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Alexandre havia nascido em uma família que remontava suas raízes reais até o

grande herói Hércules – pelo menos era essa a história contada por seus membros
para aqueles que visitavam a sua corte.

De acordo com o historiador grego Heródoto, que fez a jornada para a


Macedônia um século antes da existência de Alexandre e coletou cada pedaço de
fofoca que pôde encontrar no reino, a família real macedônia teve início quando um
refugiado grego chamado Pérdicas chegou vindo de Argos, no sul da Grécia.
Descendente de Temeno, da família de Hércules, Pérdicas foi banido de Argos com
seus dois irmãos mais velhos.

Os irmãos eventualmente abriram caminho ao norte, para a Macedônia. Eles


encontraram refúgio nas montanhas do oeste com um chefe local e sua amável
esposa. Os tempos eram difíceis para todos, portanto o jovem Pérdicas e seus irmãos
trabalharam como simples lavradores para pagar sua estadia. Um dia, a esposa notou
que os pães que ela fazia todos os dias para Pérdicas cresciam duas vezes mais do que
os outros. Quando ela contou isso ao marido, o chefe temeu que isso fosse um mau
agouro e ordenou aos irmãos que partissem. Eles exigiram seus salários, mas o chefe,
perturbado, gritou que tudo o que receberiam era o raio de sol que brilhava dentro do
cômodo onde estavam.

Os dois irmãos mais velhos estava prontos para lutar, mas o jovem Pérdicas
pegou a sua faca e traçou uma linha que seguia a luz do sol no chão de terra e disse
que aceitaria a oferta do chefe. Ele então reuniu a luz do sol três vezes em suas roupas
esfarrapadas e se foi com seus irmãos. O chefe logo chegou à conclusão de que
Pérdicas havia feito algum tipo de feitiço que ameaçava o seu domínio e enviou
guerreiros para matar os irmãos. Mas um rio próximo dali miraculosamente teve uma
cheia, impedindo os soldados de avançar e permitindo que Pérdicas e seus irmãos
escapassem para as colunas de Pieria ao norte do Monte Olimpo. Ali, em um lugar
conhecido como os Jardins de Midas, onde um dia Alexandre viria a ser ensinado por
Aristóteles, os irmãos vindos de Argos estabeleceram um reino que, com o tempo,
espalhou-se das montanhas até as ricas terras lavráveis ao longo da costa.

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Quando Alexandre tinha cerca de doze anos de idade, ele fez um amigo que o
seguiria até a Índia. Que este amigo fosse um cavalo chamado Bucéfalo é o detalhe
mais encantador da história que foi uma das mais famosas e reveladoras sobre a
extraordinária vida de Alexandre.
O próprio Felipe estava presente naquele dia, um evento raro, quando um
criador de cavalos da Tessália chamado Filoneico chegou à pequena cidade de Díon, ao
pé do Monte Olimpo, e perguntou se poderia mostrar suas mercadorias ao rei. Felipe,
que estava à procura de um novo garanhão para cavalgar durante as batalhas,
concordou de bom grado e, junto a Alexandre, acompanhou o mercador até as
planícies gramadas do lado de fora da cidade. Filoneico então desfilou Bucéfalo, para a
surpresa da multidão.
O animal era de fato magnífico, alto e poderoso, preto com uma mancha branca
na testa e uma marca no formato de cabeça de boi do rancho do seu criador (daí o
nome Bu-cephalas – “Cabeça de boi”). Filoneico sabia que Felipe havia se interessado,
assim como todos os nobres macedônios que amavam cavalos, então ele casualmente
mencionou que não poderia se separar de tal animal por menos de treze talentos. Este
preço absurdo era o suficiente para sustentar um homem por toda a vida, mas Felipe
apenas deu de ombros. Por mais deslumbrante que fosse o cavalo, Felipe pôde ver
desde o primeiro momento que ele era incontrolável e arisco, e que nenhum de seus
experientes cuidadores poderia lidar com tal animal.
Mesmo um cavalo tão esplêndido quanto Bucéfalo era inútil para o rei se
não pudesse ser montado. Felipe ordenou que o cavalo fosse dispensado, mas
Alexandre confrontou o pai e proclamou que ele estava perdendo um garanhão
inestimável por não ter coragem nem habilidade para controlá-lo. O rei não estava
acostumado a ser desafiado em frente a seus homens, especialmente por seu jovem
filho, mas Alexandre estava fora de si de frustração e repetiu a afronta.
Felipe ficou furioso, olhou para seu filho com seu único olho e disse:
“Você é tolo a ponto de criticar os mais velhos? Acha mesmo que conhece mais sobre
cavalos do que nós?” “Este cavalo, ao menos. Posso lidar com ele melhor do que
qualquer homem vivo!” “Ah, é mesmo? E se não puder, qual é a penalidade que você
está disposto a pagar pela sua aspereza?” “Pago o preço total do cavalo”.
O próprio Felipe não podia deixar de admirar a coragem do filho e riu com seus nobres

