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VIVENDO POR MODO DIGNO

Leitura Bíblica: Filipenses 1.27-30

Introdução

Acho que já não é nenhum spoiler contar a história que acontece em um


filme que foi lançado há quase um ano e fez grande sucesso. Uma das cenas
mais impactantes do filme Vingadores: Ultimato foi o momento em que
um dos personagens enfim demonstra sua capacidade em erguer e
empunhar o Mjolnir, que é mais conhecido como o “martelo de Thor”.

A arma foi, segundo universo Marvel, forjada no coração de uma estrela


pelos lendários anões ferreiros. Um dos encantamentos do equipamento
seria de que somente alguém digno poderia empunhá-lo; caso o indigno o
tentasse fazer, isto seria impossível, pois o martelo se tornaria mais pesado
do que o mundo inteiro.

Quem teve a experiência de assistir o filme em uma tela de cinema, por


exemplo, deve ter vivenciado a sensação de ver a plateia comemorando
quando o Capitão América o utiliza na batalha contra Thanos. Eu mesmo
me lembro de ter pensado comigo: “Que legal! O Capitão América é
digno!”.

Dignidade é um conceito que tem a ver com preço, com valores. A ideia
presente na expressão é a de “causar balanço”, “provocar equilíbrio”. Para
compreendermos bem esta ideia, precisamos nos lembrar daquelas
balanças de dois pratos, onde de um lado são colocados os pesos
(geralmente de metal) e do outro são colocados os materiais que deverão
ser pesados. Paulo está comparando o evangelho e o nosso modo de viver,
que deve ser digno (ou seja, coerente) em relação ao evangelho que temos
recebido.

Amados filipenses, diz ele àqueles crentes, vejam que a conduta de vocês
seja pertinente, seja condizente com o caráter que vocês se arrogam como
cristãos; que a sua conduta combine com o que vocês alegam que são. Que
se ajuste ao designativo que vocês assumiram sobre vocês, que se conforme
ao tipo de pessoas que vocês dizem que são, e que as outras pessoas
pensam que vocês são.

EXPOSIÇÃO

1. Uma expressão chave para o entendimento do texto não aparece tão


claramente no texto em português do v. 27: a palavra politeuomai, que
significa ser cidadão. Em nossas versões ela é representada pelo verbo
“vivei”. Paulo está dizendo aos irmãos que eles, mais do que cidadãos
romanos ou cidadãos filipenses, eles possuem uma cidadania superior a
estas: eles são cidadãos do reino celestial. Este é o Reino que Cristo promete
no evangelho, o reino que jamais será abalado. Nos dizeres do que lemos
no profeta Daniel: “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais
destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos
estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2.44). Nas
palavras registradas pelo profeta Isaías: “O governo deste reino está sobre os
ombros daquele cujo nome é: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da
Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). É o Reino de Deus, do qual fazemos
parte; um reino inabalável: “Portanto, já que estamos herdando um Reino
inabalável, sejamos agradecidos e, desse modo, adoremos a Deus, com uma
atitude aceitável, com toda a reverência e temor” (Hb 12.28).
Ser cidadão deste reino consiste em ter responsabilidades e direitos. A
implicação é que nosso modo de viver deve ser coerente com aquilo em
que cremos; caso contrário, seremos uma contradição ambulante. Os
filipenses precisam viver de modo coerente com o evangelho “para que,
quer eu vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que
permaneceis firmes” (Fp 1.27b). Em outras palavras, quer ele esteja
presente com eles, quer esteja ausente, eles devem viver da mesma
maneira. Paulo deixa claro que o fato de atualmente não estar com eles não
lhes dá permissão para relaxarem em seu viver cristão. Eles não poderiam
usar o afastamento dele em Roma como desculpa para uma vida espiritual
abaixo do padrão. Deus está sempre presente com cada crente, quer eles
sejam observados por outros, quer não. Todos os crentes devem viver do
modo que Deus exige, independentemente de quem esteja ausente ou
presente.

