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Publicado nos Estudos em homenagem ao Cons Artur Maurício, Presidente do

Tribunal Constitucional

Algumas reflexões sobre O contributo dos Julgados de Paz para a evolução da justiça
cível1

1. Todos temos notícia, mais ou menos documentada, da tradição secular da justiça de


paz, como justiça de proximidade com as populações e como justiça de conciliação entre
desavindos.
Mas um olhar mais atento sobre os julgados de paz, “renascidos” com a entrada em
vigor da Lei nº 78/2001, de 13 de Julho, após diversas vicissitudes2, mostra que eles são,
simultaneamente, herdeiros dessa tradição e motores da modernização do sistema
jurisdicional português. Assim resulta de apresentarem características que os tornam únicos,
pois proporcionam aos interessados uma “dupla modalidade” de resolução de litígios:
– a mediação, que se traduz, fundamentalmente, numa forma de resolução extra-
judicial (isto é, sem intervenção de juízes), privada (embora integrada num sistema público),
confidencial e informal de resolução de litígios, na qual as partes são auxiliadas por um
terceiro imparcial, o mediador, a encontrar por si mesmas a solução para o diferendo que as
separa,
– e a solução jurisdicional do litígio, alcançada mediante a intervenção do juiz – e,
ainda neste caso, seja por conciliação, seja após julgamento. Em qualquer destas duas
hipóteses, estimula-se nos julgados de paz a participação directa dos interessados e a
prossecução de acordos; e o processo desenhado para os atingir pauta-se pela simplicidade e

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Tive a honra de participar no 1º Congresso dos Juízes de Paz Portugueses, especialmente dedicado a analisar
“O contributo dos Julgados de Paz para a Evolução do Sistema de Justiça Português”, onde apresentei umas
breves reflexões sobre o tema. Procedi então, por entre o mais, à comparação entre as regras de processo
aplicáveis nos Julgados de Paz e o processo comum declarativo, então com três formas de processo distintas, às
quais acresce a acção especial para o cumprimento de obrigações pecuniárias decorrentes de contrato (Decreto-
Lei nº 269/98, de 1 de Setembro). A evolução entretanto verificada, com a entrada em vigor do Código de
Processo Civil de 2013, justifica um novo olhar sobre o assunto, tendo especialmente em conta o relevo
conferido aos princípios de simplificação e da adequação formal e a redução das formas de processo comum
declarativo.
É com a maior amizade e admiração pelo Senhor Conselheiro Artur Maurício, de quem tive o privilégio de ser
companheira durante os 9 anos em que nos encontrámos no Tribunal Constitucional, que lhe dedico essa nova
reflexão, em agradecimento de saudade.
2
O acórdão de uniformização de jurisprudência nº 11/2007, de 24 de Maio de 2007 (Diário da República, I, de
25 de Junho de 2007) relata essas vicissitudes.
2

adequação do formalismo, pela absoluta economia processual, pela oralidade e pela


cooperação.
Em tempos de revisão do sistema de justiça, por um lado pressionado simultaneamente
pelo constante aumento da procura dos tribunais pelos cidadãos e pelas empresas e pela
necessidade de racionalização de meios e de redução de custos, mas, por outro, consciente da
imperatividade da tutela do direito fundamental ao acesso ao direito e aos tribunais, suponho
que se justificaria procurar uma forma de articulação mais proveitosa entre os julgados de paz
e os tribunais judiciais, quer no que respeita ao recurso à mediação, quer relativamente à
conjugação das respectivas competências.
Será certamente útil um olhar mais atento ao funcionamento de um processo simples e
célere, como aquele que é aplicado nos julgamentos nos julgados de paz, acompanhando a
indispensável avaliação do impacto da aplicação do novo Código de Processo Civil,
expressamente empenhado na desformalização e na simplificação das acções cíveis.

2. O recurso aos habitualmente chamados Meios Alternativos de Resolução de Litígios


– a mediação, a conciliação e a arbitragem – tem vindo a ser apresentado como uma via
adequada de desconcentração dos tribunais estaduais. O próprio legislador assumiu também
essa vantagem e incentiva a sua utilização, de forma mais ou menos directa ou efectiva.
O objectivo da lei, aliás, não é apenas o de libertar os tribunais. Visa-se também
desenvolver meios menos contenciosos e mais negociados de solução de diferendos,
eventualmente seleccionando (ou não) áreas onde será provavelmente mais eficaz ou mais útil
essa forma de intervenção.

