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O que lembrar e o que esquecer: Uma leitura da memória em A Materna doçura (1998), de

Possidônio Cachapa

Dênis Moura de Quadros1

“O passado é sempre conflituoso” (SARLO, 2007) já nos alerta Beatriz Sarlo na


introdução de seu ensaio teórico Tempo passado: Cultura da memória e guinada subjetiva
(2007), a escritora e crítica argentina, fala que esse passado assombra aqueles lhes portam,
rondando esses sujeitos e aguardando um momento para irromper. Nem sempre lembrar é, na
leitura de Sarlo, algo positivo, pois esse reaparecimento do éikon2 abre, outra vez, as feridas
dessa memória traumática. Sendo assim, analisaremos a obra A materna doçura sob a
perspectiva da memória, sobretudo a traumatizada, enfatizando as passagens em que Sacha G,
o protagonista do romance, utiliza da escrita para esquecer uma parte de sua vida na França
em que vagara pelo submundo francês.
Possidônio Cachapa (1965- ) nasceu em Évora, Portugal. Forma-se em Estudos
Portugueses, em Lisboa, e após de formado vive seis anos na Suíça. Possui uma extensa lista
de obras publicadas entre elas romances, contos e crônicas. A primeira publicação de A
Materna doçura é de 1998 ganhando uma segunda edição em 2004. A obra é estruturada em
três partes: “As múltiplas caras do ventre”, subdividido em doze capítulos; “A minha mãe é
uma flor de Inverno”, subdividido em onze capítulos; e “A conclusão socrática”, subdividido
em doze capítulos. O enredo não é linear e nem se encerra em Sacha, abrindo espaço para
sabermos a vida do Professor, José Augusto e de Marguerite de Lys e seu filho com Sacha. Os
primeiros capítulos apresentam Sacha preso, os outros são in media res, encerrando com a
união das pontas: com Sacha livre encontrando seu filho.
As memórias, segundo Paul Ricoeur (2007), se orientam de duas formas: como
anamésis (memórias que passam por um trabalho de rememoração, de busca) e mnémé
(memórias que irrompem). Na obra percebemos o predomínio da mnémé como é o caso da
primeira descrição memorialística do romance. Sacha vai preso e é “salvo” por Sr. Vital,
presidiário que possui privilégios dentro da cadeia e que assistira a um filme produzido por
Sacha. Já nesse primeiro momento percebemos uma tripartição do (sub) mundo: “na cadeia
não há ladrões. Apenas Fortes e Fracos. E uma terceira categoria à qual ele estava quase a
1
Doutorando em Letras, área de concentração História da Literatura, pela Universidade Federal do
Rio Grande- FURG. E-mail: denis-dp10@hotmail.com
2
Ausente presente discutido por Platão e resgatado por Paul Ricoeur em Memória, história,
esquecimento (2007) para discorrer teoricamente acerca da fenomenologia da memória.
pertencer: os Protegidos.” (CACHAPA, 1998, p. 17). Sacha está no rol dos protegidos de
Vital, que recorda, dialogando com Sacha de quando seu pai fora morto e escondido no poço.

Mãe e filho abraçados, viram-no consumir-se aos gritos, cada vez mais negro
e disforme. Agradecidos por a casa ser longe das outras,amarram-lhe um
saco de pedras aos pés e mandaram-no para dentro do poço. Só descansaram
quando o jovem Vital mandou tapar de pedras o buraco infecto, inutilizado
pela chegada da água canalizada. A quem perguntava pelo pai, mandavam
dizer que se tinha pisgado com uma galdéria e que nunca mais dera notícias.
(CACHAPA, 1988, p. 18)