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pela sua jovem arrogância. Mas concordou com a barganha e disse a seus cuidadores
que levassem o cavalo para Alexandre. Alexandre era ousado, não tolo. Enquanto os
guerreiros da corte haviam visto apenas o lado selvagem de Bucéfalo, o jovem notara
algo mais – o cavalo se tornava incontrolável apenas quando o sol estava atrás dele.
Era a visão da própria sombra no chão que estava assustando Bucéfalo.
Alexandre, com inteligência, pegou as guias e gentilmente virou o garanhão para a
direção do sol para que ele não visse a própria sombra. Então afagou o cavalo e falou
suavemente com ele por vários minutos, até que o animal se acalmasse. Para o
espanto de seu pai e da multidão que assistia, Alexandre tirou seu manto e montou no
cavalo em um único movimento.
Bucéfalo estava pronto para lutar, mas o menino o segurou com rédeas curtas e
começaram a trotar pela planície. Aos poucos,
Alexandre conseguiu controlar o animal e a
soltar as rédeas para permitir que o poderoso
garanhão galopasse pelos gramados a toda
velocidade. Todos ficaram aterrorizados
achando que o príncipe poderia morrer, mas
Alexandre e Bucéfalo cavalgaram para longe da
multidão e depois voltaram para a frente de seu
pai.
Uma grande comemoração foi ouvida e
Felipe, explodindo de orgulho, derramou
lágrimas de alegria e beijou o filho quando ele
desceu do cavalo. Ele então abraçou Alexandre
e profeticamente declarou: “Meu filho, você
deve buscar um reino do seu tamanho – a Macedônia é pequena demais para você!”.

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Felipe sabia que Alexandre atingira uma idade em que seu espírito e intelecto já
haviam ultrapassado os limites dos tutores de infância. Se ele fosse se tornar rei algum
dia e tomar seu lugar como líder da potência ascendente no mundo grego, precisaria
do tipo de treinamento que somente a maior mente da
época poderia oferecer.

Para Felipe, esta só poderia ser a de um homem: Aristóteles. A escolha era


incomum, uma vez que nessa época Aristóteles era um refugiado desconhecido que
vivia em exílio, mas o homem que um dia se tornaria
um dos mais famosos filósofos na história conhecia
Felipe desde que os dois eram meninos. Aristóteles
era da cidade próxima de Estagira na Península
Calcídica, mas fora criado na corte macedônia do pai
de Felipe, Amintas, onde seu próprio pai era o
médico da corte. Felipe era apenas um ou dois anos
mais novo que Aristóteles, então os garotos haviam
crescido juntos. Aos dezessete anos, Aristóteles
deixou a Macedônia para viajar a Atenas, onde
passou os vinte anos seguintes como estudante de
Platão na famosa Academia.

Quando Platão morreu, Aristóteles esperava tomar a liderança da escola, mas


em vez disso foi expulso da cidade por Demóstenes e o partido anti-macedônio por
causa de suas conexões com Felipe. No mesmo ano, sua rebelde cidade natal, Estagira,
foi destruída pelo exército de Felipe, por isso Aristóteles fugiu para uma cidade
próxima a Troia, onde o tirano Hérmias governava em nome da Pérsia. Ele permaneceu
lá por três anos e até casou com a filha adotiva do tirano. Mas quando Hérmias foi
assassinado, ele se retirou para a ilha de Lesbos para ensinar e estudar a fauna e a
flora locais. Três anos depois, quando Felipe o convidou para retornar a Pela como
tutor de Alexandre, Aristóteles agarrou a oportunidade. Aristóteles era um professor
inspirado.

Assim como Sócrates ensinou Platão e Platão havia instruído Aristóteles, agora o
filósofo de Estagira mostraria a Alexandre as maravilhas do universo. Com suas pernas

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magras, olhos pequenos, ceceio persistente, roupas escandalosas e anéis
espalhafatosos, Aristóteles deve ter parecido risível para o príncipe macedônio; mas
quando ele começou a falar, Alexandre soube que estava na presença de um gênio. Ao
contrário de Platão, que valorizava a teoria e a especulação acima de tudo, Aristóteles
era um homem prático. Ele era apaixonadamente curioso sobre como as coisas
funcionavam e era provável que fosse encontrado tanto no meio de um pântano
coletando girinos para dissecá-los quanto numa biblioteca para estudar a arte da
Poética. Em uma era anterior às especializações, Aristóteles estudou e escreveu sobre
tudo. Ele praticamente inventou a lógica e deduziu que o universo teria sido criado por
um movimentador primordial todo-poderoso que, no entanto, não demonstrava
nenhum interesse por seu próprio trabalho.