3. É manifesto que a necessidade de descongestionamento dos tribunais judiciais foi


um dos motivos que concretamente estiveram na origem da recriação dos julgados de paz, em
2001.
Instalaram-se então, a título experimental, quatro Julgados de Paz, nos concelhos de
Lisboa, Oliveira do Bairro, Seixal e Vila Nova de Gaia, com uma área de jurisdição que nem
sequer abrangia a totalidade das freguesias respectivas; hoje funcionam 25 Julgados de Paz,
que incluem na sua área de jurisdição 61 freguesias. E foi entretanto submetida a discussão
pública uma proposta de lei de alteração da Lei nº 78/2001, acompanhada de um Plano de
3

Desenvolvimento da Rede dos Julgados de Paz, assim se reconhecendo a valia da forma como
têm desempenhado a missão de que foram incumbidos.
Na sequência dessa iniciativa, veio a ser aprovada a Lei nº 54/2013, de 31 de Julho,
em vigor desde 1 de Setembro de 2013. Para além do mais, esta lei ampliou
significativamente a competência dos Julgados de Paz, sobretudo em razão do valor da causa
(que passou do valor da alçada da 1ª Instância, ou seja, € 5000,00, para € 15.000,00), e, em
alguma medida, da matéria, através das alterações introduzidas nas als. a) e e) do nº 1 do
artigo 9º da Lei nº 78/2001.
Entretanto, foi aprovado e entrou em vigor o Código de Processo Civil de 2013,
aprovado pela Lei nº 41/2013, de 26 de Junho; foi publicada a Lei nº 62/2013, de 26 de
Agosto (Lei da Organização do Sistema Judiciário), regulamentada pelo Decreto-Lei nº
49/2014, de 27 de Março, a entrar proximamente em vigor; e foi aprovada e entrou em vigor a
Lei nº 29/2013, de 19 de Abril (estabelece os princípios gerais aplicáveis à mediação realizada
em Portugal, bem como os regimes jurídicos da mediação civil e comercial, dos mediadores e
da mediação pública). Algumas das alterações introduzidas na Lei nº 78/2001 destinaram-se a
harmonizá-la com estes diplomas, reflectindo a integração dos julgados de paz no sistema
geral de administração da justiça e o resultado positivo da avaliação da experiência iniciada
em 2001.

Neste contexto, parece-me útil, neste momento, uma nova reflexão sobre três pontos:

– a mediação, enquanto forma de composição de conflitos e de descongestionamento


dos tribunais judiciais;
– a simplificação processual;
– o experimentalismo jurídico, referido especificamente ao problema da articulação
de competências entre tribunais judiciais e os julgados de paz.

4. A mediação, enquanto forma de composição de conflitos:


4.1. Os julgados de paz, herdeiros da justiça de proximidade (não só em sentido
geográfico, mas também pela forma de funcionamento), têm como objectivo legalmente
definido “permitir a participação cívica dos interessados” e “estimular a justa composição
dos litígios por acordo das partes” (artigo 2º da Lei nº 78/2001).
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A mediação traduz uma forma privilegiada de alcançar esse objectivo. Os julgados de


paz dispõem de serviços de mediação, cuja competência foi mesmo estendida pelo nº 3 do
artigo 16º da Lei nº 78/2001 para além do âmbito da competência material dos mesmos
tribunais, à intervenção em litígios que respeitem a direitos disponíveis, na versão inicial da
lei, de litígios “que possam ser objecto de mediação”, de acordo com a redacção introduzida
pela Lei nº 54/2013, que cumpre interpretar de acordo com o artigo 11º da Lei nº 29/2013, de
19 de Abril, já citada.
Em qualquer dos casos, a finalidade da mediação é proporcionar às partes as condições
que lhes permitam chegar a uma “solução negociada e amigável”, como se dizia no nº 1 do
artigo 35º da Lei nº 78/2001, hoje revogado.
Em teoria, podem distinguir-se vários graus de intervenção dos mediadores, que vão
desde a mera criação de diálogo entre os “desavindos” até à apresentação de propostas de
solução; caber-lhes-á adaptarem o seu papel às características das partes e do conflito que as
separa e que cumpre desfazer.
Os mediadores não têm certamente o poder de impor soluções (anterior nº 2 do artigo
35º, revogado; actual artigo 2º da Lei nº 29/2013), mas não estão impedidos de sugerir
alternativas, desde que mantenham sempre uma posição de total imparcialidade e actuem de
forma a que as partes sintam como sua a solução que vier a ser definida. Este último aspecto é
particularmente relevante quando se trata de conflitos desencadeados no âmbito de relações
duradouras, como são, para dar exemplos de áreas incluídas na competência dos Julgados de
Paz, as relações entre condóminos ou as relações de vizinhança.
Devem ainda procurar conduzir as negociações de forma a alcançar um acordo que
melhor e de forma mais útil e justa satisfaça as partes.

