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Luis de La Palma

A PAIXAO DO SENHOR
A obra A Paixão do Senhor, escrita no século
XVII, é um dos grandes clássicos da
espiritualidade cristã. Livro de cabeceira de grandes
santos, talvez o maior relato da Paixão de Cristo de
todos os tempos.
Seu autor, Pe. Luis De La Palma, retrata com
maestria e impressionante interioridade os
momentos finais da vida terrena de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Demonstra como o Senhor,
verdadeiro Deus, viveu em sua Humanidade
Santíssima o sacrifício redentor para nossa salvação.
Essa obra é imprescindível para todos aqueles
que desejam meditar na Passio Domini, para aqueles
que queiram viver junto com o Senhor o mistério de
sua entrega redentora por nós.

Padre Luis de la Palma nasceu em Toledo, Espanha em


1560. Entrou na Companhia de Jesus com quinze anos -
escreveu A Paixão do Senhor aos sessenta e quatro anos.
Apôs uma vida fecunda e extensos trabalhos na Companhia,
onde exerceu vários cargos de governo, morreu em Madri em
1641.
ÍNDICE

APRESENTAÇÃO . ...... . ...... .. .


.. ... . .
.. ....... . ... . .... . .............. 9
Passio Domini .. .......... . . . ..... . . . . . . . .. ...... . ............ . . . .... 9

PREFÁCIO .. ........... . . ............... . . .. . . . . . . . .................. . . . . 11

Após a ressurreição de Lázaro . . . . . . ........ . . . . .... ... .... 11


Domingo de Ra mos a Quarta-Feira Sa nta . . . . . . . . . . . . . 14
O Conselho reunido contra o Sen hor ........ . .... . ...... 19

QUINTA-FEIRA SANTA

Jesus chega a Jerusalém para celebra r a Páscoa . 23 ..

O Senhor lava os pés dos a póstolos . .. 26 ... ..............

O Sen hor i n stitui o Sacramento da Eucaristia ........ 28


Jesus revela a João quem é o tra idor ............. .... . 32
.

Jesus despede-se de sua Mãe . . . . . ... ... .. . . ....... ... . . 34


. .

O Senhor cam i n ha para o Horto das Oliveiras ...... . 39.

O Senhor busca a consolação em seus d iscípu los .. 4 2


A tristeza d e Jesus Cristo .... . .... . .
. ... . ..... . ....... . . . 44
.. ..

O valor infin ito de sua doação . . 48


..... ... ...................

A oração no Horto ................... ........................... 53


.

Gotas de Sangue . .. ....... ............ . ......... .. .............. 56

5
Jesus é preso . . ...... . ... ... . 58
. . .. ... ..... . . . . . ............ . . . .....

O Senhor é entreg ue a o s pontífices . . . . .... . . . .... . . . . . . 6 4


O Senhor é con denado .... . . . . ...... . . . . . . .. . . . . . .. . . . . . .. . . . 70
A s negações de Pedro . . . .. . . . ... . ..... . . . .... . .. . . .. . . . . . .. . . 74
Cristo padeceu por amor aos homens . .. . . . . . ... . . . .... 82

SEXTA-FEIRA SANTA

Jesus é entreg ue a Pilatos . . . . . . . . . . ....... . . . . . . . . . . . . . . . . . 94


Judas enforca-se .... . .... . . . . . . .. . .. . .. . . . . . . .......... . ...... .. 95
Jesus diante d e Pilatos . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. .. 99
Jesus é levado a Herodes ........ . .
.. .. . .. . ................ 107
Pi latos n ovamente julga Jesus i n ocente . .. ....... . .. 1 1 2
.

Jesus é preterido a Barrabás ..... . ....... . . . . . . . .. . . . .. ... 1 14


Pilatos manda açoita r J esus . ....... . .... . . . . ...... . ....... 117
Os soldados u ltrajam J esus . . ....... .. . .. . . .. . ..... ........ 122
Ecce Homo ! ............ . .. ..... . ... . . ... . .... . ...... . . . . . . . . . . . ... 1 29
Pilatos conversa outra vez com Jesus . . .... . ... . ...... . 1 34
Jesus é condenado à morte . . ............. . ..... ......... . 139
.

Jesus carrega a cruz . . . . . . . . .... . . .. . .. . . . . . . . .. . . . . .. . ....... 145


Jesus encontra s u a M ã e . .. . .. . . . ... . . . . . . . . . .. . . . .. . . . . .. . .. 151
O Calvário ... . . . . . . . .... . ........ . . . . ...... . . .. . . . . . . . . ... ......... 1 54
A crucificação do Senhor ............ .. ........ .. . .. . . . . . .. .. . 156
Jesus é crucificado entre dois lad rões . . . . .. . . ... ....... 1 59
Os judeus e os romanos .. . .. ...... .. ...... ... .. . ... . . . . . ... 1 64
escarnecem de Jesus . . .. . . . . . . . . . . . .. . .. . .. . . . . . .. . . .. . . .. . . . 1 64
O exemplo da cruz ........ . .. . . . .. .... . .. . . . . . . . . . ...... . . ..... 1 68

6
Jesus diante do Pai . ...... . . . . . ....... . . . .. ........... . .... . . . . 174
Pa i , perdoa-lhes . . . .. . . . . . . . ... . . . . . . ..... . . . . . . . . ..... . .. . .. . . . 175
Hoje estarás comigo n o paraíso . ... . . . . . .. . . . ... . .. . .. . . . 177
As trevas cobriram toda a terra . . . . . . ... . . . . . . . . . .. . . . . . . 1 80
A Virgem Ma ria se a proxima da cruz . . . . .. . . . . .. ........ 181
Eis a í tua mãe .... ... . .... . . . . .. . ... . . .. ... . ..... . . ... .. . .. . . . . . . 1 84
Jesus morreu por cada um de nós 187 .... .......... .. . .. .. . .

M e u Deus, m e u Deus, por q u e m e a bandonaste? . 1 88


Ten h o sede ....... . .. . . .... . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ....... 195
Tudo está consumado . .. . .. . . .. . . . .. ... . . ... .. .. .. .... . ... ... 197
Pa i , nas tuas mãos entrego o meu espírito . . . . ..... . 203
Após a morte do Senhor .. . .. . . . . . .. . . . . . .. . . . ........ ....... 207
Abriu-lhe o lado com uma lança . . .. . . . .. . . .. . . .. . . .. . ... . . 213
Jorrou sangue e água . . . . .. . . .. . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .... . . . .. . . 217
Jesus é tirado da cruz . . . .. . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . .... . . . .... .. . 22 1
Jesus é sepultado ......... . .... .... .. . . . . . . . ............. ...... 226
Jesus desce à mansão dos mortos . ............. .... .. .. 23 1

SÁBADO SANTO

A Virgem Maria espera a ressurreição . . ... . . . . . . . . . .. . . 2 38

7
t\.f. �·J.?. § �_T..!\_Ç�º-
.................. .......... . ............. ... ............... ............................................. .. .. ..

PASS/0 DOM/N/

Este clássico da esp i ritua lidade cristã de a utoria do Pe.


L u i s de La P a l m a (o e s c rito o ri g i n a l d a ta de 1624 ),
atravessa os tempos conservando a capacidade d e levar­
nos a merg u l h a r na e ntrega de Jesus por nós, ati n g i n d o
u m a c o m p re e n s ã o m a i s p rofu n d a e o b j e t i v a d e s t e
Sa ntíssimo M istério, q u e i m pulsiona à conversão.
Certo é que a Paixão do Senhor ( Passio Domin i no
Latim) é o ponto mais a lto, o cume da História da Salvação.
O Sacrifício cruento de Nosso Senhor Jesus Cristo no
Calvá rio é a prova mais i ncontestável do i nfinito Amor d e
Deus pela h u ma nidade: "De tal modo Deus amou o mundo,
que deu seu Filho Único para o salvar"'(Jo 3,16) .
Dura nte praticamente os ú ltimos 20 séculos, a Santa
Ig reja conti n u a celebra ndo a Paixão do Senhor, em seus
a ltares, onde o M i stério do C ri sto Crucificado, M o rto e
Ressuscitado se perpetua e atualiza-se .
A a utêntica Fé Cató l i ca s e m p re nos recorda q u e,
para redenção de nossos pecados e conseqüente salvação,
é que Cristo Nosso Senhor, sofreu Sua Santíssima Paixão

9
- Passio Dom i n i .
Improvável será estimado leitor, term inar a leitura
d esta magnífica obra, sem reavivar seu amor pelo Santo
Sacrifício da M issa, enfi m , por Nosso Redentor.

PE. WANDER DE JESUS MAIA

JO
PREFÁCIO

APÓS A RESSURREIÇÃO DE /AZARO

O a contecimento m a i s s u b l i m e e d i v i no q u e oco rre u


desde a Criação foi, sem dúvida, a Pai xão e Morte com que
o N osso S e n h o r Jesus Cri sto fi nalizou s u a vida e a sua
me nsag e m . Viveu, padece u e m o rreu para resgatar os
seres huma nos dos pecados e dar g raça e salvação eterna .
É t ã o g ra n d e o m i s té rio, ta n to p e l a razão c o m o p e l a
e ntrega , q u e d e q ualquer lado q u e s e olhe n u nca poderá
haver nada igual até o fi nal dos tempos.
Para entender os motivos que levara m os prínci pes
dos sacerdotes e os escri bas a entregar um homem q ue ,
sem d ú v i d a a l g u m a , fo i u m g ra n d e p rofeta e p a s s o u
fazendo o bem é a propriado uma breve explicação.
A ressurreição de Lázaro foi u m m i lagre insofismável
e muitos Creram nele (Jo 1 1 , 45), mas a l uz cegou outros
j u d e u s q u e , m o v i d o s p e l a i n v ej a , fo ra m a J e ru s a l é m
murmurar e delatar o ocorrido e m Betâ n i a .
Os príncipes d o s sacerdotes e o s escribas decidiram
e m co nselho por fi m a a ção d o S e n ho r, te mendo que o
povo a c red itasse n e l e . Prev i a m com isso u m a g ra n d e
lJ
rebelião popular q u e acarretaria em represália dos rom a ­
n o s a destruição da cidade e do Templo.
Por medo e d issi mulando a inveja e o ódio que tinham
pelo Senhor, usando fa lsos motivos decidira m matar Jesus;
s o m e nte assi m conseg u i ri a m a c a b a r co m o s m i l a g re s .
Ca ifás proclamou a decisão q u e o conselho havia tomado :

Convém que um só homem morra em lugar do povo


(Jo 18, 14). E ele não disse isso por si mesmo, mas, como
era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia
de morrerpela nação, e não somentepela nação, mas também
para que íossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus
dispersos. E desde aquele momento resolveram tirar-lhe a vida
(Jo 1 1 , 5 1 - 53); co mo se fosse u m m a rg i n a l , os sumos
sacerdotes e os íariseus tinham dado ordem para que todo
aquele que soubesse onde ele estava o denunciasse, para o
prenderem (Jo 1 1 , 57).

P ri m e i ro deram a sentença e d e p o i s fo rmaram o


p rocess o . S e n t e n ça d e m o rte, m e s m o esta n d o o réu
a u se n te, d e s co n h e c e n d o as a c u s a çõ es e não s e n d o
ouvida a defesa q u e ti nha direito. O verdadeiro motivo para
tudo i sso, era a i nveja e o medo de perder os privilégios
e c o n ô m icos, p o l íticos e rel i g i osos q u e possuía m . Fica
evidente a perversidade d estes "j u ízes".
O processo foi uma farsa : forçaram as testemunhas a
depor sobre os discípulos e a doutrin a propagada, de modo
12
q u e coi n cidissem com a se nte n ça pré-esta beleci d a . Acon ­
tece o mesmo c o m m u itos d e nossos atas, n ascem da fa lta
de retidão e d epois procu ramos um modo de legitimá-la .
Jesus, ao tom a r con h ecimento da ordem de prisão
e de que q u a lq uer pessoa poderia e deveria denunciá-lo,
já não andava em público entre os judeus. Retirou-se para
uma região vizinha do deserto, a uma cidade chamada Efraim,
e ali se detinha com seus discípulos (Jo 11, 54) . Tudo isso
para que o tem po esta belecido por Deus se cum prisse. Nes­
tes dias o Senhor meditava com a proximidade da morte.
Vendo como os d iscípu los estavam a batidos, animou-os fa­
lando do céu e da fé que deveriam ter. O cristão deve estar
sempre prepa rado para morrer.
Chegado o momento, Jesus deixou Efraim em direção
a Cidade Sa nta para padecer e morrer. Viajava com tama­
nha decisão e rapidez adiante deles que os discípulos esta­
vam perturbados e o seguiam com medo (Me 10, 3 2) .
Durante o percurso, reu n i u parti cu la rmente os doze
a póstolos e revelou que em Jerusalém receberia toda forma
de h u m i l ha ção, ofensa, tormento e q ue morreria.
Depois d i sso escutou o pedido v i n d o da m ã e dos
fi lhos de Zebedeu : os dois melhores lugares no Reino dos
Céus para eles.
Foram camin hando e chegara m a Jericó, onde recu­
perou a vi sta de um cego que i mplorava em a lto brado. Ace­
nou para q u e Za queu o recebesse na sua casa ; com sua
13
presen ça entrou a salvação naquela casa e aq uele publi­
cano se converteu (cf. Lc 19, 9). Ao sair de Jericó uma grande
multidão o seguia (Mt 20, 29); dois cegos, que estavam no
cam in ho, perceberam sua passagem e suplicara m por com ­
paixão e fora m cu rados. A cam inho d e d a Paixão, por onde
passava, compadecia-se d e todos e d ei xa v a o s i n a l da
Divindade com curas e milagres.
Seis dias antes da Páscoa (Jo 12, 1 ), n o Sábado,
chegou a Betânia. Ti nha por costume instalar-se na cidade,
pois possuía m uitos a m igos e após o m i lagre da ressurrei­
ção de Lázaro, m u itos gosta riam de hospedá-lo.

DOMINGO DE RAMOS A (1iJARTA-FEI RA SANTA

No dia seg u i nte, Domingo, foi a Jerusalém onde foi


receb i d o com ra mos e a c l a m a d o como fi lho de D a v i . A
multidão, pois, que se achava com ele, quando chamara Lázaro
do sepulcro e o ressuscitara, aclamava-o ( J o 1 2 , 1 7) .
Aproxima ndo-se à entrada, contemplou Jerusalém e chorou
sobre ela ( Lc 19, 4 1 ), por não ter reconhecido o tempo em
q u e tinha sido vi sitada e profetizou sua destru ição como
castigo.
Toda a cidade ficou alvoroçada com a entrada solene
e todos i ndagava m : Quem é este? (Mt 2 1 , 1 0). Os cegos e
os coxos vieram a ele no Templo e ele os curou (Mt 2 1 , 14).
14
O!> sacerdotes e escribas ficaram mais i ndignados a i nda,
acusavam-no de aceitar as aclamações de filho de Davi que
proviam da boca das cria nças e de não fazer calar os que
dcreditavam q u e era o Rei de Israel. O Senhor respondeu :
Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que
confunde (SI 8, 3), digo-vos: se estes se calarem, clamarão
as pedras/ ( Lc 1 9 , 40). Ao anoitecer voltou para Betânia
com os d iscípulos.
Na manhã seg uinte, seg unda -feira, retornou a Jeru ­
sa lém . Esta ndo com fome v i u uma figueira verde e cheia
de folhas no cam i nho, a proximou-se e só encontrou folhas.
Então d isse à fig ueira : Jamais alguém coma fruto de til E os
discípulos ouviram esta maldição (Me 1 1, 14 ). Dentro da cida­
de foi ao templo e expu lsou os que vend iam e comprava m ,
derrubou as mesas d o s ca mbistas e as cadeiras d o s ven­
dedores de pombas. Não consentia que ninguém transpor­
tasse algum objeto pelo templo (Me 11, 16 ). Contra a força
e majestade de Jesus, n i nguém pode fazer nada naquele
momento. Ospríncipes dos sacerdotes e os escribas ouviram­
no e procuravam um modo de o matar. Temiam-no, porque
todo o povo se admirava da sua doutrina. Quandojá era tarde,
saíram da cidade (Me 11, 18-19) e foram pa ra o monte das
oliveiras (Cf. Lc 2 1 , 37). Depois voltaram novamente para
Betânia, que ficava na encosta do monte.
Na manhã de terça-feira , nova mente fora m à cidade
pelo mesmo ca m i n h o e os d i s cípu los re p a ra ra m q u e a
15
figueira tinha secado. A mald ição da figueira não foi um cas­
tigo, p o i s n ã o e ra tempo de fi gos, mas u m símbolo d a
s i nagoga, cheio de folhas e exterioridade e q u e n ã o ti nha
d a d o o s fru t o s e s p e r a d o s , por i s s o t a m b é m fi c a r i a
a m a ld içoada e estéri l para sempre.
No templo, os escri bas, a nciãos, sacerdotes e fari­
seus fizeram m u itas perguntas. Entendera m que a figueira
os rep resentava e q u e seri a m castigados por isso . Jesus
repreendeu-os d u ramente pela hi pocrisia e pelos a busos,
e despediu-se com tristes palavra s : Pois bem, a vossa casa
vos é deixada deserta. Porque eu vos digo: já não me vereis
de hoje em diante, até que digais: Bend1to seja aquele que
vem em nome do Senhor ( Mt 23, 38-39 ) . Com isso ind icava
que o templo ficaria sem habitante e ruiria , e que no dia
do Juízo teriam que aceitar, mesmo contra vontade, o seu
rei nado. Já era tarde q uando saiu do templo.
O Senhor deixou o templo entristecido pela d u reza
d e seu povo. Os discíp u los a p roximara m -se d e Jesus e
apreciavam a mag nitude do templo com suas riq uezas. Ele
respondeu : Não ficará aqui pedra sobre pedra: tudo será
destruído ( Mt 24, 1 ) . Assentando-se no Monte das Oliveiras,
de frente para a cidade, voltaram a perg untar pelos sinais
e q ua n d o tudo aconteceri a . O S e n h o r e x p l icou t u d o e
terminou d izendo: Sabeis que daqui a dois dias será Páscoa,
e o filho do homem será traído para ser crucificado ( Mt 26, 2 ) .

16
Na quarta-feira, o Senhor ficou em Betânia d u ra nte
o dia todo. À noite preparara m um banquete. Lázaro, teste­
munho vivo do milagre, era um dos convidados. Uma grande
multtdão dejudeus veio a saber que Jesus lá estava; e fora m
não somente por causa de Jesus, mas ainda para ver Lázaro
que ele ressuscitara (Jo 1 2 , 9 ) . Marta e M a ri a , irmãs d e
Lázaro, ta m bé m estavam presentes e demonstravam m u i ­
t o agradeci mento ao Sen hor, cada u m a a s e u modo.
Em bora a residência pertencesse a Simão, o leproso,
Marta servia aos convidados com m u ita a legri a , principal­
mente ao Senh or.
M a ri a trouxe u m vaso cheio de perfu m e de n a rdo
puro e valor elevado, uma libra . Para Judas parecia u m des­
perdício, porém M a ria achava pouco; mostra ndo toda g ra ti­
dão, quebrou o vaso e derramou sobre a cabeça de Jesus,
depois ungiu ospés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos.
A casa encheu-se do perfume do bálsamo (Jo 12, 3 ) .
E ra costu m e d o s j u d e u s u n g i re m a s s e p u l t u ra s .
Esta ndo pró x i m o d e s u a morte, Jesus a g radeceu todo o
amor demonstrado por Mari a . Defendendo-a disse :

Porque molestais esta mulher? Éuma ação boa o que ela


me fez. Derramando esseperfume em meu corpo, ela o fez em
vista da minha sepultura. Em verdade vos digo: em toda parte
onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, será
contado em sua memória o que ela fez (Mt 26, 1 0 . 1 2 - 1 3 ) .

17
J udas m u rmurava por tao g rande e aparente desper­
d ício, não percebia nenh u m ato de nobreza de Ma ria para
com seu Mestre . Dizia que o valor gasto poderia aj udar os
pobres, mas na rea lidade Judas não se i m portava com os
necessitados, pois era ladrão, tendo a bolsa furtava o q u e
n e l a la nçava m . Por isso preferia vender o perfu me e ficar
com o dinheiro . Com a teatral preocupação com os pobres,
os apóstolos se deixaram enganar e reclamara m ta mbém.
Nós, ta m bém, mu itas vezes d efendemos o erro por falta
de uma reta intenção.
Parece que o rompimento de Judas começou pela cobi­
ça . Furtava o d i n heiro com u m para o próprio uso. Aos pou­
cos, começou od iar a pessoa e a d ou trina de Jesus. Com o
coração endurecido, não acreditava em mais n e n h u m ensi­
namento ou milagre. Provavelmente foi um dos que reclama­
ra m das palavras que Jesus usou q u a n d o prometeu dar o
seu próprio corpo e sangue como ali mento: Isto é mwto duro/
Quem pode admitir? (Jo 6, 60) . N este mesmo d iscurso o
Senhor havia d ito: Mas há alguns entre vós que não creem. . .
Pois desde o princípio .Jesus sabia quais eram os que criam e
quem o havia de trair(Jo 6, 64) . Judas permaneceu no gru po,
d issi m u lando a rea l i ntençã o . Então, Jesus perg u ntou aos
doze: Quereis vós também retirar- vos? (Jo 6, 6 7 ) . S i m ã o
Pedro respondeu p o r todos : Senhor; a quem iríamos nós? Tu
tens as palavras da v1da etema. Enós cremos e sabemos que
tu és o Santo de Deus/ (Jo 6, 68-69 ) . O Senhor tenta ndo
18
IH!rsuadir J udas acrescento u : Não vos escolhi eu todos os
doze? Contudo, um de vós é um demônio! . . . (Jo 6, 70) . J esus,
com cari n ho e paciênci a , s uportou em segredo a tra içã o .

O CONSELHO REUNIDO CONTRA O SENHOR

Então os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo


reuniram-se no pátio do sumo sacerdote, chamado Catfás (Mt
26, 3 ) . Estavam i nd ig nados com as pa lavras d u ras que o
Senhor havia fala d o . Decidira m prender Jesus depois d a
Páscoa, para não cha mar a atenção do povo. Como Jeru­
salém esta ria cheia de peregrinos procede ntes d e tod as
a s partes, m u i tos dos q u a i s h a v i a m rece bido g raças de
Jesus, era perigoso p re ndê-lo nestes d ias, poderia haver
uma revolta popular. Mas tudo aconteceu de maneira opos­
ta : usaram de violência e o matara m . J udas pode ter sido
o motivo da m udança d e plano. Entretanto os planos dos
homens nada são perto dos d esíg nios de Deus.
Judas não compartilhava mais dos mesmos ideais do
grupo, sentia -se como u m inim igo d e Cristo . Após o ban­
quete em Betâ n i a estava preocu pado, pois ti nha con heci­
mento que os fariseus q ueriam eliminar Jesus, era perigoso
ser um d iscípu l o . Sendo assim procu rou os príncipes d os
sacerdotes e ofereceu-se para en tregá-lo. Desta ma neira
g a n h ava d i n h e i ro e poderosos a m igos.
19
Eles se alegraram ( Lc 22, 5), porq ue J u das era u m
d iscípulo. Ficou com bi nado o preço d e tri nta moedas d e
p ra t a , v a lor q u e o tra i d o r a c h o u j u sto e desde aquele
instante, procurava uma ocasião favorávelpara entregarJesus
(Mt 26, 1 6 ) .
Jesus Cristo sempre esteve c o m o domínio da situa­
ção, e ntregou-se para morrer porq u e desej a v a . C h e g o u
a Jerusalém no Domingo de Ramos e n o s dias subseq uen­
tes foi de Betânia para Jerusalém e m várias ocasiões. Quan­
to m a is próximo esta va o mo mento d a en trega, m a i s se
a proximava do loca l da Paixão. Chegado o momento, anun­
cia aos discípulos a morte humilhante e o i n ício da Reden­
ção: Sabeis que daqui a dois dias será Páscoa/ e o Filho do
homem será traído para ser crucificado ( Mt 26, 2 ) .
Esta foi u m a síntese, para entender e medita r com
mais p rofu ndidade a Sagrada Paixão d e Jesus Cristo .

20
Q!JINTA-FEIRA SANTA
Pela manhã de qui nta-feira, primeiro dia dos pães ázi mos,
esta ndo Jesus em Betânia ou provavelmente a caminho de
Jerusalém, os d iscípulos perg u ntaram onde celebrariam a
Páscoa . O Senhor encarregou Ped ro e João dos p repara ­
tivos: Ide à cidade, à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre
manda dizer-te: Meu tempo está próximo. É em tua casa que
celebrarei ,1 Páscoa com meus discípulos ( Mt 26, 18). Ele vos
mostrará no andar superior uma grande sala mobiliada, e ali
Fazei os preparativos ( Lc 2 2 , 1 2 - 1 3 } . Os dois d iscíp u los
o b ed ecera m e a co ntece u tudo co m o Jesus h a v i a d ito ;
assim a ceia foi prepa rada na casa daquele homem bem­
aventura d o .

jESUS CHEGA A }ERUSA LÉM PA RA


CELEBRARA PÁSCOA

Chega ndo o Senhor com os outros d iscípulos a Jeru­


sa lém, fora m na casa do a m igo que o estava esperando.
Encontraram tudo preparado : o cordeiro, as ervas a ma r­
gas, os pães sem fermento e tudo que era necessário para
23
celebra r a Páscoa . O Senhor i n iciou a ceri m ôn i a na hora
indicada: sacrificaram o cordeiro e assara m -no, aspergira m
c o m sangue a soleira d a casa e a seguir o S e n h o r calçou
as sandálias, cin g i u as vestes e ficou de pé, os a póstolos
fizeram o mesmo. Depois comeram ra pidamente, como q u e
d e passagem, o cordeiro, o p ã o s e m fermento e as ervas
amargas. Os j udeus fazia m tudo isto em memória da liber­
tação e saída do Egito. Para nós, um símbolo da libertação
do pecado que h averíamos de conseguir, g raças ao sang u e
d e rra mado p o r J e s u s Cristo . N este mome n to, o S e n h o r
dava i n ício a s u a Paixão.
Concluíd a a ceri môn i a , assenta ra m-se para a ceia
habitu a l . E n q ua nto com i a m , o S e n hor com toda tern u ra
m a n ifestou o g ra nd e a m o r q u e sentia pelos a póstolos,
d i z e n d o como tin h a d esej a d o cear com e le s a ntes de
morrer: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta
Páscoa, antes de sofrer ( Lc 22, 1 5 ) . Aconteceria u m mistério
g ra n dioso naq uela ceia, q u e somente o i nfi nito desejo do
Filho de Deus poderia rea l i za r. Contou q u e aq uela e ra a
ú ltima cei a e q u e não volta ri a a cear com eles, até q u e
estivessem j untos no Banq uete Celesti a l .

E vós tendes permanecido comigo nas minhas


pro vações, por isso esta reis j u nto d e m i m q u a n d o e u
triunfar: pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como
meu Pai o dispôs a meu favor, para que comais e bebais à

24
minha mesa no meu Reino e vos senteis em tronos, parajulgar
as doze tribos de fsraei (Lc 22, 28-30 ) .

Consola ndo o s apóstolos porq u e fica ria m órfãos, o


Senhor prometia u m a gra nde h era n ça depois da morte .
J udas conti nuava entre eles diss i m u lando a tra ição .
Com toda misericórdia, o Senhor comia no mesmo prato,
com um homem que pensava somente no momento de en­
tregá-lo . O Senhor conhecendo o segredo, tentou abra n ­
dar-lhe o coração com um lamento : Em verdade vos digo:
um de vós me há de trair (Mt 26, 21) . Ao ouvirem isto, todos
co meçara m a fica r d esolados e se o l h a v a m a ss u stados.
Mesmo estando com a consciência limpa, cada u m perg u n ­
tava com h u mildade: Porventura sou eu? (Me 1 4 , 1 9 ) .
Estava m treze à mesa e molhavam o pão no mesmo
prato, três ou q uatro pessoas ao mesmo tem po. Os a pós­
tolos q ueria m saber quem era o traidor e assim acabar com
a suspeita e o temor entre eles. O Sen hor, porém, queria
salva r J udas e não revelou completamente o segredo, para
que o ódio dos seus com pa nheiros não o levasse à perdição
tota l . Jesus, pelo contrário, acentuou mais a am izade que
J udas desprezava com sua tra i ção: Em verdade vos digo,
aquele q u e há d e m e vend er não só está à mesa comigo,
como também pôs comigo a mão no prato (Mt 26, 23). O Filho
do Home m seg ue o cam i n h o da cruz por vontade p rópria,
por obed iência a o Pa i e assim sa lvar os homens, mas ai

25
daquele homem por quem o Filho do Homem é traído/O trai­
dor pensa que tri u nfa e que g a n h ará a m igos e d i n h e i ro,
mas na realidade ca m inha em di reção ao tormento eterno
q u e seria melhor para esse homem que jamais tivesse
nascido! ( Mt 26, 24).
Desco berto pelo s i n a l d e m o l h a r o pão n o p rato,
J udas sem nenhum em baraço perguntou : Mestre, serei eu?
( Mt 26, 2 5 ) . O Senhor com voz baixa, para q ue os ou tros
não ouvisse m, respondeu : Tu o d i sseste, q u e q u e r dizer
sim, seg u ndo o modo de falar dos h ebreus.

O SENHOR LA\0<\ OS PÉS DOS APÓSTOLOS

E ra noite de Q u i n ta - fei ra , antes d o d i a solene da


Páscoa . Jesus sabia q u e tinha chegado a h ora , e q u e ao
morrer voltaria à casa do Pai . Term i nada a ceia, com J udas
decid ido a vendê-lo, Ele, Filho ú nico de Deus, cheio de cari­
nho e de amor para com os seus, levantou-se da mesa, depôs
a sua veste e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Em
seguida/ deitou água numa bacia e começou a lavar os pés
dos discípulos (Jo 1 3 , 4-5 ) .
G rande exem plo de h u m i ldade e de a m o r o Senhor
deixou . O amor nunca considera menor qualquer tra balho,
por m a i s h u m i ld e q u e seja. O S e n hor, aniquilou-se a si
mesmo, assumindo a condição de escravo (FI 2, 7), não tendo
26
repu lsa em lavar os pés dos a póstolos. Depois lavaria com
seu sa n g u e os nossos peca dos.
C omeçou com Pedro, a q u e m d e u o p ri me i ro l u g a r
como chefe d o s a póstolos. Assim deve começar a limpeza e
reforma dos costu mes, pelos que presidem. Pedro, ao ver u m
a co nteci m e nto t ã o inco m u m , negou -se com a veemência
costu meira : Senhor_ queres /avar-me ospés/ . . . (Jo 13, 6).
O Sen hor i nsisti u, pois e mbora a negativa de Pedro
nascesse por respeito, ta m b é m era devido à ignorâ nci a ;
n ã o sabia q u e o Senhor pretendia com isso, traduzir a ne­
cessidade de l i m peza interior, a ntes de receber o Corpo e
o Sangue que seria dado pouco depois. Somente o Senhor
pode lavar nossos pecados. Tudo isto queria o Mestre ensi­
nar a Ped ro, que via somente as aparências; com isso Jesus
respondeu : O que faço não compreendes agora (Jo 13, 7).
Ped ro conti n uou obstinado com a tei mosia, pensa n ­
do q u e a ú nica razão era d a r u m exemplo de h u mildade,
assim não consentiria que o Senhor se h u m i lhasse a seus
pés e res p o n d e u e n e rgica m e n te : jamais me la varás os
pés/. . . (Jo 1 3, 8 ) . Dia nte da teimosia d e Pedro, aquele q u e
lavaria tod os os pecados, respondeu c o m firmeza: Se eu
não te lavar_ não terás parte comigo (Jo 1 3 , 8 ) .
Ficou claro q u e a negativa d e Pedro n ascia i nteira­
mente do respeito e d a h u m ildade. Ao entender a i mpor­
tância da l i m peza, ofereceu-se para q u e fossem lavados
não só os pés, mas tam bém as mãos e a cabeça . O Senhor
27
respondeu: Aquele que tomou banho não tem necesstdade
de lavar-se,- está inteiramente puro (Jo 1 3, 1 0). Uma pessoa
pode esta r l i m pa de pecados mortais, entretanto sem pre
restarão pecados veniais; é n ecessário, então, que se lave
e se p u ri fique para receber o Corpo e o Sangue de Cristo
através do sacra m e nto da pen itência .
O S e n h o r t i n h a crava d o n o coração a perd ição de
J udas, com muita compaixão, pensando que J udas poderia
se a rrepender a crescentou : Vós esta is l i m pos, mas não
todos.
Depois d e ouvir o q u e o Senhor tinha respondido a
Pedro, todos deixaram lavar os pés e não houve a mínima
resistência.
O S e n h o r deixou um e n s i n a m e n to : devemos fazer
com os nossos i rmãos, a mesma coisa que Ele fez conosco.

O SENHOR INSTITUI O
SACRAMENTO DA EUCARISTIA

Tinha chegado à hora em q u e Jesus Cristo, Nosso


Senhor, S u m o e Ete rno Sacerd ote seg u n d o a ordem de
Melqu i sedeq ue, ofereceria o Corpo e o Sangue e m sacri­
fíci o . Com i sso reco n ci l i a ria a h u ma n idade com Deus. O
Corpo e Sangue q u e seriam sacrificados na cruz ficariam
perpet u a mente entre nós, sob a aparência de pão e de

28
v i n h o , a fi m d e ser n osso sacrifíci o l i m po e agradável a
Deus.
Jesus Cristo está realmente no Sacramento da Euca­
risti a, fornecendo a cada u m , o seu Corpo como verdadeira
comida e o seu Sangue como verdadeira bebida . Por amor,
Jesus deixou o alimento q u e fortalece a nossa esperança,
d esperta a nossa memória, aco m p a n h a a nossa sol idão,
socorre as nossas n ecess i d ades. A E ucaristia é testemu­
n h o d e sa lvação e rea lização das pro messas contidas na
Nova Aliança. Preocupado com o futuro da Ig reja e às por­
tas da paixão e morte, n ã o fazia outra coisa senão rezar
e ord e n a r tudo de modo q u e n u nca fa ltasse o A l i m e nto
eucarístico até o fi nal dos tempos.
Os a póstolos estava m todos atentos, para ver o que
aconteceria na nova cerimôn i a . O Senhor vestiu a túnica
que tinha tirado, sentou-se outra vez à mesa e, como se
fos s e co m e ç a r u m a n o v a c e i a , m a n d o u os a p ósto l o s
reclinarem com Ele.

Vistes o que Eu fiz convosco. Chamais-me Mestre e


Senhor, e dizeis bem, porque o sou; se Eu, pois, sendo Mestre
e Senhor, vos lavei os pés, vós ficais obr/gados a fazer o mes­
mo, com caridade e humildade, pordindlque vos pareça e ainda
que vos desprezem. Porque Eu dei- vos o exemplo, para que,
como Eu vos fiz, assim façais vós também; porque o servo
não é mais que seu senhor, nem o enviado é maior do que

29
aquele que o enviou. Se compreenderdes bem estas coisas,
sereis felizes se as praticardes ( Jo 13, 1 2 - 1 7 ) .

O S e n h o r n ã o perdia n e n h u m a oca s i ã o p a ra d e­
monstrar a Judas a tristeza que causava a traição, q ueria
mostrar que não partiria enganado para a morte, mas por­
que queria: Disse- vos que sereis felizes, mas não digo de
todo� porque conheço bem os que escolht: De qualquer forma
há de cumprir-se a Escritura: o que come à minha mesa há
de me trair. Digo isto agora e com tempo, antes que aconteça,
para que, quando o virdes cumprido, acrediteis no que vos
disse que sou (Jo 1 3, 1 8- 1 9 ) .
Todos olhavam su rpreendidos, nota ndo n o seu rosto
e na sua atitude que faria algo g rande e fora do com u m . O
Senhor tomou o pão ázimo, daqueles q ue tin ham sobrado
da primeira ceia , leva ntou os olhos ao céu para seu Pai,
para que vissem q ue d 'Eie vinha o poder d e realizar u m a
obra t ã o grande. D e u graças p o r todos o s benefícios que
tinha recebido e, especi a l m e nte, por a q u i l o q u e n a q u ele
momento realizava por todos. Sagrou o pão com palavras
novas, a fi m d e prepara r os a pósto los para a gra nd iosa
n ov id a d e . Pa rtiu o pão de modo q u e todos p u d essem
comê-lo e consagrou-o com as suas palavras. O Pão conver­
teu -se no seu Corpo, contin uava com a p a rênci a e sabor
de pão, mas agora era o seu próprio Corpo que estava pre­
sente. As p a l a v ra s com que consag ro u o pão d a v a m a

30
entender cla ra m e n te q u a l era a co m i d a q u e l h e s dava :
Tomai e comei, isto que vos dou é meu Corpo, o mesmo que
há de ser entregue na cruzpor vós e pela salvação do mundo.
Deu a cada um o pão consagrado e todos o tomaram e co­
mera m . Sabiam o que rea l mente estava acontecendo, por­
que o Salvador d isse com palavras bem cla ras.
Havia sobre a mesa u m cálice de vinho misturado com
um pouco de água . Tomou o Senhor o cálice em suas mãos,
deu graças ao Pai , santificou com uma nova benção, consa­
g rou-o com suas palavras e a q u ele v i n ho converteu-se no
seu S a n g u e . Aq uele mesmo sangue q u e corria pelas suas
veias, estava rea l mente presente ta mbém naquela taça . As
palavras com que tinha consag rado o vinho fora m tão claras
que os a póstolos entenderam bem o que lhes dava a beber:
Bebei todos deste cálice, porque este é o meu Sangue com o que
confirmo a Nova Aliança_- o mesmo Sangue que derramareipor
vós na cruzpara que vos sejam perdoados ospecados.
O S e n h o r p rete n d i a q u e o Sacrifício perd u rasse n a
Ig reja até o fi nal dos tempos, por isso também d e u o poder
de consagrar o Vinho e o Pão aos a pósto los, e que esse po­
der fosse transmitido até sua volta, quando julgará o m u ndo.
O rdenou expressa mente que q u a ntas vezes se celebrasse
o sacrifício, o fizessem em sua memória. Deixava entre os ho­
mens u m legado valiosíssi m o : o seu Corpo e o seu Sangue,
e todos os teso uros d a g raça que mereceu com a Paixão.
Deste modo, perpetuava s u a presen ça e ntre nós.
31
O Pão e u ca rístico está d esti n a d o a o sustento dos
homens que vão como pereg ri nos pelo mundo. É tão g ran­
de e forte o fogo do seu amor, q ue faz os homens santos.
As palavras divinas devem ser recebidas com fé e com todo
o agradecimento, porque foi o próprio Senhor quem d isse :
Tomai e comei, isto é o meu corpo. Bebei todos deste cálice
que é o meu sangue.
Como poderemos retribuir o g rande benefício? Com
todo afeto do coração, di zendo: Veja Senhor, este é o meu
corpo; ofereço na dor, na doença, no cansaço, na fadiga e
n a penitê n ci a ; este é o m e u s a n g u e , ofe reço para s u a
g lória ; esta é m i n h a a lma q u e q uer obed ecer e m t u d o a
sua vonta d e .

JESUS REVELA A JOÃO Ql)EM É O TRAIDOR

Depois de tudo isso, o Sen hor ao ver q u e a morte


se aproximava e que Judas persistia na obstinação, entris­
teceu-se ainda mais e cheio de angústia, repetiu : Em ver­
dade/ em verdade vos digo: um de vós me há de trair! (Jo 13,
2 1 ) . Judas conti n uou com seu perverso propósito. Não foi
suficie nte que Jesus C ri sto o fizesse ver q u e con h ecia a
tra i ção e n e m os repetidos apelos. Ele não se comoveu
d i a n t e do M e stre aj o e l h a d o aos s e us pés, co n t i n u o u
conversando e comendo . J udas recebeu até o Sacramento
32
do Corpo e S a n g u e do Senhor. Por isso, Jesus tão perto
daquele homem ingrato e obsti nado, repetiu oprimido pela
tristeza : Em verdade, em verdade vos digo que um de vós
me há de entregar. Como não d izia o nome, todos se assus­
tavam e continuavam olhando uns para os outros para ver
a quem se referia . A consciência não os acusava, mas acre­
d itavam mais no Senhor do que na p rópria retidão, reco­
n heciam que como homens podiam facilmente mudar e cair.
Com a costu meira i m petuosidade, Ped ro estava an­
sioso para descobrir o i n imigo, para d espedaçá-lo se pu­
desse com as próprias mãos. Não se atrevia a perguntar
diretamente ao Senhor, por outro lado não podia suportar
mais tempo aquela d úvida. Sabia do cari nho especial que
o Senhor mostrava por João . Como era fácil para João per­
g u ntar sem cha mar a atenção, fez um sinal do seu lugar
para q ue perg u ntasse a q u em se referia. João estava recli­
nado s o b re o peito d e Jesus e pergu ntou q ue m e ra . O
Senhor respondeu em voz baixa, somente João ouv i u : É
aquele a quem Eu der o pão embebido (Jo 1 3, 26) . Tomou o
pedaço de pão, m olhou-o e deu a Judas. Aquele gesto foi
para João a resposta, mas para Judas outra prova de afei­
ç ã o . Jesus q u e ri a a b ra n d a r o coração e tentar m u d a r a
perversa i ntenção do traidor.
Porém, aquele q u e estava fora da graça, por culpa pró­
pria, piorava sempre com os auxílios que o Senhor fornecia.
J u d a s co m e u o p e d a ço de pão e , d e p o i s d i s s o , Sata n á s
33
entrou na sua alma. O Demónio tin ha-o ind uzido a que entre­
gasse o Mestre, mas a g ora se a possa n d o dele com mais
fo rça , i n sti g o u -o p a ra q u e executasse i m e d i a ta m e n te o
plano maligno. O Senhor, ao vê-lo cego e fora de si, d isse
calmamente : O que queres fazer; faze-o depressa (Jo 13, 27).
Ni nguém, exceto João, entendeu o verdadeiro sentido das
palavras. Imaginaram, uma vez que Judas tinha a seu cargo
a bolsa e os gastos comuns, q ue o Senhor o mandava com ­
prar alguma coisa ou dar algo aos pobres como de costume.
O Senhor não o aconsel hava para que fizesse uma maldade
tão grande, pelo contrário, mostrava que conhecia sua inten­
ção. O desejo de padecer por amor era infi nita mente maior
que o ódio e o desejo que Judas tinha de entregá-lo, por isso
não o imped i u . Logo que Judas comeu o bocado e ouviu o que
o Senhor dizia, movido por Satanás, saiu imediatamente da
sala e daquela casa onde estava Jesus, para nu nca mais vol­
ta r para j u nto d'Eie. Era no ite quando J udas saiu.

