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Globalização e Sociedade dos Indivíduos:

Redes Sociais, Interdependência


e Auto-controle
Marcos Leandro Mondardo
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul

Índice num campo de tensões e de poder na so-


ciedade dos indivíduos que produz, através
1. Resumo 1 de estruturas gerais e particulares, indiví-
2. Introdução 2 duos iguais e diferentes. O indivíduo é um
3. Das funções sociais reticulares à teia “fenômeno reticular” que modela e é mode-
humana móvel: a sociedade dos indi- lado pela sociedade nas diferentes relações
víduos na perspectiva de Norbert Elias 3 sejam elas econômicas, políticas e cultur-
4. Considerações Finais 18 ais, e que são organizadas e estruturas, a
5. Referências 19 partir de um conjunto de práticas e de es-
tratégias de auto-regulação das emoções e
1. Resumo de projeção de práticas racionais de interde-
pendências de funções, que compreende re-
Analisamos e discutimos aqui, a partir da lações funcional-econômicas às relações de
perspectiva de Norbert Elias, como as trans- amizade e afetividade.
formações operadas através da globalização,
especialmente, da década de 1970 em diante,
com a mundialização das relações econômi- Abstract
cas, culturais e políticas e da compressão We analyzed and discussed here, from the
tempo-espaço, denotaram na reestruturação perspective of Norbert Elias, as the changes
das relações da sociedade e na emergência made by globalization, especially of the
de uma “nova” relação entre sociedade e in- 1970 onwards, with the globalization of eco-
divíduo. Sobretudo, compreendemos que à nomic relations, cultural and political and
medida que o processo civilizador “evolui”, time-space compression, denote the restruc-
desenvolvem-se práticas de auto-controle e turing relations of society and the emergence
de auto-regulação das relações que se pro- of a “new” relationship between society and
cessam em rede nas funções sociais. O indi- individual. Above all, understand that as the
víduo é, para Norbert Elias, uma rede de re- civilizing process “moves”, there are prac-
lações sociais de interdependências situado tices of self and self-regulation of relations
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that take place in normal social network. The entre indivíduo e sociedade que os proces-
individual is, Norbert Elias, for a network sos resultantes, especialmente, da global-
of social relations of interdependence in a ização com a aceleração das relações soci-
field of tensions and power in society of in- ais econômicas, políticas e culturais em es-
dividuals who produce, through general and cala mundial e da compressão tempo-espaço
special structures, equal and different indi- que, considera Harvey (1999), foram resul-
viduals. The individual is a “phenomenon tantes dos processos de internacionalização
reticular” that shapes and is shaped by so- da economia mundial e das reestruturações
ciety in different relationships whether eco- das relações da sociedade de indivíduos cada
nomic, political and cultural, which are orga- vez mais global(izada).
nized and structures from a set of practices Através desse processo de mundializa-
and strategies of self-regulation of emotions ção das relações econômicas e de expan-
and projection of rational practice of interde- são material e espiritual de um processo
pendence of functions, which include func- civilizatório (IANNI, 1997), houve transfor-
tional and economic relations to relations of mações no que diz respeito, direta e indi-
friendship and affection. retamente, da relação do indivíduo com a
sociedade. Tais categorias (indivíduo e so-
2. Introdução ciedade) emergiram sob novos enfoques mu-
dando seu significado crítico e sócio-espacial
Mas as oportunidades entre as quais a e histórico. Conforme assinala Bourdieu
pessoa assim se vê forçada a optar não (2002) o que se delineou, a partir da dé-
são, em si mesmas, criadas por essa cada de 1970, foi um programa de destru-
pessoa. São prescritas e limitadas pela ição das estruturas coletivas e a formação de
estrutura específica de sua sociedade e uma nova ordem fundada no culto ao indiví-
pela natureza das funções que as pes- duo, autônomo, cada vez mais auto-regulado
soas exercem dentro dela. E, seja qual e auto-suficiente. Para Norbert Elias (1993,
for a oportunidade que ela aproveite, seu p. 185), “Em cada passagem de uma orga-
ato se entremeará com os de outras pes- nização de sobrevivência predominante para
soas; desencadeará outras seqüências uma outra, que abrange mais pessoas, e que é
de ações, cuja direção e resultado pro- mais complexa e diferenciada, a posição dos
visório não dependerão desse indivíduo, homens singulares transforma-se, de modo
mas da distribuição do poder e da estru- próprio, em relação à unidade social que eles
tura das tensões em toda essa rede hu- formam em conjunto”.
mana móvel. A relação indivíduo/sociedade se trans-
forma e indica, portanto, “a passagem para
“A sociedade dos indivíduos”
o predomínio de um novo tipo abrangente
Norbert Elias
e mais complexo da organização humana”
Com a mudança do regime de acumulação sendo “acompanhada (...) de um outro
fordista para o de acumulação flexível a par- padrão de individuação” (ELIAS, 1993,
tir da década de 1970, desencadearam-se de- p.189) que obriga os indivíduos “a agirem
bates sobre as transformações nas relações cada vez menos por conta própria, retirando-

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se assim o sentido e responsabilidade de complexa rede móvel humana de relações e


uma escolha sensata” (AZEVEDO, 1998, funções sociais. O processo de individuação
p.129). Ou seja, cada vez mais o indiví- dos indivíduos na/da sociedade global, de
duo na sociedade global é levado a se tornar aceleração do tempo-espaço e das relações
“dono” de suas próprias escolhas num pro- multidimensionais, produz uma complexa
cesso, portanto, de objetivação e subjeti- teia reticular de ligações, na medida em que
vação das opções e posições sociais que o os indivíduos intensificam as suas relações
sujeito ocupa, almeja ou sonha em chegar. de interdependência através das funções so-
Essa realidade, desse modo, alterou os ciais (específicas, dos ramos de atividade)
paradigmas de interpretação do mundo que exercem na sociedade e, por que, à me-
havendo uma mudança (ou, no limite, uma dida que ampliamos as escalas de tempo-
“ruptura”) epistemológica com as teorias da espaço de nossas relações, “comprimimos”
modernidade que, “tendenciam” a ceder “lu- nossas relações através da parafernália tec-
gar” para as perspectivas pós-modernas ou, nologia que nos conecta com nossos amigos
para “outras” teorias que defenderiam uma e parentes, ao mercado e ao Estado.
segunda modernidade, uma modernidade
tardia, uma modernidade reflexiva, entre out-
3. Das funções sociais reticulares
ros termos que emergiram e/ou derivaram
deve turbulento momento histórico de ajus- à teia humana móvel: a
tamento sócio-espacial das relações sociais. sociedade dos indivíduos na
Nesse sentido, nosso objetivo aqui é anal- perspectiva de Norbert Elias
isar à luz dos processos resultantes da glob-
alização e da “compressão tempo-espaço”, Norbert Elias considera que a sociedade
a “nova” relação (indissociável) entre so- é formada por indivíduos que são singulares
ciedade e indivíduo através, do destaque para em cada tempo e em cada espaço. Contudo,
a abordagem reticular de Norbert Elias que é através dessas diferenças que, em cada
aponta, dentre outros aspectos, a relação de tempo e em cada espaço, se formam e/ou
interdependência através das redes de re- são construídas diferentes sociedades. So-
lações sociais na/da Sociedade dos indiví- ciedades, portanto, “projetadas” por tramas
duos. de relações sociais, de funções, de cadeias
Assim, a análise que se segue destaca as de atos (ações) que Norbert Elias chama de
redes de relações sociais, a teia humana “fenômenos reticulares”, e que são produzi-
móvel e de interdependência entre as re- dos no interior de uma rede móvel humana
lações sociais (econômicas, culturais, políti- de relações de interdependência composta
cas) que produzem sociedade e indivíduo, por estruturas, por cadeias, por limites e por
suas histórias e geográficas, seus tempos e possibilidades.
espaços através do processo cada vez mais Assim, para Elias o indivíduo é construído
presente de “individuação” dos indivíduos por um conjunto de laços “invisíveis” que
e, portanto, de uma sociedade de indiví- formam uma rede de relações. Logo, “cada
duos cada vez mais individualizados, mas, pessoa que passa por outra, como estranhos
nem por isso, menos inter-relacionados na aparentemente desvinculados na rua, está

