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Introdução ao Tema

O Censo da Educação Superior de 2017 dá um quadro geral da Educação Superior e de

sua evolução ao longo dos anos.

Na Figura 1, podemos observar que a maioria das IES do Brasil, 87,9% (2.152 do total

de 2448 IES) corresponde à categoria administrativa de IES privada, responsável por

cerca de 75% das matrículas.

As Instituições federais, estaduais e municipais representam 12,1% (292 IES), contando

com cerca de 25% do total de matrículas (BRASIL, 2018).


Na Tabela 1, apresentamos a distribuição das matrículas por organização acadêmica.

Podemos observar que a predominância das matrículas se dá, respectivamente, nas

Universidades (199 IES), seguida pelas Faculdades (2.020 IES), pelos Centros

Universitários (189 IES) e, por último, pelos IFs e pelos Cefets (40 IES).

O crescimento da Educação Superior tem se dado continuamente, como se pode ver na

Figura 2.

A proporção de matrículas nas IES privadas representa 75,3% e nas IES públicas

representa 24,7%.

O crescimento no número de matrículas tem sido mais marcante nas IES privadas.

No âmbito da modalidade, temos observado, também, mudança no


comportamento das matrículas.

Na Figura 3, observamos que as matrículas totais na Educação Superior na


Modalidade a Distância têm crescido sucessivamente e representa, hoje, 21,2%
das matrículas totais.

Observa-se que o crescimento das matrículas tem se dado, de forma mais


marcante, na Modalidade a Distância.
Observe, no entanto, que há uma tendência para que, no futuro breve, esse número

cresça para cerca de 50%, considerando os dados atuais de matrículas e ingressantes nas

Licenciaturas e nos Cursos Tecnológicos.

Nas Figuras 3 e 4, apresentamos os dados de matrículas para esses segmentos que,

como podemos observar, estão, respectivamente, em 46,8% (Licenciaturas) e 46,5%

(Cursos Tecnológicos).

Como identificado por alguns consultores da Área Educacional, a proporção de


matrículas na Modalidade Presencial e na Modalidade a Distância deverá se
igualar em 2023.
Em especial, isso certamente acontecerá até mesmo mais rapidamente, quando as
limitações e barreiras para oferta de Cursos, na Modalidade a Distância, das áreas
de Saúde (Enfermagem e Psicologia, principalmente) e de Direito forem
vencidas.

A análise desse panorama apresenta em primeiro lugar, evolução constante no


número de matrículas na Educação Superior; em segundo lugar, alta
concentração de matrículas nas categorias acadêmicas de Universidade e Centro
Universitários (72,8% do total de matrículas), representando predominância dos
modelos acadêmicos de Universidades e Faculdades; em terceiro lugar, avanço
sistemático das matrículas de ingressantes na Modalidade a Distância, podendo
levar a proporção futura de igualdade entre as modalidades.

Modelo Acadêmico
A ideia de Modelo Acadêmico muitas vezes se confunde com a ideia de Modelo
Pedagógico.

Aqui, iremos fazer uma distinção entre esses dois conceitos. Assim, na
concepção que discutimos, o Modelo Acadêmico está associado a vários fatores
“impactantes”, conforme apresentado na Figura 5.

Do ponto de vista da Legislação, o Modelo Acadêmico é descrito no Plano de


Desenvolvimento Institucional, mais especificamente no PPI – Projeto
Pedagógico Institucional.

No Modelo Acadêmico Institucional, devem estar definidas as políticas


institucionais formativas para os diversos Níveis de Ensino e Modalidades, assim
como os objetivos de formação institucional: competências, habilidades e
atitudes gerais que devem ser seguidas pelos Cursos e Programas da Instituição,
além do Modelo Acadêmico dos Cursos e Programas, especificando os possíveis
Modelos Pedagógicos utilizados pela Instituição.

No Modelo Acadêmico, também deve estar especificada a estrutura e a


organização institucional e como se processam os mecanismos de governança
internos.

Instituições de Ensino públicas possuem, em geral, um Modelo Acadêmico


tradicional baseado em Cursos e Programas tradicionais, com participação de um
quadro de professores e pesquisadores de dedicação integral ou exclusiva.

Esse modelo acadêmico é mais rígido em Unidades chamadas de Disciplinas e/ou


Atividades que estão ligadas a Centros de Conhecimento Departamentos,
Faculdades e Institutos.
Estamos apenas generalizando, mas sabemos que há muitas instituições públicas
que atuam de forma bastante inovadora.

As Instituições Privadas têm, em geral, maior abrangência de organização


acadêmica, podendo se constituir como Universidades, Centros Universitários e
Faculdades Isoladas.