Aristóteles foi o primeiro grande cientista experimental, com Física, Astronomia,


Biologia, Embriologia, Meteorologia e muito mais
figurando entre suas especialidades. Ele sabia a partir
da observação e da experimentação que a Terra era
uma esfera e que as baleias eram mamíferos, e não
peixes. Ele foi pioneiro no estudo da Ética e
argumentava que as maiores virtudes vinham da
moderação. Ele declarou que o homem era um animal
político – ou seja, uma criatura que encontra seu
verdadeiro lar na pólis, a cidade. Pessoa alguma
poderia viver uma vida significativa longe de outras, ele declarou, pois uma vida sem
amigos não valeria a pena ser vivida. Mas ele também acreditava, assim como quase
todo mundo naquele tempo, que a escravidão era um estado natural das coisas e que
os homens por natureza eram superiores às mulheres. Ele também nutria a crença de
que as nações bárbaras eram inferiores aos gregos e deveriam ser tratadas como tal.

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Alexandre logo teve uma oportunidade ainda maior de provar o seu valor. Felipe
tinha atingido o limite de sua paciência com os atenienses e suas conspirações sem fim
contra ele. Demóstenes estava há anos avisando que a maior ameaça à cidade era a
Macedônia – e não Esparta, Tebas ou mesmo a Pérsia.

Com os piratas atenienses assediando a costa e as forças conjuntas de Atenas e


da Pérsia tentando esmagar o seu reino, Felipe decidiu atacar primeiro. Ele tomou a
frota ateniense de grãos que vinha do Mar Negro quando esta passava pela
Macedônia, tirando da cidade sua fonte mais importante de comida.

Ele então marchou para o sul com seu exército antes que alguém soubesse o que
estava acontecendo e ocupou a cidade de Elateia ao norte de Tebas. Felipe esperava
provocar os atenienses a tomar alguma atitude impensada – e não se desapontou.
Atenas ainda era um importante poder marítimo, mas não havia participado em uma
luta relevante em terra por décadas.

Todavia, Demóstenes jogou os atenienses em um frenesi guerreiro, adulando-os


como os herdeiros dos vitoriosos de Maratona, que certamente esmagariam o inimigo
bárbaro no campo de batalha.

Os atenienses também formaram uma aliança


com Tebas, avisando ao seu vizinho do norte que
Felipe os destruiria no caminho para atacar Atenas.
Assim, em um dia quente no começo de agosto de
338, os atenienses e seus aliados, incluindo a elite
do Bando Sagrado de Tebas, chegaram ao
acampamento de Felipe em um vale estreito da
Grécia central, próximo à vila de Queroneia.

Os exércitos que se reuniram na planície


pantanosa com um pouco mais de um quilômetro e meio eram enormes, chegando
talvez a sessenta mil homens, com números próximos dos dois lados. Mas enquanto os
atenienses eram em sua maioria comerciantes e lavradores, os macedônios eram
soldados profissionais, que há anos lutavam contra hoplitas gregos e todo tipo de

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guerreiros selvagens das montanhas do norte. Mesmo assim, eram os trezentos
amantes de rosto sombrio do Bando que mais preocupavam Felipe.

Ele tinha que destruí-los se quisesse vencer essa batalha. Assim, foi
surpreendente que Felipe tenha posicionado seu filho de dezoito anos, Alexandre, no
ponto crucial ao fim da linha macedônia, diretamente oposto ao Bando Sagrado. A
estratégia de Felipe era essencialmente a mesma que foi usada durante os primeiros
anos contra os ilírios.

Enquanto os atenienses e seus aliados formavam uma linha reta através do vale,
os macedônios se posicionavam em uma formação angulosa pressionando a linha
ateniense apenas na extrema esquerda. Felipe então ordenou que seus homens
avançassem, fazendo com que os atenienses à esquerda sentissem a força total do
ataque macedônio enquanto os da direita permaneciam intocados. De início, os
atenienses seguraram o inimigo e até mesmo o forçaram a recuar. Mas aqueles que
estavam mais distantes na linha, posicionados à direita, viram os macedônios
recuando e quebraram a formação para se juntar ao ataque – exatamente como Felipe
havia previsto. Enquanto os tebanos mais disciplinados liderados pelo Bando Sagrado
mantinham a sua linha, um buraco se abriu no centro ateniense, por onde a cavalaria
de Alexandre penetrou.

