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UNIVERSIDADE POTIGUAR – UnP

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO


CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DIREITO PROCESSUAL CIVIL

ORLANDO GOMES CORTEZ

RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA DE SENTENÇA


INCONSTITUCIONAL

NATAL
2010
ORLANDO GOMES CORTEZ

RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA DE SENTENÇA INCONSTITUCIONAL

Artigo apresentado à Universidade


Potiguar – UnP, como parte dos requisitos
para obtenção do título de Especialista
em Direito Processual Civil.

ORIENTADOR: Prof. Esp. Cristiano


Guilherme da Camara Silva

NATAL
2010
ORLANDO GOMES CORTEZ

RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA DE SENTENÇA INCONSTITUCIONAL

Artigo apresentado à Universidade


Potiguar – UnP, como parte dos requisitos
para obtenção do título de Especialista
em Direito Processual Civil.

Aprovado em:____/____/____

BANCA EXAMINADORA

_________________________________
Prof. Esp. Cristiano Guilherme da Camara Silva
Orientador
Universidade Potiguar – UnP

_________________________________
Prof. Msc. Alexandre Alberto da Camara Silva
Coordenador do Curso
Universidade Potiguar – UnP
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.............................................................................................. 04
2 CONCEITOS BÁSICOS RELATIVOS AO TEMA........................................ 06
2.1 PEREMPÇÃO, DECADÊNCIA, PRESCRIÇÃO E PRECLUSÃO................ 06
2.1.1 Perempção................................................................................................... 07
2.1.2 Decadência.................................................................................................. 07
2.1.3 Prescrição.................................................................................................... 08
2.1.4 Preclusão..................................................................................................... 08
2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS............................................................... 09
2.2.1 Princípio da moralidade............................................................................. 09
2.2.2 Princípio da legalidade............................................................................... 10
2.2.3 Princípio da isonomia................................................................................. 10
2.2.4 Princípio da motivação judicial.................................................................. 11
2.2.5 Princípio da razoabilidade ou da proporcionalidade............................... 11
2.3 DIREITO ADQUIRIDO, ATO JURÍDICO PERFEITO E COISA JULGADA.. 12
2.3.1 Direito adquirido.......................................................................................... 13
2.3.2 Ato jurídico perfeito.................................................................................... 13
2.3.3 Coisa Julgada.............................................................................................. 14
2.4 COISA JULGADA MATERIAL E COISA JULGADA FORMAL..................... 14
2.4.1 Coisa julgada material................................................................................ 15
2.4.2 Coisa julgada formal................................................................................... 15
3 DEVE-SE RELATIVIZAR A COISA JULGADA DE SENTENÇA INCONS-
TITUCIONAL?............................................................................................... 17
4 MEIOS PROCESSUAIS UTILIZADOS CONTRA A COISA JULGADA DE
SENTENÇA INCONSTITUCIONAL.............................................................. 23
4.1 AÇÃO RESCISÓRIA..................................................................................... 23
4.2 AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE SENTENÇA INCONSTITUCI-
ONAL............................................................................................................. 26
4.3 EMBARGOS À EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA................... 27
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................... 29
REFERÊNCIAS............................................................................................. 32
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RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA DE SENTENÇA INCONSTITUCIONAL

Orlando Gomes Cortez*

Resumo: No presente artigo científico serão vistos, inicialmente, os conceitos básicos de alguns
institutos jurídicos, referentes ao tema em si, tais como: perempção, decadência, prescrição e
preclusão; dos princípios constitucionais da moralidade, legalidade, isonomia e da razoabilidade;
assim como do direito adquirido, ato jurídico perfeito, da coisa julgada material e da coisa julgada
formal. Em seguida, será abordada a possibilidade ou não de se reformar ou anular uma sentença
transitada em julgado, que já tenha alcançado a coisa julgada material. Ficará clara a conclusão de
que a referida reforma ou anulação só é possível caso se constate que o teor da referida sentença se
encontra em posição contrária à Constituição da República Federativa do Brasil. Por último, serão
elencados os três principais instrumentos processuais que possibilitam esta desconstituição de
sentença inconstitucional, que são: a Ação Rescisória, a Ação Declaratória de Nulidade e os
Embargos à Execução.

Palavras-chave: Coisa julgada. Segurança jurídica. Sentença inconstitucional. Possibilidade de


relativização.

1 INTRODUÇÃO

A coisa julgada, no estudo do Direito Processual Civil, sempre foi tida como
algo acobertado pelo manto da imutabilidade, graças à segurança jurídica ali
depositada.

Entretanto, entre as decisões proferidas no Poder Judiciário, existem


sentenças que, apesar de estarem sob a égide da coisa julgada, possuem vícios em

*
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Endereço
eletrônico: orlandogc@superig.com.br
5

seu conteúdo, por serem contrárias aos princípios e normas previstos na lei maior, a
Constituição Federal.

Estas sentenças, uma vez se encontrando em posição contrária ao texto


constitucional, não teriam como permanecerem estáticas, sob a simples alegação de
que não poderiam gerar a instabilidade da segurança jurídica já obtida.

Assim é que, como o direito vive em constante mutação, com os estudos


recentes dos doutrinadores, jurisconsultos, assim como o moderno acervo
jurisprudencial, surgiram novas formas de se conter essas maléficas decisões
inconstitucionais, reformando-as, e, até mesmo, anulando-as, mesmo tendo sido
investidas pela coisa julgada material.

E com a preocupação de se estudar mais a fundo tal assunto, embasado na


legislação vigente, como também em pesquisas jurisprudenciais e bibliográficas de
obras de autores contemporâneos, o presente artigo científico traz a lume, sob uma
ótica moderna, o entendimento de que tais sentenças transitadas em julgado
inconstitucionais podem e devem ser revistas.

Para tanto, em um primeiro passo, procura-se conceituar alguns institutos


jurídicos intimamente ligados ao tema ora levantado, por se relacionarem entre
processo, tempo e imutabilidade.

