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O HOMEM DIANTE DE DEUS

Hélcion Ribeiro

1. Os deuses e os humanos
Na história das pessoas humanas, os deuses as controlam com uma freqüência
muito intensa. É constante a rebeldia do ser humano frente a eles, buscando sua
emancipação e autonomia. Os tempos contemporâneos não são tão diversos dos
tempos passados. Intelectuais, literatos, artistas, governantes, simples trabalhadores
do meio rural ou urbano, donas-de-casa também continuam desafiando divindades.
Estes fatos escondem sempre a vontade de serem livres de "forças opressivas e
ocultas" para se identificarem como seres humanos. Não raras vezes, as próprias
religiões apresentam "deuses opressores" que combatem os seres humanos.

O impacto do cristianismo, na consciência do mundo ocidental, é inegável. E aí,


não poucas pessoas têm-se sentido "diminuídas" por causa do "Deus infinito e todo-
poderoso, juiz supremo e severo". O Deus criador teria feito de sua criatura um
dependente, uma marionete. Por outro lado, muitos homens e mulheres conseguem
ver, no mesmo Deus cristão, o Criador e Senhor, de quem são dependentes, mas nem
por isso se entendem como im-potentes ou rivais de Deus, por ele diminuídos. Há uma
dialética onde Deus c as pessoas humanas se encontram com relações e distinções
fundamentais. Aí há um critério fundante: Deus fez o ser humano livre para a
liberdade, inclusive de até opor-se ao próprio Deus, ou ser-lhe indiferente.

Ser criatura e "imagem de Deus" significa ser "não- Deus" (este é o aspecto
negativo), mas simultaneamente ser e ter uma identidade própria (aspecto positivo). A
referência a Deus não anula o próprio ser.

A. O lugar do ser humano

Este tema tem a preocupação fundamental de identificar o ser humano no seu


universo. É ele referido a Deus por ser criatura e imagem, é ele um "tu" que Deus quis
necessitar. O ser humano é interlocutor de Deus com quem dialoga, ao qual se opõe
ou contra quem se rebela. Deus se faz companheiro do ser humano nesta história. Se,
por um lado, ele depende de Deus, é, por outro, um interlocutor para Deus.

Mas, ele tem outra referência imediata: uma referência à pessoa mesma e ao
universo todo. A pessoa humana olha para si e se descobre no outro. O outro, distinto
dos animais, é um semelhante e um igual. O ser humano é um companheiro de si
mesmo, por origem, história e destino. Caminhando junto, nem sempre, porém, ele é
capaz de ter em conta a igualdade comum, e transforma-se em lobo de seu irmão.
Companheiro e irmão, mais que um fato, é um ideal a ser construído no cotidiano e
nos séculos, pelo empenho ético da humanidade toda, que, na verdade, caminha pata
um fim comum. Companheiros e irmãos, pois, na origem, na história e no destino.

Na história, entrementes, o ser humano é responsável pelos seus atos. A


"tutela" dos deuses tantas vezes cerceou o progresso e revoltou as criaturas humanas -
apesar de a humanidade ter o direito de construir e organizar o seu universo. Este
direito à autonomia é algo querido pelo Deus em quem os cristãos acreditam. A
construtiva ação da gente humana na organização e conservação do universo, pelo seu
trabalho e amor, está também entremeada de comportamentos prejudiciais e
destrutivos. A pessoa humana - porque mantém sua autonomia frente ao espaço que o
envolve - é responsável igualmente pelo bem e pelo mal que propõe em sua história
comum. Tal emancipação se evidencia através do cotidiano e do trabalho, nas ciências,
artes e sonhos. Esta realização intramundana faz parte da mais íntima plenificação
humana. Deus quer que a humanidade explore as possibilidades de vida contidas nos
mistérios de si próprio e da natureza, apesar das ambigüidades que aí também
afLoram.