Essas memórias irrompem, surgem, não são buscada caracterizando nmémé e, além
disso, elas surgem voltadas à figura materna. Vital recorda a morte de seu progenitor que,
certa noite, fora pego por Vital violentando sua mãe. Em uma ação embebida no ódio, ele com
7 anos de idade, e, sobretudo, com complexo edipiano em curso, o filho bate em seu
progenitor com a lamparina. Essa ligação que Vital mantêm com a figura materna,
corroborada pela lembrança da morte do pai, são os “fios” que conduzem a memória no
romance de Cachapa. Outro aspecto interessante da obra do escritor português contemporâneo
são as inúmeras lacunas no enredo como, por exemplo, o porquê de Vital ter sido preso e/ou
como ele conseguira alcançar seu atual status dentro da prisão.
Tal como a memória que irrompe, a narrativa de Cachapa faz vários desvios como o
que ocorre já na primeira parte. O foco narrativo fica entre Sacha e José Augusto, mais
conhecido como Professor. Após, Sacha e Professor convivem durante um tempo estreitando
laços paternos até, enfim, a morte do Professor. Ainda, ele se desprende de ambos para
focalizar Marguerite e seu filho com Sacha, Le Petit Lapan, após a separação dramática de
ambos. A relação entre Sacha e o Professor é construída no romance por meio de encontros e
desencontros, mas desde o primeiro, em Falésias do Mar, em que Sacha fora passar suas férias
com a mãe Gracinha e seu atual padrasto Waldemar Guimarães.

O rapaz olhou para ele um breve instante, antes de baixar a cara e enxugar o
nariz à mão. Mas nessa fria fracção de segundo ele soube que o choro não
vinha de alguma queda fortuita, ou briga com outro. Era coisa de briga
consigo e queda profunda. (CACHAPA, 1998, p. 63)

Desde então, eles se encontram outras duas vezes: Uma no tribunal, assim que Sacha é
preso por matar Waldemar à dentadas, e no seu reencontro na França, quando Sacha vira
morador de rua. Sacha e o Professor compreendem, pela primeira vez, o significado das
palavras “pai” e “filho”. Essa relação, apesar de manter fortes laços de afeto, é rompida
constantemente, principalmente por Sacha. O segundo reencontro é o que estreita ainda mais
os laços: Waldemar Guimarães havia assassinado Gracinha em um acesso de ira na frente de
Sacha. O menino, já adolescente, não aceita a morte da mãe e, então, mata seu padrasto a
dentadas, a polícia conta que fora preciso muita força para separar o menino do corpo morto
da mãe. O Professor, advogado reconhecido por defender os que não tinham como pagar,
reconhece os “Olhos azuis” de Sacha.

Foi só quando viu o corpo, agora mais longo, mas mesmo assim enfezado, a
cruzá-lo no corredor do tribunal, os olhos azuis e sem expressão a contar as
lajes do pavimento é que soube afinal a História lhe estava destinada desde o
princípio. (CACHAPA, 1998, p. 81)

Essa marca dos “Olhos azuis” será recorrente no romance de Cachapa, inclusive como
forma de comprovar que o menino nascera com sorte. Seus olhos azuis serão o atrativo que
lhe concederam algumas “ajudas” ao longo da sua vida, em especial, quando estive em solo
estrangeiro, na França. Esse segundo reencontro é marcado pelo silêncio de Sacha, pelo luto
fechado, pela tristeza que se arrasta e o arrasta. O Professor tenta defender Sacha, mas o
tribunal é inflexível acerca do futuro do menino, só há uma possibilidade para que Sacha, o de
olhos azuis, seja liberto: Que José Augusto se responsabilize por ele, e assim acontece. Esse
(re) encontro entre Sacha e o Professor é marcado pela ferida que ambos carregam: a falta de
uma figura maternal. O tempo só reforça os laços que já tinham sido construídos entre os dois
no primeiro encontro em Falésias do Mar, local de memória que será marcado por outro
encontro, dessa vez entre Sacha e seu filho francês.
Tal luto pela figura ausente da mãe, o objeto faltoso freudiano, é compartilhado e
compreendido pelo professor pela morte de Munanga, sua mãe. Contudo, esse luto
compartilhado não é encerrado, mas transforma-se em fantasma que assombra ambos: Sacha e
Professor:

