um ângulo diferente: eu
quando se tratava de brancos? ,SabIa que o ar~umento e sua linguagem comunicavam tanto a
Na minha própria experiência cotidiana essas perguntas nem (~O~pleta neutralidade racial de seu autor, quanto os modelos so-
mesmo se colocavam, ou seja, nunca questionei minha condição (I ISpresc;,Itos ~ue"surgiam, em parte, dessa neutralidade e, em
racial e ela nunca foi objeto de questionamento por ninguém. 11rte, das. receitas de adequação necessárias à inclusão de ne-
Mesmo na vivência com amigos e colegas negros eu não estava O/os no uruverso do discurso e do modelo brancos. Os discursos de
presentificada pela cor. Eu era, simplesmente (Edith, estudante, I1reyre e Fernandes, principalmente, eram cartas de navegação fa-
mulher, mãe, etc.); eles eram todos sobrenomeados: negros. De I'lime~te deci~rá~ei.s,num mundo onde a ordem do argumento era
início, durante os primeiros tempos de preparo da tese de doutora- 1Ima Via de mao ~mca, elidindo-se a própria racialidade para com-
do, na Puc-SP (Piza, 1998), não sabia como me reportar à minha !lI end~r o outro. O eu narrador destes estudos, o eu não meneio-
própria condição racial e havia no ambiente das salas de aula que 11',d~,nao era nem mesmo branco. Era neutro, incolor, transparen-
partilhávamos uma certa pergunta não declarada sobre por que 1I VIdraças e portas tão polidas que nem mesmo se podia vê-Ias.
I

uma branca se interessaria por questões raciais. Aos poucos, com


a convivência e um melhor detalhado do meu objeto de estudo', Talvez uma metáfora possa resi mir o que comecei a perceber:
fui delimitando o meu espaço dentro da pesquisa e do grupo de IlilL r contra.uma porta de vidro aparentemente inexistente é um
colegas negros. Eu sabia muito sobre negros, mas isto não era 1111J)acto f~rtIssImo e, depois do susto e da dor, a surpresa de não
compreender as relações entre negros e brancos. Era, no máximo, 1II percebId~ o contorno do vidro, a fechadura, os gonzos de me-
um acúmulo de conhecimento que poderia me auxiliar na compre- 1:11 que mantm~am a porta de vidro. Isto resume, em parte, o des-
ensão de processos históricos, socioeconômicos e psicossociais «ibrír-se racíalízado, quando tudo o que se fez, leu ou informou
de exclusão social e moral de negros. (, i,or~ou~ atitudes e. comportamentos diante das experiências
(1)( I IS, públicas ~ principalmente privadas, não incluiu explicí-
Mas onde se situavam os brancos, nestes estudos, pesquisas,
111111 nte ne~ ~ mimma parcela da própria racialidade, diante da
teorias, etc.? lI/li nsa racI~l1dade ~tribuída ao outro. Tudo parece acessível,
Passo a passo fui descobrindo que eles estavam atrás dos no- 111111, na realidade, ha uma fronteira invisível que se impõe entre
mes, quase todos de brancos, que assinavam muitos dos estudos uuulto que se sabe sobre o outro e o quase nada que se sabe so-
e pesquisas. O discurso branco sobre questões raciais anteriores à IIII 1J1 mesmo.
década de 80 construía-se, com poucas exceções". a partir de um
, I or~~, à ~edida que se. vai buscando os sinais dessa suposta
olhar branco (enquanto neutro em relação aos brancos) sobre o
II1VllJlbilid~de,vaI-s~ tambem descobrindo os vãos da porta. Toda
mundo. Comecei a perceber como para mim era mais fácil com-
I"II\'I de VIdro tem vaos. Nunca estão totalmente encaixadas na
preender suas proposições e interpretar seus códigos lingüísticos,
quando se referiam aos estudos histórico, econômico, social, psi-
cológico, antropológico de negros5. O que se tornava incompreen- )I J 1I111menteia
Ii d FI francaC irritação dos colegas negros quando m e propus a ana I·· isar a lín-
, ' I Ie eyr.e,.em . asa grande e senzala. A observação era de que esta obra continha
)1III( exercício retonco do autor para se contrapor ao model . d .
1"1do patriarcado nordestino (Bastos 1983) Falava-se para pOarillesUtstnaltadO sul, ao fazer o
3. Ver Píza (1998). IIlplllOá. b d ,. , en va-se convencer
1Ilnç ~~~~~ô:ca ,? s~,deste ~e que s~~s modelos importados destruiriam para sempre
4. Com raras exceções, como a presença ímpar de Eduardo de Oliveira e Oliveira, de Clóvis 1,". e comp ementar do negro no processo de construção de nosso
Moma ou de Abdias do Nascimento. Entre pesquisadores brancos do período, Oracy No " nncíonal, desde que mantídas as posições hierárquicas e a imensa tolerãncia racial
gueira parece ser o que destoa do conjunto da escola uspiana. I "IIIUllnSbranco trouxera de sua própria experiência da invasão árab O que
I II) 1111"
I scravo civilizador" transoarecía.oara mi enquanto para ose.colegas
parecia. para num, recurso argumen-
negros eram
5. Moema Poli Pacheco oferece um exemplo desse olhar, ao observar que, analisando a ta I I'I~' turpadores dacondição dos negros que se acumulavam na ambigüidade da lin a-
rnílía negra, Florestan Fernandes não deixa de clamar pela superação da família negra dito 111" HIllnndoentre o afncano digno, que Freyre distinguia de um escravo corrompido :m
anômica, "reforçando a ética polarizada em que é analisada a constituição da família negra" I) ,111,0 apontar explicitamente quem o corrompera. '
(Pacheco, 1989, p. 200).

60 61
moldura. São necessários a fresta, o espaço entre o vidro e o asso-
alho, o vidro e o batente, para evitar a fricção que causaria a quebra no interior da ~usca por compreender o outro, talvez porque des-
do vidro. Vidros são muito sensíveis, muito delicados, necessitam crevessem mUl!Omais a sociedade branca de uma cidade com pe-
de espaço para se moverem livremente. Se estivermos do lado de quen~ populaçao negra e um intenso e indisfarçável racismo nas
dentro, pode-se sentir o ar passando pelos vãos. Respira-se. relaçoes entre brancos e negros que aí ocorriam Emb
plíssim t d . ora esse am-
o es u o possa ser considerado um "estudo de caso" ,
Aí se encontrava a possibilidade de, no universo de estudos
,aso p~radigm~tico. Oracy Nogueira capturara muito bem o'e~~~
sobre relações raciais no Brasil, verificar a existência de algum si- ÇO socíal e racíal da cidade e o expandira para d' - .
nal de que brancos eram parte dessa relação. Bastaria, talvez, are- naís. Diz ele: tmensoss nacio-
jar o que, de certo modo, já estava exposto. Havia, sim, um olhar
I I
do branco sobre o branco, em estudos como os de Oracy Nogueira I...] no munícípío ~e Itapetininga está representada toda a gama de
(1962; 1955), os quais tinham permanecido em um espaço oculto ~ondlçoes e posiçoss sociais que se pode encontrar no Brasil' famí-
entre o vidro e o vão. Falavam da história e das relações sociais e das abastadas e tradicionais e elementos intermediários até ~ gran-
e massa dos menos favorecidos; brancos, mulatos e pretos ími-
raciais de uma pequena comunidade no interior do estado de São
gran!es. e seus descendentes; profiSSionais liberais profes~ores
Paulo, Itapetininga, que foi objeto de seu exaustivo estudo socio- fun.clOnanos burocráticos das repflrtições federais, estaduais e mu~
lógico, nas décadas de 50 e 60. Esses estudos não eram muito co- n~clpaJs, a massa de pequenos trabalhadores urbanos e a propor-
nhecidos, apesar de seu autor estar entre os representantes da çao amda maior de trabalhadores rurais (Nogueira, 1955, p. 366).
"escola uspíana", a qual, entre o início dos anos de 1950 e meados
dessa década, desenvolveu um grande projeto de mapeamento l/C ~~da a.hi~rarquia estava representada ali, num espaço social
das relações raciais principalmente em São Paulo e em outros es- )S,o mais nc~s e,os 20% mais pobres da população de 38181
tados brasileiros, financiado pela Unesco'. Seu trabalho mais co- 11ibítantes, dístríbuídos pelos 1.938 km2 do município d '.
nhecido, Tanto preto quanto branco (Nogueira, 1985), publicado I l/vez 1/3 formasse a região urbana (646 km') Q 5'0 os quais
mais tarde, estabeleceu, por comparação, os diferentes modos de po/ ' . uase anos de-
" ,o penmetro urbano tem 828 km2 (Lei Municipal n. 2962
definir a racialidade no Brasil e nos Estados Unidos. Esse estudo /./1~11989), para uma população total de 104.275 habitante~
punha em evidência a regra de origem, para americanos; e a regra IIC n e,.1994) , dos quais não se tem conhecimento da cornposí-
de aparência para brasileíros". O estudo repercute ainda porque as III racíaí atual".
pesquisas sobre o "negro" encontravam onde apoiar aquilo que, no
Brasil, era o mais evidente: a fenotipia (ou aparência física, especi- Os estudos de Oracy Nogueira apresentam outra característi-
ficamente a cor da pele, os traços faciais e corporais) como regra I 1 que par~ce altamente relevante. Tratam das relações raciais
de pertença racial. Os outros estudos, porém, ficaram desfocados IIJlIL :nporan~as e ~emete muito pouco ao passado. Seu estudo
/tI tóríco da CIdade e amplo e intensamente documentado, mas a

7. Os estudos da escola uspiana pertencem, historicamente, ao grupo de projetos financiados


da Unesco para mapear os focos de racismo e de intolerância étnica, no mundo, logo após a li Illdos do censo de 1991, desagregados por sexo Note- .
Guerra Mundial, visando prevenir ou evitar que outros holocaustos, como o praticado pelos na "11 1111da pela prefeitura de Itapetining _.' se que a pesouisa do Seade, en-
zistas contra judeus, outros grupos étnicos e dissidentes políticos, viessem a se repetir. O Brasil III111llos de lazer da cidade. a, nao mcorpora o Clube 13 de Maio entre os equí-
foi escolhido como um dos países a ser mapeado, em razão do mito difundido pela obra de Frey
" N I pesquisa que realizei no cartório da cid d . .
re, e ainda sustentado no exterior, de sermos uma democracia racial. 1I!I!I1de 1960 e 1970 observei que ser' . . tal e, nos remstros de nascnnentos e óbitos
8. A regra de origem, nos Estados Unidos, baseia-se na chamada one drop tule, ou seja, n "," icentos de nascimento pois a at~~ mU_I ~entar captar a cor da população registra-
regra de uma gota de sangue, significando que uma gota de sangue negro é suficiente pain I'ICII 1I0ente cartorário que 'por exemPloWdÇeafo. a cor era: no mais das vezes, dada pelo
, ,mia uma cnança de ar' .. .
que uma pessoa seja reconhecida e se reconheça como negra, durante 8 gerações, não i 111 li' 11,um vez de utilizar o critério de classifica _ . . . Igem asiatíca como
portando se, em sua aparência, por processos de miscigenação, tenha de muito ultrapassa 1 110111/1podiam ser hetero-identificados pel ça? cen~tana: amarelo. Igualmente pretos
do o que chamaríamos de linha de cor e/ou aparência, que é a forma de auto e heteroclassl 1111111111 que definia, para o a ente cart ~aparenCla o declarante - pai, mãe ou pessoa
licação racial no Brasil. IC 111111 ds óbitos, a cor era de~larada ~~~é~i hlpotetlca cor da criança registrada. Nos
I I I 11I1II1m,a parcela da população neqra co que assinava a declaração de morte.
era muito pequena.

62
63
.- por sua condição de já não pode ser lida apenas em termos de preconceito, mas - e prin-
scravos na regIao, - )
pequena presença d e e - a permitida esta profissao , cipalmente - como prejuízos sociais e econômicos que resultam da
pouso de tropeiros (aos es~ra~~s ~a~ee~poiar nas relações raciais discriminação de negros nos processos de mobilidade social e seu
obrigavam o olhar, soclolog:.c arece haver, nestes estudos, uma lijamento dos projetos de progresso socioeconômico nacional. São
como se davam na epoca e nao: cravo e relações raciais con- recentes, também, trabalhos em que pesquisadores brancos e ne-
es
correlação direta entre passa °b ou embranquecido da ci- uras trabalhem lado a lado, nas universidades e Ongs, cada um pro-
, E' mais o caráter ranco. ,. Os iurando tratar a temática das relações raciais sob prismas negros e
temporaneas. 1 e profundamente cntica.
dade que é exposto de forma amPfa '1' as fundadoras até a classe I rancos. Isto nada tem a ver com quem tem a primazia de falar so-
- a desde as amll Ilre quem. Trata -se de uma postura de trabalho, na qual o objetivo é
brancoS estao em cena, . ,. 'blicos e professores em sua
média, composta de funclOnarl~~JrUa população mais visível no I I labelecer urna visão ampla e relacional das questões e dos dife-

maioria, que começava a cons 1 II ntes tratamentos dados a cada parcela da população, nas relações

espaço urbano. d de vidro começou a circular o mtersubjetívas e institucionais, no universo do trabalho, da educa-
I' 0, da saúde, para citar apenas os mais importantes.
Assim, pelas fres.ta_sddapare eortamento racial branco.
ar de uma possível vísao o oomp íd Antes deles, a maioria dos estudos sobre relações raciais, tan-
. bém eu tenho vínculos com a Cl a- 11) strangeiros quanto brasileiros, tinham como objeto principal.
Como Oracy Nog~eua,. ta:n. toda a adolescência e parte da
1111 orno pano de fundo, a questão da identidade racial e do pIO-
de Vivi ali parte de mmha mfancla,. ulava entre os vãos e ler nas
. .' r o ar que Cll C ' ,11r ma social de negros.
J·uventude. Podia respua cena ser um acr
e'SCI'mo_ muito pequeno, e
. d 11
entrelinhas: o que po ial que Nogueira tinha realiza o . No que toca à identidade racial de grupos e indivíduos, o bran-
verdade - ao mapeaI?~nto .carn o no qual se trabalha, ter experi- 1111 nmento de negros foi o terna mais explorado e invadiu todas as
Ter conhecimento prevlo do p. e vai refletir pode ser - e, em IlIlt \ temáticas, especialmente as que tratavam do lugar ocupa-
mentado as relações sobre as (:~s :1
de se aproximar do campo, I" p 10negro na economia pós-abolícíonísta.
geral, é - um :nodo mais c~~~a:~té onde isto é confortável, OU Assim, os estudos sobre branqueamento privilegiaram as es-
mesmo que nao se possa f ta'vel principalmente porquo I 11'JI s psicossociais desenvolvidas por grupos ou parcelas da po-
dei a de ser con or , d
onde e quan d o e,IX , 1 'da no que se vai resgatan o. 11111 ' o negra brasileira para se adequarem às demandas de em-
nossa própria histona esta envo Vl
I\(Iuecimento da população brasileira, em prática desde meados
I 11 GulaXIX. O pressuposto dos estudos sobre o branqueamento,
I ntído de adequação do negro a uma sociedade branca e em-
Branqueamento, negritude e branquitude
11'1\1cedera. supõe que, para atender às demandas racistas de
são antigos, os estudos sobre r 1111 utquecímento da população brasileira, sua parcela negra ten-
Se os estudos sobre o~ negros E' partir da década de 70 qu II1 I I senvolver a negação de sua racialidade e promover formas
.' B sil sao recentes. a
laçõesraClBls, no rasu. d Vall Silva e Fúlvia Rosemberg, par \ mbr nquecimento, tanto na busca de parceiros para a miscige-
Carlos Hasenbalg, Nelson od e _ estabelecer uma linha de e. 111,no desejo de ascendência social através da "melhoría do
citar apenas os mais desta~a o:~~:~ comparação sobre dados ti )111", quanto no comportamento, discreto e distanciado de sua
tudos comparatIVOS(,especIalm de trabalho, salários, etc.) entr \ 1I11i1c1nde
de origem, visando assemelhar-se ao branco.
tatísticos referentes a escoland~la' ão brasileira, desagregada UI
málíses mais recentes sobre a busca de branqueamento
parcela branca e negra da pop ç a bem definida diferença, qUII
cor e sexo, na qual estabelece-se um I 111'1
un os prejuízos psicossociais sofridos na constituição
h I1IIlade grupal e individual da parcela negra da população,
I 11111)
cto do racismo e de sua exigência de embranqueci-
0e 1950 os quais mapearam a cor d~ 11"
d dos dos censos de 194 . I" (Ilouza. 1983).
11. Ele trabalhara com os da outros quesitos pesquisados.
pulação, aplicando-a a to os os

65
64
Para compreender a demanda por branqueamento e o esforço nheíro embranquece", formulada basicamente por estudiosos nor-
de parte da população negra em responder a esta demanda, seria l -amenc,~nos, ~ão difere, em profundidade, da idéia do "negro
necessário considerar aspectos do racismo teórico que, no Brasil, trânsfuga e da IdentIdade "anômíca'' individual e familiar de Flo-
instala-se a partir do século XIX. As perspectivas estrangeiras que I stan Femandes. Nesses estudos, sabe-se muito sobre ~ negro,
apontaram os processos de branqueamento em sua superfície (Da- mas, em ne~hum momento, nomeia-se aquele que, na relação
gler, 1971) e, principalmente, determinados estudos brasileiros ti- opressor-opnmIdo, desempenha o papel do opressor: o branco.
dos como progressistas e denunciadores do preconceito e da dife-
O branqueamento, como resultado de teorias e práticas racís-
rença, no Brasil (Femandes, 1978), que, apesar de negarem a pro-
I S, Interfere em quase toda a produção sobre identidade racial
palada democracia racial, não observaram as relações, mas sim
~,~cetua?d~-~e os estudos mais recentes, que evidenciaram um~
seus resultados para apenas um dos grupos - o de negros 12 .
LonscIencla ra~ial muito precoce e conflituada, mas nunca ne-
Segundo Guillaumin (1972), o racismo teórico baseia-se na 'Idda, en~re índívídun, negros entrevistados. Destacam-se a aqui
idéia de que o biológico determina o social e o cultural. 1,p,esqUlSaSde s~uz~ (1983), Teixeira (1992) e Oliveira (1992), nas
No caso da teoria (racista), este sistema de signos é a expressão, 1/11lS es~a conSCIenCIa e seus conflitos são expostos de maneira
no universo intelectual e científico, da busca de uma ordem cau- 11IlIItoe.vIdente pelos depoentes, sejam eles trabalhadores de ida-
sal: a variedade de formas culturais está fundada e é explicada 111I; vanadas, Jovens estudantes, militantes ou não.
pela variedade de formas físicas. Esta é explicitamente a tese fun-
damental do racismo teórico. No caso do comportamento racista,
~ negação da necessidade "consciente" de embranquecimen-
a heterogeneidade (suposta ou real) do grupo visado é vista (inter- I11V,I ser comprova?a nos estudos sobre a negritude, que visam
pretada) como uma característica física, a qual, por sua vez, fun- IIllh,~arpor qU~.melOs a população negra busca e encontra uma
damenta esta heterogeneidade até o absoluto e justifica, assim, o lili ntídade POSItIvae politicamente divulgada através de marcas
"pôr à parte" (Guillaumin 1972, p. 61). dllwrftIcas sociais e culturais dessa identidade à qual deu-se o
IIllIne de negritude (Munanga, 1986; Cross Jr., 1991).
o que esta autora observa é que aspectos socioculturais são ora Muitos anos antes que a condição racial de brancos fosse ob-
explicados pela raça (seus aspectos biofisiológicos que contamina 1110de estudo, prinCipalmente nos Estados Unidos, a condição ra-
1I riam os históricos, econômicos, culturais), ora a raça é explicada I !til 10negro e sua identidade grupal e individual já passavam por
pelo sociocultural (a impossibilidade do avanço, determinada por IIIIII119ras formas de análise, tanto por estudiosos brancos quanto
urria história de subordinação diante da grande e insuperável cultu 111111icçros. Desde os estudos fundadores de W.E.B. Du Bois, espe-
ra branca, que acaba por afetar aspectos biofisiológicos, os quaís, I I1I11ente Os dez talentosos,. publicado em 1903, a construção de
por sua vez, determinariam uma história ...) e, assim, ad intinitum. 1111I111entIdade negra_era o~Jeto de reflexão; e, no caso de Du Bois
Esta tautologia - ou a circularidade de pensamento - esteve presen I HJ3),era urna questao de Identidade coletiva, formada por lide-
te em muitos estudos que abordaram a condição social da parcela lI/li,: I negras ~om~rometidas com suas origens, capazes de dar
negra da população. Estudos que visavam compreender a inserção I 1I1p!OS morais e_Intelectuais, elevando assim o padrão de aspí-
da parcela negra brasileira na moderna sociedade de classes, oscl I1I (. da populaçao negra americana. A educação era condição
Iam entre um dado racial e sua faceta social- a escravidão; e um 11 (/lIa non para a construção de urna nova identidade de pro-
dado social que determinaria o racial: o embranquecimento - se]!1 1/1(, social e de resgate moral da parcela negra da p~pulação
pela passagem da linha de cor (miscigenação), seja pelas estrat 111I1 na. Segundo Du BOIS(1903), a instrução universitária dos
gias de mobilidade social. Assim, a idéia de que, no Brasil, o "dl li 111.s negros formaria lideranças que se tomariam exemplares
11I 1.0d_a a comu~idade negra, elevando-a da condição de uma
11I11 içao sem raizes ou valores culturais.
12. Ver especialmente os trabalhos importantíssimos de denúncia e oposição ao pennn
mento de Freyre formulados por Florestan Femandes, Octavio Ianni, entre outros.

66 67
Quase 60 anos depois, os movimentos pelos direitos civis trou- 'orno o de Gates Jr. e West (1997)já realizam balanços do progres-
xeram à tona o re-exame desta questão. Lideranças intelectuais o da mtelectualidade negra americana, ao mesmo tempo em que
como Martin Luther King e Angela Davís, ou de negros que se en-
,malisam os questionamentos de identidade desses intelectuais
contravam nas franjas da sociedade, dedicaram-se à reestrutura- C[u~ buscam, continuamente, manter o princípio exigido por Du
ção de suas identidades tanto quanto pregaram a valorização da UOlS (1903), ou seja, de que dependia de lideranças ilustres a ade-
população negra - como Malcolm X - clamando, cada um a seu uuação de negros aos princípios da democracia americana.
modo e por diferentes caminhos, pela fundação de uma identidade
positiva, de uma identidade politicamente construída,. ~apaz de A identidade branca, entretanto, não foi observada da mesma
retirar da alienação e do abandono social grupos e indivíduos. forma. As mudanças nas relações sócio-raciais americanas, víven-
d ,das pela comunidade negra, foram(eprovavelmente ainda sejam")
A batalha pelos direitos civis, nos Estados Unidos, durou pelo objeto de temor e de insegurança para brancos. Havia sempre o
menos dois séculos, mas entre os anos de 1950 e 1960 eclodiu em "perigo negro", um suposto desejo de represália e, por trás de tudo
um movimento organizado, intenso e extenso, de visibilidade na- I ,,'0, a inabilidade do sujeito branco de tratar com equanimidade
cional e mundial, no qual negros de todo país e de todas as condi- II/ueles que eram vistos como desiguais. Esta inabilidade nascia do
ções sociais se engajaram e alguns brancos também se dispuseram IIIIf)osto"poder branco", da preservação de espaços exclusivamen-
a ajudar. As vitórias mais expressivas - ou pelo menos ,:nals VISIV~lS
" brancos que, agora, se encontravam "invadidos". Como cumprir
- foram: o estabelecimento das escolas integradas, a nao separaçao uma lei que ia contra todos os costumes e valores brancos?
racial em espaços públicos e o início de urna política educacional
universitária compensatória para negros (o sistema de cotas em Rever aqui todas as vertentes de estudos sobre a identidade
universidades brancas), durante o governo Kennedy". I I 'ial branca seria extrapolar o escopo deste ensaio; porém,
P()tfe~seapreender um fragmento dessa tentativa de mudança da
Assim, nas décadas de 70 e 80, os estudos sobre a construção Idl ntidads branca, a partir da aplicação da Lei de Direitos Civis
da identidade racial positiva de negros - a negritude - se intensifi-
IIr vés do estudo de Helms (1990).Um breve resumo, feito por Ja-
caram. Um estudo abrangente sobre a construção desta identida- 111 L I~elms, das linhas de pesquisa sobre a identidade branca pode
de pode ser encontrado em Cross JI. (1991).Este autor, além de re- IIlxrharnesta breve revisão.
visar a bibliografia mais expressiva dedicada ao estudo da cons-
trução da negritude, estabelece um sistema de etapas de constru- Janet Helms fez uma avaliação de processos de aconselha-
ção da identidade negra, na qual o sujeito vai, pouco a pouco, to- flll nto psicológico para pais, professores e trabalhadores brancos
mando consciência de sua origem racial e estabelecendo forma fiO IJ ntido de torná-Ios menos reativos à convivência compulsóri~
de internalização de uma nova ídentídade". Atualmente, estudos ( IPÓS a lei), em locais públicos e nas relações interpessoais.

Diz Helrns, a respeito de sua pesquisa:


A premissa básica desta pesquisa é que os construtos de identi-
13. A educação de negros, nos Estados Unidos, tem história mais longa e mais complexa,
com a participação de doadores brancos para a fundação de universidades_ para negros,
dade racial aplicam-se, de certa maneira, a ambos os grupos raci-
como universidades do sul dos EUA, por um lado; e, por outro, a rnobílização de mtelec ais (negros e brancos), embora suas expressões possam diferir de-
tuais negros formados no norte dos EUA, que se deslocavaITl para o sul, fundando grandOtl vido às experiências raciais virtualmente opostas de cada grupo,
centros de alfabetização, logo após a abolição, naquela reçiao. No Brasil, apesar de ser urnn nos EUA. Deve-se notar também que o aconselhamento psícoló-
demanda que antecipou a abolição, nem o Estado, nem a sociedade civil branca se dedica
ram a cobrir a lacuna educacional que permanece até hoje (ver Du BOIS,1903, e Pinto, 1993)
gICo fOI escolhido como a disciplina básica pela qual será orienta-
do o tratamento do desenvolvimento da identidade racial. O acon-
14. As etapas de constituição da identidade negra descritas por Cross Jr. foram baseadan
no processo de construção de identidade vivencia do por Malcolm X que, de uma idsntidn
de totalmente ambivalente e negativa, passa por processos que Cross Jr. chamou dll
pré-encontro, encontro, imersão, emersão até a superação da identidade baseada exclu 11
Vlfll se oRelatório cio Ministério cio Trabalho Americano, sobre o fenômeno do chama-
vamente na racialidade para uma identidade integral, baseada na humanidade. 1,/11 de vidro, ou seja: as barreiras invisíveis - mas totalmente perceptíveis _ para o
1111,'11 funcíonaj de negros e mulheres, nos cargos executivos das grandes empresas.

68 69
. ,. toí utilizado porque parece adequar-se Beverly Tatum punha em prática o encontro entre os dife-
selhamento pSlcologlCO 01 presentes nesta pesquisa: a) o
mais. as
' d ua s outras prermssas
. d . 1 e' um processo "norma 1"
rentes e os orientava a verificar a veracidade (ou validade real)
. d identlda e racia dos valores que lhes tinham sido ensinados durante os proces-
desenvolvImento a EUA no sentido de que provavelmente
de desenvolvlmento nos em todos os indivíduos; e b) a compre- sos de socialização.
ocorra de alguma forma da identidade racial oferece um refe-
O que esta perspectiva propõe é que, no encontro e convivên-
ensão do desenvolvlm~nto uisadores terapeutas e leigos
rencial pelo qual os teonc:tfe~~~s para pro~over o desenvolvi-
cia' ambos - brancos e não brancos - vejam-se como objeto da
podem íntervn em seus a . si mesmos e para outros mesma farsa ideológica: a de que a uns foi dado todo o poder e que
mento de identidades sadias para aos outros este lhes foi negado. O impacto sobre os alunos brancos
(Helms, 1990, p. 8). das aulas que Tatum promoveu no HollyOak College foi por eles
registrado e comentado, de modo que eles pudessem acompanhar
ícoló íco de brancos era um modo de di-
O aconse1hamento ps g . idade latentes ou explícitos eus próprios processos de socialização branca e refazer o cami-
. d d medo e a agresslVI . nho, ao se verem apanhados na malha ideológica da desinforma-
rímír a ansie a e, o " ía Assim o trabalho de m-
que poderiam surgir desta conVlvencle~os de c~mpor uma identi- ~o gerada pelo esvaziamento de sentido de seu conteúdo racial.
- . t aos brancoS tratava m 1 . .
tervençao )un o . . . d f recer possibilidades de re atIVI- A outra vertente, representada aqui pelo trabalho de Ruth Fran-
dade política posítiva e ,;naIs e ~ e" e com isso, a necessária esta- 1< nberg, estabelece a necessidade de se conhecer o comporta-
zação do poder bran~o ameaça, o '_ 11\ nto branco, descrevê-Io e analísá-lo, antes de se estabelecer as
bilidade para vivencIar a nova sltuaçao. .
, utratéqias de intervenção no processo das relações raciais. Seu
, s deveriam ser instrumental1zados
Sob este pnsma, os branco de um direito legítimo, mas isto , utudo com mulheres feministas brancas (ampliado depois para
t mulheres sem inserção em movimentos sociais ou políticos) ofere-
a perceber o outro co~o de~~ ~~ reconstituição de uma identid~-
não interfena necessana:ne. condi ão racial. Tudo permanecena ,', um quadro não apenas das decepções diante da falácia ideoló-
de voltada para a sua propna f sem capazes de absorver as mu- Ul' .rnas de como esta falácia se institui como modo de pensar e
igual, para brancos, desde quelí~s.o Janet Helms avalia os proces- IIr nentir o mundo racializado à sua volta, e de como ela se susten-
danças sociais com certo aqui _n d' íxa de observar que, em rnuí- I" Itravés da cotidiana repetição dos padrões da ideologia de raça.
sos de aconselhame_nto, as ;ao :selheiro não 1he permitia res-
rr: 1"1 mkenberq vai definir branquitude a partir do significado de ser
\lI inco, num universo racializado: um lugar estrutural de onde o

ponder adequadamente as t
tos casos, a condiçao ra~lal oC~ades geradas pela convivêncIa
nSIe
to da identidade racial positiva
imposta. Assim, o desenvo vírnen a no despreparo do conselhei-
"1' ILobranco vê aos outros e a si mesmo; uma posição de poder
1\ I) nomeada, vivenciada em uma geografia social" de raça como

(não racista) para brancoS, eSba~ravua própria racialidade branca. 11111 11 Igar confortável e do qual se pode atribuir ao outro aquilo que
I II Itríbuí a si mesmo (p. 43-44). Muitos de nós, brancos, já expe-
ro para lidar com os aspect?s e r~elabOrar uma identidade, mas
Não se tratava de reconstrUlr ou 11111 ntararn alguns desses traços de conforto, cuja característica
estabilizar um "eqo" em conflito. 1111 vidente encontra-se na sensação de não representar nada
I 111 ele nossas próprias individualidades.
Ilobre esta sensação, escreveu Mclntoshi (1989, p. 11):
o conceito de branquitude
I osso dizer palavrão, [comprar e] vestir roupa usada, ou não res-
. d década de 90, trouxeram a quea pender cartas sem que ninguém atribua estas escolhas à imorali-
Outras vertentes, a partir a de relações vividas (Tatu! I,
tão da branquitude para um_e~a~~áriO branco sobre racialidacll\
1997) e para uma compreensao o I
(Frankenberg, 1995). IIltI11111 ço populado, mais social do que geográfico. onde ocorrem as relações entre
, I !lI ncos e brancos e não-brancos (Frankenberç. 1995. p. 43).

70 71
dade, pobreza ou analfabetismo da minha raça. [... 1 Posso praticar Brancos e seus enigmas
uma boa ação, em uma situação de risco, sem ter que me tornar
um exemplo para minha raça. [...1 Nunca sou chamada a falar por Talvez tUd,oque se diga aqui pareça óbvio demais, mas o ex-
todos do meu grupo racial. oes~lvamente óbvio pode esconder ciladas. Quando comecei a en-
trevístar mulheres brancas, ouvi depoimentos que eram o retrato
Esta posição, no Brasil, pode ser estendida a outros grupos ra- em retoques, do racismo e da racialidade branca, mas ouvi, igual-
ciais, especialmente (de modo ambiguamente positivo) ao grupo mente,. memonas de relações parciais, de vívêncías familiares e
dos descendentes de asiáticos - japoneses, chineses, coreanos - pessoaís que destoavam do que se prevê. Eram nestas entrevistas
os quaís são chamados a responder pelo estereótipo da inteligên-
que eu procurava uma certa coerência entre o dito e o feito.
cia e do sucesso profissional. Se um falha, alguém sempre vai se
lembrar de que "japoneses são superinteligentes e bem sucedi- Entrevistei. 20 mulheres brancas que passaram sua infância e
dos. Então, por que você falhou?" Mas, se uma pessoa negra esti- Juventude na CIdade de Itapetininga entre os anos 60 e 70 a
d' , quem
ver estacionando um carro em lugar proibido, alguém pode sem- Jl. I que me contassem suas lembranças de relações com meninas
pre lembrar que "só negros fariam isso!" I Jovens negras, na escola e no espaço do lazer. Este marco teórico

Entretanto, entre brancos, falhar nas expectativas que se for- linha SIdo e~tabelecido porque estas décadas deste século abala-
mam em torno de alguém ou cometer uma infração de trânsito (ou 11m. as relaçoes sociais e geracionais de modo muito profundo, as
qualquer outra) certamente contará com o beneplácito de alguém fiLiaISr~percutiam globalmente e que, segundo Bronfrenbrenner
que se lembrará: "coitado, nunca teve muita sorte ...": no caso da (/I,d.),foi um processo no qual os mais jovens influenciaram definiti-
infração, levará um palavrão pelas costas, que poderá, no máximo, v imente os mais velhos. Itapetininga manteve-se conservadora-
ofender a mãe preposta para estas ocasiões, mas jamais o conjun- 111 nte atada aos val~res .da tradição e do costume, mas algumas
to dos brancos, o grupo racial ao qual pertence. A expectativa para " ssoas dessa geraçao vívencíaram as mudanças e experimenta-
os três sujeitos é determinada pela sua racíalídade, mas apenas 1 un novos modos de relacionamento social. Entre elas, algumas
dois são racializados - o "japonês" e o negro. O branco preserva ~,lIlIlheres,hOJe;m tomo dos 50 anos, que tiveram expressão como
sua individualidade na "falta de sorte" e só tem mãe. 1.1 ns~essoras. dos costumes, especialmente por seu engajamen-
É esta excessiva visibilidade grupal do outro e a intensa indi- 10 político. Vejamos esta entrevista, na qual estes aspectos se
vidualização do branco que podemos chamar de "lugar" de raça. 111 selam de modo direto e indireto com suas vivências raciais.
Um "lugar" de raça é o espaço de visibilidade do outro, enquanto
Seu perfil é o seguinte:
sujeito numa relação, na qual a raça define os termos desta rela-
ção. Assim, o lugar do negro é o seu grupo como um todo e do Idade - 46 anos.
branco é o de sua individualidade. Um negro representa todos os
negros. Um branco é uma unidade representativa apenas de si Moradia - própria, às vezes alugada, sempre no centro antigo.
mesmo. Não se trata, portanto, da invisibilidade da cor, mas da in- Nível de escolaridade - universitária.
tensa visibilidade da cor e de outros traços fenotípícos aliados a
Estado civil - casada.
estereótipos sociais e morais, para uns, e a neutralidade racial,
para outros. As conseqüências dessa visibilidade para negros ó Profissão - professora.
bem conhecida, mas a da neutralidade do branco é dada como
"natural", já que é ele o modelo paradigmático de aparência e d Jdade nas décadas de 60 e 70 - 10 e 20 anos.
condição humana. Ocupação dos pais - pai: comerciante; mãe: prendas domés-
Quanto isto interfere nos processos cognitivos de brancos so III In.
bre sua identidade racial e, por conseqüência, nas relações raciais?