JESUS DESPEDE-SE DE SUA MÃE

A Virgem Maria con h ecia a razão pela qual o Filho de


Deus se tin ha feito homem nas suas entranhas. Sabia que
era para redimir os homens e q ue, por isso, sofreria um
tormento cruel e derramaria o sangue na cruz. Sabia pelo
que tinha lido e meditado na Sagrada Escritura, ainda antes
34
do Fil ho en ca rna r . Sabia ta mbém pela profecia do velho
Simeão, quando ela e José apresentara m Jesus no Templo
e, além d isso, soube graças às freq uentes conversas q u e
t i n h a tido com seu Filho. Naquelas longas conversas a sós
com ela, Jesus explicava a Escritura e mostrava a necessi­
dade de padecer a ntes de entrar na sua g lória .
O Senhor avisou várias vezes os discípu los e, com
muito mais razão, avisou sua Mãe, porque nela com certeza
e ncontraria consolação e descanso . Os discípu los não en­
tendiam o mistério e o Senhor não encontrava neles conso­
lação. Na pri meira vez que anu nciou, q uiseram convencê­
lo de que não devia padecer; assim agiu Pedro .
Quando voltou a a n u n ciar sua morte, já próxima, os
apóstolos viram q u e Senhor estava disposto a padecer e
não havia mais esperança de o im ped irem, ficaram tristes
e assustados. Depois, enqua nto rezava no Horto das Oli­
veiras e eles estavam prevenidos e repetidamente avisa­
dos, ao vê-lo naq uela agonia e q ue procurava consola r­
se com eles, encontrou-os ad ormecidos pela tristeza . O
Senhor não podia encontrar neles desca nso; u mas vezes
t i n h a de re preender o zelo i m pru de nte, ou tras a n i m a r a
d e b i l i d a d e com u m a co nsolação; outra s vezes t i n h a d e
exortá-los com sua doutrina e fortalecê-los contra a ten­
tação. Se, a pesar disso, o Senhor Insistia em confi a r-lhes
a sua dor e b u scar a l í v i o o n d e e n c o n trava tão p o u ca
resposta , como não o fa ria ta m bé m com sua Mãe? Com
35
Maria podia revelar suas preocu pações e tristezas, porq ue
nela encontra consolaçã o. Contaria as calúnias e as i nve­
jas, o ódio e a perseg uição q u e v i n h a sofrendo; revelaria
como tudo termi naria no meio daquela tem pestade e tor­
menta e q u e no fim morreria afogado entre as ondas (cf.
SI 68, 3). Mu itas vezes fa laria com sua Mãe destas coisas,
procurando a lívio. Ela e ntendia profundamente o m istério
e a c e i t a v a p l e n a m e n te c o n fo r m a d a , s e n t i a c o m to d a
ternura e oferecia a sua dor cheia de fé, porq ue o seu cora­
ção é semelhante e m u ito unido com o coração do Filho.
Sem pre q u e a Virgem M a ria pensava n a Paixão de
Jesus, sentia pela experiência, o que S i m eão tinha profe­
tizado : E uma espada transpassará a tua alma ( Lc 2, 35) .
Todas as vezes que encontrava seu Filho, vinham à mente
os tormentos que sofreria em cad a um dos seus mem bros;
i ma g i nava a ca beça coroa d a de espin hos, o rosto esbo­
feteado, as costas sangra ndo pelos a çoites, os pés e as
mãos cravados, o seu peito ferido pela lança . . . Ao abraçá­
lo, a braçava, j u ntos no seu coração, o seu corpo e aquelas
torturas, e d izia : Meu bem amado é para mim um saquitel
de mirra/ que repousa entre meus seios ( Ct 1 , 13) .
Despertava n a V i rgem u m g ra nde e cada v e z mais
a rd ente a mor. Pela luz do Espírito Santo con hecia bem a
Majestade de Deus, a ma ldade dos homens e a a m a rg u ra
da d o r q u e padeceria por eles . Conserva va todas estas
coisas no seu coração e d ava-se conta da grandeza do a mo r
36
de Deus e dos i m ensos ben efíc ios q u e fa zia a tod os os
homens. A este conheci mento correspondia na sua hum il­
dade, com profundo agradecimento a Deus, com u m a rden­
te amor pelos h o m ens a q uem Deus havia amado tanto,
que entregava o próprio Filho. Ela tam bém, esti mulada pela
gen erosidade d i v i n a , d esej a va e ntregar-se i ntei ra m en te
à sa lvação dos pecadores .
Nossa Mãe n u nca se ca nsará de i nterceder por nós,
n i sto está a nossa espera n ça, pois para nosso bem, q u is
q u e se rea l izasse a m i ssão para q u a l seu Filho veio a o
mundo: derramar o seu Sangue, preço da nossa redenção.
Estava a V i rgem Maria p revenida, tinha med itado
conti nuamente na Paixão do seu Filho, por isso veio a Jeru ­
salém sabendo q u e naquela noite seu Filho seria entregue
à morte. Entrou com as outras m u lheres que normalmente
acompa n havam J esus, na m esma casa onde seu Filho cele­
braria a Páscoa . Embora em outro compartimento, i nteira­
va-se do que o Senhor fazia, dizia e ordenava. Preparou a
ceia como tantas outras vezes tinha feito. Que espécie de
trabalho seria duro para ela, se o seu próprio Filho lavava
os pés dos seus a póstolos? Soube co mo seu Filho dava a
comer seu Corpo e a beber seu Sangue, e que transmitia
a eles o poder de repetir este Sacramento, para que duras­
se até o fim dos tempos. Mais do que nenhuma outra pes­
soa, com preendeu a profu n didade deste mistério; avaliou
e a g radece u a g ra n d eza deste benefíc i o .
37
O S e n h o r l e va n t o u - s e c o m fi r m e res o l u ç ã o ; o s
apóstolos fizeram o mesmo; juntos deram graças a Deus
e cantaram como de costume no fim da ceia. A isso pa rece
referir-se o Eva ngelho : Depois do canto dos Salmos (Mt 2�
30} saíra m . Este hino constava de sete salmos comp letos
e começava com o salmo 1 1 2 : Louva1� ó servos do Senhor. . .

e terminava com o salmo 1 1 8: Felizes aqueles cuja vida é


pura . . . Nesta longa noite de ansiedade, ca ntando o Senhor
d e u g ra ç a s a seu Eterno Pai. V e rd a d e i ro e x e m p l o d e
a g ra d e c i m e n to , fi d e l i d a de e o b e d i ê n c i a a o q u e a l e i
ordenava : Comerás à saciedade, e bendirás o Senhor, teu
Deus, pela boa terra que te deu ( Dt 8, 1 0 ).
A Virgem Maria, ao ver o seu Filho de pé, reti rou-se
para esperar a sós o último abraço, a ú ltima d espedida que
tanto esforço custava . Viu-o aparecer com a tranqui lidade
de sempre, o rosto estava ca loroso pela conversa depois
da ceia e pela comoção i nterior que senti a .
Dia nte dela, com amor que sentia este Filho p o r esta
Mãe, disse: Mãe, não venho dizernada quejá não saiba, venho
despedir-me para o que já sabe. Consolei-me mwtas vezes
falando disto com a senhora. Dá graças a Deus, Mãe, porque
recebeu a felicidade de ter um Filho que vaimorrerpelajustiça
de Deus, e fazê-los seus filhos. Anime-se que o fruto é grande,
tudo passará depressa; depois voltaremos a nos encon­
trar, imortal e cheio de glória. Ao fazer isto, cumpro a vontade
do Pai. Se a senhora ficar um pouco mais consolada, partirei
38
mais aliviado. Tenho pressa/ Mãe/ desejo sua benção e um
abraço.
As lágri m as corriam pela face da Virgem . O coração
se partia de dor pelo esforço constante, por obedecer e
amar o que Deus dispu n h a . Era g rande o seu amor, pois
pode oferecer o Filho que tanto amava, pela g lória de Deus
e pela salvação dos homens.
A Virgem Mari a provavelmente respondeu : Meu Filho/
que seja o Pai do céu quem dê a benção. Eu sou a escrava do
Senhor, que se cumpra em mim a sua vontade.
O Senhor comoveu -se e chorou ao ver as lágrimas
d e sua M ã e . A m b os calados, d e i x a n d o fa lar some nte o
coração, se abraçara m e, em silêncio, se separa ra m . Ela
seg u iu-o com o olhar até perdê-lo de vista . E ficou sozinha . 1

O SENHOR CAMINHA PARA O


HORTO DAS OLIVEIRAS

O S e n h o r se reu n i u c o m o s d i s c í p u l o s q u e o
esperavam, e aco m pa n hado por eles, s a i u de casa . E ra
noite . Deixou pa ra trás a i n g rata cidade q u e não o ti nha
reconhecido e subiu em direção ao Monte das Oliveiras, do
outro lado da torrente do Cedron, onde costu mava rezar

1. A despedida d e Jesus e Maria não é narrada nos Evangelhos, todavia


é bem verossímil que tenha acontecido.

39
de noite. E n q u a nto ca m i n h ava, olh a ndo a todos, disse :
Todos vós vos escandalizareis de mim esta notte, e fugireis,
e me deixareis sozinho quando virdes o que me vai acontecer.
O Senhor fa lava sobre o q u e fazia sofrer o seu coração ;
mostrava anteci pada mente, como verdadeiro Deus, o q u e
havia de acontecer. Para a n imá-los dizia q u e morreria por
sua própria vontade e voltaria para perdoá -los, pois sabia
o q u e iria acon tec� q u e não fica ria surpreendido por se
escandalizarem e fugirem. Há muito tempo o Profeta Zaca­
rias profetizou : Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho serão
dispersas. Jesus contava q u e se tornariam fugitivos, porém
duas coisas iriam consolar: Eu ressusCitarei ao terceiro dia,
e depois de ressusCitado, esperarei por vós na Galiléia, e ali
me vereis, e ao ver-me, vos enchereis de alegria.
O Sen hor tin ha repreendido duas vezes Pedro pela
excessiva impetuosidade. Confiava em si m esmo mais do
que devia e alardeava dia nte de todos que n u nca a ba ndo­
naria o Mestre, mesmo se fosse necessário ser preso e mor­
rer. E agora voltava com a mesma suficiência, a rmado com
uma espada para, se necessário, defender o Senhor. Pedro
não tinha considerado que Jesus se referia a todos quando
disse : Todos vos escandalizareis de mim. Pensava que ele
era uma exceção ; não reparou que J esus sempre dizia a
verdade, nem que ele era fraco. Por isso protestou e disse :
Ainda que todos se escandalizem de ti, eu, porém, nunca! (Me
1 4 , 29). P e d ro d iz i a o q u e senti a . A ele d i reta m e n te o
1-0
Senhor profetizou: Em Verdade te digo: hoje, nesta mesma
noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me terás
negado ( M e 14, 3 0 ) . Ped ro não podia acreditar, parecia que
o s i m ples fato de não m a n ifesta r a sua d eterm inação d e
segu i-lo até o fi m já era uma traição. Por isso insistiu : Mes­
mo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarefl ( Mt
26, 3 5 ) . Os outros apóstolos diziam o mesmo, com seme­
l hante vang lóri a .
Conversa ndo chegara m a o vale profundo e som brio,
chamado Vale do Cedron ( cf. 2Rs 23, 4). Na parte mais pro­
funda passava um riacho seco, por Isso era chamado tam bém
de Torrente do Ced ro n ( cf . J r 3 1, 40 ) . D o o u tro l a d o da
torrente, à esq uerda, no declive do Monte das Oliveiras, fica­
va o H o rto d o G etsê m a n i . P o r s e r u m l u g a r s o l i t á r i o e
afa stado, o Senhor tinha escolhido m u i tas vezes para orar.
Ao passar pelo vale e pela torrente, os discípulos esforçavam
em parecerem coraj osos, mas é d e su por que estivessem
a n g u stiados e co m medo . O vale e ra escuro e a to rren te
profu nda e as á rvo res fro n d osas, a longavam-se som b ras
n e g ra s p e l o s p e n h a scos e co n ca v i d a d e s do m o n te ; a
solidão e o silêncio era m g randes; a noite estava fechada e
era muito tard e . H á m ulto tempo J u da s t i n ha parti d o .
Ti n h a m fa lado de tra ições, d e desonra, de tortu ras
e de morte . O efeito que tudo i sto pode produzir, no meio
daquela escura solidão, no ânimo de uns homens fracos e
i n defesos e ra notóri o .
41
Chegando à en tra d a d o h o rto, Jesus -ordenou q u e
ficassem a l i . Enca rrego u-os de velar e que não adorme­
cesse m, porq u e i ria fazer suas o ra ções, e pa ra q u e não
ca (ÍÍem em tentação, que fizessem o mesmo.

O SENHOR BUSCA A C ONS OLA Ç"'Ã O


EM SEUS DISCÍPUL OS

Adentrou no horto com Pedro, João e Tiago, mas tam­


bém se afastou deles à distância de um tiro de pedra ( Lc 22,
4 1 ) . O Senhor começou a sentir uma ang ústia profu nda e
d isse aos três d iscípulos m a i s q ueridos : Minha alma está
triste até a morte ( Mt 26, 38). A tristeza é u m senti mento
que nasce do pavor ou medo, a nte a dor q ue se está para
sofrer. Ambas as coisas, a tristeza e o medo, como se fos­
sem duas pesadas pedras, opri m i ra m o coração do Sen hor
até causar ang ústi a . Começou a terpavor e angustiar-se ( Me
14, 33) .
O Senhor tinha motivos para estar angustiado e tris­
te. Dura nte toda a sua vida, sofreu por amor aos homens;
mas naq uele momento a sua dor era a i n da mais forte . É
verdade que Jesus Cristo contemplava a Deus com infin ita
cla ridade e quem vê Deus desta maneira não sofre nenhu­
m a afl i ção e goza de u m a felicidade sem li mites . M a s foi
desejo de Deus que Jesus Cristo sofresse para que pudés-

42
semos ser redi mid os; sofreu a dor no seu corpo e sofreu
tristeza e a ngústia na sua a l m a . Demo nstrou que era u m
verdadeiro h o m e m ao sofrer, ao sentir e ao comove_r-se.
Não foi menos Redentor ao padecer fome, sede, cansaço
e fadiga no seu corpo, como também não foi menos Reden­
tor ao padecer tristeza, m e d o e a n g ústia na sua a l m a .
Quando u m homem sofre u m a terrível dor física e tem a o
seu alcance u m remédio eficaz e não o uti liza , dizemos que
este homem sofre porque q uer. Do mesmo modo, o Senhor
podia suprimir imediatamente a dor do seu corpo e d a sua
alma, mas não usou de seu poder divino, portanto, é certo
que sofreu porq ue desejou. E esse foi , talvez, o desamparo
de que se q ueixou na cru z : Meu Deus, meu Deus, por que
me abandonaste? (Mt 27, 46).
Uma das razões pela q ua l Jesus Cristo q u is sofrer a
dor no seu corpo e na sua a l m a foi para demonstra r q u e
era u m verdadeiro homem, com a nossa mesma natureza ,
q ue sentia como n ós a tortura e os i nsultos, que não era
"de bronze e de ped ra" (d. Jó 6, 1 2 ) .
Q u a n d o sentimos a força das ten tações n ã o deve­
mos desa n i m a r e pensar q ue perdemos a graça de Deus.
Estes senti m en tos não são pecados, mas man ifestações
da debilidade natural do homem. O Senhor q u is sentir esta
fraq ueza, fa zendo-se igual a nós - exceto no pecado -,
para q ue nós nos fi zéssemos iguais a Ele, na fortaleza e
n a o b e d i ê n c i a à v o n t a d e d e D e u s . C o m o d i z S a n to
43
Ambrósio: Não devem ser considerados valentes, os que mais
fendas recebem, mas os que mais sofrem por elas. Quis o
Senhor pa rticipa r como nós das dores do corpo e tam bém
das tristezas da alma, porque qua nto mais partici passe dos
nossos males, mais participantes nos fa ria dos seus bens.
Tomou a minha tristeza - diz Santo Ambrósio - para me
dar a sua alegria_- com meuspassos desceu à morte, para que
com os seus passos eu subisse à vida.
Tomou o Senhor a s n ossas enfermidades para q u e
fossemos curados, castigou a si mesmo pelos nossos peca­
dos, para q ue recebêssemos o perdão. Curou a nossa so­
berba com as suas h u m i l h ações; a nossa gula, bebendo
fel ; a nossa sensualidade, com a sua dor e a sua tristeza .
Por outros motivos que u ltrapassam o con hecimento
h u ma no, nosso Senhor m i sericordioso e amoroso, q u is ser
a çoitado, esbofeteado, coroado de espinhos, ter os pés e
mãos perfu rados, como ta mbém perm itiu que os enviados
das trevas o a tormentassem e a tristeza se a poderasse
do seu coração .

A TRISTEZA DE JESUS CfHSTO

O Senhor teve muitos motivos para ficar triste, e como


não q u is que fossem ate nuados, sofreu u m a a n g ústia de
morte no coração.
44
Aq uele d i a fora exa u stivo p a ra Jesus. Havia ca m i ­
n h a d o de Betâ n i a a Jerusa l é m , celebrado a ceia pasca l ,
lavado os pés d o s a póstolos e institu fdo o Sacra mento d a
Eucaristi a . Ti n h a conv ersa do d u ra nte mu ito tempo, pro­
curando a n i má -los e confortá-lo. Di sse que eles eram os
seus a m igos, os escolh idos, os com panheiros de suas pe­
nas; que deveriam estar mais unidos a Ele que o sarmento
à videira ; q u e a dor seria breve e a a legria grande; que
enviaria o Espírito Santo, p a ra defendê-los e ensiná-los.
Fa lou ta m bém que Ele partiria na frente recebendo no seu
corpo as feridas, e eles a lcançariam a vitória depois. Disse
por último que os deixaria, porque estava volta ndo para o
Pa i ; q u e d e v e r i a m fi ca r a l e g re s , p o r q u e e m b r e v e
retornari a .
Sofreu m u ito p o r Judas, demonstrou isto várias ve­
zes naquela noite, até o ponto de não poder d isfa rçar mais
a tristeza . Lutando contra a d u reza do seu coração, usou
leves insinuações, palavras claras e diretas, e mesmo com
provas de particu lar am izade e carinho não consegu i u con­
vencê-lo. Teve tanta dor e desgosto ao ver um a m i go se
converter em t raidor.
Na despedida de sua Mãe, a dor de Maria despeda ­
çou-lhe o co ração .
Em todas as ocasiões t i n h a p rocu rado dominar-se,
most ra r confia nça e esconder o que se passava n o seu
í n t i m o , p a ra confort a r os s e u s e c u m prir com o dever
45
daquela ú l tima cei a . M a s a tristeza contida tro u xe a i nda
mais dor q uando o Senhor se viu só no horto, longe dos
oito d i scíp u los q u e h a v i a m ficado à ent ra d a ; com eçou a
chora r, mostra ndo toda a sua a m a rgura, desejava a l iviar
o coração, co nsolar-se co m o a mor e a lealdade dos três
d iscípulos mais q ueridos. E foi a eles que d isse : Minha alma
está triste até a morte ( Mt 26, 38) .
Sentia grande aflição ao ver a perversidade dos seus
i n i mi gos . Do ódio nascia o desejo d e o matarem, d e in­
ventar i nj ú rias, de o torturarem, de zomba rem de sua amar­
g u ra . E ra como se o i n i m i go tri u nfa sse e Deus o tivesse
a bandonado. A sensação de ser oprimido pelos i n i migos,
fazia que cla masse ao Pai em seu a uxílio : Olhal� Senhor_
para minha miséria/ porque o inimigo se ensoberbece
(Lm 1 , 9).
Q u a n d o escuta rm o s o b ra m i do d e u m t o u ro ou o
rugido de um leão, mesmo protegido, ficamos a pavorados
em i m a g i n a r o q u e p o d e ri a acontecer se as feras esti­
vessem soltas; do mesmo modo, podemos pensar na an­
gústia que sentia Jesus, rodeado de tantas pessoas furio­
sas e com o poder de fa zer com ele o que q u isessem . O
povo esco l h ido voltou-se ferozmente contra C risto, assim
o profeta indicava : Meu povo foi para mim qual leão na flo­
resta/ a rugir contra mim (Jr 1 2 , 8 ) .
Em outra profecia , encontramos o ód io dos príncipes
dos sacerdotes e do povo : Cercam-me touros numerosos/
46
rodeiam-me touros de Basã; contra mim eles abrem suas
fauces_ como leão que ruge e arrebata (SI 2 1 , 1 3- 1 4 ) .
O S e n h o r já co n hecia os pla nos d e seus a l gozes .
Muito tem po antes o profeta a ntecipava toda dor e sofri­
mento : Instruído pelo Senhor_ eu o desvendei. Vós me fizes­
tes conhecer seus intentos. E eu, qual manso cordeiro con­
dUZido à matança, ignorava as maquinações tramadas contra
mim (Jr 1 1 , 1 8- 1 9 ) .
S a b i a ta m bé m q u e n e n h u m a m i g o o d efe n d e ri a
q uando estivesse rod eado pelos i n i m i gos e q u e sofre ria
todo tipo d e calú n i a .

Olho para direita e vejo: não há ninguém que cuide de


mim. Não existe para mim refúgio, ninguém que se interesse
pela minha vida (SI 1 4 1 , 5 ) . O desam pa ro dos a migos o
angustiava : Derramo-me como água, todos os meus ossos
se desconjuntam; meu coração tornou-se como cera, e
derrete-se nas minhas entranhas (SI 2 1 , 1 5 ) .

Com a proxi midade da morte, estava em sua mente


toda a dor e tormento que sofreria na cru z . Pensava na
i nj ustiça, nos insu ltos, nas ca lú n ias, nos escá rnios e nas
agressões q ue sofreria . O sim ples fato de imaginar assus­
tava mais que a própria morte . Os condenados tem os olhos
vendados para atenuar este senti mento, mas o Senhor não
teve nenhum alívio. Salvai-me, ó Deus, porque as águas me
vão submergir (SI 68, 2 ) .
47
I m a g i n a va ta m b é m Pi l atos, por m e d o e res p e ito
h u m a n o , enviad o-o a H e rodes, que o trataria como u m
louco n a frente d o s cortesões ; depois sendo devolvido a
Pilatos, que mandaria açoitá -lo; os soldados colocando em
sua cabeça u m a coroa d e espi n h os para zombar d e sua
realeza ; a sentença de morte na cruz. A dor e h u m i lhação
em seu coração eram maio�es quando imagi nava sua Mãe,
presenciando tudo j u nto às m u l heres que o seg u i a m .
E ra i m possível afastar d e s e u pensa mento a q u e l e
l u g a r terrível : o Calvário . Anteviu a cru cificaçã o : comple­
tamente despido, rebaixado como um marginal no meio de
dois ladrões, suspenso por mais de três horas, i n su ltado
pelos I n i migos e desa m p a rado pelos a m igos.
O Senhor não foi pou pado de nenhum destes senti­
mentos. Foi tanta dor que começou a ter pavor e angustiar­
se (Me 14, 3 ) .
Pa ra d esca nsar um pouco, ped i u a o s três a m i gos :
Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo
( M t 26, 38).

O VA l.OR INFI N I TO DE SUA DOAÇÃ O

Apesa r da gra n d e d o r e tristeza , n a d a i m pediria o


Senhor em obedecer ao Pai no ofereci mento de sua vida
para salvar a h u m a n i d a d e . M a s, com t a m a n h o peso e m
48
seus om bros, Ele entrou em agom�7 e ora va alnda com mals
lnstâncla, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a
escorrerpela terra ( Lc 2, 44 ) .
Jesus Cristo participava da essência d e Deus, e vivia
como que arrebatado na ânsia de servi-lo com toda a força
do seu amor. Conhecia todos os pecados cometidos e que
seri a m cometidos contra Deus. N.ão nos su rpreende que
Jesus te nha sofrido tanto; talvez muitos homens tenham
esta d o e m s i t u a ções mais d ra m á ti c a s , mas d e v e m o s
lembra r:

Não chames valente a quem recebe mals ferldas, mas


ao que mals sofre por elas, e as suporta.
Nlnguém como Cr/sto teve uma alma tão grande: a sua
dor foi' à medlda de seu amor; não compreendemos
lntelramente o seu amor, por lsso não compreendemos sua
dor.2

A dor, proveniente do a rrependi mento dos pecados,


levou a l g u ns homens a morrer. Se esta fag ulha do a m or
de Deus fez morrer estes santos, assi m podemos imaginar
o sofri mento de morte do Senhor, cujo amor a Deus e aos
homens não tem med ida , é fogo eterno !
S e o a póstolo São Pau lo, em s u a seg u nda epístola
aos ro ma nos, confidenciava q u e a preocupação com as

2. São João de Ávila. Audi Filia.

49
igrejas era mais importa nte que seu cansaço e as perse­
gu ições que sofria, podemos i maginar como seria o sofri ­
mento do Senhor, q u e t i n h a u m a caridade infin itamente
maior q ue o a póstolo e desejava sa lva r a todos, mesmo
que fosse com a própria vida; que a mava tanto aos homens
e sabia a grande desgraça que é perder a a m izade de Deus
e fica r privado para sem p re de sua presença e a mor. Só
Ele podia entristecer-se no fu ndo da alma pelas ofensas a
Deus, q u e ocasionariam a condenação etern a .
N osso Senhor ti n h a tomado como s e fossem seus
todos os pecados e estava disposto a pagar pessoalmente
todas as d ívidas pera n te o Pa i ofendido.

Todos nós andávamos desgarrados como o velhas,


seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor razia recair
sobre ele o castigo das faltas de todos nós ( ls 53, 6 ) .

O Senhor p o r a m o r aceitou a rigorosa sentença d a


j u stiça divina, e carreg o u todos o s pecados co metidos e
q u e se cometeri a m até o fi m dos te m pos. É i m possível
calcular a maldade cometida pela h u ma n idade, mais ainda
a dor de Cristo.
Quando uma pessoa paga a dívida de outra, não fica
com vergonha, pelo contrá rio, o rg u l ha -se por pagar u m a
conta que n ã o era obrigado. Mas Cristo pagou nossas d ívi­
das com o se fossem suas, por isso não pagou somente '
com o seu sangue, mas com a vergonha desses pecados.
50
Continuamente estou envergonhado; a confusão cobre­
me a face ( S I 43, 1 6 ) . Pois foipor vós que eu sofri afrontas.
Bem vedes minha vergonha (SI 68, 8 . 20) .

O Senhor ta mbém ped i u perdão pelos pecados, como


se fossem seus . Quando alg uém comete um delito, mu itos
amigos, para não perder a honra, afi rmam não o conhecer,
e se um a m i g o aj uda, deixa claro q u e não tem n e n h u m
vínculo c o m o ocorrido. Jesus, de maneira i n versa, apre­
senta-se sempre para socorrer a todos d iante do tribunal
d i v i n o , mesmo que sej a m o s d e l i n q u entes e peca d o res,
c h a m a n d o - n os em a lta voz de a m igos, i rmãos, fi l hos e
mem bros de seu corpo. Defende nossa a bso lvição e paga
as nossas penas. Embora tivesse rogado três vezes para
que se fosse possível afastar o cálice de sua morte, sabia
que não seria atendido, pois carregava o peso de nossos
pecados como se fossem seu s . E permaneceis longe de
minhas súplicas e de meus gemidos? (SI 2 1 , 2 ) .

Como seria sua tristeza que o fez suar sangue. Que


vergonha passaria quando diante de Deus, escutaria o peso
de nossos pecados, como se fossem seus. Aí de nós, porque
nós os fizemos! 3

Parece q u e a tristeza d e Jesus Cristo não poderia


ser maior, mas au mentou mais ainda pela nossa ingratidão.

3. S ã o J o ã o d e Á v i l a . Tra tado 1 0 d o Santíssimo Sacramen to, 7 .

51
Viu que m u itos não reco nheciam, outros não a preciavam
e que vários não agradeciam seu esforço em nosso favor;
e q u e, m e s m o d e p o i s de d e rra m a r o seu sa n g u e p a ra
limpar nossa i m u ndice, m u itos terminariam na condenação
eterna. Seu coração foi ferido de tal maneira que é i m pos­
sível descrever com palavra s . Sentia o novo pecado dos
homens : o desprezo pelo seu amor. A ingratidão d ilacera
m u ito mais quando provêm dos cristãos, pois estes rece­
beram as maiores provas de amor.
Jesus sentiu uma m istu ra de dor e consolação, quan­
d o seus discípu los l utava m contra as tentações. V i u sua
mortificação e pen itência ; as perseguições, i njúrias e humi­
l h a ções que sofreri a ; o tra b a l h o , o cansaço e a d o r, e
m u itas vezes o m a rtíri o . Pre v i u o padeci mento de seus
s e g u i d o res, que seri a m p e rseg u i d os por causa d e seu
nome e de sua doutri n a . O Senhor tom o u tudo para si e
isto dilacerava seu coração.
Quando Saulo perseguia os cristãos, disse : Por que
me persegue? De forma a náloga, viu as pedras que mata­
ram o diácono Estevão, o fogo que queimou Lourenço. As
t r i b u lações dos sa ntos fo ra m a s s u m i d a s p o r C ri sto . O
sofrimento de Corpo M ístico, q u e é a Igreja, são os sofri­
me ntos do seu p ró p rio corpo . Ele q u e conhecia t u do e
compreendia melhor que ni nguém a dor, em suas orações
ofereceu tudo ao Pa i .

52
A ORAÇÃ O NO J-IORTO

O Senhor forneceu u m exce lente exem p l o do q u e


devemos fazer quando estamos tristes : recorrer à oraçã o .
A natureza humana de Cristo rejeitava a cruz, mas pros­
trou-se e rezou, procurando a fortaleza de Deus. Sabia que
tudo é ordenado pela Prov idência D iv i n a , q u e nem u m a
folha cai sem permissão. Quando orares/ entra no teu quarto/
fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo/ e teu Pai, que vê
num lugar oculto/ recompensar-te-à ( Mt 6, 6 ) . Como tinha
ensinado, afastou deles à distância de um tiro de pedra (Lc
22, 4 1 ) , prostrou-se com a facepor terra e orava (Me 14, 3 5 ) :
Pai , meu Pai . . . Começou a consola r-se com o Pai , o mesmo
que o enviava para a morte. Obedecia como Filho, mas ao
contrário de Isaac, seus olhos estavam abertos . Ensinou­
nos a chamar Deus de Pai , mesmo quando parece que nos
castiga .
Meu Pai, se é possívei ( M t 26, 39 ), se é do teu agrado
afasta de mim este cálice/ ( Lc 22, 4 2 ) . Suplicava para não
beber do cálice a m a rgo : Eu não quero nada que Tu não
queiras/ porém/ se Tu quere� se épossível, faz que não beba
este cálice. Sentir aversão perante a dor e q uerer evitá-la
não d i m i n u i o mérito, pelo contrário, aumenta quando se
co nforma com a vontade de Deus. Jesus mostrou u m a
aversão natural ante a d o r - Afasta de mim/ este cálice ­
mas acrescento u : Se é possível, se Tu queres. Assim Cristo
53
submete-se e abraça a vontade do Pai : Todavia não se faça
o que quero, mas sim o que tu queres ( Mt 26, 39).
Quem pede é o Filho U nigênito de Deus, no qual seu
Pai ti nha posto todas as complacências. Aq uele que tudo
pode, com seren idade e respeito, pede apenas que o livre
de uma morte cruel que não merece, mas que aceita com­
pleta mente a vontade do Pa i .
O Senhor ensina como orar a o Pa i : Que não se faça
como eu quero, mas como Tu queres.
Jesus leva ntou e se aproximou dos d iscípulos. Esta­
vam todos adormecidos pelo cansaço, acordou-os para que
estivessem vigi lantes pera nte o encontro que se a g u a r­
dava . Sabia que Judas estava bem acordado e rea lizando
sua tra ição naquele m o m ento. Entristeceu -se a o ver os
a póstolos entorpecidos pela preg u iça, principal mente com
Pedro, que tinha prometi do seg u i -lo até a morte .
A ele dirigiu estas palavras : Pedro, t u ta mbém dor­
mes? Não pudeste vigiar uma hora! ( M e 1 4, 37). Dizia que
me seguiria na pn"são e morreria por Mim. E agora que preCiso
de sua companhia, não consegue ficar acordado comigo nem
por um breve momento? Não percebe que Eu precisava des­
cansar um pouco, enquanto você devia ficar acordado para me
defender? Ped ro ficou emudecido.
O Sen hor volto u -se aos outros, que ti nham i m itado
a Pedro, tanto na p resu n ção como na preguiça, e disse­
lhes : Vigiai e orai, por mim e por vós, para que não entret"s
54
em tentação. N ã o se desc u idem e não confiem nas boas
i ntenções; fiquem firmes em oração, mesmo com o espírito
pronto para padecer a carne é fraca .
I med iatamente o Senhor colocou em prática aquilo
q ue acabara de ensi nar. Voltou a afastar-se dos discípulos
para renovar sua oração: Meu Pai, se não é possível que este
cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade ( M t
26, 42).
Novamente voltou, preocupado com a fraqueza dos
apóstolos, e o u tra vez os e n controu adormecidos. Como
era m preg uiçosos em rezar, demonstrava m como seriam
fracos na ação. Desta vez o Senhor não d isse nada, talvez
para não os afligir mais a i n d a ; ti n ha-os repreendido u m a
vez, n ã o q ueria embaraçá-los novamente . A vergonha era
ta m a n h a q u e n ã o sabiam o q u e d i zer. Ta m bém nós n ã o
sabemos o que responder ao Senhor pela pouca com panhia
que fazemos na sua Paixão. Ficamos com os olhos pesados,
com sono, de tanto olhar para o que nos afasta de Deus .
Nova mente o s deixou e pela terceira vez foi orar; pro­
n u nciou as mesmas palavra s . Q u a n d o esta mos tristes e
opri m idos não são necessárias palavras novas para d i rigir
preces a Deus; bastam as mesmas, repetidas vezes, para
q u e o Sen hor escute.
Persevera na oração, bate a porta que ela se abrirá.

55
GOTAS DF SA NGUE

S ã o Lucas c o n ta q u e e ra g ra n d e a " a g o n i a " d o


Senhor nesta terceira volta . Ago n i a s i g n ifica : esta d o de
transição que precede a morte, espaço de tempo que dura
este estado, luta, sofri mento, a ma rgura . Cristo lutava den­
tro de si ; por um l a d o esta v a a n a t u reza h u m a n a q u e
rejeitava esta morte, do outro a natureza divina que dese­
java obedecer ao m a ndato de seu Pa i . O Espírito lutava
contra a carne e a n imava-o a aceitar o martírio. Nesta ba­
talha o Senhor rezou com mais fervor e a oração foi longa.
Angustiado, violentou-se a si mesmo com tanta força , que
algumas vei as se romperam , fazendo ca ir gotas de sangue
pelo chão. Não suou sangue por medo, mas pelo esforço
i m e n s o em obedecer p l e n a m e nte a v o n t a d e de D e u s .
Quanto mais a umentava o seu sofri mento, mais s u a oração
se i n tensifi cava ; cla m a ndo para que o cál ice fosse afas­
tado, porém, mais ainda, que fosse feita a vontade do Pai .
Todos o s a njos contemplavam a cena, e m q u e o Filho de
Deus agonizava e suplicava três vezes para se evitar esta
morte tão cruel e vergonhosa. Ag uardavam o resultado da­
quela súplica ; como Abraão guardou sua espada perante
seu fi lho Isaac; igualmente, talvez Jesus fosse poupado.
D e u s m o s t r o u a o s a nj o s q u e s u a v o n ta d e e ra
sobera n a e que aceitava a oração de seu Fi lho, e assi m ,
s e cum priria toda justiça e misericórdia, toda d ívida pelos
56
pecados ficaria paga e seria a b e rta a sa lvação aos h o ­
mens. Todos os a njos ad orara m a Deus pela s u a infi n ita
sabedoria e incompreensível bondade.
Uma oração h u milde e perseverante, nunca fica sem
resposta . A decisão tomada a ntes da criação do m u n d o
n ã o seria m udada . Deus enviou-lhe u m anjo para confortá­
lo. Evidente que um anjo não poderia trazer uma paz maior
que a q u ela que Jesus t i n h a passado aos apóstolos . Mas
naq uele momento de solidão, o Senhor se sentiu q uerido
e foi confortado. Assi m, ensina o Mestre, q ue humi ldemente
devemos aceita r e procurar consolo, mesmo que seja em
pessoas aparen temente s i m p les.
Term inada a o ração, o Senhor leva ntou -se e nova­
mente encontrou os apóstolos dormindo. Despertou-os com
uma aparente i ronia : Dormi agora e repousai/ (Mt 26, 4 5 ) .
C o m isto q ueria d izer: ótimo l u g a r e ocasião para dormir,
o i n i migo está perto para me prender; solicitei que rezas­
sem e vigiassem comigo, mas agora é tarde. Como não se
leva n tavam, g ritou : Basta! Veio a hora! o Filho do homem
vai ser entregue nas mãos dos pecadores (Me 14, 4 1 ) .
Ultrajado era o senti mento do Senhor, por aq ueles
q ue o prendiam, e mais ainda por Judas, pois era u m após­
tolo e o vendia por pouco va lor. Judas não barganhou, con­
formou -se com o valor pag o : Que quereis dar-me e vo-/o
entregarei ( M t 26, 1 5 ) . Agora, o Senhor não ocultaria mais
o desgosto pelo traidor: Levantai- vos e vamos! Aproxima-
57
se o que me há de entregar ( M e 14, 42 ) ; ele não perdeu
tempo e nem está dormindo.
Enco ntra mos n este episód i o dois g ra n des ensina­
mentos : a o ração sem p re é efi caz, embora a consolação
fosse pequena, a forta leza para vencer foi enorme; e dian­
te de Deus precisa mos abrir i nteiramente nosso coração
como fez Davi : Ponho diante dele a minha inquietação, eu lhe
exponho toda minha angústia (SI 1 4 1 , 3 ) . Perante a d ifi­
culdade é preciso mostrar va lentia e enfrentar os que nos
perseg u e m .

jESUS É PR ESO

Após sair, J udas que não acreditava mais em Jesus,


pois o considerava um enganad or, começou a organizar
como o entregar. Foi à casa dos príncipes dos sacerdotes
para ind icar q ue aquela era a ocasião o portuna para q u e
s e cum prisse o combinad o . Assi m d e u as coordenadas para
a captura. Conseg uiu uma comitiva de soldados da guard a .
Parecendo pouco, m a n d a ram criados e alguns dos prín ­
ci pes dos sacerdotes, co m isso davam uma autoridade ao
fato, pois estes foram s u mos sacerdotes em a n os ante­
riores . Todos estavam bem a rmados e e q u ipados, co m
espadas e paus, la nternas e tochas. J ud a s a rm o u t u d o
para que nada saísse errado. Na cidade todo este alvoroço
58
não passou despercebido. J u ntou-se todo tipo de gente :
j udeus, gentios, servos, comerciantes, vagabundos, pros­
tituta s ; todos nesta n o i te p re n d e r i a m Jesus, porq ue a
g raça da redenção seria para todos .
J udas tomou o comando d a operação. São Lucas d i z
que : à testa deles vinha um dos doze, que se chama va Judas
( Lc 22, 47), e que é confirmado pelos Atos dos Apóstolos :
roi o guia daqueles que prenderam Jesus (At 1, 1 6 ) . Judas, o
traidor, conhecia também aquele lugar, porque Jesus ia
Frequentemente para lá com seus dic;cípulos (Jo 18, 2), então
escolhendo a noite, q uando Jesus estaria com poucos ami­
gos e fora de cidade, evitaria tumulto e resistência de seus
segu idores, satisfazendo assim o temor dos pontífices que
tinham medo e queriam prender Jesus após a Páscoa. O
poder das trevas buscava na escuridão a Luz Eterna, seria
necessário então tochas e lanternas. Como era noite, seria
necessário um sinal para que não houvesse engano, pois
a l g u ns não conheciam Jesus. Um beijo foi o modo q u e
J u d a s e n contro u . C o m u m óscu lo n o rosto , a saudação
ha bitual en tre amigos, sina liza ria para captu rarem Jesus.
Agindo com falsidade e d u plicidade, ca racterísticas de um
traidor, entregaria Jesus com um beijo, pensa ndo que des­
te modo passa ria tra n q uilo como seu amigo, pois era um
dos a pósto los. Co m u n i cou a todos o s i n a l para p render
Jesus: Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o! (Mt 26, 48 ) .
Vemos q u e n e m se m pre aqueles q u e seg uem Jesus são
59
b o n s , m u itas vezes se torn a m c o m o J u d a s , os p i o res
tra i dores.
J udas e seu séquito saíram da cidade em direção ao
Monte das Oliveiras. As a rmas brilhavam à luz dos a rchotes.
O traidor ca m i nhava na frente, como se fosse pacifica r a
cidade, prendendo u m chefe de q u a d r i l h a . Chegara m ao
Horto de Getsêmani, no momento que Jesus a i nda fa lava
com os discípulos.
O Senhor demonstrou a sua divindade, entregando­
se livremente. Mesmo com o beijo, nada aconteceu como
J u d a s t i n h a pla nej a d o ; n i n g uém recon heceu e prendeu
Jesus, e ele não passou despercebido pera nte os o utros
a póstolos. Quando Judas aproximava-se, Jesus foi ao seu
encontro. Fingindo-se amigo, saudou-o : Salve, Mestre. E
beijou o (Mt 26, 49) . O Senhorque somente querapaz aceitou
-

o ósculo (cf. Sl 1 1 9, 7 ) . Com ma nsidão aceitava aquele beijo


para mostrar q u e se entregava por vo ntade própri a .
Fazendo o b e m para quem lhe fazia mal, depois d e
ter recebido o beijo, mostrou ca rinho d e amigo, cha ma ndo­
o pelo nome, não censurando e perguntando-lhe com ter­
nura : .Judas, com um beijo trais o Filho do homem? ( Lc 22,
48), com sinais de amor e paz me entrega à morte? Amigo,
é então para isso que vens aqui? (Mt 26, 50) . M i n ha dor é
maior porque vem de u m a m igo, se o ultraje viesse de um
inimigo, eu o ter/a suportado; se a agressâó partisse de quem
me odeia, dele me esconderia (SI 54, 1 3 ) .
60
Judas ficou emocionado diante da serena reação de
am izade demonstrada pelo Senhor; perante o olhar do Mes­
tre ficou pa ra lisado. Mas, a d i s posição para o mal venceu,
então, juntou-se aos soldados. Mesmo após o sinal, nenhum
soldado p re n d e u J e s u s ; a p risão não seria como ti n h a m
planeja Fam , seria somente q u a ndo Jesus permitisse.
Judas tinha se afastado e os soldados não o pre n ­
diam. Como Jesus soubesse tudo o que havia de lhe acontecer;
adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais? (Jo 18, 4 ) .
Cegados n ã o o v i a m , Judas conti nuou calado, e eles res­
pondera m : A Jesus de Nazaré. Todos os preparativos fora m
in úteis, mas Jesus d eu-se a conhecer: Sou eu. A voz ma­
jestosa e imponente sa iu como um raio, espantados recua­
ram e caíram por terra (Jo 18, 6), esta q ueda representava
a ru ína do templo.
Os a póstolos a legraram-se com a força de seu Mes­
tre; com uma resposta derrubou um exército. Perante Ele
não há nenhum poder. O que acontecerá com os ímpios,
quando Ele vier julgar?
Jesus estava i m ponente e os soldados caídos. Quan­
do se leva nta ra m , p e rg u nto u - l hes nova mente : A quem
buscais? Pera nte a g randeza de Jesus, deviam adorá-lo e
servi-lo, mas não recon hecendo sua realeza, persistiram em
n a i ntençã o : A Jesus de Nazaré. Percebendo que não e ra
p o s s í v e l fa z ê - l o s e n x e rg a r , e p re o cu p a d o c o m s e u s
discípulos respondeu-lhes : Já vos disse que sou eu. Se é, pois
61
a mim que buscais, deixai ir estes (Jo 1 8 , 8 ) . N ã o ped i u ,
o rdenou , somente assim Ped ro q u e feri u u m servo d o sumo
sacerdote poderia sa i r i leso. Todos obed eceram e assi m se
cumpriu as Escrituras: Conservei os que me deste, e nenhum
deles se perdeu, exceto o filho da perdição ( Jo 1 7, 1 2 ) . Entre
aquela m u ltidão, estava Ma lco, servo do sumo sacerdote,
que estava indignado pelo que havia escutado sobre Jesus.
Quando o Senhor se revelou, Malco o atacou violenta mente.
Os discípulos vendo que a situação era dramática, pergun­
ta ra m : Senhor, devemos atacá-los à espada? ( Lc 22, 49 ) .
Pedro n ã o esperou nenhuma autorização, desembainhou a
espada e desferiu o gol pe na cabeça de Ma lco, pega ndo de
raspão no capacete corto u - l h e a o relha d i reita .
J esus, que desejava entregar-se l iv remente, vendo
que Ped ro e os ou tros, tentavam defendê-lo, disse : Deixai_
basta! ( Lc 22, 5 1 ) . Com a habitual piedade, tentando abran­
dar a ira de M a lco, toco u - lhe a ferida e curou-o. É ass i m
que Jesus domina o ód i o d o s i n i migos, com caridade.
Após curar a ferida do i n imigo, corrigiu os discípu los,
mostrando novamente que oferecia sua vida por vontade
própria, para se cum pri r ãs profecias e o ma ndato do Pai .
Embora o s i n i m i gos atacassem, mandou : Embainha tua
espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela
espada morrerão ( M t 26, 52). Eu não fujo da morte, aceito­
a com amor, não são eles que me matam, mas a vontade
de meu Pai, então, não hei de beber eu o cálice que o Pai me
62
deu? (Jo 18, 1 1 ) . Crês tu que não posso in vocar meu Pai e
ele não me enviaria imediatamente mais de doze leg1ões de
anjos? Mas como se cumpririam então as Escnturas, segundo
as quais é preciso que seja assim? ( M t 26, 53-54 ) .
E m bora fosse p reso porq u e q u i s, foi u m a desonra
para Jesus, pois era u ma pessoa conhecida por suas vir­
tudes, pelos milagres e por suas pa lavras. O povo conside­
rava-o como um profeta . Mas foi preso como um ma lfeitor,
um ladrão. O Senhor que tinha deixado passar várias injú­
rias, desta vez foi incisivo : Saístes armados de espadas e
varapaus, como se viéssel.s contra um ladrão ( Lc 22, 5 2 ) .
Exprimia seu sentimento pelo q u e faziam : cegos e engana-
o
dos, tratavam"'"c omo um malfeitor; estava sempre no meio
deles, na cidade, mas o prenderam no campo; usaram de
armas para quem só pregava a paz ; buscaram u m traidor
contra aq uele q ue sem pre fora leal e fazia tudo as claras.
Por que não se atreveram a me prender antes? Fize­
ram de noite, como se prendessem a um ladrão; mas só o
fizera m , porq u e consenti . Mas esta é vossa hora ( Lc 22, 53),
e é isso q u e perm ite a m i n h a prisã o ; são as trevas com
seu poder q ue lhes movem.
Com estas palavras, os demônios e seus servidores,
encontraram -se livres para fazer com Jesus, o que bem en­
tendessem . Aga rrara m-no e golpea ram-no com violência e
insu ltos. Depois a m a rrara m as m ãos, prendendo assim, o
autor da liberdade . Talvez mu itos dos que o ataram, disses-
63
sem depois: Senhor quebrastes os meus gnlhões. Oferecer­
vos-eium sacrifício de louvor(SI 1 1 5, 7 ) . Judas andava ao lado
dos sacerdotes e mag istrados, comentando o seu êx ito .
Os a póstolos, envergonhados e assustados, esque­
cendo-se do que tinham prometido, o abandonaram e fugi­
ram (Me 1 4, 50).
Seguia-o um jovem coberto somente de um pano de
linho ( Me 14, 5 1 ) , talvez, acordado pelo g rande alvoroço e
barulho q u e faz i a m os q u e tra z i a m Jesus. Foi notado e
tentaram prendê-lo, mas larga ndo o lençol, esca pou n u .4
Assim ta mbém acontece conosco, sofremos mais por fugir
da cruz, do que de segui-la.
Os a póstolos, d ispersos pela fuga, talvez se reu n is­
sem na casa onde tinham ceado; contaria m a M aria todo
o ocorrido no horto; descreveriam a prisão de seu Filho, e
a Virgem ficaria ferida com uma dor profunda, embora con­
formada com a vontade de Deu s.

