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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI FACULDADE DE RELA«’ES INTERNACIONAIS

ANA GRAZIELE CARDOSO

CAMILA FERREIRA DA CRUZ

GABRIELLA FERREIRA PARAVATI

NATALIA SANTOS GEROSA

PAOLA DE FREITAS OLIVEIRA

CPLP: UMA VERTENTE DA DIPLOMACIA BRASILEIRA PARA O

CONTINENTE AFRICANO

S„o Paulo

2009

UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

ANA GRAZIELE CARDOSO

CAMILA FERREIRA DA CRUZ

GABRIELLA FERREIRA PARAVATI

NATALIA SANTOS GEROSA

PAOLA DE FREITAS OLIVEIRA

CPLP: UMA VERTENTE DA DIPLOMACIA BRASILEIRA PARA O

CONTINENTE AFRICANO

Orientadora: Prof™ Ariane Roder

Trabalho de conclus„o de curso apresentado como parte das atividades para a obtenÁ„o do grau de Bacharel em RelaÁıes Internacionais, no 8 semestre, na Universidade Anhembi Morumbi.

S„o Paulo

2009

Agradecimentos

Agradecemos, a nossa orientadora Ariane Roder por sua dedicaÁ„o e paciÍncia ao longo de todas as fases desse estudo. Agradecemos tambÈm aos nossos pais que estiveram presentes com coment·rios inteligentes, nos dando forÁa e acima de tudo nos motivando como sempre a alcanÁar nossos objetivos. Obrigada tambÈm a todos os amigos, colegas e familiares em geral que mesmo nos instantes de muita tens„o nos proporcionaram momentos de muita alegria. E, por fim, um obrigado especial a cada uma de nÛs, pela dedicaÁ„o e sentimento m˙tuo de respeito e amizade.

DedicatÛria

Dedicamos esse trabalho a nossas famÌlias, a nossos amigos, e a todos aqueles que nos incentivaram na jornada acadÍmica e pessoal.

Resumo

Com base em preceitos cunhados na ·rea de relaÁıes internacionais, o presente trabalho propıe uma an·lise da concepÁ„o da CPLP no redirecionamento da polÌtica externa brasileira para o continente africano. A Comunidade, que fora criada a partir das idÈias liter·rias de aproximaÁ„o das lÌnguas na dÈcada de 1990, tem se mostrado fundamental no campo de negociaÁıes que procede em uma maior integraÁ„o e desenvolvimento aos paÌses-membros e, principalmente, tem se apresentado de suma import‚ncia para o redirecionamento da polÌtica externa brasileira para a £frica em tem·ticas que v„o alÈm da diplomacia sociocultural discursada pelo governo Lula. O estudo em quest„o apresenta a incorporaÁ„o do ‚mbito estratÈgico face ao aspecto de integraÁ„o cultural, visto que o discurso diplom·tico brasileiro tem se apoiado nessa condiÁ„o vislumbrando o papel de lideranÁa no cone Sul e uma maior visibilidade nas tomadas de decisıes no cen·rio internacional.

Palavras-chave

Brasil; CPLP; polÌtica externa brasileira; relaÁıes Brasil-£frica; diplomacia sociocultural; finalidades estratÈgicas, governo Lula.

Abstract

Based on International Relations principles, the present study analyzes the CPLP (Community of Portuguese Language Countries) in redirection of Brazilian foreign policy for Africa. The Community which was created from the literary ideas to approach the language in the 1990's, is an essential and primordial element in the negotiation resulting in a bigger development and integration of member countries and also is extremely important to redirect the Brazilian foreign policy for Africa on many issues that beyond sociocultural diplomacy speech by President Lula. This study presents the incorporation of a strategic view of the aspect of cultural integration by CPLP, since the Brazilian diplomatic discourse has relied on this condition overlooking the role of leadership in the Southern Cone and greater visibility in decision-making in the international arena.

Keywords

Brazil; CPLP; Brazilian foreign policy; Brazil-Africa relations, sociocultural diplomacy, strategic purposes, Lula government.

SUM£RIO

INTRODU« O

9

CAPÕTULO 1 CONTEXTO HIST”RICO

11

1.1

As relaÁıes entre o Brasil, Portugal e a £frica no Atl‚ntico Sul atÈ a

primeira metade do sÈculo XX

11

1.2

Afastamentos e reaproximaÁıes: a retomada da £frica na pauta de

preferÍncias do Brasil

14

1.3 A CooperaÁ„o Sul-Sul no contexto militar e na Guerra Fria

19

1.4 A reafirmaÁ„o de uma polÌtica africana na agenda diplom·tica

22

CAPÕTULO 2 A CPLP

27

2.1 Uma nova possibilidade de cooperaÁ„o no Atl‚ntico Sul

27

2.2 A estrutura e os objetivos da CPLP

29

2.3 Acordos firmados no ‚mbito da CPLP

32

2.3.1 Acordos

Intra CPLP

32

2.3.2 Acordos entre a CPLP e Entidades da Sociedade Civil

34

2.3.3 Acordos entre CPLP e OrganizaÁıes Internacionais

35

CAPÕTULO 3 A INTENSIFICA« O DAS RELA«’ES ENTRE O BRASIL E O CONTINENTE AFRICANO VIA CPLP

39

3.1 A import‚ncia do continente africano no atual contexto internacional

39

3.2 AproximaÁıes entre o Brasil e os PALOP via CPLP

42

3.3 Brasil ñ £frica: a diplomacia sociocultural no governo Lula

50

CONCLUS O

61

REFER NCIAS BIBLIOGR£FICAS

63

9

INTRODU« O

Historicamente, as relaÁıes entre o Brasil e a £frica se iniciaram com a chegada dos primeiros escravos africanos em territÛrio brasileiro no sÈculo XVI. Tal ligaÁ„o se baseou, sobretudo, no tr·fico e exploraÁ„o de m„o-de-obra escrava, que perdurou atÈ o final do sÈculo XIX, quando o Brasil voltou-se aos seus interesses internos e ‡ diversificaÁ„o de parcerias (EUA, Europa e AmÈrica Latina) de modo a superar o fim da escravid„o e alcanÁar o desenvolvimento econÙmico, e a £frica sujeitou-se ‡ colonizaÁ„o diante das metrÛpoles europÈias. Todavia, os laÁos e a identidade cultural n„o se perderam: os africanos contribuÌram na construÁ„o da nossa cultura, nossos h·bitos, nossa religi„o e tambÈm para a nossa diplomacia; ou seja, embora a atuaÁ„o africana tenha sido um tanto que exclusa da sociedade brasileira contempor‚nea e as relaÁıes brasileiras com os paÌses africanos no ˙ltimo sÈculo tenham sido marcadas por aproximaÁıes, distanciamentos e contradiÁıes, a atual conjuntura internacional em que constantes mudanÁas polÌticas e econÙmicas conferem a necessidade de uma participaÁ„o mais ativa dos paÌses em desenvolvimento fizera com que a £frica n„o caÌsse em esquecimento. … neste contexto que se encaixa a identificaÁ„o socioeconÙmica e cultural e o aspecto particular da nossa lÌngua como fatores que tÍm levado a uma maior aproximaÁ„o entre o Brasil e o continente africano por meio da Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa (CPLP). O estudo em quest„o propıe uma an·lise do redirecionamento da polÌtica externa brasileira para o continente africano a partir da criaÁ„o da CPLP. A hipÛtese central desse estudo preconiza que a aproximaÁ„o entre o Brasil e o continente africano, especificamente com os paÌses africanos de lÌngua portuguesa (PALOP 1 ), tem contribuÌdo para o redirecionamento polÌtica externa brasileira no foco estratÈgico; como a pr·tica diplom·tica em torno dos pre‚mbulos da CPLP tem levado a uma maior inserÁ„o do Brasil no cen·rio internacional; e como essa aproximaÁ„o tem cooperado pela posiÁ„o de lideranÁa do Brasil no ‚mbito das relaÁıes Sul-Sul. Muito alÈm de uma

1 PALOP: AcrÙnimo para PaÌses Africanos de LÌngua Oficial Portuguesa. Grupo formado por Angola, Cabo Verde, GuinÈ-Bissau, GuinÈ Equatorial, MoÁambique e S„o TomÈ e PrÌncipe.

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diplomacia pautada no discurso sociocultural e em um sentimento de solidariedade que nos aproxima, o objetivo central desse estudo È compreender como o elemento integrador cultural tem se ampliado nos ˙ltimos anos, vislumbrando contornos polÌtico-estratÈgicos frente ‡s novas conjunturas internas e externas do cen·rio internacional. Ser„o abordadas as condiÁıes nas quais o Brasil promoveu a parceria com os paÌses africanos de lÌngua portuguesa por meio CPLP, e quais os ganhos implÌcitos e explÌcitos na retomada de uma diplomacia de interesses voltada n„o aos mais poderosos, mas aos que em geral n„o figuram entre as naÁıes mais rent·veis. Buscaremos nos ampararmos metodologicamente na avaliaÁ„o de documentos e dados oficiais dos MinistÈrios das RelaÁıes Exteriores e da Comunidade (Tratados, discursos, atos diplom·ticos), bem como atravÈs de an·lises bibliogr·ficas de como a Comunidade redimensionou os contatos entre o Brasil e o continente africanos. Para melhor compreens„o do processo de aproximaÁ„o e aprofundamento das relaÁıes entre o Brasil e a £frica, faremos uma construÁ„o histÛrica desde a chegada dos primeiros escravos africanos em terras brasileiras atÈ a aboliÁ„o da escravatura. Posteriormente, teremos uma an·lise comparativa das atuaÁıes dos governos brasileiros na polÌtica externa africana, no intuito de identificar quais perÌodos marcaram os processos de distanciamento e aproximaÁıes entre as duas margens do atl‚ntico. A despeito da retomada histÛrica da polÌtica externa africana, focaremos na gest„o Lula, marco da aproximaÁ„o e cooperaÁ„o do Brasil com a £frica ñ momento em que as iniciativas diplom·ticas do Brasil tornaram-se mais intensas. Analisaremos tambÈm os mecanismos de funcionamento da CPLP e como esse arcabouÁo institucional tÍm contribuÌdo para a formaÁ„o nacional e afirmaÁ„o internacional dos paÌses membros por meio da estratÈgia de cooperaÁ„o. Por fim, buscaremos avaliar a import‚ncia da Comunidade no estreitamento diplom·tico cultural entre o Brasil e o continente africano e como sua eventual import‚ncia tem influenciado em derivativos para outras ·reas da agenda internacional de interesse da polÌtica externa brasileira.

11

CAPÕTULO 1 CONTEXTO HIST”RICO

1.1. As relaÁıes entre o Brasil, Portugal e a £frica no Atl‚ntico Sul atÈ a

primeira metade do sÈculo XX

Segundo estudos geolÛgicos, ha mais de 65 milhıes de anos, na era

MesozÛica, havia um imenso continente denominado Pangeia, no qual o Brasil

e o continente Africano estavam atrelados. Embora separados pela aÁ„o

tectÙnica das placas terrestres, centenas de milhıes de anos depois o Brasil e

£frica voltaram a ter elos no perÌodo colonial quando os colonizadores

portugueses ocuparam as duas margens do Oceano Atl‚ntico Sul no sÈculo

XVI e deram inÌcio ‡s interaÁıes que vieram a relacionar de modo Ìntimo a

HistÛria da £frica e a HistÛria do Brasil (PEREIRA; VISENTINI, 2008).

Ainda no sÈculo XV, Portugal iniciou um intenso processo expansionista

em busca de mercadorias para serem comercializadas no continente europeu,

com rotas de comÈrcio na £sia, £frica e AmÈrica, onde iniciara n„o sÛ a

expans„o da economia europÈia, mas tambÈm a disseminaÁ„o da cultura

portuguesa atravÈs dos processos de exploraÁ„o e colonizaÁ„o. Logo, o

relacionamento entre Brasil e a maioria dos PaÌses Africanos de LÌngua

Portuguesa (PALOP) remonta ao sÈculo XV e XVI, quando ambos integravam

o ImpÈrio PortuguÍs e as colÙnias africanas tinham por objetivo suprir a

demanda por escravos (RIZZI, 2008).

Com a solidificaÁ„o do ImpÈrio PortuguÍs no sÈculo seguinte e, sendo o

Brasil sua principal colÙnia de exploraÁ„o, Portugal passou a intensificar o

aprisionamento e o tr·fico de escravos, n„o somente em Angola (atÈ ent„o

paÌs de maior demanda por escravos), como tambÈm em todo o territÛrio

africano, visando assegurar ‡ colÙnia brasileira a m„o-de-obra necess·ria ‡s

plantaÁıes de cana-de-aÁ˙car, tabaco, e ‡s minas de ouro. Assim, a chegada

dos primeiros escravos africanos em territÛrio brasileiro deu inÌcio a uma longa

fase de ligaÁ„o entre o continente africano e o Brasil, fundamentada,

sobretudo, no tr·fico negreiro (RIZZI, 2008).

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A construÁ„o de engenhos de aÁ˙car no Brasil, por exemplo, teve incentivo da Coroa Portuguesa desde 1530; no entanto, a falta de capital e os problemas com o recrutamento da m„o-de-obra dificultaram a devida implantaÁ„o. A primeira m„o-de-obra utilizada nas montagens dos engenhos fora indÌgena, mas os Ìndios n„o sÛ se apresentavam arredios como tambÈm n„o dominavam tÈcnicas agrÌcolas, alÈm de deterem de grande conhecimento da regi„o de modo a ocasionar fugas constantes e bem sucedidas. Com a chegada dos escravos africanos, foi disponibilizada m„o-de-obra para atividades especializadas e com conhecimentos de pr·ticas agr·rias; com resistÍncia a salubridades e maior submiss„o que os indÌgenas. (MARQUESE,

2006).

Os colonos portugueses traziam os negros de suas colÙnias na £frica e davam-lhes tratamento de mercadorias, comercializando-os como m„o-de-obra escrava nos engenhos de aÁ˙car no Nordeste e, a partir do sÈculo XVIII, tambÈm como forÁa de trabalho para a atividade de mineraÁ„o. Neste contexto, houve fomento ao aprimoramento do tr·fico negreiro, intensificado pelo ciclo econÙmico de cana-de-aÁ˙car, principalmente nas regiıes da Bahia e de Pernambuco, onde situavam os maiores engenhos de aÁ˙car. Em 1559, o tr·fico negreiro foi legalizado pelo decreto de D. Sebasti„o 2, que decretou lÌcita a captura de negros na £frica para trabalhar no Brasil. Em 1625, cerca de 150 mil escravos j· habitavam as terras brasileiras (STUART, 1988).

ìO tr·fico negreiro sustentou a economia brasileira atÈ meados do sÈculo XIX, e estima-se que pelo menos 3,6 milhıes de africanos entraram no Brasil neste perÌodo de escravid„oî (BUBLITZ, 2004, p. 2).

Na segunda metade do sÈculo XVII, com a mineraÁ„o, e no sÈculo XVIII, com o ciclo do ouro, o sistema escravista no Brasil fundamentou-se ìem uma estreita articulaÁ„o entre tr·fico transatl‚ntico de escravos bastante volumoso em relaÁ„o ao n˙mero de alforrias3 î (MARQUESE, 2006, p. 109). Essa

2 DÈcimo sexto rei de Portugal, filho do prÌncipe D. Jo„o e de D. Joana de £ustria, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, e morreu em Alc·cer Quibir, a 4 de Agosto de 1578. 3 A carta de alforria era um documento que condicionava uma liberdade ao escravo, onde o senhor anulava os seus direitos de propriedade sobre o escravo. As alforrias gratuitas

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situaÁ„o proporcionava a intensificaÁ„o do tr·fico de escravos, sem contrariar a ordem social escravista imposta pela carta de alforria. J· na metade do sÈculo XVIII o volume de escravos traficados para o Brasil duplicou:

ìEntre 1701 e 1720, desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292 mil africanos escravizados, em sua maioria destinados ‡s minas de ouro. Entre 1720 e 1741, novo aumento: 312,4 mil indivÌduosî (MARQUESE, 2006, p. 114).

