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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Atração Secreta
Grace Green
(Secret Courtship)

Amor ou
interesse?

Nick
Diamond estava
acostumado a
sempre
conseguir o que
desejava. E ele
desejava
comprar o chalé
de Laura a
qualquer preço.
Porém, de
repente, passou
a desejar muito
mais a dona do
chalé!
Laura sabia que Nick a estava cortejando simplesmente porque
queria convencê-la a vender sua propriedade. Mas como ficar
imune àqueles olhos sedutores e àquela boca que prometia deixar o
verão ainda mais quente?
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Digitalização: Poly
Revisão: Cynthia M.

Copyright © by Grace Green


Originalmente publicado em pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob
qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Mills & Boon Ltd.
Esta edição é publicada por acordo com a Mills & Boon Ltd.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
Título original: Secret Courtship
Tradução: Maurício Rittner
EDITORA NOVA CULTURAL uma divisão do Círculo do Livro Ltda.. Alameda Ministro
Rocha Azevedo, - li andar CEP: - - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: CÍRCULO DO LIVRO LTDA.
Fotocomposição: Círculo do Livro Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

CAPÍTULO I

Infelizmente, essa decisão é definitiva. Nicholas Diamond mergulhou os dedos nos


cabelos negros e ondulados. Era um péssimo começo de semana. Acabava de ouvir algo
que prejudicava irremediavelmente seu novo projeto imobiliário.
Ele estava de pé, junto à parede que delimitava o escritório de advocacia Farr, Ricci e
Greg, no andar de cobertura de uma moderna torre em Vancouver, Canadá. A sala dava
vista para uma marina e, naquela manhã de primavera, a brisa produzia suaves ondas
que faziam os veleiros balançar como lençóis brancos num varal.
Nick não estava interessado na paisagem. Com os olhos nublados, encarou a pessoa
que, de sua cadeira giratória, atrás de uma mesa de madeira maciça, acabara de lhe dar
a notícia responsável pelo súbito aumento de adrenalina em seu sangue.
— Então — disse Nick, em tom contrariado —, a prefeitura resolveu não prolongar a
estrada de acesso a Juniper Ridge.
— É um desastre — foi à calma resposta. — Mas, afinal, não totalmente inesperado.
Quando você comprou a área junto ao bosque, pensando em loteá-la, a extensão da
estrada era só um boato. Você acreditou...
— Sim, arrisquei, mas estava certo de ganhar. Perdi, e agora só me resta um
caminho para o loteamento.
— O caminho que passa pelo chalé Roseira Silvestre? Cruzando o terreno de Charity
Brown? Bem, podemos tentar de novo. Mas lembre-se de que o advogado da herdeira
nos avisou que ela não venderia de modo algum.
— Ela cederá... se o preço for justo. Além de ser egoísta e não ligar para a tia, nem
quando estava morrendo, acho que é bastante ambiciosa. Está só procurando aumentar o
preço, e duvido que interesse ao menos em conhecer a propriedade.
Nick remexeu nervosamente no bolso da calça em busca das chaves do seu Porsche.
— Bem, agora que temos uma posição da prefeitura, não posso ficar sentado. Faça
um novo contato com o advogado da herdeira. Confirme que quero comprar.
— Até que quantia posso chegar? Nick se voltou e disse, com voz áspera:
— Quanto for necessário. Preciso daquela terra. Sem ela, o projeto do Parque
Diamond estará liquidado.
Laura Grant não acreditou no que viu pela janela do táxi quando o motorista
desacelerou e começou a estacionar.
— Deve haver algum engano. Eu pedi avenida Juniper.
— É aqui mesmo — disse o motorista, parando ao lado de uma via larga e
pavimentada.
Não pode ser, pensou Laura, sentindo-se confusa.
O motorista estacionou ao lado de uma placa que confirmava não haver engano
nenhum. Laura esforçou-se para controlar seu desapontamento. Lá estava ela, no lugar
que nos últimos e infelizes anos havia suspirado por rever, mas tudo parecia muito
diferente, impossível de se reconhecer.
— Pare — a voz saiu trêmula. — Por favor.
O motorista freou o veículo no acostamento, enquanto Laura olhava a fileira de casas
grandes, mas impessoais, que se sucediam nas suaves encostas da colina de Juniper
Ridge.

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—Prefere caminhar o resto do trajeto, moça?


— Espere um momento.
A atenção de Laura foi atraída por uma placa branca pintada com letras vermelhas,
onde leu: "Parque Diamond. Imóveis de luxo. Breve, fase final de vendas".
Incrédula, inclinou-se no banco para pegar sua mochila de náilon e confirmou ao
taxista:
— Sim. Vou caminhar.
Abrindo a porta do carro, Laura ganhou a calçada e deu a volta pela frente do táxi, até
ficar do lado do motorista, a quem entregou algumas notas, dispensando o troco.
— Obrigado — disse o homem, colocando a cabeça para fora de sua janela. — E
verdade o que contou? Que há treze anos não visita Juniper Ridge? Não admira que não
tenha reconhecido o lugar. A maioria dos chalés foi derrubada e substituída por essas
mansões para ricos e famosos.
Estreitando os olhos sob o sol da tarde, ao olhar para cima em busca do rosto da
passageira, o motorista de táxi complementou:
— É uma vergonha. Todas aquelas árvores antigas no chão, só para Nick Diamond
lotear a área. Pelo que sei, ele vendeu a alma por dinheiro. E ainda não acabou o
trabalho!
Com um aperto no coração, Laura sentiu que desprezava aquele homem, Nick
Diamond, mesmo sem conhecê-lo nem ter ouvido falar dele até um instante atrás.
Colocou a alça da mochila sobre o ombro e, depois de ficar parada um longo momento,
iniciou sua caminhada pela avenida, enquanto o táxi se afastava.
Nada do que viu ajudou a ordenar seus pensamentos ou a aliviar o desgosto. As
construções ocupavam ambos os lados da rua. Eram palacetes de cores suaves, a
maioria com garagens para quatro ou cinco automóveis. O resto de cada terreno era
tomado não por gramados, mas por estranhos arbustos, trilhas de piso cerâmico, fontes
ornamentais, pátios elegantes e piscinas olímpicas. Nas entradas para carros podia-se
ver uma abundância de BMW, Mercedes-Benz e Ferrari.
Nenhuma alma viva à vista. Laura não notou crianças brincando nos jardins, nem
casais idosos passeando com cachorros, nem jovens mães pendurando fraldas para
secar — de fato, não existiam varais de roupa, provavelmente proibidos naquele lugar.
A avenida era quieta e deserta como numa cidade-fantasma. E dificilmente se
enxergava uma árvore. As lembranças daquele verão que seu pai a deixara passar com
tia Charity voltaram-lhe à mente. Um único verão, e aquelas férias haviam marcado Laura
como um conto de fadas em um bosque encantado.
Ao menos ali não teria havido mudanças, consolou-se Laura, recordando a conversa
ao telefone que mantivera com o advogado sobre sua herança.
— O chalé Roseira Silvestre nunca foi reformado e, como sua tia passou os últimos
meses de vida no hospital, a conservação do lugar deve estar precária.
Laura sentira um certo remorso ao ser avisada da morte de sua única parente viva.
Achou que devia uma explicação ao advogado.
— Eu nunca soube que ela estava hospitalizada. Perdemos totalmente o contato. Ela
e meu pai brigaram, romperam relações, e eu fui proibida de escrever-lhe. Depois me
casei e meu marido...
Interrompera bruscamente o diálogo, evitando expor àquele estranho a situação entre

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ela e o ex-marido, Jason Thorne. Não queria que ninguém tivesse acesso a seus mais
íntimos segredos.
Lembrou-se ainda do conselho do advogado quanto a pôr o chalé à venda, pois o
terreno, e não a construção em si, é que tinha valor. "A localização é ótima", afirmara.
Bem, a localização podia ser ótima, mas não havia como pensar em vender a
propriedade. Laura Grant não apenas queria manter o chalé como precisava dele. Para
morar lá.
De repente, surgindo do nada, um caminhão dobrou a esquina mais próxima. Em
questão de segundos, o enorme veículo cresceu em frente a Laura, como um monstro
verde-alaranjado saído das páginas de um livro de terror.
Ela gelou ao ouvir o som agudo dos freios a vácuo e tombou para a calçada à sua
direita. A pesada mochila, balançando no ar, parecia puxá-la para o chão, onde caiu de
joelhos. Seu rosto chegou a tocar o pavimento de pedras, e Laura imediatamente
procurou recuperar o equilíbrio e sentar-se. Teve mais medo do ridículo da situação do
que de ter-se ferido com seriedade.
Laura ouviu o som da porta do caminhão abrindo e fechando com uma batida forte, e
em seguida percebeu os passos de alguém que calçava botas vindo em sua direção.
Logo uma irritada voz masculina chegou aos seus ouvidos:
— Que diabo você estava fazendo no meio da rua? Quer se matar?
Laura sabia que agira errado e se preparava para pedir desculpas, mas o tom de voz
daquele estranho lhe trouxe lembranças amargas, lembranças de outra voz envolta em ira
e que a magoava. Desistiu das desculpas e, ignorando a dor nos joelhos, recolheu a
mochila com a intenção de levantar-se. Então, ao olhar para cima e notar o motorista pela
primeira vez, sentiu um arrepio inexplicável, seguido de um movimento interior de defesa
e autoproteção.
Aquele homem era demais, em todos os detalhes. Alto, bronzeado, atraente, sensual.
Um perigo vivo! E empoeirado, suado, barba por fazer.
Para acalmar-se, Laura tomou fôlego sorvendo o ar profundamente, mas isso não
adiantou. O estranho irradiava uma atração poderosa por meio de sua simples postura
corporal: pernas afastadas uma da outra, punhos descansando ao lado do quadril firme,
um leve balanço no andar que transmitia uma sensualidade irresistível.
As roupas que usava, ela notou de relance, eram exatamente o que se esperaria de
um homem assim: camisa caqui manchada, jeans surrado que marcava o contorno das
pernas, cinturão de couro com fivela oval, grande e prateada.
Laura engoliu em seco e desviou o olhar para uma direção mais segura, não sem
antes notar os cabelos negros e fartos, a pele bronzeada, o nariz fino, o maxilar forte, o
queixo bem torneado, os ombros largos e, por fim, a boca bem desenhada com lábios
grossos, feitos para beijar... Mas ela não tinha dúvidas, beijar era a última coisa que
passaria pela cabeça do homem naquele momento.
Todo esse detalhado exame da pessoa à sua frente terminou com uma ponta de
irritação. Ele usava óculos de armação de metal, com lentes escuras e espelhadas, e não
dava sinal de que iria tirá-los. Por acaso, não sabia que era falta de educação conversar
com alguém escondendo os olhos?
— Você não acha — ela começou, tentando adivinhar o olhar do homem atrás das
lentes espelhadas — que estava correndo um pouco demais?

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Não tinha percebido, até ali, como a tarde estava quente, suarenta. Sentiu um pingo
de suor deslizando pelas costas, debaixo de sua camiseta branca, percorrendo cada
músculo até parar na cintura do jeans que usava. Confirmou, com um rápido olhar, que o
homem também suava acima dos lábios e das sobrancelhas, mas o estremecimento que
sentiu não se devia às gotas de suor, e sim àquela presença marcante, que enchia o ar
com mensagens de desejo e sedução.
A reação seguinte de Laura foi suprimir essas mensagens de sua mente. E daí que
ele fosse devastadoramente atraente? Seu ex-marido Jason também tinha sido, e no
entanto...
— Senhorita — o motorista falou com voz exasperada — a rua é para veículos, a
calçada é para pedestres. Se eu estivesse dirigindo meu caminhão pela calçada, vá lá...
Era difícil para Laura prestar atenção no que ele dizia. Ao falar, havia se aproximado
dela, fazendo-a sentir um leve aroma de suor, misturado a algo indefinível, perturbador e
viril, algo tão poderoso como um soco no peito. Percebeu que sua irritação vinha do fato
de ele ser diferente dos homens com quem estava acostumada a lidar: mais rústico, mais
forte, mais sensual.
De pé, já recomposta, Laura ergueu orgulhosamente a cabeça e caminhou em
passos firmes na direção do veículo. Mostrou uma expressão severa ao dizer:
— Seria mais simples você ter brecado o caminhão ali na frente e voltado para pedir
desculpas. Desse jeito, só me resta dar queixa ao dono da firma, seja ele quem for...
Interrompeu sua fala de forma abrupta ao ver o nome estampado na porta do veículo:
"Incorporadora Diamond. Nicholas Diamond, Construtor. Satisfação garantida".
Laura nada fez para esconder sua surpresa e contrariedade. O vôo de cinco horas,
procedente de Toronto, não lhe causara nenhuma fadiga, mas agora começava a sentir
cansaço nas pernas, a boca seca, as costas doendo. Tinha vindo de longe, em busca de
paz para curar suas feridas, e estava muito perto do aconchego de Roseira Silvestre. O
único obstáculo em seu caminho era aquele mal-educado motorista.
— Esqueça. Alguém como Nicholas Diamond certamente não vai se importar se um
de seus empregados dirigir como um louco.
O motorista ergueu a sobrancelha, espantado, e abriu a boca para responder, mas
ela não lhe deu a mínima chance.
— Na verdade, sabendo o que eu sei dessa pessoa, talvez você receba um prêmio
por ser tão rápido no trabalho. Vou ficar atenta e, se o pegar dirigindo perigosamente de
novo, chamo a polícia. Adeus, senhor...
— Diamond — ele completou com um sorriso, cortando o discurso exaltado de Laura
e tirando os óculos para revelar seus bonitos olhos cinzentos, duros como aço. —
Nicholas Diamond, mas os amigos me chamam de Nick.
Laura deixou seus lábios se abrirem, numa reação d espanto, a tensão tomando
conta de todo o seu rosto, enquanto o homem caminhava firme de volta ao caminhão. A
camisa caqui se apertava contra os músculos dos ombros e a calça jeans desenhava os
contornos de suas nádegas e pernas.
A distância, Laura ouviu Nick rogar uma praga, antes de fazer as rodas do veículo
gemerem ao ganhar movimento. Permaneceu ali por alguns minutos, saboreando os
últimos eflúvios da sensualidade que pairava no ar.
Roseira Silvestre estava exatamente como Laura se recordava do lugar. O jardim

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precisava de uma boa poda, as portas e janelas brancas do chalé pediam uma demão de
tinta, e quando ela abriu o portão de madeira um dos pinos da dobradiça, coberta de
ferrugem, caiu com ruído semelhante ao de um soluço.
Mas, ao avançar lentamente pela trilha pavimentada de tijolos e aproximar-se da
casa, quase pôde ouvir tia Charity chamando-a para lavar as mãos e tomar sorvete,
naquele distante e inesquecível verão.
Charity Brown nunca se casara, tendo trabalhado como professora por anos antes de
se aposentar. Ela entendia e gostava de crianças. Estas a haviam amado, assim como
Laura amara a tia. Agora, ao contemplar o teto castigado pelo tempo e sentir o aroma das
rosas do jardim, teve uma profunda e repousante sensação de volta ao lar.
Permanecia um pouco da tensão produzida pelo confronto com Nicholas Diamond,
especialmente no momento da partida. Quando ele contou quem era, olhando-a friamente
do modo como olhou, tão arrogante, tão superior, ela quis revidar à altura. Não conseguiu
e sentiu-se infeliz, mas com um pouco de sorte nunca mais teria de encarar Nick. E,
embora ele tivesse arruinado Juniper Ridge com seu loteamento, Roseira Silvestre estava
bem firme onde sempre estivera. Apenas...
Ela estacou, preocupada. Embora a cerca de madeira ainda limitasse a frente do
terreno, a cerca de sebes que dividia o pátio dos fundos fora substituída por um alto muro
de pedra pintada de creme, a mesma das paredes da mansão que se erguia atrás dele.
Laura ergueu o olhar e decepcionou-se: o segundo andar da casa possuía amplas
janelas, todas voltadas para o seu pátio.
Girando o corpo, olhou para a direita e respirou aliviada ao constatar que, daquele
lado, o bosque permanecia intacto.
Nenhuma construção agredia a paisagem, nem havia janelas que invadissem sua
privacidade. Abetos e pinheiros se mantinham retos e altos, florescendo ao ar suave
daquela colina à beira do Pacífico.
Graças a Deus por isso. O novo complexo imobiliário cobria quase toda a encosta
montanhosa em volta de Latara, mas pelo menos a leste ainda sobrevivia a mata nativa, o
tranqüilo santuário verde onde ela pretendia recuperar-se para a vida.
Vir morar ali tornara-se uma idéia fixa desde o falecimento de Jason Thorne, num
enfarte fulminante, e o dia desse recomeço fora esperado com muita ansiedade.
Ainda bem que o bosque estava inteiro, pois já existiam muitas outras mudanças, e
essas Laura pretendia ignorar. Assim como havia ignorado o conselho do advogado para
vender a propriedade. Segundo ele, um cliente estaria disposto a pagar muito acima do
valor normal, e com o dinheiro ela poderia comprar uma confortável casa na melhor área
da cidade.
"Já tenho uma confortável casa na melhor área da cidade", havia pensado Laura ao
negar-se a qualquer acordo. Agora, ao girar a chave da porta e entrar, ela sentia o
coração acelerado, tamanha a sua expectativa.
A primeira coisa que notou foi que o interior do chalé ainda era tão luminoso e
aconchegante como nos velhos tempos. O corredor que ligava a sala à cozinha da casa
terminava em um quarto de leitura, com biblioteca e uma meia parede de vidraças dando
para o pátio dos fundos.
Outro detalhe que percebeu foi o cheiro, não de mofo como esperava, mas um aroma
seco de cedro, pinho e alfazema. Um cheiro nostálgico, que a invadiu trazendo uma

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preguiça agradável.
A primeira coisa a fazer, decidiu, seria abrir algumas janelas.
Logo depois, entretanto, parou no meio da sala e foi tomada por recordações que lhe
chegavam com força, tanta força que suas pernas fraquejaram. Recostou-se no sofá mais
próximo, com lágrimas nos olhos. Era tudo tão bonito, tão perfeito...
Raios de sol atravessavam as vidraças, matizando as paredes claras com diversos
tons de dourado. Partículas de poeira dançavam no ar e se depositavam nos móveis, mas
Laura nem as notava. O que absorvia sua atenção naquele instante eram os sofás e
poltronas revestidos de veludo, os lindos abajures com cúpulas franjadas, os porta-
retratos de prata, as estantes de nogueira, a cadeira de balanço com suas almofadas cor-
de-rosa.
Um pouco além, do lado de fora, o jardim...
De pé novamente, Laura dirigiu-se à porta e, após breve luta com a fechadura,
conseguiu abri-la, ganhando o pátio de tijolinhos onde levantou o rosto na direção do sol e
respirou profundamente, vezes seguidas, sentindo o sal do ar.
Por tudo isso, tinha voltado. Por essa paz, esse isolamento, essa comunhão com a
natureza. Se havia um lugar no mundo capaz de curá-la, era aquele.
Com os olhos ainda marejados, percorreu o jardim e logo notou as rosas silvestres
amarelas, na roseira que dera nome ao lugar. Ouviu o som suave do riacho atrás da casa
e encantou-se com o relvado repleto de flores. As azaléias começavam a florescer, dando
um tom alegre ao pátio, mas pequenas trepadeiras e ervas daninhas estavam por toda
parte. Seria a primeira coisa a fazer no dia seguinte, se o tempo continuasse bom: podar
tudo, deixar tudo mais bonito.
Feliz com a idéia, Laura cruzou os braços em torno de si, apertou o próprio corpo com
alegria, e assim percebeu, com vaga surpresa, como havia ficado magra.
Cuidaria melhor de si agora, prometeu. O apetite voltaria, ela comeria melhor e mais
regularmente dali por diante. Essa simples constatação pareceu enchê-la de energia.
Andou em torno da casa, e seus passos eram tão leves que quase se transformaram em
dança. Tocava cada objeto familiar, sorria através das lágrimas.
Alguns minutos depois, ao desabar num sofá, viu que a energia tinha se esvaído.
Tirando as sandálias, acomodou-se e puxou a colcha de crochê que recobria o encosto
do móvel. Esticou-se ali, feliz e cansada.
Não conseguiria dormir. Estava muito excitada e sabia disso. Mas seria bom ficar
repousando um pouco e depois levantar-se, tirar alguns alimentos enlatados da mochila e
fazer um lanche.
Enquanto isso...

CAPÍTULO II

Nicholas Diamond ergueu os olhos da escrivaninha onde trabalhava dentro de casa.


Sua irmã Sally entrou na saleta, atando o cinto do robe em torno de sua barriga saliente
de grávida.
— Por Deus, Sally. — Ele consultou rapidamente o relógio. — Já passa da meia-
noite. Você não devia estar na cama?

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— Estava deitada. Acordei há pouco e levantei-me para ir ao banheiro. — Apertou o


lábio inferior com preocupação, sentindo-se observada por Nick.
— Aflita com a ausência de James? Foi por isso que insisti para você ficar aqui até
ele voltar. Sei como você é nervosa.
— Acho que há alguém na casa ao lado.
— Em Roseira Silvestre? Ladrão não pode ser. Não há nada de valor para roubar do
velho chalé.
— Bem, quando eu olhei pela janela do meu quarto, a lua saiu detrás das nuvens por
um instante e pude ver que as portas do pátio estavam abertas. Completamente abertas.
— Talvez um efeito de luz. — Nick tocou nos papéis cheios de números sobre sua
mesa e lembrou-se de que precisava terminar as contas antes de ir à firma de advocacia,
na manhã seguinte. — Acho que é melhor você se deitar e...
— Nick, se você tiver razão e não houver nada para roubar lá, será que o ladrão não
virá aqui? — Ela encarou o irmão significativamente.
Com um resmungo resignado, Nicholas afastou sua cadeira.
— Certo. James a deixou sob meus cuidados, então devo verificar o que está
havendo. Se eu não voltar em meia hora, chame a polícia. As crianças estão dormindo?
— Sim, profundamente. Felizes as criancinhas, que não prensam se preocupar com
assaltos e violência.
— Tudo bem, mas vá para o quarto. Como sabe, esta casa tem um perfeito sistema
de alarme, mas verei o que acontece, só para você ficar sossegada.
Passou o braço pelo ombro da irmã e conduziu-a escada acima.
Poucos minutos depois, Nick teve de admitir que Sally tinha razão. Entrando
furtivamente no pátio dos fundos de Roseira Silvestre, notou as portas abertas. Mas as
nuvens de novo cobriram a lua e ele ficou mergulhado na escuridão. Deslizou entre as
sombras para o interior da casa, atento a qualquer som. Os únicos ruídos que pôde
distinguir vinham de fora: a brisa balançando os arbustos, o tráfego na avenida, o latido
distante de um cão.
Mais preocupado em ouvir, deu alguns passos descuidados pela sala e logo tropeçou
num objeto macio, mas firme o suficiente para desequilibrá-lo. Pendeu para a frente e caiu
sobre uma peça de mobília, que ele deduziu ser um sofá. De sua garganta saiu um som
que ecoou no escuro, enquanto ele fazia uma careta de contrariedade.
Naquele momento, a lua voltou a brilhar e ele pôde perceber no sofá, debaixo da
colcha, a presença de um corpo pequeno. Seria o ladrão, segundo Sally? Um jovem
marginal? Nick supôs que, notando sua chegada, o assaltante se cobrira para esconder-
se, e que o objeto no qual havia tropeçado era a maleta para transportar o produto do
roubo.
— Saia daí! — Nick ordenou rispidamente. Suas palavras reverberaram na sala,
enquanto o corpo no sofá moveu-se de leve e um rosto branco emergiu da coberta. Um
par de olhos azuis brilhou para ele, denotando medo.
Ao ouvir a voz áspera, Laura pensou estar sonhando. Mas logo que distinguiu a
enorme figura postada ameaçadoramente diante dela, sentiu o odor de poeira e alfazema
e soube que não era um sonho.
Em segundos, reconstituiu a situação. Lembrou-se de onde estava, como tinha aberto
os janelões que davam acesso ao pátio e como se deitara no sofá para descansar. Devia

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ter dormido horas. Agora, filtrada pelas vidraças, a luz da lua lançava nesgas prateadas
nas paredes e nos móveis, ao mesmo tempo que marcava a silhueta do homem à sua
frente.
— Levante-se! — A ordem ecoou novamente. — E fique bem quieto, seu ladrãozinho.
Posso lhe quebrar a cara.
Laura encolheu-se ao notar o punho erguido em sua direção.
Mesmo com a respiração pesada, presa na garganta, concluiu que o homem não
bateria nela e só desejava tirar a colcha de crochê que a cobria. Foi o que ele fez em
seguida, num movimento rápido, jogando a coberta no chão. Nesse gesto, porém, o perfil
de Nick iluminou-se à luz da lua, por tempo suficiente para ser reconhecido.
Não se tratava de um estranho.
O que Nicholas Diamond estava fazendo ali, Laura não pôde imaginar. Parecia muito
bravo, a ponto de não aceitar explicações. Ele era o intruso ali, não ela. Como fazê-lo
entender?
Uma nuvem escureceu a sala outra vez e ela aproveitou para sair do sofá
furtivamente, engolindo em seco, na direção das portas do pátio. Pensava esconder-se no
jardim até que tudo ficasse esclarecido.
A mão forte segurou-a pelo braço, fazendo-a gemer.
— Tentando fugir? — Agora a voz era zombeteira, além de áspera. — Se tivesse
comido mais cenoura na infância, você enxergaria no escuro.
Laura dominou a vontade de livrar seu braço com um puxão, sabendo que seria inútil.
— Escute bem. Não sei quem você pensa que eu sou, ou o que estou fazendo aqui,
mas me chamo Laura Grant e este chalé é meu. Portanto, duas coisas. Primeiro me solte,
depois suma desta casa.
Por um momento, o silêncio dominou o ambiente, rompido apenas pela respiração
ofegante de Laura. Finalmente, quando ela pensava que o homem jamais iria responder,
suas palavras vieram acompanhadas de uma ponta de ironia:
— Por favor, aceite minhas desculpas. Pensei que...
— Não estou interessada em desculpas — ela cortou —, e muito menos no que você
pensa. Só quero que saia de meu caminho e nunca mais apareça. Promete? —
acrescentou com sarcasmo.
— Se você é a nova dona de Roseira Silvestre, então receio que há algo que não
posso prometer.
— E por que não?
— Porque eu sou seu vizinho, e forçosamente nos veremos, quer você queira ou não.
Ela o ouviu encaminhar-se para fora e, pelo som que percebeu, ele devia ter dado
uma topada cornos pés em sua mochila. Um segundo mais tarde, escutou os passos dele
no pátio é, à luz prateada da lua, pôde notar, com ressentimento, que Nick ostentava um
sorriso nos lábios.
Laura adormeceu de novo depois que ele saiu. Não esperava dormir tão facilmente,
pois tremia de raiva e frustração. Tinha pensado em fazer café assim que se acalmasse,
mas encolheu-se no sofá e, quando abriu os olhos, o sol já batia nas vidraças,
convidando-a a levantar-se. Olhou no relógio e viu que eram nove horas.
Ela se espreguiçou e bocejou. Seu estômago roncava de fome. Decidiu deixar d
banho para depois e apenas lavou rapidamente o rosto no banheiro. Aproveitou para

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escovar um pouco os cabelos e prendê-los com uma fivela de couro.