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ligada a outras por laços invisíveis, sejam históricas. Acrescente-se a isto que procurou
estes laços de trabalho e propriedade, seja de analisar e entender a sociedade como um
instintos e afetos. Os tipos mais díspares de processo em evolução e de desenvolvimento
funções tornaram-na dependente de outrem e social linear, apontando que a sociedade
tornaram outros dependentes dela” (ELIAS, constitui-se como um dos elementos essenci-
1994, p. 22). Cada indivíduo “vive, e viveu ais de uma estrutura organizacional, cujas at-
desde pequenas, numa rede de dependências uações demonstram-se de diversas formas de
que não lhe é possível modificar ou romper inter-relacionamentos e entrelaçamentos so-
pelo simples giro de um anel mágico, mas ciais em que se permitem agrupar, sobrepor e
somente até onde a própria estrutura dessas articular relações efetuadas na igreja, escola,
dependências o permita; vive num tecido de família, clubes sociais, partidos políticos, na
relações móveis que a essa altura já se pre- fábrica, no município, no Estado-Nação e no
cipitaram nela como seu caráter pessoal”. E mundo que, aponta em um único estudo e
aí, para Elias reside o verdadeiro problema que este (o indivíduo) jamais poderá agir in-
da relação entre sociedade e indivíduos, suas dividualmente.
relações, suas tramas que produzem contex- Elias demonstra, a partir da abordagem
tos diferentes, sobrepostos, articulados ou reticular, a necessidade da compreensão da
não, pois, “em cada associação de seres hu- multiescalaridade das relações sociais e da
manos, esse contexto funcional tem uma es- multitemporalidade. Logo, para Elias:
trutura específica. (...) Entretanto esse ar- Todos sabem o que se pretende dizer
cabouço básico de funções interdependentes, quando se usa a palavra “sociedade”,
cuja estrutura e padrão conferem a uma so- ou pelo menos todos pensam saber. A
ciedade seu caráter específico, não é criação palavra é passada de uma geração a outra
de indivíduos particulares, pois cada indi- como uma moeda cujo valor fosse con-
víduo, mesmo o mais poderoso, mesmo o hecido e cujo conteúdo já não precisasse
chefe tribal, o monarca absolutista ou o di- ser testado. Quando uma pessoa diz “so-
tador, faz parte dele, é representante de uma ciedade” e outra a escuta, elas se enten-
função que só é formada e mantida em re- dem sem dificuldades. Mas será que real-
lação a outras funções, as quais só podem ser mente entendemos? (ELIAS, 1994, p.
entendidas em termos da estrutura específica 63).
e das tensões específicas desse contexto to-
tal” (p. 22). Consideramos, assim, que a rede de lig-
A análise da configuração da sociedade ações que se estabelece em uma sociedade
para Norbert Elias, traz a necessidade de não ocorre por acaso (pode, até ocorrer em
caracterizar uma nova orientação para o es- alguns casos), mas, em grande medida, a
tudo da história, estabelece um novo cam- rede de relações sociais – que liga sociedade
inho para analisar a configuração sociedade, e indivíduo – é produto de estratégias in-
cujo processo central é o estudo do com- stauradoras e mantenedoras das instituições
portamento humano, da sua evolução e dentro de suas relativas posições e manifes-
desenvolvimento social, provocando desta tações de poder que se fazem presentes em
maneira um processo de revisão nas teorias

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todo processo social e que tem uma estrutura consideração, Elias demonstra a sua posição
geral e específica dessas ligações e relações. ao complementar em que “estas concepções
Norbert Elias ao abordar sobre as estru- tradicionais serão substituídas por uma visão
turas e os processos sociais, demonstra a mais realista das pessoas que, através das
natureza fundamental dos mecanismos a re- suas disposições e inclinações básicas orien-
speito destes, ao detalhar afirmando que: tadas umas para as outras e unidas umas às
outras das mais diversas maneiras” (ELIAS,
A fim de entender estruturas e proces-
1969, p. 15).
sos sociais, nunca é suficiente estudar
Assim, o autor considera, dentro de sua
um único estrato funcional no campo so-
concepção de análise sociológica, que as
cial. Para serem realmente entendidas,
“pessoas constituem teias de interdependên-
essas estruturas e processo exigem um
cia ou configurações de muitos tipos, tais
estudo das relações entre os diferentes
como famílias, escolas, cidades, estratos so-
estratos funcionais que convivem juntos
ciais ou estados. Cada uma dessas pes-
no campo social e que, com a mais ráp-
soas constitui um ego ou uma pessoa, como
ida ou mais lenta mudança nas relações
muitas vezes se diz numa linguagem reifi-
de poder provocada por uma estrutura
cante. Entre estas pessoas colocamo-nos nós
específica desse campo, são no curso
próprios” (ELIAS, 1969, p. 15-16, [grifos
do tempo reproduzidas sucessivas vezes
nossos]).
(ELIAS, 1994, p. 239).
Nesse contexto:
O projeto de estudo de análise sobre a so-
ciedade proposto por Norbert Elias se torna Descobrindo interdependências,
diferente, em razão dele buscar analisar não restabelece-se a identidade última
o indivíduo em si (isolado e fechado em si de todos os homens, identidade sem a
mesmo), mas sim os conceitos fundamentais qual qualquer relação humana, mesmo a
de formação, interdependência, equilíbrio que se estabelece entre o investigador e o
das tensões, relações de poder, revolução so- objeto da sua pesquisa, entre os vivos e
cial (ou das formações), mostrando os meios os mortos, recua para o nível da barbárie
pelos quais se entendem os envolvimentos da época recuada e selvagem em que
sociais em suas diferentes épocas, oportu- um indivíduo que pertencesse a outra
nizando, então, um entrelaçamento entre a sociedade era considerado como um ser
história e a geografia, entre espaço e tempo, e eventualmente não humano (ELIAS,
entre “redes”, “indivíduos” e “sociedade”. 1987, p. 179).
Nesse sentido, Norbert Elias aponta que
para entender a sociedade como um todo é Desse modo, o indivíduo assume centrali-
necessário reorientar a nossa acepção sobre dade na análise da sociedade, na medida em
o conceito desta em razão que “no modelo que apóia sua reflexão para consubstanciar o
de senso comum que hoje domina a nossa questionamento para compreender o que faz
própria experiência ou a dos outros, a relação a propósito da relação entre sociedade e indi-
com a sociedade é ingenuamente egocên- víduo, ao promulgar: “Que tipo de formação
trica” (ELIAS, 1969, p. 14). Com essa é essa, esta ‘sociedade’ que compomos em