Ele rapidamente cercou os tebanos, enquanto o pai se movia contra os


atenienses. Os filhos de Maratona entraram em colapso e fugiram, com pelo menos
mil mortos e o dobro de capturados. Muitos dos melhores generais atenienses
resistiram e foram assassinados, mas entre aqueles que correram do campo de batalha
aterrorizados estava o orador Demóstenes. Os soldados comuns de Tebas não se
saíram muito melhor, mas os homens do Bando Sagrado formaram um círculo e
encararam Alexandre e seus macedônios, preparados para lutar até a morte. Os seus
corpos logo jaziam empilhados até que finalmente não sobrou mais ninguém para
lutar. Apenas aqueles feridos demais para resistir foram levados vivos, enquanto o
resto tombou ali mesmo. Felipe honrou os mortos do Bando Sagrado enterrando-os no
campo de batalha e celebrando a sua coragem com uma grandiosa estátua de um leão,
que está até hoje no tranquilo vale da Queroneia

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Atenas suspirou aliviada quando Alexandre e seu exército contornaram sua
cidade e seguiram para o sul pelo istmo da Península do Peloponeso.
Lá, Alexandre convocou a Liga de Corinto para se encontrar com
ele sob o olhar atento do exército macedônio. Os representantes, nervosos,
rapidamente o declararam líder vitalício de todos os gregos. Em seguida, em uma
brilhante manobra digna do teatro ateniense, Alexandre trouxe perante os delegados
um mensageiro que afirmava ser da cidade grega de Éfeso, na costa ocidental da Ásia
Menor.
Este ator arrebatador pediu aos representantes da Grécia livre para libertar sua
cidade sitiada sob o jugo do tirânico rei persa. Seguindo a deixa, os membros da liga se
levantaram em aplausos e prometeram ajudar seus compatriotas oprimidos do outro
lado do mar. Eles então nomearam Alexandre general plenipotenciário no comando da
renovada expedição pan-helênica contra a Pérsia.
Alexandre imediatamente apresentou aos representantes uma lista completa de
quantos homens, dinheiro e suprimentos eles deveriam prover para contribuir para a
próxima campanha. Os atenienses foram obrigados a disponibilizar sua frota para
Alexandre, bem como os marinheiros e provisões. Outras cidades tiveram de fornecer
soldados e bens de acordo com a necessidade que o rei estabeleceu. Notáveis em sua
ausência foram os espartanos, que, como de costume, ficaram em casa e se recusaram
a participar da guerra. Alexandre, com uma tolerância da qual se arrependeria mais
tarde, contentou-se com a nomeação de regimes pró-macedônios nas cidades ao redor
das fronteiras montanhosas de Esparta.
Como seu pai, ele pensou que os teimosos espartanos eram úteis como prova do
caráter voluntário da sua aliança. Se causassem problemas, ele acreditava poder lidar
facilmente com eles. Com as formalidades da reunião terminadas, estadistas e
estudiosos aglomeraram-se em torno de Alexandre competindo uns com os outros
para oferecer os parabéns para o jovem rei. Ele aceitou os entusiasmados – ainda que
falsos – elogios com a boa vontade de um político nato, mas procurou em vão na
multidão o homem que mais esperava encontrar. Diógenes, o cínico, um filósofo em
exílio na colônia grega de Sinope, às margens do Mar Negro.
Ele fora banido de sua casa por ter desfigurado a face da moeda e passou a
maior parte de sua vida no exterior, em Atenas e Corinto. Diógenes acreditava em

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viver suas crenças filosóficas, geralmente para a diversão e aversão dos outros. Ele e
seu grupo de seguidores desalinhados entendiam que a vida deveria ser conduzida de
acordo com a natureza, a ponto de realizar as funções corporais em público, como
cães (daí o termo cínico, originado da palavra grega para cachorro). No entanto, seu
ascetismo era sincero, e ele trabalhou ativamente para atrair pessoas a rejeitar as
convenções da sociedade.
Na época, ele morava em uma jarra grande, nos arredores de Corinto. Alexandre
foi procurá-lo e o encontrou apreciando o belo dia vestindo apenas uma tanga. O rei
parou ao lado à espera de reconhecimento, mas o filósofo só olhou para ele com um
leve desprezo. Alexandre, desconfortável, finalmente perguntou se havia alguma coisa
que poderia fazer pelo filósofo. Diógenes respondeu que sim, de fato; ele podia sair do
caminho, uma vez que o rei estava bloqueando o sol.
Os amigos de Alexandre zombaram do velho filósofo como um tolo e louco, mas
o jovem rei melancolicamente respondeu: “Se eu não fosse Alexandre, eu gostaria de
ser Diógenes.”,
"Um completo abandono do supérfluo; um inquebrantável compromisso em
rebentar os ferros que, sob forma de convenções e normas, acorrentam e incapacitam
os seres humanos; uma inextinguível sede de liberdade; coragem para desprezar os
governos e governantes; indiferença para com assuntos políticos; uma relutância em
servir de peão nas guerras forjadas e manipuladas pelas oligarquias; uma vida
desvinculada de esposa e filhos; e um menosprezo pelas preocupações comerciais e
financeiras que ludibriam praticamente todo mundo” – Navia, Diógenes, o Cínico, p. 52

