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Resumo de Geografia Aluno 2012 Valeiko

Neste resumo, falar-se-á da trajetória histórica e política do Japão para melhor compreensão do que ocorreu
neste país e na Ásia após a Segunda Guerra Mundial.

 O Japão do passado
Referindo-se ao período áureo do Império Japonês, antes de sucumbir ao poderio norte-americano, autores
se perguntam quando o país irá “voltar ao normal” – recuperar
integralmente sua soberania. Há muito tempo o Japão também
não era soberano, composto por numerosos territórios
pequenos e autônomos – os daimiôs. Era a época dos
Xogunatos, o feudalismo japonês, quando o Imperador era uma
figura sem poder real, servindo na maioria das vezes como
fantoche de Xoguns (grandes senhores de terra) mais
poderosos. Perdurou desde fins do século XII até 1867, quando
o último Xogum cedeu sua autonomia ao Imperador,
centralizando definitivamente o poder. Até esse momento, o
Japão era um arquipélago isolado no norte do Oceano Pacífico,
que tivera contato primeiro com os portugueses (ainda no século A descentralização política no Japão durante o
XVI), e depois com holandeses e outros povos e nações Xogunato Tokugawa (1600-1868).
ocidentais. Os japoneses se recusavam a aderir à modernização
europeia e não foram conquistados por país algum (política isolacionista).
Entretanto, com o alvorecer da Segunda Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX, isso
começou a mudar. A industrialização e as novas
tecnologias aumentavam cada vez mais a discrepância de
poder bélico, econômico e político entre as potências do
Ocidente e os países asiáticos – entre eles, o Japão, que 122.º Imperador do Japão
vivia um processo de centralização política nas mãos do
Imperador. Além disso, o Imperialismo e o Nacionalismo
ascendiam no cenário internacional, fomentando a
procura de novos mercados consumidores e matérias-
primas pelas grandes potências. Os japoneses nunca
estiveram tão fragilizados e enfraquecidos frente a um
inimigo externo como nesse período, sofrendo grandes
riscos de invasão – o Estados Unidos chegou a destruir
alguns navios japoneses nos portos do país para obrigá-lo
a abri-los ao comércio internacional.
Como já dito anteriormente, em 1867 o poder foi
definitivamente centralizado no Japão. No mesmo ano,
assumia o trono o Imperador Mutsuhito, para inaugurar
uma nova era no seu país, considerada a mais gloriosa
Imperador Meiji
pelos japoneses. A Era Meiji (1867-1912) ocorreu durante
o reinado desse imperador, sendo marcada pela mudança
quase total do país: de sociedade agrária, quase feudal, - o governante priorizou a modernização e
fortalecimento político, militar e econômico do país (para que pudesse fazer frente às potências europeias) – o
Japão se tornou uma grande potência industrial, que, devido também à escassez de recursos no seu próprio
território, criou um vasto império sobre o Pacífico, chegando às portas da Austrália e tendo adotado as ideias
imperialistas e nacionalistas.
Resumo de Geografia Aluno 2012 Valeiko
No alvorecer do século XX, porém, o imperador se apoiava tanto nos militares e era tão assessorado por eles
que o nacionalismo expansionista do país ganhou proporções imensas. Foi nessa época que o Japão invadiu a
Manchúria chinesa, lugar dotado de grandes reservas de recursos minerais. O Império Russo, entretanto,
também tinha interesses na região, o que fez estourar a Guerra Russo-Japonesa de 1905. Contra todas a
expectativas, a marinha japonesa derrotou catastroficamente duas armadas russas, o exército japonês venceu
os russos em terra e o Japão venceu a guerra – um país oriental, pela primeira vez na história, havia derrotado
uma grande potência europeia. Foi um desastre para os russos (que
ficaram humilhados), considerando-se que foi até uma das causas da
Revolução de 1917, e uma vitória tremenda para os japoneses, que
agora se pensavam invencíveis e superiores ao ocidente. Vale
ressaltar que durante a conquista do Pacífico a qual se seguiu, os
japoneses realizaram memoráveis atrocidades, nunca esquecidas
pelos povos conquistados no pós-Segunda Guerra Mundial. Enquanto
na União Europeia – talvez pela proximidade cultural – as desavenças
foram esquecidas e perdoadas, na Ásia existe até hoje receio e temor
em relação aos japoneses. Por fim, quando o Japão foi finalmente
derrotado em 1945, o EUA interferiu na educação do país, procurando
apagar a glória da sua história e os ideais nacionalistas nela contidos, O Almirante Togo no encouraçado Mikasa,
além de enfatizar os crimes de guerra japoneses em detrimento de antes da batalha de Tsushima.
seus próprios. Assim facilitou a cooperação entre ambos, após a
criação do Plano Colombo, contra o novo inimigo soviético.

