Você está na página 1de 4

A identidade de filho

Vivemos num tempo em que há um número cada vez maior de cristãos frustrados e
decepcionados com a vida cristã. Muitos vivem a sua fé unicamente baseados na modificação
de comportamento e na superação individual. Com o tempo, acabam caindo em tédios e
frustração.

Por que há tantos vivendo numa condição espiritual tão cheios de desânimos? Se fizermos essa
pergunta a diferentes grupos, teremos algumas dessas respostas:

• Falta fé para essas pessoas.


• Não são obedientes.
• Não vivem em santidade.
• Não fazem batalha espiritual.
• Precisam de cura interior.
• Nunca foram discipulados.
• Não são cheios do Espírito.
• Não têm vida de oração e jejum.

Provavelmente, todos esses fatores têm a sua importância, mas não explicam realmente
porque muitos se sentem vazios e apáticos espiritualmente. Para falar a verdade, conheço
pessoas que fazem todas essas coisas e ainda estão insatisfeitas.

Creio que a raiz do problema é que não conhecem o Pai. Não têm revelação do seu amor e não
desfrutam da vida abundante que Ele dá. Não estou falando de Jesus e nem do Espírito Santo,
mas do Pai. Jesus disse que Ele é o caminho para ir ao Pai (Jo 14.6). E a própria vida eterna é
conhecer o Pai (Jo 17.3). Até que o cristão conheça o amor do Pai, viverá insatisfeito como se
estivesse incompleto.

Tenho percebido que, na vida da igreja, muitos não conhecem a Deus como Pai. Tristemente, a
figura paterna está ausente da vida deles. Vivemos no meio de uma geração órfã, que não sabe
o que é paternidade. Não temos referência de paternidade e por isso não conseguimos nos
relacionar com Deus assim.

O diabo quer impedir que as pessoas conheçam a Deus como Pai porque ele sabe que um
crente com mentalidade de órfão não pode manifestar a vida de Deus e nem cumprir o seu
propósito eterno.

A estratégia do maligno é eliminar o pai natural na vida dos filhos. Ele sabe que, quando uma
pessoa não tem uma imagem de pai ou tem uma imagem distorcida, isso se torna um
impedimento para que ele conheça a Deus como Pai.

Hoje, um de cada três lares está sem pai e, nas famílias em que ele está presente, a relação
com os filhos é cada vez mais distante. Está comprovado o efeito devastador da ausência do pai
na vida de um filho. A falta de pai está intimamente ligada à marginalidade e à pobreza. A
paternidade é um dos fatores mais importantes para gerar uma boa autoestima.

Um problema de identidade
Uma identidade adequada é a base de toda uma vida espiritual. Você não é fruto de um
acidente cósmico ou o resultado aleatório da natureza. Você existe e foi criado por Deus com
uma identidade específica e, até que a descubra, não poderá desfrutar da vida de forma plena.

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra


vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no
qual clamamos: Aba, Pai”. (Rm 8.15)

Infelizmente, muitos ainda vivem debaixo do espírito de escravidão. Não vivem como filhos,
mas como escravos, cheios de medo. Não conhecem sua identidade como filhos e por isso não
conseguem se relacionar com o Pai com liberdade e desfrutar do seu amor.

Essa mentalidade de escravo é muito semelhante ao sentimento do órfão. Em Lamentações


5.1-9, temos uma descrição do sentimento e da condição de um órfão. Este pode ser o quadro
do crente que ainda não possui revelação da sua posição como filho.

“Lembra-te, SENHOR, do que nos tem sucedido; considera e olha para


o nosso opróbrio. A nossa herança passou a estranhos, e as nossas
casas, a estrangeiros; somos órfãos, já não temos pai, nossas mães
são como viúvas. A nossa água, por dinheiro a bebemos, por preço
vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre o nosso
pescoço; estamos exaustos e não temos descanso. Submetemo-nos
aos egípcios e aos assírios, para nos fartarem de pão. Nossos pais
pecaram e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas
iniqüidades. Escravos dominam sobre nós; ninguém há que nos livre
das suas mãos. Com perigo de nossa vida, providenciamos o nosso
pão, por causa da espada do deserto”. (Lm 5.1-9)

Sente-se envergonhado (v. 1)


Todo órfão se sente envergonhado diante dos outros. Ele se sente sem a bênção da aliança. No
Velho Testamento, a figura do pai era o símbolo da aliança de Deus com a família.
Naturalmente, o órfão se sentia sem a bênção. Toda criança sem pai se sente menor que a
outras.

Da mesma forma, quando um cristão não conhece a Deus como Pai, é como se fosse órfão
(ainda que não seja). Sente-se como se não estivesse debaixo da aliança. Vive sem garantias ou
segurança, por isso sua vida é marcada por uma sensação de abandono e pobreza espiritual.

