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Vazios de concretagem

TECHNE 109 – Abril 2006


Texto Valentina Figuerola

Cuidados especiais com a armação e uso de produtos para alterar características do concreto
podem evitar a formação das "bicheiras"
Mais do que um problema estético, os vazios
ou nichos de concretagem, popularmente
conhecidos como bicheiras, podem afetar a
durabilidade e resistência das estruturas de
concreto, que poderão sofrer deformações ou
até mesmo entrar em colapso. As principais
causas do problema são as falhas no processo
de concretagem da estrutura, por exemplo, no
lançamento ou adensamento do concreto.
Algumas vezes, no entanto, a patologia pode
ser causada por erro no detalhamento da
armadura.
Nesse caso, o congestionamento de ferragens
retém a brita e deixa passar apenas a
argamassa, formando bicheira na parte superior
do elemento estrutural. "O nicho também pode
ser originado pela utilização de agregados
graúdos em locais onde o espaçamento da
armadura é insuficiente", explica Selmo
Detalhe de bicheira em lateral de viga
Chapira Kuperman, engenheiro consultor da
protendida.
Themag, empresa de engenharia consultiva.

As relações entre o tamanho máximo do agregado usado no concreto, dimensões das peças
estruturais e distâncias horizontais e verticais entre barras de aço devem respeitar algumas regras
para que os vazios de concretagem sejam evitados (veja figura). "Para evitar esse tipo de patologia,
além de seguir esses parâmetros, é preciso garantir a dosagem, lançamento e adensamento
adequados do concreto", recomenda o engenheiro Ercio Thomaz, pesquisador do Centro de
Tecnologia do Ambiente Construído, do IPT.
A vibração excessiva do concreto, por exemplo, poderá gerar a segregação de componentes e,
conseqüentemente, os vazios de concretagem. O tipo de vibrador, a freqüência e o tempo de
vibração, por sua vez, dependem da dimensão dos agregados e da densidade da armação. No
adensamento por imersão, tipo mais comum, vibradores de imersão ou agulhas deverão ser
inseridos em vários pontos, de forma que toda a massa de concreto seja adensada.
Paulo Fernando Araújo, autor do Manual de Patologia, explica que fôrmas estanques, bem
executadas, evitam a formação de bicheiras ao impedir que a nata de cimento escorra por aberturas
ou frestas, ocasionando falhas no concreto. "Outra recomendação para evitar essa patologia seria o
lançamento adequado do concreto, que nunca deve exceder uma altura de 3 m", afirma. "Caso
contrário, a brita tende a chegar na base do elemento estrutural antes da argamassa, causando
bicheira na parte inferior da peça", complementa Araújo.
"Em pilares, quando a altura de lançamento for superior a 1,5 m, recomenda-se que o concreto seja
bombeado ou lançado por equipamentos auxiliares como trombas de elefante e funis", diz Cláudio
Palma, da construtora Tecnipol. Em condições como essa, janelas e cachimbos são indicados para
facilitar a concretagem e a vibração adequadas, de forma que não haja a segregação dos
componentes. "Uma concretagem difícil requer um concreto de slump elevado (8 ±1 ou 8 ± 2)",
acrescenta Palma. Outra opção viável, porém mais cara, segundo ele, seria o concreto auto-
adensável.

À esquerda, bicheira na parte intermediária do pilar e, à direita, a mesma patologia, mas em


fundo de viga de edificação comercial.
Por serem suscetíveis à formação de bicheiras, as juntas frias devem ser sempre tratadas com
hidrojateamento ou apicoamento manual de forma a diminuir a incidência da falha. "A elaboração
de um plano de concretagem permite uma seqüência lógica e mais eficiente de concretagem,
evitando os pontos de descontinuidade das fôrmas e, conseqüentemente, as emendas", diz Flávio
Henrique Cunha Lobato, gerente de obras da Andrade Gutierrez.
A dosagem adequada dos componentes do concreto pode evitar bicheiras, mais comuns em
concretos que tenham uma quantidade insuficiente de argamassa ou muito agregado graúdo. Em
contrapartida, em concretos muito fluidos, com slump alto (mas sem boa coesão), também estão
suscetíveis a essa patologia. "O ideal é contar com a assessoria de uma empresa especializada em
tecnologia do concreto na hora de dimensionar seu traço", aconselha o engenheiro Flávio Henrique
Lobato, gerente de obras da construtora Andrade Gutierrez.
Em obras de maior complexidade, como, por exemplo, túneis metroviários e barragens, recorrer a
tecnologias e materiais de ponta pode ajudar a reduzir a incidência de patologias do concreto, dentre
elas as bicheiras e fissuras. O engenheiro cita como exemplo a construção dos túneis do corpo da
estação Chácara Klabin (veja boxe), em que uma estrutura especial com formato abobadado foi
preenchida com concreto auto-adensável, de grande trabalhabilidade e coesão, em vez do
convencional. "O método construtivo e o material adotado nos garantiram uma estrutura
homogênea", explica Lobato.

