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Revista de Psicanálise

n. 0
Editorial

Uma nuvem paira sobre a psicanálise e sobre a sua transmissão por décadas a
fio. O chamado “freudolacanismo” condensa um programa de continuação dogmático e
unificado ao redor da autoridade de seus pais fundadores. Dentro dessa doutrina, indagar
os psicanalistas lacanianos sobre definições claras e objetivas a respeito dos conceitos
que organizam nosso campo, ou ainda, sobre o que se faz em uma análise, deixa evidente
que o que de fato se apresenta a nós é uma profunda divergência. Infelizmente, "clareza"
não parece ser um vocábulo do dicionário dos analistas que sustentam essa continuidade,
onde parece ser preferido uma miríade de repetições vazias, ainda mais quando o assunto
é recheado de aforismos. Parece ser desnecessário explicá-los, e esse linguajar
característico - o famoso “lacanês” - acaba afastando aqueles que iniciam neste campo. É
fato, esse obscurantismo lacaniano, tema desta primeira revista, transita na contramão da
proposta de Lacan com seu Ensino. Ele teria deixado como legado a tarefa de inserção da
psicanálise no debate das luzes. Ainda assim, cada vez mais se reforçam os obstáculos a
uma transmissão racional, crítica e democrática. Falamos para os abastados.

Sendo assim, e pensando na psicanálise porvir, a revista "Borda" é criada sob o


desejo de oferecer uma outra leitura da teoria lacaniana, descentrada do Um, situando-se
à margem não apenas de modo periférico e destoante, mas também como borda em uma
topologia própria. Com efeito, um de seus intentos é endereçar ao leitor chaves de leitura
para que este possa se aproximar de áreas supostamente apagadas do texto lacaniano.
Bem como as matemáticas, os textos que se seguem se organizam sob o ideal de
funcionarem como ferramentas, como instrumentos de trabalho que possibilitem uma
diferente abordagem da psicanálise.

Não por acaso, o bastião da nossa orientação é o corte topológico. Sustentamos


assim, acima de tudo, que a legítima tarefa do psicanalista francês foi se debruçar contra
o imperativo das ciências biológicas, do individualismo moderno e da metafísica. Três
focos que parecem ainda hoje assombrar nossa comunidade. Desse modo, propomos aqui
retomar o caminho formal, lembrando que esta é uma aposta de transmissão acessível que
impede o avanço do irracionalismo predominante em nosso meio.

Que fique claro, em hipótese alguma, este projeto não se supõe como a verdade
sobre o que disse Lacan. O que não quer dizer que não nos apoiamos em uma decisão
conceitual rigorosa, política e cheia de consequências práticas. Entregamos, portanto,
uma proposta teórica que se pretende sustentar em uma série de publicações dedicadas a
este mesmo ideal. Radicalizando seus fundamentos – linguística, lógica, topologia e
antifilosofia –, há de se pensar, por fim, uma crítica imanente que torne visível não os
floreios quase religiosos da sagrada escritura, mas sim as gritantes inconsistências
internas ao nosso campo, para que daí possamos propor uma conjectura lógica,
sistemática e argumentativa. Acreditamos que esta é a única forma de constituir uma
comunidade.

Ao leitor, deixamos um aviso: a escolha da ordem dos textos aqui presentes não
se trata de acaso. A investigação do leitor não modesto permitirá deduzir o percurso.
Sumário

Por uma psicanálise inconsistente ................................................................................... 4


Paulo Henrique de Oliveira Arruda
A formação além do espelho: por uma leitura não modesta .......................................... 16
Pedro Henrique de Oliveira Costa
“Lacan é um autor difícil!”: a propaganda de classe do inimigo como estratégia
obscurantista .................................................................................................................. 28
Camila Quinteiro Kushnir
Questões preliminares a todo tratamento possível do Matema. Do
terrorismo dogmático à lógica cosmopolita ................................................................... 41
Augusto Corrêa Vaz de Melo
Afinal, o que disse Lacan? – o inefável, a vivência e o rechaço ao matema ................. 54
Ramiro Faria de Melo e Souza
O obscurantismo no real lacaniano ................................................................................ 65
Jefferson Weyne Silva Soares
Obscurantismo institucional: os impasses e entraves da transmissão em sua
própria casa de circulação .............................................................................................. 71
Bruno Oliveira
A escola de psicanálise como procedimento de sujeição do discurso: como o
obscurantismo na formação do analista serve à manutenção do poder nas escolas ...... 79
Jessika Gomes do Carmo
Os equívocos sobre a incompreensão da psicanálise enquanto sintoma ....................... 88
Priscilla Ribeiro G. Costa
O silêncio dos analistas: sintoma de um ideal ............................................................... 95
Lucas C. S. Pires
Por uma psicanálise inconsistente

Paulo Henrique de Oliveira Arruda

“A psicanálise é Freud.”
(LACAN, 1974)
1. Qual obscurantismo?

Há várias formas de trabalhar a noção de obscurantismo lacaniano. Uma das


maneiras mais imediatas de se aproximar desse tema é produzir uma série de
argumentações críticas sobre como as instituições lacanianas e seus respectivos
representantes manejam um idioma que no final das contas parece ser feito para produzir
um espaço de exceção onde apenas os eleitos podem efetivamente compreender aquilo
que é veiculado. Chamamos tal idioma de lacanês. O curioso da referida situação é que
não é nada fácil encontrar um correlato dentro da psicanálise ou da história do pensamento
humano. Não existe, por exemplo, um freudianês ou um kleinês, assim como não existe
um platonês. Poderíamos explorar as razões para tanto, contudo, minha proposta com o
presente artigo é falar do obscurantismo lacaniano a partir da figura do próprio Lacan, e
não daqueles que reclamam o seu legado.
Por obscurantismo do próprio Lacan não quero comentar o seu estilo, a aparente
forma elíptica com que construía as suas frases e dava luz aos seus conceitos. Sabemos
que a fama do francês assusta e produz críticas não apenas de estudantes de primeira
viagem, mas também de pensadores renomados. Não acredito que Lacan seja um autor
simples, mas isso não quer dizer que ele seja necessariamente, como muitos sustentam,
difícil ou mesmo impenetrável.
Sendo assim, quando falo de obscurantismo lacaniano estou falando de algo
muito específico: do obscurantismo de Lacan em relação à figura de Freud. No momento
esse tema me parece mais frutífero, além de comportar uma série de possibilidades. Se
abordarmos especificamente a percepção que temos em relação à obra de Freud podemos
começar com alguns apontamentos.
A relação da psicanálise com outras disciplinas é um debate de difícil trato.
Retornando um pouco aos seus fundamentos, como em Freud, já percebemos que o
referido autor estava consciente dessas relações. Em 1924, no texto “Resumo da
psicanálise”, ele diz o seguinte:

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A psicanálise nasceu no século XX, por assim dizer. A publicação com que se
apresentou ao mundo como algo novo, minha Interpretação dos sonhos, tem a
data de 1900. Mas, naturalmente, não brotou das rochas nem caiu do céu.
Liga-se a coisas anteriores, a que dá prosseguimento; resulta de estímulos que
veio a elaborar [grifo nosso] (FREUD, 1924b/2011, p.223).

Ou seja, aqui Freud já deixa muito claro que a sua visão sobre a gênese da
psicanálise está necessariamente atrelada à história de um vasto campo de influências
anteriores. Além disso, não custa lembrar que Freud frequentemente faz em seu texto
extensas referências aos autores dos quais ele está se servindo para elaborar as suas
formulações, seja para tomá-los de forma fidedigna, seja para subvertê-los e avançar um
pouco mais nos conceitos utilizados. Esse é o elemento explícito desse debate.
No entanto, a despeito de tais indicações, não é incomum escutar dos
psicanalistas que a psicanálise seria uma espécie de prática sem precedentes, algo
construído a partir do gênio de um titã que estava apartado de qualquer influência de seus
contemporâneos ou antepassados, todos atrasados em seus mais reprováveis preconceitos.
Esse é o aspecto da discussão que é alimentado pelo culto ao gênio que temos em nossa
comunidade.
Acontece que a psicanálise não findou com Freud e talvez não estaríamos
exagerando se disséssemos que, depois dele, Jacques Lacan foi o psicanalista mais
importante para nossa comunidade. No entanto, ao contrário do criador da psicanálise,
este é geralmente tomado como alguém que podemos rastrear muito bem as referências.
Todos nós nos sentimos muito seguros ao dizer que, no final das contas, tais referências
desembocam sempre no mesmo ponto: Freud. “Lacan disse que era freudiano” talvez seja
o pensamento que mais represente essa linha de raciocínio.
O procedimento mais simples para colocar em xeque essa leitura seria promover
uma espécie de retorno à obra de Lacan com o intuito de mostrar as incontáveis vezes em
que ele critica Freud explicitamente. Obviamente essas citações existem e não são nada
difíceis de serem encontradas (apesar do esforço contínuo para tirar os holofotes dessas
passagens). No entanto, a presente situação ganha contornos mais dramáticos se
considerarmos que, nesse retorno, invariavelmente encontraríamos também inúmeras
citações de Lacan prestando não só reverências à Freud, mas também assinalando que
muitos de seus conceitos podem ser encontrados na obra do psicanalista vienense.
Nesse sentido, Lacan é um autor muito curioso, pois trata-se de alguém que borra
de forma intencional constantemente os aportes que traz para seu campo de trabalho. Em
suma, um autor que não reclama autoria. Se Lacan nos parece no que tange a Freud um

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autor obscuro, uma das saídas viáveis para contornar esse impasse seria, no meu
entendimento, promover um inusitado retorno a Freud.

2. Por que retornar em 2020?

Sobre essa ideia de retorno podemos invariavelmente discuti-la a partir de uma


série de perspectivas. Deixemos um pouco de lado a notação ingênua de que o retorno a
Freud que Lacan faz tem a intenção de conservar a obra do pai da psicanálise, salvá-la
dos malvados psicólogos do ego para, a partir disso, passar uma vida inteira dizendo o
mesmo que seu precursor.
Um argumento mais refinado seria o de que Lacan, no seu retorno a Freud, busca
no final das contas retomar aquilo que foi o mais subversivo da obra freudiana. O caso é
que o subversivo aqui tem muito a ver com as primeiras obras da psicanálise:
Interpretação dos sonhos, Psicopatologia da vida cotidiana e os Chistes e suas relações
com o inconsciente. É essa tríade que Lacan constantemente elogia e à qual faz extensas
reverências.
Muito bem, eu diria que é justamente esse tipo de retorno que devemos evitar.
Tal retorno está intimamente comprometido com uma apreciação localizada, parcial e
reducionista dos postulados freudianos. É inclusive por isso que talvez seja mais do que
nunca necessário dizer em alto e bom som que talvez não estejamos plenamente cônscios
da extensão dos conceitos desenvolvidos por Freud. A figura de Lacan e todo o seu show
pirotécnico discursivo atrai tantos olhares que é muito comum dizer “não consigo
entendê-lo”, geralmente acompanhado do seguinte complemento: “mas Freud é uma
delícia de se ler”. Ou seja, tomamos o estilo barroco de Lacan como atestado de sua
dificuldade, bem como a aparente clareza de Freud como um sinal de que é muito fácil
compreender seus postulados. Essa me parece ser uma armadilha perigosa.
O retorno a Freud que proponho seria um retorno mais comprometido com a
obra como um todo. Além disso, minha intenção é ler sem a pretensão de ocultar
elementos pouco comentados na transmissão da psicanálise freudiana. Diria que seria
necessário empreendermos um movimento de fidelidade ao texto, no sentido de estarmos
atentos não apenas às suas bases, mas também ao seu desenvolvimento e horizonte
teórico-clínico. Obviamente, a ideia de fidelidade que estou propondo nada tem a ver com
um movimento de retorno no sentido messiânico do termo, como se a verdade sobre a
psicanálise pudesse ser encontrada nos escritos de Freud.

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Nesse sentido, talvez poderíamos dizer que o retorno que proponho tem a ver
com certo ideal iluminista. Não podemos nos esquecer, por exemplo, que na contracapa
de seu livro “Escritos”, Lacan assinala que

é preciso haver lido essa coletânea, e em toda a sua extensão, para perceber
que nela prossegue um único debate, sempre o mesmo, o qual, mesmo
parecendo marcar época, pode ser visto como o debate das luzes. Pois há um
âmbito onde a própria aurora tarda: aquele que vai de um preconceito, do qual
a psicopatologia não se desvencilha, à falsa evidência da qual o eu se autoriza
a pavonear a existência. Lá, o obscuro passa por objeto florescendo a partir do
obscurantismo que ali encontra seus valores.

Aqui Lacan está precisamente alertando que o seu projeto tem um caráter
iluminista, visto que estava preocupado em rechaçar o obscurantismo que permeava a
teoria e a prática psicanalítica. O diagnóstico dele era de que esse cenário favorecia o
florescimento de posições místicas dentro do nosso campo:

Temos certa dificuldade de tornar inteligível, num meio que se envaidece do


mais incrível ilogismo, o que comporta interrogar o inconsciente tal como o
fazemos, isto é, até que ele dê uma resposta que não seja da ordem do êxtase
nem do abatimento, mas, antes, que "diga por quê" [grifo nosso] (LACAN,
1960/1998, p.810).

Contudo, por ele dizer que estava comprometido com certo iluminismo não
devemos inferir que seu ensino de forma geral estava alinhado com tal direcionamento.
Na verdade, sustento que é justamente ao falar de Freud que Lacan assume posições mais
obscurantistas. Talvez mesmo por isso (mas com certeza não só) temos em curso já há
algum tempo um movimento chamado “Lacan elucidado”.
Aos que por um milagre não estejam familiarizados com o projeto, trata-se de
uma iniciativa de Jacques Alain-Miller, herdeiro legal e intelectual da obra de Jacques
Lacan, que em linhas gerais teria o papel de disseminar a verdade da obra do mestre.
Curiosamente esse projeto foi lançado aqui no Brasil, com um compilado de conferências
dadas por Miller entre os anos de 1981 e 1995. Elucidar quer dizer explicar, tornar claro,
compreensível, e é interessante o fato de muitos psicanalistas aderirem ao projeto.
A antropóloga Antonio (2015), que fez uma tese em que investigava o
funcionamento de algumas escolas lacanianas de psicanálise no Brasil e na Argentina,
mostra isso com uma clareza quase desconcertante. Vejamos o trecho de uma entrevista
gravada com um psicanalista de São Paulo:

eu escolhi ficar no Campo Freudiano porque eu acho que tem uma


qualidade imensa. Eu fui ver o Fórum [EPFCL], mas comecei a estudar o
Miller e pensei: “Eu gosto desse cara”. O Miller tem uma lógica excelente,

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conseguiu sustentar [sua liderança] e transformou a orientação lacaniana no
que é hoje. Já passou mais de dez anos da cisão, hoje nós temos uma
Associação Mundial de Psicanálise muito forte no mundo inteiro, todo
mundo trabalhando sob uma mesma orientação, colocou mais de dois mil
analistas pra trabalhar. [...] A parte famosa é que Lacan tava dando os
seminários e Miller sempre o interrogava, conversava com Lacan. Lacan, num
belo momento, falou: “Ao menos um aqui me entende”. Pô!, essa
marca do Lacan no Miller marcou o cara pra sempre! É duro você receber
do papa uma bênção, tá certo?! Ainda mais casado com a filha. [...] De uma
certa maneira, deu uma millerizada nos seminários. Tem pessoas que
preferem estudar no pirata, na gravação autêntica dos seminários, não
querem que passem por Miller. Mas o cara ajuda demais a entender [os
textos de Lacan]. Lacan escreve, às vezes, de maneira muito enigmática, e
Miller dá uma orientada nisso [grifo nosso] (ANTONIO, 2015, p.90-91).

Ou seja, para muitos psicanalistas Miller de fato ocupa esse papel de ordenador
e decifrador do texto lacaniano. Sobre isso, em 1997 Miller escreve no prefácio de seu
famoso livro as seguintes palavras:

Já se conhecia Lacan no Brasil, mas não melhor que na França: apenas o


suficiente para que a imagem de seu personagem não impedisse que este ou
aquele de seus enunciados acenasse a um ou a outro que acertasse na
mosca, e que incitasse ao deciframento. [...] Em suma, exige uma
interpretação. Lacan passava por obscuro mesmo para aqueles que eram
seus alunos. O enigma exige um decifrador. O que eu fui [grifo nosso] (Miller,
1997, p.10).

Nesse sentido, talvez poderíamos falar que Miller empreende um projeto


iluminista com a obra de Jacques Lacan (ele elucida), mas um iluminismo às avessas,
posto que pretende decidir o que o leitor vai ler ou não, o que vai entender ou não, o que
vai problematizar ou não, pois a verdade do texto está sempre nas mãos de seu decifrador,
afinal, ele esclarece que, “como São Paulo, fiquei na posição de organizar e espalhar uma
verdade” (Miller, 1997, p.17). Em tempo, o Lacan de Jacques Alain-Miller é em muitos
pontos em irrestrita continuidade com Freud, no sentido de assentimento de seus
conceitos.
Retomando, o projeto iluminista que estou propondo de retorno a Freud não se
insere como uma tentativa de decidir seu valor e seu sentido. Enveredar por uma
empreitada desse tipo seria no final das contas estabelecer a ideia de que seria possível
retirar A leitura de um texto, desqualificando todas as demais e entrando em uma perigosa
lógica de totalidade. No entanto, por isso também não quero dizer que qualquer leitura
seja possível e válida, pois assim cairíamos em um relativismo ingênuo prenhe das mais
bizarras deformações.
Minha ideia seria, na verdade, jogar luz sob uma série de questões que hoje nos
parecem absolutamente esquecidas. Por exemplo, o papel de aspectos biológicos e

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filogenéticos na obra do pai da psicanálise, largamente negligenciados dentro da
comunidade analítica como um todo, afinal, é muito comum sustentar que depois de 1920
Freud definitivamente abandona a biologia - isso quando não se diz que ele já abandona
qualquer pretensão desse tipo em 1900. O segundo dualismo pulsional seria, nesse
sentido, uma ruptura definitiva com qualquer pretensão freudiana de enveredar pelas
ciências naturais.
É aqui que encontramos alguns problemas de ordem prática no retorno que estou
propondo. Se desde cedo nos espaços que entramos em contato com a psicanálise (livros,
universidades, escolas, eventos) somos instigados a enxergar a psicanálise freudiana
como uma teoria que se ocupa dos fenômenos psíquicos a partir de um lugar de
desvinculação de aspectos biológicos e filogenéticos, torna-se muito mais difícil
conseguir enxergar tais elementos nos textos originais.
É importante dizer que essa dificuldade não me parece ter relação com estar
cansado ou ser negligente com a leitura por assumir uma posição de indiferença. Nossa
incapacidade de enxergar determinados elementos nos escritos de Freud advém da nossa
formação, de como tomaram gentilmente as nossas mãos e decidiram que elementos
iríamos reconhecer ou não no texto do referido autor. É a partir dessa (des)orientação que
a nossa leitura não consegue identificar o que está em jogo em frases cristalinas. Por
exemplo, comentando um pouco as relações existentes entre a teoria de Empédocles e a
teoria dos instintos, Freud diz:

Mas nosso interesse cabe a uma doutrina de Empédocles que se acha tão
próxima da teoria psicanalítica dos instintos que ficamos tentados a afirmar
que são idênticas, não fosse pela diferença de que a do grego é uma fantasia
cósmica, enquanto a nossa se contenta em reivindicar uma validade biológica
[grifo nosso] (FREUD, 1937/2018, p.315).

Ainda sobre o instinto:

Por mais que a psicanálise se empenhe em desenvolver suas teorias de modo


independente das demais ciências, ela é obrigada, no caso da teoria dos
instintos, a buscar apoio na biologia [grifo nosso] (FREUD, 1923b/2011,
p.306).

Falando um pouco sobre as excursões da psicanálise em outros campos ele


assinala que:

Nisso nos damos conta de que frequentemente fomos obrigados a nos aventurar
além das fronteiras da psicologia. Os fenômenos de que nos ocupamos não
pertencem apenas à ciência psicológica, têm também um lado orgânico-
biológico, e, portanto, em nossos esforços pela criação da psicanálise fizemos

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também significativos achados biológicos e não pudemos evitar novas
suposições biológicas [grifo nosso] (FREUD, 1938/2018, p.257).

E sobre apostas no futuro:

A biologia é verdadeiramente um campo de possibilidades ilimitadas;


podemos esperar dela as mais surpreendentes revelações, e não somos capazes
de imaginar as respostas que em algumas décadas ela dará às questões que lhe
dirigimos. Talvez sejam respostas tais que façam ruir todo o edifício artificial
das nossas hipóteses [grifo nosso] (FREUD, 1920/2010, p.234).1

Em solo brasileiro há alguns poucos estudiosos que se propõem a trabalhar essa


dimensão biológica da obra de Freud. Richard Simanke é um deles. Em um artigo sobre
o instinto em Freud, para tomar apenas um conceito como exemplo2, Simanke (2014)
defende que Jacques Lacan e Laplanche foram os autores que mais contribuíram para um
movimento de desnaturalização do conceito de trieb enunciado por Freud. Na visão dele,
tal empreendimento teve uma série de consequências, como a disseminação da percepção
de que as traduções até pouco tempo disponíveis no Brasil – como a da Standard –
estariam equivocadas por assumirem o termo “instinto” em vez de “pulsão”. Tratar-se-ia
daquilo que Simanke chamou de uma “visão consolidada”3.
No entanto, as coisas ficam bastante complicadas se tomarmos como dada a ideia
de que Lacan lia o conceito de trieb de Freud como algo dissociado da biologia. Tomando
tal assertiva como verdadeira teríamos que desconsiderar não só o fato de que Lacan
estava consciente que, por exemplo, o instinto de morte em Freud tinha relações com esse
campo:

Todos temos em comum, nesta assembleia, uma experiência fundamentada


numa técnica, num sistema de conceitos ao qual somos fiéis, tanto por ele ter
sido elaborado por aquele mesmo que nos abriu todos os caminhos dessa
experiência, quanto por trazer a marca viva das etapas dessa elaboração. Ou
seja, ao contrário do dogmatismo que nos imputam, sabemos que esse sistema
permanece aberto, não apenas em seu acabamento, mas em vários de seus
pontos de articulação. Esses hiatos parecem conjugar-se na significação
enigmática que Freud promoveu como instinto de morte: testemunho,
semelhante à figura da Esfinge, da aporia contra a qual se chocou esse grande

1
A ideia de que a biologia tinha um lugar privilegiado no interior do edifício da psicanálise freudiana era
tão forte que em 1933, ao escrever sobre a morte de Ferenczi, o vienense conjectura (FREUD, 1933/2010,
p.468), assim como o húngaro um dia conjecturou, que provavelmente em algum momento teríamos uma
bioanálise.
2
Indo um pouco além de Simanke também poderíamos discutir elementos biológicos e filogenéticos que
atravessam outros conceitos e ideias psicanalíticas enunciadas por Freud, como Eu (FREUD, 1937/2018,
p.308), Super-eu (FREUD, 1923/2011, p.43), Id (FREUD, 1938/2018, p.260), complexo de édipo (FREUD,
1924/2011, p.205), castração (FREUD, 1938/2018, p.250), conteúdo dos sonhos (FREUD, 1938/2018,
p.218), neurose (FREUD, 1925/2011, p.117) [...] etc. A lista é longa.
3
Sobre isso convém lembrar que uma das mais recentes e conceituadas traduções de Freud foi feita por
Paulo César de Souza pelo selo da Companhia das Letras. Curiosamente ele manteve o termo “instinto” em
vez da celebrada “pulsão”.

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pensamento, na mais profunda tentativa já surgida de formular uma
experiência do homem no registro da biologia [grifo nosso] (LACAN,
1948/1998, p.104).

Como também teríamos que ignorar afirmações que parecem muito mais radicais:

Encontramos na pena de Freud a ideia de que Eros se funde [...] por formar
Um com os dois. Ideia estranha, da qual provém a ideia absolutamente
exorbitante que se encarna na pregação do amor universal, a qual, no entanto,
o caro Freud repugna com todo o seu ser. [...] Contudo, a força fundadora da
vida, do instinto de vida, como ele se expressa, estaria toda nesse Eros, que
seria um princípio de união. Não é apenas por razões didáticas que eu gostaria
de produzir diante de vocês o que se pode dizer para rebater essa mitologia
grosseira, afora o fato de que isso talvez nos permita não só exorcizar Eros -
refiro-me ao Eros da doutrina freudiana -, mas também o querido Tânatos, com
o qual nos chateiam há muito tempo [grifo nosso] (LACAN, 1971-1972/2012,
p.151).

Taxativamente o francês ainda assevera que “há algo sobre Freud que se prestava
à confusão em que se incorreu ao traduzir trieb por instinto” (LACAN, 1973-1974/2018,
p.142), e não podemos nos esquecer das inúmeras vezes em que Lacan usa sem
constrangimentos o termo “instinto” para se referir ao trieb freudiano.
No entanto, as coisas não são tão simples. Ao mesmo tempo em que podemos
encontrar tais citações no ensino de Lacan – raramente na transmissão contemporânea de
sua teoria – também podemos nos deparar com um Lacan que diz enfaticamente que “a
pulsão freudiana nada tem a ver com o instinto (nenhuma das expressões de Freud permite
essa confusão)” (LACAN, 1964/1998, p.865).
Essa heterogeneidade da obra lacaniana não é notada por Simanke, mas nos
perguntamos até que ponto poderia ser diferente, posto que em nossa formação as citações
largamente ventiladas de Lacan são justamente aquelas em que ele parece sustentar a ideia
de que a trieb de Freud nada tem a ver com instinto, como a última dessa série.

3. A inconsistência como fundamento para o porvir

De qualquer forma, as citações até então apresentadas são interessantes para


pensar a ideia de inconsistência dos textos. Creio que é preciso resgatar essa dimensão
em nossa formação, ou seja, fazermos um esforço para minorar em larga escala o
imaginário contido em nossos estudos que impossibilita a caída de certos ideais de boa
forma.

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Além disso, é preciso dizer que estamos diante não apenas daquilo que
convencionou-se chamar de “Lacan elucidado”, mas também daquilo que poderíamos
chamar de “Freud explicado”.
Nesse sentido, proponho ser inviável deselucidar o primeiro sem se preocupar
em desexplicar o segundo. Creio que apenas com o devido retorno a Freud poderemos
fazer uma apreciação mais ampla dos textos lacanianos, o que quer dizer que teremos
condições de minorar em grande escala todas as tentativas do francês (e de qualquer um
de seus decifradores) de decidir, por exemplo, que Freud já tinha dito aquilo que ele
(Lacan) disse.4
Curiosamente, enquanto métodos desse iluminismo às avessas a elucidação e a
explicação acabam produzindo um enfraquecimento do texto desses autores. Goldenberg
(2017) notou que se temos cerveja sem álcool e café descafeinado, o movimento de Miller
acaba entregando uma psicanálise lacaniana deslacanizada. Adicionaríamos à reflexão a
ideia de que também temos em curso, pelo menos no que tange a alguns conceitos, algo
como uma psicanálise freudiana desfreudianizada.
Nesse sentido, é importante sublinhar que a ideia de que não existe um outro
Lacan serve à manutenção de uma determinada leitura hegemônica e, portanto, está
intimamente ligada com o exercício de um poder. Trata-se da mesma coisa quando
escutamos, por exemplo, que não existe um outro Freud. Que só exista um Lacan ou um
Freud todo mundo sabe, afinal, aqui estamos falando de pessoas. No entanto,
teoricamente trabalhamos com textos, o que quer dizer que as coisas não são tão simples
quanto parecem. Cada texto comporta potencialidades esquecidas, passagens censuradas
e caminhos ainda não pavimentados.
Se uma das características de um bom analista é conseguir identificar as
inconsistências no texto do analisando, seria interessante indicar que essa disposição
poderia estar presente desde cedo na apreciação que fazemos dos textos dos autores que
consideramos fundamentais para o nosso campo. Dar um bom tratamento para essas
inconsistências em vez de rechaçá-las me parece uma via profícua de trabalho.

4
Esse trabalho de desambiguação me parece interessante em um primeiro momento na medida que denota
um cuidado e rigor maior com a nossa teoria e suas especificidades dentro de uma perspectiva
epistemológica. Infelizmente o nosso cenário atual aponta para o exato oposto e não é difícil encontrar
psicanalistas buscando fazer uma fusão de conceitos freudianos e lacanianos. Nasio (1993), para ficarmos
em apenas um exemplo, procura explicar a tipologia dos gozos propostos por Lacan através dos três destinos
da energia psíquica propostas por Freud.

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Além disso, é justamente a partir do vislumbre de uma inconsistência que
podemos efetivamente produzir algo novo, o que quer dizer que enquanto psicanalistas
contemporâneos é nosso dever não assumirmos a posição de fiadores de uma
teoria/prática estéril e incapaz de sair da sombra dos seus chamados “pais fundadores”.
Sendo assim, gostaria de finalizar o presente artigo resumindo a história de dois
sequestros. Primeiro o de Lacan, que todo santo dia é acorrentado pelos psicanalistas e
professores que, olhando para os mais novos com desdém, desencorajam sua leitura
dizendo que Lacan é um autor muito difícil, ou afirmando que só se pode falar da teoria
do francês depois de ler todos os 27 seminários, mais Escritos e Outros Escritos. Diante
disso deveríamos perguntar, por exemplo, se essa política de transmissão não acaba sendo
um dos fatores para que os jovens estudantes de psicanálise pareçam com frequência tão
neuróticos em relação a teoria, no sentido de se colocarem como incapazes de formular
qualquer coisa que seja sobre a psicanálise. Leem muito, é verdade, mas não se sentem
seguros para perguntar, falar ou escrever sobre aquilo que tanto investigam. Inibições.
Em outro nível o psicanalista francês também é vítima (embora também
cúmplice) de um sequestro que tem como protagonista Jacques Alain-Miller, o
elucidador, aquele que decide o que o mestre disse e consequentemente o que os outros
discípulos irão não só ver, mas também entender.
O outro sequestro é o de Sigmund Freud, que embora tenha passado por vários
cativeiros terá para sempre como seu primeiro grande sequestrador um controverso
Jacques Lacan.

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13
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTONIO, M. C. de A. A ética do desejo: estudo etnográfico da formação de


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Paulo: Companhia das Letras, 2011, v.16.

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Letras, 2011, v.16.

FREUD, S. (1933). Sándor Ferenczi (1873-1933). In: Obras Completas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010, v.18.

FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável. In: Obras Completas. São Paulo:
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LACAN, J. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente


freudiano. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p.807-842.

LACAN, J. (1964). Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista. In: Escritos. Rio


de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p.865-868.

LACAN, J. (1971-1972). O Seminário, livro 19. ... Ou pior. Rio de Janeiro: Zahar,
2012.

LACAN, J. (1973-1974). Os não-tolos erram / Os nomes do pai: seminário entre 1973-


1974. Porto Alegre: Editora Fi, 2018.

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14
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<http://ecole-lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/1968-03-16.pdf>.

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Studia, v.12, n.1, p.73-95, 2014.

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15
A formação além do espelho: por uma leitura não modesta

Pedro Henrique de Oliveira Costa

1. A formação do leitor

Na busca pela formação em psicanálise, de vir a ser um psicanalista, um leigo, em


2020, tem à disposição as mais variadas ofertas de ensino, através de cursos presenciais,
à distância, grupos de estudo, materiais disponíveis na internet, vídeos, áudios e livros,
que percorrem o vasto campo da experiência psicanalítica.
O interessado, se fizer uma breve pesquisa na internet, notará que dentre os
diversos caminhos possíveis há um grande número de institutos, escolas (como a maior
delas mundialmente em número de membros1) e associações que se referenciam –
operando amparados em um discurso, uma teoria e uma leitura – como freudolacanianos.
O termo consta frequentemente na apresentação destas instituições, intitulando e
descrevendo seus trabalhos, textos, artigos, revistas, cursos – como, por exemplo: “a
psicanálise de Freud a Lacan”, muitas vezes tratando a obra do último como um
prosseguimento, um avanço, daquilo que já estaria no primeiro, e “a psicanálise de Freud
e Lacan”, que supõe que é preciso tomar estes autores juntos para a compreensão da
experiência psicanalítica.
Esta denominação é legítima de uma leitura – uma política, estratégia e tática de
transmissão e de prática – por meio da qual muitos profissionais da saúde mental se
denominam como sendo psicanalistas freudolacanianos. Emblema que também
representa um dado agrupamento de ideias sobre o mundo2, uma clínica3 e um idioma4, o
lacanês5, uma forma de glossolalia, muito falado para nada dizer.
Em relação a Freud, este passa a ser lido com Lacan em um modo de se buscar
um sentido e relação entre o pensamento de ambos. Não só Lacan é tomado através de
um paradigma biologicista, com o corpo, por exemplo, sendo interpretado por um outro

1
Se trata da ECF, École de la Cause Freudienne, ligada a AMP (Associação Mundial de Psicanálise,
segundo Christian Dubuis Santini em “Lacan, Nous et le Réel-30ème- RETOUR À LACAN”. (2019).
Disponível em: <https://youtu.be/FbdqjA8TRtk>.
2
Tal como o mundo desbussolado, onde o Outro não existe, apresentado por Jorge Forbes (livro: Você quer
o que deseja?. 9.ed. Rio de Janeiro: BestSeller Editora, 2012).
3
A clínica do Real.
4
GOLDENBERG, Ricardo. Desler Lacan. São Paulo: Instituto Langage, 2018, p.52.
5
O chato do vinho. Revista Cult, São Paulo, n˚ 201, p.41-42, maio, 2015.