As rivalidades entre a Inglaterra e a FranÁa durante os sÈculos XVII e XVIII acabaram por permitir a continuidade dos impÈrios ibÈricos no continente africano, uma vez que Portugal detinha do apoio da Inglaterra. Todavia, no final do sÈculo XVIII, o agravamento dos conflitos entre essa duas potÍncias resultou na decadÍncia das monarquias ibÈricas e conduziu ‡ desagregaÁ„o dos seus obsoletos impÈrios (RATO, 1981). Com a FranÁa e a Inglaterra na posiÁ„o de principais potÍncias mundiais, o cen·rio econÙmico mundial passou a dinamizar o Atl‚ntico Norte e a press„o europÈia pelo fim da escravid„o tornou-se cada vez mais intensa. AlÈm dos interesses comerciais no Brasil, o mercado europeu em expans„o necessitava de novos consumidores, do qual os ingleses procuram extinguir as conexıes entre o Brasil e a £frica por meio de apoios aos processos de aboliÁ„o. Aliado a este fato, a independÍncia do Brasil, em 1822, gerou reflexos negativos nas relaÁıes triangulares Brasil-Portugal-£frica: o fim do tr·fico negreiro coincidiu com o momento em que o Brasil iniciara o desenvolvimento de novas culturas agrÌcolas, o que propiciou a chegada dos imigrantes para a substituiÁ„o da m„o-de-obra escrava; o Brasil deixou para tr·s a condiÁ„o de colÙnia e voltou-se ‡ resoluÁ„o dos problemas fronteiriÁos com uma polÌtica externa de regionalizaÁ„o (RIZZI, 2008); e Portugal, derrotado com o reconhecimento da declaraÁ„o da independÍncia brasileira, viu-se obrigado a

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acentuar a sua expans„o territorial no interior da continente africano a fim de

manter ao menos parte de seu impÈrio frente ‡s outras potÍncias.

ìAtÈ a dÈcada de 1950, o Brasil privilegiou as relaÁıes com as potÍncias colonizadoras na £frica, em detrimento dos contatos tanto com as colÙnias quanto com os paÌses recÈm- independentes daquele continenteî (RIZZI, 2008, p. 2).

As relaÁıes entre o Brasil e a £frica passaram a ser de fins comerciais,

com presenÁa praticamente nula das colÙnias portuguesas, a exemplo de que

praticamente noventa por cento do comÈrcio do Brasil com o continente dava-

se exclusivamente com a £frica do Sul (RIZZI, 2008).

Compreende-se ent„o que a somatÛria de fatores geopolÌticos

culminou no retrocesso das relaÁıes e o afastamento entre a £frica e o Brasil,

principalmente em relaÁ„o aos PALOP. Assim, na primeira metade do sÈculo

XX, o Brasil dedicou-se muito pouco a estreitar as relaÁıes com a £frica, salvo

questıes comerciais.

1.2 Afastamentos e reaproximaÁıes: a retomada da £frica na pauta de

preferÍncias do Brasil

O Brasil foi o ˙ltimo Estado soberano a proibir a escravid„o. Embora

findo, o processo escravista deixou aprimoramentos e sequelas na identidade

nacional; visto toda contribuiÁ„o cultural manifesta na alimentaÁ„o, linguagem e

outras ·reas; e todo vÌcio incutido atravÈs do racismo e preconceitos

destinados aos afrodescendentes e manifestaÁıes como o candomblÈ. Pode-

se estimar que tal passado estabeleceu elos de irmandade entre naÁıes que

perderam filhos, trazidos para uma terra desconhecida; e aquela que os

recebeu primeiramente de forma violenta e brutal para ent„o aceit·-los em

meio a um am·lgama cultural.

Desse modo, as relaÁıes brasileiras com os paÌses africanos foram

marcadas por aproximaÁıes, distanciamentos e contradiÁıes. O Brasil voltou a

relacionar-se com Portugal, porÈm desta vez no ‚mbito de parcerias e

interesses, face barganha pelo apoio eleitoral da comunidade de imigrantes

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lusitanos; em troca do apoio brasileiro ao colonialismo portuguÍs nos fÛruns da OrganizaÁ„o das NaÁıes Unidas (ONU) (LECHINI, 2008). No primeiro perÌodo da Era Vargas (1930-1945), as relaÁıes do Brasil com a £frica quase n„o existiram. Esse perÌodo foi caracterizado por uma gest„o com Ínfase na formaÁ„o da nacionalidade brasileira pautada na industrializaÁ„o e tambÈm devido ao fator econÙmico e comercial que a £frica n„o poderia oferecer.

ìA ausÍncia de pauta efetiva nas relaÁıes do Brasil com a £frica entre 1930 e 1945 esteve ligada ao prÛprio sistema internacional. A polÌtica das potÍncias coloniais na £frica tornava o espaÁo africano diminuto para outras relaÁıes internacionais que procurassem romper com o esquema metropolitano de dominaÁ„o no continente. A inserÁ„o da £frica no contexto internacional se fizera sob as regras do jogo ao longo do sÈculo XIX. Tal situaÁ„o iria condicionar plenamente as relaÁıes internacionais daquele continente no sÈculo XX, em especial nas dÈcadas de 1930 e 1940 deste sÈculoî (SARAIVA, 1994, p. 263).

A partir da segunda metade do sÈculo XX, o Brasil comeÁou a se consolidar como potÍncia regional atravÈs de um bem-sucedido processo de industrializaÁ„o via substituiÁ„o de importaÁıes, sendo a polÌtica exterior um dos instrumentos para dar impulso a esse modelo. A £frica ent„o foi sendo inclusa lentamente como um ponto estratÈgico para interesses da inserÁ„o internacional do Brasil e sua afirmaÁ„o no contexto do pÛs-guerra.

ìO mais importante era, para o Brasil, afinar-se com os Estados Unidos e potÍncias vencedoras na guerra em matÈrias de interesse comum. DaÌ o Brasil ter aceitado a postulaÁ„o do Estados Unidos para participar do comitÍ ad hoc criado pelas NaÁıes Unidas em 14 de dezembro de 1946, para estudar e requerer informaÁıes ‡s potÍncias coloniais sobre a situaÁ„o em seus territÛriosî (SARAIVA, 1997, s/p).

O Brasil passou a encarar os assuntos relacionados ‡ tese das potÍncias coloniais como a melhor forma de participaÁ„o brasileira nos eventos internacionais, tendo no ComitÍ das NaÁıes Unidas, em 1946, a primeira oportunidade de se pronunciar sobre o assunto colonial na £frica.

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O governo de Gaspar Dutra (1946-1951) consolidou a posiÁ„o de apoio ‡s potÍncias com um discurso que procurava explicar o posicionamento do Brasil perante o artigo 73 4 da Carta das NaÁıes Unidas e uma polÌtica que n„o ofendesse as potÍncias coloniais que haviam apoiado as petiÁıes brasileiras, ou seja, o Brasil curvava-se ao jogo colonial das metrÛpoles na £frica (SARAIVA, 1997). Entretanto, os anos de 1950 representaram uma dÈcada de transformaÁıes radicais para o continente africano. As lutas nacionalistas pela independÍncia comeÁavam a trazer resultados e os movimentos de libertaÁ„o tornaram-se objeto de preocupaÁ„o e aÁ„o das potÍncias coloniais, das NaÁıes Unidas e das potÍncias mundiais. Diante de tal situaÁ„o, Get˙lio Vargas (1951-1954) fez crÌtica ao ambiente internacional que congelava a descolonizaÁ„o africana e imprimiu um ‚ngulo mais autÙnomo para o posicionamento do Brasil frente ‡ quest„o:

ìGet˙lio Vargas criticou as desigualdades estruturais da economia internacional e afirmou que o lugar da £frica para o Brasil era o de observ‚ncia das carÍncias africanas, especialmente a sua necessidade de se desenvolver como condiÁ„o indispens·vel para a expans„o do comÈrcio mundialî (SARAIVA,1997, s/p).

Com a intensificaÁ„o dos movimentos de libertaÁ„o dos paÌses africanos, as dificuldades ficaram nÌtidas no cen·rio internacional, e tornou-se perceptÌvel uma evoluÁ„o em relaÁ„o ao isolamento da £frica. Nesse contexto, as independÍncias dos paÌses africanos que iniciaram justamente no perÌodo de mandato de Juscelino Kubitschek (1956-1961), foram praticamente ignoradas (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008).

4 Artigo 73 da Carta das NaÁıes Unidas refere-se aos territÛrios n„o autÙnomos. Os membros da OrganizaÁ„o das NaÁıes Unidas (ONU) que ent„o assumiram ou assumam responsabilidades pela administraÁ„o de territÛrios que n„o possuam governo prÛprio; tem o dever de promover o bem estar dos habitantes dos territÛrios, assegurando direito ‡ cultura, progresso polÌtico, socioeconÙmico, educacional, bem como promover o governo prÛprio para auxili·-los no desenvolvimento das instituiÁıes polÌticas; consolidar um cen·rio de paz e seguranÁa; estimular o desenvolvimento e transmitir ao Secret·rio Geral informaÁıes que mostrem as condiÁıes econÙmicas, sociais e educacionais dos territÛrios pelos quais s„o respons·veis.

17

ìN„o obstante a reafirmaÁ„o do princÌpio na XV AssemblÈia Geral (1960), o fato È que o governo JK n„o deu atenÁ„o maior ao movimento de independÍncia das colÙnias africanas, inclusive porque n„o se vislumbrava ainda as possibilidades de mercado naquelas colÙnias recebedoras de manufaturados que o Brasil ainda n„o dispunha em escala de exportaÁ„o, ingressado que estava, em cheio, no processo de substituiÁ„o de importaÁıesî (SARAIVA, 1994, p. 289).

Entretanto, ‡ medida que o Brasil delineava seu perfil nacional em torno da definiÁ„o de seus interesses e consolidava-se na inserÁ„o regional, buscava tambÈm avanÁar em ‚mbito global atravÈs de uma polÌtica externa de parcerias, principalmente com paÌses da £frica que intensificavam seu processo de descolonizaÁ„o (LECHINI, 2008). Assim, na dÈcada de 60, o Brasil comeÁou efetivamente a ter relaÁıes com o continente Africano, perÌodo em que ìo Itamaraty foi lentamente construindo uma polÌtica africana, com altos e baixos. Esse processo teve oscilaÁıes, que fazem parte de uma linha histÛrica que combina oportunidades, esquecimentos e relanÁamentos ì(GLADYS, 2008). Tal diplomacia mais engajada com o continente africano ocorreu atravÈs da PolÌtica Externa Independente (PEI) 5 de J‚nio Quadros, em 1961, quando o chanceler Afonso Arinos, lanÁou uma polÌtica africana em favor do direito ‡ autodeterminaÁ„o dos povos coloniais, especialmente das colÙnias portuguesas, que iniciavam lutas armadas rumo a independÍncia. Outro quesito para a aproximaÁ„o do Brasil ‡ £frica foi resultado de uma polÌtica externa que estava sendo discutida desde os anos 1950, do qual se tornou freq¸ente o n˙mero de visitas de presidentes africanos ao Brasil e de presidentes brasileiros ‡ £frica com o passar do tempo; ìessa aproximaÁ„o multiplicou o comÈrcio e os investimentos em projetos de desenvolvimentoî (SARAIVA, 1997). Ademais, a assinatura de diversos Acordos Culturais propiciou o estabelecimento de um programa de bolsas de estudo para estudantes africanos no Brasil, que mais tarde daria origem ao Programa de Estudantes ConvÍnio - PEC - (VISENTINI; PEREIRA, 2008).

5 A PolÌtica Externa Independente se baseava em trÍs princÌpios, os quais foram conhecidos por cadÍncia: autonomia, independÍncia e universalismo, cuja proposta pautava-se na fuga ‡s exigÍncias de alinhamento preferencial com os Estados Unidos. Esta ˙ltima se amparou na diplomacia do Bar„o do Rio Branco para a conquista da autonomia frente aos dois pÛlos de poder da Guerra Fria, de forma a restabelecer as relaÁıes diplom·ticas com a URSS, rompidas desde 1947.

18

Logo, antes de 1960 houveram apenas relaÁıes voltadas aos escravos;

A

mudanÁa de atitude adotada apÛs essa dÈcada relaciona-se com o foco que

o

Brasil adota no atual momento com a agenda mundial, e demonstra o

interesse brasileiro em estreitar estas relaÁıes com a £frica, principalmente

com aos paÌses africanos de lÌngua portuguesa. De acordo com Fernando Albuquerque Mour„o e Henrique Altemani de Oliveira:

ìA reaproximaÁ„o com o continente africano foi consequÍncia de um processo com alguns momentos emblem·ticos. Iniciou- se com os paÌses africanos de lÌngua inglesa e francesa para, somente depois, alcanÁar os de lÌngua portuguesaî (OLIVEIRA; MOUR O, s/d, apud, GLADYS, 2008).

Enquanto Juscelino Kubitschek assistiu a dist‚ncia o desencadeamento da independÍncia africana, J‚nio Quadros iniciou, de fato, a dimens„o africana da polÌtica externa brasileira, cujo apoio ‡ descolonizaÁ„o dos paÌses africanos tornara-se sinÙnimo de um instrumento contra o colonialismo e o racismo. ìSustentou que o Brasil tinha aspiraÁıes comuns com a £frica, como o ìdesenvolvimento econÙmico, a defesa dos preÁos das matÈrias-primas, a industrializaÁ„o e o desejo de pazî (SARAIVA, 1997, s/p). J‚nio argumentava que a nova polÌtica africana do Brasil, seria uma ìrecompensaî pelo dÈbito que

o Brasil tinha com a populaÁ„o africana.

ìA din‚mica empreendida pelo Brasil nos primeiros meses de 1961 foi acompanhada por sinais positivos de v·rios paÌses africanos. A visita de polÌticos e funcion·rios dos Camarıes, a miss„o econÙmica da NigÈria e a visita do ministro das finanÁas do Gab„o foram as primeiras respostas positivas aos acenos brasileirosî (SARAIVA; GALA, 2000, p. 7)

Este governo teve import‚ncia no incentivo ao aprofundamento das relaÁıes entre Brasil e £frica. O embasamento vai alÈm da afinidade de J‚nio com o continente africano, mas tambÈm compreende o contexto mundial ñ havia igualmente um interesse por parte da £frica, uma vez que naquele momento a maioria dos paÌses estava ganhando sua independÍncia e buscando cooperaÁıes com outros paÌses. A £frica ent„o voltou ‡ agenda de polÌtica externa brasileira, desta vez com um dimensionamento n„o sÛ diplom·tico, mas tambÈm econÙmico. ìO ano

19

A £frica

iniciou, assim, uma posiÁ„o de destaque para o conjunto das opÁıes

de 1961 È chave para o reencontro do Brasil com o continente (

).

internacionais do Brasilî (SARAIVA, 1997, s/p).

ìA polÌtica externa independente deu inÌcio ao africanismo na polÌtica externa brasileira. Passando pelo pragmatismo respons·vel e ecumÍnico do governo Geisel e pelo universalismo de Figueiredo, a ìautonomia pela dist‚nciaî que marcou boa parte do perÌodo que vai da PEI ao governo Sarney no qual estreitou os laÁos brasileiros com o continente africanoî (LECHINI, 2008, s/p).