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conjunto, que não foi pretendida ou plane- divíduos possuem uma característica própria
jada por nenhum de nós, nem tampouco por de individualidade1 , porém levando tam-
todos nós juntos?” (ELIAS, 1994, p. 13). bém a entender que o desenvolvimento desta
Considera desse modo que a sociedade inter-relação deve conduzir-se dentro de um
“só existe porque existe um grande número contínuo estado de mutação. Considerando
de pessoas, só continua a funcionar porque esses aspectos, Norbert Elias demonstra
muitas pessoas, isoladamente, querem e que entre estas concepções existe uma con-
fazem certas coisas, e, no entanto, sua estru- vergência acerca da falta de modelos con-
tura e suas grandes transformações históri- ceituais para consistir na elaboração de um
cas independem, claramente, das intenções desenho na composição desta sociedade. As-
de qualquer pessoa em particular” (ELIAS, sim:
1994, p. 13). Ao explicar o nexo condi-
cionador desta sua maneira de ver a so- O que nos falta - vamos admiti-lo com
ciedade ressalta que “a relação entre os in- franqueza - são modelos conceituais e
divíduos e a sociedade é uma coisa singular. uma visão global mediante os quais pos-
Não encontra analogia em nenhuma outra es- samos tornar compreensível, no pensa-
fera da existência” (ELIAS, 1994, p. 25). mento, aquilo que vivenciamos diaria-
Ainda a este respeito demonstra que “ape- mente na realidade, mediante os quais
sar disso, a experiência adquirida obser- possamos compreender de que modo
vando se a relação entre as partes e o todo em um grande número de indivíduos com-
outras esferas pode, até certo ponto, ajudar- põem entre si algo maior e diferente de
nos nesse aspecto. Ela pode nos ajudar a 1
Elias (1994, p. 54), considera que “o que
afrouxar e ampliar os hábitos mentais a que chamamos ‘individualidade’ de uma pessoa é, antes
fizemos referência” (ELIAS, 1994, p. 25). de mais nada, uma peculiaridade de suas funções
Sob este aspecto é possível verificar que nen- psíquicas, uma qualidade estrutural de sua auto-
huma organização, qualquer que seja a sua regulação em relação a outras pessoas e coisas. ‘Indi-
vidualidade’ é uma expressão que se refere à maneira
natureza ou estrutura, poderá agir individual- e à medida especiais em que a qualidade estrutural do
mente. As atividades, o querer e o fazer, os controle psíquico de uma pessoa difere do de outra.
comportamentos, as condutas, os anseios e Mas essa diferença específica das estruturas psíquicas
as produções realizadas pelos indivíduos – das pessoas não seria possível se sua auto-regulação
aqui poderíamos enfatizar a produção cien- em relação a outras pessoas e coisas fosse determi-
nada por estruturas herdadas, da mesma forma e na
tífica – não podem ser deixados de lado para mesma medida em que o é auto-regulação do organ-
compreender a configuração da sociedade, ismo humano, por exemplo, na reprodução de órgãos
visto que trazem em seu contexto um sentido e membros. A ‘individualização’ das pessoas só é
preciso que os distingue nas suas relações possível porque o primeiro controle é mais maleável
que o segundo. E, em virtude dessa maior maleabili-
desta construção social.
dade, palavras como ‘natureza’ ou ‘disposição’, e to-
Com essa premissa, Norbert Elias conduz dos os termos correlatos, têm um sentido diferente
para o convencimento da indivisibilidade e quando aplicadas às funções psíquicas das pessoas e
inseparabilidade entre sociedade e indiví- quando aplicadas às funções de reprodução ou cresci-
duo, entre as relações que formam sociedade mento dos órgãos”.
e indivíduo, mesmo considerando que os in-

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uma coleção de indivíduos isolados [...] ), o que impõe de certa forma que estas não
(ELIAS, 1994, p. 16, [grifos nossos]). se mantenham circunscritas a fórmulas ou
“modelos” pré-determinados pela sociedade.
Além disso, buscando compreender as- Com efeito, sobre este aspecto Norbert
pectos mais significativos que se fazem pre- Elias ressalta que:
sente entre sociedade e indivíduo, eviden- Uma das grandes controvérsias de nossa
cia “como é que eles formam uma ‘so- época desenrola-se entre os que afirmam que
ciedade’ e como sucede a essa sociedade a sociedade, em suas diferentes manifes-
poder modificar-se de maneiras específicas, tações – a divisão do trabalho, a organiza-
ter uma história que segue um curso não pre- ção do Estado ou seja lá o que for -, é ape-
tendido ou planejado por qualquer dos in- nas um “meio”, consistindo o “fim” no bem-
divíduos que a compõem” (ELIAS, 1994, estar dos indivíduos, e os que asseveram que
p. 16). Desta maneira, como ao autor o bem-estar dos indivíduos é menos “impor-
mesmo destaca, vemos que precisamos re- tante” que a manutenção da unidade social
conhecer que a formação da sociedade não de que o indivíduo faz parte, constituindo
é homogênea, visto que os pressupostos de esta o “fim” propriamente dito da vida in-
análise estão atrelados e entrelaçados, sobre- dividual. Acaso já não equivaleria a tomar-
postos e articulados nas relações de interde- mos partido nesse debate o fato de começar-
pendência e nas complexidades sociais pre-
portamental humano. Para que surja alguma forma
sentes entre os indivíduos, diferentes gru-
dessa atividade econômica, é essencial a intervenção
pos, classes ou indivíduos que compreendem de funções superegóicas ou prescientes que regulem
formas distintas e interligadas de relações as funções instintivas elementares do indivíduo, se-
econômicas2 , culturais e políticas (de poder jam estas o desejo de alimento, proteção ou qualquer
outra coisa. Somente essa intervenção torna possível
2
Para Elias (1994), a rede econômica não se situa às pessoas conviverem de maneira mais ou menos reg-
apenas na esfera das conexões porque o ser humana ulada, trabalharem juntas por um padrão comum de
precisa comer; também, faz parte das necessidades obtenção do alimento, e permite que sua vida comu-
de alimentação, mas também participa da esfera de nitária dê origem a várias funções sociais interdepen-
inter-relações de auto-regulação do processo produ- dentes” (p. 45).
tivo, especialmente, através do trabalho. Assim: 3
Sobre o poder da decisão das escolhas e das re-
“Uma esfera econômica de interconexões não surge lações que desenvolve entre os indivíduos em so-
exclusivamente, como às vezes se supõe, pelo fato ciedade, Elias (1994, p. 50) considera que, “A pes-
de terem os seres humanos que satisfazer sua ne- soa, individualmente considerada, está sempre lig-
cessidade de comer. Também os animais são movi- ada a outras de um modo muito específico através
dos pela fome, mas não se empenham numa ativi- da interdependência. Mas, em diferentes sociedades
dade econômica. Quando parecem fazê-lo, isso se e em diferentes fases e posições numa mesma so-
dá, tanto quanto hoje podemos perceber, com base ciedade, a margem individual de decisão difere em
numa predisposição mais ou menos automática, inata tipo e tamanho. E aquilo a que chamamos ‘poder’
ou “instintiva” de suas vias de auto-regulação. As re- não passa, na verdade, de uma expressão um tanto
des econômicas, no sentido humano, surgem apenas rígida e indiferenciada para designar a extensão espe-
porque a auto-regulação humana em relação a outras cial da margem individual de ação associada a certas
coisas e seres não está automaticamente restrita, em posições sociais, expressão designativa de uma opor-
igual medida, a canais relativamente estreitos. Uma tunidade social particularmente ampla de influenciar
das precondições da economia no sentido humano é a auto-regulação e o destino de outras pessoas”.
o caráter singularmente psicológico do controle com-

