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Editora Paz e Terra, 1988
Capa
Dap Design
sobre óleo de Gustave Courbet: Portrait of Baudelaire, 1849.
Revisão
Márcia Courtouké Menin
Oscar Faria Menin
Bárbara Eleodora Benevides
Arnaldo Rocha de Arruda

CIP-Branil. Cnt
Sindicato Nacional dos Editor** de Livroe, KJ.
Sumário
Baudelaire, Charle», 1821-18Í7
.BMtm A modernidade de Baudelaire / apMwntagão de Teixeira
Coelho ; tradução, Suei y Caasal. — Bio de Janeiro : Paz
e Terra 1988.

l - Baude]aire, Charles. 1821-1867 - Visão política e Introdução 9


social. I . Título.
A Modernidade de Baudelaire 13
CDD - 8«.9
88-1065 Para que Serve a Crítica 19
Do Heroísmo da Vida Moderna 23
A Exposição Universal de 19 5 5 29
Salão d e 1859 59
Direitos adquiridos pela
EDITORA PAZ E TERRA S/A O Pintor da Vida Moderna 159
Rua do Triunfo, 177
Santa Ifigênia, São Paulo, SP
CEP: 01212
Tel.: (011) 223-6522
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Conselho Editorial
António Cândido
Fernando Gasparían
Fernando Henrique Cardoso
1.° trimestre de 1988
Impresso no Brasil / Printed in BraiU
O Pintor da Vida Moderna *

O Belo, a Moda e a Felicidade

Há neste mundo, e mesmo no mundo dos


artistas, pessoas que vão ao Museu do Louvre,
passam rapidamente — sem se dignar a olhar
— diante de um número imenso de quadros muito
interessantes embora de segunda categoria e plan-
tam-se sonhadoras diante de um Ticiano ou de
um Rafael, um desses que foram mais populariza-
dos pela gravura; depois todas saem satisfeitas,
mais de uma dizendo consigo: "Conheço o meu
museu". Há também pessoas que, por terem ou-
trora lido Bossuet e Racine, acreditam dominar a
história da literatura.
:" Trata-se do desenhista, aquarelista e gravador Constantin
Guys (1805-1892). Artigo incluído no volume L'Art Ro-
mantique, coletânea de artigos de crítica de arte, publica-
dos postumamente em 1869. (N. do T.)

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Felizmente, de vez em quando aparecem jus- todos é a moral e a estética da época. A ideia que
ticeiros, críticos, amadores e curiosos que afirmam o homem tem <b belo imprime-se em todo o seu
nem cudo estar em Rafael nem em Racine, que vestuário, toma sua roupa franzida ou rígida,
os pwtae minores possuem algo de bom, de sólido arredonda ou alinha seu gesto e inclusive impreg-
e de delicioso, e, finalmente, que mesmo amando na sutilmente, com o passar do tempo, os traços
tanto a beleza geral, expressa pelos poetas e artis- de seu rosto. O homem acaba por se assemelhar
tas clássicos, nem por isso deixa de ser um erre àquilo que gosuria de ser. Essas gravuras podem
negligenciar a beleza particular, a beleza de cir- ser traduzidas em belo e em feio; em feio, tor-
cunstância e a pintura de costumes. nam-se caricaturas; em belo, estátuas antigas.
Devo convir que o mundo, de alguns anos As mulheres que envergavam esses trajes se
para cá, se corrigiu um pouco. O valor que os pareciam mais eu menos umas às outras, segundo
amadores atribuem hoje aos mimos gravados e co- o grau de poesia ou de vulgaridade que as distin-
loridos do século XVIII prova que houve uma guia. A matéria viva tornava ondulante o que nos
reação na direção reclamada pelo público: Debu- parece muito rígido. A imaginação do espectador
court, os Saint-Aubín e muitos outros entraram pode ainda hoje movimentar e fremir esta tiínica
para o dicionário dos artistas dignos de serem es- ou este xale. Talvez, um dia desses, será montado
tudados. Mas eles representam o passado. Ora, um drama num teatro qualquer, onde presencia-
hoje quero me ater estritamente à pintura de cos- remos a ressurreição desses costumes nos quais nos-
tumes do presente. O passado é interessante não sos pais se achavam tão atraentes quanto nós mes-
somente pela beleza que dele souberam extrair os mos em nossas pobres roupas (que também têm
artistas para quem constituía o presente, mas sua graça, é verdade, mas de uma natureza so-
igualmente como passado, por seu valor histórico. bretudo moral e espiritual, e se forem vestidos
O mesmo ocorre com o presente. O prazer que e animados por atrízes e atores inteligentes, nós
obtemos cem a representação do presente deve-se nos admiraremos de nos terem despertado o riso
não apenas à beleza de que ele pode estar reves- de modo tão leviano. O passado, conservando o
tido, mas também à sua qualidade essencial de sabor do fantasma, recuperará a luz e o movi-
presente. mento da vida, e se tornará presente.
Tenho diante dos olhos uma série de gravu- Se um homem imparcial folheasse uma a uma
ras de modas que começam na Revolução e ter- iodas as modas francesas desde a origem da Fran-
minam aproximadamente no Consulado. Esses tra- ça até o momento, nada encontraria de chocante
jes que provocam o riso de muitas pessoas insen- nem de surpreendente. Seria possível ver, sim, as
satas, essas pessoas sérias sem verdadeira seriedade transições organizadas de forma tão gradativa
apresentam um fascínio de uma dupla natureza, quanto na escala do mundo animal. Nenhuma la-
ou seja, artístico e histórico. Eles quase sempre cuna; logo, nenhuma surpresa. E se ele acrescen-
são belos e desenhados com elegância, mas o que tasse à vinheta que representa cada época o pen-
me importa, pelo menos em idêntica medida, e o samento filosófico que mais a ocupou ou agitou,
que me apraz encontrar em todos ou em quase pensamento cuja lembrança é inevitavelmente
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evocidi pela vinheta, constataria a profunda har-
monia que rege toda a equipe da história, e que, nos pelo temperamento particular do autor. A
mesmo nos séculos que nos parecem mais mons- dualidade da arte é uma consequência fatal da
truosos e insanos, o imortal apetite do belo sempre dualidade do homem. Considerem, se isso lhes
foi saciado. apraz, a parte eternamente subsistente como a al-
ma da arte, e o elemento variável como seu corpo.
Na verdade, esta é uma bela ocasião para es- É por isso que Stmdhal, espírito impertinente, ir-
tabelecer uma teoria racional e histórica do belo, ritante, até mesmo repugnante, mas cujas imper-
em oposição à teoria do belo único e absoluto; tinências necessariamente provocam a meditação,
para mostrar que o belo inevitavelmente sempre se aproximou mais da verdade do que muitos ou-
tem uma dupla dimensão, embora a impressão que tros ao afirmar que o belo não é senão a promessa
produza seja uma, pois a dificuldade em discer- da felicidade. Sem dúvida, tal definição excede seu
nir os elementos variáveis do belo na unidade da objetivo; ela submete de forma excessiva o belo ao
impressão não diminui em nada a necessidade da ideal indefinidamente variável da felicidade; des-
variedade em sua composição. O belo é consti- poja com muita desenvoltura o belo de seu cará-
tuído per um elemento eterno, invariável, cuja ter aristocrático, mas tem o grande mérito de
quantidade é excessivamente difícil determinar, e afastar-se decididamente do erro dos académicos.
de um elemento relativo, circunstancial, que será,
se quisermos, sucessiva ou combinadamente, a Já expliquei estas coisas mais de uma vez;
época, a moda, a moral, a paixão. Sem esse se- estas linhas são suficientes para aqueles que apre-
gundo elemento, que é como o invólucro aprazí- ciam os exercícios do pensamento abstrato; mas
vel, palpitante, aperitivo do divino manjar, o pri- sei que os leitores franceses, em sua maioria, neles
meiro elemento seria indigerível, inapreciável, não pouco se comprazem e eu mesmo tenho pressa de
adaptado e não apropriado à natureza humana. entrar na parte positiva e real de meu tema.
Desafio qualquer pessoa a descobrir qualquer
exemplo de beleza que não contenha esses dois
elementos.
Escolho, se preferirem, es dois escalões extre- O Croqui de Costumes
mos da história. Na arte hierática, a dualidade
salta à vista; a parte de beleza eterna só se ma-
nifesta com a permissão e dentro dos cânones da Para o croqui de costumes, a representação
religião a que o artista pertence. A dualidade se da vida burguesa e os espetáculos da moda, o meio
evidencia igualmente na obra mais frívola de um mais expedito e menos custoso evidentemente é o
artista refinado pertencente a uma dessas épocas melhor. Quanto mais beleza o artista lhe confe-
que qualificamos com excessiva vaidade de civili- rir, mais preciosa será a obra; mas há na vida or-
zadas; a porção eterna de beleza estará ao mesmo dinária, na metamorfose incessante das coisas ex-
tempc velada e expressa, se não pela moda, ao me- teriores, um movimento rápido que exige do ar-
tista idêntica velocidade de execução. As gravu-
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rãs de váiiu tonalidades do século XVIII obti- m
veram novamente o favor da moda, como eu
afirmava há pouco; o pastel, a água-forte, a água- O Artista,
tinta forneceram sucessivamente seus contingen- Homem do Mundo,
tes pira o imenso dicionário da vida moderna dis- Homem de\ e Criança
seminado nas bibliotecas, nas pastas dos amadores
e nas vitrines das lojas mais vulgares. A litografia, Quero falar hoje de um homem singular,
desde o seu surgimento, imediatamente se mos- originalidade tão poderosa e tão decidida que se
trou bastante apta a essa enorme tarefa aparen- basta a si própria e não busca sequer a aprovação
temente tão frívola. Possuímos, nesse género, ver- de outrem. Nenhum de seus desenhos é assinado,
dadeiros monumentos. As obras de Gavarni c de se chamarmos assinatura essas poucas letras, pas-
Daurnier foram com justiça denominadas com- síveis de falsificação, que representam um nome,
plementos da Comedia Humana. O próprio Bal- e que tantos apõem faustosamente embaixo de
zac, tenho certeza absoluta, não estaria longe de seus croquis mais insignificantes. Porém, todas as
adotar essa ideia, pela justa razão de que o génio suas obras são assinadas com sua alma resplande-
de pintor de costumes é um génio de uma na- cente, e os amadores que as viram e apreciaram
tureza mista, isto é, no qual entra uma boa dose as reconhecerão sem dificuldade na descrição que
de espírito literário. Observador, flâneur, filósofo, delas pretendo fazer. Enamorado pela multidão e
chamem-no como quiserem, mas, para caracteri- pelo incógnito, C. G. leva a originalidade às raias
zar esse artista, certamente seremos levados a da modéstia. Thackeray, que, como se sabe, in-
agraciá-lo com um epíteto que não poderíamos teressa-se bastante pelas coisas de arte e desenha
aplicar ao pintor das coisas eternas, ou pelo me- ele próprio as ilustrações de seus romances, um
ncs mais duradouras, coisas heróicas ou religio- dia discorreu sobre G. num folhetim de Londres.
sas. Às vezes ele é um poeta; mais frequentemen- G. irritou-se com o fato, como se se tratasse de
um ultraje a seu pudor. Ainda recentemente,
te aproxima-se do romancista ou do moralista; é
quando soube que eu me propunha fazer uma
o pintor do circunstancial e de tudo o que este
apreciação de seu espírito e talento, suplicou-me,
sugere de eterno. Todos os países, para seu pra- de uma maneira muito imperiosa, que seu nome
zer e glória, possuíram alguns desses homens. Em fosse suprimido e que só falasse das obras como
nossa época atual, a Daumier e a Gavarni, pri- obras de um anónimo. Obedecerei humildemente
meiros nomes que nos vêm à memória, podem-se a esse estranho desejo. Fingiremos acreditar, o lei-
acrescentar os de Deveria, Maurin, Numa, histo- tor e eu, que G. não existe e trataremos de seus
riadores das ambíguas belezas da Restauração; desenhos e aquarelas, pelos quais ele professa um
Wattier, Tassaert, Eugène Lami — este último desdém aristocrático, agindo como esses pesquisa-
quase inglês, de tanto amor pelas elegâncias aris- dores que tivessem de julgar preciosos documen-
tocráticas — e inclusive Trimolet e Traviès, cro- tos históricos, fornecidos peto acaso, e cujo autor
nistas da pobreza e da banalidade quotidiana. devesse permanecer eternamente desconhecido. In-
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uma crónica minuciosa e diária da campanha da
clusiTe, ]>ara apaziguar completamente minha Criméia, melhor do que qualquer outra. O mes-
consciência, vamos supor que tudo quanto tenho mo jornal publicara também, sempre sem assina-
a dizer sobre sua natureza, tão curiosa e misterio- tura, inúmeras composições do mesmo autor, ins-
samente brilhante, é justamente sugerido, mais ou piradas nos bales e óperas recentes. Quando final-
menos, pelas obras em questão; pura hipótese mente o conheci, logo vi que não se tratava pre-
poética, conjetura, trabalho de imaginação. cisamente de um artista, mas antes de um homem
G. é velho. Comenta-se que Jean-Jacques do mundo. Entenda-se aqui, por favor, a palavra
começou a escrever aos quarenta e dois anos. Foi artista num sentido muito restrito, e a expressão
talvez por essa idade que G., obcecado por todas homem do mundo num sentido muito amplo. Ho-
as imagens que lhe povoavam o cérebro, teve a mem do mundo, isto é, homem do mundo inteiro,
audácia de espargir tintas e cores sobre uma folha homem que compreende o mundo e as razões mis-
branca. Para dizer a verdade, ele desenhava como teriosas e legítimas de todos os seus costumes; ar-
um bárbaro, como uma criança, irritando-se con- tista, isto é, especialista, homem subordinado à sua
tra a imperícia de seus dedos e a desobediência de palheta como o servo à gleba. G. não gosta de ser
seu instrumento. Vi muitas dessas garatujas pri- chamado de artista. Não teria ele alguma razão?