4.2. A mediação integrada no âmbito da competência dos julgados de paz é regulada


como uma “fase” ou “momento” do processo que neles se desenrola. Nesta perspectiva, a
intervenção dos mediadores ocorre quando estão explicitados os contornos do conflito (no
requerimento inicial e na contestação), mas obviamente antes da apresentação e produção de
prova e da intervenção do juiz.
No entanto, os mediadores não devem nortear-se pelo regime legal (substantivo)
abstractamente aplicável ao litígio, nem preocupar-se com uma eventual restrição a factos
oportunamente alegados na fase inicial do processo, ou com a contenção das negociações nos
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limites formais do litígio, tal como foi definido pelas partes no requerimento inicial e na
contestação.
Alcançado um acordo, que deve ser reduzido a escrito e assinado, o juiz de paz
procede à respectiva homologação. Cumpre-lhe então verificar se estão preenchidos os
requisitos indispensáveis para o efeito; desde logo, aqueles que o nº 3 do artigo 290º do actual
Código de Processo Civil exige para a homologação dos chamados negócios processuais
(capacidade e legitimidade substantiva das partes e idoneidade do objecto, quanto à
susceptibilidade de mediação). Mas o juiz de paz – que, recorde-se, não interveio
anteriormente no processo –, deve ainda assegurar-se de que o acordo não infringe os limites
impostos pelos artigos 280º e 281º do Código Civil (possibilidade física e legal do objecto e
do fim do acordo, determinabilidade do mesmo e não contrariedade à lei, à ordem pública ou
aos bons costumes; cfr. para a homologação não obrigatória de acordo obtido em mediação, o
nº 3 do artigo 14º da Lei nº 29/2013).
Não havendo acordo (ou sendo apenas parcial o acordo alcançado), o processo segue
para a audiência de julgamento (artigo 56º). Nessa hipótese, e para além da possibilidade de
haver confissão, desistência do pedido ou transacção, que terão de ser homologados nos
termos do citado artigo 290º do Código de Processo Civil, o conflito pode ainda ser resolvido
por acordo das partes, obtido através de conciliação promovida pelo juiz de paz (artigo 26º)3.
Neste ponto, todavia, o regime não se distancia muito do que em geral vale para os
litígios respeitantes a direitos disponíveis julgados nos tribunais judiciais segundo as regras do
Código de Processo Civil (cfr. artigos 591º, nº 1, a) para a audiência prévia, 594º para a
conciliação em geral e 604º, nº 2, para a audiência de discussão e julgamento).
Sempre se recorda, todavia, que a Lei nº 78/2001 prevê a audição directa das partes
pelo juiz (artigo 57º, nº 1) e impõe a sua presença na audiência de julgamento (artigo 58º, que
lembra o regime do processo sumaríssimo anterior à reforma de 1995). O processo nos
tribunais judiciais é diferente em relação a ambos os pontos, traduzindo a ideia de

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A Lei nº 54/2013, mantendo a possibilidade de decisão do litígio segundo critérios de equidade, se houver
acordo nas partes nesse sentido, veio alterar o limite máximo de valor das causas em que a possibilidade se
verifica: metade do valor da alçada do julgado de paz, nº 2 do artigo 26º. Na redacção anterior, o limite era o da
metade da alçada do tribunal de 1ª Instância. Aparentemente, reduziu-o a metade (cfr. n º 1 do artigo 62º).
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distanciamento das partes dos processos que lhes dizem respeito, em contraponto com a
lógica de aproximação, nos julgados de paz4.

4.3. Como se disse já, podem ainda ser realizadas nos julgados de paz mediações em
questões estranhas à sua competência. Nesse caso, não é ao juiz de paz que compete
homologar acordos eventualmente alcançados, se for caso disso.
Dentro da perspectiva que especialmente nos interessa, a da articulação entre os
julgados de paz e a justiça cível, cumpre recordar que o nº 3 do artigo 16º da Lei nº 78/2001
(que prevê esta possibilidade de mediação) tem de ser conjugado com a Lei nº 29/2013, de
cujas disposições se salientam as que respeitam à mediação pré-judicial (artigo 13º), aos
efeitos da propositura de uma acção em desrespeito de uma convenção de mediação válida
(artigo 14º), e às regras aplicáveis à homologação (artigos 14º e 45º), e com o Código de
Processo Civil, em particular com os seus (actuais) artigos 273º (remessa do processo para
mediação e suspensão da instância) e 533º, nº 4 (custas de parte)
Valiam anteriormente, além do artigo 447º-D nº4, os artigos 249º-A a 249º-C do
(então) Código de Processo Civil, quanto à mediação pré-judicial, e o artigo 279º-A, relativo
ao recurso à mediação na pendência de um processo, determinada pelo juiz ou decidida pelas
partes. A Portaria nº 203/2011, de 20 de Maio, definia quais eram os sistemas de mediação
pré-judicial cuja utilização suspendia o prazo de caducidade e de prescrição e quais eram os
sistemas de mediação judicial que suspendiam a instância; foi revogada pela Lei nº 29/2013,
tal como os citados artigos 249º-A a 249º-C).
Tratava-se, como se sabe, de preceitos aditados ao Código de Processo Civil pelo
Decreto-Lei nº 29/2009, de 29 de Junho, com o objectivo de transposição da Directiva
2008/52/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Maio de 2008, “relativa a certos
aspectos da mediação em matéria civil e comercial” (JO L 136 de 24.5.2008), objectivo
agora preenchido com a aprovação da Lei nº 29/2013.

