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Sem tempo para amar

Nerida Hilliard
The Time is Short

Melina, por mais que tentasse, não considerava a possibilidade de que o interesse de Bay
Cameron pudesse ultrapassar os limites da simples piedade. Depois que ela sofreu
um acidente, construiu em torno de si uma muralha impenetrável. Para Melína, a
alegria de viver não tinha mais sentido, ela não existia mais para o mundo. Bay se
esforçava para romper aquelas barreiras, mas nada parecia sensibilizá-la. Este
empenho paciente e carinhoso foi se transformando gra dualmente num sentimento
mais pro fundo. Mas por que razão Melina insistia em continuar cega, diante dá
intensidade daquele amor que nascia como um clarão nas trevas?

CAPÍTULO I

A chuva viera mansamente e a garoa, que agora caía, tornava ainda mais fria e triste a
paisagem, que, mesmo com sol, vista da janela, nunca fora bonita.
Neli desviou os olhos daquela desolação, pensando no límpido e azul céu de Juamasa, onde
as cúpulas e brancas paredes da arquitetura portuguesa brilhavam à dourada luz do Sol.
Antigamente, mesmo os lindos edifícios patinados pelo tempo lhe eram indiferentes. Agora,
eram seu lar, e a Inglaterra, onde nascera, lhe parecia estranha.
— Esse imprevisível clima! — pensou alto, e a jovem enfermeira, que
eficientemente trocava sua roupa de cama, olhou-a.
— Evidentemente a senhora não se considera mais inglesa, srta. Broughton! — Jenny
Marsden endireitou o corpo, alisando o imaculado avental e disse:
— Às vezes tenho inveja de sua adorável ilha ensolarada!
Antes que Neli pudesse replicar, outra enfermeira apareceu no vão da porta. Para
qualquer um que conhecesse o St. Christopher, o complicado véu branco, o uniforme azul-
marinho e o alvo avental indicavam uma enfermeira categorizada; mas para Neli Broughton,
foi algo mais — despertara-lhe um súbito interesse, sem aparente explicação. A moça não era
tão bonita quanto a moreninha Jenny Marsden — ou seria? Talvez houvesse alguma coisa além
da mera beleza. Suas feições, pálidas como as de uma convalescente, tinham o encanto de um
pequeno duende.
Neli imaginou-a vestida, não com as austeras roupas profissionais, mas com um rico
vestido de linhas medievais, que lhe davam o estranho encanto de uma feitiçeira.
— Assim que terminar, enfermeira, a irmã quer vê-la no escritório.
Sua voz era suave, mas sem saber por que, Neli sentiu-se preocupada.
— Está bem, enfermeira, está quase pronto - replicou imediatamente Jenny.
A enfermeira de lindos olhos castanhos sorriu para a outra e, incluindo a paciente nesse
sorriso, cumprimentou a ambas com uma ligeira inclinação de cabeça e saiu, tão
silenciosamente quanto havia entrado.
— Quem era ela? — Neli surpreendeu-se fixando a porta como se esperasse vê-la
novamente aparecer.
— Enfermeira Carol — respondeu Jenny apressada, e Neli pensou se seria imaginação ou a
moça assumira uma atitude defensiva.
— Há algo nela .. — disse um tanto confusa com o que sentia e não conseguia traduzir em
palavras — ... como se fosse um sorriso num rosto morto...
— A senhora não soube? — Parou bruscamente consciente de que quase revelara algo de
que a delicada enfermeira não gostaria. — Meu Deus, preciso ir! A irmã não gosta que a façam
esperar!
Quando se viu sozinha no quarto, Neli, de testa franzida, esforçava-se para mexer a
perna ferida sob o lençol. Apanhara pneumonia em sua primeira visita à Inglaterra, depois de
quinze anos de ausência, e ainda por cima quebrara estupidamente a perna rolando de uma
escada por causa de uma tontura, antes mesmo de saber que estava tão doente. Pneumonia e
perna quebrada era ruim demais, mas teve o pressentimento de que o que havia no rosto
daquela enfermeira era ainda pior.
Como numa transmissão de pensamento, a enfermeira Carol entrou no quarto.
— Bom dia, srta. Broughton — disse amavelmente —, fui designada para fazer massagens
em sua perna; espero poder fazê-lo agora.
Neli sorriu.
— Claro que pode — virou a cabeça pensativamente. — Acho que não a tinha visto antes,
quero dizer, antes de você entrar aqui há alguns minutos atrás.
Morgana sacudiu a cabeça negativamente.
— Creio que não, pois estive doente. — Sua voz era inexpressiva demais, e Neli teve a cer-
teza de que aquela aparência calma escondia algo que não queria revelar. — Somente agora
voltei ao trabalho — concluiu, tirando cuidadosamente o lençol tão bem arrumado há pouco
tempo atrás.
Neli observava a cabeça baixa da moça enquanto seus experientes dedos finos iniciavam a
massagem delicada, mas firme, na perna inutilizada. O que ocultaria aquela pálida máscara?
Surpreendeu-se ansiosamente desejando derrubar a barreira do silêncio entre elas, movida
não só pela curiosidade, mas também por uma onda de amizade que a invadia, apesar de tê-la
conhecido praticamente naquele nomento.
— Diga-me, enfermeira, como consegue manter tão firme esse seu véu no lugar?
Morgana sorriu sem interromper seu trabalho.
— Prática e experiência. A princípio eu não sabia como fazê-lo; mas a irmã tornou minha
vida um tal inferno que eu descobri uma maneira de conservá-lo no lugar. É até fácil, mas às
vezes se torna um problema!
Eficiente, amável e impessoal. Não haveria um meio de quebrar o gelo? Neli percebeu que
estava inusitadamente interessada na moça e o fato de não ser somente curiosidade
despertou-lhe um sentimento de vergonha por sua indiscrição.
— Às vezes me pergunto o que pensaria Filipe de vocês enfermeiras — disse
distraidamente.
— Filipe? — Morgana continuava abaixada. Vagamente ouvira o nome, concentrada que
estava em sua tarefa, para não pensar no que soubera no escritório da enfermeira-çhefe. Não
queria pensar, a menos que a realidade a obrigasse a admiti-lo.
- O marquês Filipe Manuel Luís de Alviro Rialta. — Neli declinava o nome todo como quem
recita uma ladainha, esperando sempre que alguma coisa quebrasse o gelo profissional da
outra. E quebrou. Foi uma satisfação ver a jovem enfermeira encara-la atônita.
— Oh! Céus! Que nome! Quem é ele?
— 0 senhor de Juamasa. — Havia um brilho nos olhos azuis Neli. — Filipe não acredita que
as mulheres possam seguir uma carreira e se tornarem independentes.
A enfermeira voltara ao trabalho, mas sorria ironicamente.
— Um desses antiquados que acha que a mulher deve ficar na cozinha e que sua única
alternativa é o casamento...
Com a máscara de tristeza novamente no rosto, Neli sabia que Morgana lutava contra
pensamentos que a aborreciam.
— Espero que poucos homens ainda pensem como ele — disse decidida, ainda que
momentaneamente, a rebater aquela tolice. — Isso geralmente demonstra carência de amparo
e proteção.
— Também acho — concordou Morgana, ainda preocupada outros pensamentos. — Qual a
nacionalidade desse senhor de masa, com seu longo e pomposo nome?
— Português.
Morgana assentiu como se isso explicasse tudo, e voltou a concentrar-se em seu trabalho.
Deveria ser um desses arcaicos senhores feudais que ainda existiam em lugares não muito
desenvolvidos... Por um momento tentou imaginar onde seria Juamasa, mas depois seus com
pensamentos voltaram a enfocar o que não desejava lembrar.
— Você não parece muito interessada — observou Neli com certo enfado na voz. —
Estranho, pois a maioria das garotas se interessa por ele.
Morgana conseguiu sorrir, embora displicentemente. Outrora poderia se interessar em
ouvir falar de um nobre português que era aparentemente senhor de uma ilha, provavelmente
situada nos trópicos, com o nome de Juamasa, mas, no momento, não tinha a menor
curiosidade. Phillip, fora o único homem que sempre ocupara sua mente e, a despeito da
semelhança dos nomes, Phillip e esse Filipe sobre quem a srta. Broughton insistia em falar
nada tinham em comum.
— Continue falando dele se quiser — acrescentou sorrindo. — Isso ajudará a distrair sua
atenção da dor da massagem.
