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Perceção

Que tipo de problema pode ocorrer numa comunicação suportada sobretudo pela visão e
por seu subconsequente produto: a imagem?

1. Ocorrer uma perceção imprecisa - a visão por si só não é perfeita.

Um objeto é percecionado pelo corpo como uma série de impressões relativas ao mesmo;
uma série de múltiplos estímulos que o objeto provoca aos vários sentidos.

Segundo Merleau-Ponty, a junção e processamento da informação que esses estímulos


sensórios provocam é a primeira camada de conhecimento sobre o objeto.1 Portanto, a
informação que os sentidos partilham com o corpo, neste caso, o cérebro, é interpretada
pela junção de vários fragmentos para criar um objeto percecionado mental o mais
próximo da realidade possível; juntar as várias peças dos estímulos sensórias para criar
uma impressão mais completa do objeto real. Essa “imagem mental”, o objeto
percecionado, é mais precisa conforme a qualidade de informação recolhida sobre o
objeto. De certa forma, a perceção é a compreensão do objeto pelo individuo, em como o
ele presencia o objeto, é uma forma mental do que é o objeto para si.2

Os sentidos trabalhando como um sistema, permite a junção dos vários fragmentos


captados, acrescentando informação suplementar, e dando credibilidade à informação
fragmentada. Através deste processo as lacunas de cada sentido são colmatadas e a
informação do objeto percecionado é mais coerente, mais credível para o individuo, e é
mais fidedigna com a realidade do objeto. Assim, o objeto, o meio, o ambiente
percecionado tornam-se numa figura percetiva unificada. A realidade percetiva é a
verdade para o individuo.

Por exemplo, a perceção visual, apoiada pela impressão produzida pelo tato, adquire
particularidades impossíveis se o único sentido utilizado fosse a visão.

1
MERLEAU-PONTY, Maurice – Fenomenologia da perceção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
ISBN8533610335. pág. 40
2
MERLEAU-PONTY, Maurice – Fenomenologia da perceção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
ISBN8533610335.
“(…) a noção visual de materialidade, distância e profundidade espacial seriam
absolutamente impossíveis sem a cooperação da memoria tátil. Segundo Berkeley, a visão
necessita de ajuda do tato, que fornece sensações de “solidez”, resistência e
protuberância; a visão desvinculada do tato não poderia “ter qualquer ideia de distância,
exterioridade ou profundidade.” 3

A noção visual de espacialidade e materialidade são possíveis graças ao tato: à perceção


da imagem é lhe adicionada tridimensionalidade, profundidade e relevo.

A informação rececionada pelos sentidos é aglomerada e tratada como uma só. Não há
separação real da visão e dos restantes sentidos; eles são um sistema sensorial único a
trabalhar em conjunto para conseguir decifrar da melhor forma possível o objeto que está
em contacto. A perceção é a soma de todos os sentidos, um todo a trabalhar em conjunto.4
Portanto se existir disparidades no equilíbrio de uso de todos os sentidos a informação
percecionada torna-se imprecisa em relação aquando estão todos em cena.

Perceção espacial

Além disso, para o sistema percetivo funcionar na sua plenitude é aconselhável o contacto
presencial com o objeto5, ou seja, não necessariamente um contacto físico, mas o objeto
tem de se encontrar próximo do sistema sensorial para a informação ser mais precisa
possível; para estar em maior concordância com a realidade presente do objeto.

E os meios de comunicação, principalmente pela tecnologia vieram agravar esta condição


da perceção. “There is no doubt that our technological culture has ordered and separated
the senses even more distinctly.”6 O ecrã foi uma das respostas tecnológicas à necessidade
de receber informação através da imagem. Agora sim, o ser humano pode observar
qualquer objeto em qualquer parte, mesmo da ficção, instantaneamente. Mas por outro
lado cada vez o separa mais fisicamente do objeto real, físico, através da imagem que

3
PALLASMAA, Juhani - The eyes of skin. 2006. p.40
4
MERLEAU-PONTY, Maurice – “The age of the world picture” p
5
MERLEAU-PONTY, Maurice – Fenomenologia da perceção. p.
6
PALLASMAA, Juhani - The eyes of skin. 2006. p.16
projeta. A predileção da visão através da imagem vem separando ainda mais o individuo
do objeto

Caso da imagem – qual é o problema em relação à perceção

Então no caso da leitura da imagem unicamente, ou praticamente apenas, através da visão


(porque a imagem é uma representação do objeto real normalmente lida pela visão) torna
a perceção do objeto inexata aquando comparado ao sistema percetivo na sua plenitude.
Em condições insuficientes o sentido da visão pode ser bastante trapaceiro- e dificilmente
a imagem correspondendo à verdade percetiva.

Ao produzir uma perceção apenas suportada na imagem criam-se inevitavelmente


perceções erradas do objeto, e objeto da imagem torna-se numa cópia do objeto real. A
relação de proximidade com o objeto é substituída por uma perceção difusa e virtual - no
limite pode ser até irreal. Torna-se superficial através da imagem.