Todavia, o primeiro esboÁo de CooperaÁ„o Sul-Sul sofreu um revÈs consider·vel com o golpe de 1964 e enfoques da geopolÌtica da Guerra Fria.

1.3 O CooperaÁ„o Sul-Sul no contexto militar e da Guerra Fria

Ao iniciar o contexto bipolar da Guerra Fria o tema da seguranÁa coletiva foi resgatado, tanto no que diz respeito ‡s AmÈricas (proposta de uma ForÁa de Defesa Interamericana) como do Atl‚ntico Sul (proposta da formaÁ„o da OrganizaÁ„o do Tratado do Atl‚ntico Sul ñ OTAS). Essa ˙ltima implicava na cooperaÁ„o com os regimes colonialista de Portugal e racista da £frica do Sul (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). De acordo com Saraiva, temos no governo de Castelo Branco (1964- 1967) um vazio quanto ao estreitamento com a £frica, pautado na postura moderada do governo antecessor (SARAIVA, 1997). CaracterÌstica tambÈm deste governo È o estreitamento de relaÁıes com paÌses desenvolvidos dentro de uma lÛgica desenvolvimentista, fundamentada em duas frentes: a corte ‡s delegaÁıes do Terceiro Mundo em Ûrg„os multilaterais; e a busca de ampliaÁ„o de mercados (VIZENTINI, 2008).

ìA Guerra Fria era algo suficiente para Castello Branco n„o se sensibilizar com a sorte dos africanos lusÛfonos. Se o processo de libertaÁ„o nacional daqueles povos recebia apoio de forÁas comunistas, ent„o, o novo governo em BrasÌlia, preferiria marcar dist‚ncia daquelas lutas pelo motivo de serem vislumbradas pelo interesse internacional da Uni„o SoviÈticaî (HAGE, 2008, s/p)

20

J· no mandato de Costa e Silva (1967-1969), iniciou-se a

implementaÁ„o de uma polÌtica Sul-Sul menos restrita ‡s ideologias, mas com

a manutenÁ„o de um pragmatismo em ‚mbito universal. N„o h· a

intensificaÁ„o, apenas a manutenÁ„o das relaÁıes. Assim, as iniciativas de reaproximaÁ„o com o continente africano somente voltam a acontecer no perÌodo do chamado ìmilagre econÙmicoî do governo MÈdici (1969-1974), perÌodo em que o Brasil deteve de alta concentraÁ„o de renda e r·pida expans„o industrial, do qual necessitava de

matÈrias-primas para expandir seus mercados, especialmente o petrÛleo. …

neste cen·rio que MÈdici estreita relaÁıes com o continente africano, pautadas

no pragmatismo polÌtico que leva a £frica ‡ posiÁ„o n„o mais de uma ·rea de

virtual interesse econÙmico e estratÈgico na polÌtica externa brasileira (SARAIVA, 1997). MÈdici inaugura uma nova linha de polÌtica externa para o continente africano, fundamentada por laÁos culturais, pelo apoio nas iniciativas internacionais para a estabilizaÁ„o dos preÁos dos produtos prim·rios e por serem ambos competidores nos mercados de produtos tropicais. A visita de presidentes africanos ao Brasil e o interc‚mbio de diplomatas e empres·rios no Atl‚ntico, por exemplo, aproximaram a £frica do Brasil de forma incontestante (SARAIVA, 1997). A crise do PetrÛleo, em 1973 (que levara a um grande endividamento externo do Brasil e de alta inflaÁ„o no ‚mbito domÈstico) fez com que o governo seguinte, Geisel (1974-1979), retomasse o processo de industrializaÁ„o por substituiÁ„o de importaÁıes, visando tornar o paÌs auto- suficiente em insumos b·sicos e energia. A necessidade de o Brasil cooperar em termos estratÈgicos ocasionou no aprofundamento da polÌtica africana: seis novas embaixadas brasileiras foram abertas na £frica (PEREIRA; VISENTINI,

2008).

ìA vulnerabilidade energÈtica do Brasil nos anos 1970 e parte da dÈcada de 1980 ocupou papel ponder·vel na reaproximaÁ„o ao continente africano. As duas crises do petrÛleo, em 1973 e em 1979, aceleraram a busca de novas parcerias internacionais. E isso viria explicar a superaÁ„o gradual do comÈrcio quase exclusivo com a £frica do Sul pelo

21

interc‚mbio crescente com outros dois novos parceiros atl‚nticos: NigÈria e Angola.î (SARAIVA;GALA, 2001, p. 10)

Foi nesse perÌodo que ocorreram os movimentos de derrubada das ˙ltimas ditaduras europÈias - GrÈcia, Portugal e Espanha -, e as lutas coloniais de libertaÁ„o ganharam forÁa. Em 1974, ocorreu a RevoluÁ„o dos Cravos, movimento que derrubou a ditadura fascista portuguesa e propiciou a assinatura do Acordo de Alvorn, marcando a libertaÁ„o de Angola para 1975. Houve tambÈm as independÍncias de GuinÈ Bissau - declarada em 1973 e reconhecida apenas em 1974 -, MoÁambique, S„o TomÈ e PrÌncipe e Cabo Verde tambÈm em 1975 (BRAND O, 2004). O Brasil foi o primeiro paÌs a reconhecer o governo do Movimento Popular de LibertaÁ„o de Angola (MPLA), do qual se notou um importante protagonismo, sendo que anteriormente havia j· conferido ‡ Luanda, capital de Angola, uma representaÁ„o (BRAND O, 2004). Ademais, a condenaÁ„o firme dos regimes racistas da RodÈsia e da £frica do Sul marcou, igualmente, a diplomacia do ìPragmatismo Respons·velî de Geisel e do chanceler Azeredo da Silveira, pautada em um forte discurso terceiro-mundista (PEREIRA; VISENTINI, 2008). Com Figueiredo, ˙ltimo governo militar (1979 -1985), o Brasil enfrentou adversidades polÌtico-econÙmicas no contexto mundial, tais como o segundo Choque do PetrÛleo e o fim da dÈtente 6 no final da dÈcada de 1970. Tais fatos culminaram no estabelecimento de uma nova divis„o internacional da produÁ„o pautada na RevoluÁ„o CientÌfico-TecnolÛgica, culminando no distanciamento entre os paÌses capitalistas avanÁados e os em desenvolvimento; os Estados Unidos da AmÈrica assumiram um maior protagonismo nas relaÁıes internacionais a fim de tentar restaurar a bipolaridade e enfraquecer a URSS; e por ˙ltimo, na AmÈrica Latina iniciara a crise da dÌvida no inÌcio da dÈcada de 1980, implicando de forma negativa nos avanÁos da diplomacia brasileira quanto ‡s iniciativas de aproximaÁ„o com os paÌses do ìTerceiro Mundoî, entre eles os da £frica. Mesmo o Brasil mantendo uma presenÁa importante no

6 DÈtente: termo usado em polÌtica internacional desde a dÈcada de 1970 em referÍncia ‡ reduÁ„o geral de tens„o entre a Uni„o SoviÈtica e os Estados Unidos da AmÈrica durante a Guerra Fria, ocorrido no final da dÈcada de 1960 (apÛs a Crise dos mÌsseis de Cuba) atÈ o inÌcio dos anos 1980

22

continente africano, a recess„o da chamada ìdÈcada perdidaî, limitou fortemente os resultados de cooperaÁıes entre ambos 7 .

ìA polÌtica do Brasil para £frica voltou a constituir outro ponto de discord‚ncia e de preocupaÁ„o para os EUA quando Reagan, ao iniciar sua administraÁ„o, tomou um rumo ainda mais a direita e , em pouco meses aqueceu a relaÁ„o com a £frica do Sul, congelou a ajuda a MoÁambique e abraÁou a Unita. Igualmente, a transformaÁ„o do Atl‚ntico Sul em lago brasileiro n„o lhes convinha e tal possibilidade preocupou o governo de Washington em virtude de crescente presenÁa do Brasil sobre tudo em Angola, GuinÈ- Bissau e Cabo Verde, onde apoiava regimes de esquerda, em t·cita alianÁa a Uni„o SoviÈtica e Cuba. Em caso de emergÍncia essa posiÁ„o aumentaria enormemente seu poder de barganhaî . (CERVO, 1994, p.174).

Em suma, foi a partir da dÈcada de 60 atÈ meados dos anos 80 que a atuaÁ„o da polÌtica externa brasileira contribuiu para a criaÁ„o de um espaÁo atl‚ntico otimista e carregado de significado no relacionamento Brasil-£frica (SARAIVA, 1997).

1.4

brasileira

A

reafirmaÁ„o

de

uma

polÌtica

africana

na

agenda

diplom·tica

O perÌodo de transiÁ„o entre o regime militar e a democracia marcou a reafirmaÁ„o da polÌtica africana do Brasil. Foi durante o governo Sarney (1985- 1989) que o estreitamento com o continente africano passou tambÈm a vislumbrar a vertente da diplomacia cultural, perÌodo em que se iniciam as negociaÁıes para criaÁ„o da Comunidade de PaÌses de LÌngua Portuguesa, a CPLP 8 (RIZZI, 2008). Foi em 1989, na cidade de S„o LuÌs, onde se realizou o encontro dos Chefes de Estados dos PaÌses de LÌngua PortuguÍs. Este fato foi considerado o embri„o do projeto de constituiÁ„o da Comunidade dos PaÌses de LÌngua

7 Artigo disponÌvel em:<http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_02_10. htm> Acesso em 22 ago.2009. 8 A Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa compreende os seguintes paÌses: Angola, Cabo Verde, GuinÈ-Bissau, MoÁambique, S„o TomÈ e PrÌncipe, Brasil e Portugal, alÈm do Timor Leste (paÌs localizado na £sia) que, apesar de tambÈm ser integrante da Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa (CPLP), n„o È objeto do presente estudo .

23

Portuguesa. ìNessa reuni„o, os presentes Chefes de Estado de Portugal, Angola, MoÁambique, GuinÈ Bissau, Cabo Verde e S„o TomÈ e PrÌncipe, aprovaram os objetivos comuns que integrariam tais paÌses no Instituto Internacional de LÌngua Portuguesaî (RIBEIRO, 2008, p. 41). NotÛrios neste perÌodo foram os esforÁos no intuito de favorecer aspectos de interdependÍncia entre o Brasil e paÌses africanos, em especial com os que pertenciam ao PALOP, ìpor meio de uma polÌtica de valorizaÁ„o das identidades culturaisî (RIBEIRO, 2008, p. 41). O governo Sarney, ainda que n„o tivesse uma polÌtica especÌfica para o continente Africano e mesmo com crescentes dificuldades e adversidades econÙmicas no cen·rio internacional, realizou algumas visitas ‡ £frica como Cabo Verde, Angola e MoÁambique, embora independentes, passavam por perÌodo de guerra civil. Junto a ONU, buscou a aprovaÁ„o da Zona de Paz e CooperaÁ„o do Atl‚ntico (ZOPACAS), um importante marco na polÌtica externa de seu governo que reverteu ao Brasil uma posiÁ„o favor·vel e estratÈgica no Atl‚ntico Sul (RIBEIRO, 2008). Sarney tambÈm promoveu a I ConferÍncia do Atl‚ntico Sul, em 1988, na cidade do Rio de Janeiro, do qual contou com a participaÁ„o de 19 paÌses africanos que clamavam pelo apoio ‡ paz em Angola e pela emancipaÁ„o da NamÌbia, alÈm da crÌtica ao Apartheid, na £frica do Sul, em prÛ ao desenvolvimento do continente (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). Segundo Sarney,

ìAs dimensıes de cooperaÁ„o econÙmica viriam a se alinhavar a postura polÌtica mediante a declaraÁ„o de ìnossa total condenaÁ„o ao apartheid e nosso apoio sem reservas emancipaÁ„o imediata da NamÌbia, sob a Ègide das NaÁıes Unidasî, na XL Sess„o da AssemblÈia Geral da ONUî (RIBEIRO,2008, p. 43).

Outros acontecimentos importantes aconteceram nas relaÁıes Brasil- £frica no perÌodo, como o sistema de countertrade, que garantiu o interc‚mbio comercial entre os dois lados do Atl‚ntico e a criaÁ„o de uma convergÍncia em torno de questıes bilaterais e internacionais com o objetivo de gerar cooperaÁ„o e interc‚mbio. Tudo isso era pautado em uma preocupaÁ„o de manter e garantir os interesses polÌticos e econÙmicos do Brasil na £frica:

24

ìAssim, em 1988 o Brasil alimentava trÍs linhas de crÈdito com Angola: a de curto prazo, para financiamento de bens de consumo (180 dias), que variava de US$ 50 milhıes a US$ 90 milhıes; a de mÈdio prazo, para os bens de capital (atÈ 5 anos) que variava de 60 a 120 milhıes de dÛlares; e a terceira, especÌfica para a construÁ„o da hidrelÈtrica Capanda pela Odebrecht S.A., que absorveu recursos superiores a US$ 1 bilh„oî (RIBEIRO, 2008, p. 42).

Logo, as relaÁıes entre o Brasil e a £frica no governo Sarney, representaram sob o ponto de vista econÙmico e diplom·tico, um importante engajamento no projeto de cooperaÁ„o entre os paÌses do Sul, a comeÁar pela iniciativa de aproximaÁ„o cultural (pautada ent„o no acordo ortogr·fico) com os paÌses que pertenciam ao PALOP para o impulso ‡ criaÁ„o da CPLP que passou a adquirir contornos cada vez mais concretos (SARAIVA, 2001). Todavia, uma nova fase de distanciamento em relaÁ„o ‡ £frica ocorreu no inÌcio da dÈcada de 1990, quando o Brasil adotou uma postura diplom·tica pautada numa vis„o ìde primeiro mundoî e neoliberal da globalizaÁ„o. Esta polÌtica econÙmica adotada na presidÍncia de Collor (1990-1992), somada ao fim da Guerra Fria e ‡ criaÁ„o do MERCOSUL, ambos em 1991, fizeram com que a £frica assumisse uma posiÁ„o secund·ria na agenda diplom·tica brasileira (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008).

ìO anterior entendimento do cen·rio internacional, baseado nas relaÁıes Sul-Norte, foi trocado pela predileÁ„o pelas relaÁıes multilaterais; isso ocasionou o progressivo encolhimento das relaÁıes do Brasil com os demais paÌses em desenvolvimento, ‡ exceÁ„o dos seus vizinhos da AmÈrica do Sul. Logo, a gest„o do Chanceler Francisco Rezek, tambÈm deu prioridade para acelerar o processo de formaÁ„o do MERCOSUL (criado em 15 de marÁo de 1991, mediante o Tratado de AssunÁ„o), quando foi modificada a sua estrutura inicial (de cooperaÁ„o), para os objetivos que se relacionavam ‡s premissas neoliberaisî (RIZZI, 2008, p. 3).

O processo decisÛrio no Brasil deixou-se ent„o dominar-se pelo ìafro- pessimismoî e a PolÌtica Externa Brasileira (PEB) de Collor seguiu por outros caminhos e prioridades que levaram o paÌs a encerrar o ciclo da grande participaÁ„o no desenvolvimento africano, dentre eles, o congelamento em do projeto CPLP (SARAIVA,1997).

25

Em

contrapartida,

o

governo

de

Itamar

Franco

(1992-1995)

fundamentou-se na retomada do pragmatismo pautado no interesse nacional.