mitivas e confesso que a maioria das pessoas capa- Ele se interessa pelo mundo inteiro; quer saber,
zes de julgar, ou com essa pretensão, teria po- compreender, apreciar tudo o que acontece na su-
dido, sem desabono, não adivinhar o génio latente perfície de nosso esferóide. O artista vive pou-
que habitava esses tenebrosos esboços. Atualmente quíssimo — ou até não vive — no mundo mo-
G., que descobriu sozinho todos os pequenos tru- ral e político. O que mora no bairro Bréda igno-
ques do ofício e, sem receber conselhos, realizou ra o que se passa no fauhourg Saint-Germain. Sal-
sua própria formação, tornou-se um admirável vo duas ou três exceções que não vale a pena
mestre à sua maneira, conservando da simplicidade mencionar, a maioria dos artistas são, deve-se con-
inicial apenas o necessário para acrescentar às suas vir, uns brutos muito hábeis, simples artesãos, in-
mais ricas faculdades um toque desconcertante. teligências provincianas, mentalidades de cidade
Quando ele descobre uma dessas tentativas de sua pequena. Sua conversa, forçosamente limitada a
juventude, rasga-a ou queima-a com uma vergo- um circulo muito restrito, torna-se rapidamente
nha das mais divertidas. insuportável para o homem do mundo, para o ci-
Durante dez anos desejei travar conhecimen- dadão espiritual do universo.
to com G., que é, por temperamento, apaixonado Assim, para entrar na compreensão de G.,
por viagens e muito cosmopolita. Sabia que du- anotem imediatamente o seguinte: a curiosidade
rante muito tempo ele fora correspondente de pede ser considerada como ponto de partida de
um jornal inglês ilustrado e que nele publicara seu génio.
gravuras a. partir de seus croquis de viagem (Es- Lembram-se de um quadro (e um quadro,
panha, Turquia, Criméia). Vi, desde essa época, na verdade!) escrito pelo mais poderoso autor
uma quantidade considerável desses desenhos im- desta época e que se intuía L'Homme dês Foules
provisados rics próprios locais e pude ler assim
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(O Hi*iiti*tfí tias Multidões) ? Atrás das vidraça •* Naquele, a razão ganhou um lugar considerável;
de um caie, um convalescente, contemplando com nesta, a sensibilidade ocupa quase todo o seu ser.
prazer a iniikidão, mistura-se mentalmente a to- Mas o génio é somente a infância redescoberta sem
dos os pensamentos que se agitam à sua volta. Res- limites; a infância a$ora dotada, para expressar-
gatado há puuco das sombras da morte, ele aspira se, de órgãos viris e <lo espírito analítico que lhe
com deleite todos os indícios e eflúvios da vida; permitem ordenar a soma de materiais involunta-
como estava prestes a tudo esquecer, lembra-se e riamente acumulada. É à curiosidade profunda e
quer ardentemente lembrar-se de tudo. Finalmen- alegre que se deve atribuir o olhar fixo e animal-
te, precipita-se no meio da multidão à procura mente estático das crianças diante do novo, seja o
de um desconhecido cuja fisionomia, apenas vis- que for, rosto ou paisagem, luz, brilhos, cores, te-
l u m b r a d a , fascinou-o num relance. A curiosidade cidos cintilantes, fascínio da beleza realçada pelo
transformou-se numa paixão fatal, irresistível! traje. Um de meus amigos dizia-me um dia que,
Imagine-se um artista que estivesse sempre, ainda pequeno, via seu pai lavando-se e que então
espiritualmente, em estado de convalescença e se contemplava — com uma perplexidade mesclada
terá a chave do caráter de G. de deleite — os músculos dos braços, as gradações
Ora, a convalescença c como uma volta à de cores da pele matizada de rosa e amarelo, e a
infância. O convalescente goza, no mais alto grau, rede azulada das veias. O quadro da vida exte-
como a criança, da faculdade de se interessar in- rior já o impregnava de respeito e se apoderava
tensamente pelas coisas, mesmo por aquelas que de seu cérebro. A forma já o obcecava e o possuía.
aparentemente se mostram as mais triviais. Re- A predestinação mostrava precocemente a ponta
tornemos, se possível, através de um esforço re- do nariz. A danação estava consumada. É preciso
trospectivo da imaginação, às mais jovens, às mais dizer que essa criança hoje é um pintor célebre?
matinais de nossas impressões, e constataremos que Eu exortava meu leitor ainda há pouco a que
elas possuem um singular parentesco com as im- considerasse G. como um eterno convalescente:
pressões tão vivamente coloridas que recebemos para completar sua intelecção, considere-o tam-
ulteriormente, depois de uma doença, desde que bém como um homem-criança, como um homem
esta tenha deixado puras e intactas nossas facul- dominado a cada minuto pelo génio da infância,
dades espirituais. A criança vê tudo como novi- ou seja, um génio para o qual nenhum aspecto
dade; ela sempre está inebriada. Nada se parece da vida é indiferente.
tanto com o que chamamos inspiração quanto a Dizia-lhe que me desagradava chamá-lo de
alegria com que a criança absorve a forma e a puro artista e que ele próprio recusava esse título
cor. Ousaria ir mais longe: afirmo que a inspira- com uma modéstia mesclada de pudor aristocrá-
ção tem alguma relação com a congestão, e que tico. Eu o chamaria de bom grado dândi, e teria
todo pensamento sublime é acompanhado de um algumas boas razões para isso; pois a palavra dândi
estremecimento nervoso, mais ou menos intenso, implica uma quintessêncía de caráter e uma com-
que repercute até no cerebelo. O homem de génio preensão sutil de todo mecanismo moral deste
tem nervos sólidos; na criança, eles são fracos. mundo; mas, por outro lado, o dândi aspira à in-
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sensibilidade, e é por esse ângulo que G., que é
dominadc por uma paixão insaciável, a de ver e na multidão como se isso lhe aparecesse como um
de sentir, se afasta violentamente do dandismo. reservatório de eletricidade. Pode-se igualmente
Amabam amure, dizia Santo Agostinho. "Amo compará-lo a um espelho tão imenso quanto essa
apaixonadamente a paixão", diria G. com natura- multidão; a um caleidoscópio dotado de consci-
lidade. O dândi é entediado, ou finge sê-lo, por ência, que, a cada uru de seus movimentos, re-
política e razão de casta. G. tem horror às pes- presenta a vida múltipla e o encanto cambiante
soas entediadas. Ele possui a arte extremamente de todos os elementos da vida. É um eu insaciável
difícil (os espíritos refinados irão me compreen- do não-eUy que a cada instante o revela e o expri-
der) de ser sincero sem ser ridículo. Poderia con- me em imagens mais \ivas do que a própria vida,
decorá-lo com o título de filósofo, que ele merece sempre instável e fugidia. "Todo homem", dizia
por várias razões, se seu amor excessivo pelas coi- G. um dia, numa dessas conversas que ele ilumina
sas visíveis, tangíveis, condensadas no estado plás- com um olhar intenso e um gesto evocativo, "todo
tico não lhe inspírasse uma certa repugnância por homem que não é atormentado por uma dessas
aquelas que formam o reino impalpável do me- tristezas de natureza demasiado concreta que ab-
tafísico. Vamos reduzi-lo, portanto, à condição sorvem todas as faculdades, e que se entedia no
de puro moralista pitoresco, como La Bruyère. seio da multidão, é um imbecil! Um imbecil! e
desprezo-o!"
A multidão é seu universo, como o ar é o Quando G., ao despertar, abre os olhos e vê
dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua pai-
o sol flamejante invadindo as vidraças, diz para
xão e profissão é desposar a multidão. Para o
perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é si mesmo com remorso, com arrependimento:
"Que ordem imperiosa! Que fanfarra de luz! Há
um imenso jubilo fixar residência no numeroso, muitas horas já, luz em toda parte! Luz perdida
no ondulante, no movimento, no fugidio e no in-
por causa de meu sono! Quantas coisas ilumina-
finito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em
das poderia ter visto e não vi!" E ele sai! E ob-
casa onde quer que se encontre; ver o mundo,
serva fluir o rio da vitalidade, tão majestoso e bri-
estar no centro do mundo e permanecer oculto
lhante. Admira a eterna beleza e a espantosa har-
ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres des-
monia da vida \nas capitais, harmonia tão provi-
ses espíritos independentes, apaixonados, impar-
dencialmente mantida no tumulto da liberdade
ciais, que a linguagem não pode definir senão tos-
humana. Contempla as paisagens da cidade gran-
camente. O observador é um príncipe que frui
de, paisagens de pedra acariciadas pela bruma ou
por toda parte do fato de estar incógnito. O ama-
fustigadas pelos sopros do sol. Admira as belas
dor da vida faz do mundo a sua família, tal como
carruagens, os garbosos cavalos, a limpeza relu-
o amador do belo sexo compõe sua família com
zente dos lacaios, a destreza dos criados, o andar
toda as belezas encontradas, encontráveis ou
das mulheres ondulosas, as belas crianças, felizes
inencontráveis; tal como o amador de quadros
por viverem e estarem bem vestidas; resumindo, a
vive numa sociedade encantada de sonhos pinta-
dos. Assim o apaixonado pela vida universal entra vida universal. Se uma moda, um corte de vestuá-
rio foi levemente transformado, se os laços de
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fita e os caclos foram destronados pelas rosetas, culdade de ver; há ainda menos homens que pos-
se a manti-Uia se ampliou e o coque desceu um suem a capacidade de exprimir. Agora, à hora em
pouquinho na nuca, se a cintura foi erguida e a que os outros estão dormindo, ele está curvado
saia alargada, acreditem que a uma distância enor- sobre sua mesa, lançando sobre uma folha de pa-
me seu olhar de águia já adivinhou. Um regimen- pel o mesmo olhar que há pouco dirigia às coisas,
to passa, ele \'ai talvez ao fim do mundo, difun- lutando com seu lápis, sua pena, seu pincel, lan-
dindo no ar dos bulevares suas fanfarras seduto- çando água do copo até o teto, limpando a pena
ras e diáfanas como a esperança; e eis que o olhar na camisa, apressando, violento, ativo, como se
de G. já viu, inspecíonou, analisou as armas, o temesse que as imagens lhe escapassem, belicoso,
porte e a fisionomia dessa tropa. Arreios, cintila- mas sozinho e debatendo-se consigo mesmo. E as
ções, música, olhares decididos, bigodes espessos é coisas renascem no papel, naturais e, mais do que
graves, tudo isso ele absorve simultaneamente; e naturais, belas; mais do que belas, singulares e do-
em alguns minutos o poema que disso resulta es- tadas de uma vida entusiasta como a alma do au-
tará virtualmente composto. E sua alma vive com tor. A fantasmagoria foi extraída da natureza.
a alma desse regimento que marcha como se fosse Todos os materiais atravancados na memória
um único animal, altiva imagem da alegria na classificam-se, ordenarn-se, harmonizam-se e so-
obediência! frem essa idealização forçada que é o resultado
de uma percepção infantil, isto é, de uma percep-
Mas a noite chegou. É a hora estranha e am- ção aguda, mágica à força de ser ingénua!