4.4. Suponho que merecem particular atenção os pontos seguintes:


– Efeitos da instauração de uma acção num tribunal judicial, não obstante existir uma
convenção de mediação válida e eficaz, nos termos do artigo 12º da Lei nº 29/2013: trata-se

4
O Código de Processo Civil de 2013 manteve o poder genérico do juiz de pedir esclarecimentos às partes,
artigo 7º, nº 2; e veio prever o direito das partes a requerer a sua audição, introduzindo a prova por declarações
de parte, artigo 466º; mas trata-se de regimes distintos, com é bom de ver.
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de uma excepção dilatória inominada que carece de ser suscitada pelo réu até à contestação
(nº 4 do artigo 13º), cujo efeito é o da suspensão da instância e da remessa do processo para
mediação. Frustrando-se a mediação, o processo continua; “alcançando-se acordo na
mediação”, deverá o mesmo ser remetido a tribunal para homologação (nº 4 do artigo 273º do
Código de Processo Civil e artigos 14º e 45º da Lei nº 29/2013). O mesmo sucederá se um
processo pendente for suspenso para mediação, seja por iniciativa do juiz, seja por acordo das
partes (mesmo artigo 273º);
– O recurso à mediação pré-judicial suspende eventuais prazos de caducidade e de
prescrição que estejam a correr (artigo 13º da Lei nº 29/2013);
– O autor que instaure uma acção num tribunal judicial, podendo recorrer a uma
“estrutura de resolução alternativa de litígios” identificada na portaria a que se refere o nº 5
do artigo 533º do Código de Processo Civil, ainda não publicada, suporta as custas de parte
ainda que vença a acção, salvo se o réu tiver inviabilizado o recurso a essas estruturas (nº 4 do
artigo 533º do Código de Processo Civil). Não me parece muito simples a interpretação deste
preceito, manifestamente desenhado (como o anterior nº 4 do artigo 447º-D) como incentivo;
– O acordo de mediação tem força executiva, nas condições previstas no artigo 9º da
Lei nº 29/2013.

4.5. Em qualquer dos casos, o recurso à mediação é voluntário, mesmo quando tenha
sido judicialmente determinada a remessa para mediação num processo pendente,
suspendendo-se a instância (nº 1 do artigo 273º do Código de Processo Civil).
Tem-se suscitado a questão de saber se um regime de mediação obrigatória
contrariaria o direito fundamental ao acesso ao direito e aos tribunais, constitucionalmente
tutelado (artigo 20º da Constituição). Creio que, tal como sucede quanto à arbitragem
necessária, a resposta dependerá do regime concretamente definido, nomeadamente quanto a
saber se o acesso ao tribunal se tornaria impossível ou desproporcionadamente oneroso ou
desvantajoso e se o motivo da obrigatoriedade do recurso à mediação era material e
suficientemente justificado.

4.6. A mediação ocupa um lugar central no desenho legal dos julgados de paz. Não
sendo obrigatória, corresponde no entanto a um momento normal do processamento das
questões submetidas à sua apreciação, justificando a assunção de que a selecção das matérias
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da competência dos julgados de paz (nº 1 do artigo 9º e nº 1 do artigo 11º, quanto à acção de
divisão de coisa comum) foi elaborada na perspectiva da escolha de questões, não só relativas
a direitos disponíveis, mas também adequadas à mediação (ou seja, relativamente às quais se
afigura provável que a mediação produza efeito). É aliás a interpretação que melhor respeita o
objectivo enunciado no artigo 2º da Lei nº 78/2001, de “estimular a justa composição dos
litígios por acordo das partes”.
É certo que os julgados de paz só são competentes para as acções ali relacionadas
desde que o valor da causa não seja superior a € 15.000,005 (anteriormente à Lei nº 54/2013, €
5.000,00, como se disse).
E é igualmente certo que o grau de adequação ou de probabilidade de êxito da
mediação não é o mesmo em todos os casos contemplados no nº 1 do artigo 9º e no nº 1 do
artigo 11º. Nuns casos, por exemplo, trata-se de situações que pressupõem a existência de
uma relação duradoura entre as partes, cujo entendimento interessa preservar (condomínio,
vizinhança…), como atrás se referiu; noutras, há apenas um conflito a ultrapassar, de forma
tão célere e eficaz quanto possível.
No projecto de alteração à Lei nº 78/2001 propunha-se uma forma de delimitação da
competência material dos julgados de paz que não veio a ser consagrada. O texto (então)
proposto para o artigo 9º, em vez de conter uma lista positiva de competências, conferia aos
Julgados de Paz competência para “apreciar e decidir todas as acções cíveis”, definindo
embora algumas excepções.
Deslocava-se assim para o valor o critério determinante da delimitação da competência
dos julgados de paz, quebrando aquela relação de adequação e transformando-os em tribunais
de pequenas causas. A redacção que veio a ser aprovada manteve o critério, ampliando apenas
ligeiramente o âmbito material das acções que ali podem ser decididas.