Os tempos contemporâneos no mundo ocidental oportunizam para os


habitantes do Atlântico Norte condições naturalmente privilegiadas: fruto da
modernidade, cuja progressividade propicia à natureza humana possibilidades jamais
conhecidas anteriormente nas ciências, artes, filosofia, tecnologia, industrialização,
política, benesses, etc. A modernidade emancipou o ser humano; mas, em alguns de
seus aspectos, diminuiu-o, dando-lhe novas algemas. Nem tudo que ele quer ou
imagina o toma mais feliz. Há um limite ético em seu processo. Este limite se impõe
porque "pessoa humana alguma é uma ilha", como já disse Thomas Merton. Há uma
necessária inter-relação entre as pessoas e grupos, entre os povos e nações. O ser
humano somente se realiza como tal enquanto vive duas dimensões básicas de seu
ser: indivíduo e comunidade. Além da socialidade dos indivíduos (um comportamento
de indivíduos), existe a própria realidade social como um fator constitutivo do gênero
humano. A pessoa (tal como a concebem delimitadamente as correntes personalistas)
soma-se à comunidade. Uma não elimina a outra, mas são os dois aspectos fundantes
do gênero humano. A comunidade - antes de massificar - é quem personaliza os
indivíduos, como acreditam tantos povos.

A preocupação fundamental aqui não é evidenciar o Deus criador do ser


humano, construindo uma "teologia de cima" ou “descendente” 1, mas quer afirmar
"desde baixo" - uma "teologia ascendente" - a autonomia da criatura humana na sua
relação com Deus e, sobretudo, com os outros no mundo.

B. Os gestos humanos

Nenhuma pessoa humana se esgota ou se realiza apenas na história individual;


tampouco só na sua história social. João é operário e ama Maria, com quem convive
numa cidade qualquer da América Latina, e é adversário político de Aparecida, a qual
se empenha na eliminação dos "muros da miséria" entre povos de primeiro e terceiro
mundos, mas viaja muito e encontrou Helder, homem cristão de fé profunda. Todos os
quatro não se esgotam e nem se definem em si mesmos. O cotidiano e a
individualidade deles - mais as comunidades que os ligam - são ricos elementos da
globalidade de suas vidas. Tal globalidade de vida os transcende ainda e os fazem

1
Para esta questão, ver o meu livro: Ensaio de antropologia cristã. Da imagem à semelhança com Deus.
Petrópolis: Vozes, 1995
partícipes de uma história que não está fechada sobre si mesma. A história, por si só,
não detém e nem contém a plenitude humana, segundo os cristãos.

Todavia, ela tem sua autonomia e valor peculiares, num quadro referencial
maior: o plano de Deus. E é a partir deste plano de Deus _ plano salvífico - que os
cristãos vêem o sentido cotidiano da individualidade e socialidade da pessoa humana,
bem como das realidades intra-históricas. Tal perspectiva de fé leva-os a conviver em
meio a todos os outros homens/mulheres, fazendo as mesmas coisas, andando pelos
mesmos caminhos, preocupando-se com as mesmas lutas e desafios, sofrendo as
mesmas dificuldades e alegrando-se com as mesmas vitórias. O olhar da fé sobre si
mesmos e sobre os outros todos os leva a um compromisso com a vida e com a
história, e a qualificar todas estas realidades. Não têm os cristãos o condão de
transformar a si, aos outros e o mundo, com um passe de mágica religiosa, que
distinga uns e outros como melhores e/ou superiores. Eles e os outros são todos
companheiros nesta história. Contudo, pela certeza da fé, com os olhos da esperança e
com o coração plenificado pelo amor, eles são homens/mulheres capazes de infundir
esperança e apontar o grande final da história em Deus - apesar de conhecerem não as
concretas mediações dela, mas tão-somente os seus princípios inspiradores.

Assim, João, Maria, Aparecida e Helder são vistos por eles a partir do plano de
Deus Uno- Trino que escolheu a todos para serem amados, queridos e partícipes de
sua glória sem fim. O projeto divino inclui, porém, a história onde mulheres e homens
crescem e progridem, se educam e se capacitam a participar imortalmente da
plenitude da vida. A história dos seres humanos é teleológica. Ela, porém,
indissoluvelmente se densifica numa realidade peculiar, isto é: constrói-se dentro de
uma autonomia particular. A pessoa humana só atinge seu fim último porque está
compromissada com a exclusiva construção desta realidade e de nenhuma outra. A
participação na história definitiva de Deus é um puro ato da gratuidade e amor
bondoso de Deus, que elegeu os seres humanos como companheiros seus.