2. Há quatro elementos que descrevem o que é viver dignamente o


evangelho:
A. Firmeza na unidade: “A unidade que está em vista aqui é a de
empreender um esforço conjunto ou lutar lado a lado, como gladiadores,
contra um inimigo comum” (William Hendricksen). Semelhantemente, o
cristão deve permanecer firme em face da oposição espiritual. Os inimigos
de Deus vão atrás do soldado mais fraco de seu exército. Se os inimigos de
Deus puderem derrotar o soldado mais fraco, conseguem uma ponte para
penetrar na igreja e causar uma derrota devastadora. Tanto individual
quanto coletivamente, os filipenses não devem se afastar de sua lealdade
ao evangelho, mas precisam permanecer firmes na fé, ancorados na
verdade do ensino dos apóstolos. Quando se defrontam com o erro e o
pecado, não devem vacilar nem recuar. Quando perseguidos e oprimidos,
não devem dar meia-volta e fugir de seu testemunho cristão. No meio de
uma guerra espiritual, precisam permanecer irredutíveis no evangelho.
B. Luta em conjunto: Temos uma batalha em comum, a saber, a
fé evangélica. Aqui não se trata da fé de uma religião, mas do nome do
evangelho. Somos conclamados a lutar pela mensagem que Cristo trouxe
ao mundo e nos ordenou proclamar. Paulo fala aqui de nossa luta contra
aqueles pensamentos contrários ao evangelho de Cristo. Estamos ligados
uns aos outros pelo Evangelho, o que torna nossa identidade comum e
nossa batalha comum. Era visando o avanço dessa fé que Paulo ordenava
agora aos crentes filipenses que lutassem juntos, resguardando sua pureza
e propagando o seu poder de salvação entre os homens, preservando sua
própria existência em um mundo hostil, que haveria de perseguir aos seus
seguidores. Isso pode ser confrontado com as palavras de Judas 3, onde se
lê: “a batalhardes diligentemente pela fé”, onde se aprende que essa forma
de defesa do evangelho precisa ser incluída no sentido do versículo
presente.
C. Não estar intimidado: No grego, a palavra aqui traduzida por
“intimidados” é pturo, que significa “aterrorizado”, “assustado”, e que
ocorre exclusivamente aqui em todo o NT. Essa palavra evidentemente se
desenvolveu da ideia do terror sentido por um cavalo assustado. No
original grego temos antikeimenon, palavra que indica aqueles que “fazem
oposição”, “inimigos”, embora o presente texto não defina com clareza de
quem se trata. Talvez fossem judeus que encorajavam as autoridades
romanas a perseguirem a igreja cristã; poderiam ser os próprios pagãos; ou
poderiam ser “judaizantes”, dentro da própria igreja cristã, que se
opunham aqueles que favoreciam a Paulo, em sua doutrina e seus
métodos. Porém, o fato que Paulo baixa julgamento contra eles, e bastante
para mostrar-nos que, bem provavelmente, ele tinha os pagãos em mente,
tal como aqueles que aprisionavam e martirizavam aos discípulos de
Cristo. A perseguição movida pelo mundo e que é salientada aqui, como
motivo que pretende assustar a igreja; pois é um instinto humano comum
tentar a preservação da própria vida e do próprio bem-estar. Quando essas
coisas eram aconteciam, muitos elementos cristãos se deixavam arrastar
pelo medo e se submetiam as pressões dos adversários.
A. Crer e padecer por Cristo: A fé subentende união com Cristo,
pois é por intermédio da fé que todas as bênçãos divinas nos são
concedidas. Essa mesma união com Cristo, entretanto, requer que
soframos juntamente com ele por ele, porquanto Jesus de Nazaré foi
perseguido neste mundo, e nós precisamos seguir seus os passos. Ora, o
mundo perseguiu a Cristo e nos persegue porque as trevas odeiam a luz,
porque a iniquidade faz oposição à retidão, porque o mal procura destruir
o bem; e isso nunca muda. Assim sendo, quando alguém está em união
com Cristo, necessário é que sofra. Portanto, o sofrimento torna-se prova
de nossa correta posição diante de Deus; e isso pode ser encarado como
um dos dons de Deus. O sofrimento do crente e visto como prova de sua
união com Cristo, o que quer dizer que os crentes podem ser consolados
em meio as provações. O sofrimento e o presente de casamento que os
crentes recebem ao serem unidos a Cristo; o suprimento abundante
quando são alistados em seu serviço; o dom, contudo, não é o sofrimento
como tal. Seu significado e valor dependem do fato que tal sofrimento e
‘por causa de Cristo’. As igrejas da Macedônia e a igreja dos filipenses
eram, proeminentemente, igrejas sofredoras.