— E de alguma coisa que você tem em mente — Neli continuou quase que para si mesma. —
A família dele chegou à ilha no começo do século dezessete — disse em voz alta. —
Trouxeram com eles muitos dependentes e, conseqüentemente, fundaram a cidade de
Lorenzito e construíram o palácio.
Morgana finalmente levantou os olhos. Um nobre português que morava num palácio estava
intrigando-a a despeito de suas preocupações.
— Continue — pediu com um ligeiro sorriso. — A senhora tem razão, estou ficando
interessada.
A srta. Broughton escondeu sua satisfação.
— O palácio é um lindo edifício — falava, se esforçando por não parecer muito com um
livro-guia — embora seu aspecto seja um tanto aterrador. Acho que Felipe se adaptou a ele
perfeitamente.
— Ele também é aterrador? — perguntou Morgana.
— Acho que sim — admitiu Neli. — Ele não só possui a maior parte da ilha, como também
quintas em Portugal e noutras partes do mundo.
Morgana sorriu divertida. A história estava tomando aparência de um conto de fadas.
Nessa história o marquês devia ser moço e atraente. Mas podia jurar que na realidade ele era
de meia-idade, feio, gordo, com uma enorme barriga e calvo. Também, sendo tão
fabulosamente rico, deveria ser caçado por tudo quanto era mãe, ansiosa por fazer á filha
agarrá-lo, apesar da aparência física. Certamente devia ser intolerantemente convencido e
vaidoso. Poderia ser casado com uma mulher humilde que o obedecia a cada gesto ou palavra.
Resumindo, devia ser, em qualquer ocasião, uma criatura odiosa.
Com essa última conclusão, não pôde deixar de sorrir divertida, imaginando por que teria
feito dele essa imagem. Tendo terminado de massagear Neli, saiu para o corredor,
esquecendo tudo na mesma hora.
Os pacientes, não se sabe como, já estavam a par das novidades. Ninguém podia dizer
como corriam as notícias, mas era pior do que tambores das selvas — inevitável. Percebia que
a observavam, enquanto caminhava pelos longos corredores, desempenhando suas tarefas.
Podia sentir os olhos postos nela, que, embora refletissem pena e simpatia, não eram bem-
vindos, mesmo quando demonstravam compreensão advinda de seus próprios sofrimentos.
— Enfermeira!
Ao ouvir a voz da mulher que a chamava, hesitou um pouco, mas depois se virou com um
amável sorriso profissional a lhe iluminar o rosto, que no momento em nada se parecia com o
ar de duende que lhe tinha sido atribuído ainda há pouco.
— Como está se sentindo, sra. Robinson? — perguntou. — Posso ajudá-la?
— Estou bem - respondeu a sra. Robinson, mas com jeito de quem está preocupada com
outra coisa que não consigo mesma. Morgana sabia o que era, e se lhe fosse possível
cortesmente cortar a conversa e continuar seu caminho, certamente o teria feito. A mórbida
curiosidade da sra. Robinson era mais do que ela poderia suportar, esta manhã. Contudo, ela
não podia ser ignorada. Fixou a jovem enfermeira com olhos que queriam enxergar através da
alva fronte.
— É verdade... ? — começou, mas seus nervos a traíram.
— Quer saber se é verdade que vou morrer dentro de três meses? — perguntou Morgana
formalmente. — Sim, é verdade. Tenho uma área de pressão em meu cérebro que não pode ser
removida.
Sorriu polidamente e continuou seu caminho interrompido, indo pelo extenso corredor em
direção à pequena enfermaria.
Apesar da pregueada cortina que colocara na janela do cubículo que dividia com Jenny, na
tentativa de torná-lo mais aconchegante, Morgana não conseguia se desligar da tristeza da
garoa cinzenta que continuava a cair lá fora.
Por quanto tempo ainda seria capaz de continuar trabalhando naquele ambiente de
curiosidade e simpatia? Não eram todos como a sra. Robinson. A maioria dos pacientes
demonstrava uma simpatia silenciosa e não tinha curiosidade mórbida; mas ela não queria
sentir que eles a seguiam com os olhos, pensando: "Aquela é a moça que tem três meses de
vida". Não queria piedade. Morgana descobriu que detestava pacientes como a sra. Robinson.
Fazíam-na sentir-se como se fosse um fenómeno, alguém que seria expulsa do mundo, alguém
a ser examinada e comentada em segredo. Era verdade que ela possuía aquela mortal pressão
no cérebro, e o horrível momento em que lhe fora comunicado o fato ainda estava muito vivo
em sua memória.
— Não há esperança alguma?
— Gostaria de dizer que sim, enfermeira, mas... — a voz do médico era sombria,
esforçando-se para ser impessoal, mas mesmo assim humana — é cruel lhe dizer isso, mas
seria pior esconder de você a realidade. Assim você poderá decidir o que quer fazer enquan -
to... houver tempo.
Ele virara-lhe as costas, olhando pela janela, e Morgana se viu a prestar desusada atenção
a uma prega nas costas de seu imaculado paletó. Então ele virara-se novamente para ela.
— A espécie de operação que seria necessária... que eu saiba, foi realizada uma só vez.
Ninguém acreditava em seu sucesso.
— Mas deu certo?
— Sim e não. A operação em si foi bem-sucedida, mas a moça morreu em poucas horas.
Falta de estamina, talvez, mas o cirurgião culpou a si mesmo. A moça era sua irmã e ele
desapareceu.. — alguns acreditam que ele suicidou-se. — Fizera um gesto de desalento que
traduzia toda a amargura e frustração de quem se sentia incapaz de ajudar. — Ele seria o
único que poderia ajudá-la... mas ninguém sabe onde está. Pode inclusive estar morto como
pensa a maioria.
— Compreendo. Então não há mais nada a fazer, não é? — Surpreendeu-se com a calma e a
resignação de sua voz.
Ficar histérica não representaria uma saída para a dura realidade dos fatos. Estava
calma, como quando recebera a carta de Phillip. Até rira e podia se lembrar palavra por
palavra do que estava escrito.
— É engraçado — dissera pensativamente —, pensei, quando perdi Phillip, que podia
morrer, mas reagi e achei que a vida devia continuar. Agora sei que não pode. Perdi Phillip e,
em três meses, perderei também a vida...
— Esse Phillip — perguntara o médico —, quer que ele seja avisado?
— Não, não quero — respondera. — Nada mais tenho a ver com ele. Fui sua noiva, mas
rompemos o noivado.
Esses pensamentos levaram-na de volta ao dia em que recebera a carta fatal. Parecia
inacreditável como tudo acontecera. Simplesmente levara um fora. Era isso o que dizia a carta
extensa e bem escrita. Não era a primeira e nem seria a última garota a passar por isso, mas,
como sempre tivera impressão de que isso só acontecia em novelas ou com pessoas distantes,
não admitia ainda que tivesse acontecido com ela.
Jenny levantou os olhos da carta que estava escrevendo e, vendo-a morder os lábios,
perguntou ansiosa:
— Você está bem, Morgana? Quero dizer... — parou e ficou esperando que ela falasse, a
despeito da grande amizade que as unia desde que haviam começado a trabalhar no St.
Christopher.
Morgana virou-se para ela sorrindo tranquilizadoramente.
— Muito bem — assegurou à amiga. — Durante algum tempo ainda não sentirei dores, como
você sabe. - As dores viriam quando o fim estivesse próximo. Acidentalmente, ao se virar, viu-
se refletida no espelho, e nada havia que denunciasse a existência da horrível crueldade que
lhe estava para acontecer. Não queria morrer. Primeiro Phillip e agora isto. Amor e vida...
Voltou a pensar no pequeno pacote com seu anel de noivado e na carta que enviara devolta a
Phillip pelo correio. Não havia nenhuma outra maneira de dizer-lhe que entendia e que o
liberava do compromisso. 0 funcionário do correio tinha sido tão prosaico e indiferente que,
por um instante, sentiu-se tentada a lhe dizer que naquele pacotinho estaria despachando
também todos os seus sonhos e esperanças. Deixara o correio entorpecida e atordoada,
completamente cega ao que a cercava, e não fora cuidadosa como de costume. Percebeu, como
se estivesse muito distante, o ruído de uma freada e, então, alguma coisa bateu nela com
violência. A angustiante sensação da perda cessou quase que instantaneamente e ela
mergulhou numa confortadora escuridão, onde nada mais importava. Todos os pensamentos
cessaram e. consequentemente, nada mais a magoava. Foram dias de semi-inconsciência e de
dor quando alguma coisa espetava seu braço. Finalmente, voltou a si.