-Mãããããeeee...!
Esse grito rouco apanhou o Professor desprevenido. Vieram-lhe de novo à
memória as noites em que chamava pela mãe, mas só Munanga respondia ao
apelo. Até que se habituou e meteu a figura da sua amiga negra no lugar da
pálida mãe. (CACHAPA, 1998, p. 83)

O luto que gera esses fantasmas é objeto de pesquisa, em especial, do casal austríaco
Nicolas Abraham (1919-1975) e Maria Törok (1925-1998) que reatualizam os estudos de
Sigmund Freud (1856-1939) e Sádor Ferenczi (1873-1933). Esse luto indizível de Sacha e os
constantes sonhos com sua mãe, inclusive após a morte do Professor, geram esse fantasma
que só encerra seu ciclo de ritos exigidos quando Sacha consegue gravar os filmes do seu
projeto “Pornografia Maternal”.

O luto indizível instala no interior do sujeito uma sepultura secreta. Na furna


repousa, vivo reconstituído a partir de lembranças, de palavras, de imagens e
de afetos, o correlato objetal da perda, enquanto pessoa completa, com sua
própria tópica, bem como os momentos traumáticos – efetivos ou supostos –
que haviam tornado a introjeção impraticável.Criou-se, assim, todo um
mundo fantasístico inconsciente que leva uma vida separada e oculta.
Acontece, entretanto, que, por ocasião das realizações libidinais, “à meia-
noite”, o fantasma da cripta vem assombrar o guardião do cemitério,
fazendo-lhes sinais estranhos e incompreensíveis, obrigando-o a realizar atos
insólitos, infligindo-lhe sensações inesperadas. (ABRAHAM; TÖROK,
1995, p. 249)

Esse fantasma é originado da morte de Gracinha, mãe de Sacha, e de Munanga, quem


ocupa o papel de mãe para o Professor, que ocorreram de formas semelhantes, pois ambas
foram abruptas. Sacha é proibido de ver a mãe, de ir ao seu enterro, ele não a vê mais após a
cena de fúria que mata o padrasto a dentadas. O professor defende as prostitutas do Túlipa
Negra como forma de agradecer os cuidados de Munanga que lhe pede que assuma o caso, ela
ainda se despede do Professor, mas a lembrança da mãe não é totalmente sublimada e retorna
sempre que Sacha sonha com sua mãe. Em ambos, o trabalho de luto não se encerra, ele, ao
contrário, não é externado, nem chorado, é um luto indizível ou luto seco que cria esses
fantasmas que exigem ritos cada vez mais complexos ao “cuidador” dos jazigos.
A presença das personagens femininas é ligada às figuras da mãe, a primeira, como já
vimos, é a mãe de Vital e sua obsessão maternal transfigurada no filme Rosa, minha mãe
Rosa que o faz recordar da época em que descansava a cabeça no colo da mãe. A segunda é
Munanga, uma africana que crescera como criada em Portugal e que após desentendimento
na sua primeira “família” fica desempregada. Após trabalhar como emprega doméstica no
bordel Túlipa Negra vai trabalhar na casa da mãe do Professor, dona Augusta, onde cozinha
um caldo que revigora o pequeno José Augusto. A mãe de Sacha, Gracinha, é mãe solteira e
sonhadora que busca, de forma incessante, alguém para ocupar o lugar de pai de Sacha, nessa
busca encontra seu assassino Waldemar Guimarães. Ainda, a Mimi, Mireille, quem recebe
Sacha na França, também mantêm algumas relações maternais com Sacha. Ainda na França, a
primeira namorada de Sacha, Martine, é a primeira inspiração para a pornografia maternal.
Essa primeira semente aparece quando Sacha organiza um desfile para a apresentação de
roupas do costureiro Villeneuve. Martine tinha o sonho de ser modelo, contudo, era obesa o
que fazia com que a rejeitassem. Já como diretor, Sacha encontra Natasha que abortou o filho
o encontra representado D. Martinho que não teve mãe. Ambos são os primeiros atores do
ciclo de filmes da pornografia maternal. Por fim, a figura de Marguerite de Lys, encerra o
ciclo materno do romance, ela mãe de Le Petit Lapan, ex-esposa de Sacha e responsável pela
sua queda no submundo francês.
Essas figuras maternas operam no romance como “gatilhos” que fazem irromper as
memórias. Vital recorda de sua mãe ao assistir Rosa, minha mãe Rosa e, conversando com
Sacha, recorda da noite em que com 7 anos matara o pai. O Professor recorda das noites em
que acordava febril chamando por sua mãe e só Munanga aparecia quando Sacha irrompe de
seu sonho gritando pela mãe. O primeiro filme da pornografia maternal, A materna doçura,
Natasha contracena com D. Martinho, ela que abortara seu filho para ser aceita pelo pai e é
presa por esse ato, ele que nunca teve mãe ou alguém que ocupasse o espaço da figura
materna, ambos se encontram e se completam pelo objeto faltoso.