72 73
Locais de estudo - 1º grau: 1ª à 4ª séries no Grupo Escolar Ma-
jor Fonseca; 4ª a 8ª séries no Ginasinho (escola particular da cida- brinha da família que tinha a loja, mas ela tinha perdido a mãe, a fa-
de); 2º grau: Clássico no Instituto de Educação Peixoto Gomide, mília, não sei.:
pela manhã, e Escola Normal no Ginasinho, curso noturno. Univer- P: Elas iam à sua casa?
sidade: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itapetininga.
R: Não. Só às vezes, para fazer a lição. Eu é que ia mais na casa
A estrutura da entrevista que organizei tinha como objetivo delas.
estabelecer um diálogo, como sugere Frankenberg (1995, p. 33-34), P: E no colegial, no Peixoto Gomide, você tinha colegas negros?
no qual, pouco a pouco, a pessoa entrevistada fosse tomando con-
tato com sua racialidade e, ao mesmo tempo, mostrasse por que R: Não, nem pretos, nem mu ...pardos. As classes eram muito
nequeues, mas não tinha não, nenh um. Mas no Normal do Ginasi-
ângulo percebia as pessoas negras a seu redor.
11110tinha mais. Só que eu me lembro mais é da N mesmo, porque
P: Você teve colegas negras, no primário? r/a continuou. Ela fez o Normal comigo. No noturno, que a gente-
( u e a B. - passávamos no cinema (riSOS).Foi mais um curso de ci-
R: Eu tive muitas colegas negras. Quando eu era criança, meu nema... (risos).
pai tinha uma olaria. O braço direito dele era um senhor negro, já
bastante idoso, que tinha sido escravo. Ele tinha muitos filhos, que P: E na faculdade?
também trabalhavam na olaria e eu brincava muito com os netos e R: Tinha uma, uma só. Mas não tive amizade com ela, nem co-
netas dele. No primário eu me lembro de dois: um menino, P. e I ga. Era só de fa1aroi, oi. Mas teve um episódiomuitointeressante
uma menina parda, de quem eu não lembro o nome. Era muito quie- li formatura do Normal, do Ginasinho.
tinae.: quietinha. P: Como é que foi isso?
P: E no ginásio? R: Ahl Foi assim: eu era da comissão de formatura. Fomos ao
R: Bem, eu fiz o ginásio no Ginasinho, que era particular. Eu
I 'lubeJ Venâncio {Ayres} e começaram os senões: se todos eram
não passei no vestibular do Peixoto Gomide e fui para o Ginasinho.
nocice. se eram isso, aquilo, e não sei mais o que ... A turma tesol-
v u que aquilo era um escândalo. O Venâncio tinha exigências que
Lá tinha muitos colegas negros, mas eu me lembro de uma, a N,
/I O eram verbaliza das, tudo muito ... Mas a gente sabia que o Ve-
que trabalhava na ... [loja do comércio local]. Ela era criada pela fa- 11 ncio era racista. Na década de 50 meu pai tinha tido uma briga
milia do dono da loja e tinha uma irmã de criação, que era Iouuúui. III/FI. com o clube, porque não aceitaram um amigo dele como só-
As duas trabalhavam na loja e na casa e estudavam no Ginasinho. ( 'Ir . Era um médico, DI. Sebastião. Ele morreu quando eu ainda era
Na loja ela vendia, empacotava, fazia um pouco de tudo. A N tam- 1'11 nçe. Meu pai usou a Lei Afonso Aiinos, e dai ele foi aceito. Mas,
bém fez o Normal comigo no Ginasinho, no curso noturno. 1'11 tão, decidimos fazer a formatura no 13 de Maio.

P: Como era a N., você se lembra dela, do físico dela? P: E como foi essa negociação com o 13?
R: Ela era meio gorduchinha. No ginásio, ela usava tranças, R: Quem negociou foi a N Eu acho que ela era socie lá ... O clu-
sempre de tranças. No Normal ela já se arrumava diferente: alisava II( ficou surpreso. Nunca tinha tido um baile de toimetuie lá. Isso
o cabelo e prendia de um modo assim ... todo especial. 1/11 19681Mas foram supergentis com a gente.

P: A N. era sua colega, assim, de sair junto? P: E os professores e pais, qual foi a reação deles?
R: Ficaram surpresos, mas não se opuseram. Havia um ar as-
R: Não. Era mais colega, mesmo, no ginásio. De fazer a lição
111/ de reticência, mas ninguém verba1izou nada. Ospais também,
juntas, ela e a irmã dela que era loira. Essa irmã eu acho que era so
" IIlguns alunos não Participaram da formatura. Não sei se foi por
I .'lI , mas alguns não foram.

74
75

---- -------------------------------- -c
P: E como foi o baile de formatura? Teve orquestra, vestido es- também. Minha mãe visitava sempre o asilo São Vicente de Paulo e
pecial, tudo?
eu ia com ela. A té hoje eu tenho uma espécie de respeito pelos ve-
R: A formatura foi ótima! Baile com oiouestre, com tudo. A lhos e muita preocupação com o abandono da velhice. Mas acho
gente [brancos] se sentia revolucionário! As f~ml1las brancas e ne- que a escola influenciou também. A professora quando falava de
gras foram, todos bem arrumados. Foram m wto g~n tIS com as mo- escravidão desenhava na lousa uma corrente partida. Ela falava
ças brancas. Todos dançaram com todos. O salao era pequeno, empolga da: tinha a culpa, tinha a divida e a indignação. Era assim,
mas tinha aquelas tábuas largas, era mwto bom to... uma coisa de ficar indignada. Depois tinha o Grêmio ...
P: Então, para você, o 13 de Maio não foi.um "lu~ar interdita- P: Eu me lembro disso. Era mesmo uma coisa de indignação.
do", como foi para as outras, da geração mais velha. Eu até escrevi para o jornal do Grêmio um poema a Castro Alves,
R: Não, eu não fui mais lá, depois. Só fui quando eu era d~ dire- perguntando se ele podia ver como ainda a bandeira cobria a ini-
toria do Grêmio. Aí eu ia, durante o dia, colar cartazes, peâu para qüidade ... aquela coisa de adolescentes ... Minha mãe guardou. Eu
divulgar algum evento do Grêmio. Só isso. li outro dia e achei horrível! Mas tinha mesmo ...
P: Mas os negros não eram invisíveis para você? R: Pois é, mas isso foi até eu ser politizada. A politização me
R: Não, nunca foram. Meu irmão morava al~naquele pedaço despolitizou da raça e passou tudo para a classe. E essa coisa da
da Bernardino de Campos. Tinha vizinhos e emiqos negros. mulher também. Minha mãe foi sufragista e tinha muito orgulho
disso, mas eu só fui recuperar isso muito mais tarde.
P: Era onde eu morava. De quem você lembra? Eu lembro do
Seu B·. da Dona A, Dona B. Da B., que a gente brinc.ava o tempo A entrevistada aponta com saudades e um certo prazer essa li-
todo. Seu R., que ficava sentado na cadeira, bem velhmho, e espe- gação com a comunidade negra. Era uma coisa "revolucionária" es-
a o caminhão do DER passar para provocar os homens que Iam colher o clube mais humilde e discriminado da cidade para um baile
~~~a casa. Ele gritava: "Viva o Corinthians!", e.o pessoal do carm- de formatura. Era romper com a hegemonia de classe e raça do clu-
nhão aplaudia ou vaiava, conforme tivesse sido o resultado do be Venâncio Ayres, com as turmas da Escola Peixoto Gomide, tra-
jogo. Era muito divertido. zer pais e professores para dentro de um espaço interditado, visto

1.lJlIIIIIII
R: Eu me lembro da Dona C. Tinha uma família =»:
va um monte de gente na casa. Eu não me lembr~ do man?o del~.
Mora- om os olhos masculinos brancos como um lugar moralmente con-
taminado pela presença prinCipalmente das mulheres negras.

ras: era roda, pique, esconde-esconde, corda, .e =


Mas tinha um monte de gente. A B. foi nossa amIga de brm~~del-
~ue eu te era.
b em gran dinhal . Era uma delícia! Depois do çinesio nao
Mas, o que ocorre na sua vivência imediata com negros?
Em primeiro lugar, vejamos o que Ruth Frankenberg chama
. h encontrei

mais ... Também tinha um senhor muito velho, .que = a SI o es- ti "geografia social de raça" da entrevistada. Este conceito refe-
I ·se a um espaço populado, mais social do natural. no qual as
cravo, que morava num casebre, ali na escadana Cfue18 para o Pe-
quetá. Meu pai era amigo dele. Ele tmha ~ns pes enormes, que I) ssoas circulam e convivem em razão de sua raça. São locais de
nunca viu sapato. Eu era fascinada pelo pe dele. moradia, vizinhança, estudo, passeio, trabalho, lazer, viagens de
li rias, ocupados por pessoas segundo sua condição racial, inde-
P: Você teve muita convivência, muita proximidade. A que p ndentemente de sua classe social (Frankenberg, 1995, p. 43).
você atribui isso?
A geografia de raça da cidade de Itapetininga, como a vejo
R: Em casa já tinha essa coisa ... Meu pai o.di~va~ racismo, di-
I(lora e como os depoimentos confirmam, estava dividida em
gro. E minha mãe era muito religiosa, =-=
zia que era uma coisa terrível. Ele tinha um I?elO lI~ao qu.eera ne-
ent~o ctizie que no
cristianismo não havia diferenças entre nmguem. Tmha os velhos,
r upaços que delimitavam os universos raciais e sociais de for-
111(1 muito nítida.

76 77
o centro da cidade era ocupado pelo conjunto da população
branca de classe média, vinda de famílias tradicionais ou por imi-
grantes que ali se estabeleceram e se casaram com mulheres de
famílias mais antigas. No centro, localizavam-se as duas praças: a
dos Amores e a da Igreja Matriz. Nas ruas em torno deste centro fi-
cava o centro comercial. que se estendia até a Rua Campos Salles.
Desta, em direção à Estação de Trens da Sorocabana, a sudeste; e
do Bairro do Paquetá, a oeste, localizavam-se as ruas onde se con-
centravam a classe operária e pequenos profissionais liberais: sa-
pateiros, alfaiates, mecânicos, costureiras, doceiras. As ruas Ber-
nardino de Campos e Benjamin Constant eram os redutos de
maior concentração desta população e tinham como característi-
ca a ocupação alternada dos quarteirões por famílias brancas e ne-
gras. A Benjamin Constant, em particular, era, na parte mais pró-
xima da entrada para o Bairro do Paquetá, um reduto de famílias o Clube Venâncio Ayres (ao centro), na Praça dos Amores

negras tradicionais, vivendo em casas construídas de modo a abri-


gar vários grupos que, não raro, tinham laços de parentesco.
O Clube Recreativo, destinado ao operariado branco: ferroviá-
As escolas públicas da cidade formavam um conjunto de pré- rios, pequenos comerciantes e funcionários do Departamento das
dios ao estilo do Caetano de Campos, ocupando todo um quartei- I~stradas de Rodagem - DER.
rão' com a Escola Normal Peixoto Gomide ao centro e os Grupos
Escolares Major Fonseca e Aderbal de Paula Ferreira ladeando o
pródío principal. Eram consideradas escolas de elite e tinham sido
construídas no início do século XX, formando um grande contin-
gente de professores(as) de primeiro grau. Por ser a segunda esco-
la normal do estado, recebia alunos(as) de toda a região, e a cidade
por longo tempo foi conhecida como a "Atenas do Sul".
O ginásio particular - Ginasinho - ao qual se refere a entrevis-
tada, era considerado uma escola de nível inferior e destinada aos
que não tinham" capacidade" para passar no "vestibular" da Escola
Peixoto Gomide. Seu alunado era composto de pessoas que traba-
lhavam durante o dia, entre elas, muitos negros.
A cidade contava com três associações recreativas. O Clube
Venâncio Ayres era freqüentado pela elite econômica e filhos e ne-
tos dos fundadores da cidade, onde a presença de negros só foi ad-
mitida em 1978.
Fachada do Clube Recreativo.

78 79
o Clube 13 de Maio, destinado à população negra, e cuja ori-
gem estava vinculada à da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, a
mais antiga da cidade.

Grupo de Participantes da Congada de .Vossa Senhora do Rosário


dissolvida em 1972. '

nA
erte
praça dos Amores era o local de encontro dos jovens para o
eo namoro durante ~ tin d .
. . ' o 100 g os fins de semana A parte
mais mterna da praça d .
Inilias mais'. ncas ou tradio,
era ocupa a pelas moças e rapazes das fa-
.
Igreja do Rosário dos Homens Pretos - a mais antiga de Itapetininga , . onais e, na parte externa por moças e
I pazes operanos e das famílias negras. '
NGadécada de 60, parte dos estudantes da Escola Normal Pei-
X ot o orrude atuavam p lítí I
li ntl F o ica e cu turalrnente no Grêmio Estu-
Este clube, antes de se tornar um local de recreação (bailes e (' mpl eSrnallando Prestes, com sede própria no trecho final da Rua
I os es Nos fund d G· .
festas da comunidade negra), tinha sido o local de guarda dos ob- (11 n f . . os o remio, dando para a rua Silva Jar-
jetos de valor da Igreja do Rosário, bem corno das roupas e apara- I , icavarn as mstalações do Clube 13 de M aIO. .
tos da Irmandade de São Benedito. Na década de 30, a curadoria
da irmandade foi retirada da guarda da comunidade negra, por de-
núncia de um padre da paróquia central, que acusava a irmandade
de desenvolver atividades anticatólicas no espaço do clube. A pre-
sidência da irmandade foi passada a homens brancos. Alguns de-
les tentaram manter a comunidade negra reunida em torno da ir-
mandade de São Benedito.

Grêmio Estudantil Fernando Prestes.

80
81
No espaço das ruas onde se concentravam as populações
brancas e negras mais pobres, a convivência era constante nas c~cunstancial. Não se volta mais ao local do baile de fo tu
brincadeiras de rua e no coleguismo de crianças que freqüenta- nao ser durante o dia f rma Ia, a
dades do Grêrru' .para azer trabalho de divulgação das atíví-
vam a escola primária. Mas, à medida que os alunos brancos iam o.
para o ginásio, na Escola Normal (Instituto de Educação Peixoto
Gorníde), o afastamento era flagrante, pois poucos negros fre-
qüentavam esta escola. As brincadeiras de rua também deixavam
de existir, já que adolescentes brancos e negros ocupavam dife-
rentes espaços de lazer e a brincadeira de rua, principalmente
para as meninas, não era mais autorizada pelas famílias. Convi-
vência, dali em diante, era quase impossível; as trajetórias de cada
um acabavam por afastá-los. As moças brancas passavam a ter
com suas colegas negras uma relação de subordinação: a maioria
das brancas fazendo trajetórias de ascensão social pelo estudo ou
casamento; e a maioria das negras permanecendo em suas clas-
ses sociais de origem.
Neste universo, o que se destaca é um modo branco de relacio-
namento com negros que Frankenberg (1995) chama de "qua-
se- ínteqração", ou seja, um relacionamento onde a integração não
é completa. É a moça branca que freqüenta mais a casa da moça
negra e que mantém com ela uma relação de coleguismo, mas não
de amizade. Geralmente, nos depoimentos, as mulheres brancas
que conviveram com moças e meninas negras não sabem dizer o
que aconteceu com as suas colegas negras depois desse período
de vivência escolar. /slrnu Ribeiro, wn dos poucos ite tinin
UJubeVenâncioAyres. Este ''pri~e. "lhanos negros a freqüentar o
A B. foi nossa amiga de brincadeiras: era roda, pique, escon- r los cantores brasileirosde suce glo e era conceclidopor ser um
de-esconde, corda, e olha que eu já era bem grandinha! Era uma carreira(Nafoto, acompan::~d~~s ~~:ssI;~~::~~~, ~~;~ge da
delícia! Depois do ginásio não encontrei mais ...

Observem que, no depoimento da entrevistada, a memória I 'I li i. ~:~~~~:~~u~~sC~~~~~e~~o~aio não era vedada aos oran-
desta convivência é agradável. é constante e valorizada moral- 11/ izes de classe média branca freqü~ atsmUlhe~es declaram que ra-
mente pela família. Entretanto, os valores da família e da educa-
I:',v!lf:o~~ar dIasmoças negras, con~:e~:~a~ s~:~~:~~n~~~~~
ção, que alimentam a indignação diante do racismo, vão ser "es
. ora masculina Impedia as mo b
quecidos" na prática política que considerou classe social como o /I" 1/ m do local fr .. ças rancas de se aproxi-
, equentar suas festas con .
único ponto de partida para análise das relações sociais, inclusiv /l11(lrasde classe operária, muitas delas' em VIverdcom as moça»
a racial. É interessante notar também que a idéia de estabelece I /lI suas casas. prega as domestIcas
um vínculo social próximo é visto como uma "transgressão", um
enfrentamento dos valores elitistas e racistas que norteavam 0.1 egundo outra depoente' "[ )
11/11 I mas uma branc ... os rapazes mais avançadinhos
estatutos do Clube Venâncio Ayres. Entretanto, esta vivência , moça ranca? Jamais!"
I" o trecho de outro depoimento é ainda mais contundente:

82
83
P. Você me disse que, no seu tempo de juventude, havia um
problema assim: se você tivesse uma colega negra, poderia um ra- dinação do outro. Não vêem sua ' .
paz branco acreditar que essa menina fosse mais disponível e você que a família fazia para manter um propna ~obreza ou os esforços
me explicou uma coisa que eu não entendi bem. Porque elas eram classe. Na entrevista que eleot dado de Igualdade estrutural de
gI
ança de seu pai é um ..empr: ~a~,aeste artigo, a pessoa de conti-
empregadas e os rapazes tinham acesso sexual às empregadas ...
comércio - as mais velh gla o negro. As moças trabalham no
R. Isso eles tinham. Os rapazes áotunsm com as empregadas. as re atam que - .
empregadas no comércio e os h nao VIam moças negras
Principalmente se as empregadas fossem mocinhas, isso indepen- lhos braçais - ou como em omens es~a~am sempre em traba-
dente de elas serem brancas ou negras. Eu ouvi dizer uma vez que uma posição de sUbordina~;~~~~~s domestIcas, e isso delimitava
as negras eram melhores. 1992). Entretanto é a na-o d I I~namente confirmada (Heller
I t ' emarcaçao ou - ,
P. E quando acontecia de uma moça branca ter como colega 19 a como mais fortemente en an d nomeaçao racial que se
uma moça negra, ela poderia ser abordada por um rapaz que acha- ao da branquitude: g a ora no processo da constitui-
va que aquela moça negra era mais acessível... R. O [Clube] Venâncio [Ayres l ti . _
R. É. Elas já não andavam com a gente mesmo. Mas, no caso ~am. verbalizadas, tudo mUito tmha eXigencias que não
/lanciO era racista. ... Mas a gente sabia que o Ve-
de ela pedir para andar com a gente, eu não sei qual seria nossa ati-
tude. Eu também não sei porque eu não passei por isso. A gente P. E os professores e' .
chegar e dizer "vamos ao cinema, vamos passear", a gente nunca .
. pats, qual fOIa reação deles?
fez isso. Não era para evitar nada, não passava pela nossa cabeça , R. Ficaram surpresos mas n - .
tnm de reticência, mas nid é ao se .opuseram. Havia um ar as-
fazer isso. A gente teve uma formação diferente, não passava mes-
( alguns alunos não p'ettt ~ m verbalizou nada. Os Pais também
mo pela nossa cabeça. Nem maldade, nem fazer um bem para I lCiparam da fo - ,
, SO, mas alguns não foram. Imatura. Nao sei se foi por
aquela pessoa, de convidar para vir sentar na mesa, comer com a
gente. Não era maldade. Não passava pela nossa cabeça. Não sei E ainda:
se podia andar, se não podia, ninguém falou nada.
, R.·,Não sei se podia andar lco
Aqui, além do aspecto moral que estabelece a relação entre tuoauém falou nada. m moças negras), se não podia;
mulher branca e mulher negra, na juventude destas entrevistadas,
Não tendo como de
um segundo dado é igualmente importante. Na realidade, é esse cio "outro", e a não eXPli~~~c~osua condiçã~ racial, demarca-se a
dado que vai determinar o conceito de branquítude, visto por /lllposta superioridade conü ç ou nomeaçao das razões de uma
Frankenberg (1995). Branquitude pode ser definida através de três () il- . rma o que se 'f' ,
S encio sobre sua própria racialid ven ica cotIdianamente.
aspectos básicos: (/0 outro. A neutralidade toma ade
faz exacerbar a racialidade
1) uma situação de vantagem estrutural de privilégios raciais; 111,se, na verdade, uma porta d a ~aça um dado dIspensável. Tor-
1l111verso que é observado e ~I~ro, Gera a transparência de um
2) uma posição ou lugar do qual as pessoas brancas se obser- tIOS" que devem muda s~omo,~mco, geral, imutável. São os "ou-
vam' aos outros e à sociedade; ,. r. ao os outros" d
"tiO os "outros" que são vistos ,que evern se aproximar.
3) um conjunto de práticas culturais que são freqüentemente dI) , esquecidos... ' avaliados, nomeados, classifica-
não demarcadas e não nomeadas (p. 1).
Nos depoimentos, as mulheres percebem algumas das vanta-
gens e privilégios que desfrutam, mas não os associam diretamen- nquitude e alteridade?
te à raça. Porém, quando se sugere que façam a comparação entre
sua condição e a do outro, elas relatam sempre posições de subor- Se neutralidade e "trans - ... .
(11 mais evidente da construp~re~cIa ra?Ial correspondem à mar-
çao e uma Identidade branca, o dis-

84
85
curso sobre a alteridade, no interior dos estudos sobre relações ra- ofensa, para o aluno queixoso N- ,
d cíaís, necessitaria ser reavaliado. A constituição da alteridade é o nar fatos ligados às relações r . . aose sent~~ a vontade. para ensi-
reconhecimento de um outro, a partir de um nós. Exige processos ferenças raciais. aciars: escravIdao, dISCrImmação, di-
cognitivos de comparação, classificação, constituição de seme-
lhanças e de diferenciação, além da reciprocidade - eu sou o outro . Uma possível razão para este fat '
Identidade em que "outro" d o e que, no contexto de uma
para ele; ele é o outro para mim. Porém, nos depoimentos, esses "igualdade na diferen a" n~o po e ser o semelhant.e, o discurso da
processos não se evidenciam. Não há com quem se comparar, a rente não existe com; "outr~?ogedsr compreendIdo, pois o dife-
não ser consigo mesmo. Só existem as semelhanças e é com estas que eu não existo enquanto alguém \ e:~e nem sequer existe, já
que eu construo um universo possível de ser compreendido e no- de diferença A . - . _ a em nomeado em termos
meado. A não-percepção de si é condição para a não-percepção lidade de algUé~o:~~~~~acJaI nao nomeada pode excluir a possibi-
do outro. As entrevistadas. em muitos casos, não sabem, não lem- de igual-semelhante igu:~eI'r-sal
e e reconh~cer o outro em termos
bram, não vêem pessoas negras ao seu redor e há um visível esfor- , gu e Igual-dIferente.
ço de memória para incluir, no contexto do diálogo, um dado não
percebido: "Nossa! A minha memória se apagou para isso!" - eflexões finais
declara com espanto outra entrevistada.
Através do método dialógico utilizado nas entrevistas por Até onde meus estudos I . _,
Frankenberg (1995), a autora constata quatro modos de percepção IIuturar um panorama da br me ~varam, ainda nao e possível es-
do outro, na memória das mulheres entrevistadas. Destaquei aqui 110 Brasil. Não é possível an~ltUde em umversos mais amplos
apenas dois, que parecem ser mais comuns, na memória das en- I rancos como modo de c;ener z~r os efeitos da socialização de
trevistadas: I/Ide não Possa ser reconh~~J~a~~ de Identidades o~de a alteri-
IlIulheres entrevistadas demonst~am alguns ~o~ deP?Imentos, as
[...] um [modo] parece, de início, caracterizar-se pela ausência de ~' o de cor/raça de si e do out uma especio de mdiferencia-
pessoas de cor na vida da narradora, mas acaba por ser apenas V o de igualdade d 1 ro, quando este se encontra em posí-
eixaeinemeote" toda branca. Há contextos nos quais diferenças e c asse ou entre pa ( .
/lnt Uvas, por exemplo). res como nas disputas es-
raciais estão presentes, mas não são significativas e funcionam
como um filtro para a percepção, pois nem sempre podem ser Por outro lado o que é d d
conscientemente percebidas (Frankenberg, 1995, p. 43). '"II/tas das experiências dess:s o c~~o re~idade e ,o q~e sustenta
Ir I lações de subordinação. mu eres e a recorrencla cotidiana
Esta pode ser uma das causas mais complexas para a escuta
I ra Agnes Beiler (1992) id '.
decodificação das flagrantes vivências de racismo por crianças I~' 0, Não é apenas h t ~a VI a cotídíana possui uma signifi-
negras, por exemplo, no espaço escolar. Ali, muitas vezes, profes I ('(nteúdo e SignifiCaed~r~~~n;~(nela ocorr~ndo .vá~iosaspectos
soras brancas alegam não reconhecer práticas ofensivas entre cri I
" I Ir uía não é eterna e imut , a Í mas tamb~m hierarquica. Esta
anças brancas e negras como expressões de racismo, ou dizem I'/lIco em função das dif ave. mas modIfIca-se de modo es-
não saber como "lidar" com essas questões. erentes estruturas econômico-sociais
I...J A heterogeneidade e a ord híerá . .
De todas as entrevistadas, apenas uma não é professora de 1u organicidade) da Vida quOtld em uerarcuíca (que e condição de
e 2º graus, embora algumas já não exerçam mais a função. Entr I lüar uma expIicitação "norm~~~ comclde~ no sentido de possíbí-
tanto, as que a exerceram, ou as que ainda exercem, dizem se s 11 'penas no "campo da Produç- "a produçao e da reprodução, não
tir muito desconfortáveis no momento de abordar questões racíaln 110 que se refere às formas de i~t~r;â%~~~fl~f(~~~~~' 1~~ ~a~~ém
Não compreendem a queixa ou tentam amortecer o impacto (11
NI) crue se refere às f de i ,
, I III sas formas da c~r:::as e I~tercambio e assimilação ime-
17. Gtiio da autora.
UDIcaçao, que atestam a maturidade

86 87
dos seres humanos para a cotidianidade, elas ocorrem sempre
CLUBE vENÂNCIO AYRES. Estatuto do Clube Venâncio Ayres. Itapeti-
"por grupos", seja a escola, a família, as pequenas comunidades.
ninga, 1979.
Esses grupoS, vis-à-vis, estabelecem urna mediação entre os indi-
víduos e os costumes, as normas e a ética de outras integrações DEGLER, Carl. Neither black nor white: slavery and race relations in Bra-
maiores. O homem aprende no grupo os elementos da cotidianida- zil and United States. New York: MacMillan, 1971.
de, os quaís. mais tarde, o integrarão no mundo amplo, onde estão DU BOIS, w.E.B. The talented tenth. In: GATES, JR. et aI. The future of
diluídas as dimensões do grupo comunitário e poderá orientar-se the race. New York: Vintage Book, 1996 [Publicado originalmente
para mover-se nesse mundo amplo, além de mover este mesmo em The negro pioblem. 1903J.
ambiente (Heller, 1992, p. 18-19). EUA. Departamento do Trabalho. Relatório sobre a iniciativa do Teto de
David Roediger (1995) observa que se a raça é ideologicamen- Vidro, 1991 [Relatório da Comissão Tripartite contra a discriminação
racial no trabalho],
te construída, ela o é a partir de padrões de vida reais, predizíveis e
repetidos. É a conexão com a realidade que confere à raça um tal I,ERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes.
poder de apelo ideológico. Percepções do mundo em termos raciais São Paulo: Atica, 1978 [V. I e IIJ.
ocorrem porque "parecem razoavelmente consistentes em relação I'IDÊNCIO, Carlos. Itapetininga, ontem-hoje. Itapetininga: Cehon, 1986.
a aspectos da experiência de vida das pessoas" (Heller, 1992,
I'RANKENBERG, Ruth. White women, race matters: the social construc-
p. 19). Ou seja, para brancos (tanto quanto para negros), a expe- tion of whiteness. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995.
riência racial pode confirmar ou desconfirmar a visão que urna
pessoa tem do outro (ou do out-group), através de dados "de reali- GUILLAUMIN, Collete. L'ideologie teciste: çenése et language actuel.
Paris: Mouton, 1972.
dade" observáveis, tais como aparência, objetos, lugares, etc.
HELLER,Agnes. O cotidianoea história. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
Assim, ainda que este ensaio não venha a sugerir formas de
superação destas "realidades", fica aqui a indicação para iniciar- HELMS, Janet E. Black and white racial identity: tlieoiy, research and
practice. New York: Greenwood, 1990.
mos uma reflexão sobre como ultrapassar as "consistências" ofe-
recidas pelo cotidiano, não apenas enquanto discriminados, mas McINTOSHI, P White privilege: unpacking the invisible knapsack. In:
igualmente corno discriminadores. Atuar sobre um poder por ve- Peace and freedom. S.l., 1989.
zes mais simbólico do que real, sobre crenças de supremacia bran- MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Ática
ca' sobre valores "neutros" e "transparentes" é um esforço igual 1986. '
ou talvez maior do que o que se despende para apagar das mentes MUNICÍPIO DE ITAPETININGA. Lei n. 2962. Prefeitura Municipal, 12 de
de pessoas discriminadas as marcas do preconceito, do medo, da dezembro de 1989.
insegurança e da desigualdade.
NOGU~IRA~Oracy. Tanto preto quanto branco: estudos das relações te-
É trabalho conjunto, para muitas décadas, durante as quais as Cl8J.S. Sao Paulo: TA Queiroz, 1985.
formas "consistentes" do cotidiano possam ser alteradas, a ponto
. Família e comunidade: um estudo sociológico de Itapetininga. Rio de
de reformularem também as imagens que ternos de nós mesmos e Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais/Instituto Na-
uns dos outros. cional de Estudos Pedagógicos/Ministério da Educação e Cultura
1962. '
. Relações raciais no município de Itapetininga. In: BASTIDE, Roger;
Referências bibliográficas FERNANDES, Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em
São Paulo. São Paulo: Anhembi, 1955, p. 362-553.
CROSS JR., William. Shades of black: diversity in African-American iden-
tity. Philadelphia: Temple University Press, 1991. LIVEIRA, Rachei de. Relações raciais na escola: uma experiência de in-
terv~nção. São Paulo, 1992 [Dissertação de Mestrado, Supervisão e
currículo. Puc-SPJ.

88
89
4, COR NOS CENSOS BRASILEIROS 1
PINTO Regina P. O movimento negro em São Paulo: luta e id~ntidade.
Sã~ Paulo 1993 [Tese de Doutorado. Universidade de Sao Paulo
FFLCH - Departamento de Sociologia].
+ .. as escri-
PIZA Edith O caminho das águas: personagens temuuaee negr
tas por ~ulheresbrancas. São Paulo: Edusp/Com-Art/Fapesp, 1998.
ROEDIGER. David. Towards the abolitiOn ofwhiteness. New York: Ver-
so, 1995. Edith Pize
SEADE; Itapetininga. Dados informativos. São Paulo/Itapetininga: Sea- Fúlvia Rosemberg
de/Prefeitura, 1994. Na literatura brasileira sobre cor, desde os trabalhos de Oracy
TATUM, Beverly D. Whyare a11the black kids sitting t~gether in the cafe~e- Nogueira (1985), que distinguiu a regra de origem (descendência)
ria? and other conversation aboutrace. New York. Basíc Books, 199 . da regra de marca (fenótípo). tem-se mencionado a permeabilida-
TEIXEIRA, Maria Aparecida da S. Bento. Resgatando a minha bisavó: e da passagem da linha de cor no sentido do branqueamento. A ex-
discriminação racial e resistência nas vozes de trai?alhadores negros. ressão "o dinheiro embranquece", mesmo relativizada por Nel-
São Paulo, 1992 [Dissertação de Mestrado, PSicologia SOCial na on do Valle Silva (1992) e reservada a indivíduos racialmente não
Puc-SP]. muito distantes, tem sido o paradigma para se pensar e discutir a
fluidez da linha de cor no Brasil. Entretanto, é necessário refletir
um pouco mais sobre os processos de auto e heteroidentificação
d cor no Brasil para se perceber a sua complexidade.

1. Este artigo teve sua origem em uma pesquisa realizada no Núcleo de estudos sobre rela-
y es de gênero, raça e idade, do departamento de pós-Graduação em Psicologia Social, da
Plle-SP, financiado pela Fundação Ford, em meados de 1990.
Naquele momento, a bibliografia sobre coleta de cor no Brasil foi exaustivamente levanta-
1111, porém era bastante escassa, embora houvessem estudos que tratassem indiretamente
do problema, além da literatura do IBGE, principalmente as instruções para a coleta dos
!'IIOSOS modernos decenais e das séries históricas.
Nu decorrer dos quase 10 anos que separam a formulação original deste estudo dos
IIlns atuais, alguns estudos altamente relevantes foram desenvolvidos sobre esta
'1\1 stão Assim, no sentido de atualizar o leitor, listamos aqui a bibliografia mais re-
!'llnle sobre o tema:
1I10E.A cor denominada: um estudo do suplemento da pesquisa mensal de emprego de ju-
11111 de 1998. Rio de Janeiro: IBGE, 2000. [Texto para discussão, Diretoria de Pesquisa n. 3.
fllILor:José Luiz Petrucellí.]
11111MARÃES, Antonio Sérgio A. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Ed. 34, 1999.
1'1N'I'O, Regina Pahim. Os problemas subjacentes ao processo de classificação de cor na po-
/ll/lllção Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1996. [Textos para discussão.]
II·a,LES,Edward & LIM, Nelson. Does it matters who answers the race question? Racial
, IlInlllficationand income inequality in Brazil. In: Demography. v. 35, n. 4, SI., 1998.
I. tn ainda ressaltar que, apesar dos esclarecimentos dados por pesquisadores e militan-
10 Imprensa e órgãos que utilizam o quesito cor em suas pesquisas, o uso da palavra ne-
11iJ V m associado a pessoas de cor preta. Mais de uma vez nos foram pedidos esclareci-
lilllllLossobre este tipo de uso da cor e de um referencial seu de caráter político. Entretanto,
11lonorar esta diferença entre termos, a mídía e outras instituições confundem o leitor e
1I 1\ ti ixam margem à própria população de se incluir ou não numa categoria que demanda
, 1I1111t;lênciaracial e outra que se refere exclusivamente aos dados de aparência.

91
90
o padrão contemporâneo de classificação de raça no Brasil tem
sido preferencialmente fenotípico, e este padrão parece ter manti- estudos estrangeiros e bras" .
do uma certa constância no plano das relações interpessoais, para a mterpretação das r il~l[OS e mais um grand .
como podem confirmar estudos estrangeiros e brasileiros sobre a te na compreensão do elaçoes raciais brasileir e COn:PlIcador
terminologia utilizada na auto-atribuição de cor, a qual se baseia sos devem realizar p redobrado esforço que rn 'li~s,pnnclpalmen_
em um sistema combinado de cor da pele, traços corporais (forma- nhecido de diferença~ra manter a qUestão raci~ antes e estudio_
SOcIaIs. cOmo fator reco-
to do nariz, lábios, tipo e cor de cabelo) e origem regional. Tam- A pergunta mais fre '.
bém no plano instítucíonal' isso se traduziu por poucas variações dados censitários bra . c:ruer:temente feita or .
no vocabulário utilizado para coletar a cor da população, as quais ~om~m aos paises de ~~81~Se_noSentido dePap!~sqUlSadores aos
estão vinculadas a aspectos históricos e sociais próprios de cada fIcaçao de cor do P açao mestiça' c a~um Problema
um dos seis Censos anteriores ao de 19913 que coletaram dados ?elo IBGE para a ~o~~~a~estiço (já que e~teO~ ~:t~aa autoclassi_
sobre o quesito cor. l?teressadas napro ri a cor)? As pesqUisas 1 ~no estiPulado
A cor brasileira e a democracia racial brasileira têm sido objeto :lOS estabelecidos gel:d~de ~a respOsta do entreestao geralmente
de estudos sistemáticos de pesquisadores estrangeiros que apon- ISto é, os estudos ques~'mstltUições responsáve~lStado aos crité-
Entretanto, quando um lOnam o dado em sua dIS pela_sColetas,
tam ora a variação na nomeação da cor (Pierson, 1951 e 1967; Wa-
ra sua cor, ele o faz e resp~ndente dos censo Im~nsao macro.
gley, 1952; Harris, 1964), ora as estratégias sociais e raciais de en- iruturais quanto micr: funçao de determinaçõs braSileIros decla-
cobrimento do racismo (através de processos falhos ou inexisten- A . estruturais. es tanto macroes_
tes de coleta da cor pelos censos), ao mesmo tempo que registram s determmações m
uma aparente tolerância racial no processo de miscigenação, em Ios que estabelecem as /cro:struturais têm sido .
face dos padrões birraciais europeu e americano (Skidmore, 1991); tentativas individuais Ig.açoes estreitas entre d °fJeto_de estu-
'os estudos têm s ou mstltucionais de b ec araçao da cor
ora reproduzem, sem contestar, as crenças nas relações fluídas, e
ueitos raciais e daSed~cupaAdo da formulação :anq~eamento. Pou-
ainda muito pouco conhecidas, entre linhas de cor e classe social. u nsitários. Assim os correncIas dessas muda mu ança dos Con-
O mito (alimentado pela ideologia da democracia racial) de que o
e; bemos como m~is ~spect~s microestruturai~~as para os dados
dinheiro ernbranquece e de que, no Brasil, o espectro de cores cor- /! rcebemos a lacuna e ~cessItados de observa ?ram os que per-
responde a uma cor puramente social aparece com freqüência em c/ terminolOgia raciald XIstente na compreensão çao ~este .nivel,
estudos comparativos (cf. Davis, 1992). Considerando sempre uma tos na incessante trocaos censos e sua reinterpretda !:lPlrCabIlidade
perspectiva unilateral- a da população neqra" brasileira -, estudos (l1J)formamo campo da ~ntre. o olhar de si e o Olhaçaopelos SUjei-
estrangeiros e mesmo brasileiros deixam de notar que, no proces- T I entIdade racial ar do outro que
so brasileiro de construção de identidade, a população de brancos entamos considerar' .
C'/ IS, visando com re aqUI .0 diálogo entre
(ou dos que assim se considerem) não coloca como dado impor- IlHo e de heteroat~ib~in~ermaIS profundamentessas duas instân-
tante de identidade sua cor, raça ou etnia, como ocorre, por exem- çao de cor" na socied d e os P.rocessos de
plo, na sociedade americana. A desconsideração desse dado pelos a e brasileira.

2. o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - é o órgão responsável pela realiza-


ção, pelo processamento e pela divulgação dos recenseamentos realizados a cada dez anos O
pelas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (PNADs), realizadas anualmente.
3. Os censos a que nos referimos aqui são os de 1872, 1890, 1940, 1950, 1960 e 1980.

4. No contexto deste trabalho, usaremos a palavra negro para designar o segmento racinl
composto por pessoas que foram classificadas ou se classificaram nos censos como sendo
de cor preta e parda.

92
93
se proibida por lei a discriminação racial na prática da caridade ca-
A cor nos censos
merária ou das Misericórdias, a Câmara da cidade de Mariana exi-
O Censo de 1872,.primeiro r~c~n~:~~~~o loe:~~~~;so~~~~~!~ gia "atestado de brancura" para doações às instituições ou pes-
soas por elas encarregadas da criação de expostos. No caso de a
brasileira, per:~nce amda ao pe~~ ~oto-estatísticd, caracterizado
ros que MarclllO (1974) chama P .' ) mas de qualidade e criança ser denunciada como mulata, deixava de receber a doação
s (reg1stros paroqmals , . . e ficava obrigada a repor tudo o que lhe tivesse sido pago pela Câ-
por dados abun d an t e - explicitam os critenos
valor desiguais, pnnc1P~entf ior~~~en:~or da população brasí- mara. O Alvará de 1775 tornava livre os expostos de cor preta ou
utilizados nos processos e co e os ue~itos, como subtópico da mulata. Entretanto, o acatamento pela Câmara de denúncias sem
leira é estabeleC1da _p~a ~~d;: entr~ livres e escravos. Os termos necessidade de comprovação (como nos tribunais inquisitoriais)
condição socml, enta? lV1 1 ão foram: branco, preto, par- sobre a origem das crianças expostas, sugere que essas crianças,
escolhidos para clasSlÍlcar a populaç didos como resultantes da livres por direito, foram depois reescravizadas (Mello e Souza,
do ~ caboclo. Pardos sã~ c=~~~:~ãO os indígenas e seus de~- 1991, p. 33-37) em virtude de denúncias sobre sua origem racial.
uniao de pretos e brancos, c rmos branco preto e pardo sao Durante o século XIX também se pode encontrar casos de utiliza-
cendentes. Considera~d~ que °r~t:m racial, o C~nso de 1872 pare- ção de critérios de origem para a atnbuíção de cor. Lima e Venân-
cores e caboclo pO~S~I.rmz.n~ °d gfenótiPos e descendência para a cio (1991), estudando a condição de expostos no Rio de Janeiro
ce ter usado um cnteno m1So e_
pós a Lei do Ventre Livre, constatam que depois de 1871 há um
caracterização racial da populaçao. - blí
do censo geral da populaçao, pu 1- crescimento de declaração de expostos como pardos, decaindo
O Censo de 1890, segun ula ão geral e por estado xpressivamente o número de brancos (1991, p, 69). É possível su-
cou dados sobre cor somente para ~;0~abO;10e mestiço. O críté- por que, sendo a criança exposta e nascida a partir dessa data, hí-
civil. ~tili~OU os termos b~an~~ ~~eq~e, neste caso, mestiço (refe- I oteticamente livre', não fosse mais necessário burlar a regra de
rio místo e nova.mente ut za ultante da união de pretos e bran- ti scendência para receber estipêndios que pagassem os custeios
rindo-se exclus1vamente ao resu " . d sua criação. No caso de adultos, Sérgio Buarque de Holanda
cos) e caboclo estão vinculados à descendenc1a.
(1993) comenta a ordem régia de 1726, que vedava "a qualquer
É importante notar que o critério de deSCtendhistênco.in~c~sg~gUU~~ mulato, até a quarta geração, o exercício de cargos municipais em
. d . cunstânC1ase momen os .
Brasil em determma as crr t do século XVIII apresentam a Minas Gerais, tornando tal proibição extensiva aos brancos casa-
estudos realizado~ em docume~ os lada a um critério de descen do com mulher de cor". O autor considera, entretanto, que essa
condição de mestiço (mUlato~v~c~o e Souza (1991) sobre a cria ordem não foi cumprida à risca em outras províncias, pois um pa-
dência. No estudo de Lauta e e npéndíos do Senado Provin I! 'ar de D. João V, de 1731, sobre uma denúncia feita em Pernam-
ção de crianças ab~ndoGnad~scO~u~~r~constata que, embora tos h\1 o contra o bacharel nomeado Antonio Ferreira Castro, alegava
cial de Mariana, Mmas srais. a 1111 "o defeito de ser Pardo não obsta para este ministério e se re-
plir muito que vós [denunciante], por este acidente, excluísse um
. - . recente Marcílio (1974) propõe a existênclll 1\ I .harel Formado provido por mim para introduzirdes e conser-
6. A coleta de dados censitários no Brasil nao e . eira à primeiro, que a autora chama dll \I des um homem que não é formado, o qual nunca o podia ser por
de três períodos distintos na demografl,: brasil . tade do século XVIII e caractenza tlll
Ir I, havendo um Bacharel Formado" (Holanda, 1993, p. 24-25).
pré-estatístiCo, vai do início da cOlomzaçaon~~ea~:~s pelos demógrafos, apesar de não tn
pelas poucas estimativa.s geraIS, normalme do contato com o branco. O segundo momentn
cluírem a população de índios que V1Vlafora t d do século XVIII e termina com o pnmoun
Durante o início do século XX, os Censos de 1900 e 1920 não
proto-estatístico - iniCla-se na segunda me a. ~ chamado de era estatística, tem 1IllQ\tl cor em sua coleta de dados. Estes censos pertencem já à
1I11'1IIfram
~ecenseamento geral, em 1872. O terceiro Pee;:i~a~'osposteriormente, mantendo-se a dll!11
em 1872 e reproduz-se na sene de censos r. que realizam censos periódicos, por \TI 1.0
de 1940 para a inclusão do Brasll entre os PaJse~. mente por um órgão especializado II
dos modernos de coleta e pubhcados Sistema ica
1,111elo Ventre Livre previa o aproveitamento da criança como escravo até os oito anos
Id.\l1! e houve também casos de reescravizaçãa (Maura, 1991).
IBGE (Marcílio, 1974, p. 6-7; IBGE, 1990, p. 22).

94 95
chamada era estatístíca, e o Censo de 1920, ao não incluir este Os censos posteriores, de 1960 e 1980, não fazem menção aos
quesito, justifica-se nos seguinte termos: problemas do respondente com a declaração de sua cor, explící-
[...] as respostas [ocultam] em grande parte a verdade, especial- tando apenas a classificação estabelecida para a coleta.
mente com relação aos mestiços. muito numerosos em quase to-
O Censo de 1970 não coletou cor nem explicitou os motivos.
dos os estados do Brasil, e de ordinário os mais refratários à cor ori-
ginal a que pertencem [...] sendo que os próprios indivíduos nem Este censo ignorou a cor como dado necessário à caracterização
sempre podem declarar sua ascendência, atendendo a que em ge-
da população brasileira. Durante a década de 70, estudos criterio-
ral o cruzamento ocorreu na época da escravidão ou em estado do uoe como o de Costa (1974) sobre inclusão do quesito cor em cen-
degradação social da progenitora do mestiço. Além do mais, a to IJOS futuros foram realizados por pressão de pessoas interessadas
nalidade da cor da pele deixa a desejar como critério discriminativo, nesses dados (movimento negro e pesquisadores) visando a pre-
por ser elemento incerto {..i (apud Lamounier, 1976, p. 18). paração para a coleta do Censo de 1980.

Diante dos argumentos e justificativas dos censos para a ín-


Esta justificativa aponta novamente para a forma mista de clas-
clusão ou não do quesito cor, perguntamos: onde reside a dificul-
sificação utilizada no Brasil, lembrando a dificuldade do e~trevls (Iade de incorporação da cor e seu tratamento nos censos?
tado em declarar sua origem, ou de se definir (ou ser defimdo) fe-
notipicamente pela cor. Benedict Anderson (1991, p. 164-170), em estudo sobre a for-
mação das nações asiáticas após a independência das metrópoles
O próximo censo brasileiro a coletar cor foi o de 1940. Este c uropéías, alerta para a importância de se compreender como, em
censo, primeiro da série de censos modernos decenais, estab~lec
momentos específicos da história, a raça torna-se elemento desta-
o critério de atribuir as cores branco, preto, pardo e amarelo a po-
c' Ido nos estudos demográficos, enquanto em outros chega a
pulação brasileira (ver critérios a seguir). Sua coleta sob~e cor, p issar desapercebida. Segundo Hirschman (apud Anderson,
como a de 1872, é extensa e abrange todos os outros quesitos de
1D91, p. 165), que estudou as categorias censitárias na Malásia à
caracterização da população. A partir desse censo, os termos utílí-
111 dida que a colonização se fixa, as categorias dos censos ter-
zados para designar a cor não variaram mais. IIrlm-se mais visíveis e exclusivamente raciais; depois da indepen-
O Censo de 1950 (o segundo da idade contemporânea dos cen- d ncía, elas são mantidas de forma mais concentrada, mas rede-
sos brasíleíros), segue as cores utilizadas no Censo de 1940 e, na cnhadas e reordenadas.
parte destinada aos conceitos, refere-se à cor nos seguirltes termos:
Este fenômeno pode ser constatado nos censos brasileiros em
Cor - Distribuiu-se a população, segundo a cor, em quatro grupo lI/uns momentos: em 1872, quando a colônia ainda está muito
- brancos, pretos, amarelos e pardos -, incluindo-se neste últim I /( sente (apesar da Independência), a cor é aplicada a todos os
os índios e os que se declararam mulatos, caboclos, cafuzos, etc. IIIC sitos pesquisados; em 1890, com a mudança do regime mo-
Reconhecendo embora tal circunstância, julgou-se oportuno pro
li rquíco para a República e o final da escravidão, o censo se preo-
ceder a uma pesquisa, uma vez que o recenseamento tem sido, DO
Brasil, o meio empregado para obter elementos mais amplos so \I p menos com as raças e mais com as nacionalidades represen-
bre este assunto (IBGE, 1956, p. xvií-xvííí). IC Ias na população, resultante da política de imigração para repor
111. o-de-obra escrava.

osteríorments, no Censo de 1940, realizado sob um regime


Iulítlco de inspiração fascista, para o qual a raça desempenha pa-
pll Importante na formulação da nacionalidade, o quesito cor (e
II clerivativo racial) vai ser retomado e exaustivamente explora-
8. Grifo nosso. ln fi inovação deste censo, comparando-se aos censos asiáticos

96 97
No Brasil, o reconhecimento das questões raciais é antíqc".
do século XIX estudados por Anderson, não se sustenta na "cons- Atendo-se principalmente ao aspecto da constituição de uma na
trução de classificações étnico-raciais, mas [...] em sua quantlÍlca- .lonalídade brasileira, surgem, no século XIX, as propostas de uma
ção sistemática" (Anderson, 1991, p. 168)B "virilização da raça:", compreendida através dos mecanismos de
Em 1872 inaugura-se a fase de coletas dos recenseamen~o mbranquecimento da população brasileira possibilitados pela imí-
gerais. Em 1890, o recenseamento da população se rspetiu. porem oração européia. Até o período dos anos 20, os argumentos para a
com resultados questionáveis, uma vez que a coleta o~orreu em formação de uma nacionalidade são nitidamente raciais. A partir
um momento político muito conturbado da história brasllelra, com de 1930, porém, com a repercussão dos estudos de Gilberto Freyre
o advento da República e rompimento entre Igreja e Estado". Er.n que aparentemente colocam as três raças num nível isomorfo de
1900 e 1920 realizaram-se ainda outros dois recenseame~tos geraIs constituição da cultura, a raça tende a ser menos considerada, em
da popi.lação. Neste último são incorporadas, pela ?Ilmelra ~ez, detrimento de uma cultura brasileira de caráter nacional (Schwarcz,
informações referentes à produção agrícola e industr:a~. Na~ deca 1993, p. 247). Em 1940, os esforços das equipes de governo são no
das de 1910 e 1930 (períodos das I e II Guerras MundiaiS) nao hou- nentído de estabelecer uma nacionalidade única, prirlcipalmente
"través da educação dos filhos de imigrantes que tendiam a preser-
ve coleta censitária.
var suas culturas de origem (Schwartzman et aI., 1984).
A idade de ouro dos censos nacionais inicia-se com a coleta
de 1940, para a qual contribuiu o demógrafo italiano Gio~gioMo~ta- Após o Censo de 1950, o quesito cor foi coletado duas vezes,
ra. inaugurando-se a série de censos moder~~s .de~enal~. ~eallz~ Irn 1960 e 1980, sendo publicado de forma - usando a expressão
do com extrema acuidade, este censo deu uucio ainda a l~clusao de Thomas Skidmore (1991) - "esquelétíca".
de quesitos especiais sobre a população feminina (fecundldade Esta pobreza de informações estatísticas, tanto em sua coleta
mortalidade) e dados extensos sobre cor da população. ~ Cens quanto em sua divulgação, tem sido denunciada como estratégia
de 1950 segue o de 1940 em diversidade de quesitos pesqUlsados. p ra jogar a questão racial no limbo das discussões sobre
prioridades nacionais econômicas, políticas, sociais, culturais e
I ducacionais.

De alguns anos para cá, principalmente a partir do processo


9. Os objetivos das primeiras coletas sobre a população variaram de acordo com o momen (I abertura política e da mobilização dos movimentos sociais,
to político e os interesses portugueses no Brasil. Assim, ate 1750, os d~d?s coletados v~~o váríos grupos e centros de estudos têm analisado as relações
vam "fornecer informações sobre as ordens de grandeza dessa população .A parnr de 1 I
(período extrativista) os objetivos da Coroa Portuguesa são nitidamente míütares: Portu~ rncíaís a partir de dados macroestruturais: caracterização
deseja saber quanto da população livre e adulta da colônia pode ser utílízada na defesa o rlomoqráfíca da população, perfil de mortalidade, fecundidade,
território. A coleta era realizada pelas Companhias de Ordenança, com~, ajuda da Igreja C~,
tólíca, que já realizava a inscrição das famílias e escravos ~as listas de desobnga pascal ,
nos registros de casamento e de batismo. Após 1750 (penodo do vI~e-remado). o obJetlV~
muda' agora é eleitoral e interessa à Coroa saber quanto da populaça~ livre e adulta es~vu
apta a votar nas assembléias provinciais e a apresentar candidatos eleglvels nas assembleJas
e no Senado (IBGE, 1990, p. 22-3). Neste período, a Igreja se enc~rrega da coleta~ através 1. Alguns autores como Schwarcz (1993) a situam em 1871, momento da declaração da
das listas nominativas recolhidas em cada paróquia, "que constituia a unidade de mf~r~a, II Ido Ventre Livre, que impunha uma nova perspectiva de relações entre negros e brancos
ção e a base para o número de eleitores [... 1". Este procedimento apresentava muitas a ~.I 1111 Brasil.
e excluía parcelas importantes da população. Por exemplo: "l ... ] os menores de 7 anos nao
12. Referimo-nos a obras do período como as de Mario Pinto Serva (1923) que, ao formula-
estavam sujeitos ao preceito pascal e, portanto,_ não constavam das listas de desobnga
1111\ a "nova" estrutura da sociedade brasileira, não se esquecem de alertar que "somos
[...]". Após a independência (1822). os objetivos s.ao cada ~ez mais sleítorais e, novamente.
111110 nação em formação, crysalida, nebulosa, massa ethnica ainda informe, heterogênea e
"[, .. 1 parcela significativa da população constitUlda de náo-eleítores mulheres, cnanças
pll\utica que assumirá os caracteres que lhe imprimirem os directores mentaes de sua evo-
escravos não é contabilizada" (IBGE, 1990, p. 23). ItIÇo" e que deveríamos adotar os critérios objetivos "l ... ] das raças educadas no senso po-
10_ Ver a esse respeito os comentários de Francisco Mendes da Rocha (o então:esponsáv~1 IIlvodas realidades [...] numa campanha pelo levantamento moral e social das sub-raças
pela Oficina de Estatística) sobre as condições sociais .e p.olí,:icas de reallzaçao da coleta qlll habitam o paíz [.. .]" (p. 79 e 122).
(República dos Estados Unidos do Brazíl, 1898 - Introauçao a Smopse).

99
98
participação no mercado de trabalho, situação das mulheres e O Censo de 1940 foi o primeiro ..
trajetórias educacionais. cedimentos para a coleta da d a explIcltar seus critérios e pro-
d t d cor a população' "CÔ 13 O
~ .o a os nos diversos censos brasil . '. r - s critérios
l~lcação da cõr, não têm sido man~i~os, noque díz respeito à qua-
Critérios contemporâneos de coleta a~da em relação à linguagem corrent ~s uniformemente, variando

Costa (1974) oferece a resposta mais abrangente sobre a


problemática da inclusão do quesito cor nos censos brasilei-
slflcação segundo a cor resultou
to, dadas de acordo com a segui
da na instrução:
t~s
e . No Censo de 1940, a elas-
respostas ao quesito Propos-
n e orma de deClaração, preceitua-
ros. Tereza Cristina N.A. Costa realiza um estudo que apre-
senta as teorias sociológicas sobre "relações interétnicas" e, a Responda-se preta, branca, amarela
partir da discussão sobre o significado de termos como raça,
qualIflcar ° recenseado segundo ,sempr,e que for possível
caso de não ser possível essa qual L o c~ractenstIco previsto. No
etnia e cor, que ela observa serem usados indistintamente, de- zontal no lugar reservado pa IlCaçao, lance-se um traço horí-
senvolve um estudo sobre as dificuldades do levantamento do ra a resposta.
quesito cor nos censos.
Daí resultou a Classificação da Q ul -
A primeira dificuldade enfrentada, segundo a autora, é a ine- étnicos - pretos, brancos e p P 1 açao em três grandes grupos
, amare os - e a con tít . -
xistência de critérios universais para o levantamento desse que- grupo generico sob a designação de' s 1 uiçao de um
ram declarações outras como cah fardas, para os que reglstra-
sito. A Onu, manifestando-se sobre este assunto, considerou que se limitaram ao lançamento do tra oc o,. mulato, moreno, etc., ou
dados a respeito das características étnicas, raciais e de nacio- pleta omissão da resposta foi atr~~dSomente nos ~aso.s d~ com-
nalidade estavam sujeitos a condições e necessidades nacionais. clarada. Apenas nos quadros 4 62 a a deSIgnaçao Cor nao de-
Para a Onu (apud Costa, 1974, p. 98) a dificuldade reside basica- grupos "pardos" e "pessoas d ~ !lguram separadamente os
mente no tipo de composição da população onde a cor vai ser demais foram os dois englObad~scort na~ declarada"; em todos os
pesquisada e nos significados atribuídos à cor. Ou seja, em dos que constituíam o segundo ~ ~~~ endo ao peC11:Ie~o número
posta traduziria, em muitos casos u a a que a .omISsao da res-
países de população miscigenada, o quesito cor pode resultar
pressa de mestiçagem (IBGE 1950' ma reserva a declaração ex-
em respostas que reflitam apenas os significados sociais que a , , p. XXI).
cor apresenta nessa população; seja para os aplicadores do
quesito, seja para os respondentes do censo. Corre-se o risco, Optamos por incluir esta long a cí -
xpressar -se de um lado as d taçao porque nela parecem
ainda segundo a Onu, de os respondentes falsearem a cor, afilian- , , mu ançasno 't"
outro, as ambigüidades p _ cn eno racial de cor' de
do-se ao grupo que tenha mais prestígio social, ou de o coletor do resentes nao tanto na d f . - '
quanto no procedimento de col t e lillçao de Cores
censo identificar grupos em ascensão ou em descenso a partir de e a.
uma "cor social" .
Os problemas das coletas sobre a cor em países de popula-
A mudança de critérios Ocorre a
rrupo dos descendentes de indí
Indo ao grupo de pardos p
.
t
artIr deste censo, quando o
. /elrne: caboclos) passa a ser incorpo-
ção multirracial, como no caso do Brasil, têm como ponto mar-
cante de conflito a existência, no contínuo de cores da popula-
(I pretos e brancos, nos ée~:~~v~e
1~~~e~~tendidos como mestiços
c, dos agora como pardos par e .90. Os caboclos, classifi-
ção, do grupo dos pardos. Este se constitui como o grupo onde a /11 incorporado ao grupo' d ecem ter perdído sua referência racial e
variação do pertencimento parece ser maior e mais influenciada e mestIços, genericamente falando.
pelos significados sociais da cor. É esta população que mais flui-
damente transita pelas linhas de cor, estabelecendo limites geral-
mente amplos (Wood, 1991).
, Mantivemos a grafia original do texto.

100
101
Quanto às ambigüidades, podemos formular duas pergun-
o critério, a instrução e a prática
tas: 1) por que foram incorporados no grupO de pardos, além da- Se nas instruções do cens
queles que são normalmente classificados nesse grupO, os que fIes ~ quem responde ao qUeSi~O ~ questão é aparentemente sim-
quem
não declararam sua cor?; 2) quem respondeu ao quesito cor no Icaç~o (que podem ser processos in atribui o nome da classí-
o~orndo ~o Censo de 1940)_ na ndependentes, como parece ter
Censo de 19407
Observando-se o que o Censo de 1940 estabeleceu como cri- ~~:I)ca e mais complexa, cor:;~~~~~n~eta
e como pudemos obs
=
pesquisa, a di-
a Araujo (apud Ber ué
tério para a coleta de cor, ternos o seguinte: 1) os não declarantes
sobre o perfil do aluno de c~;:r quando por ocasião da sondacie~
eram incluídos no grupO de pardos porque "em muitos casos, [ha-
em ~adede São Paulo (Januárío e:!e ~~e)tIzaç~o de adultos na cí-
via] uma reserva à declaração expressa da mestiçag " . Ou seja, raujo afirma que .,. ASSIm, Tereza Cristina
eram pardos, mas não desejavam explicitar o componente preto
de sua condição racial, tanto quanto, ao que parece, não explicita-
. ), há [em) situações d e pesqUIsa
[... .
vam o componente branco; 2) quando o declarante não se situava CI31S, toda uma etiqueta de relacícnamer em outras situações so-
em nenhuma das três cores propostas, o coletor lançava um traço partir da ideologia das relações amento elaborada, no caso a
~e faz com que de fato seiam ,raClalS na sociedade brasilei;a
no espaço destinado ao quesito cor e, a partir desta referência, cri-
çao do registro da inform~ção V;!laS as possibilidades de obten~
ou -se uma categoria de pardos. Esta categoria foi a soma das de-
mante quanto o entrevistador (apu~o~envo!vendo tanto o infor-
clarações não convencionadas no censo (branca, preta e amarela) erquo, 1988, p. 3).
e das possíveis "inferências" realizadas pelo coletor do censo (nos
casos interpretados como "reserva à declaração expressa de mes- De nossa experiência
~~~iO et aI, 1993) pUde~;:~!~~~~r a coleta do quesito cor (Ja
tiçagem"). Assim, no Censo de 1940, os pardos formaram um gru-
reJ0}J?de relacionamentos suroí mom.e~tos em que, neste
po de cor criado a posteriori, a partir desses dois critérios de res-
o cnteno estabelecido (auto~las~~~u c~m nítídez a problemática
posta. Parte das respostas sobre pardos foi dada pelos declaran- I as nos censos a partir de 1950 _ b caçao pelas cores estabeleci-
tes' parte foi inferida pelos coletoreS e analistas do IDGE. eportamos aqui duas situa õ ranco, preto, pardo, amarelo)
O Censo de 1950 incorporou o grupo de pardos, nele englo- ormcnto mencionada sobre ~ es que vI~emos na pesquisa ante ri~
bando as declarações das muitas cores e origens que formam o es- ilfabetízação na cidade de Sã;~!~l~clal de alunos de cursos de
pectro racial deste grupo. A partir desse censo fixam-se as nomea-
ções da cor e o procedimento de coleta através da auto classifica-
ção, as quais têm sido mantidas nas instruções e definições de con-
,
~:s
Durante a realização do r ' -
olou as entrevistas por uma
preta. cuja pele não demonstr
'
t~ste. uma das pesquisadoras íní-
a unas da sala. uma moça de cor
ceito até hoje. Explicita que ali foram incorporados os que assim se li t~ uruco sinal de mestiçagem a~~ p~a o olhar da entrevístadora
declararam. A diferença entre este modelo de coleta e o utilizado
em 1940 parece residir no fato de que o Censo de 1950 incorpora a ~::o~~: ;,~~:=~~~~
:IIb:'~~ :~~:r~~~~~U;;~~~;:e; n~~
declaração dos respondentes, enquanto o de 1940 mstrl.1Ío coletor
na forma de classificar os pardos. portanto, nada mais natural que
seja o CensO de 1950 o primeirO a explicitar não o "drama" do res-
~:~:~~~~:1
À e;~:;~~~~r~~~ã~ ~:~E:i~~o::~~~~a~:~~~~n:~
espaço ao lado da palavra b aIS o que marcar com
pondente mestiço (exemplo dado pelos comentáriOs dos censos de
1920 e 1940),mas o do coletor do censo que, ao se defrontar com a
v'
I
I' ~to cau;ado pela resposta co~anco e lembrar para sempre o
a possível irritação . a certeza de que ares
resposta do declarante, ainda assim respeitou o critério de auto- v, " p:la obvíedade da re~~~;::rgunta causou à declarant~(~a
classificação e manteve o procedimento estabelecido.
Sao inúmeros os exemplos d . A •