O SENHOR É ENTREGUE A OS f'ONTiFICES

Volta n d o a Jerusa l é m , passara m novamente pela


Torrente d o Cedro n , l e v a n d o J es u s a m a rra do como se
fosse um ladrão, com pressa e gritando ; aos empurrões e

4. Segundo a Tradição, esl e seria o próprio M a rcos, autor do Evangelho.

64
com pancadas d e rrubava m-no, e d e pois levantavam-no
brutalmente.
Levaram-no a residência de Ca ifás, sumo sacerdote.
Era ta mbém presidente do conselho que se chamava Si né­
d rio, loca l onde se reuniam setenta e dois juízes. Era por vol­
ta da meia-noite, porque depois da ceia, quando Judas saiu
"era noite". Jesus t i n ha conversado durante um longo tem­
po, su bido ao horto, orado e só depois foi preso; tinha-se pas­
sado m uito tempo. Os juízes e anciãos daquele povo, esta­
vam tão obcecados que, para não perderem tempo e conde­
narem o Senhor, reu n i ram-se mesmo sendo tarde da noite.
E ntrou Jesus em Jerusa l é m , grande Sacerdote da
Nova Aliança, para oferecer a sua vida em sacrifício agra­
dável a Deus pela redenção do mundo. O processo come­
çou na casa do sumo pontífice, onde estava m reu nidos a
sua espera, os sacerdotes e doutores da lei. Antes, porém,
os soldados leva ra m -no a casa de Anás, sogro de Caifás.
Honrando ass i m , sog ro e genro, e desonrando o Senhor.
Anás enviou-o preso ao sumo sacerdote Caifás (Jo 18, 24 ) , a
quem competia conduzir o processo . Caifás foi quem deu
aos judeus o conselho: Con vém que um só homem morra
em lugar do povo (Jo 18, 14). Ele que tinha dado o conselho,
estava d isposto a executá-lo. Na sua casa a contecera m
todas as coi sas q u e se contam desta noi te .
Em bora , depois da prisão n o horto, todos o s d iscí­
p u los ten h a m fu g i do e deixado Jesus. Preocupado p a ra
65
onde levariam o seu S e n l1 o r, mesmo com medo, Pedro
seguia-o de longe ( M t 2 6 , 58 ) . Ta m bém o seg u i a ou tro
discípulo, que ti nha certa a m izade com o sumo sacerdote.
C h e g a n d o a casa de C a i fá s , e n trou J es u s e toda
aq uela comitiva que voltava do horto; p rovavelmente ou­
tros se i ncorporaram atraídos pelo alvoroço pelas ruas da
cidade.
Entrando, logo dispensariam o tribuno e os soldados
romanos com uma quan tia generosa . Fechariam as portas
para evitar curi osos, com isso ficariam somente os j u ízes
e as pessoas i m porta ntes no processo . Vig i a nd o a porta
estava uma criada, o o u tro d i scípulo, por ser conhecido,
conseg uiu entrar. Ao notar q u e Pedro tinha ficado de fora,
ju nto à porta, o d iscípulo ped i u e a porteira deixou-o en­
trar. Naquela noite, a verdade tão perseguida seria negada
por Pedro.
Levaram o Sen h o r na presença do pontífice . Pedro
e o outro d iscípu lo estavam presentes e teste m u n ha ra m
o ocorrido. O pontífice, j unto com os sacerdotes e doutores
da lei , exa m i navam o processo contra J esus. Pela manhã
pretendiam real izar outro conselho, este pleno e legítimo;
o processo noturno seria u m a p reparação para poderem
encontrar provas e condenar o Senhor à morte. Conside­
ravam-no um farsante e a g itador, p regador de mentiras
contra a Lei e a tradiçã o . O sumo sacerdote examinou pri­
meiro sobre os discíp u los; q uem e quantos era m ; depois
66
s o b re a d o u t ri n a q u e e n s i n a v a , p a ra tenta r e n co ntra r
alguma mentira ou erro.
O Sen hor nada d isse sobre os d i scípulos, todos ti­
nham fugido escandalizados e envergonhados, e Pedro que
estava presente, atemorizado, não fa laria em sua defesa.
Considerando a razão das perg u ntas, bastari a responder
sobre sua doutrina, que sendo boa e de Deus, não poderia
reu n i r discípulos para uma causa perversa . Assim respon­
deu : Faleipublicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no
templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas
(Jo 18, 20), vocês poderi a m suspeitar, se a doutrina é noci­
va, se eu falasse escondido, mas nada d i sse em seg redo.
Nas vezes q u e fa lei a sós com meus d i scípu los, foi p a ra
explica r as pa rá bolas, nada fa lei de diferente ou pa ra se
ocultar, pelo contrário, era exatamente para que pudessem
entender e assim transmitir a todos. Sendo assi m, por que
me interroga? Pergunta àqueles que ouviram o que lhes disse.
Estes sabem o que ensinei (Jo 18, 2 1 ), nestes acreditareis
mais do q u e a m i m .
U m d o s servos não gostou d a resposta , d ita com
tanta verdade e serenidade, parecia que faltava com res­
peito e rebaixava o sumo sacerdote; esbofeteando firme­
mente Jesus, disse : É assim que respondes ao sumo sacer­
dote? (Jo 18, 22 ) .
O Senhor não perdeu a serenidade, a pesar d a violên­
cia feita por u m sim ples servo na presença de todos. Além do
67
insu lto e da agressão, dava a entender que a resposta não
era verdadeira, e nem q u e sua doutrina era divi na. Não seria
h u mildade se calar dia nte deste ultraje . Calmamente, Jesus,
mostrou ao ag ressor q u e a vio lência fe ita e a om issão do
pontífice eram i nj ustas, n ã o havia motivo a l g u m p a ra lhe
bater. Se o j u lga mento fosse justo, com petia a penas ouvir
a s teste m u n h a s e d e p o i s dar a s e n te n ç a , mas como o
julgamento nascia do ódio e da i nveja, jamais seria i m parcia l .
Jesus respondeu ao servo : Se falei ma� prova-o, mas
se falei bem, por que me bates? (Jo 1 8 , 2 3 ) . N e n h u m a
resposta podia s e r m a i s a certada, j u sta e oportuna . Por
ter agred ido Cristo, este ca nalha mereceria que a terra se
a b risse e o tragasse. Mas Deus foi paciente, em vez de
castigar, venceu pela bondade.
O Senhor estava disposto a oferecer seu próprio cor­
po para ser imolado na cruz. Por isso, não deu a outra face,
como tinha ensinado, além d isso é melhor responder com
a verdade, que oferecer a outra face por orgulho, vaidade
ou aparência. A humildade está no interior, não n u ma ati­
tude extern a .
Se o processo fosse justo, a resposta do Senhor teria
sido correta e a ceita . M a s o j u lg a m ento estava viciado na
ra iz, os j u ízes eram i m parciais e d issi mulados. A inveja e o
medo de que os romanos destruíssem o tem plo fez com que
todos estivessem com o veredicto de morte pronto. Os prín­
cipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso
68
testemunho contra .Jesu� a fim de o levarem à morte (Mt 26,
59). Seria necessário mentir, porq ue na vida do Senhor não
encontra ri a m nenh u m pretexto p a ra condená-l o . M u i tos
esta va m d ispostos a d a r fa lsos teste m u n hos, a l g u n s por
medo, outros pa ra ficarem bem com os sacerdotes. Todos d i ­
ziam mentiras e contradições; falavam que Jesus tinha pacto
com o demônio, q u e não respeitava as festas, q ue era g lutão
e beberrão, que era a m igo dos publicanos e pecadores, q u e
incitava o n ã o pagamento do im posto, que blasfemava . Con ­
tudo disseram u m a verdade : q u e era Fi lho de Deus.
Os fa lsos testem un hos, como não estavam ensaia­
dos e se contradizi a m , não foram convincentes para con­
denar Cristo . Apresentaram-se mais duas fa lsas testemu­
nhas, que declararam : Este homem disse: Posso destruir o
templo de Deus e reedificá-lo em três dias (Mt 26, 6 1 ) . Ouvi­
mo-lo dizer: Eu destruirei este templo, feito por mãos de ho­
mens, e em três dias edificarei outro, que não será fe1to por
mãos de homens ( M e 1 4 , 5 8 ) . E ra evidentemente fa lso,
Jesus não disse que podia ou destruiria o templo, mas que,
q u ando fosse destru ído, constru iria o utro "não feito por
mãos dos homens", ele falava do templo do seu corpo (Jo 2,
2 1 ) . Isto sign ificava que quando morresse, ressuscitaria
em três dias. Mesmo d i storcendo as pa lavras, ainda não
tinham provas suficientes para o condenarem à morte.

69
O SfNNOR [ CONDENA DO

O Senhor manti nha-se ca lado perante as ca lúnias e


os falsos teste m u n hos . Ti nha percebido pera nte sua pri ­
meira resposta que os ju ízes não estavam buscando a ver­
dade, e aquela reu nião, q u e só ti nha aparência de j u lga­
mento, na verdade era um covil de lad rões.
O s u m o sacerdote, i m paciente e irado, vendo q u e
c o m fa lsas testem u n has não conseg u i a condená-lo, per­
g u ntou : Nada tens a responder ao que essa gente depõe
contra ti? (Mt 26, 62 ) . q u e espécie de arrogâ ncia é essa?
Jesus se calava e nada respondia (Me 14, 6 1 ) . Não con­
vinha que o Filho de Deus falasse por medo a um mero mor­
ta l. Quando se é inj uriado, desprezado, ofendido e calunia­
do, g ra n d e é o mérito d a v i rtude da paciência e m ficar
calado. Inclusive é perigoso fa lar nestes momentos; acon­
selhava o profeta : Velarei sobre os meus atos, para não pecar
mais com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto
o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resul­
tado, porque minha dor recrudesceu (SI 38, 2-3). Mostrou o
Senhor g rande mansidão, profetizada há m uito tempo: Foi
maltratado e resignou-se.: não abriu a boca, como um cordeiro
que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos
do tosquiador (Is 53, 7 ) . O Rei Davi havia proclamado : Ami­
gos e companheiros rogem de minha chaga, e meus parentes
permanecem longe. Os que odeiam a minha vida, armam-me
70
ciladas/ os que me procuram perder_ ameaçam-me de morte/
não cessam de p/anejar traições. Eu, porém, sou como surdo:
não ouço_- sou como mudo que não abre os lábios. Fiz-me como
um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a
dar (SI 37, 1 2 - 1 5 ) . Foi exatamente o que fez o Senhor.
Cansado, o sumo sacerdote decid i u perguntar-lhe d i ­
retamente o que desejava e necessitava ouvir para conde­
ná-lo a morte. Sabiam que o chamavam de Filho de Deus,
e i sto e ra para eles u m a bl asfê m i a . Usando o nome de
Deus, para que não se calasse, pergunto u : Por Deus vivo,
conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus? ( Mt
26, 6 3 ) . E esta foi a única acusação q ue fizeram perante
Pilatos: Nós temos uma lei_ e segundo essa lei ele deve morrer,
porque se declarou filho de Deus (Jo 19, 7 ) .
O Senhor foi obrigado a proclamar a verdade, honrar
o nome de seu Pai, m esmo q u e isso o levasse a morte : Eu
o sou. E vereis o Filho do homem sentado à direita do poder
de Deus, vindo sobre as nuvens do céu ( Me 14, 62) . Agora
me veem, humi lhado e preso, mas em breve me vereis como
j u iz do céu e da terra .
Ao ouvir a resposta, o sumo sacerdote furioso ras­
gou as vestes, como era costume dos j udeus q uando escu­
tavam uma blasfêmia . Caifás, para agravar a cena, exage­
rava na d ramatização, ficando com o peito desnudo. Jesus
pode ver a que ponto chegava a i nveja e a maldade. O ve­
lho sacerdote não pode o u v i r a m a i o r verdade de todas
71
as verda des que o Novo e Eterno Sacerdote proclamava,
preferiu c h a m a r a verdade de blasfêmia . Q u a n d o Pedro
confessou que Jesus era o Filho de Deus, fundou a Ig reja ;
quando Caifás negou-o e chamou de blasfemo, a sinagoga
foi enterrada para sem pre .

Lança o olhar à volta e vê: reúnem-se todos e vêm a ti.


Por minha vida, diz o Senhor, de gala te revestirás, como uma
noiva te cingirás (Is 49, 1 8 ) .

A igreja é a veste do Senhor, embora perseg u ida,


está fu ndada sobre a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e
as portas do inferno não prevalecerão contra ela ( Mt 16, 1 8 ) .
O s s o l d a d o s n ã o se a t re veram a ra s g a r a s vestes d o
Senh or; o sumo sacerdote rasgava a s vestes com as pró­
prias m ã o s . A s i n a g o g a perdeu seu sacerdócio e cu lto
perante a verdade da Nova e Eterna Alia nça .
Escandalizado rasgou as vestes, agora era além de
j uiz, ta m bém teste m u n h a de acusaçã o : Que necessidade
temos ainda de testemunhàs?Acabastes de ouvira blasíêmia!
Qual o vosso parecer? ( Mt 26, 65-66). Que devemos fazer
perante tal evidência? Então todos, sem exceção, julgaram
merecedor de morte ( M e 14, 64) . Assim se cumpria o que o
Senhor havia dito : o Filho do homem será entregue aosprín­
âpes dos sacerdotes e aos escnoas. Eles o condenarão à morte
( Mt 20, 1 8 ) .

72
Os servos dos sacerdotes, ao ouvirem a sentença ,
cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos e
deram-lhe tapas ( M t 26, 6 7 ) . Ta mbém os sacerdotes do
Si nédrio batera m e insu lta ra m Jesus.
Estavam convencidos que o castigo era merecido,
pois Cristo suportava bem. Então, se aproveitaram para
vingar as críticas feitas em público sobre seus vícios e erros.
Levanta ndo-se enfu recidos das cadeiras, em que estavam
indigna mente como j u ízes, começaram a bater-lhe.
Depois, despediram-se e com binaram uma nova reu­
nião pela manhã, onde o processo e a execução da senten­
ça seri a m validados.
O sumo sacerdote retirou -se ao seu aposento, dei­
xando Jesus em poder dos guardas e criados; estes o leva­
ram a um comparti mento menor e ficaram a noite toda com
ele. Divertindo-se escarneciam dele e davam-lhe bofetadas
( Lc 22, 63), cuspiram-lhe então na face (Mt 26, 67). Estes
homens vis emporcalhavam aquela face divina que os pró­
prios anjos desejavam contemplar ( l Pd 1 , 1 2 ) .
M a ltrata ra m , ferira m , batera m , dera m pontapés e
socos . Depois, cobriam-lhe os olhos ( Lc 22, 64) , taparam
aqueles olhos pa ra qual nenhuma criatura lhe é invisívei ( H b
4, 1 3 ) . Co ntin u a v a m a d a r bofetadas e como tinha fa ma
de p rofeta, escarneci a m - se : advinha, ó Cristo: quem te
bateu? ( Mt 26, 68) . E injuriaram-no ainda de outros modos
(Lc 22, 6 5 ) .
73
Vendaram-lhe a face para se ocultarem ao seu olhar.
Condenara m-se a n u nca mais ver Jesus com os ol hos da
fé . Não devemos estranhar a maldade destes homens . Nós
t a m b é m fa z e m o s o m e s m o : p e c a m o s e c o m n o s s a s
h i pocrisias, logo qu e remos ta par os o l h os d e Deus, para
que não veja a nossa m a ldade.
Há muito tempo uma profecia mencionava o sofrimen­
to voluntári o : Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e
as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o
rosto dos ultrajes e dos escarros (Is 50,6) . Mesmo assim,
causa grande admiração a mansidão, a paciência e a forta­
leza com que o Senhor sofreu tudo.
Provavelmente os guardas, durante a jornada de vi­
gia daquela noite, se a lternaram nas a g ressões, enquanto
alguns d esca nsava m , o utros chegavam com novas zom­
barias. O Senhor não pode dorm i r, sofreu d u ra nte tod a à
noite . Para os cegos da sinagoga, o amanhecer n unca che­
gou, pois ficara m na escuridão para sempre .

AS NEGAÇÕES D E PEDRO

A cada momento au mentava a dor do Senhor. Agora,


Pedro, um dos apóstolos mais q uerido, j u rava não con hecê­
lo; ele que tinha sido avisado ; o negaria, não uma vez, mas
três vezes.
74
A primeira vez foi pouco depois da meia-noite . Os ser­
vos e os guardas acenderam um fogo, porque fazia frio, e se
aqueciam. Com eles estava também Pedro, de pé, aquecendo­
se (Jo 18, 1 8 ) . Ele que ti n ha entrado, porq ue João conhecia
a porteira, estava no átrio fug i ndo do frio, q ua ndo a porteira
o i nterrog ou ; Ped ro negou e saiu, o galo ca ntou pela pri­
meira vez .
A terceira negação deve ter sido por volta das quatro
da m a n h ã . Os eva ngelistas n a rram que na terceira nega­
ção, o galo canto u . São Marcos diz que era a seg u nda vez
q u e o galo ca ntava ; este seg u ndo ca nto costu ma ser por
volta deste horário.
São Lucas n a rra : Passada quase uma hora ( Lc 22,59).
Então a seg u n d a negação foi p rovavelmente às três da
manhã. O Senhor tinha alertado a Ped ro : Antes que o galo
cante duas veze� três vezes me negarás ( Mc 14, 72 ) . Referia­
se a dois m o m e n tos q ue o galo canta, um por volta d a
m e i a - n oi te, e o u tro a n tes d e a m a n h ec e r . Da p ri m e i ra
n egação à seg u nda, São Lucas diz : Pouco depois ( Lc 22,
58), para se referi r a terceira n egação, São Ma rcos d i z o
mesm o : Pouco depois (Me 14, 7 0 ) . Tudo aconteceu mu ito
rá pido para Ped ro naquela noite.
Tudo a conteceu n o átrio, q u e é o pátio das casa s ;
como n ã o há telhado, o c é u fica a berto. Por isso os soldados
e os criados tiveram q u e acender u m a fog u e i ra para se
protegerem d a fria madrugad a .
75
Não se deve estra n h a r q u e u n s na rrem q ue Ped ro
estava fora, outros q u e estava dentro : estava fora d a sala
de julgamento, mas den tro da casa . São Mateus completa :
estava sentado no pátio ( Mt 26, 69) . Também deduzimos que
a sala de j u l g a mento ficava n o a n d a r d e c i m a : Estando
Pedro embaixo, no pátio ( M e 14, 66).
Voltando-se o Senhor; olhou para Pedro ( Lc 2 2 , 6 1 ) .
Como pode olhar s e Pedro estava n o pátio e Ele e m cima?
Provavelm ente, a pós o conselho, quando já tinha aconte­
cido a terceira negação e l evava m-no para outra sala ou
Pedro foi ver como tinha acabado o julgame nto, e o Senhor
olhou para ele.
Provavelmente tenha acontecido desta m aneira : Ter­
minado o j u lgamento, os sacerdotes se recolhera m . Na casa
a pe n a s ficaram os g u a rd a s e c ri a d o s . Con d u z i ra m J es u s
p a ra o u t ra s a l a , o n d e v i g i a r i a m a té a m a n h e cer. Tod o s
estavam n o pátio, aquecendo-se n a fogu ei ra , uns sentados
e outros d e pé. Cansados d e tanto escarnecere m , com frio
e sono, revezavam-se na guarda do Senhor. Pedro afi rmava
não con hecê-lo e como estava arrefecido no amor de Jesus,
a q uecia -se j u n to ao fogo do i n i m i g o . Te n d o t ra ído D e u s ,
estava precisando u rgente d e u m a consolaçã o .
A p o rte i ra q u e t i n h a d e i x a d o e n t ra r, percebeu-o
sentadojunto ao fogo, encarou-o de perto e disse: Também
este homem estava com ele (Lc 22, 56) . Porventura não é
u m dos d iscíp u los? Antes q u e Ped ro respond esse, a cres-
76
centou : Sim, com certeza é um dos que andavam com o
Nazareno!
Pedro sentind o-se acuado n o meio d e toda a q u ela
gente, cheio de medo de uma si mples criada, negou diante
de todos ser um discípulo : Não o sou (Jo 18, 1 7 ) ; Mulher,
não o conheço ( Lc 22, 5 7 ) ; Não sei o que dizes (Mt 26, 70).
Ped ro, Pedro ! Há pouquíssimo tem po dizia : Mesmo
que sejaspara todos uma ocasião de queda, para mimjamais
o serás. Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais
te negarei ( M t 26, 3 3 . 3 5 ) . Não está em perigo de m o rte,
não é o procurador romano ou o sumo sacerdote que per­
g u nta , os soldados não te a m eaça m ; como não pode res­
ponder com coragem a uma simples porteira? É um homem
fraco Pedro e, sem ajuda d a graça, é vencido diante de uma
situação i n si g n ifica nte.
Levanta ra m-se todos, Pedro aproveita ndo para dis­
fa rçar, ficou de pé e aproximou-se mais da fog ueira . Estava
i ntra n q u i lo e com m u ito medo, afastou-se e sa i u do pátio
em direção a porta . O galo cantou pela primeira vez.
Aq uela noite estava tu multuada : entrava e saia gen­
te, mu itas perguntas e opiniões, o barulho era enorme. Pe­
d ro tentava ficar oculto para não ser recon hecido, ao mes­
mo tempo p rocu ra va saber como estava o seu M estre .
Depois de mentir que não era d iscípulo e nem o conhecia,
ficou perturbado, não sabia onde fi ca r ou como se compor­
tar, l eva n tava e sentava , a prox i m a va -se do g ru po p a ra
77
escutar a lgo, depois se afastava, a ndava e voltava do átrio
a portaria, estava co m p l eta mente perd i d o .
Pouco depois foi em direção da porta do pátio, outra
criada olhou-o fixamente e d isse aos outros : Este é um dos
que estavam com Jesus de Nazaré! Pedro voltou a senta r­
se ju nto ao fogo com os d e m a i s , e perg u n ta ra m -l h e : É
verdade que é um discípulo deste homem? Pedro respondeu :
Não, não sou. Um servo que o o lhava a tentamente d isse :
Tenho certeza de que é um deles. Pedro respondeu a borre­
cido: Deixe-me em pa-0 homem, já disse que não sou! E jurou
não conhecer Jesus.
Ped ro q u a n d o negou pela p ri m e i ra vez, devia ter
a b a n d o n a d o a q u e l a conversa e s a ído do lado d a q u e l a s
pessoas, que tanto lhe aborrecia m . Porém, como ficou, sua
culpa e o seu pecado foram maiores. Na primeira vez men­
tiu, mas n a seg u nd a jurou . G ra n d e exemplo para n ossa
d e b i l i dad e : d evemos fu g i r das oca siões peri gosas, para
não cairmos em pecado. Pedro ficou ju nto ao fogo e a ter­
ceira n egação seria ainda pior.
Passada quase uma hora ( Lc 22, 59). Um dos criados
insisti u : Certamente tu és daqueles, pois é galileu (Me 14, 70) .
Outros repetiram : Sim, tu és daqueles/ teu modo de falar te
dá a conhecer ( Mt 26, 73 ) . Diziam isto, porque os galileus
falam com sotaque diferente dos outros judeus. Pedro con­
tinuava negando, mas um dos criados do sumo sacerdote,
parente daquele q ue teve a orelha cortada, desmasca rou-
78
o : Não podes negar; pois eu mesmo te vi, quando estava com
ele no horto. Ped ro acuado disse : Que diz? Não te entendo/
Como não acreditavam nele, começou a jurar e praguejar:
Eu não conheço esse homem/ Imediatamente o galo cantou.
Era perto das q uatro h oras d a madrugad a .
A promessa de Ped ro não acontece u : Darei a m i n ha
vida . 5 O Senhor havia profetizado : Três vezes me negará !
Todos os evangelistas n a rra m a s três n egações.
P e d ro t i n h a e s q u e c i d o do S e n h o r , m a s J e s u s
lembrou-se dele; voltando-se o Senhor; olhou para Pedro ( Lc
2 2 , 6 1 ) p a ra q u e s e l e v a n t a s s e d e s u a q u e d a . E s t e
mo m e nto p o d e ter s i d o q u a n d o a c a bou o processo, e
d e s c i a m J e s u s p a ra o u tra s a l a . A p e s a r d o g ra n d e
sofri mento, o Senhor olhou para Pedro, conforta ndo-o. Ele
entendeu e lembro u -se daquelas p a lavras que não tinha
a c red ita d o : N esta n o i t e , a n te s q u e o g a lo c a n te d u a s
vezes, terás m e negado três vezes .
Saiu dali e chorou amargamente ( Lc 22, 62 ) . Entendeu
a g ravidade de sua culpa, contraposta a bondade do Se­
nhor. O choro a ma rgo e as lágrimas nasciam do afetuoso
amor de seu Mestre. Recordava-se que tinha reconhecido
Jesus como o Filho de Deus, e agora, mesmo avisado a nte­
cipadamente, jurava não co nhecê-lo mesmo com todos os

5. Não aconteceu naquele momento, depois d e Pentecostes revestido do


poder do Espír'to Santo, como chefe e coluna da Igrej a , morreu marti­
rizado em Rom a .

79
benefícios q ue ti nha recebido e os privilégios que tinha pe­
rante os outros com panheiros. O j u ra mento que proclamou
dia nte de todos, queimava-lhe as entranhas. Foi tanta dor
que, por mu ito tem po, toda manhã quando o galo ca nta va ,
chorava amargamente, lem brando-se deste momento . São
Marcos escreveu "começou a chora r", como se fosse a pe­
nas o começo de u m longo pranto, durante m uito tempo.
O olhar d e Jesus toco u - l h e n o fu ndo de sua a l m a .
Como n ã o pode retrata r-se publica mente de s u a covardia,
d esatou a chorar de a rrependi mento. Com a queda, ficou
mais h u m i lde e menos confia nte em s i , não colocou mais
e m risco sua d e b i l i d a d e . Experiente e n s i n o u aos outros
como evitar ocasiões de pecar, e que a forta leza vem de
Deus.
Não pedi u perdão imediata mente. Pensou em lançar­
se aos pés do Senhor, suplicando perd ã o . Mas, pareceu ­
l h e muito atrevimento consegu i r um perdão tão rápido, tal­
vez conseguisse com lágrimas e mortificações. Ficou ca lado
e não a p resentou n e n h u m a descu l p a , somente c h o ro u ,
lavando com lágrimas s u a culpa. Foi para fora do palácio,
para chorar em paz, buscando consolação na Virgem Maria,
refúgio dos pecadores. Onde mais poderia buscar conso­
lo? Contar sua tristeza e a m a rg u ra? Ela o confortou com
firme espera nça de alcançar o perdão de seu Filho.
O Senhor perm itiu que a pedra fundamental d a Ig reja
pecasse e fra q u ejasse, para e n s i n a r q u e n i ng u ém deve
80
ter a presunção de confiar em si mesmo, pois mesmo u m
apóstolo cheio de privi légio e a mor, ca i u .
Tomemos como aviso o q ue d iz São Paulo: Portanto/
quem pensa estar de pé veja que não caia ( 1Cor 10, 1 2 ) .
Devemos a prender com o q u e aconteceu a Pedro, n unca
duvidar de Deus, mesmo q u a ndo esta mos perdidos, pois
a pesa r do pecado ser e norme, g raças à s suas lágri mas e
a sua pen itência, voltou à a mizade com Cristo. Foi confir­
mado como príncipe dos apóstolos, cabeça da Igreja, Pastor
do reb a n h o de C risto e d epositário das ch aves do reino
dos céus.
Comenta Santo Agostin h o : Atrevo-me a dizer que é
proveitoso para os soberbo� cairnum pecado claro e evidente,
pelo qualse vejam como são pecadore� poisjá tinham pecado
com a sua soberba. Pedro se viu mais pecador quando chorou
a sua culpa/ do que quando presumia sua fidelidade.
Outra razão fornece São Gregório : A misericórdia que
o Senhor usou para aquele que seria Pastor da Igreja/
aprendesse por si mesmo como de via compreender as
fraquezas alheias e compadecer-se delas/ foigrande e digna
de ser sempre recordada: O Senhor olha para seu amigo que
o negou para salvá-lo/ e para dar-lhe a mão para que não se
perca. Assim o Senhorfoipiedoso com ele/ para que ele o fosse
com as ovelhas do rebanho que lhe confiaria, para que não
desamparasse ninguém por muito enfermo/ revoltado ou
perdido que possam estar.
81
CR I S TO I'A VI: CL- U POIU \ M OR A OS HOM ENS

O Senhor passou a noite toda entre os i nim igos, mas


não d esejava v i n g a nça, a penas paz e fe l i c i d a d e a eles.
E ntregava -se ao sofri mento por amor a Deus e a os ho­
mens, e ni nguém era mais poderoso que Ele. Estava triste
e ao mesmo tempo o seu amor era tão g ra nde q u e dese­
j ava sofrer, pois sua dor salva ria os homens. Esta noite
de dor, também foi de conforto e de a legria, pois com este
batismo de sangue se farte de opróbrios (Lm 3, 30).
O amor de Cristo pela h u m a nidade, desafia todo o
conhecimento ( E f 3, 19), porque a fonte em que n asce está
acima de toda a com preensão. Não se baseia na perfeição
ou nos méritos dos homens, pois estes são i m perfeitos e
pecadores. Não é possível a m a r o homem pelo o que ele
é. O a mo r tem fu n d a mento no a mor q u e o Pai tem pelo
Filho, e nos i nfi n itos benefícios co nced idos a sua h u m a ­
n idade, porq ue p o r obed iência, agra decimento e a m o r ao
Pai, Cristo amou os homens.
N o insta nte da concepção de Jesus no seio d a Virgem
Maria, Deus deu-lhe o ser divino uni ndo-o a sua divina pes­
soa . Pelo que podemos dizer, é certo que o homem Jesus,
é Deus, Filho de Deus, e tem de ser adorado no céu e na
terra . Este é um dom i nfi nito, ser Deus.
Deus concedeu a Jesus, ser rei de toda a criação. Ele
existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem
82
nele. Ele é a cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o princípio, o pri­
mogêmto dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em
todas as coisas (CI 1 , 1 7- 1 8 ) . Enquanto Deus é igual ao Pai e
ao Espírito ; enquanto homem é o primeiro entre todos e ca­
beça de todos. Todos nós recebemos da sua plemtude graça
sobre graça (Jo 1 , 1 6 ) . Não só porque a graça seja maior n'Eie,
mas porque é o sa ntificador de todos os homens. Para d a r
um exemplo, é como uma tinta q u e todos tê m de receber, a
cor da santidade. Claro que a santidade não pode ser a pe­
nas exterior, tem de ser tam bém i nterior, em sua totalidade.
Quando Jesus olhasse para si mesmo, rei de todas
as criaturas, com todos os a njos ajoelhados dia nte d 'Eie,
e sou besse que tudo l he vinha de Deus . Com que palavras,
diria o seu a mo r a Deus? Com que vontade se ofereceria
a Deus para obedecer e servir? Não existem palavras para
expri m i r ou explicar este grande mistério .
A o man ifestar ao Pai o g rande d esejo de servir e agra­
dá-lo, Deus diria que lhe confiava a salvação da human idade,
que ti nha se perdido pelo pecado de um homem . Entregava­
lhe uma m issã o : Devia a m a r os homens com um amor tão
g ra n d e , sendo ca paz de sofrer tudo para salvá-los. Jesus
amou os homens por a mor ao Pai e por obediência; como era
Deus, a mou-os desde o princípio com o amor de Deus .
De Jesu s , g ra n d e m a n a n c i a l e torre nte ca udalosa ,
flui o amor de Deus para os homens. O Pa i entregou toda
a huma nidade a Jesus. Todas as coisas me foram dadas por
83
meu Pai (Mt 1 1 , 27), ora, está é a vontade daquele que me
enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles que me
deu (Jo 6, 39 ) . Porém, como tudo estava perdido ao enco­
mendar-lhe, era necessário reconqu istar tudo novamente.
Deus não enviou o Rlho ao mundo para condená-lo, mas para
que o mundo seja salvo por ele (Jo 3 , 1 7 } .
A recomendação fez com q u e s e p reocupa sse com
verdadeira solicitude, em redimir o mundo. Sabendo Jesus
que o Pai tudo lhe dera nas mãos (Jo 1 3 , 3 ) , preocupado em
cu mprir a missão, disse : Manirestei o teu nome aos homens
que do mundo me deste (Jo 17, 6 ) . E orava : Por eles é que
eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me
destes, porque são teus. Santifico-me por eles para que
também eles sejam santificados pela verdade (Jo 1 7, 9 . 1 9 ) .
Quando foi preso no horto, preocu pado c o m o ma ndato do
Pai, defendeu-os: Se é, pois_ a mim que buscais_ deixai ir
estes. Assim se cumpriu a palavra que disse: dos que me
destes não perdi nenhum (Jo 18, 8-9 ) . Não perdeu nenhum
por culpa própri a , entreta nto doeu a perdição de J udas,
pois tinha rogado ao Pa i tam bém por ele . Conservei os que
me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o rilho da per­
-dição, para que se cumprisse a Escritura (Jo 1 7, 1 2 ) .
Desta mesma fonte, nasceu ta m bém tudo o q u e con­
v i n h a para o bem e felicidade do hom e m . Pouco a ntes d a
Paixão, disse : O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e
procedo como o Paime ordenou (Jo 14, 3 1 ) . E padeceu na cruz
84
pelos homens. Era grande o desejo de cumpri r a m i ssão :
Devo ser batizado num batismo/ e quanto anseio até que se
cumpra! ( Lc 1 2 , 5 0 ) . O b a t i s m o d e s a n g u e p a recia q u e
demorava uma etern idade, d e tão g ra nde q u e era o seu de­
sejo. No Domi ngo de Ramos aceitou ser recebido com flores
e ser aplaudido pelo povo, para que vissem a alegria de seu
coração, a mesma alegria que subi ria na cruz. O rei Davi expri­
miu a força do amor de Jesus ao escrever: Exulta, como um
gigante, a percorrer seu caminho. Saide um extremo do céu, e
no outro termina seu curso; nada se furta ao seu calor(SI 1 B,
6-7) . O amor d i v i n o sa i u de Deus e voltou para Deus. Não
a mou o homem pelo homem, mas por Deus. Não há ning uém
que possa esca par do seu calor, nem fug i r do seu amor, por­
que sua caridade é tão a rdente q ue força, q uase obriga os
corações. O amor de Cristo nos constrange ( 2Cor 5, 1 4 ) .
O a pósto l o Pa ulo t a n t o esti mava e s s e a m o r, q u e
menosprezando a fome, a sede, a perseguição, a v i d a e a
morte, dizi a : Eu mesmo desejaria ser reprovado, separado
de Cristo, por amor de meus irmãos ( Rm 9, 3 ) . O apóstolo
André d i a nte da cruz que morreria, louvava e d izia para
se a leg rarem com ele. Os exemplos leva m-nos a desejar
subir à cruz e encontrar o coração de Jesus. Grande parece
ser o a mor demonstrado por Pa u lo e André; maior, infini­
tamente maior, é o amor de Jesus.
Jacó deu uma g ra nde prova de amor: sete anos tra­
balhou para o seu sogro La bão, para poder casar-se com
85
Raq u e l ; era ta nto trabalho q u e de dia não d escansava e
de noite não dormia ; tinha a pele queimada pelo sol e pelo
fri o . Assim, .Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe
pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha ( Gn 29,
2 0 ) . Pa receria pouco, também para Cri sto uma noite de
u ltrajes e três horas na cruz para obter como esposa, a
Igreja, e fazê-la toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem
qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível
(Ef 5, 27) . Sem dúvida amou mais do que padeceu . O amor
de seu coração foi maior que o sofri mento de suas feridas
a bertas. Deus mandou padecer por todos os homens, mas
se fosse por apenas um, da mesma maneira teria padecido.
Assim , como esteve três horas na cruz, se fosse necessário
ficaria até o fim do m u ndo, pois seu amor era infi n ito .
Foi tama nha prova de amor que surpreendeu a mui­
tos, foi escândalo para os judeus e loucura para os pagãos
( l Cor 1 , 2 3 ) . A prova de amor que nos deu cega a todos
no meio de tanta luz. Quando revela este segredo e m is­
tério : ficamos deslumbrados, nos desma nchamos em lágri­
mas, q ueima mos de a mor, permanecemos felizes na tribu­
lação, fortalecidos no medo e desejamos amar tudo o q ue
Cristo desejou e a m o u .
Outro motivo d e júbilo para o Senhor foi quando na­
q uela noite, no meio das agressões e i njúrias, previa, g ra ­
ças ao seu sofrimento, a imagem de um m undo renovado .
Homens transformados da carne para o espírito. Contem-
86
piava homens q ue, a o con hecerem o seu sofri mento por
eles, faziam-se à sua i magem e semelhança, despreza ndo
o mal e desejosos de fazer o bem no m u nd o . Com esta
alegria poderia sofrer com fortaleza, dar o rosto e o corpo
sem desviar dos ataques. Via que através do que lhe faziam
a q u e l e s ca rra s c o s , Deus m o l d a v a n e l e , a i m a g e m e
exem plo dos predestinados.
Deus Pai estava satisfeito com a obediência do Filho,
pre parava u m a h o n ra ri a por toda desonra e i nsu lto q u e
sofreu naquela noite : compunha u m cântico para que fosse
exaltado para sempre no céu .

87
S E XTA- F E I RA SAN TA
Am a n heceu o d i a seg u i nte, sexta-feira . Para o povo ju­
deu, foi um dia extremamente i nfeliz, porque cometeria um
pecado espa ntoso, pelo q u a l mereceria um enorme casti­
go. M a s ta mbém foi um d i a próspero : a porta do cé u se
a briria e a h u ma n idade seria remida .
Em bora tenha havido na noite a nterior uma reu nião
na casa de Ca ifás, era necessário dar u m aspecto de leg i ­
timidade para convencer o povo . Chegando a manhã, todos
os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram­
se em conselho para entregar Jesus à morte ( Mt 27, 1 ) . Po­
rém, t�:Jdo já estava definido: sentença de morte, e depois
passar a execução para os romanos. Mesmo sendo a gran­
de maioria do conselho de idade avançada e tendo o julga­
mento a dentrado a madrugad a , logo pela manhã se reu­
niram os sumo sacerdotes, os escribas e com todo o conselho
(Me 1 5 , 1 ) . Nota-se que estavam bem dispostos para faze­
rem o mal.
Este enco ntro não foi na casa do sumo sace rdote .
Levara m-no ao Conselho, onde se realizam as reuniões ofi­
ciais, con hecido por Sinéd rio . Cada um se sentou em sua
cadeira e os juízes ped i ra m a presença do réu .
91
Retiraram-no da casa do pontífice, onde estava preso,
e levara m -no pelas ruas até o palácio pa ra entreg á - l o ao
Si nédrio . Neste trajeto g u a rdado pelos soldados, como era
pela m a n hã, m u itos a p a reciam nas portas e ja nelas, pa ra
apreciar um preso tão con hecido por sua santidade e admi­
rado por suas obras, a plebe g ritava perante sua passagem.
O Senhor ca min h ava com uma corda presa ao pescoço que
atava suas mãos tam bém, ass i m era feito com aqueles q ue
u s a v a m m a l d e s u a l i berd a d e con t ra o seu povo . J e s u s
estava com frio e ca nsado, desfigurado pelos socos e escar­
ros; despenteado, com o rosto cheio de equ imoses . Foi assim
que apareceu pelas ruas e as pessoas olhavam espa ntadas.
Todos percebera m clara m ente que seria cond e n a d o pelo
modo como foi tratado e cond u zido.
O ru m o r se este n d e u rapida m e n te p e l a cidade e
chegou ao conheci mento da Virgem Mari a . Contara m-lhe
que tira ra m Jesus d a prisão e levavam-no ao Sinédrio. Ela
s a i u velozmente p a ra encontra r seu Filho . Seg u i ra m - n a
J o ã o , M a ri a M a d a lena e a s o u tras m u l heres. D iferente­
mente, os a póstolos estavam dispersos e esco ndidos, mas
também p reocupados com o q u e aco n tecia a o S e n h o r .
M e s m o c o m a cid a d e t o d a a larmada, inexpl icavelmen te
n i ng uém i n comodou a Virgem N ossa Senhora . Toda sua
dor e afl i çã o fo ra m i n teriores, d en tro do cora ção, onde
oferecia seu Filho, e oferecia-se a Deus, co m obed iência e
a mor, mesmo esta ndo a n g ustia d a .
92
O S e n h o r já estava p resente d i a n te d o Si nédrio,
o rd e n a ra m q u e desatassem a s m ã os p a ra que pudesse
responder as acu sações com mais l i be rdade.
Esta ndo solto na p resença d o Consel ho, não bus­
ca vam novos testemun hos, conti nuara m no mesmo tema
da noite a nterior, perg untando: Dize-nos se és o Cristo/ ( Lc
22, 66) . Repetiram a mesma perg unta feita, há alguns dias
no Templo: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és
o Cristo, dize-nos claramente (Jo 1 0 , 24).
O Sen hor que con hecia os corações, respondeu : Se
eu vo-lo disser, não me acreditareis; e se vos fizer qualquer
pergunta, não me respondereis ( Lc 22, 67-68 ) . Mesmo que
provasse através da Lei e dos Proretas, vocês não me liber­
tariam. Não merecem resposta, querem saber a verdade para
me condenar. Entretanto, também não quero que pensem
que estou com medo e não direi a verdade. Agora sou réu,
mas em breve estarei sentado a dire1ta do poder de Deus, para
serjuiz de todo o mundo.
Diante daquela resposta que expri m i a toda a verda­
de, pla nejaram melhor a acusação : Então, realmente você
é Filho de Deus? Notava-se todo o escá rnio nestas palavras,
pois consideravam Jesus louco e menti roso, não dissimu­
lando a i ronia, continuara m : Você é filho de um pobre car­
pinteiro, homem de maus costumes, beberrão e glutão, amigo
de publ1canos e pecadores, endemoniado e blasremo, diz que
se sentará a dire1ta de Deus, que o veremos v/r sobre as
93
nu vens. Sim, nos o veremos, não nas nu vens, mas
pendurado no meio de dois ladrões.
O Senhor, percebendo toda a m a l ícia e o q u e pre­
te n d i a m , res p o n d e u c o m a m e s m a v e r d a d e da n o i te
anterior: Sim! Eu o sou.
Pera nte a firme resposta q u e o S e n h o r m a n ti n h a ,
dissera m : Que necessidade temos de mais testemunhas?
Nós mesmos escutamos de sua boca a declaração! Tinham
ouvido duas razões suficientes para condená-lo a morte :
que era o Cristo, o Ungido Rei dos judeus e ta m bém Filho
de Deus. A segunda afirmação era para o sumo sacerdote
uma blasfêmia contra Deus e pela qual devia morrer. Pro­
clamar-se Rei dos judeus era um cri me contra César, que
mereceria a cruz. Corn estas d u as acusações, decid ira m
levar o réu a Pi latos para que ele executasse a sentença .

JESUS É ENTJ�EGUE A PILATOS

Conduziram Jesus diante de Pilatos ( Lc 2 3, 1), desta


vez, não ordenara m aos soldados que o levassem, leva n­
ta ndo-se enfurecidos fora m tod os: o s u mo sacerdote, os
anciãos e os escribas. Assim gara ntiriam uma rá pida exe­
cução da sentença. Cumpria-se a profecia : toda a assem­
bléia de Israel o imolará ( Ex 1 2 , 6 ) .

94
N o ca m i n h o d o Si n éd ri o a o pretório, voltari a m a
prender seu pescoço j unto com as mãos, como era costume
quando se entreg a um marg i n a l para a execução.
Da casa de Caifás conduziram Jesus ao pretório. Era de
manhã cedo (Jo 8, 28), o rumor estava maior, pois a notícia
ti nha se espa l hado, todos sabiam da condenação, pois a
decisão do Si nédrio fora unâni me. Agora o processo passa­
va da j u risd ição ecles iástica para a lçada civi l .