Enquanto a vida definitiva, participada na Trindade, pertence à escatológica


história de Deus, a história terrena (também implicada na de Deus, por ser a história
uma só) pertence a todo o gênero humano. Nem todos participam dela da mesma
maneira ou nela têm o mesmo compromisso. Há variações distintas que a enriquecem
(e às vezes a empobrecem); pois que ninguém vive sozinho e há necessárias inter-
relações, conforme os espaços em que se vive. Esta história não é algo separável da
história de Deus, mas mantém distinções. Uma tentativa de dividi-Ias, quase
estanquemente, leva a conseqüências sócio-religiosas quase sempre negativas ou
desvantajosas, especialmente para os pobres e deserdados socioeconomicamente,
bem como para os não integrantes das respectivas estruturas sociais e do poder.

O amor, ao contrário, é capaz de ser o liame entre uma e outra pois que "Deus é amor"
(110 4,8), expande-se para fora de si ~ encontra o ser humano. Este por sua vez é
aberto para Deus e capaz de responder amorosamente ao amor divino. E ainda mais, o
amor humano perpassa todas as relações onde não existe o ódio. Este amor toma
cotidianamente nomes e formas diversas. Desde o erótico até o idealismo. Desde os
que o usam egoisticamente até o que dá a vida pelos seus. Desde a paixão que
assassina até a família, o casal que cresce Junto. Os nomes e a realidade do amor
passam por uma gama muito diversificada, onde aparecem a sexualidade e o prazer, a
justiça e a misericórdia, a solidariedade e a subsidiariedade, a libertação e o
compromisso pela paz e pacificação, a promoção humana e a caridade assistencialista,
a gratuidade e o auxílio, o voluntariado e O idealismo, os direitos humanos e a
democracia, etc. Por sua vez este amor assume às vezes um caráter mais cúltico (o
celebrativo nas religiões) ou mais sócio-cultural (a promoção humana).

Todavia, frente à aceitação interna da história e por respeito a ela, "não cabe
considerar este mundo nem como o céu da autorrealização, nem como o inferno da
auto-alienação, senão que se deve aceitá-lo como história e campo de batalha entre
in-humanidade e humanidade. Isto postula uma aceitação da situação presente apesar
de sua inaceitabilidade, com suas possibilidades e desenganos. É o sim crítico do amor,
que deixa para trás tanto o sim absoluto do entusiasmo oco quanto ao seu contrário o
absoluto não da grande negativa”2. Aí a história humana será produzida por gestos das
coletividades e alternativas várias, bem como no interno delas por todos os gestos
pessoais.

2. A pessoa humana diante de Deus

A pessoa humana é uma criatura de Deus, imagem de Deus e chamada a ser


semelhante a Deus. O discurso teológico detecta um ser humano extasiado diante de
Deus. Todavia, agora é preciso reverter a situação e inquirir as conseqüências para a
humanidade, mediante suas possibilidades como criatura, imagem e semelhança na
imanência da história humana. Interessa, pois, presentemente, a significação e as
possibilidades do ser humano a partir da concepção teológica de criatura e imagem.

A. O ser humano como imagem e criatura de Deus


Deus, por pura bondade, criou o ser humano e tudo quanto existe, e o fez
livremente. Criou - e cria - porque projeta para fora de si sua bondade e seu amor.
Nada criou para que ele próprio viesse a se tomar servidor da felicidade e perfeição de
sua criatura, ou viesse a buscar algo que lhe faltasse. Toda a criação existe como
extravasamento da bondade divina para participar um dia de Deus. A criação será a
glória de Deus porque participará da vida de Deus. O próprio "vivente humano é a
glória de Deus" (Santo Ireneu) porque é sinal gratuito deste processo amoroso. A glória
do ser humano...será participar da vida divina porque aí encontrará a sua plenitude 3.

A priori, nenhuma pessoa humana está "condenada" a viver com Deus.