Emergindo da escura névoa do esquecimento, voltara aos familiares limites do hospital nos
dias que se seguiram ao acidente, para, retornando à vida, enfrentar a realidade. Não podia
ser covarde e se recusava a ter pena de si mesma cada vez que pensava em Phillip. Não seria
próprio de Morgana Carol. Resolutamente voltou ao trabalho, ainda que por pouco tempo. Um
dia a escura névoa a envolveria para sempre... Pelo menos agora a dor de perder Phillip não
duraria para sempre. Quase riu quando lembrou-se de ter dito um dia que o amaria para
sempre enquanto vivesse... Era muito fácil manter essa promessa.
A srta. Broughton interrogou Morgana com seu habitual mau humor, quando esta entrou
em seu quarto.
— A enfermeira-chefe falou-lhe a respeito de minha proposta, enfermeira?
Morgana assentiu.
— Sim. — A simples palavra lhe pareceu insuficiente e então acrescentou: — Por que quer
me levar de volta a Juamasa com a senhora?
— Por muitas razões, minha filha. — Dirigia-se a ela de um modo formal, e sua voz era
levemente estranha. — A primeira é que eu quero mudar de clima. Cresci e fui criada nos
trópicos. Quero voltar a Juamasa o mais rápida possível. Os médicos me disseram que minha
perna ainda precisa de algum tratamento, e esta é a segunda razão, tenho que levar uma
enfermeira comigo. A terceira razão é que gosto de você. Você, por sua vez, precisa sair
daqui, e eu gostaria que fosse comigo.
— E lá ninguém saberá do que está para acontecer — disse Morgana como se pensasse
alto.
— Não vejo necessidade de alguém ficar sabendo. Você não deseja despertar piedade,
não é? Você não seria capaz de aguentar ficar aqui por muito tempo apesar de gostar de seu
trabalho.
— Tem razão, não aguentaria muito tempo — admitiu Morgana, algo surpresa, pois era a
primeira vez que enfocava a questão por esse ângulo. — Mas é tão pouco o que terei que fazer
pela senhora se eu for para Juamasa...
— Será o suficiente. Tenho que contratar uma enfermeira, quer eu goste ou não. Você
gostaria de ir comigo?
Por uns instantes Morgana ficou silenciosa. Pensou nos três meses que teria que passar
entre gente conhecida, se ficasse. A menos que aceitasse a oferta, teria que enfrentar
diariamente olhares curiosos de pessoas que a vigiariam constantemente. Não queria
desperdiçar o tempo que lhe restava. O destino lhe privara de tudo, mas agora lhe
proporcionava a possibilidade de conhecer uma ilha de romântica beleza.
Juamasa.
Sua decisão estava tomada e ela sorriu para a srta. Broughton.
— Se realmente deseja que eu vá, ficarei feliz em ecompanhá-la.

CAPÍTULO 2

Ao longe, a ilha de Juamasa flutuava num mar incrivelmente azul, como Morgana jamais
imaginara que pudesse existir. O Sol fazia cintilar a água e reforçava o contorno verde escuro
da ilha. Sua superfície era irregular e, quando o avião baixou um pouco mais, as belas e altivas
palmeiras podiam ser divisadas,
A srta. Broughton apontou ao longe um edifício branco.
— Lá é o palácio — disse, confirmando a suposição de Morgana. — Bonito, mesmo visto do
ar, não?
Morgana concordou.
— É sim; e um tanto aterrador... — um leve sorriso iluminou sua face. — Lá, naquela
magnificência toda, vive o senhor da ilha... — disse com uma solenidade qué contrariava sua
expressão.
Quando todos os passageiros desceram, a srta. Broughton, movendo-se penosamente com
sua bengala e meio amparada por Morgana, conseguiu chegar até um reluzente carro preto
parado junto ao avião, seguramente desafiando o regulamento do aeroporto.
Morgana ergueu as sobrancelhas e olhou interrogativamente para Neli, quando viu um
brasão prateado adornando o radiador do carro.
— Do todo-poderoso marquês? — perguntou e, diante da confirmação de Neli, continuou:
— Parece infringir às regras do aeroporto impunemente.
— Ele é dono das terras e do aeroporto — respondeu Neli, enquanto um jovem português
uniformizado lhes abria a porta do carro. Deixou-se cair no luxuoso estofamento do banco
com um suspiro de alívio, certa de que o curto percurso do avião até o carro a deixara
cansada e com a perna dolorida.
Morgana olhou ao redor quando o carro se pôs em movimento e sentiu uma estranha
antipatia pelo desconhecido marquês, apesar de ele ter posto o carro à disposição delas. Não
era direito que uma só pessoa tivesse nas mãos tanto poder. As observações de Neli a
respeito dele, em diversas ocasiões, lhe deram a impressão de alguém muito autocrata,
contudo interessado em ser querido pelos ilhéus. 0 benevolente senhor escondia uma mão de
ferro sob a luva de veludo de sua generosidade. Foi o que concluiu, logo se esquecen do dele,
interessada que estava no que via a seu redor.
A cidade era alegre e tinha um ar festivo, embora ainda não estivesse no tempo da
"festa". Era muito cedo e rodavam agora por uma poeirenta estrada de terra, ladeada de
enormes árvores, onde ocasionalmente se viam coloridos passarinhos voando. Saíram daquela
estrada para percorrer outra não muito diferente dela. Depois esta também se bifurcava, e o
motorista tomou à esquerda. Nesta apontou a da direita explicando:
— Aquela leva ao palácio.
Ao palácio e ao famoso Filipe, pensou Morgana, ligeiramente irritada por ter seus próprios
pensamentos interrompidos para, seguindo a maioria das pessoas, se ocupar com o senhor de
Juamasa.
As árvores ao lado da estrada rareavam, e uma casinha branca apareceu, cercada por
limpos e bem cuidados jardins. Uma mulher de pé no vão da porta esperava que elas se
aproximassem. Quando o carro parou, depois de passar pelos portões de ferro, sustentados
por pilares de concreto encimados pelas inevitáveis cúpulas, um senhor de meia-idade
apareceu junto da mulher, trocaram algumas palavras e se aproximaram do carro. Enquanto
Neli era carinhosamente ajudada a descer, a mulher falava excitadamente em português. Neli
respondia-lhe na mesma língua, reafirmando que estava bem, mas o casal continuava a falar
ansiosamente.
— Acho melhor ir diretamente para a cama — determinou Morgana, depois de um rápido
olhar para Neli.
Com Neli servindo de intérprete, Morgana fez com que o jovem motorista finalmente
compreendesse que deveriam transportar Neli fazendo uma cadeirinha com os braços
cruzados e, assim, a carregaram para dentro de casa. A facilidade com que Neli desistiu de
protestar contra a ideia e a maneira como dava a tradução das instruções mostravam
claramente que a viagem tinha sido mais cansativa do que imaginara.
Quando o jovem motorista se foi, ajudou-a a se despir e, vendo-a já deitada na cama,
disse com firmeza:
— A senhora vai descansar agora por um bom tempo, sem que ninguém a aborreça!
Como desmentindo suas palavras, alguém bateu à porta, e Neli perguntou quem era. Uma
voz de mulher respondeu do lado de fora.
— É Teresa — disse Neli quando a porta se abriu: — Ela cuida de mim, e seu marido Júlio
ajuda no jardim e faz pequenos serviços. Teresa fala um pouco de inglês, e assim vocês
poderão se entender. - Sorriu para Teresa e disse qualquer coisa em português.
Teresa amavelmente dirigiu-se a Morgana num inglês carregado de sotaque.
— Você vai fazer o pé da senhorita ficar curado. Isso é bom. Vou preparar algo para
comer. — Virou-se para a porta seguida do marido, que silenciosamente depositara as malas no
chão do quarto.
Morgana sorriu enquanto observava a cena, e comentou:
— Formam um casal simpático.
Neli concordou.
— Acho que você vai gostar dos portugueses. Arranjarei para que você conheça alguns de
sua idade. - Não acrescentou o resto que tinha em mente, pois resolvera que esses últimos
meses deveriam ser tão felizes quanto possível.