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16
viés daquele proposto pelo francês, como ao vienense são atribuídas ideias e até
difundidas frases que só foram ditas pelo segundo, viabilizando assim leituras teóricas e
manejos clínicos que são o avesso do que propunham.
Quanto a Lacan, além dos seminários inéditos, ditados há mais de 40 anos e ainda
não estabelecidos, mas que correm desde então em publicações piratas, há nos textos já
oficialmente publicados – “por alguém que pode passar com legitimidade por um
colaborador muito próximo de Lacan”6 – uma série de alterações, censuras, acréscimos7
e más traduções8 que tornam obscura a sua leitura e interpretação.
Tudo isso influencia as orientações teóricas e práticas no campo psicanalítico,
promovendo um eterno retorno a Freud – que já não é o retorno de Lacan a Freud9, pois
se dá em um sentido que não é aquele do Freud lido por Lacan10, da “descoberta de Freud
por Jacques Lacan”11 – ultimíssimamente se chega a uma postura clínica que busca
responsabilizar12 o analisando e promover uma leitura da teoria que acaba por salvar o
pai e inseri-lo na desbussolada13 globalização.
Assim, a leitura na qual tem se formado uma grande parte dos analistas desde
antes da morte de Lacan, o freudolacanismo14, é apontada por alguns leitores críticos
como uma manobra política que influencia atualmente toda a experiência psicanalítica,
da formação e atuação à cura.
Do estabelecimento do texto à interpretação, aquele que busca uma formação em
psicanálise, portanto, não pode se desviar desta política de leitura que se estabeleceu no
campo, originando um obscurantismo em relação à prática e à teoria que torna necessária
outra retomada dos textos, muitas vezes com um esforço de compreender os escritos

6
MILLER, J-A. Entrevista sobre “O Seminário” com François Ansermet. In: Opção Lacaniana Online,
Ano 2, número 6, Nov. 2011, Disponível em: <www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_6/Entrevista
_sobre_o_seminario.pdf>.
7
Alfredo Eidelsztein, em 2019, na aula privada: “A Formalização da Psicanálise”, aponta, por exemplo,
que Lacan não disse a famosa frase atribuída ao psicanalista em seu seminário de Caracas, “Eu sou
freudiano, sejam vocês lacanianos se quiserem” [tradução nossa], acrescida no texto por Miller. Informação
que pode ser conferida nos áudios de Patrick Vallas (ver nota 16).
8
GOLDENBERG, Ricardo. Desler Lacan. São Paulo: Instituto Langage, 2018.
9
Em “De um desígnio” (1966. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998), Lacan explicita que “a
palavra de ordem com que nos armamos, do retorno a Freud” (p.368), “tem um sentido completamente
diferente por dizer respeito à topologia do sujeito” (p.369).
10
“Si Freud supone un sentido, por ejemplo, izquerda-derecha, que hoy resulta evidente a los
psicoanalistas, Lacan lo plantea derecha-izquierda; o sea, al revés” (EIDELSZTEIN, 2017, p.95).
11
Contracapa dos Escritos feita por Lacan, da edição de 1966.
12
FORBES, J. Você quer o que deseja?. 9.ed. Rio de Janeiro: BestSeller Editora, 2012.
13
Ibid.
14
Conforme entrevista de Alfredo Eidelsztein (2019), disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=tgHZllEe5hQ&t=>

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17
originais, as estenografias15 e áudios16 no francês de Lacan, no alemão de Freud, espanhol
de Eidelsztein, português de Magno, para citar alguns – não parasitar, quem sabe ser
posseiro (Magno, 1994) –, e poder promover outra leitura, assinar alguma escritura,
menos atravessada pelas relações imaginárias e louvor aos mestres, pela qual não se
busque salvar os autores, os seus nomes, mas que melhor se sirva deles, de suas teorias,
com o objetivo de prosperarmos na experiência que a psicanálise nos dá.
Queremos com este escrito apontar como a abertura a outras possibilidades de
leitura é fundamental para a formação e atuação do psicanalista, sua função e seu lugar.
Traremos um exemplo que ocorreu com o autor durante seus estudos e buscaremos
apontar como um modo de ler pode fazer obstáculo ou nos aproximar do mais importante
da formação do psicanalista: o estudo rigoroso da teoria.

2. Outro leitor

Lacan (1953/1998) nos chamou atenção acerca dos cinquenta anos de atraso dos
psicanalistas em relação à ciência que o interessava, que Eidelsztein (2017) nos atualiza
para cem. Magno (2017) aponta como estaríamos ainda chegando ao século XXI. Por isso
é imprescindível, mesmo que “acontece de acontecerem coisas que carregam um nome”
(LACAN, 1967/2006, p.107), formalizarmos o campo psicanalítico para além da autoria17
e podermos manter o debate de ideias para além dos indivíduos, seus corpos e suas
experiências em análise, que possamos ir além das identificações.
Lacan endereça seu Escritos, suas cartas18, a um tipo de leitor, um “novo leitor do
qual foi feito argumento para reunir estes escritos”, ao qual cabe “devolver à carta/letra
em questão, para além daqueles que um dia foram seus endereçados, aquilo mesmo que
encontrará como palavra final: sua destinação”, e declara que quer, “com o percurso de
que estes textos são os marcos e com o estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor
a uma consequência que ele precise colocar algo de si” (LACAN, 1966a/1998, p.11).

15
Os seminários de Lacan não estabelecidos por Miller podem ser lidos, em francês, no site: <http://
staferla.free.fr>.
16
Podem ser ouvidos no site de Patrick Vallas: <http://www.valas.fr>.
17
Conforme apresentação de Félix Morales Montiel (2019). Definiciones, delimitaciones
despersonalizadas y decisiones. In: Primeras Jornadas Internacionales de APOLa. Mesa 9. Disponível em:
<www.youtube.com/watch?v=ACipfBBSnS8&t=79s>.
18
Como Alejandro Pascolini se refere aos textos da coletânea em “Obertura de los escritos de Jacques
Lacan”. (2019). Disponível em: <https://youtu.be/DXQ2IJ2QwjA>.

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18
Portanto, temos aberto o convite a uma leitura não modesta, que pode ser tida por
uma comunidade como heresia, mas que não force o que é novo para caber num esquema
velho19, que busque romper com certa esfera. Lacan (1966b/1998) apontou que para
pensá-lo seria preciso um outro paradigma, disse que “Koyré é nosso guia aqui” [p.870],
falou com as paredes. A leitura de Freud por Lacan, sua possibilidade de leitura, também
se dá por este pensar a psicanálise de outra forma e propor outros recursos, talvez não
pelas instituições que participou ou mesmo por seus alunos, mas através da teoria
científica que sustentava e dos campos que buscava uma interlocução, servindo-se deles.

3. Outra leitura

Ler não é um ato solitário e individual. Nesse processo há no mínimo dois: texto
e leitor. E caso o leitor se indague por que aquilo foi escrito, passamos a três: àqueles dois
se conciliam o autor e, com ele, a comunidade dos leitores. A leitura também não está
restrita a uma página de papel. Um músico lê partituras, tablaturas, cifras diferentes das
do contador, um médico lê a doença na descrição dos sintomas, um agricultor lê o céu,
um fetichista pode ler um brilho na ponta de um nariz e um psicanalista os significantes
mais que as palavras. “Hoje temos não apenas uma história da leitura, como também uma
sociologia da leitura, uma antropologia da leitura e uma psicologia da leitura” (COSSON,
2006, p.38).
Vilson J. Leffa (1999), em “Perspectivas no estudo da Leitura: texto, leitor e
interação social”, classifica, em uma visão panorâmica cognitivo/social da leitura, o
processo da construção do sentido em três grandes abordagens: ascendentes,
descendentes e conciliadoras. O primeiro grupo, ascendentes, está centrada no texto,
tendo a leitura como um processo de extração de sentido, que se dá “necessariamente por
dois níveis: o nível das letras e das palavras, que estão na superfície do texto, e o nível do
significado, que é o conteúdo do texto” (COSSON, 2006, p.39). O segundo grupo,
descendentes, coloca no leitor a responsabilidade pela leitura, em elaborar e testar as
hipóteses sobre o que está no texto, “como um processo de atribuição de significados”
(LEFFA, 1999).

19
Juan Manuel Martínez (livro: Lacan fuera del aula, sobre cuatro conferencias ignoradas. México: El
diván negro, 2019) nos demonstra como “Freud fue leído como se lee todo lo que es nuevo: con esquemas
viejos” (p. 59), devido a um rechaço da novidade, do subversivo, o mesmo ocorrendo com Lacan e seu
ensino.

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19
Já nas abordagens conciliadoras, o leitor é tão importante quanto o texto. Aqui
trata-se a leitura como “o resultado de uma série de convenções que uma sociedade
estabelece para a comunicação entre seus membros e fora dela” (COSSON, 2006, p.40),
aprender a ler seria mais que adquirir uma habilidade ou uma atividade regular.
Entretanto, Cosson nos atenta que quando tomamos a leitura a partir das abordagens
conciliadoras, corremos o risco de que cada leitura perca sua individualidade e propõe
que pensemos estes três modos numa linearidade.
A “antecipação” seria a primeira etapa, relativa às operações que o leitor realiza
antes de entrar no texto, sendo relevantes os objetivos da leitura (compreender uma bula,
ler um gibi, realizar um atendimento) como os elementos relativos à materialidade do
texto (impresso, digital, número de páginas, entre outros), portanto aqui já se inicia a
leitura. A “decifração” é a segunda etapa. Através das letras e palavras entramos no texto.
A familiaridade ou não com elas fará do texto uma muralha intransponível ou permitirá
a fluidez na leitura, havendo casos em que o significado de uma palavra desconhecida é
recuperado no contexto.
Com a “interpretação”, a terceira etapa, com frequência tida como a leitura em si,
Cosson (2006) a restringe às relações que são estabelecidas pelo leitor quando processa
o texto:

A interpretação depende, assim, do que escreveu o autor, do que leu o leitor e


das convenções que regulam a leitura em uma determinada sociedade.
Interpretar é dialogar com o texto tendo como limite o contexto. Esse contexto
é de mão dupla: tanto é aquele dado pelo texto quanto o dado pelo leitor; um e
outro precisam convergir que a leitura faça sentido. Essa convergência dá-se
pelas referências à cultura na qual se localizam o autor e o leitor, assim como
por força das constrições que a comunidade do leitor impõe ao ato de ler. O
contexto é, pois, simultaneamente aquilo que está no texto, que vem com ele,
e aquilo que uma comunidade de leitores julga como próprio da leitura (p. 41).

Sendo, entretanto, a leitura não tão solitária e a interpretação dependente do que


é imposto ao ato de ler, estariam os psicanalistas leitores, lacanoamericanos, onde o
processo de leitura adquire em sua formação e atuação um pilar tão importante,
conhecendo a psicologia das massas, a teoria dos espelhos e advertidos dos efeitos e riscos
do imaginário, operando contra essa resistência de impostura em sua leitura, clínica e
transmissão?
Lacan nos advertia desde cedo que “há dois perigos em tudo o que tange à
compreensão de nosso campo clínico. O primeiro é não ser suficientemente curioso. (…)

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20
O segundo é compreender. Compreendemos sempre cedo demais, especialmente na
análise” (LACAN, 1954-55/2010, p.144).
Foi de um grupo de estudos que partiu a reflexão teórica que tange a escrita deste
texto, como resultado de uma interação, um exemplo de como opera a interpretação
relacionando texto-leitor-sociedade. Tal grupo funcionava como uma oficina de leitura,
na qual cada membro era responsável por ler previamente um trecho do texto e preparar
alguns comentários para encontros em datas marcadas, expondo o que entenderam ou
não, para que o grupo dialogasse sobre. Assim ocorrem um grande número de grupos de
estudos na formação psicanalítica, uma sociedade de leitores, com a presença ou não dos
mestres – muitas vezes psicanalistas que carregam uma insígnia de terem estudado há
mais tempo, com este ou aquele psicanalista reconhecido por algum grupo, terem muitos
anos de clínica e de análise pessoal (também se considera com quem se analisa) ou até
estarem ou não inseridos em uma instituição e há quanto tempo afiliados20.
Em um desses encontros, um dos participantes levantou uma questão. Se Lacan,
em um certo trecho de seu seminário, estaria usando o termo “a” como uma referência ao
objeto a, causa de desejo. Após algumas opiniões e releituras, duas interpretações
divergentes se destacaram. Seguiu-se então um diálogo onde uma das partes propunha
que sim, por já haver uma introdução do objeto a na psicanálise, e a outra que não, por
este conceito ser concebido apenas seminários mais tarde e que não poderia ser lido ali.
O trecho que originou a questão, apesar de sua importância teórica, sua
“decifração” e “interpretação” não é o que almejamos no espaço deste texto, pois trata-se
de demonstrar como o campo psicanalítico pode ser obscurecido pelas relações
imaginárias, pelas posições que leitores – psicanalistas – tomam perante o texto e a
comunidade. Quanto ao grupo citado, o frutífero questionamento se encerrou com a
expressão de um dos membros: “você pode pensar assim, eu faço uma leitura mais
modesta”.
Encerramento que evidencia a divergência entre os leitores que ocorre quanto à
“interpretação”, no sentido que Cosson (2006) nos define acima, demonstrando como em
cada um naquele diálogo se dava a relação leitor-texto-comunidade, dado que seus

20
A proposta de realizar uma antropologia da psicanálise, de Maria Carolina de Araújo Antonio, em sua
tese, publicada em 2015, “A ética do desejo: estudo etnográfico da formação de psicanalistas em escolas
lacanianas de psicanálise”, uma pesquisa que se deu em escolas de psicanálise de São Paulo e Buenos Aires,
é indispensável para aqueles que buscam trabalhar questões que considerem como se conjuga centralização
e segmentação de poder/saber no movimento psicanalítico.

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21
argumentos eram suportados por sua leitura decifradora e conciliada a citações,
referências e interpretações de outros leitores e comentadores do texto. Porém, com a
teoria lacaniana, podemos ler que se trata não menos de uma relação leitor-leitor’, onde
cada um traz algo de uma comunidade de leitores – incluindo suas identificações – que,
em relação ao campo psicanalítico, pode fazer barreira ao avanço teórico – clínico e
prático.
No esquema “L” de Lacan (1956/1998) localizamos essa relação no eixo
imaginário, a-a’. Como uma forma de relação que, acerca da transmissão da psicanálise
e da atuação do psicanalista, preocupara o francês desde seus primeiros textos, refazendo
em diversos momentos sua advertência aos psicanalistas “de que tanto a compreensão da
teoria psicanalítica como o manejo da clínica não estão imunes aos efeitos problemáticos
do imaginário” (FARIA, 2018, p.13).
Faria (2018) nos lembra que Lacan optou “ao invés de garantias” – que seriam os
nossos emblemas imaginários, pessoais, individuais, como nossas experiências,
currículos, afiliações, anos de clínica ou de análise - por “uma formação marcada pelo
rigor na transmissão dos conceitos necessários à sustentação da clínica pelo psicanalista”
(p.16). Este rigor exige, daquele que busca ser psicanalista, assim como daquele que
transmite, uma certa atenção às políticas de leitura, que atravessadas por paixões da alma
e da pólis podem devastar comunidades inteiras – e tem seu espaço na psicanálise.
Ironias ou confissões à parte, um leitor modesto não é aquele “outro leitor” ao
qual se endereçam os escritos de Lacan. Interpretamos a expressão “leitura mais modesta”
como uma proposta avessa ao ensino lacaniano. Mas tal como o acontecimento que fez a
dupla Daft Punk se nomear assim21, a tomamos e propomos o contrário, uma “leitura não
modesta”, uma leitura crítico-investigativa, que não se trata de tentar hierarquizar o saber,
sintetizá-lo, ou de buscar uma leitura que rechace as demais, mas sim uma que as inclua,
se sirva delas, que permita ao leitor não se contentar em compreender e que ainda assim
o permita compreender algo, para que, sendo um psicanalista, possa se guiar melhor com
a teoria que dá suporte aos seus atendimentos e manejos clínicos.
A leitura não modesta é a abertura a uma leitura crítico-investigativa que toma o
texto em um rigor pelo qual o leitor possa emprestar-lhe consequências. Goldenberg
(2018) recupera um conceito de Harold Bloom que é essencial ao psicanalista, o de

21
Uma crítica negativa em uma revista apelidou a música da banda como “a bunch of daft punk” (“um
bando de punks bobos”, em inglês), porém a banda gostou e passou a usá-lo. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Daft_Punk>.

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22
desleitura (misreading). Desler nos parece uma forma de emprestar consequência. O que
não é apontar uma leitura verdadeira ou ideal, mas que possa fundar outra escritura, e
ainda outra, caso a anterior, com as descobertas vindouras, efeitos de um trabalho, não se
sustente.

4. Escrituras

Jogar uma nova luz sobre os conceitos originais, desler. Goldenberg (2018),
deslendo, escreve que há leitores fracos e leitores fortes, “estes últimos não leem,
‘desleem’ (misread), porque a leitura, no sentido forte do termo, opera como um
“romance familiar” – no sentido de Freud –, ou seja, como a reescrita de um outro texto”
(GOLDENBERG, 2018, p.36), e nos traz Freud como um leitor forte, desleitor de seus
antecessores, assim como Lacan desleitor de Freud, e ainda Miller desleitor de Lacan,
“um leitor não menos forte que os outros dois, mas com uma diferença: a obra milleriana
comporta como estratégia apagar o leitor e o autor, a serviço de uma política de reescrita
da obra do precursor” (p.38).
Através destas desleituras, expropriando o conceito de Bloom para a psicanálise,
se apresenta também a de Miller por Goldenberg, que funda uma escritura – e que permite
com as demais referências aqui presentes suportar também este texto. Estas escrituras,
para sabermos se nos servem em nossa prática, clínica e teoria, precisamos tomá-las
através de uma investigação crítica, onde ler e desler possa ocorrer sem grilhões e nos
apossarmos de algo, nos servirmos – ou abandonarmos caso seja insuficiente.
A leitura rigorosa – além do suporte na direção da cura e a formação do analista
– se faz como caminho para evitar um “obscurantismo inconsequente”22. É deslendo que
se pode afirmar que “Lacan nunca propôs um novo sujeito ou uma nova clínica
psicanalítica” (FARIA, 2019, p.38), que não há no ensino de Lacan uma primazia do real
sobre o simbólico, nem do simbólico sobre o imaginário, mas que estes registros ao longo
de seu ensino sempre estiveram articulados, sendo o recurso de reuni-los no nó que
esclarecerá, no final, o que esteve marcado de ponta a ponta na sua investigação teórica
e clínica (FARIA, 2019).

22
Termo usado por Oscar Cesarotto e Márcio Peter (no livro Jacques Lacan: uma biografia intelectual.
2.ed. São Paulo: Iluminuras, 2010), para nos apontar o risco de “se embandeirar imaginariamente numa
identificação com Lacan” ou “seguir à risca suas ideias” (p.93), desconhecendo os problemas por ele
levantados.

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23
Se uma interpretação da obra de Lacan aponta para uma lógica evolutiva e uma
ruptura entre duas clínicas23, é lendo Lacan de maneira investigativa e crítica que
poderemos compreender porque há aquela outra, que “não há como supor que se opere
com o Real ou que possa haver uma clínica do Real” (VAZ DE MELO, 2019, p.51).
Assim como existem leituras divergentes em relação à responsabilidade do analisando:
enquanto uma se expressa como implicar o desejo24, há aquela25 que demonstra como
esta responsabilização nasce de uma interpretação em direção oposta à proposta lacaniana
de responsabilidade do analista – e ainda outra que lê como é impossível abrir mão do
desejo26.
Em seu primeiro texto nos Escritos (em ordem cronológica, que nos remete a 1936
e 1949), Lacan (1949/1998) já promove uma desleitura. E nos traz sentenças que desde
este período podem já apontar para a matematização, nos apresenta uma forma de pensar
o eu através de uma “linha de ficção” que não se reduz ao indivíduo isolado, que apenas
“assintoticamente” se une ao sujeito. Um texto em que o autor se apoia em vários campos
e diversos autores para propor seu experimento e o recurso que traz à psicanálise e o
campo inaugurado por Freud – rompendo do círculo para a quadratura, na sua
conceptualização do sujeito da experiência analítica. Leitura que no espaço deste texto
não podemos desenvolver, mas se abre a caminhos possíveis de investigação.
Contudo, para lê-lo menos enviesado pelo o que a sociedade dos leitores nos
impõe, é preciso estar atento às políticas que atravessam tal sociedade, os processos de
leitura, os processos de formação e não menos os processos de cura. Na possibilidade de
uma leitura crítico investigativa, poderemos ter uma formação “que se pretenda
rigorosamente orientada pelo espírito que marca a transmissão de Lacan” (FARIA, 2018,
p.18).
Esta formação, um tripé lacaniano, de acordo com Faria (2018) – que não visa
garantias através de qualidades pessoais, certificados, afiliação a grupos – se daria na
escrita, na transmissão e na clínica, práticas favoráveis a colocar o psicanalista diante da
potência dos “desafios e angústias próprias a uma operação que tem o inconsciente como
seu objeto” e que “exigem do praticante, tomar a medida da ignorância como tal fazendo

23
Cf. FORBES, J. Você quer o que deseja?. 9.ed. Rio de Janeiro: BestSeller Editora, 2012. (2012).
24
Ibidem.
25
Cf. EIDELSZTEIN, A. (2015). La responsabilidad Subjetiva. Disponível em: <www.eidelsztein
alfredo.com.ar/la-responsabilidad-subjetiva-el-rey-esta-desnudo-no-8/>.
26
Ver MD Magno (1994).

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dela um caminho” (p.19). Para tornar esse caminho possível, por uma formação do
psicanalista para além do espelho – prestígio, sugestão e crença na palavra dos grandes
mestres (EIDELSZTEIN, 2019) – que faz muro à subversão e o porvir da psicanálise, é
preciso haver a possibilidade de leituras não modestas.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.

EIDELSZTEIN, A. Otro Lacan: estudio crítico sobre los fundamentos del psicoanálisis
lacaniano. 2.Ed. Buenos Aires: Letra Viva, 2017.

EIDELSZTEIN, A. (2019). Que cura el psicoanálisis y cómo?. Disponível em:


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FARIA, M. R. et al. O psicanalista na instituição, na clínica, no laço social, na arte.


São Paulo: Toro Editora, 2018.

FARIA, M. R. Real, simbólico e imaginário no ensino de Jacques Lacan. São Paulo:


Toro Editora, 2019.

GOLDENBERG, R. Desler Lacan. São Paulo: Instituto Langage, 2018.

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Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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LACAN, J. (1956). Seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.

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1998.

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LEFFA, V. J.; PEREIRA, A., E. (Orgs.). O ensino da leitura e produção textual;
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MAGNO, M. D. A natureza do vínculo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

MAGNO, M. D. (2017). Gênero, Diferocracia… Disponível em: <www.novamente.org


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VAZ DE MELO, Augusto Corrêa. Sobre a estrutura matemática da ciência e da
psicanálise. 115f. Dissertação (Mestrado em Teoria Psicanalítica) – Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

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27
“Lacan é um autor difícil!”: a propaganda de classe do inimigo como estratégia
obscurantista

Camila Quinteiro Kushnir

Comumente, o ensino da psicanálise se encontra localizado em dois tipos de


instituições: as Sociedades ou Escolas (lacanianas), que participam mais amplamente do
que Freud denominou de tripé na formação dos analistas (análise pessoal, supervisão e
estudo teórico), e os centros acadêmicos, Universidades, onde a psicanálise resta atrelada
à grade curricular do curso de psicologia – em parte porque nenhum outro curso nos quis.
Tanto em um espaço como no outro, o aprendizado em psicanálise segue uma
certa cartilha, mesmo que de modo implícito. Quem começa os estudos deve tomar Freud
como seu referencial. Embora outros autores sejam explorados, em um primeiro momento
é preciso um intenso investimento na leitura da obra freudiana para que, a partir dela, seja
possível entender as demais. Ferenczi, Klein, Winnicott, Bion, Lacan, etc. Todos são
colocados submissos ao Pai, Freud.
Ele próprio afirmou seu lugar como central, quando em 1914, disse:

Embora de muito tempo para cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista


existente, acho justo continuar afirmando que ainda hoje ninguém pode saber
melhor do que eu o que é a psicanálise, em que ela difere de outras formas de
investigação da vida mental, o que deve precisamente ser denominado de
psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer [grifo nosso]
(p.16).

Suas também desavenças e rupturas com alguns discípulos, como Adler (1911) e
Jung (1914) mostram como o movimento psicanalítico não era aberto às divergências.
Em razão dos conflitos sucessivos, Freud decidiu criar um “comitê secreto”, paralelo à
vigência da IPA, composto por membros próximos a ele, que seria responsável pelo
controle, sigiloso, em suas associações filiadas, dos padrões requeridos para o exercício
da psicanálise. Frente às suspeitas e à hostilidade que gerava, tal comitê foi dissolvido em
1927 (ANTONIO, 2015).
Cabe nos perguntarmos, no entanto, se ainda hoje não há um controle, velado, de
como devemos trabalhar em psicanálise. Tanto na prática como na teoria, parece haver
um “modo certo” de operar com os analisantes, com os autores e suas produções, e esse
modo depende, fundamentalmente, da experiência, seja em uma análise pessoal,
supervisão ou formação em instituições. Criticar isso não significa, contudo, militar pelo
abandono de referenciais teóricos, passando a agir conforme a opinião, sensação,

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experiência ou intuição de cada um – o que alguns colegas chamam de estilo ou
singularidade de cada analista. Não se trata disso. Nossa prática depende da teoria que
elegemos como bússola, e não o contrário.
Assim, o objetivo desta investigação é interrogar uma transmissão que se faz da
psicanálise em moldes canônicos, sendo o Ensino de Lacan estigmatizado como da ordem
do ininteligível, impenetrável e sem sentido. Por esse viés, ele é tratado como um autor
obscuro, que precisa ser, portanto, clarificado por outros autores. Como veremos aqui, ao
propor um retorno a Lacan, muitos lacanianos acabam por privilegiar (intencionalmente?)
partes de sua obra em detrimento de outras, muitas vezes trabalhando sua teoria destacada
do contexto original proposto por ele. Iremos analisar as consequências desse projeto de
elucidação e como ele afeta não apenas como Lacan é lido, mas tem sua produção
deformada para ajustar-se à fórmula apresentada desde Freud enquanto via régia para a
formação em psicanálise. Em outras palavras, iremos tomar a famosa consideração
“Lacan é um autor difícil” como parte de uma proposta, que Slavoj Žižek, em entrevista
para o programa NiteBeat, chamou de “propaganda de classe do inimigo”.
Comecemos por pensar os motivos que levam grande parte dos psicanalistas a
considerar Lacan um autor difícil. Se nada é em si mesmo, a dificuldade está em relação
a que ou a quem? Os mais otimistas dirão em relação a Freud. Os mais pessimistas dirão
em relação a qualquer outro autor. Se a obra freudiana é conhecida como de mais fácil
compreensão, devemos listar alguns argumentos:
1) Freud é claro em suas colocações, didático. Segundo ele próprio:

Não tenho dúvidas de que a validade das nossas hipóteses psicológicas causará
boa impressão também sobre as pessoas pouco instruídas, mas precisaremos
buscar as formas mais simples e mais facilmente inteligíveis de expressar as
nossas doutrinas teóricas (FREUD, 1919 [1918]/1996, p.210);

2) Por conta dessa didática, para ler, e supor ter entendido Freud, não se faz necessário
estudar muitos outros autores. Dificilmente quando lemos Freud recorremos, por
exemplo, a Iwan Bloch, Georg Grodeck, Albert Moll, etc., de modo que nem mesmo
sabemos a importância que esses1 e outros estudiosos tiveram para a construção da teoria
freudiana. Nossa impressão (não sem a implicação de Freud), é a de que ele “retirou” sua
teoria do trabalho com as histéricas, portanto, da experiência clínica;

1
Eles cunharam os conceitos, incorporados na psicanálise por Freud, de “zona erógena”, “Isso” e
“sexualidade infantil”, respectivamente (EIDELSZTEIN, 2019).

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3) A obra freudiana vem sendo traduzida diretamente do alemão por diversas editoras.
Este trabalho, além de objetivar uma maior fidelidade ao texto original, tende a facilitar
a leitura que se faz de Freud em português.
Analisemos estes pontos em relação ao que se declara sobre Lacan. O didatismo
de Freud, de fato, é algo que ele mesmo sempre defendeu. E, por quê? Pelo compromisso
que tinha com a expansão da psicanálise pelo mundo. Ela deveria se tornar cada vez mais
de fácil apreensão, para que fosse compreendida e aceita pelo maior número de pessoas
possível. Que todos pudessem reconhecê-la em sua importância e diferença diante das
demais disciplinas.
Lacan, contudo, embora tenha realizado conferências em diversos países, para um
público diferente daquele encontrado na França, afirmava dirigir-se aos analistas:

Eu falava para pessoas a quem aquilo interessava diretamente, pessoas


precisas que se chamam psicanalistas. Aquilo dizia respeito à experiência mais
direta deles, mais cotidiana, mais urgente. Era expressamente feito para eles,
nunca fora feito para ninguém mais [grifo nosso] (LACAN, 1968/2006).

Sua preocupação, nessa medida, não era a mesma de Freud. O propósito era atingir
com sua teoria os responsáveis pela psicanálise, fazê-los rever suas certezas e avançar.
Sobre este avanço, o jornal Le Monde, publicou:

É a isso que se endereça Lacan após o que ele chamou muitas vezes seu
“fracasso”. Fracasso junto às sociedades de psicanálise que restam surdas, e
resistem ao discurso que ele propôs à Escola Freudiana de Paris. A propósito,
Lacan nos declarou: O que resistimos aqui, é ao discurso mesmo de Freud. As
sociedades de psicanálise são tampão ao desenvolvimento do pensamento
analítico... bem raros são os rebentos criativos, as novidades que foram
surgindo; de tanto traduzir Freud para conseguir fazê-lo passar, ser aceito, após
um tempo não se compreende mais grande coisa do que ele diz. (...).
“Assimila-se, prossegue Jacques Lacan, a análise a uma terapia, enquanto,
Freud disse, a psicanálise é a ciência e não somente a terapia. Senão, estamos
do lado que cura melhor, e passado algum tempo, atendendo ao desejo de fazer
o bem, ou seja, de maneira intempestiva, não compreenderemos mais nada.
Ensino inútil não fala do que é a psicanálise. Aliás, e de forma confessada só
nos preocupamos em garantir sua conformidade” [tradução e grifo nosso]
(LACAN, 1968b).

A conformidade de que nos fala Lacan está de acordo com a leitura canônica que
se faz da psicanálise. Estar conforme às regras, ao padrão estabelecido, em
concordância, submisso. Esta é a (maior) preocupação dos analistas. Não é à toa o
grande receio de errar que os iniciantes em psicanálise apresentam: evitam falar muito
em seus primeiros atendimentos, não questionam aqueles que os ensinam, não
discordam em eventos dos quais participam, esperam receber aprovação em suas
supervisões e formações.
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Canônico vem do latim “linha de medida, régua”, e do grego kanon “vara reta,
padrão de excelência”. A leitura canônica também é ortodoxa (do grego orthodoxus,
“aquele que tem a opinião certa”). Quem adentra o campo psicanalítico precisa, então,
estar atento para se enquadrar, estar sob o padrão de medida estipulado já com Freud.
Para Lacan, contudo, isso nos torna surdos e alheios às novidades que poderiam fazer a
psicanálise avançar.
Além disso, para ele, a obra freudiana foi extremamente mal lida por seus
discípulos, sendo o seu objetivo promover um retorno para encontrar o que seria a Causa
freudiana, o sentido de sua teoria. Em uma entrevista a Paolo Caruso, disse:

Meu ‘retorno a Freud’ significa simplesmente que os leitores se preocupem por


saber o que é que Freud quer dizer, e a primeira condição para isso é que o
leiam com seriedade. E não basta, porque como uma boa parte da educação
secundária e superior consiste em impedir que as pessoas saibam ler, é
necessário todo um processo educativo que permita aprender a ler de novo um
texto (...). Não é suficiente falar sobre o método experimental para saber
praticar. Posto isso, saber ler um texto e entender o que ele quer dizer (...), isso
implica muitas outras coisas, e sobretudo penetrar na lógica interna do texto
em questão (...). A melhor maneira de enfrentar a crítica sobre os textos
metodológicos ou sistemáticos é o de aplicar ao texto em questão o método
crítico preconizado por ele mesmo. Assim, aplicando a crítica freudiana aos
textos de Freud, pode-se descobrir um monte de coisas [tradução e grifo nosso]
(LACAN, 1966, p.967).