Enquanto criatura é ela dependente do Criador, por outro lado, diferentemente das
criaturas todas, é simultaneamente interlocutor de Deus. Esta é a contrapartida vista
desde o ser humano. Criatura, sim; todavia, criatura elevada à estatura de
companheiro. "Deus age, as pessoas humanas e o mundo agem. A ação da criatura não
restringe a ação do Criador; bem como a ação do Criador não restringe a ação da

2
MOLTANN, J. El hombre. Antropología cristiana en los conflictos del presente. Salamanca: Sígueme,
1986, p.59
3
Cf. KERN, W. Subsídios para uma explicação teológica da fé na criação, in M)'stenum Salutis 1U2, Petrópolis, Vozes, 1972, p. 59-
130.
criatura: a ação da criatura procede da do Criador, e esta dá origem àquela4.
Entrementes, Deus, ao criar o ser humano, o faz de tal modo que este tenha ser e
atividades próprias; o faz livre para a liberdade. A liberdade cria a possibilidade de a
pessoa humana pôr-se diante de Deus ou voltar-lhe as costas. Entretanto, é por esta
mesma liberdade que o ser humano pode construir seu espaço dentro de uma
autonomia aberta aos co-irmãos e a Deus.

A leitura de Gn 2;8s mostra o universo criado posto à disposição da


humanidade. E, aí, o espaço de crescimento e realização do ser humano. A simbólica
bíblica - descrita pelo javista - volta várias vezes a esta temática: o mundo foi criado
para o gênero humano - a fim de que aí ele se mostre e seja imagem e presença de
Deus. Aí ele sujeitará as obras das mãos de Deus: a terra, o céu e o mar, e tudo quanto
neles subsiste. Dentre todas as criaturas é o ser humano a primeira criatura do Pai (Tg
1,18). O mundo criado é o espaço de plenificação humana, onde as pessoas humanas
todas imprimem sua marca. E elas organizam o mundo à sua imagem e à sua
semelhança. Como Deus projeta no ser humano adamítico a imagem crística, assim
também este "filho de Adão" projeta na criação sua imagem, elevando-o e
humanizando-o ao aperfeiçoar as capacidades e latências da natureza toda, apesar de
projetar nela simultaneamente os limites humanos - que fazem a natureza mesma
gemer e suspirar esperando o dia de sua libertação (Rm 8,22).

O mundo à imagem do humano não é só um caos disforme e vazio (Rm 8,21),


um vale de lágrimas ou um espaço de duras penas para as pessoas humanas
pecadoras, e que elas podem destruir na sua ânsia de usufruto depredador.

Ele é igualmente o espaço da con-vivialidade fraterna de toda a natureza criada


(seres humanos, animais e mundo in-animado). O mundo -como "imagem humana" -
cresce e se desenvolve como terra habitável e jardim cultivável não só no empenho e
preservação ecológicos dos povos não industrializados, mas também no usufruto
científico deste mesmo espaço em vista da realização comum. O ser humano toma-se
então co-criador porque - a modo do Criador - modela e plasma, organiza e produz
realidades várias, desde o microcosmos até o macrocosmos, desde o mais íntimo de
seu próprio ser e do ser da natureza toda até os espaços siderais.

Diferentemente do Javista, a fonte sacerdotal - Gn 1-2,4a, escrito no pós-exílio


e portadora de um caráter celebrativo - traça um caminho diverso no tocante à
criação: o ser humano é o último elemento da criação. Só aparece na tarde do sexto
dia, quando toda a natureza já era capaz de acolhê-lo. Não foi a terra que o produziu.
Ela não gera nenhum ser à imagem de Deus. Deus, ao querer a criatura humana, não
lhe disse: "produza a terra o ser humano". Foram as mãos divinas que o fizeram e o
fizeram à sua imagem para que ele viesse a ser "elohímico". Deus, porém, utilizou a
matéria para criá-lo, significando isto que ele é feito também da natureza. É filho de
Deus e filho da natureza. Sua relação com ela parte da bênção/mandato divino:
"crescei e multiplicai-vos ( ... ) enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do
mar, as aves e todos os animais que rastejam sobre a terra".