— Por enquanto, a senhorita vai descansar sem pensar em mais nada, disse com firmeza.
Morgana estava em dúvida se dava primeiro um passeio pelos jardins explorando a vila ou
se desarrumava as malas de Neli, quando ouviu passos firmes que se aproximavam. Assim que
se virou, uma figura alta momentaneamente bloqueou a luz que vinha da porta, uma voz de
homem disse qualquer coisa em português.
— Desculpe, não falo português.
Não conseguia ver claramente o recém-chegado, mas teve a impressão de que era muito
alto e que se comportava com segurança. Parado no vão da porta, a luz que vinha de fora só a
deixava ver uma silhueta.
— A senhorita é nova na ilha? — Seu inglês era rápido e com ligeiro sotaque, a voz era
amável e cortês, mas sem saber por que, a irritava.
— Chegamos hoje pela manhã.
Moveu-se silenciosamente, sentindo-se em desvantagem por saber que ele podia vê-la
perfeitamente e ela não, enquanto estivesse parado na porta. Agora podia vê-lo plenamente e
sentiu um choque ao verificar que estava diante do mais extraordinário e encantador homem
que jamais vira, apesar de suas feições duras e definidas lhe emprestarem um ar meio
sinistro.
— O senhor procura pela srta. Broughton? — perguntou, cônscia de uma ponta de
antipatia, embora o motivo fosse desconhecido.
Talvez ele percebesse seu antagonismo, pois seus brilhantes olhos negros se estreitaram.
— Peço desculpas, senhorita. Compreendo que a hora é inconveniente.
Morgana sentiu-se um pouco envergonhada. Sua pergunta tinha sido desnecessariamente
áspera. Mas isso não explicava nem desculpava aquele fácil e quase inconsciente ar de
comando dele.
— Temo que seja um pouco inconveniente o senhor ver a srta. Broughton no momento,
pois a viagem foi muito cansativa e eu lhe dei um sedativo. Está dormindo agora.
Viu nos brilhantes olhos negros, que se dirigiam para ela, uma ponta de zombaria enquanto
examinavam cada detalhe de seu simples e prático uniforme de trabalho, bem como seu véu
branco que lhe emoldurava o rosto e escondia seu encaracolado cabelo castanho.
— Presumo que a srta. Broughton a tenha contratado.
— Sim, senhor.
Olhava-o com a máscara sorridente e impessoal que aprendera a usar no St. Christopher
quando se dirigia a parentes de alguns pacientes. Mas para seu desgosto não podia deixar de
admirar aquelas feições másculas, de nariz aristocrático e lábios determinados, queixo firme
denunciava uma obstinação britânica, mas as sobrancelhas escuras sobre os brilhantes olhos
negros e o vasto cabelo levemente ondulado e penteado para trás da testa bronzeada eram de
origem portuguesa.
— A senhorita é inglesa. Naturalmente — concluiu sem-lhe dar tempo de responder. —
Foi na Inglaterra que ocorreu o acidente?
— Sim, foi — respondeu Morgana, conjeturando se devia ou não perguntar quem era ele.
Alguma coisa a inibia. Talvez o ar de superioridade dele. Estava muito seguro de si e ela não
gostava disso.
— Aqui em Juamasa não soubemos detalhes do acidente — disse ele do mesmo modo
distante, em seu sotaque estrangeiro, que fazia o inglês parecer estranho.
Morgana lhe forneceu os detalhes e, embora inconscientementeJ continuou a reparar nos
dedos finos e bonitos que seguravam uma; linda e cara cigarreira.
— Ela foi bem cuidada?
— Foi, e o tratamento ainda se faz necessário por algum tempo.
— Isso é compreensível. — Abriu a cigarreira e lhe ofereceu um cigarro, porém, Morgana
recusou.
— Obrigada, não fumo quando estou de uniforme.
Os penetrantes olhos negros fixaram-na francamente divertidos.
— Leva tão a sério sua carreira?
Morgana olhou-o admirada.
— Naturalmente! Enfermagem não é uma profissão que se possa encarar levianamente. Se
alguma aluna assim pensasse não ficaria por muito tempo no St. Christopher - ou em qualquer
outro hospital, pensou Morgana.
— E quando a srta. Broughton ficar curada? 0 que fará então?! Sentiu a raiva crescer
dentro dela. Que direito tinha aquele desçonhecido de questioná-la daquele jeito?
— Quando ela ficar boa, voltarei para o St. Christopher — replicou, desistindo de
debater a questão.
— Talvez — disse aparentemente desinteressado — possa mudar de ideia e ficar em
Juamasa.
— Isso é impossível.
— Nada é impossível em Juamasa, senhorita! Talvez seja persuadida a ficar.
— Como?
— Vou deixar esta pergunta sem resposta. Mais tarde talvez possa respondê-la por si
mesma.
Morgana cerrou os dentes. Parecia que ele não duvidava de que ela ficasse, e a maneira
prepotente como dera a entender a desgostava. Afinal, o que pensava ele? Que ela não era
dona de si mesma?
Um pensamento sombrio veio-lhe à mente. Na verdade não ficaria, mas nada tinha a ver
com aquele homem. Nem ele nem ninguém podia alterar seu destino.
Rapidamente afastou esses pensamentos e encarou o indesejável visitante com frieza.
— Deseja voltar a seus afazeres, senhorita? — Novamente aquele tom de voz distante
que a punha em desvantagem, e também vislumbrou um olhar de pouco caso para o seu
impecável uniforme. — Naturalmente reluta em continuar a conversar com alguém que não lhe
foi formalmente apresentado. Todavia, isso pode ser remediado numa outra ocasião. Voltarei
amanhã — e acrescentou com ironia: — Com sua permissão, certamente.
— Sei que a srta. Broughton ficará feliz em vê-lo — disse ela com o mesmo sorriso
profissional e perguntou: — Quem devo dizer-lhe que a procurou?
— Filipe de Alviro Rialta. — Se ele notou sua involuntária surpresa, não demonstrou. —
Peço desculpas pela inconveniência de minha visita. Adeus senhorita. — E, com uma ligeira
inclinação de cabeça, retirou-se.
Subiu as escadas decidida a desarrumar as malas, e todo o tempo em que se manteve
ocupada nesse trabalho esforçou-se por afastá-lo de seu pensamento, mas frequentemente
se surpreendia a lembrá-lo.
Quando terminou, foi até o quarto de Neli e, embora não fizesse nenhum ruído, ela abriu
os olhos. Pretendeu retirar-se, pois podia ser que ela quisesse voltar a dormir ou
simplesmente ficar quieta, mas Neli chamou-a.
— Não vá embora, Morgana.
A moça aproximou-se do leito, sorrindo.
— Como está se sentindo agora?
— Muito melhor. Algum acontecimento enquanto eu dormia?
— Que espécie de acontecimento?
— Bem, você e Teresa conseguiram se entender?
— Não, mas o grande senhor da ilha esteve aqui.
— Filipe esteve aqui? — Um esboço de sorriso entreabriu os lábios de Neli, que estava
claramente desapontada por perder esse primeiro encontro. Com um simples olhar ao rosto de
Morgana, percebeu que ela não ficara favoravelmente impressionada.
— O que achou dele? — perguntou, observando divertida com a expressão da moça se
fechava.
— Do marquês? — A voz dela era reservada. — Achei-o quase bonito — disse numa
polidez tão convencional, que seus verdadeiros sentimentos se tornaram evidentes.
Os olhos de Neli brilharam.
— Quero uma resposta direta e não uma resposta polida.
— Está bem! — Morgana se contivera somente por sabê-la amiga dele, mas, agora, daria
expansão ao que sentia com verdadeira satisfacão. — Não gostei dele! Achei-o prepotente,
arrogante e convencido. Certamente é um déspota, e mesmo que a senhora não admita, todos
nesta ilha fazem exatamente o que ele quer.
Neli ria.
— Ora vamos, Morgana; ele não pode ser assim tão mau!
Morgana acrescentou displicentemente:
— A senhora me pediu que fosse sincera...
— Vocês dois devem ter tido uma conversa muito interessante! — O brilho de seus olhos
se intensificou.
— Não foi muito comprida, mas...
Neli sacudiu a cabeça pensativamente:
— Sinto muito que você não tenha gostado dele. Realmente é um pouco autocrata, mas é
uma pessoa encantadora quando se conhece melhor.