Fade in/ fade out: Escrever para esquecer

Dos textos platônicos, Ricoeur (2007) retoma o conceito de éikon, fenômeno da


presença de algo ausente que não é mais o que era. Para essa compreensão, Platão utiliza a
metáfora do bloco de cera, um bloco interno que varia de espessura, densidade, etc. de pessoa
para pessoa. Esse bloco, também, serve para discutir o esquecimento como algo que não se
encaixa e se perde, como uma pegada. Esse ausente, éikon, colocado em oposição ao
phantasma toma as vias de uma imagem semelhante, enquanto que a imagem fantástica não
se assemelha. Mas será que é possível “exorcizar” esse fantasma através da escrita? É essa a
tentativa de Sacha quando encontra no submundo uma caderneta em que registrará seus dias,
como ele afirma, no inferno.
O fim do relacionamento entre Sacha e Marguerite de Lys não ocorre de forma
abrupta, ele é avisado pelo sogro de que a filha não é/está feliz com o relacionamento, detalhe
que ele não percebe. Abrupta é a cena em que Sacha chega no apartamento do casal e
encontra Marguerite com seu chefe na cama. A cena é tão impactante para Sacha que ele
apenas desce as escadas e vai para o metrô buscando qualquer lugar, ele, também, não retorna
para buscar as roupas no apartamento e acaba descendo uma escada que não o leva para um
lugar melhor e, ao que parece, também não é o metrô. A caída é vertiginosa, mas apresenta
círculos em que em cada um Sacha perde algo de importante. Começa perdendo sua esposa,
depois perde sua identidade e, gradativamente, vai perdendo sua humanidade, mas o que lhe
faz resistir como sub-humano e não bicho são as memórias ou o pouco que lhe resta delas.
Quando, então, toma lucidez de quem ele é, escreve ao pai deixado de lado em nome da
aventura.

Dormi num recanto da parede. Acocorado como bicho. Um gamo ferido,


dobrado sobre si mesmo. (...) A certa altura, alguém me segurou a mão. Só a
secura do gesto me impediu de dizer “Mãe”. A mesma mão tateou-me os
bolsos e levou-me a carteira com todos os meus cartões e dinheiro. Acordei,
assim, horas depois sem numerário nem identidade (CACHAPA, 1998, p.
143).

