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INTRODUÇÃO AO

DIREITO BRASILEIRO
E TEORIA DO ESTADO

Débora Sinflorio da Silva Melo


Revisão técnica:

Gustavo da Silva Santanna


Bacharel em Direito
Especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional
e em Direito Público
Mestre em Direito
Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito

I61 Introdução ao Direito brasileiro e teoria do Estado / Cinthia


Louzada Ferreira Giacomelli ... [et al.] ; [revisão técnica:
Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre : SAGAH, 2018.
276 p. il. ; 22,5 cm

ISBN 978-85-9502-371-0

1. Direito. I. Giacomelli, Cinthia Louzada Ferreira.

CDU 342.1

Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB-10/2147


Estado e sociedade
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Identificar os elementos que compõem o Estado.


 Apontar os principais conflitos históricos existentes entre Estado e
sociedade.
 Especificar os resultados oriundos da pouca interação da sociedade
nas decisões políticas.

Introdução
O Estado é entendido como uma sociedade de homens unidos para
promover o interesse e a segurança mútuos por meio da conjugação
de todas as suas forças, que — pela lei promulgada por um governo
investido para esse fim, de poder coercitivo — mantém, dentro de um
território delimitado, as condições universais de ordem social.
Neste capítulo, você vai ler sobre as questões relativas ao conflito
histórico existente entre Estado e sociedade, tendo em vista os elementos
que o compõem.

Elementos do Estado
Em linhas gerais, a doutrina clássica conceitua o Estado como um conjunto de
elementos formados por um território, um povo e um governo soberano com
poder público sobre tais elementos. Contudo, o Estado da Ordem de Malta, por
exemplo, é um Estado sem território. Nesse sentido, em atenção aos elementos
que compõem o Estado e o significado de cada elemento, atentamos para as
ponderações dos doutrinadores Paulo Bonavides, Nina Beatriz Ranieri e José
Geraldo Brito Filomeno sobre os elementos do Estado.

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De acordo com o doutrinador Paulo Bonavides, em alusão ao doutrinador


Duguit, os elementos constitutivos do Estado dividem-se em ordem formal e
ordem material, e assim são compostos:

Ordem formal — o poder político na sociedade, que, segundo Duguit, surge do


domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. Paulo Bonavides faz uma observação
ponderando ser contrário à definição de Estado elaborada por Duguit e, segundo
o autor, a melhor definição de Estado seria a defendida por Jellinek, quando
disse que o Estado “[...]é a corporação de um povo, assentada num determinado
território e dotada de um poder originário de mando”. (BONAVIDES, 2000).

Ordem material — seria o elemento humano, que, segundo Bonavides, qualifica-


-se em graus distintos, como população, povo e nação, isto é, em termos demográ-
ficos, jurídicos e culturais, bem como o elemento território. (BONAVIDES, 2000).
Segundo a autora Nina Beatriz Ranieri, constituem elementos do Estado
o povo, o território e a finalidade. São estas as diferenças:

Povo — é aquele constituído por seus cidadãos, ou seja, pelos indivíduos a ele
juridicamente vinculados por meio da nacionalidade e da cidadania (RANIERI,
2013). De acordo com a doutrinadora Ranieri, o conceito de povo é diverso
do conceito de população, nação, etnia ou minoria, pois a população seria
um conceito demográfico relativo ao número de pessoas que se encontram
em determinado Estado, em certo momento, independentemente de serem
nacionais, estrangeiros ou apátridas. Já nação seria o termo responsável para
designar uma comunidade de base cultural, isto é, uma realidade sociológica,
identificada com o conceito de comunidade (RANIERI, 2013).

Território — aquele equivalente ao espaço da superfície terrestre que este


ocupa, ou seja, constitui a base física de um Estado.

Finalidade — segundo a doutrinadora Ranieri (RANIERI, 2013), é o elemento


do Estado que diz respeito à fundamentação da sua ação, isto é, os funda-
mentos são simultaneamente teleológicos (são relativos aos fins do Estado) e
axiológicos (relativos aos valores sob os quais se orienta a ação do Estado).
De acordo com os doutrinadores José Geraldo Brito Filomeno e Marcus
Cláudio Acquaviva, os componentes do Estado se dividem em:

Elemento material (população e território) — segundo o doutrinador José


Geraldo Filomeno (FILOMENO, 2016), a população consiste no conjunto

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de todos os habitantes do seu território, quer com ele mantenham ou não


vínculos políticos, além dos necessários vínculos jurídicos. Já o povo seria o
conjunto de cidadãos. O território seria a parte imprescindível para a existência
do próprio Estado, composto por solo, subsolo, espaço aéreo, embaixadas,
navios e aviões militares onde sejam encontrados, os navios e aviões de uso
comercial ou civil em sobrevoo ou navegação de território não pertencente a
outros Estados e o mar territorial.