Já em 1974, em outra entrevista à Emilia Granzotto, afirmou:

A psicanálise é Freud. Se alguém quer fazer psicanálise, é necessário referir-


se a Freud, a seus termos, a suas definições, lidos e interpretados em seu
sentido literal. Eu fundei em Paris uma escola freudiana justamente para isso
(...). Reler Freud quer dizer somente reler Freud. Aquele que não faz isso em
psicanálise, utiliza formas abusivas. Tenho a reputação de ser um confuso que
oculta seu pensamento nas nuvens de fumaça. Me pergunto o porquê (...). A
psicanálise não é algo simples [tradução e grifo nosso].

Se Lacan propõe uma releitura de Freud2, não basta percorrer o texto, como
estamos habituados a fazer. É preciso aprender a ler. Ler o que seria o sentido literal, não
havendo nada de simples nisso. E para essa leitura ele indica localizar a lógica interna do
texto em questão, aplicando a ele o método crítico preconizado pelo próprio autor. Desse
modo, Lacan salienta que ler Freud não é tão fácil quanto parece. Somos levados a
acreditar que basta abrir o livro e lê-lo, muitas vezes tal como um romance. Não é
irrelevante quando se frisa que Freud era um excelente escritor e, por isso, ganhou o

2
Sobre esse processo de leitura, conferir o texto: “A investigação em psicanálise como desleitura: a
subversão do recordar, repetir e elaborar”, de minha autoria, no link: <https://www.facebook.com/
psicanaliseprofana/posts/1238959076309921?__tn__=K-R>.

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prêmio cultural Goethe, em 1930. Este, contudo, não é um prêmio de literatura. Nem
mesmo é dado a quem escreve habilmente, mas a personalidades reconhecidas por honrar
a memória de Goethe em seus trabalhos (BRACCO, 2011).
Sobre a escrita clara de um texto Lacan comenta:

O que eu recusei, em qualquer caso, foi entregar esse tipo de coisa chamada
ilusão de compreensão. Tento evitar a sua inclinação natural e muito triste:
acreditar que se compreendeu, porque um pensamento é claro e, naturalmente,
ter entendido o contrário. E reparar que eu conhecia, portanto, muito
precisamente, o obstáculo original ao qual eu tinha me deparado [tradução e
grifo nosso] (LACAN, 1966b).

Podemos conjecturar que o obstáculo ao qual Lacan se refere diz respeito ao


pensamento de Freud, ao qual ele retorna, não para elucidar – projeto já realizado por
seus discípulos, e do qual Lacan também se tornou alvo – mas para trabalhar o que de sua
obra foi ignorada: a lógica interna aos textos, seu sentido, e, principalmente, tecer críticas
que o levaram a produzir uma nova teoria. Não é comum que saibamos, mas Lacan fundou
seu Ensino em um constante debate com Freud.
Mas como pensar uma nova teoria se Lacan se declarou freudiano? Esse aforismo,
dito por ele uma única vez em Caracas, em 12 de julho de 1980, se disseminou em nosso
meio e aparece quase sempre como justificativa para afirmar que ele estabeleceu uma
continuação, acrescentando à teoria freudiana topologia, neologismos e conceituações
que já estavam lá, mas que Freud não teria descrito da mesma forma. Se Lacan retorna ao
Pai, não era para segui-lo, mas para rastrear o que dali servia a seu propósito, rompendo
com o que considerava absurdo na teoria freudiana.
“Em suma, Freud - ao contrário de um número prodigioso de pessoas, de Platão a
Tolstói – Freud não era lacaniano, é necessário que eu o diga” [tradução e grifo nosso]
(LACAN, 14/1/1975, p.57). Se Freud não era lacaniano, mas Platão sim, é possível
encontrar entre Platão e Lacan uma lógica discursiva semelhante, o que não encontramos
entre Freud e Lacan.

Freud não tinha a menor ideia disso que Lacan encontrou chamuscando ao
redor desta coisa que temos ideia... eu posso falar sobre mim na terceira pessoa.
A ideia de representação inconsciente é uma ideia totalmente vazia. Freud
passava completamente ao largo do inconsciente (...). A ideia de
representação inconsciente é uma coisa louca. É assim que Freud o aborda.
Há traços disso tardiamente em seus escritos. O inconsciente? Proponho dar-
lhe outro corpo (...) [tradução e grifo nosso] (LACAN, 26/2/1977, p.9).

Este inconsciente do qual Freud não compreendia estritamente nada, são


representações inconscientes. O que pode ser isso, representações
inconscientes? (...) Eu tenho tentado explicar isso, fomentar isso para institui-

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lo ao nível do simbólico. Isso não tem nada a ver com representações, este
simbólico, são palavras, e, no limite, se pode conceber que umas palavras são
inconscientes. Não se conta inclusive mais do que isso aos montes: no
conjunto, elas [as palavras] falam sem saber absolutamente o que dizem. No
qual o inconsciente não tem corpo mais do que palavras [tradução e grifo
nosso] (LACAN, 26/2/1977, p.4).

Venho aqui antes de lançar minha Causa freudiana. Como veem não me
desprendo deste adjetivo. Sejam vocês lacanianos, se quiserem3. Eu sou
freudiano. Por isso, creio adequado dizer-lhes algumas palavras do debate que
mantenho com Freud, e que não é de hoje. Aqui está: meus três não são os seus
[referência ao Eu, Isso e Supereu de Freud]. Meus três são o simbólico, o real
e o imaginário. Me vi levado a situá-los com uma topologia, a do nó, chamado
borromeu (...). Há que dizê-lo: o que Freud desenhou com sua tópica, chamada
segunda, sofre de certa imperícia. Imagino que era para ser compreendido
dentro dos limites de sua época. Mas não poderíamos aproveitar o que está na
abordagem do meu nó? Considere o saco fofo que é produzido como vínculo
do Isso em seu artigo: “O Eu e o Isso”. O saco, ao que parece, é o continente
das pulsões. Que ideia disparatada esboçar isso assim! Somente se explica
considerando as pulsões como bolinhas expulsas por orifícios do corpo uma
vez ingeridas (...). Isso nos deixa perplexos. Digamos que não é o melhor feito
por Freud (...). Esta é uma fórmula luminosa, que impõe uma figuração
diferente do que esta garrafa. Qualquer que seja sua tampa. Não será melhor,
como me ocorreu dizer, garrafa de Klein, sem dentro e fora? Ou, ainda,
somente, por que não, o toro? [tradução e grifo nosso] (LACAN, 12/7/1980,
p.14).

Essas citações são ínfimas se comparadas a todas as demais que somos capazes
de localizar se abordarmos Lacan do modo como ele próprio indicava, ou seja, buscando
ler sem encaixar o que lemos em categorias já conhecidas (LACAN, 1971). Apenas assim
é possível apreender o subversivo da proposta de Lacan. Se ele discordava de Freud, não
o fazia através de opinião, mas fundamentando seus argumentos a partir da teoria que
criou, calcado em outras disciplinas. Se Freud, em “Sobre o ensino da psicanálise nas
universidades” (1919b[1918b]/1996), destacou que a psicanálise poderia servir para
estreitar uma ligação entre a ciência médica e a história da literatura, a mitologia, a
história das civilizações e a filosofia da religião, para Lacan são outras quatro disciplinas
que serviram à psicanálise: linguística, lógica, topologia e antifilosofia.
Com Freud o que temos no tocante à linguística é a Vorstellung, a representação,
sobre a qual Lacan teceu sérias críticas. Em epistemologia, Freud se baseou no empirismo
inglês. Em física, em Newton, já que mesmo mantendo correspondência com Einstein
nunca fez comentários sobre seus desenvolvimentos físicos, e menos ainda sobre a física
quântica. Em geometria, ele permaneceu com Euclides.

3
A frase “Como veem não me desprendo deste adjetivo. Sejam vocês lacanianos, se quiserem” não se
encontra no áudio original gravado deste seminário. Ela foi introduzida por Miller ao texto original
estenografado. O motivo dessa alteração é parte da discussão deste presente artigo. Conferir áudio original
no site: <http://www.valas.fr/IMG/mp3/1980-07-12_Dissolution_Ouverture_Caracas.mp3>.

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Lacan, diferentemente, incorporou toda a antropologia estrutural de Claude Lévi-
Strauss, a linguística de Ferdinand de Saussure, a pragmática de Austin e a teoria do
discurso como laço social, ou seja, os três movimentos linguísticos do século, que em
Freud não apareceram. Em epistemologia, tomou a Popper, Kuhn, Lakatos, Koyré,
Bachelard, Kojève, Feyerabend, Chalmers. Toda a epistemologia moderna - da qual
Freud nem se inteirou - foi reconsiderada. Em física, Lacan trabalhou desde o Seminário
2 com o princípio da incerteza de Heisenberg, que já estava na física quântica desde ao
menos 1954. Em matemática, trabalhou com Cantor, Frege, Dedekind, que são os autores
que conseguiram formalizar, pela primeira vez, a série dos números naturais, o que
significou um corte com o evolucionismo já que implicou um criacionismo: do 0 ao 1.
Enquanto em lógica Freud estava ao lado de Aristóteles, Lacan utilizou a álgebra de Boole
(EIDELSZTEIN, 2017).
Uma das justificativas usadas para sustentar as diferenças entre os dois
psicanalistas e suas teorias é dizer que Freud e Lacan foram filhos de sua época. Contudo,
muitos estudos trabalhados e incorporados por Lacan ao seu ensino já se encontravam na
época de Freud. Desse modo, as escolhas feitas por cada autor não se delimitaram pelos
conhecimentos da época, mas se referem a toda uma dimensão política – os conflitos que
encontravam, as posições assumidas, a direção que pretendiam dar às suas propostas. E,
para entendermos isso, é preciso retomar onde cada um estava calcado para afirmar o que
disse (EIDELSZTEIN, 2017).
Desse modo, é possível inferir o motivo que levou Žižek a considerar a
disseminação de Lacan como um autor difícil uma propaganda de classe do inimigo. A
quem interessa isso? Não aos que permanecem dependentes dos comentadores para
“facilitar” Lacan. Percebam: se dizemos que algo é difícil e alguém nos oferta um
caminho mais fácil, o que fazemos? Tendemos a tomá-lo. E por que isso seria um
problema? Porque se acaba estabelecendo uma leitura enviesada. Passamos a acreditar no
que nos dizem e quando vamos às fontes, já estamos contaminados por um dado contexto,
que pode ser diferente, e até mesmo oposto à proposta do autor. Segundo o próprio Lacan
(1971, p.11):

há um modo de escutar que faz com que não escutemos nunca mais do que
estamos habituados a escutar. Quando algo diferente se diz, a regra do jogo da
palavra faz com que simplesmente o censuremos. A censura é uma coisa muito
banal, (...) o que não aprendemos a escutar, não o escutamos [tradução nossa].

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Além disso, em grande parte das vezes, quando buscamos pelo autor, nem mesmo
estudamos os textos originais. O que temos de Lacan em português, amplamente
divulgados pela Editora Zahar, já sofreu, pela edição de Miller, várias modificações que
deturpam e nos induzem a uma dada leitura. O original de suas conferências e seminários
podem ser conferidos em francês em dois sites: http://ecole-
lacanienne.net/bibliolacan/pas-tout-lacan/ , e http://staferla.free.fr/ . Neles temos acesso
não apenas às várias produções de Lacan que ainda não foram traduzidas, mas também
aos seminários que em muito foram reduzidos, com a retirada de trechos importantes para
a compreensão, como desenhos e grafos4.
Assim, o que temos do original de Lacan fica restrito a poucos. Os que não sabem
francês ficam submetidos às traduções. Poucos psicanalistas se propõem, até então, a esse
trabalho, o que faz vigorar a leitura de Miller sobre Lacan. Além disso, outros
comentadores podem mais facilmente afirmar o que dizem sem grande preocupação de
serem contrariados, pois se há, como dissemos no início, um acordo silencioso de que
para questionar é preciso saber muito, e até mais do que o interlocutor, a maioria está
sempre aquém do saber dos mestres.
Assim, persiste um amontoado de “Lacan disse” sem qualquer localização. Não
se utilizam citações diretas, números de página, data das lições. Dificulta-se o acesso às
palavras originais de Lacan. Como contestar o que um comentador diz se ficamos sem
parâmetros para tal? Se o que selecionam do texto é, por exemplo, que Lacan se alegou
freudiano, seguindo uma leitura enviesada, estranhamos e rechaçamos quando Lacan diz
que Freud não era lacaniano. Aliás, quantas vezes lemos isso antes de nos depararmos
com este presente artigo? Lacan fica, desse modo, restrito a uma classe que o utiliza
conforme as regras estabelecidas, e para poder acessá-lo é preciso submeter-se, pagando
(caro) por isso: na análise pessoal, na formação, na compra de livros dos comentadores,
prestigiando eventos, etc.
Como, então, a partir do que foi discutido até aqui, podemos ler Lacan e entendê-
lo, renunciando às armadilhas, às formas abusivas, que ele próprio denunciou? Sobre seus
Escritos, disse: “tudo está organizado para interditar que esses textos sejam lidos na
diagonal” (1966b). Uma leitura diagonal é aquela em que se realiza recortes no conteúdo,

4
Outro trabalho importante foi a revisão crítica de uma parte das publicações de Lacan em francês e em
espanhol, estabelecida por Ricardo E. Rodríguez Ponte e seus colaboradores para a circulação interna da
Escola Freudiana de Buenos Aires. Está disponibilizada gratuitamente no site:
<https://www.lacanterafreudiana.com.ar/index.html>.

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compreendendo os pontos mais importantes, visando agregar maior quantidade de
informação em um curto espaço de tempo. Para tal, faz-se necessário encaixar o que
lemos em categorias já conhecidas, exatamente o que nos impede de entender a proposta
subversiva de Lacan.
Esse tipo de leitura serve à transmissão canônica, visto que através dela dadas
passagens são ressaltadas em detrimento de outras. Se Lacan impede uma leitura diagonal
pela novidade que emprega em seu Ensino, não é mais possível lê-lo, tal como fazemos
com Freud. Aliás, como vimos com Lacan, nem mesmo Freud deveria ser tomado desta
forma, cultuado como um autor didático. Tomar uma obra como clara implica o risco da
perda do sentido que a mesma propõe. Para Lacan, trabalhar um texto e acessar esse
sentido implica ler algo que não está dado, que está nas entrelinhas.

É aí que entramos no que é importante no que eu ensino: (...) Alguém quer


dizer, mas o que quer dizer está em geral enganado. É aí que o ouvido do
psicanalista intervém, a saber que apercebe o que o outro quer verdadeiramente
dizer. E o que queria dizer, em geral, não é o que está no texto [tradução nossa]
(LACAN, 1971, p.11).

Assim, seja com o texto produzido com o analisante, seja com o texto tomado para
estudo teórico, o analista teria que proceder da mesma forma: buscar nele o que não está
dado. E quais são as coordenadas que nos permitem não nos perdemos em uma obra tão
ampla como a de Lacan?
1o) Como já colocado, não nos serve tentar encaixar Lacan em esquemas mentais pré-
concebidos. Também devemos estar precavidos de que, fundamentado em outras
disciplinas, Lacan não fala o mesmo que Freud. Ele retorna às interrogações freudianas,
e não às suas respostas;
2o) Além disso, é importante nos acostumarmos sem os comentadores como guias de
leitura. Enquanto eles forem nossa bússola, estaremos, na verdade, perdidos quanto ao
que se diz. Isso não significa ler nada mais do que Lacan, ou os autores que ele cita, mas
sim que possamos utilizar os textos de forma mais crítica e rigorosa, dessacralizando-os;
3o) Precisamos nos localizar no contexto em que Lacan se encontra, qual o tema que ele
desenvolve em cada parágrafo, sobre qual problema está se debruçando e com que autores
está dialogando, o que implica conhecer o que propõem para entender a discussão ali
enredada5;

5
Nesse sentido, dois livros que podem auxiliar é o de Slavoj Žižek, “Lacan, los interlocutores mudos”, e o
de Diana Estrin, “Lacan día por día”. Eles discutem marcos teóricos importantes no Ensino de Lacan.
Disponíveis em: www.dropbox.com/s/t2f6d1plt3up601/ e www.dropbox.com/s/fp0v52uho94aj6w/.

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4o) Lacan costuma ser bastante irônico em suas colocações. Torna-se importante,
portanto, estar atento a isso. Muitas vezes, podemos crer que Lacan está concordando
com algo, quando, em realidade, está discordando, e até desdenhando. Não perceber se
ele está contra ou a favor de uma certa ideia é, em grande parte das vezes, o que mais nos
conduz a um equívoco de leitura. E como identificar isso? Pelo o que foi assinalado no
item anterior. Lacan não pode ser lido e entendido por fora da lógica interna a seus
próprios textos;
5o) Esse ponto talvez seja o mais significativo de todos: quando lemos os seminários de
Lacan nos damos conta de que a cada duas ou três páginas há alguma referência ao campo
da matemática. Isso, contudo, costuma ser censurado pela leitura canônica. Até se
comenta sobre topologia, nós, quando se trata de estudar o RSI. Mas a discussão
permanece limitada. Quando Lacan propõe a utilização das matemáticas, não está
aplicando números e contas a sua teoria, mas sim assinalando a importância do
pensamento matemático que se consolidou na ciência dita moderna. Esse não é, contudo,
nossa forma habitual de pensar. Tendemos a ler qualquer autor baseados em uma
metafísica ingênua, o que nos dificulta utilizar concepções matemáticas e físicas, ou seja,
tendemos a substancializar as coisas para, então, raciocinarmos sobre elas. Se Lacan
localiza a psicanálise na era da ciência moderna, é inevitável, para compreender sua
proposta, que consigamos realizar uma abstração, e isso requer abandonar a ontologia
aristotélica empregada na obra editada por Miller6. Isso implica, por exemplo, assimilar
que “saber”, “discurso”, assim como “gozo” não possuem um agente, alguém de carne e
osso que os produz. O fracasso de Lacan7 na transmissão de sua proposta está ligada a
essa dificuldade de operar com a formalização de seu ensino;
6o) Esta reforma em nosso modo de pensar nos demanda um esforço que não é simples
ou rápido. Faz-se necessário estar cada vez mais em contato com as disciplinas que Lacan
elenca como primordiais ao exercício da psicanálise. Não apenas a topologia e a lógica,
como campos da matemática, mas também a linguística de Jakobson e a antifilosofia.

6
Miller, em 1964, questionou Lacan sobre a ontologia em seu Ensino. Lacan respondeu: “A semana
passada, minha introdução do inconsciente pela estrutura de uma hiância ofereceu ocasião a um de meus
ouvintes, Jacques-Alain Miller, para um excelente traçado (...) ele me interrogou sobre minha ontologia
(...). Insisti nesse caráter demasiado esquecido - esquecido de um modo que não deixa de ter significação -
da primeira emergência do inconsciente, que é de não se prestar à ontologia” (LACAN, 29/1/1964).
7
Lacan discorre sobre esse fracasso na Conferência “De Roma 53 a Roma 67: el psicoanálisis. Razón de
un fracaso”, disponível em: https://www.lacanterafreudiana.com.ar/lacanterafreudianajaqueslacan
conferenciasescritosespaniol.html

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Desse modo, este artigo se propôs a discutir sobre a transmissão de Lacan como
um autor difícil, e o que isso envolve. Apresentamos uma via de leitura que prescinde da
ortodoxia encontrada mundialmente e que tende a seguir os mesmos passos de Freud,
salvando seus autores de qualquer divergência que, segundo Lacan, poderia fazer avançar
a psicanálise para além dos limites estipulados pelos mestres.
Nesse ínterim, é importante frisar que a leitura escolhida por cada psicanalista
sempre estará pautada por um dado discurso. O intuito, portanto, não é de defender ou
salvaguardar uma leitura como a mais correta, mas sim expandir o que de novo pode se
produzir no campo psicanalítico a partir do resgate do que está nas fontes, mas que é
desconhecido e, por isso, não é estudado. Para isso, é imprescindível que os equívocos de
leitura possam ser questionados e trabalhados. A relevância desse processo está em
examinar quais as consequências dessa outra leitura para a clínica, e como podemos
operar a partir dessas novas evidências.
Com isso, apostamos que a proposta de Lacan possa ser democratizada. Não basta
disponibilizar todo o seu Ensino e deixar que cada um se aproprie dele como quiser, sem
coordenadas. Um acesso universal implica oferecer também “chaves de leitura”, ensino
das matemáticas, do estruturalismo, da física teórica. Uma reforma que passa não apenas
pelas Escolas, mas também pela academia. Enquanto Lacan for mantido para poucos,
elitizado, se perpetuará um determinado controle do que se faz e como se aprende. Uma
estratégia obscurantista, lobo em pele de cordeiro, que convida a um Lacan elucidado,
menos difícil, desde que se aceite a submissão ao domínio dos mestres. Burlar isso
significa aceitar que Lacan não poderá ser clarificado para ser entendido. Pelo contrário,
é no esforço de entendê-lo na complexidade que propõe que ele poderá tornar-se claro a
quem não recuar deste trabalho. Avancemos nesta direção.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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psicanalistas em escolas lacanianas de psicanálise. 297 f. Tese (Doutorado em
Antropologia Social) – Universidade Federal de São Carlos, São Paulo. 2015.

BRACCO, M. O. K. Freud e o Prêmio Goethe. J. psicanal., São Paulo, v.44, n.81, p.253
-258, dez. 2011.

EIDELSZTEIN, A. Otro Lacan: Estudio crítico sobre los fundamentos del psicoanálisis
lacaniano. Buenos Aires: Letra Viva, 2017.

EIDELSZTEIN, A. (2019). No hay que salvar a Freud. Disponível em: <www.


eidelszteinalfredo.com.ar/wp-content/uploads/2019/01/NO-HAY-QUE-SALVAR-A-
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FREUD, S. (1914). A história do movimento psicanalítico. In: Edição Standard


Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, v.XIV.

FREUD, S. (1919[1918]). Linhas de progresso na terapia psicanalítica. In: Edição


Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1996, v.XVII.

FREUD, S. (1919b[1918b]). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. In:


Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro: Imago, 1996, v.XVII.

LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da


psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.

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lacanienne.net/bibliolacan/pas-tout-lacan/>.

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Lapouge. Disponível em: <: <http://ecole-lacanienne.net/wpcontent/uploads/2016/04/
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LACAN, J. (1968). Meu ensino, sua natureza e seus fins. In: Meu ensino. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

LACAN, J. (1968b). Interview au journal Le Monde. Disponível em: <http://ecole-


lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/1968-03-16.pdf>.

LACAN, J. (1971). Discurso de Tokio. Disponível em: <https://www.lacantera


freudiana.com.ar/2.5.1.18%20%20%20DISCURSO%20DE%20TOKIO,%201971.pdf>.

LACAN, J. (1974). Entretien de Jacques Lacan avec Emilia Granzotto. Disponível em:
<http://ecole-lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/1968-03-16.pdf>.

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39
LACAN, J. (1974-1975). O Seminário, livro 22. RSI. Seminário inédito. Disponível em:
<http://staferla.free.fr/S22/S22.htm>.

LACAN, J. (1977). Palabras sobre la histeria. Disponível em: <www.lacantera


freudiana.com.ar/>.

LACAN, J. (1980). El Seminario, libro 27. Disolución. Seminário inédito. Disponível


em: <www.lacanterafreudiana.com.ar/lacanterafreudianajaqueslacanseminario27.html>.

ŽIŽEK, S. Slavoj Žižek interview on NiteBeat. Disponível em: <https://www.youtube


.com/watch?v=KjEtmZZvGZA>.

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Questões preliminares a todo tratamento possível do Matema. Do terrorismo dogmático
à lógica cosmopolita

Augusto Corrêa Vaz de Melo

“As matemáticas servem para isso: corrigir o objeto.”


(LACAN, 1978)

Em uma palestra sobre a relação da filosofia com as matemáticas, Alain Badiou (2017)
começa com a seguinte pontuação:

A matemática, isso é terrível, em certo sentido. Não porque ela seja muito complexa,
mas porque é muito simples. Você lê alguma coisa, alguma fórmula, e procura a
significação de tudo aquilo. Mas não há nenhuma significação ali. Tudo está na
superfície das fórmulas em si mesmas. Então, a dificuldade das matemáticas é, em
certo sentido, a dificuldade de algo que é como um sem-sentido. Algo em que a
verdade é separada do sentido, da significação [tradução nossa].

Fiquemos com esta ideia por enquanto. Eidelsztein (2015), por sua vez, chamou a
atenção de um público atento no Uruguai, dizendo que é bastante curioso que toda aquela trupe
de seguidores de Lacan, aqueles mais fiéis, que estavam sentados em frente ao homem, ao
longo da maioria dos seminários, quase ninguém ali trabalha hoje com, ou sequer faz menção
às matemáticas. Parece que um espectro ronda o lacanismo e ele tem um nome próprio:
matema. Essa aterrorizante quimera tira o sono de alguns colegas – isso quando ela é ao menos
lembrada. Quando uma fração considerável do ensino do já falecido francês – sempre bom
lembrar que ele já morreu – é simplesmente colocada de lado, negada, ficamos com um Lacan
mais palatável e, curiosamente, menos obscuro1.
Eis a nossa primeira tese, então: o objeto que chamamos “matema”, que ainda não
definimos, sofre o mesmo destino de um outro projeto de destaque no ensino de Lacan, qual
seja: a relação de íntima dependência da psicanálise com a ciência. Ojeriza, desprezo, combate,
guerra, eis algumas das maneiras pelas quais é tratada essa relação. “A psicanálise é
anticientífica”, escreveu um colega. Por ora não vamos adentrar essa intensa querela, o que
faremos é apenas pontuar uma simples distinção que deveria ser evidente para aqueles que
seguem as premissas da psicanálise lacaniana. Para Lacan, quando se fala em ciência, trata-se

1
Obscuro: que não é iluminado; pouco claro, pouco brilhante; escuro. Que denota tristeza; sombrio, tenebroso.
Pouco conhecido; desconhecido. Pouco inteligível; difícil de compreender: conceito obscuro. Sem nobreza;
humilde: nascimento obscuro; posição obscura. Pouco definido; vago, indistinto. [Física]: Calor fornecido, sem
emissão de luz, por um corpo cuja temperatura é elevada; calor obscuro. Etimologia: Do latim obscurus, “escuro”.
Disponível em: <https://www.dicio.com.br/obscuro/>.

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basicamente da relação entre a escrita (matemática) e a realidade. Em 1974, em uma de suas
visitas pelos Estados Unidos, ele falava para uma plateia inquieta que o questionava sobre qual
seria, então, a sua noção de ciência.

Sra. Turkell: Mas qual é a sua definição de ciência? Essa é a questão. J. Lacan: Até o
momento, tudo o que foi produzido como ciência é não verbal. Naturalmente, é
evidente que a linguagem é utilizada para ensinar ciência, mas as fórmulas científicas
são expressas sempre por meio de pequenas letras. 1/2 𝑚𝑣2, como relação entre a
massa e a aceleração da velocidade, não pode ser explicada pela linguagem senão
pelos mais longos desvios. Sua significação precisa ser estritamente limitada e, ainda
assim, não é perfeitamente satisfatória. Por exemplo, quando tratamos com elétrons,
nós já não sabemos o que entendemos realmente por massa ou velocidade, porque
somos incapazes de mensurá-los. A ciência é o que se sustenta, em sua relação ao
real, graças ao uso de pequenas letras (LACAN, 1976/2016, p.39).

Hoje é bastante evidente, e até cômico, que não se poderia esperar outra reação dos
Yankees. Lacan teve que, inclusive, ouvir coisas do tipo: “esta é uma visão muito limitada da
ciência. Ela omite uma grande parte da ciência” (LACAN, 1976/2016, p.41), ou, “mas por que,
doutor, você insiste tanto sobre a necessidade de fórmulas matemáticas para definir a ciência?”
(p.43). Vale reforçar, de passagem, que, de fato, o incômodo não é só da nossa atualidade. Que
a psicanálise, portanto, tenha nascido sob o solo da literalização do universo (KOYRÉ,
1973/2011; LACAN, 1966/1998), isso já não passava incólume quando Lacan assim o
postulou.
Dito isso, antes de adentrarmos nosso assunto, deveríamos ter a capacidade de separar,
ou mesmo definir, por um lado, essa maneira de conceber a ciência e, por outro lado, o que
vamos simplesmente chamar de cientificismo. Por cientificismo, entende-se essa espécie de
ideologia predominante no nosso mundo que supõe a tese segundo a qual as ciências, chamadas
naturais, reconhecem/dominam a camada fundamental da realidade (o mundo em si). O
cientificismo predominante do nosso mundo moderno, portanto, é o neurocientificismo. Essa
ideologia estabelece que processos neuroquímicos, em geral ligados à plasticidade cerebral,
estão necessariamente associados à dinâmica comportamental, anímica e/ou subjetiva. Contra
essa ideologia, os analistas têm todo direito de se revoltar. Mas notem que, ao que parece, ao
jogar contra o neurocientificismo, acabamos por condenar também a ciência da qual depende
nosso sujeito.
Na mesma batente, é preciso destacar duas correntes de pensamento que se aliam ao
cientificismo moderno e interpelam duramente a psicanálise: 1) a primazia da empiria como
autoridade capaz de legitimar um saber – perspectiva que vem de K. Popper e coloca a
psicanálise como uma “pseudociência”, tal como o tarô, já que “não tem base empírica”, e 2)
a hierarquia e a separação dos campos de saber – trata-se aqui de algo levantado no famoso

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livro “imposturas intelectuais” (de Alan Sokal e Jean Bricmont), que expressa a orientação de
que, por exemplo, no nosso caso, nós psicanalistas não estaríamos autorizados a “usar”
nenhuma formulação ou proposição matemática, sob pena de nos rotularem como “charlatões”,
“impostores”. A chave de todo esse imbróglio é que, bem como nossos detratores, fazemos o
mesmíssimo papel de antagonista. Concordamos de peito estufado que a nossa disciplina, o
nosso ofício, não tem absolutamente nada a ver com a ciência e tampouco com as matemáticas.
De um lado somos “pseudociência” e, de outro, “anticiência”. Vejamos o que diz uma
respeitada “psicanalista”:

De tanto criticar o recurso à emoção, os lacanianos fundamentalistas, obnubilados


pelo formalismo dos nós e dos matemas, correm o risco de perder de vista o
sofrimento dos pacientes. Quanto mais inovadora uma teoria - e a de Lacan foi muito!
- mais ela corre o risco de cair, a qualquer momento, no dogma. E o lacanismo não é
uma exceção à regra (BADIOU, ROUDINESCO, 2012, p.29).

O diagnóstico da historiadora é radical: os lacanianos que trabalham com matemas são


fundamentalistas2. Ela vai fundo e repete um motivo comum na nossa comunidade: há um risco
eminente de que quanto mais rigorosa ou formal é uma teoria, mais ela tende a cair no dogma3.
Essa é, talvez, a linha predominante de pensamento entre os lacanianos. As matemáticas
levariam inevitavelmente à ausência de diálogo, à verdade absoluta, à exclusão do outro, à
barbárie. Está escrito na fórmula, logo, é verdade - e não ouse discordar. Aliado a essa paranoia,
nossa psicanalista também aponta para o terror que é o total apagamento do sofrimento dos
nossos pobres pacientes. Cito mais uma passagem do mesmo texto, um pouco longa, mas que
serve para vermos até onde vai esta ideia. Vejam que nossa autora atinge o ápice do seu
diagnóstico:

Nos últimos seminários, Lacan caiu em um certo delírio especulativo, obstinando-se


a atar e desatar seus nós. Os matemáticos com quem trabalhou, Pierre Sourry, Michel
Thomé ou ainda Jean-Michel Vappereau, participaram dessa aventura, que deixou
muitos traços: desenhos coloridos com anéis e referências. Em Lacan, essa aventura
acompanhou o desaparecimento progressivo da palavra e do dizer. No fim da vida,
ele se tornou não afásico, mas praticamente mudo, apesar de multiplicar ao infinito
os neologismos. Era fascinante ver aquele homem desfazer seu pensamento em
público. Foi um gesto inaudito, fundamentalmente subversivo, como uma última
provocação, um pontapé final na suposta onipotência teórica. Lacan se debateu com
suas aporias e afundou no desespero: temia a morte, mas, ao mesmo tempo, a

2
O fundamentalista acredita nos seus dogmas como verdade absoluta, indiscutível, não colocando de parte,
contudo, a premissa do diálogo. Fundamentalismo “é um movimento que objectiva voltar ao que são considerados
princípios fundamentais, ou vigentes na fundação do determinado grupo”. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo>.
3
Dogma é uma crença ou doutrina estabelecida de uma religião, ideologia ou qualquer tipo de organização,
considerada um ponto fundamental e indiscutível de uma crença. O termo deriva do grego δόγμα, que significa
“aquilo que aparenta; opinião ou crença”, por sua vez derivada do verbo δοκέω (dokeo), que significa “pensar,
supor, imaginar”. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dogma>.