4.7. Para além da mediação, a Lei dos Julgados de Paz prevê ainda a resolução do
conflito através de conciliação, promovida pelo juiz. Tal como na conciliação tratada no
Código de Processo Civil, o Juiz de Paz deverá ter em vista predominantemente uma solução
de equidade e não tanto de direito estrito; note-se que para a conciliação não vale o limite

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Note-se que foi escolhido para determinar a competência dos julgados de pás em razão do valor, o montante
máximo que pode ser pedido nas acções declarativas especiais para cumprimento de obrigações pecuniárias
decorrentes de contrato (artigo 1º do Decreto-Lei nº 269/98, de 1 de Setembro, na redacção resultante do
Decreto-Lei nº 303/2007, de 24 de Agosto)
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imposto pelo nº 2 do artigo 26º para o julgamento, pelo juiz paz, segundo critérios de
equidade.

5. A Simplificação processual.
5.1. Confrontado genericamente com os princípios e a tramitação do processo comum
regulado no Código de Processo Civil, deixando agora de lado a fase da pré-mediação e da
mediação, naturalmente, verifica-se que o processo que decorre perante os julgados de paz é
mais simples e menos formalizado, conseguindo combinar a participação dos interessados na
discussão e na solução do litígio com um tempo curto de decisão. É, aliás, altamente provável
que, ao seleccionar as acções incluídas nos artigos 9º, nº 1 e 11º, nº 1, o legislador as tenha
escolhido por considerar não corresponderem, por via de regra, a acções de grande
complexidade, seguindo um critério de selecção já utilizado para a definição dos objectos
possíveis das acções declarativas comuns que, até à entrada em vigor do Código de Processo
Civil de 2013, seguiam a tramitação do processo sumaríssimo.
Recordo, a propósito, que a proposta de alteração da Lei nº 78/2001 ampliava a
competência material dos Julgados de Paz, mas também tornava mais complexo o
processamento. Algumas inovações ali previstas foram incluídas na lei, com as alterações de
2013. Refiro-me, nomeadamente, ao alargamento da competência para conhecer de incidentes
(artigo 41º), para decretar providências cautelares (artigo 41º-A) ou para julgar pedidos
reconvencionais6 7.
É claro que só é útil comparar o que é comparável. Assim, vou tomar como
contraponto as regras processuais aplicáveis às acções declarativas destinadas à apreciação de
litígios que versam sobre objectos abrangidos pela competência dos julgados de paz, em razão
do valor e da matéria. Mas esta observação não impede, naturalmente, a ponderação da

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Não me parece muito clara a referência a “alçada do julgado de paz”, utilizada pelo nº 2 do artigo 48º da Lei nº
78/2001 em consequência de aditamento introduzido neste artigo pela Lei nº 54/2013. Se por alçada se entende o
valor dentro do qual o julgado de paz julga sem recurso ordinário, então esse valor será de € 2.500,00 (metade da
alçada da 1ª Instância), nos termos do artigo 62º da Lei nº 78/2001. Admito que o nº 2 do artigo 48º queira antes
referir-se ao limite da competência em razão do valor, que o artigo 8º da Lei fixa em € 15.000,00; a não ser
assim, não teria sentido a inovação, pois afinal traduzir-se-ia numa redução da admissibilidade da reconvenção,
quando a intenção parece ter sido a de a admitir mesmo quando a soma do valor pedido do autor e do pedido
reconvencional exceda o limite de competência dos julgados de paz, desde que a reconvenção, em si mesma
considerada, o não ultrapasse.
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Suponho que o nº 2 do artigo 48º tem de ser conjugado com os artigos 299º, nº 2 e 530º, nº 3, do Código de
Processo Civil: em caso de reconvenção para opor a compensação de créditos, não se soma o valor do
contracrédito do réu a não ser na parte em que eventualmente exceder o crédito do autor.
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eventual vantagem de uma maior ou menor generalização das regras de processo aplicadas
pelos Julgados de Paz, mesmo para além daqueles limites.
Vou assim confrontar sucintamente as regras do processo nos Julgados de Paz:
– com o processo declarativo comum cujo valor não exceda metade da alçada da
Relação (€ 15.000,00) ou a alçada da comarca (€ 5.000,00) 8;
– com as acções especiais para cumprimento de obrigações pecuniárias decorrentes de
contrato, reguladas pelo Decreto-Lei nº 269/98, de 1 de Setembro (cuja utilização era
expressamente facultativa, até à entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2013 –
artigo 449º, nº 2, c) do anterior Código de Processo Civil); mas não com o processo de
injunção, que se não destina a julgar litígios mas antes a obter um título executivo.

