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TRAZENDO NO CORAÇÃO

Leitura Bíblica: Filipenses 1.1-11

Introdução

Álbum de fotografias. Quando era criança, não havia tanta facilidade em


registrar-se um momento, como agora temos com celulares, tablets e
câmeras. A opção que dispúnhamos era a de comprar ou pegar emprestada
uma máquina, adquirir os filmes (geralmente de 24 ou 36 poses), tirar as
fotos e ir até uma loja para revela-las.

Depois de alguns dias, as fotos eram trazidas em uma espécie de papel


especial e guardadas em um álbum, geralmente agrupado por pessoas
e/ou eventos. “Fotos do aniversário de 8 anos”, “fotos do Natal de 2006” e
assim por diante. Ainda hoje, com toda tecnologia, é sempre uma
experiência legal ter contato com estas fotos, relembrar o passado e, de
certa forma, reviver o que aconteceu lá atrás.

Nos tempos de Paulo e Timóteo não haviam sequer máquinas fotográficas


de filmes, mas o que é feito nos primeiros versículos de Filipenses é um
exercício muito semelhante. Nossos irmãos estão olhando para o passado
e lembrando junto com os crentes de Filipos o começo do relacionamento
entre eles.

EXPOSIÇÃO

1. Filipenses é a carta de Paulo favorita para muitos cristãos. Ela é


reconhecida como a “carta da alegria”, pois este é um tema recorrente em
todo o seu desenvolvimento. Pelo menos uma vez em cada um de seus
quatro capítulos, o apóstolo menciona a alegria de alguma forma. Nos é
interessante perceber que o apóstolo Paulo está falando de alegria em
circunstâncias que não lhes eram nada favoráveis, pois estava preso na
cidade de Roma, por volta do ano 61 d.C. Paulo demonstra nesta carta o
seu contentamento em ver o progresso espiritual dos irmãos daquela
cidade, fazendo contínuos votos de apreço por este desenvolvimento. O
apóstolo ora pelo progresso espiritual deles, sem, contudo, deixar de
mencionar e tratar os problemas presentes naquela comunidade,
especialmente de relacionamento entre algumas pessoas.
2. Logo aqui nos primeiros onze versículos desta epístola, podemos
perceber a intensa afeição de Paulo por seus interlocutores. Especialmente
entre os versos 3 e 11, saltam aos nossos olhos expressões muito ricas de
significado, que evidenciam o carinho mútuo entre um pastor e a igreja
onde ele exerceu o seu ministério. É como se Paulo estivesse revendo o
histórico de uma amizade e celebrando ao Senhor por todos os desafios
vencidos juntos, todas as lutas e todos os trabalhos feitos em nome do
Evangelho. Lembrar-se do passado não era um esforço duro e pesaroso,
mas um ato gracioso e prazeroso. Recordar-se de tudo o que tinham vivido
juntos trazia gratidão, alegria e oração. É como se ele dissesse: “o que
vivemos juntos no evangelho foi tão bom, que eu tenho que agradecer a
Deus”; “o que vivemos juntos no evangelho foi tão bom, que eu tenho que
orar com alegria” (v. 3-5); “o que vivemos juntos no evangelho me dá uma
tremenda saudade de vocês” (v.6-8); “o que vivemos juntos no evangelho
me faz orar para que vocês cresçam espiritualmente mais e mais” (v. 9-11).
3. Para entendermos quais eram estas lembranças a que Paulo se
referia, um exercício fundamental é retornarmos ao livro de Atos dos
Apóstolos e a partir daí enxergar como aquela igreja foi plantada. Em At
16, lemos que Paulo chegou a Filipos após uma visão noturna, onde lhe
apareceu um homem dizendo: “Passa à Macedônia e ajuda-nos”. Movido
pela direção do Senhor, ele se dirige a esta região, cuja primeira cidade
seria exatamente Filipos. Permanecendo nesta cidade, em um sábado ele
se dirigiu com seus companheiros de viagem até junto ao rio da cidade,