A figura materna é um fantasma que ronda Sacha, mas é, também, sua tentativa de
fuga da crueldade do mundo ou da desumanidade. A perda da identidade tem duplo
significado, ela representa o documento, roubado junto de sua carteira, e perda da sua
identidade, marcando o início de sua degradação. Essa degradação é, também, marcada no
início da descrição de Sacha que dormira “como bicho”. Se na cadeia ele compreende que há
três grupos definidos: os fortes, os fracos e os protegidos, no submundo ele também
compreende esse substrato classificando-se como sub-humano e como rato de sarjeta. Sacha,
devido a perda da esposa Marguerite cai no que ele chama de “buraco” e, resgatando as visões
dantescas afirma que: “A minha descida aos infernos fez-se pelas escadas. E possivelmente
sem qualquer bilhete.” (CACHAPA, 1998, p. 146), escadas que o levam para o mais fundo
não apenas do metrô, mas também de si.
Envolto pelos moradores do subsolo, Sacha se depara, ainda, com sujeitos mais
desumanizados do que ele, sujeitos que roubam inclusive os “moradores do subsolo”: os
drogados. Ele, como forma de fugir do frio e de poder tornar a realidade menos dura ou mais
palpável, passa seus dias bebendo. “E foi assim, quase sem me dar conta, num entorpecimento
de álcool e frio crescente, que me tornei sub-humano. E que esqueci, por muito tempo, o
nome dos que me amaram” (CACHAPA, 1998, p. 148). Essa é uma das formas de sobreviver
e, talvez, preservar o que ainda resta de humano nele. Além de querer esquecer toda essa fase,
Sacha utiliza a bebida como forma de esquecer, como forma de atenuar sua queda, mas,
mesmo assim, consegue refletir sobre seus pares, sobre a comunidade subterrânea.

Existe, de fato, uma comunidade subterrânea. Um povo com uma cultura


diferente, que guarda da vida dos outros homens uma lembrança vaga. Um
povo de gente suja e malcheirosa, de todas as idades e raças. Não têm credo
nem religião. Ou antes, sim: a da Sobrevivência. Fazem o que for preciso
para adorar esse deus. Tudo o resto não passa de uma névoa indistinta.
Quando digo isto, assim, parece que só agem- só agimos- por necessidade.
Mas não é verdade. E se a princípio roubamos o casaco imundo de um ébrio
porque o frio nos está a comer o corpo vorazmente; ou mergulhamos no
caixote do lixo do restaurante e retiramos de lá um pedaço de rosbife quase
intacto, depois, é mais do que isso. É uma coisa que nos pega aos hábitos.
Continuamos a roubar e a forçar, mesmo com a barriga cheia. Apodera-se de
nós o instinto de rato da sarjeta. (CACHAPA, 1998, p. 150)

Será que eles podem falar? Quando falam alguém lhes ouve? Suas lembranças são
validadas? A desumanização a que passam não relembram a desumanização do genocídio do
povo judeu na Segunda Grande Guerra cujas lembranças são legitimadas? Cachapa (1998)
não questiona essas lembranças e esse testemunho, mesmo que ficcional, mas nos deixa a par
para pensarmos e inferirmos que essa comunidade subterrânea existe e que os motivos que os
levam a essa vertiginosa queda nem sempre ocorrem pelo vício de alguma droga, ilícita ou
lícita, mas principalmente de estrangeiros que perdem suas “identidades”, seus referenciais
em solo estranho e hostil. Retomo o questionamento de Ricoeur (2007) ao refletir acerca dos
escritos de Primo Levi ao pensar se é mesmo possível testemunhar a monstruosidade em grau
superlativo. A pergunta não tem uma resposta, é mais uma aporia acerca da memória e do
esquecimento, mas Cachapa traz as lembranças de Sacha entrecortadas com a narrativa do que
acontece com o Professor ainda em Portugal. Como descrever ou testemunhar o monstruoso
de forma fluída? Não é possível, é preciso tempo e distanciamento para que o leitor consiga
compreender a queda, ler um testemunho monstruoso advindo de um processo de
desumanização não pode ser um “grande soco” e, dessa forma, Cachapa nos traz “doses
homeopáticas” da queda e desumanização de Sacha.
Assim, as partes destacadas em itálico que “testemunham” e reverberam essas vozes
da comunidade subterrânea são comparadas com outro genocídio, amplamente divulgado e
recordado: aquele que instaura e legitima a “literatura de testemunho”. Assim, Sacha recorda
de uma senhora que lhe coloca 100 francos nas mãos, questiona o porquê dele estar ali e não
procurar emprego e então retira a nota de sua mão e critica os moradores de rua classificando-
os como apátridas que deveriam ser eliminados e sugere o uso da câmara de gás. Acerca da
memória traumática que Ricoeur (2007) afirma ser ela a mais rememorada, Sacha faz questão
de afirmar que não recorda de todos os dias, mas de pequenos lapsos de memória. Sendo
assim, a personagem ficcional de Cachapa não pode ser classificada como “testemunha”,
apesar de conseguir ser salvo, mas, utilizando a classificação de Primo Levi (2004), é um
afogado, visto que a queda vertiginosa bate em uma profunda pedra.
Não lhe vou falar muito do que foi a minha vida durante estes anos, porque
nem eu próprio tenho consciência (no sentido mais literal do termo). Terá
sido uma sucessão de carruagens esverdeadas a enfiarem-se, vertiginosas,
em corredores medonhos. Ou a procissão de deserdados que me
acompanhava; olhar incomodado das pessoas face aos meus cabelos
pestilentos e à minha barba crescida. (CACHAPA, 1998, p. 155)