5.2. Basicamente, podemos distinguir três fases na tramitação do processo aplicável


nos Julgados de Paz:
– A fase inicial, funcionalmente destinada à apresentação do litígio pelo demandante e
à contestação pelo demandado, e que comporta uma resposta do demandante, se tiver havido
reconvenção (de âmbito muito limitado, quando o demandado pretender opor a compensação
de créditos ou “tornar efectivo o direito a benfeitorias ou despesas relativas à coisa cuja
entrega lhe é pedida”– nº 1 do artigo 48º da Lei nº 78/2001)9.
A especificidade mais significativa desta fase reside na possibilidade de os
requerimentos serem apresentados oralmente e reduzidos a escrito, em formulário próprio,
“na secretaria do julgado de paz” (artigo 43º);
– A fase da pré-mediação e da mediação, que agora não considero;
– A fase da audiência de julgamento, que, tal como no anterior processo sumaríssimo e
na acção especial, concentra a instrução, a discussão e o julgamento propriamente dito (por
conciliação ou por decisão do juiz, segundo a lei ou a equidade, nos termos enunciados no
artigo 26º, como se viu).

5.3. Com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2013, deixaram de existir
três formas de processo declarativo comum (ordinário, sumário e sumaríssimo),

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No domínio do anterior Código de Processo Civil, o confronto devia ser estabelecido com as formas de
processo declarativo comum sumário e sumaríssimo.
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Não foi acolhida a sugestão da proposta de alteração da Lei nº 78/2001, que ampliava a admissibilidade de
reconvenção aos casos em que o Código de Processo Civil anterior a admitia para as acções sumárias e
sumaríssimas, e que era coerente com a delimitação da competência dos Julgados de Paz que ali se propunha
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reciprocamente delimitadas em função do valor da causa e do respectivo objecto. O seu artigo


548º prevê uma única forma de processo, dentro das acções declarativas comuns; mas
realidade é mais complexa. Assim:
– Este artigo 548º tem de ser conjugado com o procedimento especial para o
cumprimento de obrigações pecuniárias decorrentes de contrato, cuja tramitação muito
simplificada se aproxima das regras do processo sumaríssimo anterior à reforma de
1995/1996; pense-se, por exemplo, no efeito da falta de contestação. O legislador de 2013
optou por não o incluir no Código de Processo Civil e por não esclarecer o seu carácter
obrigatório ou facultativo. Seja como for, há evidentemente uma sobreposição de regimes,
potencialmente aplicáveis a acções com o mesmo objecto e o mesmo valor;
– Têm igualmente de ser tidos em conta certos aligeiramentos de tramitação, previstos
genericamente para as acções declarativas comuns de valor não superior a metade da alçada
da Relação (cfr. artigo 597º, relativo à realização de audiência prévia) e para acções
declarativas comuns de valor não superior à alçada da comarca (cfr. o nº 1 do artigo 511º,
quanto ao número de testemunhas e o nº 5 do artigo 604º, respeitante às alegações orais, na
audiência de julgamento);
– A previsão de uma única forma de processo, com ou sem os aligeiramentos
indicados, tem sobretudo que ser conjugada com os princípios da adequação formal (artigo
547º do Código de Processo Civil) e da gestão processual (artigo 6º do mesmo Código), que
permitem ao juiz, casuisticamente, definir a tramitação a seguir, adequando em concreto a
sequência, o conteúdo e a forma dos actos a praticar.
Em termos gerais, o Código de Processo Civil de 2013 desenha um modelo de
tramitação que fundamentalmente prevê que, após a fase dos articulados, o processo se
organize em torno de duas audiências, uma preparatória e outra de instrução, seguindo-se a
sentença (que julga a matéria de facto e de direito). Isto não significa que não possam
continuar a distinguir-se, funcionalmente, as tradicionais cinco fases dos processos ordinários
e sumários; a sequência das mesmas e a forma como se desenvolvem é que pode variar, em
resultado do funcionamento dos princípios da adequação formal e da gestão processual.

5.4. Do confronto entre o processo nos Julgados de Paz e a acção especial para o
cumprimento de obrigações pecuniárias decorrentes de contrato resulta que, em ambos os
casos, o processamento se limita ao que é verdadeiramente indispensável num processo
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jurisdicional: a definição do litígio (o pedido e a defesa), a produção de prova e o julgamento.