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"Assim diz o Senhor ao seu ungido, Ciro, a quem tomo pela mão direita, para
submeter as nações diante dele, e destituir os reis de seus trajes; para abrir diante dele as
portas das cidades, e os portões não se fecharão." Profeta Isaías
Houve um rei chamado Astiages, que governava em Média, nas montanhas à leste da
Mesopotâmia. Uma noite ele teve um sonho no
qual sua filha Mandane daria à luz um filho que
governaria toda a Ásia. Temendo perder seu
trono, ele a entregou em casamento a um
homem da insignificante província da Pérsia, ao
sul. Mas após Mandane estar casada por um
ano, e grávida, Astiages teve um outro sonho,
em que viu vinhas se espalhando do útero dela
para cobrir todas as terras de seu império e
além. Ele consultou os sábios Magos, que
interpretaram o sonho e previram que o bebê um
dia se tornaria um rei poderoso e ocuparia o
lugar dele. Ao saber disso, Astiages decidiu
matar a criança assim que ela nascesse.
Quando o bebê, chamado Ciro, nasceu, o rei o deu a um serviçal, com ordens de levar a
criança embora e matá-la. Em vez disso, o servo deu o bebê a um bondoso pastor, que o
criou em segredo como se fosse seu próprio filho. Embora seu meio fosse humilde, o
jovem Ciro mostrou as qualidades da realeza desde cedo e foi rapidamente trazido à
presença do desconfiado rei. Após descobrir a verdade, Astiages consultou novamente os
Magos, que então afirmaram que ele não tinha nada a temer de Ciro. Não obstante,
quando o príncipe atingiu a idade adulta, ele liderou uma revolta do povo de seu pai contra
seu avô de Média e se tornou o primeiro Grande Rei do Império Persa. Essa é a lenda
heroica contada por Heródoto, mas a verdadeira história de Ciro e a criação do Império
Persa é ainda mais impressionante. Começando pelas terras persas perto de Persépolis,
onde hoje em dia fica o sul do Irã, Ciro conquistou a Média por volta de 549 a.C., depois
veio o reino da Lídia, na Ásia Menor, três anos depois, quando seu abastado rei, Creso,
subestimou o governante da Pérsia. O Império da Babilônia foi o próximo, em 539 a.C.,
seguido pela maior parte da Ásia Central. Cambisses, o filho mais velho de Ciro, ascendeu
ao trono em 530 a.C., após a morte de seu pai, e rapidamente anexou o Egito a seu
Império. Depois da morte prematura de Cambisses, em 522 a.C., Dário I tomou o trono em
um embate sangrento. Ele conquistou o vale do Indo para a Pérsia, mas suas aventuras
na Europa não tiveram tanta sorte. Ele cruzou o Danúbio e invadiu a Cítia, mas essas
foram batalhas apenas nominalmente vitoriosas, enquanto a destruição de seu exército em
Maratona, próximo a Atenas, em 490 a.C., foi claramente uma derrota. Embora os gregos

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recordem Maratona como a maior batalha
que o mundo já viu, para os persas ela foi apenas um pequeno revés. Xerxes, o filho de
Dário e neto de Ciro, invadiu a Grécia novamente em 480 a.C. A celebrada defesa
espartana em Termópilas sequer mereceu menção nos registros persas, tampouco a
destruição de Atenas, no mesmo ano. Entretanto, a derrota persa em Plateia, próximo a
Tebas, no ano seguinte acabou com os sonhos de conquista da Grécia. Após a morte de
Xerxes em 465 a.C., as fronteiras do Império Persa permaneceram inalteradas, embora
existissem frequentes revoltas internas sufocadas pelos reis até que Dário III subiu ao
trono em 336 a.C., mesmo ano em que Alexandre se tornou rei da Macedônia.