JUDAS ENFORL.I\ -SE

J udas, talvez pensasse que não chegaria a este pon­


to ; que a astúcia dos sacerdotes não era para matar Jesus
de verdade; pensava em um castigo menor ou um exílio.
Ao saber que na noite a nterior, na casa de Caifás, tinham­
no condenado a morte e o Si nédrio confirmava a sentença,
e que agora estava na presença de Pilatos para ser execu­
tado, desesperou-se. O demônio o ti n ha cegado para que
traísse Jesus, agora o demónio fazia-o ver seu pecado, en­
chendo-o de inqu ietação e medo . Recon h ecendo a culpa,
que lhe afligia muito, pod ia ter chorado como Pedro diante
do Senhor ou buscado a poio na Virgem Mari a . Mas como
sempre foi fa lso, mentiroso e d issi mulado com Jesus, não
soube achar o v.:rdadeiro ca minho. Não sofria por ter ofen­
d i do Deus, não d esej a va e m e n d a r-se e serv i - lo, o seu
95
remorso não o levou a u m a verdadeira contrição, mas ao
desespero, afogando-o no próprio peca d o . A dor não era
por amor a Deus, era egoísta, tinha se enga nado e por isso
os homens i riam odiá-lo.
Em primeiro lugar, procurou desfazer o péssimo ne­
gócio que tinha fei to : devolven do o d i n h e i ro aos sacer­
d otes, p a ra q u e não tivesse m a i s c u l p a no dest i n o do
Senhor. Foi ao encontro dos sacerdotes e no momento que
acusava m Jesus, devolveu a s tri n ta moedas, d i zen d o :
Pequei, entregando o sangue de um justo (Mt 27, 4), não
quero ficar com um dinheiro que me lance a culpa do pade­
cimento deste homem. Não há desculpa pela maldade, a
responsabilidade é toda de vocês. Eu menti, pois conheço e
convivi com este homem e garanto que ele é santo! Se o
ven� roiporminha culpa, reconheço meupecado renunciando
o dinheiro que ganhei Não quero ficar com o preço deste
homem! Tomem de volta o dinheiro/
Pa rece i m possível que a confissão de Judas não te­
nha produzido nenhum sentimento nos sacerdotes. Tinha
sido since ro, d ito a verd ade e d evolveu o d i n heiro. Mas
estavam tã o cegos e exa ltados q ue, q u ando J u d a s d isse
que ti n h a vendido o sangue de um j usto, respondera m :
Que nos importa? Isso é contigo/
Nefastos sa cerdotes ! Que resposta tão estú pida e
ma ldosa . Mesmo com a confissão dizem q u e o pecado é
somente de Judas e não os afeta . Mesmo com o d i n heiro
96
devolvido q uerem m a nter o acordo e, ao mesmo tempo,
estar livre de toda culpa.
O din heiro quei mava as mãos de J udas, percebendo
que não receberiam de volta as moedas de prata, atirou­
as no templo. Desesperado, saiu e se pendurou numa cor­
da; cai u de cabeça se a rrebentando todo, espalhando suas
entranhas. Tomou-se este fato conhecido dos habitantes de
Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua
deles Hacéldama, isto é, campo de sangue (At 1 , 19).
Como n ã o h a v i a q u e m p u desse ca sti g a r o pecado
de J udas, ele mesmo foi juiz e executor de sua pena. Nem
a terra recebeu seu corpo, nem o céu a sua alma. Escolheu
a morada dos demônios, onde sua a l m a foi a poderada, e
o demônio sentou-se ao seu lado como advogado : Suscitai
contra ele um ímpio, levante-se à sua direita um acusador.
Quando ojulgarem, saia condenado, e sem efeito o seu recurso
(51 1 08 , 6-7 ) .
J u d a s foi o m a i s infeliz d o s homens, a q u e m melhor
seria não ter nascido ! Por que não confiou na misericórdia
de Deus? Por que não recordou como sempre o Senhor era
misericordioso com todos? O pecado era grande, mas devia
lem brar que qua ndo resolveu vendê-lo E le lavou os seus
pés e lhe deu como ali mento o seu corpo e o seu sangue;
chamou-o de amigo . Infeliz Judas! Poderia ter recorrido a
Virgem Mari a . Com certeza, ela com sua bondade, teria ido

97
contigo ped i r o perdão a Cristo ressuscita d o ; ou mesmo
na cruz poderia ter con seg uido o perdão.
J u d a s , p o r q u e p e rd e u toda e s p e ra n ç a ? P o d i a
esperar que o Senhor na cru z, mesmo sem n i nguém pedir,
intercedesse por todos, inclusive por você! Infelizmente as
ações maldosas e o demônio o deixaram cego . Não olhava
m a i s p a ra o Sen hor espera n d o m i sericórd i a , o peso do
pecado o afu ndou .
Os sacerd otes n ã o q u i s eram receber d e J u d a s o
d i n h e i ro, porq u e se o fi zessem m o ra l m e nte se veri a m
obrigados a soltar Jesu s . S e pa ra J u d a s a venda parecia
um peca d o , para eles parecia um ato piedoso; to m a r o
dinheiro do templo pa ra matar um blasfemo, e assim honrar
e prestar culto a Deu s .
Qua ndo Judas atirou a moedas no templo, o s sacer­
dotes as recol h era m para g u a rd a r, e depois deci d i rem o
q ue fazer com elas. Depois da morte de Jesus, e sabendo
do suicídio de J udas, pegara m o dinheiro, mas por ser preço
de sangue não pod i a m colocá-lo de volta no gazofilácio.
Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma
o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de
estrangeiros (Mt 27, 7 ) . Deste modo, os sábios doutores,
para não perder o d i n heiro, aceitaram como oferenda. Não
pareceu errado tirar o d i nheiro do templo para m ata r um
homem, mas devolvê-lo parecia sacrilégio. Dissimulando a
m a l d a d e , com a p a rente a to d e p i e d a d e , os " s a n tos e
98
d e v o t o s " s a c e rd otes com p r a v a m u m ca m p o p a ra os
peregri nos. Mas Deus castigou -os, pois o povo lhe deu o
nome de ca mpo de sangue, e toda a vez que fosse citado,
se record aria do crime cometido.

J ESUS DIA N TE DE PILATOS

A situação era fora do com u m . Aq uele homem dias


a ntes falava no tem plo com majestade; tinha sido recebido
tri unfa lmente em Jerusalém com acla mação jamais vista ;
tinha feito vários milagres e muitos o seg uiam; era conside­
ra ndo um grande profeta . E agora estava preso e ma ltra­
tado como um malfeitor. Sem dúvida a população estava
confusa e esse lesse o a ssunto pri ncipal na cidade; todos
queriam presencia r um acontecimento tão incom u m . É pro­
vável que Pi latos tenha recebido a notícia na noite a nterior,
e como h o m e m p r u d e n te, esta ria se prepa ra n d o p a ra
tratar do caso .
Os sacerdotes chegara m à praça do pretório e subi­
ra m ao pórtico por uma escadari a . Mas não entraram no
pretóno, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa
(Jo 18, 28). Os sacerdotes ficariam impuros por pisarem no
pretório, no entanto não se consideravam manch ados por
entrega r Jesus à morte. Portanto fica ram no lado de fora
e entrega ra m o Sen hor aos oficiais rom a nos para q u e o
99
levassem ao govern a d o r. Desc u l p a n do-se por m o t i vos
rel i g i osos, por não terem e ntrado, ped iam a confi rmação
e a execução da sentença de morte, pois o caso era tão
g rave que ti nham vindo pessoa l mente .Jesus compareceu
.

diante do governador ( Mt 27, 1 1 ) , Pilatos inclinou-se a seu


favor, pois percebeu q ue os sacerdotes estavam com m á
intenção, e que n ã o entrar no pretório era pura h ipocrisia .
Mesmo assi m, por prudência saiu para fa lar. Sentiu a d ife­
rença entre a serenidade do réu e a exa ltação e a pressa
com que os sacerdotes q ueriam sua morte . Confirmou seu
j u ízo, e d i sse-lhes: Sabem que os romanos não tem por
costume condenarninguém sem que o réupossa se defender.
Qual é a acusação contra este homem? Não éjusto entregar
um preso sem dizer o motivo.
A observação do procurador romano parece q ue não
a g radou, pois i m plicita mente os tachava de i n ca pazes e
injustos. Aborrecidos pela ressa lva, exa ltados e cheios de
soberba d issera m : Se ele não fosse um malfeitorpúblico, nós
que somos sacerdotes e escribas não o entregaríamos em
suas mãos. Basta que estejamos aqu� para que não tenha
desconfiança de nossa retidão.
Para sa ber se J esus era u m m alfeitor, seria neces­
sário perguntar aos que fora m li bertos dos espíritos imun­
dos, aos doentes que foram c u rados, aos lep rosos q u e
ficaram l i m pos, aos surdos q ue agora escutavam, aos ce­
g o s q u e t i n h a m rec u p e r a d o a v i s ã o e a o s q u e fo ra m
1 00
ressuscitados. Caso Pi latos tivesse mais informações, sa­
beria que na rea lidade Jesus era um benfeitor do povo . O
cego que com u m pouco de barro recobrou a vista, o para­
l ítico q u e depois de tri nta e oito a n o s p Ô de novame nte
a n d a r, a m e n i n a ressuscita d a d i a nte dos pais e de três
a póstolos. Estas testemun has poderiam ser pa rciais, mas
existia m outras testemunhas : toda a cidade de Naím, os
presentes nas ressurreições do fi lho da viúva e de Lázaro,
todos aq ueles que fora m saciados com pães e peixes n o
deserto, q uase toda Jerusa lém .
Para leg itimar a maldade, precisaram de falsas teste­
mu nhas : mentira m e não consegu i ra m nenh uma acusação
contra o Senhor. Os sacerdotes estavam aborrecidos e ma­
goados, porque Pilatos pedia provas e todo o povo estava
agradecido pelos benefícios que Jesus tinha feito. Conside­
ravam-se tão i mportantes, que pretendiam que Jesus fosse
cravado da cruz somente porque essa era a vontade deles .
Com a resposta dos sacerdotes, Pi latos i nteligente­
mente percebeu toda a soberba e a rrogância, e que h avia
ódio e parcialidade para desejarem sem provas, matar um
homem que era considerado santo e profeta ; devia haver
u m a razão mais profu nda .
Com muita astúcia respondeu : Se este homem é um
malfeitor, tomai-o ejulgai-o vós mesmos segundo a vossa lei
(Jo 18, 3 1 ) . Acredito que nãopediriam a morte de homem ino­
cente, mas não posso condená-/o somentepor causa da vonta-
101
de de vocês. A lei exige uma acusação formal com provas. Se o
código de vocês permite condeni'lr um homem tão depressa,
sem o ouvira defesa, façam como quiserem, eu não impedirei:
Os sacerdotes repl ica ra m : Não nos é permitido matar
ninguém. Talvez ten h a m d i to isto, por causa do domínio
romano, que lhes tirava o poder, pois a lei juda ica permitia
em a l g u ns casos, ou porque sendo Páscoa , não podiam
executar sentenças. Mas possivelmente, pensavam na cru­
cificação, introduzida na Judéia pelos romanos; esta seria
a morte mais desejada, pois era a mais humilha nte. Com
isso queriam dizer: os delitos deste homem são tão atro­
zes, que não é suficiente castigá-lo com uma morte sim ples,
merece a crucificação e se houvesse uma mais dura , essa
seria a form a . Nós não podemos crucificá -lo, por isso a pela­
mos ao governador. Assim se cumpria a palavra com a qual
Jesus indicou de que gênero de morte havia de morrer (Jo 18,
32) : Crucificado pelas mãos dos gentios na Páscoa .
Vendo que Pilatos queria uma acusação formal, de­
ram-lhe uma : Encontramos este homem insurgindo o povo
a não pagar o tributo a César e proclamando-se rei. Acusavam
de incitar o povo; que proibia o paga mento a Roma, pois o
povo eleito não devia su bordinação a um imperador pagão
e, por fim, que se proclamava rei .
Sabiam que toda a acusação era uma mentira . Como
podia promover uma revolta quem nunca participou de reu­
n iões secretas? Falava a berta mente no templo e nas sina-
1 02
gogas, onde dizia exatamente o oposto; que obedecessem
aos fa riseus e escri bas, pois estes ocupavam o lugar de
Moisés. Quando foi preso estava reza n d o .
Em relação a o s i mpostos, qu ando foi perguntado se
era lícito pagar, respondeu : Dai a César o que é de César e
a Deus o que é de Deus. Os próprios publicanos eram tes­
tem u n h a s de que Ele mesmo pagava os i m postos (cf. Mt
1 7 , 26).
Quanto ao se fazer rei, podemos lembrar que Jesus,
percebendo que queriam arrebatá-/o e fazê-/o rei_ tomou a
retirar-se sozinho para o monte (Jo 6, 1 5 ) .
O s sacerdotes pretendiam oculta r o verdadeiro moti­
vo, pois se proclamar Filho de Deus perante um gentio não
seri a pretexto p a ra levá -lo a m o rte . E ntão o acusara m ,
usando u m motivo q u e p reocu paria m a i s o governador:
esta r contra Césa r e os impostos.
Pilatos centrou-se na acusa ção de q ue se fazia rei,
pois era evidente que sendo rei , seria contra César e os
i m postos. Temendo desordem dos populares, por prudên­
cia, entro u no pretório para exa m i n a r Jesus. Pilatos e ra
gentio, mas vivia há alguns anos em Jerusa lém, con hecia
a fa ma de Jesus e tinha ouvido falar sobre a espera de um
Messias que seria Rei . Pensando em um reino terreno, cha­
mou-o à sua presença e pergu ntou : Tu és o rei dosjudeus?
Os q uatro Eva ngelhos concordam que esta foi a pri meira
perg u nta .
1 03
O Senhor, q ue não estava presente q u ando Pilatos
convers o u com os s a cerdotes, d i sse : Dizes isso por ti
mesmo, ou foram outros que to disseram de mim? (Jo lB, 34 ) .

M ostrava q ue sabia de onde v i n h a o veneno, embora os


a utores estivessem esco n d i d os .
P i l a tos p e rc e b e u p e l a s p a l a v ra s q u e t i n h a s i d o
i nfluenciado pelos sacerdotes e para desfazer a impressão,
indago u : Por acaso, sou judeu para me preocupar com o
Messias? Pergunto, não por me importar, masporque sou seu
juiz e esta foi a acusação contra você. Os seus compatriotas,
sacerdotes e doutores da lei o entregaram, o que você fez?
Se faz rei sem o ser ou é rei e eles não aceitam?
Q u e t i n h a feito? O Senhor poderia ter respondido
extensamente em sua defesa ; m as foram feitas duas per­
g un ta s : se era rei e o que tinha cometido para os sacer­
dotes o entregarem. Jesus respondeu : Meu reino não é des­
te mundo. Q u a n d o d i z re i n o n ã o se refere a p e n a s a o
Paraíso, m a s também a todos o s fiéis do mundo q ue for­
m a m a Igreja . Por isso não d isse : O meu rei no não está
n este m u ndo, porq ue na verdade está . Meu rei n o não é
terreno, nem tem pora l , mas do céu , de onde desci pa ra
unir com a terra por meio das m inhas palavras e obras, por
meio da fé. Vim para resgatá-lo do mal com minha morte;
santificá-lo com os Sacramentos; lavá-lo com meu sangue;
torná-lo belo com minha graça ; dar-lhe vida com meu espí-

1 04
rito. Não é deste m u ndo, porq ue não consiste em bens
mu ndanos, mas em vida e salva ção etern a .
O Sen h o r conti n u o u para te ntar tirar Pi latos e o s
sacerdotes do erro : O seu reino que é deste mundo, e eu
não vou tirá-lo, mas desejo lhe dar o reino etemo. Eu asse­
g u ro q ue n e n h u m rei deve te mer o meu reino, porque se
meu reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente
teriam pelejado para que eu não fosse entregue aosjudeus
{Jo 1 8 , 36). Estou tão longe destas coisas, que adverti u m
dos d iscípulos para que guardasse a espa da . N ã o , o meu
reino não é deste mundo .
P ilatos ficou mais calmo, pois embora o Senhor tenha
dito por três vezes que era rei e tin h a reino, deixou claro que
não e ra d a q u i e não estava co n s p i ra n d o contra César.
Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei?RespondeuJesus:
Sim, eu sou rei. E respondendo a seg unda perg u nta, d isse :
Épara dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo.
Todo o que é da verdade ouve a minha voz ( Jo 18, 37).
C o m esta resposta mostro u a ca u sa d o ódio dos
sacerdote s : t i n h a d i to a verd a d e e eles estav a m m u i to
longe dela .
Pi latos perg u ntou : O que é verdade? Não esperou a
resposta e saiu para e ncontra r os sacerdotes.
Estava convencido d a i n ocênc i a de Jesus. Escutou
pessoalmente que ele não ti nha reino e nem pretendia ter,
viu que não havia nenhum sinal de realeza . Sobre o outro
1 05
mundo, não quis nem comentar com os sacerdotes. O tema
verdade não o atraiu : o Senhor havia falado que somente
d izia a verdade e os que a a m a m , ouvem sua voz. Com
sua a rrogante a utori dade d i sse com menosprezo : Que é
verdade? E i mediata mente saiu sem esperar uma resposta .
Estava sati sfeito com o q u e t i n h a escuta d o e d i sse aos
sacerdotes: Eu exa minei este homem e as acusações feitas
e n ã o en contrei motivo a l g u m para condená-lo . Ass i m ,
teste m u n h a v a a i n ocência d o S e n h o r e a i nj u stiça d a s
a cusações.
Perce bendo que a s i tuação estava se a c a l m a n d o ,
i m a g i n a n d o q u e Jesus tinha fa lado d o rei n o espiritu a l e
convencido Pilatos, co meça ra m a g rita r : Ele diz q u e seu
reino não é deste mu ndo, mas formou discípu los e espa lhou
o seu ensina mento por toda J udéia até a Galiléia, chegando
sua doutrina até aqui em J erusa lém.
T a l v e z d i s s e s s e m s o b re J e ru s a l é m , p o r q u e h á
poucos d ias, n a Festa d e Ra mos tod a a cidade s e t i n h a
alvoroçado perg u n ta n do : Quem é este?
Pilatos percebia que o assunto estava ficando mu ito
confuso, q u erendo se l i v ra r logo de t u d o i sso . Q u a n d o
escutou a palavra Galiléia, logo perguntou se ele era galileu.
E, quando soube que era dajurisdição de Herodes/ enviou-o
a Herodes/ pois justamente naqueles dias se achava em
Jerusalém ( Lc 23, 6-7 ) .

1 06
J ESUS t L f VA DO A 1-f ERODES

Herodes, chamado Antipas, tetrarca da província da


Galiléia . Ti n h a como i rmãos : Felipe, tetra rca da Ituréia e
Arq uela u , que fora tetra rca da Judéia. Há tempos a Judéia
era governada por procu radores romanos; Pôncio Pi latos
era o sexto. Os três i rmãos eram fi l h o s d e H e rodes, o
Gra n d e ; o mesmo q u e q u e re n d o matar o m e n i n o Jesus,
massacrou os i n oce ntes em Belém . H erodes Antipas era
então tetrarca da Galiléia, q u a ndo Jesus foi preso e con­
denado . Era tão desonesto que ti n ha tomado H erodíades,
mulher de seu i rmão Felipe, e vivia publicamente em adul­
tério com ela . Por desej o d e H e rodíades, a pós S a l o m é
dança r para ele, mandou matar João Batista, que o censu­
ra va pela sua vida esca n d a losa . E ra tão a m bicioso, q u e
para conseguir o reino d a Judéia, que havia tirado de seu
irmão Arquela u , fazia de tudo para criar simpatia entre os
judeus. Ta lvez por esta razão, veio celebrar a Páscoa em
Jerusalém, e pela mesma razão ma ndou mais tarde matar
, Tiago e prender Pedro6 (cf. At 1 2 , 2-3). Herodes era inimigo
d e Pi latos, porq u e o governador e:sta va à frente d e u m a
província q u e desejava; e tinha mandado matar dentro d o
tem plo alguns judeus durante u m sacrifício, e sendo amigo
d e um pagão não a lca n ça ria simpatia perante os judeus.

6. Quem mandou matar Tiago e prender Pedro fo' Herodes Agripa I , neto
de Herodes, o G rande.

107
Estes eram os monstros que detin h a m o poder, em suas
mãos estava o desti no do Senhor.
Perante a i nocência de Jesus e a revolta dos sacer­
dotes, Pilatos deci diu ter uma consideração com Herodes,
e enviou-lhe um preso tão extra o rd i n á rio co mo se fosse
um p resente rea l . Por H erodes ser judeu/ pensava q u e
poderia entender m e l h o r a causa e resolver o processo .
Qualquer q ue fosse o motivo, Pilatos se via livre d e toda a
sftuação, mesmo comportando-se como um péssimo juiz,
pois conhecia a verdade e não a defendeu. Preferi u confiar
o problema a u m homem a mbicioso e desonesto.
Como não t i n h a m conseg u i d o seu i n tento j u nto a
Pilatos, ficaram felizes quando Jesus foi enviado a Herodes,
pois este d esejava a g ra da r- l hes. Poderi a m lem bra r q u e
s e u pai perseg u i u Jesus, q u a ndo este era m e n i n o . Com
Jesus sob s u a custó d i a seri a mais fá cil i ncitar o povo a
pressioná-lo para que fizesse seu dever patriótico .
Com isso todos os tribunais e poderosos con heceram
o processo contra Jesus de N azaré e conseq uentemente
sua i nocência.
Correu a n otícia v i n d a do p retó rio : haviam levado
Jesus para o palácio d e H e rod e s . V e n d o o s sa cerd otes
saírem, voltou a aglomeração do povo pelas ruas para ver
Jesus passar. Pilatos enviou um mensageiro n a frente para

7 . Herodes não era considerado um judeu nato, porque seu pai era Jdumeu.

1 08
avisar Herodes, os sacerdotes ta m bém se adiantaram para
poderem pressionar; depois chegou Jesus amarrado entre
os g ua rd a s .
H erodes a o ver J e s u s encheu -se de a l egria, p o i s
queria há mu ito tempo conhecê-lo, t i n h a ouvido fa lar m uito
a seu respeito e esperava ver a lg u m m i lag re .
Disse q u e estava contente q u e n a sua província,
Galiléia, surgisse um homem tão importante; que fazia tem­
po que queria conhecê- lo; que ti nha ouvido fa lar de seus
milagres e ensina mentos; prometia i nterceder em seu favor
em troca de um desejo. Depois perg u ntou se rea l mente
era ele que os magos do oriente tinham vindo adorar e que
trouxe ta nta preocupação a seu pai ; se era João Batista
que ressusCitou (Mt 14, 2 ) ; se os milagres eram verdadeiros,
pois sendo assim seria mais que um homem. E então pedi u
q u e fizesse um milagre na s u a presença, já que fazia mui­
tos e g ratu i ta m ente, record a ndo q u e era seu rei , j u i z e
podia livrá-lo ou enviar-lhe a morte .
Jesus não fez n e n h u m m i l a g re e nada responde u .
Pera nte Pilatos tentou explica r a verdade, pois este apa­
rentava desejo de conhecê-la, embora depois se deixasse
levar pela cova rdi a . Mas Herodes não buscava a verdade,
pelo contrário, ela o incomodava a ponto de mandar matar
João Batista , que era a voz de J esu s . Como fa l a r d i a nte
daqu ele q u e havia m atado a verdade?

1 09
Além d i sso, era a penas por cu riosi d a d e e d i verti ­
mento que Herodes desejava um m i lagre . Como se Jesus
fosse um bobo da corte, um palhaço para a legrar e entreter
os cortesões. A Majestade do Senhor não se sujeitou em
ser um bufão nas mãos de Herodes. Não deu aos soberbos
e arrogantes o que distri buía com tanto gosto aos sim ples
e humildes.
E le se oferecia voluntari a m e n te à m o rte e n ã o se
acomodaria para esca par, rea lizando desejos tolos.
"
Com o silêncio ensinou a desprezar a honra e o favor
mal intencionado; a não usar da graça de Deus em cobiças
e a m bições pessoa is; a ser cuidadosos e não fa lar de Deus
i ngenua mente perante pessoas que só têm curiosidade e
q uerem fazer chacota .
Os sacerdotes e escriba s presentes, temendo o fra­
casso pela segunda vez, com g rande insistência continua­
vam com as acusações. Quando Herodes pediu um mi lagre,
ficaram com medo, pois caso acontecesse, podia ser per­
s u a d i d o . Ass i m , p a ra q u e H e ro d e s fi casse c o m ó d i o ,
aumenta ra m o s ataques . Diziam q u e Jesus e João Batista
era m parentes e ju ntos ca l u niavam sobre o a d u ltério de
Herodíades; que tinha louvado e defendido João em pú­
blico, quando este estava preso; que o tinha i nsultado de
" ra posa " perante todos; que seu trono não estava segu ro,
como o seu próprio pai não estava, qua ndo Jesus era um
m e n i n o . H e ro d e s d e p o i s d o l o n g o s i l ê n c i o d e J e s u s ,
llO
começou a considerá-lo um louco; os sacerdotes e escribas
temendo q u e fosse posto em li berdade por este motivo,
i nsistiam com novas acu sações; diziam que estava fi ngindo
e faz i a -se de m u do, mas q ua ndo estava diante do povo,
sabia m u i to bem o que fa lar.
O silêncio do Senhor pareceu a Herodes uma ofensa
à sua pessoa e como vinga nça, desprezou-o. Pilatos_ q u e
exami nava a situação como u m j u i z prudente ficou admi­
rado perante o silêncio, ao contrário, Herodes que era u m
h o m e m vazio e a mbicioso, que só buscava poder e l uxo,
sentiu a penas desprezo . Como não conseg ui arrancar ne­
n h u ma palavra, m uito menos u m agradeci mento por tentar
sa lvá-lo em troca de um m i lagre ; começou achar que era
um demente . Esta é a esperteza do m u ndo, que tem por
loucu ra a sabedoria de Deus.
Os c o rtesões e s o l d a d o s d a g u a rd a c a ço a v a m d e
Jesus e começaram a dar empurrões como s e fosse u m bobo
da corte. Herodes mandou vesti-lo com uma tún ica branca,
para zombar de sua rea leza . E nted iou-se, e o mandou de
volta para Pilatos fazer o que desejasse com ele.
N aq uele dia Pilatos e Herodes fizeram as pazes. Os
dois exi m i ra m -se d a causa, q u a n do por motivo de seu s
cargos, tinham por obrigação, j u lgar e a bsolver Jesus.

JLI
PILATOS NOVA M ENTE JULGA JESUS INOCENTF

Levaram-no de volta do palácio de Herodes ao pre­


tório. Tudo outra vez, os mesmos criados e soldados, os
mesmos ruídos e i nj ú rias pelas ruas. As ú n icas novidades
era m os escárnios que Herodes tinha feito e a túnica bran­
ca que Jesus vesti a e despertava m u ita curiosidade.
Acontece mu ito com as pessoas medíocres : vestem
a roupagem mais adequada para cada situação. Escondem
o vício com aspecto de virtude; a menti ra com rou pagem
de sabedori a ; a vinga nça é co nsiderada j u stiça . Ao con­
trário desnudam as virtudes; o pudor é chamado de vaida­
de; a modéstia de timidez; a devoção de loucura ; a verdade
de hi pocrisia . Assi m, Herodes vestiu uma roupa de rei, para
ridicularizar o Senhor.
A Virgem Maria ficava sabendo aos poucos de todos
os a conteci mentos . Não podemos i m a g i n a r o que sentiu
no seu cora ção q u a n d o to mou con heci mento que Jesus
estava com aquela roupa .
Voltando ao pretório, Pi latos ficou sabendo que Hero­
des ta mbém não encontrou nenhum motivo para condená­
lo. Para afastar a desconfiança de que tivesse atuado com
excessiva brand ura, convocou então os príncipes dos sacer­
dotes, os magistrados e o po vo ( Lc 2 3 , 1 3 ) , volta ndo a
ex a m i n a r a ca usa perante todos, mas não encontrando
nada realmente grave d isse : Vocês me apresenta ram este
112
homem como u m subversor do povo, mas interrogando-o,
não encontrei nele nenhuma cu lpa . Nem mesmo Herodes,
que conhece a crença e lei de vocês, encontrou a lgo para
levá-lo a morte, sendo assi m não cometeu nenhum cri me
contra Roma ou contra a lei . Por issoJ soltá-lo-e! depois de o
castigar ( Lc 23, 1 6 ) .
A o perceberem que Pilatos estava decidido a libertá­
lo, fica ram perturbados com a ideia de ter Jesus novamente
contra eles ; conheciam a força de suas palavras ao ensinar
e repreender; o poder de junta r o povo com seus milagres.
Se conti nuasse vivo, perderiam a autoridade e o prestígio,
por isso os sacerdotes conti n u a ra m a acusá-lo de muitas
coi sa s .
Ele, porém nada respondia às acusações dos príncipes
dos sacerdotes e dos anciãos ( Mt 27, 1 2 ) . Havia respondido
o suficiente para Pi latos, mas pera n te as acusações dos
sacerdotes calou-se, porque tudo era mentira e ca lúnia. A
verd a d e e ra notória e já t i n h a fa l a d o na noite anterior
perante Caifás : Se eu vo-lo disser, não me acreditareis ( Lc
22, 67). Porque me perguntas? Pergunta àqueles que ouviram
o que lhes disse. Estes sabem o que ensinei (Jo 18, 2 1 ).
Sa nto Ambrósio comenta : O Senhor acusado, com
razão fica calado, não necessita de defesa . Que procurem
se defender os que temem ser vencidos . Ao se ca lar não
concedeu , a penas teve pouca consideração pelas acusa­
ções e não se dignou refutá-las.
113
Su rpreso com o si lêncio, Pi latos perguntou : Não es­
cuta todas as acusações que fazem ? Jesus estava tão se­
reno que não demonstrava o menor sinal de preocu pação,
confirmando o salmo que diz: Eu, porém, sou como um surdo:
não ouço; sou como um mudo que não abre os lábios (SI 37,
1 4 ) . Pilatos perguntou outra vez: Nada respondes? Vê de
quantos delitos te acusaml (Mc 1 5 , 4). Mas, patãgrande admi­
ração do governador; não quis responder nenhuma acusação
( Mt 27, 14). Ficou espantado, pois não estava acostumado
e achava estranho o si lêncio. Os doutores da lei, con he­
cedores das Escrituras, não lembrara m o que estava escri­
to a respeito : Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca,
como um cordeiro que se conduz ao matadouro (Is 53, 7 ) .

J ESUS E PR..E TERIDO A BARRA BAS

Pilatos sabia que os sumo sacerdotes o haviam entre­


gado por inveja ( Me 1 5, 1 0 ) . Convencido di sso procurava
l i bertar Jesus, mas como não havia conseg uido como ino­
cente, tentou como culpado. Era costume que o governador
soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa
( Mt 27, 1 5 ) , em memória da libertação do Egito. Como era
um benefício, todo o povo estava em frente a residência
de Pilatos, lem bra ndo-lhe desta tradição. Pareceu a Pilatos
que tinha encontrado a solução para livrar Jesus. Havia na
1 14
pnsao um, chamado Barrabás, que fora preso com seus
cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio ( M e 1 5,
7) . Embora a tradição fosse o povo escolher algum preso,
desta vez seria diferente, teriam que escolher um dos dois.
Pilatos dirigiu-se ao povo reu nido : Qual quereis que eu vos
solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo? ( Mt 27, 1 7 ) .
C o m o s a b i a q ue era por i nvej a , não acred itava q u e s e
atreveri a m a esco l her um assassino n o l u g a r de Jesus.
Mas venceu a maldade dos sacerd otes. Ao ouvir a
perg u nta do g overnador, sabendo que o povo a d m i rava
Jesus por seus m i l a g res e ensinamentos, se espa l h a ra m
p e l o p o v o p a ra s u bo r n a r e c o n v e n cer, que pedisse a
libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus (Mt 27, 20).
Argumentara m que Barrabás era realmente um assassi no,
mas pior é q u erer destru i r o templo; caso Barra bás n ã o
s e end i reitasse, poderiam depois prendê-lo de novo, mas
com certeza fi caria tão a g ra d e c i d o q u e fata l m e n t e se
c o m po rtaria bem ; q u e J e s u s era p re s u n çoso e n u n ca
agradeceria a li berdade, conti nuando a colocar a nação em
perigo; se não fosse agora , depois seria tarde para con­
sertar o dano ca usado; que o governador tentava enga­
n á - los, porq u e se escol hesse q uem estava contra Césa r
seri a m con iventes e os rom a n os os a n i q u i laria m . Fora m
com estas razões que os pontífices instigaram o povo para
que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás ( M e
1 5, 1 1 ) .
115
Como ho uve u m a demora do povo em responder,
P i latos perg u ntou n o va m e n t e : Q u a l d o s d o i s deve ser
solto? Estava claro que a intenção era livrar Jesus, pois o
co nsiderava i nocente. rvtas d a r a l i berdade em confron to
com Barrabás era um favor mesqu i n ho, pois não o i nocen ­
tava, apenas o libertava pelo privilégio da Páscoa . Mesmo
que Jesus saísse livre, era uma ofensa e uma inj u stiça com­
pará-lo a Barrabás. Induzidos pelos sacerdotes, todo o povo
gritou a uma voz: A morte com este, e solta-nos Barrabás ( Lc
23, 1 8 ) . O ódio era tanto que nem o chamavam pelo nome:
Não! A este não! Mas a Barrabás! (Jo 18, 40).
Como o Senhor tem uma alma generosa1 talvez o des­
prezo e a ingratidão ao escolherem Barrabás fora m· as ofen­
sas mais p rofundas que o Senhor recebeu em sua Pa ixão,
maiores que as ag ressões físicas sofridas e m seu corpo.
Q u a n d o somos ofe n d i d o s , d e v e m o s p e n s a r q u e
pouco vale a opin ião dos homens e buscar somente agra­
dar a Deus.
O próprio Santo dos Sa ntos foi considerado malvado
entre os malvados : Era desprezado, era a escória da huma­
nidade, homem das dores, experimentado nos soFrimentos;
como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amal­
diçoado e não fazíamos caso dele (Is 531 3 ) . Esta foi a g rave
acusação que Pedro lançaria sobre eles : Mas vós renegastes
o Santo e o Justo e pedistes que se vos desse um homicida.
Matastes o príncipe da vida ( At 3, 14- 1 5 ) . Esta escolha
1 16
aca rretou para os judeus : a destru i çã o de sua cidade, o
fim de Israel como nação e a morte e sujeição de mu itos.
Pi latos a i nda desejando li bertar Jesus, i ntercedeu de
novo: Que devo fazer com o rei dos judeus? Nomeando como
rei, os envergon hava, pois não poderiam dar uma morte de
cruz, seria um desonra muito g rande, mas eles só desejavam
uma coisa, a condenação e gritaram repetidas vezes: Cruci­
fica-o ! Pilatos insisti u com mais força : Nas, que mal íez ele,
então?Não acheinele nada que mereça a morte,: irei, portanto,
castigá-to e, depois_ o so/tarei ( Lc 23, 22) .
Quanto mais o defendia, mais os pontífices ficavam
enfurecidos e gritava m para crucificá-lo; a boa vontade do
governador estava sendo d o m i n a d a .

PILAT05 MANDA AÇOITAR ]E5U5

Pi latos oferecia ao povo castigar Jesus com açoites,


não seria some nte doloroso, seria h u m i lha nte; a pena só
e ra apl icada aos escravos e aos h a b itantes s u bj ug a d os
por Roma, a lei proibia a punição em cidadãos romanos.
Pensava que seria suficiente, pois se de a lg u m modo era
culpado perante os judeus, com os açoites ficaria despres­
tigiado e h u m i l hado e n ã o teria m a i s fascín io pera n te o
povo. A proposta não atraiu ninguém, mesmo assim decidi u
aplicá-la imediata mente, pensava q u e ta lvez conseg u isse
con vencer e m ud a r a opinião dos sacerdotes.
117
Com esta i ntenção e fug i ndo de toda gritaria, entrou
para o pretório com o Se nhor, reclamando d aquela ra lé.
Falou com Jesus sobre o ód io de que estavam contra
ele e como tentou persuad i-los ; que sabia que era por inveja ,
mas não conseg u i a raci oci n a r c o m t o d a a q u e l a algazarra ;
que era melhor sofrer com os açoites do que morrer; que não
era prudente um confronto, pois poderia perder o governo
d a p rovínci a ; que a s s i m eles se a ca l m a ri a m e se l i vra ria
deles; que se prepa rasse para sofrer o cast i g o . O Senhor
mesmo ca lado, era como se d issesse : Estou p ronto!
Desde a planta dos pés até o alto da cabeça, não há nele
coisa sã (Is 1 , 6 ) . A pena consistia em açoitar todo o corpo.
Assim o Senhor curaria as chagas de seu corpo m ístico, a
Igreja . Jesus teve q ue sofrer u m a crueldade tão g rande,
porque fo i em t roca d a nossa h o rrível s e n s u a l i d a d e e
desonest i d a d e .
Pi l a tos e ntrego u J e s u s aos ca rra scos, q u e o reti ­
raram de s u a presença e ordenara m q u e s e despisse . Ele,
vltrajado, não retribvía com idêntico vltraje; ele, maltratado,
não proferia ameaças ( 1 Pd 2 , 2 3 ) . Enqua nto era despido
para receber o tormento, os verdugos com p ressa come­
çaram a insu ltar e a rasgar suas vestes. O mais formoso
corpo, concebido sem pecado, unido a d ivindade para hon­
rar toda a criação e que ao contemplá-lo, pudéssemos dar
g raças a Deus, estava desnudo, bem ali no pretório e foi
a çoitado na frente de todos.
1 18
Os executores começara m os a çoites. Amarra ra m
com força as mãos do Senhor em uma colu n a , para que
não se soltassem pela crueldade e violência usada durante
a sess ã o .
N ã o era necessário ata r o Senhor. Mesmo livre, acei­
taria pacificamente, pois estava preso por amor, e se não
fosse por amor nada poderia seg ura r Jesus a uma colun a .
Castigara m conforme o costume romano. A pun ição
era mais cruel entre os roma nos que entre os judeus. a Exis­
tiam vários i n stru mentos de tortu ra : o látego tinha três
tiras de couro d uro a m a rradas a uma vara curta; o fuste
era uma sim ples correia de couro ; o pior de todos era o
flagelo, que era um látego com boli nhas de metal e pedaços
pontudos de ossos amarrados por arame na ponta . Os ver­
dugos se revezavam na aplicação, seg undo parece, eram
seis que descarregavam com toda força os golpes nas cos­
tas do Fi l ho de Deus .9
Jesus Cristo fl agelado p o r nossa c u l p a ; devemos
entender co mo somos val i osos, fo mos com p rados a um
preço mu ito alto; estamos em dívida com quem pagou por
nós; não podemos voltar à escravidão do pecado ; preci ­
samos valo riza r a g ra ndeza do nosso resgate .

8 . Entre os hebreus as chicota das não podiam passar de 3 9 .


9 . Segundo estudos n o Santo Sudário, seriam dois o s flageladores: um de
cada lado, aproximadamente a um metro d a vítima, desferi ndo simul­
taneamente os golpes. Ambos seriam destro s .

119
A coluna em que estava preso era baixa, de modo que
a s costas ficavam a rq u eadas e esticadas, deixando assim
uma área maior para os açoites. O flagelo acertava desta ma­
neira o corpo todo. Não sabemos o número de açoites; 1 0 era
costume romano deixar a cargo dos carrascos e a resistência
do condenado. Não podiam ser poucos os açoites, não só pe­
la crueldade d o s verd u gos, m a s p o rq u e eram m u itos os
pecados da h u m a n idade que o Senhor tinha q u e saldar.
O profeta havia fa lado do estado depois d a flage­
lação. Não tinha graça, nem beleza para atrair nossos olhares,
e seu aspecto não podia seduzir-nos (Is 53, 2). Tudo é uma
Ferida, uma contusão, uma chaga viva (Is 1 , 6). Se tudo isso
sentia o profeta tão longe no tempo, imagine o que sentia
sua Mãe q ue estava próxima do loca l . Todas as mães so­
frem pelos filhos; a Vi rgem Maria sofreu mais, porq ue seu
Filho era Deus. Derramou tantas lágrimas, quanto foi derra­
mado o sangue de seu Filho.
A Virgem Maria contaria aos a usentes q u e d u ra nte
a Paixão do Filho, sentiu em sua própria carne o primei ro
açoite, recobran do-se viu o corpo de Jesus todo chagado;
q ue os viu rasga ndo a carne até a p a recerem os ossos.
Somente a Vi rgem M a ri a sabia reco n hecer plena­
m e nte o a m o r que D e u s t i n h a p e l a h u m a n i d a d e , não

1 0 . O Santo Sudário i n dica um número su perior de 1 2 0 golpes e m a i s d e


7 0 0 feridas decorrentes d o s açoites.

120
poupando o Fi lho único . Ela ta m bé m se unia a entrega com
todo a mor, para que todos os homens fossem salvos, de­
seja ndo q u e todos reco n hecessem o i menso benefício d o
Senhor para co m eles.
Ex iste a l g ué m tão cego q u e n ã o o conheça? Q u e
tenha u m coração tão duro q ue n ão fique contrito e renda­
se aos seus pés? Q u a lq ue r pessoa teria com paixão por
alguém que para salvar um l a d rão, fosse preso pelo seu
crime e ven desse todos os bens para pagar por um crime
q ue não comete u . Se este beneficiado, em bora ladrão, fos­
se um homem de verdade, ficaria envergonhado por outro
esta r preso e na miséria por sua culpa, sem demora confes­
saria que era o culpado e o outro i nocente .
Porventura posso restituir o que não roubei? (SI 6B, 5).
Nosso coração é i ngrato se não recon hece os pecados fei­
tos contra Deus; nosso coração é de pedra se não chora
i m plora ndo perdão.
Quando o fiador liquida a d ívida, o devedor fica livre.
Assi m é a justiça de Deus, uma vez que Cristo pagou por
nós, não pede n a d a , a penas deseja que a p roveitemos a
g ra ça . A redenção foi a lgo de tão g ra n d ioso e generoso,
que em bora seja uma g raça imensa que Deus perdoe as
ofe n s a s d o s h o m e n s , m a ior a i n d a é o p a g a m e n to q ue
Jesus Cristo realizo u por nossas dívidas.

121
O homem merecia serpreso/ que escarnecessem dele/
lhe batessem/ o castigassem com aço1tes e depois o matas­
sem/ mas quem aceitou isso/ foi um homem que ao mesmo
tempo era Deus. u

J esus Cristo desejou receber no corpo a punição q ue


nós merecíamos pela nossa i m p u reza ; corrigiu na sua carne
a nossa rebeldia; à custa da sua dor deu exemplo de como
devemos dominar a carne, para q u e ela não se i mponha
ao espírito e nos faça ca i r no pecado.
O mais belo dos filhos dos homens (SI 44, 3) perdeu a
a fo rmosu ra e ficou com o corpo todo chagado, como u m
leproso, para que a nossa a l m a ficasse bela e agradável
aos olhos de Deus; e ta mbém fez por sua Igreja, para apre­
sentá-la a si mesmo toda gloriosa/ sem mácula/ sem ruga/
sem qualquer outro defeito semelhante/ mas santa e irre­
preensívei (Ef 5, 2 7 ) .

OS SOLDADOS ULTRAJAM JESUS

E n q u a n to os soldados a çoitavam o Senhor, Pi latos


fingia não ver ou talvez tivesse saído do pretório. Não pre­
tendia com a pena castigar o réu, a penas tentava satisfa­
zer os i n i migos. Provavelmente os i n i m igos pagaram aos

1 1 . São Jollo de Áv i l a . Aud! Filia, 1 9 .