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afrontava. Pessoalmente, não creio que possa ser imitado nesse ponto, como alguns
de seus epígonos o fazem. A formalização excessiva e seus impasses trazem algo para
a prática psicanalítica? Digamos que não acredito, pois consistiriam sobretudo em
dissolver o tempo das sessões, em nome de um formalismo cruel e brutal, com que
não concordo e que tende a desumanizar o tratamento. Mas deixemos a questão em
aberto. Não nego que o último Lacan tenha sido heroico até em sua aflição final,
muito pelo contrário. Mas não acho que essa busca final tenha trazido uma renovação
da clínica [grifo nosso] (BADIOU, ROUDINESCO, 2012, p.73).

“Delírio especulativo”? “Aventura”? Essa aqui é interessante também: “Lacan se


debateu com suas aporias e afundou no desespero: temia a morte, mas, ao mesmo tempo, a
afrontava.” Lacan trabalhava com matemas e nós, seguido de perto por matemáticos de
prestígio, e disso conclui-se que, quase como um delirante desesperado, ele temia a morte, mas
a afrontava. De onde se tiram essas conclusões, esses diagnósticos por demais estapafúrdios?
Vai saber… Mas vamos insistir na nossa questão. Nossa autora diz que – opinião dela – as
formalizações não acrescentam absolutamente nada para a prática clínica. Reparem que o
formalismo aparece aqui adjetivado: “cruel e brutal”. Mais uma vez, isso que andam chamando
de formalismo seria ligado a um fundamentalismo difuso que em última instância faz mal aos
nossos analisandos.
Convenhamos: a maioria de nós fica sem entender um dos projetos mais importantes
de Lacan por conta dessa hipótese tão difundida. Ao que parece, o francês teria se esforçado
para deixar uma indicação importante aos seus alunos que simplesmente não passou. E não só
não vingou, como tornou-se um dos motivos de repulsa para jovens e velhos, simpatizantes e
caciques. Parece que propostas como a seguinte foram simplesmente apagadas:

“A formalização matemática – é nosso fim, nosso ideal – por quê? – porque somente ela é
matema, quer dizer capaz de se transmitir integralmente” (LACAN, 15/5/1973).

De todo modo, curiosamente, esse famigerado matema ganhou, também, um outro


estatuto na nossa comunidade. Ter a experiência de entrar numa escola de psicanálise é quase
como entrar em um museu esotérico, onde ficam em exposição fórmulas em quadros, esculturas
de figuras topológicas, cartazes com muitas letras soltas... E os nós? O que falar deles? A
impressão que se tem é a de que esse é um fetiche muito especial dos analistas. Ninguém faz
ideia do que seja, qual o seu funcionamento, ao que ele se propõe – senão para dizer que se
cortamos um, os outros dois se soltam também. Mas mesmo sem se preocupar em entendê-lo,
o “nó borromeu” está lá. Presente. Não há melhor ilustração de capa de livro!

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O matema, aqui exposto, adquire sua função de adorno, de bijuteria. Reparem: se ele
não serve, não contribui em nada para nossa prática clínica – como sugere nossa historiadora –
, ao menos temos uma “obra de arte”. Nós extraímos todo seu aspecto, supostamente
subversivo, perigoso, fundamentalista, dogmático, e ficamos com seu valor estético. Há,
portanto, um caroço, uma pedra no sapato, uma perturbação, que temos que desviar, como
quem se desvia de uma bala à la Matrix. Abrimos um dos seminários e nos deparamos com
fórmulas matemáticas, com desenhos esquisitos, com diagramas complexos. Isso quando não
nos aventuramos em tentar ler sessões dos seminários que são inteiramente dedicadas a áridas
explicações e demonstrações. “Lacan só podia estar de sacanagem”, “ele era um
prestidigitador”, “estava em puro delírio”. Mas olhem que interessante essa banda de Moebius,
muito bonita, já tenho capa de agenda, ou desenho para uma ecobag4...
Enfim, para além dessa querela, que é inteiramente política, vamos colocar os pingos
nos “is” e tentar compreender o que vou chamar, por enquanto, de projeto Matema. Digo
“projeto” porque me parece que é preciso justificar algo que vai muito além das já populares
fórmulas, às quais nos acostumamos a nos referir pela alcunha de matema. Mas, reparem vocês
que essa empreitada, ao longo de mais de 30 anos, vai além. Proponho que, sim, há as fórmulas,
e também uma série de outras proposições que não são, de fato, literais, como por exemplo, os
Nós. Sim, eles são, também, parte do que estou chamando de matema. E aqui cabe um
parêntese: outro importante analista escreveu um livro chamado “A obra clara” que não passa
de uma das mais profícuas tentativas de deslegitimar a noção de ciência e, consequentemente,
a opção lacaniana pelo matema. A certa altura, o autor do livro sugere que, por volta de 1973,
Lacan teria se deparado com um limite conceitual inerente ao próprio matema, tendo como
recurso frente a esse limite o seu total abandono.
Pasmem: Lacan teria dissolvido seu projeto “formal”, tal como dissolveu sua Escola.
Claro, se o matema guardava relação com o ensino, a dissolução da escola só se daria com o
abandono do matema. Essa é uma outra leitura comumente associada à introdução de lalangue,
como responsável por organizar o campo no lugar vago, que outrora seria das matemáticas.
Mais uma vez a saída é estilosa, estética, artística, poética. Há o Lacan dos matemas e há o
Lacan que entendeu que não pode ser malvado com seus pacientes, nem dogmático com seus
alunos. Um Lacan poeta.

4
Quem também não saiu correndo para a livraria mais próxima para comprar um romance de Joyce, ao invés de
procurar literatura sobre teoria dos nós? Mea culpa.

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O esquisito dessa aposta, no referenciado livro, é que a entrada em cena do poema
acompanha a entrada dos nós. Mas ora, vejam que interessante. Para o nosso autor, a teoria dos
nós, em Lacan, não é uma teoria matemática! O poema está a salvo! Ele diz:

para o nó, as tranças, etc., a situação é muito diferente. Sem dúvida vem da
matemática, porém mais a título de curiosidades; o nó se esgota em sua mostração
incansavelmente variada e não requer, para legitimar sua eficácia, estar integralmente
escrito (MILNER, 1995/2016, p.170)

E, um pouco mais a frente: “não só o nó não está matematizado, senão que só funciona
por não estar” (p.171). Essa manobra complexa, portanto, deixa a salvo o psicanalista do terror
do matema. Então, temos o nó, ele tem sua importância – ao menos para esse autor, talvez não
se possa dizer o mesmo para os demais analistas – mas não é matemática5. O que faz com que
esses e muitos outros prestigiados autores sustentem uma posição tão feroz contra as
matemáticas? Por ora, fiquemos com a pergunta…
De volta ao “projeto Matema”, a primeira coisa a se entender de uma vez por todas é o
seguinte: quando se lê uma fórmula, por exemplo, x = ay + b, trata-se de alguma coisa
inteiramente sem sentido. Não há sombra de significação aí. Essa fórmula não quer dizer
absolutamente nada. Tal como começamos, nas palavras de Alain Badiou, “a dificuldade das
matemáticas é, em certo sentido, a dificuldade de algo que é como um sem-sentido”. Então
peguemos uma das várias “letrinhas” de Lacan - s(A). Reparem que em uma primeira olhada,
essa “cruel e brutal” fórmula se refere no máximo a duas letras do nosso alfabeto, colocadas
em relação à adição de um símbolo que chamamos “parêntese”. Só isso e mais nada. Não há a
menor possibilidade de que essas letras e esse parêntese digam algo para além do que está no
papel6. Qual é a sacada, então? Uma fórmula, qualquer que ela seja, precisa, necessariamente,
vir com um suporte de discurso, em seu duplo sentido: é necessário que se fale disso, e é
necessário que haja uma articulação de significação por detrás dessa fala para que, por fim,
comecemos a propor alguma coisa. Isso supõe a absoluta dependência da letra, seja ela
algébrica ou não, ao discurso. Lacan disse isso em inúmeras ocasiões e de diversas maneiras.
É preciso entender o motivo disso ter sido apagado, elidido.

5
Ciência pura. É assim que uma matemática brasileira de grande destaque se refere à teoria dos nós: Disponível
em:<https://brasil.elpais.com/ciencia/2019-12-21/jovem-matematica-refuta-conjectura-estabelecida-ha-30-anos
.html?outputType=amp&fbclid=IwAR3y116PHSDiFewhnlEHD7ndve4qIKUY-ZsTGaKUN2i9h3xsiJJAF5Yw
QQI>.
6
Quiçá, dizer que são letras do alfabeto já é algo resultante de uma inferência assentada em uma coordenada
específica que, para nós brasileiros, é comum. Digo isso porque geralmente Lacan fazia o experimento de
perguntar: o que é o símbolo “A”, que tanto escrevo? Claro, ele nos lembrava, trata-se de uma cabeça de gado
virada ao avesso...

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Mas essa dependência ainda não nos diz muito. Precisamos avançar. Reparem: esse
projeto se coloca inteiramente no contexto da revolução científica. Koyré, o guia de Lacan, diz
que o universo é escrito em linguagem matemática, como vimos acima. E porque ele diz isso?
Em primeiro lugar para tirar a física, disciplina reformada pela pena de Galileu, do dogmatismo
e do senso comum. A física não mais é objeto da experiência imediata e da opinião. Em última
instância, trata-se de uma maneira de pensar que vai ganhar contornos rigorosos com Newton,
Einstein e Heisenberg – apenas para citar alguns, em suas respectivas décadas. O centro disso
tudo é uma argumentação racional que se baseia exclusivamente em fundamentos e decisões
conceituais. Ou seja, em proposições que precisam ser demonstradas e provadas
matematicamente. A matemática, então, é o locus da prova, da experimentação. Sua extensão
e seu limite.
Outrossim, é sempre bom lembrar também que, quando se faz ciência – essa que
estamos nos referindo –, não se está mais tratando de Verdade. Para Lacan, fazer ciência,
argumentar, provar matematicamente um experimento mental e demonstrar um teorema é um
processo que depende da foraclusão da verdade! Então estamos inteiramente no campo do
saber. Por isso que uma prova que se considera verdadeira pode mais tarde ser reprovada. Se
quiserem, a própria Verdade, para Lacan, é flagelada, cindida – meio-dita, essa maldita. Além
disso, há ainda uma proposta inaudita no seio do debate lacaniano com as ciências. Em 1966,
ele julga necessário esquecermos essa coisa de separar ciências naturais, de um lado, e ciências
humanas, de outro. Botaríamos tudo em um mesmo saco que passaria a se chamar “ciências
conjecturais”. Para onde foi essa ideia? Elas parecem fugir, não?
Então reparem no pulo do gato: Roudinesco e sua trupe condenam o formalista – aquele
que opera com matemáticas – e o diagnosticam de fundamentalista e dogmático! Ora, ela erra
o alvo de maneira escandalosa. As matemáticas, desde o começo da filosofia grega, são
precisamente o recurso, o pensamento, o discurso responsável por demover o lugar da opinião
e do dogmatismo. É o pensamento matemático que extrai e condena o autoritarismo, seja ele
pessoal ou sacerdotal, e faz da razão uma coisa pública. O homem comum, o profano cidadão
não precisa se apagar diante do poder do sacerdote, ou do padre. Ele mesmo pode chegar ao
teorema. Essa, inclusive, é a proposta de Badiou que, ao que parece, é um dos pouquíssimos
que seguem o matema de Lacan à letra7.

7
Para mais detalhes dessa proposta, conferir os indispensáveis livros do autor, em especial: In praise of
mathematics (BADIOU, Alain; GILLES, Haeri. Malden, MA: Polity Press, 2016), e o seminário dele sobre Lacan
(Seminaire-Lacan. New York: Columbia University Press, 2018). Infelizmente sem versões em português, apenas
inglês e espanhol, além do francês.

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Uma fórmula por si só não diz nada. Por isso Lacan fala de um real sem sentido, dado
que o sentido advém da fala. Por sinal, sentido, na definição do próprio Lacan – que vem de
Frege, mais um desses perigosos fundamentalistas – é a maneira pela qual falo de algo. Então,
há de se articular, estruturar determinadas fórmulas, sejam elas algébricas ou topológicas, a fim
de extrair ou, mais precisamente, produzir seu sentido. Isso se dá pela definição de termos
mínimos de dentro de um campo discursivo. Se digo que a letra A, maiúscula, quer dizer Outro,
trata-se aí de uma decisão absolutamente artificial. Em dado discurso – o da psicanálise no caso
– o A significa o campo do Outro. E isso não serve pra nenhum outro. Notem que não há nada
que sustente essa afirmação senão o pacto, o compromisso, com esse mesmo campo. Isso é
estabelecer um dado fundamental do nosso ofício desde uma decisão radicalmente arbitrária e
contingente. E notem que esse passo é o oposto de qualquer dogmatismo, de qualquer delírio.
Não há nada mais são que uma aposta conceitual desse tamanho. E ética, nesse sentido, é levar
até as últimas consequências o limite que o conceito me coloca. Se o ultrapasso, faço outra
coisa. Vai saber o que...
Então, para começo de conversa, muitíssimo mais importante do que batermos a cabeça
para entender o que quer dizer, i(a), a, A, e etc., o projeto Matema deveria ser pensado em sua
relação com o decisivo declínio da autoridade e da opinião no fazer “científico”. E, mais do
que isso, o matema não é algo a se encontrar, como se fosse a verdade da estrutura ou do sujeito,
ou a razão escondida na vida de alguém, mas sim algo a se fundamentar axiomaticamente, a se
demonstrar e a se sustentar dentro de uma comunidade.
Mas, avancemos em mais alguns exemplos. Tenham em mente o seguinte:
1) “O sujeito é a sombra do número” (Seminário 12, 10/3/1965);
2) “O sujeito é um conjunto vazio” (Seminário 19, 1/6/1972).

Guardem essas citações. Vamos pensar em um cenário hipotético: Antônio é o filho do


casal Bruna e Carlos. Vamos simpaticamente nos referir a eles como a, b e c. Um deles, não
importa qual – vamos selecionar a –, tem algum tipo de sofrimento na sua vida e acaba se
dirigindo a um analista. Lá, “a” fala de muitos assuntos, fala de si mesmo, fala de b, de c, da
relação entre b e c, da sua relação com b e c em separado, e acaba falando da relação entre os
3, a, b e c.
Vamos escrever isso? Dada a situação {a,b,c}, temos uma pessoa que fala sobre as mais
variadas coisas. Listando o que sugerimos acima fica algo assim:
{{a},{b},{c},{a,b},{a,c},{b,c},{a,b,c}}. Muito que bem. Qual é o problema aqui? Se vocês
repararam, trata-se de uma questão matemática elementar. Trata-se de pensar uma contagem

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de todos os subconjuntos possíveis de um dado conjunto. A fórmula para isso é 2x, onde x é o
número de elementos desse dado conjunto. Mas calma lá, vamos contar? {a,b,c}, trata-se aí de
um conjunto com 3 elementos. E 23 dá 8 e não 7. O que está faltando? Ora, a falta. Vejam aqui
a simplicidade da definição do principal conceito na teoria lacaniana. Lembrando que esse
desenvolvimento começa no seminário 12 e termina no 16, mas é no 19 que a coisa fica bem
definida. Ou seja, Lacan tenta, de maneiras distintas, por anos a fio, introduzir a radical
dependência da psicanálise à matemática: “daí minha redução da psicanálise à teoria dos
conjuntos” (LACAN, 1978b). Sim, ele disse isso.
Portanto, há um pensamento, e esse pensamento é o inconsciente. E ele se articula de
tal modo que as matemáticas podem bem fundamentar, descrever, formalizar, mas mais do que
isso. Proponho estabelecermos que o inconsciente é um pensamento que pensa, também,
matematicamente, lembrando que, em 1966, Lacan disse isso com outros termos: as
matemáticas são a substância da psicanálise8. Então, retornando para o nosso exemplo, reparem
que o que falta na contagem é precisamente a “sombra do número”, o sujeito como puro vazio,
a volta a mais no toro que só se contabiliza quando há um fechamento. De uma demanda, eu,
analista, deduzo, através de uma operação, um elemento a mais. Claro, supondo que eu posso
vir a ser aquilo que viabiliza essa função de contagem no interior desse discurso.
Notem que aqui tratei de uma simplificação, porque, a rigor, o conjunto de partida –
que não passa de uma derivação hipotética – pode, ou deve, ser infinito. Não importa. O que
estamos vendo aqui é que a operação de contagem determina que haja um elemento comum, o
conjunto vazio. E por que chamei de derivação hipotética? Porque eu só tenho os elementos
“primários” depois que termino uma análise. Essa é a importância do “bucle”, palavra difícil
de traduzir, mas que indica fechamento, fecho, tal como a fivela de um cinto. O famoso, après
coup, o a posteriori de Lacan, é algo que depende, então, dessa determinação temporal que só
se estabelece com a contagem. Eu conto para depois, e só depois, me dar conta do que eu contei.
Ora, entre inúmeras consequências dessa construção para a nossa teoria do significante,
isso serve, fundamentalmente, para deduzir duas coisas cruciais. Primeiro que a condição para

8
Referência a 1966, seminário 13, Lacan: “Quelqu’un m’a demandé récemment si - j’entends quelqu’un qui n’est
pas de notre domaine, qui est un mathématicien fort distingué, dont j’ai l’honneur d’être l’ami depuis quelques
temps et que certains ici connaissent, au moins par la liaison que j’ai commencé d’établir entre eux et lui - ce
quelqu’un qui n’a pas du tout été inattentif à la sortie du premier cahier du cercle épistémologique m’a posé
certaines questions sur tel ou tel texte de M. MILNER ou de M. MILLER et s’est inquiété, en quelque sorte, de ce
dont il s’agissait, à savoir si c’était de modèles mathématiques ou même de métaphores. J’ai cru pouvoir lui
répondre que les choses dans ma pensée allaient plus loin, et que les structures dont il s’agit ont droit d’être
considérées comme de l’ordre d’un ὑποχείμενον [upokeimenon], d’un support, voire d’une substance de ce qui
constitue notre champ” (p.160, site: www.staferla.free.fr).

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haver um sujeito é uma operação de contagem, ou melhor, uma intervenção no discurso, dado
que, como estamos vendo, uma intervenção sob essas diretrizes é a entrada em cena de um
elemento a mais. Então, conclui-se que não há sujeito antes de uma análise. E, segundo, isso
evidencia que o nosso sujeito, isso sobre o que operamos, não é alguém, não pode ser algo no
qual alguém se torna e não pode ser algo com o que, ou pelo que, alguém se responsabilize -
senão o próprio analista -, já que, por definição, trata-se somente do centro ausente da estrutura.
Alguém fala e faz consistir, em uma análise, um vazio de indeterminação para um dado
interlocutor específico.
E aqui entra talvez o aspecto mais importante deste início de conversa. Vejamos o
problema sob outro prisma:

O alvo, o objetivo da evacuação da significação é, entretanto, exatamente o primeiro


aspecto sugerido pela perspectiva de nossa experiência. Até um certo grau, como
acontece que ela não opere mais facilmente? É devido às propriedades enganadoras
da figura. Vou tratar de me explicar, de fazer compreender o que quero dizer neste
momento. A figura é, justamente, a garrafa de Klein aqui desenhada, sob um aspecto
enganador porque é o aspecto sob o qual efetivamente a estrutura nos engana: é o
aspecto sob o qual parece que nossa consciência, que nosso pensamento, que nosso
poder de significar redobra, como um forro interno, o que o enveloparia, mediante o
que vocês só terão que revirar o objeto e criarão essa ideia de sujeito do conhecimento
que inversamente, ele, envelopa o objeto do mundo que ele propõe (LACAN,
6/1/1965, p.69).

O que tem a ver a garrafa de Klein com o proposto acima através da teoria dos
conjuntos? Ambas as intervenções, porque enquadram-se na proposta geral do matema como
organizador do campo da psicanálise, requerem, exigem, um esforço subtrativo. Vejam, nosso
objetivo primeiro é a evacuação da significação. É a característica fundamental da nossa tarefa
de analistas, pois partimos do pressuposto de que aquilo sobre o que uma pessoa fala não está
dado, não é evidente.
Quando falamos em análise, fazemos consistir um objeto de discurso que guarda íntima
relação com o mundo, mas a rigor, não está nesse mundo. Essa é a premissa básica de um
analista: os fatos com os quais lidamos são fatos de discurso, dado que não há realidade pré-
discursiva. Então, se seguirmos à risca a opção de adotar o aparato conceitual proposto por
Lacan, temos como função colocar em situação a inconsistência de uma dada significação. E é
por isso que perguntamos aos nossos analisandos: “o que você quis dizer com isso?”.
Dito isso, nesse momento do ensino, Lacan parece querer apontar para a nossa
dificuldade em operar sob essa direção. “É devido às propriedades enganadoras da figura”, ele
diz. Bom, por ora não precisamos ir a fundo na matemática envolvida, mas reparemos o
seguinte: a garrafa de Klein, assim como o cross-cap, diferentemente do toro e da banda de

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Moebius – a essa altura, essas são as quatro superfícies privilegiadas por Lacan –, são duas
espécies de superfície que possuem a característica de não poderem ser mergulhadas na terceira
dimensão sem perder alguma coisa. Lembremos que todas elas são objetos, ou entes
matemáticos que servem, entre inúmeras coisas, para descrever relações. Notem: a garrafa de
Klein tem quatro dimensões. E aqui está toda a questão. Quando imaginamos, ou quando
construímos um corpo de três dimensões para esses objetos, ultrapassamos um limite, uma
fronteira marcada pelo impossível, o nome próprio do Real lacaniano.
Agora analisemos com Lacan. Segundo ele, a maneira que pensamos é decorrente de
uma metafísica muito bem estabelecida. Não conseguimos pensar sem nos orientar através da
não-contradição e do espaço 3D. A estrutura, então, nos engana. Essa dupla conversão que a
língua provoca – uma vez que nossos pensamentos são estruturados como uma linguagem e,
mais que isso, diferente da proposta cartesiana, vale também lembrar que os nossos
pensamentos têm extensão (LACAN, 1961-62/2003) –, esse redobramento sobre si mesmo é
responsável pela torção que faz com que imaginemos um sujeito do conhecimento, um agente
de uma ação. Reparem que esse sujeito não está lá a priori. Ele é um equívoco, um desvio de
estrutura.
Para ficar mais claro, vamos destacar o seguinte: com o projeto do matema, Lacan nos
convoca a pensar o pensamento por detrás da nossa função de analistas. Lembrem que ele
afirma que nós pensamos com um instrumento, tal como escrevemos com uma caneta. Ora,
então, que tal trocar a caneta? Que tal passarmos a pensar com outras bases? Mas, por quê?
Bom, talvez porque as matemáticas vão precisamente pensar a ausência de ser e propor um
pensamento sem um – ao menos, até Badiou complicar a coisa toda.
E, mais importante, as matemáticas vão propor objetos fora do senso comum. Para
Lacan, é como se o senso comum fosse o subproduto indigesto da emergência, do mergulho
em uma piscina, daquilo sobre o que a linguagem fala. Trata-se de uma mudança de “n”
dimensões para três, trazendo consigo um impasse. Uma ilusão de ótica – ou seria de escuta?
– que faz com que eu coloque um sujeito indevido em um lugar inadequado, ou melhor, fazendo
simplesmente com que eu diga que um sujeito, esse famoso sujeito da ciência, é uma pessoa
de carne e osso, quando não poderia jamais ser. Reparem então o papel decisivo dessas
ferramentas na nossa formação. Se penso “matematicamente” não caio na esparrela de supor
que quando Lacan fala de sujeito, está falando de fulano ou sicrano9.

9
Geralmente, quando sustento essa tese, tenho de fato em mente o colega que esbraveja que não consegue pensar
a “função paterna” sem estar encarnada em alguém, que não consegue deixar de dizer que “um sujeito deve se
responsabilizar pelo seu sintoma”, mesmo tendo uma vaga ideia de que um sujeito jamais pode ser alguém. E,

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Por fim, concluo e proponho: não há psicanálise sem o suporte do pensamento
matemático. Esse não é um dogma religioso, mas sim uma proposta conceitual. Está aberta
para debate. A outra faceta dessa proposta é que, ao que parece, a rigor, colocar em cena a
dependência da psicanálise à ciência e ao matema nos leva, inclusive, a poder desprezar esse
que já morreu em 1981, e não fazer dele, junto com o vienense, a suma autoridade patriarcal.
É nossa a tarefa de legislar sobre o nosso ofício. A responsabilidade é sempre do analista. Dos
vivos, que circulam na pólis. Uma psicanálise deve, por fim, ser subtrativa e profana. Deve ser
lógica, racional, argumentativa e, por fim, apoiada no projeto Matema.

porque não, sempre há aquele que não consegue falar de sexualidade sem referir-se ao corpo biológico e que, por
vezes, condena aqueles que, por exemplo, fazem cirurgias para mudar seu corpo. Para todos esses essencialistas,
o nome do xarope é matema!

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BADIOU, A. (2017). Alain Badiou – Philosophy and Mathematics. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=nrvnIxYx0Ds&t=651s>.

BADIOU, A.; ROUDINESCO, É. Jacques Lacan, passado presente. Rio de Janeiro: DIFEL,
2012.

EIDELSZTEIN, A. (2015). Minicurso: ¿Por que o matema? - PARTE 1. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=fViaqIlRxGA>.

KOYRÉ, A. (1973). Estudos de História do Pensamento Científico. Rio de Janeiro: Editora


Forense LTDA., 2011.

LACAN, J. (1961-62). O Seminário, livro 9. A identificação. Seminário inédito, Recife,


2003.

LACAN, J. (1964-65). O Seminário, livro 12. Problemas cruciais para a psicanálise.


Seminário inédito, Recife, 2003.

LACAN, J. (1966). A ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
1998, p.855-892.

LACAN, J. (1971-72). O Seminário, livro 19. O Saber do Psicanalista. Rio de Janeiro: Escola
Letra Freudiana, 2010.

LACAN, J. (1972-73). O Seminário, livro 20. Encore. Rio de Janeiro: Escola Letra
Freudiana, 2010.

LACAN, J. (1976). Lacan in North Armorica. DENEZ, F.; VOLACO, G. C. (Orgs.). Porto
Alegre, RS: Editora Fi, 2016.

LACAN, J. (1978). Lacan pour Vincennes. Disponível em: <http://ecole-lacanienne.net/wp-


content/uploads/2016/04/1978-10-22.pdf>.

MILNER, J-C. (1995). La Obra Clara. Lacan, la ciência, la filosofia. Buenos Aires,
Argentina: Ediciones Manatial S.R.L, 2016.

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Afinal, o que disse Lacan? – o inefável, a vivência e o rechaço ao matema.

Ramiro Faria de Melo e Souza

A qualidade do obscuro é ser privado de luz, pouco iluminado, sombrio.


Figurativamente, representa aquilo que é desconhecido, pouco inteligível e sem nobreza1.
O obscurantismo, que procuramos ler como um movimento político, significa um estado
de espírito refratário à razão, bem como a “doutrina daqueles que não desejam que a
instrução penetre na massa do povo”2. Ora, entre aquilo que é obscuro e o movimento
obscurantista, há uma certa diferença que reside justamente no que podemos chamar de
“intenção”. Se ao obscuro concedemos a definição própria de ser pouco inteligível por
conta própria, no caso do obscurantismo o jogo muda. É a própria intenção de um
movimento obscurantista procurar colocar algo como obscuro, privar as massas de acesso
ao conhecimento, bem como apelar para definições voluntariamente retorcidas ou vagas.
Pois bem, aqui já fazemos uma primeira inflexão em relação à questão de ensino de
Lacan: ele era difícil, obscuro? Possuía uma intenção obscurantista? Ou, pelo contrário,
podemos afirmar que os pós-lacanianos têm grande responsabilidade pelo obscurantismo
enxergado em nosso campo, pela miríade de conceitos pouco definidos e confusos?
Podemos afirmar com tranquilidade que o ensino e a transmissão da psicanálise está
disponível para as massas – nem que seja para a massa específica de alunos que por
condição privilegiada já estão estudando psicanálise?
Antigamente, os exegetas eram aqueles que passavam a palavra de Deus para os
ignorantes. Iluminados pela leitura do livro sagrado, possuíam a verdade divina de modo
exclusivo e excludente. Deus aparentemente só falava latim – e que bom, pois assim o
manejo do status de detentor da verdade era mais fácil. Vedava-se o acesso à tradução da
Bíblia para outras línguas justamente para que a posição de poder implicada nessa relação
de saber (de poucos) e ignorância (de todos) fosse mantida. Todos sabemos qual
estardalhaço institucional foi produzido quando Lutero procurou traduzir a bíblia para
que ela pudesse ser transmitida sem a regulação do dogma estabelecido. É de se imaginar
por qual razão, então, a circulação de um saber é pouco interessante para aqueles que
detêm a palavra de ordem. Se a palavra de Deus é aquilo que eu digo, é bom que apenas
eu tenha acesso à sua interpretação. A tentativa de Lutero em traduzir a bíblia

1
Cf. https://www.dicio.com.br/obscuro/
2
Cf. https://www.dicio.com.br/obscurantismo/

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representava uma nítida ameaça à ordem que estava estabelecida. Da mesma forma
Descartes, de acordo com seu compromisso com a razão e com o método científico,
escreveu o “Discurso sobre o método” em francês. Dessa forma, qualquer cidadão francês
disposto a usar a racionalidade poderia chegar à verdade. Não havia sentido em uma
coagulação de saber, uma vez que todos somos racionais e todos podemos usar nossa
razão de modo apropriado. A palavra-chave nesses dois casos (Lutero e Descartes) é
transmissão. Ambos estavam compromissados com a transmissão daquilo que lhes
interessava. Em Lutero, a escritura sagrada. Em Descartes, o uso da razão. Em ambos, a
questão da tradução é central. Do latim, língua erudita desconhecida pela massa, para o
alemão, no caso do primeiro, e francês, no caso do segundo.
E o que dizer da tradução de Lacan? Não é de espantar que um autor reputado
como um dos mais importantes do século XX tenha tanta coisa que simplesmente não foi
publicada? Por que essa insistência em não permitir que a palavra de Lacan, dita em 27
seminários, circule com facilidade? Será que isso é acidente histórico ou decisão clerical?
Uma contingência que foi lida como uma necessidade? De toda forma, permanece o fato
que muito do que Lacan diz é reformulado ou censurado pelo seu genro Jacques Alain-
Miller, responsável legal pelo estabelecimento de sua obra. Isso, digamos, quando há
publicação. Até hoje – lembrando que Lacan faleceu em 1981, há 39 anos atrás – alguns
dos seminários mais centrais permanecem desconhecido para todos aqueles que não leem
francês ou desconhecem o lugar onde achá-los. No “Seminário IX”, sem publicação
oficial, Lacan se esforça para demonstrar a estrutura do sujeito pelo toro e afirma
inclusive que o sujeito da psicanálise tem apenas duas dimensões: “para o sujeito duas
[dimensões] bastam, acreditem em mim”3 (LACAN, 1961-1962, lição 07/03). Essa
pequena passagem já contrasta violentamente com o que escutamos. O que está em jogo
para Lacan, nesse momento, é mostrar que o sujeito advém de um erro no cálculo
(LACAN, 1961-1962). O toro vem estruturar a relação do sujeito com o significante.
Sujeito que, enquanto tal, não é um corpo inefável, um real do corpo que o significante
marca, mas tão-somente aquilo que se repete no toro, que se escreve nele de forma
matemática. Escrita, aliás, que é o próprio campo da psicanálise, seu suporte e sua
substância. Quando perguntado por um matemático próximo dele se o recurso à
matemática era uma metáfora ou um modelo mental, responde que “as estruturas de que
se trata têm o direito de ser consideradas como da ordem de um [upokeimenon], de um

3 Tradução livre. Trecho original: “pour le sujet deux suffisent, croyez-moi.”

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suporte, até de uma substância disso que constitui nosso campo”4 (LACAN, 1965-1966,
lição 30/03). Esse seminário, proferido há mais de 50 anos, também não tem nenhuma
publicação oficial. E o que dizer do ato analítico, que é associado ao político e ao poético
de maneira assombrosamente frequente, mas o seminário que o aborda diretamente
(“Seminário XV – o ato psicanalítico”) tampouco ganhou a chance de ser publicado e
transmitido de maneira direta? Nele, a questão do ato está inteiramente dependente de
uma lógica discursiva que faz com que o analista tenha que advir no lugar que lhe é
prescrito, a saber, o lugar do objeto (a) como resto da operação significante. Lugar que,
como sabemos, será formalizado no “Seminário XVII – o avesso da psicanálise”
(LACAN, 1969-1970/1992) com o discurso do analista. O que mais surpreende, contudo,
é que, para Lacan, o analista deve estar atento ao suporte lógico que possibilita o ato para
que aí ele advenha:

o psicanalista nessa posição [objeto a] pode não ter - de tudo isso que venho
de desenvolver, a saber, disso que a condiciona [condiciona sua posição] - a
mínima ideia, a mínima ideia da ciência, por exemplo. Isso é comum. Na
verdade, não lhe é pedido que a tenha, visto o campo que ocupa e a função que
ele deve aí desempenhar. Do suporte da lógica da ciência, pelo contrário, ele
teria muito a aprender (LACAN, 1967-1968, lição 20/03/1968).