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Quando o Grande Rei Xerxes cruzou o Helesponto (atualmente, estreito de
Dardanelos) em seu caminho para invadir a Grécia no século anterior, ele ordenou a
construção de pontes flutuantes através do estreito para acelerar a passagem de seu
enorme exército – mas uma tempestade as destruiu antes que ele pudesse cruzar. O rei
persa ordenou então que o Helesponto fosse açoitado com trezentos chicotes e que um
par de grilhões fossem jogados dentro da água antes de começar a construção de novas
pontes. Alexandre conhecia essa história e estava determinado a garantir que sua
passagem fosse mais bem-sucedida. Enquanto Parmênio supervisionava o transporte das
tropas macedônias usando navios de guerra e de carga, Alexandre decidiu deixar para trás
a maior parte do seu exército e cruzar sozinho o Eleo, dirigindo ele mesmo o transporte em
direção ao meio do Helesponto. Lá, sacrificou um touro para o deus dos mares, Poseidon,
e ofertou uma bebida de uma taça de ouro dentro da água. Então ele guiou o navio até
Troia, para o lugar onde Homero disse que os gregos tinham desembarcado mil anos
antes. À medida que se aproximava da costa, Alexandre pegou sua lança e a arremessou
com toda a força na praia, reivindicando a Ásia para si mesmo, como um despojo dos
deuses. Então ele saltou para a costa antes do barco chegar em terra e entrou no território
persa andando por entre as ondas. O primeiro ato de Alexandre na Ásia foi fazer um
sacrifício a Zeus, o patrono das chegadas tranquilas, bem como a Atena e a seu próprio
ancestral Hércules. Ele era sempre escrupuloso com cerimônias religiosas, e agora ainda
mais, por estar cercado por uma paisagem mitológica saída diretamente das histórias da
sua infância. Ali, naquela mesma praia, os gregos tinham montado acampamento. Logo
além estava o vasto campo de batalha onde Heitor e seus troianos enfrentaram os
invasores na guerra de dez anos pela honra de Helena, cuja beleza lançou mil naves para
trazê-la de volta para casa. E logo adiante, acima da planície, estava a própria cidadela de
Troia – não mais a cidade de outrora, claro, mas ainda imponente na imaginação de
Alexandre. Seu herói Aquiles, o maior guerreiro
grego, lutou e morreu diante destas muralhas, preferindo uma vida curta de glória imortal a
uma velhice tranquila, cercado pela família e pelos amigos.
A Troia que Alexandre visitou era apenas a mais recente em uma série de cidades
construídas no mesmo local há três mil anos. Ao longo dos séculos, o lugar tinha sido
saqueado e queimado diversas vezes, apenas para ser sempre reconstruído, cada vez
mais alto, sobre as ruínas. A cidade em que Alexandre entrou não passava de uma
pequena vila com um templo à Atena frequentado por alguns poucos sacerdotes ansiosos
pelos ocasionais turistas. O general espartano Míndaro tinha visitado o lugar muitos anos
antes, assim como Xerxes quando estava a caminho da Grécia, mas a chegada do líder
macedônio e de sua comitiva foi o mais memorável evento que Troia presenciava em
décadas. O primeiro sacrifício de Alexandre foi no templo de Atena, dedicando sua própria
armadura ao altar da deusa. No lugar da sua placa peitoral e do escudo, ele pegou armas

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que supostamente estavam lá desde a Guerra de Troia. Seus soldados preferidos usariam
orgulhosamente essas armas em batalhas por toda a Ásia, incluindo um escudo que um
dia salvaria sua vida na Índia. Em seguida, Alexandre visitou as tumbas dos guerreiros que
morreram lutando para capturar ou salvar a cidade. O momento mais marcante foi quando
ele colocou oferendas no túmulo do seu ancestral e herói de infância, Aquiles. Então, com
seus companheiros, incluindo Heféstion, Alexandre tirou suas roupas e se besuntou de
óleo, como um atleta. Em homenagem a Aquiles, Alexandre e seus amigos apostaram
uma corrida ao redor do túmulo e enfeitaram o lugar com guirlandas. Para finalizar, ele fez
uma oferenda ao espírito do rei troiano Príamo, que foi massacrado buscando refúgio no
altar de Zeus, contrariando todos os costumes sagrados. O filho de Aquiles, Neoptólemo,
executou essa ação vergonhosa, o que incitou o jovem rei a implorar que a sombra do
líder de Troia não descarregasse sua ira contra seu descendente macedônio. Quando os
sacerdotes o levaram para uma visita final às ruínas da cidade, eles perguntaram se ele
desejava ver a lira de Páris antes de partir. O jovem rei, entretanto, desdenhou do príncipe
troiano Páris, um covarde mais interessado em belas mulheres do que na glória da
batalha: “Eu não dou a mínima para essa harpa”, disse, “mas veria com prazer a lira de
Aquiles, na qual ele cantou os feitos gloriosos de homens memoráveis”. A maior tristeza de
Alexandre, lamentou ele, era não ter nenhum Homero para celebrar sua glória.