para orar. Lá, começaram a compartilhar o evangelho e uma mulher
chamada Lídia, que era da cidade de Tiatira, teve o seu coração aberto pelo
Senhor e recebeu a mensagem do Evangelho. Sendo batizada, ela insistiu
muito para que os irmãos se hospedassem em sua casa, o que aconteceu.
Outro dia, saindo novamente ao mesmo lugar de oração, os irmãos
encontraram um enorme desafio. Havia uma jovem possessa por um
espírito demoníaco que fazia adivinhações e assim dava grande lucro aos
seus senhores. Ela continuamente seguia a Paulo e seus companheiros,
clamando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam a
vocês o caminho da salvação”. Paulo, indignado com esta situação, já
persistia há muitos dias repreendeu e expulsou dela o espírito imundo. Os
senhores daquela jovem perceberam que a fonte de lucro deles agora iria
acabar; por isso, tomaram Paulo e Silas e, levando-lhes até os juízes da
cidade, fizeram uma grave denúncia contra eles. O argumento desta
acusação era que estavam perturbando a paz na cidade (o que não era
verdade, pois o fundamento de toda esta insinuação era na verdade
financeiro). Nossos irmãos foram açoitados com varas e levados ao cárcere.
4. Mas próximo à meia noite, certamente com as costas rasgadas e
sangrando, Paulo e Silas estão orando e cantando a Deus, de modo que os
outros presos ouviam. Até que sobreveio um grande terremoto e todas as
cadeias caíram, abriram-se todas as portas. O carcereiro ficou com medo
da situação, afinal, era ele o responsável pelos presos: caso algum
prisioneiro fugisse, o guarda responsável deveria morrer em seu lugar.
Quando ele já havia tirado a espada para se matar, Paulo bradou em alta
voz: “Não faça a você nenhum mal, nós estamos aqui!”. O carcereiro então
correu até Paulo e Silas e fez a melhor pergunta que um ser humano pode
levantar: “O que preciso fazer para ser salvo?”. A resposta de Paulo e Silas
é precisa: “Creia no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa!”. A Palavra
de Deus foi pregada e todos daquela casa foram salvos. No dia seguinte os
nossos irmãos seriam libertos da prisão e seguiriam em sua missão, agora
indo em direção a Tessalônica.
5. Paulo recorda-se toda esta aventura missionária ao escrever aos
irmãos. Ele diz no v. 5 que orava com alegria pois desde o primeiro dia até
agora, a cooperação da igreja com o Evangelho fora realmente marcante. A
palavra traduzida por “cooperação” (koinonia) significa o ato de partilhar
algo com outra pessoa. Essa parceria ocorre quando duas ou mais pessoas
se envolvem num mesmo empreendimento. Foi o que aconteceu a Pedro,
André, Tiago e João. Esses quatro homens eram parceiros no mesmo
empreendimento de pesca (Lc 5.3-11). Eles estavam literalmente no mesmo
barco. Isso é muito semelhante ao que Paulo compartilha com os filipenses
na obra do evangelho. Embora separados por muitos quilômetros, eles
permanecem em parceria como pescadores de homens e proclamadores da
mensagem de salvação para o mundo.

ENSINO/DOUTRINA

1. Devemos ter em nossa memória coisas boas, vividas na comunhão


do Evangelho com nossos irmãos (v. 3). Há recordações que ferem o
coração, abatem o espírito e provocam grande dor. Há reminiscências
amargas e lembranças dolorosas. Ha memorias que só trazem à tona a
desesperança. No entanto, quando Paulo volta ao passado e se lembra da
igreja de Filipos, seu peito enche-se de doçura, e a sua alma e inundada de
grande gratidão.
Devemos carregar conosco o que é mais importante, ou seja, aquilo que
produziu bem, e não o que gera amargura. Não temos o direito de guardar
mágoas uns dos outros: o ensinamento bíblico sobre o perdão é explícito
sobre o assunto.