A Legislação educacional dá responsabilidades diferentes de autonomia e de


requisitos para essas Organizações acadêmicas, que podem promover ou
estimular modelos acadêmicos diferenciados.

Por exemplo, atualmente, uma Universidade tem como requisito legal: quatro
Cursos de Mestrado e dois cursos de Doutorado, ou seja, um grupo de
professores pesquisadores que poderão fomentar um programa de iniciação
científica associado aos alunos da Graduação conduzindo, assim, a um modelo
acadêmico diferenciado com relação a uma faculdade isolada.

Um Centro Universitário, por exemplo, tem requerimento de 20% dos docentes


em tempo integral, enquanto uma Universidade necessita possuir 1/3 de docentes
em regime de tempo integral. Essa Organização acadêmica pode ser geradora,
considerando a proposição da Instituição de um Modelo Acadêmico
diferenciado.

Para exemplificar, sem utilizar qualquer Instituição específica, podemos pensar


num modelo acadêmico, constituído de Cursos de Graduação Presencial com uso
de componentes EaD (consideremos 20% da carga horária do Curso), em todos
os seus Cursos, de acordo com a Portaria n. 1428/2018 (BRASIL, 2018c).

Esse Modelo Acadêmico faz uso do que específica a Legislação. Para total
caracterização do modelo acadêmico, deveríamos saber como será a
administração, a gestão das Disciplinas e das atividades, o modelo de ensino e
aprendizagem que serão oferecidos nas Modalidades EaD e Presencial.

Como se articulam os diferentes atores nesse contexto?

Consideremos outro Modelo Acadêmico “fictício”: uma Instituição tem os


Cursos e Programas no formato tradicional em termos de Disciplinas, 20% de
componentes EaD, os Cursos de Graduação têm eixo comum no primeiro ano.

A Instituição tem por objetivo estimular competências relacionadas à resolução


de problemas e ao trabalho colaborativo. Trata-se de outro Modelo Acadêmico
utilizado em algumas Instituições brasileiras, inclusive Instituições públicas.
Na Figura 5, apresentamos os principais fatores que impactam o Modelo Acadêmico

Institucional.

O “Modelo de Negócios” da Instituição diz como se relaciona com seus elementos

internos, externos e atores constituintes: professores, funcionários e alunos.

Com a expansão do Ensino Superior no Brasil, tem emergido grupos educacionais com

Sistemas de Ensino que caracterizam um modelo acadêmico bastante distinto e

específico.

Por outro lado, há grandes grupos educacionais que ainda não possuem um modelo

acadêmico definido, mas que se adequam aos demais elementos “impactantes” do

Modelo Acadêmico (Figura 5), de acordo com as necessidades do Mercado e da

Legislação.
O “modelo de negócios” é especialmente importante para Grupos Educacionais e
grandes Instituições de Ensino Superior privadas, em especial, aquelas que atuam nas
Modalidades Presencial e a Distância, cuja complexidade necessita de um modelo de
negócios adequado para geração de valor.

O fator “Modalidade”, apresentado na Figura 5, diz respeito à atuação da IES ou do


Grupo Educacional no âmbito da Modalidade Presencial ou da Modalidade a Distância.

A Modalidade a Distância traz maior complexidade à gestão institucional desde a


constituição de unidade acadêmico-administrativa para atuar na EaD, como ações
comerciais e marketing, que tomam a dimensão do número de polos da Instituição.

Desse modo, o fator “Modalidade” necessita de um Modelo Acadêmico ajustado a essa


atuação, que considere novos atores na governança institucional e novos atores (tutores,
designers, designers instrucionais, conteudistas, revisores, diretores e assistentes para
produção audiovisual, entre outros).

A Modalidade a Distância está, ainda, intimamente associada ao uso das tecnologias


digitais. Desse modo, o fator “Mudança Tecnológica”, também apresentado na Figura 5,
afeta diretamente o Modelo Acadêmico de Instituições que atuam nessa modalidade.

O “Mercado” também é um fator impulsionador importante da mudança do Modelo


Acadêmico (Figura 5). Um exemplo atual, entre outros que poderíamos citar, diz
respeito ao papel da IES na empregabilidade do estudante.

A empregabilidade, até bem pouco tempo, era considerada competência exclusiva do


aluno, que seria naturalmente obtida com a conclusão do Curso Superior (Diploma).

Hoje, as Instituições, por razões que vão desde a possibilidade de redução da evasão até
o quanto realmente proporcionar a preparação do estudante para o Mercado de trabalho.