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O rio Grânico nasce atrás das montanhas de Troia e flui para o norte, cruzando a
planície costeira até o mar. É um rio pequeno, alimentado pelas chuvas de primavera, mas
suas encostas são íngremes e difíceis de escalar. Foi nessa antiga encruzilhada que
Alexandre finalmente viu os persas, no fim de maio. Seus batedores reportaram que a
cavalaria inimiga estava reunida do outro lado do rio, com a infantaria logo atrás, em um
posicionamento de forças bem incomum, mas
eficaz, dada a situação. Se os homens de
Alexandre entrassem em combate com os persas
ali, teriam de cruzar o rio desprotegidos, depois
lutar para subir as encostas onde os inimigos a
cavalo os atingiriam de um terreno elevado. A
mortal formação de sarissas dos macedônios
seria inútil durante a tentativa de escalada às
margens do rio até chegarem ao terreno aberto à frente. Os persas tinham
deliberadamente escolhido um campo de batalha que não forneceria nenhuma vantagem
para a força da infantaria macedônia, mas que daria aos persas todos os benefícios. Eles
criaram uma armadilha para Alexandre e o desafiavam a entrar nela.
Alexandre estudou a situação com sua visão aguçada para terrenos e não pôde evitar a
admiração pelo plano persa. Um general mais cauteloso teria buscado uma localização
melhor para cruzar o rio ou recuaria pelo sul, ao longo da costa do Egeu. Mas Alexandre
se orgulhava de sua rapidez e ousadia – e era exatamente com isso que os persas
contavam. Eles estavam apostando que o impetuoso jovem rei não resistiria à isca. Como
no cerco de Tebas, há duas versões do que aconteceu em seguida. Uma linha vinda do
historiador Diodoro diz que Alexandre acampou à noite e se preparou para um ataque na
manhã seguinte. Mas outra, vinda de Arriano, diz que ele lançou suas tropas para encarar
o rio mesmo com apenas poucas horas de luz do sol. Nesta versão, o velho general
Parmênio alertou Alexandre para permanecer na margem mais próxima do rio até o dia
seguinte, quando as tropas poderiam ser organizadas de modo mais eficiente para o que
seria uma batalha excruciante. Um revés militar nesse ponto da expedição, avisou ele,
seria um desastre. Segundo este relato, Alexandre desprezou a hesitação do general
dizendo que ele ficaria envergonhado se, após cruzar o Helesponto, um pequeno curso
d’água o parasse. Um atraso, declarou, apenas faria os persas pensarem que estava com
medo deles. Arriano descreve um diálogo similar entre Parmênio e Alexandre em outras
quatro oportunidades durante a expedição, sempre na véspera da batalha, de modo que o
leitor começa a suspeitar que o veterano comandante estava sendo usado como um

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contraste para salientar a ousadia de Alexandre. Mas não faz muita diferença se os
macedônios acamparam ou começaram a atacar naquela noite. Alexandre tinha decidido
enfrentar os persas ali no Grânico e arriscar tudo em apenas uma jogada. Encarando
milhares de cavaleiros persas e pelo menos a mesma quantidade de soldados de
infantaria do outro lado do rio, Alexandre arrumou suas tropas em uma formação padrão,
com cavaleiros nos flancos e soldados a pé no centro. Ele colocou Parmênio no comando
das cavalarias trácia e tessália à
esquerda, enquanto ele mesmo
montou seu cavalo de batalha e
cavalgou para a direita. Filotas e suas
unidades de cavalaria ficaram
estacionados perto dos arqueiros e
selvagens lanceiros agrinianos da
Trácia. Entre os muitos oficiais na
linha de batalha estavam Nicanor, outro filho de Parmênio; Crátero, que se tornou um dos
comandantes mais confiáveis de Alexandre e Clito, o Negro, amigo de seu pai, Felipe, e
irmão da sua ama de leite. O próprio rei da Macedônia estava inconfundível em sua
esplêndida armadura enquanto caminhava ao lado de seu cavalo por entre seus homens,
bajulando-os e os encorajando. Os persas também tinham percebido a movimentação de
Alexandre e moveram seus melhores esquadrões de cavalaria para a posição oposta para
acabar com ele. Após os dois lados estarem preparados, eles ficaram se encarando,
imóveis e em silêncio, por muitos minutos, como se estivessem respirando fundo antes da
batalha começar. Nenhum dos lados queria ser o primeiro a se mover, mas finalmente
Alexandre pulou no seu cavalo e moveu a falange direita adiante para dentro do rio, com o
som de trombetas e gritos de batalha evocando Ares, o deus da guerra. Alexandre
atravessou o rio e subiu as encostas tão rapidamente que os cavaleiros persas não
puderam acertá-lo, mas muitos dos seus companheiros foram alvejados pelas flechas que
vinham de cima
e foram lançados na água. Parmênio veio da esquerda e a infantaria moveu-se para a
frente, entrando no Grânico e segurando suas longas lanças o melhor que podiam. A
estratégia macedônia era flanquear a cavalaria persa pelos dois lados, mas esses planos
logo desmoronaram em um caos sangrento enquanto cavalos e homens de ambos os
lados ficavam presos em um espaço tão apertado que mal podiam se mover. Os primeiros
macedônios a chegar até os persas no outro lado do rio estavam em muito menor número
e foram esmagados. Memnon e seus filhos adultos estavam na vanguarda das linhas
persas, massacrando tantos homens de Alexandre quanto pudessem. Conforme mais
soldados foram escalando os corpos para chegar ao outro lado, eles se envolviam em uma
luta feroz cercados pela cavalaria persa, que os espetava com azagaias. Alexandre viu o