I II o e a compreensão da POPul~~~s~ncla entre a expectativa do


, ouve casos em que o decla-

103
102
de designações línquístícas"). Em outra pesquisa recentemente
d 'amarelo e deliberou durante
realizada na cidade de São Paulo (São Paulo, 1993)16,evidenciou-se
rante associou a cor da pele .~epa: ~e~er amarela, optando, depois,
algum tempo sobre a possibilldad s declararam-se amarelos, esta intensa variedade de heteroclassificação de cor no Brasil e
por pardo (ou por moreno)~ Uns pouc~oentes (amarelo sendo as- que pode ter ocorrido nos Recenseamentos Gerais a partir de
alvando, porém, que nao estav,am 1940, quando agentes do censo enfrentaram situações delicadas
ress rd e não a raça). ditadas pela etiqueta de relacionamento, pela automação e cansa-
saciado a estado de sau e, .' _ ar outros termos indicativos ço dos entrevista dores 17.
No que toca à autoclass1Ílcaçao P na questão fechada dos
apresenta os d . Foram apresentadas aos coletores 34 fotos de adolescentes e
de cores, fora os qua t ro au= 1 de cores que se sítuam
t recamam ao ro . . d jovens adultos de ambos. os sexos (entre 14 e 21 anos) situados em
censos, os declaran es . d a literatura espeCIalIza a.
entre os muitos termos localIza °ds nlassificação surgia quando diversos pontos do espectro fenotípico brasileiro, para que atribu-
roblema a c íssem idade e cor (de acordo com as alternativas usadas pelo
Para os respondentes, o P di '1 go entre os termos de que
. d
os entrevIsta os ten
tavam fazer o Ia o
. '
"
nalidades posswels de par e a
d
° IBGE). Observou-se uma intensa variabilidade na aplicação de
ambos os atributos e, no caso da classificação de cor, apenas dois
dispunham para se refemem as to uestão fechada sobre cor.
dos 34 jovens apresentados receberam unanimidade na atribui-
aridez do termo pardo, proposto na q C. ti a N A Costa e a
d Tereza ns m .' , ção' sendo que mais da metade das respostas se repartiram entre,
Retomando as palavras e dentes do Censo de 1991. na pelo menos, três categorias de cor.
• A com respon

nossa própria expenencla trevistador e respondente,


dinâmica do relaciona~ento entre lencoletordo IBGE, quando os Em dissertação de mestrado sobre atribuição de cor às crian-
pode ocorrer a atribUlçao de cor P~ o ntemente "objetivos". Mas ças em creches municipais da cidade de São Paulo, Eliana de Oli-
dados fenotíp~c?S lh~,pareçam s.u~~ledecor a alguém no ,B.rasil, veira (1994) observou a tendência - entre as funcionárias brancas
qual a "objetlVldade de atrib~lÇ definida pela combinatona de que se ocupam das crianças - de branquearem as crianças na
quando a "cor" é uma abstra,ç~o are textura da pele; forma~o
uma multiplicidade de traços. ÍlSICOS(cde cabelo), da posição SOCla! o s, a nossa preocupação em relacionar diretamente a possibilidade de inconsistência na
o' tipo e cor . .,. di claração da cor entre pessoas com níveis econômicos e salarials diferentes, uma vez que,
do nariz, olho, boca, corp .' xto populacional ma)ontano 111smo diante de treinamentos bem elaborados, a coleta de cor, seguindo o padrão do IBGE,
e da atribuição comparatwa do conte rlnveriaser pautada pela autoc\assificação; Que esta autoclassificação pode e deve ser checa-
d/Ipor outros coletores, igualmente treinados; mas, que a cor do coletor pode ser um fato de
variando regionalmente? valiem a conver Irllluênciaem qualquer situação econômica do entrevistado, como mostra Oliveira (1994)- os
. de estudos que a 111II1COS tenderiam a embranquecer, os negros a enegrecer.
Não temos conhecImento uto-atribuição de cor da po
· a de hetera e a . íd d t .Para facilitar a compreensão utilizamos os termos classificação de cor e designação de cor.
gência ou a dwergenCl rincipalmente a díversi a
A'