Só então se deteve em examinar sua imagem ao espelho sobre a pia. O reflexo
mostrava uma mulher malcuidada. Os cabelos loiros que lhe cobriam a nuca estavam
sujos e sem brilho. A pele do rosto, apesar de lisa e sem falhas, impressionava pela
palidez. Até aos lábios faltava cor. E, por fim, os olhos azuis, herança de seus ancestrais
nórdicos, pareciam fundos e embaciados.
Com um suspiro de decepção, ela colocou a camiseta para dentro da calça jeans.
Onde estava a linda e vivaz adolescente que se casara com um dos mais desejáveis
solteirões de Toronto? Perdida para sempre ou ainda escondida em algum lugar?
Fez uma pausa ao sair do banheiro, a mão na maçaneta da porta. Um estranho
pensamento passou-lhe pela mente. Havia decidido, após a morte de Jason, voltar a usar
o nome de solteira, Laura Grant. Por que então, no confronto noturno com Nicholas
Diamond, esteve a ponto de dizer-lhe que seu sobrenome era Thorne? Senhora Thorne,
sim, era isso, uma necessidade de proteção contra o intruso, uma sensação de ficar a
salvo se ele soubesse que ela era ou fora casada. Mas a salvo do quê?
Laura achou que não devia aborrecer-se tão cedo com problemas desse tipo.
Deixando aberta a porta do banheiro, dirigiu-se à cozinha — um cômodo pequeno e
aconchegante, com paredes brancas e piso de linóleo verde, repleto de encantadores
armários de madeira trabalhada, adornada com motivos de frutas. A janela dava para o
leste, na direção do bosque, e Laura pôde ver o sol incidindo no topo das árvores, sob o
céu limpo e azulado. Na hora, decidiu que naquela mesma tarde iria caminhar entre as
árvores. Seria o primeiro de muitos e muitos passeios.
Abriu o pacote de café que trouxera e preparou a bebida na cafeteira que jazia sobre
a bancada de fórmica. Pegou torradas e bolachas na mochila, passou vigorosamente um
pano na mesa e numa das cadeiras coloniais. Ia sentar-se para saborear a pequena
refeição quando ouviu a campainha da sala tocar.
Ela piscou. Quem poderia ser? Ninguém mais, a não ser Nicholas Diamond e o
advogado imobiliário Marvin Twigg, que cuidava de seus bens, sabia onde ela estava.
A porta da frente, de carvalho maciço, possuía um postigo à altura dos olhos, coberto
com uma cortina de renda. Pela cortina, Laura pôde ver lá fora uma mulher morena, de
traços bonitos e cabelos negros, encaracolados, que desciam até os ombros.
Laura destrancou e abriu ligeiramente a porta, apenas o suficiente para ver que a
recém-chegada estava de bata maternal, com a barriga estufada como um balão.
— Sim? — A voz de Laura soou aborrecida.
Com uma expressão amistosa nos olhos cinzentos e um sorriso agradável, a visitante
se apresentou:
— Oi, sou Sally Peterson, da casa ao lado. Vim me desculpar por ontem à noite.
Laura abriu espaço e deixou Sally entrar.
— Vim dizer que a culpa foi minha. Subi para meu quarto e, quando vi as portas do
pátio abertas, pensei que um assaltante havia invadido o chalé. Pedi para Nick dar uma
olhada. O resto... bem, você já sabe.
Será que essa simpática mulher vivia com Nicholas Diamond? Os sobrenomes eram
diferentes, portanto não deviam ser casados. Ou talvez sim. Hoje em dia, muitas mulheres
mantêm o sobrenome de solteira.
E ainda por cima grávida! Grávida dele, claro. Laura não podia imaginar Nick

Projeto Revisoras 11
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Diamond tolerando nenhuma outra situação. Mas por que uma pessoa tão agradável
como Sally se submeteria à tirania daquele homem?
— Nick é meu irmão. Irmão gêmeo, na verdade.
Bem, a explicação serviu para acalmar Laura e, logo em seguida, provocar-lhe uma
autocensura. O que lhe interessava se Nicholas Diamond era casado ou não? E só por
não ser casado com esta mulher, não significava que não existia outra...
Deus do céu, admitiu Laura para si mesma, sua mente estava bastante confusa. Só
podia ser efeito do cansaço da viagem, justificou-se. Caindo em si, percebeu que a
mulher a encarava, esperando alguma palavra dela.
— Sim, sim, perdoe-me. Quer...
— Se você acaba de se mudar, deve estar ocupada com a arrumação. Mas à
tardinha, se estiver livre, venha à nossa casa. Tem piscina e podemos nadar um pouco,
ou apenas tomar café e conversar.
Laura havia pensado que seria fácil isolar-se na nova casa, cuidar só de si mesma e
evitar contato com vizinhos. Passaria muito bem sem outras pessoas, mesmo simpáticas
como Sally Peterson.
— Obrigada, mas... preciso sair esta tarde.
— Quando quiser, então. — Sally sorriu afetuosamente. — Telefone sempre que
quiser. Meu número, quer dizer, o número de Nick, está na lista. Não estou saindo para
quase nada, pois o bebê deve nascer em três semanas. Assim, vou gostar de sua
companhia. Espero vê-la em breve.
Sally virou-se para sair, mas voltou a dirigir-se a Laura, mostrando um saco de papel
que trazia na mão.
— Quase esqueci. São para você. Umas rosquinhas que acabei de fazer. Ainda estão
quentes.
Depois de uma pequena hesitação, Laura pegou o presente. Agradeceu com um
sorriso e ficou sozinha de novo no chalé.
Ao viajar para Vancouver, Laura havia deixado seu palacete em Toronto, com
garagem para três carros, na qual reluziam um Volvo creme, a Ferrari vermelha de Jason
e o antigo Rolls-Royce prateado que era mantido apenas para ocasiões especiais. Po -
deria ter despachado qualquer um dos carros para Roseira Silvestre, mas desejava,
acima de tudo, voltar às coisas básicas: uma casa simples, uma vida simples...
Isso incluía, pelo menos por enquanto, um meio simples de transporte.
Descansando na cadeira de balanço junto à janela, Laura contemplava em quietude o
jardim dos fundos. Havia passado a manhã inteira limpando a cozinha, até que tudo
ficasse reluzente. Agora, saboreando a última das rosquinhas de Sally, pensava em tudo
que precisaria comprar para essa vida nova.
O primeiro item da lista era uma bicicleta.
De bloco de papel no colo, girava a caneta esferográfica entre os lábios, lembrando-
se de ter visto um vilarejo ao pé da colina, quando chegava de táxi. Talvez encontrasse lá
uma boa loja de bicicletas.
Completou a lista com mantimentos e produtos de limpeza para uma semana. Sorriu
ao pensar em algo que deveria fazer antes mesmo de tomar um banho e trocar de roupa
para sair.
Levantando-se e colocando a lista de compras no bolso, foi até a cozinha levar o

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prato e voltou à porta da frente. Ria de satisfação, antecipando o prazer de passear no


bosque.
"ENTRADA PROIBIDA.
TRANSGRESSORES SERÃO PROCESSADOS."
Incrédula, Laura contemplou demoradamente a placa pregada no portão de ripas
largas que dava entrada ao bosque. Quem a teria colocado? E por quanto tempo estaria
ali? Naquele longínquo verão que passara em Roseira Silvestre, com certeza não havia
placa alguma. O bosque era para todos que quisessem desfrutá-lo.
Decididamente, tudo estava mudado. Os velhos e tradicionais chalés, derrubados. O
jardim dos fundos de sua casa, sem privacidade. E agora a bela floresta também era
proibida para ela. Magoada, retendo as lágrimas, Laura encostou-se no portão fechado.
Ao menos seu chalé restava intocado. Sentia-se agradecida por isso, embora
consciente de que, em vez do castelo encantado da infância, encontrara algo que apenas
sobrevivia em um mundo estranho. Ela também se viu assim: última sobrevivente em um
mundo estranho.
— Com licença.
Não tinha escutado ninguém se aproximar pela trilha do bosque. Agora, afastando-se
assustada do portão, deparava com um homem muito perto, a um passo dela, esperando
para passar. Por um segundo, não o reconheceu. Em seguida, seu coração começou a
bater com mais intensidade. Era Nicholas Diamond.
Ele vestia uma camisa clara de mangas cuidadosamente dobradas até o meio do
antebraço, gravata cinza, calça azul-marinho bem cortada e mocassins lustrosos. Sobre o
ombro, seguro por um dedo, pendia um paletó xadrez que, na opinião de Laura, era a
única peça informal do vestuário. Se o estivesse usando, pareceria saído diretamente da
capa de alguma revista masculina de negócios.
Laura notou-lhe a expressão desconfiada.
— Você não é a mulher que estava andando ontem no meio da rua?
Podia-se notar um leve tom de censura na frase. Enquanto falava, ele abriu e
atravessou o portão, fechando-o em seguida sem tirar o olhar crítico de cima de Laura.
Inclinou-se sobre a ripa superior da porteira.
— O que está fazendo por aqui? — Ainda sem desviar os olhos dela, Nick balançou a
cabeça na direção da placa. — Esta área está fora dos limites.
— Isso eu posso ver. Quem pôs essa placa aí é ruim da cabeça. O bosque pertence a
todos. Qualquer pessoa que respeite a natureza devia poder passear aqui à vontade. —
Ela o encarou firmemente. — Mas isso não deteve você. Talvez goste de contrariar
regras, só pelo prazer de desobedecer.
A brisa levou até Laura o aroma daquele corpo masculino, como um presente não
desejado, mas irrecusável. Não era o cheiro rude e animal que a tinha excitado na tarde
anterior, e sim uma fragrância sofisticada, com toques de sândalo, mas que a perturbava
da mesma maneira.
Para seu assombro, sentiu a boca seca enquanto esperava resposta para suas
palavras desafiadoras.
Quando finalmente ele falou, foi no mesmo tom que usara um dia antes, e com a
mesma expressão fria nos olhos.
— O bosque me pertence. Comprei toda esta área. Laura perdeu a fala por um

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instante. Aproximou-se do portão a ponto de o paletó que Nick segurava roçar no braço
dela. Com um arrepio, afastou-se para encará-lo altivamente.
— E vai guardar tudo para você? Não é um pouco de... egoísmo?
Ele a fixou com um olhar faiscante.
— Não penso que seja. — Continuou a encará-la. — E você, trabalha? Tem
emprego?
A resposta seria negativa, mas ela bem que pensava em procurar uma ocupação
assim que se instalasse em Roseira Silvestre. Só não pretendia revelar àquele homem
seus planos pessoais. Ergueu o queixo e retrucou irada:
— E quanto a você? Não consigo adivinhar no que trabalha. Ele deu uma risada
contida.
— Olhe, para mim, egoísta é quem pensa que o mundo lhe deve alguma coisa. Se
você ganha seu próprio dinheiro, em vez de ficar flanando por aí, um dia terá condições
de comprar uma casa. Quando esse dia chegar, você decide quem pode e quem não
pode entrar em sua propriedade. Enquanto isso, não espere nada grátis de quem trabalha
duro.
Novamente, Laura sentiu lágrimas se formando no canto de seus olhos e lutou para
reprimi-las. Incrível como ela e esse homem se agrediam por quase nada. Se ele fosse de
fato o dono daquela terra, legalmente tinha o direito de impedir a entrada de quem
quisesse. E se ela tinha desejado não se envolver com vizinhos, a última coisa que
esperava era entrar em aberta hostilidade com um deles. Melhor não fazer guerra,
decidiu.
Afastou-se um pouco mais, pensando em reduzir a tensão entre eles, mas o ruído de
um carro que se aproximava e um toque de buzina distraíram sua atenção. A uns cinco
metros dela, parou um Jaguar azul. Ao volante, uma mulher alta, de , pernas compridas e
cabelos lisos oxigenados, vestida com um macacão de jeans que escondia qualquer
curva feminina, olhou inexpressivamente em sua direção.
— Você está pronto, Nick? — A voz era suave e rouca, num tom que, Laura imaginou,
poderia tornar-se irresistível para qualquer homem.
— Já vou, Sharon — ele respondeu de modo afável, demonstrando que não estava
disposto a resistir.
Antes de entrar no carro, Nicholas dirigiu um demorado olhar para Laura.
— Lembre-se. O bosque é uma área particular.
Depois dessa advertência, Nicholas partiu, acomodado no Jaguar azul ao lado de
Sharon. Parecia já ter esquecido completamente a existência de Laura.

CAPÍTULO III

Depois da discussão com Nick Diamond, Laura tomou um banho de chuveiro e trocou
de roupa. Desceu a pé até o vilarejo, onde, num gracioso centro comercial, encontrou
uma boa bicicleta. Passou também no bem abastecido supermercado e comprou
mantimentos para uma semana.
Foi um golpe de sorte, pois na manhã seguinte caiu chuva pesada e o tempo
continuou ruim por muitos dias, o que tinha suas vantagens. Sem poder sair, Laura

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dedicou-se a limpar o chalé e separar as roupas de tia Charity, que pretendia doar, não
sem chorar um pouco durante a tarefa.
O trabalho levou seis dias, e choveu quase o tempo todo. Na manhã do sétimo dia,
Laura acordou com céu limpo. Abriu a janela do quarto para uma paisagem brilhante e
ensolarada. Correu para a sala, de robe de algodão e chinelos, ansiosa por abrir os
janelões e sair para o pátio. Ouvia-se o canto dos pássaros e, nas folhas dos arbustos, as
gotas de água brilhavam como jóias.
Laura ergueu o rosto para o sol. De olhos fechados, espreguiçou-se, esticando os
braços o mais alto que pôde, e nesse movimento o cinto do robe abriu-se. Ela sentiu os
raios quentes de luz nas pernas nuas e no vão dos seios acima da camisola rendada. Era
bom ficar assim, tão livre, tão dona de si. Embora seus músculos doessem, era uma dor
agradável, sinal de que havia trabalhado bastante.
Quando já pretendia entrar, fechando o robe, teve a sensação de que alguém a
espiava. Levantou a cabeça em busca das janelas da casa vizinha... e ficou paralisada!
A metade superior do corpo de Nick Diamond era visível numa das janelas. Talvez
estivesse totalmente nu, ou só sem camisa, pois o caixilho inferior da janela cortava sua
visão pela cintura. O que Laura podia ver era perturbadoramente másculo: ombros largos,
braços musculosos e um peito bem torneado, pontilhado de caracóis de pêlos negros.
Sentiu o corpo formigar e as faces ficarem afogueadas, tanto pelo que via como pelo
que supunha que ele pudesse ter visto dela. Por um segundo, julgou ter notado nos olhos
de Nick um interesse sexual, mas subitamente a expressão dele mudou, como se tivesse
levado uni susto.
Deve ter reconhecido, imaginou Laura, que a mulher que ele quase atropelara com o
caminhão, a mulher que proibira de entrar no bosque e a mulher com quem se defrontara
na sala escura eram a mesma pessoa!
Antes que pudesse mover-se, ele balançou a mão num cumprimento zombeteiro e
em seguida desapareceu dentro da casa.
O ressentimento a invadiu como uma febre, enquanto ela absorvia o choque da
realidade: nada poderia fazer para evitar que Nick Diamond a espiasse quando quisesse,
de sua janela.
Lembrou-se de como, nos dias quentes, a calorenta tia Charity tirava a blusa e ficava
só de short e sutiã, tomando sol na espreguiçadeira, enquanto Laura, ainda menina de
dez anos, brincava de esguichar água da mangueira.
Como teria reagido aquela mulher à derrubada do chalé vizinho e à construção, bem
no seu quintal, de um sobrado de alvenaria com janelas dando para seu pátio? Teria
ficado horrorizada ou, com a sabedoria dos anos vividos, continuado a tomar seu banho
de sol?
De repente, o som inconfundível de um corpo caindo na água chegou aos ouvidos de
Laura, vindo da casa de Nick. A contragosto, ela imaginou seu corpo musculoso cortando
a extensão da piscina.
O sol brilhava mais a cada momento. Para Laura, porém, podia ser um dia nublado
ou noite de tempestade, não faria diferença. Sua manhã já estava arruinada. E todas as
manhãs seriam um terror se tivesse de passá-las tão perto de Nicholas Diamond.
Somente mais tarde, depois de tomar banho e trocar de roupa, Laura atinou com a
solução do problema: se quisesse viver bem, teria de ignorar o vizinho, apagá-lo de sua

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mente, fingir que não existia. Se conseguisse fazer isso, então passaria bons momentos
em Roseira Silvestre.
Na realidade, ela pensava constantemente se Nick Diamond não a estava seguindo
com o olhar o tempo todo, espiando-a até quando cuidava do jardim ou lia um livro à
sombra da macieira.
Naquele dia, por exemplo, ela havia planejado tratar do jardim, e se Nick não tinha
nada melhor a fazer do que espiá-la pela janela, paciência. Pretendia não tomar
conhecimento.
Durante o café da manhã, na mesa da cozinha, abriu um dos livros ilustrados de tia
Charity sobre jardinagem e leu o capítulo sobre como cuidar de rosas.
Meia hora mais tarde, empunhando uma tesoura de jardim que encontrara em boas
condições, aproximou-se de uma roseira e podou o primeiro galho seco.
Laura ganhou confiança em si como jardineira e, depois do almoço, voltou ao pátio
para podar o último arbusto, situado num canteiro rente à parede que separava Roseira
Silvestre da casa de Nick.
Durante a manhã, ela havia ouvido um barulho vindo do outro lado da parede de
pedras: a voz baixa de Sally, acompanhada de sons mais fortes de crianças. Deduziu que
eram duas, bem pequenas, e soube até que se chamavam Matthew e Michael.
Deviam estar dormindo por volta de duas da tarde, pois não escutou sinal de vida a
essa hora, quando retomou a tarefa de jardinagem. Entretida nisso, teve um breve estre -
mecimento ao ouvir vozes na casa vizinha: as vozes de Sally e de seu irmão.
Falavam pausadamente sobre alguém chamado James, que parecia ser o marido de
Sally e estar em viagem de negócios.
Laura tentou não dar atenção, depois pensou em tossir para revelar sua presença do
outro lado do muro, mas por fim concluiu que isso seria ridículo e continuou podando a
roseira, apenas um pouco mais depressa. Estava quase terminando quando escutou um
seco comentário de Sally:
— É estranho como as coisas acontecem. Antes de me casar, Sharon e eu
passávamos muito tempo juntas, e agora você a vê bem. mais do que eu. Ela combina
com você, Nick. Parece que o deixa mais calmo, mais sensato...
Embora tentasse ignorar a conversa, Laura não pôde evitar de ouvir a resposta clara
e forte de Nick.
— ... expectativas quanto ao casamento. Vamos reconhecer que James e você são
um caso raro, uma exceção à regra. Eu não espero esse tipo de casamento, e sim uma
espécie de... acordo de interesses.
— Acordo de interesses?
— Sim. Tudo acertado e por escrito, para evitar surpresas. Um contrato legal, com
cláusulas bem detalhadas, prevendo até mesmo a questão de ter filhos...
:— Quantos?
— Dois. Um menino e uma menina.
Sally riu, enquanto se ouvia um ruído de cadeiras arrastadas pelo chão.
— Você tem tudo perfeitamente planejado, não? Mas a vida não é tão simples, Nick.
— Acrescentou algo que Laura não escutou. — Bem, está muito quente, vou entrar um
pouco.
— Devo sair em dez minutos — avisou Nick. — Vou à cidade. Preciso saber se houve

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algum avanço no...


Os passos e as vozes se perderam na distância, enquanto Laura respirava
profundamente e percebia que estivera segurando o fôlego. Limpou o suor da testa com
as costas da mão. Sentiu uma ponta de culpa por ter escutado a conversa alheia, mas ao
mesmo tempo felicitou-se por ter conhecido mais uma faceta de Nick, que apenas
confirmava sua opinião negativa a respeito dele. Não era um ser humano, definiu, e quem
quer que fosse casar-se com ele, Sharon ou outra, não importava, precisava ser
prevenida disso.
Terminou a poda das roseiras com um esforço consciente para tirar tudo aquilo da
cabeça. Afinal, não era de sua conta.
Estava no quarto, aprontando-se para ir à vila comprar verduras, quando ouviu o
Porsche de Nick manobrando rumo à saída da casa vizinha.
Reprimindo o impulso de ir à janela e comprovar que ele se fora, Laura continuou
escovando os cabelos, mais crescidos do que ela apreciava. Já deveria tê-los aparado e
feito permanente. Ficariam mais bonitos, pensou, com a aparência que tinham quando era
adolescente ou quando se casara com Jason.
Uma sombra de tristeza toldou seus olhos. Jason, logo após o casamento, a obrigara
a deixar os cabelos na cor natural. Ele tinha se aproveitado de sua juventude e
inexperiência.
Em poucas semanas, Jason conseguira mudar sua imagem, sua aparência.
Intimidada por Jason, Laura tinha posto de lado suas calças da moda e as bonitas
blusas de seda, seus shorts de verão e vestidinhos tubo. Tudo trocado por roupas
apagadas, sem estilo, detestáveis, que lhe tinham tirado a cor do rosto, o brilho dos olhos
e as curvas do corpo. Ele também a proibira de usar jóias e bijuterias, a não ser o anel de
casamento.
Jason agira assim por puro ciúme. Doze anos mais velho, dava a desculpa de que o
gosto dela ainda era imaturo. Na verdade, ele era doentiamente possessivo, mas Laura
levou bastante tempo para chegar a essa conclusão.
Pondo de lado a escova, observou-se ao espelho. Ainda usava roupas compradas por
Jason: uma camisa bege sem forma definida e um shortinho pálido.
Um dia desses, prometeu a si mesma, iria às compras para renovar todo o guarda-
roupa, e também marcaria hora num salão de beleza. Faria isso quando se sentisse forte
o bastante para sepultar definitivamente a imagem de Jason, a fria e desaprovadora
imagem que insistia em rondar sua mente.
Num frêmito de exaltação, sentiu que esse dia chegaria logo.
Laura pedalava a bicicleta na saída de sua casa quando viu Sally correndo pela
calçada, atrás dela. Chamou-a com um "oi, espere" e ela parou, à espera de novidades.
— Tentava alcançar Nick, mas não consegui. Droga, reservei um filme na
videolocadora, uma cópia de O Sétimo Segredo, que é difícil de se encontrar. Esqueci de
pedir a Nick para pegar, no caminho, e a reserva só vale até as três e meia... Vou ligar
para lá e cancelar.
— Posso pegar para você, se quiser. Estou indo à vila.
— Seria um grande favor, obrigada. Espere eu pegar minha bolsa.
— Tudo bem, acertamos depois.
— Na volta, procure a porta dos fundos, está bem? A campainha da frente é muito

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alta e vai acordar os meninos.


— Combinado. — Com uma pedalada mais forte, Laura afastou-se e pouco depois
deixou a avenida Juniper para tomar a estrada que levava ao vilarejo.
Sally era tão simpática, pensou Laura enquanto pilotava a bicicleta, sentindo um
vento agradável na face. Como podia uma pessoa assim ter um irmão odioso como
Nicholas Diamond?
Era um completo mistério para ela.
Ao retornar, passou em casa para deixar as compras antes de levar a fita de vídeo.
Sally deve ter ouvido Laura chegar, pois estava dirigindo-se para a piscina, carregando
uma bandeja com copos e uma jarra de limonada.
— Ah, que bom que você chegou — disse ela, armando uma mesinha dobrável. —
Venha tomar uma limonada gelada.
Quando lhe entregou o filme, Laura recebeu de volta um sorriso tão agradecido que
sorriu também, encantada. A água dá piscina cintilava sob o sol como lâmpadas piscando.
— Um refresco vai bem.
— Fique à vontade. — Sally levou o filme para dentro e logo voltou, instalando-se
numa espreguiçadeira de lona. Riu para Laura.
— Seu dinheiro está na bandeja. Por favor, pegue, e obrigada de novo.
Laura foi tentada a comparar a beleza convencional daquela piscina com o charme
rústico do jardim que tia Charity tinha criado bem ao lado. Onde Nick tinha tijolinhos
justapostos, Charity fizera um gramado. Onde ele instalara piso de cerâmica, sua tia
plantara árvores frutíferas. Por fim, em vez de empertigadas flores primaveris, de cores
coordenadas, uma mistura livre de arbustos que floresciam o ano inteiro.
Levou a mão à nuca e sentiu o suor que brotava debaixo do calor intenso. Sally notou
o movimento e a reação de Laura.
— Está muito quente, mesmo. Por que não pega um maio em sua. casa e dá um bom
mergulho?
— Não tenho maio. Perdi minha roupa de praia e ainda não comprei outra para
substituir.
— Bem — disse Sally, um pouco surpresa. — Escolha um belo biquíni nas próximas
compras e poderemos nadar juntas!
Laura ficou procurando as palavras certas para contornar a situação. Ela não usava
mais maio, e não usaria nunca. As feias cicatrizes nas costas já haviam clareado, mas
ainda estavam lá. Ao visualizá-las mentalmente, piscou os olhos e ficou muito séria.
— Obrigada, Sally... Não sou boa nadadora... Acho que nunca gostei de água. — Na
sua angústia, esperava que essa mentira pusesse fim à conversação.
— Que pena. Mas, enfim, se mudar de idéia... — Sally teve a atenção desviada por
um ruído e por uma figura masculina que se aproximava. — Ei, Nick! Voltou cedo!
— A reunião foi cancelada na última hora.
Laura sentiu o corpo tornar-se rígido de tensão enquanto Nick chegava perto. Não
tinha ouvido o carro dele estacionar nem a porta da casa abrir-se, mas Nick já havia
estado em seu quarto e trocado o traje formal por uma sunga colorida.
Nenhum homem tem o direito de ser tão atraente, meditou, enquanto cruzava os
braços em torno de si e desviava o olhar para o lado.
— Vocês já se conhecem, é claro — observou Sally.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— Sim, já nos encontramos — Nick falou, encarando Laura. O que pensaria ele ao
fixar o olhar nela desse modo? Em
como ela era sem graça e enfadonha? Pálida, inexpressiva e maçante? Não tinha
como saber: os olhos de Nick estavam fechados no rosto momentaneamente neutro.
Abriu-os para se acercar de Sally e tocar os ombros dela com a mão.
— Querida, acho que os meninos acordaram.
— Obrigada, Nick. Vou dar uma olhada. Volto logo, assim que puser calção de banho
em Matt e Mike. Eles vão querer pular na piscina. Pena que Laura não goste de nadar.
Bastou Sally fechar a porta de tela atrás de si, e Laura sentiu sua tensão aumentar.
Nick não se sentava, nem se mexia, nem ia embora. Permanecia ali, parecendo um
gigante ameaçador. E ela mal podia suportar o silêncio entre eles.
— Então — falou Nick em tom rouco —, você é a sobrinha de Charity Brown, é a
herdeira do chalé.
— Isso mesmo — respondeu Laura sorvendo um gole de limonada. — Na verdade,
era tia de meu pai.
— Suponho que você esteve aqui quando criança.
— Supõe? — Ela franziu a testa, sem entender.
— Em outras palavras, sei que você esteve aqui. Charity Brown me contou que você
passou um verão inteiro com ela.
— Sim, é verdade. Eu tinha dez anos.
— E não voltou mais? Não manteve contato?
Laura sentiu um toque de alerta em sua mente. Não haveria nessas palavras um tom
de crítica, de reprovação?
— Não me foi possível manter contato — contou com frieza. — Quando meu pai veio
me buscar, ele e tia Charity discutiram violentamente e romperam relações. Papai era um
homem que não sabia perdoar. Devolveu as cartas de minha tia sem abrir e me proibiu de
escrever a ela.
— Ele não era músico? Tinha uma orquestra famosa? Quanto de sua vida tia Charity
lhe teria contado? Laura sentiu um travo de amargura e aborrecimento pelo fato de Nick
saber tantas coisas sobre ela.
— Muito popular, realmente. Ele viajou por toda a América do Norte. Depois que
minha mãe morreu, quando eu tinha seis anos, papai me levou com ele para todos os
cantos.
— Isso deve ter atrapalhado seus estudos, não?
De novo aquele tom velado de crítica, apenas mais pronunciado agora.
— Meu pai me ensinou pessoalmente as primeiras letras. Depois, fiz vários cursos
por correspondência.
— Então, você é uma mulher estudada — ele retrucou sem ironia, com voz sedosa.
— Permita-me perguntar se, culta como parece ser, você ainda está sob a influência de
seu pai e o obedece sem restrição?
— Papai morreu quando eu tinha dezoito anos. — Ela fitou Nick com uma ponta de
raiva, indagando-se aonde ele queria chegar.
— E quantos anos tem agora? — Os olhos de Nick brilhavam.
— Vinte e três, mas...
— Estava só pensando. E natural que uma menina pequena, e mesmo uma mocinha,

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

obedeça seu pai sem questionar nada. Mas estou curioso para saber por que, uma vez
adulta, você não voltou a ver Charity Brown. Ela me deu a impressão de que vocês duas
começaram um relacionamento muito forte naquele verão. Você significava muito para
ela.
— E ela também para mim — desafiou Laura, embora sua voz tremesse. — Afinal,
não é da sua...
— Significava tanto que você não a visitou nunca mais? Nunca mais escreveu,
telefonou ou veio vê-la no hospital, agonizante. Aí, quando ela morre e lhe deixa a casa,
você vem correndo? Tarde demais. — As últimas palavras soaram cortantes, e a frieza de
Nick lhes deu uma ênfase ainda maior.
Laura sentiu os músculos da garganta se estreitarem, tirando-lhe a fala, e começou a
levantar-se da cadeira, pensando que não tinha de ficar ali, sentada, ouvindo aquela
inquisição. Encolheu-se ao ver a mão de Nick erguer-se e descer rápida na direção de
seu rosto. Conseguiu gritar um "não!" enquanto desabava de novo sobre a cadeira, com o
coração aos pulos.
— Era um besourinho na sua testa! — exclamou ele. — Ia tirá-lo antes que... Puxa,
não pensou que eu fosse bater em você...
Por Deus, ela desesperou-se. Como devia ter parecido tola. Tentou controlar o tremor
do corpo, sem sucesso. No seu tempo de casada, depois dos ataques de ciúme de Jason,
em que ele gritava com ela, Laura ficava tremendo por horas, descontrolada. Agora,
entrelaçou os dedos das mãos tão fortemente que sentiu as unhas ferindo a carne.
— Claro que não... — Por milagre, as palavras saíram convincentes, enquanto ela se
forçava a olhar firme para ele, desenlaçando as mãos e apertando firme os braços da
cadeira. — Agora preciso ir. Só vim entregar um vídeo a Sally. Agradeça a ela pela
limonada.
Sem esperar resposta, Laura deu a volta e afastou-se de Nick, rumo ao portão.
Encheu-se de determinação para que os joelhos não cambaleassem na curta caminhada.
Ao sair, julgou ter ouvido Nick dizendo algo, mas deixou o portão bater e fechar-se
atrás de si, com o ruído metálico do trinco abafando qualquer palavra que ainda pudesse
ouvir.
No momento em que cruzou sua própria porta, precisou lutar contra as lágrimas que
teimavam em brotar de seus olhos. Não iria chorar. Não cederia espaço às horríveis
lembranças que tentavam voltar para assombrá-la.
Deu um longo suspiro de alívio ao bater a porta e encostar-se nela pelo lado de
dentro. Estava em casa. Sentia-se segura e protegida. Pôde até esboçar um sorriso ao
imaginar o espanto de Nick ante sua reação ao braço erguido no gesto de bater. Estaria
ele pensando no motivo dessa reação ou já teria esquecido tudo, esquecido a presença
dela?
Na sala, onde o sol da tarde estriava de luz a madeira dos móveis, ela se postou junto
aos janelões que se abriam para o pátio, olhando-o fixamente através de uma cortina de
lágrimas.
Queria extrair forças da serena beleza do jardim.
Nick Diamond poderia vê-la se subisse ao quarto e olhasse de sua janela. Antes, ela
havia decidido ignorá-lo. Agora, sabia que seria impossível.