Do suporte da lógica, disso que ele chama de substância e sujeito do campo


analítico no “Seminário XIII – o objeto da psicanálise”, o analista teria muito a aprender,
às custas de recusar seu próprio ato. Mais uma citação que entra em contraste enorme
com a suposta óbvia relação entre o ato poético e o ato analítico porque os dois são
operação de extração de sentido.
Pois bem. Três exemplos meramente ilustrativos para dar a dimensão real do
ponto que pretendo levantar. Trata-se desta pergunta: “afinal, o que disse Lacan?”. Ora,
como podemos ver nesses três exemplos muito pontuais, aquilo dito por Lacan não é tão
acessível assim, justamente porque há uma barreira imensa entre aquilo que ele disse e
aquilo que circula na instituição. Pra que ver o que Lacan disse se ele já está elucidado
por Miller? Miller disse que Lacan disse que o gozo é x, y e z. Pronto. A linha continua.
A pessoa X disse pra pessoa Y que Colette Soler falou que Miller disse que Lacan disse
Z. E, afinal, o que Lacan disse, se os seminários não estão publicados? Resta-nos apenas
os exegetas e a transmissão que eles fazem do sentido verdadeiro das palavras de Lacan.

4
Tradução livre. Trecho original: “les structures dont il s’agit ont droit d’être considérées comme de
l’ordre d’un ὑποχείμενον [upokeimenon], d’un support, voire d’une substance de ce qui constitue notre
champ.”

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Daí, acontece que muitas coisas passam a fazer parte do campo lacaniano a
despeito do que o próprio autor disse. Esse é o caso, como pretendo mostrar, de termos
como “o inefável” e “vivência”. Muito se escuta sobre o real como o inefável, muito bem
capturado pela obra de Clarice que, nos limites da linguagem, escreveu um nódulo de
real, uma experiência pelo real. Muitas vezes esse inefável é acompanhado também pela
singularidade. “A singularidade na leitura de cada um” pois “todo mundo lê com um
pouco do seu sintoma”. A vivência da travessia analítica, então, nem se fala. Todos se
autorizam em suas práticas a partir de sua vivência na experiência clínica. De uma forma
ou de outra, tanto o “inefável” da experiência do real como a “vivência” do percurso de
cada um pela psicanálise tornaram-se palavras de ordem em muitas argumentações e
debates no campo. O problema que extraímos disso é que se cada um tem sua vivência
singular e lida com o inefável da experiência, como podemos pensar a teoria lacaniana de
maneira transmissível? Será que devemos nos manter nesse campo em que, em última
instância, apelar para sua própria experiência é uma palavra de ordem? A pergunta que
podemos fazer, para começar a elaborar essas questões, é: esses conceitos eram um
problema para Lacan? Será que Lacan, afinal, falou disso? Ou será que esses “conceitos”
estão aí justamente para apelar para um lado contrário à transmissão rigorosa da
psicanálise?
Em uma rápida pesquisa pela totalidade dos 25 seminários disponíveis no original
em francês no site www.staferla.free.fr os resultados são extremamente reveladores. Ao
todo, a palavra “inefável” é dita pelo francês apenas 44 vezes. Sua incidência
minimamente pregnante é restrita aos 5 primeiros anos de seu ensino. Nos seminários
“Mais, ainda” e “O sinthoma”, muito associados à noção de escrita do corpo, de real de
corpo, inefável e real fora do simbólico, a palavra “inefável” não aparece nenhuma vez.
Uma comparação significativa: apenas no primeiro seminário a palavra ciência é dita 33
vezes, apenas 11 vezes a menos que toda a incidência de “inefável” ao longo dos anos. A
conclusão disso é óbvia: o inefável não é um conceito lacaniano. Para demonstrar essa
tese, que talvez nem precisasse de demonstração, vamos às aparições do termo. Logo no
primeiro seminário – onde supostamente Lacan dava mais relevância ao imaginário – o
termo aparece quando fala sobre Melanie Klein e o problema da indistinção entre real,
imaginário e simbólico. Sim, isso em 1953. Vejamos:

E daí? Para nós, analistas, temos nos contentado com isso até o presente.
Certo, tenta-se elaborar um pouco, mas é bem tímido. Sentimo-nos sempre
horrivelmente atravancados porque distinguimos mal imaginário, simbólico e

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real. Quero agora fazer vocês observarem isso. Quando Melanie Klein lhe
entrega o esquema do Édipo, a relação imaginária que vive o sujeito, embora
extremamente pobre, já é suficientemente complexa para que se possa dizer
que ele tem o seu próprio mundo. Mas esse real primitivo é para nós
literalmente inefável. Enquanto não nos diz nada, não temos nenhum meio de
penetrar nele, senão por extrapolações simbólicas que fazem a ambiguidade de
todos os sistemas como o de Melanie Klein – ela nos diz, por exemplo, que,
no interior do império do corpo materno, o sujeito ali está com todos os seus
irmãos, sem contar o pênis do pai etc. É mesmo? (LACAN, 1953-1954/1986
p.104).

Lacan é enfático: pensar um real primitivo, inefável, talvez até seja possível, mas
enquanto o sujeito não nos diz nada, qualquer atuação é uma extrapolação simbólica. O
inefável, caso exista, não faz parte da experiência analítica sustentada pelo simbólico.
Ainda em 1953, Lacan volta a tematizar a existência do inefável em relação à fala/palavra
(parole5 no original), mas apresenta um curioso movimento:

A palavra não se desdobra num único plano. A palavra tem sempre por
definição os seus panos de fundo ambíguos que vão até o momento do inefável
em que não pode mais se dizer, se fundar, ela mesma, enquanto palavra. Mas
este para além não é o que a Psicologia procura no sujeito e encontra em não
sei qual das suas mímicas, das suas cãibras, das suas agitações, em todos os
correlatos emocionais da palavra. O, por assim dizer, para além psicológico
está de fato do outro lado, é um aquém. O para além de que se trata está na
dimensão mesma da palavra. Por ser do sujeito não entendemos as suas
propriedades psicológicas, mas o que se cava na experiência da palavra, em
que consiste a situação analítica (LACAN, 1953-1954/1986, p.263).

Aqui o inefável entra novamente em cena. Porém, isso que da palavra comparece
como inefável não é algo que se encontre nas cãibras, nas agitações, nas mímicas – aqui
lembro-me de uma colega que localizou o gozo do paciente em seu prepúcio. Aliás, faço
a suposição de que a psicose ordinária é apenas a atualização de uma substância que sub-
repticiamente se apresenta em alguns gestos e contorções no comportamento do paciente.
Pois, como haveríamos de pensar uma psicose antes de sua articulação nos fenômenos
elementares de que fala Lacan (LACAN, 1955-1956/1985b). Enfim, esse não é um
problema de agora – voltemos ao inefável. O para além da palavra encontra-se na
dimensão mesma da palavra. Um trecho de 1953 que tem ressonâncias surpreendentes
com o movimento da instauração do real a partir de um limite da operação simbólica. Se
há o inefável, que seja, mas ele não é da ordem de uma singularidade, de um real do corpo
ou de qualquer tipo de experiência quase mística de travessia por um real pela vivência
da clínica: trata-se da própria palavra e daquilo que ela instaura. Como dissemos,
futuramente esse movimento será lido por Lacan como a instauração de um real como um

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Parole, em francês, pode significar tanto fala quanto palavra. Optamos por deixar as duas para ressaltar a
ambiguidade.

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impossível justamente pela operação limítrofe do campo do simbólico. Nada de real fora
do laço com os outros registros.
Pois bem, Lacan continua com o inefável. Contudo, paulatinamente vai se
afastando de sua noção como um operador na clínica analítica. Em 1954, ainda falando
sobre a questão do imaginário, afirma:

A economia imaginária não nos é fornecida no limiar de nossa experiência,


não se trata de uma vivência inefável, não se trata de procurar uma melhor
economia das miragens. A economia imaginária só tem sentido, só podemos
influir nela, na medida em que se inscreve numa ordem simbólica que impõe
uma relação ternária (LACAN, 1954-1955/1985a, p.320-321).

Aqui o inefável já perde seu interesse. Não se trata nem de afirmar uma
experiência inefável dentro da palavra, mas de retirar a inefabilidade do campo da
experiência analítica e colocar em seu lugar a relação ternária. Impressionante como o
“Lacan do imaginário” fala de simbólico, real e relação ternária, não? Nos próximos
seminários, o francês dá os golpes decisivos na questão. Quando falava da significação
delirante enquanto inefável, justamente por se tratar de uma significação que reenvia à
própria significação (LACAN, 1955-1956/1985b), faz uma certa avaliação do que
representaria essa fixação pelo inefável:

Eu fiz vocês observarem que o documento tinha sido redigido por Schreber em
um momento bastante avançado de sua psicose para que ele tenha podido
formular seu delírio. A esse respeito, formulo minhas reservas, legitimamente,
já que alguma coisa que podemos supor mais primitiva, anterior, originária,
nos escapa – o vivido, o famoso vivido, inefável e incomunicável, da psicose
em seu período primário ou fecundo. Somos livres para nos hipnotizar neste
ponto, e para pensar que perdemos o melhor. Deplorar que se perde o melhor
é em geral uma forma de se desviar do que se tem em mão, e que talvez valha
a pena que se considere. Por que um estado terminal seria menos instrutivo que
um estado inicial? Nada garante que esse estado terminal represente uma
menos-valia desde que admitamos o princípio de que, em matéria de
inconsciente, a relação do sujeito ao simbólico é fundamental. Esse princípio
pede que abandonemos a ideia, implícita em muitos sistemas, de que o que o
sujeito coloca em palavras é uma elaboração imprópria e sempre distorcida de
um vivido que seria uma realidade irredutível. É justamente a hipótese que está
no fundo de A consciência mórbida de Blondel” (LACAN, 1955-1956/1985b,
p.138).

Blondel que, aliás, não contava com muita simpatia de Lacan. No último
seminário em que dedica mais de duas referências à palavra “inefável”, ataca
impiedosamente o psiquiatra e sua desvalorização da articulação em prol do inefável:

Somente os cretinos imbecis, do tipo do sr. Blondel, o psiquiatra, podem


levantar objeções, em nome de uma pretensa consciência mórbida inefável da
vivência do outro, ao que não se apresenta como inefável, mas como
articulado, e que como tal deveria ser recusado, em razão de uma confusão que

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provém de as pessoas acreditarem que o que não se articula está mais além,
quando não é nada disso: o que está mais além se articula. Em outras palavras,
não há por que falar de inefável quanto ao sujeito, seja ele delirante ou místico.
No plano da estrutura subjetiva, estamos na presença de algo que não pode se
apresentar de outra maneira, senão daquela como se apresenta, e que, como tal,
apresenta-se, por conseguinte, com todo o seu valor, em seu nível de
credibilidade. Se existe o inefável, quer no delirante, quer no místico, por
definição ele não fala disso, uma vez que é inefável. Então, não temos que
julgar o que ele articula, ou seja, sua fala, a partir daquilo que ele não pode
falar (LACAN, 1957-1958/1999, p.158).

E Lacan levou essa ideia a sério. Depois desse momento, no “Seminário V – As


formações do inconsciente”, dos 20 seminários que se seguem a palavra “inefável” não é
sequer mencionada em 14 deles. O inefável decisivamente não é um problema lacaniano.
Quando era abordado por Lacan, era tomado sempre na sua relação direta com a
articulação da fala/palavra (parole). No último momento em que dá uma atenção para ele,
sua conclusão é simplesmente que devemos abandoná-lo pois ele não acrescenta em nada
na análise da articulação do que é de fato dito. Repitamos: o inefável não é, em absoluto,
um conceito ou uma preocupação lacaniana.
Antes de chegarmos à conclusão que nos interessa, vamos analisar brevemente
outra noção. As duas últimas citações, apesar de enormes, foram mantidas intactas porque
abordam, além da questão do inefável, a vivência: outra palavra extremamente em voga
no pós-lacanismo. A vivência e a noção de singularidade entram em plena harmonia no
discurso instituído. Há a vivência singular da clínica que sustenta um caminho próprio
pela teoria, um caminho no qual você deixa algo de si, algo do seu sintoma único. Essa
questão, de certa forma, sustenta a ideia de uma experiência meio mística de veredas por
um real que impõe suas marcas de gozo em um corpo mítico, mas vivo. Já vimos que o
inefável não é bem o que se pensa. E quanto à vivência? Há um apelo em Lacan àquilo
que é sentido e vivido, que se faz numa travessia própria pelo próprio sintoma, à formação
do analista pela vivência de uma experiência na clínica?
Não precisamos nos estender nessa questão. A partir das duas citações anteriores,
vimos que a vivência para Lacan está em segundo plano em relação à articulação da
fala/palavra (parole), ou seja, da articulação significante. Indo além, contudo, podemos
chegar a postular que a vivência de uma análise não auxilia em nada na formação de um
analista. A ideia de transmissão da psicanálise por meio da vivência pessoal da clínica é
perigosa e contra ela devemos ser beligerantes. Perigosa pois permite apoiar a formação
de um analista em todo tipo de pré-conceitos adquiridos na própria experiência clínica –
perigo para o qual Lacan chama atenção:

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O que não quer dizer, no entanto, que isso [as formulações em relação à
experiência psicanalítica] baste para autenticar meu ensino como científico, na
medida em que ele tenta se precaver da negligência que, em nome de uma
suposta referência à clínica, sempre se remete, para dar conta dessa
experiência, a uma função reduzida a sabe-se lá qual faro, o qual, obviamente,
não poderia ser exercido se já não lhe fossem dados os marcos de uma
orientação que, por sua vez, foi fruto de uma construção, e muito doutra: a de
Freud. A questão é saber se basta a pessoa se instalar nisso e, em seguida,
deixar-se guiar, a partir daí, quanto ao que é tomado por uma apreensão mais
ou menos vivenciada da clínica, mas que é apenas, pura e simplesmente, um
lugar para se reintroduzirem sub-repticiamente os mais tenebrosos
preconceitos (LACAN, 1968-1969/2008, p.258).

E devemos ser beligerantes porque nunca podemos esquecer que nossa prática
implica o tratamento de um sintoma. Caso desconheçamos como fazê-lo, o que estamos
fazendo? Apelando pra vivência pessoal de clínica? Não há nada que possa retificar e
estruturar a atuação na clínica? Não abordaremos a questão da estrutura do ato analítico,
mas deixaremos indicado – pois já nos basta para o propósito de colocar a noção de
vivência em xeque – que, se tem algo que pode dar conta da experiência analítica, não é
a vivência (Erlebnis):

se a partir de um certo momento - justamente aquele do nascimento desses


seminários - eu acreditei dever fazer entrar em jogo essa tríade do Simbólico,
do Imaginário e do Real, é na medida que esse terceiro elemento, que não
estava discernido como tal até aí em nossa experiência, é exatamente a meus
olhos o que está constituído exatamente por esse fato da revelação de um
campo de experiência. E para remover toda ambiguidade desse termo - trata-
se da experiência freudiana - eu direi, de um campo de experimento: quero
dizer que não se trata de Erlebnis (LACAN, 1961-1962, lição 13/12/61).

Ao invés de experiência vivida, experimento. Trata-se de fazer algo funcionar


desde uma hipótese. No caso, a hipótese é o sujeito do inconsciente. De toda forma,
apoiar-se no vivido não é suficiente. Lacan vai dizer, nesse mesmo seminário, que Pavlov
criou de fato um significante em seu experimento com o cão (LACAN, 1967-1968).
Vimos, portanto, que o inefável não é um conceito lacaniano e que a vivência não
é uma boa guia no campo analítico. Por que, então, escutamos exatamente o contrário por
tudo quanto é canto? Escutamos tanto sobre a questão do inefável da escrita, do inefável
do corpo em relação à travessia pelo real? Tanto do real como algo fora do simbólico? A
suposição que faço, apoiando-me em Eidelzstein, é que há hoje no campo analítico, pela
tentativa de encaixar Freud em Lacan e Lacan em Freud – o chamado freudolacanismo –
uma querela: “a psicanálise está dividida entre partir de um epifenômeno de corpo ou de
uma lógica significante” (EIDELSZTEIN, 2017, p.189). De um lado, portanto, tudo
aquilo que pode ser pensado do lado do real do corpo, como o inefável e a vivência. Nesse
campo, tratamos de um “real autônomo e anterior ao simbólico e ao imaginário, que

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provém da substância viva do corpo a que chamam pulsional ou de gozo”
(EIDELSZTEIN, 2017, p.180). E do outro lado? O que temos do outro lado permanece
inteiramente rechaçado para a manutenção, por um lado, de um certo domínio de
conhecimento e, por outro, uma continuidade do obscurantismo em nosso campo. Apelar
para uma vivência pessoal nunca possibilitará chegar a um consenso teórico; manter a
circulação dos seminários em âmbito restrito e limitado impossibilita o acesso de um
grande número de pessoas.
O que falta destacarmos é que a meta da transmissão era um problema
fundamental para Lacan. Pode-se dizer, sem forçar a barra, que ele sempre esteve às
voltas com o problema da transmissão, desde o “Seminário sobre ‘A carta roubada’”
(1955/1998) até a questão do passe e dos nós. O que acontece, contudo, é que o lado
matemático do ensino lacaniano, totalmente enraizado na revolução da ciência moderna
e dos desenvolvimentos da lógica matemática, é absolutamente rechaçado para colocar
em seu lugar essa quimera mal-ajambrada de uma teoria freudiana em sintonia com a
lacaniana – esse epifenômeno do corpo com contornos de lógica significante. O que
menos encaixa em Freud, de Lacan, é a formalização matemática – o que Lacan chamava
de ideal justamente por poder se transmitir integralmente (LACAN, 1972-1973). Ela
tornou-se, historicamente e por uma decisão que eu penso como deliberada, uma
idiossincrasia lacaniana, que gostava de ser difícil e enigmático. Contudo, o recurso à
matemática serve um propósito fundamental em sua obra, a saber: colocar em xeque a
noção de substância, matéria, sujeito e objeto tais como eram tratados antes pela
psicanálise. Colocar completamente em subversão a noção freudiana de inconsciente. É
o registro matemático que permite sair da significação infinita e de fato escrever uma
estrutura que pode ser pensada de maneira universal como transmissível. É curioso, não?
Escutamos muito que Lacan era obscuro, barroco e gongórico, mas ele mesmo afirma,
quando perguntado se a incompreensão em relação ao seu ensino era um sintoma, que sua
palavra era sobretudo “de ensino” (LACAN, 1971-1972, lição 2/126) e afirma que a
incompreensão se devia a uma postura da própria instituição analítica: “havia o interdito.
E que, realmente, este interdito tenha vindo de uma instituição analítica é certamente
significativo (LACAN, 1971-1972, lição 2/12).
Começamos o presente artigo com a pergunta: afinal, o que Lacan disse? Vimos
dois termos que passam a torto e direito no campo analítico como conceitos importantes

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Pelas censuras feitas à versão oficial, que cortou muitos dos seminários em Sainte-Anne, usei a versão não
oficial.

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revelarem-se nada lacanianos, mas talvez pós-lacanianos. Chegamos ao final de nosso
percurso falando da tentativa incessante de transmissão por parte de Lacan. Ora, o
problema é que sua grande aposta – a formalização matemática – entra em contraste
absurdo com a tentativa de fazer de Freud um lacaniano e de Lacan um freudiano (e
sabemos que, segundo Lacan, as coisas são bem diferentes...). Nesse sentido, enxergo a
confusão com o que Lacan disse ou não disse justamente como uma estratégia
extremamente lúcida para manter o campo analítico em certa desordem conceitual.
Impedir que alguns seminários específicos sejam publicados me parece uma estratégia
muito eficaz para tornar Lacan um pensador lacunar, que mudou de ideia várias vezes e
apelava para a dificuldade exuberante de imagens estranhas e toscas como a garrafa de
Klein ou o cross-cap. Surpreende, de fato, que o recurso à matemática cada vez mais
perca lugar, no lacanismo instituído, para um amálgama de vivência pessoal e de análise,
experiência de um inefável ou entendimento particular e sintomático da teoria. O matema,
aposta lacaniana da transmissão em sua função de universal, serve só agora pra adornar
as paredes das Escolas onde os detentores do campo lacaniano lamentam Lacan não ter
escrito em latim.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EIDELSZTEIN, A. (2017) Otro Lacan. Buenos Aires: Letra Viva, Librería y Editorial.

LACAN, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1. Os escritos técnicos de Freud. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.

LACAN, J. (1954-1955). O Seminário, livro 2. O eu na teoria freudiana. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Ed., 1985a.

LACAN, J. (1955). Seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1998, p.13-69.

LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3. As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar


Ed., 1985b.

LACAN, J. (1957-1958). O Seminário, livro 5. As formações do inconsciente. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

LACAN, J. (1961-1962) O Seminário, livro 9. A identificação. Sem publicação.


Disponível em: <www.staferla.free.fr>.

LACAN, J. (1965-1966) O Seminário, livro 13. O objeto da psicanálise. Sem


publicação. Disponível em: <www.staferla.free.fr>.

LACAN, J. (1967-1968) O Seminário, livro 15. O ato analítico. Sem publicação.


Disponível em: <www.staferla.free.fr>.

LACAN, J. (1968-1969). O Seminário, livro 16. De um Outro ao outro. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Ed., 2008.

LACAN, J. (1969-1970) O Seminário, livro 17. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Ed., 1992.

LACAN, J. (1971-1972) O Seminário, livro 19. ...ou pior. Disponível em:


<www.staferla.free.fr>.

LACAN, J. (1972-73). O Seminário, livro 20. Encore. Rio de Janeiro: Escola Letra
Freudiana, 2010.

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O obscurantismo no real lacaniano

Jefferson Weyne Silva Soares

“Se as análises fossem levadas tão a sério quanto me dedico a preparar meu
Seminário, isso, sim, seria muito melhor, e certamente elas dariam melhores
resultados”.
(LACAN, 1975-1976/2007)

A frase com que abro esse trabalho foi dita por Lacan em seu seminário sobre o
sinthoma, na classe de 16 de dezembro de 1975. Resumidamente, o que o psicanalista nos
revela é que sua clínica se sustenta no arcabouço teórico que ele detém. O manejo do caso
e a direção do tratamento, por exemplo, estão submetidos a esse ponto. Portanto, é
fundamental entender os conceitos, saber de onde vieram e em que consistem para uma
prática clínica que neles se apoie. Se a teoria é tão importante quanto Lacan fala, tomo a
liberdade então de analisar de forma mais detida um dos conceitos mais ventilados dentro
do movimento freudolacaniano contemporâneo: o real. Para tanto, proponho então que
tomemos como referência fundamental alguns textos de Jacques Alain-Miller.
Para os que não o conhecem, Miller é psicanalista francês, genro e herdeiro da
obra intelectual de Jacques Lacan, sendo também o responsável pelo estabelecimento dos
seminários ditados pelo mestre francês, bem como de seus textos escritos. Após a morte
de Lacan, Miller toma para si a alcunha de “intérprete” e passa a ditar seu curso intitulado
“orientação lacaniana”. “Obrigado por me esperar, tenho que passar algum tempo na
companhia do texto de Lacan e provavelmente adie o momento de interpretá-lo para
vocês” [tradução nossa] (MILLER, 2014, p.23).
Para Miller (2014) o real de Lacan, muitas vezes, é tomado como o impossível
de dizer, aquilo que não se pode falar sobre (semelhante a coisa em si kantiana) ou o
corpo vivo, organismo biológico, carne e osso. No livro “Elementos de biologia
Lacaniana”, que se constitui de Conferências ditadas no Brasil em abril de 1999, o real
está estritamente vinculado a uma biologia e ao gozar do corpo vivo.

Estas conferências, que podem ser vistas como o ponto de Arquimedes do


curso de Orientação Lacaniana, que teve como tema A experiência do Real no
tratamento analítico, estruturam-se em torno da “ironia da natureza com
relação ao significante” e orienta o projeto de precisar o que é o corpo vivo na
psicanálise. Mesmo sendo sem corpo, é o significante, com sua lógica, que vai
abrir o caminho, juntamente com o pouco que se ordena a partir da biologia,
para se chegar a um saber sobre o gozo. Este saber é, talvez, "o único saber

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psicanalítico não-filosófico, o único saber psicanalítico que temos sobre a vida,
sobre o que é o ser vivo. O 'gozar' do corpo vivo seria, assim, tudo o que
podemos saber dele” (MILLER, 1999, p.9).

Em “El ultimíssimo Lacan” nos diz que “entre a verdade e o real, existe o
impossível, pois ambos limitam e conectam ao mesmo tempo. No lado da palavra,
encontramos o real na forma do impossível de dizer” (MILLER, 2014, p.28).
Além de vincular tais leituras acerca do real, Miller habilita uma progressão e
distinção clara entre um primeiro Lacan, que predominantemente trabalharia o registro
imaginário, um segundo Lacan, com ênfase no registro simbólico, e um terceiro
enfatizando o real do qual esse último desenvolvimento seria o mais refinado e mais
acabado constructo da teoria lacaniana. Abrindo espaço para a chamada "clínica do real".
Nesse sentido, proponho neste trabalho contrapor os argumentos de Miller
acerca do real lacaniano com citações do próprio Lacan. Para tanto me sirvo
prioritariamente do livro “El ultimíssimo Lacan” de Jacques Alain-Miller e do seminário
“O sinthoma” de Jacques Lacan, que até o presente momento é o único seminário do dito
“ultimíssimo” a ser estabelecido por Miller, enquanto detentor da obra intelectual de
Lacan. Deixo claro que não pretendo dizer que minha leitura é a única possível nem a
mais correta, porém pretendo apresentar aqui a oposição de ideias entre o que disse
textualmente Miller acerca do real e as concepções de Jacques Lacan, a fim de verificar
se há coerência entre os dois autores.
Lacan introduz o conceito de real em seu texto de 1953 “Simbólico, Imaginário
e Real”, ao inaugurar a Sociedade Francesa de Psicanálise, junto com Daniel Lagache.
Sobre o real ele diz que:

Antes de mais nada, uma coisa que é, evidentemente, surpreendente e que não
nos deveria escapar: ou seja, que há, na análise toda uma parte de real em
nossos sujeitos, a qual, precisamente, nos escapa; que, no entanto, não
escapava a Freud ao ocupar-se ele de cada um de seus pacientes. Mas
certamente, ainda que isso não lhe escapasse, caía também fora de sua
dimensão e alcance (...). É algo que – é necessário dizê-lo – constitui os limites
de nossa experiência. É nesse sentido que se pode dizer, para expor a questão
do saber que entra em jogo na análise: De que se trata? Acaso, esta relação real
do sujeito – segundo um certo modo e segundo nossas medidas de
reconhecimento – é sobre isso que devemos trabalhar na análise? Certamente
que não. Trata-se, indubitavelmente, de outra coisa (LACAN, 1953/1996, p.1-
2).

Aqui temos o real tomado como um limite encontrado na análise, ao qual Freud
também se deparava, mas do qual não conseguia dar conta, pois “caía também fora de sua
dimensão e alcance”. A análise, que Lacan define como uma construção simbólica por

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meio da fala, leva o sujeito e o analista a se depararem com impasses e impossibilidades,
limites lógicos aos quais o analisando se encontra enredado e paralisado.
Passando ao seminário 23, que foi estabelecido em 2005, ou seja, 30 anos após
ter sido proferido, Lacan nos diz do real como impossível, mas não um impossível de
dizer como aponta Miller. Sua ideia é de que ele seria uma impossibilidade lógica e
inerente ao próprio simbólico ao dizer que “a imaginação de consistência vai diretamente
ao impossível da fratura, mas é por isso que a fratura pode sempre ser o real – o real como
impossível. Nem por isso ele é menos compatível com a dita imaginação, e inclusive a
constitui” (LACAN, 1975-1976/2007, p.37), e que “a boa maneira é aquela que, por ter
reconhecido a natureza do sinthoma, não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar
isso até atingir seu real, até se fartar” (LACAN, 1975-1976/2017, p.16).
Se como vimos nas citações anteriores, o real é o impossível, Lacan também
deixa claro na segunda citação que não é o impossível de dizer ou de articular em palavras,
mas uma impossibilidade lógica, e que esse real só pode ser atingido quando a lógica se
farta.
O real para Lacan não está apenas intrinsicamente ligado à lógica matemática,
como não pode existir por fora do simbólico, sendo este último condição para sua “ex-
sistência”, como postula Lacan dois anos antes em seu seminário “...Ou pior” dizendo
que “esse real de que estou falando, o discurso analítico é a conta certa para nos lembrar
que o acesso a ele é o simbólico. Não acessamos o referido real senão no e através do
impossível que somente o simbólico define” (LACAN, 1971-1972/2012, p.136).
Retornando ao seminário “O sinthoma”, define um domínio do simbólico sobre
o real quando nos fala que “o método de observação não poderia partir da linguagem sem
que ela aparecesse como fazendo furo no que pode ser situado como real. É por essa
função de furo que a linguagem opera seu domínio sobre o real” (LACAN, 1975-
1976/2007, p.31), e ainda “não é fácil para mim impor-lhes essa convicção com todo o
peso que ela tem. Ela me parece inevitável, uma vez que não há verdade possível como
tal, exceto ao se esvaziar esse real. Aliás, a linguagem come o real” (LACAN, 1975-
1976/2007, p.32).
Por outro lado, para Jacques Alain-Miller, o real está separado do simbólico e
não somente isso, mas se mostra como superior a este:

Já está presente aqui, nas páginas 366 e seguintes dos Escritos, a noção que
Lacan pôs em relevo na psicose – não esqueçamos que o que sobre o espaço
do lapso está ao final do seminário sobre Joyce, que essas manifestações

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erráticas do que está separado da simbolização já eram o esboço do que Lacan
chamará, depois no seminário, o real sem leis, é dizer, um real desunido do
simbólico, e do qual se pode dizer que o supera [tradução nossa] (MILLER,
2014, p.21).

Sendo assim, percebemos através das citações até então expostas que o real que
Miller sustenta está intimamente ligado com o corpo vivo, a biologia, a carne etc. O real
para Lacan é uma impossibilidade, algo alheio à realidade, mas que se encontra como um
limite e uma impossibilidade de ser encontrado nessa mesma realidade.
Para entendermos melhor o porquê de Lacan trabalhar a noção de real como uma
impossibilidade lógico matemática, tomemos alguns textos de Alexandre Koyré,
principal influência de Lacan no campo epistemológico. Em seu trabalho “Estudos
Galilaicos” ele diz que:

Contrariamente ao que geralmente se afirma, a lei da inércia não tem sua


origem na experiência do sentido comum, e não é uma generalização desta
experiência nem tampouco sua idealização. O que se encontra na experiência
é o movimento circular ou, de forma mais geral, o movimento curvilíneo.
Nunca presenciamos o movimento retilíneo, se restringimos o caso da queda,
que precisamente não é um movimento inercial. E não obstante, o movimento
que a física clássica se esforçará para explicar, será o primeiro — o curvilíneo
—, a partir do segundo. Caminho curioso do pensamento: não se trata de
explicar o dado fenomênico mediante a suposição de uma realidade subjacente
(como faz a astronomia, que explica os fenômenos, quer dizer, os movimentos
aparentes, por meio de uma combinação de movimentos reais), nem tão pouco
de analisar o dado em seus elementos simples para logo reconstrui-lo (método
resolutivo e compositivo, ao qual — sem razão, ao nosso parecer — alguns
reduzem a verdade do método galileano); se trata, propriamente falando, de
explicar o que é a partir do que não é, do que não é nunca. E inclusive a partir
do que não pode nunca ser. Explicação do real a partir do impossível. Caminho
curioso do pensamento! Caminho paradoxal onde existem, caminho que
denominaremos arquimediana ou, melhor dizendo, platônica: explicação ou
reconstrução da realidade empírica a partir de uma realidade ideal. Caminho
paradoxal, difícil e arriscado; e o exemplo de Galileo e Descartes nos fará ver
de imediato e palpavelmente sua contradição essencial: necessidade de uma
conversão total, de uma substituição radical da realidade empírica por um
mundo matemático, platônico — posto que só nesse mundo tem validade e
realizam-se as leis ideais da física clássica — e impossibilidade dessa situação
total que faria desaparecer a realidade empírica ao invés de explicá-la e que,
em lugar de preservar o fenômeno, faria aparecer entre a realidade empírica e
a realidade ideal, o abismo mortal do feito não explicável [tradução nossa]
(KOYRÉ, 1966/1980, p.194-195).

E ainda:

Anteriormente ao advento da ciência galileana, certamente com mais ou


menos dose de acomodação e de interpretação, aceitávamos o mundo que se
oferecia a nossos sentidos como o mundo real. Com Galileu, e depois de
Galileu, presenciamos uma ruptura entre o mundo percebido pelos sentidos
e o mundo real, ou seja, o mundo da ciência. Esse mundo real é a própria
geometria materializada, a geometria realizada (KOYRÉ, 1973/1982, p.55).