Podemos e até devemos ter relacionamentos saudáveis com incrédulos,


mas devemos ficar muito preocupados no caso de mantermos
relacionamentos somente com incrédulos e jamais com nossos irmãos. A
igreja deve ser este lugar de relacionamentos profundos, de conversas
sérias sobre vida espiritual e de amizades realmente edificantes.
Nossas memórias sobre a igreja e das coisas que cooperamos no
trabalho do Senhor devem ser vivas recordações do favor de Deus sobre
nossas vidas e de como nos aprofundamos na comunhão com Cristo
através dos irmãos.

Este é um ensinamento claro nas Escrituras. Em Hebreus 10.25, lemos:


“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes,
façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”.
O primeiro sinal de fraqueza espiritual é abandonarmos a congregação, é
perdermos o prazer em estar com os irmãos. Precisamos nos atentar para
isto.

2. Precisamos carregar uns aos outros no coração (v. 7): Paulo


menciona que possuía uma afeição profunda pelos irmãos. A ideia da
expressão presente no v.7 é ambígua, ou seja, Paulo está nos corações dos
irmãos e os irmãos estão no coração de Paulo. o coração é a sede tanto das
disposições quanto dos sentimentos e pensamentos (ver Mt 15.19; 22.37;
1Tm 1.5). Dele procedem as fontes da vida (Pv 4.23). E o fato, por sua vez,
de que o apóstolo está afagando os filipenses em seu coração encontra sua
pronta explicação na situação sobre a qual realmente recai a ênfase, a saber,
todos vocês são participantes da graça comigo. Esses filipenses haviam
dado provas de que sua comunhão era real. Consequentemente, Paulo os
chama “meus co-participantes na graça, isto é, da operação da graça de
Deus que capacita alguém a trabalhar no interesse do evangelho, a sofrer
por ele e a dar assistência aos que o proclamam e o defendem.

3. Cultivamos relacionamentos espirituais à medida que oramos uns


pelos outros (v. 3,4): Paulo recorda-se e ora; e ora com alegria. A oração é
um atentado contra nosso orgulho e nossa autossuficiência. Desde o
nascimento aprendemos as regras da autoconfiança enquanto nos
esforçamos e batalhamos para ganhar auto-suficiência. A oração vai contra
estes valores profundamente estabelecidos. É um atentado à autonomia
humana, uma ofensa à independência do viver. Para as pessoas que vivem
apressadas, determinadas a vencer por si mesmas, orar é uma interrupção
desagradável. Enfim, a oração não faz parte de nossa orgulhosa natureza
humana. Paulo dimensiona para nós também alguns princípios que
devemos manter em nossas orações.

Ao utilizar a expressão “súplicas” no v. 4, Paulo refere-se à intercessão,


que um exercício raro em nossos devocionais. Talvez os crentes, de modo
geral, considerem a intercessão apenas uma forma de oração mais ou
menos intensificada. E, apesar da grande ênfase sobre a palavra
"intensificada", há, no entanto, duas coisas que devem ser vistas num
intercessor, as quais não se encontram necessariamente na oração comum:
identificação e agonia.

A identificação do intercessor com aqueles pelos quais ele intercede é


vista perfeitamente no Salvador. Sabemos que ele derramou sua alma até
à morte: Ele foi contado com os transgressores, carregou o pecado de todos
nós e intercedeu pelos transgressores. Como Intercessor Divino, que
intercedia por um mundo perdido, ele sorveu o cálice da nossa condição
perdida até à última gota.