Projeto Revisoras 20
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

CAPÍTULO IV

No dia seguinte, o mau tempo voltou e Laura dedicou-se a catalogar a vasta coleção
de livros de tia Charity. Não parou para almoçar, preferindo comer apenas bolachas e
queijo enquanto trabalhava. Perto das cinco da tarde, decidiu preparar uma boa refeição.
A caminho da cozinha, ouviu a campainha da sala e mudou de direção. Ao abrir a
porta, deparou espantada com um menino pequeno, de olhar assustado, molhado até os
ossos debaixo de um abrigo amarelo com capuz. Trêmula de surpresa, Laura o puxou
para dentro.
— O que está havendo? Quem é você?
— Eu sou Matt. Minha mãe caiu na cozinha e me pediu para chamar você.
Segurando o garoto pelo pulso, Laura sentiu as gotas geladas de chuva molharem
seu braço.
— Sally? Mas ela está bem?
Não havia o que esperar. Agarrando uma capa pendurada no cabideiro da sala, Laura
disparou para fora junto com o menino. Sentiu a forte rajada de vento até chegar à
entrada da casa vizinha.
— Não está fechada — sussurrou Matt.
A porta bateu ruidosamente atrás deles e Matt puxou Laura pela manga da capa.
— Por aqui.
— É você, Matt? Encontrou Laura? — A voz de Sally vinha dos fundos da casa. —
Oh, graças a Deus!
Laura conteve uma exclamação ao ver a figura roliça de Sally caída no chão de
mármore, vestida com larga calça azul de elástico e blusa clara. Ajoelhado atrás dela,
com os braços passados em torno de seu colo, estava o irmão de Matt, soluçando.
— Você chamou a ambulância? — Laura moveu-se com agilidade pela cozinha e
agachou-se perto de Sally.
— Não. Queria falar com você primeiro. Não posso deixar os meninos aqui sozinhos,
se tiver de ir ao hospital. Tentei levantar-me, mas achei que era melhor ficar parada até
chegar o socorro. — A face de Sally se contorcia toda enquanto ela falava.
— Você está em trabalho de parto? — Laura indagou num fio de voz.
Sally não respondeu de imediato. Sua respiração saía entremeada de soluços.
— Senti as primeiras contrações logo depois que Nick saiu, há umas duas horas.
Podia ter-lhe telefonado, mas sabia que era uma reunião importante e, de qualquer
maneira, ele ia voltar logo. Deve ter-se atrasado. Mas estava justamente indo telefonar
quando senti tontura e perdi o equilíbrio. Laura, você pode ficar com os meninos até que
Nick apareça? Sei que é...
— É claro que eu fico. Não se preocupe.
Sally murmurou um agradecimento. Pondo-se de pé, Laura girou o corpo e percebeu
que Matt segurava o telefone para ela discar.
— O número está escrito aí. — Matt tirou rapidamente o abrigo molhado e correu
para perto da mãe.
Em poucos segundos, Laura conseguiu ser atendida, com a certeza de que a
ambulância viria logo. Enquanto isso, Sally mandara os meninos pegar um travesseiro e

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

uma manta. Laura apoiou a cabeça da vizinha e cobriu-lhe o corpo, tão confortavelmente
quanto possível naquela situação.
— Crianças — Sally começou com voz tensa —, estou indo para a maternidade duas
semanas antes do previsto. Por isso, papai não está aqui para ficar com vocês. Laura
tomará conta de tudo até o tio Nick voltar, está bem? Cooperem com ela e não a deixem
sentir-se uma estranha. — Abraçou Matt, que estava agachado ao lado dela, e chamou
Mike para afagá-lo também. — Farão isso? Prometem?
— Sim, mamãe — responderam em coro as vozes infantis.
— Bom. Agora me dêem mais um abraço, os dois.
Minutos depois, ao ser levada de maça para a ambulância, Sally pediu a Laura que
avisasse Nick no escritório.
— O número está na escrivaninha dele. Conte o que aconteceu e peça para entrar
em contato com James... E venha visitar-me...
As portas da ambulância se fecharam e logo o veículo se perdeu nas sombras da
noite que caía em Juniper Ridge, o som da sirene misturando-se aos ruídos da
tempestade.
Ao reentrar na sala e voltar-se para os meninos, Laura encontrou dois rostos
assustados, com lágrimas nos olhos. O que fazer? Ela não tinha nenhuma experiência
com crianças.
Subitamente, percebeu que ela também, aos dez anos, devia ter aquela aparência
quando o pai a deixara com tia Charity naquele distante verão. Chorava, pois se sentia
abandonada.
Estava ansiosa e com medo.
Procurou lembrar-se do que Charity havia feito naquelas circunstâncias, e a memória
a ajudou, provocando um sorriso de alívio.
— Vocês sabem — perguntou com descontração — fazer uma barraca em cima da
cama?
— Em cima da cama? Como?
—Ah! Então vocês não sabem. Vou mostrar. Mas antes devemos ligar para seu tio
Nick. Quem me leva até a mesa dele?
— Eu! Eu! — responderam os meninos ao mesmo tempo. Eles conduziram Laura por
um largo corredor, viraram à esquerda e a fizeram entrar num amplo cômodo quadrado,
decorado com tapetes persas, poltronas de couro, uma estante de madeira atrás da mesa
e da cadeira de estilo moderno. Apontaram a agenda sobre a mesa, onde ela encontraria
o telefone de Nick, e correram para a porta.
— Vamos esperá-la em nosso quarto, Laura.
— Bem, mas não se escondam de mim.
As crianças dispararam escada acima, enquanto Laura discava e, quase
imediatamente, ouvia uma voz aguda e impaciente do outro lado da linha.
— Nick Diamond.
— Aqui é Laura. Laura Grant, sua vizinha. — Durante o tenso intervalo que se
sucedeu, ela imaginava a carranca de Nick. — Estou telefonando de sua casa. Sua irmã
Sally levou um tombo na cozinha.
— Sally? — O tom de Nick já parecia mudado. — Ela está bem?
— Acaba de ir para o hospital, de ambulância. Entrou em trabalho de parto. Pediu

Projeto Revisoras 22
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para eu ficar com as crianças.


— E você pode ficar até que eu chegue? Vou direto para a maternidade e posso me
demorar.
— Fique o quanto for preciso. Estarei aqui. ^— James já sabe o que aconteceu?
— Não. Sally pediu para você avisá-lo.
— Bom, farei isso imediatamente. — Houve mais uma pausa e, em seguida, a voz de
-Nick ganhou um tom muito suave. — Obrigado. Não sei como agradecer.
— Tranqüilize Sally. Espero que tudo corra bem.
Após Nick desligar, Laura segurou o fone contra o peito por um momento. Sally era
feliz, pensou, por poder contar com um homem tão forte, tão firme, numa emergência.
Que diferença para o modo como Jason a havia tratado. Nessas situações, ele sempre se
punha em primeiro lugar.
Afastou os pensamentos sombrios e recolocou o fone no lugar. Ao sair, pela primeira
vez notou um quadro pendurado perto da estante.
Era uma pintura a óleo, mostrando uma cena de jardim ensolarado e florido, onde
alguns degraus de madeira levavam a um coreto encantador, com paredes de treliça.
Uma cena tão bonita e repousante, que Laura sentiu-se ensaiar alguns passos na direção
do coreto, respirando o gentil aroma das flores e desfrutando o calor do sol em seus
ombros...
Um ruído no andar de cima quebrou o encanto e ela afastou-se do quadro,
imaginando quem o teria pintado e certa de que o autor, ou autora, era excepcionalmente
talentoso.
Em ritmo pausado, Laura subiu a escada e chegou a um quarto que, pelo barulho
abafado, devia ser o dos meninos. Da porta aberta ela viu as duas camas iguais e,
debaixo de uma delas, dois pares de pés infantis, cobertos com meias. Sorriu, pigarreou
de propósito para denunciar sua presença e então, ocupando o centro do cômodo, gritou
num tom brincalhão:
— Cadê esses diabinhos? Onde se esconderam?
Nick só apareceu quase à meia-noite. Como se estivesse totalmente condicionada,
Laura sentiu o coração bater mais depressa assim que ouviu a porta abrir-se. Veio
apreensiva da cozinha para a sala.
— Laura? Cheguei. Ah, você está aí. — Ele já ia tirando o elegante paletó escuro. —
E os meninos? Tudo bem?
— Sim, sim. E Sally? — Ela mordeu o lábio de tanta preocupação.
— Passa bem. Teve uma menina. A menina que sempre quis. James chegou a tempo
de acompanhar o parto. Estão felizes. Todos nós estamos.
— Fico contente. Então o tombo não prejudicou nada...
— Não. Foi sorte. — Ele jogou o paletó sobre uma poltrona e aproximou-se de Laura,
que não reagiu, deixando-se envolver pelo magnetismo de Nick. — Obrigado por tudo,
novamente.
— Acho que já vou indo, então — disse ela, um tanto embaraçada. — Que bom que
tudo deu certo!
Nick a tomou pelo braço suavemente.
— Por favor, fique. Acompanhe-me num brinde à minha nova sobrinha. James vai
passar a noite no hospital e não quero beber sozinho.

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Os dedos de Nick, pressionando-lhe o antebraço, enviavam um choque perturbador


para todo o seu corpo. O instinto a alertava para não aceitar o convite, mas ela decidiu
que seria impossível recusar, ao menos por educação.
— Sim, um drinque será ótimo. — Laura esboçou um sorriso e, com aparente
naturalidade, libertou seu braço da mão de Nick.
Ela ocupou a mesma poltrona onde estivera folheando revistas durante a espera.
Ajeitou a almofada de couro preto sob a cabeça e observou Nick preparando duas taças
de bebida no bar da sala. O ambiente era magnífico. Das janelas sem cortina tinha-se a
visão de um braço de mar e das luzes da cidade de Vancouver, do outro lado da enseada.
Num pensamento estranho, Laura imaginou Jason sentado ali, com suas roupas finas, os
sapatos caros e as unhas impecavelmente tratadas...
Entretanto, assim como a casa que haviam ocupado em Toronto, esta não era um
verdadeiro lar. Era um amontoado de cômodos amplos e bem decorados, confortáveis,
mas faltava-lhe um calor humano que aquele sugestivo quadro a óleo, por si só, não era
capaz de fornecer. Tudo ali se resumia a uma fria perfeição.
O som da rolha estourando e o borbulhar do champanhe nas taças a despertou desse
devaneio. Nick passou-lhe a bebida e comandou o brinde.
— Ao novo bebê!
Ela repetiu num murmúrio e perguntou, de modo mais audível:
— Já tem nome?
— Bem, como padrinho, vou propor Nicole.
— Bonito... — Laura parecia sem jeito, como uma adolescente no primeiro encontro
e, sentindo as faces rubras, concluiu que aquele era mesmo um primeiro encontro.
Essa certeza poderia ter-lhe aliviado a .tensão, mas não foi o que ocorreu. Ele
aparentava calma e segurança, sem pressa de quebrar o gelo, se é que queria isso, e ela
sentiu-se obrigada a facilitar as coisas, animando a conversa.
— Você já foi padrinho antes?
Que vexame, notou imediatamente. Que pergunta idiota!
— Não, esta é a primeira vez — respondeu Nick, sem ênfase.
— Mas você gosta de crianças...
— Sim, adoro meus sobrinhos. Não tenho um momento sequer de tédio quando eles
estão por perto. Gostaria de ter mais tempo para Matt e Mike. Infelizmente, o trabalho
vem antes do prazer. — Nick sorriu e continuou: — Meus negócios deixam pouco espaço
para qualquer outra coisa.
— Deve haver algum equilíbrio na vida de uma pessoa — afirmou Laura em tom
amistoso.
A resposta de Nick foi acompanhada de um riso irônico.
— Equilíbrio? Não me preocupo com isso. Aliás, você tem equilíbrio em sua vida?
— Não, não tenho.
— Então, quem tem telhado de vidro não deveria atirar a primeira pedra.
Laura sentiu-se desafiada e olhou firme para Nick.
— A diferença é que eu planejo acabar com esse desequilíbrio. E, já que estamos
filosofando, a vida não volta atrás. Quando alguém percebe que só se dedicou ao trabalho
e a fazer fortuna, deixando de lado coisas mais importantes, às vezes é tarde demais.
— Acho que um homem tem de fazer o que for necessário. Embora as palavras

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tenham sido pronunciadas suavemente,


Laura notou que a serenidade havia abandonado o rosto de Nick. Ele não mais sorria
para ela nem a desafiava com o olhar. Sua expressão tornou-se sombria, como se os
pensamentos se dirigissem a um ponto inacessível para Laura.
Ela sentiu-se responsável por esse desvio de rumo e quis consertar a situação,
mudando de assunto.
— O que faz James?
Surpreendido, Nick voltou sua atenção para Laura.
— O marido de Sally? Ele é representante de vendas de uma indústria de
aquecedores. Para todo o Canadá. Está se saindo muito bem.
— James deve ter muito orgulho da família, não? Ele e Sally parecem felizes com os
dois filhos e, agora, com uma menina. —-Laura mostrou-se contente por ter conseguido
desanuviar o diálogo com Nick. — Vai se chamar só Nicole?
— Nicole Jane — ajuntou Nick abruptamente.
— Homenagem a alguém, ou é um nome de que Sally gosta?
— Jane era o nome de nossa mãe.
— Oh, desculpe. Ela ainda vive?
— Não. Já faleceu.
Por um segundo, pareceu que uma forte emoção toldava a face de Nick, uma emoção
bastante familiar a Laura, que fitou seu interlocutor com curiosidade, enquanto ele
terminava a taça de champanhe. A aspereza de seu tom fez Laura sentir-se des-
confortável, mas certa de que havia tocado num ponto sensível.
Uma pesada tensão voltou a reinar na sala. Estava claro que Nick não pretendia
continuar aquele assunto. Laura tomou o resto de sua bebida e depositou a taça na
mesinha de centro. Depois, cuidadosamente, anunciou:
— Agora preciso ir.
Ele não tentou convencê-la a ficar mais algum tempo, nem ofereceu outra taça de
champanhe. Ao contrário, inclinou a cabeça num gesto de concordância e a acompanhou
pelo saguão de entrada, onde ela recolheu sua capa, ainda úmida.
Do lado de fora, Laura percebeu que a chuva havia diminuído, mas ainda soprava um
vento forte. Apesar de seus protestos, Nick fez questão de acompanhá-la até a entrada do
chalé, conduzindo-a pelo braço através da ventania. Protegeu-a das rajadas com o corpo,
enquanto ela destrancava a porta, e imediatamente fez menção de voltar para casa,
dizendo apenas:
— Tenha uma boa noite. E obrigado de novo.
— Não há de quê — respondeu Laura, sem saber se ele a havia escutado, pois já
estava a meio caminho do portão, quase invisível na noite tempestuosa.
Dentro de casa, Laura foi direto ao quarto, sentou-se na cama e tirou as sandálias
molhadas. Que homem estranho, refletiu. Por que mudara tanto ao falar de sua mãe?
Ela franziu a testa ao compreender por que o ar sombrio de Nick lhe parecera tão
familiar. Tinha visto ao espelho, mui-, tas vezes, a mesma expressão na própria face,
durante os anos do infeliz casamento com Jason. Estava agora tentando superar o drama
e pensar só no futuro, mas não era fácil.
No caso de Nick Diamond, ela concluiu que de nada adiantaria atormentá-lo, fazendo-
o remexer em suas lembranças. A mãe dele estava morta; talvez um problema familiar

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tivesse ocorrido e ele ainda não tivera meios de superar isso. Não era o tipo de homem,
meditou Laura sensatamente, que admitisse a necessidade de uma psicoterapia para
equacionar melhor seu lado emocional; ele tomaria isso por fraqueza e preferiria carregar
suas angústias pela vida afora.
Laura suspirou desconsolada ao erguer-se da cama e começar a despir-se. Nada
poderia fazer para ajudar aquele homem; tinha seus próprios problemas.
Havia percorrido um longo caminho, mas sabia que ainda restava um bom trecho a
percorrer.
Por volta das dez horas da manhã seguinte, Matt e Mike vieram ter à porta de Laura,
acompanhados de um homem alto e loiro, seu pai James Peterson. Matt sorria e
segurava um pacote embrulhado com capricho.
— Chocolates belgas — explicou James. — Idéia de Sally. Eu sugeri flores, mas ela
disse que você tem muitas delas no jardim. Além disso, ela não quer apenas agradecer,
mas engordar você...
Com o mesmo bom humor, James recusou o convite de Laura para entrar e
continuou:
— Sally vai ficar internada por mais três dias e pediu que você a visite. Tirei duas
semanas de férias, mas à tarde devo fazer companhia aos meninos, por isso ela gostará
de vê-la.
Pela impaciência de Matt e Mike, Laura deduziu que estavam indo visitar a mãe.
— Bem, não vou tomar o tempo de vocês. Agradeçam a Sally pelo presente. Gostei
muito.
Laura esperou que se afastassem e, pouco depois, viu o carro de James sair pelo
portão vizinho, seguido de perto pelo Porsche de Nick. Decidiu passar o resto da manhã
cuidando do jardim, sabendo que Nick não a estaria espiando pela janela.
Disposta a evitar um maior envolvimento com a família de Nick, Laura decidiu não
visitar Sally no hospital, mas não conseguia parar de pensar nela. Tocada em seu instinto
maternal, imaginou como seria agradável ajudar a cuidar do bebê, a pequena Nicole
Jane.
Na tarde anterior à volta de Sally para casa, Laura foi até o vilarejo e comprou um
presente para a criança, um maca-cãozinho listrado, branco e rosa. Não resistiu à
curiosidade e, tomando um ônibus, chegou ao hospital distrital por volta das sete da noite.
Sally ocupava um quarto particular e o bebê dormia num bercinho aos pés da cama. A
nova mamãe não estava deitada, como esperava, e sim de pé em frente à janela, olhando
para fora. Ouviu Laura entrar e girou o corpo, recebendo-a animadamente com um
abraço.
— Laura! Que bom que você veio. — Sally tinha o rosto pálido, mas os olhos
brilhavam.
— Comprei um presentinho. Espero que ainda não tenha completado o enxoval do
nenê.
— Você está certa. — Sally desembrulhou a roupinha, abriu-a e manifestou sua
satisfação. — Prático e bonito. Obrigada. Venha ver minha menininha querida,
Laura arregalou os olhos ao ver aquele rostinho perfeito, com uma penugem loira no
lugar de cabelos e o corpinho frágil que produziu um aperto no seu coração.
— Ela é linda, mas tão pequenina. Não sabia que os dedos da mão podiam ser tão

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finos. E a primeira vez que vejo um recém-nascido. Acho que teria medo de segurar no
colo, você não?
— Com Matt, que foi o primeiro, eu ficava nervosa. Agora já sou veterana nisso. —
Ela levantou a criança do berço, embrulhando-a num cobertor rosa, tocou-lhe o rostinho
com um dedo e ofereceu para Laura pegar.
Laura retesou todos os músculos enquanto ninava o bebê nos braços.
— É uma maravilha. Você tem uma família adorável.
O tom melancólico que acompanhou a frase ecoou no quarto silencioso. Ao virar a
cabeça para ajeitar a criança no colo, Laura percebeu que havia mais alguém ali, junto à
porta, observando a cena. Sentiu as faces queimarem. Há quanto tempo Nick Diamond já
estaria ali?
De costas para a porta, Sally não tinha percebido a chegada do irmão e foi preciso
Laura chamá-la para que se voltasse e recebesse um abraço afetuoso.
— Nick! Não esperava você esta noite!
— Achei que você gostaria de ter companhia. — Ele a soltou de seus braços. —
Claro, também vim conferir se estão cuidando bem de minha sobrinha... E você, Laura,
tudo bem? Não a vejo desde aquela noite.
— Sim, tudo bem comigo. — Devolveu o bebê ao bercinho.
— Foi uma sorte você estar em casa — disse Sally. — Não sei o que faria sem sua
ajuda.
— Fiquei contente em poder ser útil. E obrigada pelos chocolates, gostei muito.
Nick deteve-se a olhar a sobrinha. Tocou-lhe a bochecha ternamente com o dedo
indicador, num gesto que chamou a atenção de Laura pelo inesperado. Esse homem
meigo seria o mesmo que falara tão rudemente com ela?
— Quando será a próxima mamada? — perguntou à irmã.
— Ela mamou um pouquinho antes de Laura chegar.
— Nesse caso — anunciou com firmeza —, você vai para a cama e nós desceremos
para um café. Voltaremos em quinze minutos mas, se estiver dormindo, vou direto para
casa e levo Laura comigo. Você veio de ônibus? — A pergunta era dirigida a Laura.
— Sim. Pegarei a mesma linha para voltar.
— Não, não. Eu lhe dou carona. Certo, Sally?
— Você é a pessoa mais dominadora que conheço — afirmou Sally, desatando o robe
que usava e erguendo os lençóis da cama para deitar-se. — Sinto muito, Laura. Gostaria
que você ficasse mais, para conversarmos. Se eu estiver dormindo quando você subir
com Nick, irei visitá-la em seu chalé, dentro de alguns dias. Estou me sentindo mais forte.
— Tomara. Ficarei à espera. — Laura notou que as pálpebras de Sally quase se
fechavam de sono e concluiu que, naquela noite, não haveria como conversarem.
— Vamos ao café. — Nick tocou-lhe o cotovelo com a mão.
No saguão, Laura tentou escapar da proposta de Nick.
— Eu jantei antes de vir. Não vou querer café.
— Não precisa tomar nada, mas seja sociável. É só um pretexto para falarmos sobre
um assunto que...
— Se quer conversar, vamos até minha casa. Posso fazer um café melhor que o da
lanchonete do hospital. A não ser que você queira voltar ao quarto de Sally.
— Não, eu a conheço. Já deve estar no segundo sono. Podemos ir.

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Chamaram o elevador que, para alívio de Laura, não demorou a chegar. O carro de
Nick estava no estacionamento do térreo e ele a conduziu até lá, segurando-lhe
levemente o braço. Mera formalidade, pensou Laura, mas ela pôde sentir o calor másculo
daquele homem invadindo-lhe todo o corpo.
Tentou concentrar-se em outra coisa além do excitamento que Nick provocava nela
cada vez que a tocava. Ele dissera que tinha um assunto a tratar. O que poderia ser?

CAPÍTULO V

Então, é você que quer comprar meu chalé? Laura depôs a xícara de café na
mesinha do pátio, dando a si mesma uma pausa para organizar os pensamentos. Quando
o advogado lhe falara das diversas propostas para a venda de Roseira Silvestre, ela nem
quis saber de detalhes como o valor oferecido ou a identidade dos interessados, porque
não estava disposta a negociar. Jamais lhe ocorrera que Nick Diamond podia ser um
desses proponentes, daí sua surpresa.
Talvez a simples visão daquela antiga e modesta propriedade representasse um
desafio para um incorporador imobiliário como Nick. Estaria pretendendo derrubar a casa
e construir no lugar mais um monumento ao seu sucesso? Tentando aparentar calma,
Laura cruzou as mãos sobre o regaço e olhou firmemente para ele.
— Chegou a fazer alguma proposta a minha tia, quando ela ainda estava viva?
— Sim. — Nick ocupava uma cadeira de vime bem em frente, e sua atitude
displicente contrastava com o brilho de seus olhos cinzentos. — Faz uns dois anos.
— E?... — Laura ergueu as sobrancelhas, na expectativa.
— Não deu certo. Mas quem sabe você tenha interesse em vender.
Laura ficou pensativa e demorou-se na resposta.
—Você derrubaria o chalé para construir uma supermansão?
— Não.
— Reformaria totalmente, então?
— Eu... não disse isso. — Ele levantou-se e foi até o extremo do pátio antes de voltar-
se novamente para Laura.
— Um novo loteamento, o Parque Diamond, estará pronto dentro de alguns meses, e
aí começa a fase final de meu projeto. Comprei as terras há quatro anos, acreditando que
a prefeitura abriria uma estrada até lá, mas isso não vai mais acontecer. Já foi decidido.
— Nick sorriu com auto-indulgência. — Piquei sem acesso aos lotes.
— E para que precisa de Roseira Silvestre?
— É que a localização das terras, do lado leste da colina, é muito peculiar. Há
rochedos de um lado, barrancos de outro, casas construídas no terceiro. O único lado
livre para passagem fica na direção do seu chalé.
Estaria Laura entendendo bem? Ela inclinou a cabeça, levou uma das mãos à testa,
sentiu-se desconfortável. Não poderia ser verdade. Quando olhou para ele de novo e viu
a expressão determinada, não teve dúvidas sobre suas intenções.
— Você não quer dizer que... — ela murmurou.
— Bem, é isso, infelizmente. O caminho para o Parque Diamond passa pelo bosque.
Uma boa parte das árvores terá de ser derrubada. Devo construir umas trinta casas, todas

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de alto luxo. Por isso, preciso de seu terreno. O chalé tornou-se obsoleto aqui. E minha
oferta por ele será generosa. Pode consultar seu advogado. Seria tolice recusar.
— Então, pode me chamar de tola, senhor Diamond. E também de velharia. — Laura
ergueu-se toda trêmula, a cabeça rodando. — Existem coisas que o dinheiro não pode
comprar, e Roseira Silvestre é uma delas. Nada mais tenho a dizer, a não ser pedir que se
retire.
Laura caminhou para dentro da casa, parando para fechar ruidosamente os janelões
que davam para o pátio. Pôde ver que a expressão de Nick era sombria, os braços
pendentes ao longo do corpo, os olhos nublados de frustração.
Lembranças de outro homem, de outro dia, de outro momento de raiva vieram à
mente de Laura numa onda avassaladora.
Entretanto, ao deixar-se cair debilmente sobre uma poltrona, não pôde evitar um
sentimento de satisfação. Estava orgulhosa de si mesma, de ter mostrado determinação e
autocontrole, de modo que ninguém pudesse forçá-la a fazer nada que não quisesse.
A batalha contra Nick Diamond estava apenas começando, pensou Laura, com uma
ponta de pânico. Ele não era homem de desistir facilmente. Mas essa era uma luta que,
imaginou, poderia ganhar.
Dias mais tarde, Marvin Twigg, o advogado de tia Charity, contou a Laura, pelo
telefone, que a Incorporadora Diamond, empresa que já vinha fazendo ofertas por Roseira
Silvestre, apresentara desta vez uma proposta astronômica, irrecusável.
Laura escondeu o fato de que estava furiosa não só com Nick Diamond, mas com o
advogado também.
— Já discuti esse assunto com o dono dessa empresa. Ele conhece minha posição.
Eu achei que estava claro, para o senhor também, que não quero vender. Nem agora nem
nunca.
— Senhorita Grant, é meu dever alertar que o mercado imobiliário anda em baixa no
momento, e que uma oferta assim dificilmente se repetirá.
Laura suspirou, aborrecida, e esticou o fio do telefone até poder olhar a paisagem
pela janela.
— Sei que o senhor pensa no que é melhor para mim. Então, de uma vez por todas,
Roseira Silvestre é o que há de melhor para mim.
Poderia acrescentar que, da janela da cozinha, via a copa das árvores verdes antes
contra o céu claro e um esquilo escavando o relvado com suas patinhas marrons.
Escutava o canto dos pássaros pousados nos ramos e sentia o aroma de lírios do
canteiro mais próximo.
Deduziu que nada disso sensibilizaria o advogado, e apenas completou:
— Nada me fará vender este lugar.
— Entendo, mas se mudar de idéia ligue...
— Não vou mudar de idéia. Por favor, diga ao senhor Diamond que essa é minha
palavra final.
Após desligar, Laura permaneceu ali parada por alguns instantes, meditando, e
recordou as palavras do taxista quando ela chegava a Juniper Ridge: "Ele vendeu a alma
por dinheiro". Seria verdade que Nick Diamond não tinha mais alma? Seria tão grande
assim sua ganância e sua vontade de poder?
Difícil acreditar, quando se lembrava do modo afetuoso e protetor como havia tratado

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sua irmã, da ternura que demonstrara para com a nova sobrinha. Não tinha dúvidas,
porém, da raiva e frustração de Nick quando ela, Laura, afirmara que nunca venderia o
chalé.
Um pequeno tremor percorreu-lhe o corpo. Roseira Silvestre apareceu-lhe
mentalmente como uma prisão, uma armadilha: de um lado, o bosque proibido para ela;
do outro, a mansão monstruosa de Nick Diamond, enviando vibrações negativas agora e
sempre...
Suspirou profundamente e dirigiu-se à sala. Ao resolver mudar-se para Roseira
Silvestre, só pensava em viver em paz num lugar em que pudesse superar seu passado
infeliz e juntar forças, de corpo e alma, para uma fase de renovação.
"A senhora precisa de uma mudança completa. Vá para Vancouver", encorajara a
simpática governanta da mansão de Jason, em Toronto, depois da morte do patrão. "A
verdadeira felicidade vem de dentro. Lá em Roseira Silvestre a senhora se reencontrará
consigo mesma."
Que conselho aquela mulher sábia e prática lhe daria agora? Tia Charity a havia
apresentado à natureza e suas maravilhas. Maravilhas agora proibidas a ela por Nick
Diamond. O doloroso vazio no coração de Laura lhe trouxe lágrimas aos olhos. Desejava
passear no bosque apenas mais uma vez e comprovar se ainda existia ali a mesma
magia.
Sim, decidiu, ela entraria de novo na mata de Juniper Ridge.
Se Nick Diamond descobrisse, poderia processá-la. Mas Laura se recusou a
considerar essa possibilidade, bem como suas conseqüências. Faria o que tinha de ser
feito. Sentiu-se envolvida por um sentimento de urgência. Iria naquele mesmo momento
ao bosque, desafiando qualquer proibição.
Os raios de sol atravessavam a espessa galharia das árvores gigantes e tocavam os
ombros de Laura durante a caminhada pela estreita trilha que levava ao coração da mata.
Seus passos na terra seca arrancavam estalidos das folhas caídas e das agulhas de
pinheiros. O ruído era maior quando ela pousava os pés no chão após saltar
corajosamente as raízes expostas que se retorciam pelo trajeto.
Lembrava-se de tudo exatamente como era: o cheiro de terra, o profundo silêncio, a
sensação de estar fora do mundo e de seus problemas. Apesar do sol forte, havia ali um
frescor único, e seus passos se alargaram à medida que um arrepio se espalhava por sua
pele.
Quase podia sentir a presença de tia Charity a seu lado, conduzindo-a firmemente
com mão segura, indicando o caminho para a clareira. A clareira onde viviam as fadas,
longe dos olhos humanos...
E ali estava: a clareira de tia Charity.
Sem perceber, Laura estivera retendo a respiração, e agora soltava todo o ar dos
pulmões, feliz com a cena à sua frente.
A clareira tinha aproximadamente a mesma área de Roseira Silvestre e era margeada
por magníficos abetos e dedaleiras. Flores selvagens de todos os tamanhos e cores
dançavam sob a brisa.
Laura procurou um ponto ensolarado e brilhante, sentiu o calor em sua pele após a
caminhada nas sombras da trilha. O musgo estendia-se a seus pés, seco e limpo, e o ar
naquele ponto do descampado estava claro como cristal. Uma borboleta branca esvoaçou

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

e, em segundos, desapareceu em meio às flores escarlates de um rododendro.