Após, no cerne do tema ora exposto, evidencia-se a possibilidade de se


relativizar a coisa julgada de sentença inconstitucional, elencando-se, em seguida,
os três principais instrumentos processuais disponíveis no ordenamento jurídico
brasileiro para tal relativização: a Ação Rescisória, a Ação Declaratória de Nulidade
(Querela Nullitatis) e os Embargos à Execução.

Estes instrumentos têm como principal escopo alcançar o que se espera do


dever primordial do Estado, ao se deparar com o surgimento de um conflito dentro
da sociedade: proferir uma sentença estável, de acordo com os princípios
constitucionais, sendo, principalmente, justa.
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2 CONCEITOS BÁSICOS RELATIVOS AO TEMA

Visando uma melhor compreensão do tema do presente artigo, antes de


adentrar em seu cerne, que é o da possibilidade ou não da relativização da coisa
julgada, necessário se faz traçar alguns conceitos básicos de institutos do mundo
jurídico que serão abordados e debatidos nos pontos seguintes.

2.1 PEREMPÇÃO, DECADÊNCIA, PRESCRIÇÃO E PRECLUSÃO

Estes quatro institutos jurídicos são de fundamental importância no estudo


de qualquer assunto relacionado a Direito Processual, mormente o Processo Civil.
Isto porque possuem em comum a sua pertinência marcante na relação existente
entre processo e tempo.

Todos são determinantes na possibilidade das partes processuais em


exercerem ou deixarem de exercer os atos relativos aos seus direitos, dentro ou fora
do universo processual.

São eles institutos jurídicos que, havendo inércia da parte detentora do


direito material, poderão garantir a estabilidade de uma decisão judicial,
estabelecendo o fim definitivo da querela então existente, assegurando, desta forma,
a satisfação plena do titular do direito alcançado e a conformação final de quem a
referida decisão judicial lhe foi desfavorável.
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2.1.1 Perempção

A perempção representa a caducidade de uma faculdade processual que um


titular do direito almejado sofre.

Ocorre, por exemplo, quando um demandante provoca por três vezes a


extinção de certo processo por arquivamento.

Tal extinção é dada por sentença, sem o julgamento do mérito. Diante de tal
decisão, o referido autor apenas terá o direito de propor uma nova ação dentro do
prazo de seis meses, sob pena de perempção.

Vale salientar que esta caducidade pode ser declarada pelo juiz ao de se
deparar com tal situação, de ofício, isto é, mesmo que não haja qualquer provocação
da parte demandada.

2.1.2 Decadência

Já a decadência diz respeito à morte da relação jurídica pela falta de


exercício num certo tempo anteriormente determinado. O titular do direito não
utilizou seu poder de ação dentro do lapso de tempo estabelecido em seu favor.

É a extinção do direito pela inércia do seu titular quando sua eficácia foi
inicialmente subordinada à condição de seu exercício dentro de um prazo prefixado,
tendo este se esgotado, sem que o seu exercício tivesse verificado.
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2.1.3 Prescrição

Quanto à prescrição, esta é a perda do direito de ação pelo efeito do tempo


aliado à inércia do titular do direito. É o próprio direito que perece, não possibilitando
ao detentor do direito de exercê-lo.

É, desta forma, o modo pelo qual um direito então almejado se extingue, em


razão da inércia do seu titular, durante um determinado lapso de tempo previsto em
norma que, em conseqüência, fica sem qualquer espécie de demanda para
assegurá-lo.

2.1.4 Preclusão

Por último, a preclusão é o impedimento legal de retornar a momentos


processuais já superados, visando uma severa e constante marcha ordenada à
prática dos atos pertinentes a um determinado processo.

A Preclusão pode ser temporal, que ocorre quando se perde o direito de se


praticar um ato processual em razão do lapso temporal; consumativa, se o praticante
é impedido de acrescentar ou retirar elementos dos atos já praticados; e lógica, que
acontece quando a parte pratica atos incompatíveis, como, por exemplo, se o
demandado vem a concordar expressamente com o teor da sentença, ele se torna
impedido de interpor recurso de apelação.
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2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS

Na atual conjectura processual brasileira, são os princípios constitucionais


norteadores de todas as normas infraconstitucionais.

Há uma forte corrente de doutrinadores e operadores do direito que


defendem a exigência da aplicabilidade das leis e normas em consonância com os
ditames constitucionais.

Por se tratar da lei máxima, a Constituição Federal Brasileira é quem norteia


o sentido de todas as normas a ela inferiores. Tal norteamento, na verdade, se torna
efetivo através da observância dos princípios constitucionais.

Daí a sua importância para a aplicação e interpretação das leis que regem
um determinado país.

Por isso, é salutar a enumeração de alguns princípios constitucionais que


serão abordados no presente tema, salientando-se, porém, que se trata apenas de
uma parte dos mais diversos princípios constitucionais, possuidores de um vasto
campo de aplicação, na condição de norteadores do nosso ordenamento jurídico.

2.2.1 Princípio da moralidade

O primeiro princípio constitucional visto é o da moralidade, previsto no caput


do artigo 37, da Constituição Federal. Ele está intimamente ligado à honestidade e à
legalidade da decisão judicial.
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Deve estar implícito em todas as manifestações decorrentes de atos


estatais, já que estes estão submissos à supremacia da lei, buscando-se dois
motivos nobres: a razão e a justiça.

Qualquer que seja a decisão ou ato judicial, estes devem estar embasada,
entre outros, no princípio constitucional da moralidade, sem exceção.

2.2.2 Princípio da legalidade

No que se refere ao princípio constitucional da legalidade, mencionado no


artigo 5º, inciso II, e no caput do artigo 37, ambos da Constituição Federal, ele
estabelece que ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa
senão em virtude de lei.

Além disso, dispõe que o administrador público só poderá fazer ou deixar de


fazer aquilo que a lei lhe permite.

Nesse sentido, a sentença judicial, de nenhuma forma, poderá contrariar a


lei infraconstitucional, assim como as normas e os princípios constitucionais.

2.2.3 Princípio da isonomia

Quanto ao princípio da isonomia ou da igualdade, descrito no caput do artigo


5º da Constituição Federal, este assegura que todos são iguais perante a lei,
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consagrando o tratamento desigual entre os desiguais, na medida de suas


desigualdades, e o tratamento isonômico aos iguais.