Há um outro Intercessor, e nele vemos a agonia desse ministério, pois


ele, o Espírito Santo, "intercede por nós sobremaneira, com gemidos
inexprimíveis". Esse Intercessor, o único presente na Terra, o qual não
possui corações sobre os quais possa lançar sua carga, nem corpos
mediante os quais possa sofrer e trabalhar, a não ser os corações e os corpos
daqueles que são o lugar de sua habitação. Por meio deles, ele realiza sua
obra de intercessão na Terra, e esses que se dispõem a ser habitação para o
Espírito Santo se tornam os intercessores, porque o Espírito habita neles.
Ele os chama para a vida verdadeira, o mesmo tipo de vida, só que em
menor grau, que o próprio Salvador viveu aqui.

APLICAÇÃO

1. O que tem ocupado nossa mente quando ouvimos a palavra


“igreja”? Más experiências acontecem em todos os lugares (no trabalho, na
família e, inclusive, na igreja). Mas estas experiências não devem provocar
tanta aversão em nós. Afinal, lidar com outros pecadores não deveria
causar em nós tanta surpresa. O desafio divino para nossas vidas neste ano
e para o resto de nossos dias é o de trazermos à nossa memória o que nos
dá esperança. Lembremo-nos dos trabalhos realizados, do cansaço
compartilhado em equipe, dos frutos de nosso trabalho.

Se nos recordarmos apenas das coisas ruins que acontecem na igreja,


estaremos sendo ingratos com o Senhor. Deus não salva alguém e deixa
esta pessoa entregue a si mesma; antes, ele a insere em um corpo de uma
igreja local. Portanto, sejamos gratos ao Senhor por esta dádiva chamada
igreja (e aqui refiro-me à nossa igreja local).

2. Cultive amizades sólidas na igreja. Aquele tipo de amizade mais


profundo, mais espiritual possível, uma amizade de afeição e de oração.
Cultive amizades com os irmãos na igreja. Não tenha tanta pressa pra ir
embora depois do culto: tenha calma, tenha cortesia com seu irmão.
Converse sobre assuntos profundos e também sobre assuntos triviais.
Dedique sua atenção às conversas, ao nosso recreio de fim de culto. Tenho
a certeza de que isso não lhe fará nenhum mal. Compartilhe pedidos de
oração e orações. Confesse pecados. Fale de sua vida, coisas boas e ruins.
Relacione-se. Servimos a um Deus relacional: Pai, Filho e Espírito Santo;
ele relaciona-se com os homens por meio de Cristo. Relacione-se, pergunte
nomes, sobrenomes e endereços dos irmãos.
3. Desenvolva a atitude de intercessor. Ore pelos nossos irmãos Pb.
Ricardo (problema sério de saúde), Dc. José Carlos (câncer nos ossos), pelo
Sr. Raimundo (avô da Jéssica), pelo irmão Jairo, pelo Pb. João Eugênio, pelo
Sr. José Luis (pai da Kátia). Seguimos firmes em oração por estes irmãos e
também por nossa congregação. Estamos em um tempo de mudança e elas
provocam um pouco de desconforto e apreensão. Deus é o dono de Sua
igreja, portanto, confiemos a Ele nossas vidas e nosso futuro. Ore pelos
trabalhos com crianças, adolescentes e jovens, com irmãs, pela EBD, pelo
nosso culto de quarta-feira. Ore para que Deus nos abra portas na
evangelização! Ore por nossos projetos! Ore para que o Senhor nos oriente
nas decisões que precisaremos tomar juntos!

Conclusão
Moisés foi um dos maiores intercessores que a História registra. Em Êxodo
32.32, Moisés intercedeu tão intensamente a ponto de colocar em jogo sua
própria vida: “Mas agora, eu te rogo, perdoa-lhes o pecado; se não, risca-
me do teu livro que escreveste”. Mais tarde, como resultado de tanto estar
diante de Deus, quando Moisés se apresentou diante dos homens, o seu
rosto resplandecia (Êxodo 34.29-35). Quem mais ganha na intercessão é o
próprio intercessor, porque está em comunhão com Deus.
Soli Deo Gloria