Sim, a clareira continuava repleta de magia.
Laura fechou os olhos e respirou a essência do lugar, recapturando no fundo da
memória aqueles momentos marcantes de seus dez anos, ao lado de tia Charity.
Momentos de passeios, conversas, descobertas...
A medida que as lembranças se tornavam mais vivas, Laura foi capaz de avaliá-las
de perto e conhecer seu valor. Elas eram parte da mulher que se tornara, e agradecia a
tia Charity por isso. Onde e como estaria agora, não fossem essas mágicas recordações?
Teria tido condições de voltar ali, após anos de infelicidade?
— Está gostando?
As palavras cáusticas de Nick Diamond, bem atrás dela, a despertaram de seus
pensamentos. Não se assustou, pois estava imersa na calmaria do bosque, mas
surpreendeu-se ao ver Nick vestido esportivamente, com calça jeans clara, camiseta
branca e tênis, óculos escuros escondiam. seus perturbadores olhos cinzentos.
— Pensei que estivesse com seus advogados, senhor Diamond. — A voz saiu
modulada, mais aguda do que gostaria.
Denunciava timidez e uma atitude de defesa, e Laura se censurou interiormente.
— Ah, quando o gato está fora... — Nick continuava sorrindo ironicamente.
Nunca Laura tinha encontrado alguém tão empenhado em estragar o dia dos outros.
— Não estou fazendo nada errado — ela devolveu. — Apenas passeando. Como
soube que eu estava aqui? E como veio tão rápido do vilarejo?
Ele venceu em poucas passadas silenciosas o espaço que os separava e afastou
com a mão uma mecha de cabelos que a brisa fazia cair sobre sua testa. Manteve o tom
zombeteiro:
— E o que a faz pensar que eu estava no vilarejo?
Ela deu de ombros, tentando demonstrar despreocupação.
— Marvin Twigg disse que ia ligar para o escritório de advocacia, onde você esperava
uma resposta...
— Estávamos, de fato, esperando a ligação. — O tom se suavizou. — Mas não no
escritório da firma, e sim na minha
casa.
— E viu quando eu saí?
— Bem, a reunião terminou, vi você entrando no bosque e resolvi segui-la.
— Vai chamar a polícia para me dar uma multa? — Laura conseguiu recuperar a
firmeza na voz, que soou desafiadora. — Qual será o castigo por passear num lugar que
Deus fez para o prazer de todos? Talvez você solicite minha prisão. — Cerrou os punhos
e estendeu as mãos na direção de Nick, como se esperasse ser algemada. — Vá em
frente!
— Não me tente! — Os lábios apertados de Nick mostravam sua contrariedade. —
Pode ser uma boa idéia, mas não vou fazer nada disso. Vim atrás de você simplesmente
para saber por que recusou minha oferta,
Laura deixou os braços caírem ao longo do corpo.
— Porque o chalé, para mim, vale mais do que qualquer dinheiro que possa me
oferecer.
Nick a olhou com um sorriso arrogante.

Projeto Revisoras 31
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— Ah, agora chegamos ao ponto. Diga apenas quanto quer.


— Quanto quero? — Laura fitou seu reflexo nas lentes dos óculos de Nick e viu um
rosto alterado. — O que pretende, senhor Diamond?
Os lábios dele se comprimiram de novo e toda arrogância já havia desaparecido.
— Gostaria que você admitisse não ligar nem um pouco para Roseira Silvestre, assim
como não ligava para Charity Brown.
— Claro que eu ligava para ela. Eu a amava!
— Amava? Que estranha maneira de demonstrar amor! Tenho pena do homem com
que se casou, se é que já foi casada. Você abandonou sua tia.
— Não compreende? Eu não pude...
— Não pôde vir visitá-la... por treze anos? — O sarcasmo de Nick deixou Laura
gelada. — O que passou por sua cabeça quando soube que ela lhe deixara o chalé?
Dançou de alegria? Ela teve muitos amigos que foram vê-la no hospital, mas morreu
esperando pela sobrinha que nunca veio.
A agressão atingiu Laura profundamente. Lágrimas incontroláveis lhe brotaram dos
olhos, entre soluços. Não era verdade. Nick estava errado. Passando por ele, tentou
voltar à trilha para retornar, mas Nick a agarrou pelo braço e a puxou para perto de si,
encarando-a com um olhar severo.
— Não fuja. Guarde as lágrimas para melhor ocasião. A realidade, como eu a vejo, é
que você é uma jovem mulher sem dinheiro e sem trabalho, que de repente herdou uma
propriedade valiosa e quer se aproveitar da situação.
Laura se debateu para libertar-se, enquanto ele prosseguia:
— Posso compreender isso. Eu faria a mesma coisa, portanto... Mas há uma
diferença entre nós. Eu sou pela abordagem direta, você gosta de jogar. E neste caso
você tem as cartas na mão. Tudo bem, não quero perder mais tempo. Diga seu preço,
senhorita Grant.
— Largue-me. Deixe-me ir — ela gritou, quase sem fôlego.

CAPÍTULO VI

Laura conseguiu desvencilhar-se de Nick e, com um soluço preso na garganta, correu


para a trilha. Estava quase alcançando o caminho quando sentiu os ombros serem
puxados para trás.
— Não fuja. — Nick fez Laura virar-se para encará-lo; o suor escorria dê sua testa.
Ela o empurrou com uma força inesperada, o sangue a ferver nas veias. Ele
desequilibrou-se no chão irregular e foi tombando para trás, mas o alívio de Laura durou
pouco. Ao cair, Nick a prendeu pelo pulso com a mão estendida e a levou junto na queda.
Laura desabou pesadamente sobre o peito dele e, pela primeira vez, sentiu de perto
sua respiração ofegante e seu corpo firme. Os óculos escuros haviam saltado do rosto de
Nick, dando a perceber seu olhar irônico, acompanhado de um sorriso também
zombeteiro, enquanto ele a enlaçava suavemente com os braços.
— Talvez você goste dessa posição — observou em tom malicioso, para em seguida
rolar o corpo sobre o de Laura, num movimento tão ágil que a deixou inerte por baixo
dele. — Eu prefiro outra.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Parcialmente agachado em cima dela, Nick apoiava o corpo com as duas mãos no
solo, de ambos os lados da cabeça de Laura, que permanecia muda, sem saber o que
fazer. Nada semelhante, com nenhum homem, havia acontecido em sua experiência
anterior. Nicholas Diamond, com aquela rude e arrogante sensualidade, a fazia sentir-se
como uma adolescente no primeiro encontro amoroso.
Com a humilhação crescendo em ondas dentro dela, Laura dobrou a cabeça para o
chão, sentindo o musgo tocar-lhe a face e o gosto salgado de uma lágrima no canto da
boca.
— Vá embora — gritou entre soluços. — Vá embora e me deixe em paz.
Por um longo momento, Nick não se moveu. Laura podia sentir a pressão de suas
pernas contra ela, provocando-lhe sensações confusas. Com um suspiro de desespero,
tentou mover lateralmente os quadris, para livrar-se do peso de Nick, mas não contava
com a força muscular daquele corpo sobre o dela.
Fechando os olhos, rezou para que ele a deixasse, e finalmente Nick ergueu-se com
um impulso nas mãos, mas não ficou de pé. Apenas rolou para o lado, e Laura sentiu que
ele estava deitado rente às suas costas, sem mexer-se. Com o coração disparado,
imaginou-se à beira de uma crise nervosa e repetiu mentalmente: "Vá embora, vá
embora".
Só depois de alguns minutos, que lhe pareceram uma eternidade, Laura notou um
movimento, um leve tremor no solo debaixo de sua face, indicando que, finalmente, Nick
havia se levantado.
Devia estar com uma aparência horrível, pensou Laura, deitada ali no musgo,
despenteada, olhos fechados, roupas desfeitas e lágrimas nos olhos. Na tentativa de
controlar sua respiração irregular, ela forçou-se a manter as pálpebras abertas e, sem
olhar diretamente para Nick, ergueu o peito e girou até conseguir ficar sentada.
Pelo canto do olho, viu a mão dele estendida, para ajudá-la a levantar-se. Laura
ignorou a gentileza e pôs-se de pé por suas próprias forças.
— Laura... — a voz grave de Nick parecia cheia de remorso. — Você está chorando.
Sinto muito.
— Apenas deixe-me ir — ela respondeu num tom abafado. Novamente fez menção
de ir para a trilha, e desta vez ele não a segurou pelo braço, mas ficou parado à sua
frente, bloqueando a saída.
— Você não pensou que eu iria forçá-la a alguma coisa... quero dizer... violentá-la. —
Nick estava muito sério.
— Não seria surpresa para mim — Laura conseguiu articular.
— Meu Deus, você tem mesmo uma péssima opinião sobre mim, não?
— Não é apenas você. — A voz dela se tornou cortante. — Não se gabe de ser
alguém especial. Acho que a maioria dos homens é assim. Pegam o que querem. Pela
força bruta, se necessário.
— Se eu quisesse pegar você, dispensaria a força. Acredite. O olhar nublado e o tom
subitamente sereno de Nick não diminuíam sua incrível dose de arrogância masculina. A
tensão sexual que percorria o ar entre os dois deixou Laura em pânico. Ela tentou passar
por ele, mas o braço estendido até um tronco de árvore servia como barreira, paralisando-
a.
Laura fixou o olhar no rosto de Nick, com o peito arfando em movimentos agitados.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Ao estender o braço, ele intensificara o leve cheiro de suor que Laura absorvia agora
como uma essência erótica, e esta a fazia pulsar em sensações calorosas e agradáveis,
embora indesejadas.
— Deixe-me passar, por favor. — A intenção era exprimir uma ordem, mas a frase
soou mais como um apelo desesperado.
— Há algo em você que me fascina — Nick falava sensualmente. — Não sei bem o
que é. Talvez seja sua natureza indomável, como as rosas silvestres que crescem no seu
jardim. Seu rosto, entretanto, me dá a sensação de que precisa de alguém para tomar
conta de você. Talvez porque seja magra... talvez porque tenha no olhar essa expressão
triste... talvez porque sua boca esteja sempre curvada para baixo, como se a vida tivesse
sido muito má com você...
Ela deu um passo à frente, esperando que, ao roçar o corpo no braço de Nick, ele
relaxaria o bloqueio e a deixaria ir. Não foi o que aconteceu. Nick passou o braço pelo
pescoço de Laura e a trouxe para mais perto de seu rosto, quase encostando os lábios
nos dela. Laura sentiu seu hálito quente, viu as gotículas de suor ao redor da boca firme e
bem desenhada. Conscientemente, sabia que poderia deslizar para o lado e escapar
daquele homem. Mas era isso que desejava, no fundo de si? De repente, sentiu-se
letárgica, sem vontade própria, e só conseguiu murmurar:
— Por favor... não...
O protesto de nada adiantou. Nick abaixou vagarosamente a cabeça na direção de
sua boca, e qualquer outra palavra que Laura pronunciasse se perderia sob a pressão
dos lábios dele.
O longo beijo tinha um gosto misto de doce e salgado, mas era o mais excitante que
ela jamais havia dado ou recebido.
Um beijo quente, perigoso por causa da química amorosa que se produzia entre os
dois, deixando Laura confusa com desconhecidas sensações de desejo.
Irresistível desejo. Ou poderia ainda tentar escapar?
Ela empurrou Nick pelo peito, mas o braço dele continuava a apertá-la levemente e a
outra mão deslizou dos cabelos para os seios, acariciando-os sobre a blusa, em
movimentos ritmados.
O beijo se prolongou até parecer não ter mais fim. Transformou-se de carinho suave
numa provocação sensual, num despertar de reações nervosas que lhe percorriam o
corpo como ela jamais havia sentido.
As pernas de Laura perderam a firmeza e ela abandonou-se nos braços de Nick,
tocando-lhe o peito e os músculos enquanto um estremecimento o percorria da cabeça
aos pés.
Ele a apertou mais fortemente contra si e a conduziu para trás, até encostar no
tronco. Num misto de abandono e excitação, ela pôde sentir a árvore pressionando suas
costas, o sol batendo nas faces coradas. Nick levou a mão aos botões da blusa e
começou a abri-la.
Laura sabia que deveria lutar, e isso era o que lhe dizia a razão. Mas o coração e os
sentidos enviavam uma mensagem diferente, e ela nada fez para deter Nick quando este
lhe tirou o sutiã com impaciência.
Fechando os olhos, ouvindo os sons mais sutis que emanavam do bosque, Laura
entregou-se às carícias de Nick, cujas mãos estimulavam seus pontos mais sensíveis.

Projeto Revisoras 34
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Quando ela pensava não poder mais suportar, Nick afrouxou a intensidade do beijo e,
apenas encostando seus lábios nos dela, abriu caminho com a língua para dentro da boca
cálida e fremente.
Sensações intensas a dominaram. O que ele ainda iria fazer com ela? Queimando de
calor, Laura jamais imaginara que fazer amor podia ser tão excitante.
De repente, como se acordasse de um sonho, Laura sentiu a razão voltar e, com um
grito contido, safou-se do abraço de Nick. Dando-lhe as costas, cruzou os braços em
torno de si para cobrir-se e piscou fortemente os olhos.
— Laura? — A voz denotava frustração e ela não respondeu; apenas afastou
intempestivamente o ombro quando Nick o alcançou com os dedos, como se de repente
não agüentasse ser tocada por ele.
Um pesado silêncio os envolveu e, conforme os minutos passavam, Laura sentia-se
cada vez mais envergonhada.
Como podia ter ido tão longe com um homem que mal conhecia? Como podia ter-se
mostrado tão frágil, tão vulnerável? E ela não devia ser nem de longe o tipo de mulher
apreciado por Nick: tão tímida, tão seca, tão ignorante da arte de dar prazer a um homem.
Então, por quê?
A resposta lhe veio à mente rápida como um raio. Sentiu-se tola e desprezível por ter
cedido a alguém que declaradamente só tinha objetivos materiais e que apenas se
aproveitara de sua desesperada necessidade de carinho e afeto. Com os dedos trêmulos,
recolocou o sutiã e começou a fechar a blusa.
— Você está bem, Laura? O que houve?
Ela respirou fundo e voltou-se para olhar Nick diretamente. Ele a encarava firme,
dentro de seus olhos azuis lacrimejantes, como se tentasse enxergar o interior de sua
alma. Mas, quando ele se aproximou, ela inclinou-se para trás e pôs a palma da mão à
frente do rosto.
— Pare — disse com aspereza, sentindo o sangue abandonar sua face. — Não vai
dar certo.
— Do que está falando? O que não vai dar certo?
— Essa sua tentativa de sedução. Você foi esperto, mas percebi a tempo. Que pena
que não adiantou me seguir até aqui. Continua longe de conseguir comprar Roseira
Silvestre.
— Não é possível. Você realmente pensa assim? — Nick demonstrou incredulidade
na voz e nas rugas da testa.
É um excelente ator, pensou Laura. Com grande esforço, ela ficou de pé e encarou
de frente a expressão ofendida dele.
— Não posso imaginar que você se interesse por uma mulher do meu tipo. Nem
posso imaginar que tenha de seguir Chapeuzinho Vermelho pelo bosque, para satisfazer
suas vontades. Sim, é como eu realmente penso.
— E você — rebateu Nick —, costuma ser tão receptiva aos beijos de um homem,
quando quer satisfazer suas vontades?
Sim, mas só aos beijos dele, meditou Laura. Jamais deixaria que soubesse como ela
era vulnerável. Melhor que Nick pensasse naquele interlúdio sensual como algo que logo
seria esquecido.
— Vai lutar com todas as armas? — Laura dirigiu-lhe um olhar desafiador.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— Deus do céu, você é fria e insensível. Quer saber? Apesar do modo como tratou
Charity Brown, pensei que ainda existia meiguice em você, uma inocência que me atraiu.
Mas me enganei. Você é meiga e inocente como um tubarão!
Ele pressionou a mão direita sobre as têmporas, como se a cabeça estivesse doendo.
Inalou profundamente e continuou:
— Não vou processá-la, como tinha perguntado. Não desta vez. Mas nem pense em
repetir a proeza. Meus advogados terão muito prazer em conhecê-la.
Nick recolheu os óculos escuros do chão e, sem dizer mais nada, tomou a trilha
sombreada que levava de volta à avenida Juniper.
Laura permaneceu ali, sem ação, ouvindo o som das folhas pisadas no caminho.
Apenas quando teve certeza de que Nick cruzara o portão lá embaixo, ela sentiu a tensão
diminuir progressivamente e abraçou-se à árvore, chorando.
Bem, ela é que começara tudo, ao transgredir a proibição de entrar no bosque. Todo
o resto foi conseqüência. De uma coisa estava certa, Nick não precisaria tê-la prevenido
quanto a voltar a passear na mata. Nunca mais poria os pés ali. O descampado mágico
de tia Charity não era mais a clareira das fadas, e sim o poço dos tormentos.
Teria de esquecer todo aquele episódio, pois não havia significado nada para Nick,
além de uma armadilha consciente. Ela tinha certeza disso, embora preferisse estar
equivocada. Depois de algum tempo, reuniu forças para recompor-se e tomar o rumo de
volta. Sua infelicidade era tanta que, a cada passo que dava, imaginava Nick Diamond ali,
bloqueando o caminho.
— Droga! — Laura deu um pontapé de raiva no cortador de grama, que se recusava
a funcionar.
Seis dias tinham se passado desde a aventura no bosque, seis dias em que ela
evitara até mesmo sair para o pátio, receosa de ver e ser vista por Nick. Mas a grama
estava alta, o relvado precisava de cuidados e, assim, ela desentocou a velha máquina de
tia Charity.
Por diversas vezes, tentou fazer o cortador pegar, mas não adiantou: o motor girava,
tossia e morria. Desgostosa, banhada em suor, Laura decidiu tomar algo refrescante, bem
gelado, antes da próxima tentativa.
Na cozinha, fez uma jarra de limonada com cubos de gelo e encheu para si um copo
alto. Estava bebendo quando ouviu o som de alguém ligando o cortador de grama, que
pegou de primeira, sem ratear.
Pôs o copo de lado, encantada com aquele ruído de motor bem regulado,
funcionando perfeitamente na tarde calorenta e preguiçosa.
Voltou à sala, onde recebeu uma lufada de ar quente vinda do lado de fora, e dirigiu-
se aos janelões abertos para o pátio. Parou junto à soleira, sem acreditar no que via.
Nicholas Diamond, vestindo apenas uma bermuda de brim e tênis surrados, com seu
corpo bronzeado brilhando ao sol, empurrava o cortador de grama de tia Charity como se
fosse um brinquedo de criança.
Ele estava de costas, felizmente, e não pôde ver o assombro estampado no rosto de
Laura. O som do motor, por sua vez, cobriu a exclamação indignada que ela soltou. Que
petulância, vir ao jardim que não era dele aparar a grama que não lhe pertencia! Seria
uma tática para fazê-la sair da reclusão, para trazê-la de volta à vida?
Como detestava ser controlada e manipulada dessa maneira!

Projeto Revisoras 36
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Será que ele pensava seriamente em fazê-la sentir-se devedora e, em troca de um


favor, dar o que ele queria? Claro não seria o seu corpo ou a sua companhia, mas o chalé
e o terreno em que ficava...
Nick já estava chegando ao final do gramado. Com o coração batendo forte, Laura
correu para dentro da casa, entrou rápido no banheiro e girou a tranca da porta antes de
se sentar no chão, contra a fria parede de azulejos. O que fazer agora? Ficar trancada lá
dentro, esconder-se até ele ir embora? Não, estava em sua casa. Voltaria ao jardim e
enfrentaria Nick, que só estava lá, pensou Laura, por ter ouvido suas tentativas frustradas
de ligar o motor. Voltaria, mas esperaria ele terminar e se arrumaria um pouco. Ainda bem
que Nick não a vira da primeira vez, toda desgrenhada e rubra de suor, metida num feioso
macacão vermelho.
Meia hora se passou, o suficiente para ela se aprontar e para o cortador de grama ser
desligado. Na cozinha, Laura esperou mais um pouco, até ouvir Nick recolocar a máquina
no alpendre, e então saiu para o pátio empunhando a bandeja com a jarra de refresco.
— Ah, é você que está aí. — Procurava disfarçar a turbulência de suas emoções. —
Quer um copo de limonada?
Olhando apenas de relance para ele, Laura colocou a bandeja sobre a mesinha e
gesticulou para que ambos se sentassem. Caprichou no tom amistoso da voz:
— Obrigada por cortar a minha grama.
Laura encheu um copo e o estendeu a Nick, esperando encontrar no rosto dele um
sorriso simpático. Talvez um sorriso falso, mas que fosse capaz de tranqüilizá-la.
Entretanto, deparou com olhos frios, lábios contraídos e mãos fechadas em dois punhos
raivosos.
— Por quanto tempo você pensa que pode ficar aqui, sem ajuda e sem dinheiro?
Ela gelou diante do tom agressivo, dando-se conta de que ele não estava ali como
amigo. Disfarçou sua decepção sob uma máscara de indiferença.
— Darei um jeito...
— Mesmo? — Nick balançou os punhos fechados ao longo do corpo. —Você não
consegue nem ligar um cortador de grama.
— Acabaria aprendendo. — Percebeu que ainda segurava o copo de limonada e o
devolveu à mesinha. — Mas isso não lhe diz respeito. Será que não tem mais nada a
fazer a não ser se preocupar com os problemas dos outros?
— Bem, seus problemas se tornam meus quando me afetam.
— Não entendo como meus problemas podem afetá-lo.
— Quanto mais decadente ficar este lugar, menos valor terá a propriedade. E isso é
um problema para mim.
Laura voltou-se para ele, com o olhar firme.
— Não espere milagres. Só estou aqui há três semanas. Pretendo cuidar bem da
propriedade. Vai dar trabalho, mas não tenho medo de pegar no pesado.
— É muita coisa para você, acredite. Telhado novo, porque esse aí não agüenta o
próximo inverno. Caldeira de aquecimento também, pois a que tem não funciona. E toda a
fiação elétrica precisa ser trocada, pois há risco de um curto-circuito.
— Você pode prever o futuro, virou vidente?
— A instalação elétrica ainda é a original. Não imagina como esses chalés de
madeira queimam depressa se surgir um incêndio. Ainda mais agora, no verão...

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— Pois bem. — Laura precisou disfarçar seu abatimento com uma voz modulada. —
Você não está de fato preocupado comigo ou com o chalé, pensa mesmo é nos seus
negócios e em erguer um monstrengo de cimento aqui. Mas vou providenciar todas as
reformas necessárias. O teto, a caldeira e...
— A fiação elétrica será trocada depois que o chalé pegar fogo, certo? — Com uma
voz estranha, Nick parecia mais transtornado do que ela. — Tudo bem, Laura, se você faz
questão... Só mais uma coisa.
— O que é? — Laura arqueou as sobrancelhas, à espera, enquanto os lábios de Nick
assumiam um sorriso irônico.
— Não vim aqui para podar a grama, mas escutei seus xingamentos e resolvi ajudar
com o velho cortador. Na verdade, vim para entregar um convite.
Ele pegou um envelope pequeno do bolso de trás da bermuda e estendeu-o para ela.
— Parece que você conquistou Matt e Mike. Eles a adoraram e vivem perguntando
por você. Toda noite transformam as camas em barracas. Matt faz cinco anos no domingo
e Sally preparou uma festa ao ar livre, à beira da piscina, na casa dela.
Nick fez uma pausa e Laura quis aproveitá-la para agradecer e dizer que não poderia
ir. Mas ele continuou, antes que ela pudesse falar:
— Seu nome está na lista de convidados, mas sei que não gosta de nadar. Portanto,
não se incomode...
A mensagem evidente, nas palavras e no tom de voz, era que Nick não queria a
presença dela na festa. Por outro lado, ele tinha razão. Praia e piscina eram duas coisas
que Laura sempre tinha evitado, por causa das cicatrizes nas costas, e Jason jamais
havia insistido em que ela comparecesse. Sempre inventara alguma desculpa para
recusar os convites. Em casa, nunca tinham precisado sequer discutir o assunto.
Laura percebeu que Nick já estava indo embora, sem aguardar resposta. Parecia que
não esperava nenhuma, como se a decisão estivesse tomada. Mais um homem, depois
de Jason, que tomava decisões por ela...
A situação, porém, era outra. Além de não estar casada com Nick Diamond, Laura era
agora uma pessoa diferente, não mais uma mulher passiva, sem vontade própria, incapaz
de cuidar de sua vida.
Trêmula sob a carga emocional dessas recordações, abriu o envelope e leu no cartão
impresso:
"Você está convidada para nossa festa em Ennismere. Domingo das ... às ... .
Piscina, churrasco e muita alegria".
Lá estava o nome de Matthew Peterson na assinatura e algumas palavras
manuscritas por Sally: "Pedi para Nick lhe dar carona. Combine com ele".
Nick já caminhava para o portão do chalé quando Laura o alcançou com o olhar. O
corpo dele, recortado contra o horizonte, comunicava prazer e perfeição.
Ela admirou aquele tórax musculoso e bronzeado, em que brilhavam gotículas de
suor, reparou na harmonia dos quadris estreitos com as pernas fortes e grossas. Com
uma pontada no peito e o calor subindo para suas faces, lembrou-se de como ele havia
despertado seu desejo.
Alguns segundos de contemplação, e Laura caiu em si. Sua bolha de fantasia se
rompeu e a trouxe de volta ao mundo real. A figura de Nick também transmitia tamanha
despreocupação, tamanha arrogância...

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Era como se ele, muito seguro de si, já tivesse esquecido tudo sobre ela e sobre o
convite, e isso desgostou Laura a ponto de fazê-la agir impulsivamente.
— Espere! — O tom de comando fez Nick parar e voltar-se para ela. — Não vou
decepcionar Matt. Sally disse que você poderia me levar à festa. A que horas pretende
sair?
Laura notou com satisfação que o rosto de Nick se toldou com uma expressão de
incredulidade.
— Planejava sair às duas.
— Ótimo. Estarei pronta.
Sem nada acrescentar, Laura recolheu a bandeja e entrou na casa, apenas
confirmando com um olhar distante que Nick chegava à rua. Lavou a jarra e os copos
pensando em como ele fora ingênuo ao acreditar que podia tomar decisões por ela,
mesmo em relação a coisas tão simples como uma festa.
Imaginou todos os convidados em volta da piscina, em trajes de banho. Todos, menos
ela.
Restava-lhe rezar por muita chuva no domingo.