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mos a procurar modelos para compreender a cionam como mecanismos de auto-regulação


relação entre indivíduo e sociedade nas re- das tensões que se processam entre os indiví-
lações entre os tijolos e a casa, as notas e a duos e que produzem a sociedade no desen-
melodia, a parte e o todo? (ELIAS, 1994, p. volvimento do processo civilizacional. São,
17). portanto, acionados e construídos no interior
Nesse sentido, para Elias a sociedade e as da sociedade, a partir de diferentes estraté-
diferentes e completares relações dos indiví- gias de regulação social no interior do pro-
duos funcionam através de acordos que dão cesso civilizador.
unidade as funções sociais, as trocas que ma- Assim, sobre a rede de relações e os con-
terializam os lugares, que imaterializam os tratos sociais, Elias afirma ainda que:
códigos semânticos, da linguagem e da es-
Essa rede de funções no interior de as-
crita das redes de relações sociais. Conforme
sociações humanas, essa ordem invisível
considera o autor, “as votações e eleições, as
em que são constantemente introduzidos
provas não sangrentas de força entre difer-
os objetivos individuais, não deve, não
entes grupos funcionais, só se tornaram pos-
deve sua origem a uma simples soma
síveis, enquanto instituições permanentes de
de vontades, a uma decisão comum de
controle social, quando aliadas a uma estru-
muitas pessoas individuais. Não foi com
tura muito específica de funções sociais”. E,
base na livre decisão de muitos, num con-
assim, esses acordos se tornam cumulativos
trato social, e menos ainda com base em
“entre essas pessoas, uma ligação funcional
referendos ou eleições, que a atual rede
preexistente que não é apenas somatória.
funcional complexa e altamente diferen-
Sua estrutura e suas tensões expressam-se,
ciada emergiu, muito gradativamente das
diretamente ou indiretamente, no resultado
cadeias de funções relativamente sim-
da votação. E decisões, votações e eleições
ples do início da Idade Média, que no
majoritárias somente podem alterar ou de-
Ocidente, por exemplo, ligaram as pes-
senvolver essa estrutura funcional dentro de
soas como padres, cavaleiros e escravos
limites bastante estreitos”. Logo, a “rede de
(ELIAS, 1994, p. 22, [grifos do autor]).
funções interdependentes pela qual as pes-
soas estão ligadas entre si tem peso e leis Por isso, Elias considera que as relações
próprios, que deixam apenas uma margem que se processam na sociedade entre os in-
bem circunscrita para compromissos firma- divíduos comportam funções, cadeias, redes
dos sem derramamento de sangue – e toda de funções e auto-regulação. Assim, “emb-
eleição majoritária é, em última análise, um ora esse contexto funcional tenha suas leis
acordo desse tipo” (ELIAS, 1994, p. 22-23). próprias, das quais dependem, em última
instância, todas as metas dos indivíduos e
Assim, as relações se estabelecem no inte- todas as decisões computadas nas cédulas
rior de acordos que são acondensação mate- eleitorais, embora sua estrutura não seja uma
rial e simbólica de um campo de forças, de criação de indivíduos particulares, ou sequer
disputas de poder que se processam através de muitos indivíduos, tampouco ele é algo
das relações do cotidiano entre os indiví- que exista fora dos indivíduos”. Para o au-
duos em sociedade. Logo, os acordos fun- tor, todas as funções interdependentes como

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“as de diretor de fábrica ou mecânico, dona- volve, tudo isso depende da estrutura do
de-casa, amigo ou pai”, são funções “que grupo em que ele cresce e, por fim, de sua
uma pessoa exerce para outras, um indiví- posição nesse grupo e do processo for-
duo para outros indivíduos”. Mas, no en- mados que ela acarreta (ELIAS, 1994, p.
tanto, para o autor “cada uma dessas funções 27).
está relacionada com terceiros; dependem
das funções deles tanto quanto estes depen- Contudo, é através e no interior dessas re-
dem dela” o que cria, portanto, uma “cor- des de funções sociais se criam, de acordo
rente humana” de interdependências. com o autor, longas cadeias de atos, pois:
E, através desse contrato social, os indiví- Em virtude dessa inerradicável interde-
duos criam maneiras de autocontrole no inte- pendência das funções individuais, os
rior da sociedade e de “gestão” dos conflitos, atos muitos indivíduos distintos, espe-
das tensões e das relações de poder que per- cialmente numa sociedade tão complexa
meiam a interdependência na sociedade. A como a nossa, precisam vincular-se inin-
autoregulação como parte do processo civi- terruptamente, formando longas cadeias
lizador é uma condição de subjetivação das de atos, para que as ações de cada in-
emoções no âmbito das redes de relações so- divíduo cumpram suas finalidades. As-
ciais que, fazem do indivíduo um ser “regu- sim, cada pessoa singular está realmente
lado” no interior das mais adversas situações presa; está presa por viver em perma-
em que se insere relacionalmente. Assim, nente dependência funcional de outras;
sobre o autocontrole, Elias considera que: ela é um elo nas cadeias que ligam out-
ras pessoas, assim como todas as de-
Somente na relação com outros seres hu-
mais, direta ou indiretamente, são elos
manos é que a criatura impulsiva e de-
nas cadeiras que a prendem. Essas
samparada que vem ao mundo se trans-
cadeiras não são visíveis, mas mutáveis
forma na pessoa psicologicamente de-
porém não menos reais, e decerto não
senvolvida que tem o caráter de um in-
menos fortes. E é essa rede de funções
divíduo e merece o nome de ser hu-
que as pessoas desempenham umas em
mano adulto. Isolada dessas relações,
relação as outras, a ela e nada mais,
ela evolui, na melhor das hipóteses, para
que chamamos “sociedade”. Ela repre-
a condição de um animal humano semi-
senta um tipo especial de esfera. Suas
selvagem. Pode crescer fisicamente, mas,
estruturas são o que denominamos “es-
em sua composição psicológica, per-
truturas sociais”. E, ao falarmos em
manece semelhante a uma criança pe-
“leis sociais” ou “regularidades sociais”,
quena. Somente ao crescer num grupo é
não nos referimos a outra coisa senão
que o pequeno ser humano aprende a fala
isto: às leis autônomas das relações entre
articulada. Somente na companhia de
as pessoas individualmente consideradas
outras pessoas mais velhas é que, pouco
(ELIAS, 1994, p. 23, [grifos nossos]).
a pouco, desenvolve um tipo específico
de sagacidade e controle dos instintos e A relação entre os indivíduos e a so-
a composição adulta que nele se desen- ciedade, para Elias, é uma coisa singular.

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É através dessa relação singular que se pro- suas relações recíprocas, da sociedade,
duzem os tempos e os espaços, as redes, as como algo que vem depois. Em suma,
tramas pelo poder. São através das singular- eles concebem os indivíduos como postes
idades das relações entre os indivíduos que sólidos entre os quais, posteriormente, se
foram e são produzidas diferentes sociedades pendura o fio dos relacionamentos. (...)
em distintos períodos. Por isso, o autor E, tanto num grupo quanto no outro, cer-
considera que a sociedade deve ser apreen- tos campos de fatos são inabordáveis pelo
dida enquanto uma complexa rede e que esta pensamento. Tanto num quanto noutro,
compreende uma estrutura de relações. abre-se um intransponível abismo mental
Assim, para Elias (1994, p. 25, [grifos entre os fenômenos sociais e individuais
nossos]), “Deve-se começar pensando na es- (ELIAS, 1994, p. 25).
trutura do todo para se compreender a forma
das partes individuais. Esses e muitos outros E assim, Norbert Elias considera que nos-
fenômenos têm uma coisa em comum, por sas relações são tecidas desde o nosso grupo
mais diferentes que sejam em todos os outros social do nascimento, da gênese da vida na
aspectos: para compreendê-los, é necessário terra, até as múltiplas relações que construí-
desistir de pensar em termos de substâncias mos a partir de nossa territorialidade no tra-
isoladas únicas e começar a pensar em ter- balho, na festa, na rua, no cotidiano dentre
mos de relações e funções”. Logo, o modo outros lugares que nos modelam e que mode-
como os indivíduos se portam é determinado lamos no interior de formas relacionais entre
por suas relações passadas ou presentes com os indivíduos e os grupos as quais pertence-
outras pessoas, com outras teias humanas de mos. Todo indivíduo pertence a grupo(s) so-
funções, de ramos de atividades e de pro- cial(is) que estabelece(m) relações de afe-
priedade privada, mas também de parentesco tividade, no trabalho, na amizade e no par-
e de amizade. É no interior desse conjunto entesco. Para os outros grupos que o indiví-
relacional e constantemente mutável dos in- duo não faz parte ele “não existe”. Não que
divíduos que se produz a sociedade: uma não exista propriamente dito, como corpo,
rede que está sempre modificando as suas corporeidade de função, no trabalho, por ex-
funções relacionais. emplo, ou numérica, mas, que não partic-
Nesse contexto, Elias considera que deve- ipa de um conjunto de atividade que o liga
se começar a compreender os fios que são a determinado grupo ou não. Portanto, o
tecidos, no primeiro momento, pelas re- indivíduo faz parte da sociedade dos indi-
lações mais próximas até as relações mais víduos inserido em grupos sociais distintos,
distantes, especialmente, aquelas que não em tempos e espaços, singulares que pro-
produzem vínculos fortes na vidas dos indi- duzem os diferentes modos de organização
víduos. Nesse âmbito: da sociedade e as diferentes relações sociais
econômicas, políticas e culturais. Mas esses
É a partir dos indivíduos, como “átomos” indivíduos, mesmo que não participem dos
e “partículas mínimas” da sociedade, se- mesmos grupos estão, para Elias, “unidos”
gundo lhes parece, que o raciocínio deve na sociedade por laços invisíveis que pro-
começar, elaborando-se o conceito de