Interpretação

Até agora foi discutido o problema que pode ocorrer na discrepância de utilização dos
sentidos, neste caso a visão, pode resultar numa perceção incoerente do objeto: a perceção
mediada através da imagem; e como essa discrepância afeta a sociedade.

Mas pode ocorrer outro problema que advém da imagem que também influencia a
sociedade e a sua cultura.

2. O seu conteúdo ser desajustado, não ser relevante – não relacionado com perceção
física mas o seu conteúdo mental incorporado.

O objeto através da forma pode conter conhecimento além do que representa realmente,
além da perceção da sua realidade física e do seu contexto existencial. Forma e conteúdo
são coisas distintas. A forma é referente à perceção física. Mas além dessa perceção a
forma pode induzir a um conteúdo simbólico diferente do que representa na realidade.
Existe uma distinção entre a forma e o seu possível conteúdo.

conter uma mensagem ou uma referência a algo… uma informação exposta por uma
determinado código reconhecido num determinado contexto cultural. Portando a

“(…)a significação simbólica permeia toda a estrutura7, porque cada articulação dessa
estrutura é uma articulação da ideia que ela transmite; o significado é o conteúdo da forma
simbólica dado, como que junto com ela, à perceção.”8

E através da interpretação9 que objeto pode revelar o seu conteúdo além da forma física.
A interpretação do objeto permite expor uma reivindicação ou revelação de algo além do
que o objeto físico; revelar uma mensagem impressa, critica, intrusiva, uma referência ou
uma analogia a algo… uma informação intencional deixada por quem criou o objeto.

E esse princípio está ainda mais evidente na arte, o seu conteúdo é essencial. “A forma
significante é a essência de toda arte; é isso que queremos dizer ao chamarmos qualquer
coisa de “artística”.”10

Mas conteúdo produzido pela interpretação pode ser questionável. O seu desfecho não se
traduz necessariamente num valor absoluto, pode induzir o erro aquando não existe uma
análise interpretativa profunda11, percebendo em que contexto foi criada e qual a intensão
verdadeira – muitas vezes devido a uma perceção também deficiente. Ou seja se não
existir uma interpretação minuciosa, profunda e assertiva, através de investigação cuidada
- pode ocorrer um erro interpretativo e a sua mensagem ser descorada do seu contexto
original.

Nessa situação em que a informação incorporada é subvertida deixa de ter fundamento.


Sendo alterada deixa de ter sentido, descora um dos seus propósitos originais. Que
propósito tem a mensagem se o seu valor foi descontextualizado da realidade? De certa
forma torna-se numa mentir porque o seu contudo foi subvertido.

7
“estrutura” refere-se à forma física- que pode ser lida pela expressão- ou seja não é a forma simbólica.
8
Susanne K. Langer – Sentimento e forma p.55
9
“Por interpretação entendo nesse caso uma ato consciente da mente que elucida um determinado
código, certas “normas” de interpretação.” de Sontag – Contra a interpretação. pág. 3
10
Susanne K. Langer – Sentimento e forma p.25
11
Sontag – Contra interpretação. página 3
Ou pior ainda, não tendo interesse cultural, ou seja o seu conteúdo não seja de relevo de
erudição, pode ser confundido com um objeto de valor. Ou seja, o seu conteúdo ser mal
interpretado para algo que parace possivelmente melhor.

MELHOR

Mas em que medida a imagem está relacionada com a interpretação errada do conteúdo?

A interpretação, à semelhança da perceção física tornar-se imprecisa aquando o objeto é


mediado através da imagem até aos sentidos. Antes de ocorrer o processo de leitura da
forma em prol de códigos familiares, que podem traduzir em informação, tem de ocorrer
a perceção do objeto. Se o objeto é deficientemente percecionada devido ao seu contacto
ser indireto através da imagem, a interpretação também o é. Ou seja, a interpretação está
suscetível a erro quando não está em contacto direto com o objeto, assim como acontece
na perceção.

Por outro lado, a velocidade imposta pelo ritmo frenético da sociedade contemporâneo
impôs uma forma de comunicar apressada, que possibilita-se muita informação em
simultâneo, sobretudo através da imagem. A visão tornou possível um meio muito mais
rápido. Mas também mais instantâneo. E este facto põe em causa a condição de a
necessidade de uma análise profunda em prol de uma interpretação mais precisa do
conteúdo. A velocidade imposta pela comunicação e pela imagem podem dificultar essa
condição e não permitir uma leitura assertiva do mesmo.

Sem tempo e disponibilidade torna-se difícil analisar o objeto com profundidade e


portanto torna-se mais difícil conseguir uma interpretação assertiva do conteúdo.
Indiretamente é também uma consequência da disseminação da imagem.

De certa forma esse é o propósito da imagem: ser prática e rápida. Então num meio
cultural onde se está habituado a ter um contacto rápido com o objeto através da imagem,
não existindo tempo e discernimento para um contacto mais profundo e envolvente com
o objeto, a interpretação fica-se pelo superficial.

Que consequências terá no panorama cultural?