CAPÍTULO VII

No domingo de manhã, Laura acordou com o barulho de chuva pesada no telhado e


murmurou uma prece de gratidão, mas às onze horas o aguaceiro cessou e um sol
brilhante surgiu, prometendo uma tarde esplendorosa.
Estava no quarto, terminando de se arrumar, quando Nick entrou pelo portão,
pontualmente às duas. Vestia um short branco e uma camisa pólo azul, cuidadosamente
desabotoada na gola. A roupa realçava-lhe o bronzeado e o deixava irresistivelmente
atraente.
Com os nervos tensos e o coração disparado, Laura ouviu a campainha da sala tocar
e correu para a porta.
— Seu carro está à disposição, madame — disse Nick bem-humorado, assim que ela
abriu.
Laura forçou um sorriso e agradeceu em voz baixa. Assim que fechou a porta, girou a
cabeça e notou que os olhos de Nick a percorriam atentamente. Ele examinava sua blusa
creme de algodão, a saia marrom-clara, as sandálias cor de gelo, talvez pensando como
parecia conservadora; e sem graça...
Acompanhou-o até o Porsche estacionado na entrada e, quando Nick abriu a porta do
carro e afastou-se para deixá-la entrar, Laura sentiu mais de perto aquela presença
máscula, cheia de sensualidade. Com uma ponta de pânico, mas também de prazer,
concluiu que todos os seus sentidos estavam sendo expostos a uma ameaça.
Sentou-se de corpo tenso, com a bolsa e um pacote de presente para Matt no colo.
Nick rodeou o carro até o banco do motorista e, em vez de dar a partida imediatamente,
inclinou-se para ela, num gesto que a surpreendeu.
— Coloque isso no chão. — Ele apanhou o embrulho e a bolsa, ajeitando-os junto
aos pés dela. — Ficará mais confortável.
Ao fazer esse movimento, Nick pressionou com a cabeça o peito de Laura. Por um

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segundo, seu impulso foi de acariciar os cabelos dele, tocar-lhe a nuca vigorosa e deslizar
as mãos pelas costas, debaixo da camisa.
Chegou a flexionar os dedos, como que ensaiando os gestos, e com a respiração
mais rápida entregou-se ao magnetismo daquele homem. Nick havia apenas encostado
em Laura, mas na sua imaginação ele a enlaçava com os braços e apertava-lhe o corpo.
— O pacote é para Matt? — Nick retomou a posição normal e deu a partida no carro,
fazendo Laura cair em si. — Não devia gastar com presentes. Ele não está esperando
ganhar um de você.
— Bom, isso resolvo eu — disse ela, mais irritada com a volta à realidade do que com
a observação despropositada. — Gosto muito de dar presentes.
Com uma guinada brusca, Nick virou à esquerda no fim da avenida e tomou a pista
da estrada que descia a colina.
— Só me preocupei por saber que Charity Brown não deixou nenhum dinheiro. Ao se
aposentar da escola local, doou suas economias para um fundo de auxílio a estudantes
pobres.
— Está apenas sendo inconveniente, Sr. Diamond. O que faço com meu dinheiro é
apenas da minha conta. Vamos combinar o seguinte: eu não lhe digo como tocar sua vida
e você não me diz como viver a minha, combinado?
Ela sentiu-se satisfeita ao perceber uma expressão de surpresa e raiva em seus
olhos. Sim, tinha conseguido aborrecê-lo. Desta vez as posições estavam trocadas.
— Combinado. Parece-me justo. — Ele brecou com desnecessária força quando um
sinal de trânsito, já perto do vilarejo, mudou para vermelho. Aproveitou a parada para
apanhar, entre os bancos, uma fita cassete de música romântica e a colocou no aparelho.
Segundos depois, uma canção que falava de "tempos melhores e muito amor" fez-se
ouvir. Laura sorriu, serena, e ao voltar a cabeça notou que a boca de Nick estava
contraída nos cantos. Olhou para ela com uma expressão divertida nos olhos.
— Preciso preveni-la, Srta. Grant. Eu me apaixono fácil- I mente por mulheres com
senso de humor.
Daí por diante, ele se concentrou no tráfego até chegarem à casa de Sally. Laura
afundou no banco, sentindo-se totalmente confusa. Como agir com esse homem?
Num momento, detestava-o e o queria ver longe, de preferência mergulhado num
tacho de óleo fervente. Noutro, apenas porque ele a fitara com meiguice no olhar ou
dissera algum galanteio, sentia o coração em fogo, ardendo de amor.
— Que bom você ter vindo. — Sally saudou Laura com um abraço, na entrada de sua
mansão de estilo inglês. — Juro que quis visitá-la, mas Nicole Jane está me dando mais
trabalho do que eu esperava.
— Com bebês é assim mesmo — Laura sorriu. — Mas você deve ser craque no
assunto. Está com ótima aparência, Sally. — Fez uma pausa, olhando em torno. —
Somos os primeiros? A casa está tão quieta...
Dando um braço a Laura, Sally a fez entrar pelo saguão até uma luminosa cozinha
com móveis claros e piso de cerâmica queimada. A larga vidraça sobre a pia deixava ver
um jardim amplo e bem cuidado, um pequeno playground com balanços e, mais ao fundo,
uma majestosa piscina com trampolim.
— Onde está James, Sally? — A voz de Nick veio de trás.
— Está no depósito, procurando uma mesa extra para o churrasco. Vá até lá. Ele vai

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gostar da ajuda.
— Tudo bem. Então deixo a senhorita em suas mãos...
— Senhorita? — espantou-se Sally, olhando para Laura com curiosidade. — Ele está
sendo muito formal, não?
Laura sentiu um leve rubor nas faces e riu.
— Acho que... bem, andamos irritados um com o outro.
— Verdade? — Sally ficou pensativa. — Nunca encontrei uma mulher que irritasse
Nick.
— Talvez tenha encontrado uma, agora. Só posso dizer que, toda vez que estamos
juntos, sai faísca. — Sentindo o olhar inquisitivo de Sally, Laura preferiu mudar de
assunto. — Sua cozinha é adorável, muito aconchegante, bem diferente da...
— Da do meu irmão? Coitado, ele ainda não sabe a diferença entre uma casa e um
lar. Desde a morte de mamãe, anda obcecado com...
Um grito forte de "Mãe!" interrompeu a conversa e Matt entrou esbaforido na cozinha,
mostrando um envelope na mão erguida.
— Mãe, tio Nick me deu um vale-livro. Quer dizer que posso escolher o livro que
quiser. — Conteve o entusiasmo ao ver Laura e deu-lhe um sorriso tímido. — Oi, Laura.
— Oi, Matt. Meus parabéns. Isto é para você.
— Nossa, obrigado. O que é? — Os olhos de Matt brilhavam quando Laura lhe
passou o pacote.
— Abra e descubra sozinho. Acho que você ainda não tem. Matt desfez o embrulho e,
ao ver a embalagem, gritou.
— Veja, mamãe! Um caminhão de bombeiros! Legal! Vou lá fora mostrar para o
papai.
— Espere, querido.
Sally surpreendeu Laura ao falar a Matt com uma voz seca e impositiva.
— O que é, mãe? — O menino mal se continha de ansiedade. Agachando-se ao lado
dele, Sally passou a mão na cabeça de Matt, ajeitando os caracóis de cabelos negros que
haviam caído sobre a testa.
— Não mostre ainda. Querido, você quer ser bonzinho e fazer um favor especial para
mim?
— Certo, mãe.
— Então suba ao seu quarto e guarde o caminhão de bombeiros no seu armário de
brinquedos. Lembra-se do que lhe contei sobre a vovó? Acho que o tio Nick ficaria
aborrecido em ver esse caminhãozinho agora.
Com o olhar subitamente sério, Matt apertou o pequeno veículo vermelho contra o
peito.
— Pode deixar. Depois que todos tiverem ido embora, mostrarei para o papai. Não
vou nem contar a Mike. Será como um segredo, está bem? — Dirigiu-se a Laura. —
Obrigado, era o presente que eu queria.
Enquanto Matt saía correndo da cozinha, Sally fitou Laura com evidente angústia e
deixou escapar um suspiro.
— Você deve estar imaginando por que tanta confusão por causa de um presente tão
bonito.
— Você deve ter seus motivos, não se preocupe — Laura falou num tom

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tranqüilizador.
— Mas eu vou explicar, enquanto tomamos um café.
Momentos depois, diante da cafeteira fumegante, Sally olhou firme para Laura e disse
pausadamente:
— Dezesseis anos atrás, nossa mãe... quer dizer, a minha e de Nick... morreu num
incêndio.
— Oh, sinto muito. — Tensa, Laura esperou a continuação da história.
— Nosso pai a deixou quando tínhamos só quatro anos. Ela arranjou emprego numa
lavanderia e nos criou sozinha. Deve ter sido duro, mas ela conseguiu.
— E que idade tinham, vocês quando...
— Dezessete. Eu estava dormindo na casa de uma amiga e Nick tinha ido ao cinema.
Voltou perto da meia-noite e viu nossa casa em chamas, com o caminhão de bombeiros
na frente. Uma multidão havia se juntado para ver. Disseram a Nick que tinha havido uma
explosão e tudo ficou destruído antes que pudessem salvar algo... — A voz de Sally ficou
embargada.
— Ou alguém.
—Que terrível tragédia, meu Deus!
— Foi pior para Nick do que para mim. Ele se sentiu culpado por não estar lá e não
ter salvado mamãe. Nunca mais falou no assunto. Sabe, ele saía muito com os amigos...
era um adolescente, afinal... e tudo isso acabou com a morte da nossa mãe. Ele ficou
adulto de repente. Nós a amávamos muito.
Depois de esperar Sally acalmar-se, Laura indagou:
— E descobriram a causa do incêndio?
— Sim, a caldeira mal-conservada. Estava ligada naquela noite fria. A casa era
alugada e o dono não cuidava da manutenção. Nós não tínhamos dinheiro para
reformas... Desde então, Nick ficou obcecado por construir casas sólidas, seguras... e por
ficar rico, muito rico.
Sally fechou os olhos, como se não quisesse visualizar uma imagem tão dolorosa e,
quando os abriu, Laura percebeu o brilho de lágrimas.
— Acho que é por isso que Nick não pára nunca e não olha em torno de si, para se
relacionar melhor comas pessoas. Ele se recusa a enfrentar o passado, e reconhecer que
é apenas humano...
A porta se abriu e Sally rapidamente passou a mão pelos olhos, a fim de apagar os
sinais de choro. Pareceu aliviada ao ver que era James, e não Nick, quem entrava na
cozinha.
— Alô. É bom ver você. — James cumprimentou Laura e voltou-se para sua mulher.
— Sally querida, você pode ir lá fora receber os Whitney? Acabaram de chegar e eu ainda
tenho de cuidar do churrasco.
— Claro, estou indo. Volto logo.
— Sinto-me péssima por ter comprado um caminhão de bombeiros.
— Bobagem. As vezes, penso que protegemos Nick demais, e com isso não
deixamos o passado morrer.
— Sim, mas não podemos ser cruéis — Laura murmurou.
— Nem eu nem ninguém da família consegue ser cruel com Nick. Ele sacrificou muita
coisa por minha causa. — Com um sorriso triste, Sally saiu e deixou Laura a sós com

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seus pensamentos.
Não, ela não podia ter adivinhado o significado oculto de um simples brinquedo
infantil para aquela família. Família que, imaginara, vivia feliz com tanto que possuía.
Agora sabia que Sally e Nick se atormentavam com fantasmas do passado, embora de
maneiras diferentes. A história que ouvira lançava uma luz nova sobre a personalidade de
Nick Diamond.
Debaixo daquela capa de aspereza e arrogância, que a incomodava, havia um
homem sofrido, tomado pelo sentimento de culpa e por um passado doloroso. Não
apenas gostava de ser bem-sucedido. Precisava do sucesso como uma borracha que
apagasse tantas lembranças tristes.
Como havia errado ao pensar que a conduta de Nick estivesse relacionada com
algum problema não resolvido com a mãe. Pelo contrário, a relação entre ambos
aparentemente tinha sido muito amorosa, e a morte dela causara uma ferida ainda não
cicatrizada em seu coração.
Laura terminou seu café e lavou a xícara na pia, após o que ficou contemplando o
jardim e a piscina pela vidraça, perdida em seus pensamentos.
Quando a porta se abriu atrás dela, intuiu que era Nick antes mesmo que ele falasse.
— Desculpe-me por tê-la deixado sozinha. Sally me avisou que você estava aqui
dentro.
Ele ficaria muito ressentido, pensou Laura imediatamente, se soubesse que Sally
tinha revelado segredos de família a uma quase estranha. Precisava conter-se para não
demonstrar que agora sabia um pouco mais sobre Nick.
Voltou-se para ele com a expressão propositadamente neutra, mas à medida que o
encarava sentia seu cérebro reinterpretar os pequenos vincos que Nick possuía nos
cantos da boca, o maxilar tenso, o ar altivo dos olhos cinzentos; características que,
antes, ela atribuía a uma personalidade fria e impiedosa.
Como tinha se enganado!
— O que aconteceu? Por que está me olhando assim? Laura percebeu que, Y contra
sua vontade, havia dado sinais de que algo mudara nela. Procurou disfarçar.
— Ah, desculpe-me. Estava só pensando...
— Pensando em quê?
— Seria uma pena Matt passar o resto da tarde sem divertir-se.
— Estranho... Estava pensando a mesma coisa e acho que uma boa brincadeira vai
animar a festa.
Nick tomou-a pela mão e saíram juntos para a sala.
— Apostei com Matt e Mike que eu e você ganharíamos deles na corrida.
— Que corrida?
— A corrida de três pernas — concluiu suavemente. — Nem me fale em recusar.
Não venceram a competição, porque dois coleguinhas de Matt foram mais rápidos,
mas ficaram perto disso.
— A vitória seria nossa se você não tivesse tropeçado — observou Nick, um pouco
mais tarde. Ele e Laura, sentados à beira da piscina, tomavam suco e saboreavam
salgadinhos.
Com esforço, Laura procurava manter um sorriso natural, embora só pensasse no
tempo de duração da corrida. Amarrada a Nick pelo tornozelo direito, havia tentado

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concentrar-se no sincronismo das passadas, tarefa impossível diante da pressão do braço


dele sobre seu ombro, da perna roçando em seu quadril, da maneira como os dedos
de.Nick pendiam próximos ao seio.
— Concorda, Laura?
— Desculpe, estava distraída...
— Estava falando de Sally, ela é realmente simpática. E muito talentosa.
Laura esperou, curiosa, a explicação de Nick.
— Quando esteve na minha sala de trabalho, notou um grande quadro a óleo na
parede? Uma cena de jardim florido, com um coreto no centro?
— Sim, e fiquei imaginando quem teria pintado... Foi Sally? Foi mesmo ela?
— Juro. Presente dela para decorar a casa.
— Estou admirada. Realmente, é uma obra de talento.
— Gostaria de ver mais trabalhos de Sally?
— E claro, mas agora?
— Termine de beber.
Com um leve toque nas suas costas, Nick a conduziu rumo à sala.
— Vou lhe mostrar o estúdio dela.
— E Sally não vai se aborrecer?
— Com o quê? — Era Sally quem perguntava, entrando na sala de repente e
esperando resposta com uma expressão divertida no rosto.
— Ia levar Laura lá em cima, para ver suas pinturas.
— Mas Nick, não há mais nada para ver lá. Uma galeria de arte levou tudo, para
minha primeira exposição. Não lhe contei antes porque queria que o convite fosse uma
surpresa.
— É maravilhoso, Sally. E quando será a abertura?
— Sexta-feira. Seu convite seguiu pelo correio. Deve estar chegando. Estou nervosa.
E se os críticos não gostarem? E se ninguém comprar?
— Vão comprar. — A voz de Nick transmitia confiança. — E uma venda já está
garantida, aqui comigo...
— Obrigada, Nick. Não mereço um irmão tão especial.
— Especial, não. Apenas esperto. Seus quadros vão valorizar muito, em pouco
tempo.
— Você faz bem para o meu ego, Nick. Você irá? Com Laura, naturalmente.
— Claro. — Nick voltou-se para Laura, buscando aprovação. A conversa foi
interrompida pelo som da campainha.
— Creio que são Greg e Norma. Você os recebe?
Nick confirmou com um gesto e, pedindo licença, afastou-se. Sally tomou Laura pelo
braço e seguiu o irmão.
—Venha comigo. Quero apresentá-los. Greg e Norma moram aqui perto e estão
ansiosos por conhecer você, desde que souberam da história do meu parto. Greg é da
firma de advocacia.
Laura não viu mais Nick até perto das cinco.
As brincadeiras haviam terminado e a festa se desenvolvia na piscina, onde adultos e
crianças dividiam o espaço, ora mergulhando ora jogando com uma grande bola de
borracha. Perto da porta dos fundos, James preparava o churrasco na brasa, e Laura

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sentiu o apetite abrir-se ante o aroma tentador.


Ela estava sentada à sombra, numa cadeira de vime, conversando com Norma e
Greg, mas viu quando Nick saiu da casa. Ele havia tirado a camisa e o short branco, e
agora exibia apenas uma sunga preta que o deixava ainda mais atraente.
Laura notou uma figura feminina logo atrás de Nick. Era Sharon, a loira
supermaquilada que fora apanhá-lo de carro no bosque.
Parecia íntima da casa e Laura deu asas a sua imaginação. Quando havia chegado?
Quem a recebera? Estaria Nick sozinho quando trocou de roupa? E onde havia ficado
quando ela, por sua vez, colocou aquele minúsculo biquíni cor-de-rosa?
Refreando a fantasia, Laura pensou com sensatez que não era de sua conta o que os
dois poderiam ter feito num dos quartos da casa, durante o intervalo de quase uma hora
em que Nick sumira. Cruzou as mãos levemente suadas no próprio colo, enquanto o casal
caminhava em sua direção.
A pele de Sharon era tão branca quanto a de Nick era bronzeada e a farta cabeleira
loira contrastava com os cabelos negros dele. Sem dúvida, era uma visão que causava
impacto.
Trazendo óculos escuros e ampla bolsa de palha, Sharon tinha um corpo de modelo
de revista masculina: seios grandes, cintura fina, quadris empinados e pernas muito
compridas. Estava descalça e com as unhas dos pés pintadas de rosa, na mesma
tonalidade do batom e do biquíni.
Vendo-a aproximar-se, Norma se ergueu de sua cadeira.
— Veja quem chegou, Greg. Eu lhe disse que ela viria. Ei, vocês, sentem-se aqui
conosco.
A dupla atendeu e chegou perto com uma saudação informal. Após deitar-se na
espreguiçadeira ao lado de Laura, Sharon ajeitou os óculos no topo da cabeça e sorriu,
revelando dentes perfeitos, muito alvos.
— Como vai, Laura? Sou Sharon... — O grito das crianças encobriu o sobrenome. —
Já nos vimos, mas não pudemos nos falar. Ouvi muitos elogios a você. Está gostando
daqui?
Os olhos verde-esmeralda de Sharon pareciam sinceros, amistosos, assim como o
tom de voz. Mas por que isso surpreendia Laura? Talvez até então ela não conseguisse
enxergar gente simpática ao lado de Nick.
Arriscou um olhar direto para ele, que permanecia de pé, embora Norma lhe tivesse
passado uma cadeira. Ele também a olhava intensamente, de um modo perturbador.
Tanto que precisou desviar a atenção de volta a Sharon.
— Sim, gosto muito de Vancouver. E você?
— Também gosto. Onde morou antes? — Sharon ajeitou os longos cabelos para trás,
desnudando os ombros.
— Toronto.
— Ótimo lugar para morar, segundo me contaram. — A loira remexeu na sua bolsa e
retirou um tubo de protetor solar. — Nick, pode passar nas minhas costas?
— Com prazer.
Enquanto ele destampava o tubo e colocava uma porção cremosa na palma da mão,
Laura decidiu que não queria ver a cena. Preferia estar a quilômetros dali. Mas bastou
mexer-se na cadeira e James apareceu, esbaforido.

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— Laura, emergência na cozinha. Sally precisa de você, só por alguns minutos. Pode
ajudar?
O pedido veio na hora certa, quando Sharon havia virado de bruços na
espreguiçadeira e Nick começava a esfregar-lhe os ombros.
— Claro. Estou indo. — Laura levantou-se depressa, dirigindo-se para a cozinha.
Nick usava agora a palma da mão nas costas da amiga, deslocando e ajeitando
seguidamente, com a ponta dos dedos, o cordão da parte de cima do biquíni. Laura
arrepiou-se ao lembrar como aqueles mesmos dedos a haviam acariciado, na clareira do
bosque.
Para chegar à casa, ela precisava passar por Nick, entre as cadeiras e mesinhas da
beira da piscina. Ao fazer isso, ele a agarrou pelo pulso com a mão livre.
— Tudo bem? — disse Nick com leve preocupação.
— Sim, sim — murmurou com esforço, enquanto livrava o braço e corria para onde
era esperada.
A mesa da cozinha estava repleta de verduras e Sally, nervosa, ainda tirava mais um
maço de folhas da geladeira.
— Obrigada por vir ajudar. Deixei para fazer a salada na hora do churrasco e me
atrasei, acredita? Prepare a alface enquanto eu corto os tomates.
Laura entregou-se de boa vontade à tarefa indicada.
— Você já conheceu Sharon? — perguntou Sally, casualmente. -— Sim... parece
simpática.
— Sim, é boa gente. Eu a apresentei a Nick. Torcia para que as coisas dessem certo
entre os dois, mas nunca imaginei que...
Um choro agudo de bebê soou na cozinha e interrompeu a conversa. Parecia que a
criança estava perto, mas, notando o ar espantado de Laura, Sally mostrou com um gesto
de cabeça a caixinha da babá eletrônica pendurada acima da pia.
— Ali. — Sally escutou atentamente por um momento e, como o silêncio voltou a
reinar, suspirou de alívio. — Deve ter dormido de novo. Provavelmente foi um barulho
qualquer que acordou Nicole Jane. Agora, onde eu estava?
Parecia que Sally havia esquecido de retomar a história; Laura também preferiu fazer
o mesmo.
— Então — disse num tom falsamente alegre —, você freqüentou uma escola de
arte?
Sally ficou contemplativa por um instante.
— Sim. Eu não queria, mas Nick insistiu. Na verdade, depois que mamãe morreu
ganhei uma bolsa de estudos, mas insuficiente para o curso superior de arte. Muito caro.
Falei a uma professora do colégio que iria abrir mão da bolsa e, em vez de fazer
faculdade, pretendia trabalhar. Sem me avisar, ela procurou Nick e contou...
A voz de Sally revelava uma emoção contida.
— Ele não aceitou minha decisão. Disse que encontraria um meio de pagar meus
estudos, que era para eu continuar. No fim, foi ele quem largou a escola e foi trabalhar no
ramo da construção civil. Subiu rápido, deu-se muito bem, mas nunca poderei compensá-
lo pelo sacrifício. Nick era inteligente, brilhante mesmo, sonhava com uma carreira
universitária...
Apesar do calor reinante na cozinha, Laura sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Ouvira mais uma revelação inesperada, e desconcertante, sobre Nick Diamond.


Descobrira mais uma faceta de sua personalidade, oculta por seu brilho exterior e pela
atração física que exercia sobre as mulheres.
Sem dúvida, Sharon era uma pessoa de sorte.
Enquanto Laura terminava de preparar a salada, estranhos pensamentos giravam em
sua mente, e ela sentiu-se aliviada quando Sally falou, trazendo-a de volta à realidade.
— Ajude-me a pôr as travessas lá fora... — Olhou pela vidraça. — Puxa, James já
tirou as crianças da piscina. Devem estar com fome. Logo que comerem, vão ver um filme
que Matt pegou na vídeo locadora. — Riu alegremente. — Algo sobre dinossauros.
Bem que Laura gostaria de ser capaz de melhorar seu humor tão depressa quanto
Sally. Impossível, ainda mais quando Nick mergulhava na piscina e nadava com vigorosas
braçadas, enquanto Sharon o admirava da beirada, segurando um drinque na mão.
Sally passou uma cesta de pãezinhos para James.
— Vamos cair na água, Laura? Entre comigo para trocar de roupa. Vou pôr o maio e
nadar um pouco antes de comer.
— Obrigada, prefiro ficar olhando. — Laura tentou manter um tom casual. — Acho
que já tinha dito isso. Não gosto de nadar. Nem mesmo trouxe roupa.
— Tem certeza? Não pretendo forçá-la, mas quanto ao maio podemos achar um de
seu tamanho lá em cima.
— Realmente, não. Vou me sentar ali. E você, vá em frente. A voz de Nick fez-se
ouvir, bem próxima.
— Por. que vocês duas ainda estão aí? Venham para cá. — : Estou indo me trocar —
respondeu Sally —, mas Laura prefere não entrar. Ficará apenas observando.
— Tem certeza? — A pergunta de Nick soou exatamente como a de Sally.
— Sim, tenho.
Nick saiu da piscina, pingando água, e rodeou Laura. Antes que ela pudesse
protestar, tomou-a pelo pulso.
— Venha sentar-se na borda da piscina. É gostoso. Tire essas sandálias e ponha os
pés na água.
Laura preferiu não discutir, para não chamar a atenção dos outros, e fez o que Nick
pedia. Sentiu o contato refrescante do líquido em suas pernas.
— E bom, não é?
Para sua surpresa, Nick não voltou para a piscina, onde Sharon tinha entrado com
diversos outros adultos. Sentou-se ao lado dela e também deixou os pés soltos na água.
O sol batia suave nas costas de Laura, que sentia o calor em seus ombros através da
blusa de algodão, num delicioso contraste com o frescor da água, envolvendo-lhe os pés.
— Reparei que você tem muito jeito com crianças — disse Nick.
— Sim, mas é estranho. Nunca tive muito contato com crianças. Desde os seis a,nos,
convivo mais com adultos.
— Sim, me lembro. Você contou que viveu pelas estradas e nunca freqüentou uma
escola infantil.
— Não tenha pena de mim por causa disso. Meu pai e eu fomos grandes amigos. Os
músicos da orquestra também me tratavam muito bem.
— Certo, mas uma menina pequena precisa de colegas da mesma idade.
Geralmente, as amizades da infância duram por toda a vida. Formam uma espécie de

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

base de apoio para mais tarde.


— Bem, acho que não preciso de uma base de apoio. — Laura supôs que o tom frio
da resposta encerrasse o assunto.
— Não fique tão melindrada — rebateu Nick, gentilmente. — Diga-me, se você casar
e tiver filhos, não gostaria de vê-los brincar com outras crianças?
— Essa questão não vem ao caso. — Laura deu um riso discreto. — Não pretendo
me casar.
— O que você tem contra o casamento?
— Nada, mas não é para mim.
— E por que não? Odeia os homens?
Ela voltou a cabeça, olhou Nick fixamente e manteve a frieza na voz.
— Pode-se gostar de um homem e viver feliz com ele, sem se casar. Só é preciso
respeito, consideração e... confiança.
— Não está esquecendo o mais importante? Onde ficam o amor, a união espiritual, a
atração física?
Nick parecia ter perdido todo o antigo cinismo, na voz e no modo de olhar. Chegou
para mais perto dela, contemplou a piscina onde os pés de ambos balançavam e, com o
dedão direito, tocou-lhe o calcanhar esquerdo. Laura esboçou uma reação defensiva,
tirando o pé, mas recolocou-o no mesmo lugar, ao alcance de Nick.
— Ah, a atração física. Também não depende de casamento.
— Estamos falando sobre ter um caso?
Debaixo do sol, sensível ao toque de Nick, Laura percebeu que suas defesas
fraquejavam, deixando-a vulnerável.
A pergunta havia soado como um convite e ela se preocupou em saber se alguém
mais tinha notado. Ao longo da piscina, viu Sharon em seu biquíni rosa e algumas
crianças brincando, ouviu a música de fundo que vinha do aparelho de som e as vozes
alegres, misturadas ao bater de talheres e pratos. Apesar de todo o movimento, sentiu
como se ela e Nick estivessem sozinhos.
Ter um caso? Com ele? A idéia era tão tentadora! Enquanto Laura se esforçava para
encontrar uma resposta inteligente, Nick continuou acariciando-lhe o pé, em volta do
tornozelo, e ela sentiu um arrepio de excitação.
Aquele homem era o sonho de toda mulher e a provocava.
— Acho que você devia cair na água e esfriar a cabeça. — Dizendo isso, Laura
retirou o pé com determinação e afastou-se um pouco do corpo de Nick.
— Só se me acompanhar — respondeu ele prontamente.
— Já disse antes, prefiro ficar olhando.
— Algum motivo especial? — Ele ergueu as sobrancelhas negras. — Seria um
trauma de infância?
— Nada parecido. Apenas não gosto de água.
— É estranho. No tempo de sua tia, de vez em quando tínhamos longas conversas
por cima da cerca. E, como toda pessoa idosa, ela estava cheia de lembranças para
contar.
A tensão que invadiu Laura não era mais física. Todo o conteúdo sexual da cena
havia se desvanecido ante a menção de tia Charity. Agora, de alma apertada, Laura
aguardava com ansiedade as palavras de Nick.

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— Ela não parava de falar de você, da temporada que passou aos dez anos em
Roseira Silvestre. Estava sem notícias suas e não sabia o que lhe tinha acontecido. Mas,
lembro-me bem, ela contou que você gostava muito de nadar e de ir à praia. Tinha de
levá-la quase todo dia.
Laura manteve silêncio e, por fim, respondeu timidamente:
— As pessoas mudam. Nem sempre na vida gostamos daquilo que apreciávamos
quando crianças.
Nick tornou-se subitamente incisivo e intenso.
— Pois acho que você está fugindo de alguma coisa.
— Vamos mudar de assunto, está bem?
— Qual o grande segredo de seu passado, Laura?
Sim, ela guardava um grande segredo que ele jamais descobriria. Imagens de Jason
em um de seus acessos de ciúme desenharam-se com nitidez na mente de Laura. A cor
fugiu-lhe do rosto e a pele tornou-se fria.
— Desculpe, Laura. Você ficou pálida como um fantasma.
— Deixe-me sozinha, por favor.
Levantou-se abruptamente, em evidente estado de perturbação, e com os pés
molhados desequilibrou-se sobre o piso escorregadio. Ergueu os braços no ar, como que
procurando um apoio, e chegou a ver Nick estendendo os braços para segurá-la, mas não
adiantou. Caiu de costas e, antes de tombar pesadamente na água, bateu a cabeça na
borda azulejada da piscina.
Sentiu-se afundar e um véu de escuridão toldou-lhe a vista.