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Globalização e Sociedade dos Indivíduos 11

duzem sujeitos de um tempo e de um espaço, As redes, nesse sentido, produzem “fenô-


tanto material quanto no âmbito das idéias. menos reticulares” para Elias, ou, talvez,
Assim, o indivíduo só existe enquanto poderíamos apontar em aproximação, que as
“móbili” relacional, pois, “Todo indivíduo redes sociais produziriam “territórios” retic-
nasce num grupo de pessoas que já exis- ulares que são tramados no interior das re-
tiam antes dele. E não é só: todo indi- des, das trajetórias, das relações sociais en-
víduo constitui-se de tal maneira, por na- tre sociedade e indivíduos, entre grupos e in-
tureza, que precisa de outras pessoas que ex- divíduo, entre diferentes lugares que o indi-
istam antes dele para poder crescer”. As- víduo perpassa a sua existência social, “in-
sim, para Elias, “Uma das condições fun- dividual” e “coletiva”, espacial e temporal.
damentais da existência humana é a pre- Para Elias, desse modo, “A relação entre
sença simultânea de diversas pessoas inter- as pessoas é comumente imaginada como
relacionadas” (ELIAS, 1994, p. 27); ou seja, a que existe entre as bolas de bilhar: elas
as múltiplas relações em que o indivíduo par- se chocam e rolam em direções diferentes.
ticipa, nos diferentes lugares e grupos sociais Mas a interação entre as pessoas e os ‘fenô-
de faz parte e cria constantemente novos gru- menos reticulares’ que elas produzem são
pos. essencialmente diferentes das interações pu-
Assim, Elias demonstra a importância de ramente somatórias das substâncias físicas”
se compreender nas relações que os indi- (1994, p. 29, [grifos nossos]). E, os “fenô-
víduos tecem uma densa trajetória sócio- menos reticulares” tem na sua raiz forças
espacial a partir de uma rede de relações reticulares, isto é, que são produzidas e de-
que emerge, pois, “Mesmo dentro de um limitadas no interior de redes de relações so-
grupo, as relações conferidas as duas pes- ciais que se situam na divisão das funções,
soas e suas histórias individuais nunca são pois:
exatamente idênticas. Cada pessoa parte de
uma posição única em sua rede de relações e Essas forças reticulares encontram-se na
atravessa uma história singular até chegar à raiz, por exemplo, da crescente divisão
morte” (ELIAS, 1994, p. 27). Pois, assim, os de funções, que tem importância tão
indivíduos são produtos específicos de suas decisiva no curso da história ocidental,
historicidades e de suas trajetórias espaciais, levando em determinado estágio a uti-
trajetórias modeladas, percorridas e/ou cir- lização da moeda, em outro ao desen-
cunscritas temporô e espacialmente através volvimento das máquinas e, com isso,
das redes sociais de amizade, de parentes, à maior produtividade do trabalho e a
de funções dentre outros. As relações, para uma elevação do padrão de vida de um
Elias, “por exemplo, entre pai, mãe, filho número cada vez maior de pessoas. (...)
e irmãos numa família -, por variáveis que Foi esse tipo de forças reticulares que,
sejam em seus detalhes, são determinadas, no curso da história ocidental, alterou a
em sua estrutura básica, pela estrutura da so- forma e a qualidade do comportamento
ciedade em que a criança nasce e que existia humano, bem como toda a regulação
antes dela” (1994, p. 28). psíquica do comportamento, impedindo
os homens em direção à civilização.

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Podemos vê-las, em nossa própria época, como um adversário, assim impulsion-


na maneira rigorosa com as tensões que ando seus pensamentos. A caracterís-
emergem dentro da rede humana sob a tica especial desse tipo de processo, que
forma da livre concorrência tendem a um podemos chamar de imagem reticular, é
estreitamento da esfera da competição e, que, no decorrer dele, cada um dos in-
por fim, à formação de monopólios cen- terlocutores formam idéias que não ex-
tralizados. Assim, através de forças retic- istiam antes ou leva adiante idéias que
ulares, produziram-se e se produzem na já estavam presentes. (...) E é justa-
história períodos pacíficos e outros turbu- mente esse fato de as pessoas mudarem
lentos e revolucionários, períodos de flo- em relação umas às outras e através de
rescimento ou declínio, fases em que a sua relação mútua, de se estarem con-
arte se mostra superior ou não passa de tinuamente moldando e remoldando em
pálida imitação. Todas essas mudanças relação umas às outras, que caracteriza
têm origem, não na natureza dos indiví- o fenômeno reticular em geral (ELIAS,
duos isolados, mas na estrutura da vida 1994, p. 29).
conjunta de muitos. A história é sem-
pre história de uma sociedade, mas, sem A rede, nesse sentido, para Elias constrói
a menor dúvida, de uma sociedade de in- “fenômenos reticulares” através das relações
divíduos (ELIAS, 1994, p. 44-45). sociais no cotidiano, sobretudo, onde o su-
jeito estabelece relações com a sociedade e
A conversa, nesse sentido, para Elias, se- vice-versa. Logo, a rede conforma a to-
ria um dos momentos do cotidiano e das talidade das relações entre indivíduo e so-
redes de relações sociais que produziram o ciedade, entre as diferentes trajetórias que
“fenômeno reticular”, teias de relações que o indivíduo tece na imensa teia de contatos
se processam em rede onde os interlocutores através da amizade, no trabalho, na rua, na
são pontos de uma intensa malha de infor- festa, enfim, nos lugares e nos diferentes
mações e comunicação que atravessam, cor- tempos das relações que são estabelecidas no
tam e conectam o dia-a-dia dos indivíduos, dia-a-dia. Assim, sobre a rede e as relações
das suas ações, reações e materializações sociedade e indivíduo o autor considera que:
das produções, no trabalho, na festa, na rua,
na casa, enfim, nas mais variadas territori- Mas elas, por certo, nunca estão inteira-
alidades e manifestações das atividades hu- mente completas e acabadas. Também
manas que se processam através dos con- podem mudar em seu contexto de re-
tatos, dos vínculos e da forma como o sujeito lações, ainda que com alguma dificul-
vai se fazendo e sendo feito na/da sociedade. dade e, em geral, apenas em seu auto-
controle mais consciente. Mas o que
Assim, sobre a conversa, Elias, considera aqui chamamos “rede”, para denotar a
que: totalidade da relação entre indivíduo e
sociedade, nunca poderá ser entendido
(...) as idéias de um interlocutor enquanto a “sociedade” for imaginada,
penetram no diálogo interno do outro como tantas vezes acontece, essencial-