A marcação de que Sacha não tem consciência literalmente dessa passagem evidencia
que os dias que se sucederam ele encontrava-se bêbado demais para compreender o que
ocorria. Mesmo assim, recorda que seus cabelos e barbas cresceram e tornaram-se pestilentos.
A falta de água e das condições mínimas de higiene faz com que sua queda se complete na
desumanidade, além disso, a reação das pessoas é sempre de incômodo. Nessa passagem de
lembranças de Sacha, há pequenas figuras que o auxiliam para que ele não perca por completo
sua humanidade. A primeira é Janine, menina de 11 anos, de origem cigana que se prostituía
na gare de Saint-Lazare. É Janine quem lhe empresta dinheiro para Sacha tomar banho. Nesse
instante Sacha afirma em seu relato que: “O cheiro a limpo acendeu-me as luzes vermelhas de
perigo (...) perante dois objectos a evitar; coisas que me poderiam tirar do entorpecimento (...)
Para já não falar das memórias que me poderiam despertar...” (CACHAPA, 1998, p. 163-
164). Outra figura é Michel, morador de rua que vira traficante e é a ponte a que o Professor
viaje para França em busca de Sacha.
Em meio aos substratos dessa comunidade submersa que vaga nos subsolo há sujeitos
perversos que roubam o pouco que cada um consegue nas esmolas diárias. Dos mais temidos,
Sacha cita a gangue do Kléber, uma gangue que faz arrastões constantes roubando a todos,
inclusive aos sub-humanos que vagam pelo metrô. Em uma das cenas a gangue tenta assaltar
Janine que se nega a entregar o pouco que carrega, como forma de represália a gangue leva o
filho de Janine, Pitoshe. Após a busca pelo menino, Sacha e Janine descobrem que o menino
fora morto e desde então Janine é “afogada” e torna-se o que Levi (2004) chama de
muçulmano, não ri mais, não tem mais a pouco e rara esperança que carregava.
Nesse mundo não há moral, não há coragem em defender os menos favorecidos, até
porque os menos favorecidos são eles próprios. Assim, Sacha conta no seu “diário”
improvisado uma vez que tentaram roubar as moedas que conseguira durante o dia todo.
Desta vez não era a temida gangue de Kléber, mas dois drogados que tremiam com a falta da
droga. Quando Sacha entrega suas poucas moedas, os assaltantes insistem para que ele
esvazie seus bolsos, mas Sacha não tem nada além das poucas moedas.
Sumiram-se os dois pelo corredor da direita. Por um momento, tudo ficou
em silêncio e eu recuperei a respiração que tinha deixado esquecida. Depois
ouviu-se um grito terrível, de mulher, e foi minha vez de fugir. Para fora,
para a superfície, onde a noite dominava e os prédios tudo envolviam.
(CACHAPA, 1998, p. 158)