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Koyré (1966/1980) defende, portanto, que a partir do renascimento acontece
uma mudança no rumo da ciência, que antes se baseava em observações de fenômenos
naturais, formas de prever e intervir em tais fenômenos. Porém, a partir do renascimento,
e mais especificamente da física de Galileu, modifica-se completamente a forma de lidar
com a ciência, passando a postular leis e conceitos que não estavam presentes na realidade
cotidiana. Seriam, portanto, bastante contra intuitivos.
Para exemplificar, Koyré usa o princípio da inércia onde um corpo se mantém
em movimento retilíneo uniforme até que se aplique sobre este uma outra força que
modifique seu estado inicial. A ideia de Koyré que fundará a noção de real especifica a
impossibilidade de observar um movimento retilíneo uniforme na realidade empírica. O
que se encontra no mundo seria sempre o movimento curvilíneo. Sendo assim, o
movimento retilíneo uniforme é uma impossibilidade da ordem do real, uma lei
matemática impossível usada para ler a realidade. Vemos então que é a partir de um
movimento que não existe (retilíneo) que se lê o movimento que existe (curvilíneo).
Tal distinção entre realidade, que seria o mundo que percebemos pelos sentidos,
e o real, que seria a construção matemática de leis impossíveis, inauguram o conceito que
seria tão importante para o ensino de Lacan e para uma tentativa de fazer um
distanciamento do empirismo ingênuo presente na obra freudiana. Sobre isso é importante
lembrar que, para Lacan (1960/1998), as condições de uma ciência não podem estar
atreladas ao empirismo.
Logo, através da discussão proposta no presente artigo conseguimos visualizar
que talvez seja importante tentar resgatar com maior radicalidade o conceito de real, o
que implicaria desatrelá-lo da dimensão biologicista que impera no movimento lacaniano
contemporâneo. Embora o psicanalista francês tenha continuamente rechaçado os
fundamentos biológicos como determinantes ou centrais para sua teoria do sujeito, não
faltam hoje tentativas de fazer de seu ensino mais um reduto para considerações e
hipóteses organicistas. Talvez essa empreitada tenha como pano de fundo o desejo de
construir uma ponte entre o pensamento de Lacan e o de Sigmund Freud, que é recheado
de tais referências.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KOYRÉ, A. (1973) Estudos de história do pensamento científico. Brasília: Ed. Forense


Universitária, 1982.

KOYRÉ, A. (1966). Estudios galileanos. trad. Mariano González Ambou, Madrid:


Siglo XXI, 1980.

LACAN, J. (1953) O simbólico, o imaginário e o real. Papéis, n.4, abr. 1996.

LACAN, J. (1960) Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente


Freudiano. In. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

LACAN, J. (1971-1972) O seminário, livro 19: ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2012.

LACAN, J. (1975-1976) O seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar Editor, 2007.

MILLER, J. A. El ultimíssimo Lacan, 2014. Buenos Aires: Editora Paidós, 2014.

MILLER, J. A. Elementos de biologia lacaniana. Belo Horizonte: Escola Brasileira de


Psicanálise, 1999.

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70
Obscurantismo institucional: os impasses e entraves da transmissão em sua própria
casa de circulação

Bruno Oliveira

Há uma estranheza na transmissão da psicanálise diante dos meios aos quais ela
perdura, principalmente quando se parte do pressuposto desta função a partir das ditas
Escolas ou Instituições de Psicanálise. É sabido pela comunidade psicanalítica que desde
os escritos freudianos sobre a história do movimento psicanalítico, no qual ele descreve
suas inúmeras rupturas com colegas e outros teóricos, se evidencia uma dificuldade
colossal em como institucionalizar a transmissão do que seria a prática psicanalítica.
Quando se pensa no campo lacaniano, esses entraves tomam uma proporção exponencial
(FREUD, 1914/1996).
Lacan esteve muito preocupado com os problemas cruciais para a psicanálise e
sua transmissão. Recorreu a muitos outros campos na busca de formalizações, realizou
leituras diagonais para o que lhe servia para o seu campo e sua prática e criou uma série
de dispositivos na tentativa levada à exaustão de reduzir os efeitos de imaginário e de
mestria na circulação do saber psicanalítico e teórico na instituição. No entanto, o próprio
admite na dissolução de sua Escola, criada em 1964, que havia fracassado.

Basta que um vá embora para que todos fiquem livres, é no meu nó


borromeano, verdade de cada um, e em minha Escola é necessário que seja eu.
Decido-me porque se não me intrometesse ela funcionaria na contramão [à
rebours] daquilo para o qual a fundei. Ou seja, por um trabalho – já disse –
que, no campo aberto por Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade –
que traz a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise para o
dever que retorna a ele em nosso mundo – que, por meio de uma crítica assídua,
denunciei os desvios e os compromissos que amortecem seu progresso,
degradando sua utilização. Objetivo que mantenho. É por isso que dissolvo
(LACAN, 1980/2003, p.319).

Por que os mesmos fracassos de 4 a 5 décadas atrás persistem nas instituições ao


longo do tempo até o momento atual? Essa pergunta é tomada como guia da construção
deste artigo para interrogar dois parâmetros fundamentais, dentre tantos outros, sobre
questões que se tornam pivô nestes embaraços: o que se faz com o Saber e com a Ética.
O saber da psicanálise, que Lacan formaliza em vários momentos distintos de seu
ensino, assume uma determinada série de conceituações que, apesar de sua evolução e
modificação, mantém em seu cerne a definição imutável de ser composto por significantes
e letras, sempre no plural. Desde a segunda metade da década de 1950 até os dias atuais,
é uma convenção a clareza de que um significante sozinho e isolado é por definição sem

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referência de significação. Ou seja, somente a partir da soma de pelo menos mais um
significante ou letra que se pode produzir a emergência de um Saber. Articulação
significante, mesmo que esta não produza um sentido imaginário. Essa articulação e seus
efeitos é a definição central do Saber em psicanálise. Este Saber fundamenta lalangue, a
linguagem e o inconsciente, discurso do Outro, pois todos estes implicam na constituição
da dimensão simbólica composta pela malha de letras e significantes.
Já no fim da década seguinte, Lacan traz como o Saber, ao lado de outras 3 letras
sendo $ (Sujeito), a (objeto) e o S1 (significante), podem assumir diferentes concepções
a depender do lugar que ocupam nos discursos radicais. Isso possibilita compreender o
Saber enquanto agente discursivo, enquanto outro que trabalha, enquanto produto de
discurso abaixo da barra, o saber inconsciente, e enquanto Verdade, causando o discurso
da prática analítica. E, mais adiante, com sua definição tardia de inconsciente com o saber
não sabido e que determina o Sujeito (LACAN, 1969-1970/1992).
O primeiro ponto a se questionar diz respeito a sua relação de extimidade e
heterogeneidade em relação a outros dois elementos que compõem a fala em uma análise:
o sujeito e o objeto. Ambos estão no campo da impossibilidade de fazer parte do saber
pela sua característica de serem intocáveis pelo significante. Objeto enquanto furo, causa
do desejo, da fala e do deslizamento de significantes, e o sujeito, enquanto produto da
articulação entre um significante mestre e seu correlato seguinte, como ensina o discurso
do Mestre. Sujeito e objeto, homeomorfos, diz Lacan em 19721, possuem sua relação com
o Saber a partir de sua ex-sistência em relação a este.
Isso implica que o saber inconsciente não possui agente. Não há aquele que produz
o saber ou que o orienta. Mesmo no discurso da histérica em que o saber localiza-se
enquanto produto e havendo um agente para este discurso, isso não implica que venha daí
sua origem, pois a produção é referente ao discurso, e não ao agente. O saber se produz
nessa lógica discursiva e determina aquele que se encontra lá no lugar de agente, o Sujeito.
Não há, portanto, um agente de fala, de gozo ou de Saber, o Isso fala. O saber se articula
a partir do próprio significante, da letra, da homofonia. Uma máquina que opera e
determina o sujeito que surge como consequência lógica desta articulação significante.
Ou seja, é uma questão de estrutura.

1
“Para dizer tudo, a reciprocidade entre sujeito e o objeto a é total. Para todo ser falante, a causa de seu
desejo, quanto à estrutura, é estritamente equivalente, se posso dizê-lo, à sua dobradura, ao que chamei de
sua divisão de sujeito” (LACAN, 1972-1973/2010, p.273).

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Tomar o saber nesta condição estrutural para este campo – o lacaniano – é o
primeiro passo para se pensar no que se opera em uma análise e da responsabilidade da
função que conduz o tratamento, o analista. A instituição psicanalítica entra aí como um
dos requerimentos para poder operar essa função, enquanto espaço de interlocução de
analistas na produção da psicanálise em extensão, e como espaço para articulação do
saber teórico que possibilita a emergência do dispositivo analítico.
Surge, então, o primeiro embaraço institucional: da prática à teoria ou da teoria à
prática? O discurso sustentado até então remete à ideia de que é preciso experienciar o
ofício da escuta para posteriormente, em um tempo cronológico, construir um
entendimento do que se operou lá. Muitas vezes, isso ainda se estende para a ideia de nem
mesmo se pensar no que foi produzido. Seria possível neste dispositivo realizar uma
experiência de análise sem ter como parâmetro os pressupostos teóricos que delimitam as
rotas de escuta/leitura?
Um segundo ponto remete a como o saber do psicanalista é tomado ao pé da letra
pela classe daqueles que assinam como operadores desta prática quando se entende que
se parte de um não-saber como ausência. Apesar de Lacan ter sido claro, quando afirma
no seminário “O saber do psicanalista”, que:

Enfim, sabe-se que insisti sobre a diferença entre saber e Verdade. Então, se a
Verdade não é o saber, é porque é o não-saber. Lógica aristotélica, tudo o que
não é preto, é não-preto, como sublinhei em algum lugar. Sublinhei, é certo,
articulei que essa fronteira sensível entre a verdade e o saber, é precisamente
aí que o discurso analítico se sustenta (LACAN, 1971-1972/1997, p.15).

Há uma diferença fundamental entre assumir o não-saber como forma de dar


suporte linguageiro para produção do saber a partir do discurso, do que se opera no
dispositivo, para esta outra compreensão comumente difundida de que o analista nada
sabe, nem mesmo do saber que o orienta em sua leitura e em sua intervenção.
Onde entra a função da instituição enquanto alicerce de produção teórica, então?
Seria para trazer supostas garantias de que os que ali partilham estão exercendo a
psicanálise como outrora já foi proposto? Seria para averiguar através do fracassado
dispositivo do Passe de que na análise pessoal de cada um, que se arrisca a tal aprovação,
haveria emergido o desejo de analista? Mais ainda, por que a ênfase dada para produção
do analista isola-se na análise pessoal e obtura a elaboração teórica?
Lacan elabora as rotas dos campos de saber que os analistas deveriam se adentrar
no que toca à condição de um analista operar em sua função. Em 1975, ele traz:

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Talvez em Vincennes venham a se reunir os ensinamentos em que Freud
formulou que o analista deveria apoiar-se, reforçando ali o que extrai de sua
própria análise, isto é, saber não tanto para que ela serviu, mas de que se serviu
(LACAN, 1975/2003, p.317).2

Tomar os campos da topologia e lógica tem dentre vários argumentos a ideia


fundamental de possibilitar transmitir a psicanálise. Afinal, o matema é a via pela qual se
pode escrever algo do Real, e a escritura topológica permite pensar não mais em espaços
apenas euclidianos com a biparidade de dentro/fora, mas em superfícies e formas, tal
como para além da linearidade das sucessões dos eventos pelo tempo cronológico. No
entanto, a literatura e poesia surgem como um campo +1 diante dos quatro elencados, o
qual toma o protagonismo da construção do saber psicanalítico. Fica a interrogação se
seria pelos efeitos do trabalho sobre o significante ou pela manutenção de um
obscurantismo.
Para por isso em questão, é necessário realizar uma visita breve à ética, como
assim segue desenvolvida no seu seminário 7. O problema começa a se formar a partir do
fato de que, tal como Lacan inicia neste seminário, o seu argumento para formalizar a
psicanálise em termos de forma muito bem delimitada, distinguindo-se do campo da
moral e da filosofia, só pode ser possível com o recurso conceitual que a teoria ofereceu
como possibilidade de leitura a respeito do que se passa na ordem do desejo inconsciente
e do simbólico. Sem os quais, a psicanálise ainda residiria estudando e praticando a clínica
pelos indicadores do imaginário como os pós freudianos tanto criticados por Lacan
(LACAN, 1959-1960/2008).
Ele, no entanto, avança em relação a este momento, não somente no que toca suas
formalizações sobre o objeto, Outro, e Sujeito, mas passa a mergulhar também na
matemática para tentar dar conta do que ex-siste para além da ordem simbólica que tanto
usava como suporte para sua teoria até então. O Real, como dizem alguns, se tornou o
centro do ensino de Lacan.
Mas, aparentemente, mesmo com uma certa insistência em seus seminários em
que estuda sobre a topologia dos nós a respeito de ser fundamentalmente necessário se
pensar sempre nos três registros jamais em disjunção ou com hierarquia entre si, o seu
ensino acabou por herdar nos dias atuais entre a comunidade uma tal clínica do real, do
gesto, do lacanismo como ‘estilo’, entre outras disparidades do que comporta o seu
ensino.

2
Neste texto, Lacan apresenta os quatros campos de saberes sobre os quais o analista deveria se debruçar
para exercer o seu ofício, sendo estas a Linguística, Lógica, Topologia e a Antifilosofia.

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O acento dado à ética tem residido na ideia de sustentar a atenção flutuante, dizer
tudo que se passa pela cabeça, mas o que há de mais crucial que implica na posição ética
da função analista é a de que não há como retroceder, como voltar atrás após ter
atravessado um encontro com uma modificação de lógica discursiva.
Se a psicanálise é uma ética, uma práxis que se articula com a noção do furo, do
objeto como norteador dos desfilamentos do significante, da fala, como pensar e articular
a respeito do estilo que cada analista suporta com sua fundamentação teórica? E por que
pôr em questão o Estilo em referência à ética?
A noção do estilo sofreu modificações e incompreensões ao ponto de abarcar
qualquer possibilidade de postura e impostura por parte de atitudes dos analistas.
Frequentemente quando surgem absurdos sobre situações complicadas da clínica de
algum colega, ou quando se publica algo a respeito da teoria que toma uma proporção de
divergência radical dos conceitos fundamentais, a atitude institucional segue o protocolo
de expurgar, apaziguar e se colocar em uma condição de ignorância a respeito. Uma
operação de que os desvios do outro fazem parte do singular da prática, ou do estilo de
cada um e não há o que se questionar. Curiosamente, um movimento que vai na contramão
da ética na clínica de dar suporte à fala e à palavra, para que de lapso em lapso se possa
construir ficções que possibilitem um suporte e condição de interpretação e modificação
de posição diante do gozo.
As instituições de psicanálise em seu espaço nacional, internacional ou ilhadas de
qualquer linha de pensamento de alguns dos seguidores de Lacan assumem posições de
responsabilidade com o campo e com a continuidade do ofício. Respondem perante a
sociedade de quais membros estão carregando no seu dia-a-dia esta prática dificilmente
definida como análise. Assim como de sustentar e levar adiante o seguimento teórico do
que se produz. No entanto, o obscurantismo sobre um Lacan radicalmente difícil e
impossível de compreender é elevado à máxima obsessiva de se manter na dúvida, e as
escolas passam a assumir o objetivo exaustivo de produzir inúmeras interpretações
didáticas ou mais complexas daquilo que Lacan supostamente falou.
Essas dificuldades não são tão simples de compreender ou mesmo de corrigir, pois
é necessário levar em conta que elas tocam em um processo histórico de política
institucional e de poder. E uma forma de se evidenciar isso recai nas edições e traduções
tão comumente comentadas e faladas nos pequenos corredores das Escolas. Edições
publicadas que assumem de maneira escancarada sua impostura para com a originalidade
do transcrito, as inúmeras dificuldades com traduções tendo em vista não somente o que

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se perde de língua a língua, mas também no seu oficio burocrático. O saber psicanalítico
é acessível a poucos que possuem os privilégios de frequentarem outras línguas com
mestria e fluência, e aos que conseguem obter as traduções em suas edições privadas e
limitadas de circulação.
A responsabilidade da transmissão da psicanálise passa aos poucos para as
situações singulares e privadas das análises pessoais de cada um em sua inquestionável
condição de serem um caso a caso, e a onda de obscurantismo teórico assola os demais
meios de produção textual e de leitura. Surgem com isso, de maneira curiosa, as
produções de livros em série de colegas buscando uma forma de elucidar o que Lacan um
dia disse para tentar tornar claro aquilo que jamais deveria estar na escuridão. E com isso,
o campo assume uma diversidade de leituras tão divergentes que o único diálogo possível
reside na ideia de respeitar a leitura particular que cada um faz. Para tanto, de fato faz
sentido sustentar com unhas e dentes que a psicanálise seja completamente avessa ao
pensamento cientifico.
Literatura, poesia, anticientificismo, caso a caso, singularidades, leituras
particulares, uma série de questões importantes que perdem sua real definição e posição
no campo para assumirem uma justificativa de uma pluralidade adimensional que reduz
o rigor teórico a fins inigualáveis.
Por que Lacan é tão difícil e o que sustenta essa dificuldade após tantas décadas?
Ou, talvez, seria o caso de se questionar o porquê de manter essa ideia de um Lacan difícil.
Há uma problemática crucial que implica ler, em que se sustenta a ideia de repetir e
transformar em dogmas pequenas afirmações, ao invés de interrogar o texto. Prescindir
da palavra, do autor e ir adiante. A quantidade de axiomas lacanianos que poucos
conseguem elaborar em uma noção mais clara do que de fato implicam é assustadora. E
isto traz implicações severas para prática clínica. Se Lacan é tão mal compreendido, tão
difícil, como justificar a existência de tantos lacanianos exercendo a práxis, se o seu ponto
de partida teórico é o guia em sua leitura clínica? Uma solução breve apontada para isso
tem sido retornar ao Pai. A postular que o movimento lacaniano teve seu suporte quase
que por completo em Freud, e se este pode ser afirmado como compreensível, então de
alguma forma se torna possível preencher as lacunas com o freudolacanismo.
A prática analítica é um tratamento pela palavra que visa atingir a letra, o
significante, a lógica discursiva e, a partir daí, intervir ao ponto de conseguir realizar
operações de mudança de Saber. Jamais a nível consciente, pedagógico ou de clareza.

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Mas mudanças de posição de gozo a respeito das ficções e do saber inconsciente que toma
outras articulações a partir da função analista.
Ao que parece, neste ponto Lacan fala do horror que o analista tem do seu ato.
Horror por se dar conta de que nosso ato presume que não suportamos que nossa posição,
aquilo que falamos pode não servir para nada. Há uma radical contingência no nosso
ofício que insistimos em eludir. Um analista simplesmente não consegue lidar com o fato
de que o que ele faz ali é da dimensão mais descartável possível. O saber que se produz
em uma análise é da ordem do esquecimento, e cabe ao analista suportar isso no seu
ofício. Neste âmbito, as instituições teriam um enorme papel a contribuir, enquanto
espaço de produção, responsabilidade de transmissão, tradução e como motor
questionador do ofício e seu lugar na comunidade.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, S. (1914). A história do movimento psicanalítico. In: Edição Standard


Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, v.XIV.

LACAN, J. (1959-1960). O seminário, livro 7. A Ética da psicanálise. Jorge Zahar, Rio


de Janeiro, 2008.

LACAN, J. (1972-1973). O Seminário, livro 20. Encore. Rio de janeiro: Escola da Letra
Freudiana, 2010.

LACAN, J. (1969-1970). O seminário, livro 17. O avesso da psicanálise. Rio de


Janeiro: Zahar, 1992.

LACAN, J. (1971-1972). O seminário, livro 19. O saber do psicanalista. Centro de


estudos Freudianos de Recife. Edição não comercial. Recife. 1997.

LACAN, J. (1980). Carta de dissolução. In: Outros Escritos. Jorge Zahar, Rio de
Janeiro, 2003.

LACAN, J. (1975). Talvez em Vincennes. In: Outros Escritos. Jorge Zahar, Rio de
Janeiro, 2003.

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A escola de psicanálise como procedimento de sujeição do discurso: como o
obscurantismo na formação do analista serve à manutenção do poder nas escolas

Jessika Gomes do Carmo

“Lacan não exercia nenhum poder institucional.”


(FOUCAULT, 1981/2014, p.330)

No século XX a ciência consolidou-se no papel proeminente, outrora outorgado à


religião, de modelo para correta visão do mundo. Contudo, apesar dessa posição
privilegiada, as querelas filosóficas (lógicas) e epistemológicas em seu interior
aumentaram.
Karl Popper (1934/2004), por exemplo, em um desses embates filosóficos, atacou
o método indutivo como meio válido para obtenção de conhecimento:

Ora, está longe de ser óbvio, de um ponto de vista lógico, haver justificativa
no inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente
de quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão colhida desse
modo sempre pode revelar-se falsa: independentemente de quantos casos de
cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos
os cisnes são brancos (POPPER, 1934/2004).

Vários filósofos, historiadores da ciência e epistemólogos têm debatido sobre a


ciência, seus procedimentos e critérios de demarcação, e questionado a posição da ciência
como caminho puro e superior aos outros saberes como as artes, filosofia e religião para
obtenção de verdades. Einstein, em resposta a Popper, afirma que “a teoria não pode ser
fabricada a partir de resultados de observação, mas há de ser inventada” (EINSTEIN,
1935/2004), negando, assim, a tendência positivista.
Para Foucault (1966/2016), existe uma impossibilidade de uma produção de saber
sobre o homem ou o aparecimento das ciências humanas antes da modernidade, já que
antes desse período o homem não existia. Não se trata, entretanto, de afirmar que o ser
humano não existia, mas que a representação que temos sobre o homem como falante,
laborioso e corporal não existia.
É a partir de um recorte das condições históricas, que tornou possível o
aparecimento das ciências humanas, que podemos entender o surgimento do homem
moderno. É a partir do momento em que o homem passa a ser objeto de conhecimento
das ciências empíricas, a saber, quando passamos a objetivar os modos de produção, as

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condições anatomofisiológicas e o sistema de conjugação indoeuropeia que nos
deparamos com a nossa finitude e o homem passa a ser objeto da ciência.
Segundo Lacan (1966/1998, p.873), “o sujeito sobre quem operamos em
psicanálise só pode ser o sujeito da ciência.” Dessa forma, a psicanálise teve como
condição de possibilidade para o seu surgimento a ciência moderna. A ciência moderna
não foraclui o sujeito, ela foraclui a verdade como causa e produz um sujeito dividido
entre saber e verdade (LACAN, 1966/1998). Nesse sentido, a função da psicanálise seria
a de restituir a verdade ao campo do saber.
A teoria lacaniana converge com a tese foucaultiana de que não há um significado
direto entre as palavras e as coisas. Segundo Bonoris (2019), para a psicanálise lacaniana
entre o sujeito e o objeto está o saber. Antes do surgimento da ciência moderna o mundo
era um texto a ser decifrado, ou seja, havia uma correspondência direta entre a linguagem
e as coisas. Ao excluir a verdade do campo do saber, Deus emudece e o inconsciente pode
dar suas primeiras palavras.
A psicanálise está situada, então, entre a ciência moderna e um cuidado de si, entre
o surgimento do sujeito da ciência e a restituição da verdade ao campo do saber:

A ciência diz: há um saber que funciona no real, mas mesmo Deus não sabe.
A psicanálise diz: há um saber que funciona no real, mas que o próprio sujeito
não sabe que sabe. Deus é inconsciente. (...) Lacan definiu o sujeito suposto
saber como o pivô da transferência. O sujeito suposto saber é o aspecto que
está mais além dos fenômenos transferenciais imaginários da resistência
(enamoramento a ódio), repetição ou sugestão que Freud havia teorizado. A
experiência analítica requer, como a ciência, de um ato de fé, e é o analista que
se consagra a sustentá-la. É dizer que, ao menos em um princípio, é o analista
que ocupa o lugar de Deus: aquele que sabia sobre a verdade do desejo do
sujeito. Não obstante, o analista não se identifica com este lugar, senão que
faça semblante de objeto a, causa do desejo, para fazer surgir uma instância de
saber sem sujeito: o inconsciente. Este é um saber não sabido, indeterminado;
porque ali onde a verdade fala, é dito no meio do caminho [tradução nossa]
(BONORIS, 2019, p.51).

A verdade com a qual a psicanálise trabalha não é uma verdade única e eterna,
não há um saber verdadeiro (BONORIS, 2019). Retornando à carta de Einstein a Popper,
não é possível produzir um exemplo superpuro, já que o fóton, como produção, só pode
existir como uma instância numérica e, portanto, como uma abstração. A verdade, nesse
sentido, é um efeito de linguagem, uma produção:

A psicanálise recupera o valor da verdade subjetiva a partir de um dizer que


importa, que comova, que desvele a divisão subjetiva que a ciência, sem saber,
tenta suturar. (...) O inconsciente é esse lugar Outro onde existe um saber que
nenhum sujeito pode assumir como próprio [tradução nossa] (BONORIS,
2019, p.62).

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Não se trata, entretanto, daquilo que comumente é escutado pelas escolas de
psicanálise, de uma verdade singular que cada um possui. Isso descartaria, portanto, a
afirmação de que a análise é necessária para a formação do analista por ser um saber que
é produzido a partir da experiência do sujeito como analisando, a partir de sua história de
vida, traumas, etc..
Esse saber não se encontra em profundidade, senão em superfície. Não há sujeito
anterior ao dizer, portanto, o inconsciente é o que dizemos (BONORIS, 2019). Diante do
exposto, surgiu o seguinte questionamento: se o inconsciente só é produzido em análise,
ela se faz necessária para a formação do analista como ferramenta de acesso para um
saber que não pode ser acessado através da teoria?
Existe uma incongruência fundamental ao dizer que a “experiência analítica” é
necessária para a formação do analista, já que esta é tomada como a única via de acesso
a uma verdade que é interior ao sujeito. Segundo Antonio (2015):

Experiência analítica é o modo como os meus interlocutores significam a


submissão à terapêutica psicanalítica. Falam em “experiência” no sentido de
vivência propiciada pela psicanálise, já que não há um modelo fixo de
tratamento, com mecanismos técnicos e de duração determinados, dependendo
da singularidade de cada sujeito em relação a seu saber sobre o inconsciente.
(p.90-91).

No entanto, na topologia lacaniana a noção de dentro e fora não se sustenta. É


nesse sentido que os psicanalistas desconsideram críticas de teóricos de outras áreas, já
que esses outros profissionais não passaram pela experiência analítica. Em intervenção
feita na Jornada da École de la Cause Freudienne em novembro, Paul Preciado criticou
a organização do evento e posturas dos psicanalistas. Vejamos um trecho da fala do
filósofo:

Vocês organizam um encontro para falar das mulheres na psicanálise em 2019


como se todavia estivéssemos em 1917, e como se esse tipo particular de
animal, que vocês chamam de forma condescendente e naturalizada “mulher”,
não tivesse sempre um reconhecimento pleno enquanto sujeito político; como
se ela fosse um anexo ou uma nota em pé de página, uma criatura estranha e
exótica entre as flores, sobre a qual há que pensar de tanto em tanto, em um
colóquio em mesa redonda. Pois bem, haveria que organizar um encontro sobre
homens brancos heterossexuais e burgueses, em psicanálise.
O discurso psicanalítico gira em torno do poder discursivo e político desse tipo
de animal necropolítico que vocês tendem a confundir com o humano
universal, e que é, ao menos até o presente, o sujeito da enunciação central no
discurso das instituições psicanalíticas da modernidade colonial.1

1
Disponível em: <www.facebook.com/psicanaliseprofana/posts/1234317873440708?__tn__=K-R>.

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A resposta que mais escutei e li por parte de teóricos e colegas lacanianos acerca
da intervenção feita por Paul Preciado na última jornada da Escola da Causa Freudiana,
na França, foi: “Ele não é psicanalista”, como se a psicanálise fosse imune a qualquer
crítica de outros teóricos.
Essa discussão me provocou certa inquietação acerca da configuração
institucional das escolas de psicanálise. Existe, nesse espaço, pessoas que possuem
legitimidade para falar. A discussão só pode ser legitimada se aquele sujeito está ou já
passou pela “experiência analítica” (doravante usarei sem aspas, como um conceito
retirado da tese de doutorado de Antonio [2015]).
Em sua aula inaugural no Collège de France (A ordem do discurso), Foucault
(1970) separa quatro grandes procedimentos de sujeição do discurso, a saber, os rituais
da palavra, as sociedades do discurso, os grupos doutrinários e as apropriações sociais.
Podemos analisar a política institucional da escola de psicanálise a partir desses quatro
procedimentos. Segundo Foucault, essa divisão dos procedimentos é uma abstração, já
que eles estão, a todo momento, ligados uns aos outros. Esses procedimentos se formam
como uma maneira de garantir “a distribuição dos sujeitos que falam nos diferentes tipos
de discurso e a apropriação dos discursos por certas categorias de sujeitos” (FOUCAULT,
1970/2014, p.42).
Os rituais da palavra são os procedimentos que qualificam o indivíduo que fala,
ritual que determina qual papel aquele indivíduo deve exercer:

(...) define os gestos, os comportamentos, as circunstâncias, e todo o conjunto


de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou
imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem, os limites
de seu valor de coerção (FOUCAULT, 1970/2014, p.37).

A escola de psicanálise está organizada em uma configuração que legitima ou


deslegitima aquele que pode transmitir a psicanálise, construir críticas ou novas leituras,
orientar, produzindo assim certa hierarquia na configuração institucional. Essa hierarquia,
normatizada como organização institucional, produz relações de autoridade e
subordinação dentro das escolas.
Como parâmetro para a análise da instituição, utilizarei a tese de Antonio. A
autora faz um estudo etnográfico da formação de psicanalista em escolas lacanianas de
psicanálise, revelando relações de poder nas escolas. Segundo Antonio (2015):

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A “reciprocidade hierárquica” é o idioma que permite significar a relação entre
analistas e analisantes, membros e não membros, mestres e discípulos. O
mestre assim reconhecido — e aqui podemos pensar em lideranças mundiais
como Miller, Soler, Melman, e locais como Forbes — contém o grupo e a
alteridade na imagem que constrói de si, ou seja, assume a forma pela qual a
coletividade aparece como singularidade/individualidade: mais do que um
representante (alguém que está no lugar de), ele é a forma de apresentação de
uma singularidade em relação a outros agrupamentos (ANTONIO, 2015,
p.133).

Podemos observar essa relação de hierarquia através dos cargos de presidente,


diretor, delegado, analista da escola, analista membro da escola, em detrimento de
analistas praticantes, em formação, e não membros. Para se tornar membro da escola,
pelas configurações da AMP (Associação Mundial de Psicanálise), é necessário passar
por um obscuro processo de seleção (ANTONIO, 2015). Nesse processo será avaliado
qual o comprometimento do candidato a membro com a instituição e falar sobre sua
análise. Para tanto, é necessário que a análise seja feita por um membro da instituição.
Em entrevista realizada por Antonio, um entrevistado tenta explicar o processo
para se tornar membro da escola:

(...) para ser membro de Escola, é algo que vai se dando... na verdade, você já
é membro, entre aspas, há algum tempo, depois só se formaliza; é como se
você fosse, de fato, membro, e depois vira de direito. Assim como foi no início
da Escola Brasileira: já existia uma Escola de fato, a Iniciativa Escola, mas
ainda não havia uma Escola de direito, enquanto pessoa jurídica. Então, a
Escola funciona um pouco assim. Eu já tava como membro há tempos,
participava de cartéis, fazia curso de formação, participava de seminários — é
um pouco este o critério, se é que há algum. A pessoa já tem que ter um
trabalho, mas que só falta bater o martelo. Não é uma coisa assim “Ah, agora
sou membro, então vou começar a agir como membro, trabalhar como
membro”, não é nada disso. (...) [Na entrevista de admissão como membro] se
avalia se a pessoa tem alguma transferência com a Escola. Porque, assim, todo
meio do ano é aberto a seleção, tem uma secretaria na Escola Brasileira a quem
você endereça uma carta com um pedido, um currículo, cada ano eles solicitam
uma coisa, mas quando eu fui, tinha que mandar um currículo (...). [No
currículo] tinha descrito meu trabalho, minha prática clínica, publicação em
revistas, os trabalhos que eu já tinha feito na Escola, eu já tinha sido diretora
de biblioteca sem ser membro, era associada ao Instituto, dava aula no
Instituto, trabalhei na revisão de textos da Opção Lacaniana por uns dez anos,
participei de seminários, dois anos trabalhando na edição da Carta de São
Paulo, e isso eu fui pondo no meu currículo, os cartéis que eu tinha feito, todos
os congressos que eu tinha participado. Então, é um pouco isso. Qualquer um
pode solicitar [ser membro], é aberto, mas é óbvio que a secretaria avalia os
pedidos, os currículos, e aí, conforme o currículo e o percurso da pessoa, se
passa para a segunda fase, que são duas entrevistas, com dois analistas
diferentes. No meu caso, as duas pessoas eram do Rio. Então, assim, eu não ia
me deslocar daqui pro Rio, pagar passagem, sabendo que não iria passar. Tem
isso, qualquer um que tá passando na porta pode solicitar admissão, mas a
secretaria, ao ver o currículo, já diz “Meu filho, passa outro dia”, não vai fazer
o cara despencar daqui... Tem gente que vai até Salvador fazer entrevista,
ninguém faz isso se não vai ser selecionado. São os conselheiros da Escola que
fazem entrevista, então a secretaria indica dois que não são da sua cidade, que
também é pra você não fazer entrevistas com seus colegas de trabalho. Mas

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não tem nenhum pré-requisito. Soube de uma pessoa com trinta anos de
atendimento clínico e que não entrou esse ano como membro, e tem gente com
cinco anos de atendimento e que tá aí. Tem muita gente que pede cinco vezes,
cinco anos seguidos, para ser admitida e não consegue. Se tivesse pré-
requisitos seria fácil... pode ser que a de trinta anos só visite o analista mas não
faça análise, o que, aliás, é o mais comum. Tem gente que estuda muito, mas
que não consegue, porque é algo do inconsciente, tem que ser causado por algo,
não é uma formação racional, não é como na área da matemática: dois mais
dois são quatro; a gente vê a diferença de uma pessoa que atende e não faz
análise e uma pessoa que faz. Não é um saber do mestre, do saber teórico,
precisa ter um mínimo de contato com o inconsciente, com algo da castração,
do gozo, pra poder conduzir uma experiência analítica. A formação depende
de tudo isso (ANTONIO, 2015, p.116).