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mente como uma sociedade de indiví- se ele próprio não o fizer, não menos certo
duos que nunca foram crianças e que é que toda a estrutura de seu autocontrole,
nunca morrem. Só se pode chegar a uma consciente e inconsciente, constitui um pro-
compreensão clara da relação entre indi- duto reticular formado numa interação con-
víduo e sociedade quando nela se inclui tínua de relacionamentos com outras pes-
o perpétuo crescimento dos indivíduos soas, e que a forma individual do adulto
dentro da sociedade. A historicidade de é uma forma específica de cada sociedade”
cada indivíduo, o fenômeno do cresci- (ELIAS, 1994, p. 31).
mento até a idade adulta, é a chave para a O indivíduo se constrói numa interação
compreensão do que é a “sociedade”. A contínua e em rede com diversas pes-
sociabilidade inerente aos seres humanos soas que, conformam tramas de relaciona-
só se evidencia quando se tem presente mento inter-independentes e que se situam
o que significam as relações com outras nos diferentes contextos e escalas sócio-
pessoas para a criança pequena (ELIAS, espaciais, como, por exemplo, na escola, na
1994, p. 30). universidade, na igreja, na rua, na feira, no
supermercado, na casa, no bar, na indústria,
Ademais, para Elias a historicidade do in- no comercia, enfim, no diferentes lugares em
divíduo é a chave para a compreensão da que as sociedade estabelece, cria e re-cria re-
sociedade, pois, apreender a trajetória no lações entre os indivíduos, ou melhor, que
tempo e no espaço do indivíduo, desde cri- os indivíduos estabelecem relações em so-
ança até a idade adulta permite visualizar e ciedade.
analisar aspectos da dinâmica social de uma Neste contexto, o indivíduo em sociedade
sociedade e, portanto, dos seus indivíduos. sempre “existe” na relação (histórica) com
A trajetória histórica e geográfica do indiví- os outros, com os indivíduos outros que for-
duo possibilita compreender as relações que mam com “ele” a sociedade dos indivíduos;
foram desenvolvidas, os grupos em que esse e, que ainda, traz a marca de uma sociedade
indivíduo percorreu, as tramas e os dramas específica que nos remete, a escala de análise
vividos, enfim, a complexa dinâmica social como, por exemplo, o Estado-Nação, o mu-
em que esse indivíduo esteve permeado e nicípio, o bairro dentre outros, pois:
relacionado a sociedade dos indivíduos.
Assim, Elias possibilita compreender o in- (...) o indivíduo sempre existe, no nível
divíduo é como um produto reticular for- mais fundamental, na relação com os
mado através de um conjunto estrutural de outros, e essa relação tem uma estru-
relações sociais, articuladas e sobrepostas e tura particular que é específica de sua
situadas no interior de diferentes grupos so- sociedade. Ele adquire sua marca indi-
ciais, lugares, e pessoas que permitem vis- vidual a partir da história dessas relações,
lumbrar a sociedade e suas tramas, pois, “Por dessas dependências, e assim, num con-
mais certo que seja que toda pessoa é uma texto mais amplo, da história de toda a
entidade completa em si mesmo, um indi- rede humana em que cresce e vive. Essa
víduo que se controla e que não poderá ser história e essa rede humana estão pre-
controlado ou regulado por mais ninguém sentes nele e são representadas por ele,

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quer ele esteja de fato em relação com corresponde à estrutura psicológica estabele-
outras pessoas ou sozinho, quer trabalhe cida em certos estágios de um processo civi-
ativamente numa grande cidade ou seja lizador” (ELIAS, 1994, p. 32).
um náufrago numa ilha a mil milhas de Para Elias, no “atual” estágio de desen-
sua sociedade. Também Robinson Cru- volvimento da civilização através da global-
soé traz a marca de uma sociedade es- ização, o “o avanço da divisão das funções
pecífica, de uma nação e uma classe es- e da civilização, em certos estágios, é cres-
pecíficas. Isolado em sua ilha de todas centemente acompanhado pelo sentimento
as relações que tinha com elas, ele se dos indivíduos de que, para manterem suas
conduz, deseja e faz planos segundo os posições na rede humana, devem deixar
padrões delas, e assim exibe comporta- fenecer sua verdadeira natureza”. A rede
mentos, desejos e projetos diferentes dos humana de funções sociais (como do tra-
de Sexta-Feira, por mais que os dois se balho e do estudo) e de relações que indi-
adaptem um ao outro em virtude de sua víduo estabelece (como nas amizades, gru-
nova situação (ELIAS, 1994, p. 31, [gri- pos e classes sociais) tem criado uma pressão
fos nossos]). sob as pessoas que precisam cada vez mais
de um maior auto-controle psíquico e social
Assim, sobre a construção do lugar social para que consiga se manter no interior da
(material e simbólico) e dos sujeitos Elias rede social que a institui e que a vincula ao
(1994, p. 31), considera que “O recém- “mundo” (econômico e simbólico) da qual
nascido, a criança pequena – não menos que faz parte ou pertence. Assim, “A pressão
o ancião -, tem um lugar socialmente des- exercida no indivíduo pela rede humana, as
ignado, moldado pela estrutura específica da restrições que sua estrutura lhe impõe e as
rede humana em questão”. E, nesse sentido, tensões e cisões que tudo isso produz nele
a sociedade “constitui a expressão de uma são tão grandes que um emaranhado de incli-
singular conformação histórica do indivíduo nações irrealizáveis e não resolvidas se acu-
pela rede de relações, por uma forma de con- mula no indivíduo: essas inclinações rara-
vívio dotada de uma estrutura muito especí- mente se revelam aos olhos de outrem, ou
fica”. O que se comunica, informa e vincula sequer à consciência do próprio indivíduo”
através e por essa rede humana de relações (ELIAS, 1994, p. 33-34).
é a “autoconsciência de pessoas que foram Neste contexto, o autor também menciona
obrigadas a adotar um grau elevadíssimo e chama atenção para o caráter móvel da
de refreamento, controle afetivo, renúncia rede humana e das alterações das relações,
e transformação dos instintos”, e que “es- no tempo e no espaço, do indivíduo entre si
tão acostumadas a relegar grande número de e, portanto, com a sociedade:
funções, expressões instintivas e desejos e
enclaves privativos de sigilo, afastados do ol- Poderíamos indagar como e por que a es-
har do ‘mundo externo’, ou até aos porões trutura da rede humana e a estrutura do
de seus psiquismos, ao semiconsciente ou in- indivíduo se modificam ao mesmo tempo
consciente”. Ou seja, essas relações em rede de uma certa maneira, como na transição
permitem um “tipo de autoconsciência [que] da sociedade guerreira para a sociedade