.
pUlaçãd4 (antropólogos analIsaram p . Gata pesquisa foi realizada entre educadores de meio aberto da Secretaria da criança,
I f IInllia e do bem-estar social do estado de São Paulo e motoristas que iriam trabalhar no
. estudo de TeUes e Lim (1998),QUu 11/10de crianças/adolescentes em situação de rua, durante o período de treinamento.
14 Visando a atualização desse aspecto, cita~O~a~~u~~ero_atribuiçãO
de cor versus a auto ., I. da Mohamed, aprofundando a primeira parte do relatório de pesquisa sobre alunos
."zou a eSQuisa da Folha de S. Paulo para es u foramexaustivamentetremados para 10 1I111nbetosda cidade de São Paulo, vem coletando entrevistas com pesquisadores que tra-
utili açã~ da cor. Segundo este estudo, os coletoreSlbidOS
entre moradores da região pesou'
lI! liam na aplicação do questionário do Censo de 1991. Na entrevista n. 10 pesquisador
nom;ecer a cor principalmente entre pardos, e esCOinstruçõespara tanto atribuir a cor cuan
111I1 que, embora o procedimento estipulado pelo IBGE durante o treinamento tenha sido
con da cidade TodoS os coletores receberam valiouQue a discrepância entre a COl
sada em caletar a cor declarada. O estudo dessa coletapara
a o modelo estatístico utilizado 1111 I p rguntar a cor da população e registrar a resposta da cor auto-atribuída, o pesquisa-
to para co .' 'gnificante - b s 'lI I nulbuíu a cor quando: 1) o entrevistado lhe pareceu ser branco; 2) a etiqueta de relacio-
auto-atribuída e a heteroatribUlda era ms. I amquenãotinham informaçoes so re a I 11\t IILoexigiu (como procedimento mais educado) que ele não perguntasse a cor; 3) a au-
aliação Entretanto, os mesmos autores dec ar uitoSdeles eram brancoS e com alto nivII 1I1I1t) o da entrevista e o cansaço acabavam por abreviar o procedimento de coleta - "I ... 1
av erísti~as dos entrevistadores, sabendo-se Quemserumavantagem, pois "tais peSS~aS,f111 t!ll'Imo questionário do dia você já não perguntava mais"; 4) só perguntava a cor se o en-
~ cacional. Os autores consideram que 1st? pode Inaqualdecisões sobre classlficaçoes 111
virI do fosse negro (Significando de cor preta) - "Mas, quando era negro, eu sempre per-
~:s
.u ecialmente adequadas a uma posiçao SOClasendoclassificadas". Porém os auLOIII~
~~~tam o rendimento das pessoas ~e estelal~ssificação racial tende Ia ser enconLra::II\
omentam igualmente que a "inconslstenCla n~ ~ 467)". Deixamos aqui, para futUlaSr 1i
IIIIIIVI\,
I / 1111
porque na instrução tinha muito esse cuidado de enfatizar: Olha, se o cara for ne-
r que é branco, você tinha Que pôr".
c pobres e com menor nível educacJQna p.
entre os
105
104
identificação das fotos. As atendentes negras, por sua vez, tende- foi
das arespostas)".
mais freqüenteme n t e empregada depois da branca (34,4%
ram a enegrecer as crianças (Oliveira, 1994).
O que a problemática do quesito cor parece pôr em evidência Sobre a alta rel~ção entre a resposta moreno à pergunta aberta
é um aspecto ainda não discutido pela literatura brasileira sobre :s~:::o:tapardo ~ pergunta fe_chada(66%), Nelson do Valle Silva
cor e que decorre do desconhecimento que temos sobre proximi- , . ' pos a análise do padrao do resíduo que "a" di
pancia do 'bom co ' ,umca sere-
dade ou distância entre os processos de auto ou heteroatribuição cativa de al mportamento deste padrão é a tendência signifi-
de cor ou pertencimento racial. A cor (ou pertencimento racial) , gun~ pretos na classificação de cor terem se codificados
que alguém se atribui é confirmada ou negada pelo olhar do outro. como morenos na desíqnação de cor" (Silva, 1992, p. 41).
Não desejamos propor aqui uma revisão do processo usado pelo de bPara alguns, este moreno pode estar designando uma procura
IBGE de auto-atribuição de cor, o que nos inquieta é a repercussão no p;~~:~a~ento. Para outros, porém, esta denomínação. tanto
possível deste desconhecimento nos estudos sobre relações racia . d auto quanto de heteroclassificação pode estar de
is, especialmente aqueles que se ocupam da mobilidade social da siqnan
cor" A o um
al proces so d e "d es- preconceituação da' nomeação da-
população brasileira em séries históricas. De um lado, a psicologia
social, principalmente os estudos sobre identidade étnica (Cross,
Jr., 1991; Goffman, 1982; Milner, 1984), insistem sobre aimportân-
~~~~;eícuIOS
neutros
enunCia~~::~e
':n~~~~~
. s p avras usadas para
!:~c:e~: s;,0
e pr~conc_elto/discriminação, de seu distanciamento e de
cía do olhar do outro na construção do eu. De outro, o processo de
coleta do IBGE que adota o princípio da autoclassificação. É possí- ~u~~~:rf~i~~it~~o~i~~,:OS ~e um :napeamento lingüístico como
black e so re atributos associados às palavras
vel supor que para parte da população brasileira ambos os proces-
como a nqegro, nem tamp~uco de uma austera política lingüística
sos não sejam idênticos, ocorrendo uma dissonância entre o reco- .. ue vem caractenzando a construção de um vocab l' .
nhecimento de si mesmo e o reconhecimento através do olhar do polítícamente correto na 1 'M u ano
outro. Não se trata de uma questão situada puramente no plano
heurístico, mas que deve ter repercussões na dinâmica das rela- ~~e~~ê~~~e~~~~n~
sem
Pal~~~~:~de:~g~:ã~~:r~:fa~~;e~:~o~
. o raci entre certos segmentos sociais nem
ções interpessoais e na interação com as instituições.
te c~::p~o:arrtelilhaçao_dea
co~ ~utros, contribuindo para a fluide~ des-
s SOCI31S
no Brasil.
o quesito cor, os critérios raciais e a identidade racial cor"~~r~~~!d~~~~~,~OC~i~,. ainda se usa ~ expressão "pessoa de
Como vimos, o IBGE emprega apenas quatro nomes para de-
signar fenótipos de cor - branco, preto, pardo e amarelo. Estudos
~!~:~:r~a;:
se:~n;~~~~r.
principalmente
~~~~r~~~~n:,::~!~~n;~~~e~~
a Escola ~: ~~~ ~~~~~loracab?OS anos 50 e 60,
têm mostrado, porém, que a população brasileira se utiliza de um
vocabulário muito mais rico e matizado. Como Nelson do Valle Sil- érie de palavras ou expressões para d~Sig~a;~ ~~~~~~~~. uma
va (1992) relata, Wagley (1952) encontrou cinco termos numa
comunidade amazônica; Pierson (1951; 1967) também encon- têm ~~s~~~~~~~lmaisrecente~ so?re a cor da população brasileira
trou cinco termos em um pequeno vilarejo do interior paulista n chamada Pro~l~:~~i~e:~xoe; Importantes, que se situam entre
(Cruz das Almas) e 20 termos diferentes para rotular matizes d movím . o ranqueamento e os esforços do
ento negro em realizar um resgate da identidade racial da
cor das pessoas na Bahia. Barris (1964) encontrou 40 termos ra-
ciais em uma comunidade de pescadores do interior da Bahia.
No estudo famoso do IBGE durante a realização da PNAD 76, fo
ram mencionadas mais de 190 nuances diferentes de cor à per 10. Esta também foi a opção mais fie üente . .
10Sde alfabetização de adultos. q dos alunos paulistanos matneulados em cur-
gunta aberta sobre a designação de cor, sendo que a cor moreno

106 107
vava na mesma época do estudo de Costa (meados da década de
parte da população brasileira expressa nos censos pelas cores 70), sugeria a expressão negro, posteriormente adotada por alguns
preto e pardo. acadêmicos e pesquisadores.
. da pelos censos segundo Costa (1974), é uma
A cor pesqUlsa '_. ." d pu- Mas, perquntarnos: o que é negro?
, . . ão de uma classificaçao racial blOlog1ca a po .
fragil aproximac t a e G1'raldaSeiferth "o concelto No Brasil, o significado deste termo passa diretamente pela
- mo lembram esta au or ' _ .
laça?, .e co _ t m instrumentalidade para as cíências so- visão de quem o utiliza, isto é, para se compreender as versões
biolog1COde raças nao e r ue os grupos humanos formam existentes do termo negro, necessitamos saber quem o emprega.
cíaís" (SelÍerth, 1989, p. 54b).PlOO'9q1·COSA diferença de cores não
tín uum de traços 10 . O movimento negro o tem empregado em mais de um modo:
um con f . os diferenciadores entre
constituiria uma raça, apenas tra~os ~Sl~C ta 1974 p 100' Sei- para definir a população brasileira composta de descendentes de
grupOS humanos biOlOgiCamoen:~~~a~~au~~ra~ con~ordam ~ue a africanos (pretos e pardos); para designar esta mesma população
como aquela que possui traços culturais capazes de identificar, no
ferth, 1989, p. 54). Ent[et:i~i~~ções de ordem física utilizadas para
"palavra raça evoca c as. ' classificação e hie- bojo da sociedade brasileira, os que descendem de um grupo
cultural diferenciado e coeso, tanto quanto, por exemplo, o dos
marcar dif:re~Ç~r~~~~dee~e~~~~ [~~~~:: definidos segundo
amarelos; para reportar a condição de minoria política desta
rarqu1zaçao . e. da têm a ver com o fenômeno raça pro-
critérios subieuvoe. que na população e a situar dentro de critérios inclusivos de pertinência
priamente dito" (Seiferth, 1989, p. 54). . dos indivíduos pretos e pardos ao seu grupo de origem (Munanga,
. nte do fato de que a cor possui um traço determmante ?8 1986 e 1990).
. D1a. _ .al Costa (1974) propõe que se estude a olassiíi-
Pesquisadores de relações raciais e alguns demógrafos tam-
hier~rqUlzaçaO SOC1 , abulário utilizado pelos respondentes d?S
bém o têm incluído em seu vocabulário. Entretanto, no caso des-
caçao e~ressa t~:o:e~te estudo seria chegar a uma classifica?a?
tes últimos, nem sempre o termo carrega o sentido racial-políti-
~~~srC:riet~~:~~ vários critérios utilizados e t~rnas~~ m~~ i~~~:c~;~ co-cultural dado pelo movimento negro. A pesquisa do Seade
bí ..'dade que parece caractenzar a ldentificaç (1992)sobre família e pobreza na cidade de São Paulo considerou o
~a~~Ul )
na sociedade brasileira" (Costa, 1974, p.l00 . . item cor para quase todas as variáveis pesquisadas: moradia, tra-
A autora contestando o conceito racial e ra?ista ~ub)acente balho, educação, família, fecundidade, etc. Entretanto, ao optar
, a reversão da classlÍlCaçao para um pelo termo negro não realizou qualquer distinção entre este e pre-
aos critérios de cor, sugere ~~ t bém é uma das metas do to, que se referiria apenas à cor. Também não incluiu entre os ne-
caráter cultural. Esta estrateg1a, que a~ valiação de uma popu- ros, os pardos. Assim, negro tomou-se sinônimo de preto, nesta
movimento negro, pode le~a~ a de~vlOs e ~embra Seiferth, "l ...] há pesquisa, que manteve as quatro categorias do censo: branco,
lação e de seus çrupos SO~l~lS:~~s~~~ã~~educionista, segundo a "negro", pardo e amarelo. Ou seja, ao deixar os limites do movi-
nas sociedades m~ltmaClal1S []" (1989 P 54). Ao trazer a cor mento negro e seus simpatizantes, o termo desveste-se de seu
al aça determma a eu tura .., " di
qp~ra~~ntro de um espectro cultural, Costa parece sugerir q~edal ionteúdo político-cultural.
. .' d grupos de uma mesma SOC1e
Um outro aspecto é a utilização do termo negro por parte da
~~:~:~!~~~~~a~~~~~:~~~sucfo~l:urais, :7<,qdUeaisdrrZ!~çi::~~r~o~tI I ciedade branca e da militância negra brasileira. O estudo realí-
. sos como atores teeu:
~~%~~~: ~~~~;~ação brasileira. A autora nã~ propõe um ter~~,
definitivo, mas o movimento negro contemporaneo, que se rea
'I. «ío por Yvone Maggie para o catálogo das comemorações do
(' ntenário da Abolição, realizadas em 1988, mostra que, em con-
l xtos puramente culturais, como os que ocorreram durante as
r stívidades do centenário, o termo negro parece adquirir um cer-
to isomorfismo com o termo branco. A cultura negra e a cultura
19. Grifo nosso.

109
108
~~~n~~::f:r~~~~~t~ i:;li~~~:l:~~~~~~~~~~~:o~:~~~~~~~~~ e suas decorrências, tais como a campanha "Não deixe sua cor
Diz a autora: passar em branco", visando alcançar maior adequação da respos-
ta da popUlação ao quesito cor, durante a coleta do recenseamen-
No ano do Centenário a diferençafoicOlo~ad~dnatcdul~~~:~~~~ to realizado em 1991. Essa campanha, fomentada pelo movimento
- do p esente que se fala E a I en I a negro e por pesqUisadores interessados na questão racial brasilei-
é da ori~eme n~oaso :no do Centenário'reveloutambém o terror
ra, ainda não pode ser avaliada. A lentidão no processamento dos
de se pensa~ rl
que se usca;, t s" "claros" e "escuros" como mesmo díferen-
;ret~ e branco, claro e escuro, e finalmentene-
t~~~~~~~~~o~·~oposições usados socialmente para com~~lCa-
dados deste censo tem mantido a comunidade negra brasileira e
pesquisadores em compasso de espera sobre os resultados efeti-
;em diferenças significativas na cultura (Maqqíe, 1989, p. ). vos da campanha.

Um último ponto a ser tocado é aquele que, embora conside-


Desse ponto de vista, ainda segu??o Yvone Maggie, compre~ rado como percepções ideológicas da cor sustentadas nas políti-
ender o significado social do vocabulano d:sc~~~:r~n~~;~~c7:i; e cas de branqueamento da sociedade brasileira, representa a maio-
corresponderia à cult~ra; preto e branco to da diferença social ria das expressões coleta das pelos cersos: a do respondente que
1 ro à tentativa de escamoteamen .

~~ei:!~~~~~;~r~ ~~~:a~~~!~~;~us~~~~e~~~~~~:;
na cultura brasileira (Maggie, 1989, p. 24).
nem está vinculado ao movimento negro nem possui uma cons-
ciência social e cultural autônoma.
Para a maioria dos declarantes, a cor auto-atribuída no momen-
to da declaração POSSivelmente limite-se a defirlir um traço físico
O estudo de Regina P. Pinto sobre a histó~a do movimento ~e~ que não expressa pertencimento racial ou étnico, no sentido de que
gro em São Paulo aponta em. direç ão,.talvez maisFabrangente
to (1993) ao s
o pro- o sujeito respondente se veja inserido num grupo diferenciado por

:~oa d~~~~:~~~~~d~~~~~~:~F~~~~~EonI~~~~t{:!~~~~~i.
f.orq~s~~ P~~~~~~s(~~t~~~~~~~ou~~onstrução.da identidade ét
outros sinais de identidade além do que está sendo imediatamente
solicitado. O que os inúmeros termos utilizados pelos respondentes
dos censos para se auto-identificarem podem explicitar não são
apenas os valores sociais que os respondentes atribuem à cor ou à
;:; tende~a utilizar
: cultur~:~~~~:~~~~~~ n~~~o~~~: raça, mas também as ambigüidades enfrentadas pelos sujeitos res-
pondentes ao se inserirem num sistema de cores onde a cor, e ape-
::~~~r~;:~ ~~~~~~:e~~i~ ~~:u~al para a r~orientação política em nas a cor, é responsável pela sua inserção nos grupos sociais de cor.
face de outros grupos étnicos. DIZa autora. _
ilustramos aqui a questão da auto-atribuição de cor através do
A etnicidade e, considera
. da [J... como uma formade interaçao
'ais Oll
co I tudo de Moema Poli T. Pacheco (1987), o qual apresenta magis-
. ndo dentro de contextos SOCI IlaImente os conflitos e as ambigüidades surgidas da auto e hete-
tre grupos C~~~~I~ ::~ negro dialogaou tenta dialogarcom I
muns, na me I d a cultura própria. No dec I roclassificação de cor em famílias de baixa renda do Rio de Janei-
sociedade, enquan~o~~r~~~r c~n~~ua conscientização de lIllI 10,Ao entrevistar membros de famílias mestiças, a autora consta-
rer desse proce~s , um "outro"e portanto o fortalecimentodll I,I n grande variedade de termos e de combinações entre os termos
"nós" em oposiçao a . ' d' a cultura nO{Jll1 IlllgüÍsticos que se referem à cor e os que se referem a outros feno-
uma identidade étnico-racial, bem como e um
(Pinto, 1993, p. 51). llpos que reforçam ou confirmam a cor que se deseja atribuir a si
111(mo e a outra pessoa. Pacheco (1987) ressalta dois elementos
1/lI/lortantes para se compreender o sistema classificatório utiliza-

z:
Desta perspectiva, a construção da etnicidade é trajeto n~c~/:I
lI! Inela população preta e parda que ela entrevistou. Prirneiramen-

~~~~i~i~~:d~~~~r~~~:~ ~~~~~~:n~~~~~ ~~t~~s~~i~~aQ 11 11I" na relação que o tipo racial de uma pessoa é definido", isto é,
"II} ito que atribui a cor a outro o faz em função de seus próprios

110
111
atributos raciais e define o outro em termos comparativos. Segun-
do: o sistema de atribuição de cor pode estar também associado a ço evolutivo - do estágio 1 para o est' .
near nem contínuo M aqio 5 =, entretanto não é h-
outros atributos, como o local de origem do sujeito a quem se atri- . omentos de ce t '
em relação ao pertencimento racial r eza e conforto psicológico
bui a cor. "Em resumo, uma vez que as classificações são relacio-
atItudes reativas de ne a ã . podem ser acompanhados de
nais, lança-se mão de uma terminologia para dar conta das possi-
tencer ou não a u~a cultgurÇa0/ e mcertezas sobre o desejo de per-
bilidades de manipulação, que se acentuam devido à predominân- . . e ou raça Mes
cia no grupo do elemento mestiço" (Pacheco, 1987, p. 89-90). A os prnnerros estágios de contato com' ~o. os.que ultrapassam
lízam um movimento dí t . a questao etmca/racial não rea-
autora revela com grande acuidade o sistema de cor ambíguo no Ire o para a ídentíd dI'
qual seus entrevistados estão inseridos e nas formas que encon- podem permanecer "congelad" I a e pena. Os mdivíduos
tram para abordar a questão racial fora do discurso informado pelo processo, oscilando entre o comos em alguns do~ estágios desse
movimento negro. çada e o desligamento dos at Pro:;.ISSOcom sua Identidade esbo-
dos que a nova identidade lhOSpo t!COS,sociais, públicos e priva-
Um outro aspecto desta mesma perspectiva é o que se relacio- . . es Impoe O mo .
propno de todas as etapas :. vnnento oscilatório é
na ao processo de construção de identidade racial pelo qual pare- Parte da identidade mesma)' np_orqu:a IdentIdade racial (enquanto
cem começar a passar as gerações mais novas de pretos e pardos ao se rorma com al
como algo constantemente em ro o go acabado, mas
brasileiros. Neste processo, as marcas culturais construídas pelos te e mutável (Cross Jr. 1991 P19cesso, constantemente mutan-
, , p. 1-223).
movimentos sociais são elementos importantes de sinalização di-
acrítica de identidade. Entretanto, as diferenças culturais, para se Cross Jr. analisou o Processo d _
de afro-americana para os e construçao de uma identida-
tornarem modos efetivos de diferenciação (a ponto de serem ex- contexto sociocultural pod ~egros americanos. Embora varie o
pressas em termos de pertencimento étnico), necessitam ser, pri- latório é semelhante para e se pens~r que este movimento oscí-
meiramente, absorvidas no processo de identidade dos indivíduos de maioria racial/cultural as pOPuplaçoesnegras fora de contextos
de cada grupo. E, como nos alerta Cross Jr. (1991), o processo de negra. arece ser t .
capturamos nos estudos sob es e mOVImento que
construção de uma identidade étnica é longo, demorado e realiza- d os compoe - re cor no Brasil d
uma parcela da I _ ,on e o grupo de par-
do por etapas que incluem momentos de evolução para patamares terminar lugares sociais e c~~pu.açao para quem a cor pode de-
mais acurados de pertencimento racial e/ou cultural e de involu- ela escolha da cor que o ín di 'd urais rnutto variados, dependendo
.
I)UIdasocialmente VI uo se atrib /
ção para modos reativos aos traços dia críticos de identidade. Aind _ ua e ou que lhe seja atrí-
tidade racial dos i~diVíd~o~uenao se coloque o problema da íden-
Segundo Cross Jr. existem cinco estágios no desenvolvimento
manece subjacente às resPos~::a~Isados, e~a possivelmente per-
da identidade racial de pessoas neqras". Para cada um desses es- li Ira ao quesito Cor dos cen ,~opulaçao preta e parda brasi-
tágios há posturas definidas que vão desde a negação pura e sim- sos e as mterp t -
111 nte, foram feitas dessas respostas. re açoes que, posterior-
ples de ser discriminado racialmente (o que poderia incluir uma
aversão por tudo que lembre a condição racial/étnica) até um está-
gio de superação do dado racial de identidade como principal refe-
ntidades raciais e linha de cor
rente da condição humana. Este processo tende a manter um tra
I\. importância desta reflexão sob . .
IJlo, pesquisados pelos re as IdentIdades dos indiví-
20. o primeiro estágio, onde se esboça a identidade a ser mudada, é o pré-encontro. O II I,· 111 carater apenas exploratório
censos como já f
' a lImamo~ acima, não
contro (estágio 2) isola o ponto no qual a pessoa se vê compelida a mudar. A irnersâo-emoi
são (estágio 3) é o momento crucíal da mudança de identidade e dos movimentos psicosso IlJti( I mente sobre a ímpo tâ .: mas nos leva a reflsttr mais deta-
ciais de aceitação e recusa da identidade em preparo; e internalização e ínternalízn
r ancia dos fato
, 1110 de ClaSSificação da p I _ res que entram no Pro-
ção-compromisso (estágios 4 e 5) descrevem o hábito e a internalização da nova ídentídad« 1111 utras variáveis. opu açao por cor e na relação da cor
(Cross Jr., 1991, p.190-191).

112
113
gere que cerca de 38% de
pretos em 1950, mudaram ~~~~ns e mul~eres que se declararam
Na ausência de estudos equivalentes ao de Cross Jr. (1991)
~ntre pardos e brancos, análises er~flcaçao para pardos em 1980,
para o Brasil, devemos nos contentar com conjeturas e Sugestões
que, ao complicarem ainda mais os campos dos estudos sobre
relações raciais no Brasil com base em dados censitários,
as e reais mdicam ainda

que nã os pronunciada s '


te
ei as sobre populações roíe
para branco foi be~ men ' que a prevista reclassificação pl tda-
ar o
dd (: se poderia descartar a rec1assjf' e_e que tinha havido, e
evidenciam a lacuna e a necessidade de pesquisas sobre o tema. 2 ood, 1991, p, 104), icaçao de branco para par-
O que os estudos de Cross Jr. (1991) trazem de novo neste
contexto de rotulação da cor da pessoa? Que o pertencimento Além de dar pistas b
I racial não constitui um dado imutável na vida das pessoas. É
possível esperar, ou pelo menos levantar como hipótese que, na
~~rsar também no sen~~or~~ ~~~~~em da linha de cor se pro-
da man W.Rama e os estudos de Charlcnn;nto, as sugestões de
trajetória de vida das pessoas, haja mudanças no processo de mais Interessantes porque per ít es : Wood tornam-se ain-
\ sar na cor como uma variável rm em abnr a trilha para se pen-
autoclassificação de cor. pes,qUlsadores se perguntem dependente, estimulando a que
Germán W. Rama (1989) sugere, na análise de dados sobre denam estimular as pessoas qUaIS dímensões da vida social 0-
educação em São Paulo com base em informações retiradas da propostas pelo IEGE. Ou . a se auto-rotularem nas catego p
PNAD 1982, que a passagem da linha de cor poderia ocorrer em ~ad~ de não se analisar a ~~ra~:~~;:,~s sugedndo aqui a nece~~s
outro sentido: um escurecimento da população. Sendo unidade de ,en ente, mas também com "amente como variável inde-
coleta censitária o domicílio e levando-se em consideração que ~~~na~aiS intrigante quando~:~;~~:::ependen te. A questão se
são os chefes de família que atribuem cor aos membros menores oes e VIda que se traduzem e ' ,em pelo menos duas con-
nero e a idade , m vanaveis demoqráfí caso, o ge-

em cada domicílio, os dados sobre cor coletados seriam definidos
pelo pertencimento racial do chefe de familia.Rama (1989, p. 25)
Sugere que o pertencimento racial declarado nos 21censOS poderia , Estudos recentes sobre . -
: ira (Silva, 1992) e, mais p:~~!lçaO raciaida população brasí-
variar de acordo com a idade dos chefes de família , o que poderia ,',r-racial no Brasil (Berquó, 1991' s~~ente, sobre casamento ín-
significar que as diferenças de idade internas aos grupos sociais I rr;,0 se o processo de autoclassif !, 1992) analisam os dados
determinariam formas de auto-identificação que se alterariam no
tempo. Um único respondente declararia a cor em nome de outros
que, futuramente, poderão alterar seu pertencimento racial (n
:~I'~
I( omen~ e mulheres, assumin icaçao d.e cor fosse idêntico en-
~~cutmdo sua eventual deco~~é~~~odmformaçãoobjetiva - e
incaçao _ o excedente de e processo subjetivo de
medida em que se tornam chefes de família com maior consciên I :li no brancas na população (Be;nu~eres
que se autodeclararam
cía do significado social e/ ou político de seu pertencimento racial). ,;::': estudo já citado de Wood ~~I~·d., p. 2; Silva, 1992, p. 21).
Esta hipótese também foi sugerida por Wood (1991) no S8\1 ''',",n~~~n~i~~~u~~r;:~:.~~ outra nãol~~:~i~~,en~:~~~:~c~~
estudo sobre mudanças na auto-identificação racial baseado n'l I} I, p. 100-101). mparam homens e mulheres (Wood
técnica das relações de sobrevivência. Assim, este autor conclui:
'I' mbé '
A técnica das relações de sobrevivência mostra que o núrn 111 em nos estudos sobre a .
n de cor dos pais (como " .cor dos filhos segundo a combi
projetado de pretos estava bem abaiXOdo número real, levantado
pelo CensO de 1980, A razão entre os valores reais e esperados 8\\
I

1111111a aos filhos pelo ch~i:


~flrma~o~,. é a classificação de co;
I 111\do Valle Silva (1992) b e dornícílio), Carlos Hasenbalg e
o servam, sem discutir, que contra a

21. Entre chefes de família com 40 a 59 anos de idade, 74% se auto-identificaram COIIIII --------
brancOS, 6,5% como negros, 15% como pardos e 4,2% como amarelos, Entre os de 20 (I' ti
anos de idade 71% se identificam como brancoS, 7,1% como negros, 18,6% como paldo~
3.1% como amarelos (Ralua, 1989. p, 25),

115
114
expectativa do geneticamente esperado, "as combinações com
acreditamos que a tradicional for .
preto tendem a gerar resultados mais claros, e as combinações da] nas estatísticas oficiais ' f md de mensurar a Identidade ra-
com pardo tendem a gerar resultado pardo" (Hasenbalg e Silva, portanto, os estudos que a utílí un amentalmente ~álida e que,
1992, p. 74). No Estudo da dinâmica demográfica dapopulaçãone- velfidedignidade a d' - zarn [...] devem cobnr com razoá-
gra no Brasil, Elza Berquó e colaboradoras (1986) oferecem argu- va, 1992, p. 41). imensao racial que pretendem mensurar (Sil-
mentos para esta nossa reflexão em tomo de determinações psí-
cossociais na atribuição de cor e da necessidade de aprofunda- Levantá-Ias aquí tem o tíd d .
mento da questão. Com base em tabulações especiais do Censo tes de segurança necesSário~e~ 1 o e .mf~rmar o leitor sobre Iírní-
de 1980, as pesquisadoras evidenciaram uma no Brasil e estimular a pr d _a apreclaçao dos dados sobre a cor
dimensões antropoló ica o uç~o de estudos e pesquisas sobre as
clara preferência pela declaração das crianças menores de um
auto e hetero-atribul' g- de PSICOSSoclalno processo brasileiro de
ano como de cor branca: com efeito, aproximadamente 152.000 çao e cor.
crianças menores de um ano declaradas brancas seriam filhos de
mãe de outra cor. O contrário acontece para as crianças de cor
preta e parda: existem aproximadamente 63.000 e 87.000 crian- Referências bibliográficas
ças cuja mãe tem cor preta ou parda e elas não a têm (Berquó et
al., 1986, p. 36). ANDERSON, Benedict. Imagined ' , ,
and spread of nationalism L codmmumlJes: reflectJ.ons on the otiçin
. on on: Verso 1991
Cabe notar ainda que nada se sabe sobre um fato que deve es- BEROUÓ, Elza Como se b ,.
meo.].· casam mncos e negros no Brasil. s/d, lrní-
tar permeando o concreto das relações e as pesquisas: como se dá a
classificação de um negro por um branco. Ou seja, deve haver uma -. Como se casam negros e brancos n B .
variação no tempo e esta variação necessitaria ser considerada. Desigualdade racial no Brasil o rasil'fn: LOVELL,Peggy (orq.),
Ouaís seriam as orientações subjetivas para atribuição de cor à pro- deplar, 1991, p. 115-20. contemporaneo. Belo Horizonte: Ce-

le em um país marcado por desigualdades raciais; se pais e mães se BEROUÓ, Elza et a1. Estudo da dinâmi ' .
comportam da mesma forma; ou como brancos classificam negros gra no Brasil. Campinas' Nepo/U ca demográflca da população ne-
. . mcap, 1986 [Textos Nepo 9]
são perguntas que, por enquanto, ficam sem resposta". / RAZIL. DIrectoria Geral de E t ' . ' .
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to de 1872. Rio de Janeiro~ j!j:e s~ p~ocedeu no dia primeiro de agos-
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o que fazer? OSTA, Tereza Cnstina NA' . ..
do IBGE: notas para ~m;a:tls0'A classificação de "Cor" na pesquisa
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. O pnncIpIO classificatório "cor" su . ..
imponderáveis no processo de pertencimento/atribuição racial no para um estudo censitário In: R' . a ~omPl~Xldade e Impllcações
Brasil? Abandonar o mapeamento das informações estatísticas n. 3, p. 91-103. Rio de Ja~eir~, t9~~ta rasilelIa de geografia. V. 36,
com certeza não é solução. Como afirma Nelson do Valle Silva:
(:/ OSS Jr., William. Shades ot bl 1" di '. .
tity, Philadelphia: Temple U~~v~rsi~e;s~r1m Afncan-American iâen-
I ' .
)/\ VIS, F. James. Who is bteci; one n ti' '. ,
Pennsylvania: The Penns j . sa on s denmtlOn. University Park,
23. No estudo anteriormente mencionado, Wood (1991)deixa de discutir, analisar e contro- , y vania ta te Umversity, 1991.
lar, na reclassificação, o possível impacto de o informante sobre a cor ser o chefe de domicí- (,OFFMAN, Erving. Estigma' no .
lio. Assim, nos parece inadequado ter processado a análise de reclassificação de cor em deteriorada. Rio de Janeiro: ~:h:~~~~;2mampulação da identidade
grupos de idade a partir dos 10-14 anos, 15-19 para os quais a cor foi imputada pelo pai ou
pela mãe.

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120 121
Na época, L4 - como será conhecida - contava nove anos de
um sujeito'. Por vezes, essa consideração parecia anteCiPar o q~: idade. Miúda, rosto e gestos delicados, vasta cabeleira bem enca-
racolada que, com sua cor de pele, não permitiam a negação de
ainda era da ordem do ~o:~~~ jáe~~~s~sa:~~~~e~o:n~~~~e;u: a
sua ascendência negra. Mas, neste Brasil, seu fenótipo possibilita-
~~~a~e~~ ~~~:s;~:: _ trazia~ a dúvida quanto ao ~eu ~~~:~~ va que fosse tranqüilamente chamada de "moreninha". Contudo,
mento à nossa espécie: "é mesmo o comportamento eu nada tranqüilo era o modo como L. se auto definia : "eu sou loira! "
no, de um(a) menino(a)?" L. é filha de mãe negra e pai loíro''. A mãe fora expulsa de casa
Ultrapassar essa dúvida e trabalhar considerando sempre o quando se descobriu que, solteira, estava grávida. Não recebeu
. ma crença era um pOSlCIO- qualquer apoio de sua família, nem do pai de L., durante toda a ges-
contato com uma cr~a.nçaera m~:s q~e u, _ uisit~s fundamentais
namento teórico, onco e político; pre req f d âmbito tação. Após o nascimento, os pais da menína se uniram novamente,
durante um período repleto de fatos bastante conturbados, tais
para se lidar e lutar pelo tratamento. da~llOtUoCduar:scO~~iÇ~Ohuma-
. ... ti que perverte e amqui a como tentativas de homicídio por parte do pai contra a mãe; cenas
pSIqmatnco as ar, .' bé lições dadas pela equipe que teriam sido presenciadas por L. em fases muito precoces de sua
na. Essas foram as pnmeuas e asicas
vida. O casal se separou. O pai as abandonou para se unir a uma
em sua forma de agir. mulher como ele: "loira". L. e sua mãe vão para um cortiço, onde ti-
O ue deve se privilegiar no trabalho com crianças_? Brinc~r e veram que enfrentar irlclusive a fome. Hoje moram com a família do

tos e um o
:o
q - '? o caso auxiliar em aspectos da formaçao de sujei-
formdar,naome ' lúdiC~. Assim, as atividades propostas vi~a~am
- os' as oficmas
lado materno, ainda enfrentando grandes dificuldades.
Clinicamente, a criança sofreu graves alterações em seu de-
senvolvimento psicoafetivo de tal modo que foi situada, clinica-
~~~~r!~:::~:~~~~~:~~~;~r~: ~:u;~~:~i~:,i~u~ra~és do ~OVi~
mente falando, na fronteira entre a neurose e a psicose. L. já havia
das artes de cozinhar, da vivenCla ecolog1ca, dos espo es
men to , . 2 r cebido alta do tratamento no H.D. há mais de um ano, mas vi-
também do livre brincar que elas cnassem . v ãncías de privações materiais e afetivas tidas por ela e sua mãe
uxílio na formação ou restituição da subjetividade desencadearam novas crises, motivando o reinício do tratamento.
Para que o a tí pro A

oficinas deveriam operar atos terapeu lCOS,


ocorresse, nessas . f d etting do Dentro dessas circunstâncias, a minha chegada ao H.D. era
motores do desenvolvimento daquelas cnanças, ?ra o.s d mod ligo bastante esperado pela equipe. Além de ser uma nova esta-
. d lavra de ordem era a de mtervn e
terapia. Desse mo o, apa .. - de afetos que nã ,I ria que teria um contato freqüente com L., eu possuía uma qua-
lúdíco e respeitoso, svitando-se a momlízaçao . . al es IItI de importante e desejada para o caso: sou negra.
lidados em grupo As oficinas senam o pnncro
pudessem ser 1 . . ári A primeira vez que L. me viu, o fez de modo desconfiado, com
paço de ação durante o estágio. Configu~ou-se, ~ss.lI1~~ °d~e:rte
certo desdém, com o rabinho de olho: "Quem é essa aí?" Ha-
dos relatos, tomando-se, de modo especial. as lCl~ ? IIlIl
Vld indícios que não deixavam dúvidas quanto ao fato de "essa
pela qualidade e importância dos fatos ali ocorndos .
I'" ler provocado algum sentimento em L., desde o primeiro

.' ieito do inconsciente, dividido em seu s 111,1, lmcíaís utilizadas são fictícias, não correspondem ás iniciais dos nomes verdadeiros
1. Falar de sujeito, neste sontído. e tratar do SUl e dentro do possível, conhecedor 1 lil I1 Imcíentes.
falho _ impossibilitado de ser pleno de Sl me~mo - ,
suas falhas: o humano do qual trata a pSlcanalise. . . ._ "I( hltude" desse pai poderia até ser questionada, poderia se tratar de um homem "sa-
I ~ mbém mestiço de negros. Contudo, este dado perde a sua relevância comparado
2. O itálico destaca o nome das principais oficinas existentes na instmuçao.
I 1IIIIIm que exerce no imaginário da criança um pai com características de uma suposta
. .' . ndente dos conteúdos - expressamenLo IIIUI llilllllude, já que "loiro" é uma dimensão de branco.
3. Todo o matenal trazido e totalmente lnddepet OS por um psicólogo da inStltUlÇ<()
losos _ da análise da criança, realízada uran e an

