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Lisboa, 15 de Outubro.

Querida Marta,

Há muito tempo que naõ escrevo, porque tenho andado ocupadíssima com as coisas da
escola: aulas, teatro, associação de estudantes, e ainda o básquete. Por falar em básquete,
ontem, no treino, caí e torci um pé. Doía que se fartava, de maneira que, como nestas coisas
só confio no meu pai, fui ao consultório, sem avisar nem nada. Quando entrei, a Lisete,
sempre simpática, gostou imenso de me ver e disse-me que o meu pai não devia demorar.
Qual quê! Esperei três quartos de hora. Estava quase a ir-me embora quando ele apareceu na
recepção e me olhou como se eu fosse a mulher -aranha ou coisa parecida. Perguntou-me que
fazia eu ali àquela hora e, depois de lhe contar o sucedido, lá me mandou entrar para o
gabinete. Viu-me o pé, pôs-me uma pomada, ligou-o e disse que eu estava fina. No entanto,
achou que eu não podia ir aos treinos durante uma semana. Que seca!

Em cima da secretária, lá estava a moldura que eu lhe ofereci nos anos, com urna fotografia
da minha maẽ , do tempo em que ela tinha o cabelo só de uma cor... Uma autêntica reliq́ uia
que eu nem conhecia. Subitamente, arrependi-me de naõ lhe ter dado a minha fotografia
̃ lhe disse nada. Como me viu a olhar para a moldura, sorriu e disse:
tirada na praia, mas nao
"Foi uma bela ideia, filha. A outra que eu cá tinha partiu- se." Fiz também um sorriso que
agora naõ sei definir e perguntei-lhe se ia jantar. Que sim, mas tarde, lá para as dez. Já era de
esperar. Despedi-me e, quando ia a sair, chamou-me: "Espera aí. Que cara é essa? Sabes
perfeitamente que eu tenho muito que fazer, Joana. Por mim, claro que ia para casa mais
cedo, filha. Tomara eu ter tempo para jantar com a famiĺ ia!” Naõ acreditei, mas voltei a sorrir,
porque não tinha nada para dizer. E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas,
como por exemplo para tapar buracos que aparecem quando o mar das palavras se transforma
em deserto. (...)

Porque é que não estás aqui comigo, Marta?! Acho que vou hibernar para o Havai, este
Inverno. Um beijo da Joana

Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana, Verbo Editora

Maria Teresa Maia Gonzalez (Coimbra, 1958) - Professora de Li ́ngua Portuguesa durante vários anos, as

experiências que viveu em contacto com as mais jovens serviram, e continuam a servir, de pano de fundo à
maior parte das suas obras, destinadas a um público juvenil. É o caso de Gaspar & Mariana, O Guarda da Praia, A

Lua de Joana, A Cruz Vazia, Ricardo, o Radical, entre muitas outras.

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1. Atenta na fórmula introdutória da carta.

1.1. Partindo dela, determina a proximidade existente entre emissor e receptor. 1.2. Procura no texto

outras marcas que comprovem a tua resposta.

COMPREENSÃ O

2. Delimita no corpo da carta a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, fundamentando a


divisão que efectuares.
3. Resume os acontecimentos da vida da narradora que suscitaram a escrita da carta.

1. 3.1. Partindo do relato desses acontecimentos, caracteriza a relação de Joana com o pai.
2. 3.2. Sugere quatro adjectivos que te permitam elaborar um breve retrato do pai de Joana,
conforme e apresentado

no texto.

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4. Explica de que forma a pontuação e o registo de li ́ngua familiar usados ao longo da carta denotam
o seu carácter subjectivo.

5. Recorda o diálogo entre Joana e o pai, transcrito nas linhas 22 a 26.

5.1. Identifica os modos de relato de discurso utilizados em cada uma das passagens:

1. "Foi uma bela ideia, filha. A outra que eu cá tinha partiu-se.";

2. "(...) perguntei-lhe se ia jantar.";

3. "Que sim, mas tarde, lá para as dez.".

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____________ __ACTIVIDADE DE EXPRESSÃ O ESCRITA

1. Em determinado momento da carta que leste, a narradora afirma:

"E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas, como par exemplo para tapar buracos que

aparecem quando o mar das palavras se transforma em deserta. "

1.1. Recorrendo à s tuas próprias vivências, elabora um texto, de oitenta a cem palavras, no qual

descrevas uma situação em que o sorriso te serviu para "tapar buracos" deixados pela comunicação

verbal.