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nobiliárquica, ou desta para a sociedade tensões e de grau mais intenso, mesmo que
trabalhadora de classe média, quando os diferentes e aparentemente veladas nas re-
desejos dos indivíduos, sua estrutura in- lações entre os indivíduos. A prática do auto-
stintiva e de pensamentos, e até o tipo controle das relações e das emoções através
de individualidades, também se modifi- da racionalização4 das ações, dos comporta-
cam. Então se constata – ao se adotar mentos pelas regras, pelo controle do tempo
um ponto de vista dinâmico mais amplo, e do espaço, pela coerção do trabalho den-
em vez de uma concepção estática – que tre outros, provoca diferentes tensões no at-
a visão de um muro intransponível entre ual estágio do processo civilizacional a par-
um ser humano e todos os demais, en- tir das relações de disputa, de competição e
tre os mundos interno e externo, evapora- de coerções (pela lei, pela moral, pela re-
se e é substituída pela visão de um en- gra, pela disciplina e pela força ideológica
trelaçamento incessante e irredutível de e física) no conjunto das práticas cotidianas
seres individuais, na qual tudo o que con- e do conjunto da sociedade dos indivíduos.
fere a sua substância animal a qualidade Assim:
de seres humanos, principalmente seu au-
tocontrole psíquico e seu caráter individ- Para ter uma visão mais detalhada desse
ual, assume a forma que lhe é específica tipo de inter-relação, podemos pensar no
dentro e através de relações com os out- objeto de que deriva o conceito de rede:
ros (ELIAS, 1994, p. 34-35, [grifos do a rede de tecido. Nessa rede, muitos fios
autor]). isolados ligam-se uns aos outros. No
entanto, nem a totalidade da rede nem
Por isso, considera também que “nos- a forma assumida por cada um de seus
sos instrumentos de pensamento não são su- fios isolados ligam-se uns aos outros. No
ficientes móveis para apreender adequada- entanto, nem a totalidade da rede nem
mente os fenômenos reticulares, nossas 4
Elias (1994, p. 71), considera que “A idéia tradi-
palavras ainda não são flexíveis o bastante cional de uma ‘razão’ ou ‘racionalidade’ de que todas
para expressar com simplicidade esse sim- as pessoas são dotadas por natureza como uma pecu-
ples estado de coisas”. E, considera que a liaridade inata da espécie humana e que ilumina todo
rede humana resulta cada vez mais de ten- ao ambiente como um farol (a menos que haja uma
disfunção) conforma-se muito pouco aos fatos ob-
sões que individuo conforma a partir das in- serváveis. Por mais corriqueira que seja hoje em dia,
dividualidades e dos projetos de vida dis- essa idéia faz parte de uma imagem do homem em que
tintos ou que competem no interior de uma as observações passíveis de comprovação misturam-
amálgama de interesses, que projetam o in- se intensamente a fantasias oriundas de desejos e
dividuo na sociedade a partir de uma trama temores. A suposição de que o pensamento humano
funciona automaticamente, de acordo com leis eter-
de relações sociais e, portanto, de poder. O nas, em todas as ocasiões e em todas as situações so-
poder que emana das tensões oriundas das ciais, desde que esteja livre de distúrbios, é um amál-
real-ações dos indivíduos no conjunto da so- gama de conhecimentos factuais e de um ideal dese-
ciedade globalizada, do mercado e consumo. jante. Nela está contida uma exigência moral (com a
A maior subjetivação das emoções e indi- qual não se tem necessidade de discutir), mascarada
sob a forma de uma realidade”.
vidualização das ações provocam diferentes

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a forma assumida por cada um de seus suas relações com as outras não têm ori-
fios podem ser compreendidos em ter- gens primeiras. Assim como, numa conversa
mos de um único fio, ou mesmo de to- contínua, as perguntas de um evocam as re-
dos eles, isoladamente considerados; a spostas do outro e vice-versa, e assim como
rede só é compreensível em termos da determinada parte da conversa não provém
maneira como eles se ligam, de sua re- apenas de um ou do outro, mas da relação
lação recíproca. Essa ligação origina um entre dois, a partir da qual deve ser enten-
sistema de tensões para o qual cada fio dida, também cada gesto e cada ato do bebê
isolado concorre, cada um de maneira não são produtos de seu ‘inteiro’ nem de seu
um pouco diferente, conforme seu lugar ‘ambiente’, nem tampouco de uma interação
e função na totalidade da rede. A forma entre um ‘dentro’ e um ‘fora’ originalmente
do fio individual se modifica quando se distintos, mas constituem uma função e um
alteram a tensão e a estrutura da rede in- precipitado de relações, só podendo se enten-
teira. No entanto essa rede nada é além didos – como a imagem do fio numa trama –
de uma ligação de fios individuais; e, a partir da totalidade da rede”. E, nesse sen-
no interior do todo, cada fio continua a tido, “a fala do outro desenvolve na criança
constituir uma unidade em si; tem uma em crescimento algo que lhe é inteiramente
posição e uma forma singulares dentro próprio, uma linguagem que é inteiramente
dele (ELIAS, 1994, p. 35). sua e que, ao mesmo tempo, é um produto de
suas relações com os outros, uma expressão
A mobilidade das relações sociais, tanto da rede humana em que ela vive” (ELIAS,
geográfica quanto sociológica, deve ser com- 1994, p. 35, [grifo do autor]).
preendida em rede; uma rede em contínuo Desse modo, para Elias “as idéias, con-
movimento que forma uma trama que é, para vicções, afetos, necessidades e traços de
o autor, a totalidade da rede. Mas, então, caráter produzem-se no indivíduo mediante
como modelo de reflexão sobre as redes hu- a interação com os outros”. Esse “indivíduo-
manas possibilita compreender “uma idéia relacional”, só se re-produz e se faz na re-
um pouco mais clara da maneira como uma lação e interação com outros e, como con-
rede de muitas unidades origina uma ordem sidera Elias, “como coisa que compõem seu
que não pode ser estudada nas unidades in- ‘eu’ mais pessoal e nas quais se expressa,
dividuais”. A rede, portanto, compõem as justamente por essa razão, a rede de re-
relações inter-pessoais que apreendem um lações de que ele emergiu e na qual pen-
tecer ininterrupto de ligações que, formam etra”. Logo, esse indivíduo, “essa ‘essên-
a “totalidade” das conexões. Para Elias, cia’ pessoal” de que fala Elias, forma-se
“se imaginarmos a rede em constante movi- e transforma-se “num entrelaçamento con-
mento, como um tecer e destecer ininter- tínuo de necessidades, num desejo e real-
rupto das ligações. É assim que efetiva- ização constantes, numa alternância de dar
mente cresce o indivíduo, partindo de uma e receber. É a ordem desse entrelaçamento
rede de pessoas que existiam antes dele para incessante e sem começo que determina a
uma rede que ele ajuda a formar”. Logo, natureza e a forma do ser humano individ-
“a pessoa individual não é um começo e ual”. Até mesmo, no limite, para Elias “a na-

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tureza e a forma de sua solidão, até o que ele Por natureza, ele é feito de maneira a poder
sente como sua ‘vida íntima’, traz a marca e necessitar estabelecer relações com outras
da história de seus relacionamentos – da es- pessoas e coisas”. E, ainda, para o autor, o
trutura da rede humana em que, como um de “que distingue essa dependência natural de
seus pontos nodais, ele se desenvolve e vive relações amistosas ou hostis, nos seres hu-
como indivíduo” (ELIAS, 1994, p. 36). As- manos, da dependência correspondente nos
sim, desde as relações mais objetivas ou fun- animais, o que efetivamente confere a essa
cionalistas como, por exemplo, as econômi- auto-regulação humana em relação ao semel-
cas vinculadas aos ramos de atividade no tra- hante o caráter de uma auto-regulação psi-
balho em que os indivíduos constroem in- cológica – em contraste com os chamados
terdependências de funções sociais uns com instintos dos animais -, não é outra coisa
os outros até, as relações mais íntimas que senão sua maior flexibilidade, sua maior ca-
são camufladas no interior da sociedade pe- pacidade de se adaptar a tipos mutáveis de
los indivíduos, na subjetivação das emoções, relacionamentos, sua maleabilidade e mobil-
ou na reclusão no território do abrigo e do idades especiais” (ELIAS, 1994, p. 37).
aconchego cotidiano como, por exemplo, na A capacidade, portanto, de acordo com o
casa onde os indivíduos desenvolvem suas processo civilizador, de auto-controle e/ou
emoções e suas relações materiais nas re- auto-regulação produz o indivíduo historica-
lações com os outros e, portanto, com a so- mente. Essa capacidade de se auto-regular
ciedade, com a sociedade de indivíduos que seria produtora (que é parte de uma con-
produz determinadas relações que são mar- strução social), também, de uma sociedade
cadas e delimitadas sociais, histórica e ge- de indivíduos de um tempo e de um es-
ograficamente pelo poder. paço. As condições de reprodução da so-
O indivíduo, para Elias, é “uma estru- ciedade dos indivíduos seriam dadas, desse
tura formada por funções relacionais” como, modo, pelas condições de gerenciar e apri-
por exemplo, através de vetores de relações morar o autocontrole das emoções; logo, as
humanas, sociais e culturais, políticas e práticas racionais e/ou a racionalização das
econômicas. Assim, o “ser humano não é, relações são as que passaram a dar o ritmo
como faz parecer uma certa forma histórica das relações em sociedade e, que conformam
de autoconsciência humana, simplesmente as diferentes sociedades e, por extensão, os
um continente fechado, com vários compar- diferentes indivíduos, pois, como considera
timentos e órgãos, um ser que, para começo o autor:
de conversa, em sua organização natural,
nada tem a ver com outras coisa e seres, A sociedade não apenas produz o semel-
mas é organizado, por natureza, como parte hante e o típico, mas também o indi-
de um mundo maior”. Para Norbert Elias, vidual. O grau variável de individu-
“em certo sentido”, o indivíduo é “um vetor ação entre os membros de grupos e ca-
que dirige continuamente valências dos mais madas diferentes mostra isso com bas-
diferentes tipos para outras pessoas e coisas, tante clareza. Quanto mais diferenciada
valências estas que se saturam temporaria- a estrutura a estrutura funcional de uma
mente e sempre voltam a ficar insaturadas. sociedade ou de uma classe dentro dela,