1 22
verd ugos para q u e castig assem com basta nte violênci a .
Entre a d i ssi m u lação do governador e o ó d i o d o s acusa­
dores, os verd ugos se excederam acima do suportável na
punição. Assim que desprendera m JeSlJS da colu na, reco­
meçaram os escá rnios e as i njúrias.
Pilatos formou uma ideia particular sobre o reino de
Cristo, misturando o que tinha ouvido dos j udeus e do pró­
prio J e s u s . Ti n h a t o m a d o c o n h e c i m e nto q u e u n s d i a s
a ntes, o povo o a c l a m a ra rei , m a s n ã o conseg u i a co m ­
preender o mistério sobre um reino d e ou tro m u n d o . Sabia
que Jesus atri buía a si mesmo uma d i g n idade rea l e que
os judeus não a aceitavam. Era evidente que não merecia
morrer, talvez a penas uma punição pela confusão causada
na cidade . Soube que Herodes o considerou um louco. Tal­
vez por tudo isso tenha deixado os soldados ridicularizarem
o Senhor, assim os j udeus ficariam satisfeitos e não ped i­
ria m mais sua morte.
Os soldados fi cara m entusiasmados pela poss i b i l i ­
d a d e de se divertirem livremente. Cumpria -se o q u e estava
escrito : aumentaram a dordaque/e a quem feristes (SI 68, 27) .
Foram tão criativos na humi lhação, que somente uma
intervenção do demônio pode explicar a tamanha barbárie
que se a podero u dos carrascos. Somente acreditamos em
t a m a n h a crueldade por estar rel a ta d a no Eva ngelho, de
o utra form a , n u n ca podería mos a cred i t a r em ta m a n h o
horror.
123
Para i njuriar e escarnecer de Jesus, não foi suficiente
a penas os carrascos, chamara m todo o pelotão, perto de
cento e vinte cinco soldados; foram todos se diverti r e pas­
sar o tempo com aquele louco que se achava rei .
O Senhor havia vestido a tún ica a pós os a çoites, o
sangue coagulado do corpo se prendia na sua vestim enta .
Com força usada, a brira m -se as feridas e voltou a sangrar.
Arrancaram-lhe as vestes e colocaram-lhe um manto escarlate
( Mt 27, 28).
Quem trajava o m a nto vermelho e ra o i m pera d o r
romano, deste modo ficava patente a chacota em cima d e
q u e m pretendia ser rei . O manto era velho, rasgado e sujo;
coloca ram de qua lquer jeito, demonstra ndo que sua pre­
tensão era de um louco .
Depois os soldados teceram de espinhos uma coroa e
puseram-lhe sobre a cabeça (Jo 1 9, 2 ) . A coroa tinha a forma
de um capacete e cobria toda a cabeça , alguns espin hos
e ra m longos e pontiagudos, outros cu rtos e e ncurvados.
Não sabemos q ua i s tipos de espin hos fora m usados, pois
e m Jerusalém exi stem m u itas espécies. C ra v a ra m com
toda força , usando pedaços de pau, para não ferirem as
mãos. A dor foi enorme e o sangue começou a escorrer pelo
rosto. O Senhor deixou para nós, j u nto à sua coroa, d uas
preciosidades: a dor e a h u m i l hação.
Conti nuando a i njúria, puseram-lhe na mão uma vara
para fazer de cetro real ( M t 27, 29 ) . Ti n h a m Jesus co mo
1 24
um homem sem valor, a vara representava seu rei no : fraco
e partido.
O Senhor havia d ito aos discípu los sobre o desti no
do Filho do homem : Escarnecerão dele, cuspirão nele ( M e
10 , 3 4 ) .
Ajoelhados diante de Jesus, começaram a saudá-lo :
Salve, rei dosjudeus! E davam-lhe bofetadas (Jo 19, 3 ), zom­
bavam e fi ngiam ad orá- lo como rei . Cuspiam-lhe no rosto
e, tomando da vara, davam-lhe golpes na cabeça (Mt 27, 30),
mistura n do aquela saliva asq uerosa com o precioso san­
gue e enterrando m a is os espin hos em sua cabeça .
Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é,
ao pretório ( M e 1 5 , 1 6 ) . Era g rande e comportava todo o
público espectador. Assentaram Jesus para que todos pu­
dessem ver, despira m-no e coloca ra m o manto cu rto e a
coroa de espin hos, e diziam debochados: Este m anto, se­
nhor rei, q uem envia é o imperador de Roma. Todos, solda­
dos e povo, garga lhavam com a encenação. Colocando em
sua mão a vara : Receba o cetro real, que representa o rei­
no: vazio como sua cabeça . Escorriam lágrimas de dor dos
olhos de Jesus, Senhor dos senhores, Rei dos reis.
Ao cra v a rem a coroa d e espin h os com p a u ladas,
diziam : Como é rei, não pode ficar sem uma coroa, espe­
ra mos q u e esta seja de seu a g ra d o . Escorrendo sangue
pelos cabelos, testa, rosto e pescoço, o Senhor incl inou a
cabeça para o a lto, para que nós q u e estávamos caídos,
125
pudéssemos nos levanta r. Mas vós sois/ Senha� para mim
- ------ - ---

um escudo; vós sois minha glória/ vós me levantais a cabeça


(SI 3, 40) .
Quem poderá reclamar d e uma ofensa, q ua ndo ve­
mos o qua nto o Senhor sofreu por nós?
Jesus perm a necia i m pone nte a nte os a lgozes. Aos
que me feriam/ apresentei as espádua� e as faces aqueles
que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes
e dos escarros (Is 50, 6 ) . O Sen hor era mais poderoso em
sofrer, do que os i n i m igos em o ma ltrata rem ; sentava-se
com tan to esplendor, como se fosse uma coroação rea l ;
aceitava a s injúrias como s e fossem louvores. Nu nca houve
na história, um rei ou im perador que aceitasse com tanto
amor aquele manto sujo, o cetra-vara e a coroa de espi­
n hos. O Senhor gostaria que todos os homens estivessem
presentes à sua coroação. Mas poucos estavam presentes
ao convite : Saí, ó filhas de Sião/ contemplai o rei Salomão/
ostentando o diadema recebido de sua mãe no dia de suas
núpcias/ no dia da alegria de seu coração ( Ct 3, 1 1 ) . O rei
glorioso por vossa santidade (Ex 1 5, 1 1 ), seria coroado não
por jóias, mas pela riqueza que Deus lhe concedeu para
sua g lóri a : a obed iência até a morte por a mor.
O manto ru bro era velho e não tinha valor, porque o
verdadeiro traje rea l eram as chagas com seu sa ngue.
Reúnem-se todos e vem a ti. Por minha vtda/ diz o
Senha� de gala te revestirás/ como uma noiva te cingirás (Is
126
49, 1 8 ) . Aquele ma nto representava os a migos fiéis, por
l o·,- ..., � , l J ç
,, · , ' �.

quem derra mava seu sangue, ..Gs-ffir nando novos, l i m pos


e cheios da graça . Felizes aqueles que lavam as suas vestes
para ter diretto à árvore da vida e poder entrarna cidade pelas
portas (Ap 22, 14). Por este ca minho se tornou Rei dos reis,
porque todos os seus súditos, ficaram vestidos de verme­
lho com seu precioso sa n g u e .
N e n h u m a coroa seria d i g n a , pois t u d o neste mundo
é perecível. O que fica é o a mor que se adquire pelo sofri­
mento, como espinhos que fere m . Embora merecêssemos
a morte eterna e todo o sofrimento, o Senhor recebeu os
espin hos em nosso lugar. O q u e seria para nós castigo,
para Ele foi glória eterna. Dos espin hos de que fomos pou­
pados, brotou flores d e i mortalidade, uma coroa perene.
Cravada firmemente em sua cabeça, assim não cairia e nin­
guém poderia tirá-la, seu reino seria inabalável e perpétuo.
O seu cetra era uma vara, mas de ferro : Tu as gover­
narás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso
de argila (SI 2, 9 ) . Teria domínio sobre todos os povos, os
reis do mundo lhe seriam submissos e seus inimigos fica­
riam humilhados e frágeis como vasos de barro . O Senhor
estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse
ele, até o meio de teus inimigos (SI 1 09, 2). Assim aconteceu :
os apóstolos saíra m e conquistaram o m u ndo com a Pa la­
vra . A força não era deles, vi nha do a lto; eram frágeis como
u m a vara, mas o Senhor os tornou rij os como ferro . A
1 27
fraqueza de Deus é mais forte do que os homens ( ! Cor 1 ,
2 5 ) . Uma vara posta n a mão d e Deus é mais forte que tudo.
S a nto Atanásio diz que os a póstolos fo ram à vara frágil :
ig norantes e fracos, mas em pouco tempo se estendera m
por todo o m undo, com o cetra de Deus, vencendo e con­
vertendo reis, sábios e poderosos .

Vede, irmãos_ o vosso grupo de eleitos: não há entre


vós muitos sábios, humanamente Falando, nem muitos
poderosos_ nem muitos nobres. O que é estulto no mundo,
Deus o escolheu para conFundir os sábios_- e o que é fraco no
mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes_- e o que é
vtl e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também
aquelas coisas que nada são, para destruir as que são. Assim,
nenhuma criatura se vanglorlará dlante de Deus ( 1 Cor 1 , 2 6-
29) . Nem conferirá a si, a força e o poder que vem de Deus.

Como o seu reino foi fundado em homens, os escár­


n i os foram necessários para que estes se tornassem pa­
c i e n t e s na a d v e rs i d a d e, d e s p re z a s s e m o s a p l a usos e
ren unciassem a tudo que no mundo sepa ra de Deus. Assim
fica riam pre p a rados todos o q u e confessam seu n o m e ;
mártires e santos saberiam que a felicidade n ã o é triu nfar
n este m u ndo, mas servir ao Senhor.
Não seria justo apenas a lg u ns assisti rem , então, o
trouxera m para o pátio, onde todos pudessem ver a sua
coroação.
128
ECCE HOMO!

Pilatos sa i u da residência em direção ao pátio, onde


estavam os soldados e o povo . Todos estavam entusias­
mados com o espetáculo, mas os sacerdotes começavam
a ficar preocupados pela demora . Pensando que os âni mos
estivessem mais ca lmos, Pilatos e ntro u e i mediatamente
foram cessadas as brincadei ras, cada soldado foi para seu
posto, ficando somente o govern ador e Jesus, d i a nte do
povo. Ao vê-lo tão maltratado, senti u pena e pensou que
as pessoas também sentiria m compaixão. Os dois e ntra­
ra m no pretório e subira m ao pórtico, que ficava no alto
da praça , onde todos poderi a m ver melhor.
O Senhor foi a presentado ao público : todo machu­
cad o, sangra ndo, pálido, com o m an to sujo e a coroa de
espinhos; quase não podia ficar e m pé, de tão debilitado.
Bastava olhá-lo ao lado de Pilatos para que o coração
mais d u ro se com ovesse de piedade . Todos fi ca ra m e m
silêncio diante d a cen a . Pilatos e m a lta voz disse : Eu o trago
aqui fora para que saibam que não encontrei nele nenhum
cri me, como me pressiona ra m , concedi que o castigassem,
mas agora vocês d evem conceder-lhe a li berdade.
Voltou a olhá-lo e indicou com a mão: Eis o homem !
(Jo 1 9 , 5 ) . Queria q u e tivessem piedade, pois não tinha
mais cond ição d a q uele homem quere r ser rei .
Covarde! Pela terceira vez i n d ica q u e n ã o há culpa
129
a lg u ma, a pesar disso o entrega a flagelação e pensa que

assim o povo vai ter piedade.


Quem pudesse presenciar o Senh or, q u e pela pró­
pria vontade estava com as mãos amarradas por amor aos
homens, sentiria os anjos do céu ajoe lhad os a dorando o
Homem-Deus. E o amor deles era gelo perto do fogo a rden­
te d a caridade de Jesus.
Como foi possível que aquele povo fosse tão cego e
de coração tão duro? Por que colocaram nas mãos de um
pagão a solução? Por q u e não a ce itara m a sentença? Já
que não escutavam a voz d e Deus, poderi a m pelo me nos
escutar a voz do procu rador romano.
Pilatos tentava que se compadecessem de Jesus : Eis
o home m ! Vejam nem parece mais o mesmo que m e entre­
gara m ; ele não tem poder a lg u m ; está todo despedaçado;
não precisam temê-lo como rei ; como está nunca mais vol­
tará a falar do rei no; não é j u sto, o que mais querem?
Nem a a uto ridade d e Pilatos e a presença de Jesus
todo ensanguentado valera m a lguma coisa . Os pontífices
conti nuavam a envenenar o povo com i n veja e ó d i o . Ao
escutare m o q u e P i l a to s prete n d i a , esq uece ra m -se d e
seus ofícios e sem com postura alguma começaram a gritar:
Crucifica-o/ Crucifica-o/
O governador ficou estu pefato, não teria a rriscado
sua autoridade, se não tivesse certeza que suas palavras
e o estado d e p l o rá v e l d e Jesus n ã o conseg u i ri a m seu
130
1ntento . Percebendo q u e não teria êxito pera nte a obsti­
nação e a d u reza dos sacerd otes, e x a ltado p e rd e u a
prudência e grito u : Tomai-o vós e crucificai-o, pois eu não
acho nele culpa alguma (Jo 19, 6 ) . Pensam que i rei me con­
vencer aos g ritos? Que serei instru mento do ódio de vocês?
Eu sou j u i z e n ã o q uero ser a utor de u m a inj ustiça , não
costu m o castig a r i n ocentes. Flagelei pensando q ue isso
traria u m pouco de h u manidade; não vou crucificar ninguém
sem motivo, crucifiquem vocês mesmos, não serei culpado
de nenhuma i nj ustiça .
Os sacerdotes entendera m a mensagem . Magoados
com os d i zeres do governador, atacara m com u m a nova
acusação, tentando confund i-lo : Nós temos uma lei, e segun­
do essa lei ele deve morrer, porque se declarou filho de Deus
(Jo 19, 7 ) . Você, Pilatos, afirmou várias vezes que este ho­
mem é inocente e manda que nós o crucifiquemos, como
se fossemos pessoas sem lei e sem Deus. Para vocês q u e
a c red i t a m e m v á ri o s d e u s e s , t a l v e z n ã o seja ne n h u m
a b s u rdo q u e esses d e uses ten h a m fi l h os e fa çam deles
homens. Mas conforme a nossa sa n ta lei , existe somente
u m único e verdadeiro Deus; e este homem merece a morte
pela blasfêmia de se procla mar fi lho de Deus.
Os judeus estavam cegos, gabavam -se de ter rece­
bido a lei de Deus e de q u e era m fiéis observantes. Não
entravam no pretório para não se contamina rem; o Senhor
já os havia re preendido uma vez : Ai de vós, escribas e
1 31
fariseus hipócritas/ Pagais o dízimo da hortel<i do endro e do
cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a
justiça, a misericórdia, a fidelidade ( Mt 2 3 , 2 3 ) .
O governador teve misericórd ia, mas os sacerdotes
não tivera m . A justiça estava tão longe q ue m ud ara m a acu­
sação e cometeram toda espécie de atropelos para conse­
g u i rem o que queri a m . Pri meiro a cusaram de q ue se fazia
rei e m oposição a Césa r e i m pe d i a que se pagassem os
im postos; depois que era filho de Deus, acusação que Pila­
tos não entendia, mas o preocupava mais; para confundir
mais o caso, citaram uma lei q u e o governador não conhe­
cia e nem tinha obrigação de conhecer.
Quem blasfemar o nome do Senhor será punido de
morte: toda a assembléia o apedrejará ( Lv 24, 1 6 ) . Esta deve
ser a passagem q u e a legavam para punir Jesus . Conside­
ravam uma blasfêmia q ue Jesus d issesse q ue era Deus ou
Filho de Deus. Numa ocasião, osjudeus pegaram pela segun­
da vez em pedras para o apedrejar. Disse-lhes Jesus: Tenho­
vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual
dessas obras me apedrejais? Os judeus responderam-lhe:
Não é por causa de alguma boa obra que te queremos
apedrejar, maspor uma b/astêmia, porque, sendo homem, te
fazes Deus (Jo 10, 3 1 -3 3 ) . Se a lei diz q u e devem a pedrejar
u m blasfemo, por que quere m crucificar? Portanto não cum­
prem a lei, entregaram um blasfemador na mão d e u m gen­
tio e pedem que o crucifiquem; se não é permitido dar a
1 32
pena, como é possível que seja lícito pedi-la? Se o cri me
,k.. q ue o acusam não merece a morte como pedem a lgo que
não está na lei? Como podem ped ir que o crucifiquem pela
lei rom a n a , se nela não ex iste n e n h u m a cláusula que se
condene por blasfêmia? Tudo isso demonstra a cegu e i ra ,
o ódio, a i nvej a , a inj ustiça e a soberba dos judeus.
Caifás, sem con hecer plena mente a verdade, d isse
que era melhor que um homem morresse do que toda a
nação. Igualmente disse u m a g ra n d e verdade : os judeus
receberam a Lei d e Deus.
Estava escrito na lei que Jesus era Filho de Deus ; que
era necessário que morresse e como iria morrer. Inclusive o
Senhor tomou da lei uma comparação para mostrar o gênero
de sua morte : como Moisés levantou a serpente no deserto,
para os q u e o l h a ssem p a ra ela fi cassem curados, a s s i m
convinha que o Filho de Deus fosse levantado na cruz e todos
q u e olhassem com fé e amor fossem sa l vos, pois estavam
mortos pela mordida do pecado.
Quando Pi latos disse : Olhai, eis aqui o homem. Não
foi em vão. M u itos j udeus q u e estavam presentes, depois
de olharem com tanto a mor, percebendo os próprios peca­
dos, foram curados e agora estão açoitados, coroados d e
espin hos e crucificados j unto do Coração de Jesus.
N ecessita mos todos olhar para este Homem, a quem
tantos reis, profetas e patriarcas desejaram ver e não vira m .
Devemos escu ta r suas palavras, pois é Mestre. Precisamos
133
i mitar sua vida e seg uir seus passos, porq ue não há outro
ca minho. Olhai para este Homem, para podermos chorar nos­
sos pecados e ped i r perdão; para não morrer e ser perdoa­
dos, pois quem não olhar, não escapará da morte etern a .

!' I LATOS CONVERSA OUTRA VEZ COM JESUS

Mais numerosos que os cabelos de minha cabeça os que


me detestam sem razão (SI 68, 5 ) . Os sacerdotes e o povo
odiavam o Sen h o r sem m otivo, por i sso q u a nd o Pi latos
disse para o olharem, ao invés de ter piedade, chamaram­
no de blasfemo e ped i ram a crucificação .
Os sacerdotes até aquele momento, ti nham omitido
a acusação de Filho de Deus, apenas usara m os a rgumen­
tos de que q ueri a ser rei e e ra contra Césa r; pensava m
q ue a acusa ção de ser contra Roma teria mais força com
um g e n t i o . Certa m e n te P i l a tos levou com seried a d e a
d e n ú ncia de q ue Jesus era contra Césa r. M es m o tendo
com p rovado q u e tudo e ra por i n vej a e ódio, a p e n a s a
citação d o nome d o i m pe ra d o r o o b ri g a v a a ter m u ito
c u i d a d o ; não podia con d e n a r injustame nte, mas a bsol­
vendo os sacerdotes poderi a m acusá-lo de dar l i berdade
a um inimigo do império.
Preocupado d i a n te d a situação, deci d i u exi m i r-se .
Enviou Jesus para Herodes, depois tentou uma troca por
1 34
Ba rra bás e por fi m m a n do u fl agelá-lo; n e n h u m a d estas
tentativas deu res u ltad o .
Como Pilatos continuava indeciso e cheio de dúvidas,
a presentaram uma nova acusaçã o : fazer-se Filho de Deus.
Ficou mais confuso ainda, pois tinha ouvido falar maravilhas
sobre Jesus; ouviu do próprio Senhor que seu reino não
era deste mundo; presenciou pessoalmente o silêncio e a
prudência nas respostas. Como gentio, estava predisposto
a acred itar q u e Jesus era Filho de Deus, acostumado no
mundo pagão, tinha ouvido fa lar de fi lhos de deuses, cuja
mãe era mortal e o pai um deus do Olimpo. Os relatos das
heróicas façanhas de Jesus torna vam mu ito aceitável que
rea lmente fosse filho d e um deus, mesmo sendo um morta l .
Começava a achar u m erro ter açoitado um filho de deus,
não sabia mais o que fazer; poderia estar a bsolvendo um
blasfemo ou condenando um fi lho de um deus; de qualquer
maneira temia o castigo que viria do céu .
Entrou no pretório e fa lou outra vez com Jesus, per­
g u ntando : De onde és tu? Não pergu ntava de sua terra,
pois sabia que era galileu, mas da origem e da natureza :
O que dizem é verdade? Você é fi lho de um deus ou sim­
plesmente u m homem? Quem são os seus pais? Veio do
céu ou de a lgum lugar escondido da terra?
Pilatos havia declarado várias vezes que não encon­
trava n e l e c u l p a a l g u m a e como estava convencido d a
i nocência, era obrigado a a bsolvê-lo. O Senhor sabia q u e
135
a s p e rg u n t a s n a s ci a m d o m e d o d e p e r d e r o cargo d e
governador e da superstiçã o . Por i sso, nada respondeu .
Aos j u d e u s, Jesus d e ixou cla ro em v á r i a s o p o rtu­
nidades que era Filho de Deus, pois os sacerdotes con heciam
m u i to b e m a s E s c ritu ra s e s a b i a m e x a t a m e n t e o q u e
perguntava m . Pilatos, a o contrário, não sabia o que pergun­
tava e nem queria conhecer a verdade; assustado, desejava
a penas livrá-lo, mas o Senhor não quis fugir da cruz ; todos
os envolvidos sabiam o necessário, de modo que não tinham
motivos o u j u stificativas para a condenação.
Pilatos estava d isposto a livrar Jesus da morte e ficou
s u rp reen d i do q u e e l e nada respo ndesse em sua d efesa .
O silêncio, para um pagão sem fé e supersticioso, fazia au­
menta r a crença na divi ndade do réu .
Querendo mostra r q u e estava preocu pado, Pilatos
então disse: Tu não me respondes? Não sabes que tenho
poder para te soltar e para te crucificar? (Jo 19, 1 0 ) . Assim
se condenava, pois confessou que tinha o poder e de nada
valeria d epois, lavar as mãos e lançar a culpa a penas nos
j ud e u s .

Velho perverso/ Eis que agora aparecem ospecados que


cometeste outrora emjulgamentos injustos_ condenando os
inocentes e absolvendo os culpados; no entanto/ é Deus quem
diz: não farás morrer o inocente e o íntegro (Dn 1 3 , 52-5 3 ) .

1 36
Pi latos e ra d esses j u ízes em q u e o poder sobe à
cabeça, não usam mais a j ustiça, apenas a a m bi ção.

Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal,


que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam
doce o que é amargo, e amargo o que é doce/ Ai daqueles que
são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio
juízo/ Ai daqueles que põem sua bravura em beber vinho, e
sua coragem em misturar licores; daqueles que, por uma
dádiva, absolvem o culpado, e negamjustiça àquele que tem
o direito a seu lado/ (Is 5, 20-23 } .

O Senhor não perm a n eceu mais calado, p o i s sabia


que o a buso é uma i njustiça contra a sociedade e não agra­
da Deus. Jesus, juiz dos vivos e dos mortos, que veio para
d a r teste m u n h o da verdade, d isse ao govern a d o r : Não
terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado.
Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior (Jo 19,
11 ) . Aca bava com a soberba d e Pi latos, que n ã o t i n ha
poder legítimo em condenar um inocente. Mostrava que a
hora das trevas vinha da permissão de Deus e depois teria
de prestar contas, por ter usado com perversidade o poder
conced i d o .
Pi latos recon heceu a i njustiça e q u e o seu poder era
outorgado, teria de prestar contas ao i mperador romano,
3
aos deuses ou a esse poder de cima que Jesus se refe ri a .
Desde então Pilatos procura va soltá-/o. Mas os judeus
137
gritavam: Se o soltares_ não és amigo do imperador, porque
todo o que se raz rei se declara contra o imperador (Jo 19,
12).
Confirmaram que a acusação de blasfêmia não surtiu
efeito ju nto ao governador, então começaram a pressionar
Pi latos : i nd icando que e ra procura d o r d e César e gover­
nava e m seu nome; que está na cidade para d efender e
fazer respeitar a autoridade do imperador; que como leais
súd itos era d ever e ntreg a r um i n imigo de Roma, mesmo
q u e fosse um j u d e u ; que esta v a m s u rp ree n d idos como
defendia e desejava li bertá-lo e logo César saberia em que
espécie d e governador t i n h a confiado.

Pilatos preferiu conserva r o poder, mesmo que para


isso fosse necessário fechar os olhos para a j ustiça e para
a verdade. Como castigo, passados alguns a nos foi exilado
pelo próprio im perador e teve morte vi olenta . l 2
Vencido, Pilatos pronunciou então a sentença que lhes
satisfazia o desejo ( Lc 23, 24) .

1 2 . N o s Eva n g elhos Apócrifos e n c o n t r a m -se a lg u m a s versões p a ra o


f i n a l de P i l atos : m o rre com u m a flech a d a l a n ç a d a p o r César; u m
carrasco decepa sua cabeça; exilado em D a m asco até morrer; suici­
dou-se com u m cutelo . Nenhum destes relatos tem valor histórico.

13 8
J ESUS É COND fNA DO À M ORTE

Assustado com os g ritos dos j udeus e pelo te mor a


César, foi mais fácil atropela r a justiça do que enfrentar o
fu ror dos acusadores.
E ra perto do meio-dia, Pilatos começou a preencher
os requ isitos que a lei ind icava para concl uir e proclamar
solenemente a sentença .
Sentou-se no tri b u n a l , no l u g a r chamado Lajeado
( e m a ramaico, Gabbatá ) , ti nha este nome porque o piso
e ra co berto a rtistica m e n te por ped ras de vári a s cores,
formando um mosaico que representava a riqueza, a justiça
e a majestade de Roma . Era a lto e elevado, estava encos­
tado à parede do pretório pelo lado de fora .
Pilatos trouxe Jesus para fora, onde todo o povo pu­
desse vê-lo . Lançou à v ista deles a i njustiça e d isse-lhes : Eis
aqui o vosso rei ! Todos gritara m : M orte ! Morte! Crucifica -o!
Pilatos retorq u i u : Hei de crucificar o rei dos judeus? Os sumos
sacerdotes respondera m : N ão temos outro rei senão César!
Isto acontecia no exterior, mas se queremos a pro­
fu ndar o mistério devemos analisar: estavam decidindo se
deviam crucifica r Jesus, o motivo era blasfêmia contra Deus
ou tra ição a César, a mbas julgadas infu ndadas pelo juiz.
Outra questão era contra o povo jude u : conti nuariam a ser
o povo escolhido? A solução, para esta pergunta, se resol­
veria conforme receberi a m a J esus.
1 39
Senl100 dignai- vos, pela vossa misericórdia, afastar de
vossa cidade santa, Jerusalém, vossa cólera e vossa exas­
peração (Dn 9, 1 6) .

Como o povo judeu se valeu do procurador romano


contra o Sen hor, da mesma forma Deus se va leria do go­
vernador contra e l e s . Fez que Pilatos fosse teste m u n h a
da inocência e propagador do reino, e m bora n ã o enten­
desse o sentido das palavra s : Eis aqui o vosso rei ! Hei de
crucificar o vosso rei !
Repetidas vezes os judeus tinham acusado e pedido
a morte de Jesus; tinham preferido Barra bás; em todas as
ocasiões�que o juiz o defendeu, se o pusera m com a mea­
ças. Mas, apesar de tudo isso, Deus, o j usto juiz deu outra
oportunidade para os judeus confirmarem ou se retrata­
rem publicamente antes de finalizar o processo. Como era
uma decisão g rave e im portante, prepa rou com toda sole­
nidade possível . Esta va m presentes, junto d e Jesus, todo
o povo judeu e seus líderes. Perto do meio-dia da festa
da Páscoa, Pôncio Pilatos, procurador de Roma, em a lta voz
d isse : Eis aqui o vosso rei ! Hei de crucificar o vosso rei?
Os judeus entenderam bem todo o sentido da frase :
O Rei, o M essias profetizado e prometido pela Lei ; o Filho
d e Deus . Houve tem po para pensare m bem na resposta,
mas os pontífices, que qua nto mais velhos, mais perdiam

140
o pudor e o temor a Deus, respondera m : Não temos outro
rei senão Césa r!
Os sábios deviam perceber que fa ltava um rei natu­
ra l, e segu ndo as Escrituras tinha chegado o tempo mes­
siânico. Cegos e exaltados, não quisera m receber o Rei que
Deus enviava, condena ndo-se a conti nuarem subjugados
por um rei estra ngeiro, o César roma no.
Pouco a ntes de Pilatos dar a sentença , chegou u m
recado de s u a mu lher: Nada raças a esse justo. Fui ator­
mentada por um sonho que lhe diz respeito ( Mt 2 7, 1 9 ) .
Foi u m s o n h o natura l ou p rovidencial? Nada d i z o
Evangelista . Os Santos Padres opi nam que a visão foi para
aj udar a boa vonta de do j u iz . 13 Talvez tivesse visto o trá­
gico fim do marido, a destruição de Israel ou revelação d e
que J esus e ra Filho d e Deus. Pedia para que Pilatos não
to m asse parte n a condenação d a q u ele j usto, pois tinha
sofrido muito com a visão.
Não contou d eta lhes, pois não a cred itari a m e os
ju deus achariam u m absurdo. O fato é que teve u m sonho,
que a fez sofrer mu ito e não pÔde ficar indiferente; mesmo
com medo, ma ndou avisar seu m arido, tentando forçá-lo
a com padecer-se daquele justo. Por respeito, Pi latos en­
viou uma resposta, e assim todos ficaram sabendo que sua

13. O termo S a n tos Padres Clesigna os sacerdotes teólogos dos primei­


ros séculos. N o Ocidente term i n a com Sa<1to I s i d oro de S e v i l h a
( t 6 3 6 ) , n o Orien t e c o m S ã o J o ã o D a m a sceno ( t 749).

1 41
esposa ta mbém intercedeu por Jesus de Nazaré . Este foi
outro i m portante teste m u n h o da i nocência do Senhor.
Alguns tem opi nião que fo i o demônio que a moveu
em sonhos, para atrapalhar a Redenção. Não parece lógico
que o maligno i ncitasse os judeus de u m lado para matá­
lo, e de ou tro movesse uma mulher para sa lvá-lo. Para que
o poder do reino das trevas contin uasse pelo mundo, seria
mais fácil i mped i r a morte do Senhor, mudando os ânimos
dos sacerdotes e do povo para que pedissem a li berdade
para Jesus. Com os pon tífices desisti ndo das acusações,
t a m bém o governador não t i n h a n e n h u m i n te resse e m
conti n u a r a sentença .
Uma tradição muito antiga asseg u ra q u e a mu lher
de Pilatos se chamava Cla údia Procla , tinha simpatia pelo
j u d a ísmo, e m bora con servasse o s costu mes ro m a no s ;
d e p o i s d a m o rte d e J e s u s , s e t o r n o u c r i stã . A I g rej a
Ortodoxa grega a i nclui entre os seus santos.
Os sacerdotes e o povo cont i n u a v a m obsti n a d os,
Pilatos viu que nada adianta va, mas que, ao contrário, o
tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as
mãos diante do povo e disse: Sou inocente do sangue deste
homem. Isto é lá con vosco! ( Mt 27, 4 ) . Usando d e uma
fórm ula conhecida dos j udeus (cf. Dt 2 1 , 6), deixava claro
que não tomava parte da i nj ustiça : Eu não me consid ero
culpado, nem quero ter na minha consciência a morte deste
homem , que a culpa recaia sobre vocês.
1 42
Pela ú lti ma vez, Pi latos alegava a convicção que tinha
da inocência de Jesus. Norma lmente, o juiz decide de acor­
do com o que o processo conclu i u . Desta vez term inou d e
u m a maneira curiosa : solenemente lavou as mãos, o decla­
rou i nocente e, em seg uida, o condenou .
Realmen te, Pilatos foi u m j u i z i nj usto, sentenciou
contra a própria consciência . Foi um homem dúbio, quis ficar
bem com o mundo e com Deus. Pouco serve lavar as mãos
por fora e dissimular os erros com belas pa lavras, porque
vamos ser j u lg ados pelo Senhor, que não vê as exterio­
ridades e sim as obras.
P i latos pensava que esta v a l i m po d o s a n g u e do
Redentor. Os judeus como a n i mais s a n g u i n á rios pera nte
o discurso do governador, respondera m : Caia sobre nós o
seu sangue e sobre nossos filhos/ (Mt 27, 2 5 ) . Consideravam­
se tota l m e nte l i m pos, ta n to q u e co loca ra m os próprios
fi lhos como ca ução .
Depois de ta n ta i nsistê ncia Pilatos consentiu e de­
clarou pública e solenemente a sentença de morte; o povo
todo ficou satisfe i to . A sentença ta m bém fo i contra os
j u d e u s , p o i s p e d i ra m q u e ca í s s e s o b re e l e s a q u e l e
sangue; passados alguns anos, o templo e a cidade foram
destruídos por ordem do Imperador.1 4

14 . Tito no ano 70, depois de cinco meses de combate, deixou Jerusalém


em ruínas, o tem plo destruído e m i l h a res de cadáveres espalhados
pelas ru a s .

143
E o espinheiro respondeu: se realmenté' me quereis
escolherpara reinar sobre vós, vinde e abrigai- vos debaixo de
minha sombra; mas, se não o quereis, saia fogo do espinheiro
e devorei os cedros do L/bano! (Jz 9, 1 5 )

O povo escolhido preferiu outro rei e foram a brasa­


dos. Escolhera m o i m pe rador ro mano, q u e como um rio
enfurecido inundou e destruiu sua cidad e . Porque este povo
rejeitou as águas tranquilas de Stloé (Is 8, 6 ) ficaram sem
pátria por toda a terra, hum ilhados e vencidos, submetidos
a um rei estrangeiro .
Pronunciada a sentença , Pi latos ordenou que Jesus
fosse conduzido pelas ruas até o local da execução.
Toda a cidade ra pidamente tomou con hecimento do
ocorrido, a s ruas fi caram a m ontoa d a s d e pessoas q u e
desejavam ver passar Jesus Naza reno; a quem tinham visto
fazer inúmeros milagres e veneravam como profeta . A cida­
de ficou tumultuada ; as opin iões se dividiam, alguns esta­
vam favoráveis, outros contrários; os a m igos e d iscípulos
estavam a batidos; os i n imi gos se a leg ravam pela vitória.
O Senhor estava triste e a batido; a dor era enorme. O Espí­
rito Santo havia a n u nciado pela boca do salm ista : Quando
tropecei, eles se reuniram para se alegrar; eles me dilaceraram
sem parar (SI 34, 1 5 ) . Perante a dor, pede a Deus a ressur­
reição. Até quando se levantará o meu inimigo contra mim?
Olhal/ Ouvi-me, Senhor; ó meu Deus! Iluminai meus olhos

144
com vossa luz, para eu não adormecer na morte, para que
meu inimigo não venha a dizer: Venci-o (SI 12, 4-5 ) .
S a be n d o c o m o s e r i a te rrív e l , t i n h a preve n i d o o s
a póstolos na noite anterior, a n i ma ndo-os para que espe­
rassem a ressu rreiçã o .

Em verdade, em verdade vos digo: haveis de lamentare


chorar; mas o mundo se há de alegrar. Ehaveis de estar tristes,
mas a vossa tristeza se há de transrormar em alegria. Quando
a mulher estápara darà luz, sorre porque veio a sua hora. Mas,
depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por
causa da alegria que sente de ha ver nascido um homem no
mundo. Assim também vós: sem dúvida, agora estais tristes,
mas hei de ver- vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e
ninguém vos tirará a vossa alegria (Jo 16, 20-22).

JESUS CARREGA A CRUZ

U m suba lterno de Pilatos notificou o Senhor da sen­


tença e ele aceitou com humildade e a mor, por obediência
ao Pai .

Fazer a vossa vontade, meu Deus, é o que me agrada,


porque vossa lei está no íntimo de meu coração (SI 39, 9 ) .
Holocaustos e sacrifíciospelo pecado não te agradam. Então eu
disse: eis que venho porque é de mtin que está escrito no rolo
do livro, venho, ó Deus, para razer a tua vontade (H b 1 O, 6-7).
145
Naqu ele mome nto o coração de J esus esta va cheio
destes sentimentos e obedecia decidido por a mor a Deus
e aos homens : Para isso nasci, Pai , para isso vim ao m u ndo,
não para buscar o meu tri u n fo, mas a sua glória; não para
o meu proveito, mas para a salvação das almas. Os homens
são os réus e merecem a morte, mas eu quero livrá-los da
sua j u stiça ; Pai, recebe a sente nça contra mim como se
fosse contra eles . Eu sou condenado no lugar dos homens,
como sou i nocente e j u sto, q u e e les fiq uem absolvidos e
li vres pela m i n h a entrega .
Pi latos retornou à residência, deixando a cargo dos
subo rdi na dos a execução da sentença . Os sacerdotes d i ­
vulgaram a notícia de q u e fi n a lmente o procurador t i n h a
se convencido s o b re as m e n t i ra s e b l a sfé m i a s d a q u e l e
homem e m andava crucificá-lo. Aglomerou-se uma m u ltidão
diante da casa de Pi latos, moradores e os que visitavam a
cidade pela Páscoa, todos queriam ver u m acontecimento
tão i m porta nte .
Como um leão que se atira ávido sobre a presa os
executores tomara m Jesus e retiraram o ma nto (SI 1 6, 1 2 ) .
O s e u c o r p o s a n g ra v a co p i o s a m e n te p e l a v i o l ê n c i a
e m p reg a d a .
N ã o retiraram a coroa d e espinhos e o sangue conti­
n uava escorrendo pelo rosto. Não havia razão para tirar a
coroa do Rei eterno . Tirara m o manto, todo empa pado de
sangue, porq ue seu corpo m ístico, a Igreja, iria vesti -lo.
146
C o m o B a r ra b á s , l a d rã o e a s s a s s i n o , t i n h a s i d o
libertado, outros dois crimi nosos seriam crucifi cados com
o S e n h o r . Ta l v e z , os s a ce rd o t e s te n h a m p e d i d o e o
procu rador concordou . Pensavam q u e assim fi ca ria m a i s
solene aquele ato de pretensa j ustiça ; o espetácu lo seria
m a i s atraente p a ra o povo ; a desonra do S e n h o r seria
maior no meio d e dois bandi dos e as pessoas pensari a m
q u e o m o t i v o d a co n d e n a çã o e ra s e m e l h a n t e à d o s
m a rg i n a i s . Tro u x e ra m p a ra o p á t i o o s d o i s l a d rões, o
S e n h o r o l hou-os com co m p a i x ã o . E l e s , pelo contrá ri o ,
insulta ra m porque s u a s execuções foram a ntecipadas por
ca usa dele. Assim se cumpria mais uma profecia : deixou­
se colocar entre os criminosos (Is 53, 1 2 ) .
A V i rg e m M a ria sent i u terrível a n g ústia, vendo q u e
levava m seu Filho para o crucificarem . Machucava muito todo
a q u e l e povo corre n d o e g rita n d o , i nd o v e r a desonra d e
Jesus. Estava u m pouco afastada, mas conseguia v e r o q u e
acontecia . A s mulheres que a acompanhavam começaram a
chorar desconsoladas; a nossa Mãe, ao nota r como estavam
desoladas, ta m bém chorou com o coração desfeito pela dor.
Perma necia ca l a d a , sabia como tudo acabari a . O Espírito
S a n to a forta lecia p a ra q u e su portasse tão grande sofri­
mento . Assim p 6d e subir o monte, onde tam bém pereceria
a dor da morte e compartilharia os escárn ios e os tormentos
do Filho. Aproximou -se de um lugar onde Jesus a pudesse
ver; as piedosas m u l heres fora m j un ta s .
147
Fora da cidade h a v i a um peq u e no monte, situado
entre a parte setentri o n a l e oci dente do m o n te d e Sião .
Para chegar neste loca l era preciso sair pela porta Jud iciária
e virar à esq uerd a . Antigamente, junto à porta, costu ma­
vam os j udeus julgar os cri m i nosos e executá- los, por isso
levava esse nome. Ficava perto, para que os corpos ficas­
sem fora da cidade, mas ao a lca nce da vista de todos.
O local ficou con hecido como Calvário, e m hebraico
Gólgota . Parece significar lugar dos crâ nios, talvez porq ue
n ã o sepu l tassem os corpos, d e i x a n d o-os consu m i r pelo
tempo até fica rem some nte os ossos.
Existe uma lenda sobre a origem da palavra Gólgota .
Conta m que o corpo de Adão, o primeiro homem, foi enter­
rado naquele loca l . Onde havia começado a vida, estava
sepultado aquele q u e foi a causa da morte do gênero hu­
m a no, e agora seria lavado pelo sangue d e Jesus.
Os corpos dos a n i mais, cujo sangue é levado ao san­
tuá rio para expiação dos pecados, são q uei mados fora do
acampamento (cf. Lv 16, 27). Por esta razão, Jesus, querendo
purificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora das
portas ( H b 13, 1 2 ) .
J erusalém estava repleta de visita ntes por ca usa d a
festa d a Páscoa . Tomara m Jesus e o levara m para ser cru ­
cificado. A notícia correu ra pidamente, todos comentavam
e trocavam informações .

148
O Senhor deixou o pretório aco m pa n hado dos sol­
dados e executores, muita gente seguiu o cortejo. Estava
amarrado com uma corda no pescoço e era puxado. A porta
estava lotada de gente, todos olhavam curi osos, comen­
tavam o estado lastimável e o aspecto irreconhecível .
A cruz estava um pouco afastada, para q u e a comiti­
va que o levaria se preparasse. Como o soldado precisou de
uma lança para levar o vinagre a boca do Senhor, é de supor
que a cruz estivesse cerca de meio metro enterra d a , p a ra
n ão to mbar. Como Cristo m e d i a a proxi madamente q uase
dois metros d e a ltura ; 1 5 portanto é razoável que a cruz esti­
vesse uns três metros e meio de altura e a parte transversal
u ns dois metros. Quando viu a cruz, recon heceu como a arma
pa ra a vitória, a chave que a bri ria as portas do céu .
Aproximou-se da cruz, os cruéis ca rrascos ma ndara m
q u e a carregasse sobre os om bros, até o local da execução.
O procedi mento e ra normal, mas não deixa de ser desumano
que o condenado leve o i nstru mento da própria morte . Um
homem em bom estado físico aguentaria pouco tem po todo
aquele peso . Então, podemos i maginar toda fadiga e esgo­
tame nto do Senhor, que tinha sido brutalmente flagelado.
Era costume que levassem somente a trave tra ns­
versal sobre os om bros, a isso parece referir-se o Senhor

15. M e d i n d o o S a n to S u d á r i o c h e g a - s e a u m a estatura e n tre 1 , 7Bm e


l,B3m.

149
quando disse : Se alguém me quer segu/1; renuncie-se a si
mesmo, tome a sua cruz e siga-me ( M e 8, 34 ) . Foi u m a
crueldade que o Senhor, esgotado como estava , ti vesse
que levar a trave da cruz; não se preocuparam com o ca n­
saço, a fadiga e a debilidade pela perda de sa ngue. Somen­
te q u eriam atravessar as ruas, para que todos v issem a
h u m i l h ação de ca rregar u m fa rdo tão pesa d o . Tomou o
Senhor a cruz, com todas as suas forças, sabia q u e com
ela fa ria m a ra vi l h a s . Colocou sobre os o m b ros todos os
nossos pecados, pois só Ele podia ca rregar.
Levando a cru z, ao lado dos dois lad rões, começou
a caminhar pelas ruas d a cidade, j u nto com a escolta de
soldados; alguns estavam à frente e outros n a retaguarda,
no meio seguiam os verd ugos, com os cravos, o martelo e
as cordas. À frente da com itiva estavam m u itas pessoas,
entre elas : os sacerdotes, os a n ciãos, os doutores da lei,
os fariseus e os escri bas; todos a legres pelo tri u nfo a lca n­
çado. Atrás, seguia-o uma grande multidão de povo e de
mulheres, que batiam no peito e o lamentavam ( Lc 23, 2 7 ) .
Era m muitos o s tinham a lcançado graças. Os soldados gri­
tavam para deixarem o caminho livre, contudo todos que­
riam ver de perto a Jesus de Nazaré, e corria m através das
vielas a companhando o traj eto .

1 50
j fSUS ENCON TRA SUA MÃ E

Como as o p i n iões esta v a m d i vididas, a l g u n s esta­


vam envergonhados e outros se a legrava m ; m uitos insul­
tavam pelas janelas e ruas ao passar Jesus. Muitos tempo
antes o profeta havia dito : Fa lam de m i m os que se assen­
ta m à s portas d a cid ade, esca rnece m - m e os que bebem
vinhos ( SI 68, 1 3 ) .
O peso d a cruz era enorme, somente s e pod ia arras­
tá-la. Com as costas tota lmente chagadas, a cada tropeção
pelo terreno irreg ular, abriam-se mais as feridas. Os sol­
dados estavam com pressa, temiam alguma revolta popu­
lar; puxavam a corda amarrada ao pescoço e empurravam
com força, por isso o Senhor ca i u ao solo com a cruz por
cim a . 16
A Santíss ima Virgem procurou u m lugar para poder
avista r Jesus passa r. Apesar d e tod a agonia desejou vê­
lo . Deus fo rnecia forta leza para s u porta r tu do, mas n ã o
m i n i m izou a d o r do a pa ixonado encontro . Ang ustiada n ã o
pode d i rigir n e n h u m a palavra, pela pressa que o empur­
ravam, o Senhor tam bém nada pode d izer. A Virgem Maria
seg uiu o cortejo do pretório até o Calvário, presenciou tudo
no meio do aperto de pessoas e escutou todas as ofensas
e mentiras. Virgem bendita entre todas as m u lheres, que

1 6 . Seg u n do a Trad i ção, Jesus ca 1 u três vezes.