Morgana, incapaz de replicar, era de opinião que mesmo um melhor conhecimento não
adiantaria nada. Não pretendia nem experimentar gostar dele e não tinha a ilusão de que isso
o incomodasse. Ele estava muito distante e parecia cônscio de sua posição superior,
— Você não quer conhecê-lo melhor? — sugeriu Neli, interpretando corretamente a
expressão do rosto da moça.
— Não em particular — admitiu francamente — e também não vejo razão para que me
queira conhecer; portanto, isso resolve o problema. Ele é um tanto altivo e, pelo que a senhora
me contou, imagino que a aristocracia portuguesa é muito cônscia de sua posição.
— Talvez, mas Filipe se interessa por cada pessoa da ilha.
Ele era, isso sim, pensou Morgana, com certa aspereza, o todo poderoso senhor feudal que
tinha que saber de tudo e tudo dominar.
Neli sacudiu a cabeça rindo.
— Bem, pelo menos você admite que ele é atraente e nem um pouco gordo. .. — Havia de
novo um laivo de ironia em sua voz.
— Oh! Ele é realmente atraente. — Morgana concedeu esse ponto de vantagem com
alguma relutância. Ele podia ser saudável e até encantador, mas não gostava dele e não via
motivo para mudar de ideia. Ainda por cima existia Phillip; mesmo que nunca viesse a lhe
pertencer.
Neli percebeu a sombra que se espalhara em seu rosto e ficou séria, perguntando ansiosa:
— O que foi?
Morgana olhou-a tristemente, mas logo reassumiu o controle, sorrindo polidamente
enquanto respondia:
— Nada. — Sua voz era fria e inexpressiva. — Somente um mau pensamento, como se
alguém caminhasse sobre meu túmulo.
— Com outra moça; poderia jurar que foi um homem o causador dessa súbita tristeza.
Neli sabia que tinha acertado quando viu um nervo tremendo in-controlavelmente no canto
dos lábios de Morgana. Há apenas um minuto atrás ela estava alegre, embora falando de seu
desprazer de conhecer Filipe, e de repente alguma coisa se abatera sobre ela.
— Creio que ajudaria você a tirá-lo de sua mente se me contasse tudo — disse numa voz
calma e séria, cuidando para que não transparecesse nenhum sinal de piedade, pois Morgana
se sentiria acanhada se percebesse qualquer coisa nesse sentido. — Já sei muita coisa a seu
respeito...
Morgana hesitou, mas pensou que seria um alívio ter alguém que soubesse do acidente e
que não a ficasse olhando piedosamente.
Neli sorriu persuasivamente.
— E então? — perguntou. — Não quer me contar tudo?
— Há muito pouco a contar. — Ainda, por um momento, quedou pensativa, mas logo se
decidiu. — Eu estava noiva e levei um fora. — Tratou de dar um tom inexpressivo à voz, mas
os ouvidos da outra estavam por demais atentos, e sua experiência de vida não se deixava
iludir facilmente. — Isso é tudo — concluiu pensativa. — Sei que acontece a muitas outras
moças...
— O rapaz devia ser louco — disse Neli asperamente. Morgana sorriu débilmente.
— Obrigada por me ajudar a recuperar meu orgulho ferido.
— Ainda dói muito, não?
— Muito mais do que eu gostaria — continuou, balançando a cabeça. — Eu o amava quando
era criança, e quando cresci meu amor cresceu também.
— Como era ele? Que espécie de homem era que, tendo o amor de uma moça como você,
não soube aproveitar a sorte?
Morgana descreveu-o, inconsciente de seu olhar sonhador.
— Era alto, bem apessoado, olhos azuis, que sempre pareciam sorrir. Chamava-se Phillip
Layland.
0 olhar surpreso de Neli foi logo substituído por uma expressão de desgosto. Morgana, a
princípio, nada percebeu, pois estava sonhando com tempos idos.
— Ele parecia estar sempre sorrindo — continuou suavemente.
— Não me dê oportunidade de elogiá-lo! Um sorriso vazio e sem significado! — retorquiu
Neli. — E você era noiva de Phillip Layland!
Morgana olhou para Neli, mas ainda sem compreender totalmente a expressão de seu
rosto, e somente admirada pelo fato de ela conhecer Phillip.
— A senhora o conhece?
— Conheço — confirmou. Seus lábios contraídos e sua expressão de franca desaprovação
não permitiram que Morgana ignorasse, mais tempo, que algo a estava contrariando. — Eu o
considero um menino mimado e irresponsável. Você teve sorte em se livrar dele.
— Ele não é assim, srta. Broughton — disse, sacudindo a cabeça
— Eu o conheço há anos.
— Então deve ter mudado muito desde que o conheci, minha querida. — Parou por um
momento, visivelmente indecisa. Sabia que o que tinha a falar deveria ser dito, ainda que com
certa relutância e que talvez um choque revelador fosse a melhor maneira. — Philli Layland —
começou resolvida — é o homem mais convencido que já conheci em toda a minha vida, e
certamente o homem mais convencido de Juamasa no momento.
— De Juamasa?
Morgana repetiu as palavras dela olhando-a estarrecida e inconscientemente, desejando
ler no rosto de Neli que não era verdade.
— Phillip... aqui em Juamasa? — Com o choque, sua mente estava nublada e seus nervos
tremendo, protestando contra a irrefutável verdade. — Não pode ser... — concluiu
desalentada.
— Temo que sim. Achei melhor você ficar prevenida caso o encontre por aí.
Morgana mordeu o lábio e seus olhos revelavam atordoamento e infelicidade ao mesmo
tempo. Viera para Juamasa, onde nada a faria lembra dele e, inesperadamente, lá estava ele,
em algum lugar, pronto para minar sua paz de espírito conquistada a tão duras pe nas! Como o
destino estava sendo cruel com elal
— O que faz ele aqui?
— Filipe o trouxe para a execução de um trabalho de engenharia.
Novamente Filipe! Com ilógica amargura culpou-o pelos possíveis dissabores pelos quais
teria que passar e marcou mais um ponto contra ele.
Então aconteceu uma coisa estranha. Repentinamente, pareceu-lhe rever o olhar caçoísta
de Filipe de Alviro Rialta zombando de seu amor, satiricamente divertido, escudado em seu
afastamento, e isso teve o efeito de fazê-la reagir e, lembrando-se de sua imagem com
desgosto e desconfiança, as feições dele se transformaram nas do homem que amaria para
sempre.
Então lembrou-se: sempre não era muito tempo .

Capítulo 3

Morgana olhava seu quarto, apreciando-o. Pela primeira vez desde da sua chegada,
reparava no que a cercava. A véspera tinha sido um dia muito cansativo, sem contar o choque
desagradável de saber que Phillip estava tão perto.
As paredes eram de um verde pálido e o assoalho de escuras tábuas polidas, coberto por
um tapete verde-escuro junto à cama. Outro tapete também verde-escuro cobria todo o
comprimento do quarto. Havia também uma penteadeira e um guarda-roupa da mesma madeira
escura do assoalho e, a um canto, uma pequena escrivaninha com uma cadeira. Junto à janela
guarnecida com lindas cortinas, uma poltrona confortável, de onde se chegava a um balcão.
Então pensou em Phillip e todo o encanto de seu quarto desapareceu.
Como dissera a srta. Broughton, era inevitável que eles se encontrassem, e sentia-se feliz
por poder estar prevenida e assim poder se esconder dele o quanto significava para ela.
Tentou adivinhar como; seria esse primeiro encontro.
Ficaria surpreso ao vê-la? Possivelmente, mas não quis se aprofundar no assunto. Seus
pensamentos continuavam a levá-la a pon-; derar sobre o que não queria. Estaria a outra moça
na ilha? Aquela que fora a causa de Phillip lhe ter escrito a carta? Talvez fosse uma
portuguesinha de olhos negros. Ele lhe escrevera da Inglaterra, mas poderia tê-la conhecido
fora de Juamasa e agora era provável que estivesse ali com ele.
Por alguma razão, como acontecera na noite anterior, pensou em Filipe de Alviro Rialta e,
fazendo uma careta, lamentou o fato. Era surpreendente como a antipatia podia
frequentemente trazer alguém à lembrança... tanto quanto o amor... Descobriu que pensava
nele sem razão aparente, exceto a possibilidade disto se dever à sua arrogância e segurança.