Interessante notarmos que a fuga não é para as regiões mais baixas, para os fundos do
metrô, mas na verdade para a superfície. Retoma-se a reflexão que Sacha faz sobre essa
comunidade a que ele se inclui e cuja fé professada é apenas uma: a sobrevivência. Assim,
Sacha não pensara em salvar o mundo, mas em salvar sua própria pele fugindo. É, também, na
superfície que Sacha encontra o “poubelle” em que escreve os fade in e os fade out que opera
exatamente no aparecimento gradual, como memórias que irrompem a narrativa e o foco que
se centra no Professor e o fade out, seu desaparecimento. As memórias não se interligam, não
são lineares são, como podemos perceber, memórias. Quando fala sobre o caderno de notas
quase novo, com apenas duas folhas escritas, Sacha também reflete sobre a necessidade de
escrever e tentar descrever o processo de desumanidade a que passa e o período em que vive
com a comunidade subterrânea.

Encontrei hoje, caído ao lado duma “poubelle”, este caderno de notas. É


estranho, mas só tem 2 páginas escritas.(...) Resolvi guardar estas folhas,
ainda não sei porquê. Nas restantes, meu querido Professor, meu pai ausente,
vou anotar estes anos de viagem. Para que quando nos encontrarmos, não
percamos tempo a pôr a folha em dia e nos concentremos mais na razão por
que fomos felizes sem o sabermos. (CACHAPA, 1998, p. 176-177, grifos
meus)

Há um tom melancólico na escrita de Sacha que escrevera para o Professor assim que
pode e logo após ter de volta sua humanidade pelos banhos que Janine lhe pagava. Contudo, o
professor vendera seu apartamento e fora morar em outro lugar, no quarto antigo do professor
um senhor de idade avançada promete ao antigo morador que reenviaria as cartas que
chegassem, contudo, basta o professor virar as costas para o atual morador lhe maldizer. As
cartas de Sacha chegam, mas assim que são depositadas são colocadas no lixo. O argumento
do morador atual é a vida desregrada do professor no meio das prostitutas a quem sempre
defendeu e onde ganhara seu apelido.
Ao saber da existência de Sacha ao defender Michel, o Professor decide que irá
resgatar, mais uma vez, seu filho de coração. De carro e com algum dinheiro no bolso parte
para a França, passa por Bordéus que conta com uma numerosa comunidade de portugueses
fugidos da Ditadura Salazariana. Nesse ínterim encontra Jean-Baptiste que cego lhe guia pelo
submundo de Paris. As buscas pelos substratos da cidade luz vão diminuindo a esperança do
Professor que, já com pouco dinheiro, percorre com o cego os hospitais em busca de Sacha. O
encontro entre Sacha e o Professor ocorre em um hospital em que Jean-Baptiste rodopia no rol
de entrada, chamando atenção dos guardas, escutando um barulho de vômito, o Professor
identifica a forma frágil de seu filho amado e ausente então: “E foi aí que José Augusto, dito,
o Professor, viu que segurava nos braços o corpo de Sacha. O-dos-Olhos-Azuis.”
(CACHAPA, 1998, p. 192).
Ambos retornam a Portugal, mas o Professor acaba morrendo por complicações de um
tumor. O pouco tempo que ambos tiveram serviu para Sacha se ressentir pelos anos perdidos
longe da figura paterna. Ainda, em um sonho recorda do enterro do Professor, contudo,
quando abre a tampa do caixão para ver a face do pai o que vê é a face de sua mãe, ou seja, o
fantasma da mãe ainda assombra a Sacha. O romance ainda envereda para a criação da
pornografia maternal e, após, focaliza na vida da ex-esposa de Sacha, Marguerite de Lys.
Marguerite é a última figura materna que conduz a trama de Cachapa, ela conta sua história
em forma de relato, desde a vida solitária com Edith, sua mãe que sofrendo de Alzheimer e
acaba explodindo a casa junto de Patrícia (a babá portuguesa) e arrancando os braços do filho
de Marguerite e Sacha.
Sacha tem acesso aos relatos de Marguerite ainda na cadeia e envia cartas à editora
para a autora que não se identifica. Após a morte da mãe, Edith, Marguerite muda-se para
Portugal e escolhe a praia de Falésias do Mar. No mesmo lugar em que Sacha e o Professor se
encontram, Sacha encontra seu filho e recorda do primeiro encontro com a velha figura
paterna. Essa memória é, também, mnémé, uma memória que surge, que irrompe e que não é
rememorada, buscada, mas surge “engatilhada” por algum fato ou, nesse caso, pelos lugares
de memória.