Assim, fica mais que cristalino que o direito não pode tratar de maneira
desigual os tidos como iguais, nem de forma igualitária os que se acham na
condição de desiguais.

2.2.4 Princípio da motivação judicial

O princípio da motivação judicial, previsto no artigo 93, inciso IX, da


Constituição Federal Brasileira, dispõe que todas as decisões judiciais devem ser
fundamentadas.

As sentenças, necessariamente, de forma clara e expressa, sob pena de


nulidade insanável a ser arguida, deverão ser motivadas com base na lei e na
Constituição Federal, principalmente nesta, por se encontrar em patamar superior às
demais leis e normas jurídicas, como prevê o nosso ordenamento jurídico.

2.2.5 Princípio da razoabilidade ou da proporcionalidade

Em relação ao princípio da razoabilidade ou da proporcionalidade, este é o


de maior alcance, sendo considerado como o princípio dos princípios, implícito ou
explícito na Constituição Brasileira.
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Ele sempre almeja uma solução de conflitos da qual são susceptíveis todos
os outros princípios, procurando desrespeitar o mínimo dos outro, com seu núcleo
focado no valor da dignidade humana.

Trata-se do princípio assegurador de que raramente haverá a aplicação pura


e simples de um único princípio, em um caso concreto, sem que outro princípio seja
ferido, uma vez que vários outros também poderão ser aplicados no caso.

Deve-se, assim, flexibilizar a aplicação dos princípios quando houver um


conflito aparente entre eles, fazendo-se com que cada princípio exerça influências
em relação ao outro, no caso concreto, de forma razoável e proporcional, como
sugere o próprio nome do princípio em tela.

2.3 DIREITO ADQUIRIDO, ATO JURÍDICO PERFEITO E COISA JULGADA

A Constituição Federal Brasileira estabelece, em seu artigo 5º, inciso XXXVI,


que a lei não pode prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa
julgada.

É esta uma demonstração clara e evidente que o constituinte arranjou para


assegurar aos cidadãos brasileiros o direito ao princípio da irretroatividade das leis,
visando a segurança jurídica tão almejada.

Estes três institutos processuais são de fundamental relevância à


manutenção dos direitos alcançados pelas partes, garantindo a elas a certeza de
que não se fará possível qualquer alteração dos benefícios então obtidos, após ter
sido respeitado o devido processo legal em suas demandas.
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2.3.1 Direito adquirido

No tocante ao direito adquirido, este é tido como algo que se conquista e se


constitui de forma definitiva, incorporando-se, de maneira irreversível, ao patrimônio
do seu titular ou a outrem que possa vir a exercê-lo por este titular.

Trata-se, na verdade, de uma situação jurídica consolidada definitivamente,


tornando-se um dos recursos constitucionais utilizados para limitar a retroatividade
da lei.

Assim, como se adquiriu de forma lícita e legal, o detentor deste direito não
mais poderá sofrer qualquer alteração, ou mesmo redução, do que lhe foi
anteriormente assegurado por lei.

2.3.2 Ato jurídico perfeito

Já o ato jurídico prefeito é aquele que se aperfeiçoou, reunindo os elementos


necessários à sua formação, acobertado pelo manto de uma determinada norma
jurídica vigente ao tempo em que se efetuou tal ato, satisfazendo, assim, todos os
requisitos formais para tornarem plenos todos os seus respectivos efeitos.

Possui uma interligação marcante com o direito adquirido, no sentido de


ambos contribuírem ao bloqueio dos efeitos de uma lei posterior que possa vir a
prejudicar o titular do direito já alcançado.
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2.3.3 Coisa julgada

Por fim, a coisa julgada é o efeito produzido pela sentença que não mais se
submete a qualquer espécie de recurso. É a proteção que o titular do direito recebe,
visando a imutabilidade da decisão judicial alcançada a seu favor.

Da mesma forma que os institutos jurídicos do direito adquirido e do ato


jurídico perfeito, vistos acima, a coisa julgada incorpora-se ao patrimônio de seu
titular, pela força que a norma jurídica irrecorrível a ele produz.

Entre estes três conceitos básicos acima, a coisa julgada será o mais
utilizado no presente trabalho. Por isso, tal instituto jurídico será melhor abordado e
explorado.

2.4 COISA JULGADA MATERIAL E COISA JULGADA FORMAL

Continuando no instituto da coisa julgada, é de bom alvitre esclarecer que os


doutrinadores a subdividem em duas diferentes, mas interligadas formas, a coisa
julgada material e a coisa julgada formal.

Tal subdivisão comprova que a coisa julgada possui nuances que, a


princípio, poderiam vir a confundir, mas, como será visto, a coisa julgada material e a
coisa julgada formal estão dispostas de uma forma que uma se interage com a outra,
em perfeito sincronismo.
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2.4.1 Coisa julgada Material

A coisa julgada material é a imutabilidade dos efeitos substanciais da


sentença de mérito, impedindo que o embate volte a ser discutido, mesmo que em
outro processo, por estar definitivamente resolvida a lide.

Pode-se afirmar, ainda, que a coisa julgada material se constitui na


qualidade da eficácia da sentença que transitou em julgado, outorgando ao ato
jurisdicional a condição de indiscutível, irrecorrível e imutável.

2.4.2 Coisa julgada Formal

Já a coisa julgada formal, por sua vez, é a imutabilidade da própria


sentença, dentro do processo em que foi proferida.

Com isso, a coisa julgada material produz seus efeitos extra-processo,


atingindo as partes, impedindo o reexame do mérito em uma outra ação, ao passo
que, na coisa julgada formal, os efeitos são endoprocessuais, não se dando mais
chance de interposição de recurso. Esta é, assim, a preclusão máxima, devido à sua
irrecorribilidade.