bígua em que se fecham as cortinas do céu e se
iluminam as cidades. Os revérberos se sobressaem
sobre a púrpura do poente. Honestos ou desones-
tos, sensatos ou insanos, os homens dizem consi- IV
go: "Enfim, acabou-se o dia!" Os plácidos e os de A Modernidade
má índole pensam no prazer e todos acorrem ao
lugar de sua preferência para beber a taça do
esquecimento. G. será o último a partir de qual- Assim ele vai, corre, procura. O quê? Certa-
quer lugar onde possa resplandecer a luz, ressoar mente esse homem, tal como o descrevi, esse soli-
a poesia, fervilhar a vida, vibrar a música; de tário dotado de uma imaginação ativa, sempre
viajando através do grande deserto de homens, tem
todo lugar onde uma paixão possa posar diante de
seus olhos, de todo lugar onde o homem natural e um objetivo mais elevado do que a de um sim-
o homem convencional se mostrem numa beleza ples flâneur, um objetivo mais geral, diverso do
prazer efémero da circunstância. Ele busca esse
estranha, de todo lugar onde o sol ilumina as ale-
grias efémeras do animal depravado! "Foi, com algo, ao qual se permitirá chamar de Modernida-
de; pois não me ocorre melhor palavra para ex-
certeza, uma jornada bem empregada", pensará
certo leitor que todos conhecemos. "Todos têm primir a ideia em questão. Trata-se, para ele, de
talento suficiente para preenchê-la da mesma ma- tirar da moda o que esta pode conter de poético no
neira." Não! Poucos homens são dotados da fa- histórico, de extrair o eterno do transitório. Se
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fita e os cachos foram destronados pelas rosetas, culdade de ver; há ainda menos homens que pos-
se a mantilha se ampliou e o coque desceu um suem a capacidade de exprimir. Agora, à hora em
pouquinho na nuca, se a cintura foi erguida e a que os outros estão dormindo, ele está curvado
saia alargada, acreditem que a uma distância enor- sobre sua mesa, lançando sobre uma folha de pa-
me seu olhar de águia já adivinhou. Um regimen- pel o mesmo olhar que há pouco dirigia às coisas,
to passa, ele vai talvez ao fim do mundo, difun- lutando com seu lápis, sua pena, seu pincel, lan-
dindo no ar dos bulevares suas fanfarras seduto- çando água do copo até o teto, limpando a pena
ras e diáfanas como a esperança; e eis que o olhar na camisa, apressando, violento, ativo, como se
de G. já viu, inspecionou, analisou as armas, o temesse que as imagens lhe escapassem, belicoso,
porte e a físianomia dessa tropa. Arreios, cintila- mas sozinho e debatendo-se consigo mesmo. E as
ções, música, olhares decididos, bigodes espessos é coisas renascem no papel, naturais e, mais do que
graves, tudo isso ele absorve simultaneamente; e naturais, belas; mais do que belas, singulares e do-
em alguns minutos o poema que disso resulta es- tadas de uma vida entusiasta como a alma do au-
tará virtualmente composto. E sua alma vive com tor. A fantasmagoria foi extraída da natureza.
a alma desse regimento que marcha como se fosse Todos os materiais atravancados na memória
um único animal, altiva imagem da alegria na classificam-se, ordenam-se, harmonizam-se e so-
obediência! frem essa idealização forçada que é o resultado
de uma percepção infantil, isto é, de uma percep-
Mas a noite chegou. É a hora estranha e am- ção aguda, mágica à força de ser ingénua!
bígua em que se fecham as cortinas do céu e se
iluminam as cidades. Os revérberos se sobressaem
sobre a púrpura do poente. Honestos ou desones-
tos, sensatos ou insanos, os homens dizem consi- /V
go: "Enfim, acabou-se o dia!" Os plácidos e os de A Modernidade
má índole pensam no prazer e todos acorrem ao
lugar de sua preferência para beber a taça do
esquecimento. G. será o último a partir de qual- Assim ele vai, corre, procura. O quê? Certa-
quer lugar onde possa resplandecer a luz, ressoar mente esse homem, tal como o descrevi, esse soli-
a poesia, fervilhar a vida, vibrar a música; de tário dotado de uma imaginação ativa, sempre
todo lugar onde uma paixão possa posar diante de viajando através do grande deserto de homens, tem
seus olhos, de todo lugar onde o homem natural e um objetivo mais elevado do que a de um sim-
o homem convencional se mostrem numa beleza ples flâneur, um objetivo mais geral, diverso do
estranha, de todo lugar onde o sol ilumina as ale- prazer efémero da circunstância. Ele busca esse
algo, ao qual se permitirá chamar de Modernida-
grias efémeras do animal depravado! "Foi, com
certeza, uma jornada bem empregada", pensará de; pois não me ocorre melhor palavra para ex-
certo leitor que todos conhecemos. "Todos têm primir a ideia em questão. Trata-se, para ele, de
talento suficiente para preenchê-la da mesma ma- tirar da moda o que esta pode conter de poético no
neira." Não! Poucos homens são dotados da fa- histórico, de extrair o eterno do transitório. Se
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lançarmos um olhar a nossas exposições de qua-
dros modernos, ficaremos espantados com a ten- caso de uma mascarada atada pela moda. Assim,
dência geral (dos artistas para vestirem todas as ,as deusas, as ninfas e as sultanas do século XVIII
personagens com indumentária antiga. Quase to- são retratos moralmente verosímeis.
das se servem das modas e dos móveis do Renasci- Sem dúvida, é excelente estudar os antigos
mento, como David se servia das modas e dos mó- mestres para aprender a pintar, mas isso pode ser
veis romanos. Há, no entanto, uma diferença, tão-somente um exercício supérfluo se o nosso
pois David, tendo escolhido temas especificamen- objetivo é compreender o caráter da beleza atual.
te gregos ou romanos, não podia agir de outra Os planejamentos de Kubens ou de Véronèse não
forma senão vesti-los à moda antiga, enquanto os nos ensinarão a fazer chamalote, cetim à rainha
pintores atuais, escolhendo temas de uma nature- ou qualquer outro tecido de nossas fábricas, entu-
za geral que podem se aplicar a todas as épocas, fado, equilibrado pela crinolina ou pelos saiotes
obstinam-se em fantasiá-los com trajes da Idade de musselina engomada. O tecido e a textura não
Média, do Renascimento ou do Oriente. Eviden- são os mesmos que os da antiga Veneza ou os
temente, é sinal de uma grande preguiça; pois é usados na corte de Catherine. Acrescentemos tam-
muito mais cómodo declarar que tudo é absolu- bém que o corte da saia e do corpete é absoluta-
tamente feio no vestuário de uma época do que mente diferente, que as pregas são dispostas de
se esforçar por extrair dele a beleza misteriosa acordo com um novo sistema, que os gestos e o
que possa conter, por mínima ou ténue que seja. porte da mulher atual dão a seu vestido uma vida
A Modernidade é o transitório, o efémero, o con- e uma fisionomia que não são as da mulher antiga.
tingente, é a metade da arte, sendo a outra metade Em poucas palavras, para que toda Modernidade
o eterno e o imutável. Houve uma modernidade seja digna de tornar-se Antiguidade, é necessário
para cada pintor antigo: a maior parte dos belos que dela se extraia a beleza misteriosa que a vida
retratos que nos provêm das épocas passadas es- humana involuntariamente lhe confere. É a essa
tá revestida de costumes da própria época. São tarefa que G. se dedica ern particular.
perfeitamente harmoniosos; assim, a indumentá- Anteriormente afirmei que cada época tinha
ria, o penteado e mesmo o gesto, o olhar e o sorri- seu porte, seu olhar e seu gesto. É sobretudo nu-
so (cada época tem seu porte, seu olhar e seu sor- ma vasta galeria de retratos (a de Versalhes, por
riso) formam um todo de completa vitalidade. exemplo) que se torna fácil verificar essa propo-
Não temos o direito de desprezar ou de prescindir sição. Mas ela pode estender-se mais amplamente.
desse elemento transitório, fugidio, cujas meta- Na unidade que se chama nação, as profissões, as
morfoses são tão frequentes. Suprimindo-os, caí- castas e os séculos introduzem a variedade, não
mos forçosamente no vazio de uma beleza abstra- somente nos gestos e nas maneiras, mas também
ta e indefinível, como a da única mulher antes do na forma concreta do rosto. Tal nariz, tal boca,
primeiro pecado. Se à vestimenta da época, que se tal fronte correspondem ao intervalo de uma du-
impõe necessariamente, substituirmos uma outra, ração que não pretendo determinar aqui, mas que
cometemos um contra-senso só desculpável no certamente pode ser submetida a um cálculo. Es-
sas considerações não são suficientemente familia-
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rés aos retratistas; e o grande defeito de Ingres, diriam, por exemplo, de um pintor de marinhai
em particular, é querer impor a cada tipo que (levo a hipótese ao extremo) que, tendo de re-
posa diante de seus olhos um aperfeiçoamento produzir a beleza sóbria e elegante do navio m3-
mais ou menos compulsório, colhido no reper- derno, atormentasse seus olhos estudando as for-
tório das ideias clássicas. mas sobrecarregadas, retorcidas, a popa monu-
Em semelhante matéria, seria fácil e mesmo mental de um navio antigo e os velames complica-
legítimo raciocinar a priori. A correlação perpé- dos dó século XVI? E o que pensariam de um ar-
tua do que chamamos alma com o que chamamos tista a quem tivessem incumbido de fazer o rc-
corpo explica perfeitamente como tudo o que é trato de um puro-sangue, célebre nas solenidades
material ou emanação do espiritual representa e do turfe, se ele fosse confinar suas contempla-
representará sempre o espiritual de onde provém. ções nos museus, se se contentasse em observar o
Se um pintor paciente e minucioso, mas dotado cavalo nas galerias do passado, em Van Dyck,
de uma imaginação medíocre, em vez de pintar Bourguignon ou Van der Meulen?
uma cortesã do tempo presente, inspira-se (é a G., guiado pela natureza, tiranizado píla
expressão consagrada) em uma cortesã de Ticiano circunstância, enveredou por um caminho com-
ou de Rafael, é muito provável que fará uma pletamente diferente. Começou contemplando a
obra falsa, ambígua e obscura. O estudo de uma vida e só muito tarde se esforçou para aprender os
obra-prima daquela época e daquele género não meios para expressá-la. Disso resultou uma origi-
lhe ensinará nem a atitude, nem o olhar, nem o nalidade extraordinária, na qual o que pode restar
trejeito, nem o aspecto vital de uma dessas cria- de bárbaro ou de ingénuo aparece como nova
turas que o dicionário da moda sucessivamente prova de obediência à impressão, como lisonja à
classificou, com nomes grosseiros ou maliciosos, de verdade. Para a maioria dentre nós, sobretudo para
impuras, mulheres sustentadas, toureiras e mun- os homens de negócios, aos olhos de quem a natu-
danas. reza existe apenas em suas relações de utilidade
A mesma crítica aplica-se rigorosamente no cem seus negócios, o fantástico real da vida acha-
estudo do militar, do dândi ou mesmo dos animais, se singularmente embotado. G. absorve-o conti-
cão ou cavalo, e de tudo quanto compõe a vida nuamente e dele tem a memória e os olhos re-
exterior de um século. Ai daquele que estuda no pletos.
antigo outra coisa que não a arte pura, a lógica e
o método geral. De tanto se enfronhar nele, per-
de a memória do presente; abdica do valor dos V
privilégios fornecidos pela circunstância, pois A Arte Mnemónica
quase toda nossa originalidade vem da inscrição
que o tempo imprime às nossas sensações. O leitor
compreende antecipadamente que eu poderia A palavra barbárie, que talvez tenha apare-
comprovar facilmente minhas asserções através de cido com excessiva frequência nos meus escritos,
numerosos outros objetos que não a mulher. Que poderia induzir algumas pessoas a acreditarem que
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miráveis croquis de Rafael, de Watteau e de mui-
se trata, neste ciso, de alguns desenhos informes, tos outros, diremos que são notas muito minucio-
aos quais tão-sornente a imaginação do especta- sas, é verdade, mas sirnples notas. Quando um
dor sabe transformar em coisas perfeitas. Seria verdadeiro artista chega i execução definitiva de
me compreender erroneamente. Quero falar de sua obra, o modelo lhe será mais um embaraço do
urna barbárie inevitável, sintética, infantil, que que um auxílio. Há casos até em que homens
muitas vezes permanece visível numa arte perfei- como Daumier e G., acostumados há muito a
ta (mexicana, egípcia ou ninivita) e que resulta exercitar sua memória e a povoá-la de ima-
da necessidade de ver as coisas de maneira ampla, gens, têm as faculdades principais perturbadas e
e de, principalmente, considerá-las no seu efeito como que paralisadas diante do modelo e da mul-
de conjunto. Não é supérfluo observar aqui que tiplicidade de detalhes que ele comporta.
muitas pessoas acusaram de barbárie todos os pin- Estabelece-se assim um duelo entre a vontade
tores cujo olhar é sintético e abreviador — Corot, de tudo ver, de nada esquecer, e a faculdade da
por exemplo, que se dedica inicialmente a traçar memória, que adquiriu o hábito de absorver com
as linhas principais de uma paisagem, sua ossa- vivacidade a cor geral e a silhueta, o arabesco do
tura e sua fisionomia. Assim, G., traduzindo fiel- contorno. Um artista que tem o sentimento per-
mente as próprias impressões, marca com uma feito da forma, mas acostumado a exercitar so-
energia instintiva os pontos culminantes ou lu- bretudo a memória e a imaginação, encontra-se
minosos de um objeto (podem ser culminantes ou então como que assaltado por uma turba de deta-
luminosos, do ponto de vista dramático), ou suas lhes, todos reclamando justiça com a mesma fúria
principais características, algumas vezes inclusive de uma multidão ávida por igualdade absoluta.