123
122
6
de entre ela e nós. L., em seguida, pediu-me que desenhasse no-
ora refletida num espelho. vamente essa parte de seu corpo. Concordei. Porém, repeti o de-
ritude negada e ag .' de artes, onde L.
olhar ... Talvez a neg e ava a participar da of:Clll~e eu a desenhas- senho em cor marrom, não tendo havido reclamações por parte
Dias dep01S, eu c~a ~e reconheceu e pediU {nha negra - muito dela. L. contou a todos os presentes que possuía "píntínhas" pelo
corpo, apontando-as. Eram pintinhas imaginárias. Dissemos a ela
também eSftan~'esenhei o rosto de uma g~Ot~dO pintado com as
se ASS1m 1Z. linda cabe leir , que não era possível vê-Ias. Pediu que eu fizesse o desenho de seu
'recido com o seu - e sua _ "bumbum", o que fiz também com a mesma cor: marrom. L. com-
pa . I" nao
devidas cores. . ,,' eu cabelo de 101ro. , pletou o desenho fazendo seu tronco, pernas, cabeça e todo o res-
. cebi o ped1do pmta m di negativamente, tante do corpo como se estivesse de costas, finalizando com cabe-
Obv1amente, re mas imperioso. Respon d m giz de cera los loiros e várias pintinhas pelo corpo. Participando da oficina es-
r briguento, lhanças eu
com um a diferenças e seme Mais uma vez, o tava uma outra garota, ruiva e muito "píntadínha", Eu disse a L.
tentando mo~~~~~:to em relação ao seu :~ee;~uito efeito. "Não! que parecia que ela admirava e gostaria de ser como sua amiga.
amarelo e OU creto, à realidade, na " trouxe uma leve Silêncio. Pediu, então, que eu fizesse "cocó saindo do bumbum"
óbvio. O apelo ao con um "não sou? , que
em seu desenho. Dessa vez eu prefen que ela mesma desenhasse.
Eu sou loira!", ~egUldOPborÇO de questionamento\ "
. navia um es o d "FedOIa por L. tomou em suas mãos o lápis de cor marrom, o mesmo do contor-
esperança. chamada e no de todo seu corpo, e fez "muitos cocós". fazendo menção ao
" . " L exigia ser d d durante um
Além ~e ser lO~~a'ca~a. Esse apelido ,f~ra a~aoCriança rece- "fedô" que deles saía.
toda a eqUlpe ~ ~~ de artes, há te~~os atras . ~ríodO que não ex- Assim, parece ter sido revelada parte de uma cadeia assocíatí-
encontro da oflcm durou na memona por um P - o evidenciava o va que, hipoteticamente, teria garantido tamanha adesão e prefe-
beu um apel1do que exceção de L. Tal rete~ç~ ara a menina,
rência em relação a seu apelido - Fedo(ra) -, em detrimento de seu
cedeu uma tarde, c: teria significados espec1::: ~om alguns de I róprio nome. É concreta a ligação entre a sua cor e a cor do
fato de que esse nOeriam supostamente. coeren exigência em ser "cocó". sendo que foi sempre utilizado o mesmo lápis. A exube-
signifiCados ~ue s . ntes o que justlflcava sua apelido era utl-
.os mconsc1e, quando seu r I ncia do que sai do corpo sugere que este seja recheado de fezes,
seus d eseJ " cora" . Curiosamente, " diferia de sua de 1- ! zes malcheirosas, com fedor. .. Fedora. Talvez através da utiliza-
chamada por Fe . "mandona, o que
· do L. se mostrava maIS V o desse nome estivesse sendo expresso o goz09 contido no
1izauo. 1 entoS modo como L. podia ver sua negritude: via uma menina-cocô.
cadeza habitua. .' de artes, trouxe elem _
O relato de uma tard:'f~~~~~~~ de algumas ~s~:~~:çoes Essas conexões, associações supostas", são bastante coeren-
11 n com várias piadas e ditos populares racistas, como "se negro
que contribuíram par~ 'fi ados desse nome pata .
1I I caga na entrada, caga na saída", o que faz com que seja possí-
acerca dos possíve1s slgm c . teresse particular po~ tem~s ~~;
d L mostrou um III d várias xoxo a , VI I se fazer outras especulações. Possivelmente, esse é o modo
Nesta t~ e, ~lidade. Fez os desenhos. ~a e de outras meni- I (lI110 a mãe de L. se percebe enquanto negra, o que talvez tenha
lacionados a seXU "branca", enquanto a ~m duma desigualda- uilluencíado em sua escolha de parceiro. Um homem imaginaria-
do que a sua era " " _ evidenc1an o 1111 nte limpo, nêo-cocô, mas totalmente incapaz de respeitá-Ia
sen H D. eram pretas
nas negras do .
_------ - melhanças fíSIcas entIe a
---- d S' refletor das se
- o espelho em dOISsentl o stlonar tais semelhanças. 1I 11110que, psicanaliticamente, designa mescla de prazer e de dor.
6. consldera·se, aqUI, ( eculum), o que Vai que elidos que bnncavam
mãe e ela, e especular sp 1atnbUlU ape\Jdos às cnanças~~~ação na escolha, mas U IIlilpre é referido o caráter hipotético e especulativo das idéias expostas, por serem íru-
7 Neste encontro, uma PIO!JnSoS~~:AsSIm, não houve umu~~~e:s do lllconsClente, pode-sO " 111querias observações, sem dúvida importantes, mas fora da profundidade obtida em
. i a com seus . s própnas q 11 1'1111SOpsicanalítico, que permitisse a expressão de uma forma mais positiva, em fun-
de alguma orm 1 do que consIdera a '
111IIlIl10rquantidade de dados, vindos de um tipo de relacionamento mais controlado.
tomando-se, por ':~~ r!lat;va arbltranedade.
drzer que eXlStlU . ara se reiem à vulva.
8. Nome utilizado pela cnança p
125
124
como mulher. De forma dolorosa, mãe e filha são troca das pelo
imaginado "selo de qualidade dourado" dado pela "Ioíritude", tam- mentira que ela presentifica O _
ção real quanto aquilo que' n~e lhe faz :nal n~o é tanto D IJll11/1
bém suposta, de outra mulher. Diferenças hierarquizadas e valori-
verbalizado. É o não-dito qu~ as ssa sItuaçao, nao foi claram Illl
zadas cultural e socialmente, deixando seu legado na constituição nonni, 1970, p. 70). sume aqui um certo relevo (M II
psíquica, subjetiva.
Assim, quem pode ser L. senão a doida e doída confusão que é L. é filha de negra e branco
a "loira" Fedora? Loira e negra ao mesmo tempo, de um modo que cada uma das partes que comp6emerecendo o 1u~ar de direito de
somente pode ter existência no inconsciente, onde não se consi- Passa-se, desse modo da condi ã m a"sua, condlçao de "mestiça".
Ç
dera o tempo e o espaço tal como os conhecemos, e não há possi- feita "de café" e "de leite" Amb o de caf~ com leite" para a de ser
. os compoem . .
bilidade de contradições. O império do Princípio do Prazer e tam- materna e paterna que a constitue o mteíro, heranças
bém do gozo. vel se observar os mesmos fatos d: ~0I?~ humana. É, então, possí-
paccee. marcando a ausência de ~mo~~.a.dos..~m que p,rivilegia a
Por esse prisma, L. não é nada além de "café com leite" 11, no
rrnerso num denso discurso familiar e l_eIto,]a ,que esta todo ele
sentido mais autêntico das brincadeiras de criança: um nada, pois
to para surgir e ter sua fala indepe dqu nao lhe da lugar, nem direi-
nada vale. Nada, que tem a sua existência e permanência benevo-
/ tIOtraz o Privilégio da neurose n ente -a cela d,aloucura. O ou-
lentemente toleradas. Nenhuma regra a atinge. E como nada vale,
do sujeito para se libertar e se ia~~rq~~ o sIDto~a e o grande apelo
tudo vale. A criança aparece muito imersa no discurso matemo,
~nça, sendo marcada pelo universo Si~ ,a!raves de ~ua voz. A cri-
onde negro e loiro são marcas importantes, significantes. Loira tal-
mf1uenciados pelas gerações anten olico dos pais, por sua vez
vez seja o que a mãe de L. gostaria de ser, para sentir-se em condi-
um enigma a ser decifrado por ~n~es, apresenta em seu sintoma
ções de manter o homem desejado perto de si. Dessa forma, quem
ção no universo simbólico do ~e~o ~palavra. Na psicose a aliena-
se toma loira é a filha, através dos poderes de Midas do desejo in-
do que Ocorreria na neurose (M u ro e quase total, diferentemente
consciente materno, desejo este que L. viria a completar, para ser, annonm, 1971). '
talvez, valorizada pela mãe ao possuir um atributo que teria para ela Ser este nada de café com leite
peso-ouro. Nos fatos assim interpretados, L. não pode ser um sujei- quantum de sofrimento que traz _ ~~~talme~te Positivado pelo
to diferenciado de sua mãe, sendo somente a manifestação especu- de ser seu oposto, o tudo, inclusive foi I ~ambem a POssibilidade
lar do desejo desta. Por outro lado, os mesmos fatos e sintomas po- satento, ou melhor desavisado al bra. .para o observador de-
'
Pan h antes das vivências , go izarro Mas p
dem marcar a busca da menina em se afirmar enquanto sujeito, de e exp - " ara os acorn-
resgatar suas origens e constituir sua inteireza. O que poderia ser bi Iid
m Igm ade desta situação que ressoes hde L ., a quest-
_ ao mostra a
lido somente como uma idéia delirante - ser loira - pode ser tam- arota através de seu ato insólito ' ao c. amar atençao para nossa
bém um pedido para se nomear a parte dela que permanece recusa- I er percorrido para que L venh ,permIte a abertura do caminho a
, a a ser ela mesma!
da no contexto da família e não devidamente simbolizada: seu per-
tencimento e origens étnicos, assim como os fatos conseqüentes a , Por razões que só o inconsciente e li .
IPOSdiscussões sobre o caso decide nã xp cana, quando a equipe,
essa não-simbolização (a relação do casal pai/mãe, pai/outra mu- I., em ser chamada de "Fed~ra" _ o o maIS atender ao pedido de
lher, pai/filha; todas culminando na vivência do abandono). momento, estar se configurando que parecla, em determinado
Não é tanto o confronto da criança com uma verdade penosa que • L. pára de formular seus pedid co~o um duplo,. uma personagem
é traumatizante, mas o seu confronto com a "mentira" do adulto I1 Ia morreu, cortando-se o gOZO os, hno~e surgIu na mstituição e
(vale dizer, o seu fantasma). No seu sintoma, é exatamente essa que avia em sua existência.
No que se refere à relação comi h
l/I aproximação. L. me fazia s go, ouve um aumento gradual
empre a pergunta'" ",
11. "Café com leíte", na terminologia dos jogos infantis, é a criança desconsiderada, que li( que sempre respondia' u . voce e loíra?"
. sou negra" E ' ,
não manda, que não opina, que se submete. rva, como num jogo no qual al " ra e~sa resposta que bus-
go e repetIdo para o deleite de
126
127
quem joga. Toda vez em que se fazia necessário ou possível- mui-
tas vezes quando eu era elogiada por L. - a situação era aproveita- vesse todo O preparo de condi - ,
ao qual L. tem se submet·d hç~esatraves do processo de terapia
da para mostrar semelhanças entre ela e eu, assim como favorecer I o a anos. '
a sua percepção do quanto era bonita. Por exemplo, mostrá-Ia no Recordando o compram r '. ,.
espelho com seus cabelos soltos. no fato de se considerar e imento etíco e POlItICOexistente
caso, crianças _ é fundam!~~fre o contato com _o sujeito - no
Aos poucos, L. foi deixando de se denominar "loira" e pas-
para o desenvolvimento global d~ ofe~~ade condIçoes adequadas
sando a se chamar de "morena clara", depois de "morena". Eu,
as suas representações fenotí . suo ]etIvIdade, sendo a etnia ou
para ela, era "morena escura", o que era de certo modo permitido desse trabalho Ne t . rprcas Importantíssimos elementos
- embora sempre me afirmasse como "negra" - para que fosse . s e sentIdo as cri d
mentar em suas vívén . '.. an?as. evem poder experi-
mantido um eixo de identificação - a "morenítude" - que ela pró-
de um posicionament2:~ ~ruP~s e mstHucIonais a Possibilidade
pria havia estabelecido".
outras etnias, permitindo ~1~1~a equado e também variado, com
Entre nós, havia várias brincadeiras e códigos utilizados para humanidade plena. ance do conceIto e da condição de
marcar atividades próprias, particulares a ambas. Músicas canta-
das em determinadas situações de oficinas, "hístorínhas" que ser- Através dos breves relatos f ít .
muladas acerca deles hou eI os, ~ssIm como das idéias for-
viam como lembretes, fórmulas para execução de tarefas, como ve
tomas estão diretam~nte li ~ pre,tensa??e enfatizar como os sin-
amarrar os sapatos. Tudo foi registrado na memória de L., que ga
rnílía, transcendendo a sim os a hi.stor:a do sujeito e de sua fa-
sempre se recordava de cada uma dessas marcas todas as vezes de uma doença mental A ~les fotIfIcaçao de sinais reveladores
em que nos encontrávamos, durante visitas ao H.D., mesmo após
agir no mundo, muito ~aisS~I:, . ~ra~, pela forma com que pôde
o término do estágio. Um ritual que se repetiu sempre que possí-
se infantil. Traz a força de hí tqu.e índícíos de uma suposta psíco-
vel, ritual que revelou a importância de uma convivência do passa- têncía, e que nela interferira lS onas que antecederam a sua exís-
do, reavivada em minutos esparsos do presente.
sentes em heranças e errân~::,tr,~~r=~~e,:;: ;~~;~~ditos" pre-
Indubitavelmente, o fato de pertencermos à mesma etnia e de
possuirmos uma fenotipia próxima foi fundamental na operação
de mudanças, uma espécie de catalisador. No bojo de toda uma Referências bibliográficas
relação constituída, em nove meses de estágio, pôde ser vislum-
brada a possibilidade de não mais se negar a negritude refletida no "'REUD,S. Recordar, repetir e elab .
espelho. O tempo de uma gestação que, se fôssemos tomar a for- de Janeiro: Standard Brasileir~~a~:d.n. Obras completas. VaI. XII. Rio
mação da identidade étnica de L. desde bebê, o trabalho ainda não .ILJRANVILLE, A. A teoria do inconsci t . ,
estaria inteiramente concluído. Ainda assim, esse relacionamento Inconsciente. In: Lacan e a FiJ e~ e e.o problema da eXlStencia do
foi como um ato terapêutíco, capaz de causar alterações na posi- MI\NNONNI .. asma. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
, M. A pnmelIa entrevista e . ,.
ção do sujeito - sendo adequado ao espírito e objetivo das oficinas Carnpus, 1970. m PSlcanalise. Rio de Janeiro:
dentro da instituição.
, A criança, sua doença e os outros _ .
Também, sem qualquer sombra de dúvida, as transformações neiro: Zahar, 1971. o smtoma e a palavra. Rio de Ja-
operadas teriam outra qualidade - ou nem existiriam - se não hou-

12. A gama de cores e de aspectos fenotípicos (como claro/escuro, crespo/liso) são dados
da linguagem marcados pela cultura nacional. Marcam "critérios de pureza" relativos à
constituição da identidade étnica, tanto no que se refere à negritude, quanto ao que se refe-
re à branquitude.

128
129
6. À FLOR DA PELE

Lia Maria Perez B. Baraúna

Introdução

A pesquisa, intitulada A força psicológica do legado social do


branqueamento - Um estudo sobre a negritude em São Paulo, in-
vestigou as determinações históricas, culturais, ideológicas e psi-
cológicas da condição do negro brasileiro, tendo como foco os efei-
tos psicossociais das ideologias racistas sobre o próprio negro. A
equipe investigou a questão sob diversos ângulos, tais como: le-
vantamento bibliográfico sobre a história do movimento negro,
sobre as teorias racistas e a chamada "ideologia do branquea-
mento", estudos sobre preconceito e etnocentrismo ligados à
teoria crítica de Adorno, seminários sobre alguns textos de Freud,
etc. Ao lado dessa parte da pesquisa mais voltada à construção
de uma estrutura teórica do trabalho, a equipe realizou uma pes-
quisa empírica com o objetivo de apreender as representações
que os negros têm de si mesmos numa cultura marcada pelo
I eal de embranquecimento.
Resumidamente, podemos colocar que o objetivo da pesquisa
( mpíríca foi o de captar, através de entrevistas, não só as represen-
tnções, atitudes e valores dos sujeitos em relação à questão racial,
como também os seus possíveis suportes psíquicos inconscientes.
V rias entrevistas foram realizadas numa fase exploratória. Além
.los objetivos acima citados, elas visaram também o aperfeiçoa-
111 nto da própria técnica de entrevista a partir da análise dos resul-
t.ulos obtidos no sentido de torná-Ia um instrumento mais adequa-
(11) os objetivos da pesquisa. Foi como procedimento avaliador de
I I cnícas que o presente trabalho, através da análise de duas entre-
I, t s. pretendeu trazer uma contribuição para a pesquisa.
As duas entrevistas analisadas a seguir têm em comum o fato
111 pertencerem a essa fase exploratória, mas representam mo-
1111 ntos diferentes no caminho percorrido pela equipe para dar

131
conta dos objetivos da pesquisa. Cabe também esclarecer que as
~lg~mas ressalvas e tê-las em me ' .
entrevistas não foram realizadas pela autora deste trabalho, mas nal. a entrevistada conhecia a entte.qUando da. análise do mate-
por duas pesquisadoras da equipe. sobre a pesquisa o que c t revI~tadora e tmha informações
. " ' er amente e um .
A primeira entrevista que escolhemos analisar corresponde a SlgmflCativa, embora sela dif i1 ' a mterferência externa
uma fase da pesquisa onde havia um roteiro de temas previamente IC preCISar o quanto
estabelecidos a serem investigados pelo entrevistador. Supunha-se Analisaremos as duas entrevist .
gundo momento tentaremos ve T as separadamente, e num se-
que o roteiro, pela amplitude de temas que abordava, abarcasse to- obter em cada uma delas e n tear que tipo de dados pudemos
das as questões pertinentes à pesquisa. Entretanto, no que diz
função da mudança de téc~~;ue medIda eles diferem entre si em
respeito à apreensão dos aspectos psicológicos (principalmente os
inconscientes), essa estratégia de entrevista semidirigida reve-
lou -se insuficiente. Apesar de fornecer muitos dados importantes
sobre a vida e as idéias do entrevistado, não foi possível a partir Primeira entrevista
deste tipo de entrevista fazer uma análise da estrutura interna des-
A primeira entrevistada à al .

I
se discurso, pois ele é freqüentemente permeado pelas interven-
ções do entrevistador, inclusive com questões que não sabemos uma mulher negra de 47 an' ~ .nos refenrernos aqui corno A, é
Nasceu numa cidade do in~s,~o t~rra, de classe média e advogada.
se o próprio entrevistado se colocaria ou em que ordem. Ainda as-
sim, o material abre possibilidades para uma análise da subjetivi- sua família veio para Z denor o est~do, mas logo em seguida
co ., on e mora ate hOJ"eS .
dade da entrevistada e sugere alguns aspectos inconscientes, mas mo construtor e sua mãe era d _ . eu pai trabalhava
que só podem ser apontados como hipóteses. fora quando A já era adulta El ?na ~e-ca~a, 'passando a trabalhar
duas irmãs (sendo uma de " a..ela pnmogemta desse casal, e tem
Para fazer frente a essas limitações, uma outra possibilidade foram ~'aSSimde ficar Saind~~aç:~ . Conta ~e ela ~ as irmãs nunca
foi proposta, baseada principalmente na estratégia de pesquisa ro e nao permitia. Diz tarnb .: P se~?do, POISo par era muito seve-
desenvolvida pela Profa. Dra. Arakcy M. Rodríques' (1978) em di- d " em que seu n '.
ar , e que tem PriOrizado na sua v'd egoclO sempre foi estu-
versos trabalhos. Esta consiste em iniciar a coleta de dados com N '. 1 a o estudo e o trabalho
uma entrevista aberta, sem nenhuma pergunta estruturada ou pre- essa pnrnerra entrevista qu b .
viamente estabelecida, visando criar condições para que o entre- ~tr~~stadora começa levant~doe ;e ase.ou ~o.roteiro de temas, a
d
vistado fale do que quiser e estruture o discurso à sua maneira. Ele hlstona escolar. Não é possível saber: os,bIOgráficos, com ênfase na
também não tem informações prévias sobre os objetivos reais da m~sma se a entrevista fosse cond e ~ enfase na escolari?ade seria
pesquisa, sobre o entrevistador e nem mesmo sabe quaís os crité- Inegavel que a entrevistad UZld~,d~ outra manerra, mas é
hlst' . a, por sua vez alinh "
rios que foram de fato utilizados para sua escolha como sujeito. ona escolar e profissional AI' ava sua história via
f / está nos falando não so'do' t °t re atar .seus caminhos e escolhas
Essa estratégia - baseada na Psicanálise - visa criar condi- 11 Iíd s a os em SI m d '
ções para que seja produzido um discurso com um mínimo de in- )OUIades, de seu lugar na famili ,as e seus desejos, am-
'1/ e trajeto ao mesmo tempo em a, etc. ~ode-~e dizer que ela definiu
terferência externa, uma "associação livre", que possibilite a apre-
"o/hemos fazer a anális' d que fOIdefinIda por ele. Assim es-
ensão de mecanismos inconscientes. Ao fim da entrevista aberta, '/11 '. e essa entrevista te d .'
seriam colocadas as questões relacionadas ao roteiro dos temas, ,a ~ropna entrevistada coloca n o como eIXOaquilo
11/ ( (lssIonal. Nessa história d
o
d con: , c~n tral: sua vida escolar e
como estabelecido na fase anterior da pesquisa.
lI/I rem é circunstancial2 _' d es e.o mlclO, ela deixou claro que a
A segunda entrevista que analisaremos aqui foi realizada fi .
1 I 1/ n a socIalização ,nao etermmante dand "
e a c' - 3 ,o mais rmportância
partir dessa mudança de técnica. No entanto, é necessário fazot naçao"

1. Ver, por exemplo: Rodrigues, Arakcy Martins. Operária, operária. São Paulo: Símbolll, 11 dIz: "nasci na cidade X estado Y
, , mas na verdade eu '
1978. " 11"" , apenas naSCl Já" (grifas nossos)
I ~, Eu fui criada em Z", '

132
133
Neste início ela nos conta também que durante toda sua in-
prios
_ "projetos" (no
. _ qu e, ao que tudo indica,
. . foi respeitada e
fância, adolescência e começo da vida adulta, sua mãe era a Se-
nao sofreu oposiçao da família);
nhora do Lar. Não nos é possível saber qual a conotação que A. dá
a isso, mas podemos supor que o lar, o espaço do privado, parece ~~~~~ ~m.gran~e interesse pela psicologia durante o Curso
ter sido um domínio exclusivo da mãe, enquanto que o lugar, a . psícoloqía da criança e do adolescente). A psícolo-
"missão" de A. na família seria a de conquistar o domínio do "pú- gIa naquele momento parece ter sido uma possibilidade de
blico" , às vezes em parceria com o pai. Pela possibilidade que teve co~preensao do processo de desenvolvimento, que res on-
de se dedicar aos estudos, podemos supor que sua família valori- den~ a uma necessidade da própria A. (sua origem é circ~ns-
zava esse aspecto e que preservou-a de outras atribuições, inclu- tanc~al, mas .como s.e dá a construção posterior?). Essa ne-
sive domésticas. cessídade VaIpostenormente tentar ser suprida de outra ma-
A. faz questão de deixar claro, desde o início, que conhece desse (que trataremos em outro momento) A ssrrn,
neira í •
. apesar •

seus méritos e que valoriza sua formação, dando a entender inclu- ~sse interesse pela psícoloçía, o conhecimento do psicoló-
gICOacabou aparecendo corno algo instrumental auxili
sive que foi melhor do que a da entrevistadora (branca e bem mais
jovem do que Al, enfatizando que foi selecionada para freqüentar sua percepção do que não está explícito. Pare~e incl:~ie:
conSlder~r que seus conhecimentos na área já permitem a
bons cursos.
f esse típo
ela - de uso. E interessante tambéem o b servar que A
Cronologicamente, podemos colocar seus desejos em relação ~z questao de colocar para a entrevistadora que aprendeu n~
às profissões da seguinte forma: urso Normal o que hoje se aprende na faculdade':
_ quando criança, queria ser advogada, e faz algumas asso- t- quando finalmente decide fazer o curso de D'ireiit o, parece
ciações a esse respeito: desejava ser chamada de doutora, .e; urr:a certa. vergonha, provavelmente ligada aos desejos
ser advogada era uma profissão rara para a mulher, que m a~tIs antenormente citados. Para justificar essa escolha
aparecia como algo glamouroso e distante no imaginário da a?a a colocando o acaso, a sua generosidade (vontade d~
periferia da cidade (desejo de se diferenciar desse meio). aJud~r o pnmo no estudo preparatório do Vestibular) e até o
Parece também que a profissão apelava para um desejo oni- desejo de Deus de que ela fosse advogada. Acreditamos
potente, que poderia dotá-Ia de um poder "oficial" no con- ~e esst e~colh~ veio .responder a várias necessidades, que
tato com a justiça; nao se ímítam as da infância (ter poder e ser chamada de
_ na adolescência, A. desenhava plantas de casas para o pai doutora). == advoçada ela poderia se apropriar de um
construir, e este gostaria que ela se tomasse engenheira. Os processo
di (do
. 'I 6 uucio ate a defesa final) ' "cercar" -
car uma questao
engenheiros contratados pelo pai, no entanto, eram aqueles e reciona- a . De c_ertomodo, pode-se dizer que é isso que
que colocavam no papel e oficializavam as idéias e projetos ~. faz na sua r~laçao com o mundo: ela vai "cercada" de
dele, e não os seus próprios. Apesar de A. satisfazer naque- SIgnos (roupa, títulos, etc.) que se sobrepõem de tal maneira
le momento o desejo paterno de ser aquela que conseguia
abstrair e fazer uma representação das idéias dele, ela pre-
feriu voltar-se para a possibilidade de "construir" seus pró-
5~A. diz: "O Curso Normal que nós fizemos []. .
nao posso falar dos cursos que vocês fazem"h a coisa era bem d~ferente, eu não sei eu
gente aprendia, muita coisa que o pessoal apr ~Je, m~s naquela epoca era diferente, a
Curso Normal" . en Ia na aculdade, eu aprendi realmente no

4. A. diz: "Bom, fiz o ginásio no Ginásio Estadual X. que, na verdade, antigamente, era bem 6. A. descobre este lado seu nos tempos da fa I "
trabalhava no Fórum Central [... ] e eu gostava de. dade: . quando entrei na faculdade eu já
diferente de hoje, porque nós tínhamos latim, inglês, francês, [... ] porque, veja bem, princi- processo, eu gostava de estudar o processo da .ao .!nves de apenas fazer um cálculo num
palmente a escola estadual era a melhor que nós tínhamos [...]". Inicio até a defesa final". petição InICIalao recurso extraordinário. Do

134
135
formação e os "instrumentos" básicos (do ponto de vista
. (racial e de classe social) que esta se torna se- objetivo). que aliados às suas condições pessoais (afetivas e
à sua ongem raci
cundária, não-determinante. cognitivas) permitiram que se tornasse uma profissional
, . eu valor o que parece ser algo competente e respeitada.
Ela não tem duv.1das sobre o ~to de vi~ta subjetivo, isto pode Sua história, no entanto, foi construída às custas de uma dure-
eficaz~en,te rr:tenonza~o~ D~:S°mais precoces com uma família za muito grande consigo mesma, talvez com uma dose excessiva
ser atnbUldo as suas VlVe?_~lNo entanto, isso não seria sutícíen- de renúncias em relação a outros desejos e necessidades. Em par-
que foi capaz de reassegura a. ua vida algumas condições ob-
te se não estivessem presentes na s te pelas características da própria entrevista (que foi semidirigida
e não investigou alguns aspectos que nos ajudariam a levantar hipó-
jetivas tais como: . .
, . . eio onde embora a mmona das teses), limitar-nos-emos aqui a assinalar esse aspecto da personali-
- sua família vivia num mãO havia diferenças de classe so- dade de A sem tentarmos atnbuí-lo a uma dinâmica intrapsíquica.
pessoas fossem brancas, n esar de precisar ser melhor Por outro lado, é importante lembrar que vivemos numa cultura que
cial'. Isto nos sugere alqo {ue, afar a hipótese de que a dis- impõe pesados sacrifícios pulsionais a todos, especialmente àqueles
investigado, n~s ~erm1te e~~~eos pobres. Esse meio, além que são historicamente marcados e estigmatizados pela cor e classe
criminação,rac1al e men~r e de vista socioeconômico, nã? social. A íntransíqêncía de A é, portanto, bastante inteligível do pon-
de homogeneo do p~~ o d como é comum entre as farm- to de vista das condições objetivas. Ela é muito exigente consigo
apresentava uma mob1hda e t'nc1'a uma permanências. mesma e estende essa exigência aos outros, em especial quando são
. sim uma cons a ,
nas pobres, e , ssoa "enraizada" num espaço negros. Ao ignorar que boa parte do sofrimento e da dor que necessa-
Pode-se dizer que A, e uma P~e teve um lugar. Entre outras riamente viveu (e continua vivendo) na sua ascensão profíssíonal é
social onde sua família s~mp das mais desprivilegiadas, um tributo social injusto, historicamente determinado, ela acaba mui-
famílias pobres: a sua nao ~~ar famílias brancas mais po- tas vezes defendendo a educação pela dureza. Cabe aqui citar
tendo chegado mcíusrve a;~ A nos diz que não teve, a? uma passagem de um texto de Adorno 10 que explicita bem esse
bres. Dentro des~e conte a ~ivência de discriminação raci- mecanismo: "Aquele que é duro contra si mesmo adquire o direito
menos na sua mfan,c1a,um íar o ser negro com ser pior o~ de sê-lo contra os demais e se vinga da dor que não teve a liberda-
al que pudesse fa~e-la assocdO da infância parece ter pOSS1-
e de demonstrar, que precisou reprimir".
inferior ao branco . S~u m~n social que sustentou e reforçou
bilitado um reconhec1men o d'tamOS que a partir do mo- Embora A pareça minimizar as condições objetivas de opres-
sua dignidade pessoal~:n~~e d~ que o lugar dos negros no I ão às quais os negros estão submetidos (além de subestimar a for-
mento em que s~ deu diferente do lugar dos brancos t; irracional da discriminação e do preconceito racial), ela não as
mundo socia~,mms amplo;.r~es psicológicas e intelectuais ti sconhece e consegue combatê-Ias racionalmente, esperando que
(e pior), ela )a tmha con lÇt' mesmo para ocupar um espa- outros negros façam o mesmo. Acaba criando, no nosso entender,
ntrapor a 1SSOe a e lima interessante forma de resistência (politicamente falando), em
p~r~~~~~ julga (acertadamente) ser merecedora; ,
I(I ção à qual nossas observações anteriores não têm o intuito de
ç " d b qualidade na epo-
I h svalorizar, e sim de explicitar alguns aspectos menos visíveis.
- A existência de escola.s Pdubhcasor~io~ram a ela uma boa
ca em que A foi escolanza a prop
A postura de A em relação à questão racial é uma forma de re-
IflLênciana medida em que faz com que ela recuse o fatalismo e o
não tinha classe média" .
7. A. diz: "aqui todos eram po b res,
oram aqui já moravam naquela época e os nossos re-
o Adorno, T.W. Educação após Auschwitz. In: COHN, G. (org.) Fernandes, F., (coord.).
8. A. diz: "todos esses brancoS que; ente que mora aqui até hoje". 11 Pulo: Ática, 1986, p, 39.
lacionamentos eram com toda ess g. _ me dava conta do mundo".
9. A. diz: "naquela época eu não sentia porque nao

137
1.36
papel de vítima indefesa e ocupe, sendo mulher negra, um lugar
tradicionalmente reservado aos homens brancos. Ao mesmo tem- Segunda entrevista
po, lança luz e aponta para algumas condições subjetivas das difi-
culdades de alteração do lugar do negro na sociedade: os negros A segunda entrevistada qu h
lher negra de 32 anos casad e c ~maremos de B, é uma mu-
introjetaram de tal forma o preconceito que muitas vezes não são
escolaridade de nível 'superio~'.sem fIlhos, de classe média e com
capazes de ver a si mesmos como "doutores", chegando a atacar
outros negros que, como ela, atravessam essa fronteira social. Essa Seu pai era músico e morreu d -
competição, segundo A., "favorece o branco". A. nos mostra que é dela. Sua mãe foi então trabalh quan o. a mae estava grávida
necessária uma mudança não só na sociedade, mas uma mudança vida na casa de uma rnulh ar e acabou fIcando até o fim de sua
II que passa pela subjetividade, pois sem isso o negro não consegue n~u-se madrinha de B. e a·~~~ue aco,lheu-a desde a gravidez, tor-
I
ocupar alguns espaços mesmo que eles já existam. nao tinha e nem teve filho~ AS~ia cna-l~. Essa, mulher era solteira,
sas duas mulheres (a -' m, B. foi fllha umca, criada por es-
Por tudo isso, ela acaba, de certo modo, sentindo-se só ao classe média e não co:::~: ~ilhamdadrinha) como uma criança de
conseguir ocupar um espaço que não consegue compartilhar com a a empregada.
outros negros. Nesse contexto, ela tem dificuldades de estabele- A segunda entrevista é não-dir . . . .
cação da entrevistadora . edv~ e_se mICIacom uma colo-
cer relações amorosas, pois gostaria da fazê-lo com negros, mas vre: "fale do que quíssr c:e cria condIçoes p~ra um discurso li-
não os encontra ocupando lugares semelhantes aos seus. Obvia- , o quisar, o que VIera sua cabeça "
mente, as razões de sua solidão não se reduzem a isso, estando li- No entanto, sabemos qu '. '"
sobre a pesquisa e não pod e a dentrevlStada tinha informações
gadas também a questões subjetivas a respeito das quais não te-
isso tenha tido algum emos. escartar a I?ossibilidade de que
mos dados que nos permitam ir mais longe na nossa análise.
questão racial. Mas ela ~~~~ih~OISsua PIlI?eIra ~ala vai direto à
A atuação profissional e política de A. não se vincula especifi- abordar a questão, associando . ~~~ maneIra mUl~opa~icular de
camente ao movimento negro, e isto se coaduna com sua luta por mentiu para uma arní a u ml.cIa m~nte uma sítuação em que
"aquela igualdade que está inserida no artigo 5º da Constituição, a respeito de "quem ~r~ ;u:nd? t~nha cinco ou seis anos de idade,
onde se fala que os homens e mulheres são iguais perante a lei mulher branca), era sua mãe~a~ . DIsse que sua madrinha (uma
sem preconceito de raça, credo, cor, religião", etc. Ela não abre expressa de maneira muito e qd e era negra) ..Essa mentira, que
mão de existir e participar, como mulher negra, nos espaços so- branca (e de ser branca) é VI e~te o d~sejo. de ter uma mãe
Como sendo coisa de '.' em segUIda, raCIOnalIzada e justificada
ciais que são legalmente de todos, e sabe fazer valer esse direito. cnança que queria ter -
com as mães das outras cria ' uma mae parecida
No entanto, mesmo se tratando de uma pessoa com todos es- c r" esse episódio usa exp nç_asda esco~a. Quando tenta "explí-
ses recursos, podemos visualizar a sombra que acompanha o ne ressoes como "e claro" '" I' . "
para reforçar a idéia de que d t ' .e OgICO,etc.,
gro na sociedade quando A., ao responder a uma pergunta sobr POderia esperar outra coisa ~n ro do con~exto ?a mfância não se
o
sua vida social (se vai a festas, se freqüenta clubes, etc.), coloca: 11m incômodo específico em' rel e~t~nt?, fica evidente que existia

"é que eu não participo de nenhum lugar assim. Eu só vou quando II renças em geral, se nos lemb:: a dIferença. de cor, e não às di-
sou convidada. E quando sou convidada, sou convidada por pen riu e ela não sentiu nenhuma ne os que o par de B. havia morri-
soas amigas". Assim, sem a proteção de seus títulos elou de seun 1o,apesar da maioria das . cessIdade.de mentir a esse respei-
II I. ição a esse episódio da i~~~~~:s ter pai. Esta d~ssimulação em
amigos brancos, quando o visível é apenas a cor de sua pele, 11
11 LlvesseOcorrido aí e or _'con:o se o desejO de ser branca
não é livre para ir e vir, pois não tem nenhuma garantia de que s I \
1111 nosso entender c~m~ qufestoes cIrcunstanciais, permanece
tratada com respeito. , um antasma até hoje. '
Nesse desejo de se f
111 1 B a astar de suas origens e até
1 . as sente que tev 1 mesmo
, . e a guma cumplicidade da mãe, pois