Decidida a pôr um fim em seus pensamentos maliciosos e um tanto maldosos, olhou pela
janela e viu o conhecido carro preto se aproximando.
Neli estava no jardim, deitada num confortável sofá, apoiada em almofadas, e Morgana
viu-a virar a cabeça saudando o recém-chegada com um sorriso de boas-vindas, enquanto
aproveitava o esplêndido sol da manha. Mesmo contra sua vontade, surpreendeu-se admirando
a arrogância daquela figura magra, alta e imponente. Novamente usava um impecável terno
branco, que ressaltava sua pele bronzeada e seu negro cabelo.
Morgana afastou-se da janela para, no caso de um deles olhar para cima, não surpreendê-
la observando-os, esperando também não ser chamada para se juntar a eles, o que a
desgostaria bastante. Além do mais, estava ali como enfermeira e não como hóspede, não
tendo portanto a obrigação de ajudar Neli a entreter seu amigo.
Uma leve batida na porta e logo depois Teresa entrou. Sua excitação era tão óbvia quanto
o que a motivava, e Morgana sentiu-se aborrecida.
Aparentemente o destino decidira que ela devia encontrar novamente aquele homem de
quem não gostava e pusera na cabeça de Neli a ideia de mandar chamá-la.
Estava quase seguindo Teresa quando parou na porta ao lhe vir uma ideia que fez seus
olhos brilharem.
— Diga à srta. Broughton que irei imediatamente.
Quando a porta se fechou atrás da moça, rapidamente dirigiu-se para o guarda-roupa de
onde tirou um uniforme limpo. O vestido verde pálido que estava usando era muito bonito e
lhe assentava bem, mas tirou-o e vestiu o uniforme. Filipe não gostava de mulheres
uniformizadas, soprara-lhe uma voz no subconsciente...
Quando finalmente desceu as escadas, alguns minutos depois de Teresa, sua aparência era
fria e um tanto austera devido ao sóbrio uniforme branco e às duras linhas engomadas de seu
véu.
0 marquês levantou-se à sua aproximação, e sabia que não se tratava de imaginação sua o
ligeiro e irónico sorriso, bem como o brilho divertido de seus olhos negros quando Neli os
apresentou formalmente. Também percebera o olhar crítico para seu uniforme e alegrou-se
por ter se lembrado de vesti-lo.
— Filipe teve a delicadeza de me emprestar uns livros de sua biblioteca. Se não se
importa, gostaria que fosse com ele e os trouxesse para mim.
— Naturalmente que não me importo — disse educadamen mas não havia nada que
desejasse menos.
— Poderá haver lá algum que lhe interesse também — acrescentou Filipe amavelmente — e
se quiser voltar ao palácio comigo, apanhará os da senhorita e poderá fazer sua escolha.
— Muito obrigada — respondeu no mesmo tom dele, mas sem menor intenção de aceitar.
Desde que não tinha outra escolha, apanharia os livros de Neli, mas por nada deste mundo
aceitaria algi para si mesma. Tampouco encarava com satisfação a perspectiva ficar sozinha
com ele, ainda que por pouco tempo, e pretendia voltar o mais rápido possível.
Virando-se para a srta. Broughton e esperando que esta lhe dess uma chance de escapar,
perguntou:
— Deseja que eu peça a Teresa para trazer chocolate? - Antes de responder a srta.
Broughton indagou de Filipe:
— Quer tomar chocolate conosco, Filipe?
Ele aceitou sorrindo, dizendo alguma coisa em português. Morgana desejava ardentemente
que ele estivesse com pressa, pois assim poderia ir apanhar os livros e voltar logo.
Pretendia sair dali para chamar Teresa, quando reparou num sininho em cima da mesa. Não
havia desculpa para deixá-lo e, pegando-o, tocou-o suavemente, na esperança de que Teresa
não ouvisse mas sabendo de antemão que era quase impossível. Ela devia estar ali por perto,
atenta para o caso de ser chamada e ansiosa para servir tão ilustre visitante.
— Não entende nada de português, srta. Carol? — perguntou Filipe, enquanto ela repunha
o sininho no lugar.
— Nada, nada, senhor. — Havia uma certa satisfação ao afirmar isso.
— É uma pena. Poderia lhe ser útil. Temos que dar um jeito de remediar isso.
Nesse momento Morgana teve que controlar-se para não responder mal, vendo que
realmente ele se metia em tudo, achando que todos lhe deviam obediência.
— Muito obrigada, mas acho que não será necessário, pois não pretendo ficar aqui por
muito tempo.
— Ainda não mudou de ideia? Bem, ainda não deu tempo; você só está aqui há um dia.
Novamente teve dificuldade em controlar-se diante do todo-poderoso senhor de
Juamasa; mas a vontade que tinha era de lhe dizer que não era de sua conta, que não podia
controlar sua vida ou seus movimentos e que, de forma alguma, se submeteria a seu domínio.
— Temo que não me reste outra escolha senão voltar para a Inglaterra, senhor. — Suas
palavras eram até moderadas em comparação com as que tinha vontade de dizer.
A srta. Broughton olhou-a rapidamente, imaginando se ela teria pensado que seu tempo de
vida era limitado, mas o rosto da moça não dava mostras de ter tais pensamentos sombrios.
Seu comportamento era normal, aparentemente imperturbável, quando se dirigiu a Teresa
dando instruções.
Teresa fez uma mesura, ainda visivelmente perturbada e retirou-se. Morgana,
perfeitamente senhora de si, virou-se para os dois. Estranho como o desprazer da companhia
dele a perturbava.
— Gosta da casa? — Ouviu-o perguntar com voz fria.
— É muito bonita. — Enquanto respondia, Morgana novamente reparava como ele era
atraente, pensando ao mesmo tempo que era muito moreno e que tinha um ar um tanto sinistro
quando comparado com o louro Phillip.
— A senhorita também vai achar o palácio muito interessante. — Sorriu para Neli. —
Talvez possa dispensar sua eficiente enfermeira por algum tempo...
— Não tenho pressa alguma. Pode demorar o quanto quiser — apressou-se em dizer Neli,
divertindo-se, pois sabia muito bem que pensamentos se escondiam debaixo daquele véu
branco.
Morgana suspirou disfarçadamente, alegrando-se ao ver que Teresa se aproximava com
uma bandeja. Teria que agradecer somente a Neli por esse inesperado passeio, que de forma
alguma a agradava.
Enquanto Teresa os servia, Filipe conversava com ela em português, e ela respondia na
mesma língua, orgulhosa pela atenção a ela dispensada, e sorria feliz quando se retirou.
Novamente Morgana sentiu a irritação crescer dentro de si e nem reparou que durante todo
esse tempo estivera de testa franzida, mostrando claramente seu aborrecimento.
Quando finalmente chegou a hora, despediu-se temporariamente de Neli e caminhou ao
lado dele até onde estava estacionado o reluzente carro preto. Embora sentisse uma
crescente relutância, sentou-se sem hesitação no banco da frente do carro quando ele lhe
abriu a porta.
Virou a cabeça e sorriu, acenando para Neli enquanto ele dava partida rio carro, e depois
que não tinha mais essa desculpa, procurou interessar-se pelo cenário à sua volta. Entretanto,
sentia-se um pouco envergonhada por não puxar uma conversa. Depois, achando que ele
também não tinha vontade de conversar, continuou em silêncio, até que, repentinamente,
tirando os olhos da estrada e olhando para ela, ele lhe perguntou:
— Não gosta de mim, srta. Carol? Seria porque não sou inglês?
Isso foi dito casualmente, em tom quase desinteressado, e Morgana custou a acreditar no
que ouvia. Em que momento teria percebido a incrível verdade? Certamente essa observação
não abria caminho para uma conversa impessoal, e imediatamente lhe veio à ponta da língua
uma resposta: que ela não ligava a mínima importância à sua nacionalidade; simplesmente não
gostava dele e era só.
Olhou-o de soslaio, mas ele estava prestando atenção no caminho, impassível. Parecia que
tinha pouco ou mesmo nenhum interesse em sua resposta. Entretanto, sentiu-se na obrigação
de dizer alguma coisa.
— É imaginação sua, senhor.
— Talvez.