Considerações finais

A memória em A materna doçura (1998), do escritor português contemporâneo


Possidônio Cachapa ocorre de forma afeccional, são memórias que surgem, que invadem os
personagens e lhe tomam a consciência e a narrativa. Além disso, há lugares de memória, e de
encontros, que são os responsáveis pelo retorno de certas memórias como, por exemplo,
Falésias do Mar, espaço em que Sacha encontra a figura paterna que sua mãe Gracinha
procura encontrar em Waldemar Guimarães e, também, é onde Sacha reencontra seu filho
francês.
Beatriz Sarlo (2007) afirma que: “O retorno do passado nem sempre é um momento
libertador da lembrança, mas um advento, uma captura do presente” (SARLO, 2007, p. 9), e
essa figura capturada percorre as reflexões de Paul Ricoeur (2007) quando resgate de Platão o
conceito de eikón, daquele ser presente e ausente ao mesmo tempo. A essa figura, ainda, as
muitas mães são responsáveis pela irrupção dessas memórias. Essas mães se colam em seus
filhos como fantasmas e, logo, são, segundo a leitura do luto indizível (ABRAHAM;
TÖROK, 1995), fantasmas que exigem ritos e que ritos são esses? Lembrar.
Diferente das discussões no diálogo platônico em Fedro (2016), a escrita em A
materna doçura (1998) não opera na esteira da necessidade e da obrigação de lembrar, de
diminuir o fardo da decoração, mas, ao contrário, ela serve para que se esqueça. Os
aparecimentos e desaparecimentos de Sacha no que ele classifica como “comunidade
subterrânea”, relatam esse tempo monstruoso a que ele é submetido, perdendo sua
“identidade” e sua humanidade, resgatado por Janine no momento em que lhe paga um banho.
Sacha escreve para esquecer e não ter de rememorar essa fase. Ao final, Cachapa refelte sobre
a memória em uma metaficção: Marguerite, sua personagem, escreve uma carta ao filho:

A precisão das memórias não é obrigatoriamente uma coisa boa. O coração é


muito mais fiável, porque guarda, maioritariamente, as coisas que nos fazem
bem; as más vai deixando cair, à medida que as expõe, seja à conversa dos
amigos, seja à dos amantes. (CACHAPA, 1998, p. 298)

Retomando Sarlo (2007) as memórias não são sempre boas e, ainda, algumas delas
não merecem ser relembradas, mas sublimadas na tentativa do esquecimento. Será, mesmo,
que escrever é uma forma de lembrar ou, então, é uma forma de esquecer?
Referências
ABRAHAM, Nicolas; TÖROK, Maria. A casca e o núcleo. Trad. Maria José R. Faria
Coracini. São Paulo: Escuta, 1995.

CACHAPA, Possidônio. A materna doçura. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: Os delitos, os castigos, as penas, as


impunidades. Trad. Luiz Sérgio Henriques. 2ª Ed. São Paulo: Paz e terra, 2004.

PLATÃO. Fedro. Trad. Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Penguin Classics
Companhia das Letras, 2016.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: UNICAMP, 2007.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo:
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