Elemento formal (poder) — para o doutrinador Marcus Cláudio Acquaviva


(ACQUAVIVA, 2010), o poder é a potencialidade para a realização de algo,
sendo o poder soberano elemento essencial do Estado, visto que não há Estado
sem poder soberano. Além disso, a soberania é a forma suprema de poder,
única, indivisível, inalienável e imprescritível, de que se reveste a sociedade
política. Para o doutrinador José Geraldo (FILOMENO, 2016), o ordenamento
jurídico é o conjunto das normas constitutivas e comportamentais criadas
pelo Estado, mediante processo adequado, por meio de órgãos aos quais a
Constituição confere poderes para tanto.

Elemento final (bem comum) — relaciona-se ao fato de manter a segurança


interna e externa de uma população, a construção do Estado de Direito e a
atenção ao bem-estar de todos.
Independentemente do rol doutrinário adotado, cabe reconhecermos que
um Estado é reconhecido como soberano quando nele é possível destacar o
território, um governo soberano, um povo e o elemento final, pois, do contrário,
não teremos Estado, como, por exemplo, os povos sem pátria, como os curdos,
que compõem a maior nação mundial sem Estado.

O doutrinador Marcus Cláudio Acquaviva, no livro Teoria geral do Estado, destaca as


definições para Estado elaboradas por pensadores como Giorgio Del Vecchio, que
definiu o Estado como “o sujeito da Ordem Jurídica, na qual se realiza a comunidade
de vida de um povo”, e Georges Burdeau, para quem o Estado se forma “quando o
poder torna-se uma instituição, não se confundindo mais com aquele que o encarna,
mediante o fenômeno da institucionalização do poder”. Assim, aproveite e confira
a bibliografia.

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Principais conflitos históricos entre


o Estado e a sociedade
Ao longo dos séculos, a relação entre o Estado e a sociedade vem amargando
trajetória de esperança e desesperança. No anseio de que sejam garantidos e
respeitados os direitos preestabelecidos constitucionalmente, a sociedade busca
que o Estado o cumpra — em contraparte, o Estado anseia que a sociedade
zele pelo seu país. Contudo, em decorrência do orgulho e do poder ao longo
de anos, diversos conflitos marcaram a intempestiva relação entre Estado e
sociedade, entre os quais se destacam os elencados a seguir.

Ditadura militar brasileira (1964–1985)


A história brasileira é marcada por grandes manifestações de luta entre a
população e aqueles que detêm o poder. A ditadura militar é considerada um
dos períodos mais aterrorizantes vividos pela sociedade brasileira, que, no ano
de 1964, inconformada com a crise política do País, realizou passeatas contra
o governo do então presidente João Goulart, que até então prometia a reforma
das bases. Contudo, a parte conservadora da sociedade realizou manifestações
contrárias ao discurso presidencial e, visto a enorme crise política e tensão
social, a fim de evitar uma guerra civil, os militares tomaram o poder. O então
presidente se refugiou no Uruguai e, consequentemente, ao longo dos anos,
diversos generais mãos de ferro controlaram o País, cerceando a liberdade em
geral, oprimindo e perseguindo a população opositora ao regime instalado,
que, na tentativa de salvar o País, lutou como guerrilheira.
Durante esse período, a política, a comunicação, a cultura, etc., foram cer-
ceadas; professores, artistas, escritores e políticos foram torturados, exilados
e, inclusive, mortos. Com o passar dos anos, a situação econômica e as tensões
sociais seguiam aumentando, mas, no ano de 1984, com a fragilização do
poder militar e a vertiginosa crise econômica, ocorreu o movimento Diretas
Já, um movimento social no qual milhares de brasileiros saíram às ruas a fim
de exigir a aprovação, pela Câmara dos Deputados, da emenda do político
Dante de Oliveira, que buscava o retorno das eleições presidenciais e o fim
da ditadura. Contudo, apesar de a emenda não ter sido aprovada, a ditadura
militar findaria e, no ano seguinte, deu espaço à redemocratização do País,
com a escolha do deputado Tancredo Neves como presidente, o qual, em
virtude do seu precoce falecimento, foi substituído pelo vice-presidente José
Sarney, que, em 1988, aprovaria a nova Carta Magna, ou seja, a Constituição
Federal de 1988 e, assim, o Estado Democrático de Direito.

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Apartheid na África do Sul


Durante os anos de 1948–1991, com a ascensão ao poder do partido político
Nacional Sul-Africano, a sociedade negra sul-africana viu os seus direitos
serem completamente cerceados, pois os novos governantes institucionaliza-
ram o regime de apartheid, no qual concedia direitos e privilégios somente à
população branca. Nos anos seguintes, foram proibidos casamentos mistos e
relações sexuais entre negros e brancos. Ainda, foi criado um cadastramento
para separá-los (famílias foram divididas), dividiram-se áreas residenciais
e locais públicos para negros e para brancos, e a população negra deveria
apresentar à polícia, sempre que solicitada, uma caderneta que determinava
os seus limites de acesso.
A segregação racial desencadeou uma série de manifestações, movimentos
e conflitos na luta da população negra pelo restabelecimento da igualdade
social no País, independentemente da raça. O ex-presidente sul-africano Nelson
Mandela foi um dos principais líderes pelo fim do apartheid e, em consequência
disso, foi mantido preso por longos 27 anos, quando, no ano de 1990, após já
ter conquistado a liberdade, foi eleito como presidente e deu fim ao regime de
apartheid no País. Contudo, passados tantos anos, em decorrência de séculos
de apartheid, a relação entre Estado, negros e brancos ainda é tempestuosa
na África do Sul.