ì(

valorizar novamente a presenÁa do Brasil no cen·rio internacional, a partir de foros multilaterais (especialmente a OrganizaÁ„o das NaÁıes Unidas), e, a partir, tambÈm, da

integraÁ„o regional. O Itamaraty voltou a ocupar a centralidade na formulaÁ„o da nova estratÈgia de inserÁ„o internacional do

Brasil (

buscou manter o relacionamento bilateral, sem deixar de destacar, no entanto, a relev‚ncia da AmÈrica Latina, particularmente, a AmÈrica do Sul. Nesse rumo, o aprofundamento do MERCOSUL era priorit·rio, mesmo em plena crise econÙmica enfrentada por seus membros.î (RIZZI, 2008, p. 3-4)

No ‚mbito das relaÁıes com os EUA, o Brasil

o principal objetivo da polÌtica externa do perÌodo foi o de

)

)

No entanto, as relaÁıes com o continente africano n„o foram esquecidas. Itamar reativou a ZOPACAS em 1993, realizou o Encontro de Chanceleres de PaÌses de LÌngua Portuguesa em BrasÌlia, bem como apoiou processos de paz e reconstruÁ„o, especialmente em Angola, levando ‡ intensificaÁ„o das relaÁıes entre os dois paÌses, retomando assim as discussıes em torno da CPLP que a partir disso passou a estar cada vez mais presente no discurso da diplomacia brasileira (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). Por sua vez, o Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) buscou retomar em seu mandato uma ìjunÁ„oî das polÌticas dos governos antecessores, do qual acabou por oferecer ‡ agenda externa brasileira um car·ter de diminuiÁ„o da autonomia do paÌs, pautado na diversificaÁ„o das relaÁıes bilaterais do Brasil com os paÌses do Norte e a participaÁ„o em organismos multilaterais, desta vez, em especial, os econÙmicos (RIZZI, 2008). Com o exercÌcio da diplomacia presidencial a £frica nas relaÁıes internacionais do Brasil na gest„o FHC ganhou um espaÁo mais modesto. Como lembra Fl·vio Saraiva: ìo n˙mero de diplomatas brasileiros na £frica diminuÌa constantemente: em 1973 era de 25, atingindo 34 em 1989 e caindo para 24 em 1996, j· na gest„o FHCî (SARAIVA, 1997, s/p). Todavia, houve algumas iniciativas importantes ao longo do segundo mandato FHC, tais como a participaÁ„o do exÈrcito brasileiro de paz da ONU em Angola em alguns outros paÌses que passavam por guerras civis e diversos

26

atos firmados com paÌses africanos, principalmente na ·rea de cooperaÁ„o tÈcnica e no campo de polÌticas p˙blicas (iniciou-se uma luta por quebra de direitos de patentes dos medicamentos para a AIDS), alÈm da visita de Nelson Mandela, presidente da £frica do Sul, ao Brasil (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). Por fim, FHC tambÈm deu continuidade a CPLP, e iniciou novas aÁıes focadas no tema cooperaÁ„o que seriam aprofundadas de forma bastante efetiva no governo Lula.

27

CAPÕTULO 2 A CPLP

2.1 Uma nova possibilidade de cooperaÁ„o no Atl‚ntico Sul

A idÈia da criaÁ„o de uma Comunidade que reunisse os paÌses de lÌngua portuguesa de afinidade histÛrico-cultural e pautados na vis„o compartilhada de desenvolvimento, democracia e idioma comum remonta da dÈcada de 1950, perÌodo em que o Brasil adotara uma polÌtica externa de parcerias com os paÌses africanos que intensificavam seu processo de descolonizaÁ„o, entre eles, os paÌses pertencentes ao PALOP. Contudo, foi na dÈcada seguinte, com Jnio Quadros, que a proposta de criaÁ„o de uma ìComunidade Luso- Brasileiraî ganhou forÁa no intuito de levar o Governo brasileiro a rever algumas das atitudes contra o colonialismo e reforÁar as relaÁıes bilaterais. Entretanto, nem o governo militar, muito menos o Itamaraty foram favor·veis a idÈia de uma polÌtica africana do Brasil para os paÌses de lÌngua portuguesa. Somente no contexto de reorganizaÁ„o internacional do final dos anos 1980 e inÌcio dos anos 1990 que a intenÁ„o de instituir-se uma comunidade lusÛfona voltou a ser tema de atenÁ„o, e as questıes de cooperaÁ„o intra- sociedade civil ganharam forÁa (RIZZI, 2008). Em 1983, no discurso de uma visita oficial a Cabo Verde, o ent„o ministro dos NegÛcios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama, referiu que:

"O processo mais adequado para tornar consistente e descentralizar o di·logo tri continental dos sete paÌses de lÌngua portuguesa espalhados por £frica, Europa e AmÈrica seria realizar cimeiras rotativas bienais de Chefes de Estado ou Governo, promover encontros anuais de Ministros de NegÛcios Estrangeiros, efetivar consultas polÌticas freq¸entes entre diretores polÌticos e encontros regulares de representantes na ONU ou em outras organizaÁıes internacionais, bem como avanÁar com a constituiÁ„o de um grupo de lÌngua portuguesa no seio da Uni„o Interparlamentarî

9 .

O exemplo do posicionamento do Ministro portuguÍs acumulou-se na dÈcada de 1980 sinais de um renovado interesse na institucionalizaÁ„o dos

9 Discurso disponÌvel em: <http://www.cplp.org/Hist%C3%B3rico_-_Como_surgiu.aspx?ID=45>. Acesso em 04 set.2009.

28

lusÛfonos. Notou-se, ent„o, uma Ínfase nos temas especÌficos da lÌngua portuguesa, como a discuss„o sobre o Acordo Ortogr·fico (SANTOS, s/d, p.6). Mas foi a partir da presidÍncia de JosÈ Sarney (1985-1990) que o projeto adquiriu contornos cada vez mais concretos. Em novembro de 1989, na cidade de S„o LuÌs do Maranh„o, um importante passo foi dado para a criaÁ„o da CPLP com a primeira reuni„o de Chefes de Estado e de Governo dos PaÌses de LÌngua Portuguesa. Na ocasi„o, o Instituto Internacional de LÌngua Portuguesa (IILP) selou o compromisso dos sete paÌses para a formaÁ„o da Comunidade, cujos objetivos seriam o de defender e promover o idioma; enriquecer a lÌngua como veÌculo de cultura, educaÁ„o, informaÁ„o e de acesso ao conhecimento cientÌfico e tecnolÛgico; desenvolver as relaÁıes culturais entre os lusÛfonos; incentivar a cooperaÁ„o, pesquisa e interc‚mbio nos domÌnios da lÌngua e da cultura; e difundir o Acordo Ortogr·fico (RIZZI,

2008).

O grande impulso ‡ CPLP, contudo, aconteceu a partir de 1993, quando o Presidente Itamar Franco (1992-1995) tornou essa iniciativa, atÈ ent„o consideravelmente difusa, uma prioridade em seu governo. AlÈm dos objetivos que diziam respeito ‡ promoÁ„o da lÌngua portuguesa e das relaÁıes culturais entre os Estados-membros, o processo de criaÁ„o da CPLP passou a abrigar nÌtidos interesses de ordem polÌtica para uma inserÁ„o internacional conjunta, pautada na interseÁ„o entre v·rios processos de integraÁ„o regional que estariam em curso, tais como: a Uni„o EuropÈia, o MERCOSUL, a Southern Africa Development Comunnity (SADC) e a Commom Market of Eastern and Southern Africa (COMESA) (RIZZI, 2008). Em fevereiro de 1994, reunidos em BrasÌlia, os Ministros dos NegÛcios Estrangeiros e das RelaÁıes Exteriores dos sete paÌses fundadores 10 decidiram recomendar aos seus governos a realizaÁ„o de uma ConferÍncia de Chefes de Estado e de Governo para fundar a CPLP. Tal ConferÍncia foi marcada para junho de 1994, mas acabou adiada devido ‡ ausÍncia do ent„o presidente do Brasil, Itamar Franco. A segunda tentativa naquele ano, agendada para novembro, tambÈm foi frustrada, dessa vez pelo n„o

10 Angola, Brasil, Cabo Verde, GuinÈ-Bissau, MoÁambique, Portugal e S„o TomÈ e PrÌncipe, foram os sete paÌses que selaram o acordo para a criaÁ„o da CPLP em 17 de Julho de 1996. O Timor Leste se tornou o oitavo Estando-membro da CPLP em 2002, logo depois de conquistar sua independÍncia da IndonÈsia.

29

comparecimento do presidente angolano JosÈ Eduardo dos Santos (SANTOS, p. 8. s/d). Todavia, foi o Presidente Fernando Henrique Cardoso, sucessor de Itamar Franco, que incorporou a proposta de criaÁ„o da Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa na agenda diplom·tica brasileira; e em 17 de Julho de 1996, a CPLP finalmente foi constituÌda. A dÈcada de 1990 È marcada pela revalorizaÁ„o do fenÙmeno cultural. A iniciativa e a prÛpria criaÁ„o da Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa se encaixam neste contexto, quando a cultura foi redimensionada, passando a incorporar contornos polÌticos e econÙmicos:

a unificaÁ„o da lÌngua tem o papel de liame, aproximando

culturas, algumas de natureza tridimensional, como È o caso da cultura brasileira, e dando substantividade a espaÁos

localizados em trÍs continentes, para n„o falar de presenÁas

Diante de um mundo onde se registram fortes

tendÍncias ‡ supranacionalidade, o uso do portuguÍs, em diferentes regiıes do planeta, surge como um elemento unificador das posiÁıes da cada Estado lusofalante nas suas inserÁıes, n„o excludentes, em outros espaÁos regionaisî. (MOUR O, 2000, p. 100-103).

histÛricas; [

ì[

]

]

A CPLP assume-se como um novo projeto polÌtico, cujo fundamento È a LÌngua Portuguesa dos paÌses que constituem um espaÁo geograficamente descontÌnuo, mas identificado pelo idioma comum. De acordo com JosÈ Fl·vio Sombra Saraiva ìa CPLP È um espaÁo privilegiado para a reafirmaÁ„o da £frica como um dos objetivos da PolÌtica Externa Brasileiraî (SARAIVA, 2002).

2.2 A estrutura e os objetivos da CPLP

A declaraÁ„o constitutiva de 1996 considera indispens·vel consolidar uma realidade cultural nacional e plurinacional entre os paÌses membros da CPLP, de modo a ocasionar um relacionamento especial acumulado em anos de profunda cooperaÁ„o; afirma-se que a LÌngua Portuguesa constitui um vÌnculo histÛrico comum resultante de uma convivÍncia que deve ser valorizada no intuito de colaborar para o reforÁo dos laÁos humanos, da solidariedade, cidadania e fraternidade entre todos os povos, alÈm de promover medidas que

30

facilitem a circulaÁ„o dos cidad„os dos paÌses membros no espaÁo da Comunidade. Em suma, na declaraÁ„o constitutiva È tratado o estÌmulo ao desenvolvimento de aÁıes cooperativas entre os paÌses membros, do qual estes devem desenvolver cooperaÁıes econÙmicas e empresariais e valorizar as potencialidades existentes entre si. Ademais, a CPLP busca incentivar a cooperaÁ„o bilateral e multilateral entre os paÌses membros para aÁıes conjuntas de preservaÁ„o ambiental e desenvolvimento sustent·vel 11 . Para o Eng Domingos Simıes Pereira, Secret·rio Executivo da CPLP, esta

ì[ assume o compromisso de unir a sua voz e o seu voto ‡

]

causa da promoÁ„o do di·logo intercultural, com a consciÍncia

de que as culturas do mundo constituem patrimÙnio comum da humanidade e devem ser reconhecidas e consolidadas em benefÌcio das geraÁıes (presentes e futuras)î 12 .

Infere-se que a CPLP È constituÌda por princÌpios de promoÁ„o e de desenvolvimento, de forma a estimular a cooperaÁ„o e promover aÁıes democr·ticas entre os paÌses membros, respeitando os Direitos Humanos e cooperando nas ·reas de sa˙de, tecnologia, agricultura, seguranÁa p˙blica, justiÁa, ciÍncia e comunicaÁ„o social. Infere-se tambÈm que o Secretariado Executivo È o Ûrg„o que tem como responsabilidade programar decisıes do Conselho de Ministros, da ConferÍncia e do ComitÍ de ConcertaÁ„o Permanente. Por fim, compreende-se que a Comunidade È constituÌda por contribuiÁıes volunt·rias. Quanto estrutura de atuaÁ„o, a Comunidade apresenta trÍs pilares concretos 13 :

1. A ConcertaÁ„o polÌtico-diplom·tica que diz respeito ‡ coordenaÁ„o de posiÁıes com vistas ‡ promoÁ„o de interesses comuns em instituiÁıes internacionais como a ONU ou em foros especializados. Deve atender tambÈm a necessidade da adoÁ„o de estratÈgias voltadas para a busca de objetivos da

11 DisponÌvel em <www.cplp.org/DeclaraÁ„o_Constitutiva.aspx>. Acesso em 02 set.2009.
12

=1&NewsId=697&currentPage=4> . Acesso em 02 set. 2009

DisponÌvel em <www.cplp.org/DeclaraÁ„o_Constitutiva.aspx>. Acesso em 02 set.2009.

13

Discurso

dÌsponivel

em

<http://www.cplp.org/Discursos.aspx?ID=482&PID=1229&Action

31

Comunidade, como a promoÁ„o da paz, a consolidaÁ„o da democracia, a seguranÁa regional, inclusive a soluÁ„o negociada de conflitos internos em paÌses membros;

2. A cooperaÁ„o para o desenvolvimento que inclui iniciativas nas ·reas econÙmica, comercial, empresarial, da ciÍncia e da tecnologia, da administraÁ„o p˙blica, do aperfeiÁoamento institucional, da valorizaÁ„o de recursos humanos e da promoÁ„o social. A uni„o propicia a criaÁ„o de escala e facilita a mobilizaÁ„o de financiamentos e esquemas de cooperaÁ„o triangular e multilateral;

3. Defesa e promoÁ„o da lÌngua portuguesa em ‚mbito universal. Falado por 200 milhıes de pessoas espalhadas pelo mundo, o idioma constitui base sÛlida para a projeÁ„o internacional. Em um mundo globalizado, em processo de crescente homogeneidade, È igualmente importante a defesa da lÌngua para a preservaÁ„o das diferenÁas culturais e de costumes, diminuindo a ameaÁa de empobrecimento cultural da humanidade.

A CPLP est· prÛxima de inserir, em seus Estatutos, um quarto pilar de sustentaÁ„o, que seria a vertente da cidadania e da circulaÁ„o de pessoas. As decisıes na CPLP s„o tomadas, em todos os nÌveis, por consenso (MENDON«A, s/a). Os Ûrg„os que compıem a Comunidade s„o:

a) ConferÍncia de Chefes de Estado e de Governo, Ûrg„o decisÛrio

m·ximo da Comunidade, cujas competÍncias b·sicas s„o definir e orientar a polÌtica geral, adotar os instrumentos jurÌdicos e criar as instituiÁıes

necess·rias ao bom funcionamento da CPLP, re˙ne-se a cada dois anos;

b) Conselho de Ministros de NegÛcios Estrangeiros e das RelaÁıes

Exteriores a quem cabe coordenar as atividades e supervisionar o funcionamento da CPLP, re˙ne-se, em sessıes ordin·rias, um vez por ano; c) Conselho de ConcertaÁ„o Permanente, constituÌdo pelos Representantes dos sete paÌses membros, È o Ûrg„o de coordenaÁ„o, tendo a seu cargo orientar e acompanhar o cumprimento pelo Secretariado Executivo

32

das decisıes emanadas dos Ûrg„os superiores re˙ne-se, em sessıes ordin·rias, uma vez por mÍs; d) Secretariado Executivo, principal Ûrg„o executivo da CPLP que implementa as decisıes dos Ûrg„os polÌticos, planifica e executa os programas da Comunidade.