138
139
esta também se esforçava para que ela freqüentasse o meio social 12
sempre . Ao descrever as condições . " . .
da madrinha. A mãe até mesmo evitava levá-Ia quando ia visitar cia, B. enfatiza a relação "ab rta" que Possibilitaram essa Vlven-
seus amigos e parentes, negros e pobres, como que para prote- de muito diálogo e irIcentiv~ ~ que.te~e co~ a mãe e a madrinha,
gê-Ia de sua própria história, apesar da insistência da madrinha era a madrinha cujas opí ._. a pnnclpal aliada nesse momento
para que B. acompanhasse a mãe nessas visitas e entrasse em , illlOes acabavam d .
da mãe. Esta não chegava a entr p~e ommando sobre as
contato com essa realidade. Dentro deste contexto, diríamos que mentos da madrirIha ar_em conflito e acatava os argu-
talvez B. se sentisse legitimada e incentivada pela própria mãe B. colocava tamb' ' mesmo que nao concordasse muito com eles
nesse seu desejo de ser branca, nesse faz-de-conta, mas, ao em que o Vivercom d lh .
se viravam" sem a p uas mu eres sozinhas "que
mesmo tempo, é como se a consciência de sua condição de ne- u - resença de um hom d lh '_
de nao necessidade" A . em, eu- e uma sensaçao
gritude fosse denunciada e revelada pela sua "mãe branca". Ou . sSIm, podemos diz •
ela conseguiu satisfazer algun S dessí er ~~ na adolescencia
seja, o meio branco seria o primeiro a apontar as diferenças, mes- custo: o de eliminar os conflit esejos que n~ mfancia tinham alto
mo que isto fosse feito com um sentido positivo, como era o caso os e as necessidades
de sua madrinha. No entanto para que'd .
neira que descr~veu foi n:~a v~ ~ na ~dol~scência fluísse da ma-
As primeiras associações de B. na entrevista falam de uma men- B. coloca logo no iní~io' a coess~r!o ~e1Xi3.r mtocada a questão que
tira compartilhada, que ela atualiza querendo compartilhar com a en- rece quando ela depoi~ d dnsclencla de sua negritude. Isto apa-
trevístadora, reafirmando o desejo de eliminar esse conflito. zada sua adoles~ência a e escrever de maneira bastante ideali-
O esforço de cisão e negação para não entrar em contato e se riências de diScrimina~f ssa.a relatar que nessa fase sofreu expe-
proteger de coisas que a incomodavam e ameaçavam (e a cons- veís. Sua reação nesses ~ racia que foram vividas como intolerá-
ciência de sua negritude estava entre elas) aparece também quan- nha na infância frente a u~rentos era semelhante àquela que ti-
do fala de suas brincadeiras infantis. B. diz que escolhia jogos e tava e chorava não consqeg .quderam eaça (real ou Imaginária): gri-
, um o co ocarl em I . .
brincadeiras em que não se sujava, não caía, não corria o risco de que pensava e sentia É com _pa. avras e expI1cltar o
se machucar, etc. Conta também que chorava por qualquer coisa, gelada" dentro dela . - o se ~ssa questao tívesso ficado "con-
como se tudo fosse muito difícil e doloroso, mesmo aquilo que fa- podia reagir como u~:a~r:~tabOhzada e, em relação a isso, ela só
zia parte de sua rotina (ir para a aula de natação, por exemplo). se defender se na-oo d . ça pequena, sem outros recursos para
e gntar e chorar A' 1
choro de dor e de ódio seria . ss~m, co ocar que esse
Um dos aspectos desse "trabalho psíquico" para eliminar o eriminação, como B o faz apenas un:a re~ç.ao ao absurdo da dís-
conflito é o de que B. parece ter vivido uma sensação de irrealida- dê-Io. Além da perpiexidadnofs pare?e msufIclente para compreen-
de frente à sua origem, seus vínculos". Isso é trazido por ela com lldade do racismo) parece he rente a s~tuação externa (a irraeiona-
uma certa leveza, como uma constatação de que não precisou de Interna em relação à consci~~~~~a~bem uma extre~a fragilidade
ninguém "de verdade" para existir, e é nesse momento que passa nunca tivesse até então lidado e sua negnt~de. E como se B.
a falar sobre sua adolescência. Fala desse momento de sua vida tomar conhecimento dela f ~m essa questao, preferindo não
como sendo tão bom que ela gostaria que tivesse durado para tia. Sua identidade e auto~e:~en ~ de conta qu~ nada disso exís-
( to de ser negra. Apesar de ma oram eons~ru~das à margem do
cável na discriminação, não ber~eber que eXlstI~ algo de Inexplí-
critica, do ponto de vista socía avia ~I~da a possibilIdade de uma
11. B. diz: .....eu nunca tive parente de verdade [...1. Os da minha madrinha, os sobrinhos
dela, as irmãs dela que eu chamava de tia, [... 1 não eram de verdade 1... [, mas minha mãe ti- ma instância, do ponto de . ~e ~Olí.tI?O,a essa situação. Em últí-
nha alguns 1... [, umas pessoas, primos 1... 1 que tinham vindo para cá e eu nunca falei, os VIS a md1V1dual,o fato de ter nascido
meus parentes. Ah, acho que amanhã a minha mãe vai na casa daqueles parentes dela I... 1.
Eu achava, que bom, eu não tenho nenhum ... eu tenho tios, tias, avôs, avós, mas são to-
dos ... nenhum deles era de verdade. [... 1 mas os que eram de verdade também não eram
12. B. diz: "Eu adorei a minha ad I '. .
meus ... era uma coisa de minha mãe". n"olescente". o escencía, Eu amsi Por mim eu teria ficado eternamente

140
141
Certamente, o fato de ter vivid .
camente branco foi um fator i o sempre num meio hegemoni-
negra só podia ser visto, nesse contexto, como um azar e o desejo falta de contato e de vínculo ~t~rtante qu,e.. aliado à questão da
de que isso não tivesse acontecido com ela esteve sempre implíci- trouxeram esse sentimento de estr:~: família de o!igem (negra),
to, mesmo que isso nunca pudesse ter sido admitido (e por isso mais especificamente à sua S eza err: relaçao a si mesma,
mesmo não-elaborado). Resumidamente, podemos dizer que B. meio onde os negros são he co: .. eu pnm~Ho contato com um
permanece nessa contradição: de um lado, afirma que nunca quis social positiva baseada na cultura near' e cultivam uma identidade
ser branca; de outro, o desejo de ser enquanto um fantasma que militar no movimento ne ro ián negra se deu quando começou a
não foi elaborado. as descrições que B. faz d~' ',]. da vida adulta. São interessantes
É claro que o desejo de ser branca expressava não um incômo- a cultura negras, pois se ternaír e seu _contato com a militância e
do com a cor da pele em si, mas com o sofrimento que essa condi- meiro "se fantasiar" de a impressao de que ela precisou pri-
como tal" negra para tentar aprender a se sentir
ção efetivamente traz numa sociedade prenhe de ideologias racis-
tas e práticas discriminatórias. Parece-nos, por outro lado, que a
maneira como B.lida com essa situação externa (de fato injusta e A partir dessa valorização T d . .
cujo elemento narcísico é eVid!~~l (~~ ~ uma lde)ntldade negra,
irracional) sugere que o próprio sofrimento é vivido como intolerá- belecer vínculos afetivos com outr un am~ntal, B. pode esta-
vel e absurdo, algo que não deveria fazer parte de sua vida. negros). Isso tudo aliado à . o~ negros (inclusive por serem
Se até então estamos tratando fundamentalmente dos meca- política da situaçã~ do negr:~~~~~~ade ~e _uma crítica social e
nismos psicológicos subjacentes à sua relação com a negritude, é der, para que B. construísse ~ma i condlço~s, no nosso enten-
importante apontar também alguns fatores objetivos presentes no da. Podemos dizer que sua artici ma~em de SI ~enos fragmenta-
relato de B. e que foram um solo fértil na sua dificuldade de inte- a função, antes de mais nada d façao no mO~lmento negro teve
da para ela mesma B teve íte ornar a negntude menos absur-
A '

gração interna.
gritude, mas deixo~ n~ som::: ~ nessa ~arefa de iluminar sua ne-
A história de sua vida tem, desde a origem, um elemento fan- reconhecimento de que um d' ( dalve~nao se perdoando) apenas o
tástico, quase mágico: o aparecimento da madrinha (que às vezes , Ia esejou ser branca.
parece uma fada madrinha) no caminho da mãe, na época grávida E interessante apontar para d 1 -
de B., que mudou radicalmente seu destino. Da criança que nas- no movimento negro exerceu n~ c~~oaJunçao ~ue a participação
ceria filha de uma mulher pobre e viúva, sem recursos materiais mente ocorre com muitos out e B. (e e o que provável-
para educá-Ia, B. tornou-se uma criança que pôde ser bem cuida- luta política contra a díscrírnínaçã negros). Existe, ?e um lado, a
da, tendo acesso a boas escolas, clube, cursos extracurriculares, de denunciar e se contrapor a u ao, que responde a necessidade
viagens, etc. Ela sempre viveu num meio típico de classe média ta. Mas está presente ao me m~ sítuaçao extren::amente ínjus-
cuja esmagadora maioria é branca, e o fato de ser negra era o úni- de tratar as feridas na;císicas ~~~ s~mPri. a.necessidade psíquica
co elemento visível que a diferenciava. Dentro desse contexto, e ociedade pelo simples fato de ao m 19:das ao negro na nossa
ser negro. Nao se trata aqui de uma
com os recursos afetivos e cognitivos que dispunha na época, pro-
vavelmente a crítica à irracionalidade da discriminação não dava -------
conta de seu desamparo, pois o que ficava camuflado é que pare- - "Eu..com ecei a f azer dança afro, e através
. d e Ia I... I'ai eu fui.pro Movimento Negro
14. B. diz:
" entao frequentava muitas reuniões I I
í

cia haver algo de absurdo no próprio fato dela ser negra 13. I I
qll eu tíve. aquela fase de euforía .ne
de radír Iísrno.r que eu
racnca smo então lá comecei a' militar mais ' é lógico
I Idaquele jeito; andava só com uns panos o engraçado e em
~Ir
. Depois, claro, essa fase passou foi ítoeno casa so tocava música negra
passou, e importante tinha que
13. B. diz: "Eu não me conformava. Eu nunca pensei, eu me lembro bem, porque eu nã ,lluuma frase, 400 buttons e tal enfim d os na cabeça, todas as camisetas estavam escritas
sou branca. Isso eu não pensava I...J Por que isso com as pessoas negras? Comigo, claro, III unnções, me envolvendo tadto nesse ~~~~~d e claro qu: suavizou, que entrei em outras
comigo. Na época eu tinha uma questão muito individual, por que comigo, porque isso, pOI ,,11, como fazer para isso não se tornar u o na questao do negro, de ser negro no Bra-
que comigo? Qual a diferença, que coisa absurda, eu tenho as mesmas coisas, os mesmos III1Llmentalmente com as pessoas". ma coisa absurda como também me envolvendo
lugares, eu falo a mesma língua, enfim, como é que tem cabimento? Eu vi... então eu VOII
ser inferiorizada, isso eu não admitiria, essa questão de ser inferiorizada".
143
142
mecanismos de defesa, afetos, etc. Nesse sentido, a apreensão
. ate das origens ou preservaçã9
curiosidade ou de um simples res~d d ligadas a outras etnias. E desses aspectos inconscientes é justamente o que nos permite e
da memória, como no caso de enti a es a busca de uma íden- nos dá acesso ao que é propriamente do sujeito, o que de fato diz
, . asos o que move respeito à sua subjetividade. No caso de A., ao contrário, é como
provavel que, em mUltas c , , ó ria auto-imagem, causa-
tidade negra é um mal-estar frente a pr p se só tivéssemos acesso ao resultado desses processos, ou seja,
do pelas condições dadas socialmente. ao nível sintomático, à formação de compromisso (psicanalitica-
mente falando)".
Nesse sentido, fica aqui confirmada a necessidade de realiza-
Conclusões ção de uma entrevista aberta antes da aplicação do roteiro de te-
. os trouxeram dados bastan- mas para que se possa ter acesso ao que é propriamente subjetivo,
As análises das duas entrevlStas n ão um entrelaçamento a elementos que permitam afirmar qualquer coisa nesse nível.
te ricos, onde foi possível uma c~mpre:~s objetivos. Acreditamos Acreditamos que a segunda entrevista seria ainda mais rica em
que levou em conta fatores sUbjetlV?li ao lado de análises de possibilidades de análise se a entrevistada não tivesse conheci-
que os result~dos obtidos ness:::s~ ~:~ados que possibilitem o mento prévio da entrevistadora e da própria pesquisa.
outras entrevistas. tragam ur:na .' lativos à situação do ne-
contorno de alguns perfis pS1COSSOClalS re É importante que haja uma preparação prévia do entrevista-
dor para que este possa lidar com a tensão e a angústia (dele e do
gro na sociedade brasileira.
aração entre os resulta- entrevistado) que muitas vezes se faz presente numa entrevista
Passaremos agora a fazer uma com~ evistas e em que medi- aberta, e que pode levá-Ia a fazer intervenções inadequadas. O en-
dos obtidos na pnmeua e na segundaae~e\écnica', para finalmente trevistador precisa suportar os silêncios, deixando que o entrevis-
da eles variam em tunçao da dlferenç t ' cníca de entrevista mais tado resolva esse mal-estar da maneira que puder, pois esse movi-
colocar qual seria, no nosso enten~er, a e mento do sujeito é um material importante para a pesquisa. É ne-
adequada aos objetivos da pesqUlsa. , ' cessário também que mantenha uma postura de aceitação e ínte-
. itos elementos onde e pOSS1- resse, não introduzindo qualquer qualificação sobre o que o entre-
A primeira entrevlsta ~o~ traz mu do rincipalmente no modo vistado trouxer, mesmo que este não faça referências ao que su-
vel traçar um perfil p~iCO\~glCOcalC~sta~a Foi possível chegar a postamente seria o material de interesse para a pesquisa. Nesse
de funcionamento eqoico da sntrev: ávei~ razões que a levaram momento da entrevista não é necessário, nem desejável, que se
uma descrição de seu t!ajeto e das Pro~'ficuldades de saber a que Interrompa o entrevistado para pedir mais esclarecimentos, pois
a escolher isso ou aquilo, mas temos essas escolhas estão referi- I to pode ser feito na ocasião da aplicação do roteiro de temas. Por
mecanismos e desejos mconscle~te,s ue no entanto, só po- 1i r bastante esclarecedor, citaremos um trecho de uma apostila
das. Pudemos levantar algumas h~pote~~~a~ão'mais aprofundada, ti Dominada Instruções para a entrevista (s.d., rnimeo.), da Profa.
deriam ser confirmadas com uma mves . . Dra. Arakcy M. Rodrigues: "Neste discurso livre do entrevistado, o
, . b rta proporclOnana.
o que so uma entrevlSta a e . que interessa é a seqüência e a forma de organizar os assuntos,
. m todas as ressalvas feitas no
A segunda entrevlsta: mesmo co surgimento de um dís- Tudo o que ele esquece ou omite, os temas que ele interrompe, as
ara
início de sua análise, abr~u espaço Pd ~truturar sua fala sem re-
a entrevlstada teve e e áli
curso livre, on d e íbílít u fazer um tipo de an se
to 1\6tamos usando aqui o termo formação de compromisso tal como ele é definido no Vo-
ferências externas, o que nos poss, 1 i~OSinconscientes: desejos, IJlllár10 de psicanálise (Laplanche & Pontalis. Vocabulár1o de Psicanálise. 3. ed. Lisboa:
que apontasse alguns aspectos PSlqU MIlIIIOS, 1976): "Forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente, retor-
11 11110 no sintoma, no sonho e, mais geralmente, em qualquer produção do inconsciente; as
I 1111111 ntações recalcadas são então deformadas pela defesa ao ponto de serem irreconhe-
. 'a do E o, isto é, "o ego é concebido antes d
IVIIII, Na mesma formação podem assim satisfazer-se - num mesmo compromisso - si-
15. Egóico aqui no sentido dado pela PSI~~~g~e ada;tação à realidade". Laplanche & POI1
1111111111\ amente o desejo inconsciente e as exigências defensivas" (p. 257).
mais nada como um aparelh~ de regu~ç~'sboa' Moraes, 1976, p. 184.
talis. Vocabulário de pSlcanalise. 3. e . I .

145
144
passagens que ele relata de forma incompreensível, etc., nos tra- 7. BRANQUITUDE - O LADO OCULTO DO
rão muitas informações [...]".
DISCURSO SOBRE O NEGRO
Dadas as especificidades da entrevist..a ab,erta é nnportame
considerar a necessidade de uma supeIVlsao clm:ca da~ en~r~vIs-
tas (no sentido em que o termo é utiliza.do na Psícoloqía Cllmca),
que teria como função não só o esclarecImento do mat~nal obtíôo
e a discussão técnica da realização destas, como tambem a de ser
um suporte para os próprios entrevistadores na meoíoa em que
este tipo de entrevista costuma suscitar rr:Ultas anSl~dades e ~n~ Mana Aparecida Silva Bento
, t' s O trabalho de supervisão podena ajudar a dlffilDUlIa ansie
gus 13 . Ieí '1" realiza Este artigo constitui-se numa abordagem psicossocial do pro-
dade dos entrevistadores, além de "aper siçoa- os para a -
ção de outras entrevistas. cesso de formação sobre relações raciais do Ceert1. A experiência
Apesar das limitações apontadas, é meqável a riqueza. do ma ~ do Ceert na formação sobre relações raciais em diferentes institui-
terialobtido a partir das análises dessas entrevlst~s, que ve~ con ções tem revelado que, a despeito dessas diferenças, os desafios de
tribuir para uma maior aproximação. dos mecamsmos pSlqUlcos ensinar sobre racismo têm sido mais parecidos do que diferentes.
subjacentes à questão racial no Brasíl. Por conta disso, serão reportadas experiências de formação,
Finalizando, acreditamos que essas reflexões sobre as d~as tais como as referentes às áreas de direito; psicologia social e or-
entrevistas e a experiência acumulada pelo grupo de pesqUlsa ganizacional e educação, uma vez que, independentemente das
possam também trazer dados interessantes para outras ~eSqUl~as áreas, do grau de escolarização e das experiências dos participan-
em psicologia social que se proponham a ínvestíqar conflguraçoes tes, o tema das relações raciais no Brasil é tão silenciado que, não
psíquicas subjacentes às representaçoes SOClalS. raro, há mais similaridades do que diferenças no nível de informa-
ção sobre este, nas questões e nas resistências apresentadas.
De qualquer forma, inicialmente é bom lembrar que os cuida-
Bibliografia dos para abordar o tema relações raciais junto a grupos mistos de
ADORNO, T.w. Educação após Au~chwitz. In: COH~, Gabriel (o~g.).
negros(as) e brancos(as) não são poucos, sob a pena de se diminuir
Theodor W. Adomo. São Paulo: Atica, 1986. [Coleçao Grandes C18n- rapidamente o número de participantes dos cursos.
tistas Sociais.] Grande parte das manifestações racistas cotidianas são clan-
BLEGER, J. Temas de psicologia - Entrevistas e grupos. São Paulo: Mar- estinas e mal dimensionadas. Os legados cumulativos da discri-
tíns Fontes, 1980. minação, privilégios para uns, déficits para outros, bem como as
LAPLANCHE, J. & PONTALlS, J.B. Vocabulário de psicanálise. 3. ed. clesigualdades raciais que saltam aos olhos, são explicadas e, o
Lisboa: Moraes, 1976. que é pior, freqüentemente "aceitas", através de chavões que ne-
MICHELAT, G. Sobre a utilização da Entrevis~a Não~diretiva er.? Sociolo- nhuma lógica sustentaria, mas que possibilitam o não enfrenta-
. I' THIOLLENT M Crítica metodologJca, mvestlgaçao sOClal c mente dos conflitos e a manutenção do sistema de privilégiOS.
gla. n. ' . _ .
enquete operária. 5. ed. Sao Paulo: Polís, 1987.
RODRIGUES, A.M. Operário, operária. São Paulo: Símbolo, 1978. [Cole-
ção Ensaio e Memória 11.] 1. Centro de estudos das relações de trabalho e desigualdades é uma organização não-go-
vlilnamental, apartidária e sem fins lucrativos criada em 1990 com o objetivo de conjugar
_. Instruções para entrevista. São Paulo: Instituto de Psicologia da USP, 111 ndução de conhecimento com programas de intervenção no campo das relações raciais e
I li rJênero, buscando a promoção da igualdade de oportunidades e tratamento e o exercício
s.d. [mímeo.].
I " uvo da cidadania.

146 147
:iiO, ou seja, numa sociedade racializada, ser branco sempre faz
Assim, ainda que os impactos do racismo se manifestem de
er~nça. Dito .?e outra maneira, negros nas mesmas condições
modo diverso na vida de negros e brancos, não é incomum a ten-
que rancos nao costumam ter as mesmas oportunidades os
dência a fugir ou esquecer as condições de discriminado e de dis-
mesmos tratamentos. '
criminador. É comum que pessoas que se inscrevem voluntaria-
mente num curso sobre relações raciais se considerem e/ou sejam Enfim:.há muit.os desafios a serem enfrentados quando se dis-
consideradas progressistas e estejam irlteressadas nos problemas cute ~elaçoes rac~alS,mas a experiência tem revelado que de fato
sociais e muitas vezes engajadas em diferentes formas de luta esta e .uma gen~ma experiência de formação política pois com~
contra a opressão. dis~~lremos adiante, este tipo de curso tem servido c~mo potente
mo zador de forças de emancipação e libertação.
Ao discutir sobre racismo, elas esperam abordar uma opres-
são que "está lá" na sociedade, e não em algo que as envolva dire- No que ?iz respeito a discutir relações raciais num espaço
tamente, ou que envolva a instituição da qual fazem parte. como o movlm:nto sindical, onde o lema fundamental é a luta
~ontra a opressao de classes, o debate ganha outras peculiarida-
Nem sempre estão desejosas de admitir que, se são brancas,
t ,es. As pessoas que. se consideram progressistas ou de esquerda
em alguma instância são beneficiárias do racismo. Por outro lado, a
~m uma forma p.artlcular de explicitar seu racismo ou sua omis-
condição de discriminado, sempre associada ao ínsucesso. incom-
sa? díante ~o racismo. Freqüentemente têm um tipo de autocon-
petência e inferioridade, nem sempre é assumida prontamente.
C:l~Oque nao lhes permite enxergar em si próprias traços de con-
Desta forma, em diferentes momentos, o tema pode provocar re- cidadec - nem s~mpre pacata - com privilégio racial e de cumpli-
ações intensas e contraditórias nos participantes, tais como dor, rai- tn a e com um sistema que marginaliza e viola os direitos de ou-
va, tristeza, sentimentos de impotência, culpa, agressividade, etc. ?
ros iIUPOS. debate em torno da discriminação racial só é aceito
Não raro, por conta desses sentimentos, surgem argumenta- se ~ .oco estiver ~obre o negro; caso o debate envolva as relações
~~taIS e, co~sequentemente, o branco, prontamente o debate é
ções que visam desqualificar o debate, colocar em dúvida dados es-
tatísticos que estejam sendo apresentados, tentativas de relativizar ~e~~om~ alíonado. que desconsidera questões macros como o
o problema com expressões que já se tornaram clássicas, do tipo er~smo, a classe etc., e tudo passa a ser considerado como
"os gordos e os japoneses também são cliscri.minados", ou, a mais expressao de "um racismo às avessas".
freqüente, culpabilizar os próprios negros: "é, mas os próprios ne- l H~, de fato ,_umagrande diferença entre enfrentar o debate em
gros se cliscrirrJjnam, os negros não assumem sua identidade" etc. orno a opr~s~ao de classe e a de raça. Por essa razão, tomaremos
É fundamental uma leitura acurada dessas reações por parte s curlsos mínístrados no movimento sindical como mola-mestra
do educador, uma vez que costumam ser manifestações acabadas Iara a gumas reflexões.
da ideologia da democracia racial brasileira, que, como bem colo-
ca Carlos Hasenbalg (1979), traz em seu ceme a negação do pre-
ursos de formação no movimento sindical
conceito e da cliscriminação, a isenção do branco e a culpabiliza-
ção dos negros. Essa negação aparece freqüentemente quando
Desde 19~0 temos ministrado este curso, em média 20 vezes
não queremos enfrentar uma determinada realidade, quer porque
10 ano, em diferentes mstituições. O curso básico tem em '-
não desejamos nos ver corno sujeitos de determirlados tipos de di, , 16 horas. ' me
ações, quer porque temos interesses nem sempre confessáveis em
jogo, ou ainda porque aceitar a realidade do racismo significa ter
que realizar mudanças. Mudar, por exemplo, no sentido de reco-
Nos primeiros = anos, o Ceert oferecia os cursos aos de ar-
: ::~en~slide~ormaçaodo sindicato, através de dirigentes Sindi~aiS
nhecer que muitas vezes aquilo que orgulhosamente classifica- I ns 1 za os para o problema da discriminação racial no traba-
mos como mérito está, na verdade, marcado também pelo privi

149
148
lho. Posteriormente, o Ceert passou a ser procurado por sindicatos ção sindical e as propostas de educação popular inspiradas em
e centrais, muitas vezes pelos núcleos/comissões (de negros e Paulo Freíre".
mulheres) que vêm se ampliando ao longo da década de 90.
Os estudos de Araújo revelam que é possível observar as mar-
As inscrições dos participantes e a infra -estrutura para o curso cas do enfoque de Freire nos depoimentos dos educadores sindi-
ficam por conta dos sindicatos. cais, que sempre utilizam expressões como "consciência crítica",
"relação dialóqíca", "relação de troca entre educador -educando" ,
Antes de iniciar do curso, os participantes respondem a um
"a reflexão da vívêncía individual como ponto de partida no pro-
questionário, no qual questões referentes à identificação ~es~o~l
cesso de aprendizagem", etc. Ele chama a atenção para o fato de
estão colocadas. Entre 1992 e 1994 incluíamos neste questíonarío
que, após o golpe de 1964 e durante a década de 70, o processo de
perguntas relativas às experiências de discriminação vividas no
formação da classe trabalhadora articulou -se com a emergência
âmbito do trabalho e no cotidiano do movimento sindical. Atual-
dos movimentos sociais urbanos, ganhando novas características,
mente, tais questões estão incluídas nos trabalhos vivenciais que
tais como a auto-organização pela construção de uma nova con-
ocorrem ao longo do curso. Uma análise de 400 questionários pre-
cepção de política, a partir da intervenção direta dos interessados
enchidos neste período revelou que a idade média dos participan-
e pela diversidade de práticas e de representações de si mesmos.
tes é de 33 anos e, até 1995, a maioria (75%)era masculina. A partir
de então vem crescendo a participação de mulheres. No ano 2000 Grande parte dos pressupostos de Freire orientaram também
fizemos um programa específico para mulheres, sobre o qual nos nossos cursos de formação sobre relações raciais, dentre eles:
referiremos mais à frente. A maioria dos participantes é de negros
- a visão do educador enquanto alguém que respeita, valori-
- 77% - e, desses, 55% tem pelo menos o ensino médio completo.
za, incorpora e problematiza a experiência dos participantes;
É importante assinalar a grande mobilidade geracional, pois os
pais desses participantes têm, no máximo, a quarta série?o ~nsi- - o processo educativo visto como facilitador do desenvol-
no fundamental. Dos participantes, 78% pertencem a um síndícato vimento da consciência crítica dos participantes e difusor
e 41% desses ocupam lugar de direção. A maioria desses partici- de valores, tais como participação, democracia, igualdade e
pantes já integrou os quadros de entidades do movimento negro. diferença;
Assim, a experiência do debate sobre relações raciais já foi vivida - o processo de elaboração do curso procura contemplar as-
antes da participação no curso. pectos da realidade da categoria e discutir os temas e conteú-
dos com os dirigentes sindicais e com os militantes de base;
Da metodologia - a realização dos cursos é matizada pela vívêncía do traba-
lhador e pela forma como pensa as relações raciais no movi-
A metodologia do curso foi inspirada naquela que vem sendo mento sindical.
utilizada pelo movimento sindical nas últimas décadas, e foi ela- São realizados diálogos/debates: exposições rápidas com in-
borada por um grupo pequeno de profíssíonaís do Ceert, onde se formação (empíricas e/ou teóricas) necessárias.
destacam o Coordenador do programa sindical Hédio Silva Júnior
e Joelzito de Araújo. Como uma organização preocupada com pesquisa e formação
voltadas para o aspecto político das relações raciais, oferecemos
Araújo (1989)2chama a atenção para a existência de uma es- IOS participantes no cotidiano dos cursos imagens de livros, vídeos,
treita relação entre o crescimento das experiências de educa- trechos de depoimentos de brancos e negros sobre relações ra-

2. Araújo, Joelzito Almeida de. Formação sindical e novo sindicalismo. UFMG. Dissertação
de Mestrado em Ciências Sociais aplicadas à educação (1989). • Freíre, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983

150 151
. íudá-los a obter uma compreensão são histórica ou uma desconstrução de mitos, uma vez que permi-
ciais. enfim, tU?? o que po~sa i~as e sociais do racismo. Por outro te ressignificar os grupos raciais e oferece condições para um mo-
das causas polltlcas, ec~nom l'dade suoíenva que garante a vimento em busca de uma concreta redefinição de concepções e
f tí mos tambem a rea 1 práticas sindicais. Ou seja, um processo de formação sobre rela-
~!~~:~;ã~~ perpetuação dessa forma de opressão. .
ções raciais sempre pode se constituir em um processo eminente-
. do palestras Ielturas,
Desta maneira, o curso ter.? mC~~P~:~m explorar também o mente político.
exercícios slm~lados e dlSCUSS~:~t~sobre o opressor, quanto so- A idéia de que ações racistas são esporádicas, ocasionais e
impacto subíenvo do racismo, frutos do desatino de um ou outro fanático racista é firmemente
bre o oprimido. - combatida com informações que denunciam o caráter estrutural
, o planejamento da açao
do racismo à brasileira. Utilizamos diversas manifestações dos
A última etapa. do. curso e se~p~~ransformação da realida-
dentro do próprio stndícato visan o preconceitos e estereótipos raciais no cotidiano da vida sindical,
de debatida. nos materiais, documentos e na imprensa do sindicato".
A abordagem da dimensão explicitamente subjetiva está an-
corada na produção de conhecimentos do Ceert' nos últimos anos,
Do conteúdo e enfoca o processo de naturalização do preconceito e do estereó-
ocura rever importantes rnornen- tipo em nossa subjetividade, que torna a todos, voluntária ou invo-
A linha-mestra dos cu~sos pr sa em do trabalho escravo luntariamente, cúmplices de sua perpetuação.
tos da história do Brasil, ta~s ~om~~~~~ ~ industrialização, bem
Tratar o racismo como um problema relacional e não como um
?
para o trabalho livr,e, nmqra durante e após a escravidão.
problema de negros, focalizar permanentemente os legados para am-
como a luta e reSlstencla negras _
, . - . formam a discussao em torno da bos os grupos vem sendo uma preocupação crescente nos cursos.
Diferen~es angulos.de visao l~rabalhO, luta, resistência, operá-
Durante o processo de formação, não raras vezes os partici-
europeizaçao d.econcelto~.com~os cursos de formação sindical e
pantes constatam que, diferentemente do que acontece na opres-
rio, que perm81am o coti lan~ de ue trabalho e luta no Brasil só
ão de classe, a opressão de raça se encontra tanto "lá" onde está
que fundamentam a ~oncepçao \egada dos imigrantes euro-
m há um seculo, com a c . . 4 patrão quanto aqui, entre companheiros de trabalho e de luta.
começara malas o anarco-sindlcahsmo .
peus que trouxeram em suas . Quando está muito próxima, a identificação da discriminação
- e auxiliem a destnnr
O intuito é traz~r novas inform~Ça~~~~~ processo de escolha r cial é ainda mais incômoda, pois provoca tensões em relações
d solidariedade entre negros e brancos muitas vezes construídas
mitos e des.nu~ar os mter~sses ~~~os discutir o repetitivo padrão
\0 longo dos anos, nas portas das fábricas, nas assembléias, con-
dos fatos hlStoncos que sa~ co t~dos visando auxiliar os ati-
racial das lideranças que sao apresen arti~ipação daquele que foi iressos das categorias, etc.
vistas a entende,r ~omo s~ es~a~~ar~~ezas durante 4/5 da história Há que se gerenciar a tensão. De um lado, de se reconhecer
praticamente o umco pro ut~ E processo é mais que uma revi- como branco - o que nem sempre é tão espontâneo quanto parece
do país - o trabalhador negro. sse detentor de privilégios concretos e/ou simbólicos, capaz de ações
dlllcriminatórias contra trabalhadores, ações particularmente con-
4. Silva Jr., Hédio. Sindicalismo e racismo. São Paulo, 1992. [mímeo.l ..
. ' B Rio de Janeiro: Civilização BrasJleua,
'j
5.Ianni, Octavio. Raças e classes SOCJ81S no rasn. . .
lInnto, Maria Aparecida Silva. Resgatando a minha bisavó - DisCIiminação radal e resistênda
1972 'edade de classes. São Paulo: Atlca, , vozes de trabalhadores negros. São Paulo: Puc-SP, 1992. [Dissertação de Mestrado.]
Fern~ndes, Florestan. A integração do negro na SOCl
:lilv Jr., Hédío. Sindicalismo e racismo. São Paulo, 1992. [mimeo.)
1978. {vol. I e III . . d rotesto negro. São Paulo: Global, 1983.
Moura, Clóvis. Brasil: raizes o P
. O aprofundamento da abordagem do racismo enquanto um
denáveis num contexto corno o do movimento sindical. De outro SIstema que gera um legado cumulativo para negros e também
lado, há que se perceber enquanto trabalhador negro, muitas ve- para br~n??s,. mas nã~ a~enas um legado de ônus e bônus, de defí-
zes alvo, também no movimento sindical, de toda a carga pejorati- CItSe prívíléqíos ~conorrncos, políticos e sociais em geral. Essa he-
va que a sociedade costuma atribuir a essa condição. rança comporta Igualmente urna visão de mundo, que é diferente
para branc~s e n~gros. Esta visão de mundo conforma o que cha-
Constatar essa situação e reconhecer-se corno alvo de discri- mamos de iâen tI da de racial.
minação racial normalmente ocorre quando já se pode arcar com
toda gama de sofrimento e de mudanças de perspectivas de vida
que este reconhecimento implica. Identidade racial - Uma questão ideológica
Com freqüência os ativistas negros sentem-se impelidos a re-
ver as piadinhas, as brincadeirinhas sobre negros, típicas da de- Segun.do J~net Helms (1990), identidade racial é "um senti-
mocracia racial brasileira, com as quais conviviam cotidianamen- ~ento de ídentídade coletiva ou grupal baseado em uma percep-
te, muitas vezes com custos altos para sua auto-estima. çao de es~ar co~partilha,ndo uma herança racial comum com um
grupo racra! partícular. .. e um sistema de crenças que se desenvol-
Em outras vezes, terão que se defrontar com o desafio de levar ve ~~ reaçao a díferencíaís percebidos no pertencimento a grupos
esse debate para dentro da diretoria de seu sindicato, buscando raCIaIS"(p. 3).
rever a concepção e prática que norteiam a luta pela ampliação
dos direitos de cidadania do trabalhador. Em S?ci~dades. como a nossa, onde o pertencimento a um
grupo r~cral e enfatízado, o desenvolvimento da identidade racial
Essa gama de questões está entre os desafios que se tem que oco~rera de alguma forma com qualquer pessoa. Dada a situação
enfrentar ao abordar a questão das relações raciais no Brasil, pro- desíqual entre os brancos e negros nesta sociedade, todavia, não é
curando, ao mesmo tempo, garantir o aprendizado, a participação
s~rpresa que este processo de desenvolvimento se desdobrará de
e o interesse de negros e brancos. diferentes maneiras.
Nos cursos mais avançados utilizamos textos que produzimos . Tat~m (1992).10destaca aspectos importantes da abordagem
com base em Adorno e Fanon", focalizando o substrato psicológi-
da IdentId~?e r~cral em cursos sobre relações racíaís". A partir de
co do racismo, ou seja, a função que o racismo tem na economia u~a,expenencla de dez anos ministrando cursos sobre racismo a
psíquica do sujeito racista como, por exemplO, no fortalecimento psicóloqa procura sistematizar as respostas dos participantes a
de sua auto-estima à medida que se coloca como superior diante
conteudos relacionados com raça, a resistência que aparece no
de outro grupo, ou que encontra um bode expiatório para suas decor:er ?OS cursos, bem como as estratégias para superar esta
próprias culpas e mazelas. re~IstencIa. Muitos dos pontos levantados por Tatum guardam si-
Mais recentemente9 temos buscado enriquecer e destacar os milandade cO,maspectos da nossa experíêncía e, por essa razão
processos de formação da identidade racial, em particular da iden- vamos aborda-Ios. Compartilho com a perspectiva de Tatum que
tidade branca, enquanto um processo ideológico. Para trabalhar a destaca que um curso de formação sobre relações raciais obriga as
dimensão subjetiva, geralmente realizamos oficinas, nas quais, a
partir das vivências dos participantes, auxiliamos a emersão de
10. Taturn, Beverly Daniel Talkin b t .
conteúdos que favorecem uma reflexão mais acurada. :I,~ nthe10rsyof raciMaldevelo~mentid~~ti~Uinr~~~S~~~::I;a~~~a~~:~;a~~~~~~ea~~~inJ1
r" . . prmg. ount Holyoke College. 1992. . .
11. Tatum trabalha conjuntamente com o mod I d d . ..
8. Bento, Maria Aparecida da Silva. O legado subjetivo da; 500 anos. São Paulo, 1997. [mirneo.] 111 \Jra de William Cross (1971 1978) e o e esenvolvimento da identidade racial
IIi I de racial branca elaborado por ~~~~ f1~900~eloda teona do desenvolvimento da iden-
9. Bento. Maria Aparecida da Silva. Branqueamento e Branquitude. São Paulo: Ipusp-SP. 199'1.
[mímeo.i
155
154
pessoas a entrarem e/ou aprofundarem o contato com sua condi-
2. A maioria, principalmente os brancos, nega inicialmente
ção de negro e de branco. Esse contato obriga-as a rever seu pas-
qualquer preconceito pessoal, reconhecendo o impacto do
sado e a refletir sobre seu presente nas relações raciais. Raiva, cul-
racismo sobre a vida de outras pessoas, mas evitando reco-
pa, impotência, agressividade podem surgir dentro e/ou fora da
sala de aula, dificultando a continuidade do curso ou gerando a nhe~er o impacto sobre as suas próprias vidas. Ou seja, é
possível reconhoosr a carência do negro, mas não o privilégiO
desistência. É necessário, pois, ter uma boa leitura do que está
do branco. E possível reconhecer as desigualdades raciais
acontecendo para poder intervir de modo a garantir a continuida-
mas não como frutos da discriminação racial cotidiana;
de da participação das pessoas.
3. Pensar a sociedade como desracializada permite a alguns
Alguns pontos devem ser abordados, logo de princípio:
negros atribuírem o quantum extra de opressão que sofrem
- O fato de que, apesar do impacto do racismo sobre os a outros fatores, menos dolorosos que o fator racial. Assim,
brancos ser claramente diferente do impacto do racismo n.os cursos, estes negros poderão ser particularmente agres-
sobre negros, o racismo tem conseqüências negativas s::vos com os educadores. Ao longo do processo, essa rea-
para todos. Ou seja, o racismo é um problema para negros çao tende a mudar;
e brancos.
4. Por outro lado, muitas vezes a reação é entusiasmada
- O fato de que não se pode responsabilizar as pessoas pelo como a de alguém que diz: finalmente vão tratar dess~
que aprendem sobre racismo e preconceito na família, na quest~o, ou ainda, finalmente o sindicato se preocupa com
escola, nos meios de comunicações. No entanto, ao adqui- questoes que dizem respeito a todos os trabalhadores.
rir uma maior compreensão sobre esse processo, as pessoas
_ Qua?~o perguntados sobre suas memórias relacionadas a ques-
têm a responsabilidade de tentar identificar, interromper
toes raCIaIS e aos sentimentos a elas associados, tanto brancos
este ciclo de opressão e alterar seu comportamento;
quanto negros exibem sentimentos de confusão, ansiedade e/ou
- A importância de se dar exemplos e enfatizar que é possí- medo. Negros freqüentemente possuem memórias dolorosas de
vel a mudança, tanto individual quanto institucional, no que apelidos ou outras interações negativas com outras pessoas. Eles
diz respeito ao racismo. No entanto, essa mudança deve ser demonstram também ter tido questões que não foram nem formula-
vista como um processo ao longo de toda a vida, que pode das, nem respondidas. Muito freqüentemente se sentem mal quan-
ter começado antes da participação no curso e, certamente, do constatam que internalizaram coisas negativas sobre negros.
continuará depois que as aulas terminarem.
Uma grande resistência a superar é a crença que muitos
Muitos participantes dos cursos percebem o racismo querem preservar de que o esforço individual é reconhecido
como um difícil tema de discussão e, apesar de se inscreverem com imparcialidade.
voluntariamente no curso, ansiedade e resistência sempre
Ou seja, as pessoas evitam enfrentar a questão do racismo en-
acabam aparecendo.
q~anto sustentáculo de um sistema de privilégios preferindo acre-
ditar q,u: o reconhecimento que recebem é baseado somente no
Fontes de resistência s:u mento. Colocar isto em questão muitas vezes acentua a ten-
sao entre os participantes.
1. Embora a realidade mostre exatamente o contrário, muitos Se a negação direta da informação não é possível, então evi-
trabalhadores - independentemente do grupo racial a que tá-Ia pode ser a alternativa. Evitar estar no curso pode ser um dos
pertençam - foram socializados para pensar a sociedade como resultados. Não participar das atividades relativas ao curso é outra
desracializada e procuram agarrar-se a essa crença; Iorrna de abandoná-h