Há, também, certa predileção de analistas que fizeram análise com Lacan ou
outras lideranças mundiais:

Não raro, em conversas com membros, quando eles mencionavam algum


psicanalista, completavam com “ele fez/faz análise com fulano”, “Fulano fez
análise com Lacan”, “Fulano fez análise com Miller”. Esse recurso
classificatório indica que a escolha do analista com quem se faz a formação
não se dá apenas de forma arbitrária e subjetiva, mas também de forma
objetiva, racionalizada de acordo com o “tronco familiar” com o qual se quer
ser identificado e do qual se quer fazer parte (ANTONIO, 2015, p.95).

Retomando os procedimentos de sujeição do discurso, as sociedades de discurso


têm como função fazer circular essa produção de saber em um local restrito. Isso nos faz
lembrar a reação dos psicanalistas à fala de Paul Preciado. Segundo eles, a fala do filósofo
não pode ter legitimidade em nossa prática, já que não se trata de um psicanalista.
Os grupos doutrinários criam o sentimento de pertença através do discurso. Tudo
que é inassimilável ao discurso do grupo doutrinário é considerado heresia ou ortodoxia.
Alfredo Eidelsztein é um exemplo de psicanalista que não é bem aceito nas escolas
tradicionais de psicanálise por construir uma leitura lacaniana que destoa do discurso das
escolas. “A doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe,
consequentemente, todos os outros” (FOUCAULT, 1970/2014, p.41).
Por último, a apropriação social dos discursos trata-se do instrumento pelo qual o
indivíduo terá acesso a determinado discurso. O acesso ao discurso é atravessado pelas
lutas sociais. Não podemos esquecer que, para Foucault, a prática do poder está irredutível
ao regulamento do saber, permanecendo inseparável a este. No tocante à produção de
subjetividades, vemos em Foucault (2004) que

a questão é determinar o que deve ser o sujeito, a que condições ele está
submetido, qual o seu status, que posição deve ocupar no real ou no imaginário
para se tornar sujeito legítimo deste ou daquele tipo de conhecimento; em
suma, trata-se de determinar seu modo de "subjetivação” (FOUCAULT, 2004,
p.235).

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Uma fala que podemos escutar com facilidade nas escolas é que, para entender
Lacan, é necessário um certo grau de erudição, isto é, uma experiência e familiaridade
com a arte e literatura elitizada (ANTONIO, 2015). Entendemos ainda, como Pierre
Bourdieu (2006) nos clarificou, que o capital cultural marca as diferenças de classe:

O sentimento de fazer parte de um mundo mais polido e controlado, um mundo


cuja existência encontra justificativa em sua perfeição, harmonia e beleza, um
mundo que produziu Beethoven e Mozart, além de reproduzir continuamente
pessoas capazes de interpretá-los e saboreá-los; e, por último, uma adesão
imediata, inscrita no mais profundo dos hábitos, aos gostos e aversões, as
simpatias e antipatias, as fantasias e fobias - tudo isso, mais que as opiniões
declaradas, serve de fundamento, no inconsciente, à unidade de uma classe
(BOURDIEU, 2006, p.75).

Dessa forma, o acesso à chave de entendimento dos textos lacanianos estaria,


segundo essa ideia acerca da arte e literatura encontrada nas escolas, restrito a uma
determinada classe social. Por exemplo, um menino da periferia que tem como capital
cultural o rap e não consome uma arte considerada mais erudita não teria ferramentas para
entender a obra lacaniana.
Percebemos que há uma incongruência entre o que é falado acerca da formação
do analista e a proposta lacaniana. Retomando o exemplo dado por Popper de que não é
possível inferir que todos os cisnes são brancos apenas através de enunciados universais
e singulares, também não é possível compreender a formação do analista através de um
enunciado obscuro propagado pelas escolas, incongruentes com a teoria lacaniana.
Segundo Foucault (1981/2014), Lacan não foi um revolucionário, ele queria apenas ser
“psicanalista”:

Ele queria subtrair a psicanálise da proximidade da medicina e das instituições


médicas, que considerava perigosa. Ele buscava na psicanálise não um
processo de normalização dos comportamentos, mas uma teoria do sujeito. Por
isso é que, apesar de uma aparência de discurso extremamente especulativo,
seu pensamento não é estranho a todos os esforços que foram feitos para
recolocar em questão as práticas da medicina mental (p.330).

Foucault diz que, em sua época como estudante, Lacan foi um autor que trouxe
uma nova concepção do sujeito humano, diferente da ideia da filosofia e das ciências
humanas de que o sujeito era radicalmente livre ou determinado. Ele aprende com Lacan
que é “preciso procurar libertar tudo o que se esconde por trás do uso aparentemente
simples do pronome “eu” (je)” (FOUCAULT, 1981/2014, p.330). Ao ser questionado
acerca do obscurantismo dos textos lacanianos, Foucault responde:

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Penso que o hermetismo de Lacan é devido ao fato de ele querer que a leitura
de seus textos não fosse simplesmente uma “tomada de consciência” de suas
ideias. Ele queria que o leitor se descobrisse, ele próprio, como sujeito de
desejo, através dessa leitura. Lacan queria que a obscuridade de seus Escritos
fosse a própria complexidade do sujeito, e que o trabalho necessário para
compreendê-lo fosse um trabalho a ser realizado sobre si mesmo. (...) Lacan
não exercia nenhum poder institucional. Os que o escutavam queriam
exatamente escutá-lo. Ele não aterrorizava senão aqueles que tinham medo. A
influência que exercemos não pode nunca ser um poder que impomos
(FOUCAULT, 1981/2014, p.330).

Talvez fosse o caso de abrirmos espaço para a crítica de um filósofo e nos fazer
“escutar” Lacan, sem o terrorismo institucional que encontramos nas escolas de
psicanálise, já que a influência não pode ser um poder que impomos.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTONIO, M. C. de A. A ética do desejo: estudo etnográfico da formação de


psicanalistas em escolas lacanianas de psicanálise. 297 f. Tese (Doutorado em
Antropologia Social) – Universidade Federal de São Carlos, São Paulo. 2015.

BONORIS, B. El nacimiento del sujeto del inconsciente. Buenos Aires: Letra Viva, 2019.

BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto


Alegre: Zouk, 2006.

EINSTEIN, A. (1935). O experimento de Einstein, Podolski e Rosen. In: POPPER, Karl


R. A lógica da pesquisa científica. Editora Cultrix, 2004.

FOUCAULT, M. (1966). As palavras e as coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. São


Paulo: Martins Fontes, 2016.

FOUCAULT, M. (1970) A Ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

FOUCAULT, M. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2004.

FOUCAULT, M. (1981). Ditos e escritos, vol. I. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2014.

LACAN, J. (1966). A ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
1998, p. 869-892.

POPPER, K. R. (1934). A lógica da pesquisa científica. Editora Cultrix, 2004.

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Os equívocos sobre a incompreensão da psicanálise enquanto sintoma

Priscilla Ribeiro G. Costa

As questões da psicanálise e sua transmissão, bem como seus impasses, tem sido
constantemente alvo de debate e problematização por alguns grupos que percebem o cuidado
necessário que essa temática deve ter. Durante muito tempo nos encarregamos de repetir os
conceitos psicanalíticos, por vezes tão complexos, e tentar encaixá-los onde assim fizesse o
mínimo de sentido. Até que inevitavelmente os limites e fragilidades da teoria foram sendo
questionados e implicados em suas consequências não só teóricas, mas da prática clínica como
um todo. A incompreensão é, a cada dia, mais difundida e utilizada como uma justificativa que
diante de tais limites, os percursos de estudo são delimitados ou impossibilitados de serem
investigados.
Na maioria das instituições psicanalíticas brasileiras nos deparamos com um extenso
estudo da teoria freudiana como um ponto de partida para aprofundamento da teoria lacaniana
e, ainda, com certa promessa de que ao dedicar-se muito, aquele que se propõe a tal tarefa será
recompensado com um esclarecimento intelectual da psicanálise. E isso não acontece, por quê?
Eis a questão obscurantista. Ao que parece, a insistência de uma continuidade entre Freud e
Lacan, entre as possíveis formas de clinicar, cai em um abismo que assim que passa a ser
interrogado, causa mais desconforto entre os supostos lugares já definidos do que o que de fato
se propõe a interrogação, que seria uma tentativa de pontuar outros caminhos. Separar Freud e
Lacan tem sido uma árdua tarefa, nessa primeira proposta de delimitar os campos teóricos e
suas proposições. O que, consequentemente, promove uma mudança radical na leitura e na
forma de trabalho mediante a clínica e a ética que a rege.
As separações são necessárias, bem como as articulações que fazemos com elas desde
que se faça de forma cautelosa. Essa parece ter sido uma das constantes preocupações da
comunidade psicanalítica: onde localizar seu saber e sua ignorância. A teoria lacaniana é um
dos principais alvos de incompreensão, daquilo que não pode ser apreendido ou pensado, e há
que se conformar com o que os leitores de Lacan fizeram dele e de suas traduções. Essa mesma
questão é levantada pelo próprio Lacan em 1971, em seu seminário “O saber do Psicanalista”1,

1
Lacan tenta se reaproximar dos residentes do Hospital de Sainte-Anne para falar sobre a distância que havia entre
o trabalho da psicanálise e o saber. Ele demonstra uma grande preocupação com a temática do saber para os
psicanalistas e como os movimentos psicanalíticos da época padeciam de uma mudança no que ele chamava de
“assentamento do saber”. Essa lhe parecia ser uma questão urgente em meio aos movimentos que surgiam junto à
antipsiquiatria na França, onde lhe era cobrado um posicionamento político a respeito.

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em que tentava retomar o contato com os jovens psiquiatras e analistas na capela do Hospital
de Sainte-Anne, voltando-se para uma preocupação que nunca o abandonou: a questão do saber.
Em sua lição de 2 de dezembro de 1971 lança a seguinte pergunta: “a incompreensão de Lacan
seria um sintoma?” E sua resposta é categórica:

Não penso assim. Não penso assim, primeiro porque, em um sentido, não se pode
dizer que algo que tem uma certa relação com meu discurso, que não se confunde, que
é o que poderia ser chamada minha fala, não se pode dizer que seja totalmente
incompreendida. Se minha fala fosse incompreensível, não vejo bem o que, em termos
de número, vocês fariam aqui (LACAN, 1971-1972/1997, p.28).

Podemos questionar por qual motivo, tantos anos após o início de seu ensino, Lacan se
propõe a fazer conferências em paralelo ao seu seminário XIX “...Ou pior”2, levantando desde
o começo pontuações sobre a difundida incompreensão lacaniana e o lugar do saber entre os
psicanalistas. Ele defende sua posição de que não se trata de um sintoma, a incompreensão
passa inclusive por questões que ao longo dos anos permeava um interdito institucionalizado.

Sustento-a aqui, em função de elementos memoráveis, que estão ligados a isto: afinal
de contas, se em um determinado nível meu discurso é ainda incompreendido é
porque, digamos, durante muito tempo, ele foi, em todo setor, interditado, não de ser
escutado, o que estaria ao alcance de muitos, mas interditado de vir escutá-lo. É o que
nos vai permitir distinguir esta incompreensão de um certo número de outras. Havia
o interdito. E que, realmente, este interdito tenha vindo de uma instituição analítica é
certamente significativo (LACAN, 1971-1972/1997, p.29).

Dito isso, torna-se mais claro como esse precedente de uma incompreensão na psicanálise
foi admitido, carimbado e sustentado, tendo por consequência muitas vezes o afastamento
daqueles que se interessam pela psicanálise, bem como uma construção de muros teóricos para
que a única resposta possível frente a um impasse da formação seja: procure análise e tudo
ficará mais claro. É necessário nos questionarmos qual o lugar da análise pessoal e qual o lugar
da teoria, de que forma ambos têm se confundido e utilizados para tapar buracos em meio a
esse embaraço daquilo que não se pode avançar. Lacan fala nesse mesmo ano de 19713, sobre
o sintoma acabar caindo em um valor de verdade para os analistas, como essa equivalência foi
preponderante diante da verdade do analista como aquele que tem o poder da interpretação,
aquele que faz através do seu saber, ainda que o coloque enquanto suposto.

2
O seminário XIX intitulado “...Ou pior” (1971-1972/2010) foi escrito em paralelo ao seminário “O Saber do
Psicanalista” (1971-1972/1997), onde os temas acabam por vezes se repetindo entre as conferências, porém em
perspectivas diferentes.
3
Nesse momento, no Seminário O Saber do Psicanalista (1971-1972/1997) Lacan questiona como a
incompreensão na psicanálise é considerada como um sintoma de forma equivocada. A partir daí, ele afirma que
os psicanalistas fizeram uma infeliz equivalência do sintoma da incompreensão com um valor de verdade.

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O sintoma é valor de verdade e – mostro-o rapidamente – a recíproca não é verdadeira.
O valor de verdade não é sintoma. É muito bom observar esse ponto porque a verdade
não é nada cuja função eu pretenda isolável. Sua função, aí evidentemente onde ela
toma lugar na fala, é relativa. Ela não é separável de outras funções da fala. Razão a
mais para que eu insista que, mesmo reduzindo-a ao valor, ela não se confunde, em
nenhum caso, com o sintoma (LACAN, 1971-1972/1997, p.31).

Se pensarmos a verdade a partir dos discursos radicais bem exemplificados no seminário


XVII, “O avesso da Psicanálise”4, podemos notar que Lacan a coloca em uma posição daquela
que movimenta o discurso, de causa, abaixo da barra e inacessível enquanto toda.

Quanto à impossibilidade, trata-se dessa própria condição discursiva de estrutura que


institui uma disjunção entre o lugar da produção e o lugar da Verdade. Isso quer dizer
que nenhum vetor ou mesmo nenhum elemento poderá alimentar o lugar da Verdade.
Lacan sugeriu que essa condição de “isolamento” do lugar da Verdade fundamenta a
consistência do real e, como tal, passa a definir a própria condição que causa os
discursos (SOUZA, 2008, p.118-119).

Ainda que os discursos sejam colocados enquanto formas de laços sociais pensados para
uma análise em intensão, dando um passo adiante, qual o valor da verdade então, se ela não é
separável como o mesmo diz de outras funções de fala? Se existe um valor, podemos supor um
preço a pagar. E esse preço pago por colocar o valor de verdade na incompreensão lacaniana
tem sido alto, de forma que de um lado temos aqueles que ainda se propõem a se lançar em um
estudo mais rigoroso, mas se esbarram com os mestres intocáveis, e de outro lado, temos
aqueles que não chegam perto por terem escutado o quanto essa aproximação lhes será cara. E
tem sido cara a psicanálise.
A questão da incompreensão pode ser relacionada com tudo isso que a posição de saber
coloca, uma posição que também é de poder. Enquanto houver uma ideia de que a psicanálise
só tem dois caminhos: de estar completamente elucidada, ou de que é inacessível, haveremos
de estar às voltas com as dificuldades que isso promove em sua disseminação. E qual é a
responsabilidade das instituições psicanalíticas frente aos fechamentos que o lugar da verdade
produz? Não é definitivamente sem importância, tendo em vista que o primeiro lugar em que
se recorre para fazer a formação comumente é uma instituição. Atualmente, diante dos
obstáculos de se avançar em determinados temas, os estudos em grupo sem vínculos
institucionais têm aumentado, buscando um espaço onde se possa avançar na teoria e tendo a
possibilidade também de questioná-la, partindo do pressuposto que a psicanálise não pode
permanecer estagnada em um lugar divino onde tudo já foi dito.

4
No seminário XVII O avesso da psicanálise (1969-1970/1992), Lacan propõe uma formalização com estatuto
lógico para distinguir a estrutura do discurso a partir de uma proposta com quatro discursos (mestre, histérica,
analista, universitário) que pudessem representar as possíveis intervenções para a prática clínica, afirmando serem
eles diferentes formas de laços sociais, que podem mudar de lugar dando um quarto de giro.

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Lacan em seu texto “Variantes do Tratamento Padrão” nos Escritos de 1955 se põe a
pensar as distorções do percurso do tratamento e se essa deformação faz parte da psicanálise ou
não. Há uma forte questão em relação à formalização da psicanálise e como o rigor teórico
colaboraria para o entendimento e também para levar a cabo a sua própria ética. Ele diz:

Será essa uma distorção de seu direcionamento para a informação médica? Ou será
que se trata de uma deformação intrínseca à questão? Suspensão do passo que serve
de passo de entrada em seu problema, por lembrar o que se pressente no público, ou
seja, que a psicanálise não é terapêutica como as outras. Pois a rubrica variantes não
quer dizer nem adaptação do tratamento, com base em critérios empíricos nem,
digamos, clínicos, à variedade dos casos, nem uma referência às variáveis pelas quais
se diferencia o campo da psicanálise, e sim uma preocupação, inquieta até, com a
pureza dos meios e fins, que deixa de pressagiar um status de qualidade melhor do
que o rótulo aqui apresentado (LACAN, 1955/1998, p.326).

Mais adiante, de forma muito interessante, ele põe em xeque as ditas certezas e dogmas
dos psicanalistas sobre questões que estão postas desde Freud e que se percebe que ainda não
ocorrem sem alguma confusão quando postas à prova. Um dos exemplos seria o famoso
conselho freudiano a respeito dos perigos da promessa de cura, afinal esse não pode ser o
objetivo de uma análise.

Assim, se admite a cura como um benefício adicional do tratamento psicanalítico, ele


precavera-se contra qualquer abuso do desejo de curar, e o faz de maneira tão habitual
que, ao simples fato de uma inovação motivar-se neste, inquieta-se em seu foro íntimo,
ou reage no foro do grupo através da pergunta automática que desponta de um “será
que isso ainda é psicanálise?” (LACAN, 1955/1998, p.327).

Inicia-se então uma discussão de quais seriam os critérios terapêuticos na psicanálise, e a


pergunta final trazida nesse recorte aponta justamente para o limite do que será explicitado
nesse mesmo texto em uma situação exibida a partir de um congresso em Londres (usada por
Lacan para esclarecer a situação): quais são as implicações das divergências teóricas para os
critérios que definem o tratamento. Até onde podemos definir o que é psicanálise ou não?
Nos lacanianos de uma forma geral, encontramos diversas leituras, traduções e
despedaçamentos de seu ensino. É possível perceber como um texto pode ter tido inúmeros
parágrafos retirados ou transformados a partir do referencial ao qual se recorre para sua leitura.
A mudança é tão drástica que ao ler outra referência que possui uma preocupação com o ensino
de Lacan e suas palavras de forma mais fidedigna, se percebe um outro texto e uma outra
proposta teórica. É nítido como esse é um outro ponto importante para se abordar por onde pode
chegar a incompreensão dos textos de Lacan e as consequências de uma modificação de seu
ensino para uma outra coisa que por vezes pode aparecer camuflada em péssimas traduções e
autores que propõem conceitos muito distantes dos que foram propostos com a desculpa de que
foi encontrado em Lacan.

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A tentativa de salvar o lugar de saber a qualquer custo pode ter implicações graves que
podem condicionar ou até inviabilizar uma formação psicanalítica. Lembremos aqui que o
próprio estatuto de saber muda na teoria de Lacan, ficando mais evidente a partir do seminário
XX – “Encore”5, como o saber sai desse efeito retroativo de cadeia entre os significantes [𝑆1
→ 𝑆2 ] para uma produção do discurso.

Mas o ponto pivô do que enunciei este ano diz respeito ao saber, sobre o qual acentuei
que seu exercício só podia representar um gozo. Esta era a chave, o eixo central. É
sobre isso que eu gostaria de contribuir hoje, com uma espécie de reflexão sobre o que
se faz de ‘tateante’, no discurso científico, com relação ao que pode ser produzido
pelo saber. Vou diretamente ao que se trata. O saber é um enigma. Um enigma que
nos é presentificado pelo inconsciente, tal como ele se revelou pelo discurso analítico
e que se enuncia mais ou menos assim: para o ser falante, o saber é o que se articula
(LACAN, 1972-1973/2010, p.265).

Se o saber é o que se articula, então é o que está em constante produção do discurso


enquanto efeito. Lacan afirma que esse saber só pode ser constituído a partir da linguagem,
mas não a linguagem como a concebemos no senso comum, da simples comunicação.
Chamando atenção de forma clara que “a linguagem é o esforço feito para dar conta de algo
que não tem nada a ver com a comunicação, e é o que chamo de Lalangue” (LACAN 1972-
1973/2010, p.266). É interessante retomar esse recorte, onde ele explicita que se o
inconsciente é estruturado como uma linguagem, é porque a linguagem de início não existe.
É necessário um movimento do discurso para que se possa haver tentativas de dar conta dos
seus efeitos a partir de um saber.
É importante localizar como não estamos tratando aqui de um saber que é passado
através de um mestre para um correspondente ou discípulo. Para que haja saber é preciso
movimento, transposição, e isso só é possível mediante o levantamento de hipóteses,
questionamentos e um possível lugar de fala que produza elaborações e interlocuções. O
obscurantismo nasce e se mantém a partir de uma perspectiva que repousa sobre uma prática
de silenciamento, através da venda de um ideal de saber e de ignorância. Ou você compreende
do que a psicanálise se trata de forma clara, ou você precisa fazer silêncio mediante sua
incompreensão até um dia mágico em que as coisas façam sentido, ou sua análise pessoal que
dê conta dos impasses.
O que não é posto é o quanto esse é um caminho investigativo que não ocorre sem rigor,
dedicação e insistência. Insistência em que? Em não parar de questionar aquilo que não faz
sentido, aquilo que da teoria não pode ser relacionado com a prática clínica de alguma forma,

5
A tradução utilizada aqui pela Escola da Letra Freudiana contém uma série de parágrafos que foram recortados
da versão dos textos estabelecidos por Jacques-Alain Miller.

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quais referenciais os autores estão se apoiando para propor tal conceito e como os mesmos
podem fazer um uso próprio para que o conceito possa também ser elucidado, como o próprio
Lacan fez, partindo de outras disciplinas como a linguística, a lógica, a matemática, etc. É
preciso ir nas fontes dos quais o autor se serviu, para que também possa haver uma leitura
diferenciada a partir da referência que é posta.
A disponibilidade para essa abertura de investigação é imprescindível para uma
psicanálise mais acessível, mais atenta aos problemas cruciais de sua época, e todas as
discussões que se colocam frente à atualidade.

A questão de introduzir um discurso científico relativo ao saber é interrogá-lo onde


ele está, e esse saber, onde ele está, isso quer dizer no inconsciente, na medida em que
é no berço de “alíngua” que esse saber repousa. Eu assinalo que o inconsciente, eu
não entro nisso, não mais que Newton, sem hipótese. A hipótese de que o indivíduo
que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o que chamo de sujeito de
um significante, o que enuncio sob essa fórmula mínima: “um significante representa
um sujeito para outro significante”. Em outras palavras, eu reduzo a hipótese, segundo
a fórmula mesma que a substância, a isso: a hipótese é necessária ao funcionamento
de “alíngua”. Dizer que há um sujeito não é nada mais do que dizer que há uma
hipótese (LACAN, 1972-1973/2010, p.271).

Manter uma psicanálise sem possibilidade de questionamento para além da patente dos
“pais e fundadores”, sem novas hipóteses ou problematização das que já existem, é cair no
mesmo equívoco milenar que a incompreensão é um sintoma. Lacan nos adverte disso faz
tempo e, ainda assim, cá estamos todos nos debatendo e lutando por novas aberturas mediante
os fechamentos. É preciso pensar qual tem sido o caminho das formações psicanalíticas nos
dias de hoje e como a transmissão tem sido conduzida de forma que o discernimento crítico
sobre a teoria tenha sido incentivado, e sua consequente elucidação.
A psicanálise não pode mais permanecer nos porões obscuros da teoria inacessível que
provoca horror aos que dela observam de longe ou de perto. Até quando estaremos fadados a
repetir a pergunta situada por Lacan, de forma a nos colocar a movimentar a atual produção de
analistas, questionando o inevitável: “será que isso ainda é psicanálise?” (LACAN, 1955/1998,
p.327). Esse ainda parece ser um ponto central para todo o percurso que está por vir na
contramão do obscurantismo.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1955). Variantes do tratamento-padrão. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998,
p. 326-327.

LACAN, J. (1969-1970). O seminário, livro 17. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro:


Zahar, 1992.

LACAN, J. (1971-1972). O Seminário, livro 19. O saber do Psicanalista. Recife: Centro de


Estudos Freudianos do Recife, 1997.

LACAN, J. (1971-1972). O Seminário, livro 19. ...Ou pior. Bahia: Espaço Moebius de
Psicanálise, 2011.

LACAN, J. (1972-1973). O Seminário, livro 20. Encore. Rio de janeiro: Escola da Letra
Freudiana, 2010.

SOUZA, A. (2008). Os discursos na Psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. De Freud, 2008.

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O silêncio dos analistas: sintoma de um ideal

Lucas C. S. Pires

“A postura de silêncio supostamente lacaniana é mentirinha.”


(MAGNO, 2018)

Existe uma crença no senso comum psicanalítico de que o analista, enquanto atende
seus analisandos, deve ficar em silêncio – sustentando isso a qualquer custo. Acredita-se que
essa é a postura natural do analista, sua marca registrada, e aquilo que é necessário para se
operar o tratamento de um sofrimento – tanto que até o senso comum leigo pensa que é assim
um analista, que ele entra mudo e sai calado, que é frio e distante. Talvez isso tenha origem
nas recomendações1 que Freud faz sobre o analista que, além de ser opaco, “assim como uma
superfície espelhada, não deve mostrar nada além daquilo que lhe é mostrado” (FREUD,
1912/2017, p.102). Desse modo, nada deve partir do analista. O que chega até ele deve ser
mostrado de volta para o paciente, para evitar que o analista coloque dados de sua
individualidade em jogo no tratamento. Em última instância, para Freud, não deve haver
nenhum tipo de intimidade entre os dois componentes do par analítico, mantendo a relação o
mais asséptica possível, e para isso o analista deve manter um estado de abnegação própria.
Mas parece que o analista talvez deva se abster de falar também. Se seguirmos essa
ideia do espelho freudiano, então podemos pensar a situação assim: se o analisando dirige
palavras ao analista, este as devolve para sua origem. Agora, se o analisando se mantém em
silêncio, então o analista também permanece silenciado. Isso perdura por mais de 100 anos, e
mesmo psicanalistas de outras linhas que não a freudiana sustentam e repetem para que se
continue com a figura do analista em silêncio. Ainda no campo do senso comum, podemos
ver que analistas ditos lacanianos carregam a forma mais pura e assustadora do silêncio, por
serem considerados aqueles que carregam o silêncio do sepulcro. Diga que você é analista e
vão compreender que você fala pouco; diga que é lacaniano e vão te perguntar “por quê?”,
enquanto se mostram chocados com o que você disse, por causa da fama que paira na imagem
dos lacanianos.
A partir daqui vamos deixar o senso comum onde ele deve ficar: do lado das crenças e
preconcepções sobre as quais ninguém se interroga. Essas convicções acabam se propagando

1
Freud era hesitante em publicar um trabalho com diretrizes do fazer psicanalítico, tanto que ponderou a ideia
por quatro anos. Ele temia que as recomendações fossem tomadas como regras inflexíveis. cf. FREUD, S.
Fundamentos da Clínica Psicanalítica. 1. Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017. In: Obras Incompletas de
Sigmund Freud; 6., p.105.

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quase como um dogma, silenciando as próprias questões e abrindo as portas para o
obscurantismo no fazer psicanalítico. Segundo o dicionário2, obscurantismo é o estado de algo
que se encontra na escuridão, um estado de completa ignorância, além de uma oposição
política ou religiosa a todo o progresso intelectual ou material entre as massas. Aquilo que
vaga nas sombras é inimigo da luz que lança, não o esclarecimento, mas sim a dúvida e o
questionamento sobre determinado assunto, tópico ou situação. Esta foi a proposta do
psicanalista francês Jacques Lacan, do debate das luzes sobre os pontos obscuros que
pairavam na psicanálise de sua época e que, infelizmente, ainda pairam nos dias de hoje do
século XXI, como podemos ler na contracapa de seu livro Escritos3.
O ponto sobre o qual pretendo me debruçar aqui com vocês é justamente sobre a
postura silenciosa dos analistas. Por que acreditam que isso talvez seja uma espécie de ideal
do analista? Através de citações de textos, seminários e conferências, todos de autoria do
Lacan, veremos o que de fato é apresentado quando ele aborda a questão do silêncio, e qual a
argumentação teórica que sustenta essa pequena característica que acabou tomando grandes
proporções com os pós-lacanianos, pelo menos na comunidade brasileira.
Romper o obscurantismo não é tarefa fácil, pois mexer no vespeiro das crenças atrai
animosidades. Tomo como inspiração inicial uma citação da aula de 3 de fevereiro de 1960,
do seminário sobre A Ética da Psicanálise (1959-1960/2008). Lacan disse:

Bem sei que nunca é cômodo romper o silêncio de um grupo para tomar a palavra e
brandir a sineta, deixo-lhes, portanto, a possibilidade de me fazerem uma pergunta
por escrito. Isso só tem um inconveniente, é que eu terei a liberdade de lê-la como
eu quiser (LACAN, 1959-1960/2008, p.161).

Por mais que seja difícil romper o silêncio de um grupo como diz Lacan nesse trecho –
e aqui me refiro ao silêncio sobre a postura do analista, que acredita que mudo poderá mudar
alguma coisa no sofrimento do analisando –, e que possam ocorrer animosidades, a proposta
não é ser beligerante, e sim que possamos manter um alto rigor teórico em nossa prática,
cultivando o diálogo. Não trago citações de Lacan para dizer que estou certo, pois isso seria
apenas como trocar o problema de lugar, tomando algo como um novo dogma, como a única e
última verdade – sendo que a verdade sempre é não-toda. Não trabalho com dogmas, portanto
trago as citações para que vocês possam saber e verificar de onde estou tirando os pontos da

2
cf. <http://michaelis.uol.com.br/busca?id=e3Dle>.
3
“É preciso haver lido essa coletânea, e em toda sua extensão, para perceber que nela prossegue um único
debate, sempre o mesmo, o qual, mesmo parecendo marcar época, pode ser visto como o debate das luzes”
(LACAN, 1966/1998).

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proposta teórica que estou me baseando: a proposta lacaniana pautada no já citado debate das
luzes.
Chamo esse movimento de uma leitura crítico-investigativa, pelo fato de ser
importante sempre estudar uma teoria questionando o raciocínio apresentado pelo autor, além
de ser necessário empreender uma investigação – para não ficarmos apenas lendo textos – que
deverá ter uma pergunta ou um tema como guia, que nesse artigo trata-se do silêncio e sua
presença no fazer do analista. Aproveitando o gancho do Lacan ao final com “terei a liberdade
de lê-la como eu quiser”, já adianto que isso não quer dizer que todas as interpretações são
possíveis. Dentro de um texto, ou de um discurso, não se pode interpretar tudo, pois apenas
algumas interpretações são possíveis no material que temos para trabalhar. Se tudo é
interpretação, então nada é interpretação.
Retomemos rapidamente o espelho freudiano. De qual tipo de espelho ele fala? Já
pensaram nisso? Na óptica, ramo da física que estuda projeções de imagens e funcionamento
de espelhos, temos as imagens reais e imagens virtuais formadas por dois tipos distintos de
espelhos (côncavo e plano, respectivamente). Ambos os espelhos não refletem exatamente o
que está a sua frente, mas produzem uma inversão da imagem em relação ao objeto original
refletido – direita e esquerda, ou para cima e para baixo se invertem, dependendo do tipo de
espelho, assim como outras alterações, como tamanho, por exemplo. Já podemos observar que
apenas devolver o que o analisando apresenta não se trata meramente de refletir, mas também
de uma inversão. O analista precisa fazer algo mais do que apenas ficar repetindo, então.
Essas são coisas que precisamos levar em conta enquanto raciocinamos a partir de uma teoria
que sustenta uma prática. Como será essa operação de inversão que o analista deve fazer?
Infelizmente, no campo psicanalítico não se trata de um único tipo de silêncio.
Pretendo focar no silêncio das sessões, mas, ao longo do texto, irei tecer comentários também
a respeito do silêncio presente na transmissão teórica e o silêncio frente às autoridades.
Vamos pegar algumas citações do texto “A direção do tratamento e os princípios de
seu poder” (LACAN, 1958/1998) que versam sobre a postura do analista em sessão, o que
cabe a ele e o silêncio. Comecemos com um trecho famoso, onde Lacan afirma que

o psicanalista certamente dirige o tratamento. O primeiro princípio desse tratamento,


o que lhe é soletrado logo de saída, que ele encontra por toda parte em sua formação,
a ponto de ficar por ele impregnado, é o de que não deve de modo algum dirigir o
paciente (LACAN, 1958/1998, p.592).