Por fim, h· tambÈm as chamadas Reuniıes Ministeriais Setoriais, constituÌdas pelos ministros e secret·rios de Estado dos diferentes setores governamentais de todos os Estados membros, cuja competÍncia È coordenar, ao nÌvel ministerial ou equivalente, as aÁıes de concertaÁ„o e cooperaÁ„o nos respectivos setores governamentais; e a Reuni„o dos Pontos Focais de CooperaÁ„o, do qual compete assessorar os demais Ûrg„os da CPLP em todos os assuntos relativos ‡ cooperaÁ„o para o desenvolvimento no ‚mbito da Comunidade 14.

2.3 Acordos firmados no ‚mbito da CPLP

Entre os paÌses membros da Comunidade s„o assinados e revistos diversos acordos e protocolos a fim de estreitar laÁos entre entidades intra- comunit·rias e internacionais. Tais documentos encontram-se separados em trÍs grupos: Acordos Intra CPLP; Acordos entre a CPLP e Entidades da Sociedade Civil; Acordos entre CPLP e OrganizaÁıes Internacionais. Abaixo, citamos exemplos desses acordos:

2.3.1 Acordos Intra CPLP

Acordo Geral de CooperaÁ„o no ‚mbito da CPLP

O

Acordo

Geral

de

CooperaÁ„o

tem

como

principais

objetivos

a

partes

implementaÁ„o de programas

e projetos de cooperaÁ„o entre as

14 Os Pontos Focais da CooperaÁ„o re˙nem-se, ordinariamente, duas vezes por ano e, extraordinariamente, quando solicitado por 2/3 dos Estados membros. DisponÌvel em: < http://www.camaracpb-rs.com.br/rs/content.php?sec=33>. Acesso em 20 out.2009.

33

contratantes da CPLP, no qual para implementar tais programas ser„o definidos diversos mecanismos e procedimentos. Os Estados membros que aderirem aos programas posteriormente dever„o indicar a forma da sua participaÁ„o tÈcnico-financeira e criar„o um ponto focal como Ûrg„o coordenador nacional de programas e projetos a serem desenvolvidos no ‚mbito do presente acordo. Nas reuniıes dos pontos focais e do Secretariado Executivo, as Partes envolvidas avaliar„o periodicamente os resultados dos projetos, no qual as d˙vidas relacionadas com a interpretaÁ„o e aplicaÁ„o deste Acordo ser„o esclarecidas ou dirimidas no Conselho de Ministros, apÛs consulta ao ComitÍ de ConcertaÁ„o Permanente. O acordo foi assinado na cidade da Praia, em 17 de Julho de 1998, pelo governo da Rep˙blica de Angola, Rep˙blica Federativa do Brasil, Rep˙blica de Cabo Verde, Rep˙blica da GuinÈ-Bissau, Rep˙blica de MoÁambique, Rep˙blica Portuguesa e Rep˙blica Democr·tica de S„o TomÈ e PrÌncipe. 15

Acordo sobre o estabelecimento da Sede da CPLP em Portugal

A Sede da CPLP estabelecida em Portugal exerce funÁıes que lhe s„o atribuÌdas no quadro da DeclaraÁ„o Constitutiva de Chefes de Estado e de Governo. A CPLP possui personalidade jurÌdica e goza de capacidade jurÌdica necess·ria para exercer as suas funÁıes e atingir os seus objetivos, em particular contratar, adquirir e alienar bens mÛveis, e para ser parte em juÌzo. As instalaÁıes e os arquivos da CPLP s„o inviol·veis, comprometendo-se as autoridades portuguesas a assegurar a sua proteÁ„o e seguranÁa, bem como a do pessoal do Secretariado Executivo. A CPLP est· tambÈm isenta de impostos sobre os rendimentos obtidos no exercÌcio da sua atividade. Sem prejuÌzo para os privilÈgios e imunidades concedidos por este acordo, todos os integrantes devem respeitar as leis e regulamentos vigentes em Portugal. Acordo assinado em 03 de Julho de 1998 pelo Governo da Rep˙blica Portuguesa e Pela Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa. 16

15 DisponÌvel em: <http://www.fd.uc.pt/CI/CEE/OI/CPLP/acordo_geral_de_cooperacao.htm>. Acesso em 02 out.2009. 16 DisponÌvel em: <http://www.cplp.org/Acordo-Sede.aspx?ID=394>. Acesso em 02 out.2009.

34

Acordo de CooperaÁ„o entre InstituiÁıes de Ensino Superior dos

PaÌses-Membros da CPLP

Considerado a educaÁ„o como um tema importante de discuss„o entre os paÌses membros e que o interc‚mbio entre instituiÁıes de ensino superior È uma maneira de estimular o desenvolvimento cientÌfico, conforme artigo dois, esse acordo tem por objetivo aperfeiÁoar docentes e pesquisadores, bem como permitir um interc‚mbio de informaÁıes e experiÍncias e planejar e desenvolver projetos comuns. Com o intuito de atingir esses objetivos os paÌses membros da CPLP estimular„o a assinatura de convÍnios entre instituiÁıes de nÌvel superior e promover„o diversas atividades bem como, interc‚mbios, trocas de documentos, elaboraÁ„o de projetos de pesquisa entre outros. O Secretariado Executivo da CPLP ser· o deposit·rio do Acordo, bem como dos instrumentos de ratificaÁ„o ou aprovaÁ„o. Este acordo foi assinado em 17 de julho de 1996 pela Rep˙blica de Angola, Rep˙blica Federativa do Brasil, Rep˙blica de Cabo Verde, Rep˙blica da GuinÈ-Bissau, Rep˙blica de MoÁambique, Rep˙blica Portuguesa e da Rep˙blica Democr·tica de S„o TomÈ e PrÌncipe 17 .

2.3.2 Acordos entre a CPLP e Entidades da Sociedade Civil

Protocolo de CooperaÁ„o entre a CPLP e o instituto PolitÈcnico da Guarda

O Instituto PolitÈcnico da Guarda (IPG) ìtem a finalidade de promover ensino, formaÁ„o e investigaÁ„o conjunta, assim como de estabelecerem entre si estreita cooperaÁ„o e interc‚mbio para melhor realizaÁ„o dos objetivosî. O IPG em conjunto com a CPLP cooperam em projetos de desenvolvimento e em programas especÌficos. O acordo foi assinado em 2 de Julho de 2009 pelo Instituto PolitÈcnico da Guarda e pela Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa.

17 DisponÌvel em: < http://www.cplp.org/Acordos_Intra_CPLP.aspx?ID=391>. Acesso em 02

out.2009.

35

ìO IPG e a CPLP comprometem-se entre si ‡ prossecuÁ„o dos seguintes objectivos:

ï Promover o interc‚mbio de ideias e experiÍncias com as

instituiÁıes de ensino superior dos Estados-membros;

ï Promover a participaÁ„o conjunta em projectos e estudos de car·cter cientÌico e de investigaÁ„o e desenvolvimento de interesse comum e, ainda, a elaboraÁ„o, execuÁ„o ou

divulgaÁ„o de publicaÁıes, estudos e material de investigaÁ„o e de ensino;

ï Promover a difus„o da lÌngua portuguesa em suas v·rias

expressıes, a saber: cultural, cientÌfica e institucional;

ï Fomentar a mobilidade entre docentes de outras instituiÁıes dos Estados-membros da CPLP para aprofundar e partilha dos processos de ensino e investigaÁ„o; ï Promover a mobilidade tempor·ria de alunos entre instituiÁıesî 18 .

2.3.3 Acordos entre CPLP e OrganizaÁıes Internacionais

Protocolo de CooperaÁ„o entre a CPLP e ConfederaÁ„o das NaÁıes Unidas sobre ComÈrcio e Desenvolvimento (UNCTAD)

Com este protocolo ficou acordado uma prestaÁ„o de assitÍncia e ajuda aos paÌses africanos de lÌngua portuguesa, os mesmos enfrentam diversas dificuldades como problemas econÙmicos, instabilidade politica e falta de infra- estrutura. Com uma integraÁ„o econÙmica ajudaria essas deficiÍncias africanas. Inclui no acordo uma troca de informaÁ„o e documentaÁ„o sobre assuntos de interesse comum, cooperaÁ„o na ·rea da formaÁ„o em comÈrcio internacional, implementaÁ„o de atividades conjuntas nas ·reas: PromoÁ„o do Investimento, diversificaÁ„o e gest„o de recursos naturais, marketing de Produtos e Gest„o de Riscos, desenvolvimento empresarial e temas relacionados com o sistema multilateral de comÈrcio. O acordo foi assinado e aprovado em Lisboa aos 13 de Janeiro de 2000 pela ConferÍncia das NaÁıes Unidas para o ComÈrcio e Desenvolvimento (UNCTAD) e pela Comunidade

18 DisponÌvel em:

<http://www.cplp.org/Acordos_entre_a_CPLP_e_Entidades_da_Sociedade_Civil.aspx?ID=392.

Acesso em 02 out.2009.

36

dos PaÌses de LÌngua Portuguesa (CPLP) Rafael Branco, Secret·rio Executivo- Adjunto 19 .

Acordo de CooperaÁ„o entre o Secretariado Executivo da Comunidade de PaÌses de LÌngua Portuguesa (CPLP) e a OrganizaÁ„o Internacional para as MigraÁıes (OIM)

O Secretariado Executivo da CPLP e a OIM cooperar„o na formulaÁ„o de projetos de interesse comum e em particular em atividades destinadas a fortalecer a coordenaÁ„o e a cooperaÁ„o no que se refere ‡s polÌticas migratÛrias dos Estados Membros da CPLP promover„o aspectos positivos da relaÁ„o migraÁ„o e desenvolvimento sustent·vel, aÁıes de cooperaÁ„o e iniciativas conjuntas no ‚mbito multilateral com o fim de assegurar o respeito dos direitos e deveres humanos dos migrantes. O Secretariado Executivo da CPLP e a OIM convidar„o representantes de cada instituiÁ„o a participarem como observadores nas reuniıes sobre temas de interesse m˙tuo e de acordo com os regulamentos que regem o estatuto de observador. O acordo foi assinado em Lisboa 5 de Dezembro de 1997 pela Comunidade de PaÌses de LÌngua Portuguesa (CPLP) e pela OrganizaÁ„o Internacional para as MigraÁıes (OIM) 20 . O gr·fico que segue demonstra qual È a subdivis„o mais dominante entre os acordos firmados no ‚mbito da CPLP:

19 DisponÌvel em:

<http://www.cplp.org/Acordos_entre_CPLP_e_OrganizaÁıes_Internacionais.aspx?ID=393>.

Acesso em 02 out.2009.

20 DisponÌvel em:

<http://www.cplp.org/Acordos_entre_CPLP_e_OrganizaÁıes_Internacionais.aspx?ID=393>.

Acesso em 02 out.2009.

37

37 Fonte: Gr ·fico de autoria prÛpria. Dados extraÌdos da Subdivis„o de acordos no ‚mbito da

Fonte: Gr·fico de autoria prÛpria. Dados extraÌdos da Subdivis„o de acordos no ‚mbito da CPLP.

Ademais, os paÌses membros da CPLP buscam ajustar o processo de preparaÁ„o e aprovaÁ„o de projetos de cooperaÁ„o aos padrıes das correntes internacionais, para isso adotam um novo modelo padronizado de enquadramento de projetos. Hoje existem reuniıes e encontros regulares com todos os setores governamentais\intergovernamentais tanto de nÌvel tÈcnico quanto ministeriais e tambÈm com todos os paÌses membros. Essas reuniıes identificam novas propostas para a cooperaÁ„o multilateral, devendo obter aprovaÁ„o de empenho tÈcnico, s„o chamados de Pontos Focais da CooperaÁ„o da CPLP (CEOLIN, s.d). Os Estados membros tambÈm tÍm produzido grande severidade e transparÍncia na gest„o dos recursos do Fundo Especial da CPLP, respons·vel pelo financiamento dos projetos de cooperaÁ„o da Comunidade. O regulamento deste Fundo foi aprovado em 1999 e atÈ o momento recebeu contribuiÁıes somente dos Estados membros, porÈm h· uma esperanÁa de futuramente sensibilizar terceiras fontes doadoras, interessados em estimular esta importante cooperaÁ„o. Assim, j· est„o dados os instrumentos para que os paÌses membros e o Secretariado Executivo possam buscar parcerias fora da prÛpria organizaÁ„o (CEOLIN, s.d). De acordo com o Eng . Domingos Simıes Pereira, Secret·rio Executivo da CPLP, Portugal e Brasil s„o os paÌses da Comunidade com mais tradiÁ„o na prestaÁ„o de cooperaÁ„o a paÌses em desenvolvimento, mas essa cooperaÁ„o È atravÈs de transferÍncia de conhecimento e experiÍncias, nunca

38

atravÈs de doaÁıes ou transferÍncia de capital. Domingos tambÈm destaca a import‚ncia da CPLP para o mundo global:

ìA CPLP assume o propÛsito de fortalecer-se e expandir-se a

partir do somatÛrio das potencialidades e o vasto manancial

de riquezas que se encontram na diversidade dos oito Estados

Assume um papel ativo na

defesa da diversidade, oferece um di·logo intercultural com a

consciÍncia de que as culturas do mundo constituem patrimÙnio comum da humanidade e devem ser reconhecidas

e consolidadas em benefÌcio das geraÁıes (presentes e

A CPLP acredita ser possÌvel incorporar

sistematicamente os assuntos relacionados com as migraÁıes internacionais nas estratÈgias de desenvolvimento nacionais, regionais e globais, tanto no mundo desenvolvido como no em

futuras).

membros que a constituem. (

)

(

)

desenvolvimento. (

express„o, o pluralismo dos meios de comunicaÁ„o socialî 21 .

)

E trabalha para promover liberdade de

Ao abranger os quatro continentes, a CPLP tem como fundamental objetivo reverter tal quadro de impasse local, ampliando a dimens„o cultural para as ·reas econÙmicas e polÌtica (RIZZI, 2008). Em suma, a CPLP vem tornando-se cada vez mais influente e significativa em ‚mbito internacional. Hoje a Comunidade È constituÌda por paÌses de heranÁa colonial comum, valores culturais prÛximos e mesmo idioma, alÈm do enorme potencial econÙmico e geoestratÈgico dos paÌses pertencentes ao PALOP, principalmente Angola, que est· vinculado ao patrimÙnio humano, natural e econÙmico que possuem, destacando-se as reservas de g·s e petrÛleo no Atl‚ntico Sul (VARGAS, 2007, s/p).

21 Discurso disponÌvel em <http://www.cplp.org/Discursos.aspx?ID=482&PID=1229&Action=1& NewsId=820&currentPage=4>. Acesso em 16 set. 2009

39

CAPÕTULO 3 A INTENSIFICA« O DAS RELA«’ES ENTRE O BRASIL E O CONTINENTE AFRICANO VIA CPLP

3.1

internacional

A

import‚ncia

do

continente

africano

no

atual

contexto

O inÌcio do sÈculo XXI representa para o continente africano um novo patamar de inserÁ„o na ordem internacional. A £frica n„o corresponde mais a caracterÌsticas como exÛtica, sem personalidade, problem·tica e carente de aÁıes humanit·rias; hoje a £frica È muito mais complexa mais autÙnoma e tem chamado a atenÁ„o do mundo para sua reinserÁ„o na polÌtica internacional. De acordo com Saraiva, trÍs conceitos centrais fundamentam essa hipÛtese:

ìa) o avanÁo gradual dos processos de democratizaÁ„o dos regimes polÌticos e a contenÁ„o dos conflitos armados; b) o crescimento econÙmico associado ‡ performances macroeconÙmicas satisfatÛrias e alicerÁadas na responsabilidade fiscal e preocupaÁ„o social; e c) a elevaÁ„o da autoconfianÁa das elites por meio de novas formas de renascimentos culturais e polÌticosî (SARAIVA, 2007, s/p).