com um exagero útil para a memória humana; e Toda justiça acha-se forçosamente violada, toda
a imaginação do espectador, submetendo-se por harmonia destruída e sacrificada; muitas trivia-
sua vez a essa mnemónica tão despótica, vê com lidades assumem importância, muitos detalhes sem
nitidez a impressão produzida pelas coisas sobre o importância tornam-se usurpadores. Quanto mais
espírito de G. O espectador é aqui o tradutor de o artista se curva com imparcialidade sobre o de-
uma tradução sempre clara e inebriante. talhe, mais aumenta a anarquia. Se for míope ou
Existe um elemento que acrescenta muito à presbita, toda hierarquia e toda subordinação de-
força vital dessa tradução lendária da vida exte- saparecem. É um acidente que aparece constante-
rior. Refiro-me ao método de desenhar de G. Ele mente nas obras de um de nossos pintores mais
desenha de memória, e não a partir do modelo, em voga, cujos defeitos, aliás, são tão bem apro-
salvo em casos (a guerra da Criméia, por exem- priados aos da multidão que contribuíram sin-
plo) em que há necessidade urgente de tomar no- gularmente para sua popularidade. Adivinha-se
tas imediatas, rápidas, e de fixar as linhas princi- a mesma analogia no exercício da arte do ator,
pais de um tema. Na verdade, todos os bons e arte tão misteriosa, tão profunda, vítima nos dias
verdadeiros desenhistas desenham a partir da ima- de hoje da confusão das decadências. Frédérick
gem inscrita no próprio cérebro, e não a partir da Lemaitre desempenha urn papel com a amplitude
natureza. Se nos fizerem objeções quanto aos ad-
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e a grandeza do génio. Por mais que sua criação
esteja semeada de detalhes luminosos, permanece boço, se se quiser, mas um esboço perfeito. Todos
sintética e escultural. Bouffé compõe os seus pa- os valores se encontram em perfeita harmonia, e
péis com uma minúcia de míope e de burocrata. se G. quiser levá-los adiante, eles se encaminha-
Nele tudo brilha, mas nada transparece, nada quer rão decididamente para o aperfeiçoamento dese-
ser guardado pela memória. jado. Ele prepara desse modo vinte desenhos ao
mesmo tempo com uma petulância e alegria en-
Assim, na execução de G. evidenciam-se duas
cantadoras, divertidas até mesmo para ele; os cro-
coisas: a primeira, um esforço de memória ressur-
quis empiíham-se e superpõem-se às dezenas, às
reicionista, evocadora, uma memória que diz a
centenas, aos milhares. De vez em quando G. per-
cada coisa: "Lázaro, levanta-te"; a outra, um fo-
corre-os, folheia-os, examina-os, e depois escolhe
go, uma embriaguez de lápis, de pincel, que se
alguns, nos quais aumenta mais ou menos a inten-
assemelha quase a um furor. É o medo de não
sidade, carrega as sombras e clareia progressiva-
agir com suficiente rapidez, de deixar o fantas-
mente as zonas luminosas.
ma escapar antes que sua síntese tenha sido ex-
traída e captada; é o pavor terrível que se apo- G. dedica uma imensa importância aos fun-
dera de todos os grandes artistas e que os faz de- dos, que, vigorosos ou evanescentes, sempre são de
sejar tão ardentemente apropriarem-se de todos uma qualidade e de uma natureza apropriadas às
os meios de expressão para que jamais as ordens figuras. A gama de tons e a harmonia geral são
do espírito sejam alteradas pelas hesitações da estritamente observadas, com um génio que pro-
mão; para que finalmente a execução, a execução vém mais do instinto do que do estudo. Pois G.
ideal se torne tão inconsciente, tão fluente quan- possui naturalmente o talento misterioso do colo-
to a digestão para o cérebro do homem sadio que rista, verdadeiro dom que o estudo pode desen-
acabou de jantar. G. começa por leves indicações volver, mas que é, por si mesmo, creio, incapaz
a lápis, que apenas indicam a posição que os ob- de criar. Para resumir em poucas palavras, nosso
jetos devem ocupar no espaço. Os planos prin- singular artista exprime ao mesmo tempo o gesto
cipais são indicados em seguida por tons em agua- e a atitude solene ou grotesca dos seres e sua ex-
da, massas de início coloridas vagamente, leve- plosão luminosa no espaço.
mente, porém retomadas mais tarde e carregadas
sucessivamente com cores mais intensas. No últi-
mo momento, o contorno dos objetos é definiti- VI
vamente delineado com tinta. A menos que já os Os Anais da Guerra
tenhamos visto, não se pode imaginar os efeitos
surpreendentes que G. consegue obter com esse
método tão simples e quase elementar, que tem a A Bulgária, a Turquia, a Criméia e a Espa-
incomparável vantagem de, em qualquer etapa nha foram grandes festas para os olhos de G., ou
de sua progressão, cada desenho parecer suficien- melhor, para os olhos do artista imaginário que
temente acabado; alguém dirá que isso é um es- convencionamos chamar de G.; pois lembro-me de
vez em quando que prometi a mim mesmo, para
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tranquilizar mais sua modéstia, supor que ele não colónia do Cabo e nas feitorias da índia: os pasto-
existia. Compulsei os arquivos da guerra do Ori- res ingleses lembram vagamente meirinhos ou
ente (campos de batalha juncados de restos mor- agentes de câmbio que tivessem vestido barrete e
tais, carroças de materiais, embarques de gado e cabeção.
de cavalos), quadros vivos e surpreendentes, de- Aqui estamos em Schumla, nas propriedades
calcados na própria vida, elementos de um pito- de Ornar Paxá: hospitalidade turca, cachimbos e
resco precioso que muitos pintores famosos, colo- café; todos os visitantes estão acomodados em
cados nas mesmas circunstâncias, teriam negli- divãs, ajustando em seus lábios cachimbos longos
genciado imprudentemente; no entanto, destes como sarabatanas, cujos fornilhos repousam a seus
excluirei naturalmente Horace Vernet, verdadei- pés. Aqui, os Kurdes à Scutari (Cardos em
ro jornalista em vez de pintor essencial, com Scutari), tropas estranhas cujo aspecto faz pensar
quem G., artista mais delicado, tem afinidades vi- em uma invasão de hordas bárbaras; ali, soldados
siveis, se quisermos considerá-lo apenas como ar- turcos, não menos peculiares com seus oficiais eu-
quivista da vida. Posso afirmar que nenhum diá- ropeus, húngaros ou poloneses, cuja fisionomia de
rio, nenhum relato escrito, nenhum livro exprime dândis contrasta estranhamente com o caráter
tão bem, em todos os seus detalhes dolorosos e barrocamente oriental de seus soldados.
em sua sinistra amplitude, a grande epopeia da
guerra da Criméia. O olhar vagueia sucessivamen- Vejo um desenho magnífico onde emerge
te pelas margens do Danúbio, pelas margens do uma única personagem, grande, robusta, com ar
Bósforo, pelo cabo Kerson, pela planície de Ba- ao mesmo tempo pensativo, despreocupado e au-
laklava, pelos campos de Inkermann, pelos acam- dacioso; grandes botas lhe chegam acima dos joe-
pamentos ingleses, franceses, turcos e piemonteses, lhos; seu uniforme militar está escondido sob um
pelas ruas de Constantinopla, pelos hospitais e por pesado e largo casaco completamente abotoado;
todas as solenidades religiosas e militares. através da fumaça do charuto, ela perscruta o
Uma das composições que mais se gravaram horizonte sinistro e brumoso; um dos braços feri-
em meu espírito é a Consécration d'un Terrain do é sustentado por uma gravata servindo de ti-
Fúnebre à Scutari par l'Évêque de Gibraltar póia. Embaixo, leio estas palavras rabiscadas a
(Consagração de um Cemitério em Scutari pelo lápis: Canrobet on the battle field o f Inkermann.
BíspO de Gibraltar). O caráter pitoresco da cena, Taken on the spot.
que consiste no contraste da natureza oriental Quem é esse cavaleiro, de bigodes brancos,
circundante com as atitudes e os uniformes oci- com uma fisionomia tão intensamente desenhada,
dentais da assistência, é expresso de uma maneira que, com a cabeça erguida, dá a impressão de sor-
fascinante, sugestiva e cheia de fantasia. Os sol- ver a terrível poesia de um campo de batalha, en-
dados e os oficiais têm esses ares indeléveis de quanto seu cavalo, farejando a terra, procura um
gentlemen, resolutos e discretos, que os distin- caminho entre os cadáveres amontoados, pernas
guem até o fim do mundo, até nas guarnições da para o ar, faces crispadas, em estranhas atitudes?
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Embaixo do desenho, num canto, pode-se ler Na verdade, é difícil traduzir unicamente
estas palavras: My seif a t Inkermann. através de palavras esse poema composto de mil
Entrevejo Baraguay-dTIilliers, com o co- croquis, tão imenso e complexo, e exprimir a exal-
mandante-em-chefe do exército otomano passan- tação que se desprende de todo esse pitoresco coli-
do em revista a artilharia em Béchichtash. Rara- gido, frequentemente doloroso, mas jamais lacri-
mente vi um retrato militar mais verossímil, bu- mejante, em algumas centenas de páginas, cujas
rilado por mão mais arrojada e inteligente. máculas e ranhuras testemunham, a seu modo, a
Um nome, sinistramente ilustre desde os de- perturbação e o tumulto em meio a que o artista
sastres da Síria, aparece à minha vista: Áchmet- ali depositava suas lembranças do dia. À tardinha,
Pacha, General e n Chef à Kalafat, Debout Dc- o correio levava para Londres as notas e desenhos
vant sã Hutte, avec son État-major, se Fait Pre- de G.; e muitas vezes este entregava ao correio
senter Deux Officters Européem (Achmet Paxá, mais de dez croquis improvisados em papel pelu-
General-de-exército Kalafat, em Pé Diante de sua re, aguardados impacientemente pelos gravadores
Tenda, com seu Estado-maior, Recebendo a Apre- e assinantes do jornal.
sentação de Dois Oficiais Europeus]. Apesar do Ora são retratados os hospitais ambulantes
volume de sua pança turca, Achmet Paxá tem, onde a própria atmosfera parece doente, triste e
na atitude e no rosto, o grande ar aristocrático pesada, onde cada leito contém uma dor; ora é
que geralmente pertence às raças dominadoras. o hospital de Pêra, onde vejo, conversando com
duas irmãs de caridade, altas, pálidas e rígidas
A batalha de Balaklava aparece várias vezes
como figuras de Lesueur, um visitante vestido
nessa curiosa coletânea, e em diferentes aspectos. com desleixo, designado por esta estranha legen-
Entre os mais surpreendentes, eis a histórica carga da: M;)' humble se!f. Agora, em veredas ásperas e
da cavalaria cantada pela trombeta heróica de sinuosas, juncadas de restos de um combate já
Alfred Tennyson, poeta da rainha: uma multidão antigo, seguem lentamente alguns animais, mulas,
de cavaleiros se precipita numa velocidade prodi- asnos ou cavalos, que carregam em seus flancos,
giosa em direção do horizonte, entre as pesadas em dois grosseiros assentos, feridos lívidos e iner-
nuvens da artilharia. Ao fundo, a paisagem é cor- tes. Na copiosa neve, camelos de peitoril majestoso,
tada por uma linha de colinas verdejantes. cabeça erguida, conduzidos por tártaros, arrastam
De vez em quando, quadros religiosos repou- provisões ou munições de várias espécies: é todo
sam o olhar entristecido por todo esse caos de pól- um universo guerreiro, vivo, atarefado e silencio-
vora e essas turbulências mortíferas. No meio dos so; são acampamentos, bazares, onde se expõem
soldados ingleses de diferentes armas, entre os amostras de todas as mercadorias, espécies de ci-
quais se sobressai o pitoresco uniforme dos esco- dades bárbaras improvisadas para o momento.