 O Japão do pós-Segunda Guerra Mundial


Com o fim da guerra, em 1945, o país estava devastado. A infraestrutura destruída. O governo sujeito a
pagar grandes indenizações aos aliados triunfantes. Cerca de seis milhões de japoneses foram repatriados das
colônias do Pacífico perdidas (obrigados a voltar à pátria) – a maioria desempregados e pobres. Os Zaibatsus
(grupos industriais e financeiros) foram dissolvidos. Aas forças armadas eram reduzidas a um mecanismo de
autodefesa. E os japoneses sofriam um processo de democratização sob influência americana.
O Japão seria levantado dessas ruinas para, algumas décadas depois, ameaçar de uma nova forma a
hegemonia estadunidense. Os norte-americanos, logo que obtiveram a capitulação do país na guerra, já
exigiram a tomada de certas medidas para eliminar o que consideravam as principais causas do expansionismo
militar japonês: determinaram novas diretrizes para o projeto
nacionalista japonês, vinculando-o ao modelo desenvolvimentista – que
concentrava os esforços do país no aprimoramento tecnológico,
econômico e social – e desarticularam os Zaibatsus, conglomerados
empresariais de grande tamanho e poder na economia japonesa surgidos
durante a Era Meiji, os quais detinham grande poder e influência sobre o
governo junto aos militares (obtendo dele vantagens e favores, além do
Estado ter transferido muitos setores importantes da economia para estes
grupos). Por essa razão, eram considerados o motivo econômico do
expansionismo militar japonês – acusados de persuadir o governo a
invadir territórios dotados de recursos naturais necessários à indústria, de
produzir e investir em armamentos e de financiar guerras de expansão –
e o EUA, além de procurar afastar o viés militar do governo japonês, tratou
logo de dissolver os Zaibatsus, financiadores de guerras. São os principais O Imperador e o general americano
Douglas MacArthur, após a rendição.
exemplos desses conglomerados a Mitsubishi, a Mitsui, a Sumitomo e a
Yasuda.
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Para substituir os Zaibatsus, o uso universal no Japão de uma nova estrutura produtiva foi promovido: os
Keiretsu – sucessores legítimos dos Zaibatsus – que se caracterizam pela articulação em rede entre empresas
correlacionadas pelo que produzem, das quais se sobressai a empresa líder. Essa correlação é expressa pelo
uso, por parte do restante do grupo, dos produtos de determinada empresa do mesmo Keiretsu. A empresa
líder geralmente fabrica a mercadoria final e acaba utilizando todos os elementos anteriormente produzidos. A
partir dessa nova estrutura produtiva, também foi possível criar o sistema
Kanban, que se trata da produção de pequenos estoques (o que diminui os
custos de manutenção das mercadorias estocadas e, pela lei da oferta e da
procura, como haverá menos produtos disponíveis no mercado, o valor da
mercadoria tenderá a se manter o mesmo ou aumentar, evitando a
superprodução). Assim, os Keiretsu constituem um modelo muito
competitivo, menos custoso, mais produtivo e mais lucrativo. Foi também
graças a eles que ocorreu o milagre econômico japonês, que levou a nação a
ser, até 1990, a segunda maior economia do mundo.