Embora a pobreza ainda assole e perdure sob a grande maioria dos paÌses africanos, o continente tem dado nos ˙ltimos anos sinais de sustentabilidade e adaptaÁ„o econÙmica frente ‡ globalizaÁ„o, a exemplo da £frica subsaariana (£frica negra), considerada a regi„o mais pobre do mundo, que cresce entre 5% e 6% ao ano desde 2003 22 . Reformas econÙmicas liberalizantes e reduÁ„o de vulnerabilidades externas geradas por saldos exportadores e crescente atraÁ„o de investimentos externos diretos s„o fatores que moveram as economias de todo o continente para equilÌbrios na ·rea da gest„o dos negÛcios dos Estados (SARAIVA, 2008). Mesmo que tardios, duvidosos e vezes inseridos em meio ‡ corrupÁ„o, regimes polÌticos democr·ticos tambÈm tÍm sido instaurados em v·rios paÌses africanos nos ˙ltimos anos, gerando o sentimento de que £frica pode e caminha-se para superar o drama histÛrico das guerras civis e hostilidades internacionais. O

22 RelatÛrio publicado pelo Fundo Monet·rio Internacional, em 2006. O crescimento da £frica foi ao perÌodo mencionado, portanto, na mÈdia da AmÈrica Latina e superior ‡ mÈdia brasileira.

40

RelatÛrio do Desenvolvimento Humano do PNUD de 2005 e 2006 demonstra esse avanÁo:

ìO n˙mero de paÌses africanos com conflitos armados internos caiu de 13 para 5, nos ˙ltimos anos. Os conflitos foram a mais importante causa imediata da pobreza no continente. A reduÁ„o dram·tica dos mesmos faz pensar que os recursos, quase da ordem de US$ 300 bilhıes queimados nos conflitos entre 1990 e 2005, podem agora ser dirigidos ‡s polÌticas de reduÁ„o da pobreza e da misÈriaî (SARAIVA, 2007, s/p).

A consolidaÁ„o de instituiÁıes e governos na £frica com bases menos autocr·ticas e com algum apelo ‡s noÁıes da democracia torna-se de fato relevante para a elevaÁ„o da confianÁa internacional (SARAIVA, 2007). H· tambÈm a atenÁ„o dos setores financeiros em alguns paÌses africanos com a eventualidade de um novo ciclo de endividamento interno advindo principalmente das polÌticas financeiras que tem interesse estratÈgico no continente para compra de petrÛleo, commodities agrÌcolas e exploraÁ„o de recursos minerais. O ambiente anima a confianÁa dos mercados e tal fato faz com que a £frica venha sendo escolhida como parte das prioridades para novas ·reas e carteiras de emprÈstimos do Banco Mundial 23 . AlÈm dos pilares polÌticos e econÙmicos, outro fator de desenvolvimento do continente africano est· pautado no campo social, que varia de paÌs a paÌs, por meio de polÌticas de construÁ„o de metas de reduÁ„o da pobreza e combate ‡ AIDS 24 . Desse modo, h· razıes para o otimismo da £frica. Seu desenvolvimento È visÌvel desde 2002 e a tendÍncia È continuar crescendo nos prÛximos anos, mesmo diante da crise financeira que se desdobra no contexto do capitalismo norte-americano (STETTER, 2009). A Comunidade Internacional por meio de iniciativas polÌticas e culturais compartilha esse renascimento africano, que coloca o continente no foco das atenÁıes no cen·rio internacional:

23 Africa Foreign Investment Survey 2006. Washington: IMF, 2007 24 Embora nesta ˙ltima dÈcada v·rios paÌses africanos tenham atingido certa estabilidade polÌtica e econÙmica, ainda encaram a tragÈdia da AIDS como um enorme desafio ao continente. De acordo com Fantu Cheru, especialista em dÌvida da ONU, mais de 36 milhıes de pessoas no mundo hoje est„o infectadas por HIV/aids. Delas, cerca de 95% moram no hemisfÈrio sul, especificamente na £frica, onde todos os dias, mais de 5 mil pessoas morrem de aids.

41

ìA £frica È quase um quarto da superfÌcie da terra (22,5% das terras do globo), com 30 milhıes de quilÙmetros quadrados, do qual 10 % da populaÁ„o mundial est· em seu territÛrio. Ademais, a £frica È fonte de cobiÁa, pois possui cerca de 30 tipos de recursos minerais do mundo que guarda em seu subsolo (exemplo: diamante, ouro, petrÛleo). No entanto a sua participaÁ„o no comÈrcio mundial È de apenas 2% com 1% da produÁ„o industrial global. Em vista deste cen·rio, ainda existe um grande desafio pela frente para a elevaÁ„o desses itensî (SARAIVA, 2007, s/p).

Nos dias atuais, cada vez mais se diminui os interesses das organizaÁıes n„o-governamentais humanit·rias dos paÌses ricos e aumenta os interesses dos atores econÙmicos e estratÈgicos globais no continente africano, com o objetivo de dividir balanÁos e projeÁıes no centro dos institutos africanos e mundiais. O foco agora È o continente africano, seja o Estado uma grande potÍncia ou um paÌs subdesenvolvido, o mundo acompanha passo a passo com muita atenÁ„o a reinserÁ„o africana na polÌtica internacional (SARAIVA, 2008). Logo, a £frica se tornou:

ì( uma das ˙ltimas fronteiras do capitalismo global, com

)

riquezas naturais e humanas incomensur·veis. O mundo precisa mais da £frica do que a £frica do mundo. L· est„o fontes e recursos naturais necess·rios ‡ sobrevivÍncia do

planeta. E suas elites, embora ruins na mÈdia geral, est„o

divididas (

)î

25

Apesar de haver um aumento do status da £frica no contexto mundial com inserÁ„o na sociedade internacional, no Brasil atÈ o inÌcio da ˙ltima dÈcada ainda existia uma ìbaixa apreciaÁ„oî em relaÁ„o ao continente (ALC¬NTARA, 2009 apud SARAIVA, 2008). O histÛrico social que o Brasil possui, pode ser compreendido por uma instituiÁ„o que dependeu necessariamente do continente africano e com a chegada dos escravos negros do prÛprio, ìa escravid„o que assombrou nossa histÛria durante trÍs sÈculos e meio, e ainda hoje, permanece atual pela relaÁ„o que estabelece a populaÁ„o negra brasileira com a pobrezaî (COUTO, 2009 apud COSTA e SILVA, s/d). Todavia, a entrada do presidente Lula representou uma nova Ínfase dada pelo governo para as relaÁıes diplom·ticas e de cooperaÁ„o com a £frica.

25 CitaÁ„o extraÌda da Entrevista de JosÈ Sombra Saraiva a AgÍncia da FAPESP em fevereiro de 2009.

42

Hoje a £frica evolui para um ator internacional confi·vel e importante pelas polÌticas e avanÁos democr·ticos realizado por paÌses como a Angola, e demais membros africanos da CPLP. A histÛria da £frica torna-se necess·ria para o relacionamento do Brasil com este continente, e em pouco tempo ir· determinar a localizaÁ„o do Brasil em uma futura posiÁ„o de prestÌgio no cen·rio econÙmico internacional (COUTO, 2009 apud COSTA e SILVA, s/d).

3.2 AproximaÁıes entre o Brasil e os PALOP via CPLP

Historicamente os PALOP sempre apresentaram fatos e evidÍncias que os situaram no nÌvel de uma economia de subdesenvolvimento, pautado na produÁ„o agrÌcola, com fraca produtividade e subemprego ou desemprego persistentes. O processo de descolonizaÁ„o, as guerras e as polÌticas pÛs- coloniais, atÈ mesmo as caracterÌsticas geogr·ficas, clim·ticas e a pobreza em recursos do meio rural, resultaram no aumento do n˙mero de indivÌduos e de famÌlias que fogem a contextos de mudanÁa e instabilidade polÌtica e, particularmente, a situaÁıes de guerra (SILVA, ABRANTES, DUARTE, s/d, apud, MACHADO, 1997). Todavia, o fim do Estado Novo 26 proporcionou um cen·rio favor·vel para a independÍncia das colÙnias portuguesas e instigou a busca por aliados internacionais para maximizar a legitimidade bem como obter maior ajuda na soluÁ„o de conflitos alianÁas em meio ‡queles que compartilhassem da mesma histÛria e cultura. Na dÈcada de 1970, situou-se o processo de independÍncia dos paÌses africanos lusÛfonos (GuinÈ Bissau, em 1973; Angola, MoÁambique, S„o TomÈ e PrÌncipe e Cabo Verde, em 1975). Estava ent„o aberta a oportunidade para novas parcerias, e o Brasil valeu-se de seus preceitos humanistas para mostrar-se como um aliado, principalmente atravÈs da implementaÁ„o de postos diplom·ticos e, desde ent„o, as relaÁıes Brasilñ£frica passaram a um maior dinamismo.

ìO fato de o Brasil ter sido o primeiro paÌs a reconhecer, em 1975, a independÍncia da Rep˙blica Popular de Angola, sob o Governo do Movimento Popular de LibertaÁ„o de Angola

26 Regime polÌtico autorit·rio portuguÍs, iniciado em 1933 e encerrado em 1974 com a RevoluÁ„o dos Cravos.

43

(MPLA), concretizou e assinalou um dos marcos do estabelecimento das relaÁıes do Brasil com o continenteî (FRAN«A, 2009, s/p).

Devido ‡s guerras civis que se fizeram presentes face ‡ ausÍncia de poder nos Estados ent„o independentes de Portugal, a participaÁ„o do Brasil no continente africano atÈ a dÈcada de 1990 foi mais focada na presenÁa de construtoras e prestadoras de serviÁo no auxÌlio aos processos de reconstruÁ„o 27 . Apresentou-se ent„o a £frica como uma oportunidade de negÛcios para empresas de grande nÌvel, visto a possibilidade de obter m„o de obra barata, porÈm qualificada por iniciativas brasileiras; concomitantemente como um novo tÛpico para figurar na agenda externa brasileira (PEREIRA; VISENTINI, 2008). Como conseq¸Íncia desta aproximaÁ„o no ‚mbito econÙmico, notou-se o expressivo n˙mero de empresas brasileiras estabelecidas no continente africano, especialmente em Angola e MoÁambique, sendo possÌvel apontar

como um dos motivos a influÍncia m˙tua polÌtica, que por um lado promove interc‚mbio sociocultural e por outro lado diversifica e intensifica as relaÁıes comerciais, onde as naÁıes envolvidas podem ser beneficiadas. Tem-se em um blog governamental a afirmaÁ„o de que, desde o inÌcio do mandato Lula, o crescimento do comÈrcio Brasil ñ £frica foi de 414,5%; contemplando inicialmente US$ 5,039 bilhıes em 2002 e alÁando US$ 25,926 bilhıes em

2008 28 .

Todavia, desde os primeiros esboÁos que levaram a essa interaÁ„o, a criaÁ„o da CPLP foi de suma import‚ncia para o engajamento entre Brasil e £frica. A din‚mica das relaÁıes histÛricas entre o Brasil e os PALOP deu-se quase que exclusivamente apÛs a criaÁ„o da CPLP em 1996. Com o passar do tempo, o elemento integrador cultural que deu inicio ‡ CPLP ampliou-se para uma vertente mais polÌtico-estratÈgica, principalmente para o Brasil (RIZZI,

2008).

27 As construtoras brasileiras Camargo CorrÍa e Odebrecht iniciaram atividades com foco em obras de infra-estrutura urbana, ao mesmo tempo em que ent„o abriram caminho para outras empresas.

28

44

ìSe, de fato, h· um relacionamento econÙmico ainda limitado entre o Brasil e os PALOP, nota-se que as relaÁıes tendem a se fortalecer gradativamente, adaptando-se ‡s novas conjunturas internas e externasî (RIZZI, 2006, p.19).

Com Angola, por exemplo, ainda no perÌodo em que a CPLP estava somente no papel, houve a promulgaÁ„o do Acordo de CooperaÁ„o Cultural e CientÌfica, em 05 de outubro de 1990, no intuito de fortalecer laÁos comuns entre os povos e a promoÁ„o de relaÁıes culturais e cientÌficas por meio do comprometimento na promoÁ„o da cooperaÁ„o, incentivo ao interc‚mbio acadÍmico e cientÌfico, reconhecimento de diplomas e tÌtulos, dentre outros pontos. Em 1991, foi assinado o Protocolo de IntenÁıes na £rea de Desenvolvimento Educacional, como meio de estabelecer o acolhimento de estudantes angolanos nas universidades brasileiras. Desde ent„o, amparados pelo Programa de Estudantes de ConvÍnio de GraduaÁ„o e PÛs-GraduaÁ„o (PEC-PG), algo em torno de 150 estudantes angolanos vÍm ao Brasil anualmente para concluir seus estudos ou elaborar pesquisas 29 . Em colaboraÁ„o com a AgÍncia Brasileira de CooperaÁ„o (ABC) o ServiÁo Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) brasileiro participou da implementaÁ„o do Centro de FormaÁ„o Profissional Brasil-Angola, em Cazenga, (regi„o metropolitana de Luanda), no ano de 1999 e, em 2004, houve, ainda, a instalaÁ„o de um Centro Regional de ExcelÍncia em Desenvolvimento Empresarial, em Luanda (RIZZI, 2008). Ainda na tem·tica da educaÁ„o, pode-se tomar, por exemplo, a Universidade Agostinho Neto (UAN) - Universidade p˙blica de Angola, situada em Luanda, que muito tem contribuÌdo para interc‚mbio atravÈs de convÍnios com dez Universidades brasileiras ñ USP, UFRJ e UNB, a tÌtulo de exemplo. Ademais, com o apoio da UNESCO, o Brasil implantou o projeto ìPortal do Livroî: um banco de dados com cerca de 30 mil publicaÁıes cientÌficas, o qual est· disponÌvel a todos os Estados- Membros, alÈm do incentivo ao esporte, que busca a inserÁ„o social e o estÌmulo ‡ educaÁ„o por meio da pr·tica esportiva. Com Cabo-Verde diversos acordos no ‚mbito sociocultural tÍm sido selados desde a criaÁ„o da Comunidade, seja na ·rea da educaÁ„o com projeto de AlfabetizaÁ„o Solid·ria, seja no trabalho, com o Centro de FormaÁ„o

29 Importante citar que alÈm de Angola, o projeto È voltado para diversos paÌses, e contempla todos os paÌses africanos da CPLP.

45

Profissional, e mesmo no que tange aos direitos humanos, com um protocolo de intenÁıes nesse sentido. De acordo com o MRE, de 2000 a 2008, foram assinados diversos acordos ou ajustes entre os dois paÌses, indo da implantaÁ„o de uma universidade p˙blica ‡ dessalinizaÁ„o de ·gua de poÁos e capacitaÁ„o profissional; mostrando uma aceleraÁ„o do relacionamento bilateral (RIZZI, 2008). Quanto ‡ cooperaÁ„o com a GuinÈ-Bissau, as iniciativas passaram a ser mais intensa no governo Lula, especificamente a partir do ano de 2006. Podemos citar como exemplo, o amplo Acordo de CooperaÁ„o, que abrange projetos n„o mais distintos ·reas da Defesa, com atuaÁıes na formaÁ„o de m˙sicos para a organizaÁ„o de bandas militares, cooperaÁ„o nas ·reas de pesquisa e desenvolvimento, apoio logÌstico e aquisiÁ„o de produtos e serviÁos de Defesa, compartilhamento de conhecimento nas ·reas de ciÍncia e tecnologia, formaÁ„o e treinamento de pilotos, cursos diversos, operaÁıes e treinamento conjuntos 30 . Nos atos em vigor entre Brasil e GuinÈ Bissau, temos protocolos de intenÁıes para energia, implementaÁ„o de programas no ‚mbito do trabalho e desenvolvimento profissional, alÈm de acordos de cooperaÁ„o tÈcnica.