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mas nitidamente divergem as configu- tenha uma oportunidade melhor de ver quan-
rações psíquicas de cada uma das pessoas tas coisas podem depender de pessoas partic-
que nela crescem. No entanto, por difer- ulares em situações particulares, apesar da
ente que seja o grau dessa individuação, fixidez da direção geral” (ELIAS, 1994, p.
certamente não existe nenhum ponto zero 47 e 52).
de individuação entre as pessoas que Assim, a maneira como um indivíduo de-
vivem e crescem numa sociedade. Em cide e age desenvolve-se nas relações com
maior ou menor grau, as pessoas de to- outras pessoas, numa modificação constante
das as sociedades que nos são conheci- de sua natureza pela sociedade. Mas, para o
das são individuais e diferentes umas das autor, o que “assim se molda não é algo sim-
outras até o último detalhe de sua config- plesmente passivo”, pois, o “que é moldado
uração e comportamento, e são específi- pela sociedade também molda, por sua vez:
cas de cada sociedade, ou seja, são for- é a auto-regulação do indivíduo em relação
madas e ligadas, na natureza de sua auto- aos outros que estabelece limites à auto-
regulação psíquica, por uma rede par- regulação destes”. Uma pessoa, nesse sen-
ticular de funções, uma forma particular tido, pode ter mais funções de matriz do que
de vida comunitária, que também forma outra, mas é sempre também agente de mod-
e liga todos os seus membros (ELIAS, elamento da sociedade. Até o membro con-
1994, p. 56). siderado “mais fraco” da sociedade ou de
função social considerada “inferior”, tem sua
Assim, para o autor “toda sociedade parcela na cunhagem e na limitação dos out-
grande e complexa” tem, na verdade, duas ros membros, por menor que seja.
qualidades: “é muito firme e muito elás-
tica”. “Em seu interior constantemente se
abre um espaço para as decisões individu-
4. Considerações Finais
ais”. E, por isso, “apresentam-se oportu- Toda sociedade humana consiste em in-
nidades que podem ser aproveitadas ou per- divíduos distintos e todo indivíduo hu-
didas. Aparecem encruzilhadas em que as mano só se humaniza ao aprender a agir,
pessoas têm de fazer escolhas, e de suas es- falar e sentir no convívio com outros. A
colhas, conforme sua posição social, pode sociedade sem os indivíduos ou o indiví-
depender seu destino pessoa imediato, ou o duo sem a sociedade é um absurdo. Mas,
de uma família inteira, ou ainda, em certa quando tentamos reconstruir no pensa-
situações, de nações inteiras ou de grupos mento aquilo que vivenciamos cotidiana-
dentro delas”. Pode, portanto, “depender de mente, é constante aparecerem lacunas
suas escolhas que a resolução completa das e falhas em nosso fluxo de pensamento,
tensões existentes ocorra na geração atual ou como num quebra-cabeça cujas peças se
somente na seguinte” (ELIAS, 1994, p. 48). recusassem a compor uma imagem com-
Assim, considera que é pequeno o “poder pleta (ELIAS, 1994, p. 67).
individual” das pessoas sobre a linha mestra
do movimento e da mudança históricos, pois, Analisamos aqui, que a sociedade dos
“a pessoa que atua dentro do fluxo talvez indivíduos para Norbert Elias constitui-

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se como um dos elementos essenciais de de entrelaçamento de relações de poder e de


uma estrutura organizacional, cujas atuações tensões, de amizade e de alteridade constrói
demonstram-se pelas diversas formas de a sociedade dos indivíduos.
inter-relacionamentos, interdependências e Sobretudo, Elias ensina demonstrando e
entrelaçamentos sociais e de auto-regulação problematizando que a relação sociedade
que jamais poderão ocorrer individualmente. e indivíduo deve ser compreendida na sua
A sociedade dos indivíduos para Elias é muldimensionalidade das relações sociais,
uma rede de relações sociais que produz de auto-regulação das emoções e do desen-
“fenômenos reticulares” através das difer- volvimento de estratégias racionais de auto-
entes funções sociais que, na sua divisão, controle, onde todos os indivíduos são con-
produzem indivíduos iguais e diferentes. siderados participantes e modeladores, em
Através da rede humana móvel de relações diferentes graus ou natureza na sociedade.
ocorrem diferentes formas de auto-regulação As redes sociais, os fenômenos reticulares,
da sociedade que modelam indivíduo e so- as tensões, o poder, as estruturas específi-
ciedade, no tempo e no espaço. Assim, cas e gerais da sociedade dos indivíduos pro-
para Elias, o indivíduo em sociedade é uma duzem diferentes relações na imensa e com-
“rede” que produz fenômeno reticulares situ- plexa teia humana móvel de funções sociais
ados no interior de relações de interde- e nas suas divisões dessas funções. E, por-
pendências, de tensões, de autoregulação e tanto, para Elias (1994, p. 67), o que “carac-
de poder; logo, para o autor “esse contin- teriza o lugar do indivíduo em sua sociedade
uum da sociedade humana é uma ‘máquina é que a natureza e a extensão da margem
de motor perpétuo’. Sem dúvida, esse con- de decisão que lhe é acessível dependem da
tinuum constantemente extrai energia física estrutura e da constelação histórica da so-
do mundo a seu redor”. E, esse “contin- ciedade em que ele vive e age”.
uum de seres humanos interdependentes tem
um movimento próprio nesse cosmo mais
5. Referências
poderoso, uma regularidade e um ritmo de
mudança que, por sua vez, são mais fortes AZEVEDO, Adriana. Serviço Social e
do que a vontade e os planos das pessoas in- marxismo: uma discussão da prob-
dividualmente consideradas” (1994, pp. 45- lemática do indivíduo. In: Revista
46). Serviço Social e Sociedade, n. 57, São
O indivíduo é modelado através das re- Paulo, Cortez, 1998, pp.109-132.
lações que desenvolve com os outros, isto é,
em sociedade desde, as relações funcionais e BECK, Ulrich. Liberdade ou Capitalismo.
econômicas (como, por exemplo, vinculado São Paulo: UNESP, 2002.
aos ramos de atividade, no trabalho e de pro- BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas
priedade privada), até as relações políticas e simbólicas. 5 ed. São Paulo: Perspec-
culturais (através das relações de amizade, tiva, 2002.
de parentesco, étnicas e identitárias). As-
sim, o indivíduo é uma “linha” do “novelo”
relacional, ou seja, a sociedade que através

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