156
157
Esta resposta - segundo Tatum - pode ser encontrada tanto
em brancos quanto em negros. Estes geralmente entram no deba- cial e, ta~bérr: reduzir ansiedades posteriores sobre a exposição
te sobre racismo já com alguma consciência da questão, basea- do propno racismo internalizado. Estabelecer regras de confídên-
da em experiências pessoais. Mas mesmo estes participantes Cl~,r~speito mútuo, ausência de ironias e falar da experiência da
concluem que não tinham consciência do impacto generalizada ~ropna pessoa desde o primeiro dia de aula são passos necessá-
do racismo na sociedade. Para vítimas de racismo, a consciên- nos deste processo.
cia do impacto do racismo nas suas vidas é dolorosa e, freqüen-
temente, gera raiva.
o poder da produção do próprio conhecimento
Para brancos beneficiados pelo racismo, urna consciência am-
pliada disto gera raiva ou sentimentos de culpa. Evitar a questão A criação de oportunidades para que os próprios participantes
racial é urna maneira de evitar estes sentimentos de desconforto. produzam conhecimento (leitura/seminário) é uma ferramenta po-
Urna terceira fonte de resistência (particularmente entre bran- derosa para limitar o estágio inicial de negação que muitos experi-
cos) destacada por Tatum é a negação inicial de qualquer conexão mentam. Embora possa parecer fácil para alguns questionar a vali-
pessoal com o racismo. "Eu não sou racista, mas sei que as pes- °
da~e d.o,~ue eles leram ou do que educador diz, é, no entanto,
soas são, e eu quero entendê-Ias melhor'. mais difícil negar o que os seus próprios olhos vêem.
Contudo, quando adquirem urna melhor compreensão sobre o
que é racismo e sobre suas manifestações, freqüentemente come-: Conhecendo o problema
çam a reconhecer este legado dentro deles mesmos. Também ne-
gros reconhecem atitudes negativas, que eles podem ter ínternalí- . Algumas pessoas consideram sua CUlpa, vergonha, constran-
zado, sobre seu próprio grupo racial, ou que eles têm tido sobre glment~ ou raiva como experiências desconfortáveis que somente
outros grupos. Aqueles que previamente pensaram estar imunes à elas estao tendo. Tatum chama a atenção para o fato de que infor-
sociedade racista freqüentemente remoem sentimentos desagra- mar aos participantes, no início do curso, de que estes sentimen-
dáveis de culpa e raiva. tos podem constituir parte do processo de aprendizado, é etica-
Tatum chama a atenção para a importância da discussão so- mente necessário (no sentido de um consentimento aiuízado), e
bre identidade racial branca e negra, que pode auxiliar as pessoas aJud~ a tornar normal a experíência, Saber antecipadamente que o
a entenderem o processo pelo qual estão passando, além de propi- desejo de abandonar a discussão é uma reação comum ajuda as
ciar um quadro teórico para lidar com as resistências que surgem. pessoas a manterem-se envolvidas quando chegam a esse ponto.
Muitas vezes o início dessas transformações ocorre durante os Além disso, compartilhar o modelo de desenvolvimento da íden-
cursos. A consciência deste processo pode ajudar a implementar lIdade racial com participantes dá-lhos condição de compreender,
estratégias para melhorar o diálogo ínter-racíal na sala de aula. t nto o processo individual dos colegas, quanto o seu próprio. Este
Quatro estratégias são destacadas por ela corno alternativas qu quadro cognitivo não necessariamente evita os conflitos do pro-
podem ser úteis para reduzir a resistência e apoiar o desenvolvJ· (' sso de desenvolvimento, mas permite aos participantes ficar
mento dos estudantes: menos apavorados quando ocorrem situações de tensão.
. A inclusão de artigos sobre desenvolvimento da identidade
Criar um ambiente seguro ItI 'Ia} e/ou discussões nos cursos sobre estas questões, em con-
IIIIlçaocom outras estratégias, pode melhorar a receptividade das
Fazer do curso um ambiente seguro para discussão é essen 'I '11 nsoas para os conteúdos do curso. Uma vez que os estágios des-
aI para superar o medo dos participantes de quebrar o silêncio 111 I1I vem tipos de comportamento que muitas pessoas comumente
I lI! observado nelas mesmas, bem como em suas próprias intera-