1 51
sofreu mais do que todas as mães! Por q u e foi às ruas se
m i s t u ra r com a q u e l e povo cruel e a l u c i n a d o ? Por q u e
aume nta r a dor indo a o seu encontro? Por amor ao Filho,
é verdade; queria consolá-lo e acompan há-lo até a morte !
Até a própria morte.
N ã o se i m p o rtou em a rri sca r s e r i n s u lta d a , pois
d esej a va ver a o b ra d e D e u s, p resenci a r o com eço d a
sa lvação d a h u m a n i d a d e , q u e h a v e r i a d e record a r p e l o
resto da vida com amor e admiração. Todos aba ndonavam
Deus, exceto a Mãe; todos o odiava m , menos a Mãe q u e
entendia e - o a mava mais que ning uém .
A Virgem M a ria chorava, a dor era imensa no coração.
Sentimos compa ixão diante das cenas de morte e nos fa lta
força, m uitas vezes, até para olhar; deste modo, podemos
imaginar como seria a dor da Virgem Maria que olhava para
o Filho todo desfi g u rado e ensang uentad o . M a ria e J esus
trocam olhares. Os o l h a res se e ncontra m e cada u m fica
com o coração mais a pertado; ao mesmo tempo, se a legram
e se consolam pela fidelidade compartilhada; não se falam,
porque para os enamorados não são necessárias palavras,
os corações se enten dem. Os olhos de M a ria diziam tudo
e os o l h o s p e n et ra n te s e c h e i o s de l á g r i m a s do Fi l h o
co rres pon d i a m .
Nossa Mãe ficou espantada pela forma i n d i g n a q u e
o Filho de Deus era tratado : Jesus merecedor de todos os
louvores e ra men osprezado e i n s u lt a d o . Mesmo ass i m ,
1 52
a g radeceu o Filho pela m a neira tão custosa que red i m i a
o s homens. O Senhor também viu como a Virgem aceitava
'
todo sofri m ento, contrário a natureza de uma mãe.
O Senhor rodeado de i n i migos, como se fossem tou­
ros numerosos e leões fami ntos, sem ninguém para ajudá­
lo, consolou-se ao ver sua Mãe, que reconhecia e estimava
o que estava fazendo e agradecia com amor.
A Mãe con hecia o a mor que ardia no peito d e Jesus
por Deus e pelos homens; a vontade que se submetia em
obedecer ao Pai ; o esforço em sacrificar-se pelos homens ;
a alegria em salvá-los e dar- lhes a vida eterna ; renovar o
mundo com sua graça. A Virgem Maria conhecia com toda
clareza a obra do Filho, e sem poder conter-se, correu com
Ele para o Calvário, p a ra esta r presente no sacrifício do
S u mo e Eterno Sacerdote que tra ria n ova mente a m izade
e ntre Deus e os homens.
Cami nhava o Senhor com o corpo i nclinado pelo peso
da cruz, com os o l hos i nchados pelas lágrimas e sa ngue;
os passos e ra m lentos e difíceis por cau sa d a debilidade
física, os joelhos tremiam, q uase se a rrastava ao lado dos
dois companheiros de suplício. Os j udeus riam, os verdugos
e soldados empurravam, mas a lg u mas mulheres choravam
por J esus .

153
O C/'\ LVA IUO

Pelo ca minho procuravam alguém para que o aj udas­


se a levar a cruz, não por piedade, mas porq ue já não esta­
va podendo, ti nha caído e os passos eram lentos. Estavam
com pressa e temiam que morresse no cam i n h o . Levar a
cruz era algo desonroso, somente os condenados a leva­
va m , ninguém i ria livremente ajudar o Senhor.
Encontraram um homem que vinha do campo, Simão,
natural de Cirene, na África, pai de Alexa ndre e de Rufo -
os dois parecem ser conhecidos de Jesus, pois são citados
nominalmente. Impuseram-lhe a cruzpara que a carregasse
atrás de Jesus ( Lc 23, 26). Assi m , em bora deson roso para
Simão todos entendiam que a cruz pertencia ao Naza reno.
Que sorte a de Si mão, ca rreg ar uma carga tão preciosa !
Com certeza o prêmio que recebeu foi muito g ra nde, pois
ao ca rregá-la pÔ de entender o q ue significa esta r "atrás
de Jesus".
Enquanto Si mão de Cirene carregava a cruz, o Se­
nhor sentou-se e uma m u lher chamada Berenice, - alguns
a identificam com a m ulher hemorroísa -, vendo o rosto
todo ensanguentado, a proximou-se e secou-lhe a face com
um lenço ; no tecido ficou impresso o rosto de Jesus, como
um agradecimento pelo seu carinho. �a r:n bém o Senhor im:-
_
p rime a sua ! magem em n '!_ssas aii'T)aS, quan_do medi��r:nos
_
na sua cruz e o acompan hamos em sua dor e solidã o.
1 54
A história de Berenice vem de uma piedosa tradição.
Dizem que o lenço era g ra nde e tinha três dobra s ; para
os q u e acred itam é rea l m e nte a verd a d e i ra i m a g e m d e
Cristo, mas não s e pode provar com certeza o fato .
A m u lher recebeu o n ome de Verônica, q ue sig nifica
verdadeira i m a g e m ; vero do lati m , verd adeiro e ikon d o
g rego, imagem .
O q u e rea l m e nte relata o Eva ngelho é q u e o Senhor
consolou algu mas mulheres que choravam por Ele. Não eram
as mulheres que seg u iam o Senhor deste a Galiléia, eram ou­
tras bondosas m u lheres d e Jerusalém . Choravam movidas
de com pa ixão pelo estado de Jesus, pois conheciam os ensi­
namentos e os milagres do Senhor. É bom chorar pela Paixão
do Senhor, pois significa amor verdadeiro, mas mais i m por­
tante é chorar pelos nossos pecados q u e o levara m à cruz.
O Senhor a lerta ndo a d esgraça q u e reca i ria sobre todos ,
disse: Filhas deJerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai
sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque virão dias em
que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e
• -.�1...
os peitos que''ilmamentaram! Então dirão aos montes: Caí
sobre nós! Eaos outeiros: Cobri-nos! Porque, se eles fazem isto
ao lenho verde, que acontecerá ao seco?(Lc 23, 28-3 1 ) .
Continuava m a ca mi nhar, pelo q u e pa rece Simão não
levava sozinho a cruz, mas aj u dava Jesus. Poderia Simão
levar sozi nho a cruz? Somente pod emos levar a Cruz com
a ajuda de J esus, sem Cristo a cruz não tem valor.
155
Chegara m ao monte cha mado Gólgota , local onde se
executam os malfeitores. Deus é meu rei desde os tempos
antigos_ ele/ que opera a salvação por toda a terra (51 73, 1 2 ) .

A CRUCJ FICAÇÃ O DO SENHOR

Chegados que foram ao lugar chamado Calvário/ ali o


crucificaram ( Lc 23, 33). Nenhum evangelista narra o modo
como foi crucificado, devemos pensar que foi conforme os
romanos crucificavam normalmente .
Como sabemos, era sexta-feira o dia que foi crucifi­
cado e morto. Com sua Paixão reparava o pecado de Adão
que nos tinha entregue à morte . Adão foi criado n o pen úl­
timo dia, o sexto dia como narra o Gênesis. Deus quis re­
parar o homem no mesmo dia em que foi criado. Por isso,
diz São Gregório, uma árvore se opôs a outra árvore, umas
m ãos se opuseram a; o utras mãos. Ad ão pecou j u nto da
árvore proibida, J esus red i m iu-nos n a á rvore d a cruz . As
mãos d e J es u s este n d e ra m -se com forta leza contra as
mãos que, por fra q ueza e soberba, se estenderam p a ra
colher o fruto proibido. As mãos de Jesus cravadas forma m
oposição à s m ãos que buscaram o pecado.
Quanto à crucificação, era quase à hora sexta ( Lc 23,
44), que correspondia ao meio-d i a . Costu mava -se dividir
o dia, em quatro períodos de três horas, e contar a primeira
hora a parti r do a man h ecer. A noite era sepa rada por vi-
gílias. São Marcos diz: hora terceira, que indica depois das
onze. São João re lata : cerca d a hora sexta . São Luca s :
quase à hora sexta . Embora possa parecer u ma contradi­
ção, todos conco rd a m q u e por volta d o meio-dia Jesus
estava cravado n a cruz.
A madeira d a cruz era tosca e não aplainada. O mes­
mo tipo de cruz comum a todos os condenados, tanto que
Santa Helena, mãe do i m perador Consta nti no, quando foi
em busca na Terra Sa nta, encontrou três cruzes e foi ne­
cessário um m i lagre para distinguir a verdadeira . 1 7 Alg uns
pensam q u e a forma é a que habitualmente esta mos acos­
tumados a ver. Outros pensa m que e ra uma á rvore com
todos os ra mos cortados, exceto os dois m a i s vertica i s ;
esta opinião é somente um desejo piedoso de querer com ­
para r a cruz a uma árvore, como s e Cristo fosse um precio­
so fruto. A Igreja canta em sua liturgia :

ó cruz fie� árvore entre todas a mais nobre;


Nenhum bosque talprodu� em folhagem, Ror e fruto.

Também a metáfora compara o pecado de Adão, que


estendeu a mão para a árvore proibida. Assi m, canta um
hino da Igreja :

1 7. No a no de 3 2 6 , S a n ta Helena teria encontrado a inscrição da cruz n u m a


gruta, ao l a d o do sepu lcro. Dividiu-a em três partes. E nviou u m a pa rte
ao seu f i l h o em Consta n t i n o p l a , outra pa rte foi e n v i a d a p a ra Roma e a
terceira p a rte ficou em Jeru s a lé m . Talvez deste fato ten h a nascido o
episódio.

157
O s u p re m o Fazed o r, co m p a d e c i d o d o e n g a n o d o
homem, que n a nociva maçã d e u a mordida d a morte, Ele
mesmo designou o l e n h o , q u e a pagasse o pecado da
á rvore.

Há a i n d a o u t ros q u e i m a g i n a m a cruz de v á r i a s
formas. O m a i s p rovável é q u e a cruz tivesse uma trave
ho rizonta l , q u e foi a q u e o Senhor ca rreg ou pelas ru a s .
Ta m bém h a v i a u m a tábua e m q u e se escrevia o cri m e
cometido.
O Senhor foi pregado na cruz com cravos, isto se nota
pela frase de Tom é : Se não vir nas suas mãos o sinal dos
pregos/ e não puser o meu dedo no lugar dos pregos/ e não
introduzir a minha mão no seu lado/ não acreditarei' (Jo 20,
25). Qua nto ao n ú m e ro de cravos, uns pensam e m três:
u m em cada mão e a penas um nos dois pés; outros dizem
q uatro, sendo um prego pa ra cada pé .
Há um silêncio também dos eva ngelista sobre a co­
roa de espinhos. Não dizem se foi tirada e depois colocada
novamente ou se permaneceu d i reto sobre a ca beça .
Sobre o modo de crucifi car : a lguns imaginam que foi
cra vado no solo e depois com cordas leva nta ra m a cruz;
outros que foi a marrado com a cruz já erg uida e o crucifi­
cara m no a lto à vista de todos.
A segunda su posição é mais plausível, pois se enca i­
xa mais com o costume romano e corresponde a um a pelo

1 58
maior para o diverti mento do povo. Ta mbém a Igreja canta :
Senhor Jesus Cristo, q u e à hora sexta, pela redenção do
mundo subiste ao patíbulo da cruz. Além d isso, "ao descer
o corpo", parece ind icar que a cruz ficou em pé.
Uma outra hi pótese : Todos os conhecidos estavam
afastados a certa distância da cruz ; para que todos pudes­
sem prese n c i a r o espetá c u l o , era n ecessário cra v a r os
pregos co m Jesus já leva ntado na cru z .

JESUS É CRUCIFICA DO ENTRE DOIS LA DRÕES

Chegando ao Calvário os condenados desca rreg a m


a s c r u z e s . Tod os q u e esta v a m seg u i n d o o co rtej o s e
re u n i ra m em volta. Enqua nto pre pa rava m a crucificação
deram-lhe de beber vinho misturado com mirra { Me 1 5, 23).
A bebida servia para entorpecer e a liviar o sofrimento dos
co ndenados. Era costume que as m u l heres piedosas se
preocu pa ssem em trazer este a lívio.
Aceitou agradecido, provou, mas se recusou a beber
( Mt 27, 34 ) . Não q u is a liviar a dor naq uele momento, a for­
taleza e a dig nidade de estar na cruz não viriam de u m
vinho narcotizado, pois pelo Espírito Santo se ofereceu como
vítima sem mácula a Deus ( H b 9, 14) .
Depois despiram o Senhor e o crucificara m . Reparti­
ram as vestes e sortearam a túnica.
159
Sim, rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando
de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés:
poderia contar todos os meus ossos. Eles me olham e me
observam com alegria, repartem entre si as minhas vestes,
e lançam sorte sobre a minha túnica (SI 2 1 , 1 7- 1 9 )

A cruz já estava fixa no solo e as escadas prepara­


das. Os dois verd ugos ergueram o Senhor pelas escadas;
Jesus estava despido, coroado de espin hos e com as cos­
tas sangrando pela flagelação. Vendo a cena, o povo come­
çou a g ritar.
Jesus olhava a cruz com amor, havia m u i to tempo
que a desejava, porque nela triunfa ria e resgata ria o mun­
do. O q ue tinha sido u m i n stru me nto infa me e d eson roso
convertia-se em á rvore da v i d a e escad a da g l ó ri a . Ao
estender os braços sobre a cruz, uma profu nda alegria o
tomava, pois de agora em dia nte todos os pecadores que
se a prox i m a ssem s e ri a m rece b i d o s d e b ra ço s a be rtos .
Ta m bém os pecados dos homens seri am cravados e mor­
tos, j u nto com suas mãos e seus pés.

Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com


ele, para que seja reduzido à impotência o corpo subjugado
ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado (Rm 6, 6).
Cancelando os documentos escrito contra nós, cujas
prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente, ao
encravá-lo na cruz (CI 2 , 14 ) .

1 60
Não ped ia mais ao Pai que o livrasse do cálice, mas
que somente perdoasse a h u m a n i d a d e .
Estava repleto de a legria, v i u que a cruz seria adora­
da e amada; viu que os mártires, por defender a verdade,
morreriam de modo semelhante ; viu o triunfo que os cris­
tãos conqu ista ria m com a cruz; viu os milagres que, pelo
sin a l da cruz, aconteceriam pelo mundo; viu tantos homens
que se tornariam santos, vencendo o pecado. A cruz seria
a lçada como uma bandeira , pela qual os homens conqu is­
ta ria m o céu .
São João Damasceno diz q u e a o ser cravado n a cruz,
Jesus ficava de frente para o povo e de costas para J eru ­
sa lém, porque a cidade não tinha acreditava nele.
O Senhor, do a lto da cruz, viu sua Mãe. Com o olhar
buscou consolo em quem mais o a mava . Trinta a nos de con­
vívio faziam que J esus conhecesse profundamente a bon­
dade d e sua Mãe e seu sincero amor. A Virgem Maria, Mãe
de Deus, somente ela podia conhecer i ntimamente o Filho .
Se pudéssemos entender o cari nho e amor com que sem­
pre se olhavam, sa beríamos que ag ora os o l h a res eram
de dor.
Em bora a dor crescesse a cada instante, o amor não
d i m i n uía . Se Cristo amou tanto a Igreja, que se entregou
por ela, imagine como a mava a Virgem M a ria, Mãe da Igreja ,
q u e t i n h a um valor muito m aior. Ela que a n imaria e suste n ­
taria a Ig reja q u a nd o ele partisse.
I (J I
O Filho se oferecia ta m bém por sua Mãe. Depois de
sua morte, mais que nin guém, ela estaria em graça e com
a força do Espírito Santo . A Virgem Maria olhava com a mor,
agradecimento e humildade, pois se com a morte Jesus se
torna ri a Rei e Senhor do U n i verso, ela q u e compartilhou
toda a sua dor, seria procla m a d a Ra i n ha e S e n h o ra d a
H u ma n i d a d e .
J e s u s d es ej oso d e co n s eg u i r p a ra o s h o m e n s a
l i be rd a d e e acu m u l a r d e g ra ç a s s u a M ã e , este n d e u o s
braços sobre a cruz. Os executores, com fortes marteladas,
cravara m-no na cruz. Ali estava o Rei dos reis pregado n u m
madeiro e M a ria cravada no s e u coração .
Começou a escorrer sangue da cruz até o solo, eram
como aque les q uatro rios q u e regavam o Para íso e ferti­
l i zavam a terra , contudo este s a n g u e era i nfi n it a m e n te
mais precioso.
Jesus na cruz, sendo Deus, conservou a serenidade,
mas n ã o pode evitar q u e o rosto fica sse desfi g u ra d o e
pálido.
O céu de Jerusalém recon hecia o seu Senhor e mos­
trava sua dor. A terra estremeceu e as pedras se queb ra­
vam, o dia escureceu. A Virgem Maria ficou mais firme que
as pedras e mesmo com tanta dor não se rompeu como a
terra. Sua a lma permaneceu clara, mais bri lha nte que o sol,
o rosto refletia dor e o corpo q uase não aguentava ficar
em pé.
1 62
Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrõe�
um à sua din:.vta e outro à sua esquerda ( Mt 27, 38), e Jesus no
meio (Jo 19, 18). Pilatos redigiu também uma inscrição eafixou
por cima da cruz. Nela estava escrito: Jesus de Nazaré, reidos
judeus. MUitos dosjudeus leram essa inscriÇão, porque Jesus
roi cruciricado perto da cidade e a inscrição era redigida em
hebraico, em latim e em grego (Jo 1 9 , 19-20) .

São Mateus diz: Este é Jesus, o rei dosjudeus (Mt 27,


3 7 ) . São Luca s : Este é o rei dos judeus ( Lc 23, 38) . São
Marcos a pena s : O rei dos judeus ( Me 15, 26). Estes evan­
gelistas se preocuparam a penas em dar o sentido d a con ­
denação, que é o m esmo em todos, e m bora com a l g u m a
variação. São João reproduz o texto completo, mais jurídico
e d etalhado : Jesus de N azaré, rei dos judeus. 1 8
Os outros dois ladrões também receberam a inscri­
ção, pois era costume i ndicar a condenação . Pilatos decidiu
coloca r como títu lo da i nscrição q ue Jesus pretendia ser
rei, se opondo a Césa r, mas a decisão d e Deus foi dife­
rente, pois ficou escrito que rea lmente Jesus era Rei .

1 8 . Em Roma, na Basílica de Santa Cruz em Jerusalém, encontra-se u m


fragmento (23cm x 1 3 c m ) da inscrição da Cruz. É considerado u m a
relíquia a ute ntica .

1 63
OS JUDEUS E OS R OMANOS
ESLilRNECEM DE JESUS

Retirara m as escadas logo q u e Jesus ficou cravado


na cruz, assim todos podiam ver. A multidão conservava-se
lá e observava. Os pdncipes dos sacerdotes escameciam de
Jesus ( Lc 23, 35).
O sol escureceu, fechou os olhos para não ver escár­
nio tão cruel e ficou todo escuro para esconder um pouco
a vergonha do Criador. O povo vendo-o pendurado na cruz
começou a gritar e a ma ldiçoá-lo.

Pois aquele que é pendurado é um objeto de maldição


(Dt 2 1 , 23) . Cristo remiu-nos da maldição da le1; fazendo-se
por nós maldição (GI 3, 1 3 ) .

Por ser homem pobre, a roupa do Senhor d evi a ser


corrente. Usava, como todo judeu, u ma túnica curta e sem
mangas, por cima uma túnica cumprida com mangas longas
e um m anto sobre os om bros. Depois de os soldados cruci­
ficaremJesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro
partes. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha
costura (Jo 19, 2 3 ) . Portanto fora m q uatro verd u gos q u e
rece b e ra m a s v e s t e s c o m o pa g a m e n to ; a t ú n i c a e ra
inconsútil, sem costuras, segundo a tradição feita por Maria

1 64
Santíssi m a . 19 Como era valiosa os soldados resolvera m
tira r a sorte sobre ela.
Rigorosa foi a justiça que caiu sobre Jesus, nem se­
q u e r as vestes fica ra m com o recordação para sua M ã e .
Teve q u e ver a s vestes sendo repa rtidas c o m o forma d e
pagamento pela crueldade feita com ele. Cum pria-se a pro­
fecia : Repartem entre si minhas vestes, e lançam sorte sobre
minha túnica (SI 2 1 , 1 9 ) .
Os soldados sentaram-se e montaram guarda ( Mt 27,
36), era costume vigiar os condenados enqua nto estives­
sem vivos . Provavelmente vigi avam com afi nco, pois os
sa cerdotes e escri bas, com medo que rou bassem o corpo
de Jesus, pagara m u ma boa q u a ntia .
Fora m horas tortuosa s . Como estaria u m homem
fla g e l a d o , p e n d u ra d o n u m a cruz com os b raços e pés
estend i d os e cravados, fazendo uma e norme força para
sustentar o corpo?
A cidade estava cheia d e gente, vindas de todas as
p a rtes para celebra r a Páscoa . Os que passavam o inju­
riavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu, que destróis o templo
e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és Filho

1 9 . Conserva-se em perto de Paris, na basílica de Argentuil, u m a túnica


que a Tradição afirma ser de Jesus. E m bora a coloração, a antiguida­
de da peça, o tamanho, o tecido, as marcas de sangue humano e da
flagelação e d e ser i n consúti l corroborem positivamente, ainda n ã o
s e pode afirmar c o m certeza s e r uma relíq uia verdadeira.

165
de Deus/ desce da cruz! (Mt 27, 39-40) . Cumpria-se nova­
mente que estava escrito : Todos os que me vêem zombam
de mim. Dizem meneando a cabeça (SI 2 1 , 8 ) . Fizeram-me
objeto de escárnio/ abanam a cabeça ao me ver ( SI 108, 2 5 ) .
O povo acreditou nas mentiras d o s sacerdotes, por
isso repetiam o que ti nham ouvido e o esca rnecia m como
u m mentiroso, ficavam alegres que u m enganador estives­
se na cruz, pois se fosse quem realmente dizia ser, facil­
mente desceria da cruz. Pobre gente cega que não enxerga
a luz do amor de Cristo. Que prova maior do que morrer
para sa lvar os homens e depois de três d ias ressuscitar?
Esperei em vâo quem tivesse compaixão de mim/ quem
me consolasse/ e não encontrei (SI 68, 2 1 ) . É q uase inacre­
d itável que tivessem ta nto ódio e crueldade; q ue pudes­
sem zombar de quem a gonizava ; que não a presentassem
nen hum sinal de compaixão. Pelo contrário, pareciam pos­
suídos pelo demônio.
Os sacerdotes, os escribas e os a nciãos continuavam
pers u a d i n d o o povo i g n o ra nte e fomentando ódio co ntra
Jesus, e d iziam : Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si
mesmo! (Mt 27, 42) É evidente que seu poder era falso e os
milagres um embuste, pois a gora q ue precisa nada rea liza .
Médico/ cura-te a ti mesmo ( Lc 4, 2 3 ) . Desça da cruz e nós
acreditaremos que é o rei de Israel ! Se é realmente o Filho
de Deus, que Ele o salve ! Assim diz a Escritu ra : Esperou no
Senho0 pois que ele o livre/ que salve/ se o ama (SI 2 1 , 9 ) .
1 66
Como eram os sacerdotes e escribas que passavam
as orientações, o povo repetia as i njúrias contra o Senhor.
Do mesmo modo os soldados zombavam dele . Aproxima­
vam-se dele, ofereciam vinagre e dizia m : Se és rei dos ju­
deus, salva-te a ti mesmo ( Lc 2 3 , 3 6 - 3 7 ) E os ladrões,
crucificados com ele, também o ultrajavam ( Mt 27, 44) . Um
dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és
o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós ( Lc 23, 39) .
Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal,
mas não se lhe dará outro sinalsenão o sinaldoprofeta Jonas.
Pois, como Jonas foi um sinalpara os ninivttas, assim o Filho
do homem o será para esta geração ( Lc 1 1 , 29-30 ) .
Nada esca pava ao escrúpulo d o s sacerdotes, repa­
ra ra m que a placa d izia "Rei dos j u deus". Segundo eles,
Jesus não era rei, como ta mbém ser Rei dos judeus não é
um cri me; isso ofendia sua lei e sua j ustiça . Pensando que
fora u m a i nadvertência do governador, os sumos sacer­
dotes dosjudeus disseram a Pilatos: Não escrevas: Rei dos
judeus, mas sim: Este homem disse ser o rei dos judeus.
Respondeu Pilatos: O que escrevi, escrevi (Jo 19, 22). Os
i nsensatos não reparavam que Deus se servia deles para
que todos fixassem bem o título da cru z : Rei dos j udeus,
escrito em todas as línguas fa ladas do i m pério ro m a n o .
Dizei às nações : O Senhor é rei ( S I 9 5 , 10) .
Tal vez possa trazer s u rpresa q u e em tão p o u co
tem po fosse reso lvida a ca usa d e Jesus de Nazaré, e o
167
levassem para o crucifica re m . Desde que começou o p ro­
cesso pela manhã no Sinédrio até o cra varem n a cruz, se
passaram a penas seis h oras. Foi maltratado e resignou-se;
não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao mata­
douro (Is 53, 7). Como não se opôs em nada, foi condenado
contra toda a justiça. Certo seria dizer que desejou morrer
pelos homens e que tinha pressa . Devo ser batizado num
batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra ( Lc 1 2, 5 0 ) .

O EXEM PLO DA CRUZ

A sabedoria d e Deus deci diu u m a morte n a cruz. A


vitória da Cruz deu â n i m o aos cristãos, para que m esmo
n o meio das mais fortes tribu lações perdessem o medo à
cruz e com ela triu nfassem alegres, subi ndo à glória.
Jesus deu o exem plo : devemos obedecer e a m a r a
Deus sobre tod as as coi sas, mesmo q u e tenha mos q u e
perder a própria vid a . Morrendo n a cruz, ensinou -nos como
ser fortes, a ter paciência, a ser h u m i ld es e a confiar em
Deus, por mais adversas que possam ser as circunstâ ncias.
Agora somos fortes sobre o i n i migo, com a cruz despre­
zamos os seus ataques, não nos im porta m os seus golpes,
pois só afetam o q u e é ca duco . O nosso amor é para as
rea lidades eternas, q u e ��éirli do a lto .

.1 68
Guiou os nossos passos no caminho da paz ( Lc 1 , 79),
mostrou-nos por meio da pobreza, que devemos nos des­
pre n d e r d a s coisas m a te ri a i s , de o n d e n ascem ta ntos
ma les. Nós pregamos Jesus crucificado, escândalo para os
judeus e loucura para os pagãos_- mas_ para os eleitos - quer
judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus
( 1 Cor 1 , 23-24).
Jesus m a n i festou a sua g ra n deza n a cru z . Assim
como é g ra nde em majestade no céu, foi paciente e humilde
na terra. Foi o primeiro a tomar a cruz para que nós o se­
g u íssemos. Rejeitou os bens materiais e sofreu mais q ue
n i nguém as dores que o mundo rejeita . 2° Como mestre foi
à frente, a brindo cam i nho para nos mostrar a vida.
A pobreza foi tamanha que nem tinha u m local para
ser sepultado ; faleceu despido ; não p'Õde nem beber u m
último gole d e água. São Pa ulo ensina que : Tendo alimento
e vestuário, contentemo-nos com isto ( 1Tm 6, 8 ) . O Senhor
que sendo rico, se fez pobre por vós (2Cor 8, 9), foi além,
pois ficou sem traje e sem nada para beber; rou baram-lhe
as vestes e dera m-no vinagre para beber.
Morreu desam pa rado. Olho para direita e vejo: não há
ninguém que cuide de mim (SI 1 4 1 , 5 ) . Afastastes de mim
os meus amigos, objeto de horror me tornastes para eles ( S I

20. Rejeitou como fim último, não como meio, pois e lícito usar o s bens
materiais em coisas boas, e m prol da sociedade e da fa mília.

1 69
87, 9 ) . Arrebatas-me, razes-me cavalgar o turão, aniqut!as­
me na tempestade. Eu bem set; levas-me à morte, ao lugar
onde se encontram todos os viventes (Jó 30, 22-2 3 ) .
Foi querido como u m santo, foi co nsiderado u m pro­
feta, foi honrado por muitos e tinha vá rios seg u id ores; o
te mplo e as s i nagogas ficavam cheias para escuta r suas
palavras, tinha alcançado e m Israel g rande reputação. Fez
i n ú m e ros m i l a g res e todos estavam a g radecidos pelos
benefícios recebidos. De repente tudo mudou, começou a
ser desprezado e insultado. Diz o Evangelho : Odiaram-me
sem motivo (Jo 1 5 , 25). Os sacerdotes foram o péssi mo fer­
mento na massa do povo . Como cães ra ivosos, d espeda­
çavam a carne d o crucifica d o com c a l ú n i a s e i nj ú ri a s .
Conseguiram q u e fosse enviado para morrer fora d a cida­
de, onde são executados os cri minosos; obtiveram a morte
mais humilha nte : a crucificação .
C o m os a m i g o s n ã o e n co n trou lea l d a d e . U m d o s
apóstolos o vendeu; aquele q u e ti nha sido escolhido como
o pri m e i ro entre todos, negou-o três vezes e j u rou não o
c o n h ecer; os o u tros fu g i ra m . Os a fetos h u m a n o s são
i n co n stantes, mas os cristãos devem ser fi rmes na fé e
constantes. O que sentiria o coração de Jesus d i a n te do
a ba n d o n o dos a m igos e rod eado dos q u e se a l eg ravam
com sua morte? Meu coração tomou-se como cera, e derrete­
se nas minhas entranhas (SI 2 1 , 1 5 } .

1 70
S o m e n te a Mãe o acom p a n h ou ! O Pai deixou q u e
padecesse . Ao abandono s e referem o s ini migo s : Confiou
em Deus , Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu
sou o Alho de Deus/ ( M t 27, 4 3 ) . E m certo momento, o
Senhor também sentiu isso : Meu Deus, meu Deus, por que
me abandonaste? ( Mt 27, 46).
Ta mbém fo i u m a g ra nd e h u m i l h ação para Jesus à s
acusações feitas : diziam q u e era u m b lasfe mador, q ua n d o
na rea lidade era Filho de D e u s ; q u e i nsurgia o povo contra
César, enquanto na rea lidade ensi nava o amor e ntre os ho­
mens; foi chamara m de mentiroso, Ele que é a Verdade; que
sua doutri n a pervertia o povo, q u ando a sua doutri na era a
Boa Nova, a Salvaçã o ; que fazia milagres pelo poder do de­
mônio; que era u m vagabundo sem moradia, a migo de peca­
dores e publicanos. A última acusação era verdadeira, pois
veio para cu rar os enfermos; q ua nto à moradia, havia dito :
As raposas tem suas tocas, os pássa ros os seus ninhos; mas
o Fi lho do homem, não tem onde reclinar a ca beça .
U m a g ra nd e vergonha foi ta mbém ã forma como o
tratara m : foram a rmados para prendê-lo na ca lada da noite
como se fosse u m ladrão; desfilara m com ele amarrado por
toda a cidade; um sim ples criado se atreveu a esbofeteá ­
lo; passaram a noite toda de q u i n ta -feira s e divertindo e
zombando com ele; H erodes desprezou-o como um louco;
os soldados ridiculariza m -no e m pú blico; prefe riram um
a s s a s s i n o ao i n vés d e l e ; fo i co n d e n a d o a morte m a i s
171
infa me, j unto com outros dois ladrões . Assi m fo i desonrado,
A q u e l e que m e rece toda a h o n ra e g l ó ria por todos os
séculos dos sécu los.
A dor em seu corpo foi i mensurável. Desde a planta
do pé até o alto da cabeça, não há nele coisa sã (Is 1, 6 ) .
Estava todo chagado que não tinha graça nem beleza para
atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos.
Era desprezado, era a escória da humanidade (Is 53, 2-3). As
costas estavam rasgadas pela flagelação, o ombro esfolado
pela cruz, o corpo todo desco nj u ntado ao ser esticado no
madeiro, a cabeça ensa nguentada pela coroa d e espinhos,
p á l ido pela perd a d e sangue, com olheiras e sed e nto, as
mãos e pés foram perfu rados. Contudo a pior dor era no
coração pela a ngústia que senti a .
Jesus q u i s padecer e padeceu como Deus. Vendo a
forta leza e a majestade de Jesus, percebemos que era mais
que u m homem comu m . Estendeu com decisão os seus bra ­
ços e manteve a cabeça erg u ida como u m Rei .
Padeceu pela justiça e pela verdade. Preferiu perder
tudo, a d esobedecer a Deus . Foi obediente até a morte e
morte de cruz. Com i m enso a mo r sofreu para s a l v a r os
homens de todos os tempos . Entre g o u -se sem m e d i d a ,
pois bastaria a penas uma gota de seu sangue para redimir
o u n iverso. Amou tanto que nos lavou de nossos pecados
no seu sangue (Ap 1 , 5) . Felizes aqueles que lavam as suas
vestes no sa ngue do cordeiro (Ap 22, 1 4 ) . Assim, pois, como
1 72
Cristo padeceu na carne, armai- vos também vós deste mesmo
pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado,
a fim de que, no tempo que lhe resta para o corpo, já não viva
segundo as paixões humanas, mas segundo a vontade de
Deus { l Pd 4, 1 - 2 ) .
Para nós é g rande e consolador o exemplo de Cristo,
porque não temos nele um pontífice incapaz de compadecer­
se das nossas fraquezas. Ao contrário, passou pelas mesmas
provações que nós, com exceção do pecado. ( H b 4, 1 5 ) . A
sabedoria de Deus mostra que Jesus passando pelas pro­
vações é igual a nós .
Estou imerso num abismo de lodo, no qualnão há onde
firmar o pé. Vim a dar em águas profundas; encobrem-me as
ondas (SI 68, 3 ) . O Senhor foi primeiro, como um coman­
dante, adentrou o mar deixando q u e a tempestade caísse
sobre ele e as ondas o afogassem, para que nós o seguís­
semos com seg u ra nça . Sobre mim pesa a vossa indignação;
vós me oprimis com o peso das vossas ondas (SI 87, 8 ) . As
ondas enfu recidas caíram sobre ele, mas conseg u i u abrir
u m ca m i n ho no meio do mar para que o povo passasse e
os seus ini migos afundassem como chumbo na vastidão das
águas ( Ex 1 5 , 1 0 ) . Os m u ndanos ficam tristes a nte a po­
breza, impacientes com a doença e desesperados perante
um i nfortú n io . Por isso, o Senhor e nsinou aos d iscípu los
que ficavam no mundo a ser ricos na pobreza e a legres na
dor e n a adversidade e ncontra r a fe l i cidade etern a . Por
1 73
meio da morte o Senhor ensinou o caminho da vida (SI 1 5 ,
1 1 ) . Apenas estendestes a mão, e a terra os tragou. Con­
duzistes com bondade esse povo, que libertastes; e com vosso
poder guiastes à vossa morada santa (Ex 1 5 , 1 2 - 1 3 ) .

JESUS D IANTE D O PA I

Não podemos expressar com pa la vras ou entender


com o lim itado con hecime nto h u ma no, a a legria de Deus
diante do Filho Un igênito. Que a legria em ver o Filho defen­
dendo-o e vencendo os inimigos pela obed iência . Mostra n ­
do com força e va lentia ao m u ndo : a J ustiça, a Misericórd ia
e a Santidade.
Deus aceitou por u m tempo, como suave odor, os sa­
crifícios dos animais. Mas o sacrifício do Filho, verdadeiro
Deus e verdadeiro homem, foi a perfeita oferenda, viva e
agradável. Não aceitaria mais o sacrifício da Lei a ntiga, pois
ela a pe n a s representava e a n u n ciava o Novo e Eterno
Sacrifício.
O sacrifício do Senhor foi oferecido somente uma vez,
e foi suficie nte e rep leto de g raças para os h o m e n s d e
todos os tempos. Com u m ún ico sacrifício ficou aplacada a
ira de Deus. A justiça foi feita e abri ram-se as mãos da mise­
ricórdia, os pecados estavam perdoados e os homens vol­
tava m a goza r d a a m i za d e de D e u s . A v i d a eterna foi
presenteada aos h o m e n s .
1 74
O Senhor prometeu a Nóe : Quando eu tiver coberto o
céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas
nuvens_ eu me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo
ser vivo de toda espécie, e as águas nâó causarão mais dilúvio
que extermine toda criatura. (Gn 9, 14- 1 5 ) . Jesus com os braços
a bertos na cruz foi um novo arco, sinal da Nova Aliança entre
Deus e os homens. O arco lança uma flecha, que é Cristo, o
Pai é vencido e a braça os homens ao invés de castigá-los.
Jesus Cristo amou os homens por amor a Deus; Deus
se tornou Pai dos homens por amor ao Filho, Jesus Cristo.
Que forta leza é a espera n ça q u e temos em Jesus!
Ele nos ama e pede por nós e o Pai nos perdoa. O Pa i viu
os sofri mentos que merecera m a nossa salvação.
Velai sempre, Pai e Filho, para que o a mor do Espírito
Santo nos santifi q u e • .

PAI. PERDOA-LHES

Jesus a proveitou q u e o Pai esta va agradecido pela


sua o b e d i ê n c i a e i nterced e u por n ó s . Por tod o s , pelos
j u stos e pelos peca d o res, por a q u eles q u e a i nd a n ã o o
conheciam e pelos que estavam presentes na crucificação,
pelos que tinham compaixão e pelos que traziam um ódio
implacável em sua perseguição (SI 24, 1 9 ) . O Senhor deseja
a salvação daqueles que tiravam sua vida; rogou a Deus
1 75
por e les, e para q u e n i nguém fi casse excl u ído do mérito
d e seu sacrifício.
Assim é o Pontífice que nos convinha (Hb 7, 26), que
fosse santo e o seu amor pudesse a ba rcar até os i n i migos.
Apesar de todo o sofri mento, a perdição dos pecadores au­
m entava sua dor, esq uecend o-se de si mesmo, não pedia
a lívio para a dor, mas perdão para os pecadores. Os i n i mi­
gos a umentava m os insu ltos, Jesus aumentava as súplicas.
Não te deixes vencerpelo mal, mas triunfa do mal com o bem
( Rm 1 2, 2 1 ) . Ped i u mu itas vezes: Pai, perdoa-lhes; porque
não sabem o que fazem ( Lc 23, 34) .
É admirável que tivesse ficado e m si lêncio por tanto
tempo no ju lgamento e dura nte a Paixão, e agora i nterce­
d esse para defender os a lgozes. O nosso advogado apre­
sentou ao Pai todos os motivos q u e p u d essem obter o
n osso perdão; a legou a nossa ig n o râ ncia e os seus pró­
prios méritos a nosso favor.
Pai, eu sou seu Filho e sei que me am� olha o amor
que tenho e como obedeci, por seu amor estou na cruz .
Não me negue o que peço, sou seu Filho e valho-me disso
para pedir que perdoesa todos. Seria justo castigá-los, mas
e u os a bsolvo e peço que faça o mesmo. Ten h o por eles
um a m o r de i rm ã o e o S e n h o r de Pa i . O sa n g u e q u e
derramei foi por eles; chegou o tempo d a entrega n a cruz,
mas também chegou o tem po do perdão e da m isericórdia.
Perdoa -lhes, a responsabilidade é g ra nde, mas fazem
1 76
p o r i g n o râ n c i a , f o ra m e n g a n a d o s e n ã o p e rc e b e m a

gravidade. Os seus l íderes ficaram cegados dia nte da Luz,


não q uiseram con hecer a Verdade, confu ndira m o povo. Eles
não percebem que realmente sou À�ü Filho; suplico que veja
desta forma : eles não me mata m , sou eu que morro por eles.
Pa i, perdoa-lhes, porq ue não sabem o que fazem .
No coração, Jesus pedia o mesmo para sua Mãe. Escu­
tando a prece do Filho sua alma ficou iluminada pela força do
sentido da oração . Atendendo ao rogo, com toda a força do
Espírito S a nto, a b ra çou todos a q u e les pecadores e m seu
cora ção . U n i u sua oração com a de Jesus, i ntercedendo ao
Pai para q u e os perse g u i do res fossem perdoados.
Pela i n te rc e s s ã o d e J e s u s e M a r i a , m u i t o s q u e
estavam presentes se convertera m . Logo a pós a Ascensão
de Jesus, elevou-se a mais ou menos três mil o número de
adeptos (At 2, 4 1 ) .

J-10/E ESTARÁS COMIGO N O PARAÍSO

E ntre as pessoas q ue foram tocadas pela oração de


Jesus, estava um dos crucificados ao seu lado. Pelas pala­
vras d irigidas a Jesus notamos q u e os dois e ra m judeus.
E os ladrões/ crucificados com ele/ também o ultrajavam ( M t
2 7 , 44) . A princípio o s dois o insultavam. Mesmo sofrendo
a mesma pena de Jesus, não e ra m compassivos.
1 77
Enfurecido pela tortura q ue recebia e i m paciente com
t o d o s a q u e l es g ri t o s e escá rn i o s , u m d o s m a lfe i to res
blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e
salva-nos a nós ( Lc 23, 39). Agora é a ocasião para demons­
trar o que diz ser! Sa lve-nos e se d eles ! Como é u m men­
t i roso, não há espera n ça para nós.
O l a d rão i n su l tava J e s u s , e s q u e c e n d o - s e d e q u e
realmente era um cri m i noso e merecia pun ição.
O outro ladrã o escutou tudo e n otou a paciência e
d i g n i d a d e com q u e J es u s rog ava ao Pai ped i nd o perdão
para todos, movido pelo Espírito Santo compreendeu que,
além de i nocente, ele era verd adeira mente o Rei d e Israel .
Confiou que poderia ser sa lvo, mas não da maneira
q u e seu com p a n h e i ro tentava . Por isso rep ree n d e u - l h e :
Nem sequer temes a Deus, tu que sorres no mesmo suplício?
Para nós isto éjusto: recebemos o que mereceram os nossos
crimes, mas este não fez mal algum ( Lc 23, 40-4 1 ) .
O Senhor n a cruz i l u m i nou com a verdade u m dos
compa n he i ros d e s u p l íc i o . O outro q u e fo i re pre e n d ido,
agora talvez pudesse a b rir-se para a salvação .
O venturoso l a d rão, d e p o i s d e t e r reco n h ec i d o o s
próprios pecados e a ceitar o castigo, mostrou ao com pa ­
nheiro o n d e estava a verdade. Então virou o rosto e disse :
Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu
Reino/ ( Lc 23, 42).
Com toda sim plicidade recon h eceu Jesus como Rei
1 78
e a creditou na ressurreição de uma ma neira m a ravilhosa .
Chamando pelo nome, não pedia mais nada para esta vida,
some nte o perdão e a vida etern a . Sentindo-se i n d i g n o ,
disse : Lem bra-te de m i m .
Vendo Jesus padecer ao seu lado, escutando todas
as acusações q u e os sa cerdotes lançava m , tudo levava a
pensar que Jesus tinha cri mes iguais aos seus ou até pio­
res. A força da g raça e a luz do céu foram abunda ntes, pois
mesmo nestas circunstâncias acreditou em Jesus. N i nguém
fa lava bem do Senhor, o sol a i nda n ão tinha escurecido e
a terra também não havia tremido. Não fo ram os aconte­
cimentos que o movera m a crer, mas a força da cruz.
V i u Jesus padecer na cru z e acreditou nele como o
Senhor do u niverso, acreditou no rei no celestial e pediu o
céu .
E m o c i o n a d o , o S e n h o r escuto u n o meio d e tanta
zombaria e i n s u ltos, a q ue l a voz que o reco n h ecia como
Deus. Vinha de um ladrão q u e, mesmo estando Deus tão
oculto, sou be confessar em a lta voz . Declarando a verdade
ao outro ladrão, podemos d izer que foi o primeiro a posto­
lado de fato . Como reconhecia a divindade e o d efendia,
dizendo que era santo e i nocente, o Senhor concedeu mui­
to mais do q u e pedia .
O Senhor alegrou-se pelo p ri m e i ro fruto do sa ngue
derramado. A primeira conversão de u m pecador, que ime­
diatamen te se fazia a póstolo. Como Sace rdote concede u
1 79
perdão, como Rei deu a ri queza : Em verdade te digo: hoje
estarás comigo no paraíso ( Lc 23, 4 3 ) .

AS TRE \IA S COB R I RAM TODA A TERRA

Havia meia-hora q u e o Senhor estava na cruz, desde


o meio-dia. O Pai fez u m prod ígio no céu para dar um sinal
q u e q uem morria e ra seu Fi lho. A natu reza chora ria pela
morte do Senhor, já que os homens blasfemavam dele.
O sol que nasce todos os dias e i l u m i na tanto os bons
como os maus, afastou os olhos para não presenciar tanta
m a l d a d e . Ao meio-dia q u a nd o o sol é m a i s forte, o céu
escurece u . Deus mostrava aos homens a escu ridão em que
viviam e a enorme treva que caia sobre eles, por apagar a
luz q u e resplandeci a . Como o povo judeu retirava a luz
sobre eles, Deus retirava a sua proteção e eles i riam ficar
n u ma escuridão maior do que os envolvia neste momento.
O sol se virou contra os cruéis judeus, ficou de luto
e oculto u -se n a escu ri d ã o . Todos ficara m preocupados e
perg u ntavam o q u e estava a co n tec e n d o . Desde a hora
sexta até a hora nona, cobriu-se toda a terra de trevas ( Mt
27, 4 5 ) . Os judeus q ueri a m u m sinal ( cf. Me 8, 1 1 ) . Não
bastava o dia ficar escuro contra toda o rdem natural? Que
outro sinal seria mais claro q u e este?
As trevas cobriram a terra da hora sexta até a hora
nona, o mesmo intervalo de tempo em q u e o Senhor esteve
1 80
vivo. Não havia nada de digno para ser iluminado. A obra
da salvação estava se realizando. Deus é meu rei desde os
tempos antigos/ ele/ que opera a salvação por toda a terra (SI
73, 1 2 ) . A claridade costu ma atrapalhar os que fazem ora­
ções, assim ficou o Ca lvá ri o : como um oratório no céu , com
a melhor med itação que se pod ia ter: Jesus crucificado.