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que estava acontecendo e, em um frenesi, liderou seus homens mais próximos para onde
a batalha estava mais encarniçada. Pouco a pouco, os macedônios ganharam terreno na
margem oposta do rio e a cavalaria de Alexandre usou suas lanças contra as curtas
azagaias dos persas, empurrando-os para trás. Uma feroz luta acontecia ao redor de
Alexandre, pois os persas tentavam acabar com ele e com a guerra em um único golpe. A
lança do rei foi quebrada durante a luta, mas quando ele chamou seu escudeiro pedindo
por outra, foi-lhe dito que a arma do jovem tinha sido partida em duas. Cercado e
desarmado, seu velho companheiro Demarato, de Corinto, veterano nas guerras da
distante Sicília e um homem que anos antes comprara Bucéfalo para o impetuoso príncipe,
adiantou-se rapidamente e lhe deu sua própria arma. Alexandre inspirou-se na coragem de
seu amigo e correu de volta à luta, arremetendo contra um nobre persa chamado
Mitrídates e o espetando na cara. A morte do genro do Grande Rei distraiu Alexandre da
aproximação de outro nobre persa,
Resaces, que cavalgou até ele e o
atingiu na cabeça com a espada
com tanta força que seu elmo se
partiu em dois. O rei ficou tonto
com o golpe, mas conseguiu
derrubar Resaces e espetá-lo em
sua lança. Enquanto ele fazia isso,
o sátrapa Espitrídates o atacou
pelas costas, levantando sua
espada para dar um golpe mortal, quando, repentinamente, Clito, o Negro, lançou-se
contra o nobre persa e cortou fora seu braço na altura do ombro. Alexandre talvez tenha
ficado frustrado pelo número de antigos oficiais de Felipe em suas fileiras, mas, naquele
dia, ele deveu sua vida à coragem e à perícia de Clito. Em todas as batalhas há um ponto
crucial no qual ambos os lados chegam a um consenso não declarado de que um dos
lados será o vitorioso e o outro tem sorte de escapar com suas vidas. Isso ocorreu no
momento que os persas souberam que não podiam mais conter os macedônios e iniciaram
o recuo. O centro de suas tropas então desmoronou e eles começaram a fugir do Grânico
em pavor. Mais de mil cavaleiros persas foram massacrados, entre eles nobres, sátrapas e
parentes do Grande Rei. Mas Alexandre ainda não tinha terminado, e rapidamente cercou
os mercenários gregos que tinham sido colocados na retaguarda da batalha pelos persas,
como uma reserva. Esses homens sabiam que tinha perdido, mas como soldados
profissionais e pela prática aceita na época, eles esperavam pagar um resgate e receber
permissão para partir. Em vez disso, Alexandre ordenou que seus homens os
massacrassem, poupando apenas alguns poucos para que trabalhassem o resto de suas
vidas como

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escravos nas minas da Macedônia. Eles serviriam de lição para outros gregos que
ousassem tomar o lado dos persas contra ele. Alexandre visitou seus feridos e examinou
pessoalmente seus machucados, oferecendo conselhos para os médicos do campo,
baseado em seus estudos com Aristóteles. Para os soldados macedônios que haviam
expirado, ele ordenou enterros com honra no campo de batalha, e garantiu a suas famílias
na Macedônia privilégios especiais. Para os nobres mortos, ele mandou que estátuas
fossem erguidas em Díon, aos pés do Monte Olimpo, por Lísipo, o maior escultor da
época. Ele também foi generoso com os inimigos mortos, permitindo que os mercenários
gregos fossem enterrados para que assim pudessem seguir sua jornada com o barqueiro
Caronte pelo rio da morte. Enviou todas as boas taças, robes púrpura e outros produtos
luxuosos que capturou dos persas para sua mãe. Finalmente, ele mandou trezentos
conjuntos de armaduras persas para Atenas para serem exibidas como troféus na
Acrópole. Ordenou que uma inscrição fosse gravada ao lado delas para que todos os
visitantes pudessem ler:
Alexandre, filho de Felipe e todos os gregos – exceto os espartanos – mandaram esses
espólios dos bárbaros da Ásia.

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