CAPÍTULO VIII

Quando voltou a si, Laura estava deitada numa cama, debaixo de uma colcha leve. A
persiana da janela, quase totalmente fechada, deixava passar pouca luz. Um pequeno
abajur se mantinha aceso.
Depois de algum tempo, divisou uma figura alta parada ao lado da cama.
—- Sally? — perguntou, com a voz fraca.
— Não, sou Sharon. Sally foi dar uma olhada no bebê e eu fiquei tomando conta de
você. Como se sente?
Laura tentou erguer a cabeça do travesseiro, sem sucesso, e reagiu com uma careta.
— Puxa, devo ter desmaiado.
— É verdade. Bateu de leve na borda da piscina. — Sharon sentou-se na beirada da
cama. — Notou um galo na cabeça?
Cuidadosamente, Laura passou a mão por todo o crânio e encontrou um calombo do
lado direito, pouco acima da testa.
— Aqui. Parece que cortei a pele.
— Não, não fez nenhum corte — informou Sharon, depois de examinar o lugar
indicado.
A voz de Nick fez-se ouvir.
— Já acordou?
— Sim — Sharon levantou-se e Laura viu que ela usava um roupão branco por cima

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do biquíni cor-de-rosa.
Nick instalou-se numa cadeira ao pé da cama, enquanto Laura, sob seu olhar
inquiridor, puxou a colcha para cima, como se quisesse cobrir o rosto. Só então tomou
consciência de que estava sem roupa debaixo da coberta, só de calcinha e sutiã, e sentiu-
se exposta.
— Tudo normal agora? — O tom de Nick era um tanto seco e ela imaginou se ele
estaria zangado. Tentou clarear seus pensamentos, mas estes continuavam obscuros.
— Estou bem. Se Sally me emprestar algumas roupas, poderei levantar-me e...
— Sally deixou isto aqui. — Sharon apontou a pequena pilha numa cadeira próxima.
— Tem roupa de baixo, uma camisa e um short. Talvez fiquem grandes para você, mas
suas coisas já estão secando na máquina.
— Não vamos esperar — cortou Nick. — Vou levar Laura para a casa dela.
— Que horas são? Quanto tempo fiquei...
— Desmaiada? Só- alguns minutos — informou Nick.
— Sinto muito ter dado trabalho.
— Nem pense nisso.
— Vamos deixá-la sozinha para vestir-se, Laura — disse Sharon, num tom amistoso
que contrastava com o de Nick. — Ou você quer que eu fique para ajudá-la?
— Obrigada. Não é preciso.
— Vamos esperar lá em baixo. — Pondo a mão nas costas de Sharon, Nick conduziu-
a para a saída e fechou a porta.
Mais do que tudo, Laura queria afundar a cabeça no travesseiro e dormir horas. No
esforço para sair da cama, procurou ignorar a dor latejante. Sabia que, por ter batido a
cabeça, era importante raciocinar com clareza e sentir o cérebro funcionando bem. Logo
que chegasse em casa, pensou, tudo ficaria melhor.
No chalé de Laura, Nick a encarou com o ar determinado de quem não admitiria uma
negativa.
— Não vou deixar você sozinha. Já que não quis ir ao hospital tirar uma radiografia,
vá para a cama e eu fico por aqui. Sem discussão.
Laura olhou-o e concluiu que não era mesmo o caso de discutir.
— Está bem — concordou, passando a mão pelos cabelos ressequidos. — Fique se
quiser, mas não precisa me acompanhar ao quarto.
— Ótimo. Então deite-se, mas não tranque a porta. De hora em hora, irei dar uma
olhada em você, para saber como está passando.
— Ganhei um bom enfermeiro — comentou Laura, ironizando a situação que, pelo
contrário, a deixava terrivelmente infeliz, a ponto de seus olhos marejarem de lágrimas.
Cobriu o rosto com a mão e retirou-se. — Obrigada por me trazer para casa.
Nick a acordou diversas vezes durante a noite, mas, tão logo confirmou que ela
raciocinava normalmente, deixou-a dormir um longo sono.
Cerca das oito da manhã, Laura acordou com o barulho de vozes altas no jardim. Ao
mover a cabeça, constatou, aliviada, que não havia mais dor, a não ser quando tocava no
calombo. Também ficou contente ao ver que andava com firmeza.
A caminho do banheiro, olhou-se ao espelho do guarda-roupa e apertou os lábios,
decepcionada com sua imagem. Ainda vestia a camisa muito larga emprestada por Sally,
a pele estava pálida e os cabelos, secos e retorcidos, cheiravam a cloro da piscina. Um

Projeto Revisoras 50
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banho quente, iria sem dúvida reanimá-la.


Abriu a janela e, afastando a cortina, viu um céu azul, estriado de pequenas nuvens
brancas. Sentiu-se bem ao respirar o aroma das flores do jardim. Em algum momento,
pensou, deveria analisar os acontecimentos da tarde anterior, mas não agora.
— Ah, você já se levantou...
Nick estava na soleira da porta e ela virou-se, cruzando os braços. Durante a noite,
ele devia ter saído um pouco, pois estava de roupa trocada e rosto barbeado. Passou a
mão pela cabeça antes de falar.
— Está tudo bem. Você pode ir tratar de seus negócios.
— Não vou a lugar nenhum — disse ele laconicamente —, antes de conversarmos.
Fiz café para nós. Venha.
Na cozinha inundada de sol, Laura sentou-se à mesa e observou Nick enchendo duas
xícaras. Ele lhe passou uma e permaneceu de pé junto à janela, fitando-a
demoradamente.
Os minutos correram em silêncio, Laura cada vez menos à vontade sob um olhar que
lhe pareceu hostil. Nick terminou o café e depositou sua xícara na pia, sem tirar os olhos
dela.
— Como arranjou essas cicatrizes nas costas?
A pergunta chocou Laura. Então ele tinha visto aquelas marcas! Não conseguiu mais
engolir o café e precisou controlar a respiração para não revelar sua angústia. A última
coisa que esperava era discutir esse assunto, ainda mais com Nick. Não tinha se dado
conta de que, ao despi-la, Sally devia ter visto as cicatrizes e, depois, comentado com o
irmão.
— Sua irmã lhe contou? Agora você já sabe por que eu não gosto de nadar, pelo
menos em público. Espero que Sally não tenha exagerado. São apenas arranhões, eu
nem precisaria esconder...
— Pare com isso — Nick quase gritou. — Sally não me disse nada. Eu a carreguei
pela escada e tirei sua blusa quando Sally foi buscar uma toalha para secar você. Só eu vi
as cicatrizes. Não são simples arranhões. Quem lhe fez isso?
— Por que pensa que alguém fez? Poderia ser...
— Um acidente? Se fosse, você teria contado a história, não precisaria esconder
nada. Muita gente tem marcas de acidentes e não faz segredo. Por que fariam?
As mãos crispadas de Nick, a expressão severa, demonstravam que ele não sairia
dali sem uma resposta convincente. Sua voz agora estava calma, mas era uma calma tão
pouco natural que Laura teria preferido uma explosão de ira.
— Eu... caí.
— Caiu! Posso até aceitar isso, mas não espera que eu acredite que caiu sozinha.
Laura sabia que ele não se contentaria com meias-verdades. Tomou fôlego e disse
com monotonia:
— Meu marido ficou furioso comigo, uma noite. Fui me afastar e... tropecei.
— Marido? — Incrédulo, apontou-lhe a mão esquerda. — Mas você nunca usou
aliança, e quando conversamos na piscina, não se mostrou nem um pouco atraída pela
idéia de casamento!
— Eu deveria ter dito... Meu falecido marido, Jason Thorne. Ele morreu há sete
meses, de ataque cardíaco. — O tom de voz tornou-se amargo. — Era um homem...

Projeto Revisoras 51
Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

imprevisível. Por vezes, ficava ameaçador. Nada na minha educação tinha me preparado
para lidar com alguém assim. Vivia assustada.
— Decerto ele a espancou.
— Não. Não chegou a esse ponto. Mas, naquela noite, a noite do acidente, ele
parecia ter perdido a cabeça. Gritou comigo, eu entrei em pânico e caí para trás, em cima
de alguns objetos cortantes.
Nick acompanhava o relato atentamente e, antes que pudesse interromper, Laura
continuou:
— Mais uma coisa. Gostaria de explicar por que nunca mais procurei minha tia.
— Não precisa me contar mais nada, Laura.
— Prefiro falar agora e deixar tudo claro. Meses depois que meu pai faleceu, pensei
em retomar o contato com Charity Brown, pois não precisava mais .obedecer as ordens
para evitá-la. Entretanto, meu casamento era tão infeliz que perdi a vontade. Sempre
esperei que tudo ia melhorar, que Jason mudaria seu comportamento, que era apenas
uma fase má. Mas as coisas só pioraram e fiquei deprimida, sem iniciativa, com vergonha
de meu fracasso... Não quis causar um desgosto a tia Charity e resolvi manter-me
afastada.
Nick estava visivelmente comovido com o drama de Laura. Aproximou-se dela,
esboçando um gesto de simpatia, mas foi impedido por um braço esticado.
— Obrigada por se preocupar comigo. É uma parte da minha vida que desejo
esquecer. Agora peço que se vá. Gostaria de ficar sozinha.
Pela frustração evidente nos olhos dele, Laura notou que Nick não tinha considerado
a conversa encerrada. Parecia querer ficar mais tempo e consolá-la, dar-lhe carinho.
Entretanto, ela manteve a expressão resoluta e, após um tenso silêncio, ele deu de
ombros e fez menção de afastar-se.
— Se é o que você quer...
Laura caminhou até a saída da cozinha, seguida por Nick. A porta da frente estava
aberta e ela parou na soleira, esperando que ele se afastasse. Nick passou por ela com
um olhar sério.
— Estarei por perto. Não hesite em me chamar, se precisar de alguma coisa. Até lá,
procure descansar e lembre-se de uma coisa: nem todos os homens são como Jason.
Ela intuiu que realmente Nick não queria deixá-la sozinha, mas por fim cruzou a porta.
Seu andar não demonstrava a habitual confiança.
Apoiou-se no batente da porta e contemplou Nick de longe. Teve vontade de chorar
copiosamente. Se ele apenas soubesse o quanto ela o desejava... Tudo que queria era
chamá-lo de volta e abandonar-se em seus braços. Deixar que ele a confortasse e
alegrasse, depois de tantas tristezas.
Resignadamente, concluiu que isso seria um erro. Não estava disposta a errar de
novo. Não àquela altura de sua vida.
Depois do banho, Laura tirou uma soneca até o fim da tarde.
Não viu mais Nick naquele dia, mas ele telefonou para saber como ela estava.
Apenas o galo na cabeça latejava um pouco. De resto, tudo bem.
Ao arrumar o quarto com a janela aberta, Laura viu Nick saindo de carro, sem ao
menos dirigir um olhar para o chalé.
Estaria indo encontrar-se com Sharon? Jantariam juntos e então...

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Afastou da mente esse tipo de pensamento e resolveu fazer comida. Antes de jantar,
lavou as roupas que Sally havia lhe emprestado e, como não tinha secadora, pendurou-as
no varal do pátio. Iria passá-las na manhã seguinte e entregá-las a Nick, pedindo que
devolvesse à irmã.
Quando o visse, pensou, gostaria de parecer calma e segura de si, como se jamais
tivesse contado os segredos de seu casamento ou, pelo menos, esses episódios não
tivessem mais a menor importância.
O dia amanheceu nublado e um vento forte agitava os cabelos de Laura quando ela
chegou ao portão de Nick, levando uma sacola com as roupas de Sally.
Avistou-o saindo com um jeans alinhado e camisa de sarja; parecia ter recuperado
toda sua energia e vitalidade, ansioso por voltar ao trabalho.
Laura parou no meio da trilha, esperando que ele a notasse quando fosse pegar o
carro.
— Oi — saudou alegremente ao vê-la, sem demonstrar embaraço pelo que agora
sabia a respeito dela.
— Pode devolver isto a Sally, com meus agradecimentos?
— Claro. E como se sente?
— Muito bem, obrigada. — Estaria melhor, pensou, se ele não a encarasse daquele
modo. Seus belos olhos pareciam querer devassar-lhe a alma e eram mais calorosos do
que jamais imaginara que olhos cinzentos poderiam ser.
— O galo na cabeça ainda dói? — perguntou Nick.
— Sim, um pouco.
— Deixe-me ver.
O impulso automático de Laura foi dar um passo para trás, mas Nick alcançou-lhe a
cabeça com os braços estendidos e apalpou com as duas mãos em baixo de seus
cabelos, depois de erguê-los suavemente na altura da têmpora. Nesse gesto, aproximou-
se do rosto afogueado de Laura, a ponto de sentir todo o calor que dela emanava.
— Já diminuiu. Pode ficar sossegada.
— Estive pensando. Depois de tudo que aconteceu, só ficaria realmente sossegada
se você desistisse de mexer no bosque.
— Você é incansável! — rebateu Nick, tirando as mãos dos cabelos de Laura, mas
não sem antes ajeitar gentilmente as mechas laterais. — Meu objetivo não é destruir a
mata, e sim construir casas. Acontece que existem árvores no caminho que preciso usar.
Laura balançou a cabeça, demonstrando contrariedade.
— Você não compreende. E também não liga para o futuro de seus filhos, de seus
netos. Onde eles vão brincar enquanto forem crianças? Em pátios de cimento e ruas de
asfalto? Será que só pensa em dinheiro? Não vê que estará destruindo algo
insubstituível?
Nick ergueu as sobrancelhas e Laura achou que conseguira tocá-lo num ponto
sensível.
— Por favor, acalme-se. Você não deveria estar falando assim tão brava, depois
daquela nossa conversa.
Ela percebeu que ele tinha razão. As pernas tremiam, a cabeça latejava, e Laura
temeu perder o juízo e gritar com Nick, num sinal não de força, mas de fraqueza.
— De qualquer modo, pegarei você na sexta, lá pelas sete da noite. É a abertura da

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exposição e Sally me pediu para apanhá-la, certo?


Não, não estava certo. Mas Laura controlou-se porque sabia que, se ficasse de novo
tão perturbada, forçaria Nick a agir outra vez como enfermeiro.
— Sharon também vai, mas tem um compromisso perto da galeria, e nós a
encontraremos lá. Procure relaxar e melhorar. Você está pálida e não gostaria que
desmaiasse na galeria.
Calada, Laura viu Nick afastar-se até o Porsche e tomar a estrada. Só então pôde
avaliar a extensão de seu ressentimento para com ele.
Para a sexta-feira, decidiu-se altivamente, compraria uma roupa nova, algo original e
atraente, arrumaria os cabelos e capricharia na maquilagem. Imaginou com prazer a
surpresa que causaria a Nick quando ele a visse.
Os telefonemas continuaram pelo resto da semana, e Laura sempre respondia a Nick
com polidez, mas friamente. Confirmava que estava bem e ele parecia dar-se por
satisfeito..
Na última chamada, ao meio-dia de sexta-feira, Laura estava prestes a sair para o
cabeleireiro e foi rápida, confirmando que estaria pronta na hora combinada.
Seu novo vestido azul de seda, decotado, de mangas curtas e finamente bordado,
pendia do guarda-roupa e a deixava feliz como uma adolescente na expectativa do
primeiro baile.
Tinha ido a uma boa butique na cidade e, com a ajuda da dona, experiente modista,
havia escolhido o longo azul que destacava maravilhosamente sua pele e seus olhos,
além de acentuar seu corpo esguio. A mulher também havia recomendado a Laura clarear
um pouco os cabelos e deixá-los mais curtos, pois assim ficariam naturalmente
ondulados. Chegou a indicar-lhe um salão de sua confiança.
As compras de Laura na butique incluíram uma elegante combinação de seda,
calcinhas rendadas e meias de náilon. Diante da curiosidade da proprietária,
confidenciou-lhe que ia a um evento especial, com um homem também especial, a quem
queria impressionar.
Consultou o relógio e viu que era hora de ir ao cabeleireiro, onde ainda faria a
maquilagem. Andaria até lá e voltaria de táxi, para não correr o risco de ser vista por Nick
Diamond antes do momento certo.
Na avenida Juniper, dentro do táxi, evitou olhar para as imensas mansões dos dois
lados da rua. Nada poderia fazer a esse respeito, mas ainda esperava convencer Nick a
não devastar o seu bosque querido. Afinal, ele precisava aceitar o que não podia ser
mudado!
Para sua surpresa, Nick estava atrasado.
Dez, vinte minutos depois das sete, e ela caminhava aflita pela sala, pensando no
que poderia ter acontecido e, ocasionalmente, correndo a mão pelas ondas dos cabelos,
que formavam uma nova e bela moldura para seu rosto.
O cabeleireiro tinha acertado em cheio e agora, no longo azul, ela sabia que estava
muito atraente. Ao deslizar a palma das mãos pelo sensual tecido de seda, podia sentir
suas curvas suaves. Nunca tivera tanta confiança em sua feminilidade.
Um arrepio de nervosismo a percorreu quando a campainha soou com insistência.
Ordenou a si mesma manter a calma e não estragar a noite tão aguardada.
Uma segunda surpresa a esperava ao abrir a porta. Sharon, e não Nick, estava ali no

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degrau, olhando-a espantada dentro de um tubinho branco, com um grande coque na


cabeça e uma maquilagem forte.
— Puxa, você está com ótima aparência, Laura. Desculpe-me pelo atraso, mas o
trânsito na ponte estava horrível. — Arregalou ainda mais os olhos. — Não fique brava.
Nick teve um imprevisto e me pediu para vir pegá-la. Disse que telefonaria avisando...
— Mas não avisou. — Laura não escondia a decepção. — Eu poderia ter ido
perfeitamente sozinha. E fora de mão para você e, além disso, ele falou de algum
compromisso seu, perto da galeria.
— Consegui desmarcar. Vamos? Temos pista dupla até a ponte e chegaremos rápido.
Era verdade. Elas entraram na galeria pouco depois da abertura das portas e, após
dois curtos discursos de apresentação, Laura já circulava pelo recinto, taça de vinho
branco na mão, apreciando a exposição de Sally.
Estava contente por reencontrar a amiga, mas grande parte do seu entusiasmo se
perdera, porque não estava vendo Nick por ali.
— Já escolheu seu favorito? — Greg Brown acercou-se por trás dela, que
contemplava uma cena de praia no verão. — Norma se apaixonou por um quadro da
outra ala e vai comprá-lo. Veja, está lá no balcão acenando para mim. Certamente quer
meu talão de cheques! Com licença...
Laura continuou olhando as pinturas de Sally e ouvindo as opiniões: "Maravilhoso
para uma estreante". Ou: "E um excelente investimento". Ou ainda: "Técnica precária,
mas talento indiscutível".
Alguém comentou sobre um quadro pendurado perto da saída e que não estava à
venda, por ser um retrato do irmão da pintora, quando adolescente. Um retrato de Nick?
Sem dúvida, algo que ela não podia deixar de ver.
Abriu caminho entre grupos de pessoas e chegou ao local.
Ali estava Nick, aparentando dezesseis anos, vestido de jeans, camiseta e tênis,
encostado a um muro de pedras, céu azul acima da -cabeça e grama no chão. Um
charme juvenil lhe iluminava os olhos, mas o detalhe mais sugestivo do quadro era o
sorriso — um entre inocente e perverso, dominador.
O título escolhido por Sally, O Senhor de Tudo, era perfeito. Aquele rapaz parecia
realmente ter o mundo a seus pés.
Outras pessoas olhavam o retrato, mas Laura não tomou conhecimento delas. Sentiu-
se sozinha com o jovem Nicholas, pensando que o sorriso enigmático com que ele
aparecia no quadro logo seria apagado por uma tragédia, envolvendo a própria mãe.
Afastou-se lentamente, tomada de tristeza.
Perto das dez horas, quando a galeria já estava para fechar, Laura conversava com
Sally quando ouviu a voz de Greg.
— Nick, até que enfim você veio.
Laura sentiu cada nervo do corpo retesar-se, enquanto Nick se aproximava
rapidamente para abraçar a irmã.
— Cheguei há poucos minutos e já sei que você é um sucesso! Viu Laura por aí?
Só então, desviando o olhar para o lado, Nick notou a presença dela. Conteve uma
exclamação, mas era visível em seu rosto a surpresa provocada por aquela figura esbelta
em seda azul, quase da mesma cor dos olhos, e com um belo penteado. Pigarreou para
clarear a voz, mas não fez nenhum comentário sobre a nova aparência de Laura.

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— Peço desculpas por não ter podido apanhá-la. Pedi para o escritório avisar você e
parece que não conseguiram. Afinal, deu tudo certo e estou aqui para levá-la, quando
quiser..
— Perfeito — ela afirmou com suavidade. Que interessante! O mesmo homem que a
havia achado pálida e sem graça agora a admirava abertamente. — Sharon me disse
que...
— Sharon já se foi. Agora você está comigo. Arrogante, grosseiro, odioso...
Atraente, sexy, desejável...
Bem que Laura gostaria de não dividir-se em duas quando olhava para Nick. Também
preferiria não ficar no carro com ele, desafiando a força do desejo. Sem escolha, deixou-
se cortejar.
— Não resista — comentou Sally, tentando ajudar. — Com meu irmão, é mais fácil
dar-se por vencida.
Isso, pensou Laura, ao ser levada por ele até a porta de saída, era algo que não iria
acontecer. Jamais cederia a Nick Diamond.

CAPÍTULO IX

Em vez de deixá-la na entrada de Roseira Silvestre, como Laura esperava, Nick


parou na porta de sua casa.
-— Entre para um último drinque. — Era uma ordem, não um convite e, sem aguardar
resposta, Nick deu a volta no Porsche e abriu a porta para Laura. — Quero tirar a má im-
pressão por tê-la deixado esperando hoje.
Ele era esperto, constatou Laura. Se recusasse, Nick teria certeza de que ela estava
ressentida com ele. Se aceitasse...
—- Sim, vou entrar. — Ela sorriu ao sair do carro. — Mas com uma condição. — Nick
a fitou, curioso. — Prometa que... me deixará ver de novo o quadro de Sally.
— Ah — ele balançou a cabeça. — Por um momento, você me deu esperança...
Esperança de quê? De que cederia à atração crescente entre os dois? Não custa
nada sonhar, pensou, e quando ele a tocou nas costas, conduzindo-a sala adentro, Laura
sentiu todos os seus instintos acordarem, num aviso de que sempre era bom manter uma
distância segura de Nick.
— Então, vamos beber alguma coisa na minha saleta. Prefere vinho ou uísque?
Entraram no escritório de Nick, onde um foco de luz aceso iluminava o quadro de
Sally na parede.
— Só um pouco de licor, se você tiver. Vai me ajudar a dormir.
Ajeitando o paletó no espaldar de sua cadeira atrás da mesa de trabalho, Nick indicou
uma larga poltrona de couro para que ela se sentasse e foi providenciar a bebida. Laura,
porém, permaneceu de pé diante do quadro, contemplando-o sob um novo conceito,
depois de tudo que vira e ouvira na galeria.
Ouviu Nick murmurar seu nome atrás dela e voltou-se bruscamente. Ele estava mais
perto do que imaginara, com um cálice de licor na mão, e o esbarrão foi inevitável. O
delicado cristal caiu no chão, quebrando-se, não sem antes molhar de bebida a camisa de
Nick.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— Oh, sinto muito! — Laura ficou vermelha de vergonha. — Fiz uma bela sujeira...
Uma mulher desastrada assim realmente não era o tipo com quem Nick devia estar
habituado a sair.
— Ei — disse ele, enxugando as mãos num lenço e colocando-as em concha no rosto
de Laura. — A culpa foi minha. Não tem a menor importância. — Com a ponta dos
polegares, secou carinhosamente as lágrimas que se formavam nos cantos dos olhos
dela.
— Acho que já vou para casa — sussurrou Laura. — Não sei o que acontece, mas
quando estamos juntos tudo dá errado.
— Já lhe disse — Nick parecia não tê-la escutado — que você está linda esta noite?
O sinal de alarme novamente soou dentro dela. Estavam muito perto um do outro, e
ela tentou evitar o olhar hipnotizante de Nick, mas não conseguiu.
— É apenas o vestido novo. E o penteado...
Ele deslizou as mãos do rosto para os cabelos de Laura, tocando-lhe suavemente as
sedosas mechas loiras, com um ar de fascinação.
— Apenas o vestido... apenas o penteado... apenas um jeito de me deixar
apaixonado.
Num compasso lento que só aumentava a sensualidade daquele instante, Nick foi
abaixando a cabeça até encontrar os lábios dela. Beijou-a devagar em princípio, em
pequenos toques que lhe rodeavam a boca trêmula de emoção, depois com uma força de
tirar a respiração, num arrebatamento que crescia e crescia até não ter mais fim.
Um clarão passou pela mente de Laura, chamando-a de volta à razão e pedindo que
resistisse, que não deixasse acontecer. Mas era tarde demais. Abandonou-se nos braços
de Nick e seus lábios entreabertos eram agora um úmido e caloroso convite.
Cada centímetro de seu corpo pedia uma carícia, e ele não a fez esperar. O efeito era
tão poderoso, tão devastador, que seus joelhos se dobraram e ela teve de agarrar-se à
camisa de Nick.
Interrompendo os beijos por um momento, ele a ergueu do chão com os braços
flexionados e subiu a escada até o quarto, enquanto apertava o rosto dela contra o seu e
corria os lábios pela testa e pelas pálpebras fechadas de Laura.
Era real o que estava acontecendo ou apenas parte de um sonho romântico?
Estava mesmo com Nick, na casa dele, ou com um desconhecido qualquer, em outro
lugar? Poderia Nick amá-la de verdade ou a abandonaria antes do amanhecer, como um
conquistador insensível?
Aninhando Laura em seu colo, com o ombro Nick abriu a porta do quarto, e com o
cotovelo apertou o interruptor de luz, inundando o cômodo de uma suave luz indireta que
se espalhava pelas paredes claras, pela cama de espaldar alto e pela fina cortina que
balançava à brisa da noite, entrando pela janela aberta.
Sentou-se na cama sem largá-la, deixando-a apenas ajeitar-se debaixo dele,
estreitando seu corpo e cobrindo-o de beijos com uma segurança que baniu da mente de
Laura qualquer idéia insensata de que um outro homem a enlaçava.
Sim, era Nick, e ninguém mais poderia provocar aquela incrível sensação que a fazia
queimar numa febre de impaciência. Como se as palavras ainda pudessem quebrar o
encanto e salvá-la do desejo atroz, Laura murmurou, com a voz entrecortada e os olhos
azuis nublados de paixão:

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— O quadro... você prometeu...