Assim, iniciam uma atuação mais direta na empregabilidade de seus estudantes, seja
com parcerias, estímulo aos estágios e portais de integração entre
Instituição/aluno/empresa, seja com Programas específicos nessa direção.
A atuação nesse segmento necessita de uma reorganização do Modelo Acadêmico da
Instituição. Como um exemplo nessa direção, temos o renomado Instituto Tecnológico
de Monterrey (Tec de Monterrey), IES do México, que possui como parte do seu
modelo acadêmico a presença do que eles chamam de “sócio formador”, que
corresponde à empresa que, No Modelo Acadêmico daquela Instituição, participa da
formação do estudante, integrando a IES ao Mercado de trabalho e promovendo
empregabilidade

A “Legislação”, na Figura 5, está relacionada aos marcos regulatórios


educacionais, que têm mudado sobremaneira.

As alterações na Legislação Educacional têm sido estruturantes. Podemos citar as


Resoluções e Portarias aprovadas no final de 2018: a Resolução CNE/CES n. 7
(BRASIL, 2018a) estabelece que os Cursos de Graduação devem ter 10% de sua
carga horária em atividades de Extensão; a Resolução CAPES n. 275 (BRASIL,
2018b), estabelece regras gerais para programas Stricto Sensu na Modalidade a
Distância, e Portaria MEC n. 1428 (BRASIL, 2018c) estabelece a possibilidade
de uso de até 40% da carga horária de Cursos de Graduação, excetuando-se os
Cursos na Área de Saúde e Engenharias, na Modalidade a Distância.

Para se adequarem ou aproveitarem as aberturas possibilitadas pela Legislação,


as IES precisarão adequar seu Modelo Acadêmico.

Damos destaque, também, na Figura 5, às “mudanças tecnológicas” como fator


impactante no Modelo Acadêmico.

Todos, ou quase todos, já ouviram falar dos casos da Kodak, da Xerox e da


Blockbuster. Essas Empresas tiveram dificuldades de se adequar a tecnologias
emergentes e se extinguiram.

Um fenômeno que atinge as Empresas na atualidade e também as IES é a


transformação digital. As IES precisam ter um planejamento para a sua
transformação digital, que não significa que a Instituição irá se virtualizar por
completo, mais sim a digitalização dos seus processos e serviços: parte do
atendimento ao aluno, processos acadêmico-administrativos e atividades de
ensino e aprendizagem, entre outros.

As IES necessitam estar atentas, também, para utilizar os recursos tecnológicos


para suas finalidades de negócio e de ensino e aprendizagem.

Modelo Pedagógico
Se o Modelo Acadêmico é algo mais abrangente que se aplica, em geral, à
Instituição inteira e envolve aspectos internos e externos a Instituição, o Modelo
Pedagógico, numa IES, pode ter diretrizes gerais, mas pode ser variado na
mesma Instituição.

Para facilitar o entendimento, vamos dar um exemplo bastante comum: considere


uma IES de Cursos tradicionais, de qualquer Organização acadêmica, que ofereça
um Curso de Medicina usando PBL (Problem Based Learning), por exemplo.

Nesse caso, há pelo menos dois modelos pedagógicos na IES, o tradicional e o


PBL. Nas Instituições menores, observamos uma pluralidade de modelos
pedagógicos que são implantados por Coordenadores de Cursos e seu corpo
docente.

Nas Instituições maiores, já se observam Modelos Pedagógicos mais gerais,


aplicados a grupos de Cursos. Nos grandes Grupos Educacionais, em geral,
temos, também, Modelos Pedagógicos mais homogêneos.
Um Modelo Pedagógico pode, então, ser conceituado como a visão, a articulação e a

dinâmica que a IES dá ao seu Currículo, a seus professores, a seus alunos e à Sociedade

(mundo do trabalho) para atingir os objetivos do Curso, aliados aos institucionais

estabelecidos no PDI e que se referencia no Modelo Acadêmico Institucional.

A Figura 6 apresenta, de forma gráfica, o relacionamento entre o Modelo Acadêmico e

o Modelo Pedagógico para um melhor entendimento das concepções aqui apresentadas.

Qual a importância do Modelo Pedagógico para a gestão?

Consideramos que a concepção do Modelo Pedagógico da Instituição, do Curso ou por


área é um fator de diferenciação de formação dos estudantes e também uma
diferenciação de Mercado.

O limite da concepção dos Modelos Pedagógicos é a criatividade. Atualmente, a


Legislação, como vimos, permite muita flexibilidade com relação aos Cursos
tradicionais presenciais, por exemplo. Além disso, emergem tendências no uso de
metodologias ativas, sala de aula invertida, cursos híbridos e educação por
competências, entre outros.