ceses de saia, um pastor anglicano lê o ofício do Através dessas barracas, nesses caminhos pedre-
domingo; três tambores, o primeiro apoiado sobre gosos ou nevados, nesses desfiladeiros, circulam
os outros dois, lhe servem de púlpito. uniformes de várias nações, mais ou menos dete-
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riorados pela guerra ou alterados pela adjunção no estrito intervalo tjue as faixas de musselina
de volumosas pelicas e de pesados calçados. grudadas no rosto deixam aos olhos; as danças
É pena que este álbum, espalhado agora em frenéticas dos bailarinos cio terceiro stxo (jamais
vários lugares e cujas páginas preciosas foram re- a expressão burlesca de Ralzac foi mais aplicável
tidas pelos gravadores encarregados de traduzi-las do que no caso presente, pois, sob a palpitação
ou pelos redatores do lllustrated London News, daquelas refulgências tremulantes, sob a agitação
não tenha caído sob os olhos do imperador. Ima- daquelas amplas roupas, sob aquela ardente ma-
gino que ele teria examinado com complacência quilagem das faces, olhos e sobrancelhas, naqueles
e não sem certo enternecimento os feitos e os gestos histéricos e convulsivos, naquelas longas ca-
gestos de seus soldados, todos expressos minucio- beleiras esvoaçando sobre os rins, seria difícil, pa-
samente, dia a dia, desde as ações mais extraordi- ra não dizer impossível, adivinhar a virilidade);
nárias até as tarefas mais triviais da vida, por essa e, finalmente, as mulheres galantes (se contudo
mão de soldado-artista, tão firme e inteligente. se pode pronunciar a palavra galanteria a propó-
sito do Oriente), geralmente compostas de hún-
garas, valáquias, judias, polonesas, gregas e armé-
VII nias, já que, num governo despótico, são as raças
oprimidas, e entre estas sobretudo as fadadas ao
Pompas e Solenidade* maior sofrimento, que fornecem mais contingen-
tes à prostituição. Algumas dessas mulheres con-
A Turquia forneceu igualmente a nosso caro servaram os trajes nacionais, os jalecos de man-
G. admiráveis motivos de composições: as festas gas curtas bordados, as echarpes sinuosas, as cal-
do Baíram, esplendores profundos e cintilantes, ças largas, as babuchas dobradas, as musselinas lis-
ao fundo das quais aparece, como um sol pálido, tradas ou lameladas, e todo o ouripel do país natal;
o tédio permanente do sultão defunto: alinhados as outras, e são as mais numerosas, adotaram o
à esquerda do soberano, todos os oficiais da ordem signo mais peculiar da civilização, que para a mu-
civil; à sua direita, todos os da ordem militar, o lher invariavelmente é a crinolina, conservando,
primeiro deles Said Paxá, sultão do Egito, então no entanto, numa parte do traje, uma leve recor-
em Constantinopla; cortejos e pompas solenes des- dação característica do Oriente, o que faz com
filam em direção à pequena mesquita próxima do que dêem a impressão de parisienses que se tives-
palácio, e, no meio dessas massas, funcionários tur- sem fantasiado.
cos, verdadeiras caricaturas de decadência, esma- G. pinta admiravelmente o fausto das cenas
gando seus magníficos cavalos sob o peso de uma oficiais, das pompas e solenidades nacionais, não
obesidade fantástica; as pesadas viaturas com- de modo frio e didático, como os pintores que
pactas, espécies de carruagens à Luís XIV, dou- vêem nessas obras apenas fardos lucrativos, mas
radas e adornadas pelo capricho oriental, das quais com todo o ardor de um homem apaixonado pelo
surgem, às vezes, olhares curiosamente femininos, espaço, pela perspectiva, pela luz que envolve ou
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explode e se fixa em gotas ou em centelhas nas tado num cavalo cujos pés ião tão firmes quanto
asperezas dos uniformes e dos trajes de corte. La os quatro pés de uma mesa, tendo à sua esquerda
Fête Commémorative de 1'lndcpendance ifairs Ia a imperatriz em trajes de amazonas e, à sua direita,
Cathédrale jPAtbène* (/4 besta Comemorativa da o pequeno principe imperial, usando um barrete
Independência na Catedral de Atenas} oferece de pele e mantendo-se com porte militar sobre
um curioso exemplo desse talento. Todas essas pe- um cavalinho eriçado como os póneis que os ar-
quenas personagens, cada qual no seu devido lu- tistas ingleses costumam colocar em suas paisa-
gar, tornam mais profundo o espaço que as con- gens; algumas vezes sumindonas alamedas do Bois
tém. A catedral é imensa e decorada com tape- de Boulogne num turbilhão de luz e de poeira;
çarias solenes. O rei Oto e a rainha, em pé sobre outras vezes, caminhando lentamente sob as acla-
um estrado, vestem o costume tradicional, que
mações do ftltbouTg Saint-Antoine. Uma dessas
trajam com uma naturalidade maravilhosa, como
para dar testemunho da sinceridade de sua adoção aquarelas me fascinou particularmente por seu
e do mais refinado patriotismo helénico. A cin- caráter feérico. Na extremidade de um camarote
tura do rei está cingida como a do mais garrido de uma riqueza pesada c principesca, a imperatriz
combatente, e sua saia alarga-se com todo o exa- aparece numa atitude tranqiiila e repousada; o
gero do dandismo nacional. Diante deles, caminha imperador curva-se ligeiramente, como que para
o patriarca, um ancião de costas curvadas, grande melhor apreciar o teatro; embaixo, dois soldados
barba branca, cujos pequenos olhos são protegi- da guarda imperial, em pé, numa imobilidade mi-
dos por óculos verdes, que traz em todo o seu ser litar e quase hierática, recebem sobre os brilhantes
os sinais de uma consumada fleuma oriental. To- uniformes os reflexos da ribalta. Atrás da faixa
das as pesonagens que povoam essa composição de luz, na atmosfera ideal do palco, os atores can-
são retratos, e um dos mais curiosos, pela estra- tam, declamam, gesticulam harmoniosamente; do
nheza de sua fisionomia tão pouco helénica quan- outro lado estende-se um abismo de luz vaga, um
to possível, é o de uma dama alemã, postada ao espaço circular cheio de figuras humanas em to-
lado da rainha e fazendo parte de seu serviço. dos os andares: é o esplendor e o público.
Nas coleções de G. encontra-se frequente- Os movimentos populares, os clubes e as sole-
mente o imperador dos franceses, cuja figura ele nidades de 1848 forneceram igualmente a G. uma
soube reduzir, sem prejuízo da verossimilhança, série de composições pitorescas, a maior parte de-
a um croqui infalível, executado com a segurança las gravada pelo llusfrafej Lottdoit News. Há
de uma rubrica. Ora o imperador passa tropas em alguns anos, depois de uma estada na Espanha,
revista, galopando e acompanhado por oficiais muito proficua para seu talento, G. compôs tam-
cujos traços são facilmente reconhecíveis, ou por bém um álbum do mesmo género, do qual vi ape-
príncipes estrangeiros, europeus, asiáticos ou afri- nas alguns fragmentos. A displicência com a qual
canos, a quem presta, por assim dizer, as honras ele dá ou empresta seus desenhos muitas vezes o
de Paris. Outras vezes nós o vemos imóvel, mon- expõe a perdas irreparáveis.
VIU a inscrição da fatalidade. O militar, considerado
em sua generalidade, tem sua beleza, como o dân-
O Militar di e a mulher galante a têm, de gosto essencial-
mente diferente. Alguns acharão natural que eu
Para definir uma vez mais o género de temas negligencie as profissões em que um exercício ex-
preferido pelo artista, afirmaremos que é a pom- clusivo e violento deforrm os músculos e marca
pa da vida, tal come ela se oferece nas capitais o rosto com um sinal de servidão. Acostumado às
do mundo civilizado, a pompa da vida militar, surpresas, o militar raramente se surpreende. En-
da vida elegante, da vida galante. Nosso observa- tão, nesse caso, o sinal particular da beleza será
uma despreocupação marcial, mescla singular de
dor está sempre infalivelmente a postos em toda
placidez e de audácia; é urna beleza que decorre
a parte onde fluem os desejos profundos e impe- da necessidade de estar pronto para morrer a cada
tuosos, os Orinocos do coração humano, a guerra, minuto. Mas o semblante do militar ideal deverá
o amor e o jogo; em toda parte onde se agitam trazer a marca de uma grande simplicidade; pois,
as festas e as ficções que representam esses gran- vivendo em comunidade como os monges e os es-
des elementos da felicidade e do infortúnio. Mas tudantes, habituados a se descarregarem das preo-
ele mostra uma predileção muito acentuada pelo cupações quotidianas da vida a respeito de uma
militar, pelo soldado, e acredito que essa propen- paternidade abstrata, os soldados são, em muitos
são se deve não somente às virtudes e qualidades aspectos, tão ingénuos como as crianças; e, como
que passam forçosamente da alma do guerreiro elas, estando o dever cumprido, divertem-se com
para sua atitude e seu rosto, como também ao facilidade e preferem as diversões violentas. Acre-
paramento vistoso com que sua profissão o reves- dito não estar exagerando ao afirmar que todas
te. Paul de Molènes escreveu algumas páginas tão essas considerações morais brotam naturalmente
encantadoras quanto sensatas sobre a coqueteria dos croquis e das aquarelas de G. Deles nenhum
militar e sobre o sentido moral da indumentária tipo militar está ausente e todos foram captados
cintilante com que todos os governos se compra- com uma espécie de alegria entusiasta: o velho
zem em vestir suas tropas. G. assinaria de bom oficial de infantaria, sério e triste, mortificando
grado essas linhas. o cavalo com sua obesidade; o belo oficial de Es-
Já falamos do idiotismo da beleza particular tado-maior, uniforme cintado, remexendo os om-
de cada época e observamos que cada século pos- bros, curvando-se sem timidez sobre a poltrona
suía, por assim dizer, sua graça particular. Pode- das senhoras, e que, visto de costas, evoca os inse-
se aplicar a mesma observação às profissões; cada tos mais esbeltos e elegantes; o zuavo e o atirador,
qual extrai sua beleza exterior das leis morais às que manifestam em seu porte um excessivo caráter
quais é submetida. Em algumas, essa beleza será de audácia e de independência, e como que um
marcada pela energia; em outras, trará os sinais sentimento mais vivo de responsabilidade pessoal;
vísiveis do ócio. É como o emblema do caráter, é a desenvoltura ágil e alegre da cavalaria ligeira;
190 191
a fisionomia vagarnmte professoral e académica IX
dos corpos especiais, como a artilharia e a enge-
nharia, frequentemente confirmada pelo aparato O Dâníi
pcuco guerreiro dos óculos: nenhum desses mo-
delos, nenhum desses matizes é negligenciado, e O homem rico, ocioso c que, mesmo entedia-
todos são sintetizados, definidos com o mesmo do de tudo, não tem outra ocupação senão correr
amor e o mesmo espirito. ao encalço da felicidade; o homem criado no luxo
• Tenho neste momento diante dos olhos uma e acostumado a ser obedecido desde a juventude;
dessas composições de aspecto geral verdadeira- aquele, enfim, cuja única profissão é a elegância
mente heróico, que representa a frente de uma sempre exibirá, em todos os tempos, uma fisiono-
coluna de infantaria; talvez esses homens estejam mia, distinta, completamente à parte. O dandis-
acabando de voltar da Itália e tenham feito uma mo é uma instituição vaga tão estranha quanto o
parada nos bulevares face ao entusiasmo da mul- próprio duelo; rnuito antiga, já que César, Cati-
tidão; talvez acabem de realizar uma longa mar- lina e Alcebíades nos deram alguns modelos bri-
cha pelas estradas da Lombardia; não sei. O que lhantes; generalizada, já que Chateaubriand a en-
é visível, plenamente inteligível, é o caráter firme, controu nas florestas e à beira dos lagos do Novo
audacioso, mesmo em sua tranquilidade, de todos Mundo. O dandismo, instituição à margem das
esses rostos crestados pelo sol, pela chuva e pelo leis, tem leis rigorosas a que são estritamente sub-
vento. metidos todos os seus adeptos, quaisquer que fo-
Eis a uniformidade de expressão gerada pela rem, aliás, a audácia c a independência de seu
obediência e pelas dores suportadas em comum, caráter.
o ar resignado da coragem testada pelas longas Os romancistas ingleses, mais do que outros,
fadigas. As calças arregaçadas e presas nas polai- cultivaram o romance de aigh l/fe, e os franceses,
nas, os capotes manchados de poeira, vagamente que — como Custine — quiseram escrever espe-
desbotados, todo o equipamento, enfim, assumiu cialmente romances de amor, tiveram o cuidado,
ele próprio a indestrutível fisionomia dos seres de início e muito judiciosamente, de dotar suas
que vêm de longe e viveram estranhas aventuras. personagens de fortunas bastante consideráveis
É possivel dizer que todos esses homens estão mais para pagarem sem hesitação todas as fantasias; em
solidamente apoiados sobre os rins, mais firme- .seguida, dispersaram-nas de qualquer profissão.