Nas acções comuns, que pelo valor e pelo objecto poderiam ser decididas nos julgados de paz,
o processamento poderá ser mais ou menos complexo, conforme a opção concreta do juiz.
De qualquer modo, da comparação entre o processamento nos julgados de paz e o
modelo legalmente previsto para os procedimentos especiais para cumprimento de obrigações
pecuniárias decorrentes de contrato e para as acções de processo comum acabadas de referir,
saliento:
– a aproximação quanto ao número de articulados previstos, embora o procedimento
especial não admita articulado de resposta à contestação, pois a reconvenção não é possível;
– a comparência pessoal dos interessados na audiência e a consequente possibilidade
da sua audição pelo juiz de paz, fora das limitações resultantes do condicionalismo e do
formalismo do depoimento de parte e da prova por declarações de parte;
– o efeito das faltas das partes na audiência nos julgados de paz, manifestamente
inspirado no processo sumaríssimo anterior à reforma de 1995/1996. O ónus assim criado
revela que a lei não considera aceitável o seu alheamento;
– nos julgados de paz e no procedimento especial, a apresentação dos meios
probatórios é feita na audiência, o que tem a vantagem da concentração, mas os
inconvenientes resultantes da eventual necessidade de tempo para os analisar;
– a actual admissibilidade de prova pericial, nos julgados de paz. No entanto, sendo
requerida, deve remeter-se o processo ao tribunal de 1ª instância, competente para a respectiva
produção (artigo 59º, nº 3, da Lei nº 78/2001, na redacção de 2013);
– os julgados de paz passaram a ser competentes para o conhecimento de incidentes
(artigo 41º). Na versão inicial da Lei nº 78/2001, requerida a prova pericial ou deduzido um
incidente, cessava a competência dos julgados de paz (anteriores nº 3 do artigo 59º e artigo
41º).
Pese embora a aproximação das regras, suponho que não se justificará a existência de
diferentes processamentos para apreciar processos que abstractamente caibam,
simultaneamente, na competência dos julgados de paz e no âmbito do processo declarativo
comum ou da acção especial para o cumprimento de obrigações pecuniárias decorrentes de
contrato. Ainda que os julgados de paz venham ser contemplados na portaria prevista no nº 5
do artigo 533º do Código de Processo Civil, a que se fez já referência, não creio que seja
13

suficiente o incentivo assim conferido, que apenas exprimirá uma preferência do legislador,
para que a duplicação possa ser desconsiderada10.

6. – O experimentalismo jurídico e a articulação de competências entre tribunais


judiciais e os julgados de paz).
6.1. Não vem agora ao caso aprofundar a questão da legitimidade e dos limites do
experimentalismo jurídico, nomeadamente na área da justiça. Suponho que, desde que seja
racionalmente justificado e não assente em pressupostos arbitrários, deve ter-se como
admissível e útil, posto que seja devidamente avaliado o impacto produzido11.
Ainda hoje coexistem dois sistemas organizativos diferentes nos tribunais judiciais, o
que resulta da Lei nº 3/99, de 13 de Janeiro, e o da Lei nº 52/2008, de 28 de Agosto; a
uniformização resultará da efectiva entrada em vigor e em funcionamento da Lei nº 62/2013,
de 26 de Agosto (Lei da Organização do Sistema Judiciário), que se prevê seja simultânea
para todo o território nacional, em aparente abandono do modo da execução parcelar e
experimental que tem vindo a ser seguido.
O Código de Processo Civil de 2013, confessadamente inspirado nos resultados de
aplicação do processo experimental, revogou o Decreto-Lei nº 108/2006 (artigo 4º da Lei nº
41/2013, de 26 de Junho), generalizando o princípio da gestão processual ali ensaiado. A
necessária avaliação do impacto da sua aplicação demonstrará se a experimentação assim
generalizada atingiu ou não os objectivos pretendidos.

6.2. Também foi experimental a recriação de 2001 dos Julgados de Paz. Aqui, o êxito
da sua introdução gradual no sistema português de justiça, espelhado nos relatórios da
Comissão de Acompanhamento dos Julgados de Paz e comprovado pelo progressivo
alargamento da área geográfica abrangida e pelo recente alargamento das suas competências,
permite considerar consolidada a experiência iniciada em 2001 e sugerir:
– Uma efectiva articulação entre a rede dos julgados de paz e a organização dos
tribunais judiciais e das respectivas competências, como forma de garantir uma justiça mais

10
Repete-se que desapareceu deste incentivo o procedimento especial para o cumprimento de obrigações
pecuniárias decorrentes de contrato.
11
Veja-se, a propósito da aplicação territorialmente delimitada das regras do processo experimental, aprovado
pelo Decreto-Lei nº 108/2006, de 8 de Junho, o acórdão nº 69/2008 do Tribunal Constitucional. Questionava-se
então a compatibilidade entre o princípio da igualdade e a coexistência na ordem jurídica nacional de regimes
processuais significativamente diferentes, cuja aplicabilidade dependia, apenas, da localização geográfica dos
litígios correspondentes (disponível em www.tribunalconstitucional.pt).
14

próxima quando a proximidade é realmente importante e mais pronta quando um formalismo


mais simples não compromete a segurança da decisão e, portanto, dos direitos das partes;
– Uma efectiva harmonia entre as leis de Processo Civil e o processo nos julgados de
Paz. Recorde-se uma vez mais que há áreas de competência conexas ou (eventualmente)
sobrepostas.