ENSINO/DOUTRINA

1. A vida cristã não pode ser separada da comunhão com os irmãos:


O movimento, que tem sido chamado por alguns teólogos de desigrejados,
não é amorfo. Pelo contrário, é organizado. Possui literatura, sites e toda
uma teorização que procura justificá-lo teologicamente, e sua performance
tem chamado atenção da imprensa cristã e secular. Há pessoas
decepcionadas com algumas igrejas, por conta de falhas em suas
lideranças, fraudes em suas estruturas organizacionais (corrupção
financeira e abuso de poder parecem ser as mais sérias acusações). Estas
acusações às vezes são legítimas, mas não podem se constituir como
argumentos válidos para deixarmos de congregar. O ensinamento bíblico
é evidente no sentido de que ao sermos salvos, o Senhor nos insere em uma
comunidade de fé. Congregar não é uma questão de preferência pessoal,
mas um mandamento bíblico. No entanto, congregar não é
necessariamente fazer parte de uma denominação evangélica, nem ir a um
edifício religioso (que alguns ainda chamam de templo). Para que alguém
congregue nos moldes fixados pela Bíblia é necessário que a pessoa se
associe "formalmente" a uma igreja local, não sendo mero frequentador,
antes, deve se identificar com os demais discípulos e participando dos
ideais, desafios, alegrias e lutas da comunidade. É necessário que esteja sob
uma liderança eclesiástica constituída por pastores, diáconos e outros
líderes que lhe deverão oferecer ferramentas para sua edificação espiritual.
É também preciso que detecte os dons espirituais que o Espírito Santo lhe
deu e os coloque a serviço do corpo de que é membro, visando o
aperfeiçoamento de todos. É ainda fundamental que celebre a Ceia do
Senhor em plena comunhão com os seus irmãos, anunciando a morte do
Senhor até que ele venha, conforme Paulo ensinou (1Co 11.23-34). Também
precisa participar de processos disciplinares, admoestando irmãos que
estão em pecado e participando de reuniões dolorosas em que os
impenitentes são expulsos da igreja na busca de pureza (1Co 5.1-13). Isso
sem falar no seu dever geral de observar como "comportar-se na casa de
Deus, que é a igreja do Deus vivo" (1Tm 3.14). Todas essas coisas (e
algumas outras) compõem a vida eclesiástica nos padrões encontrados no
NT. Por isso, para realmente "congregar" é preciso que o crente participe
disso tudo.
2. Devemos estar prontos para lutar por nossa fé: Lutar por nossa fé
não significa que precisamos empreender novas Cruzadas, onde
imporíamos à força nossas crenças, mas de saber defender nossa fé em
Cristo dos ataques internos e externos. Tem a ver com conhecer o que
cremos e estar disposto a ir até as últimas consequências em nome desta fé.
Nossos irmãos no passado assim viveram; o próprio apóstolo Paulo
conviveu em um contexto onde ser cristão era sinônimo de precisar
batalhar. Tomemos toda a armadura de Deus para que possamos suportara
o dia mau e vencer. Temos que estar cingidos de justiça, capacitados na
pregação do Evangelho, tomar a espada do Espírito, embraçar o escudo da
fé. Nossa luta por nossa fé não é uma batalha intelectual, mas espiritual.
3. Somos chamados não somente para crer, mas também para sofrer
por Cristo: O sofrimento sempre foi uma característica do verdadeiro
cristianismo. Sofrer por causa de Jesus a um grande privilégio (veja Mt
5.10-12; At 5.41).
Paulo novamente se coloca como um exemplo daquele que tem
mantido sua alegria enquanto vive seu combate (ou seja, a oposição por
parte de descrentes hostis). Paulo faz uma explanação teológica do porquê
da perseverança deles em meio às adversidades ser prova de Deus de que
eles estão no caminho da salvação. Com certeza, os filipenses já poderiam
ter se sentido tentados a pensar justamente o contrário. Eles poderiam
concluir que sua situação atual e sofrimento seriam evidências de que Deus
se desagrada deles. Mas, não é esse o caso, por essa razão: porque (hoti) o
sofrimento por Cristo faz parte da atividade graciosa de Deus em suas
vidas em comunidade.
APLICAÇÃO