ìGuinÈ Bissau È um paÌs cuja guerra civil, findada em 1999, deixou cicatrizes que o colocam na 173™ posiÁ„o mundial no IDH, com pouco avanÁo socioeconÙmico, o que leva a permanÍncia de atos como a mutilaÁ„o feminina, e um PIB que possui 80% de seu valor proveniente de doaÁıes internacionais. Recentemente, o Brasil enviou uma nota repudiando a violÍncia em GuinÈ Bissau, visto o assassinato do presidente Jo„o Bernado Vieira em aparente vinganÁa pela morte do comandante das forÁas armadas, Batiste na Wai. Existem ainda, conforme a ABC, dois projetos-pilotos na ·rea agrÌcola, ambos com base nos Acordos supracitados, sendo um sobre cultivo de arroz irrigado e outro sobre produÁ„o de caju, pautados na transferÍncia de tecnologia para implementaÁ„o de modernas tÈcnicas de produÁ„o e processamento industrial de caju no paÌs. Ademais, os projetos de cooperaÁ„o tÈcnica entre Brasil e GuinÈ-Bissau receberam status priorit·rio no aprimoramento das relaÁıes entre os dois paÌses nos mais variados campos na visita presidencial de Lula ‡ Rep˙blica da GuinÈ-Bissau em abril de

30 Texto na Ìntegra em <http://www.areamilitar.net/imprensa/imprensa.aspx?nrnot=279>. Acesso em 16 set. 2009.

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2005, em especial a sa˙de, a agricultura e a formaÁ„o profissionalî (RIZZI, 2008, p. 15).

Em relaÁ„o a MoÁambique, onde vivem atualmente cerca de 2,5 mil brasileiros, trÍs das maiores empresas brasileiras atuam em Maputo, capital e

a maior cidade do paÌs, com pouco mais de um milh„o de habitantes: a Vale

faz estudos para dar inÌcio a exploraÁ„o de carv„o; a Camargo CorrÍa planeja

a construÁ„o de uma usina hidrelÈtrica; e a Odebrecht prepara obras de infra-

estrutura urbana - esse processo abre caminho para outras empresas. MoÁambique tambÈm tem se mostrado altamente comprometido com a idÈia da cooperaÁ„o bilateral com o Brasil, com acordos de cooperaÁ„o firmados em diversas ·reas da Sa˙de, EducaÁ„o, AÁıes Sociais e SeguranÁa P˙blica. Diante do contexto abordado, vale citar o projeto CooperaÁ„o na ·rea de AlfabetizaÁ„o e EducaÁ„o de Jovens e Adultos que objetiva a avaliaÁ„o final do projeto AlfabetizaÁ„o Solid·ria em MoÁambique, concluÌdo em marÁo de 2003. Neste projeto, apresentam-se quatro novas perspectivas estratÈgicas de trabalho, com a participaÁ„o do MinistÈrio da EducaÁ„o do Brasil (RIZZI, 2008).

ìPor ocasi„o da visita presidencial de Lula a Maputo, em 2003, o projeto ìBolsa-Escolaî em MoÁambique teve continuidade em 2004/2005 com o pagamento das bolsas, no valor de US$20,00 (vinte dÛlares) a 100 famÌlias carentes moÁambicanasî. 31

H· ainda uma sÈrie de acordos na ·rea cultural, de aÁıes de gÍnero e de seguranÁa p˙blica que est„o em andamento entre Brasil e MoÁambique, demonstrando que tais relaÁıes bilaterais tendem a ser as mais expressivas no ‚mbito dos PALOP (RIZZI, 2008 ). Quanto ‡s relaÁıes entre as ilhas de S„o TomÈ e PrÌncipe com o Brasil, as mesmas eram embasadas no aspecto acadÍmico e agrÌcola, sem grande intensidade em ‚mbitos que n„o contemplassem ˙nica e exclusivamente a cooperaÁ„o educacional, havendo ent„o apenas a inserÁ„o da sa˙de na agenda, face ao programa de controle para HIV. A partir da criaÁ„o da CPLP, e principalmente com a presidÍncia de LuÌs In·cio Lula da

31 MinistÈrio das RelaÁıes Exteriores. DisponÌvel em: <http://www.mre.gov.br>. Acesso em

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Silva e sua proposta de cooperaÁ„o com os paÌses lusÛfonos africanos, houve uma maior interaÁ„o entre ambos (RIZZI, 2008). Hoje existem interc‚mbios e dos mais diversos entre Brasil e os paÌses africanos por meio da CPLP. Recentemente, houve a confirmaÁ„o de um acordo internacional de cooperaÁ„o tÈcnica, na qual o Brasil ir· apoiar e assistir micro e pequenas empresas situadas nos paÌses lusÛfonos. Tal cooperaÁ„o j· toma lugar em MoÁambique h· cerca de um ano, restrita ‡ agricultura e manufatura, e estima-se que ter· inÌcio em Cabo Verde ainda em 2009. De acordo com JosÈ Marcelo de Miranda, assessor internacional do SEBRAE ñ ServiÁo Brasileiro de Apoio ‡s Micro e Pequenas Empresas. O empreendedorismo n„o ser· explorado de forma restrita ñ haver· transferÍncia de conhecimento, e a prospecÁ„o de jovens empres·rios n„o sÛ toma lugar em Angola, mas tambÈm est· prevista para ser realizada em GuinÈ Bissau no primeiro semestre de 2010 32 . A maior presenÁa da £frica na agenda externa brasileira motiva inclusive seu retorno ‡s pautas de debates universit·rios: h· um maior n˙mero de pesquisas e temos ent„o centros culturais, como a FundaÁ„o Cultural Palmares e as comunidades quilombolas, que tambÈm buscam intensificar as relaÁıes entre Brasil e £frica embasados na histÛria compartilhada, e no conhecimento a ser ofertado 33 . Fora iniciativas do gÍnero, recentemente ocorreu a aprovaÁ„o do acordo ortogr·fico da lÌngua portuguesa. Por possuir duas ortografias consideradas corretas ñ a brasileira e a portuguesa ñ deu-se a necessidade de que houvesse uma unificaÁ„o ortogr·fica para consolidar a din‚mica do idioma e eliminar obst·culos - diferenÁas na grafia e na concepÁ„o de palavras. Visto que a CPLP propıe uma maior integraÁ„o cultural e fundamenta-se na partilha de um idioma em comum, fez-se necess·rio acordar uma reforma ortogr·fica que permitisse maior aproveitamento das vias escritas - literatura, jornais, internet, contratos, propostas, entre outros. Assim, o conte˙do seria compartilhado com uma grafia homogÍnea para permitir a assimilaÁ„o independente da vertente lusÛfona e haveria reduÁ„o de custos com produÁ„o e adaptaÁ„o de livros,

32 Dados disponÌveis em http://hojelusofonia.universolusofono.org/2009/10/07/sebrae-ajuda- lusofonos-na-criacao-de-pequenas-empresas.

33 DisponÌvel em <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=34& id=403>. Acesso em 15 set.2009.

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como entrevista de Luis Fonseca - Secretario Executivo da CPLP - ao Jornal Mundo LusÌada, em 2007 34 . Com o idioma comum, e agora com o acordo ortogr·fico, t„o logo estaremos falando um ˙nico portuguÍs. Um os maiores meios e comunicaÁ„o,

a Televis„o, ou melhor, as grandes corporaÁıes da rede televisiva brasileira j·

perceberam o grande mercado que proporciona os paÌses africanos devido a afinidade e identificaÁ„o com a nossa cultura. A Rede Globo de Televis„o, uma das maiores empresas do no nosso paÌs, e a Record j· est„o bastante difundidas no continente ñ o que nos leva a uma maior interaÁ„o e possibilita as pessoas a viajarem pelo Brasil e vivenciarem nossa cultura mesmo sem sair de casa 35 . AlÈm da forte penetraÁ„o da televis„o brasileira (especialmente as telenovelas), vale ainda, mencionar que tem crescido na o n˙mero de igrejas evangÈlicas brasileiras 36 . TambÈm tem aumentado o estabelecimento de redes

de contrabando, tr·fico de drogas, armas e lavagem de dinheiro (num fluxo de duplo sentido entre Brasil e £frica), bem como o n˙mero de refugiados e imigrantes que o Brasil tem recebido na ˙ltima dÈcada tambÈm tem aumentado. Aspectos culturais e de seguranÁa, assim, se tornam agendas comuns no relacionamento entre as duas margens do Atl‚ntico (PEREIRA; VISENTINI, 2008). Contudo, h· tambÈm algumas crÌticas quanto a CPLP. Surgem, questionamentos quanto ‡ opÁ„o por um foco no ‚mbito Sul-Sul, e manifestos

de que a CPLP seria um retrocesso ao perÌodo colonial, devido ‡ participaÁ„o de Portugal e a existÍncia de medidas como a reforma ortogr·fica. H· tambÈm

a problematizaÁ„o quanto ‡ linguagem como meio cultural de exercer domÌnio

em outros povos. A segregaÁ„o fica n„o somente ligada ao histÛrico de Portugal, mas tambÈm seria notada ao se supor que o portuguÍs h· de ser o idioma privilegiado nos paÌses africanos, em detrimento de dialetos e linguagens tribais ñ aspectos da diversidade cultural, patrimÙnio de uma naÁ„o,

34 Entrevista disponÌvel em <http://www.mundolusiada.com.br/CPLP/cplp292_nov07.htm> 35 InformaÁ„o disponÌvel em: <http://www.cultura.gov.br/site/2009/04/07/programa-doctv-cplp/>. Acesso em 29. out.2009. 36 Somente na £frica do Sul j· existe aproximadamente 300 templos da Igreja Universal do Reino de Deus, sendo este fenÙmeno ainda mais intenso nos paÌses de lÌngua portuguesa, alÈm de uma crescente penetraÁ„o da televis„o brasileira (especialmente as telenovelas). Festivais de m˙sicas, danÁas, mostras de cinema e teatros brasileiros tambÈm vÍm ganhando forÁa no continente, principalmente nos paÌses pertencentes ‡ CPLP (VARGEM, 2008).

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seriam ent„o negligenciados. Paralelo aos esforÁos linguÌsticos, h· o contraste quanto ‡ disponibilidade de verbas para o Instituto Internacional da LÌngua Portuguesa, escassa para a devida promoÁ„o do idioma. Segundo Saraiva, uma das crÌticas ‡ CPLP recai justamente no fato desta possuir ìlimitada capacidade de aÁ„o no plano internacional, pela ausÍncia de meios persuasivos de press„o econÙmica eficazî (SARAIVA, 2001, p. 53). Embora a CPLP seja definida em seus Estatutos como um ente de personalidade jurÌdica e dotada de autonomia administrativa e financeira 37 , muito da sua efic·cia como InstituiÁ„o no plano internacional depende do total apoio de seus Estados-Membros, sendo que estes, muitas vezes desviam suas atenÁıes dos reais objetivos dessa cooperaÁ„o, como em momentos de eleiÁıes e sensibilidades econÙmicas e financeiras e frente a interesses alheios que v„o alÈm do poder de persuas„o e decis„o da Comunidade. O fato È que hoje, dos principais objetivos da fundaÁ„o em 1996, apenas o papel de mediador diplom·tico da CPLP tem sido plenamente garantido. A igualdade pressuposta pela comunidade È ent„o onerada conforme acadÍmicos visualizam aspectos neocolonialistas. Todavia, n„o se pode negar que de fato houve uma aproximaÁ„o entre os paÌses-membros no ‚mbito de cooperaÁ„o e solidariedade nesses ˙ltimos anos ñ e s„o esses laÁos que fortalecem a comunidade. Dentre as principais atuaÁıes da CPLP nesse contexto, È possÌvel citar 38 :

1. IncorporaÁ„o do Timor-Leste ‡ Comunidade apÛs sua independÍncia em 1999, quando o governo imperialista da IndonÈsia destruiu ñ literalmente ñ suas instituiÁıes educacionais, sociais e governamentais, deixando o paÌs necessitado de intervenÁıes humanit·rias;

2. CriaÁ„o do Fundo Especial, no qual milhıes de Euros s„o destinados a projetos que alavancam a economia e campo social dos seus paÌses menos favorecidos;

37 Estatutos da Comunidade dos PaÌses de LÌngua Portuguesa. DisponÌvel em: < http://www.cplp.org >. Acesso em: 23 jun. 2009.

38

InformaÁıes disponÌveis em: http://www.mundialistas.com.br/blog/?p=1024. Acesso em: 21

nov.2009.

50

3. Buscou, em paÌses terceiros, atravÈs de acordos como o Japan-Brazilian Partnership Programme e na Carta de Intensıes entre a ABC e GTZ (alem„), auxÌlios para a prestaÁ„o de serviÁos para os PALOP;

4. MediaÁ„o do conflito na GuinÈ-Bissau, atravÈs da criaÁ„o e atuaÁ„o do Grupo Internacional de Contato sobre a GuinÈ-Bissau (GIC-GB).

E

Logo, ao abranger os quatro continentes, a CPLP tem como fundamental objetivo reverter tal quadro de impasses locais, ampliando a dimens„o cultural para as ·reas econÙmicas e polÌtica (RIZZI, 2008). A CPLP n„o pode nem deve ser descartada pelo governo brasileiro, pois, pelos fatos culturais e geopolÌticos em que est· inserida, ela se torna um campo a mais para a atuaÁ„o da PEB em consolidar sua opÁ„o pelo multilateralismo. Temos ent„o o continente africano como um ponto a ser desempenhado na agenda de polÌtica externa brasileira n„o sÛ econÙmica, mas social e polÌtico-estratÈgica. Longe de ser o indivÌduo explorado e dominado, h· na figura da £frica um parceiro que apresenta v·rias oportunidades de desenvolvimento m˙tuo, e que atrai investidores. Em suma, a CPLP sem d˙vidas est· sendo favor·vel a agenda de polÌtica externa brasileira quanto ‡ aproximaÁ„o com o continente africano, e governo de Luiz In·cio Lula da Silva tem se aproveitado desse fruto.

3.3 Brasil-£frica: a diplomacia sociocultural no governo Lula

A presidÍncia de Lula, iniciada em 2003, abriu um novo capÌtulo nas

relaÁıes Brasil-£frica, combinando uma nova vis„o sobre a ordem internacional com a transformaÁ„o social interna. Desde o inÌcio do primeiro mandato, Lula vem dando sinais de mudanÁas na polÌtica externa brasileira para o continente africano. Em seus discursos iniciais, anunciou um Programa de ìRenascimento e RevalorizaÁ„o da £fricaî que discorre sobre uma maior aproximaÁ„o com paÌses de import‚ncia regional e sobre o retorno ‡ polÌtica africana atravÈs da exploraÁ„o de laÁos Ètnicos e socioculturais na construÁ„o de novas relaÁıes econÙmicas e comerciais para o desenvolvimento Sul-Sul (VISENTINI; PEREIRA, 2008). Em 2003, Celso Amorim, Ministro das RelaÁıes Exteriores do Brasil, declarou:

51

ìO estreitamento das relaÁıes com a £frica constituÌ para o Brasil uma obrigaÁ„o polÌtica, moral, e histÛrica. Com 76 milhıes de afro descendentes, somos a segunda maior NaÁ„o negra do mundo, atr·s da NigÈria, e o governo est· empenhado em refletir essa circunst‚ncia em sua atuaÁ„o externaî (AMORIM, 2003, p. A3).