4
Idem, p.123
A "tarefa do ser humano" fá-lo o responsável por si e pelo universo todo. Será o
representante do cosmos diante de Deus. Com Deus ele dialogará sobre o divino,
sobre o humano e sobre tudo o mais da criação. É-lhe confiada toda a criação. Frente a
ela, de tem responsabilidades também. "Multiplicar-se-á" e transmitirá sua imagem
aos filhos. "Será fecundo" e dominará (será senhor - dominus) a criação. Não é ele puro
escravo criado para Deus, por causa dos divinos interesses, para o serviço divino ou
para os sacrifícios - como pensavam os babilonenses. Ele, criado, terá sua autonomia
para multiplicar-se, para superar-se e assenhorar-se das realidades que cultivará, sob
pena de não ser o sinal da imagem que ele é. Ele, criado, participará, como um quase
igual, do poder de Deus sobre a criação. Um poder que não é domínio absolutista; mas
antes, um poder/serviço organizador, que dá sentido ao caos. Participa do poder sobre
a vida gerando filhos à sua imagem e apoiando a vida dos nascituros, reorganizando os
espaços pela ciência, tecnologia c trabalho cotidiano, seja no campo, seja na cidade.

B. O ser humano como interlocutor de Deus .

A leitura complexiva dos dois textos de Gênesis evidencia mais ainda a


concepção vétero-testamentária de que o ser humano é criatura e imagem com
autonomia própria, por isto companheiro e/ou interlocutor de Deus. Entre Deus e as
pessoas humanas (os "adãos" e as "evas" da humanidade) se estabelecem relações
dialogais onde Deus encontra um eco de suas palavras. O ser humano é o alter-ego
para Deus, capaz de responder, inclusive, contra Deus mesmo. Diante do mandamento
divino "deste podes comer... daquele não comerás" (Gn 1,17), ele se posiciona
diferentemente. Deus chama e ele responde (Gn 3,9-10). Eles dialogam (Gn 3,11). E
Deus vai continuar buscando o ser humano como interlocutor, em Caim, Noé, Abraão,
Jacó e permanece em diálogo com seu interlocutor (de modo especial através de seu
Primogênito) até o fim dos tempos.

Com Deus o diálogo humano é feito, normalmente, numa relação de


dependência e paz. Contudo, há diálogos de revolta e de questionamento profundo,
até mesmo dos que intentam culpabilizar Deus pela desgraça humana. Simbolizam
sinteticamente este diálogo amargo o velho Jó e tantos salmos - que expressam a
angústia do ser humano só ou como povo (SI 22, por exemplo). Tanto Deus quanto a
pessoa humana se identificam diante do outro como um "tu", como pessoas humanas
que se interrogam e se des-velam diante do outro. Esta co-relação dialógica (onde
estão pressupostas as evidentes diferenças) não impede que a criatura busque
dialogar concordando e divergindo, tecendo comentários vários com o Criador ou
desafiando-o.

Deus - na formulação de M. Buber - é o "eterno Tu" da humanidade. Por outro


lado, a pessoa humana é o "tu" de Deus. Os dois se reconhecem na co-relação à
medida que se estabelece o encontro ou desencontro de um com o outro, em que os
dois estão em recíproca presenças5. Os dois não estão isolados no espaço sideral, mas
se fazem companhia sem permanecerem na eterna solidão. A distância entre o Criador
e a criatura é vencida pelo amor gratuito de Deus para com o gênero humano, que não
se considera um atrevido a dialogar, mas responde a um convite. Neste sentido, ele
5
BUBER, Martin. Que és El hombre? México: Fondo de Cultura Econômica, 1986, p. 150/1
possui uma relação única com Deus, diferente de todo outro ser criado. Tal experiência
- que também é personificante - é algo fenomenicamente presente nas várias religiões:
os seres humanos sempre dialogam com Deus (ou com seus deuses - que em geral lhes
são superiores). No cristianismo, esta experiência existencial se manifesta de modo
ímpar em Jesus de Nazaré - a explicitação máxima como Verbum Dei e Verbum
hominis.

C. Características do diálogo entre Deus e o ser humano.

Neste diálogo, a criatura humana experimenta uma dupla aproximação: de


intimidade e amizade, e de maturidade e independência.

1. A relação de intimidade e amizade

Na relação de intimidade e amizade, há também um aspecto de relação


filial/paternal. A aproximação é única entre um e outro, cujo liame máximo é o amor,
analogicamente ao existente entre pai/mãe e o filho ou entre amigos. O ser humano é
parente de Deus. Não é um anônimo no espaço cósmico - que não encontra similar
algum com quem dialogar (cf. Gn 2,21: o ser humano deu nome a lodos os animais, às
aves do céu e a todas as feras selvagens. Mas para si não encontrou a auxiliar que lhe
correspondesse).