Visando um melhor entendimento, é salutar citar Dinamarco (2006, p. 11),


afirmando que coisa julgada formal e material não são institutos autônomos ou
diferentes, mas constituem “dois aspectos do mesmo fenômeno de imutabilidade,
ambos responsáveis pela segurança jurídica.”
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Para este jurista, a coisa julgada material seria a imunização dos efeitos da
sentença, ao passo que, a coisa julgada formal seria a imutabilidade da sentença em
si mesma, como ato jurídico do processo, sendo esse o motivo pelo qual se verifica
a coisa julgada formal em qualquer sentença, seja ela de mérito, ou mesmo,
terminativa.

Sabe-se, assim, que a coisa julgada material não é nem nasce com a
sentença, pois surge em momento posterior ao seu proferimento, gerando consigo
sua imutabilidade e indiscutibilidade.

Por isso, Santos (1999, p.114) procura definir coisa julgada material,
reconhecendo que a mesma alcança os efeitos além dos produzidos na coisa
julgada formal, afirmando:

Em consequência da coisa julgada formal, pela qual a sentença não poderá


ser reexaminada e, pois, modificada ou reformada no mesmo processo em
que foi proferida, tornam-se imutáveis os seus efeitos (declaratório, ou
condenatório ou constitutivo). O comando emergente da sentença, como ato
imperativo do Estado, torna-se definitivo, inatacável, imutável, não podendo
ser desconhecido fora do processo. E aí se tem o que se chama coisa
julgada material, ou coisa julgada substancial, que consiste no fenômeno
pelo qual a imperatividade do comando emergente da sentença adquire
força de lei entre as partes. (SANTOS, 1999, p. 114)

Ainda, Dinamarco (2001, p. 299), ao estabelecer um comparativo entre coisa


julgada material e coisa julgada formal, assegurou a afirmativa de que:

Se noutra ação não mais se pode discutir e mudar a eficácia da coisa


julgada, salvo em ação rescisória, a eficácia da coisa julgada é eficácia da
coisa julgada material, que é um plus em relação às sentenças que apenas
não estão mais sujeitas a recurso, ordinário ou extraordinário, ou nunca o
foram. Tal eficácia de sentença é de coisa julgada formal. Mas qualquer
sentença, com eficácia de coisa julgada material é, necessariamente,
sentença de eficácia de coisa julgada formal, porque a materialidade
eficacial é um plus. (DINAMARCO, 2001, p. 299)

Desta forma, conclui-se que a coisa julgada formal se difere da coisa julgada
material no objeto acerca de qual incidirá a qualidade da coisa julgada, onde sempre
que se fizer presente a eficácia da coisa julgada material, certamente estará
presente a da coisa julgada formal.
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3 DEVE-SE RELATIVIZAR A COISA JULGADA DE SENTENÇA


INCONSTITUCIONAL?

Adentrando-se, neste momento, no tema propriamente dito, diante dos


conceitos acima expostos, foi visto que a coisa julgada material é caracterizada por
tornar os comandos da sentença imutáveis, irrecorríveis.

Isto gera a presença da segurança jurídica, marcante nos atos emanados do


Poder Judiciário, responsável pelo fim dos litígios entre as partes, sejam elas
particulares ou pertencentes ao Poder Público, visando a distribuição da justiça, de
forma equitativa, através da aplicação da lei, de um modo tido como justo.

Tal segurança jurídica se mostra como sinônimo de imutabilidade, de modo


que a relação jurídica entre os pertencentes a uma determinada querela deverá
permanecer estática e permanente, a qualquer tempo.

Como discorre Mello (2010, p. 214):

O princípio da segurança jurídica é da essência do próprio Direito,


notadamente do Estado Democrático de Direito e, por isso, faz parte do
sistema constitucional como um todo, enquadrando-se entre os princípios
gerais do direito. (MELLO, 2010, p. 214)

Greco (2002, p. 5) reconhece a coisa julgada como necessária à tutela


jurisdicional efetiva, dizendo, em suas palavras:

Àquele a quem a Justiça reconheceu a existência de um direito, por decisão


não mais sujeita a qualquer recurso no processo em que foi proferida, o
Estado deve assegurar a sua plena e definitiva fruição, sem mais poder ser
molestado pelo adversário. Se o Estado não oferecer essa garantia, a
jurisdição nunca assegurará em definitivo a eficácia concreta dos direitos
dos cidadãos. (GRECO, 2002, p. 5)

É a coisa julgada a garantia essencial ao direito fundamental do princípio da


segurança jurídica, segurança essa necessária à tranqüilidade social, visto que
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possibilita o planejamento futuro de acordo com os efeitos da sentença, dando


certeza ao passado.

Ela garante também a segurança nas relações jurídicas e se constitui em um


instrumento essencial à efetividade da tutela jurisdicional, já que assegura a
estabilidade aos efeitos fora do processo, da sentença anteriormente proferida.

Sabe-se, porém, que a Constituição, por se tratar de Lei Maior, encontra-se


em posição privilegiada na hierarquia do ordenamento jurídico de um país,
ocupando o seu topo.

Ela carrega consigo os princípios, direitos, deveres e garantias que servem


de esteio para se aplicar o direito e as normas infraconstitucionais, sendo, desta
forma, a sua fonte primária.

Todo ordenamento jurídico é composto, assim, de um sistema de níveis e


camadas diferentes de normas jurídicas, escalonados, estando a Constituição
Federal em sua última escala.

É nela que se busca a orientação e validação das outras leis e normas


jurídicas que existem em um determinado país.

Por isso, como será analisado adiante, baseando-se na atual corrente


doutrinária e jurisprudencial, não se pode sempre e incondicionalmente, atribuir um
valor absoluto aos efeitos da coisa julgada material.

Da mesma maneira, não se perpetua, de forma intocável, toda e qualquer


sentença, tendo como base apenas o princípio da segurança jurídica.

Isto se deve ao fato de que, ao se tentar, por exemplo, responder ao


questionamento: Não seria uma contradição tentar estabelecer a proteção
constitucional de uma sentença em que se perfez a sua coisa julgada, trazendo
consigo, porém, uma decisão contrária à própria Constituição? A resposta, com
certeza, deve ser negativa.
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Ora, nos dias atuais, vêm sendo observadas diversas e relevantes


manifestações da doutrina e jurisprudência, no sentido de relativizar a coisa julgada
material.