mente instalados sobre os pés, manifestando mais Esses seres não têm outra ocupação senão culti-
firmeza do que os outros homens são capazes. Se var a ideia do belo em suas próprias pessoas,
Charlet — que sempre buscou esse tipo de bele/.a satisfazer suas paixões, sentir e pensar. Pos-
e que tantas vezes o encontrou — tivesse visto suem, a seu bel-prazer e em larga medida,
esse desenho, teria ficado singularmente impres- tempo e dinheiro, sem os quais a fantasia, redu-
sionado. zida ao estado de devaneio passageiro, dificilmen-
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te pode ser traduzida em ação. Infelizmente é um homem que sofre; nus, neste último caso, ele
bem verdade que, sem o tempo e o dinheiro, o sorrirá como o L acedem» nic mordido pela raposa.
amor não pode ser mais do que uma orgia de ple- Vê-se que, sob certos aspectos, o dandismo
beu ou o cumprimento de um dever conjugal. Em assemelha-se ao espiritualismo e ao estoicismo.
vez da fantasia ardente ou sonhadora, torna-se Mas um dândi nunca pode ser um homem vul-
uma repugnante utilidade. gar. Se cometesse urn crime, talvez não se degra-
Se falo de amor a propósito do dandismo, é dasse; mas, se esse crime tivesse uma causa trivial,
porque o amor é a ocupação natural dos ociosos. a desonra seria irreparável. Que o leitor não se
Mas o dândi não visa o amor como um fim em escandalize com essa gravidade no frívolo, que se
si. Se me referi ao dinheiro, é porque o dinheiro lembre que há uma grandeza em todas as lou-
é indispensável aos que cultuam as próprias pai- curas, uma força em todos os excessos. Estranho
xões; mas o dândi não aspira ao dinheiro como espiritualismo! Para os que são ao mesmo tempo
a uma coisa essencial; um crédito ilimitado pode- seus sacerdotes e suas vítimas, todas as condições
ria lhe bastar: ele deixa essa grosseira paixão aos materiais complexas a que se submetem, desde o
vulgares mortais. O dandismo não é sequer, como traje impecável a qualquer hora do dia e da noite
parecem acreditar muitas pessoas pouco sensatas, até as proezas mais perigosas do esporte, não pas-
um amor desmesurado pela indumentária e pela sam de uma ginástica apta a fortificar a vontade
elegância física. Para o perfeito dândi essas coisas e a disciplinar a alma. Na verdade, eu não estava
são apenas um símbolo da superioridade aristo- totalmente errado ao considerar o dandismo como
crática de seu espírito. Por isso, a seus olhos ávi- uma espécie de religião. A regra monástica mais
dos antes de tudo por distinção, a perfeição da rigorosa, a ordem irresistível do Velho da Mon-
indumentária consiste na simplicidade absoluta, o tanha, que recomendava o suicídio a seus discí-
que é, efetivamente, a melhor maneira de se dis- pulos inebriados, não eram mais despóticas nem
tinguir. Que é, pois, essa paixão que, transfor- mais obedecidas do que essa doutrina da elegân-
mada em doutrina, conquistou adeptos domina- cia e da originalidade, que impõe igualmente a
dores, essa instituição sem leis escritas, que for- seus ambiciosos e humildes seguidores — homens
mou uma casta tão altiva? É antes de tudo a ne- muitas vezes cheios de ardor, de paixão, de cora-
cessidade ardente de alcançar uma originalidade gem e de energia contida — a fórmula terrível:
dentro dos limites exteriores das conveniências. É Perinde ao cadáver!*
uma espécie de culto de si mesmo, que pode so- Mesmo que esses homens sejam chamados in-
breviver à busca da felicidade a ser encontrada em diferentemente de refinados, incríveis, belos, leões
outrem, na mulher, por exemplo, que pode so- ou dândís, todos procedem de uma mesma origem;
breviver, inclusive, a tudo a que chamamos ilu-
sões. É o prazer de provocar admiração e a satis- * Como um cadáver! Expressão usada por Inácio de Loiola
nas Constituições e com a qual prescreve, aos jesuítas, a
fação orgulhosa de jamais ficar admirado. Um disciplina e obediência aos superiores, excetuando-se as obje-
dândi pode ser um homem entediado, pode ser ções de consciência. (N. do T.)

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todos participam do mesmo caráter de oposição Byron, se por acaso surgirem alguns t\s deles.
e de revolta; todos são representantes do que há
de melhor no orgulho humano, dessa necessidade, O que pôde parecer ao leitor unia ,
muito rara nos homens de nosso tempo, de com- na verdade não chega a sé-lo. As conj
bater e destruir a trivialidade. Disso resulta, nos e os devaneios morais que sugerem os <k',;
dândis, a atitude altiva de casta, provocante in- um artista são, em muitos casos, a msllu
clusive em sua frieza. O dandismo aparece so- cão que o crítico possa fazer deles; as
bretudo nas épocas de transição em que a demo- fazern parte de uma idéia-niãe, e, mosA VI
cracia não se tornou ainda todo-poderosa, em que sucessivamente, pode-se levd-la a erttfM
a aristocracia está apenas parcialmente claudican- preciso dizer que G., quando desenha utA
te e vilipendiada. Na confusão dessas épocas, al- dândis, dá-lhe sempre seu caráter histft
guns homens sem vínculos de classe, desiludidos, mesmo lendário, ousaria dizer, se não s^j
desocupados, mas todos ricos em força interior, da época presente e de coisas considerai)'
podem conceber o projeto de fundar uma nova mente como levianas? É justamente essa)
espécie de aristocracia, tanto mais difícil de des- atitudes, essa segurança nas maneiras, cs^
truir pois que baseada nas faculdades mais pre- cidade no ar de dominação, esse moio,,
ciosas, mais indestrutíveis, e nos dons celestes que uma casaca e de conduzir um cavalo, ^
nem o trabalho nem o dinheiro podem conferir. dês sempre calmas, mas revelando força,
O dandismo é o último rasgo de heroísmo nas de- fazem pensar, quando nosso olhar i
cadências; e o tipo de dândi encontrado pelo via- desses seres privilegiados em quem o
jante na América do Norte não invalida de forma mível se confundem tão misteriosament(
alguma esta ideia: pois nada impede de se supor talvez esteja um homem rico, mas, CO|
que as tribos a que chamamos de selvagens sejam probabilidade, um Hércules sem empre;
os resquícios de grandes civilizações desaparecidas. O tipo da beleza do dândi consis:e
O dandismo é um sol poente; como o astro que no ar frio que vem da inabalável resoluç
declina, é magnífico, sem calor e cheio de melan- se emocionar; é como um fogo lat;flt
colia. Mas infelizmente a maré montante da de- deixa adivinhar, que poderia — mas
mocracia, que invade tudo e que tudo nivela, afo- se propagar. É o que essas imagens expre
ga dia a dia esses últimos representantes do or- perfeição.
gulho humano e despeja vagas de esquecimento
sobre os vestígios desses prodigiosos mirmidões.
Na França, os dândis tornam-se cada vez mais X
raros, enquanto entre nossos vizinhos, na In-
glaterra, o estado social e a constituição (a ver- A Mulher
dadeira constituição, a que se exprime pelos cos-
tumes) deixarão por muito tempo ainda um lu- O ser que é, para a maioria dos
gar aos herdeiros de Sheridan, de Brummel e de fonte das mais vivas e mesmo — »
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todos participam do mesmo caráter de oposição Byron, se por acaso surgirein alguns que sejam
e de revolta; todos são representantes do que Jiâ dignos deles.
de melhor no orgulho humano, dessa necessidade, O que pôde parecer ao leitor uma digressão,
muito rara nos homens de nosso tempo, de com- na verdade não chega a sê-Io. As considerações
bater e destruir a trivialidade. Disso resulta, nos e os devaneios morais que sugerem os desenhos de
dândis, a atitude altiva de casta, provocante in- um artista são, em muitos casos, a melhor tradu-
clusive cm sua frieza. O dandismo aparece so- ção que o crítico possa fazer deles; as sugestões
bretudo nas épocas de transição em que a demo- fazem parte de uma idéia-mãe, e, mostrando-as
cracia não se tornou ainda todo-poderosa, em que sucessivamente, pode-se levá-la a emergir. Será
a aristocracia está apenas parcialmente claudican- preciso dizer que G., quando desenha um de seus
te e vilipendiada. Na confusão dessas épocas, al- dândis, dá-lhe sempre seu caráter histórico, até
guns homens sem vínculos de classe, desiludidos, mesmo lendário, ousaria dizer, se não se tratasse
desocupados, mas todos ricos em força interior, da época presente e de coisas consideradas geral-
podem conceber o projeto de fundar uma nova mente como levianas? É justamente essa leveza de
espécie de aristocracia, tanto mais difícil de des- atitudes, essa segurança nas maneiras, essa simpli-
truir pois que baseada nas faculdades mais pre- cidade no ar de dominação, esse modo de vestir
ciosas, mais indestrutíveis, e nos dons celestes que uma casaca e de conduzir um cavalo, essas atitu-
nem o trabalho nem o dinheiro podem conferir. des sempre calmas, mas revelando força, que nos
O dandismo é o último rasgo de heroísmo nas de- fazem pensar, quando nosso olhar descobre um
cadências; e o tipo de dândi encontrado pelo via- desses seres privilegiados em quem o belo e o te-
jante na América do Norte não invalida de forma mível se confundem tão misteriosamente: "Aqui
alguma esta ideia: pois nada impede de se supor talvez esteja um homem rico, mas, com maior
que as tribos a que chamamos de selvagens sejam probabilidade, um Hércules sem emprego".
os resquícios de grandes civilizações desaparecidas. O tipo da beleza do dândi consiste sobretudo
O dandismo é um sol poente; como o astro que no ar frio que vem da inabalável resolução de não
declina, é magnífico, sem calor e cheio de melan- se emocionar; é como um fogo latente que se
colia. Mas infelizmente a maré montante da de- deixa adivinhar, que poderia — mas não quer —
mocracia, que invade tudo e que tudo nivela, afo- se propagar. É o que essas imagens expressam com
ga dia a dia esses últimos representantes do or- perfeição.
gulho humano e despeja vagas de esquecimento
sobre os vestígios desses prodigiosos mirmidões.
Na França, os dândis tornam-se cada vez mais X
raros, enquanto entre nossos vizinhos, na In-
glaterra, o estado social e a constituição (a ver- A M Me r
dadeira constituição, a que se exprime pelos cos-
tumes) deixarão por muito tempo ainda um lu- O ser que é, para a maioria dos homens, a
gar aos herdeiros de Sheridan, de Brummel e de fonte das mais vivas e mesmo — admitamo-lo
196 197
para a vergonha das volúpias filosóficas — dos estou persuadido que G., apesir de toda a exten-
mais duradouros prazeres; o ser para o qual, ou são de sua inteligência (que se diga isto sem ofen-
em benefício do qual, tendem todos os seus esfor- dê-lo) , desprezaria uma obra da estatuária antiga
ços; esse ser terrível e incomunicável como Deus se tivesse que perder por isso a ocasião de sabo-
(com a diferença que o infinito não se comunica rear um retrato de Reynolds ou de Lawrence.
porque cegaria ou esmagaria o finito, enquanto Tudo que adorna a mulher, tudo que serve para
o ser de que falamos só é incompreensível por realçar sua beleza, faz parte dela própria; e os
nada ter a comunicar, talvez) ; esse ser em quern artistas que se dedicaram particularmente ao es-
Joseph de Maistre via um belo animal cujos en- tudo desse ser enigmático adonm finalmente todo
cantos alegravam e tornavam mais fácil o jogo o mundm muliebris quanto a própria mulher. A
sério da política, para quem e por meio de quem mulher é, sem dúvida, urna luz, um olhar, um
se fazem e se desfazem as fortunas, para quem, convite à felicidade, às vezes uma palavra; mas ela
mas sobretudo devido a quem os artistas e os poe- é sobretudo uma harmonia geral, não somente no
tas compõem suas jóias mais delicadas; de quem seu porte e no movimento de seus membros, mas
derivam os prazeres mais excitantes e as dores também nas musselinas, nas gares, nas amplas e re-
mais fecundantes; a mulher, numa palavra, não é verberantes nuvens de tecidos com que se envolve,
somente para o artista em geral, e para G. em que são como que os atributos e o pedestal de sua
particular, a fêmea do homem. É antes uma di- divindade; no metal e no mineral que lhe serpen-
vindade, um astro que preside todas as concep- teiam os braços e o pescoço, que acrescentam suas
ções do cérebro masculino, é uma reverberação centelhas ao fogo de seus olhares ou tilintam deli-
de todos os encantos da natureza condensados cadamente em suas orelhas. Que poeta ousaria, na
num único ser; é o objeto da admiração e da pintura do prazer causado pela aparição de uma
curiosidade mais viva que o quadro da vida possa beldade, separar a mulher de sua indumentária?
oferecer ao contemplador. É uma espécie de ídolo, Que homem, na rua, no teatro, no bosque, não
fruiu, da maneira mais desinteressada possível, de
estúpido talvez, mas deslumbrante, enfeitiçador,
um vestuário inteligentemente composto e não
que mantém os destinos e as vontades suspensas a
conservou dele uma imagem inseparável da beleza
seus olhares. Não é, digo eu, uni animal cujos daquela a quem pertencia, fazendo assim de am-
membros, corretamente reunidos, fornecem um bos, da mulher e do traje, um todo indivisível?
perfeito exemplo de harmonia; não é sequer o Parece-me que esta é a ocasião de retomar certas
tipo de beleza pura, tal como pode sonhá-lo o es- questões relativas à moda e aos adereços, que ape-
cultor nas suas mais severas meditações; não, isso nas indiquei no começo deste estudo, e de vingar
não seria ainda suficiente para explicar seu mis- a arte do vestir das calúnias ineptas com que a
terioso e complexo fascínio. Winckelmann e Ra- atormentam certos amantes muito equívocos da
fael não nos são de nenhuma utilidade aqui; e natureza.