— Eu menti.
Nick a reclinou na cama e começou a despi-la, abrindo o zíper do vestido de seda e
puxando-o para baixo lentamente, sem pressa, aproveitando cada movimento pára tocá-la
mais e mais.
O vestido e a combinação caíram sobre o carpete com um farfalhar sensual,
enquanto Laura era tomada por uma sombra de dúvida. A imagem de Sharon cintilou em
sua mente e logo desapareceu, levada pela convicção de que Nick jamais tomaria essa
atitude se estivesse de fato comprometido com outra mulher. Qualquer que fosse a
relação dele com a loira espalhafatosa, não podia ser nada sério. Ela exalou um suspiro
de alívio e procurou a boca de Nick.
— Tire, tire minha camisa. — Ele guiou as mãos de Laura pelo seu peito, à medida
que ela o desnudava.
Sentindo a fragrância doce do licor derramado, Laura lançou a camisa ao chão e
encostou os lábios naqueles músculos firmes e bem desenhados, beijando-os com
sofreguidão, e em seguida abraçou Nick com força contra o próprio peito, acariciando-lhe
as costas com a palma das mãos e um leve roçar das unhas.
Jamais agira assim com Jason, com nenhum outro homem.
Seu velho problema, porém, a traiu quando Nick alcançou o fecho do sutiã e começou
a retirá-lo. Ficou tensa ao imaginá-lo olhando para as imperfeições de seu corpo, para as
cicatrizes nas costas, com uma possível reação de repulsa.
— Não se esconda — disse Nick delicadamente. — Você é perfeita. Perfeita para
mim.
Lágrimas brotaram em seus olhos. A gentileza daquele homem, nos gestos e nas
palavras, era tal que a lembrança das cicatrizes, e de Jason, se apagaram de sua
memória.
Pouco a pouco, relaxou totalmente e entregou-se à paixão. Como se Nick pudesse ler
sua mente, reclinou-a na cama e, inclinando-se sobre Laura, escorregou os dedos para
dentro do elástico da calcinha, tirando a peça de renda que cobria seu último segredo
feminino.
— Oh! — ela murmurou com prazer.
As mãos de Nick não paravam, deslizando por suas coxas e quadris, e a boca dele
procurava a base de seu pescoço, depois as orelhas e os mamilos que, endurecidos,
pareciam esperar por aquela suprema carícia.
Laura gemeu e Nick, erguendo o tronco, procurou as mãos dela, trazendo-as até seus
lábios e beijando com intensidade. De olhos semicerrados e respiração acelerada, ele fez
notar a urgência do seu desejo e preparou-se para o auge daquele momento de amor.
De olhos fechados, Laura apenas adivinhou que ele tirava o resto da própria roupa.
Pelo som, percebeu quando abriu a gaveta da mesa de cabeceira e rasgou a embalagem
de um preservativo. Suspirou profundamente: era mesmo um homem confiável.
As carícias recomeçaram e, em segundos, Laura sentiu-se arder de desejo.
Queimando por Nick. Sua mente ficou enevoada e ela só tinha consciência do prazer que
crescia.
Ambos trocaram um olhar cúmplice e suas bocas se encontraram mais uma vez.
Com uma sabedoria que nunca tinha usado, mas que parecia natural em toda mulher,

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ela flexionou o corpo debaixo dele, combinando os movimentos inicialmente de modo


tímido, depois com mais confiança, até culminar numa vertigem de êxtase. Quando Laura
chegou ao clímax, ela deu um gemido de arrebatamento, logo seguido pelo dele, e os
sons ecoaram no quarto como a nota final do prazer.
Algum tempo mais tarde, enquanto descansava de olhos fechados nos braços de
Nick, Laura reconheceu que o gemido de arrebatamento também fora um gemido de
espanto: nunca sentira tudo aquilo que Nick a fizera sentir.
— Laura...
Ela abriu os olhos preguiçosamente, apenas para constatar que o quarto ainda estava
na penumbra:
— Que horas são?
— Quase quatro -— Nick ajeitou-se às costas dela, aninhando melhor o corpo
desnudo de Laura junto ao seu. — Sabe? Fiquei acordado esse tempo todo, pensando.
— Em quê?
Ele a beijou na testa e completou com voz rouca:
— Diga, meu amor, por que se casou com aquele homem? Laura ficou lívida, Ela não
queria conversar sobre Jason, não naquele momento. Entretanto, confortavelmente
protegida pelo abraço de Nick, achou que já era hora de falar sobre seu casamento e
deixar tudo esclarecido.
Tomou fôlego e começou, com voz mansa:
— Eu nunca tive um lar, Nick, e sofria com isso. Aos dezoito anos, tudo que eu queria
era fixar raízes em algum lugar que pudesse chamar de minha casa.
Laura havia confiado no amor de Jason.
— Ele apareceu me prometendo isso, e eu acreditei. Era doze anos mais velho,
inspirava segurança, enquanto eu era jovem e imatura. Nós nos conhecemos quando
papai foi tocar numa festa de conhecidos dele.
— E logo depois seu pai morreu.
— Sim. Eu fiquei desnorteada, sem saber o que fazer da vida. Deixei Jason tomar
conta de tudo... do funeral... de mim. Casamos em seguida, sem nos conhecermos bem
um ao outro.
A mão de Nick a acariciava delicadamente.
— Mas ele lhe deu um lar?
— Tivemos uma casa... grande... bonita... Mas uma casa não é necessariamente um
lar, embora muitas pessoas confundam as duas coisas. Para haver um lar, é preciso
haver amor.
— E o que existia entre vocês era ódio... — Os carinhos de Nick se tornaram mais
suaves, como que para amenizar a pergunta que estava engatilhada. — Suas costas...
não espera que eu tenha acreditado que você simplesmente caiu.
Laura apertou os olhos debaixo das pálpebras fechadas, numa expressão de dor.
— Bem, voltamos de uma festa e ele me acusou de estar flertando com um de seus
amigos. Mentira, pois nunca traí Jason. Seu ciúme ê que era exagerado. Discutimos e,
vendo a raiva dele, fiquei assustada. Tentei escapar e escorreguei. Ou ele me empurrou,
nem sei mais. Caí sobre uma peça de bronze na mesinha de centro. Dessas esculturas
modernas, cheias de pontas. O vidro também se partiu. Foi assim que me machuquei.
Tudo bem agora, Nick. A mágoa já passou. Jason morreu e eu vim para cá disposta a

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mudar de vida.
— Sim, e que mudança!
Com um sorriso gentil, Nick ficou de frente para ela, ainda deitado na cama. Trocaram
um beijo rápido, mas foi a centelha que acendeu de novo seus corações. Amaram-se
febrilmente, com paixão.
Nada mais existia para Laura além de Nick.
Quando acordou de manhã, ela o encontrou de pé e vestido ao lado da cama. Nick a
olhava com ternura e expectativa.
— Bom dia, amor. Como está? Laura sentiu as faces quentes.
— Cansada, um pouco esquisita.
— Estava torcendo para você acordar antes de eu sair.
— Mas você tem mesmo que sair?
— Tenho reunião na cidade, às nove. Faltam vinte minutos.
Só então ela notou que ele havia se arrumado, feito a barba e tomado banho
enquanto ela dormia. Estava de camisa social branca e o paletó jazia na ponta da cama.
— Bem, não vou sair sem um beijo.
Ele se inclinou e Laura passou os braços por seu pescoço, erguendo a cabeça para
um beijo prolongado. O lençol saiu do lugar e ela sentiu frio, lembrando-se de que estava
nua na cama. Tentou puxar o lençol para cima e cobrir-se.
— Não — disse Nick, segurando-lhe as mãos. — Deixe-me olhar para você. preciso
levar uma imagem bonita para agüentar o dia. — Contemplava os seios de Laura e
passava as mãos por seus cabelos. — Vai ser pesado, reuniões até as sete, mas virei vê-
la de noite.
— Virá mesmo ou já terá me esquecido?
— Nem uma bomba me impedirá de vir... Mas agora preciso ir. Fique aqui, se quiser.
Pegue tudo que precisar, mas não cozinhe. Vamos jantar fora e conversar bastante...
fazer planos. Conheço um restaurante adorável, o Catalpa Inn.
— Então eu o espero. — Laura estava feliz e prosseguiu suavemente: — Você
cumpriu sua promessa...
— Promessa?
— Aquela da "satisfação garantida". O lema da sua firma, pintado no caminhão...
— Ah, você se lembra? Garota esperta... — Nick riu alegremente. — Não posso
provar isso agora, não há tempo. Mas de noite... Eu a vejo às sete.
— Até lá — ela murmurou com um sorriso descontraído nos lábios, atirando-lhe um
beijo.
Depois de ouvir a porta da sala fechar-se, Laura se levantou e andou lentamente até
o banheiro, onde um cheiro masculino no ar lhe trouxe lembranças da mágica noite que
vivera com Nick.
Examinou os objetos dispostos na larga pia de mármore: aparelho e espuma de
barbear, desodorante, colônia de sândalo, um caro sabonete.
Olhou a toalha pendurada num gancho prateado e percebeu com a mão que estava
úmida, assim como o grosso roupão ao lado. Pensou em vesti-lo até ter regulado a
temperatura da água do chuveiro, mas então notou o reflexo de seu corpo nu no espelho
da porta do armário.
Quase não se reconheceu. As maçãs do rosto pareciam mais rosadas e os olhos

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tinham um brilho estranho. As formas do corpo, especialmente as ancas e os seios, lhe


agradaram. O que Laura via era uma nova mulher, feminina e sensual.
Deu-se conta de que, em poucas horas, havia enterrado anos de infelicidade. Sentiu-
se leve e solta, livre de um passado que a atormentava e a deixava amargurada. Antes de
entrar no boxe, girou sobre o próprio corpo, ensaiando alguns passos de dança, trêmula
de felicidade.
Nick fizera isso com ela. Mal podia esperar pela noite.

CAPÍTULO X

Pouco antes das seis, Laura já estava vestida e arrumada, quando o telefone da
cozinha tocou. Na esperança de que fosse Nick, desceu apressadamente e levantou o
fone.
— Srta. Grant? Aqui é da Incorporadora Diamond. — A voz do outro lado da linha era
bonita, mas seca. — É a assistente do Sr. Diamond. Ele me pediu para avisá-la de que
houve um imprevisto... assunto de negócios... e precisará cancelar o jantar que marcou.
Terá de sair com um dos advogados dele. Tentou ligar antes, mas o telefone não
respondia.
— Estive fora, andando de bicicleta. — Laura não conseguia esconder a decepção
em sua voz.
— Entrará em contato amanhã de manhã. Obrigada. Depois de colocar o fone no
gancho, Laura deixou-se cair numa poltrona, arrasada. Só uma grande paixão, pensou,
justificaria tamanho desapontamento. Estaria Nick tão envolvido e, também, tão
decepcionado quanto ela? Lembrando-se da expressão no rosto dele, aquela manhã,
decidiu que sim.
Levantou-se e caminhou com tristeza até a janela. Agora tinha a noite inteira pela
frente... e nada para fazer. Além disso, estava com muita fome e não havia preparado
nada para comer.
Sentiu-se ridícula, bem vestida daquele jeito, toda penteada e maquilada, esperando
alguém que não viria mais. Bem, existiam muitos lugares a que poderia ir sozinha. E até
estava acostumada a isso. Quando Jason a largava e ia a jantares com amigos
aborrecidos, que ela preferia evitar, Laura muitas vezes sonhara em sair para
restaurantes onde poderia ficar em paz, sem ser forçada a manter conversação com
pessoas maçantes.
Agora ela tinha essa chance. Por que não ir ao Catalpa Inn sozinha? Tudo que
precisava fazer era chamar um táxi e sair. Não ousaria fazer isso nos tempos de Jason,
mas ele não estava mais por perto para intimidá-la.
Enchendo-se de uma autoconfiança que a surpreendeu, se comparada com o
desânimo de apenas alguns minutos atrás, Laura consultou a lista telefônica e ligou para
um serviço de táxis.
Quando o carro chegou, ela já o esperava no jardim.
Em dez minutos, chegou ao Catalpa Inn e, na calçada em frente, viu a árvore que
dava nome ao restaurante, com suas folhas em forma de coração e flores brancas,
salpicadas de amarelo e marrom, num efeito dramático, mas bonito.

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Se Nick pusesse as mãos naquela propriedade, pensou Laura ao caminhar para a


entrada, será que derrubaria também aquela magnífica árvore? Era um homem de
múltiplas facetas, e ela já tinha resolvido parar de se preocupar com aquelas que não
podia mudar. Contudo, esses aspectos negativos de Nick teimavam em ocupar o fundo de
sua mente, e Laura teve de afastá-los com a força do pensamento.
Por ser sábado, a saleta de espera estava cheia e os sons de música clássica que
vinham do salão principal misturavam-se ao ruído indistinto de dezenas de vozes. Como
era costume nos restaurantes finos, um gerente veio ao encontro de Laura para anotar-
lhe o nome e pedir-lhe para aguardar. Devia ter telefonado para reservar mesa, censurou-
se, sentindo a fome aumentar.
Enquanto esperava, olhou para o salão e pensou ter visto uma figura conhecida.
Focalizando melhor a mesa distante, reconheceu o rosto branco e o coque loiro que não
deixavam dúvidas: era Sharon.
Por um momento, pareceu-lhe que ela estava sozinha, pois um garçom de pé ao seu
lado encobria parte da visão. Mas assim que ele se afastou, Laura descobriu que Sharon
tinha companhia: um homem de cabelos negros ondulados, num elegante terno escuro,
totalmente absorto na mulher que fitava com os belos olhos cinzentos. Laura só precisou
de um segundo para identificá-lo, com um frio na espinha. Era Nick Diamond. Ele havia
desmarcado com ela para jantar com Sharon! E no mesmo lugar para o qual a havia
convidado! Segurou-se na ponta do balcão, com as pernas cambaleantes. Como ele
podia ter mentido assim? E, principalmente, por quê? Toda aquela história de reuniões e
advogados! Bastaria ter-lhe dito que nada mais pretendia além de uma noite de aventura.
Nada mais, nada menos.
Chocada, olhou novamente e notou que o garçom das bebidas se aproximava para
servir champanhe a Nick e Sharon. Duas taças se encheram do líquido borbulhante e o
casal brindou, olhos nos olhos, visivelmente feliz.
Esse gesto levou os nervos de Laura ao limite da tensão. Não podia ouvir as palavras
que Nick dizia, mas bem podia imaginá-las.
Com todos os músculos do corpo contraídos, fechou os olhos para tentar acalmar-se
e pensar no que fazer. Foi despertada pela voz do gerente, que a abordava com
impaciência, pedindo-lhe para entrar e ocupar uma mesa vaga. — Sinto muito. Mudei de
idéia. Preciso ir... Meu Deus, que humilhação! Em pânico, Laura sentiu que todos os
olhares recaíam sobre ela e deixou o restaurante quase correndo, sobressaltada, sem
mesmo pedir um táxi. Pegaria um na calçada, lá fora, quando não estivesse mais exposta
a nenhum vexame.
Sentiu-se tola, miseravelmente enganada por um homem bonito e insinuante, mas
calculista o suficiente para fazê-la esquecer das marcas que carregava no corpo e na
alma. Pior ainda, para ele tinha sido tão fácil seduzi-la! A voz melodiosa, os traços
agradáveis, o tronco musculoso e bronzeado...
Nick Diamond devia ser um especialista em conquistar mulheres inseguras como ela.
Laura admitiu esse pensamento como uma verdade cruel. Todas as atenções dele seriam
apenas parte de uma tática de negócios, envolvendo a compra de Roseira Silvestre.
Ele só não havia contado com a descoberta do golpe.
Laura reprimiu as lágrimas enquanto um táxi estacionava no meio-fio. Não poderia
demonstrar nada a ele. Era a única maneira de manter seu orgulho intacto. Na próxima

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vez que encontrasse Nick, o faria acreditar que, também para ela, aquela noite mágica
não tinha passado de uma aventura inconseqüente. Seria difícil, mas de algum modo
Laura conseguiria.
Estava na sua cama há horas, porém acordada, quando ouviu o Porsche aproximar-
se e o motor sendo desligado junto à casa vizinha. Erguendo a cabeça, consultou o
relógio e confirmou que já era uma da manhã.
Um silêncio absoluto recobriu a noite. Laura afofou o travesseiro antes de reclinar
novamente a cabeça.
— Canalha! Nick Diamond é um canalha! Eu o odeio!
Essas palavras ainda ecoavam no seu quarto quando, exausta, finalmente
adormeceu.
Laura acordou sobressaltada, no dia seguinte, com o toque do telefone. Ignorou-o
dessa vez, e também na segunda e na terceira chamada. Devia ser Nick e, como era
lógico, ela teria de falar com ele em algum momento, mas queria escolher a hora de
acordo com sua conveniência.
Estava magoada e tentava ocupar sua mente com outros assuntos. Resolveu limpar
parte da casa, passando aspirador nos tapetes, polindo os objetos de prata e lavando
impecavelmente o piso da cozinha.
Terminou perto do meio-dia e, quando espanava a janela do quarto, notou uma
Mercedes entrando na casa ao lado e estacionando junto ao Porsche de Nick. Apertou os
lábios. Como ele estaria entretido com o visitante, para ela seria uma boa oportunidade de
sair e comprar mantimentos, sem ser vista pelo vizinho.
Em quinze minutos, Laura tomou uma ducha e vestiu-se com simplicidade. Ao
maquilar-se, disfarçou com um pouco de base as olheiras, mas só se sentiu menos
angustiada pelas lembranças daquela noite fatídica, quando resolveu aplicar também
sombra e batom, fazendo reviver o rosto cansado. Se Nick a visse, não imaginaria que
estivesse passando por um tormento interior.
Laura empurrou a bicicleta rumo à entrada e percebeu com alívio que a Mercedes
ainda estava ao lado do Porsche. Desviando o olhar para a estrada, já ia subir e pedalar
quando uma voz familiar chamou-a.
— Laura, querida...
Por alguns segundos ela gelou, tentando manter o autocontrole. Não estava
preparada para enfrentar Nick tão cedo. Com esforço, assumiu uma expressão neutra,
recuperando a calma ao ver que Nick não estava sozinho, e sim acompanhado de um
senhor distinto. Ambos pareciam ter vindo da trilha do bosque.
— Oi — Laura ignorou os batimentos acelerados de seu coração e curvou a boca
num sorriso forçado. — Bonito dia...
— Tentei falar com você desde cedo. — Nick aproximou-se, passou um braço pelo
ombro dela e deu-lhe um beijo sobre os cabelos. — Telefonei diversas vezes.
Era verdade. Laura não procurou libertar-se das mãos de Nick, embora desejasse.
— Não ouvi. Devia estar no banho. — Ela sentiu de perto, mais uma vez, o aroma viril
de Nick e a musculatura de seu peito contra o corpo montado na bicicleta.
— Querida, este é Whittaker Reed, arquiteto. Ele está me ajudando nos projetos de
construção. — Retirou o braço do ombro de Laura ao fazer a apresentação. — Whittaker,
conhece minha vizinha, Laura Grant? É a nova dona do chalé, como lhe falei.

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Um arquiteto? O que Nick planejava? Estaria tão certo de que ela assinaria o contrato
de venda, a ponto de já pedir um novo projeto para o local? Inconscientemente, Laura
estendeu a mão.
— Prazer, Srta. Grant. Está gostando daqui? Antes de Laura conseguir responder,
Nick emendou:
— Isso vai ser difícil para ela, Whittaker. Passou férias aqui quando tinha dez anos e
lembra-se do lugar do jeito que era.
— Ah! — observou o arquiteto. — A maioria de nós tem dificuldade em aceitar
mudanças. Sobretudo quando envolvem recordações da infância. Mas o que fazer? E o
progresso.
Apesar de o visitante procurar ser simpático, não havia como a conversa prosseguir.
Olhando para o relógio, ele mesmo salvou a situação.
— Nick, devemos ir. Temos compromisso em quinze minutos.
— Claro, já vamos. — Nick voltou-se para Laura. — Preciso muito falar com você. Aí
entenderá o que está acontecendo. Mas hoje vai ser impossível. Ligo amanhã bem cedo,
juro.
Beijou-a na testa e acompanhou as passadas do arquiteto, que já estava a meio
caminho. Ainda virou a cabeça para ela e murmurou, em tom de intimidade:
— Estou ansioso para ficar sozinho com você.
Laura ficou paralisada ali, sem ação, até que os dois carros partissem. Apertou com
tanta força o guidão da bicicleta que os nós dos dedos tornaram-se brancos como marfim.
Nick estava ansioso... e devia pensar também que ela estava louca para ficar a sós com
ele. O que sentiria se soubesse que, dentro dela, a mágoa e a raiva eram tão intensas
que a própria alma se desfazia em pedaços?
Já de volta no meio da tarde, Laura guardou as compras e dedicou-se a preparar um
novo canteiro no jardim dos fundos. Procurava ocupar-se com trabalho duro para gastar
energias e sufocar as emoções que tanto a afligiam.
Deitou-se cedo, com o corpo dolorido. Chorou um pouco e finalmente adormeceu,
mas sonhou com imagens sombrias, vento e tempestade. Raios e relâmpagos
acompanhavam a chuva forte, como se um jogo de luzes piscantes assaltasse seu
subconsciente através das pálpebras fechadas.
Despertou assustada, sentindo o cheiro de terra molhada e de madeira queimando. A
tempestade tinha sido real. Em algum lugar, pensou, um raio atingira uma árvore e as
chamas se espalhavam pelas redondezas. O calor abrasava sua pele, a fumaça atingia
seus pulmões.
— Laura!
O grito forte repetiu-se e, por segundos, Laura afundou a cabeça no travesseiro,
antes de perceber que não estava mais sonhando e que os sons que ouvia estavam muito
próximos dela. Não o ruído de trovões, e sim o de madeira estalando. Pela janela, viu não
o clarão de relâmpagos, mas as línguas de fogo amarelo-alaranjadas que se acercavam.
Roseira Silvestre ardia em chamas!
Com um grito de terror, Laura afastou os lençóis e pulou da cama, no exato momento
em que a porta do quarto desabava com um tranco forte que a fez estremecer de susto.
Sob a luz trêmula das chamas ela viu um vulto que se aproximava. Antes que
pudesse reconhecer Nick, sentiu-se enrolada no lençol, erguida para o colo dele e retirada

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do quarto pelo vão da porta, enquanto o fogo lambia as paredes em torno, perigosamente
perto, com a fumaça entrando por suas narinas e o medo invadindo cada poro de sua
pele.
A distância, sem distinguir do que se tratava, Laura escutou o uivo de uma sirene, o
barulho de pessoas aglomerando-se no jardim e na rua, o som de água caindo como se
alguém brincasse com uma mangueira.
Mãos rudes a tiraram dos braços de Nick e, apesar de seus gritos para que a
deixassem ali, foi levada para longe. Por toda parte, o cheiro típico de um incêndio e
flocos negros bailando no ar.
Percebeu-se deitada na grama e uma espécie de enfermeiro, com roupa branca,
estava reclinado sobre ela. Entre as luzes de emergência que cintilavam, distinguiu o
cilindro vermelho de uma ambulância, girando. Temeu ser levada ao hospital sem que
ninguém soubesse e chamou debilmente por Nick.
Não teve resposta, mas imaginou que era ele quem viria salvá-la outra vez. Fechou
os olhos e cobriu o rosto com um braço, como se nesse gesto pudesse apagar toda a
tragédia que a atingia inapelavelmente.
Pouca coisa Laura pôde lembrar das horas seguintes. Fora levada ao hospital e
examinada pelo médico de plantão. Sem encontrar nada de grave, ele insistiu para que
ela passasse lá o resto da noite, em observação.
Em princípio, ela não quis ficar. Depois, pensando melhor, concluiu que não tinha
mais para onde ir nem outra roupa para colocar. Estava vestida com uma desbotada bata
hospitalar e recordou-se de como chegara ao pronto-socorro, com náuseas e de camisola
rasgada, manchada de sangue.
A enfermeira tentara acalmá-la, dizendo que não era o sangue dela. Mas de quem,
então? Só podia ser de Nick, e assim a informação teve efeito contrário. Laura entrou em
crise nervosa, gritando descontrolada, até que lhe aplicaram uma injeção de
tranqüilizante.
De manhã, acordou perguntando por Nick e conseguiu saber da enfermeira que ele
estava internado na Unidade de Tratamento Intensivo, mas passava bem.
A preocupação de Laura aumentou. Não estava autorizada a ver Nick nem a
informavam de mais nada. Num estalo, atinou com as providências que deveria tomar.
Ligou do quarto para o advogado, Marvin Twigg, assim que o escritório abriu.
Colocou-o ao par de tudo e pediu para confirmar se Sally já sabia dos acontecimentos e
se estava vindo para ver o irmão. Solicitou também que reservasse um quarto de hotel na
cidade e mandasse dinheiro e roupas. A dona da butique, deu o nome e endereço,
saberia o que enviar.
Isso feito, perambulou pelo quarto, à espera das encomendas, que chegaram no
espaço de uma hora. Pouco antes, o médico veio vê-la e liberou-a, mas Laura não sairia
do hospital sem conhecer exatamente o estado de Nick.
Vestiu-se, jogou a sacola da butique no cesto de lixo e guardou o envelope de
dinheiro no bolso de trás da calça jeans que recebera. Então saiu para o corredor do
hospital, desceu de elevador até a recepção e perguntou onde ficava a UTI.
Minutos depois, com o coração batendo forte de impaciência, Laura chegou à entrada
da unidade, bloqueada pela mesa da atendente.
— Sinto muito — disse a funcionária. — Só a família tem direito a visitas, e mesmo

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assim por dez minutos. Talvez amanhã.


A mulher era troncuda e severa a ponto de desencorajar discussões, e Laura deu
meia-volta, meditando se contaria com o dia seguinte para agradecer a Nick por ter salvo
sua vida.
Queria também exprimir seu arrependimento por não seguir o conselho dele quanto a
reformar logo o chalé e eliminar o perigo representado pela velha fiação elétrica. Sua
teimosia, raciocinava, era responsável pelos ferimentos de Nick, por ele estar agora na
UTI.
No corredor, ouviu uma voz feminina que a chamava.
— Laura! Que bom ver você! — Sally tomou-lhe as mãos, deu-lhe um beijo na face e
depois abraçou-a fortemente. — Sei que está bem, mas deve ter sido um choque...
— E Nick? Ninguém me conta nada. O que houve? Como ele está?
— O problema é nos braços. — A voz de Sally perdeu a firmeza. — Sofreu cortes
profundos quando quebrou uma janela para entrar no chalé. Ele perdeu muito sangue.
— Mas você falou com ele? Está acordado?
— Não. Deram sedativos, mas ele já recebeu transfusão e o prognóstico é bom. Deve
estar melhor amanhã. Podemos marcar para virmos juntas, senão você não entra. Posso
apanhá-la em sua casa...
Laura franziu a testa e olhou para Sally, muda e desconsolada.
— Oh, sinto muito. O chalé... Venha ficar comigo até tudo isso passar. Aceite, sim?
— Obrigada, Sally. Já tomei outras providências.
— Mas tudo foi destruído, Laura. Passei por lá. Você ficou sem suas roupas, sem
dinheiro, sem talão de cheque...
— Fiz alguns telefonemas e tudo está sob controle. De qualquer modo, obrigada de
novo. Talvez nos encontremos aqui, amanhã.
Separaram-se com mais um abraço. Sally estava com pressa de apanhar as crianças,
que deixara com uma vizinha, e de encontrar-se com James, que ia chegar de viagem,
para fazer alguns acertos tendo em vista a nova situação.
Laura sentiu-se reconfortada com a inegável generosidade da amiga. Já gostava
muito da irmã de Nick. Agora, ainda mais.
A tensão acumulada explodiu quando Laura voltou ao seu quarto. Chorou
copiosamente e soluçou, encostada à parede do banheiro. Não soube por quanto tempo
ficou assim, mas chegou o momento em que o pranto cessou e ela se recompôs, lavando
o rosto e secando-o com a toalha de papel.
Pronta para deixar o hospital, tentou novamente ver Nick e furar a vigilância no
corredor da UTI. Antes de virar para o canto em que ficava a mesa da atendente, ouviu a
voz inconfundível de Sharon, vindo daquela direção.
— Eu sei que só a família pode visitar um paciente, mas eu sou a noiva de Nick
Diamond. Devo ou não ser considerada da família? Ele ficará muito aborrecido se
descobrir que eu fui barrada, e queremos evitar isso, não é?
— Certamente, senhorita. Acompanhe-me.
Laura sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe a espinha. Estava confirmado: Nick era
noivo de Sharon. Tinha sido uma idiota completa ao confiar no amor de um homem como
Nick. Sharon, sim, era o tipo de mulher que poderia satisfazê-lo.
Será que ele havia lhe contado sobre a noite que passaram juntos? Teria explicado a

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Sharon, continuou pensando Laura, que só a estava seduzindo para convencê-la a


negociar sua propriedade? Ou tudo não passara de um plano conjunto dos dois, para
realizar o sonho do Parque Diamond antes do casamento?
E por que ninguém mencionara que Nick e Sharon estavam comprometidos? Seria
possível que Nick pretendesse manter o noivado em segredo, para que ela, Laura, não
estragasse o grande golpe?
Desilusão e desespero encheram seu coração. Se pudesse, sairia dali naquele
minuto. Tomaria o primeiro avião para Toronto. Mas não podia fazer isso. Apesar de
magoada com Nick, precisava agradecer-lhe pessoalmente por salvá-la. Afinal, a própria
vida dele estivera em perigo.
Laura decidiu ali mesmo, no corredor do hospital, que depois de cumprir essa
obrigação voltaria a Toronto para desfazer-se de tudo que possuía lá e que lhe lembrava o
tortuoso passado com Jason. Outra vez começaria vida nova. Só que, com certeza, sem
incluir nenhum homem.
Três dias se passaram até que Nick se recuperasse bem e fosse transferido para um
quarto, onde as visitas eram liberadas. Numa ligação para Marvin Twigg, Laura pediu-lhe
para preparar todos os documentos que devia assinar com relação ao incêndio do chalé,
incluindo os formulários do seguro.
— Sem problema — garantiu Marvin. — Por falar nisso, recebi uma ligação do
escritório de advocacia que atende Nick Diamond. Foi no sábado e eu estava fora da
cidade. Só na segunda peguei o recado na secretária eletrônica, mas com tudo que
aconteceu não consegui falar.
— Tem certeza de que ligaram no sábado?
— Sim, por quê? Em torno das três da tarde.
Então, era isso. A chamada fora feita depois que ela e Nick tinham passado a noite
juntos.
— E disseram qual o motivo da ligação?
— Bem, tem a ver com a oferta para a compra de Roseira Silvestre.
Sem maior surpresa, Laura desligou e permaneceu alguns minutos assimilando a
novidade que acabara de ouvir. Era uma confirmação das maquinações de Nick para
seduzi-la, levá-la para a cama e, poucas horas depois, colocar os advogados em contato
para fechar negócio. Ela estaria no seu momento mais vulnerável.
Resolveu terminar logo com tudo aquilo. Visitaria Nick no hospital às duas horas, e no
fim da tarde embarcaria, disposta a nunca mais voltar a Vancouver.
— Laura, estava doido para ver você... — disse Nick com voz baixa, logo que a viu
entrar no quarto. — Pensei que nunca viesse. Ficava pensando onde você estaria.
— Nick...
Ela forçou um sorriso para animá-lo, tentando esquecer o aperto no coração ao ver
aquele rosto tão familiar, agora um pouco abatido. Reclinado sobre os travesseiros, ele
mantinha os dois braços sobre o lençol, cobertos de bandagens. Com um gesto de
cabeça, pediu que se aproximasse.
Laura ocupou a cadeira ao lado da cama, conservando certa distância que lhe
garantia o autocontrole.
— Acredite, tentei vê-lo antes, mas aquela atendente antipática não me deixou entrar
na UTI.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

— Com os pacientes, ela não é tão antipática assim. Mas e você, como vai? Como
está enfrentando tudo isso?
Laura sentiu-se mais uma vez desarmada ante seu olhar gentil e a preocupação
sincera que demonstrava no tom de voz. Como podia um homem tão ardiloso ser tão
convincente? Com esforço, livrou-se da teia de charme que ele, mesmo fraco e
machucado, conseguia lançar.
— Estou bem. Vim para agradecer por sua coragem, por ter salvado minha vida...
— Não precisa agradecer. Ainda bem que eu estava acordado quando o fogo
começou. Qualquer um teria feito o que fiz.
— Talvez, mas você arriscou a pele, feriu-se bastante... — Espalmou a mão para que
ele não a interrompesse. — Deixe-me terminar, Nick. Estou arrependida por não tê-lo
ouvido quanto à reforma urgente do chalé. Parece que o fogo começou na chave de luz
do alpendre. Enfim, além de gratidão, devo-lhe desculpas, sinceramente.
Com frio na alma, mas disposta a falar tudo, Laura prosseguiu:
— Nunca vou poder compensar o que fez por mim, Nick. Mas há algo que posso
fazer, antes de sair da cidade.
— Vai viajar? Por quanto tempo? E por quê?
— Não voltarei, Nick. Não encontrei aqui a paz que procurava. Você sabe como fui
infeliz no casamento, como Jason me maltratava. Imaginei Roseira Silvestre como um
lugar de cura, de renovação. Mas o chalé não.existe mais, e nem era como eu me
lembrava dele. Tudo mudou...
Á expressão de Nick tornou-se sombria.
— E quanto a nós, Laura? O que faremos?
— Nós? — De propósito, ela foi um tanto vaga na resposta. — Acho que nunca
existiu nada de mais forte entre nós, Nick. Foi um momento especial. Eu estava carente,
confesso que fui egoísta, quis me satisfazer. Só isso. E não daria certo com você...
Naquele instante, para Laura, essa era a verdade. Nick Diamond não tinha princípios,
era o tipo de homem que mataria tudo que havia nela de meigo e generoso.
— Mas para onde você vai? — Ele parecia não ter entendido completamente o que
Laura queria dizer. — Como irá se arranjar sozinha? Pense bem...
— Estou decidida, Nick. — Apertou os lábios num frio sorriso. — Pela primeira vez,
posso cuidar de mim mesma. Meu marido me deixou muitos bens. Não preciso me
preocupar com dinheiro.
— Isso não me surpreende. Sei quem você é, Laura. Sei quem era Jason Thorne...
Dono da Eletrônica Thorne.
— Sabia? Então, você andou me investigando!
— Não, juro que não. Você mesma me contou o sobrenome dele. Na hora, não
associei as coisas, mas depois... A empresa é conhecida. Procurei uma revista de
negócios recente e li a nota sobre o falecimento dele.
Laura soltou um longo suspiro. Por todo aquele tempo, Nick soubera que estava
lidando com uma rica viúva. Ela pensou que já havia chegado ao limite da dor, agora
constatava que não.
Nick a cercara de atenções até seduzi-la, apesar de não aparentar ser o tipo de
mulher que ele apreciava. Mas agora o motivo estava claro: dinheiro.
— É estranho que você não tenha comentado nada do que descobriu sobre mim.