A fundamentação preponderante dos que defendem tal relativização é a


busca da decisão justa. Estes asseguram que o valor da segurança jurídica não
pode ser considerado como um valor absoluto no nosso ordenamento jurídico, já
que existe um grau de maior relevância, de primordial necessidade de se manter tal
ordem jurídica, que é a justiça das decisões advindas do judiciário.

Não se busca, com isso, deliberar insignificância ao princípio da segurança


jurídica, mas sim, tentar se alcançar a harmonia com os outros princípios
constitucionais, como os já vistos no presente artigo, considerados como de igual ou
superior relevância, já que tais princípios não constituem um fim em si mesmos,
fazendo-se parte de um todo, motivo para sempre se buscar tal equilíbrio.

É válido salientar que, no caso concreto, os princípios constitucionais devem


ser aplicados de certa maneira que se possa excluir ou diminuir a aplicação de um
outro princípio constitucional, deixando-se claro que nenhum princípio se encontra
na posição de absoluto, em nosso ordenamento jurídico.

Vê-se, desta forma, que o princípio constitucional da segurança jurídica não


pode se sobrepor em relação aos demais princípios constitucionais.

Indo ainda mais longe, Delgado (2003, p. 51), em sua concepção, defende
que o princípio da segurança jurídica se encontra em dimensão de importância
inferior a outros princípios tidos por ele como absolutos, como segue:

Os valores absolutos de legalidade, moralidade e justiça estão acima do


valor segurança jurídica. Aqueles são pilares, entre outros, que sustentam o
regime democrático, de natureza constitucional, enquanto esse é valor infra-
constitucional oriunda de regramento processual. (DELGADO, 2003, p. 51)

Como certo, tem-se que a autoridade da coisa julgada não deve sobrepor
aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, já que as sentenças
abusivas, cujo teor possua efeitos juridicamente impossíveis, em verdade não
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produzem efeito algum e, como conseqüência, não há formação de coisa julgada


material.

Dinamarco (2001, p. 29-30), ao defender a ilegitimidade de se perpetuar


injustiças, sob o pretexto de evitar a eternidade de incertezas, discorre a seguinte
descrição:

Ora, como a coisa julgada não é em si mesma um efeito e não tem


dimensão própria, mas a dimensão dos efeitos substanciais da sentença
sobre a qual incida, é natural que ela não se imponha quando os efeitos
programados na sentença não tiverem condições de impor-se. Onde quer
que se tenha uma decisão aberrante de valores, princípios, garantias ou
normas superiores, ali ter-se-ão efeitos juridicamente impossíveis e,
portanto não incidirá a autoridade da coisa julgada material – porque, como
sempre, não se concebe imunizar efeitos cuja efetivação agrida a ordem
jurídico-constitucional. (DINAMARCO, 2001, p. 29-30)

Há, assim, uma margem de diferença entre a obtenção da segurança


jurídica e a certeza do direito, do que é justo.

De fato, a segurança jurídica é objetiva, mas a certeza do direito é subjetiva,


onde aquela é o princípio que fornece às partes a certeza de se estabelecer a forma
de agir, nos moldes de seu direito.

A inconstitucionalidade da sentença não pode, desta maneira, estar


acobertada pelo manto do princípio da segurança jurídica, assegurado pela própria
Constituição Federal.

Das mais diversas sentenças tidas como injustas, sem dúvidas, as mais
graves são as transitadas em julgado, constatadas como inconstitucionais, ou seja,
ofendem a Constituição da República, já que tal inconstitucionalidade leva o vício
mais danoso a um ato jurídico.

Entre as sentenças que podem ser consideradas como inconstitucionais, há


que se exemplificarem as citadas por Delgado (2003, p. 101-103), elencando as
seguintes:

a) a sentença expedida sem que o demandado tenha sido citado com as


garantias exigidas pela lei processual;
b) a ofensiva à soberania estatal;
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c) a violadora dos princípios guardadores da dignidade humana;


d) a provocadora de anulação de anulação dos valores sociais e da livre
iniciativa;
e) a que estabeleça, em qualquer tipo de relação jurídica, preconceito de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação;
f) a que obrigue alguém a fazer ou deixar de fazer algo de forma contrária à
lei;
g) a que autorize a prática de tortura, tratamento desumano ou degradante
de alguém;
h) a que julga válido ato praticado sob a forma de anonimato na
manifestação de pensamento ou que vede essa livre manifestação;
i) a que impeça a liberdade de atuação dos cultos religiosos;
j) a que consagra a possibilidade de violação ao direito da intimidade, da
vida, da honra e da imagem da pessoa;
k) a que abra espaço para a quebra do sigilo da correspondência;
l) a que impeça alguém de associar-se ou de permanecer associado;
m) a que reduza o salário do trabalhador, salvo o caso de convenção ou de
acordo coletivo;
n) a que autorize a empresa, por motivos de dificuldades financeiras, a não
pagar o 13º salário do trabalhador;
o) a que estabeleça distinção entre brasileiros natos e naturalizados, além
dos casos previstos na Constituição da República;
p) a que proíba a União de executar os serviços de polícia marítima,
aeroportuária e fazendária;
q) a que autorize alguém a assumir cargo público descumprindo os
princípios fixados na Constituição da República e nas leis específicas;
r) a que ofenda, nas relações jurídicas de direito administrativo, os princípios
da legalidade, da moralidade, da eficiência, da impessoalidade e da
publicidade;
s) a que reconheça vitalício no cargo o juiz com, apenas, um ano de
exercício;
t) a que, no trato de indenização da propriedade pelo poder público, para
qualquer fim, não atenda ao princípio da justa indenização. (DELGADO,
2003, p. 101-103)

É, portanto, inaceitável que qualquer uma das decisões exemplificadas


acima pudesse ter seus efeitos válidos ad eternum, pelo simples fato de se tratar de
sentença acobertada pela coisa julgada material, em prol da segurança jurídica.

Todas as sentenças elencadas acima violam a Constituição Federal, não


podendo, assim, estarem protegidos contra qualquer ação ou decisão que leve à
extinção de seus efeitos maléficos ao ordenamento jurídico brasileiro.