198 199
XI mear. É a filosofia (refiro- mi à boa), é a religião
que nos ordena alimentar nossos pais pobres e en-
Elogio da Maquilagem fermos. A natureza (que é apenas a voz de nosso
interesse) manda abatê-los. lassemos cm revista,
Há uma canção, tão trivial c inepta que não analisemos tudo o que é natural, todas as ações
se deveria citá-la num trabalho com algumas pre- e d^ejos do puro homem n a t u r a l , nada encontra-
tensões dç seriedade, mas que traduz muito bem, remos senão horror. Tudo quanto é bL'!o e nobre
em estilo de opereta, a estética das pessoas que é o resultado da razão e do cálculo. O crime,
não pen^m. A natureza embeleza a beleza! É cujo gosto o animal humano hauriu no ventre na
presumível que se o põe ia pudesse falar em fran- mãe, é originalmente natural, A virtude, ao con-
cês, teria dito: A simplicidade embeleza a belezct!, trário, é itrftf/c/nl, sobrenatunl, já que foram ne-
o que equivale a esta verdade, de um género com- -. um todas as épocas e em todas as nações,
pletamente inesperado: O nada embeleza aquilo c profetas para ensiná-la à humanidade
que é. animalizada, c que o homem, por si só, teria sido
A maior parte dos erros relativos ao belo nas- incapaz de descobri-la. O mal é praticado sem
ce da falsa concepção do século XVIII relativa esforço, naturalmente, por fatalidade; o bem é
à moral. Naquele tempo a natureza foi tomada sempre o produto de uma arte. Tudo quanto digo
como base, fonte e modelo de todo o bem e de da natureza como má conselheira em matéria de
todo o belo possíveis. A negação do pecado ori- moral, e da razão como verdadeira redentora e
ginal contribuiu em boa parte para a cegueira reformadora, se pode transpor para a ordem do
geral daquela época. Se todavia consentirmos em belo. Assim, sou levado a considerar os adereços
fazer referência simplesmente ao fato visível, à como um dos sinais da nobreza primitiva da alma
experiência de todas as épocas e à Gazette dês Tri- humana. As raças que nossa civilização, confusa
bunanx, veremos que a natureza não ensina nada, e pervertida, trata com naturalidade de selvagens,
ou quase nada, que ela obriga o homem a dormir, com um crgulho e uma enfatuação absolutamen-
a beber, a comer e a defender-se, bem ou mal, te risíveis, compreendem, tanto quanto a criança,
contra as hostilidades da atmosfera. É ela igual- a alta espiritualidade da indumentária. O selva-
mente que leva o homem a matar seu semelhante, gem e o bab\m — por sua aspiração ingé-
a devorá-lo, a sequestrá-lo e a torturá-lo; pois nua em relação a tudo o que é brilhante, às plu-
mal saímos da ordem das necessidades e das obri- magens multicores, aos tecidos cintilantes, à ma-
gações para entrarmos na do luxo e dos prazeres, jestade superlativa das formas artificiais — sua
vemos que a natureza só pode incentivar apenas aversão pelo real, e testemunham, dessa forma,
o crime. É a infalível natureza que criou o parri- à sua revelia, a imaterialidade de sua alma. Ai
cídio e a antropofagia, e mil outras abominações daquele que, como Luis XV (que foi não o pro-
que o pudor e a delicadeza nos impedem de no- duto de uma verdadeira civilização, mas de uma

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recorrência de barbárie), leva a depravação ao dourar-se para ser adorada. Dere, pois, colher em
ponto de apreciar apenas a simples watwrezal* todas as artes os meios para. elevar-se acima da na-
A moda deve ser considerada, pois, como um tureza para melhor subjugar os corações e sur-
sintoma do gosto pelo ideal que flutua no cérebro preender os espíritos. Pouco importa que a astú-
humano acima de tudo o que a vida natural nele cia e o artifício sejam conhecidos de todos, se o
acumula de grosseiro, terrestre e imundo, como sucesso está assegurado e o efeito é sempre irre-
uma deformação sublime da natureza, ou me- sistível. O artista-filósofo encontrará facilmente
lhor, como uma tentativa permanente e sucessiva nessas considerações a legitíinaçío de todas as prá-
de correção da natureza. Assim, observou-se ju- ticas empregadas em todos os tempos pelas mu-
diciosamente (sem se descobrir a razão) que to- lheres para consolidarem e divinizarem, por as-
das as modas são encantadoras, ou seja, relativa- sim dizer, sua frágil beleza. O catálogo dessas prá-
mente encantadoras, cada uma sendo um esforço ticas seria inumerável; mas, para nos limitarmos
novo, mais ou menos bem-sucedido, em direção àquilo que nossa época chama vulgarmente de
ao belo, uma aproximação qualquer a um ideal maquilagem, quem não vê que o uso do pó-de-
cujo desejo lisonjeia incessantemente o espírito hu- arroz, tão tolamente anatematizado pelos filóso-
mano insatisfeito. Mas, para serem verdadeira- fos cândidos, tem por objetivo e por resultado
mente apreciadas, as modas não devem ser consi- fazer desaparecer da tez todas as manchas que a
deradas como coisas mortas; seria o mesmo que natureza nela injuriosamente semeou e criar uma
admirar os trapos pendurados, frouxos e inertes unidade abstrata na textura e na cor da pele, uni-
como a pele de São Bartolomeu, no armário de dade que, como a produzida pela malha, aproxima
um vendedor de roupas usadas. É preciso imagi- imediatamente o ser humano da estátua, isto é,
ná-los vitalizados, vivificados pelas belas mulhe- de um ser divino e superior? Quanto ao preto ar-
res que os vestiram. Somente assim compreende- tificial que circunda o olho e ao vermelho que
remos seu sentido e espírito. Se, por conseguinte, marca a parte superior da face, embora o uso
o aforismo Todas as modas são encantadoras o provenha do mesmo princípio, da necessidade de
escandaliza como excessivamente absoluto, diga e suplantar a natureza, o resultado deve satisfazer
estará certo de não se enganar: todas foram le- a uma necessidade completamente oposta. O ver-
gitimamente encantadoras. melho e o preto representam a vida, uma vida
sobrenatural e excessiva; essa moldura negra torna
A mulher está perfeitamente nos seus direi- o olhar mais profundo e singular, dá aos olhos
tos e cumpre até uma espécie de dever esforçando- uma aparência mais decidida de janela aberta para
se em parecer mágica e sobrenatural; é preciso o infinito; o vermelho, que inflama as maçãs do
que desperte admiração e que fascine; ídolo, deve rosto, aumenta ainda a claridade da pupila e
* Sabe-se que a sra. Dubarry, quando queria evitar receber
acrescenta a um belo rosto feminino a p . i i \ . i < >
o rei, tinha o cuidado de passar ruge. Era um sinal sufi- misteriosa da sacerdotisa.
ciente. Ela fechava assim a sua porta: era embelezando-ss Assim, se sou bem compreendido, .1
que evitava o real discípulo da natureza. do rosto não deve ser usadn com .» iiiinit,.!.. v n l
202 20.1
gar, inconfessável, de imitar a bela natureza c de de espetáculo, recebendo e rtfletindo a luz com
rivalizar com a juventude. Aíiis, obscrvou-se que seus olhos, jóias, espáduas, resplandecentes como
o artifício não embelezava a feiura c só podia retratos no camarote que lhes serve de moldura.
servir a beleza. Quem se atreveria, i atribuir à Umas, graves e sérias; outras, louras e vaporosas.
arte a função estéril de imitar a. natureza? A ma- Umas exibem com uma aristocrática displicência
quilagem não tem por que se dissimular nem per um colo precoce; outras exibem com candura
que evitar se entrever; pode, ao contrário, exi- um busto de rapaz. Mordiscam o leque, o olhar
bir-se, se não com aíctação, ao menos com uma vago ou fixo, são teatrais c solenes como o drama
espécie de candura. ou a ópera que fingem escatar.
Aqueles a quem uma pesada gravidade im- Ora vemos elegantes famílias passeando in-
pede buscar o belo mesmo em suas mais minucio- dolentemente nas alamedas dos jardins públicos, as
sas manifestações, autorizo de boa vontade a ri- mulheres, com um ar tranquilo, caminhando len-
rem de minhas reflexões e a assinalarem nelas a tamente, braços dados com os maridos, cujo as-
pueril solenidade; nada em seus julgamentos aus- pecto sólido e satisfeito revela uma fortuna rea-
teros me afeta; contento-me em me remeter aos lizada e o contentamento de si. Aqui a aparência
verdadeiros artistas, assim como às mulheres que opulenta substitui a distinção sublime. Meninas
receberam ao nascer uma centelha desse jogo sa- magrelas, com saias rodadas, parecendo mulherzi-
grado com que gostariam de iluminar-se por in- nhas graças aos gestos e atitudes, pulam corda,
teiro. brincam com arcos ou visitam-se ao ar livre, re-
petindo assim a comédia dada em casa pelos pais.
Emergindo de um mundo inferior, orgulhosas
XII de aparecerem enfim sob as luzes da ribalta, as
As Mulheres e as Cortesãs jovens dos pequenos teatros, delgadas, frágeis, ain-
da adolescentes, agitam suas formas virginais e
doentias fantasias absurdas, que não são de época
Assim G., tendo-se imposto a tarefa de bus- alguma e que as enchem de contentamento.
car e explicar a beleza na Modernidade, apraz-sc
À porta de um café, apoiando-se nos vidros
em representar as mulheres muito enfeitadas e
embelezadas por todas as pompas artificiais, seja iluminados por todos os lados, exibe-se um desses
qual for o meio a que pertençam. Aliás, na cole- imbecis, cuja elegância é feita pelo alfaiate e a
ção de suas obras, como no fervilhamento da vida cabeça, pelo barbeiro. A seu lado, com os pés
humana, as diferenças de casta e de raça, sob apoiados sobre o indispensável tamborete, está sen-
qualquer aparato de luxo corn que as pessoas se tada sua amante, mulher bastante leviana, a quem
apresentem, saltam imediatamente aos olhos do não falta quase nada (esse quase nada é quase
espectador. tudo, é a distinção) para parecer uma grande
Ora aparecem jovens da mais seleta socieda- dama. Como seu belo companheiro, ela tem todo
de, iluminadas pela claridade difusa de uma sala o orifício da pequena boca ocupado por um cha-
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ruto desproporcional. Esses dois stresnío pensam. vageria na civilização. Ela tem sua beleza que lhe
Será que eles até mesmo olham? A menos que, vem do mal, sempre desprovida de espiritualidade,
Narcisos da imbecilidade, contemplem a multi- mas por vezes matizada de uni; fadiga que simula
dão como um rio que lhes devolve a Imagem. Na a melancolia. Ela dirige o olhar ao horizonte,
verdade, existem bem mais para o prazer do ob- como animais caçando; mesma exaltação, mesma
servador do que para o próprio prazer, distração indolente e também, às vezes, mesma
Eis, agora, abrindo suas galerias plenas de luz fixidez de atenção. Espécie ie boémia errante nos
e de movimento, esses Valentinos, Cassinos, Pra- confins de uma sociedade regular, a trivialidade
dos (outrora Tívolis, Idálias, Folias, Pafos), esses de sua vida, que é uma vida de astúcia e de com-
cafarnauns onde a exuberância da juventude ocio- bate, vem à luz fatalmente xtrivés de seu invólu-
sa se manifesta livremente. Mulheres que exage- cro majestoso. Aplicam-se a ela justamente estas
raram a moda, a ponto de Ilie alterar a graça e palavras do mestre inimitável, La Bruyère: "Há
lhe destruir a intenção, varrem faustuosamente em algumas mulheres uma grandeza artificial li-
os soalhos com a cauda de seus vestidos e a ponta gada ao movimento dos olhos, a um menear de
de seus xales; vão e vêm, passam e repassam, cabeça, à maneira de andar, que não vai muito
abrindo os olhos espantados corno os dois ani- longe".