Não tem herança (v. 2)


A herança é um fator importante na vida. Ela serve para que o filho possa seguir adiante na
vida e estabelecer sua própria casa. Quando uma pessoa era órfã, não tinha essa vantagem,
por isso na Bíblia a pobreza está sempre associada aos órfãos.

Quando um crente não conhece a Deus como Pai, é como um órfão, porque ele não desfruta
da porção da herança que lhe cabe como filho de Deus.

Não tem descanso (v. 5)


Seguir na vida com o apoio de um pai não é o mesmo que seguir sozinho. Lamentações
mostram que, para o órfão, tudo é mais difícil e complicado. A falta de paternidade é uma
grande desvantagem na vida. O crente que não tem entendimento que é filho de Deus vive
esgotado, porque trabalha sozinho sem contar com a força de Deus. Isso produz uma enorme
frustração.

Órfãos não sentem segurança, por isso temem o amanhã. Vivem com medo da necessidade e
da falta de proteção. A constante ansiedade é o que cansa a nossa alma. Mas aqueles que
possuem um pai vivem tranquilos. Sabem que serão cuidados, não importa o que aconteça.

Vive como escravo (v. 8)


Lamentações diz que o órfão vive como escravo. Paulo diz em Romanos 8.15 que precisamos
nos livrar do espírito de escravidão. Na velha aliança, as pessoas viviam debaixo de escravidão
e medo de Deus porque não eram filhos. Hoje, não precisamos mais viver assim, porque fomos
feitos filhos.

Pelo Espírito, nós clamamos: “Aba Pai”. Aba é a forma como as criancinhas se dirigem a seus
pais em Israel. Sua melhor tradução seria “paizinho”. É uma forma íntima e amorosa de se
relacionar com o seu pai. A menos que você seja capaz de chamar a Deus de "paizinho", você
ainda está debaixo do espírito de escravidão e do medo.

Sente-se desprotegido (v. 9)


Lembro-me de quando era criança, eventualmente havia desentendimentos na escola e meus
colegas sempre diziam: “Vou contar ao meu pai para que ele lhe dê uma lição!”. Esta era a
solução para todos os problemas deles. Mas eu não tinha um pai a quem chamar para que
viesse me proteger. Isso produzia uma grande sensação de insegurança e abandono.

Órfãos não têm ninguém que os proteja, por isso eles precisam se defender sozinhos na vida. O
mesmo acontece com o cristão que não conhece o Pai. Imagina que está sozinho, pois sempre
imagina que Deus não o ouvirá pelo tanto que se comporta mal. A sensação de estar
desprotegido traz grande angústia a todo órfão.

Vive sem propósito


A Palavra de Deus diz que os filhos são como flechas e os pais são os arqueiros que atirarão
essas flechas.
“Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão.
Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade”. (Sl
127.3-4)
O arqueiro tinha a responsabilidade de polir as flechas e mirá-las no alvo antes de lançá-las. Da
mesma forma são os pais que prepararam os filhos e dão direção à vida deles. Este é o motivo
porque órfãos raramente acertam o alvo, pois não têm pais que os direcione.

Aquele que não conhece a Deus como Pai tem muita dificuldade de alcançar o propósito de
Deus em sua vida, pois não se coloca nas mãos do Pai para ser lançado.

Vive sem alegria


O resultado da vergonha, da falta de segurança, do cansaço, da escravidão e da falta de
propósito é um coração cheio de tristeza e angústia. Quando o crente não conhece o Pai,
mesmo fazendo muitas coisas na igreja, eventualmente se sentirá pesado e cansado,
perguntando-se: “Será que isso é tudo na vida cristã?”.

De volta ao Pai
No princípio, o homem desfrutava de uma relação livre e plena com o Pai, e essa relação
definia sua vida. O homem tinha a identidade de filho, o que lhe permitia desfrutar da vida
abundante.

Mas o homem caiu no pecado e por isso morreu de maneira espiritual. O pecado, além de ser
um ato de desobediência, também foi uma recusa da paternidade de Deus. Por causa disso, o
homem perdeu a posição de filho e o direito de uma vida de bênção.

Colocando isso em outros termos, o homem teve de sair da casa do Pai e ir trabalhar
arduamente para sobreviver. O homem perdeu a vida de filho com todas as suas prerrogativas
e passou a viver como escravo.

Mas, apesar do pecado do homem, Deus não mudou o desejo do seu coração de ter uma
família com muitos filhos. O Senhor Jesus não veio primariamente para nos levar para o céu,
mas para nos levar de volta ao Pai. Esta é a verdade básica do evangelho. Ele veio nos fazer
filhos.

Precisamos conhecer a Cristo, servi-lo adorá-lo e também ser cheios do Espírito. Mas no fim
precisamos nos relacionar com a primeira pessoa da Trindade como Pai. Esta é a chave-mestra
para desfrutar de uma vida plena e abundante.

Aluízio A. Silva

Você também pode gostar