Não há como a segurança jurídica conviver com a inconstitucionalidade ou a


ilegalidade advinda de uma sentença judicial proferida. Isto leva à absurda
insegurança ao Estado Democrático de Direito de se perpetuar uma injustiça fruto de
uma sentença com uma interpretação errônea do direito, pela simples e falsa idéia
de que está acobertada pelos efeitos da coisa julgada.
22

Basta dizer que o Juiz, ao apreciar uma determinada demanda, deve sempre
verificar a compatibilidade das pretensões nela presentes frente à Carta Magna, face
à sua supremacia. Isto é corroborado por Barroso (2003, p. 161), nas seguintes
palavras:

Toda interpretação constitucional se assenta no pressuposto da


superioridade jurídica da Constituição sobre os demais atos normativos no
âmbito do Estado. Por força da supremacia da Constituição, nenhum ato
jurídico, nenhuma manifestação de vontade pode subsistir validamente se
for incompatível com a Lei Fundamental. (BARROSO, 2003, p. 161)

Para enfatizar ainda mais as afirmações acima, é relevante mais uma


citação de Delgado (2003, p. 103), advertindo da fragilidade das sentenças eivadas
de inconstitucionalidade, por irem contra os princípios constitucionais, norteadores
do nosso ordenamento jurídico, discorrendo o texto que segue:

As sentenças que ferem a Constituição Federal nunca terão força de coisa


julgada e poderão, a qualquer tempo, ser desconstituídas no seu âmago
mais consistente que é a garantia da moralidade, da legalidade, do respeito
à Constituição e da entrega da justiça. (DELGADO, 2003, p. 103)

Há, portanto, que respeitar o manto da coisa julgada material, desde que
esteja assegurada por caminhos percorridos em perfeita normalidade da aplicação
do direito formal e do direito material.

Precisa a sentença irrecorrível se encontrar em estado de plena e


indubitável constitucionalidade, isenta de fraudes, absurdos, vícios, ilegalidades ou
injustiças flagrantes.

Fica, assim, mais que evidente que a relativização da coisa julgada material
se faz presente, condicionando-se que a respectiva sentença que a alcançou esteja
eivada de inconstitucionalidade.

Portanto, constata-se a indiscutível ausência do caráter de absolutividade na


coisa julgada, sendo admissível o Controle de Constitucionalidade, autorizador da
relativização da coisa julgada material, desde que de sentença inconstitucional.
23

4 MEIOS PROCESSUAIS UTILIZADOS CONTRA A COISA JULGADA DE


SENTENÇA INCONSTITUCIONAL

Diante do visto acima, cabe, neste momento, elencar os meios previstos em


lei, permissivos para a impugnação nas estâncias judiciais à coisa julgada
inconstitucional.

Salienta-se que a sentença inconstitucional, por estar transitada em julgado,


não pode ser submetida à recursos de apelação ou extraordinário. Tais vias se
esgotaram.

Vale a pena agora analisar quais os meios processuais que possibilitam


modificar a sentença transitada em julgado, quando esta for incompatível com
decisão do Supremo Tribunal Federal, assim como com a própria Constituição
Federal Brasileira.

Assim, uma vez se constatando a inconstitucionalidade de uma sentença


então proferida, poderá a parte ou o ente público prejudicado se utilizar de vias
legais, como as três espécies de demandas processuais que serão expostas
adiante.

4.1 AÇÃO RESCISÓRIA

A mais tradicional forma de rescisão de qualquer sentença transitada em


julgado é, sem dúvida, a Ação Rescisória.
24

Ela é considerada pelos operadores do direito como uma ação autônoma de


impugnação, detentora de natureza constitutiva negativa, sendo utilizada como
instrumento contra a sentença transitada em julgado, seja por motivos de invalidade
ou de injustiça.

O Código de Processo Civil, em seu artigo 485, tratando da Ação Rescisória,


enumera as hipóteses taxativas de seu cabimento, quais sejam:

Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida


quando:
I - se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do
juiz;
II - proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;
III - resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou
de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;
IV - ofender a coisa julgada;
V - violar literal disposição de lei;
Vl - se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo
criminal ou seja provada na própria ação rescisória;
Vll - depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência
ignorava, ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de Ihe assegurar
pronunciamento favorável;
VIII - houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação,
em que se baseou a sentença;
IX - fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da
causa;
o
§ 1 Há erro, quando a sentença admitir um fato inexistente, ou quando
considerar inexistente um fato efetivamente ocorrido.
o
§ 2 É indispensável, num como noutro caso, que não tenha havido
controvérsia, nem pronunciamento judicial sobre o fato.

Além disso, o artigo 495, do mesmo Código de Ritos, estipula como prazo
máximo para interpor a referida ação, o de dois anos, contados a partir da data do
trânsito em julgado da sentença a ser rescindida.

Como visto acima, denota-se bem clara a previsão legal, concedendo a


possibilidade de relativizar a coisa julgada material da sentença inconstitucional
através da Ação Rescisória.

Os incisos IV e V do artigo 485 do Código de Processo Civil são bem


elucidativos, ao descrever a permissão nos casos de ofensa à coisa julgada, e, até
mesmo, de violação do disposto na lei, respectivamente.
25

Vale salientar que, embora no texto do código processual fale em “lei”, o que
seria uma espécie de omissão a se levantar para se aceitar a Ação Rescisória como
meio de se relativizar a coisa julgada, já que não se fala em texto constitucional,
Câmara (2007, p. 19), afirma que a referida “expressão “lei” deve ser entendida
como de forma ampla.”

Isto quer dizer que a decisão que violar qualquer que seja a norma jurídica,
inclusive a constitucional, será passível de Ação Rescisória.