Parâmetros da antiga NBR 6118/78 para prevenção de bicheiras.

Principais causas
• Dosagem inadequada do concreto: concreto muito fluido, sem coesão, com excesso de agregado
graúdo;
• Lançamento do concreto em alturas superiores a 3 m;
• Erro no detalhamento da armadura: alta concentração de barras;
• Vibração excessiva;
• Erro na especificação do tamanho máximo do agregado (veja figura);
• Peças esbeltas, preenchidas com concreto de baixo slump;
• Fôrmas mal-executadas, sem estanqueidade.

Reparo de bicheiras
Uma vez descobertos, os nichos de concretagem devem ser devidamente reparados a fim de evitar
problemas relacionados à durabilidade das estruturas que, em casos mais graves, pode acarretar
deformações e até risco de entrar em colapso (dependendo do elemento estrutural e seu uso).
"Cobrir a bicheira com argamassa ou qualquer outro material, sem removê-la, poderá mascarar um
problema mais sério, como a corrosão da armadura", explica Kuperman. Segundo o engenheiro
consultor, o trecho da armadura cuja seção transversal ficou comprometida pela corrosão deverá ser
removido e substituído por novas barras.

Antes do vazio ser preenchido, o material solto Vazios de concretagem em pé de pilar,


deverá ser totalmente removido e a superfície causado pelo lançamento indevido do
deverá receber tratamento específico concreto, provavelmente feito a uma altura
superior a 3 m

O material de preenchimento poderá variar de um simples graute a um concreto, de acordo com o


tamanho do vazio a ser preenchido. "Não existe panacéia e há várias maneiras de reparar bicheiras",
afirma Kuperman. Fôrmas do tipo "cachimbo", por exemplo, garantem um bom preenchimento de
falhas mais profundas em superfícies verticais, como pilares. Já as pistolas de pressão podem ser
ideais para reparar as falhas mais superficiais com graute ou argamassa. "No concreto e na
argamassa, aditivos e adições adequados conferem uma boa coesão à mistura e aumentam a
aderência do material ao substrato", acrescenta.

A primeira coisa a se fazer ao encontrar uma bicheira é delimitar a falha com o desenho de um
quadrado ou retângulo. "Formas triangulares devem ser evitadas por criar retrações diferenciais que,
por sua vez, causarão fissuras", diz Araújo. A partir daí, o material "solto" deverá ser removido com
um ponteiro e martelo, até que se atinja um concreto "sadio" ou homogêneo. "Depois de limpo,
lavado e saturado, o substrato deverá ser preenchido, impreterivelmente, com material de base
cimentícia e módulo de elasticidade semelhante ao do concreto existente", complementa Araújo.
Isso garantirá a compatibilidade de deformação entre o material de reparo e o existente.
Escolha segura
Em obras complexas, como a construção dos túneis da Estação Chácara Klabin do metrô paulistano,
o uso de concreto auto-adensável garantiu uma estrutura homogênea.
O revestimento secundário dos túneis do corpo da Estação Chácara Klabin, das Obras de Expansão
da Linha 2 (Verde) da Companhia do Metropolitano de São Paulo, exigiu da equipe de engenharia
técnica da construtora Andrade Gutierrez atenção especial para a fabricação das armações, das
fôrmas e no processo de concretagem. O concreto auto-adensável recebeu aditivos do tipo
policarboxilato, da classe dos superfluidificantes, para manutenção da trabalhabilidade. O plano de
concretagem definiu, dentre outras coisas, o bombeamento do concreto em camadas na fôrma
metálica, que foi vibrada externamente apenas para evitar a formação de bolhas de ar. O engenheiro
responsável pela obra, Flávio Henrique Cunha Lobato, explica que a opção por um concreto
convencional, de traço não auto-adensável, exigiria métodos distintos de execução. "No caso, a
fôrma deveria conter janelas para que a vibração acontecesse pontualmente, em diferentes trechos
para adensamento total da estrutura", afirma Cunha Lobato. "Dessa forma, os resultados também
poderiam ser satisfatórios, mas haveria mais riscos para a formação de bicheiras e fissuras",
finaliza.