Prova disso È o fato de uma das primeiras iniciativas de polÌtica externa de Lula ter sido alterar a estrutura interna do Itamaraty em relaÁ„o ‡ £frica - novas embaixadas foram implantadas e o n˙mero de diplomatas brasileiros nos paÌses africanos ampliado, alÈm de viagens presidenciais mais freq¸entes ao continente (RIBEIRO, 2007).

ìEmbora o governo Lula tenha sucedido uma dÈcada de baixa densidade na polÌtica do Brasil em relaÁ„o ‡ £frica, tambÈm herdou a experiÍncia e a estrutura necess·rias para o relanÁamento da polÌtica africana. GraÁas a uma extensa histÛria de vinculaÁıes, o Brasil tem 31 missıes diplom·ticas em 53 paÌses africanos e dispıe de 27 embaixadas africanas em seu territÛrio. O Itamaraty possui um departamento dedicado ‡ £frica dividido em trÍs ·reas que incluem paÌses e instituiÁıes multilaterais regionais de cooperaÁ„o e integraÁ„oî (LECHINI, 2008, p. 66-67).

Ademais, novos temas comeÁaram a ganhar relev‚ncia na agenda diplom·tica brasileira com a £frica, entre eles, o aprofundamento da diplomacia sociocultural 39 , do qual a CPLP e aos paÌses africanos de lÌngua portuguesa tem ganhado especial destaque. J· no primeiro ano do governo Lula, S„o TomÈ e PrÌncipe, MoÁambique e Angola receberam a visita do Presidente brasileiro. Na ocasi„o, foram discutidas as possibilidades de investimentos em diversas ·reas da ind˙stria e do comÈrcio, onde o Brasil desenvolveu com os paÌses da CPLP fortes programas de cooperaÁ„o bilateral, trazendo grande entusiasmo aos integrantes da Comunidade (VISENTINI; PEREIRA, 2008).

ìCom o presidente Lula viajou uma comitiva de 128 empres·rios interessados na expans„o de exportaÁıes. Foram negociadas f·bricas de cimento e de remÈdio (principalmente

39 Entendemos por diplomacia sociocultural os esforÁos e iniciativas de um Estado em conduzir sua polÌtica externa pautada nos campos culturais e sociais para reforÁar a representatividade das identidades nacionais e estreitar relaÁıes com outros paÌses, visando benefÌcios m˙tuos no cen·rio internacional.

52

medicamentos antiretrovirais), construÁ„o de ferrovias, exploraÁ„o de carv„o, exportaÁ„o de aparelhos celulares, montagem de Ùnibus e venda de m·quinas de coletar lixo, entre outros. A estimativa do interc‚mbio era a de mais de US$ 1 bilh„oî (VISENTINI; PEREIRA, s/p. 2008).

No campo sociocultural, ao mesmo tempo em que o combate ‡ pobreza no Brasil fundamentou-se em programas como a ìFome Zeroî, o governo Lula tem buscado integrar os afros descendentes aos avanÁos da sociedade brasileira. No campo educacional, Lula ampliou o Programa PEC (Programa de Estudantes ConvÍnio voltado ‡ concess„o de bolsas de estudo para estudantes africanos no Brasil) com a extens„o para a ·rea de pÛs-graduaÁ„o e tem ampliado a cooperaÁ„o no campo de pesquisas cientÌficas e interc‚mbio de professores, alÈm de avanÁar em parcerias de ensinos tÈcnicos. S„o tambÈm desenvolvidos movimentos de consciÍncia negra no Brasil a partir da realizaÁ„o de semin·rios e de novas legislaÁıes contra a discriminaÁ„o racial (VARGEM, 2008). As relaÁıes com Angola, parceiro tradicional em diversas ·reas, foi ampliada. Lula fomenta uma discuss„o pautada na ìrevoluÁ„o dos bicombustÌveisî. Segundo ele, os dois paÌses ñ Angola como uma potÍncia petrolÌfera e segundo maior produtor africano de petrÛleo e o Brasil como auto- suficiente na produÁ„o deste ñ poderiam juntos participar da prÛxima revoluÁ„o energÈtica. Para tal, o Brasil ofereceria apoio tÈcnico e profissionalizaÁ„o por meio de trocas de conhecimentos, experiÍncias, treinamentos, consultorias e capacitaÁ„o institucional na execuÁ„o de projetos-piloto (VISENTINI; PEREIRA, 2008). O Brasil, na presidÍncia da CPLP, desempenhou papel central nas gestıes diplom·ticas que contribuÌram para a retomada da democracia em S„o TomÈ e PrÌncipe 40 . Com MoÁambique, estreitaram-se laÁos comerciais e estabeleceu-se uma cooperaÁ„o no setor agropecu·rio, entre outras ·reas. Com todos os paÌses da Comunidade, tratou-se de cooperaÁ„o em programas na ·rea de desenvolvimento agr·rio, do combate ‡ AIDS e da luta contra a

40 Foi estabelecida uma cooperaÁ„o com a AgÍncia Nacional do PetrÛleo para ajudar o paÌs a desenvolver seu sistema de regulaÁ„o e licitaÁ„o da exploraÁ„o do seu petrÛleo.

53

pobreza 41 . AlÈm disso, o governo brasileiro tem favorecido significativamente um crescente n˙mero de empresas brasileiras, principalmente as exportadoras de serviÁos, que tem se dirigido ao continente africano para a realizaÁ„o de projetos 42 (VISENTINI; PEREIRA, 2008). Assim, no contexto de aceleraÁ„o do crescimento econÙmico que a £frica vem experimentando na ˙ltima dÈcada, Lula tem demonstrado enxergar novas oportunidades de investimentos no continente, como por exemplo, aproveitar o potencial da CPLP atravÈs de cooperaÁ„o bilateral nas ·reas de seguranÁa, negÛcios, sa˙de e educaÁ„o (LECHINI, 2008). Desde 2003 atÈ o final de 2008, Lula celebrou 59 atos internacionais bilaterais com os paÌses africanos de lÌngua portuguesa, 3,5 vezes mais do que o governo de FHC, precursor da CPLP. O gr·fico a seguir, realizado com bases nos dados do MinistÈrio das RelaÁıes Exteriores, demonstra tal afirmaÁ„o:

N˙mero total de Atos Celebrados entre Brasil e PALOP 70 59 60 50 40 30
N˙mero total de Atos Celebrados entre Brasil e PALOP
70
59
60
50
40
30
17
20
13 12
8
10
4
1
0
Geisel
Figueiredo
Sarney
Collor
Itamar Franco
FHC
LULA
(1974-1979)
(1979-1985)
(1985-1990)
(1990-1992)
(1992-1995)
(1995-2003)
(2003-2008)

Fonte: Gr·fico de autoria prÛpria. Dados extraÌdos da Divis„o de Atos Internacionais ñ DAÕ do MinistÈrio das RelaÁıes Exteriores. DisponÌvel em: <http://www.mre.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1175>. Acesso em 02. ago.2009

41 Na passagem pela sede da CPLP, em Lisboa, o Presidente Lula destacou a responsabilidade especial da Comunidade em reverter a situaÁ„o de misÈria de alguns povos e a necessidade de mobilizar a Comunidade Internacional. 42 Como exemplo, cabe destacar o fato da Companhia do Vale do Rio Doce ter sido a vencedora da concorrÍncia para a exploraÁ„o do complexo carbonÌfero de Moatize, ao norte de MoÁambique, estreitando as relaÁıes com o Brasil.

54

Embora o Brasil tenha efetivamente se reaproximado do continente Africano na dÈcada de 1960, as relaÁıes do Brasil com os paÌses africanos de lÌngua portuguesa por meio de celebraÁ„o de atos internacionais aconteceu somente no governo Geisel (1974-1979), cerca de vinte anos apÛs a primeira ideia de criaÁ„o de uma Comunidade que reunisse os paÌses de lÌngua portuguesa. Tal aproximaÁ„o com o continente no perÌodo se deu atravÈs da necessidade brasileira em cooperar com a £frica em termos estratÈgicos frente aos reflexos da I Crise do PetrÛleo. A dÈcada de 1980 voltou a protagonizar adversidades polÌtico- econÙmicas no contexto mundial. Todavia, mesmo que a recess„o da chamada ìdÈcada perdidaî tenha limitado fortemente os resultados de cooperaÁıes entre Brasil e £frica, Figueiredo tentou manter a presenÁa brasileira no continente Africano (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). Somente com os PALOP foram celebrados 12 atos internacionais. Conforme citamos anteriormente, o perÌodo de transiÁ„o entre o regime militar e a democracia marcou a reafirmaÁ„o da polÌtica africana do Brasil. JosÈ Sarney celebrou 8 atos com os PALOP e foi, de fato, em seu governo que iniciaram-se as negociaÁıes para criaÁ„o da CPLP. Com base no gr·fico notamos que Collor, com todos os entraves e esc‚ndalos polÌticos do seu curto mandato, seguiu outra linha de pensamento em relaÁ„o ‡ aproximaÁ„o com a £frica. Collor com sua vis„o pautada em paÌses de ìprimeiro mundoî celebrou apenas um ato internacional com os PALOP (especificamente no ‚mbito educacional com Angola), que assim como todo o continente africano, deteve de posiÁ„o secund·ria em seu governo (VISENTINI; RIBEIRO; PEREIRA, 2008). Itamar Franco, apesar de ter retomado a lÛgica do pragmatismo pautado no interesse nacional, celebrou 4 atos internacionais com os PALOP tentando n„o intimidar as relaÁıes com esses paÌses. J· o governo FHC, mesmo buscando a diversificaÁ„o das relaÁıes bilaterais do Brasil com os paÌses do Norte, iniciou novas aÁıes focadas no tema cooperaÁ„o via CPLP com a celebraÁ„o de 17 atos internacionais com os PALOP. Contudo, ao alisarmos o gr·fico acima, fica perceptÌvel o enfoque dado por Lula nas relaÁıes diplom·ticas e de cooperaÁ„o com os PALOP em seu

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mandato. Abaixo, mostramos a divis„o por temas e categorias dos 59 atos celebrados com os PALOP pelo presidente Lula atÈ 2008:

Divis„o de Atos Internacionais Brasil-PALOP nas gestıes Lula (2003-2008)

CooperaÁ„o tÈcnica, cientÌfica e econÙmica

Outros (atos aleatÛrios)

Sa˙de

EducaÁ„o

ProfissionalizaÁ„o

CooperaÁ„o cultural/combate ao racismo

Meio ambiente

Esporte

Agricultura

15 1 2 8 8 7 4 3 1 1 0 2 4 6 8
15
1 2
8
8
7
4
3
1
1
0
2
4
6
8
10
12
14
16

Fonte: Gr·fico de autoria prÛpria. Dados extraÌdos da Divis„o de Atos Internacionais ñ DAÕ do MinistÈrio das RelaÁıes Exteriores. DisponÌvel em: <http://www.mre.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1175>. Acesso em 02. ago.2009

Observa-se um predomÌnio de atos firmados no ‚mbito sociocultural, sobretudo nas ·reas de CooperaÁ„o TÈcnica, CientÌfica e EconÙmica (abrange tem·ticas de desenvolvimento sustent·vel, tecnologia, seguranÁa, sa˙de p˙blica e capacitaÁ„o profissional), de EducaÁ„o, Sa˙de, e ProfissionalizaÁ„o, demonstrando que a aproximaÁ„o com o continente africano focada em temas socioculturais tem se mostrado como um desdobramento importante da polÌtica externa de Lula. ¿ medida que a construÁ„o diplom·tica com a £frica foi avanÁando, o governo Lula passou cada vez mais a fazer uso do discurso sociocultural, centrado na familiaridade e na histÛria comum entre ambos os lados como meio de aproximaÁ„o (VARGEM, 2008). Nota-se que laÁos histÛricos, sociais e culturais mostram-se mais presentes na vis„o da polÌtica externa brasileira nos ˙ltimos anos sobre a necessidade de aproximaÁ„o e cooperaÁ„o com a £frica. Todavia, a construÁ„o de alianÁas preferenciais com parceiros no ‚mbito das relaÁıes Sul-Sul s„o tambÈm voltadas ‡ elementos estratÈgicos e econÙmicos, conforme veremos a seguir - fundamentais para a consolidaÁ„o da almejada

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posiÁ„o de lideranÁa do Brasil no cen·rio internacional (PEREIRA; VISENTINI,

2008).

3.4 A import‚ncia da CPLP frente aos interesses do Brasil

A nova ordem contempor‚nea, conhecida como globalizaÁ„o, confere grande interdependÍncia nas relaÁıes internacionais nos campos polÌtico, econÙmico, cultural e social; reconhece a democracia, a boa governanÁa e a promoÁ„o e proteÁ„o dos diretos humanos como pressupostos do desenvolvimento nacional e da convivÍncia internacional (MENDON«A, s/a). Desse modo, observa-se a expans„o dos movimentos de integraÁ„o regional e alinhamentos ideolÛgicos de diferentes naturezas e contornos, pelo qual grupos de paÌses unem-se para promover aÁıes que objetivam criar melhores condiÁıes para sua inserÁ„o em um mundo cada vez mais competitivo. A cooperaÁ„o internacional, ent„o, deixa gradualmente de referir- se simplesmente ‡ assistÍncia para a superaÁ„o do subdesenvolvimento, pautada em um ponto de vista fundamentalmente econÙmico e de uma estrita relaÁ„o Norte-Sul, passando a incorporar o conceito amplo de desenvolvimento social por meio de programas de cooperaÁ„o. A assim, a cooperaÁ„o Sul-Sul vem ganhando cada vez mais espaÁo no cen·rio internacional, o que foi possÌvel tambÈm graÁas ao crescimento econÙmico e progressivo fortalecimento das capacidades internas de parte dos paÌses em desenvolvimento (COELIN, s/a). Em discurso, proferido por ocasi„o da XV Reuni„o de Diretores de CooperaÁ„o Internacional da AmÈrica Latina e Caribe (MontevidÈu, Mar/02), o ex-Diretor- Geral da ABC, Embaixador Marco CÈsar Meira Naslausky, defendeu que:

ìno sÈculo XXI a cooperaÁ„o horizontal dever· crescer e se tornar um dos principais itens da agenda diplom·tica bilateral dos paÌses em desenvolvimento, tendÍncia que j· comeÁou a ser percebida mais claramente nos ˙ltimos anos da dÈcada de noventa. As potencialidades que a cooperaÁ„o Sul-Sul oferece para o estreitamento das relaÁıes internacionais entre paÌses em desenvolvimento, em praticamente todas as ·reas do

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conhecimento, tÍm sido objeto de grande atenÁ„o por parte dos Governos dos mencionados paÌses. Prova disso È o surgimento, nos ˙ltimos anos, de diversos Ûrg„os especificamente concebidos para coordenar e promover essa promissora vertente da cooperaÁ„o. O trabalho desenvolvido por essas instituiÁıes que atuam na promoÁ„o da cooperaÁ„o entre paÌses em desenvolvimento tem superado as expectativas iniciais e respondem, hoje, por parte substantiva dos programas mantidos entre os referidos paÌses, os quais, sem substituir a cooperaÁ„o vertical, mas ao complement·-la, redimensionaram e enriqueceram a cooperaÁ„o tÈcnica internacionalî (COELIN, s/d, p. 29).