Inclusive, já existe jurisprudência enunciando que a Ação Rescisória é forma


válida de desconstituição da coisa julgada inconstitucional, conforme o exemplo da
ementa do Superior Tribunal de Justiça, como segue:

PROCESSUAL CIVIL - AÇÃO RESCISÓRIA - INTERPRETAÇÃO DE


TEXTO CONSTITUCIONAL - CABIMENTO - VIOLAÇÃO A LITERAL
DISPOSIÇÃO DE LEI
(CPC, ART. 485, V) - FINSOCIAL - MAJORAÇÃO DE ALÍQUOTAS – LEIS
7.689/88, ART 9º, 7787/89, 7894/89 E 8147/90 –
INCONSTITUCIONALIDADE (RE 150764/PE) PRECEDENTES.
- O entendimento desta Corte, quanto ao cabimento da ação rescisória nas
hipóteses de declaração de constitucionalidade ou inconstitucionalidade de
lei é no sentido de que "a conformidade, ou não, da lei com a Constituição é
um juízo sobre a validade da lei; uma decisão contra a lei ou que lhe negue
a vigência supõe lei válida. A lei pode ter uma ou mais interpretações, mas
ela não pode ser válida ou inválida, dependendo de quem seja o
encarregado de aplicá-la. Por isso, se a lei é conforme à Constituição e o
acórdão deixa de aplicá-la à guisa de inconstitucionalidade, o julgado se
sujeita à ação rescisória ainda que na época os tribunais divergissem a
respeito. Do mesmo modo, se o acórdão aplica lei que o Supremo Tribunal
Federal, mais tarde, declare inconstitucional.

É, portanto, a Ação Rescisória, a via tradicional à disposição das partes


legítimas, para proporem a impugnação da sentença ou acórdão inconstitucional
transitada em julgado, servindo como meio de atenuar as injustiças gritantes então
existentes nas decisões de mérito.

Há, no entanto, o limite temporal, como visto acima, de dois anos da data do
trânsito em julgado da sentença a ser submetida à rescisão em tela.

Com isso, uma vez se deparando com situações em que o trânsito em julgado
da sentença inconstitucional tenha passado dos dois anos, existe ainda outros meios
de se relativizar a coisa julgada material, como se verá nos próximos itens.
26

4.2 AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE SENTENÇA INCONSTITUCIONAL

A Ação Declaratória de Nulidade da Sentença Inconstitucional, ou Querela


Nullitatis, é uma ação autônoma, utilizada para as hipóteses em que o lapso
temporal tenha ultrapassado o prazo de dois anos do trânsito em julgado da
sentença ou acórdão a ser reformado, já que, como visto acima, até os citados dois
anos, o meio viável é a Ação Rescisória.

Isto autoriza que a coisa julgada inconstitucional sofra impugnação a qualquer


tempo.

Há, ainda, os jurisconsultos defensores da tese de que mesmo dentro do


prazo dos dois anos cedidos à Ação Rescisória, a Querela Nullitatis se faz cabível.

Isto porque não haveria como validar uma sentença inexistente, nula, sem
efeito no mundo jurídico, por estar a referida sentença eivada de vício
inconstitucional.

Por isso, não viabilizaria a sua desconstituição pelo manejo da Ação


Rescisória, e sim, da Declaratória de Nulidade, como a própria nomenclatura da
ação adequadamente sugere.

Wambier e Medina (2003, p. 237), por exemplo, defendem que não exista
prazo a ser estabelecido para ingressar com a Querela Nullitatis, afirmando o
seguinte:

Na esteira do que entende a doutrina mais qualificada e felizmente boa


parte da jurisprudência, estas sentenças não têm aptidão para transitar em
julgado e, portanto, não devem ser objeto de ação rescisória, já que não
está presente o primeiro dos pressupostos de cabimento daquela ação:
sentença de mérito transitada em julgado. Em nosso entender, pode-se
pretender, em juízo, a declaração no sentido de que aquele ato se
consubstancia em sentença juridicamente inexistente por meio de ação de
rito ordinário, cuja propositura não se sujeita a limitação temporal.
(WAMBIER e MEDINA, 2003, p. 237)
27

Tal ação tem o seu processamento pelo rito ordinário, devendo a mesma ser
interposta no juízo monocrático, visando a desconstituição da sentença
inconstitucional transitada em julgado.

Do exposto acima, deixa-se claro que o vício da inconstitucionalidade sujeita


a referida sentença à sua nulidade, relativizando-se, assim, a coisa julgada material,
através do instrumento processual chamado de Querela Nullitatis, dentro de
qualquer que seja o lapso temporal.

4.3 EMBARGOS À EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA

No artigo 741, do nosso Código de Ritos, que trata dos embargos à execução
contra a Fazenda Pública, é estabelecida a limitação á parte executada de
argumentos embasadores para a interposição dos referidos embargos à execução,
da seguinte forma:

Art. 741. Na execução contra a Fazenda Pública, os embargos só poderão


versar sobre:
(...)
II - inexigibilidade do título;
(...)
Parágrafo único. Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo,
considera-se também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato
normativo declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou
fundado em aplicação ou interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo
Supremo Tribunal Federal como incompatíveis com a Constituição Federal.

No referido artigo, o seu parágrafo único remete ao seu inciso II, mostrando
mais um instrumento a se utilizar para se relativizar a coisa julgada material de
sentença inconstitucional.

Isto se deve ao fato da referida parte do artigo 741, versar sobre o título
inelegível, como aquele em que for baseado em lei ou ato normativo considerado
28

como inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, assim como se tiver fundado
em aplicação ou interpretação de norma jurídica, considerada pelo mesmo órgão
como em descompasso com o texto da Carta Magna.

Trata-se, na verdade, de mais um valioso meio de se obter a desconstituição


de uma sentença transitada em julgado inconstitucional, mesmo após o lapso
temporal para se interpor a Ação Rescisória, e, ainda além, já na fase de execução
do julgado, em sede de embargos à execução contra a Fazenda Pública.

É, sem dúvida, a abertura de um caminho amplo feito pela Lei nº 11.232, de


22 de dezembro de 2005, norma esta que deu a redação a este parágrafo, para se
buscar a relativização da coisa julgada material da sentença transitada em julgado,
desde que eivada de inconstitucionalidade.