Deus é seu interlocutor. O que lhe faz companhia coroando-o de glória e honra
(SI 8,6). O que consola sempre (Is 51,21 s), como lima mãe que não despreza e nem
esquece os seus. Ele é um pai Il1isericordioso (Lc 15,11-31). Deus ama o ser humano,
mas o deixa Iivre. Confia nele. Confere-lhe uma missão. E o tem como responsável
pelos seus atos. A proximidade única com Deus qualifica a humanidade, pois a nenhum
outro ser é dado fazer - em liberdade -- esta experiência do "Mistério tremendo e
fascinante", que se deixa ser amigo e íntimo. (Inegavelmente, esta inaudita
aproximação pode ser marcada também por um terrível distanciamento).

O caráter criatural, manifesto nas categorias de intimidade filial e amizade,


aponta também às pessoas humanas uma certeza de libertação e liberação das
amarras do mundo, do medo diante do mundo e dos poderes cósmicos. Do seu criador
lhes advém uma segurança cheia de confiança. Elas não estão sós no espaço. Mas são
queridas e amadas por Deus, pensadas desde sempre por sua bondade 6.

Enquanto povo, Israel sentiu esta filiação próxima no Deus libertador (Ex 4,22;
Os 11, I; Jr 3, 19; Sb 18,13). Seus sábios e justos expressavam mais intensamente tal
filiação pondo em Deus toda esperança (Is 63,8; 64,7; Sb 2,13-15; 5,5). O rei - que
antes de tudo era o representante de Deus frente ao povo e do povo frente a Deus -
sentia-se filho por eleição divina e pela sua associação ao destino de todo o povo (SI
2,7; 89,28; ICr 28,6). Hoje, nos povos, a presença de Deus se faz através dos valores e
das manifestações culturais diversas, de seus sábios, da vida cotidiana aberta ao Deus
comum - e sem dúvida da Igreja.

6
L. Scheffczyk. El !Jombre actual ante Ia imagen bíblica deI hombre, Barcelona, Herder, 1967, p. 40-41.
Mas é em Jesus e com Jesus que esta categoria de filiação se toma clara: Deus é
"Abbá" (papaizinho). E nele e por ele todo ser humano é filho de Deus desde já (1Jo
3,2; Rm 8,16) e isto será manifesto plenamente no momento oportuno. Os seres
humanos já não são servos, mas amigos de Deus (1015,15), que privam de sua
intimidade (cf. todos os discursos da última ceia, especialmente a oração sacerdotal),
escolhidos pelo próprio Deus que é Pai de Jesus e nosso pai: simultaneamente Deus
dele e nosso (10 20,17). A intimidade filial/paternal, quando aprofundada tanto
individual quanto coletivamente, leva a pessoa humana (e a Igreja) a perceber que
"nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17.'28). Por um lado, a intimidade cria
no coração humano uma inquietude suspirante para ver o Deus vivo, contemplá-lo e
bendizê-lo (S141 e 63). Este desejo historicamente foi satisfeito: Deus invisível se fez
visível em Jesus - "quem o vê, vê o Pai que o enviou; pois está ele no Pai e o Pai nele"
(10 14,7s).

Agora Jesus vai se manifestando de modo especial no irmão menor. Todo bem
que se faz a pequeninos, é a Jesus que se faz (Mt 25,31-46). Por outro lado, a fé e a
paixão de um povo são capazes de encontrar na reunião eucarística sua intimidade
filial. No repartir fraternalmente o pão, a comunidade eclesial com-parte da mesa de
Deus que oferece o "pão da vida", como força e alimento. Na mesa eucarística, o Pai
reúne os filhos e os fortifica com o corpo/alimento de seu Filho, o cordeiro imolado
por todos. Aí a Igreja atinge seu centro e cume edificando-se em comunidade (PO 6e).