Sua voz era neutra e cuidadosamente evasiva, conservando-se novamente distante e
reservado. Afinal, que diferença poderia fazer que uma pessoa tão insignificante como
Morgana-Fay Carol não gostasse do marquês Filipe de Alviro Rialta?
Rodaram algum tempo em silêncio, enquanto Morgana, surpreendentemente, se preocupava
em descobrir por que fizera ele aquele comentário. Seguramente ocupava uma posição alta
demais para ser perturbado pela antipatia de alguém como a enfermeira Carol. Comentara o
assunto casualmente e depois se retirara para seu distante mundo.
— Como seu tempo é curto aqui em Juamasa, preciso arranjar para que conheça mais a ilha
— disse, interrompendo seus pensamentos, como se ela fosse uma turista ocasional que
quisesse ver tudo rapidamente. Isso deixou Morgana furiosa.
— Quando lhe convier, apanho-a com o carro para levá-la a passear pela ilha.
— Obrigada, senhor — respondeu, sem contudo ter a menor ideia de aceitar e sem
conseguir esconder seu ressentimento.
— Não parece muito entusiasmada com a ideia. Posso saber por quê?
Morgana mordeu o lábio.
— É imaginação sua, senhor.
— Novamente estou imaginando coisas! — disse suavemente. — Descobri que tenho uma
imaginação fértil, srta. Carol. Imagino que não goste de mim a ponto de se recusar a sair
comigo para conhecer a ilha.
Desta vez, Morgana não pôde refrear um olhar fulminante e disse agressivamente:
— Talvez eu não goste da arbitrariedade com que me arranjam os passeios.
— Mas por quê? Sendo mulher, alguém tem que arranjá-los para a senhorita.
Morgana esperou um pouco para poder se controlar, pois seus pensamentos recomeçavam
a ficar violentos. Como podia um homem ser tão irritantemente autocrático e ao mesmo tempo
tão impessoal e distante?
— Talvez as moças portuguesas sejam diferentes — começou, decidida a refrear sua
língua, que estava pronta para dizer outraB palavras. — Nós inglesas somos e gostamos de ser
independentes.
— Ah! a famosa independência inglesa! — Havia em seus olhos um ar de caçoada, mas a
voz era calma e serena. — Imagino se alguma vez esteve apaixonada em sua vida.
Momentaneamente a lembrança de Phillip foi como uma faca enterrando-se em seu
coração, mas quando falou já tinha assumido um ar indiferente.
— Uma vez, pensei estar. Mas passou.
— Era amor? — Seus negros olhos fitaram-na friamente. — Vocês ingleses são muito
pouco emotivos. Não creio que saiba o que é o verdadeiro amor.
— Muita gente se casa na Inglaterra, senhor. Está insinuando que o fazem sem se amar?
— perguntou rispidamente.
Filipe deu de ombros e ergueu a mão morena do volante, num gesto negligente.
— Não é o amor que os portugueses conhecem.
— É o que basta na Inglaterra.
— Talvez não lhe baste se ficar em Juamasa — disse, observando a dura máscara da face
dela como se soubesse o que escondia.
— Como não vou ficar muito tempo, estou salva — replicou, esperando que isso encerrasse
o assunto.
— Naturalmente. Esqueci que o tempo era tão curto. - Gradualmente, por entre as
árvores, o palácio foi ficando visível.
Duas altas torres de um lado tinham uma distinta aparência oriental e o resto do edifício,
ou o quanto se podia ver dele, a fantástica arquitetura mourisca.
0 carro percorreu toda a extensão de um pátio, de onde uma escada de rasos degraus
levava a um átrio pavimentado. Enquanto Filipe a ajudava a descer do carro, Morgana olhava
como uma criança assustada, mas não podia fazer nada além disso. 0 palácio era enorme e
fantasticamente belo. Agora compreendia o porquê de sua indiferença por alguém
simplesmente mortal. Era fácil de ver pelo majestoso e lindo edifício e seus arredores. Ele
nascera ali, herdara um título antigo, uma vasta fortuna e, provavelmente, exércitos de em-
pregados que se desdobravam para satisfazer seus mínimos desejos. Todas as vilas deviam
estar sob seu controle. Na verdade, toda Juamasa. Com este pensamento voltou sua irritação.
Não era justo que um só homem tivesse tanto poder nas mãos. Além do mais, ele era somente
um ser humano como todo o mundo.
Não tinha reparado que ele a estivera observando todo o tempo, e quando falou, parecia
divertir-se muito.
— Não gosta do palácio, senhorita?
— É muito bonito, mas um pouco opressivo.
— É uma coisa com a qual se acostumará.
Tomando-lhe respeitosamente o braço, guiou-a, fazendo-a entrar no palácio, onde o chão
era forrado de pequenos ladrilhos azuis, de aparência tão frágil que ela mal ousava caminhar
sobre eles.
Morgana não achava que pudesse um dia se acostumar com o palácio, e agora tentava
adivinhar por que ele havia dito que um dia ela seria capaz. Provavelmente não voltaria ali; não
se dependesse dela, e pretendia fazer com que Filipe de Alviro Rialta soubesse disso.
Ele a fez sentar-se numa esquisita cadeira entalhada e dirigiu-se para um armário de uma
das paredes.
— Primeiramente tomaremos uma bebida e depois eu a levarei até a biblioteca para que
escolha seus livros. — Encheu um copo de cristal de um líquido âmbar-brilhante e lhe ofereceu
dizendo: — Um vinho suave que você achará mais saboroso do que sua famosa limonada
inglesa. — Seu próprio copo tinha uma coloração diferente, e quando se aproximou novamente
tinha uma inflexão irónica na voz. — Não tenha escrúpulos de beber uniformizada. É uma be-
bida quase inofensiva.
Morgana não respondeu e começou a provar o vinho, mas não muito certa de que fosse tão
inofensivo como afirmara Filipe.
Este sentou-se numa cadeira em frente dela e, ainda uma vez, ela reparou o quanto ele
era atraente. Estaria percebendo que a impressionava? Possivelmente sim. Mas o quanto se
importava com isso era uma outra questão. Parecia orgulhoso demais para se deixar atingir
por sentimentos alheios.
— A senhorita tem o dom de saber ficar num tranquilo silêncio...
— Tenho o hábito de sonhar acordada — replicou Morgana, sorrindo debilmente e
desejando que ele não lhe perguntasse que sonhos eram esses. Mas fora de dúvida iria
perguntar. Parecia ser direito seu fazer perguntas pessoais. Isso era parte da personalidade
do senhor de Juamasa. Sua irritação começava a ser temperada com um pouco de divertida
resignação.
— Com o que sonham acordadas as moças inglesas?
— Com muitas e variadas coisas — disse Morgana no mesmo tom, decidida a não permitir
que ele a aborrecesse desta vez.
— Em romance? Ou isso é uma coisa que as moças inglesas não se permitem sonhar?
Morgana constatou que não se deixar aborrecer não era tão fácil assim.
— Penso que as moças inglesas são tão românticas quanto quaisquer outras — disse meio
defensivamente. — Eu mesma costumava sonhar com um príncipe encantado que viria montado
em seu cavalo branco. — Isso deixava o campo aberto para outro comentário irónico, e então
acrescentou apressadamente, esperando que parecesse indiferente: — Mas foi há muitos anos
atrás, naturalmente.
— E então cresceu?
— Cresci, senhor. — Lançou-lhe um olhar desafiante. — Mas isso não quer dizer que não
haja romance no mundo, até mesmo na Inglaterra, ainda que não venham montados em cavalos
brancos.
Entretanto, sem que ela percebesse, uma sombra refletiu-se em seu rosto. Para ela não
haveria mais romance. Inexorável e implacavelmente o tempo se tornava menor e mais curto.
— Então não haverá mais romance para você? Ou não acredita mais nele? Talvez seja
consequência do tempo em que pensou estar apaixonada.
Por um momento Morgana sentiu ímpetos de lhe perguntar o que tinha a vêr com isso, mas
refletm que era melhor aparentar total indiferença.
— Acredito tanto no amor, que fui noiva.
— E o que aconteceu?
— Phillip e eu resolvemos que não daria certo. Rompemos de comum acordo.
Reconhecia a falsidade de suas palavras e, ao mesmo tempo, ressentia-se por ter sido
capaz de fazê-la falar sobre si mesma, sendo ele um estranho. Imaginava como poderia
continuar mentindo sem se magoar tanto.