A Gestão da Educação Superior deve considerar a organização de modelos pedagógicos


que favoreçam a formação do profissional e do cidadão preparado para atuar no século
XXI por meio de diversas carreiras e funções durante a vida ativa.

Os jovens de 18 a 24 anos que ingressam nos Cursos Superiores se decepcionam


rapidamente com um modelo tradicional de Educação, elevando a evasão dos Cursos.
Inovações no Modelo
Acadêmico e no Modelo
Pedagógico
Tem havido um grande movimento no Brasil e fora do Brasil na direção de inovações
que promovam alteração dos Modelos Acadêmicos e Pedagógicos das Instituições.

Nos Estados Unidos, por exemplo, houve proliferação dos Centros de Ensino,
Aprendizado e Tecnologia (Teaching, Learning and Technologies Centers) que pode ser
constatada direta e rapidamente com uma pesquisa em sites de busca.

No Brasil, tem havido iniciativas isoladas das Instituições, e outras em forma de


Consórcio como, por exemplo, o STHEM Brasil – Consórcio de IES
(ver www.sthem.org.br) com o objetivo de promover inovações acadêmicas, que têm
sido muito exitosas em suas ações, abrangendo Instituições de pequeno e médio porte.

Os próprios Instrumentos de Avaliação do INEP/MEC de 2017 trazem o termo “práticas


exitosas ou inovadoras” em diversos dos indicadores de avaliação.

Segundo esse documento, as “práticas exitosas ou inovadoras” podem ser assim


qualificadas:
São aquelas que a IES/Curso encontrou para instituir uma ação de
acordo com as necessidades da sua comunidade acadêmica, seu PDI e
seu PPC, tendo como consequência o êxito do objetivo desejado. Podem
ser também inovadoras quando se constatar que são raras na região, no
contexto educacional ou no âmbito do curso. Para isso, o Curso ou a IES
podem se valer de recursos de ponta, criativos, adequados ou pertinentes
ao que se deseja alcançar (BRASIL, 2017).

Entendemos que a criação de um “Núcleo de Inovação Acadêmica” é um dos fatores


diferenciais para Instituições que desejam promover a inovação de forma continuada,
colegiada e com ações que envolvam a comunidade em Projetos Pilotos bem definidos.

Esses Projetos Pilotos poderão ser generalizados a partir de uma avaliação inicial dos
resultados.

A existência do “Núcleo de Inovação” e os registros de suas atividades podem compor o


que se consideram práticas “exitosas ou inovadoras”, presentes nos atuais instrumentos.

Material Complementar
Para aprofundar seus conhecimentos, sugerimos:
Las Empresas Gigantes Que Se Fueron a La Quiebra. Esse vídeo apresenta,
rapidamente, os vários casos de insucesso, tais como o da Kodak, o da
Blockbuster e outros;

MATTASOGLIO NETO, O. M.; SOSTER, T. S. Inovação Acadêmica e


Aprendizagem Ativa. 2017. Trata-se de livro que apresenta diversas inovações
em diferentes Instituições brasileiras; Disponível em Amazon.com.
MASETTO, Marcos Tarciso. Inovação curricular no ensino superior. Revista
e-curriculum, v. 7, n. 2, 2011. Nesse artigo, o professor Masetto apresenta vários
casos de inovação no Ensino Superior.
Disponível em: https://goo.gl/xiWNki

Referências
BRASIL. Portaria MEC nº 1.383, de 31 de outubro de 2017, Aprova, em
extrato, os indicadores do Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação
para os atos de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento nas
modalidades presencial e a distância do Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Superior – Sinaes. Brasília/DF: 01.11.2017.

______. Censo da Educação Superior: notas estatísticas 2017, 2018.


Disponível em:
<http://download.inep.gov.br/educacao_superior/censo_superior/documentos/201
8/censo_da_educacao_superior_2017-notas_estatisticas2.pdf>.

______. Resolução CNE/CES n. 7. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na


Educação Superior Brasileira e regimenta o disposto na Meta 12.7 da Lei nº
13.005/2014, que aprova o Plano Nacional de Educação – PNE 2014-2024 e dá
outras providências. Brasília/DF: 19.12. 2018(a).

______. Portaria CAPES nº 275. Dispõe sobre os programas de pós-graduação


stricto sensu na modalidade a distância. Brasília/DF: 20.12.2018(b).

______. Portaria MEC nº 1.428. Dispõe sobre a oferta, por Instituições de


Educação Superior – IES, de disciplinas na modalidade a distância em cursos de
graduação presencial. Brasília/DF: 31.12. 2018(c).