6.3. Como se sabe, foi aprovado pelo Supremo Tribunal de Justiça, em 24 de Maio de
2007, o Acórdão de Uniformização de Jurisprudência nº 11/2007, que fixou jurisprudência no
sentido de que “No actual quadro jurídico, a competência material dos julgados de paz para
apreciar e decidir as acções previstas no art. 9º, nº 1, da Lei nº 78/2001, de 13/7, é
alternativa relativamente aos tribunais judiciais de competência territorial concorrente”.
Pesem embora as alterações que a Lei nº 54/2013 introduziu na Lei nº 78/2001, o
legislador optou por silenciar a questão na própria Lei; mas, no nº 1 do artigo 151º da Lei nº
62/2013, de 26 de Agosto, revela a opção pela manutenção da concorrência de competências
na designação dos Julgados de Paz como “uma forma alternativa de resolução de litígios”.
Não é certo, disse-se já, que entre as “estruturas de resolução alternativa de litígios”
a que se refere o nº 4 do artigo 533º do Código de Processo Civil se incluam os Julgados de
Paz. Não é pois ainda seguro se o legislador virá ou não a demonstrar a sua preferência pelo
recurso a estes tribunais, por confronto com os tribunais judiciais, nas áreas de competências
sobrepostas; mas, se assim for, cumprirá interpretar cuidadosamente os pressupostos de
aplicação do regime ali previsto, que não serão muito claros.
Em qualquer caso, suponho que merecerá ponderação a manutenção de sistemas
públicos de julgamento concorrentes para as mesmas matérias, quer no que se refere à escolha
dos tribunais competentes, quer no que respeita ao formalismo a seguir para as acções
propostas.

_____________

Bibliografia específica utilizada:

– J. O. Cardona Ferreira, Julgados de Paz, 5ª ed., Coimbra. 2014


15

O Direito Fundamental à Justiça, um novo paradigma de justiça? in


Julgar, nº 7, 2009, pág. 51 e segs;
Sistemas de Justiça e Mediação, in Themis, ano VI.11, 2005, pág.
189 segs;
Meios Alternativos de Resolução de Diferendos (ou de litígios ou de
conflitos), in Lusíada, série II, nº 3 (2005), pág. 189 e segs.

– José Lebre de Freitas, A recriação dos Julgados de Paz, Fórum Iustitiæ, Direito e Sociedade,
ano II, nº 14, Agosto de 2000, pág. 17 e segs.

– Miguel Teixeira de Sousa, A competência dos Julgados de Paz: a alternativa consensual,


anot. ao Acórdão de Uniformização de Jurisprudência nº 11/2007, de 24 de Maio de 2007, in
Cadernos de Direito Privado, nº 22, Abril/Junho 2008, pág. 43 e segs.

– Paula Costa e Silva, A Nova Face da Justiça, Os meios extrajudiciais de resolução de


controvérsias, Coimbra 2009
De minimis non curat prætor. O acesso ao sistema judicial e os
meios alternativos de resolução de controvérsias: alternatividade efectiva e
complementaridade, in O Direito, ano 140º (2008), IV, pág. 735 e segs.

– Mariana França Gouveia, Curso de Resolução Alternativa de Litígios, Coimbra, 2011,


Mediação e Processo Civil, in Cadernos de Direito Privado,
número especial 01/Dezembro 2010, pág. 24 e segs.

– Associação dos Juízes de Paz Portugueses, Sugestões para a alteração da Lei nº 78/2001, de
13 de Julho (Lei dos Julgados de Paz). Comentários ao Projecto de Proposta da referida Lei
enviada pelo Governo da República em Agosto de 2011.
16

– Elizabeth Fernandez, Um Juiz de Paz para a Paz dos Juízes (?), Breve análise das
competências e do funcionamento dos Julgados de Paz: perspectiva crítica, in Cadernos de
Direito Privado, nº 15, Julho/Setembro 2006, pág. 15 e segs.

– Joel Timóteo Ramos Pereira, Julgados de Paz – Organização, Trâmites e Formulários, 3ª ed.
Coimbra, 2005

– Relatórios do Conselho dos Julgados de Paz, em www.conselhodos julgados de paz.com.pt

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