1. Esteja em comunhão com a igreja local: Estejamos conectados uns


aos outros no amor de Cristo. Envolva-se com uma igreja local, participe
de seus trabalhos, seja um membro frequente, assíduo. Colabore com os
departamentos, compareça também com seus dízimos e ofertas. Há várias
oportunidades de trabalho em nossa congregação, para que você utilize
seus dons a serviço do Reino. Quero deixar duas palavras: uma àqueles
que ainda não são membros e outra àqueles que já o são:
A. Aos que não são membros: O que você está esperando para tornar-
se um membro? A maioria das pessoas nas sociedades ocidentais enquadra
as igrejas dentro da mesma categoria dos clubes de futebol ou das
organizações de caridade. “Igrejas são mais um tipo de associação
voluntária”, dizemos. Ou então consideramos as igrejas um prestador de
serviços, uma espécie de mecânico que conserta sua alma ou um posto de
gasolina que abastece seu tanque espiritual. Mas será que as igrejas locais
são clubes ou prestadores de serviços que existem por permissão do
Estado, sendo mais um suplicante que depende da misericórdia do senhor
da terra? Entretanto, algo deve ficar absolutamente claro para um cristão:
a igreja local não existe por permissão do Estado. Ela existe por autorização
expressa de Jesus; afinal, Jesus, não o Estado, detém o império.
Começaremos dizendo o que a igreja não é. Se você é um cristão, a igreja
local não é um clube. Não é uma organização voluntária em que a adesão
é opcional. Não é um grupo amigável de pessoas que compartilham
interesses em questões religiosas, por isso se reúnem semanalmente para
falar sobre o divino. Tampouco a igreja é um órgão prestador de serviços
em que os clientes têm toda a autoridade. É irônico nos referirmos aos
“serviços” da igreja (sim, eu também faço isso). Conforme já disse, é como
se estivéssemos dizendo às pessoas para ocupar uma vaga no
estacionamento da igreja às 19h e se servirem: “Equilibre sua alma em
sessenta minutos!” O que é a igreja local? Direi a seguir algumas coisas
para responder a essa questão, mas deixe-me começar aqui: a igreja local é
a autoridade na terra que Jesus instituiu para afirmar e dar forma
oficialmente à minha e à sua vida cristã.
A. Aos que já são membros: Envolva-se ativamente com as atividades
na igreja. Longe de nós pensarmos e cobrarmos de alguém um
envolvimento integral, 24h por dia com as atividades eclesiásticas. O que
precisamos realmente e biblicamente é compreender o verdadeiro papel da
membresia a igreja, pelo menos fazer parte dela. Um membro de igreja,
consequentemente, é alguém que é formalmente reconhecido como um
cristão e parte do corpo universal de Cristo. Isso não quer dizer que a igreja
sempre acerte, mas esse é seu trabalho: identificar e legitimar quem
pertence e quem não pertence ao reino. Os cristãos não se associam às
igrejas; eles se submetem a elas.
2. Disponha-se a aprender e a defender sua fé em Cristo: Como você
tem se portado na cidade dos homens? Como você tem exercido sua
cidadania celeste? Você tem cedido às pressões e valores seculares ou você
independente do que aconteça tem vivido os valores da cidade de Deus?
Paulo, no verso 29 deste mesmo capitulo 1 de Filipenses nos diz: “pois a
vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de
sofrer por ele”. Sofra pelo evangelho e viva na contra mão da cultura para
que a glória da cidade de Deus se manifeste na cidade dos homens. Viva
como o salmista ensina, não siga o conselho dos ímpios, não imite suas
condutas, não se assente com os zombadores de Cristo, antes tenha na Lei
do Senhor a sua satisfação. Não importa o que o mundo fala sobre a fé
evangélica, não importa o quanto os falsos mestres e pastores “maculam”
a pessoa de Jesus Cristo, toda vez que você vive o evangelho de forma
digna, o nome de Jesus Cristo é exaltado e glorificado. Em tempos de redes
sociais, lutar pela fé evangélica vai muito além das disputas teológicas e
denominacionais, lutar pela fé evangélica em nossos dias é, pela unidade
no Espirito, sermos cidadãos dignos por vivermos na cidade dos homens
os valores da cidade de Deus.

Conclusão

“Jesus tem muitos seguidores que desejam consolo, mas poucos que
suportam a aflição. Ele encontra muitos querendo compartilhar suas
refeições, mas poucos que participam do seu jejum. Todos querem ser
felizes ao lado dele, poucos desejam sofrer com e por ele. Muitos o seguem
para o partir do pão, mas poucos desejam beber do cálice do seu
sofrimento.

Muitos reverenciam seus milagres, poucos se identificam com a vergonha


da sua cruz. Jesus tem sempre muitos seguidores que amam o Reino
Celestial, mas muito poucos que carregam e vivem a sua cruz” (Tomás de
Kempis).

Soli Deo Gloria