Júnior e Faria (2003, p. 109) deixam claro o cabimento de qualquer que seja
o remédio a ser utilizado, entre os três acima explicitados, a qualquer tempo, contra
a inconstitucionalidade das sentenças ou acórdãos transitados em julgado, indo até
mais além, sugerindo ao Juiz em agir até mesmo de ofício, ou seja, de iniciativa
própria, visando declarar a inconstitucionalidade e, consequentemente, a nulidade
destas decisões, nas seguintes palavras:

Os tribunais, com efeito, não podem se furtar de, até mesmo de ofício,
reconhecer a inconstitucionalidade da coisa julgada, o que pode se dar a
qualquer tempo, seja em ação rescisória (não sujeita a prazo), em ação
declaratória de nulidade ou em embargos à execução. (JÚNIOR e FARIA,
2003, p. 109)

Tais palavras deixam evidente a amplitude do poder que os juízes


monocráticos e tribunais são possuidores.

Pode-se, desta forma, sanar uma sentença inconstitucional, por ser esta
nula, eivada de vício, de injustiça gritante, rompendo-se as barreiras processuais dos
institutos da perempção, decadência, prescrição, preclusão, direito adquirido, ato
jurídico perfeito e, principalmente, da coisa julgada, em prol do respeito aos
princípios constitucionais vistos e explanados acima, assim como o próprio texto
contido na Constituição Federal Brasileira.
29

Com tudo isto que foi exposto acima, fica mais que cristalina a segurança
em se afirmar que não importa o tempo de proposição, nem qual dos instrumentos a
ser utilizado, em busca de se desconstituir a coisa julgada material de sentença
transitada em julgado inconstitucional, em prol de uma decisão eminentemente justa
e verdadeira.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quanto aos institutos jurídicos relativos ao direito diante do tempo, como a


perempção, decadência, prescrição e preclusão, fica claro que a parte que ajuíza ou
faz parte de uma determinada ação judicial, sofre limites, de cunho temporal,
impostos por estes institutos.

Isto porque, como visto, caso não os venha a observá-los com a atenção
devida, no transcorrer destas demandas, ou até mesmo após, poderão os seus
participantes não mais poder usufruir os direitos que porventura advierem a seu
favor.

Existem, ainda, as conquistas previstas na Constituição Federal Brasileira,


garantidoras da estabilidade e da irretroatividade dos benefícios e direitos
alcançados por lei ou em ações judiciais. São tais conquistas o direito adquirido, o
ato jurídico perfeito e a coisa julgada.

A coisa julgada, na condição de maior responsável pela imutabilidade e


irretroatividade das decisões, pode ainda ser subdividida em duas formas de
eficácia, a coisa julgada material, que diz respeito aos efeitos presentes nos setores
externos do processo, e a coisa julgada formal, que, ao contrário, refere-se às
consequências marcantes dentro da própria demanda processual.
30

Apesar desta subdivisão, a coisa julgada material e a coisa julgada formal


encontram-se em perfeita harmonia, quanto à sua natureza jurídica, já que a
primeira se apresenta marcante em consequência da última.

Sabe-se, por outro lado, que o ordenamento jurídico brasileiro está


intimamente regulamentado pelos princípios constitucionais. Entre estes princípios,
destacam-se o princípio da moralidade, legalidade, isonomia, motivação judicial e
razoabilidade.

Todos estes princípios constitucionais, juntamente como o princípio da


segurança jurídica, devem se interagir, harmonicamente, procurando o equilíbrio em
suas atuações, contrabalanceando-se entre si, em busca da decisão certa e justa.

Por serem integrantes da Lei Maior, os referidos princípios se encontram no


topo de qualquer interpretação de lei ou norma que exista no meio jurídico. São eles
norteadores de todo raciocínio jurídico que se exigir na solução de qualquer conflito
que possa então advir entre as partes.

Denota-se, assim, que a coisa julgada material, apesar de conceder à


sentença um papel de estabilidade, fulcrado no princípio constitucional da segurança
jurídica, ela pode e deve ser relativizada, observando-se outros princípios e normas
constitucionais.

Isto se deve ao fato de, em casos concretos, em que a sentença de mérito,


mesmo tendo obtido o seu trânsito em julgado, esta pode se encontrar eivada de
inconstitucionalidade, indo contra outros norteadores princípios da constituição,
sendo, assim, nula ou inexistente.

Tais sentenças inconstitucionais devem ser rescindidas, declaradas nulas e


deixarem de existir no ordenamento jurídico, em respeito à Carta Magna, norma esta
que se encontra no topo, sobrepujando qualquer outra legislação existente.

Para tanto, existem a Ação Rescisória, a Ação Declaratória de Nulidade de


Sentença, e os Embargos à Execução, como remédios processuais, disponíveis no
acervo da legislação brasileira, tornando possível a relativização da coisa julgada
material de sentença inconstitucional, conforme explanado no bojo do presente
artigo.
31

Tudo o acima exposto possibilita que se ponha em prática a correta


prestação jurisdicional, estabelecendo-se a perfeita ordem jurídica do Estado
Democrático de Direito, em uníssono com os princípios e normas constitucionais, na
qualidade de norma das normas, ou lei das leis, visando o bem maior entre todos de
uma sociedade, que é a sentença definitiva coerente, imutável e, acima de tudo,
justa.

ABSTRACT

In this scientific paper will be seen, initially, the basic concepts of some legal
institutions, regarding the issue itself, such as: perempção, decay, prescription and
estoppel, the constitutional principles of morality, legality, equality and
reasonableness, even as the vested right, perfect juridical act, the res judicata and
claim preclusion formal. Then we shall consider the possibility or not to retire or
cancel a final judgment, which has already reached the res judicata. Will be clear to
the conclusion that such retirement or cancellation is only possible if it is found that
the content of that sentence is in a position contrary to the Constitution of the
Federative Republic of Brazil. Finally, it will be listed the three main legal instruments
that allow this deconstitution sentence unconstitutional, which are: Action for
Rescission, the Declaratory Action of Nullity and Objections to Execution.

Keywords: Res Judicata. Legal Security. Unconstitutional Sentence. Possibility of


Relativization.
32

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Escola Paulista da Magistratura, vol. 2, n. 2, jul.-dez./2001, São Paulo: Imprensa
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33

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