2. Maturidade e independência

O diálogo entre Criador e criatura não mantém a humanidade dependente. Ela,


filialmente, não é uma "infante" (uma criança). Ser filho de Deus implica em ser livre e
adulto. O diálogo supõe a maioridade. Quer dizer: maturidade e independência. Ao
escrever que Deus entrega fiducialmente ao ser humano a custódia e. o cultivo do
"jardim do paraíso" (inclusive levando-lhe os animais, as aves do céu e as feras
selvagens para que lhes dê nome e assim tome posse da criação - Gn 2,8.19), a fonte
javista está a caracterizar o ser humano in-dependente de Deus. O adulto capaz de
governar no lugar de Deus. É o filho responsável. Dialoga com seu Criador. Assume o
comando do mundo. Se a irresponsabilidade do ser humano o leva à escravidão e ao
jugo do pecado, o Filho Primogênito encarnado/ressuscitado é capaz de libertar seus
irmãos e restituir-lhes a estatura de filhos. Não mais infante e dominado pelo pecado,
mas livre e maduro, constituído herdeiro de Deus (G14,1-7).

É o ser humano livre o responsável pela ordem do mundo e pela dignidade dos
filhos de Deus e povos seus. Só assim pode dispor do mundo através da técnica, da
pesquisa, do progresso e do amor. E aqui o diálogo da humanidade madura tem
linguagens diversas. Sua autonomia manifesta uma criativa gama de possibilidades que
não depende exclusiva e/ou inclusivamente das hierarquias religioso-institucionais. No
maduro diálogo Deus/humanidade há de existir uma sadia responsabilidade onde o
"sacro" e o "profano" se interfecundam para a glória do vivente humano, que é a glória
de Deus.
Na história, nem sempre estas relações institucionais ou destes universos
"religiosos" e "civis" foram positivas. Algumas vezes, a auto-suficiência e o dogmatismo
levaram uns e outros a se diabolizarem, a partir de posições nem sempre
suficientemente amadurecidas. Para a maturidade humana contribuem tanto a
experiência da história quanto a ousadia da criatividade. Ambas são dons de Deus para
o bem de todos (apesar de isto também oportunizar abusos e riscos, por vezes
irreparáveis para a pessoa humana - tanto individual quanto coletiva).

3. O diálogo secular (isto é, não-religioso) com Deus

O desenvolvimento do diálogo religioso com a divindade às vezes chega ao


nível da excepcionalidade no êxtase. Esta é uma riqueza só atingida pelo
amadurecimento individual de algumas pessoas. Entre os contemporâneos, contudo -
tanto entre indivíduos quanto entre grupos - por vezes se manifestam formas muito
simples e sensíveis, chegando em alguns casos ao nível da magia ou superstições
animísticas ou à construção de um panteão de um sem-número de deuses (cf. At
17,22-23). São estas suas únicas formas de encontrar o divino (cf. EN 48). Sabem-se da
"raça divina", como dizem alguns dentre deles (cf. At 17,28); mas não têm quem lhes
anuncie existencialmente o "Deus desconhecido".

O diálogo religioso cristão com o Deus Uno- Trino tem necessidade de uma
coerência evangélica. Contudo, na história do cristianismo, por vezes assumiu formas
culturais predominantemente ocidentais, machistas e européias (sem que isto seja
vinculante à fé). E isto nem sempre facilitou o real amadurecimento de povos outros
desde dentro de suas culturas. É preciso reconhecer inclusive que o diálogo maduro
das pessoas humanas com Deus não se faz de modo exclusivo em forma
expressamente religiosa (apesar de ser esta a forma conhecida e usual). As pessoas
humanas têm também outras formas de diálogo frutuoso com Deus pela busca e
implantação da justiça individual e comunitária, pelo empenho nos direitos e deveres
humanos, pela eliminação da miséria, da fome e das doenças, pela positiva evolução
psicossocial da humanidade, pela construção de sua cultura, política e economia onde
a pessoa seja o valor sobre o capital, pela superação das barreiras das comunicações,
pela pesquisa e desenvolvimento das ciências, etc.

Estas e outras formas de diálogo com Deus também se mostram na maturidade


dos pequenos - mas significativos - gestos humanos de todo Pedro, Maria, Lúcia e
Antônio. Estes homens/mulheres cotidianos que - por causa de Deus - agem de modo
correto e honesto. Empenham-se pela verdade. Responsabilizam-se pelo cumprimento
de seus deveres pessoais. Amam seus filhos. Solidarizam-se com os vizinhos.
Empenham-se pelas necessidades comuns do bairro, etc.