158
159
. . ndência é a de que os participantes
ções intra e ínter-racíal, a te d conceitual básico, mesmo que Paradoxalmente, a despeito de todos esses obstáculos, temos
reendam facilmente o qua ro . .
podido observar que, justamente no movimento sindical, o poten-
~~~fenham conhecimento anterior de psícoloqia.
cial político dos cursos de formação sobre relações raciais fica ma-
ximizado. Provavelmente, dado o próprio caráter da instituição
Fortalecer o poder dos participantes como ag entes de mudança (representante dos interesses da classe trabalhadora, onde está a
população negra e mestiça), como também em razão da expressi-
. hamam a atenção para o fato de va presença de negros em cargo de direção (quando comparada a
Tatum, assim ~om.o Freira, c sobre aspectos condenáveis outras instituições).
que elevar a consciencia das pe:~~% de de mudança. É antiético
deve ser acompanhada da poss 11 a
Assim, ao longo dos últimos anos, pudemos acompanhar ati-
não fazê-Io. I de vamente a formação e desenvolvimento de Comissões e grupos de
ru os desenvolvendo um pano trabalho bem como a elaboração e articulação de "teses anti-ra-
Trabalhar em pequenos g ~. 'de enfatizar o racismo no seu
císrnos" em congressos de diferentes categorias.
ação definido por eles mIes;-os ~a:ados a pensar sobre a possibi-
sindicato, é fundam:nta.. ao c
lida de de ações antí-racísmo. O trabalho vem sendo levado a cabo essencialmente por diri-
gentes negros, uma vez que a resistência das centrais sindicais ain-
da é muito grande. No entanto, brancos que tenham tido a oportu-
Implicações para o movimento sindical nidade de aprender sobre racismo e decidiram refletir sobre si pró-
prios muitas vezes conseguem ser aliados dos negros em ativida-
e viemos realizando o curso temos des, tais como assembléias e outras atividades de organização, onde
Nos qu~s~ 10 anos em qu r _ através do programa de forma-
tido o prívíléqío de acompanha. ísmo dentro do movimento negros podem estar isolados e com pouca força de pressão.
ção - o crescimento da luta. antI-~~c~desconhecimento dos pro- Ao mesmo tempo, negros que têm tido a oportunidade de
sindical, marcado pelo sillendcla~~~problemas de classe. analisar as maneiras pelas quais o racismo pode ter afetado as
blemas raciais, desvmcu a os .
Suas próprias vidas, e como ele se manifesta no cotidiano do
b lhadora" denunciava que as seu sindicato, visibilizam a sua própria experiência e a validam.
A noção de "unidad~ d~ cl~sse tra :am-se para a totalidade, en-
possibilidades da ~çao sl~dl~al V11~:im o problema das práticas Eles podem se dispor a fortalecer o seu poder de mudança, e
tendida como md~ferencIaçao~rd co~o problema do sindicato, cOmpartilhar o seu aprendizado com outros, fazendo palestras
nos cursos de formação.
discriminatórias nao era ente~ I .o aldades raciais despertavam
bem como as diferenças e as. eS,lgu .
temores de ruptura, de prejuízo a totalidade, Não apenas negros devem fazer palestras, mas também pes-
soas brancas que fizeram um compromisso de ruptura com o
.. .. nos últimos anos se contrapõe nbandono do racismo. Estas pessoas pOderiam oferecer um mode-
A luta dos dmgente~ antl-racI~mo s problemas de um contín-
a essa idéia de totalidade que Ig~or~ ~hO e coloca em questão a lopara outros brancos, em busca de novas maneiras de entender a
/llla própria branquitude.
gente significativo da força de c::si~am ainda questionar o viés
idéia de un:da?e de classe. N~ e rática sindical e, ao mesmo
marxista clássico da concepç;o Pracia racial, do qual os síndi-
tempo, lutar contra o mIto_da. ~f1oc ferências bibliográficas
catas sofrem grande influência
AI ORNO, T.W. et et. La personalidad autoritaria. Buenos Aires: Proyec-
ción, 1965.

AI10RNO, v«, HORKHEIMER, Max. Djaléticas do esclarecimento: frag-


.
12. Silva I ' Racismo a, bresúeue.
J r., H'e dío .. S-ao Paulo , 1994, [mírneo.] mentos filosófjcos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

160
161
8. FAÍSCAS ELÉTRICAS NA IMPRENSA
. .
C'dadania em preto e branco: discu-
BENTO. Maria AP~reclda da S~~~pa~lo: Atíca, 1998. BRASILEIRA: A QUESTÃO
tindo as relaçoes raClals.. , . na VOZ de trabalhadores negros(as). RACIAL EM FOCO
_. Discriminaçãorac1al e reslste~~l~aulo' Puc-SP. 1992
Dissertação de mestrado. S . .'. fr'can-americam identity.
CROSS. w.E. Jr. Shades of black: I?lve~~~m a 1
Ph'ladelphia: Temple UmversltY. .' _
1 ck identity development. mgres
CROSS. w.E. Jr. et al The stage(sdO~b~~aCkPSYChoIOgy.3rd ed. San Fran-
cence models. In: R. Jones e .'
císco: Cobb and Henry. 1991. Rio de Janeiro: Fator. Iiey Ceione
FANON. Frantz. Pele negra. máscaras brancas. Isildinha Baptista Nogueira
1980. _ o na sociedade de classes. Fizemos um álbum de recortes de notícias, artigos e comentá-
FERNANDES. Florestan. A integra~afr do negr rios da imprensa brasileira sobre a questão racial na década de 90,
- Paulo' Anca, 1978 [Vol. 1
Sao J. . . C' U'- como meio de verificar e analisar o que se diz, o que se pensa e, so-
rauw- .' Brasil Rio de Janeiro: lV 1
lANNl. Octavio. Raças e classes SOClalSno . bretudo, o que se fantasia a respeito dos negros. Sem dúvida, não
- Brasileira. 1972. . B i1 tivemos com isso a pretensão de estar empreendendo uma leitura
zaçao . .' _ desigualdades socíaís no rqS .
HASENBALG. Carlos A. D1scn mma çao e analítica. profunda e extensa sobre a maneira pela qual o proble-
. d J eiro' Graal 1979. ma do negro tem sido representado na sociedade brasileira nos úl-
Rio e aneuo. . . . 1 ·dentity. Theory, research and
HELMS JE. (ed.). Black and white raclda 1 . timos anos. Apenas pudemos detectar, através das opiniões emi-
, . t CT' Greenwoo , 1990. tidas no cotidiano jornalístico com o intuito de formar e informar a
pract1ce. Westpor . . ~emininas negras escri
. d .guas' personagens 11 opinião pública, alguns sintomas ou indicadores do grau de elabo-
PIZA, Edith. O cammho as a Sã~ Paulo: EduspfFapesp. 1998.
ração da questão racial. do ponto de vista daqueles que detêm o
tas por mulheres brancas. . . abalho e sindicalismo. São Paulo,
SILVA JR., Hédio. Relações raoais no tr oder de informação da nossa e da própria sociedade.
1992. [mímeo.l . Selecionamos da amostra colhida os seguintes assuntos:
, .' S- Paulo 1994. [mnneo.l
-. Racismo a brasi1e~a. ao. ~out race learning about learning r, - os que causaram grande polêmica na grande imprensa e
TATUM. Beverly Damel. Talkmgt . 1dev~lopment identity ín classro revistas nacionais, com uma boa variedade de opiniões de
cism: Applying the tneorv o racia . V 62 n. 1. Spring: MouIIL articulistas nacionais e estrangeiros, tais corno A CUNa do
In: Harvard EducatJOnal RevI8W, . .
om. . sino (The bell curve), a novela da Rede Globo intitulada Pá-
Holyoke College, 1992. tria Minha e o multiculturalismo nos Estados Unidos da
América do Norte;
- a questão do branqueamento através de casos exempla-
res, tais corno o do artista negro Michael Jackson;
- a revolta dos negros em Los Angeles no ano de 1992.
Vejamos de modo resumido corno a imprensa tratou cada um
11111 assuntos selecionados.

163
162
cólogo americano Richard Herrn . .
cloec.o?ômica de grupos étnicos :::~~ af~rmou que a situação so-
Por quem os sinos dobram? redítárias quanto ao OI. Em 1990 avmculada a diferenças he-
Em 24 de outubro de 1994 foi iniciado um longo debate sobre qu~ encontrou evidências de um'fo Mmnesota Twin Study disse
tein muitos traços psícolóqícos, incluíd~r~e~~mponente genético em
um livro de autoria de Charles Murray e Richard Herrns , deno-
minado The bell curve (1994). A revista Newsweek apresentou na
Certamente os argumentos dí .'
sua capa dois perfis, o de um branco e o de um negro (muito seme- dade natural ou genética e t ítos Científicos sobre a desigual-
lhante ao de O.J. Simpson, atleta americano acusado de ter assas- grau de inteligência não er~ re as. raças, no que diz respeito ao
sinado a sua esposa e suposto amante) com o título: IQ - A hard as _pOlíticas de eug~nia masm.maIs apresentados para favorecer
100k at a controversial new book on race, c1ass & success. Is it des- a~ao afirmativa, financiados ~~~ ~:r~ desacreditar os planos de
nny? Logo em seguida, o jomalista e articulista da Folha de S. Pau- da~s norte-americanos, parapro Impostos pagos pelos cída-
lo, canos Eduardo Lins da Silva, divulgou, no Brasil, as week
idéias bási- laçao negra e a plenitude dos semo~er ~ ascensão social da popu-
cas do livro e a convulsão provocada nas revistas News e The S us Ireítos democráticos
New Republic, bem como nos mais importantes diários e revistas egundo o artigo de Tom M .
dos EUA. Em 30 de outubro de 1994, numa publicação do caderno
The bell curve consistia d orqanthau (Newsweek, 24/10/94)
prí . e em argumento . '
Mais! da Folha de S. Paulo, o referido debate foi transplantado para imeiro, uma reinterpretação do . s vmculados entre si. O
a cena brasileira e permaneceu como gerador de notícias e opi- g~nd.o e principal tema do livro ~~ncelto ~e classe social; o se-
genc~a na posição sOcioeconômi~~z~a respeito ao papel da ínteli-
niões diversificadas até janeiro de 1995. culmmava numa visão apocalí t" os grupos sociais e o terceiro
VejamOS, então, a origem dos debates e a configuração que destac~ndo a importância cr~;i~~ da soc~~dade americana atual
ele tomou nas revistas e jornais norte-americanos e brasileiros. determinação da riqueza pob as habilidades intelectuais na
. ,reza e status social
O assunto da relação entre inteligência e raça é muito antigo,
embora os autores do livro The bell curve o tenham retomado O pnmeiro argumento afirmava .
vam formados por três classes so . ~~e os Estados Unidos esta-
como se fosse uma descoberta ou novidade científica. No entanto, ~or uma "elite cognitiva" seleciona~als. a elite dirigente formada
o novo parece ter sido o contexto histórico e social no qual essas lizados na admissão de colé io a p~r testes de Ql e outros utí-
idéias ganharam força e importância. O artigo de Geoffrey Cowley
week grande classe média de cerca ~e ~2e5u~lv~rsidades de elite; uma
intitulado Testing the science of intelligence (News , ~ntre 90 e 110, e mais uma sub I milhoes de americanos de OI
24/10/94) fez uma resenha comentada da história dos testes de ncanos incapazes de melh c asse de 12 milhões e meio de ame-
quociente de inteligência, de 1575 a 1990, mostrando como é que orar o seu status social
eles serviram para tentativas de aplicação de políticas de eugenia , ~ segundo argumento dizia re . , . . .
L tístíca da população americ speíto a dlstri?uição normal es-
pela esterilização de pessoas com baixo Ql e criação concomitan-
te de um banco de esperma de gênios: "1966: Nobel Prize - Win- nos testes de 01. Cerca de 25o/ca~a,do ponto de vista da pontuação
ning physicist William ShOck1eyadvocates sterilization for people
le pessoas, estariam dividida Osa população, ou 62 milhões e meio
with íow JQs and supports a sperm bank for geniuses' .
(~o~)e ~lasse V (muito estúPid~~ dOl~grupos: classe IV (estúpí-
LI l~ tais como a pobreza a d . ~e~ diSSO,as patologias so-
Em 1969, o psicólogo educacional da Universidade da Califór- II cíal, criminalidade etc' e ~p~ndencla da política do bem-estar
nia (Berkeley), Arthur Jensen, afirmou como conclusão de pesqui
sas que as diferenças raciais de quociente de inteligência eram
I: ba~o .índice de i~teli~ên~i:n~m fortemente relacionadas com
( onsntuíam o grupo social d . egundo os autores, os negros
80% devidas à hereditariedade, e que a política de educação com
pensatória sustentada com dinheiro público tinha falhado, porqu
(11 ~! e outras medidas de ha~il~~I~;~:a~ pontuações nos testes
1111 ja haviam detectado a díf qnítíva. Pesquisas anterío-
era impossível mudar os valores dos testes de 01das crianças de I erença de 15 pontos na comparação
favorecidas, particularmente das crianças negras. Em 1971, o psl
entre negros e brancos de situação socioeconômica ~qui~alente, Apesar dessa apresentação sugerir uma postura contrária às
ou seja, a existência proporcional de menos negros mtelIgentes idéias ditas científicas de Murray e Herrnstein, é impossível saber
que brancos inteligentes. até que ponto a opinião da revista era de repúdio ou de propagan-
Em resumo, segundo os autores de The bell cu~e, cerca .de da das idéias contidas no livro, porque, em alguns trechos interca-
um quarto da população negra dos Estados Unidos tena ~I abaixo lados, são feitas afirmações de que o livro se fundamentou em da-
de 75 (retardamento mental); alguns negros com OI ~u~en~r pros- dos consensuais da comunidade científica, e que uma pesquisa
eraram ou prosperarão, enquanto que a g~ande maioria nao con~ feita no Instituto de Psicologia da USP mostrou que as crianças de
~eguirá ascensão de classe social, a despeito dosesfo!ços educa escolas públicas (de maioria negra) têm desempenhos escolares
cionais com os subsídios governamentais. A explica_çao dos a~to- inferiores às crianças de escolas particulares (de maioria branca).
res é a de que tanto os baixos quanto os ~ltos QIs sao determma- O caderno Mais! da Folha de S. Paulo do dia 31 de outubro do
ções genéticas, e que ambiente e educaçao compensad?ra pouco mesmo ano apresentou uma espécie de mosaico de opiniões de
ou nada podem fazer para alterar esse quadro ..E,les citam uma articulistas que iam da crítica reticente e ambígua às críticas mais
pesquisa denominada Efeito de Flynn (de um pSlcol?go cham;do radicais ao livro, certamente no espíríto de um grande jornal que
James Flynn) para argumentar que a disgênes_e esta abaíxan o o aspira à sua legitirnação no mercado. A esse propósito, queremos
QI nacional cerca de um ponto em cada geraçao. E.mo~trAas~ala- fazer referência ao artigo de Cláudio Weber Abramo nos Novos es-
vras a tendência para o rebaixamento do nível d~ ~ntelige~c~a no tudos Cebrap (nº 31, outubro de 1991), intitulado Império dos sen-
paísou disgênese tem sido provoca da pelas políticas SOC1~lSdo tidos - Critérios e resultados na Folha de S. Paulo, que diz:
Welfare State que estão dando oportunidade para o creSClme?-
Na Folha considera-se que opções políticas explícitas, como as de
to da popula~ão menos inteligente em detrimento da populaçao
(Roberto) Marinho, não são jornalisticamente aceitáveis: o jornal
mais favorecida geneticamente para um bom desempenho ínte- se define como apartidário. Não obstante, o jornal precisa fazer
lectual e social. opções, não só políticas como de diversas outras naturezas. Onde,
A revista Veja de 26 de outubro de 1994 lançou, na seção Ciên- então, buscar justificativas para suas escolhas? No mercado, é a
. cnete: O livro da fúria - A curva normal reSSuscita nos resposta da Folha (p. 43).
era a man . b
m~ios cientificos a tese da superioridade d?s bran~os so re os ne-
gros, enfatizando quatro pontos do conteudo do livro: Em outras palavras, o jornal pretende exercer um mandato do
leitor, e se ele não corresponde às suas exigências, o leitor suspen-
_ os negros são intelectualmente inferiores ao~ br.ancos e, de esse mandato rompendo o contrato de assinatura ou interrom-
por isso, menos vocacionados ao sucesso na vida; pendo a compra habitual do jornal. É óbvio que um jornal que bus-
_ isso é determinado por vários fatores, mas o predominante ca no mercado a sua legitimidade assume a posição de colocar na
é genético. Há pouco a fazer; pauta de prioridades não só o que irá aumentar a sua venda, mas
também o que certamente agradará ao gosto dos fregueses. Se as
_ o Governo não deveria gastar bilhões de dólares na manu-
opiniões dos articulistas são discrepantes, isso obedece a uma ló-
tenção de caríssimas escolas experimentais para neqros e
gica: elas atingirão distintos destinatários e, no final das contas,
pobres. Elas não conseguirão elevar intelectos que a bíolo-
todos ficarão contentes e o jornal terá cumprido a sua missão de
gia comprometeu; informar para além dos múltiplos particularismos.
_ o correto seria investir no aprimoramento da "elite cogni-
Para se verificar esse apartidarismo, bastará a leitura do ca-
tíva". majoritariamente caucasiana, abençoada por uma na-
derno Mais! da Folha de S. Paulo de 30 de outubro de 1994, que
tureza ,superior. incluiu os seguintes títulos e autores: A curva que abalou os EUA
- o livro The bell curve choca os americanos ao relacionar raça,

166 167
inteligência e desempenho social, de Carlos Eduardo Lins da Sil- Pátria amada, Brasil!
va; or mede comportamento inteligente, de Ricardo Bonalume
Neto; Raça, genes e Ol, de Charles Murray e Richard Herrnstein; Volta e meia as novelas brasil' d .
Escravidão e inferioridade, de Charles Murray e Richard Herrns- cios pUbliCitários se tornam veícu~lra~ e maior a~diência e anún
tein; Fontes do livro são neonazistas, de Jeffrey Rosen e Charles cistas contra o negro brasileiro. ~s e reproduçao de valores r
Lane; Brasileiros contestam ética dos testes de Ol, de Manoel da que produziu um certo impacto n omaremos um caso exemplor
Costa Pinto, e Pesquisa legitima cortes de subsídios, de Henry novembro e dezembro de 1994' a Imprensa durante os meses d
Louis Gates Jr. nada Pátria minha, horário das 2'0~ novela da .Rede Globo denomí-
quatro autores. oras, de Gilberto Braga e outro
O artigo de Lins da Silva pretendeu dar conta do debate nos
EUA, afirmando que "ninguém sério nos EUA contesta a maioria No dia 3 de novembro foi a
dos dados objetivos enfatizados por Charles Murray e Richard ~ual um dos protagonistas, o e~esen,t~da uma cena?~ novela nu
Herrnstein em The bell curve [...] as críticas ao livro são, quase to- Jardineiro de roubo. Emendou à :c~:ar~o ~aul Pelegnm" acusou o
das, políticas". Ricardo Bonalume, na mesma página, afirmou que sultos racistas: "negro safado" "CriO~;'?O ~?Justa .uma sene de ín-
"nenhum cientista tem uma definição perfeita do que seja íntelí- rando, o personagem Kenned' _ e neçro msolente". Cho
gênCia, ninguém sabe dizer o que é uma raça e menos ainda se y nao cOnseguIU reagir à altura
sabe quais os papéis da genética e do ambiente na produção das No dia 7 de novembro '. . .
agiram à cena da novela nãosó entIdades de atívístas negros re-
presumidas diferenças" .
feriam a auto-imagem do' so pelas expressoes pejorativas que
Nos dois artigos de Murray e Herrnstein, traduzidos da revista negro, mas também b
~ue o personagem não foi mostrado co " e so retudo, por-
The New Republic, os autores tentaram defender as idéias sobre a as ofensas, ou seja foi mostrad aloué alguem 9apaz de reagir
inferioridade dos negros nas pontuações dos testes, ao mesmo • A • ' o como guem que nao .
CIenCIaou auto-estima Outra if _ POSSUIcons-
tempo em que buscaram matizar os efeitos dessa "constatação" não-militantes acontec~ram n: ma~.e~taçoe~ de t~lespectadores
científica ponderando que isso não afetaria a relação individual ou nados com o racismo da cena conllçao de sImpatIzantes, indig-
social entre negros e brancos. O artigo Escravidão e inferioridade nove esca.
pareceu ser mais benevolente com relação aos negros, atribuindo No contraponto às cri!" b '
Hélio Guimarães escreveulCu~ e rt~m no espírito do grande jornal,
a sua inferioridade ao legado da escravidão em seus corpos e em
"sociológicas" do autor da nove~ 19~ara exaltar as qualidades
suas mentes. Etnocentrismo manifesto benevolente?
ele era o principal cronista da tele~isã erto ~r~ga, aflrmando que
Os demais artigos mostraram não só que Murray e Herrnstein tões emergentes no noticiário como o brasileira por .fisgar 3ues-
reforçaram o racismo com o prestígio da ciência mas também for- bre o quociente de inteligência d ,por exempl?, a.dIscussao so-
neceram argumentos poderosos para derrubar as políticas sociais imprensa. Comparou então oSdnegros recem-mstaurada na
de educação compensatória no momento de surgimento da maior mórias póstumas de Érás C~ba cena a novela a um trecho de Me-
classe média negra na história, além da maior subclasse negra. ta-se ao hábito de Brás C b as, no qual Machado de Assis repor-
Por que os sinos de A curva do sino tocaram tão forte na im-
dêncío, vociferando diant~ ~: cav~gar n? moleque escravo Pru-
prensa brasileira? Por que tanto alvoroço num país que, até hoje, boca, besta!" (Folha de S. pau~o~~~f:~~es do menino: "Cala a
não manifestou qualquer interesse político em compensar a popu- O editorial da Folha de S Paulo d 8
lação negra ou reparar a dívida contraída com a escravidão coloni- direito dos ativistas negros d~ t e de novem~ro defendeu o
al? Será que não soaram como um sinal de alerta dos brancos con- são, dando maior visibilidade pro estar co~tr.a o racismo na televi-
tra a possibilidade de movimentos negros levantarem a bandeira parece ter havido por parte d para o :PIsodIO, mas pontuou que
da reparação no Brasil? mento ou pressa por não esper~:e:;:~v~~s~~~~~ ndeagsros.
um açoda-
açoes que cer-

168
169
tamente não incorreria numa apologia ao racismo. O editorial re-
correu ao "bom senso" para não ferir as iniciativas dos ativistas e o E No dia 18 de dezembro, .no caderno especial de domingo, em
simpatizantes, mas deixou também uma reticência no ar: por que d,st~do de S. ~aulo, ,? escntor baiano Jorge Amado criticou "os
não poderiam esperar um pouquinho mais para que a novela to- r~ ICaI~d,a negntude por tentarem impedir a liberdade de cria-
masse um rumo politicamente correto? çao artística:

No dia 15 de novembro a Folha de S. Paulo pediu a dois repre- E~iS~.:n grupos radicais que tentam impedir a liberdade de cria-
sentantes da comunidade negra para escreverem sobre a novela ~:~77a~ g~PO~aclstas~ Acerca destes radicais escrevi, na pági-
Pátria minha. Novamente se reproduziu a tônica apartidária do jor- d ,o ~ro_ avegaçao de cabotagem: os radicais da negritu-
nal: Rapper ataca submissão e falta de orgulho de personagem ne- e na~lOna sao ;nulatos brasileiros, uns mais escuros outros
mais c adros,cUJo,un~co Ideal na vida é serem negros nort~-ameri-
gro, de Big Richard e Sambista defen de coragem de Braga ao enfo- canos, e preferencla ricos.
car discriminação, de Martinho da Vila. Na mesma edição, foi vei-
culada a notícia de correção de erro na novela, por parte dos auto-
res, bem como uma correção da correção: A p~essã,o e~ercida pelos movimentos negros, via imprensa
~a~~ ~ vISibiliz~çao,do r~cismo na novela Pátria minha foi afinal'
No capítulo de sábado retrasado, Pátria minha informou que o de m: a como racismo as avessas". O pequeno espaço c~ncedi~
Brasil dispõe de uma lei para combater o preconceito racial: Afon-
P~l~~~?~~OS na imprensa" por força das circunstâncias criadas
so Arinos [.,.] uma semana depois, três organizações paulistas re-
solveram contestar a informação na Justiça FederaL É que a lei
, tí 'dISO 10 ~o~elesco, fOIclassificado como ação coercitiva à
cna IVI ade artIstIca.
Afonso Arinos não existe mais, Nasceu em julho de 1951 e vigo-
rou até 1988 [...] Em 1989, outra lei, a 7,716, proposta pelo deputa-
do Carlos Alberto de Oliveira, estabeleceu pena contra os prati-
cantes de racismo: reclusão de dois a cinco anos. A ameaça atômica do multiculturalismo

E o multiculturalismo, o que é?
O lado irônico da questão, tal como foi tratada pela Folha de S,
Paulo, é que o autor da novela, comparado a Machado de Assis e Se nos basearmos exclusivamente na imprensa, o tema pare-
elogiado como atento observador e cronista da sociedade brasilei- ceu sempre estar relacionado com vários outros assuntos sem
ra pela televisão, desconhecia não só a lei antidiscriminação de que ~e saiba ex~tamente do que se trata: exigências de um~ "es-
1989, como também, e ao que tudo indica, a existência de movi- quer a cultural qu~ tem, conseguido implantar, nas universida-
mentos negros no país .., des e es?ol~~de ensino medio, nos Estados Unidos, pIO ramas so-
Outra novela, então, foi-se desenvolvendo na vida real: cro- ~~~:: ,hIst07,lase as cultur~s ?eSli~adas da tradição eu;oPéia ocí-
nistas, articulistas e até mesmo escritores começaram a julgar a re ,um neo-segregaclOfllsmo agora auto-imposto pelos se-
interferência dos ativistas negros na "criação artística" como coer- frui;~~~~~~,o;t~m, oubseja, os negros; uma tentativa de recons-
ção à liberdade que lhe é inerente. Tomemos como exemplo o arti- ,_ , IS oncos so re as minorias que sofreram o ressã
go assinado por Lisandro Nogueira, na Folha de S. Paulo do dia 17 oposrçao as "grandes narrativas" ou "narrativas-mest~as" id:' em
tas pela dominação branca nas Américas, etc. pos-
de novembro:
Desconhecendo a dinâmica e a complexidade da indústria cultu- ~m últin:a aná1i~e, tudo o que apareceu na imprensa sobre o
ral brasileira e seu principal produto, a telenovela, o movimento multlCulturalIsmo fOI,em princípio, a polêmica sobre o multicultu-
negro posta-se ao lado da arrogância da Igreja Católica, da prepo- ~daJj~ml
o. Atacant~s de direita, defensores de esquerda e é claro os
tência do Estado e da interferência cínica da emissora. I eo ogos do meIo-termo, ' ,

V~jamos os títulos e os autores que escreveram sobre essa


questao, de acordo com o caderno Mais! da Folha de S. Paulo de 12

170
171
de abril de 1992: Uma escola da diversidade - Professor defende l rio d q uota Iací Is na admissão de alunos de forma a garantir
novo ensino e vincula multiculturalismo à comunidade negra dos que a composição racial do corpo discente corresponda à compo-
EUA, de Nathan Glazer; Entre o melting pot e o mosaico, de Carlos sição racial da população; criaram novas especializações como
Eduardo Lins da Silva; A febre do multicu1turalismo - As reivindica- estudos afro-americanos, estudos da mulher ou estudos de gays e
lésbicas. Denunciando a noção da livre competição entre indiví-
ções de grupos étnicos radicalizam, nos EUA e Europa, o debate so-
duos iguais como mera falácia, esse movimento se iniciou nas
bre a diversidade cultural, de Marcos Augusto Gonçalves, e Debate universidades da chama Ivy League, as instituições de elite e de-
é violento e divide intelectuais americanos, de Esther Hamburguer. las se propagou para as outras universidades. Hoje há programas
Nathan Glazer afirmou que o multiculturalismo, sob a sua for- de estudo da mulher em mais de 500 universidades americanas e
o número de programas de estudos afro-americanos cresceu de
ma atual, derivou do afrocentrismo de educadores negros. Nesse
78 para 350 em 1991.
sentido, não foi um reflexo da grande imigração das últimas déca-
das porque os imigrantes não postularam o multiculturalismo (em-
bora os de língua espanhola tenham defendido o ensino bilíngüe e Em suma, os autores parecem não admitir que a História, tal
a manutenção da língua espanhola nos currículos escolares). O corno a conhecemos nos currículos escolares, é a versão e/ou re-
autor concluiu, então: "Estou convicto de que, se não fosse pelo construção dos fatos que dependem estritamente de quem diz.
Por que os grupos étnicos não poderiam fazer urna história a con-
padrão de resultados pobres obtidos pelos negros nas escolas, o
trapelo da história oficial? Como disse Angela Gilliam:
movimento multiculturalista perderia boa parte de sua força".
Nos EUA, interpretações altemativas por parte de muitos grupos
Em outras palavras, o multiculturalismo foi visto pelo autor
étnicos têm desafiado a narrativa-mestra, suscitando uma crítica
como um movimento separatista de minoria negra (que põe em
rica e nova, tanto nas ciências sociais quanto na literatura de ficção
risco a unidade nacíonal), por causa do fracasso dos negros nas e outras artes [...] Esta nova tendência tem sido aceita por pouquís-
escolas que eles mesmos lutaram para dessegregar nos Estados simos integrantes da elite norte-americana porque ameaça o status
Unidos. quo. As demandas por novas narrátivas têm sido taxadas tanto de
extremistas quanto de exemplos do politicamente correto. O con-
O artigo de Marcos Augusto Gonçalves foi mais explícito ainda:
ceito ou rótulo "politicamente correto" nos EUA representa uma tá-
Ao mesmo tempo que na Europa os projetos micronacionalistas (e tica conservadora para banalizar e neutralizar as críticas que desa-
a xenofobia) recrudescem nos EUA, a radicalização dos lobbies mi- fiam a narrativa-mestra (Folha de S. Paulo, 15/01/95).
noritários vai gerando uma espécie de neo-separatísmo voluntária,
a multiplicação de cercados culturais, a febre do preservacionismo
de raízes. Nas Universidades proliferam os cursos étnicos e difun- Negros que desejaram ser brancos
de-se a idéia de que só um negro (ou um afro-americano, para repe-
tir a polidez politicamente correta) pode dar aula sobre cultura afri- Não se pode negar que o branqueamento físico de Michael
cana, ou só uma mulher (ser humano do sexo feminino?) é capaz de
Jackson, atribuído ao uso de medicamentos, bem como as opera-
discursar imparcialmente sobre a história da sexualidade.
ções cirúrgicas para alterar os traços fisionômicos (sobretudo nariz
e boca) tem sido, desde 1991, um assunto bastante explorado pe-
O artigo de Esther Hamburguer, no entanto, contrariou as opi- los meios de comunicação em geral e pela imprensa em particular.
niões contidas nos anteriores, mostrando que o multiculturalismo Apareceu como um fato extremamente perturbador, talvez mais
não só enfrentou a hegemonia do pensamento branco e masculino no Brasil do que nos Estados Unidos, país de origem do artista ne-
ocidental. como tem alcançado resultados surpreendentes:
gro. Obviamente Michael Jackson não deixou de ser considerado
Defendendo o princípio da igualdade, educadores e intelectuais negro nos Estados Unidos, a despeito de seu branqueamento, sim-
ligados a movimentos sociais alternativos à esquerda tradicíonal plesmente porque é um descendente de pais negros.
abriram os currículos a obras não-ocidentais; introduziram o cri-

172 173
Os negros que estão condenando a mutação de Michael Jackson,
o branqueamento pelas vias "naturais", isto é, pela mestiça-
insinuando ser ela fruto de inveja de uma suposta condição dos
gem entre negros e brancos, é benquisto e benvindo no Brasil, ou brancos, acabam na verdade chegando a um veredicto semelhan-
seja, é considerado um valor cultural positivo por causa da impor- te ao do racismo branco: como esse negro se atreve a usar a mi-
tância por nós atribuída ao fenótipo ou aparência física na deter- nha cor em sua pele? (grifas nossos).
minação do grupo étnico de pertença das pessoas. O caso de Mí-
chael Jackson, no entanto, de branqueamento artificial. teve aqui Outras matérias veiculadas pela imprensa nacional reporta-
um efeito assustador. ram -se também ao uso de clareadores químicos da pele, com base
Num caderno destinado ao público jovem de classe média, na hidroquinona, por mulheres negras dos EUA, Jamaica, África e
um articulista manifestou a sua indignação diante das transforma- Inglaterra. Segundo os especialistas, a hidroquinona, mesmo em
ções do cantor, atribuindo a elas a causa da perda da qualidade de baixa concentração, destrói células produtoras de melanina tor-
suas músicas no último álbum lançado na época, chamado Dan- nando a pele sensível aos raios ultravioleta e elevando o risco de
gerous: "Com sua identidade diluída falta também a Michael câncer. O verdadeiro núcleo dessas matérias jornalísticas, no en-
Jackson legitimidade indispensável a qualquer astro da cultura tanto, esteve concentrado nos elementos psicossociais que leva-
pop [...]Michael Jackson é o eunuco do pop" (Folha de S. Paulo, ram essas mulheres a querer a pele mais clara:
9/12/91). A cor da pele é uma doença que há tempo perturba a auto-estima
de muitos negros. O uso de cremes branqueadores é um dos seus
Essa condenação raivosa do branqueamento intencional do
sintomas. Nos anos 20, um jovem escritor negro, Wallace Thur-
cantor estabeleceu, de forma "axiomátíca", a equivalência entre a man, mortificou a América do Norte com The blacker the beny
perda da identidade étnica (diluição de cor e traços negros). a per- (Quanto mais negra a amora), um romance sobre o preconceito
da da qualidade musical (produção inferior às anteriores) e a perda que alguns negros alimentavam contra pessoas que eles viam
da fertilidade masculina (eunuco)! como escuras demais. Décadas depois a escritora Awa Thíam,
em Black sisters speak out (Asirmãs negras se revelam)descreve
Arnaldo Antunes, então, escreveu um artigo bem-humorado
o branqueamento artificial da pele como a doença negra da se-
que serviu de recado para uma legião de pessoas indignadas com gunda metade do século XX (Folha de S. Paulo, 15/11/92).
o cantor:
Brancos sempre puderam parecer mulatos, bronzear-se ao solou Embora o artigo supracitado seja uma matéria traduzida de
em lâmpadas específicas para esse fim, fazer permanente para The Guardian, um jornal londrino, não deixou de assinalar um
endurecer os cabelos. Tudo isso é visto com naturalidade e sim- ponto de vista muito semelhante àquele dos brasileiros indigna-
patia. Tatuagem, que é uma prática predominantemente usada
dos com Michael Jackson: o negro é visto como portador de uma
por brancos, pode. Até mesmo aquela caricatura de AIJolson era
vista com graça. Agora o negro Michael Jackson entregar o seu doença, que ele próprio deve aprender a combater, que é a de que-
corpo à transcendência da barreira racial desperta revolta, rea- rer ser ou aparentar ser como o branco. Lembrando as palavras de
ções de protesto e aversão (Folha de S. Paulo, 7/01/92). Amaldo Antunes: por que o bronzeamento químico, que também
acarreta lesões perigosas na pele, praticado por muitas mulheres
Ou, em outras palavras: "Parece a indignação de um membro que desejam uma aparência supostamente mais saudável e sen-
da Ku Klux Klan defendendo a pureza racial ameaçada por esse sual. não é uma doença das mulheres brancas?
branco que não nasceu branco". Em 4 de setembro de 2000, Moacyr Scliar escreveu um texto
Esse parágrafo simples colocou a nu o conteúdo racista da de ficção baseado no noticiário internacional que informava: "Me-
ideologia do branqueamento, compartilhada culturalmente por bran- nina negra de 14 anos, acusada de ter roubado uma loja de pro-
priedade de um branco, em uma cidade conservadora da África do
cos e negros brasileiros:

175
174
Sul. foi punida, tendo o seu corpo pintado de branco da cintura quais cerca de 10 mil casas comerciais, dois mil veículos queima-
para cima" (Folha de S. Paulo, 4/09/2000). dos e 14 mil empregos perdidos (Jomal da Tarde, 13/06/92).

O escritor, então, interpretou o fato da seguinte maneira: a


Vejamos, então, os fatos relatados pelos jornais no período
menina fora assim punida para introjetar os valores da civilização
que vai do fim de abril a junho de 1992. Rodney King, um trabalha-
branca, sobretudo o respeito pela propriedade privada. No entan-
dor negro da construção civil, foi detido em seu carro nas ruas de
to, a despeito da tinta branca empregada para CO~)[llo ~osto e .a
parte superior do corpo, a punição "cívilizatória" ,nao surtíu o ef~l- Los Angeles quando ultrapassou a velocidade permitida. Fugindo
to desejado, porque a menina fugiu do reformatono onde fora In- da perseguição policial por temer a volta à prisão, pois estava em
ternada para tratamento. As pernas haviam continuado a ser_co~o liberdade condicional, acabou parando o carro e saiu com as mãos
antes - negras - e com elas a autora do furto elidiu a educaçao =. na cabeça, sem resistir às autoridades. Um cinegrafista filmou a
cena - de 81 segundos - mostrando King agachado e recebendo
ciplinar. Moral da história: "quando se trata de educar para a oisci-
plina, não se deve economizar tinta branca" ... golpes de cassetete. A agressividade dos policiais, no entanto,
não foi suficiente para que o júri do condado de Ventura incrimi-
A violência do branqueamento ficou bem explícita tanto n~ nasse os quatro policiais brancos cusados de espancar R. King;
fato ocorrido como na irônica ficção de Scliar - o branqueament? e além disso, o julgamento de um quinto policial (que deu 45 panca-
um dos muitos artifícios da dominação. No entanto, a glosa ÍlCCIO- das na vítima) foi adiado para 15 de maio de 1992.
nal também nos trouxe um recado: a dominação é incapaz d.e
completar a sua tarefa porque o dominado parece sempre possuir As circunstâncias do julgamento que incluíram a absolvição
um bom par de pernas para escapar às suas rédeas, frustrando as dos quatro polícíaís, a despeito do filme que foi mostrado e das
expectativas do chamado herói civilizador. mentiras dos policiais que alegaram desobediência e violência de
R. Kínq, geraram urna grande revolta da comunidade negra de Los
Angeles que se manifestou através de um sem-número de ações:
Los Angeles em chamas comícios, incêndios, saques, agressões, etc. Nos bairros negros
da região centro-sul de Los Angeles, que cobrem 65 quilômetros
Em 1º de maio de 1992 explodiram manchetes nos jornais bra- quadrados, começou a revolta que se espraiou por várias partes da
sileiros: Saques, incênclios e mortes: guerra de vingança em Los cidade e do país.
Angeles (Jornal da Tarde); Distúrbios raciais se espalham pelos
Os fatos falaram por si mesmos - um negro foi julgado por um
EUA (Folha de S. Paulo). Em 2 de maio: Bush ameaça usar a força
júri de brancos e os agressores foram absolvidos. "Sem justiça não
em Los Angeles (Folha de S. Paulo); Medo de violência p~alis~
há paz", gritaram os negros dos subúrbios de Los Angeles. Uma
NY. policiais dispersam passeata (Folha de S. Paulo); Recismo e
espécie de guerra civil tornou conta da cidade e do país por algu-
co~stante nos EUA (Folha de S. Paulo), etc. Em 13 de junho de
mas semanas.
1992: Los Angeles - O império das gangues (Jornal da Tarde).
Em 10 de maio de 1992 a Folha de S. Paulo apresentou uma
O último artigo mencionado, de autoria de Xavier Raufer e
entrevista do cineasta negro Spike Lee feita por um jornalista fran-
François Haut, fez um balanço de distúrbios raciais nos EUA:
cês do Libération. Spike Lee fez um filme que se revelou profético,
Em julho de 1967, os distúrbios de Detroit causaram 43 vítima~; os intitulado Faça a coisa certa (Do the right thing), sobre distúrbios
que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King, em abril de raciais num subúrbio de Nova Iorque. Disse que o filme foi inspira-
1968,46. Entre a quarta-feira, 29 de abril de 92, e a segunda,.4 de do em fatos reais porque já tinham aparecido situações nas quais
maio 58 mortos (41 a tiros), 2.400 feridos (2.300 a bala) e 12 mil de-
negros foram vitimados e policiais absolvidos:
tenç6es. Sem falar nos prejuízos de US$ 1 bilhã? em mais de 5 mil
incêndios provocados. No total, 15 mil construçoes daníficadas das

176 177
É mais ou menos isso que acontece em Los Angeles. Neste caso,
tras cidades dos EUA e mesmo da Europa? O estabelecimento
pela primeira vez, o crime foi gravado em vídeo [...]. Mas o governo
dos crips e dos bloods em 32 estados americanos traz muita inquie-
e a justiça americana são cínicos e extremamente racistas. Tudo foi
tação a este respeito.
calculado para que os policiais não fossem condenados. A primeira
coisa que fizeram foi transferir o processo de jurisdição de Los
Angeles para Sirni Valley. Em Simi Valley não há negros. Era im- Os articulistas franceses pareceram preocupados com três coi-
possível convocar negros para participar do júri [...]. O que este pro- sas, diante dos acontecimentos em L08 Angeles: contabilizar os
cesso mostra é que na América os negros não podem confiar na prejuízos materiais, descobrir os focos causadores dos conflitos e
Justiça: vejam a diferença de tratamento entre Mike Tyson e Willi- verificar a expansão desses distúrbios raciais na França. A questão
am Kennedy Srnith. O segundo é um homem que hoje está livre, que os incomodou recebeu um diagnóstico de estilo colonialista:
mas Tyson está preso (Folha de S. Paulo, 10/5/92, grifos nossos).
A lição para nós é que ter a nacionalidade do país não é uma ga-
rantia suficiente de integração. Os filhos de imigrantes magrebi-
Apontou, então, para a situação desoladora da comunidade
nos nascidos na França têm ódio, como alguns negros nor-
negra dos Estados Unidos: te-americanos. A chave é que quanto mais nossas sociedades se
O governo Lyndon Johnson se esforçava para fazer alguma coisa tornam complexas, mais elas fabricam gente subqualificada in-
do ponto de vista social, tinha um programa para a área. Mas oito capaz de se adaptar. O remédio não é a carteira de identidade, é
anos de Reagan e quatro de Bush foram suficientes para que to- a carteira escolar.
dos os programas sociais ficassem esqueléticos. O governo segue
as diretrizes estabelecidas pelo "big busíness" (idem, ibidem). A que conclusões podemos chegar diante desse grande es-
pelho da sociedade, que é a imprensa? Uma delas, a mais ime-
Em contrapartida, num artigo assinado por Xavier Raufer e diata, é a de que a questão racial é de natureza explosiva, mesmo
François Haut, publicado no Jornal da Tarde (13/6/92). a "análise quando as suas faíscas elétricas e as suas chamas súbitas são ne-
sociológica" correu em direção contrária: "Os crips e os bloods fo- utralizadas e contidas por um certo tempo, pois as suas causas
ram os principais artífices dos distúrbios de Los Angeles. Saldo: 58 continuam a existir onde sempre existiram: no preconceito e na
mortos, 2.400 feridos, 12.000 detenções. E se esta forma de guerri- discriminação. Mas, em definitivo, a repressão de um problema
lha espalhar-se para outras cidades do mundo?" não é a sua supressão.
Novamente foi atribuída aos negros de subúrbios a responsa- Outra conclusão é a de que a questão racial é representada
bilidade pela violência em Los Angeles e ... no mundo: as gangues como um problema ou uma doença dos negros, o que é, evidente-
negras, os bandos de jovens marginais são considerados respon- mente, falso e ideológico: onde estão os escravizadores de ontem
sáveis reais (e virtuais) de fuzilamentos, incêndios, linchamentos e e os dominadores de hoje? Nesse sentido, o ponto de vista que
tráfico de drogas ... prevalece na imprensa ainda hoje é o ponto de vista de quem goza
Para sociólogos, policiais e magistrados californianos, as gangues de poderes na sociedade atual e culpabiliza a vítima da opressão.
são análogas: xenofobia, composição monoétnica, adesão a uma Além do mais, parece que a questão racial ganha maior rele-
cultura da violência, desejo de controle territorial e financiamento vância jornalística quando os conflitos explodem fora do Brasil, ou
por venda de drogas. Eles diferenciam as gangues da grande cri-
seja, são não-brasileiros. Parece que o subtexto é o de que vive-
minalidade organizada, tipo máfia, que buscam o anonimato.
[... ] Hoje, a situação está sob controle, mas os distúrbios ficarão
mos numa verdadeira democracia racial.
apenas como uma lembrança amarga do passado? Poderiam A vida curta e fugaz da informação da imprensa é, sem dúvi-
ressurgir na própria Los Angeles sob a forma de uma guerrilha da, um impedimento ao trabalho da análise e da reflexão: as notí-
urbana conduzida pelas gangues a partir de seus territórios de
cias de anteontem não interessam mais ao leitor; as análises dos
South Central e Watts? E mais, poderiam servir de modelo a ou-
comentaristas somem quando o jornal some nas lixeiras. Os fatos

178
179
de hoje são como a refeição quente do dia. Quem se lembra do que
9. A FLAMA SURDA DE UM OLHAR*
comeu no ano passado, num determinado dia da semana?
Se lembrarmos, contudo, que as representações sociais vão se
afirmando, reafirmando e confirmando através do que lemos e ou-
vimos sem o trabalho da análise e da reflexão, então a vida curta e
fugaz da informação jornalística se torna algo que merece a nossa
atenção permanente.
Iray Carone
A militância negra, ao ser entrevistada no Instituto brasileiro
de estudos e apoio comunitário (lbeac), por iniciativa e coordena-
ção de Ivair Augusto Alves dos Santos, foi unânime em afirmar a
importância da obra e da atuação política de Eduardo de Oliveira e
Oliveira, sociólogo formado na USP e falecido em 1980. Recebe-
mos, então, das mãos do militante Jurandir Nogueira, um volume
intitulado Inventário analítico da Coleção Eduardo de Oliveira e
Oliveira (1984), do Arquivo de história contemporânea da Univer-
sidade Federal de São Carlos. Nas 120 páginas do inventário estão
arrolados 2.200 documentos em 13 grupos ou tipos, tais como cor-
respondências' fotos, documentos pessoais, livros, periódicos, re-
cortes, folhetos, produção intelectual, etc.
Durante alguns dias, em visitas ao Arquivo, consultamos a
sua produção intelectual, desde os cadernos de estudos contendo
fichamentos de livros, anotações de aulas, comentários e observa-
ções pessoais até os artigos publicados nos jornais de São Paulo e
revistas especializadas, bem como os relatórios da pesquisa que
vinha realizando sobre ideologia racial no Mestrado.
Antônio Cândido, que prefaciou o inventário e conheceu Edu-
ardo pessoalmente nos tempos da Maria Antonia, disse que:
Havia na tristeza do seu olhar velado uma flama surda, que pare-
cia erguer contra os obstáculos a sua figura nervosa e frágil. Ele
procurou sempre criar o bom escândalo - enfrentando, protestan-
do, desmanchando os prazeres - quando entravam em jogo as
suas convicções, que eram as convicções adequadas a fazer o
Brasil encontrar-se consigo (Prefácio, s.p.).

* O artigo foi, pela primeira vez, publicado na Revista do Ceert, VaI. I, n. 1, novo 1997. Agra-
decemos a licença para sua publicação.

180 181
E mais: absorver padrões de vida dos brancos e através deles, redefinir a po-
sição do negro na estrutura social e as imagens negativas que circu-
Festejado, querido, respeitado, faltava apenas dar um passo e se lam a seu respeito (relatório à Fapesp, 1974,p. 3).
instalar no mundo promissor dos que seguram o cabo da vida. No
Brasil (apesar de "nossa alma crivada de raças", de que fala Mário
de Andrade) isto significa antes de mais nada ser considerado Essa hipótese dependeu, para ser desenvolvida, de dois pares
branco, querer ser branco, passar por branco, ser tratado como conceituais: stress (pressão)/strain (tensão) e negridade/negritude.
branco (Prefácio, S.p., grifos nossos).
Vejamos o primeiro par. Deriva da Engenharia quando se refe-
re à pressão mecânica exerci da sobre um corpo material e a reação
Eduardo de Oliveira e Oliveira conquistou o mundo com sua mensurável a ela. No campo da Medicina, a doença pode ser vista
inteligência - ou melhor, com a sua enorme coragem intelectual-, como uma maneira reativa do organismo para se adaptar a um
recusando, ao mesmo tempo, o prêmio da "brancura honorária" agente nocivo que funciona como stress. Analogicamente falan-
não aceitando passar pelo conta-gotas social brasileiro que costu- do, a cultura também pressiona o indivíduo e possui inúmeros veí-
ma selecionar os gênios da negritude, os eleitos, para" o lado de cá culos de stress, tais como a pobreza, a estimulação concomitante
da barreira". de valores norma tivos contraditórios entre si, os preconceitos e os
Em tudo e por tudo, os documentos do arquivo de Eduardo estereótipos, os impedimentos aos acessos dos benefícios sociais
atestam a ardência, o fogo de sua militância: mais de 300 cartas do trabalho, etc. As respostas individuais a essas pressões diárias,
pelos quatro cantos da Terra; 533 livros da melhor literatura nacio- como o sentimento de opressão, a tensão psicológica, a angústia,
nal e internacional sobre o negro; 240 unidades documentais de a ansiedade, a depressão ou as tentativas mais espetaculares para
folhetos, separatas e teses sobre a questão racial; 91 catálogos de a adaptação, como o sentimento de revolta contra as outras pes-
universidades brasileiras e estrangeiras com as quais mantinha soas ou a própria hostilidade paranóica, constituem o strain. Indi-
contato; 348 fotos e eventos vários, etc. O raio de ação de sua pala- vidualmente falando, somos capazes de selecionar o strain para
vra num curto espaço de tempo vital, mostra o quanto transcen- sobreviver psicologicamente ao meio cultural adverso e contradi-
deu os limites da finitude humana, tomado literalmente pela causa tório, procurando consciente e inconscientemente regular a inva-
do povo. Se demorarmos a atenção nos seus escritos, sentiremos são e reparar as ambigüidades que ameaçam destruir os nossos
de perto a dor de um homem sublimada na ação política imediata, sistemas cognitivos e emocionais.
cravando as unhas na terra para a militância de hoje. A proposta básica de Eduardo era a de conhecer os mecanis-
As suas hipóteses sobre a psique do negro brasileiro, nas nos- mos egóicos e inconscientes de defesa do sujeito negro às adversi-
sas circunstâncias sociais, políticas e econômicas, estão contidas dades culturais brasileiras, inclusive a do branqueamento. Para
nos relatórios científicos que mandou para a Fapesp e para a Ford tanto, buscou a utilização de métodos clínicos como o Teste de
Foundation, de 1974 a 1976, enquanto era mestrando na área de Rorschach para psicodiagnósticos mais precisos da organização
Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências dos sujeitos. Os relatórios mencionam um questionário-piloto a ser
Humanas da USP, sob a orientação do professor Ruy Coelho e, aplicado a 60 sujeitos, em faixas etárias diversas, diferentes cate-
posteriormente, do professor Borges Pereira. Em termos gerais, a gorias sociais e sexuais. A seguir, a aplicação do Teste de Rors-
sua Dissertação de Mestrado, intitulada Ideologia racial- Estudo chach aos mesmos sujeitos (posteriormente, essa metodologia foi
de relações raciais, afirmava o seguinte: alterada para a aplicação de testes de Figuras humanas de Macho-
ver e Escalas de inteligência de Wechsler-Bellevue).
O negro não é portador de uma ideologia racial definida mas sim, de
uma contra-ideologia, ou seja, de uma predisposição para absorção Os relatórios afirmam que os primeiros dados obtidos compro-
dos modelos de organização, de comportamento, de personalidade vavam as hipóteses iniciais de que o negro assume papéis que fa-
dos grupos sociais existentes na sociedade inclusiva. Impulsão para zem dele um negativo do branco, através de comportamentos Ia-

182 183
tentes e manifestos. Estão em ação, nos sujeitos estudados, me- drões estéticos, fazendo da cultura um dos elementos da transfor-
canismos psicológicos que projetam para fora deles mesmos a ca- mação social. Isso pressupõe - pergunta Eduardo - a existência de
pacidade de aceitar a existência de um preconceito racial com um grupo majoritário e inteligente, consciente de sua etnicidade,
base na cor: nas entrevistas há evidências de que, na maioria dos capaz de se desenvolver como intelligentzia do país? Em outras
casos, os sujeitos conhecem e admitem o problema, mas não pre- palavras, a negritude seria também a produção cultural do negro
tendem tê-lo vivido, atribuindo essa vivência a outrem, com quem elevada a um alto grau de excelência para combater as ideologias
não se identificam grupalrnente. Tais manobras ajustadoras ser- dominantes? O verdadeiro poui-soi sartreano de uma raça, o seu
vem, segundo Eduardo, para a manutenção do equilíbrio interno momento afirmativo mais alto.
ou para o sujeito se proteger de ser esmagado pela tensão provo-
cada pela adversidade cultural. As pesquisas iniciadas por Eduardo de Oliveira e Oliveira não
chegaram ao fim nem foram apresentadas no formato de Disserta-
As culturas, por sua vez, podem ser duras ou fáceis de acordo ção de Mestrado em Antropologia Social. Há uma carta da psicólo-
com a quantidade de stress que veiculam. Pode acontecer, e com ga Latife Yazigi, da Sociedade Rorschach de São Paulo, para a
freqüência ocorre, que a grande quantidade de stress tenha efeitos Ford Foundatíon, em novembro de 1976, comunicando a aplica-
psicológicos positivos na constituição da individualidade do opri- ção do psicodiagnóstico de Rorschach para a pesquisa Ideologia
mido, promovendo altos níveis de organização mental e emocio- racial: estudo de relações raciais do sociólogo Eduardo de Oliveira
nal, que não seriam possíveis em situações sociais menos adver- e Oliveira e que os dados estariam aguardando um tratamento es-
sas. Os grupos minoritários que se revoltam são exemplos disso. tatístico a cargo da professora Nazira Gait. Não encontramos mais
Eduardo citou, a esse propósito, dois pensamentos, um de Walter informações sobre o destino dessas pesquisas.
Benjamin, que lembra: "a tradição dos oprimidos nos ensina que a
Um artigo que merece destaque na produção intelectual de
regra é o estado de exceção em que vivemos"; outro de Heçel,
provavelmente retirado de A fenomenologia do espírito, que diz Eduardo é, sem dúvida, O mulato, um obstáculo epistemológico, di-
que o escravo não deve apenas romper as correntes, ele deve tam-
r.
vulgado na prestigiada revista Argumento, ano nº 3, em janeiro de
bém despedaçar a imagem negativa tanto nele quanto na cabeça 1974. Nele, Eduardo articula uma extraordinária reflexão sobre os
de seu ex-senhor. antes de se tornar realmente livre. mitos e fatos do sistema brasileiro de relações raciais, a partir da lei-
tura do livro de Carl Degler intitulado Neither black nor white: Slave
Dentro deste contexto de análise, os conceitos de negridade e and race relations in Brazil and the United States (1970).
negritude são utilizados por Eduardo para exprimir as respostas
organizadas do negro à perversão social. O primeiro conceito emer- O objetivo desse artigo é o de refutar os argumentos "hístorío-
giu do Manifesto à gente negra brasileira, de Arlindo Veiga dos gráficos" de Carl Degler que se baseiam, na verdade, no estereóti-
Santos, presidente da Frente negra brasileira, em 02/12/1931: "A po criado por André João Antonil de que o Brasil é o inferno dos
nossa história tem sido exageradamente deturpada pelos interes- negros, purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos. O mulato
sados em esconder a face histórica interessante ao negro, aquilo ou meia-raça, no dizer de Gilberto Freyre, seria um tipo socialmen-
que se poderia dizer 'a negridade' de nossa evolução nacional". te aceito na sociedade brasileira; este mito estaria fundamentado
. num outro mito - a máxima segundo a qual, no Brasil, quem tem
A negridade é um momento de desalienação do negro na so- um pouco de sangue branco é branco.
ciedade brasileira, mas ainda tem como modelo o branco. A negri-
tude vai mais longe: é uma contra-ideologia construí da para mino- Substancialmente falando, o artigo é uma polêmica educada
rar as frustrações psicossociais de uma categoria racial e eventual- porém firme contra o argumento principal do historiador na com-
mente auxiliá-Ia na luta direta pela modificação do status quo so- paração que estabeleceu entre as relações raciais nos Estados
cial. Pressupõe, portanto, a negação da ideologia da classe domi- Unidos e no Brasil. A diferença específica entre os dois racismos
nante, os seus valores, os seus pontos referenciais, os seus pa- seria a sua atenuação, do lado de cá, devida à aceitação social ou

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integração do mulato à sociedade brasileira. Embora a interpreta- - os movimentos sociais negros iniciados em São Paulo que,
ção histórica de Degler não permitisse uma aproximação maior na década de 20, tinham à frente José Correia Leite (mulato),
com a idéia de democracia racial, ela tendia a desconsiderar (ou a Arlindo Veiga Santos (mulato), Francisco Lucrécio (mulato),
p~car por daltonismo social) a real condição da população mestiça Raul Joviano (mulato), Henrique Cunha (mulato), etc. Além
onunda da miscigenação entre negros e brancos: disso, José Correia Leite, ínspírado em Vicente Ferreira, foi
um grande batalhador para introduzir o termo negro em subs-
Acreditamos que, ao atribuir ao mulato um lugar reservado em tituição ao vazio e hipócrita termo homem de cor.
nossa sociedade, o autor também sofria, quem sabe involuntaria-
mente, daquele daltonismo de que somos acusados por Ray Nash, Foi precisamente através da palavra negro que se buscou congre-
para quem somos "o mais daltônico dos povos, a ponto de olhar na gar os descendentes de africanos, numa tentativa de arregimen-
cara de um homem negro e não ver mais do que um homem", sem tação que os afastasse do esvaziamento fenotípico - o mulato -
enxergarmos o problema que ele representa (1974, p. 70). socialmente mais predisposto a beneficiar-se das manifestações
de hierarquização econômico-social dos grupos ... (1974, p. 73).
Voltemos a atenção ao título intrigante do artigo de Eduardo
para depois reconsiderar a percepção distorcida ou daltonismo O obstáculo epistemológico à compreensão das relações raci-
de Degler. Por que - segundo Eduardo - o mulato é um obstáculo ais no Brasil é urna construção do ponto de vista da classe domi-
epistemológico? Obstáculo epistemológico é um impedimento nante branca, que supõe que o Brasil seja, retoricamente falando,
a?, co?hecimento verdadeiro - um bloqueio criado pela própria o paraíso dos mulatos, ignorando os seus problemas e as deman-
ciencia para se conhecer o objeto. Neste caso, o mulato é um im- das expressas pelos movimentos negros. Como disse Eduardo, a
pedimento para se conhecer, de fato, a natureza das relações ra- expressão mulatto escape hatch seria melhor traduzida por alça-
ciais no Brasil. Na verdade, não se trata do mulato, mas sim da pão ou armadilha preparada - saída de emerqêncía para o sistema
construção sociológica do mulato: a "saída de emergência" do de dominação branca e prisão para impedir que o mulato adquira
sistema social que funcionaria como redutor de tensões raciais consciência de sua negritude.
ou uma "válvula de escape" para evitar as polarizações antagôni- Para a infelicidade geral, Eduardo não está mais entre nós. Se-
cas entre negros e brancos. ria tão bom saber a quem hoje levantaria a flama do seu olhar ou da
Esse conceito ou constructo socíolóqíco, de fundamento em- sua crítica implacável. Ou a quem esboçaria um pequeno sorriso.
pírico insuficiente, funciona como uma idéia reificadora das rela-
ções raciais brasileiras. Eduardo aponta para dois fatos, com a in-
tenção de demolir o conceito de mulato: Referências bibliográficas

- um comentário de Joaquim Nabuco dirigido a José Verís- INVENTÁRIO Analítico da Coleção Eduardo de Oliveira e Oliveira - Uni-
simo (que havia escrito no jornal que Machado de Assis era versidade Federal de São Carlos, Arquivo de História Contemporâ-
mulato e grego da melhor época), nos seguintes termos: nea. São Carlos (SP), 1984.
Eu não teria chamado o Machado de mulato e penso que nada lhe OLIVEIRA,Eduardo de Oliveira e. O mulato, um obstáculo epistemológi-
doeria mais que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando redu- co. In: Revista Argumento Ano r. nº 3, jan. São Paulo: 1974, p. 65-74.
zir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é -. Relatórios de pesquisa à Fapesp, 1974 [mimeo].
pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O Machado para mim era
um branco e creio que por tal se tomava; quando houvesse san-
gue e~t~anho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização
caucaSlca (1974, p. 70, grifos nossos).

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