A VIRGEM MA RIA SE A PROXIMA DA CRUZ

Os amigos de Jesus, como também as mulheres que o


tinham seguido desde a Galiléia/ conservavam-se a certa
distância/ e observavam ( Lc 23, 49) . Tam bém a Virgem Maria
tinha seg uido Jesus até o Calvário, estava u m pouco afas­
tada, porque a m u ltidão e os soldados não a deixavam se
a p roximar.
Depois de crucificarem Jesus e os dois ladrões, o povo
começou a ficar cansado de tanto g ritar e blasfemar, havia
escurecido e começaram a reti rar-se. Aproveitando a opor­
tunidade a Virgem Maria se aproximou da cruz e as m ulhe­
res fora m juntas. Corajosas mulheres ! Vinham da Galiléia,
tinham deixado as casas para servir e aj udar no q u e pu­
desse m ; ali estavam presentes com fi rmeza , ao contrário
dos a póstolos q u e estavam co m m edo e escondidos.
Havia algu mas mais conhecidas, pois eram mães de
a póstolos e parentes da Virgem Santíssi m a . Junto à cruz
181
de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria,
mulher de Cléofas, e Maria Madalena (Jo 19, 2 5 ) . Estava
ta mbém, Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu. A m u lher de
C l éofas e ra m ã e de Tiago m e n o r e de José, q u e era m
pare ntes de Jesus por a m bos os la dos, porq u e Cléofa s,
conhecido também por Alfeu era irmão de São José, esposo
da Virgem.
José, i rmão de Tiago menor, foi quem e ntrou no
sorteio com Matias, para saber qual seria o su bstituto de
Judas ( Cf. At 1, 23) . Pa rece que a "outra Maria" era mãe
ta m bé m de S i m ã o Cananeu e de J udas Tad e u , porta nto
e ra m irmãos d e Tiago e d e José. Assim eram cha mados
pelos ha bitantes de Naza ré : Não são seus irmãos Tiago,
José, Simão e Judas? ( Mt 13, 5 5 ) . 2 1
Pela a m izade, d esde a G a l i léia, sa b i a m que era o
m o m e nto cruci a l , po r esta razão n ã o se afasta v a m d a
V i rg e m M a ri a , aco m p a n h a n d o - a e m todos o s l u g a res,
especia l mente a este que trazia ta nta a m a rg u ra e dor.
Que fortaleza e constância ! O Filho morria e a Mãe
não temia a morte ; o Filho cra vado na cruz e a Mãe de pé,
j u nto dela ; o Filho padecia e a Mãe a presentava -se cora-

2 1 . Fica evidente q u e os " i rmãos de Jesus" eram na realidade primos. A


língua semítica era pobre em vocábulos, o termo irmão pode sign ifi­
car filhos, primos e pa rentes distantes. Vários textos do Antigo Tes­
t a m e n to confirm a m : G n 13, 8 ; G n 2 g , 1 2 - 1 5 ; lCr 23, 2 1 - 2 3 ; 2 Rs
36, l O ; Jz 9, 3; 15m 20, 29; Tb 5, 9; Ct 4, 9 . . .

1 82
josamente d i a n te dos persegu idores ; o Filho dava a vida
e a Mãe estava disposta a perder a sua. O mundo estava
em trevas e ela i lu m inada. No meio do mar tempestuoso,
a Virgem Maria governada pelo Espírito Santo seg uia o rumo
sem desv i a r da vontade de Deus.
No meio d e tanta força, a Virgem Maria chorava por
a q uele torm ento tão cru e l . N ã o podemos a lcançar o ta­
manho da dor, porque a med ida da dor é o amor e a Virgem
amava com um amor maior do que uma mãe ama seu filho.
Ao leva ntar os olhos e ver o fi lho, desejava estar no
lugar dele; n ã o pod ia defendê-lo dos ataq ues, não podia
co brir sua n u d ez, não pod i a saci a r sua sede, não pod i a
limpar o sangue de seu corpo e n ã o podia beijá-lo. Escutava
todos os i nsu ltos e permanecia q uieta ; cumpriu plenamente
com a q u i lo q u e t i n h a concord a d o : aceita r a vontade d e
Deus.
Ning uém pode entender plenamente a profundidade
do mistério, a não ser a Virgem Maria que é a "bem-aven­
turada entre todas as m u l heres", a "cheia de graça " .
E uma espada transpassará a tua alma ( Lc 2, 35), o
coração de M a ri a ficou ferido com as m esmas chagas do
corpo d e Jesus. O corpo e o rosto desfigurados, a cabeça
atravessada de esp i n h os e os pés e as mãos perfurados;
o coração de M a ria estava ali presente.
J unto à cruz de J esus estava d e pé sua mãe. Perma­
necia fi rme d e pé, d a n d o fo rça com seu a m o r . Pensava
1 83
naq uele menino que tinha dado à luz com tanta a legria; que
havia ensinado, cuidado e visto crescer; lem brava qua ndo
partiu pa ra divulgar a doutri na d a salvação. Recordava que
tinha escutado ta n tas coisas n a q u elas co n versas e agora
presenciava sua morte; não em sua casa ou em seus braços,
mas n u m a cruz, todo castigado co mo um blasfemo.
No meio de tanta g ritaria, com os ca rrascos e o povo
furiosos ofendendo Jesus, Maria venceu pela fé e obediên­
cia; seria a consolação para todos que aceitassem a cruz.

EIS Ai TUA MÃE

Quando Jesus viu a mãe e perto dela o d iscípu lo que


a mava, disse à sua mãe: Mulher, eis aíteu filho. Depois disse
ao d iscípulo : Eis aí tua mãe (Jo 19, 26). Para aqueles homens
sem fé, a cena represen tava a desonra de um fi lho perante
sua mãe.
Olhando para sua mãe, q ue estava tão perto, se co­
move u . O Senhor relembrou os momentos que havia pas­
sado j u nto dela : as alegrias d u ra nte todos a q ueles a nos
e do respeito q u e receb i a m por ela ser a mãe de Jesus.
Agora tudo estava tão diferente. Viu o seu rosto sofrido e
as lágrimas que escorriam, partiu-lhe o coração presenciar
a mãe sofrendo tanto. O Senhor chorou ta mbém, as lágri­
mas se m istu ravam com o sangue e os soluços a dor.
1 84
Ao mesmo tempo, se a legrava por dentro, por ter a
mãe perto naquele momento e agra d eceu sua presença .
Sua mãe demonstrava : fé, lealdade, forta leza, hum i ldade
e obediênci a . Foi tão unida e parecida com o filho, que po­
demos dizer: foi obediente até a morte e por amor afogou­
se nas águas d o sofrimento.
Com a q u ele olhar, J esus repartiu com a mãe todos
os bens q ue conquistaria com sua morte. Elegeu-a Rainha
do Céu, a dvogada dos pecadores e distribuidora de todas
as g raças. Ela q u e já havia recebido antes, por um favor
de Deus, a preservação do pecado ori g i n a l e a plenitude
da g raça . Mari a Santíssima foi a criatu ra mais p u ra entre
todos os nascidos.
O l h o u - a e não d e i x o u q u e ficasse d e s a m p a r a d a ,
a pontou com o o l h a r para o d iscípulo e d isse : E i s teu fi lho .
Depois disse para o discípulo : Eis tua mãe.
Estava morrendo na cruz, mas não se esqu eceu de
sua mãe. Deixou a lg u é m q u e cuid asse dela e lhe fizesse
compa n h ia , um n ovo fi l h o no l u g a r d a q u e l e q u e perd i a .
Poderia t e r feito isto d e p o i s d a ress u rre i ção, m a s n ã o
queria q u e sua mãe ficasse nem u m m i nuto desamparada .
Fazendo e m público, n a frente d e todos, foi como u m testa­
mento perante as teste m u n h a s .
Eu s o u seu filho e em todo o tem po que vivemos jun­
tos fu i obediente e respeitoso, mas agora d evo obedecer
o Pai . Não ficará sozinha, pois deixo meu q uerido discípulo,
185
a quem quero hon rá-lo com este doce presente . Ele cuidará
da senhora , como se fosse e u ; peço q u e o a m e como se
fosse a m i m . Pa rto , mas n ã o fi cará d esa m p a r a d a , tem
agora u m novo fi lho.
Que felicidade a de Joã o ! Devemos ter m u ita devoção
a São João Eva ngelista, porq u e a V i rg e m M a ri a o o l h o u
como seu fi l h o , e n ó s temos M a ria como nossa mãe.
Lembrá-se, ó Virgem Maria, de que ésminha Mãe. Este
foi o melhor presente que recebemos na cruz. Agora somos
todos i rmãos, filhos adotivos de Deus e filhos da Senhora .
Quando Jesus disse a João "eis a tua mãe", devemos
ouvir como se fosse para cada um d e nós e m particu lar.
Abra mos os o l hos, ela é n ossa M ã e !
M ã e , refú g i o dos pecadores, a g o ra e n a h o ra d a
nossa morte .
Jesus Redentor con seg u i u com o s e u s a n g u e q u e
M a ria se tornasse n ossa M ã e . Não podemos cha m a r Eva
de mãe, pela cobiça pelo fruto proibido tornou -se mãe do
pecado. A Virgem Maria viu com dor o fruto pend u rado na
á rvore d a cruz, olhou com amor o fruto d a vida, por isso
se tornou Mãe de todos os homens. Nós somos os fi lhos
da sua dor e seremos sem pre a g radecidos.
E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua
casa (Jo 19, 27). João foi m uito bem pago pelo a mor e pela
lealdade a Jesus. Desde à q u ela hora recebeu e a consi­
derou como sua mãe; assim se cumpria a promessa feita :
1 86
receberá o cêntuplo e possuirá a v1da eterna ( Mt 19, 29) . A
Virgem Maria foi para João o cem por u m . Era um prêmio
i merecido, pela generosidade em deixar tudo pa ra seg uir
Jesus, foi m u ito bem ressa rcido.

j fSUS M O RREU POR CADA UM DE NÓS

Devemos m editar longamente no d u ro suplício q u e


sofreu o Nosso Senhor na cruz . Esteve p o r três horas pen­
durado, o peso do corpo fazia a bri r as feridas em seus pés
e em suas mãos, para a liviar as câ imbras e poder respirar
ora se a po i a v a n os pés o ra nos b raços. O S e n h o r não
procurava aliviar a dor, pois tinha se entregado livremente
para sofrer em n osso l u g a r . Além d i sso, sua d e b i l i d a d e
física era tamanha q u e n ã o h a v i a a l ívio nenhu m .
Quando escureceu e todos começaram a sair assus­
tados, ficou si lencioso e calmo. PÔd e o Senhor neste mo­
m e n to v e r a c a d a de n ó s , no f u n d o de nossa a l m a .
Com padeceu-se e ra sgou o papel d a sente n ça q u e nos
condenava, cravou-o na cruz e a pagou o que estava escri­
to com seu sangue. Conseguiu de Deus toda a graça para
q u e nos fizéssemos sa ntos.
Não d evemos pensar q ue se ofereceu por todos de
uma maneira gera l . Quando estava na cruz se ofereceu por
cada u m em particular, amou a cada um, morreu como se
1 87
fosse para salvar apenas u m a pessoa que estivesse sozi­
nha no mundo. Viu cada u m de nossos pecados e i sso afligia
de modo p rofu ndo seu Sagrado Coração. Rezo u ao Pai e
s u p l icou para que cada pecado fosse perdoa d o .
Bend ita hora q ue estáva mos no Calvário. N ã o está­
va mos muito perto nem m uito longe, estáva mos na própria
cruz, no coração de Nosso Redentor. Abraçava-nos com seu
a mor e se oferecia ao Pa i .
Eterno Pai, já que desejou e mandou seu amado Filho
para pagar pelas n ossas c u l p a s , veja que o p a g a m ento
pelas nossas dívidas foi a ltíss i m o . Perm ita que fiq uemos
livres, pois o fiador foi demasiada mente castigado. Veja,
Senhor q uem pagou pelos nossos pecados foi seu Filho e
pagou com seu sangue.

MEU DEUS, M EU DEUS.


POR QJ)E M E ABANDONASTE?

O Senhor estava por m a i s de três horas na cruz.


Dura nte todo tempo rogava ao Pai e oferecia seu sacrifício
p e l o s n o s s o s peca d o s . Próximo da hora nona, Jesus
exclamou em voz forte: Eli, EI!; lammá sabactáni? - o que quer
dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? ( Mt
27, 46) . Todos o ouvira m se dirigir ao Pai usando as pala­
vras do rei Davi (Cf. SI 2 1 , 2 ) .

1 88
E s t a v a o S e n h o r c o m o corpo c h a g a d o , a a l m a
a m a rg u ra d a , perseg u i d o e a ba n d o n a d o , sentia fa lta d e
tudo, n ã o tinha onde repousar a cabeça, tinha somente a
cruz. Ser a pa re n te m e n te d esa m p a ra d o , j usta mente por
obedecer a seu Pai, escapa a com preensão h u mana . Deve­
mos agradecer ao Espírito Santo por iluminar o evangelista
q u e tra ns m i tiu a frase de Jesus, q ueixan do-se de a ba n ­
dono, assim podemos meditar m u ito n esta passagem .
Foi su rpreendente que o Senhor q uase morto, debi­
litado pela perda de sangue e quase sem forças, exclamas­
se em alta voz, mostra ndo toda a angustia e solidão: Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
É u m segredo da j u stiça e m isericórd ia de Deus. O
J u sto é desa m pa ra d o na sua tristez a , p a ra q u e fossem
protegidos os pecadores. A razão h u ma n a leva a pensar
que a j u stiça, pela morte d e seu Filho, seria a d estru ição
de todas as nações . Mas não foi isso que aconteceu, o Pa i
a ba ndona o Fi lho e faz com que si nta a pena que mereciam
os nossos pecados. Tudo isso, Deus fez para nos consolar,
para que tivéssemos u ma espera n ça na sua m i sericórdia,
uma vez que se cumpri u toda a justiça .
Jesus n u nca t i n h a sentido o desam paro de D e u s .
Estava constantemente na presença d e Deus, face-a-face,
sem pre de uma maneira direta, porque o Pai e o Filho são
um único Deus. Mas o homem pode se separar de Deus, e

189
para nossa salvação, quis Deus Pai que na cruz Jesus sen­
tisse a ausência de Deus.
Em nen hum mome nto Jesus perdeu a confia nça no
Pa i . Pouco a n tes, confi a nteme nte h a v i a ped i d o perdão
para a h u m a n idade, depois tam bém com muita confi a nça
entregaria o espírito nas mãos do Pa i . Era im possível que
o Pai aba ndo nasse o Filho tão q uerido e obediente, que
somente buscava a g lória de Deus e em tudo se submeteu
a s u a vonta d e . Já havia declara d o u m a total confi a n ça
d izendo : Aquele que me enviou está comigo; ele não me
deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado
(Jo 8, 29) .
No enta nto, desa mparou-o d u ra nte os ú ltimos mo­
mentos d a Paixão, deixando-o sentir toda amargura e toda
solidão . Pod ia ter impedido a flagelação, a coroa de espi­
nhos, os cravos, ou aniquilar os que q ueriam crucificá-lo e
calar os que insu ltava m . Porém Deus nada imped i u .
Sa bemos q u e os márti res recebem de Deus u m a g ra­
ça especial, para poderem su portar toda tortu ra e aceitar
com a legria uma morte tão cruel por amor de J esus. O Pa i
poderia conceder uma graça maior ainda para proteger seu
Filho, por exem plo, poderia co loca r a sua d isposição u m
exército de a njos .
Como havia dito a Pilatos, não convinha, pois o seu
reino não é deste mundo. Deviam se cum prir as Escrituras,
por isso Deus deixou as trevas a g i rem livremente sobre
1 90
Jesus. O Senhor havia pedido no horto que, se fosse pos­
síve l , o cá l ice fosse afasta do, mas e n tendeu comp l eta­
mente q ue a vontade divina já estava escrita . Morreria sem
nenhuma defesa, não seria pou pado de nenhum sofrimen­
to , e isso se cum priu com tanta d u reza que não p ade repri­
mir o grito de angústia : Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?
Podia Deus conced er um consolo interior, na alma.
Mesmo sofrendo a dor física, preservaria a dor em seu cora­
ção. É normal Deus conceder a graça aos fiéis, sentem-se
a legres por poderem sofrer por ele; sente m-se tão perto
de Deus, parece-lhes q u e nada os poderá atingir ( Cf. S I
90, 1 0 ) . Não era necessário a l g o novo, basta ria não tira r
a visão face-a-face que t i n h a de Deus.
M u itas vezes Deus atua ass i m : d esa mpara os seus
da consolação e proteção, deixa que sinta m a própria fra­
queza . Fez assim com Jesus para podermos aprender com
o exem plo. Se Jesus não tivesse sofrido a solidão, nós tería­
m os ficado sem consolo na nossa debi lidade. Por esta ra­
zão foi conveniente ocu lta r a g lória e mostrá-lo somente
com a natureza h u mana, deixá-lo sofrendo como se fosse
a penas um home m . O terrível desa mpa ro. Somente os que
receberam uma especia líssima revelação d e Deus con h e­
cem o peso e a dor das palavra s : Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?

1 91
É a d m i rável que d u ra nte todo o j u lg a mento não se
defendeu e guardou si lêncio, e agora que já estava na cruz,
onde não tinha mais retorno, se lamentasse .
M a s o q u e pa rece tão su rpree n d e n te re vela u m a
lição. Jesus tinha sofrido tudo calado e pacientemente, mas
a lguém poderi a pensar que t i n h a a forta leza das pedras
e a carne de bronze ( Cf. Jó 6, 12), que não sentia rea lmente
dor ou sofrimento. Para que não ficasse dúvida que sofreu
muito, queixou-se co m aquele g rito. 2 2
Bastava olhá-lo para saber q u e seu corpo não era
de bronze : estava com o rosto desfigurado e o corpo todo
e n sa n g u e n ta d o . Bastava o u v i r os g e m i d o s de d o r p a ra
perceber que sua alma não era de pedra . Gritou e mostrou
q u e era de carne e de osso e com senti mentos .
No horto havia mostrado os senti mentos, mas a pe­
nas três a póstolos presenciara m o momento .
Quando os i n i m igos fica ra m satisfeitos, e o Senhor
já tinha sofrido tudo que era n ecessá ri o ; m a n i festou os
sentime ntos d e seu coração para que sou béssemos q u e
em bora tenha sofrido muito em seu corpo, maior ainda foi
a dor em sua alma . Aquele grito representava toda sua dor.

22. No princípio do século I I , surgiu uma heresia denominada Docetlsmo.


VIam em Cristo uma forma apenas aparente de Deus, por isso só teria
sofrido e morrido na aparência, com isso n ã o reconheciam a ressur­
reiçã o .

192
Não se q u eixou da traição de J u das, não reclamou
d e Pedro, nem dos sacerdotes, n e m das fa lsas teste m u ­
nhas, n e m dos soldados, nem dos executores e nem d e
Pilatos. Não se lamentou de n i n g u é m . Queixou -se ao Pa i ,
somente e l e poderia responder o m otivo do desam pa ro .
Devemos a p render com Jesus : n o s m o m entos d e
d ificuldade encontraremos mu ito pouco a poio nos homens
e, pelo contrário, muito em Deus. Pois, não se vendem dois
passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra
sem a vontade de vosso Pai ( Mt 10, 29). As contra riedades
são remédio para as doenças espirituais, Jesus é o médico
que receita , ainda que sej a m os homens a dar o medica­
mento . 2 3 Para a u mentar o nosso mérito e a glória no céu,
é Ele quem luta por nós e nos dá a coroa da vitóri a . O con­
denado não suplica ao carrasco, mas ao juiz; o doente não
se trata com o farmacêutico, mas com o médico; os solda­
dos não mostram suas feridas para o utros soldados, mas
a o com a n d a nte. Igua lmente não devemos la nçar a culpa
r', ú ' \,; I . ·, • ·. . .

e nem se---YtAg aF naq ueles que são motivo da nossa contra-


ri e d a d e , m a s levantar os o l h o s a D e u s , q u e é o nosso
Coma ndante, Méd ico e Juiz.
Naquele momento Jesus se sentia sozi nho e chorava
sua tristeza .

23. Assim acontece no Sacra m e n to da Penitê n c i a , o sacerdote m i n istra,


mas quem perdoa é Cristo.

193
Falam de mim os que se c7Ssentam as portas da cidade,
escarnecem-me os que bebem vinho. Ninha oração, porém,
sobe até vós, Senhor, na hora de vossa misericórdia, ó Deus.
Na vossa imensa bondade, escutai-me, segundo a ftde!tdade
de vosso socorro (SI 68, 1 3-14) .

No horto havia pedido que o Pai não o desamparas­


se, sujeitando-se totalmente a sua vontade, mas a pa ren­
te mente foi a ba ndonado e se q u eixou .
Perg u ntou qual o motivo do abandono. Com os ho­
mens a ca usa é pelo ódio e egoísmo, mas os m otivos de
Deus nascem do amor e são para o nosso proveito. Se sou­
bésse m o s o s motivos não nos q ue i x a ría m os, s o m e n te
a g ra decería mos pela sua sabedori a . Por i sso, perg u nta r
com h u m i ldade s i g n ifica d esejo d e s u b m eter-se comple­
ta mente à vontade de Deus.
As palavras seg u i ntes do Salmo 2 1 fornecem a res­
posta. Os nossos pecados, que ele tomou para si, exig iam
o a bandono e a morte. O Senhor foi a bandonado, para que
nós não fG ssemos a ba n donados por Deus e condenados
à morte eterna. Não havia motivo para Deus o abandonar,
mas Ele estava no nosso lugar e recebeu o a ba ndono e a
morte q u e era m nossos.
Alg u n s que escuta ra m o la m ento de Jesus : EI!� Eií­
lammá sabactáni? Começa ra m a fazer u m jogo de palavras,
d izendo que chamava por Elias. Era uma zombari a . Elias

1 94
deveria vir e a n u nciar o Messias, como achavam que Jesus
era um fa lso messias, a p roveitava m para fazer chacota .
Mas Elias já tinha vi ndo na pessoa de João Batista (Cf. Mt
17, 1 3 ) . Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consu­
mado, para se cumprirplenamente a Escritura, disse: Tenho
sede (Jo 19, 2 8 ) .

TENHO SEDE

Imediatamente um deles tomou uma esponja, em­


bebeu-a de vinagre e apresentou-lhe na ponta de uma vara
para que bebesse. Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias
virá socorrê-lo (Mt 27, 48-49 ) .
Apesa r de todo sofri mento na cruz e toda zombaria,
o Senhor cumpriu tudo o que estava estabelecido na Escri­
tura . Dizendo que tinha sede confirmava o salmo: na minha
sede deram-me vinagre para beber ( SI 68, 22).
Estava com u ma sede que o atormentava, pois havia
perdido m uito sa ngue. Minha garganta está seca qual barro
cozido, pega-se no paladar a minha língua (SI 2 1 , 1 6 ) . Não
pedi u água, a penas d isse que tinha sede. Havia ali um vaso
cheio de vinagre (Jo 19, 29), que era uma bebida usada pelos
romanos e dera m -lhe para beber.
A Virgem Mari a gostaria d e saciar a sede de seu Filho,
mas os soldados não deixara m que se aproximasse, e ela
conti nuou sofrendo ali a mesma sede do Fi lho.
195
Mais do q ue a s e d e q u e resseca a g a rg a n t a , o

Senhor tem sede pela nossa sa lvação.


Sen hor, gostaria q u e m i n h as lágrimas d e a rrepen­
d i m ento m a tassem s u a sed e , m a s e u sou m u itas vezes
mais cruel que seus i n i migos, sou inca paz de trazer a lívio .
Porq u e t i n h a sede pela nossa sa lvação, o S e n h o r
d esejou padecer m u ito por nós, por isso n ã o reclamou da
tortura da cruz, seu amor era ma ior e vencia os tormentos.
D e p o i s do cá l i ce de a m a rg u ra q u e b e b e u no h o rto ,
aceitando a vontade de Deus, a i nda estava com sede. As
torrentes não poderiam extinguir o amo0 nem os rios o
poderiam submergir (Ct 8, 7). Foi uma lotJcura o que o Senhor
fez, é como se tivesse bebido toda a água de um rio e ainda
tivesse sede. É m a ra v i l hosa a sede de sofrer por n osso
a mor.
A sua sede de amor meu foi ta nta q u e entrou m a r
adentro e as ondas submergiram, afu ndou num mar d e dor
até morrer. No a lto mar do sofri mento a i n da diz que tem
sede?
Os s o l d a d o s q u e estava m d e g u arda t i n h a m q u e
espera r até q u e os co ndenados estivessem m o rtos . Por
isso, levavam com eles, para acalmar a sede, uma mistura
de água com vinagre chamada de posca . Traziam tam bém
p a ra d a r aos c o n d e n a d o s , p o rq u e u m dos m a i o re s
tormentos n a cruz é a sed e. Quando o Senhor d isse q u e
t i n h a sede, u m d os s o l d a d o s espetou u m a esponj a n a
1 96
ponta da lança, molhou-a na posca e deu de beber a Jesus.
Os outros que não tinham piedade, dissera m para deixa r,
pois Elias i ria salvá-lo.
Que se poderia fazerporminha vinha, que eu não tenha
fetto? Por que, quando eu esperava vê-la produzir uvas, só
deu agraço? (Is 5, 4). Em vez de vin ho, produziu vinagre .
Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está
consumado (Jo 19, 30).

TUDO ES TÁ CONSUMADO

O S e n h o r foi e n v i a d o p a ra d u a s m i ssõ es : s e r o
Messias e o Redentor. Ele as cumpriu perfeita mente .
Na última ceia o rou ao Pa i : Eu te glorifiquei a terra.
Terminei a obra que me deste para fazer.

Agora, pois, Pat; glorifica-mejunto de ti, concedendo­


me a glória que tive junto de tt; antes que o mundo fosse
criado. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me
deste (Jo 17, 4-6).

Antes d e sofre r, havia d i to : Eis que subiremos a


Jerusalém. Tudo o que foi escrito pelosprofetas a respeito do
Filho do homem será cumprido ( Lc 18, 3 1 ) . Agora tudo estava
cum prido, até a última letra que escreveram os profetas .
Na cruz tudo se cumpriu para q u e o s eleitos de Deus
1 97
sou bessem q u e a l i está a força de Deus, a p l e n i t u d e e
perfe i ção de todas a s co i s a s . O q u e é m i stério p a ra o
homem, escâ ndalo para os judeus e loucura para os gen­
tios, é oni potência de Deus.
Tudo está consu mado : bebi o cá l ice da Paixão se m
deixar uma gota sequer; as profecias fora m cumpridas e
toda a Escritura encontrou seu sentido em m i m ; paguei a
dívida dos homens; a a m izade de Deus com os homens foi
resta belec i d a . Eu venci ! Te rm i n a m i n h a v i d a na te rra e
começa o triunfo da m i n ha glóri a . Consummatum est.
Palavras m isteriosas que encerram tudo o q u e Jesus
Cri sto rea l i z o u para n o ssa red ençã o . S o m e n te q u em a
rea lizou co nh ece o sentido pleno.
Para conhecer o m istério devemos busca r a cruz. Na
presença do Senhor, com a aj uda da g raça, med itaremos
como e ra i nfi n ita a d ívida que Adão tra n s m i t i u aos seus
fi lhos e m d esobed ecer a D e u s . Por ser o nosso p a i , ele
estava obrigado a pagar a dívida. Mas nem ele e nem nós,
mesmo j u ntando toda a ri q u eza d o m u n d o , podería mos
p a g a r . Pelos pecados v o l u n tá rios dos h o m e n s a d í v i d a
a u m entava a cada i nstante.
Os d e m ô n ios esta v a m prepa ra d o s p a ra levar as
almas dos homens para o i nferno, onde fica ria m eterna­
mente, pois não teria m condições de q u ita r a d ívida .
O S e n h o r é m iseri cord i oso e desceu d o céu p a ra
resgata r nossa d ívida, pagar o que não tinha rou bado (Cf.
1 98
SI 68, 5 ) . Pagou com o sangue na cruz, rasgou nossas pro­
missórias e nos anistiou. Converteu-se em nosso Sen hor,
deu -nos a li berdade, tirando do demônio o d i reito que tinha
sobre nós. Antes de pa rt i r d eu a boa n otícia : Tudo está
cum prido, a dívida foi paga, estão todos livres.
O pagamento da redenção foi m uito generoso, Jesus
pagou excessivamente acima da nossa dívida ; além de nos
li bertar do i nferno, conseg ui u-nos a vida eterna . A Paixão
do Senhor m ereceu a g lória para todos; antes os n ossos
solitários sofri mentos não ti nham nenhum valor, mas agora
u nidos aos sofri mentos de Cristo, fazem jus ao pagamento
de nossos peca d o s .
Com o pagamento na cruz, o homem que era pobre
ficou enriquecido com a misericórdia de Deus. Antes tremía­
mos em pensar na j ustiça de Deus, agora podemos pedir
o prêmio, pois nenhum atleta será coroado/ se não tiverlutado
segundo as regras ( 2Tm 2 , 5 ) . Pera nte o tri b u n a l divino
podemos reivindica r, porque pelas pa lavras de crista tudo
está pago. Consummatum est.
Os h o m e n sJ a través dos pecad o�- desobedec i a m a
Deus, estavam em situação miserável. Como poderiam se
esconder da justiça divina? N in g uém podia esta r em paz
com Deus, não havia consolo. Quem poderia ser mediador
e ntre Deus e os homens? Co mo a lca n ça r o perdão? Por
outro lado, não se pode encontrar paz sem satisfação dos
agravos feitos. O homem é fraco, não tem poder de desa-
1 99
g ra v a r e nem forças p a ra n ã o voltar a ofe n d e r a Deus.
Deste modo, não era possível alcançar a paz entre Deus e
os homens. Uma guerra contra Deus somente poderia levar
o homem à condenação etern a .
M a s , D e u s tem u m cora ç ã o p i e d o s o . E n v i o u u m
mediador, Jesus Cristo, para aj udar a sa lvação os homens.
Porque aprouve a Deus fazer habttar nele toda a plemtude e
por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por
intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz,
restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus
( CI 1 , 1 9-20 ) .
O Príncipe da p a z estava cravado na cruz, levantado
entre o céu e a terra, gara ntindo a paz eterna . O tratado
de paz foi asseg ura do na presença da corte celeste, pois
o Senhor vê Deus face-a-face. Oferecia o seu sangue e a
sua vida como parte do pag amento da humanidade, para
saldar as dívidas e desagrava r as injúrias cometidas contra
Deus. Dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas,
àquele que podia salvar da morte, e foi atendido pela sua
piedade ( H b 5, 7). Pelo imenso amor que o Pai sente pelo
Filho, o a cordo de paz eterna, entre Deus e os homens,
foi confirmado. Consummatum est.
Ao morrer n a cru z, o Senhor se fez autor e consu­
madorde nossa fé ( Hb 1 2, 1 ) . Na cruz realizou a consumação
do q ue acred i tamos e deu fi rmeza para nossas esperan­
ças ; mostrou o caminho para alca nçar as coisas do a lto e
200
animou-nos para deixar por Ele todas as coisas materiais.
N a cruz se to rnara m rea l idades todas a s promessas de
Deu s . Porque todas as promessas de Deus são ''sim " em
Jesus ( 2Cor 1 , 20) . Pois a lei nada levou à perfeição ( H b 7,
1 9 ) , estava cheia de ceri m ô n i a s i n úteis e vazi a s . Agora/
porém, conhecendo a Deus_ ou melhor, sendo conhecidos por
Deus_ como é que tornais aos rudimentos fracos e miseráveis_
querendo de novo escravizar- vos a eles? (GI 4, 9 ) . Por uma
só ablação ele realizou a perfeição definitiva daqueles que
recebem a santificação (Hb 10, 1 4 ) .

T u d o está consu mado, t u d o está perfeito, t u d o foi


cumprido. Levei até o fi m o q u e a eterna sabedoria tinha
fixado. Paguei o que pedia a justiça e tudo foi feito em favor
do homem . Deus é piedoso e cheio de m isericórdia. Tudo
o q u e os patria rcas promete ra m , t u d o q u e os profetas
a n u nciaram, todas as i magens e sím bolos a meu respeito,
tudo está cum prido. Ensin ei tudo, para que deixem a igno­
rância e corrijam os erros; dei o remédio para curar o m a l .
N ã o falta n a d a para os tíbios para que s e tornem fervorosos
e fo rte s ; todo consolo fo i d e i x a d o p a ra q u e se to rn e m
santos. Venci o m u n d o ! Agora p o d e m t a m b é m triu n fa r
sobre a s forças demon íacas, porq u e tudo está consumado.

Com seu exemplo a prendemos a não desisti r n u nca


daquilo que co meça mos para a g lória de Deus. Por m uitas
dificuldades que se a presente m , por muitos inconvenientes
201
que nos pon h a m , não devemos n u nca voltar atrás.24 Pa ra
que não digam de nós : Este homemprincipiou a edificar, mas
não pode terminar ( Lc 14, 3 0 ) .

Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem


de testemunhas, desvenCilhemo-nos das cadeias do pecado.
Corramos comperseverança ao combate proposto, com o olhar
fixo no autor e consumador de nossa fé., Jesus. Em vez de
gozo que se lhe oferecera, ele suportou a cruz e está sentado
à direita do trono de Deus. Considerat; pois, atentamente
aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não
vos deixeis abaterpelo desânimo. Ainda não tendes resisttdo
até o sangue, na luta contra o pecado ( H b 1 2, 1 -4 ) .

Combate pela justiça a fim de salvar tua vida/ até a


morte, combate pelajustiça ( E elo 4, 33). Sê fiel até a morte
e te darei a coroa da vida (Ap 2 , 1 0 } . Não devemos fugir da
cruz, mas perseverar nela até que se cu m pra em nós in tei­
ramente à vontade de Deus.
Com o tem po todas as contrariedades e penas ter­
m i n a m , D e u s q u e r q u e a d o r d o s s e u s fi l h o s term i n e
depressa . N u nca nos fa ltará o consolo d e Cristo .
A Virgem Maria levantou os olhos ao escutar que tudo
estava con s u m a d o . Tentou e rg u e r a ca beça do S e n h o r,

24. Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o
Reino de Deus ( Lc 9, 6 2 ) .

202
mas suas mãos não o a lca nçava m , caíram seus braços sem
poder a braçar o fi lho; Jesus morria e ela não podia morrer
com ele. O seu corpo desfa lecia, sua alma estava tão unida
à de seu fi lho, que morria na dor com ele.
De repente, viu-o tomar u m ú ltimo fôlego e excla mar
suas ú ltimas palavras. Jesus deu então um grande brado e
disse: Pai_ nas tuas mãos entrego o meu espírito. E dizendo
isso, exptrou ( Lc 23, 46) .

PA I, NAS TUAS MAOS ENTREGO O MEU ESPÍRI TO

Quando colocamos a lgo valioso nas mãos de a lguém


é porq ue confia mos que cuidará bem, com o se fosse seu .
Se isso acontece conosco, que somos m uitas vezes menti­
rosos e fazemos as coisas mal feitas, m uito mais razoável
e sensato é q ue confiemos em Deus, pois o Senhor é fiel
em suas palavras e santo em tudo o que faz (SI 144, 1 3 ) .
Por acaso conhecemos a lguém q u e esperou a lgo de Deus
e não foi atendido? Tudo o que temos é de Deus; devemos
considerar e crer que tudo o que faz por nós é bom.
É mais valiosa a confiança em Deus quando estamos
sofrendo contra riedades. Nestes momentos, além de con­
fiar, devemos nos colocar em suas mãos e dizer: seja feita
a s u a vonta d e . Ass i m , m a n i fe sta mos q u e E l e é j u sto e
santo em tudo, a i nda que nos levasse à morte. Se ele me
203
mata, nada mais tenho a esperar; e assim mesmo derenderei
minha causa diante dele (Jó 13, 15}.
Ass i m e n s i n o u o M e stre q u e confi o u s e m p re e m
Deus, mesmo no meio dos tormentos. Antes d e começar
sua Paixão, colocou sua v i d a e sua h o n ra nas m ã o s de
Deus : Meu Pa� se épossíve� arasta de mim este cálice! Todavia
não se raça o que eu quero, mas sim o que tu queres. Meu
Pat; se não épossível que este cálice passe sem que eu o beba,
raça-se a tua vontade! ( Mt 26, 39.42 ) . Quando Pedro tentou
persuadi-lo, disse : Não hei de beber eu o cálice que o Pai me
deu? (Jo 18, 1 1 ) . O Senhor se colocou tota lmente nas mãos
d o Pa i , mesmo depois d e ver a m o rte e a verg o n h a q u e
sofreria . A i n d a a ssi m , confi a plena mente e entrega s e u
espírito ao Pai . Chamou de Pai antes d e sofrer e continuou
chamando de Pai q u a ndo estava para morrer. Sabia, com
certeza, que ressuscitaria ao tercei ro dia, que a vitória era
devida pelos seus méritos. Não q u is fazer j ustiça pelas pró­
prias mãos, se colocou nas mãos de Deus esperando pelos
três dias, porque retomaria seu corpo, já g lorioso e imorta l .
N a s mãos d e Deus estaria tota lmente seg u ro, porq ue
ali a morte não tem poder. As almas dos justos estão na
mão de Deus, e nenhum tormento os tocará (Sb 3 , 1 } . Não
há outra saída, só Deus pode salvar o homem. Não pode­
mos fazer outra coisa, só podemos nos col ocar nas m ãos
de Deus e confi a r na sua misericórd ia, dizendo : Pai, nas
tuas m ãos entrego o meu espírito .
204
O Senhor com o brado mostrou confiança e seg uran­
ça na hora da morte, sabia que triunfava sobre os inimigos.
Foi u m clamor d e vencedor.
Demonstrou que era Senhor da vida e da morte, que
morria por seu próprio desejo; como teve forças para dar
o grito, ta mbém poderia estender a vida o tempo que qui­
sesse . Tanto que o centurião que estava diante de Jesus, ao
ver que ele tinha expirado assim, disse: Este homem era
realmente o Filho de Deus. ( M e 1 5, 39).
Jesus n a cruz fa lou sete vezes, ao contrário do s i lên­
cio d u rante todo o j u lga mento. Ta nto que própria Escritura
pondera o silêncio : Eis o meu servo que eu amparo, meu elei­
to ao qual dou toda minha afeição, faço repousarsobre ele meu
espírito, para que leve as nações a verdadeira religião. Ele não
grita, nunca elevai a voz, não clama nas ruas (Is 42, 1-2) . Foi
maltratado e resignou-se; não abriu a boca (Is 53, 7). Não se
defendeu perante as acusações, i nclusive disse ao pontífice :
Por que me perguntas? Pergunta aqueles que ouviram o que
lhes disse. Estes sabem o que ensinei (Jo 18, 2 1 ) .
Sete vezes falou na cruz, n ã o e m defesa própria, mas
para nosso proveito; três vezes fa lou com Deus e q uatro
vezes com os homens : a primeira foi para perdoar o ladrão;
a seg u nda vez com sua Mãe e João; a tercei ra foi para d izer
que tinha sede e q u e bebia o ú n ico fruto d a sinagoga, o
v i n a g re ; na q u a rta v ez d i rig i u -se à nova I g reja , p rocla­
mando que tudo estava term i nado e que tinha conqu istado
205
a salvação. Na pri meira vez que fa lou na cruz dirigiu a pala­
vra ao Pai , depois fa lou com Ele uma vez no meio e fi nal­
mente dirigiu-lhe as últi mas palavras. Foi u m exem plo de
como devemos recorrer a Deus em todas as ocasiões. Ele
d eve ser o princípio e o fim , e esta r no meio das nossas
a ções. Não é preciso gritar, pois Deus ouve o mais silencioso
desejo da alma. Mas, Jesus bradou para que sou béssemos
e ficássemos seg u ros de que suas preces ti nham sido ouvi­
das por Deus.

Eu bem sei que sempre me ouves, mas ralo assim por


causa do povo que está em volta, para que creiam que tu me
enviaste (Jo 1 1 , 42) . Nos dias de sua vida mortal, dirigiupreces
e súplicas_ entre clamores e lágrimas� àquele que o podia !.>alvar
da morte, e roi atendido pela sua piedade. Embora rosse Filho
de Deus_ aprendeu a obediênc/a por meio dos so!Timentos que
teve ( H b 5 , 7-8 ) . Porque vós não abandonareis minha alma
na habitação dos mortos_ nem permitireis que vosso Santo
conheça a corrupção (51 15, 1 0 ) .

Pedia o q u e j á estava anu nciado simbolicamente e m


Jonas, q u e ao terceiro d i a volta ri a .
Jesus, depois de s e dirig i r a o Pai, inclinou a cabeça e
rendeu o espírito (Jo 19, 30). Com tudo que sofreu, desde
a noite a nterior, sem desca nsa r ou dorm i r, a i nda resistiu
por mais de três horas. Ele mesmo havia dito : O Pai me ama,
porque dou a minha vida para retomar. Ninguém a tira de mim,
206
mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a reassumir:
Tal é a ordem que recebi de meu Pai (Jo 10, 1 7 - 1 8 ) .
Os que odeiam a minha vida, armam-me dladas; os que
me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de
planejar traições (SI 37, 1 3 ) . Mesmo assim , ninguém lhe tirou
a vida, somente q uando toda a Escritura tinha se cumprido
deu o g rito e entregou a alma. Morreu erg u ido como u m
va lente.
Ficou seu corpo pendurado na cruz, mas unido sem­
pre com a pessoa do Filho d e D e u s . A cruz sustentava
aquele corpo sagrado que representava para Deus: o pre­
ço da nossa salvaçã o . Para os homens representa va : o
consolo dos sofrimentos; o exemplo para a vida; o guia do
ca minho; a esperança ; o a mor; a i magem dos escolhidos.
Jesus na cruz ta m bém representa o desespero dos demô­
nios, o vencedor da morte e do pecado, o Santo.
Do alto da cruz ensina, censura , a lenta e ama. Ape­
sar de sua morte, ele ainda fala ( H b 1 1 , 4).

A POS A M ORTE DO SENHOR

Todas as coisas choraram a morte do Senhor. Em sua


morte aconteceram ta ntos prodígios que fi cava bem claro
a força escondida, mesmo depois de sua partida. Aq ueles
bra ços esticados na cruz escondiam o poder de Deus. A
escuridão, a pós a morte do Sen hor, d esapa receu e o dia
207
voltou a ficar claro. O sol iluminava o maravilhoso corpo de
Jesus. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa res­
plandeceu a luz (Is 9, 1 ) .
E eis que o véu do templo se ras_qou em duas partes
de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas ( Mt
27, 5 1 ) . E toda a multidão dos que assistiam a este espetáculo
e viam o que se passava voltou, batendo no peito ( Lc 23, 48).
O primeiro lugar que sentiu a morte do Senhor foi o
santuário. O templo celebrado no mundo i nteiro pela mag­
nitude, onde Deus havia escolhido sua morada , viu o véu
rasgar-se de a lto a b a ixo.
No templo havia u m lugar chamado Santo, e outro
mais escondido que levava o nome de Santo dos Sa ntos .
O átrio do local Santo dividia-se com um véu pend u rado
do a lto até emba ixo, u m seg u ndo véu sepa rava o Santo
dos Santos .
No lugar santo estava a m esa dos pães da propo­
sição, o a ltar dos sacrifícios e o candelabro de sete braços.
No Santo dos Santos estava o incensário de ouro e a arca
do testamento, toda em ouro também. Na a rca havia uma
urna d e o u ro que conti nha o maná, a vara de Aarão e as
tábuas d a lei que Moisés recebeu de Deus.
Em ci m a da a rca tinha dois queru bins de o u ro, um
de frente para o outro, que com suas asas cobriam a mesa
dos pães da proposição .
208
Pelo átrio se en trava no lugar Sa nto, e dali se ctw­

gava ao Santo dos Sa ntos. O átrio era um lugar comum li

tod o s ; no s a n to , só pod i a m e n tra r os sace rdotes, p ll r ll


oferecerem o s sacrifícios d o d i a ; e no Santo dos Santos,
somente o s u m o sa cerdote podia entrar, e apenas u m a
v e z p o r a n o para oferecer o s a n g u e do sacrifício, derra ­
ma ndo-o pela sua c u l pa e pelas culpas do povo.
O rompi mento do véu foi o m a ior sinal ocorrido, maior
que o ecli pse, o tremor de terra e as pedras rachadas.
Os j u d e u s pod i a m atri b u i r o te rremoto e o ecli pse
como a conteci m entos naturais, m a s o véu se rasgar era
com certeza um sinal divino. Com o sinal, Deus anunciava
o a ba ndono do templo, não seria mais necessário esconder
com o véu o loca l . O templo agora estava vazio .
O exato local do Sa nto dos S a ntos encont ra va -se
a gora no Ca lvário, onde a verdadeira a rca da aliança, que
g u a rda todos os tesou ro s d e Deus, estava com o verd a ­
deira vítima d a propiciação divina . Porque é Deus que, em
Cristo, reconciliava consigo o mundo ( 2Cor 5, 19). A vara de
Aarão tinha sido su bstituída pela cru z . As tá b u a s d a lei
foram su peradas e aperfeiçoadas pelo manda mento novo :
o a mor. O maná ficava como u m a recordação, pois o ver­
dadeiro a l im ento é o corpo e o sa n g u e de Jesus.
E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os
homens a mim (Jo 1 2 , 3 2 ) . Com a força do a mor, atra i u

209
todas as coisas para si ; a si nagoga ficou vazia e o templo
u ma casa deserta e sem dono .
O Sa nto dos Sa ntos significava o rei n o dos céus, o
l u g a r e s co n d i d o a o s o l h o s d o s h o m e n s , o n d e D e u s
ha bita va .

O caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre,


enquanto subsistisse o primeiro tabernáculo. Porém, já veio
Cristo, Sumo Sacerdote dos bens vindouros. E através de um
tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído
por mãos humanas, sem levar consigo o sangue de carneiros
ou novilhos, mas com seupróprio sangue, entrou de uma vez
por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna
( H b 9, 8 . 1 1 - 1 2 ) .

Por esta razão rasgou-se o véu do tem plo, mostra n ­


do que estava a berto o ca m i n h o do céu .
Todos o s sinais foram d e grande aleg ria para os que
acreditavam e m Jesus crucifica d o . Pa ra os judeus foi u m
s i n a l q u e e n c h e u d e temor. M e s m o a s s i m m u itos n ã o
acreditaram, mas outros viram n o sinal toda i ndig nação de
Deus e se a rrependera m d e suas crueldades.
Enquanto o véu se rasgava, a terra tremeu, fende­
ram-se as rochas ( Mt 27, 5 1 ) . A própria terra reconheceu o
seu criador e se alegrava com o triu nfo sobre os ini migos.

210
ó Deus_ quando saíeis à frente de vosso povo, quando
avançáveispelo deserto, a terra tremia (SI 67, 8-9). Ó montes_
por que saltastes como carneiros, e vós, colinas, como
cordeiros? Ante a face de Deus, treme, ó terra (SI 1 1 3, 6-7 ) .

Os louvores eram para lem b ra r d a libe rta ção e d o


afogam ento d o s eg ípcios no M a r Vermelho. Se o Senhor
fez este portento para o seu povo escolhido, q u e ta n tas
vezes fora i nfiel, com mais razão o fa ria para honra r seu
Filho amado, que sempre foi fiel . O Senhor resgatou o seu
povo da escravidão do pecado, sustentando-o com a sua
forta leza, pelo d eserto d a cruz até cheg a r à terra p ro­
metida dos céus. Conduziste.;com bondade esse povo, que
libertastes; e com vosso poder o guiastes à vossa morada
santa (Ex 1 5, 1 3 ) .
A s rochas s e q uebrava m , m a s os judeus perma ne­
ciam firmes, não recon hecia m os pecados .
Percebendo a derrota, o i nferno tremeu . A morte foi
tragada pela VItória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde
está, ó morte, o teu aguilhão? ( 1Cor 1 5 , 5 5 ) . O Senhor do
a lto da cruz fez desaparecera morte para sempre (ls 25, 8 ) .
Onde estão tuas calamidades, ó morte? ( O s 1 3, 1 4 ) . A vida
a bsorveu a morte .
Cancelando o documento escrito contra nós, cujas
prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente, ao
encra vá-lo na cruz (CI 2 , 14) . Des pojou os demônios do

2JJ
poder, q u e até então possuíam sobre o s homens. Caíram
sobre eles o terror e a angústia, o poder do vosso braço os
petrificou ( Ex 1 5 , 1 6 ) .
O re i n o d e Cristo venceu os esp íritos d i a ból icos ; o
poder do pecado e das trevas desa pareceu diante do brilho
luminoso da cruz. Abri #'se nos corações dos homens a fé,
a esperança e a santidade. Começava a florescer u m novo
tempo no mundo.
M uitos gentios deram teste m u n ho. Os soldados q ue
estavam de g uarda foram os pri meiros a man ifestar publi­
camente a fé e m Cristo. Graças a Jesus Cristo, vós que antes
estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo
( Ef 2, 1 3 ) . Aconteceu o mesmo no nasci mento, os gentios
vindo do Oriente viera m a dorá-lo . Agora, enquanto os ju­
deus zombava m, os gentios o reconheciam como Deus. O
centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus,
diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava,
disseram entre si, possuídos de grande temor: Verda ­
deiramente, este homem era Filho de Deus/ ( Mt 27, 54).
O mérito d a P a i x ã o d o S e n h o r ta m bé m a l c a n ç o u
alguns j udeus. E toda a multidão dos que assistiam a este
espetáculo e viam o que se passava voltou, batendo no peito
( Lc 23, 48) .

212
A B R I U- L HE O LA DO COM UMA LANÇA

A m u ltidão voltava a rrependida batendo n o peito,


mas os prínci pes dos sacerdotes conti nu avam a injuriar o
corpo do Senhor.
Havia uma lei que dizia : Quando um homem tiver
cometido um crime que deve ser punido com a morte, e for
executado por enforcamento numa árvore, o seu cadáver não
poderá ficar ali durante a noite, mas tu o sepultarás no mesmo
dia; pois aquele que é pendurado é um objeto de maldição
divina. Assim, não contaminarás a terra que o Senhor, teu
Deus, te dá por herança ( Dt 2 1 , 22-23).
O Senhor fazendo-se por nós maldição ( G I 3 , 1 3 ),
a lca n ço u pa ra nós a salvaçã o . Os sacerdotes d esejavam
cumprir a lei, sepultando-o naquele mesmo dia, mas ta m­
bém havia outra ra zão, o dia seg u i nt e e ra sábado, d i a
sagrado (cf. E x 1 2, 16).

Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz


durante o sábado, porquejá era a Preparação e esse sábado
era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes
quebrassem as pernas e fossem retirados (Jo 19, 3 1 ) .

Sendo sábado solene, não convinha estragar a festa


com uma cena tão deprimente, corpos pendurados na cruz,
conta m i nando a terra . A apare nte preocu pação reli g iosa
e ra na rea l i d a d e u m a fa l s i d a d e , q u e r i a m q u e o p o v o
213
esquecesse todo o ocorrido e, principal mente, esqu eces­
sem de J e s u s . Com os corpos v i s í v e i s a todos, m u itos
comentá rios s u rg i ria m . Então ped i ra m pa ra q u e Pi latos
a p ressa sse a m o rte deles e q u e fos s e m re t i ra d o s d a s
cruzes. O costume era deixar os crucificados agonizando
na cruz, m uitas vezes d u ra nte d ias, e depois deixar o corpo
para que as aves de ra pina se a l i mentassem . Quebrando­
l hes as pernas, não teriam mais forças para respirar e m or­
reri a m ra pidamente .
O eclipse solar, o s tremores e o v é u do templo ras­
gado, não fora m capazes de abrir os olhos dos sacerdotes.
Eles não sabiam que o Senhor já estava morto, e quebra n­
do-lhe as pernas, além da crueldade, acaba ria m com tudo .
Tudo tinha que se cumprir: Não lhe quebrarás osso
algum ( Ex 1 2 , 46); não quebrarão nenhum dos seus ossos
( N m 9, 1 2 ) ; Ele protege cada um de seus ossos: nem um só
deles será quebrado (SI 33, 21 ) Assim se cumpriu a Escntura:
.

nenhum dos seus ossos será quebrado (Jo 19, 36). Apesar
dos i n i m igos desejarem o contrá rio.
O Senhor morreu quando q u is, a pesar do esforço dos
sacerdotes . Vieram os soldados e quebraram as pernas do
primeiro e do outro, que com ele foram crucificados. Chegando,
porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram
as pernas (Jo 1 9 , 32-3 3 ) . Naquela m esma hora o ladrão
a rrependido foi levado ao Pa raíso .

214
Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança (Jo
19, 34) para ter certeza que estava morto . De igual modo,
os nossos pecados a tra vessam o coração d e Jesus.
Abri ndo-lhe o lado, feriu seu coração, fonte da vida
e da água etern a . A Igreja canta em seus h i nos : doce ma­
deiro, doces cravos que sustentara m tão preciosa ca rg a .
No entanto, à la nça é chamada d e "ferro cruel". Ao a brir o
seu lado, foi a berto a porta do amor, e o Senhor nos quer
assim, com o seu Coração ferido .
Sa nto Agostinho comenta que o eva ngelista n ã o diz
feriram seu corpo, mas a briram indicando que se a bria a
porta da vida, de onde jorra m os Sacramentos da Ig reja ,
sem o s q u ais n ã o s e a lcança a v i d a eterna . 2 s
Eva t i n h a n ascido do lado do homem velho, Adão.
Quando foi a berto seu lado, Adão dormia; Eva foi chamada
mãe dos viventes.
O novo Adão, Jesus, ta mbém dormia, mas o sono da
morte ; e de seu lado a berto fez nascer a Ig reja viva, mãe
dos sa ntos, mãe d e todos os v iventes.
Do lado a berto imediatamente saiu sangue e água (Jo
19, 34), da qual foi formada e enriquecida sua Igreja. Este
mistério é grande ( Ef 5, 32).
Este é o consolo dos a batidos, a forta l eza para os
q u e sofrem tentações, o refúgio dos pecadores. A porta

2 5 . Ct. Sanlo Agost i n h o , Comentário ao Evangelho de São João.

215
por onde o s h o m e n s se sa ntifica m . É a porta q u e Deus
mandou Noé fazer na latera l da arca, para q u e entrassem
todos que haviam de se salvar do dilúvio (Cf. Gn 6, 1 6 ) . É
a porta do templo, chamada Formosa (At 3, 2), refúgio em
que sempre se encontra misericórdia e salvação. Eu sou a
porta. Se alguém entrar por mim será salvo (Jo 10, 9 ) . É a
porta cuja chave só os a migos de Deus possuem. É a porta
q u e desce à adega, onde se e m b riagam com o v i n h o do
seu a mor. Esta é a porta do Senhor: só os justos por ela
podem passar (SI 1 1 7, 2 0 ) .
O nosso coração está todo ele aberto. Não é estreito o
lugar que nele ocupais ( 2Cor 6, 1 1 - 1 2 ) . Se São Pau lo podia
d izer isto, podemos imaginar como é o coração de J esus,
onde ca be tod a h u manidade. Para u ma casa tão grande,
e ra necessária uma porta igua lmente g rande, onde estão
escritos os nomes de todos os homens.
D e p o i s d e ressu scita do, p e r m a n eceu com o l a d o
aberto, troféu de sua vitória. P o r isso, quando Tomé colo­
cou os dedos na ferida o entendimento foi iluminado e acre­
ditou; inflamado de a mor, pode d izer: Meu Senhor e meu
Deus (Jo 20, 28) .
Como atraí suavemente esta ferida ! O coração ferido
a braça os homens e os torn am seus amigos . Por i sso, o
Senhor a pa receu a os a póstolos depois de ressuscitado e
mostrou as mãos e o lado a berto . Agora, a lém de ferido, o
coração está todo a berto .
216
JORROU SA NGUE E AGUA

Ao tira r a lança, jorrou sangue e água . É interminável


a generosidade d e Deus, qua ndo parecia que tinha dado
tudo, pois deu a vida, a briu a porta de seu coração e deu
a água da viva eterna .
Seg undo a tradição, o soldado se chamava : Longino.
Ficou a d m i rado q u a n d o sa i u sangue e á g u a ; viu e acre­
ditou, co mpreendeu quem era aq uele q u e traspassou .
Joãojá l.fd ade avançada. conti nuava maravilhado com
o mistéri o : Quem é o vencedor do mundo senão aquele que
crê que Jesus é o Alho de Deus? Ei-lo, Jesus Cristo, aquele
que veio pela água e pelo sangue; não só pela água, mas pela
água e pelo sangue. E o Espírito é quem dá testemunho dele,
porque o Espírito é a verdade ( 1Jo 5, 5-6 ) .
Pa ra vencer o m u ndo precisamos acred itar no q u e
Jesus ensinou : a pobreza, a h u m ildade, a esperança . Este
é o meu mandamento: amai- vos uns aos outros, como eu
vos amo (Jo 1 5, 1 2 ) . Vence o m u ndo quem segue o exemplo
de Jesus, crê na sua doutrin a e a põe em prática, mortifica­
se para a lca nça r o perdão, abre-se a sua g raça e luta com
amor e serenidade, partici pa dos seus méritos e busca a
v i d a etern a .
João Batista batizava com á g u a ; mas o batismo d e
Cristo lava o s pecados. N a noite de quinta-feira, tomou u m
cál ice de vinho c o m á g u a ; no horto suou gotas de sangue;
2 17
do seu lado aberto jorrou sangue e á g u a . Verdadeiramen­
te é assim, pois não veio some nte na água, mas em sangue
e água.

Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem


são e de onde vêm? Respondi-lhe: Meu Senhor, tu o sabes. E
ele me disse: Esses são os sobreviventes da grande tribulação;
lavaram as suas vestes e a alvejaram no sangue do Cordeiro
(Ap 7, 13- 14) .

As roupas deveriam ficar vermelhas, mas o sa ngue


do Cordeiro lava os pecados com se fosse água, como u m
batismo.
É o Espírito que atesta q u e Cristo é a verdade, por­
que o Espírito é a verdade e não diz senão a verdade. Com
este p recioso s a n g u e so mos sa lvos e lavados em á g u a .
Não há nada mais limpo q u e o sangue e água, com o qual,
por virtude do Espírito, somos lavados e purificados.

Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de


uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e
purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de
Cristo, que pelo Espírito eterno se oFereceu como vítima sem
mácula a Deus ( H b 9, 1 3- 14).

Da mesma forma a água não tem o poder d e lavar e


salvar, se não for pela força do Espírito Santo . Quem não
218
renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de
Deus (Jo 3, 5 ) .
Assim foi g erado o novo povo de D e u s : com água,
sangue e a força do Espírito . Desta forma foi esta belecida
a Nova e Eterna Alia nça entre Deus e os homens.
N a lei antig a , Moisés tomou o sangue para aspergir
com ele o povo: Eis, disse ele, o sangue da aliança que o Senhor
fez convosco, conforme tudo o que foi dito (Ex 24, 8 ) . Depois
da morte de Jesus Cristo, o Espírito Santo deu testemunho
de q u e em C risto se cumpri a as fig u ras antigas, d e q u e
Cri sto é a Verdade e a Nova Al iança .
Os m a n d a mentos a ntigos era m d u ros, as promes­
sas temporais, o sangue era de an imais. Mas no tempo da
g raça, os mandamentos são de amor, a promessa é a vida
eterna e o sa n g u e é d e Jesus Cristo.
M oisés leu o livro d ia nte do povo todo e depois os
a sperg i u . Na Nova Aliança, Cristo pregado na cruz era o
l i vro a be rto, com seu s a n g u e lavou os peca dos de seu
povo.
Com sua morte ficou fi rma d a para sempre a Nova
Aliança. Todos fora m chamados a lava r-se no sangue do
C o rd e i ro , a pa rti c i p a r d o s bens d o Corpo M ístico : os
Sacra m entos da Igrej a .
Somente p e l o sa n g u e d e Cristo se a l ca n ça a vida
eterna. São Ped ro escreve : os eleitos segundo a presciência
de Deus Pat� e santificados pelo Espínto, para obedecer a
2"1 9
Jesus Cristo e receber a sua parte da aspersão do seu sangue
( 1 Pd 1 , 2 ) .
A Tri ndade confirma que Jesus é verdadeiro h o m e m e
Deus Verdadeiro . O Pa i, no monte Tabor e no rio Jordão, dis­
se : Eis meu Filho mutto amado ( Mt 3, 1 7 ) . O Verbo revelando
a si mesmo : Eu e o Paisomos um (Jo 10, 30). O Espírito Santo
desce em forma de pomba sobre ele ( M e 1, 1 0 ) .
Na terra ta m bém há três confirmações da divindade
de Cristo : o Espírito, a água e o sangue,· os três dão o mesmo
testemunho ( lJo 5, 8 ) . O Espírito expirou na cruz, o sangue
e a água que seu corpo derramou. E todos os testemunhos
são um, porque J esus é Deus. Lava-nos com a água do seu
Batismo, alimenta-nos com o Sacramento do seu corpo e
sangue e forta lece-nos com o amor do Espírito Santo.
Os corpos dos animais, oferecidos em sacrifício, era m
q ueimados fora do aca m pa mento , por esta razão, Jesus,
querendo purificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu
fora dasportas. Saiamos, pois, a ele fora de entrada, levando
a sua ignomínia. Aliás, não temos aqui cidade permanente,
mas vamos em busca da futura ( H b 1 3 , 1 2-14) .
Saiamos do nosso egoísmo, saiamos de nós mesmos
e carreg uemos a n ossa cruz ; e se nos leva à morte, não
nos i m porta, pois vamos com Cristo.
Não nos importa peregrinar e não ter um lugar fixo,
porque estamos de passagem, cam i nha mos para a morada
perm a nente, que é ete rna e não d este m u ndo.
220
JESUS É TIRADO DA CRUL

A maioria dos reis e pessoas i m portantes, logo que


morrem começam a ser esquecidos. Mas o nosso Rei con ­
quistou seu reino ao morrer, começou a manifestar o seu

poder e a ser reconhecido antes de descer da cruz, come­


çou a reinar no madeiro. Os soldados o reconheceram na
cruz, o povo se a rrependeu e voltou batendo no peito, a
terra tremeu e o sol escureceu .
Como Rei, foi descido com ca rinho e veneração, o ódio
ficou na crucificação. Foram pessoas amigas e importantes
que o baixara m da cruz. Deus preparou honras fú nebres
como prêmio por toda obediência. O sepultaram como u m
am igo, n ã o como u m ladrão.

Naquele tempo/ o rebento de Jess� posto como estan­


darte para os povo� será procurado pelas nações e gloriosa
será a sua morada (Is 1 1, 1 0 ) .

Os q ue prepara ra m c o m cari n ho o sepu lta mento


fora m : Um homem nco (Mt 27, 57), JosédeAninatéia/ ilustre
membro do conselho/ que também esperava o Reino de Deus
(Me 15, 43) . Era discípulo de Jesu� mas ocultamente/ por
medo dosjudeus (Jo 1 9, 38), ele não havia concordado com
a decisão dos outros nem com os atas deles (Lc 23, 5 1 ) . O
outro que acompanhou f'oi Nicodemos (Jo 19, 39), fariseu e
doutor em Israei (Jo 3, 10). Foi ele quem reconheceu q ue o

221
Senhor vinha do céu . Mesmo com medo foi u m a vez de
noite tirar as dúvidas.
Os dois homens, embora não fossem publicamente
discípu los do Senhor, o defendiam nas assembléias . N ico­
demos uma vez fez notar no conselho : Condena acaso a
nos�a lei algvm /Jomem, antes de o ovvir e conhecer o qve
ele raz? (Jo 7, 5 1 ) . Todos os juízes se voltaram contra ele:
Porventvra és também !1.1 ga/1/ev?Jn!órma-te bem e verás que
da Gal!léia não sa/1.1 proreta (Jo 7, 52). Desde então, come­
çaram a suspeitar dele.
José de Arimatéia ta mbém não se deixou levar pela
injustiça, não concordava com o processo. São Marcos nar­
ra que todos assinaram a sentença de morte contra Jesus,
então, provavelmente não assistiu a condenação no Siné­
drio, por medo ou por se achar i ncapacitado em convencer
os outros. Mas, depois da morte do Senhor, roi resolvto à
presença de Pilatos e pedil.l o corpo de Jes1.1s (Me 1 5, 4 3).
Quando o Senhor fazia mi lagres, fa lava publicamente
e era reverenciado como profeta, José e Nicodemos escon­
diam a admiração por medo . Agora que Jesus tinha sido
expulso da sinagoga, caluniado e considerado pior que um
ladrão, fla gelado e crucificado, demo nstravam d i a nte de
todos a fé . A cruz forneceu a força necessária . Enquanto
os discípulos estavam com medo e escondidos, José e Nico­
demos, honravam o morto publicamente.

222
A tardinha (Mt 27, 57) José se apresentou diante de
Pi latos para pedir o corpo. Era o dia da Preparação e já ia
principiar o sábado (Lc 23, 54). Os judeus começavam a se
guardar ao pôr do sol, depois já não poderiam descer o
corpo e se ocupa r com a sepu ltura . Ve ndo que restava
pouco tempo e se não fossem rá pidos, o corpo teria que
ficar exposto d u rante todo o dia segui nte . José, sozi nho e
corajosamente, correu a Pilatos para pedir o corpo. Mostrou
mu ita coragem, porque com a atitude se declarava a migo
de Jesus, arriscando perder cargo e prestígio no conselho.
José preferiu perder a honra perante os outros, para con­
seguir tomar parte da cruz do Senhor. Não teve respeitos
humanos, nem se preocu pou com o que Pilatos pud esse
pensar. Pediu a maior riqueza da terra : o corpo de Jesus,
o Filho de Deus, o Pão da Vida. José, naqu ele momento,
man ifestava o d esejo e a n ecessidade de toda a Igrej a .
Ptlatos admirou-se de que ele tivesse morndo tão
depressa. � chamando o centurião, perguntou se já havia
mwto tempo que Jesus tinha morrido ( Me 15, 44) . Talvez a
notícia da morte, trouxesse a Pilatos um remorso, por isso
a d m i ro u -se . E n q u a n to estivesse vivo, sua consciência
ad iava o pensam ento pela i njustiça cometida .
Agora seus p e n sa m e n tos o rem oía m , faz ia m - n o
lembra r de J e s u s sereno e toda sua om issão perante o
j u lga mento. Atormentava-lhe a ideia de ter condenado

223
uma divindade; ti nha visto a terra tremer e o sol escurecer
durante três horas, sua covardia ficava clara .
Pilatos desejava um milagre : que aq uela morte inj us­
ta não acontecesse. Por Isso, admirou-se que já estivesse
morto, sabia por experiência, que muitas vezes os conde­
nados ficavam agon izando por dias. Não acreditava numa
morte tão rápida, pois Jesus era forte ; fazia pouco tempo
que os judeus pediram para que se quebrassem as pernas
dos condenados para apressarem suas mortes. Pilatos não
percebia q ue o Senhor tinha passado uma noite e u m a
manhã inteira em tormentos, tinha sido flagelado, perdido
m u ito sangue e carregado uma pesada cruz. Havia uma
dor maior, que Pilatos nu nca poderia con hecer: a agonia
i nterior, a dor que Jesus sofreu por amor, que é infinita .
Por Isso, aquelas três horas fora m u m a etern idad e .
Pilatos ficou t ã o a d m i rado q u e não acreditou em
José . Foi preciso a confirmação do centurião para que acre­
ditasse. Talvez o centurião, não só tenha confi rmado a mor­
te, como lhe contado q u e aquele homem era rea l mente
F i l h o d e D e u s . Pi latos fi ca ri a a s s i m , m a i s confuso e
pertu rbado.
Obtida a resposta afirmativa do centun'ão/ mandou dar­
lhe o corpo (Me 1 5 , 45). José saiu a legre com a a utorização
e p re p a rou o necessá rio p a ra o s e p u ltamento, n ã o se
preocu pava mais em fazer nada escondido, não estava
mais com medo, sentia orgulho de ser amigo de Jesus .
224
Veio Nicodemos, agora à luz do dia, levando umas
cem libras de uma mistura de mirra e aloés (Jo 19, 39). Os
dois descera m o corpo de Jesus e o sepu lta ra m, sem se
preocuparem com gastos ou com a opinião dos sacerdotes,
como também não se importaram com a impureza lega l .
A l e i dizia : se alguém, em pleno c.ampo, tocar em um
homem morto pela espada, em um cadáver; em ossos
llumano� ou em um sepulcro, será Impuro durante sete dias
(Nm 19, 16).
J osé e N i codemos tinham g rave motivo p a ra se
exclu írem d o sepu ltamento, pois fica ri a m i m p u ros para
celebrar a Páscoa . Mas a fé, a compaixão e o amor, estavam
acima da lei. Sabiam que não ficariam impuros, pelo con­
trário, seriam limpos pela obra de misericórdia.
A Páscoa não fica i m p u ra q uando é renovava por
meio daquele que é a origem de toda limpeza e santidade,
princípio da vida e da ressurreição.
Com esta co n vicção, sepulta ram Jesus com toda
reverência, apesar do pouco tempo disponível que tinham.
Depois de ter comprado um pano de linho, .José tirou-o

da cruz(Mc 15, 46) . Tomaram o corpo de.Jesus e envolveram­


no em panos com aroma� como osjudeus costumam sepultar

(Jo 19, 40) .


José fez q uestão de comprar um pano novo, não quis
envolver o corpo do Senhor com u m lençol usado, mesmo
que fosse li mpo. Aprendamos com José a tratar Jesus com
225
toda del icadeza, principal mente q uando com u ng a mos o
corpo do Senhor.
N i"codemos trouxe cem l i bras de a romas, cerca de
trinta quilos. Aplicaram os aromas no e o cobriram com um
lençol novo . O corpo do Senhor ficou todo perfumado com
mirra e aloés.

JESUS É SEPULTADO

José e N icodemos aj u d ados por ou tras pessoas,


desceram o corpo de Jesus da cruz. A Virgem Maria estava
no pé da cruz, o l h a n d o com valentia, forta leza, a m or e
compaixão. Não queria fica r longe do Fi lho, chorava ao ver
Jesus morto, mas sua a lma estava serena na esperança
da ressu rreição.
Nela fez maravtlhas aquele que époderoso e cujo nome
é santo (lc 1 , 49) . Grande foi a dor, grande foi a � rafa que
recebeu de Deus . O Espírito Santo a guiava e ela obedecia.
Neste dia cresceu a inda mais sua i ntimidade com Deus. Os
a njos estavam em profu nda lamentação, mas somente as
lágrimas da Mãe, que o amava mais que todos os homens,
poderiam honrar o fun era l .
Aco m p a n havam a Virg e m , o novo fi l h o J o ã o e a s
m u l h e res s eg u i d o r a s d o S e n h o r . To d o s c h o ra v a m e
proteg iam a Virgem . Tentavam fa lar a lg u m a pala vra de
226
consolo, mas estavam todos com a garganta apertada pelil
dor; de repente a lguém fa lou : Maria, não chore. Tudo está
consumado. Seu Fi lho sai u vencedor, todos sabem que i>
i nocente, fizeram a i njustiça por i nvej a . Percebendo que
as palavras a feriam mais ainda, d i sse : Perdoa-l hes, e

calou -se .
Quem poderia consolar a Consoladora dos aflitos?
Era ela q u e m sabia consolar, que tinha espera n ça e fé.
H u m i l d e m e n te a V i rgem a g ra d e ce u os a m igos q u e a l i
estava m .
Todos estavam envergonha dos, porque a p ri ncípio
t i n h a m s i d o covardes e se esco n d id o , a s s i m m esmo a
Virgem Maria agradecia-lhes.
Agora ped iam perdão, não com palavras, mas com
atitude de carinho com o corpo de Jesus. Tarde demons­
trava m amor, contudo a Virgem os compreendia e ficava
agradeci d a .
Conti nuaram com o trabalho de desprender Jesus da
cruz, a rra ncavam os cravos e o peso do corpo ca i u sobre
eles, a m pa ra m com os b raços e ficaram vermelhos do
sangue do Senhor. Todos permaneci a m em silêncio, n i n ­
g u é m falava nada . Depois de desceram com pletamente o
corpo, pusera m -no nos braços de sua Mãe.
Como um Rei, que volta vitorioso do campo de bata­
lha, foi recebido no melhor trono, os braços de sua Mãe.
Nada podia honrá-lo mais.
227
Ao mesmo tem po em que sentia uma dor terrível,
estava org u lhosa d e Jesus crucifica d o . Pela cruz t i n h a
recebido m a is graças que n e n h u m a outra criatura, era a
bend ita entre todas as m u lheres . Agradeceu tudo isso e
a braçou com toda sua alma o corpo do Filho.

Meu Filho! Não me queixo pelos assassino� porque


você se orereceu por eles. Era a sua vontade e roi cumprida.
Morreu como um valente, como o Alho de Deus. Como é
grande a misericórdia e incompreensível a justiça/ Deus roi
misencordloso com os homen� enviando o Filho para morrer
por eles. Amo ajustiça, porque vem de Deu� embora não a
;l
compreendi} totalmente. Como roi sua vontade realizar o
mandato do Pai, eu aceito e sorro também. Aceita meu Deu�
o sacrilfcio desta mãe, seja misencordioso com ospecadore�
pois o Filho morreu por eles. Mantenho e renovo aquele
orerecimento: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim
segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

Todo o peso dos pecados, Maria sentia por estar com


J es u s em s e u s braço s . Com a fo rça do Esp írito S a n to
manifestou todo seu amor e o desejo de sa lvar a cada u m .
Jesus é o Med iador e o Redentor d a humanidade e ela se
unindo ao Filho, tornou-se nossa Mediadora e Advogad a .
Co-Redentora com Cristo .
No lugar em que lbi crucificado havia umjardim (Jo 19,
4 1 ) . O Calvário era onde se executava os condenados,
228
mas Deus quis que a Redenção sempre ficasse unida a cruz,
na memória dos homens. O pecado de Adão foi junto de
uma árvore; o poder de Jesus foi manifestado em outro
madeiro, a cruz. A árvore de Adão estava no jard i m do
Paraíso; o Senhor começou a Paixão no Horto das Oliveiras
e termi nou no jardim, ao lado do Ca lvário. No jard i m foi
plantada a Semente da g lória e da i mortalidade.
Havia no jardim um sepulcro novo/ em que ninguém
ainda rora depos;tado (Jo 19, 4 1 ) , escavado na rocha ( Lc 23,
53). Pertencia a José de Arimatéia, que tinha mandado talhar
para si na rocha ( Mt 2 7, 60).
Em toda vida terrenaJ Jesus foi pobre. Tivera m os
amigos que fornecer u m pano e um sepulcro. José e Nico­
demos usara m bem as riq uezas, sepu lta ndo o corpo do
Senhor com toda d ignidade. José foi m uito generoso, pois
a q u ele sepu lcro fo ra esculpido para ser usado em seu
descanso. Jesus não teve nada e aq uele sepulcro também
não seria seu, pois ao tercei ro dia ressuscita ria .
Chega ndo a o horto, ungiram o corpo d e Jesus com
m i rra e a loés, trazidas por N i codemos. O loca l era mais
digno para se fazer os preparativos do enterro, envolveram
o corpo com o lençol e depositaram no ba nco de pedra ,
dentro d o sepulcro. Sobre a cabeça colocaram um sudário
(Cf. Jo 19, 7), segundo o costume de enterrar dos j udeus.
Foia/l que depos;taram Jesuspor causa da Preparação

229
dos judeus (Jo 19, 42 ) . Não havia mais tempo, fizeram o
melhor que podiam, começava a anoitecer.
Foi conveniente que tudo fosse novo . O lençol novo
e limpo representava a pureza e a limpeza das almas, que
vão receber seu Corpo. Como o Senhor nasceu de uma vir­
gem, agora que morria repousava em um sepulcro novo e
nunca usado, pois desta rocha virgem, renasceria em três
dias.
As mulheres que tinham vindo com Jesus da Galiléia/
acompanharam José. Elas viram o túmulo e o modo como o
corpo de Jesus ali rora depositado ( Lc 23, 55) . Sentadas
derronte do ttímulo ( Mt 27, 6 1 ), María Madalena e María, mãe
deJosfi observavam onde o deposttavam (Mc 15, 47). Depois
da festa tinham a intenção de voltar, para adorar e honrar
o corpo do Senhor, ungi ndo-o com novos aromas.
Não é narrado que a Virgem estivesse presente na
sepultura, provavelmente não a d eixara m ficar, para que
não a u mentasse o sofri mento ; despediu-se do Filho na
entrada do horto e partiu com João. Chegara m à cidade
a ntes que caísse a noite .
A Virgem não presenciou José q u e rolou uma grande
pedra à entrada do sepulcro e l'oi-se embora ( Mt 27, 60) com
N icodemos e os outros.
As m u l heres voltaram para a cidade e prepararam
aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito
do repouso ( Lc 23, 56) .
230
jESUS DESCE À MA NSÃ O DOS MORTOS

A po rta do céu estava fechada . Com a morte d e


Jesus rasgou-se o v é u e foi a berto o ca m i n ho d a g lóri a .
São Jerônimo d i z que o sangue de Jesus Cristo é a chave do
Paraíso; a terra dos homens tóiperdidaporAdão, mas o novo
Adão renovou a terra e a devolveu aos homens.
Ainda não estava estabelecido o reino dos céus, as
a l mas q ue haviam morrido ficavam presas em estado d e
espera . O s méritos de c a d a a l m a s ã o diferentes, assim
como o lugar onde estavam presas. As que morriam odian­
do Deus eram levadas para o Inferno, outras com pecados
menores ficavam no Purgatório. Mas as a lmas que tinham
pagado suas culpas, com as penas desta vida, não pod iam
entrar no céu enquanto não fosse saldada a dívida comum
da h u ma n idade. O Eva ngelho na rra q u e as a lmas justas
eram levadas ao selo de Abraão ( Lc 16, 22), porque neste
loca l, estava o santo patria rca e os que manti nham a fé,
continuavam a ser seus fi lhos.
Antes da morte de Jesus não era possível ver Deus,
era necessá rio q u e sofressem a pena de espera r. Onde
aguardavam é um mistério. 26

2. 6 . P a ra m a i o r com p reensão ver Catecismo da I g reja Cató l i c a . 63 1 -


637.

231
O Evangelho relata q ue os j ustos e os condenados
ficavam separados. Na parábola o rico avarento foi levado
para o i nferno e estando no tormento, levantou os olhos
e viu bem longe, Abraão e Lázaro. Pediu a Abraão que Láza­
ro viesse aliviar sua sede e, depois, avisasse seus irmãos
que existia o inferno, para que pudessem evitar a conde­
nação, mas Abraão d isse que era impossível, pois, há entre
nós e vós um grande abismo, de maneira que, os que querem
passardaquipara vó.s;. não podem, nem os de lápassarpara
cá ( Lc 16, 26) .
Quando Jesus morreu na cruz, desceu para libertar
as almas dos justos que estavam esperando. Rompeu com
as cadeias e resgatou todos os j u stos .
M uitos foram resgatados para a vida etern a . Havia
passado m ilhares de anos e muitos reis, patria rcas, pro­
fetas e a nô n i mos estavam esperando o Messias.
O triunfo foi estrondoso e festejado, porque na cruz
foi destruído o império do i nferno. Jesus desceu pessoal­
mente, como Senhor e Rei, para buscar os justos. As almas
que pagavam suas d ívidas n o Purg atório a l eg ra ra m -se,
pois agora estavam mais perto da li berdade e da glóri a .
O Inferno estremeceu com o tri u nfo do Redentor,
tremeu de ódio e inveja.
Para que ao nome de Jesus se dobre todojoelho no céu,
na tetra e nos infernos ( FI 2, 1 0 ) .

232
SÁBADO SAN TO
Os prínci pes dos sacerdotes e os fa riseus permaneciam
obsti nados, co nti nuava m cegos. Mesmo com a morte do
Senhor, prosseg u i a m com todos os meios para apagar o
nome de Jesus da memória de todos.
No entanto, mesmo morto, o temiam. Os discípulos
continuavam escondidos por medo. Mas os fariseus e escri­
bas temiam que os discípulos d ivulgassem que Jesus havia
ressuscita d o .
Os a m igos ti n h a m esq uecido da p romessa o u não
a cred itavam que Jesus h a v i a a v i sa d o : N o terceiro dia
ressuscitarei. Mas os i n i migos se lembravam bem e temiam.
Não podiam permitir q u e isso acontecesse, porque o povo
fatalmente o procla maria rei. Eles já haviam decidido: Não
queremos que ele reine sobre nós ( Lc 19, 14).
No dia seguinte - isto � o dia seguinte ao da Preparação
-, ospríncipes dos sacerdotes e os rariseus dirigiram-se todos
juntos a casa de Pilatos ( M t 27, 6 2 ) . Ignorara m q ue fosse
sábado e período de Páscoa. O ódio contra Jesus, fez com
que não perdessem tempo. Os maiores zeladores da obser­
vância do sábado, que se escandalizaram com uma cura nes­
te dia, agora para caluniar um morto não se importavam em
235
quebrar o preceito da lei . A misericórdia de Jesus cura ndo os
enfermos tra nsgredia o sába do, o ódio de les não.
O Eva ngelho conta que fora m até Pilatos. Desta vez
não se preocuparam em ficar impuros, não o fizeram descer
no pátio e entraram no pretório. Com falsidade, chamara m
Pi latos de " s e n h o r", à q u e l e que desprezavam por ser
representante da dominaçã o ro mana, ass i m esperava m
agradá-lo.
E disseram-lhe: Senhor, nós nos lembramos de que
aquele impostor diss� enquanto vivia: depois de três dias
ressusataret: Ordena/ poi� que seu sepulcro seja guardado
até o terceiro dia. Os seus disapulos poderiam vir roubar o
corpo e dizeraopovo: Ressusatou dos mortos. E esta última
impostura seria pior que a primeira ( Mt 2 7, 63-64 ) .
Pilatos escutou e percebeu q u e o ódio con ti nuava o
mesmo, ficou pasmado por perceber q ue nem a morte de
Jesus tinha sido suficiente. Mas por prudência era melhor
não se i ndispor com gente tão ardilosa e concordou com o
ped i d o .
Forneceu o s soldados, assim n ã o poderiam cul par os
romanos por q ua lquer imprevisto.
Respondeu Pilatos : Tendes umaguarda. lde eguardai­
o como o entendeis (Mt 27, 65), tam bém enviarei alguns de
meus soldados p a ra g u a rd a r o s e p u l cro . O Procurador
Romano já estava farto deles e de todo aquele assu nto .
Parece que Pilatos i ron izava oculta mente sua crueldade .
236
Foram pois_ e asseguraram o sepulc� selando apedra
e colocando guardas ( Mt 27, 6 6 ) . Para ter certeza, e les
mesmos foram com os soldados. O sepu lcro só tinha uma
entrada, somente por ali poderiam roubar o corpo, e sobre
ela já estava posta u ma pesada pedra . Era relativamente
fácil fechar o sepulcro, bastava empurrar a pedra que era
red onda, por um d eclive. Mas p a ra reti ra r a pedra era
p reciso fazer o processo i nverso, e a pedra era pesa d a .
Como queriam ter absoluta certeza, a briram para v e r s e o
corpo permanecia lá, tendo a confirmação voltaram a fechar
e sela r a ped ra . Por fi m d istri bu íram os soldados, alguns
ficaram na porta , e outros circu lando, pa ra que n i nguém
se a p roximasse.
Não seria necessário tudo isso, os discípulos estavam
dispersos, escondidos e com medo, não tinham a mínima
ideia de rou bar o corpo. Quando o Sen hor ressuscitou teve
que buscá-los e mandar chamá-los.
Os j udeus estava m preocu pados com os discípulos,
mas fora m os próprios guardas que d i sseram que Jesus
havia ressuscitado naquela manhã .
Santo Ata násio d iz : inrelizes e miseráveis judeus!
Aquele que quebrou as cadeias da mort� não podeda quebrar
os selos da sepultura? Guardaram o sepulcro, selaram a pedra
e colocaram soldado� desta maneira engrandeceram a
ressurreição/ os sentinelas roram testemunhas e divulgadores
da Ressurreição do Senhor.
237
A VIRGEM MARIA ESPERA A RESSURREIÇÃO

No dia anterior a Virgem tinha deixado o horto com


muita dificuldade, pois queria ficar. Provavelmente estava
hospedada na casa do amigo, que emprestou a sala para
a última ceia de Jesus.
Voltando em direção à cidade, ju nto de João, passou
em frente do Calvário e o coração contraiu-se de dor pela
recordação . Começava a a noitecer. Pelas ruas se encon­
trava nitidamente as marcas do Filho a rrasta ndo a cruz,
João> percebendo) fez um ca minho diferente .
Mu itas pessoas a reconheciam como a mãe do cru­
cificado, aquela que estava chorando ao pé da cruz. Pela
cidade o comentário ainda circulava, uns concordavam com
a sentença, outros defendiam Jesus. João esco lheu u m
trajeto mais tra nq u ilo, para que e l a não sofresse escu­
tando todo aquele falatório .
Alguns perg untavam quem era aquela mulher e fica­
vam com piedade, outros tentavam levar a lgum consolo.
Ela agradecia emocionada e guardava todas estas coisas no
seu coração ( Lc 2, 5 1 ) .
Chegando à casa, fora da vista d e todos, rompeu­
se a chorar, viu a mesa que Jesus tinha ceado com os discí­
pu los. Nenhum deles estava mais ali, somente João.
Ret i rou -se para seu a posento, e ali chorou e rezo u ,
colocou o coração em Deus, preparando-se para o novo d i a .
238
As outras m u lheres chegaram à residência e pergun­
taram por Maria, João avisou q u e estava repousando e
pediu que não a i n comodassem.
A Virgem com fé, rezava a Deus e aguardava . Parecia
ver o Fi lho presente, onde na noite a nterior tinha se des­
pedido dela. Recordava todo aq uele dia de dor: Jesus sen­
do levado e trazido dos tribunais; Pi latos apresenta ndo-o
ao povo, flagelado, coroado d e espin hos e ensanguen­
tado. Lembrava da troca de olhares no Calvá rio; das lon­
gas horas ao pé da cruz, vendo-o morrer. Ti nha ficado admi­
rada co m o silêncio e a obed iência do fi lho; pelo gra nde
a mor que demonstrou pelos homens. Vinha à memória cada
detalhe e m ed itava tudo no fu ndo do coração, essa era
sua ri q u eza . O u v i a os g e m i dos de d o r ; as p a l av ra s d e
Jesus na cruz ecoava m ; a s lágrimas e o sangue derra mado
pareciam que q ueimavam o coração. Como queria abraçar
Jesus novamente. Breve! M u ito em breve !
Como as horas demoravam a passa r, rezava ao Pai
Eterno que o ressuscitasse. Con hecia a confia nça q u e o
Filho tinha no Pai, uma vez escutou : Eu bem sei que sempre
me ouves (Jo 1 1 , 42). Como acreditava piamente que Jesus
ress uscitaria, a d o r da a l m a d i m i n u ía e a u m e n t a v a a
esperança de ver em breve seu Filho ressuscitado e poder
a braçá -lo nova mente .
Começou a s e preocupar com os discípulos, q ueria
que eles estivessem presentes na ressu rreição de Jesus .
239
No dia seguinte, sábado, decidiu acabar com a preo­
cupação; com maternal dili gência conversou com as ami­
gas, seg u idoras de Jesus.
Como sabemos alg u m as eram mães de d iscípu los :
Salomé, mãe de Tiago e João; Maria de Cleófas, mãe de
Tiago menor, J osé, S i m ã o e J u das Tad e u . Sabendo da
cova rd ia deles, decid i ra m p roc u rá-los. Onde estari a m ?
Talvez J o ã o soubesse, tal vez a Virgem sou besse o n d e
estava Pedro, pois e l e tinha i d o ped ir perdão.
Todos voltaram para j u nto da Mãe Santíssima. Esta­
vam fe l i zes e a g radecidos pela preocu pação da Virgem
Maria por eles. Sentiam -se envergonhados e todos ped i ­
ra m perdão p e l a cova rd i a , ped i ra m também q u e i nter­
cedesse por e les perante J esus. A Mãe abraçou a todos
como se fossem o próprio Fi lho.
Os a póstolos e d iscípu los não estavam crentes na
Ressurreição de Jesus. A Virgem percebendo a fragi lidade
em que se encontravam, exortou a todos para que acre­
ditassem. Estava surpresa pela covard ia e falta de fé, pois
ti nham sido escolhidos para conquistar o mundo. Sabia q ue
o Filho os amava ; eles mesmos contaram que na noite de
q u i nt a -fe i ra , J e s u s o rd e n o u p a ra q u e os s o l d a d o s os
deixassem partir. Na cruz, Maria foi nomeada Mãe de todos
eles. Ela também os amava, os amava muito .
Enquanto aguardava o Senhor ressuscitar, e l a foi a
guardiã desta família . QS-protegeu com amor, deu a fé e a
240
espera n ça p a ra a Ig reja n a scente, q ue estava d é b i l e
assustada. Assim nasceu a Ig reja : ao abrigo da nossa Mãe.
Todos pass a ra m o sábado j u nto da Virgem M a ri a ,
observa ndo o descanso. Queriam saber tudo o q u e tinha
acontecido depois que abandonaram Jesus. Ela contou que
Jesus foi muito maltratado, mas morreu por amor a eles, e
que deveriam se a nimar e crer. Falou que muitos voltaram
do Calvário arrependidos e batendo no peito; que o centu­
rião declarou que Jesus era Filho de Deus; e tentou mais
uma vez fazê-los crer que amanhã Jesus ressuscita ri a .
Mas eles não estavam acred itando a i nda, e mbora
não fa lassem nada para não magoar a Virgem Maria. Ela
que tinha se esq u ecido de si mesma, para acalentar os
apóstolos, q ueria q ue eles vencessem a debilidade e que
não tivessem medo, e i n s i sti a : Meu Filho d isse q u e a o
terceiro d ia ressuscitaria !
Mesmo assi m, eles não acreditavam. Ela era a única
luz acesa sobre a terra , nossa esperança, em q ue"<ti nha
nascido a Sa bedoria .

Mãe sem temor, Mãe amáve� Mãe do bom conselho,


Mãe prudentíssima, 1/?rgem íorte, Refúgio dospecadores, Rogai
pelos que não acreditam em Jesus Cristo!

A estrela da m a n h ã , esplendorosa d e a legri a , via


como aquelas mulheres caminhavam para o sepu lcro, de
manhã cedo, quando ainda estava escuro (Jo 20, 1 ) .
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