Conflito entre Israel e Palestina


O conflito político-social entre Israel e Palestina, sem sombra de dúvidas, é um
dos conflitos históricos mais contundentes da humanidade, que, nos últimos
anos, tem fomentado debates e a preocupação mundial sobre a eminente guerra
na região. Há anos, judeus e palestinos disputam o território após a divisão
territorial realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 14 de maio
de 1948, que previamente idealizou a divisão da Palestina em dois Estados,
um judeu e outro árabe, mas, ao final, somente foi criado o Estado de Israel.
A decisão da ONU desencadeou uma onda de conflitos entre a população
judia e palestina e os seus governantes, pois, de um lado, os palestinos reivin-
dicavam o reconhecimento do seu Estado e a integralidade do território e, do
outro, os judeus defendiam ser os legítimos donos das terras, visto que, por
séculos, os seus ancestrais teriam ocupado tais terras, mas, em decorrência de
perseguições e expulsões, teriam as perdido. Nesse sentido, ano após ano, a co-
munidade internacional busca medidas para solucionar os conflitos entre judeus
e palestinos, conflito que, há anos, é responsável por mortes e ódio na região.

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Interação da sociedade nas decisões políticas


O fim da ditadura militar no Brasil e a promulgação da Constituição de 1988
— que, além de ter estabelecido o Estado Democrático de Direito, reafirmou e
restaurou a democracia participativa no País — garantiram que cada cidadão
brasileiro tivesse a liberdade e a oportunidade, por meio do sufrágio universal,
de decidir o futuro do País.
Em consequência da vaga interação da sociedade nas decisões políticas, a
administração pública, responsável por gerir o patrimônio público formado
pelo conjunto de bens e direitos do governo federal, tem lutado contra o su-
cateamento dos seus serviços e buscado, por meio da transparência pública,
informar a população, por meio dos canais virtuais do governo, sobre os fatos
relativos aos órgãos da administração pública.
Considerando a realidade brasileira, é imperioso destacarmos que grande
parcela da população não possui acesso à internet. A falta de interação da
sociedade com as decisões políticas também se deve ao fato de que os casos
envolvendo determinados personagens políticos, acusados formalmente por
envolvimento em crimes contra a administração pública, não recebem o
mesmo tratamento jurídico que os indivíduos comuns (presos acusados por
outros crimes e que não ocupam cargos políticos). Tal fato tem influenciado
negativamente a interação social, visto que, em decorrência da morosidade
judicial e de outros fatores, a população tem acreditado que, ainda que exija
mudanças nas decisões políticas e/ou judiciais, elas não vão ocorrer, devido
às inter-relações de poder.
Nesse sentido, quando a sociedade se deixa dominar ou contribui para o
fortalecimento de políticos ou partidos políticos que violem a democracia e as
normas constitucionais do País, permite que novas ditaduras sejam instaladas
e, consequentemente, que a democracia participativa seja cerceada. Conhecer
os seus governantes, futuros candidatos, e os partidos políticos é fundamental
para o crescimento e fortalecimento de um Estado, pois, assim, a sociedade
tem condições razoáveis e perceptíveis de entender quando um partido político
adota determinada postura.
Portanto, o cidadão não deve esperar o período eleitoral para conhecer
os seus representantes e partidos políticos, mas, como cidadão politizado,
deveria realizar um estudo prévio para, na época, ter solidez na escolha do
melhor representante. Como bem ponderou o célebre ex-presidente americano
Abraham Lincoln, “um boletim de um voto tem mais força que um tiro de
espingarda” (o voto é mais forte do que uma bala).

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A liberdade de votar é um dos principais mecanismos de mudança de um povo, por


isso deve ser utilizada com sabedoria e não ser objeto de troca ou venda, o que im-
possibilita a realização de mudanças políticas. Contudo, em decorrência da fragilização
do sistema político, causada por escândalos de corrupção, a população, que outrora
lutava bravamente por seus direitos e pelo progresso do seu País, tem interferido cada
vez menos nas decisões políticas que afetam a sociedade como um todo.

ACQUAVIVA, M. C. Teoria geral do Estado. 3 ed. Barueri: Manole, 2010.


BONAVIDES, P. Ciência política. 10 ed. São Paulo: Malheiros, 2000.
FILOMENO, J. G. B. Teoria geral do Estado e da Constituição. 10 ed. rev., atual. e ampl.
Rio de Janeiro: Forense, 2016.
RANIERI, N. B. S. Teoria do Estado: do Estado de Direito ao Estado Democrático de
Direito. Barueri: Manole, 2013.

Leituras recomendadas
ARAGÃO, M. J. Israel × Palestina: origens, história e atualidade do conflito. Rio de
Janeiro: Revan, 2006.
BALOGUN, H. A. Apartheid na África do Sul, a ascensão e queda do apartheid na África
do Sul. São Paulo: Edicon, 2011.
REIS FILHO, D. A. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de
1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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