Fica claro aqui que o analista dirige o tratamento, e não o paciente ou analisando.
Pautar-se em uma direção do paciente seria o mesmo que trabalhar na via da sugestão, o que

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seria um problema que tem relação com a demanda. Mais à frente isso ficará mais claro,
vamos averiguando cada citação. Isso é importante para que possamos tentar desfazer o mal-
entendido do obscurantismo. Continuando, podemos ver que o analista também participa do
jogo, da cena analítica. Ele não fica de fora, pois deve pagar com suas palavras – o que não
quer dizer que ele fica em silêncio –, na medida em que “a transmutação que elas sofrem pela
operação analítica as eleva a seu efeito de interpretação” (LACAN, 1958/1998, p.593), além
de pagar também com sua pessoa enquanto suporte dos fenômenos transferenciais, e com o
seu ser, mas aqui não vamos abordar a questão do ser e da falta-a-ser.
A crítica de Lacan à afirmação presente em sua época, e aparentemente nos dias de
hoje também, de que “o analista cura menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é”
(LACAN, 1958/1998, p.593), minimamente mostra qual caminho ele postula em sua teoria. O
analista então precisa dizer e fazer algo para operar uma cura, caso contrário entraria em um
beco sem saída. A crítica se estende à metáfora do espelho mencionada por ele no texto,
fazendo referência ao espelho freudiano que vimos anteriormente, além de enunciar sua
analogia do bridge4. Vamos ao trecho:

Sem dúvida, há também uma estratégia ali, mas não nos enganemos com a metáfora
do espelho, por mais que ela convenha à superfície una que o analista apresenta ao
paciente. Cara fechada e boca cosida não têm aqui a mesma finalidade que no
bridge. Com isso, antes, o analista convoca a ajuda do que nesse jogo é chamado de
morto, mas para fazer surgir o quarto jogador que do analisado será parceiro, e cuja
mão, através de seus lances, o analista se esforçará por fazê-lo adivinhar: é esse o
vínculo, digamos, de abnegação, imposto ao analista pelo cacife da partida na
análise (LACAN, 1958/1998, p.595).

Não devemos nos deixar enganar pela metáfora do espelho de que o analista apenas
reflete e que não fala nada que não seja algo que tenha vindo do analisando. A função do
morto convocada pelo analista no jogo é de deixar as suas cartas voltadas para cima, onde
todos da mesa podem ver. Essa função é onde se localizam os sentimentos do analista:

Mas o que há de certo é que os sentimentos do analista só têm um lugar possível


nesse jogo: o do morto; e que, ao ressuscitá-lo, o jogo prossegue sem que se saiba
quem o conduz (LACAN, 1958/1998, p.595).

Caso esse morto seja ressuscitado seria como se as cartas expostas voltassem a estar
escondidas, seguindo a analogia do jogo de cartas, então não se saberá quem conduz o jogo,
ou, no caso, o tratamento. O analista precisa poder ter a liberdade de falar algo caso seja
necessário, em algumas situações até responder alguma pergunta que o analisando faça para

4
Jogo de cartas jogado por dois pares de jogadores, onde um dos elementos do par atua como a função de morto.
Cf. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bridge_(jogo_de_cartas)>.

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ele. Isso tira do caminho algo que pode gerar algum pensamento paranoico no analisando,
alguma desconfiança ou algo do tipo. Assim o analista pode realizar seu trabalho conduzindo
o tratamento do sofrimento. Aqui já podemos perceber que as propostas teóricas freudiana e
lacaniana possuem diferenças – e muitas vezes são completamente opostas. Por mais que seja
necessário criticar qualquer modelo teórico, inclusive o seu próprio, não é possível seguir
paradigmas distintos quando se trata de pensar uma clínica. A psicanálise possui paradoxos,
porém esse não é um deles.
O analista, enquanto aquele que escuta o discurso do analisando, faz pontuações ao
longo de uma sessão. O analisando carrega um pedido atrelado à busca de uma resolução para
o seu sofrimento, de causas inconscientes, que, nessa proposta teórica, se trata de um saber
que não se sabe, ao invés de um conteúdo reprimido, e em última instância nos pede a
felicidade, segundo Lacan (1958/1998, p.620). Frente ao pedido, à demanda, o analista se cala
e frustra o analisando. Mas em que sentido o analista se cala?

Se eu o frustro, é que ele me demanda alguma coisa. Que eu lhe responda,


justamente. Mas ele sabe muito bem que isso seriam apenas palavras. Tais como as
recebe de quem quiser. Ele nem tem certeza de que me seria grato pelas boas
palavras, muito menos pelas ruins. Essas palavras não são o que ele me pede. Ele me
pede... pelo fato de que fala: sua demanda é intransitiva, não implica nenhum objeto
(LACAN, 1958/1998, p.623).

Se a demanda que o analisando faz ao analista não é uma demanda que implique um
objeto, então não temos como respondê-la, além do fato de a demanda nem ao menos ser do
analisando, já que partiu do analista o pedido de que ele falasse. Talvez o ponto que
precisamos pensar aqui seja onde recai o acento da frustração. Afinal, isso quer dizer que o
analista deve ficar quieto ou que apenas deve frustrar a demanda? Seriam ambos
equivalentes? O analista definitivamente fica quieto em alguns momentos, por exemplo,
enquanto escuta o analisando, pois não deve ter pressa e compreender rápido demais5 as
coisas, entretanto isso não necessariamente possui relação com frustrar a demanda. Sendo
assim, a questão com a qual nos deparamos é: por que o analista precisa frustrar a demanda?
Vamos pegar duas citações desse texto, que se articulam, para que possamos tentar
avançar nessa questão.
5
“Há dois perigos em tudo o que tange a apreensão de nosso campo clínico. O primeiro é não ser
suficientemente curioso. Ensina-se às crianças que a curiosidade é um defeito feio, e, em geral, é verdade, não
somos curiosos, e não é fácil provocar este sentimento de maneira automática. O segundo é compreender.
Compreendemos sempre demais, especialmente na análise. Na maioria das vezes, nos enganamos. Pensa-se
poder fazer uma boa terapêutica analítica quando se é bem-dotado, intuitivo, quando se tem o contato, quando se
faz funcionar este gênio que cada qual ostenta na relação interpessoal. E a partir do momento em que não se
exige de si um extremo rigor conceitual, acha-se sempre um jeito de compreender. Mas fica-se sem bússola, não
se sabe nem de onde se parte, nem para onde se está tentando ir” (LACAN, 1954-1955/2010, p.144).

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Assim, o analista é aquele que sustenta a demanda, não, como se costuma dizer, para
frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração
está retida (LACAN, 1958/1998, p.624).

Trabalhamos com a lógica dos significantes, e com o sujeito do inconsciente que surge
no intervalo entre dois significantes, logo uma intervenção que faça significantes importantes
reaparecerem é bem-vinda, já que

reduzir essa demanda a seu lugar pode efetuar no desejo uma aparência de redução,
através da atenuação da necessidade. Mas isso não passa, antes, do efeito do peso do
analista. Pois, se os significantes da demanda sustentaram as frustrações em que o
desejo se fixou (a Fixierung de Freud), é somente no lugar deles que o desejo é
sujeitador (LACAN, 1958/1998, p.641).

Não responder, frustrar ou sustentar a demanda, por parte do analista, tem o intuito de
fazer reaparecerem os significantes onde a demanda ficou retida, por já ter sido frustrada em
um momento anterior, e que apontam onde o desejo se fixou. Deste modo, precisamos da
demanda para poder fazer surgir o desejo. Então, se respondermos à demanda não haverá
possibilidade de o desejo surgir. Lembram quando dissemos que dirigir o paciente produziria
a via da sugestão e que isso tem relação com a demanda? Caso o analista responda a
demanda, seja com um sim ou com um não – que também é uma resposta, percebem? –, ele
passa da via da transferência, tanto motor que possibilita o tratamento como seu obstáculo
também, para a via da sugestão. No segundo já vimos que não há possibilidade de tratamento
analítico. A direção do tratamento se orienta “em relação aos efeitos da demanda” para poder
sustentar o lugar do desejo (LACAN, 1958/1998, p.640).
Um pequeno desvio para um breve comentário sobre a relação entre demanda e desejo
– que já é um assunto que exige tempo e outro artigo. Eidelsztein, em seu livro “O grafo do
desejo” (2017), descreve como o sujeito barrado, na neurose, onde podemos falar em desejo,
representado por se relaciona com o Outro. A partir dessa relação representada em etapas
no grafo, que inicialmente se dá pela demanda do Outro, nós temos a dialética da
identificação que

conduz, então, ora à petrificação própria do ideal do Outro – é o curto-circuito – ora


ao aprisionamento do sujeito na dialética significante, à metonímia incessante da
significação, o circuito, o círculo. O sujeito, então, fica preso na dialética da
identificação, no um, ou é vítima de um deslocamento infinito da significação
(EIDELSZTEIN, 2017, p.112).

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Aqui o sujeito ainda não é o do desejo, barrado, portanto da neurose, pois estamos
apenas nas identificações com os ideais – tanto o ideal do Outro, escrito6 como I(A), como a
imagem do pequeno outro, do meu semelhante, escrito como i(a) –, e na demanda do Outro,
atrelada ao movimento de deslocamento infinito de significação que vem do Outro. O sujeito
está preso em algo sem saída aqui. É necessário algo que vá para além disso, como
possibilidade de escapatória, um além dos ideais que “é imprescindível na direção da cura do
sujeito barrado” (EIDELSZTEIN, 2017, p.113).
Vamos a mais uma citação sobre a importância do para além dos ideais e para além da
demanda como saída:

Na nossa teoria do sujeito, os ideais, como tais, possibilitam duas únicas vias e
ambas sem saída. São duas vias que nunca dão verdadeiramente, um lugar para a
dialética do sujeito. Por isso a direção da cura implica, a respeito de ambas saídas,
em impasse, o passe. Não há opções para o sujeito, o passe é um só: dizer não à via
da identificação, tanto imaginária, quanto simbólica. São então postulados teóricos –
e não posições morais – o que motiva os psicanalistas a irem além dos ideais. É
necessário ir além dos ideais porque o ideal implica sempre um ponto de detenção
mortífero ou uma metonímia infinita dilacerante (EIDELSZTEIN, 2017, p.113).

Permanecer nos ideais concerne a uma condição moral, além de ser um caminho sem
saída, porém a psicanálise na proposta lacaniana apresenta aqui um postulado ético
(lembrando que a ética é a do desejo). Essa via possibilita uma saída, um para além dos ideais
que precisa estar presente na direção do tratamento. Não esqueçam que o analista é aquele
que, na direção do tratamento, não responde à demanda, para que dela possam surgir os
significantes onde o desejo é sujeitador. Apenas assim surge o desejo. Isso é importante, pois
é dessa forma que se constitui pela primeira vez o desejo, na neurose, na relação do sujeito
barrado com o Outro, além do fantasma – escrito como –, suporte do desejo. Guardem
para mais tarde esse ponto de ser necessário um para além do ideal, pois retomaremos ele em
um momento oportuno.
Ao final do seu texto sobre a direção do tratamento, Lacan enumera algumas
proposições, organizando de forma concisa o caminho percorrido.

1. Que a fala tem aqui todos os poderes especiais do tratamento; 2. Que estamos
muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso
coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso; 3. Que essa
liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar; 4. Que a demanda é
propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a
hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma; 5. Que, não sendo colocado

6
Todas essas escrituras como I(A), i(a), A, s(A), entre outras, fazem parte da álgebra lacaniana. A opção de
operar com letras é para evitar toda e qualquer relação com o significado, para retirar todo o sentido possível,
evitando a ambiguidade ao máximo. Os matemas lacanianos são escritos com essa álgebra.

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nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até
canalizado; 6. Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode
ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala (LACAN,
1958/1998, p.647).

Deixar o paciente falar, e mais do que isso, incentivá-lo a falar sobre aquilo que lhe
causa sofrimento não implica que o analista deva permanecer em silêncio total. Essa não é
uma conclusão possível perante essas proposições. Mesmo apontando que o analista não deve
satisfazer a demanda, Lacan ressalta a dificuldade e a tentação que pode ocorrer do analista
querer responder “nem que seja um pouco” (LACAN, 1958/1998, p.647). É isso que ele
precisa silenciar para que o tratamento se conduza nos trilhos do desejo.
Em seu seminário sobre a lógica do fantasma (1966-1967/2008), na aula de 12 de abril
de 1967, podemos ver uma breve citação de Lacan em que aponta, novamente, que há uma
relação entre o silêncio e a demanda:

Escrever, como se tem feito, que é vão procurar em meus Escritos qualquer alusão
ao silêncio, é uma bobagem. Quando inscrevi a fórmula da pulsão, no alto, à direita
do grafo, como S barrado punção de D (a demanda), [D], é quando a demanda se
cala que a pulsão começa (LACAN, 1966-1967/2008, p.290).

Existem passagens sobre o silêncio no ensino de Lacan, como vemos nesse trecho,
porém o silêncio aqui não é a pausa de uma fala, mas o não responder a demanda que o
analisando apresenta. Além disso, outro elemento entra em cena aqui e se relaciona com a
demanda também. Trata-se da pulsão, e podemos encontrar uma clara definição no seminário
sobre o sinthoma (1975-1976/2007), que é “no corpo7, o eco do fato de que há um dizer”
(LACAN, 1975-1976/2007, p.18).
Sobre o fazer do analista perante a demanda que surge em sessão encontramos um
trecho extenso na aula de 28 de abril de 1965 do seminário Problemas Cruciais Para a
Psicanálise (1964-1965/2006). Vamos analisá-lo por partes:

Eu disse que a análise começa por uma demanda particular que fazia da palavra de
nosso saber o objeto da demanda do sujeito. Teria podido acrescentar que,
paralelamente, sua palavra se faz para ele objeto suposto da demanda que ele projeta
sobre nosso silêncio. Por sua palavra, o analisando tenta situar-nos no registro da
demanda; por seu silêncio, o analista se situa fora da previsão da demanda. Seu

7
É importante dizer que não se trata do corpo biológico, pois Lacan não trabalha com biologia. Claro que o
corpo existe. Porém, assim como todas as coisas e como toda a realidade, ele é feito de linguagem, por
significantes de um discurso. Não existe nada antes ou para além da realidade, como podemos ver nas citações
da aula de 9 de janeiro de 1973 do seminário “Mais, Ainda” (LACAN, 1972-1973/2008): “não há nenhuma
realidade pré-discursiva. Cada realidade se funda e se define por um discurso” (LACAN 1972-1973/2008, p.37),
e “não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de que o que faz coletividade, e que chamei de
os homens, as mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as
mulheres e as crianças não são mais do que significantes” (LACAN, 1972-1973/2008, p.38).

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silêncio é testemunha de um resto, daquilo que cai de todo discurso, fazendo-se
escuta, ele vem completá-lo, trazer o desvelamento de uma dimensão outra (LACAN
1964-1965/2006, p.315).

No início de uma análise há a demanda do analisando que é direcionada ao analista,


como já vimos. Demanda-se a palavra que contém o saber do analista que o analisando crê ser
o objeto de sua busca, crê ser aquilo que solucionará tudo. O silêncio, como não-resposta à
demanda, faz o analista mostrar que não é esse o caminho de uma análise, situando-se fora
dessa previsão da demanda e fazendo aparecer o resto daquilo que cai de todo discurso.
Responder à demanda seria o equivalente a ofertar o objeto buscado, sustentando que alguém,
nesse caso, o analista, o possui, ou ainda mais, que ele existe de fato. Ambos são
problemáticos por fazer com que o profissional que atende deixe de poder operar a função de
analista e passe a ser um guru, um guia para a felicidade. A dimensão relativa ao resto dessa
operação é a dimensão do desejo, que está no para além da demanda.

Toda demanda se situa, implica em sua estrutura mesma a escuta; ela surge sobre um
fundo de silêncio. Toda palavra tem como avesso indissociável a escuta do outro,
quer este outro seja projetado sobre o interlocutor real ou que ele seja fantasmado na
ausência, pouco importa. Existe apenas o discurso delirante, e só ele, que surge
sobre um fundo sonoro. Em todos os outros casos, o silêncio, em sua função de
escuta, é o que vem testemunhar do desejo ignorado do discurso. Ele é suporte do
que eu chamaria o fantasma de linguagem, suportando todo o discurso para fazer
dele o apelo do que poderia vir a responder, não à demanda, mas ao desejo
(LACAN, 1964-1965/2006, p.315).

Toda palavra, toda fala possui seu elemento oposto e inseparável que é a escuta do
outro seja qual for o interlocutor, presente fisicamente ou fantasmado na ausência, já que
sempre falamos, endereçamos nossa fala para alguém, como uma carta, por exemplo. A
exceção aqui está presente apenas no caso do discurso delirante, por possuir um fundo. Junto
disso, toda demanda implica em sua estrutura mesma a escuta, portanto não pode vir de um
discurso delirante, de fundo sonoro. Este silêncio presente é o que, em sua função de escuta,
inseparável da palavra do interlocutor, vem testemunhar o desejo ignorado do discurso – o
resto mencionado anteriormente. Inclusive o silêncio suporta o discurso para fazer dele o
apelo, o chamado, o convite do que poderia vir a responder, nesse caso, não à demanda, pois o
analista não possui o objeto que sequer existe, mas sim ao desejo. Há uma relação então entre
silêncio-discurso-desejo. Continuemos com a próxima passagem para averiguar isso:

Esta dimensão do nosso silêncio, porém, só aparecerá ao sujeito no momento mesmo


em que ele é privado dele, ou seja, quando da irrupção da nossa palavra, palavra
esperada, sem dúvida, mas da qual veremos que ela é sempre desvelamento da falta.
Enquanto nosso silêncio não está presente senão como escuta, ele é o que se torna,
para o sujeito, demanda de palavra. Dizer ao analisado que ele deve dizer tudo

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implica que ele pode dizer tudo, inclusive o que não pode, dele, ser ouvido. Nós
assumimos a responsabilidade da escuta, vimos garantir-lhe a presença de outro
sentido e, antes de tudo, que naquilo que é do dizer, nada se fará objeto de rejeição.
Nossa escuta é o suporte dessa crença que é a sua, a de ter em seu poder o objeto por
nós demandado. “Como vocês fazem para se lembrar de tudo o que eu digo?” Se ele
não sabe como eu faço, isso de que ele tem certeza que é minha escuta é um
receptáculo sem falha (LACAN, 1964-1965/2006, p.315).

A palavra do analista aparece aqui, e é esperada até. Mas ela não aparece como
resposta à demanda, e sim como uma palavra, uma fala que desvela, exibe e manifesta a falta.
O analista se silencia perante a demanda para poder escutar o desejo, e dessa forma o silêncio
do analista se faz presente como escuta. Porém, para isso é preciso que a palavra do analista
apareça e seja proferida por ele. Não qualquer palavra, mas aquela que desvela a falta,
fazendo presente à dimensão do desejo. O analista precisa falar, percebem? Aos poucos
vamos verificando que outra coisa que não a teoria é o que sustenta, aparentemente, esse mito
do analista silencioso, do silêncio total, como se todo o processo de uma análise acontecesse
de forma natural, apenas pela presença do analista mudo. Caso o silêncio não se apresente
como escuta, isto é, se o analista entende o silêncio como silenciar-se, fechar a boca, ficar
mudo, isso fará surgir no analisando uma demanda por palavra – recuperando a analogia com
o jogo de bridge, seria o analista esconder suas cartas, não as deixando expostas. Ao
assumirmos, nós, analistas, a responsabilidade da escuta isso cria no analisando a crença de
que, quando ele fala, ele possui o objeto por nós demandado, a ponto até de ficar deslumbrado
pelo analista sempre lembrar o que foi falado nas sessões, acreditando que nossa escuta é sem
falhas - o que não é verdade, pois ela não é perfeita, e não há problema em não ser. Essa
crença implica que:

Nesse sentido nós somos verdadeiramente apelo à transferência e à trapaça; à


transferência, graças ao fato de que é nossa escuta que investe toda palavra dos
emblemas que fazem dela o objeto analítico; ela torna-se assim o objeto privilegiado
e único da demanda; trapaça por que, na realidade, o analista, avalista do desejo, não
pode jamais ser o sujeito de uma demanda qualquer que ela seja, nem mesmo do que
se chama a cura (LACAN, 1964-1965/2006, p.315).

Nós analistas somos o apelo, o convite, o estímulo tanto à transferência, quanto à


trapaça. No primeiro, pois ao disponibilizar nossa escuta isso faz com que tudo aquilo que é
dito seja revestido pelo emblema, pela roupagem que torna isto o objeto privilegiado da
demanda. Por escutarmos, o analisando crê que ao falar ele irá oferecer-nos aquilo de especial
que ele acredita que nós buscamos. Já no segundo, mesmo que a nossa escuta implique que
ele fale, isso não quer dizer que podemos responder essa demanda. Não devemos acreditar
que aquilo que o analisando nos demanda é de fato aquilo que ele quer, pois a demanda

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engana, já que ela é intransitiva, portanto, sem objeto. Estamos interessados no para-além da
demanda, no desejo.
É possível colher mais um exemplo, no ensino de Lacan, de que o analista diz coisas
em sessão, e que o silêncio da boca fechada pode não ser efetivo, na aula de 11 de fevereiro
de 1975 do seminário “R.S.I.” (1974-1975). Vamos acompanhar a citação:

A palavra é um objeto de elaboração para o analisando, mas o que diz o analista,


pois ele diz, o que diz o analista tem efeitos, nos quais pouco é dizer que a
transferência aí tem um papel, mas isso não é nada, não esclarece nada. Tratar-se-ia
de dizer como a interpretação carrega, e que ela não implica forçosamente uma
enunciação. É evidente que um número exagerado de analistas têm o hábito de calar,
ouso crer, quero dizer, calam o bico, não abrem, como se diz, falo da boca, mas ouso
crer que o silêncio deles não é só feito de um mau hábito, mas de uma suficiente
apreensão do alcance de um dizer silencioso. Ouso crer, mas não tenho certeza. A
partir do momento em que entramos neste campo, não há provas. Não há provas a
não ser nisso de nem sempre funcionar, um silêncio oportuno (LACAN, 1974-1975,
p.28-29).

Assim como vimos anteriormente, a fala possui todos os poderes especiais do


tratamento e permite que o analisando possa fazer elaborações. Entretanto, o que é dito pelo
analista possui e produz efeitos também em sessão. Se o que ele diz tem essa propriedade, por
que a crença de que ficar em silêncio, de boca fechada, seja o operador? Por qual motivo
desperdiçar essa ferramenta, que de fato é a ferramenta de operação do analista?
Além de seu único livro, organizado por ele próprio, Escritos, e de seu ensino oral
através de seus seminários, Lacan também proferia conferências em algumas cidades pelo
mundo. Esse último item da lista merece a nossa atenção, pois em diversas delas Lacan se
fazia claro e direto diante daqueles que não tinham contato com ele em seus seminários. Em
sua conferência na Universidade de Columbia (1975/2016), nos Estados Unidos, Lacan disse
coisas nítidas sobre a análise e o analista, como por exemplo:

Muitas vezes o analista crê que a pedra filosofal – se posso dizer assim – de seu
ofício, isso consiste em se calar. O que eu digo sobre isso é bem conhecido. Depois
de tudo é um engano, um desvio, o fato de que os analistas falam pouco (LACAN,
1975/2016, p.67).

E ainda sobre o analista:

Então o analista ainda tem coisas a dizer. Ele tem coisas a dizer a seu analisante, a
aquele que, pelo menos não está ali para se afrontar com simples silêncio do analista.
O que o analista tem a dizer é da ordem da verdade. Eu não sei se vocês têm a
verdade como algo muito sensível. Quero dizer: se têm uma ideia do que é a
verdade. Todo discurso implica ao menos um lugar que é este da verdade. O que eu
chamo discurso é uma referência a um laço social. A análise é desta ordem
(LACAN, 1975/2016, p.68).

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O fato de que os analistas falam pouco é um engano, e aparentemente um engano dos
próprios analistas, já que eles sustentam esse mito. O analisando não vai em busca de
tratamento para o seu sofrimento para se deparar com uma pessoa que, ao invés de utilizar a
analogia do bridge e deixar as cartas viradas para cima na mesa, seja como um defunto, frio,
duro e calado. Aquilo que o analista tem a dizer é da ordem da verdade, da verdade do sujeito
do inconsciente – efeito da linguagem, barrado –, portanto relativo ao desejo. É dessas coisas
que o analista fala para o analisando e que ele precisa falar para que se opere uma cura.
Ingênuo é aquele que acredita que o silêncio do sepulcro produz transformações no
sofrimento alheio.
Retornemos à problemática do beco sem saída da dialética das identificações. Não é
porque na neurose há o desejo, algo que está para além do ideal e da demanda, que não
aparecem idealizações na neurose. O desejo é apenas a forma de sair desse impasse, e não a
erradicação. Essa adversidade dos ideais também se faz presente do lado do analista, como
podemos acompanhar em alguns trechos do seminário de Lacan sobre A Transferência (1960-
1961/2010). Na aula de 03 de maio de 1961, Lacan disse:

Este ideal, preciso discuti-lo antes de o riscarmos com uma cruz? Não, decerto, que
não se possam evocar no analista exemplos do estilo do coração puro, mas é
pensável que este ideal seja requerido, de saída, no analista? Poderia ser ele de
alguma maneira esboçado, se fosse comprovado? Digamos que não seja isso o
comum nem a reputação do analista. Poderíamos também dar facilmente nossas
razões de decepção quanto a esta fórmula débil (LACAN, 1960-1961/2010, p.332).

Logo de partida já nos é indicado que a ideia de ideal, do lado do analista, deve ser
riscada do mapa. Pode ser que alguém espere isso de um analista, porém ele não possui algo
semelhante a uma pureza – e nem é essa a sua reputação.
Seguindo essa linha, na aula de 07 de junho de 1961, Lacan aponta que além de não
ser puro, o analista também não é nenhum santo:

É claro, vocês imaginam, que não o coloco entre os santos. É preciso dizê-lo. Pois,
não o dizendo muitos achariam ainda que este seria o ideal, como se diz. Há muitas
coisas sobre as quais somos tentados a dizer, a nosso respeito, que ali estaria o ideal.
A questão do ideal está no coração dos problemas da posição do analista (LACAN,
1960-1961/2010, p.438).

Mesmo sendo claro, é necessário dizer. O óbvio precisa sempre ser dito, mesmo nos
dias de hoje. Por mais que o ideal seja o cerne dos problemas que o analista enfrenta a
respeito de sua posição dentro do tratamento, essa questão precisa ser abordada para que
possamos abandonar qualquer noção de ideal do analista.

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Na última aula deste seminário, em 21 de junho de 1961, temos mais algumas palavras
de Lacan sobre a posição do analista e a temática do ideal:

Essa posição, eu a distingo dizendo que no próprio lugar que é o seu, o analista deve
se ausentar de todo ideal do analista (LACAN, 1960-1961/2010, p.469).

Não devemos esquecer que a análise refere-se a um tratamento que vai além dos
ideais, pois se trata de uma ética e, diferentemente da moral, não se apoia nos ideais sociais,
no que está certo ou no que está errado, como diz Eidelsztein (2018, p.47). Se o desejo é a
saída do impasse idealizador, isso não é diferente do lado do analista. Ele opera o tratamento a
partir do desejo do analista8, como podemos ver nesse trecho da aula de 24 de junho de 1964
do seminário de Lacan sobre os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/2008) e
sem ele é impossível lidar com os impasses do tratamento:

Para lhes dar fórmulas-referência, direi – se a transferência é o que, da pulsão,


desvia a demanda, o desejo do analista é aquilo que a traz ali de volta. E, por essa
via, ele isola o a9, o põe à maior distância possível do I que ele, o analista, é
chamado pelo sujeito a encarnar. É dessa idealização que o analista tem que tombar
para ser o suporte do a separador, na medida em que seu desejo lhe permite, numa
hipótese às avessas, encarnar, ele, o hipnotizado (LACAN, 1964/2008, p.264).

O desejo do analista é aquilo que reconduz as coisas aos trilhos. Isso não quer dizer
que a análise se trata de algo rígido, apenas que a via possível do tratamento é a via da
dimensão do desejo, como já abordamos. Na experiência psicanalítica, o analista é
convocado, pelo analisando, a encarnar um ideal, e a isso o analista deve declinar, não
respondendo à demanda. Se o propósito dessas operações é se afastar das identificações, das
idealizações, porque então seria o propósito do analista o de fomentar um ideal, o seu próprio
nesse caso, na condução do tratamento? Trata-se de uma incongruência da qual se faz
necessário prescindir, se quisermos operar uma clínica pautada em um rigor teórico.
Maria Pierrakos foi a estenotipista dos seminários de Lacan, por 12 anos, e registrou
essa experiência em seu livro “A Batedora de Lacan” (2005). Dentre os diversos comentários,
podemos vê-la descrevendo como o auditório, que escutava Lacan falar, se calava diante das
palavras do mestre, e “um silêncio místico se instalava” (2005, p.20). Descreve como muitos
tentavam imitar Lacan, inclusive no vestuário, charuto, e jeito de respirar. Os seminários eram
como “uma assembleia de clones, de pequenos Lacans, de Lacans em miniatura” (2005, p.27),
além de também levantar críticas aos jogos de poderes que essa relação acabou produzindo. A

8
O conceito de desejo do analista não será desenvolvido neste artigo, para não fugir do foco da proposta.
9
Refere-se ao “objeto a”, conceito cunhado por Lacan que implica tanto o objeto do desejo como também o
objeto causa de desejo. Este também não será desenvolvido neste artigo, para não fugir do foco da proposta.

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tentativa de imitar o mestre te faz cair no beco sem saída da dialética das identificações, algo
importante repetir para que comece a ficar claro.
Vimos até aqui que o silêncio do analista de fato existe, porém não como o analista
mudo do mito que se perpetua até os dias de hoje nos círculos psicanalíticos, e sim como não-
resposta à demanda que surge em sessão. Esse não-responder não significa dizer não ou ficar
em silêncio, o que seriam respostas, mas não acreditar que nós analistas possuímos aquilo que
nos pedem, e muito menos que temos algo para dar, além de que aquilo que nos pedem não é
de fato o que querem. Nosso silêncio precisa aparecer como escuta, como escuta do desejo
através das palavras que o analista tem a dizer sobre a verdade do sujeito do inconsciente.
Mencionamos anteriormente que não há apenas na clínica uma postura silenciosa, ou
de silenciar-se – como o mito de ficar mudo –, mas que há também presença disso na
transmissão que se faz da psicanálise, enquanto teoria e prática clínica, até os dias de hoje.
Não só pelo fato da propagação e sustentação desse ideal de analista silencioso, mas também
nas relações de poder que se estabelecem nas escolas de formação de analistas. Relações de
poder por não ensinar de fato qual a proposta teórica presente na psicanálise, debruçando-se
sobre os textos e investigando-os, e por não ensinar o que se faz em uma clínica, perpetuando
o obscurantismo já mencionado. Lembremos que o obscurantismo não tolera
questionamentos, pois isso poderia alterar o estado de manutenção de um grupo nas sombras
da ignorância. Lacan (1958/1998, p.592) aponta que o fazer de um “reduz-se ao exercício de
um poder”, quando este é incapaz de sustentar o exercício autêntico de uma práxis.
Minimamente é necessário saber como se faz para realizar tal práxis, e aqui falamos da
psicanálise. Para isso há que se estudar e investigar a teoria que sustenta este fazer. O poder
aqui é problemático, pois

esse poder, eles o substituem pela relação com o ser em que se dá essa ação, fazendo
com que seus meios, nomeadamente os da fala, decaiam de sua eminência verídica.
Eis por que é realmente uma espécie de retorno do recalcado, por mais estranho que
seja, que faz com que, das pretensões menos inclinadas a se preocupar com a
dignidade desses meios, eleve-se a algaravia do recurso ao ser como a um dado do
real, quando o discurso que ali impera rejeita qualquer interrogação que uma
estupenda mediocridade já não tenha reconhecido [grifo nosso] (LACAN,
1958/1998, p.618).

Um discurso que rejeita qualquer tipo de questionamento não é um discurso que se


proponha a trabalhar com a dimensão da verdade, campo do fazer do psicanalista. Isso apenas
faz com que continuemos sustentando ideais nocivos à prática do nosso campo. Se quisermos

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pensar em um futuro para a psicanálise, em uma psicanálise porvir, então precisamos romper
esses silêncios e questionar o que estamos fazendo e para onde queremos ir.

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