mais, dando a impressão de nada verem, mas exa- As observações relativas à cortesã podem, até
minando tudo. certo ponto, aplicar-se à atriz, pois ela também
Sobre um fundo de luz infernal ou de auro- é uma criatura de aparato, um objeto de prazer
ra boreal, vermelho, alaranjado, sulfuroso, rosa (o público. Mas aqui a conquista, a presa, é de na-
rosa revela uma ideia de êxtase na frivolidade), tureza mais nobre e mais espiritual. Trata-se de
algumas vezes violeta (cor preferida das abades- obter a consideração geral, mediante não só a
sas, brasa que se apaga por trás de uma cortina pura beleza física, mas também através de talen-
de azul), sobre esses fundos mágicos, imitando tos de uma ordem mais rara. Se de um lado a atriz
diversamente os fogos de Bengala, eleva-se a ima- se aproxima da cortesã, por outro assemelha-se ao
gem variada da beleza equívoca. Aqui majestosa, poeta. Não nos esqueçamos de que, além da beleza
lá delicada; ora esbelta, franzina até, ora cicló- natural, e mesmo da artificial, há em todos os
pica; ora pequena e vivaz, ora pesada e monu- seres um idiotismo de profissão, uma caracterís-
mental. Ela inventou uma elegância provocante e tica que se pode traduzir fisicamente em feiúra,
bárbara, ou então aspira, com maior ou menor mas também numa espécie de beleza profissional.
felicidade, a simplicidade de praxe na melhor so- Na galeria imensa da vida londrina e parisi-
ciedade. Caminha, desliza, dança e rodopia com ense, encontramos os diversos tipos da mulher
seu peso as crinolinas bordadas que lhe servem ao errante, da mulher revoltada em todos os níveis:
mesmo tempo de pedestal e de contrapeso. Lança inicialmente a mulher galante, na flor da idade,
c olhar por debaixo do chapéu, como um retrato arrogando-se ares aristocráticos, orgulhosos ao
em sua moldura. Representa perfeitamente a sel- mesmo tempo de sua juventude e de seu luxo, no
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qual ela põe todo o seu engenha e tod; a sua alma, vás da adiposidade, essa hedionda saúde de ócio.
levantando delicadamente com dois dedos uma Num caos brumoso e dourado, insuspeitado pelas
ampla faixa de cetim, de seda ou de veludo que castidades indigentes, agitam-se e convulsionam-
esvoaça à sua volta, e avançando o pé pontiagudo, se ninfas macabras e bonecas \ivis cujo olhar in-
cujo calçado excessivamente ornado basearia para fantil deixa escapar uma claridade sinistra, en-
denunciá-la, na falta da ênfase um pouco viva quanto atrás de um balcão repleto de garrafas de
de toda a sua indumentária; seguindo a escala, licores se emproa uma gorda megera, cuja cabeça,
descemos até as escravas, que são confinadas em amarrada num lenço sujo que projeta na parede a
pocilgas frequentemente decoradas como bares; sombra de suas pontas satânicas, faz pensar que
desditadas, mantidas sob a mais severa tutela, e tudo o que é consagrado ao mal está fadado a ter
que não possuem nada de seu, nem mesmo o ex- chifres.
cêntrico adorno que lhes serve de condimento à
Na verdade, não foi para deleitar meu leitor
beleza.
nem para escandalizá-lo que coloquei diante de
Entre estas, algumas — exemplos de uma seus olhos semelhantes imagens; num ou noutro
enfatuação inocente e monstruosa — exibem na caso, teria sido faltar-lhe com o respeito. O que
atitude e nos olhos audaciosamente erguidos a fe-
as torna preciosas e as consagra são os inumerá-
licidade evidente de existirem (na verdade, por
quê?). Às vezes assumem sem querer poses de veis pensamentos que despertam, geralmente se-
uma audácia e nobreza que fascinariam o estatu- veros e sombrios. Mas, se, por acaso, algum im-
ário mais delicado, se este tivesse a coragem e o pudente procurasse nessas composições de G., es-
espírito de colher a nobreza em toda a parte, mes- palhadas em quase toda parte, a ocasião de satis-
mo na lama; outras vezes exibem-se prostradas fazer uma curiosidade malsa, previno-o caridosa-
em atitudes desesperadas de tédio, em indolências mente que nada encontrará que possa excitar uma
de botequim, com um cinismo masculino, fuman- imaginação doente. Encontrará apenas o vício
do cigarros para matar o tempo, com a resignação inevitável, isto é, o olhar do demónio emboscado
do fatalismo oriental; espalhadas, espojadas sobre nas trevas, ou a espádua de Messalina resplande-
os canapés, e saia arredondada atrás e na frente cendo sob a luz; nada, a não ser arte pura, isto é,
num duplo leque, ou penduradas em equilíbrio a beleza particular do mal, o belo no horrível. E
sobre os banquinhos e cadeiras; pesadas, tacitur- até, para reafirmá-lo de passagem, a sensação ge-
nas, estúpidas, extravagantes, com os olhos vítreos ral que emana de todo esse cafarnaum contém
devido à aguardente e com as frontes arqueadas mais tristeza do que graça. O que confere beleza
pela obstinação. Descemos até o último degrau da particular a essas imagens é sua fecundidade mo-
espiral, até o foemina simplex do satírico latino. ral. São ricas em sugestões, mas em sugestões
Ora vemos se destacar, sobre o fundo de uma at- cruéis, ásperas, que minha pena, embora acostu-
mosfera onde o álcool e o tabaco misturaram seus mada a lutar com as representações plásticas, tal-
vapores, a magreza inflamada da tísica ou as cur- vez só insuficientemente tenha traduzido.

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xm as beldades reclinadas como num barca, indo-
Os Veículos lentes, escutando vagamente os galanteios que lhe
chegam aos ouvidos e abandonando-se preguiço-
samente à brisa do passeio.
Assim prosseguem, cortadas por inumeráveis O casaco de pele ou a musselina lhes chega
ramificações, essas longas galerias do high life e ao queixo e transborda como uma onda por cima
do lowe life. Emigremos por alguns insttntes para da portinhola. Os criados estão rígidos e perpen-
um mundo, se não puro, pelo menos mais refina- diculares, inertes, uns parecidos com os outros: é
do; respiremos perfumes, não mais salutares, tal- sempre a efígie monótona e sem relevo do servi-
vez porém mais delicados. Já disse que o pincel lismo, pontual e disciplinada; sua característica
de G., como o de Eugène Lami, era maravilhosa- é a de não terem nenhuma. Ao fundo, o bosque
mente capaz de representar as pompas do dan- verdeja ou se inflama, cobre-se de eflorescências
dismo e a elegância da perfidez. As atitudes do luminosas ou escurece conforme a hora e a estação.
rico lhe são familiares; ele sabe, com um leve Seus recantos enchem-se de brumas outonais, de
traço de pena, com uma segurança infalível, re- sombras azuis, de raios amarelos, de cintilações
presentar a segurança do olhar, do gesto e da pose róseas ou de estreitos fachos de luz que cortam
que, nos seres privilegiados, resulta da monotonia a obscuridade como golpes de sabre.
na felicidade. Nessa série particular de desenhos
reproduzem-se, sob inúmeros aspectos, os inciden- Se as inumeráveis aquarelas relativas à guerra
tes do esporte, as corridas, as cenas de caça, os da Criméia não nos tivessem mostrado a capa-
passeios nos bosques, as ladies orgulhosas, as frá- cidade de G. como paisagista, estas com certeza
geis misses, conduzindo com uma mão segura os seriam suficientes. Mas aqui já não se trata dos
corcéis de uma pureza admirável de garbo, co- campos dilacerados da Criméia, nem das margens
quetes, brilhantes, eles próprios caprichosos como teatrais do Bósforo; encontramos as paisagens fa-
mulheres. Pois G. conhece não somente o cavalo miliares e íntimas que formam o adorno circular
em geral, mas dedica-se também com êxito a ex- de uma grande cidade, em que a luz cria efeitos
primir a beleza particular dos cavalos. Ora são que um artista verdadeiramente românt.co não
as paradas e, por assim dizer, os acampamentos de pode desdenhar.
numerosas carruagens em que alçados sobre as al- Um outro mérito que não é inútil observar
mofadas, sobre os bancos e sobre os tetos, jovens aqui é o conhecimento notável dos arreios e da
esbeltos e mulheres com roupas excêntricas, per- carroçaria. G. desenha e pinta uma viatura, e to-
mitidas pela estação, assistem a qualquer soleni- das as espécies de viaturas, com o mesmo cuidado
dade do turfe que se desenrola ao longe; ora um e a mesma facilidade que um consumado pintor
cavaleiro galopa graciosamente ao lado de uma de marinhas pinta todas as espécies de navios.
caleche descoberta, e seu cavalo parece, por seus Toda a sua carroçaria é perfeitamente ortodoxa;
movimentos, saudar à sua maneira. O veículo leva cada parte está no seu devido lugar <e não há nada
a galope, numa alameda zebrada de sombra e luz, a corrigir. Seja qual for a posição ou a velocidade
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em que ela for lançada, uma viatura, como um É um prazer ler os comentário! btnvhu-
navio, recebe do movimento uma griça misterio- morados, as observações sutls • pertinen-
sa e complexa, dificílima de regismr. O prazer tes de A Modernidade de Baudelairo, on-
que o olhar do artista dela recebe decorre, ao que de se encontram os textos mais significa-
tivos de Curiosidades Estéticas e A Arto
parece, da série de figuras geométricas que esse Romântica, ambas coletâneas póstumas.
cbjeto, já tão complicado — navio ou carruagem As páginas deste livro foram escritas há

£BU
—, engendra de forma rápida e sucessiva no es- pelo menos 120 anos.
paço. Guardam, no entanto, uma Instlgante
atualidade, e poderiam ter sido elabora-
Podemos apostar com toda certeza que, den- SETE*» BE BJBliOTKW OA UNiCMIP
das por nossos críticos contemporâneos
tro de alguns anos, os desenhos de G. se cornarão que circulam em galerias de arte, salões e
arquivos preciosos da vida civilizada. Suas obras Esta publicação d bienais.
serão procuradas pelos curiosos tanto quanto as última d O que mais atual do que a eterna batalha
dos Debucourt, dos Moreau, dos Saint-Aubin, dos entre críticos e artistas acusando-se mu-
Carie Vernet, dos Lami, dos Deveria, dos Gavar- r, MAIO T' 19S tuamente de incompreensão? ou o discur-
so sobre pintores de pouco talento que,
ni, e de todos esses artistas excelentes que, por
na tM.flffi 10 da noite para o dia, transformam-se nos
terem pintado somente o familiar e o belo, não enfants gâtés da imprensa? ou ainda O
í J AG8, Z005
deixam de ser, a seu modo, sérios historiadores. cr
*' u fenómeno da moda enquanto resposta ao
Vários deles fizeram inclusive muitas concessões eterno apetite humano pelo belo? Em to-
ao belo e introduziram algumas vezes em suas 2 8 NOV. im 1 das essas ocasiões, e também quando
fala sobre a voga da fotografia, Baudelaire
composições um estilo clássico alheio ao tema; vá- 0 6 SET. 2006
rios arredondaram voluntariamente os ângulos, l\S é impecavelmente contemporâneo. Nôo
por acaso. Convém não esquecer que o
aplainaram as asperezas da vida, amorteceram-lhe 1 3 SET, 2006 poeta de As flores do mal foi o primeiro a
as fulgurantes explosões. Menos hábil do que es- definir o conceito de modernidade, como
tes, G. tem um mérito profundo que lhe é pe- 2 7 SET. 2006 23 se poderá ler nas páginas que dedica ao
culiar; desempenhou voluntariamente uma fun- desenhista Constantin Guys. Dono de ex-
2 3 MV. 2006 trema sensibilidade, Baudelaire intuiu de
ção que outros artistas desdenharam e que cabia imediato artistas que no futuro gozariam
sobretudo a um homem do mundo preencher. Ele 3 0 NOV. 2006 de merecida glória.
buscou por toda a parte a beleza passageira e Mesmo no turbilhão dos salões, onde múl-
fugaz da vida presente, o caráter daquilo que ? ? MAIO 2007 tiplas tendências entrecruzam-se, seu jul-
o leitor nos permitiu chamar de Modernidade. gamento não falhava. Saudou enfatica-
Frequentemente estranho, violento e excessivo, ? q MAIO 2007 mente Delacroix numa época em que
poucos arriscavam-se a fazé-lo. Amou
mas sempre poético, ele soube concentrar em seus 0 B M. 2008 Goya, previu a fama de Daumier, Manet e
desenhos o sabor amargo ou capitoso do vinho Corot. Não é a toa que suas reflexões es-
da vida. 2 3 A8R.200B téticas, reconhecidas bem depois de sua
morte, apontaram o caminho percursor pa-
ra a arte moderna.

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