 Anos 1990: a década perdida


Adotando inovações econômicas e o modelo desenvolvimentista – aos quais o povo japonês muito bem se
adaptou, por seguir a Ética Confuciana (moral e comportamento oriundos da filosofia confucionista, que
moldam a sociedade japonesa como rígida seguidora da disciplina, da hierarquia, e dos valores de família e
coletividade) – o Japão ascendeu no cenário internacional como grande potência econômica desde a década de
1950 até os anos 1980.
Entretanto, na década seguinte, uma crise a qual tem reflexos até hoje na economia japonesa se instalaria
no país. O motivo principal seria a supervalorização, que teve diversas causas e atingiu a maioria dos setores
econômicos. Uma das razões foi a Economia de Bolha, tendência econômica que provoca a elevação dos preços
de ativos (isto é, mercado de ações e imobiliário) – os ativos estavam supervalorizados, eram muito caros, seu
valor estava acima das especulações devido ao otimismo econômico e progresso japonês. A referência a uma
bolha ocorre devido ao crescimento sem parar da
economia, expresso pela valorização de ativos, que
não corresponde à busca pela compra dos mesmos. É
um valor imaginário, e assim ocorre a inflação: o valor
do ativo ou mercadoria é muito alto, mas não há
procura, então a moeda perde valor para compensar
os preços altos e acaba revelando o valor real do
produto. Para melhor compreensão, um exemplo:
certo dia, o governo estabelece o preço de uma laranja
como 50 reais. Mas uma laranja não vale 50 reais, e
ninguém compraria laranjas mais. Supondo que isso
não se limitasse à laranja, atingindo todo e qualquer
produto, 50 reais deixaria de ser um valor relevante – e a casa da moeda seria obrigada a produzir uma
quantidade maior de dinheiro para o bom funcionamento da economia. Essa perda de valor da moeda se chama
inflação.
Outra causa da crise por supervalorização foi o Efeito-Riqueza, que também promoveu o aumento do preço
de ativos: provocado pela liquidez em abundância (excesso de dinheiro fluindo no mercado), pelo consumismo
e pelo otimismo econômico, ele gerou um aumento na disposição do consumidor ou investidor de gastar seu
dinheiro (o que não significa que aumentou o poder de compra das pessoas, mas sim sua disposição em gastar
em vez de poupar). Assim, mesmo com valores imaginários não correspondentes à especulação, o consumo
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continuou a acontecer. Isso deve ter atrasado o início da crise – mas certamente tornou seus efeitos ainda mais
severos quando do “estouro da bolha”.
Sobre as causas institucionais, considera-se a desregulamentação financeira (permite ao investidor mudar
o seu capital para onde bem entender, se tratando de uma medida neoliberal), a desregulamentação do
mercado de terras (semelhante à desregulamentação financeira, mas referente ao mercado imobiliário), a
condução da política monetária (outras medidas neoliberais) e o Acordo de Plaza como principais responsáveis
pela situação vivida pelo Japão durante a crise. Merece maiores
explicações o Acordo de Plaza: uma conferência realizada em
1985 no hotel Plaza (Nova Iorque), entre as cinco maiores
economias do mundo – EUA, Japão, Reino Unido, França e
Alemanha Ocidental. Durante a reunião, foi discutida a questão
financeira internacional, e o EUA propôs a desvalorização do
dólar frente à valorização do Euro e do Iene japonês. Isso acabou
fazendo com que o poder de compra no mercado interno
(nacional) japonês aumentasse, mas, simultaneamente, em Acordo de Plaza.
razão de desvantagens na conversão de moedas mais valorizadas
para menos valorizadas com a chegada de um produto em um
país, o lucro japonês com as exportações diminuiu, tornando as mercadorias japonesas menos competitivas.
Quando a situação econômica se tornou insustentável, com brusca redução nas compras e investimentos, e
consequente “estouro” da economia de bolha, o risco de inadimplência devido à repentina queda no preço dos
ativos e a deterioração crescente da situação patrimonial dos bancos demandaram imediata e forte
intervenção estatal na economia. E assim o Japão acabaria perdendo seu fabuloso crescimento no pós-guerra.