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— Eu estava esperando a hora certa — respondeu Nick, tranqüilamente. — Queria


que você confiasse em mim.
— Confiança é uma bela palavra, não é? Diga-me, Nick. Aquela noite em que íamos
jantar no Catalpa Inn, sua assistente me telefonou, desmarcando. Só que passei por lá,
sozinha, e vi você com uma mulher. Trataram de negócios a noite toda?
— Até perto da meia-noite. — Ele moveu a cabeça e Laura notou-lhe a expressão de
surpresa. —, Ia lhe contar pela manhã, mas...
— Contar o que, Nick?
Sentiu-se despencar num poço sem fundo. Fora tolice perguntar sobre aquela noite.
Não teria nenhuma explicação que não fosse dolorosa, decepcionante. Por que
machucar-se mais?
— Suponho que agora você vai levar adiante seu projeto e derrubar parte do
bosque...
— Sim — confirmou Nick com voz rouca. — Mas deixe-me explicar.
A segurança dele era inacreditável. Devia julgar que, por uma noite de amor, Laura
aceitaria tudo que ele quisesse.
— Não perca tempo. Como eu já disse, nada pode pagar o ato de salvar minha vida,
mas vou facilitar as coisas para você. Não quero mais ficar com a propriedade. Você
poderá comprar Roseira Silvestre pelo valor de mercado.
Ele quis interrompê-la e de novo ela impediu.
— Vou avisar meu advogado hoje mesmo. Ele tratará de tudo. Não precisamos mais
nos encontrar. Não tenho nenhum interesse em seus projetos imobiliários nem em
nenhum outro plano, comercial ou pessoal. Na verdade, não quero vê-lo nunca mais.
— Espere! — Nick elevou o tom de voz, mas ela não se intimidou. — Ouça...
Laura deixou o quarto de Nick e fechou a porta enquanto ele ainda protestava,
pedindo que não se fosse. Só quando saiu do hospital é que veio a inevitável reação
nervosa. As pernas começaram a tremer, sentiu dor na boca do estômago e precisou
respirar fundo, diversas vezes, até relaxar.
Estava tudo acabado.
Devia sentir-se aliviada, e de fato estava, na medida em que enfrentara Nick sem
sucumbir ao seu charme e à sua conversa fácil. Mas, olhando para o futuro, Laura anteviu
um deserto no coração.
Um deserto que continuaria dentro dela, talvez para sempre.

CAPÍTULO XI

O mercado imobiliário em Toronto andava fraco e Laura levou quase três meses para
vender a casa. Na véspera de entregar as chaves aos novos proprietários, vagou
tristemente pelos cômodos vazios, fazendo um balanço dos acontecimentos.
Uma boa conseqüência da curta temporada em Roseira Silvestre era que as
lembranças de Jason se apagaram definitivamente de sua memória, não sendo mais
capazes de magoá-la. O único problema, pensou sorrindo, era que outras recordações,
de outro homem, haviam ocupado o lugar das anteriores. Lembranças ainda vividas,
dolorosas.

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

Seus passos ecoaram no piso de mármore do saguão, enquanto ela se dirigia à porta
de saída. Era seu último dia ali, e não tinha do que se arrepender. Havia vendido tudo que
fizera parte de sua vida com Jason. Estava livre de qualquer tipo de laço com o passado.
Percebeu um envelope creme no chão, que o carteiro devia ter acabado de lançar
pelo vão da porta. Sem dúvida, era a última correspondência que recebia naquele
endereço. Já avisara os Correios para guardar tudo que chegasse, por duas semanas, até
que ela voltasse de seu cruzeiro ao Caribe.
Laura havia decidido trabalhar com crianças, talvez abrir uma escola, mas faltavam-
lhe detalhes mais claros. Quem sabe precisaria de uma sócia experiente, mas estava
deixando para resolver tudo na volta da viagem de férias.
Abriu o envelope sem muita vontade e viu que continha um convite:
"O prefeito de Juniper Ridge convida para a cerimônia de homenagem à memória de
Charity Brown, que será realizada em..."
Também havia uma carta pessoal do prefeito, que dizia:
"Prezada Srta. Grant,
Esta comunidade deseja homenagear sua tia Charity Brown pelos bons serviços
prestados à escola local.
Ficaríamos honrados com sua presença na inauguração de uma placa de bronze com
o nome dela. Todas as despesas correrão por nossa conta. Favor confirmar sua vinda
com minha secretária.
Muito grato..."
Laura não contava com esse obstáculo à sua decisão de jamais voltar a Vancouver.
Pensava em Juniper Ridge como um sonho de paz e amor desfeito. O lugar estava tão
associado a Nick Diamond que ela não conseguia lembrar-se de um sem o outro.
No entanto, assim que dobrou a carta para guardá-la, sentiu saudades da tia que
tanto a amara. Fechou os olhos e pareceu-lhe ver sua figura acolhedora, ouvir as histórias
de fadas que contava no bosque, escutar-lhe a voz doce chamando para tomar sorvete.
"Lave as mãos e venha, querida"...
Por tudo que Charity Brown havia significado, Laura achou que não poderia faltar à
homenagem. A data proposta não interferia com sua viagem ao Caribe, seria uma semana
depois de sua volta. Então, por que carregar pelo resto da vida o remorso de não ter ido?
Nos quinze dias seguintes, Laura praticamente não passou nenhum momento
sozinha. O animado grupo que conheceu no navio nada exigiu dela a não ser simpatia e
disposição para alegres passeios, jantares, festas e bailes. Foram férias proveitosas e
repousantes, em que Laura não só descansou a mente como ganhou um pouco de peso
e ficou bronzeada de sol, ganhando um aspecto mais saudável e uma silhueta atraente,
com as curvas mais cheias nos lugares certos.
Entre as lembranças e roupas novas que comprou no Caribe, havia um vestido verde-
musgo, decotado e de alcinhas, elegante, mas informal. Ela o escolhera tendo em mente
a cerimônia em Vancouver. Como era um traje leve, torceu para que o sol brilhasse no dia
marcado.
Realmente, o céu estava limpo e muito azul quando ela chegou. A prefeitura a cobriu
de gentilezas, mandando ao aeroporto um carro com motorista, para ficar à sua
disposição. Recebeu um ramalhete de flores e foi levada a um excelente hotel. O quarto
dava vista para a rica vegetação que cobria as montanhas costeiras, ao norte da cidade.

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Era um dia perfeito.


O motorista a chamou no começo da tarde, mas ela não tinha idéia de onde estava
indo. O convite não indicava o local exato da cerimônia, mas o condutor obviamente tinha
essa informação e tomou o caminho sem mais demora.
Ao olhar para seu reflexo na janela do carro, Laura viu um rosto bem diferente
daquele que exibia meses atrás, quando morava em Roseira Silvestre.
Não mais a velha palidez, os olhos fundos, os cabelos desalinhados, e sim uma
mulher radiante, corada, de pele sedosa, os olhos azuis destacando-se na face bem
maquilada, emoldurada pelo moderno penteado.
Laura sorriu, satisfeita consigo mesma, perdida em pensamentos. Recordou-se do
cruzeiro no Caribe, da animada turma que insistira para ela participar de todas as
atividades.
Distraída, quase assustou-se com a voz grave do motorista.
— Chegamos.
Antes que pudesse colocar a mão na maçaneta, a porta do carro foi aberta pelo lado
de fora e, ao saltar, Laura foi recebida e saudada por um casal de meia-idade.
— Muito prazer, senhorita Grant. Obrigado por ter vindo. Sou o prefeito Griffith e esta
é minha mulher, Carol.
— Você está muito elegante, querida. — Carol era extremamente simpática. — Venha
conosco para conhecer algumas pessoas. Estamos esperando um fotógrafo do jornal
para começar a cerimônia. Todos os convidados já chegaram.
Só então, ladeada pelo prefeito e sua esposa, que a conduziam para a calçada, Laura
deu-se conta de onde estava. Foi um choque. Não estivesse segura pelo casal, Laura
poderia ter fraquejado de susto e caído.
Os três acabavam de percorrer um trecho da avenida Juniper, passando a casa de
Nick Diamond e chegando à entrada de Roseira Silvestre.
Uma confusão de idéias disparatadas tomou conta de Laura. Havia deixado
Vancouver sem ver o chalé depois do incêndio.
Não suportaria ver as ruínas de um lugar tão querido. Agora, o prefeito a estava
trazendo ali. Seria aquele, por absurdo que fosse, o local da cerimônia?
O portão de madeira estava aberto e uma pequena multidão se concentrava no
jardim, encobrindo a visão daquilo que seria um segundo susto para Laura. Aos poucos,
ela conseguiu ver uma quase perfeita réplica do chalé, novo em folha!
Estaria sonhando? Mal distinguia as palavras do prefeito, que falava com ela, do
barulho das pessoas que conversavam, admiravam e elogiavam a construção. Quem
seria o responsável por aquilo? Não Nick Diamond, certamente.
Sem querer, Laura olhou para o sobrado vizinho, cujas janelas superiores se abriam
para o pátio dos fundos de Roseira Silvestre. Não havia ninguém. O que ela esperava?
Ver Nick debruçado ali, observando a cena?
— Então — falava o prefeito pausadamente —, devido ao empenho de sua tia na
educação das crianças, reconstruímos a casa e vamos destiná-la a cursos de verão, para
ensinar botânica e ecologia.
Laura não conseguia prestar atenção no que ouvia. Acalorada, só pensava que
poderia desmaiar se não tomasse um copo d'água. Estava a ponto de pedi-lo quando viu
Sally aproximar-se, vinda do alpendre do chalé. Procurou manter-se calma e composta

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enquanto abraçava a irmã de Nick. Foram interrompidas pelo vozeirão do prefeito, que
convidava todos a entrar.
A hora seguinte foi ocupada por uma sucessão de discursos, todos exaltando as
qualidades de Charity Brown. Dois ex-alunos, já crescidos, falaram comovidos, mas Laura
só voltou à concentração normal no momento de descerrar a placa de bronze que dava o
nome de sua tia à sala principal do chalé.
Ao contrário do que Laura temia, devido ao seu estado emocional, tudo transcorreu
sem incidentes.
Em seguida, no jardim, foi senado um bolo com ponche, e tudo virou uma festa, com
adultos e crianças divertindo-se muito. Sally puxou Laura para um canto, de modo a
poderem conversar a sós.
— Não entendo... o chalé... o que aconteceu? — Laura tinha pressa em saber de
tudo. — Julguei que Nick usaria o terreno para fazer a estrada de acesso ao novo
loteamento.
— Ele não precisou. Soube do projeto da prefeitura para abrir uma estrada do lado
leste de Juniper Ridge?
— Sim, mas.Nick me falou que tinham desistido.
— Houve uma reviravolta. Acharam melhor preservar o bosque e o chalé depois que
um vereador propôs a homenagem a Charity Brown. Então, votaram de novo e a estrada
foi aprovada.
— Quando foi isso?
— Um dia ou dois antes do incêndio, veja só... Aí o projeto ficou suspenso até que
Nick formalizasse a compra do terreno e o doasse à prefeitura, que mandou reerguer o
chalé.
— Nick doou o terreno?
— Não só doou como teve a idéia da escola de verão para crianças e vai financiá-la.
Com isso, ninguém mais ficou contra a nova estrada.
Sally hesitou antes de continuar, diante da emoção de Laura:
— Bem, perguntei a Nick se não precisaria de autorização sua ou pelo menos de
comunicar-lhe os planos. Ele disse que você tinha desistido totalmente de Roseira
Silvestre, que o lugar estava mudado e não significava mais nada...
— Certo, eu realmente disse isso a ele.
Estaria Sally a par dos motivos da desistência de Laura? Será que Nick lhe. contara
como haviam brigado, depois de apenas uma noite de amor?
— Como está Nick? — perguntou timidamente.
— Não muito bem, creio. Agora o vejo muito pouco. Está trabalhando mais do que o
normal, ficando esgotado. Nem apareceu por aqui hoje, um dia tão importante. Tenho
notícias dele através de Sharon.
Sharon... Para ela, Nick sempre teria tempo... Poupou-se do sofrimento de pensar
nos dois juntos, apaixonados, e deu atenção ao prefeito e sua mulher, que vieram
despedir-se.
— Obrigado de novo. Quer que eu a deixe no hotel ou mando o carro apanhá-la mais
tarde?
— Não é preciso. Vou caminhar um pouco pelas redondezas. Depois desço até a vila
e tomo um táxi.

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— Boa idéia, está um dia perfeito para passear:


As pessoas foram se dispersando. Laura e Sally, após receberem vários
cumprimentos, ficaram de novo isolada:
— Poderia fazer-lhe companhia — murmurou Sally. — Mas acho que você prefere
andar sozinha por aí, certo? Venha almoçar comigo amanhã. E, se quiser ficar alguns
dias...
— Muito grata, Sally. Você é uma grande amiga. Já reservei vôo para esta noite. —
Laura tomou fôlego. — Diga a Nick que apreciei demais o que ele fez. Valeu muito para
mim.
— Direi. — Trocaram um abraço de despedida. — Avise-me se um dia voltar. Vamos
matar a saudade.
Laura ficou no jardim por longos minutos depois que o carro de Sally se distanciou.
Era estranho estar ali sozinha, imersa no silêncio, após o burburinho de tanta gente
reunida na homenagem a tia Charity. Tanta gente, menos Nick...
Era estranho que um homem como ele, tão frio, fosse capaz de um gesto daqueles.
Mesmo cansada, Laura decidiu ir pela última vez até a clareira das fadas. Queria
guardar tudo na memória até ter certeza de que nunca esqueceria um só detalhe.
Queria ter uma recordação dos troncos de pinheiros, das flores silvestres, das
sombras desenhadas no chão de terra pelas árvores e arbustos. Ouviria ainda uma vez o
som dos pequenos animais da mata, sentiria o perfume fresco da vegetação nativa.
Ao aproximar-se do descampado, notou que seus sapatos não faziam mais nenhum
ruído ao pisar no musgo verde e denso. O sol brilhava entre os ramos e a profunda paz
era como uma bênção.
Fechando os olhos, Laura apoiou-se num tronco, com o coração aos saltos ao
lembrar-se de que fora ali, contra a mesma árvore, que Nick pressionara seu corpo, cheio
de desejo.
Minutos depois, vagou sem objetivo por toda a clareira, como que marcando um
território de sonho onde poderia ficar para sempre. Contudo, olhou o relógio e viu que já
era hora de ir.
Sentou-se no musgo, para um derradeiro olhar e para fazer uma oração por ela e por
tia Charity. Seu vestido verde a fazia confundir-se com o cenário em volta dela.
Deve ter sido por isso, pensou ela com um arrepio, que o homem que se aproximava
pela trilha não notou sua presença.

CAPÍTULO XII

Ansiosa, Laura seguia com o olhar os passos de Nick rumo à clareira. Ele
contemplava pensativamente a paisagem, com ar exausto, mas atraente como sempre.
Vestia jeans e camiseta, e usava o mesmo cinto largo de fivela prateada do dia em que
Laura o conhecera.
Ele fez uma pausa no caminho e encostou-se na mesma árvore na qual Laura se
apoiara pouco antes. Estava tão próximo que ela notou, com uma sensação de culpa, as
cicatrizes nos braços dele, lembrança viva da noite do incêndio.
A figura de Nick deixava em segundo plano todo o resto da cena. Por que ele tinha

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

vindo ali, e por que tocara daquele modo o tronco com as mãos, fechando os olhos e
respirando fundo? Recordaria, como ela, um momento especial de ternura?
Laura ouviu um pássaro cantando e, no fundo da alma, sentiu agonia. Por que não
tinha ido embora antes? Por que não...
Nick soltou um gemido de frustração.
Cada vez mais tensa, Laura observou como ele deslizava a mão pelo tronco,
parecendo acariciá-lo. Continuava sem vê-la, e ela rezou para que assim fosse. Mas Nick
virou-se de repente e olhou firme, como se soubesse exatamente a posição em que
estava. Ela sentiu-se tola, desarmada, e apenas olhou para as próprias mãos sujas de
musgo, sem coragem para limpá-las no vestido.
— Laura... — A voz de Nick era irreconhecivelmente fraca.
— Pensei que já tinha ido embora da cidade.
Nick não fez nenhum movimento para aproximar-se. Confusa, Laura engoliu em seco
e só conseguiu dizer:
— Também não esperava vê-lo. Pelo menos, pensou Laura, o tom da frase soou
neutro, e não choroso a ponto de revelar a forte emoção que experimentava. Seria
humilhante mostrar-se saudosa dele, por mais intensas que fossem as lembranças
despertadas por aquele lugar.
— De qualquer modo, fico feliz com a oportunidade de agradecer-lhe pessoalmente
por tudo que fez em Roseira Silvestre. Foi uma idéia maravilhosa.
— Fiquei surpreso ao saber que você vinha para a homenagem — observou Nick,
com os olhos embaciados.
— Acho que só um motivo assim me faria voltar aqui — cortou Laura, com uma frieza
que não correspondia ao que sentia.
Ela percebeu que aquelas palavras tinham atingido Nick, ao notar no rosto dele uma
expressão de sofrimento. O que teria causado essa reação? Remorso por tê-la
enganado?
O silêncio que se seguiu os deixou imóveis, cada qual perdido nos próprios
pensamentos. Laura decidiu romper a tensão e, inalando profundamente, começou a
caminhar de volta à trilha. Assim que ultrapassou Nick, este se pôs a acompanhá-la, com
os olhos fixos nela.
O coração de Laura disparou. Como estava de costas, não sabia o que Nick poderia
fazer. Apreensiva, parou de andar e virou-se de frente.
Por Deus! Quase havia esquecido como era sensível à aparência viril de Nick, como
era vulnerável ao seu olhar, às suas mãos fortes, aos músculos que a faziam querer
estreitá-lo contra o peito, num abraço infinito.
Reunindo as últimas forças, Laura conseguiu, dominar a vontade e deu um passo
atrás, encarando Nick fixamente.
— Já vou indo. Dê lembranças a Sharon. A reação dele não foi a esperada. Olhou
para Laura surpreso, como uma criança inocente, e ergueu as sobrancelhas.
— Sharon?
O tom de Nick a fez suspender por um momento os sentimentos conflitantes que a
torturavam: desejo e rancor, paixão e mágoa.
Se, em vez de disfarçar daquele modo, ele a fitasse sem jeito, embaraçado, e pedisse
desculpas, talvez Laura o perdoasse, num ato de compaixão. Afinal, era um homem

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Julia Verão 10 – Atração Secreta – Grace Green

sofrido, marcado por trágicos episódios, daí suas eventuais fraquezas de caráter.
— Você ainda a vê? — perguntou ela acidamente.
— Claro que a vejo. Ela é minha...
— Amante... — completou Laura, aparentando desdém.
— Minha advogada! — ele quase gritou, com a expressão alterada. — De onde você
tirou essa idéia maluca? O que tem a ver?
Ele parecia honestamente contrariado, impaciente por dar explicações. Não estaria,
porém, fingindo-se de injustiçado?
Seria mesmo um excelente ator? Nick olhava Laura fixamente, com a tensão
estampada no rosto.
— O nome completo dela é Sharon Ricci. Da firma de advogados que me atende há
anos: Farr, Ricci e Greg. Somos bons amigos e nunca avancei o sinal. Sem dúvida,
Sharon é uma mulher bonita, mas jamais houve atração entre nós. Que diabo...
Estendendo os braços, Nick segurou Laura pelos ombros, como se pretendesse
balançá-la e fazê-la acordar. Ela sempre pensara que um homem cuidava dos assuntos
jurídicos de Nick, e agora... Sharon Ricci não se parecia com uma advogada mas, afinal,
como deve se parecer uma advogada? Por que uma pessoa dessa profissão não poderia
ser loira e sensual?
A despeito de sua confusão, Laura tinha uma coisa bem clara na mente: se Sharon
era advogada dele, então Nick não mentira sobre aquela noite no restaurante Catalpa Inn.
— Ela não é sua... noiva? — perguntou timidamente.
— Noiva? Sharon? Meu Deus, como pôde pensar isso?
— Escutei-a dizer isso no hospital, para a atendente da UTI. Sem acreditar, Nick
balançou a cabeça.
— Obviamente, foi um truque. Ela pregou uma mentira para poder entrar e me ver. É
bem o jeito dela.
Seguiu-se uma longa pausa. Nick apertou os dedos nos ombros de Laura, olhos nos
olhos, e foi como um circuito elétrico restabelecido entre os dois, depois de
acidentalmente desligado.
Aliviado, Nick sentiu que sua habitual confiança estava de volta. Laura notou que um
novo calor lhe invadia o corpo, aquecendo seu coração.
— Todo esse tempo — sussurrou Nick — você pensou que eu estava envolvido com
Sharon? Minha doce menina... Sofreu à toa. Veja, ela era amiga de Sally, que nos
apresentou talvez com a intenção de formar um casal. Minha irmã nunca gostou de me
ver sozinho. Mas meu advogado estava se aposentando, Sharon crescia na profissão e
eu tinha novos negócios em vista. Ela entrou de sócia na firma e passou a cuidar de meus
contratos. Enfim, nos damos bem, mas daí a achar que...
— Mas Sharon parece tão... insinuante.
Nick soltou um riso de compreensão e espalmou a mão no rosto quente de Laura.
— Não se culpe. Sei o que está pensando e, acredite, Sharon não ficaria ofendida se
ouvisse isso. Ela é desse tipo, gosta de chamar atenção, mas é uma profissional
competente.
— Está bem, não vou me culpar. É pior do que isso. Achei que você fez amor comigo
só para facilitar a compra da propriedade.
— Fiz amor porque estava enfeitiçado por você, e por nenhuma outra razão. Você

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parecia tão feliz... Por isso, seu comportamento no hospital não fez o menor sentido para
mim.
— Eu estava realmente feliz. Apaixonei-me por você. — Laura abaixou o olhar,
intimidada pela própria confissão. — Talvez desde o primeiro momento em que nos vimos.
Você me conquistou...
— Verdade? Jamais pensei...
— E me conquistou porque sempre foi tão...
— Arrogante?
— Não. Meigo e charmoso.
— E você me conquistou porque sempre foi tão...
— Sem graça?
— Também não. Elegante e corajosa.
— Não sei se foi um bom começo.
Laura abriu um largo sorriso, já totalmente descontraída. Nick também riu e, tomando
a rosto dela entre as mãos, passou a beijá-lo com ternura.
— Mais uma coisa — ajuntou Nick entre seus carinhos. — Naquela noite em que
desmarquei o jantar com você, a prefeitura tinha decidido retomar o projeto da estrada.
Havia muita coisa para discutir com Sharon e, como nenhum de nós tinha comido,
resolvemos ir ao restaurante. Tentei avisar...
— Fiquei tão aborrecida que fui para lá, sozinha, e vi vocês dois brindando,
contentes. Imagine o que senti.
— Mas, querida, naquela ocasião muita coisa boa ficou definida. Era natural
comemorar. Se tivesse visto você...
— Fui embora antes que pudesse me ver. — Laura se explicava em tom de
arrependimento. — E no outro dia, depois do incêndio, meu advogado me ligou e disse
que você queria conversar sobre o chalé. Eu me senti enganada, iludida com uma noite
de amor.
— E na verdade eu estava querendo retirar a oferta de compra da propriedade! —
Nick alisava os cabelos de Laura com as mãos, mantendo seu olhar suave. — Deve ter
me julgado um canalha. Ainda pensa assim?
— Não, claro que não... — Laura disse isso com tristeza. Amava Nick profundamente,
mas ainda tinha certos valores que Nick não compartilhava. Jamais concordaria em
derrubar árvores centenárias para construir casarões de pedra. — Você afinal conseguiu
o que queria. Terá sua estrada para o novo condomínio. Quando começam as vendas?
— Sabe, Laura, salvar você do incêndio me abriu os olhos para muitas coisas. Aliviou
a dor de ter perdido minha mãe num acidente parecido, sem poder fazer nada. Sei que
Sally lhe contou a história. E também me fez reavaliar a vida, dar valor a coisas simples
como árvores, pássaros e flores. Por isso tenho vindo aqui, repensar nossos momentos,
lembrar-me de você.
Laura o olhava enternecida, mas surpresa, enquanto Nick
prosseguia:
— Não vou mais tocar num só palmo do bosque, porque isso nos afastaria e minha
vida não tem mais sentido sem você. O projeto será refeito. As casas, o dinheiro, não são
mais tão importantes.
— Querido, querido... — Laura enlaçou-o com os braços e aninhou-se no seu peito.

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— Talvez você também tenha sido tocado pela magia deste lugar. O bosque, a clareira...
Sabe, é um lugar abençoado.
— Laura, meu amor. Você disse que consegui o que desejava, e é verdade. Tenho
você e não quero mais nada, a não ser fazê-la feliz.
Ela soltou o corpo contra o dele e abraçou-o com força.
— As crianças que vierem a Roseira Silvestre poderão brincar no bosque, como eu
brinquei. Adoraria ensiná-las, assim como tia Charity me ensinou.
— Se é isso o que quer, posso dar um jeito... — Nick assumiu um ar meio enigmático.
— Basta vir morar aqui em Juniper Ridge... É impossível voltar atrás no tempo, mas juro
que não cometerei mais os mesmos erros. Seria um recomeço...
— Sim, um recomeço. Nós .merecemos, Nick.
— Quem sabe, dando certo... — ele respirou fundo — poderemos nos casar. Você me
aceita, apesar dos meus defeitos?
— Aceito, mas... -— Laura deu um passo atrás quando ele fez menção de beijá-la na
boca. — E o contrato?
— Que contrato? — A mesma expressão incrédula de antes voltou ao rosto de Nick.
— Certa vez ouvi você dizer a Sally que só se casaria se a noiva assinasse um
contrato.
— Ah, isso foi antes de você aparecer e eu me apaixonar.
— Quer dizer que esperava nunca se apaixonar? Que poderia casar sem amor?
— Entenda. Eu mantinha muitas relações sociais, a pressão para casar era grande,
principalmente da parte de Sally, depois que mamãe morreu. Bem, aprendi a identificar
mulheres carreiristas e sempre quis achar alguém que gostasse de mim antes de
conhecer minha situação financeira...
— Então, sem contrato? — Laura ergueu o olhar para ele.
— O único contrato será aquela frase que se diz na hora do casamento: "promete
amar e honrar..."
— Prometo — cortou ela, oferecendo-lhe os lábios trêmulos de emoção.
Ele a beijou calorosamente, repetidas vezes, confiante na grandeza do amor que os
unia. Lembrou-se de um detalhe que o fez soltá-la.
— Precisamos de uma casa. O chalé agora pertence à comunidade e a minha... não
é um lar, Laura. Você mesma comentou isso.
— Bem, é tão perto de Roseira Silvestre e do bosque que... Juntos faremos daquela
casa um lar, Nick. Um lar cheio de amor.
— E de crianças? Laura sorriu em concordância e na sua mente cintilou uma
imagem: a do retrato de Nick adolescente. Na galeria em que o vira, havia pensado
quando ele pareceria de novo tão feliz, tão despreocupado.
A resposta estava diante dela. Os belos olhos cinzentos de Nick brilhavam, seus
lábios se entreabriam num sorriso sereno e a expressão do rosto... Bem, uma vez mais
Nicholas Diamond voltava a ser O Senhor de Tudo.
Jamais o amaria tão intensamente como naquele momento, imaginou Laura Grant, no
auge de uma entrega espiritual que havia buscado desde que se conhecia *por gente.
De mãos dadas, em poucos passos eles chegaram à clareira das fadas. Laura nunca
poderia saber se foi apenas um efeito de luz e sombra, uma ilusão de ótica na tarde que
caía. Mas o que ela viu foi uma fadinha vestida de branco, dançando descalça entre os

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arbustos.
Também não saberia jamais se foi o vento, soprando entre os ramos, que se
confundiu com a voz afetuosa de tia Charity:
— Bem-vinda ao lar, querida criança.

GRACE GREEN nasceu na Escócia e foi professora no seu país natal. Em , ela e seu
marido John, engenheiro naval, emigraram para o Canadá, onde criaram os quatro filhos.
Moradora de Vancouver, numa casa com vista para o Oceano Pacífico, Grace Green
adora caminhar pela beira do mar, praticar jardinagem, encontrar-se com amigos e
observar o comportamento das pessoas em geral, sempre aproveitando suas
experiências para escrever bonitas histórias de amor, como esta.

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