— Phillip? Então é por isso que não gosta de mim; tenho o mesmo nome daquele que pensou
amar um dia.
— Seus nomes não são realmente iguais. — Desta vez esquecera-se de desmentir que não
gostava dele. — Não há semelhança alguma. Phillip é muito louro.
— E muito britânico. — Novamente havia ironia em sua voz.
— Muito bem, era muito britânico.
Observou-a colocar o copo em cima da mesa e disse displicentemente:
— No entanto, a despeito desse noivado rompido, não acredito que estivesse apaixonada.
Você tem o ar de uma pessoa intocada. — Viu-a corar intensamente e sorriu divertido. — Você
corando? Por quê?
— Não estou acostumada a discutir esse assunto.
O sorriso de Filipe converteu-se numa gostosa gargalhada.
— Vocês inglesas se orgulham de serem livres, mas na realidade são mais convencionais do
que as nossas supervigiadas moças portuguesas. -Morgana olhou-o furtivamente, logo
desviando os olhos. — Talvez seja porque não damos muita ênfase ao amor.
— Isso é óbvio!
Sentia aqueles olhos negros inquirindo-a, e seu esforço para parecer calma e
imperturbável era visível.
— O que é o amor para o senhor? — Morgana o estava espicaçando.
— O que é o amor para qualquer português — Parecia estar falando seriamente, mas,
mesmo sem olhar para ele, Morgana sabia qual seria sua expressão. — Amor... — continuava,
resistindo ela à tentação de olhar, enquanto ele prosseguia — vem devagarinho, no primeiro
encontro. Nada se percebe, a não ser que alguma coisa nos perturba e que nosso pensamento
se volta para aquele encontro e imagina outros. É uma atração que se torna, dia a dia,
inegavelmente mais forte, até queimar tudo, por dentro. — Olhos caçoístas e inquiridores
estavam fixos nela, que não conseguia desprender-se deles. — Não acredita que o amor seja
assim?
— Eu me admiro de que o senhor acredite — replicou rapidamente.
— Você está tão fechada em si mesma, que não sabe nada dos sentimentos dos outros —
disse, enquanto tirava a luxuosa cigarreira do bolso. — Quer fumar? — Mas logo retraiu-se,
corrigindo: — Esqueci que nao fuma quando está de uniforme. — Seus olhos brilharam e ela
teve uma surpresa, reconhecendo que eram verdes, e não negros, como supunha. — Imagino se
algum dia a encontrarei sem que esteja usando esse uniforme.
Morgana sorriu formalmente.
— Há ocasiões em que apareço à paisana, mas a gente se acostuma a usar uma espécie de
roupa.
Levantaram-se ambos, Morgana alisando as pregas de seu uniforme. Novamente tomou-a
pelo braço, conduzindo-a através de um vasto vestíbulo onde ela se sentiu perdida e um tanto
esmagada pela sua imponência. Percorriam um amplo corredor, quando, abrindo uma porta, ele
a convidou a entrar, deixando-a passar em primeiro lugar, comportando-se como um amável
anfitrião.
Morgana entrou devagar, percorrendo com os olhos as imensas prateleiras cheias de
livros. Como seu pai gostaria de ver essa biblioteca! Ele que se orgulhava e cuidava tanto de
sua pequena coleção...
Filipe encaminhou-se a uma das prateleiras e separou um grosso volume encadernado em
couro, com letras douradas.
— Creio que este lhe interessará muito. Leve-o e leia-o.
Morgana pegou-o relutantemente.
— Tenho receio de levá-lo, pois é um livro raro.
— Não corre perigo, em suas mãos. — Enquanto se recuperava da surpresa dessa
observação, ele continuou: — Penso que você deve gostar muito de livros.
Morgana assentiu:
— Gosto muito! — Correu os dedos pelo macio couro do livro. — Tomarei muito cuidado
com ele, senhor. Agora, acho que é melhor voltar para casa. — Se ele estava cansado de sua
presença e desejoso de se ver livre dela, nada melhor do que ir logo. - Está quase na hora de
cuidar da perna da srta. Broughton.
Não a levou pessoalmente de volta, mas mandou o motorista levá-la. Despediu-se dela de
maneira educada, como se ela fosse uma visitante ilustre e não simplesmente a enfermeira
Carol.
— Adeus, srta. Carol — disse, inclinando cortesmente a cabeça quando o carro começou a
se afastar.
— Adeus, senhor — respondeu Morgana, sem olhar para trás, como estranhamente
desejava fazer.
O caminho de volta foi menos tenso e inconfortável, com um motorista atencioso, mas
descobriu que seus pensamentos, por alguma razão desconhecida, tendiam a voltar para o
homem que ainda há pouco deixara.
Que estranha e irritante personalidade tinha ele! Em alguns momentos quase chegara a
gostar dele; mas em outros, devido a uma observação ou um gesto qualquer, alguma coisa
dentro dela se revoltava e reagia como se fosse a intuição feminina lutando contra qualquer
domínio ou atração que ele pudesse exercer sobre ela. Também não conseguia imaginá-lo
preso aos encantos de qualquer mulher. Era muito frio e senhor de si. Indubitavelmente, um
dia se casaria. Mas seria simplesmente para a continuação de seu nome, para ter um filho, que
seria o novo marquês de Alviro Rialta.
Alguns dias depois, Morgana teve que enfrentar o encontro que tanto temia. Estava no
jardim apanhando flores para pôr dentro de casa, quando o ruído da brecada de um carro a
fez voltar-se. Não era como os ricos e luxuosos carros que vira tantas vezes estacionados ali,
mas sim, um pequeno e simples, que inclusive não parecia muito limpo. Curiosa, procurou ver
quem era o dono de tão mal cuidado veículo, quando um cabelo louro brilhou à luz do sol. Deu
um passo para trás, levando a mão à boca, como que querendo reprimir um grito.
-Philiip!
Foi um grito abafado e breves segundos depois todo o seu corpo estava tenso; mas
controlado, pois ela estava prevenida de que a qualquer momento isso aconteceria.
— Morgana!
Viu-o empalidecer incrivelmente e não pôde definir a expressão de seu rosto, tão
irrealmente perto dela.
Ele fez um gesto como quem está completamente atordoado.
— Morgana... como...?
Perfeitamente controlada, apanhou outra flor, uma vermelha e grande que exalava
delicioso aroma.
— Como vim parar aqui? — Encolheu os ombros com deliberada indiferença. — Vim com
uma paciente. Nunca esperei encontrá-lo aqui em Juamasa, Phillip. — Isso deixava claro que
não o seguira até a ilha.
— Rezei para que de alguma maneira nos encontrássemos novamente, mas não ousava
esperar tanto.
Morgana fez um esforço para se conservar indiferente ao sorriso de que tão bem se
lembrava.
— Com que propósito? Tudo, entre nós, está terminado, Phillip.
— Está mesmo? — Tomou-lhe as flores das mãos, depositando-as com cuidado no gramado,
pretendendo pegar-lhe as mãos, mas ela se esquivou.
— Você terminou tudo, Phillip — disse suavemente, não entendendo, mas um tanto
desconfiada.
— Fui um louco!
— Por preferir outra pessoa? Você é livre e pode mudar de ideia.
— Mas será que eu queria isso mesmo? — Sua voz tornara-se suave e persuasiva. — Deixe-
me explicar tudo, antes que você diga mais alguma coisa. — E sem lhe dar oportunidade de
recusar, continuou: — Aconteceu num trem. Começamos a conversar, como sempre acontece
em viagens longas. Descobrimos que íamos para o mesmo lugar. Quando chegamos, eu estava
ligeiramente tonto. Aconteceu muito depressa. Encontramo-nos novamente e pensei estar
apaixonado por ela, que nada sabia a seu respeito.
— Muito conveniente — comentou Morgana, incapaz de reprimir a amargura de sua voz.
— Não seja amarga — disse suavemente. — Dê-me uma oportunidade e eu tudo farei para
compensá-la destas semanas de infelicidade.
Morgana olhou-o incrédula.
— Quer dizer que lastima ter rompido nosso noivado?
Evitou uma resposta direta.
— Sabia que estava rompendo algo muito bom. A outra...não era amor. Foi um entusiasmo
passageiro e depois... — estalou os dedos — acabou... Não estou lhe pedindo que reatemos o
noivado; não já...
Isso era a última coisa que ele queria. Não estava preparado para pagar tão alto preço por
esse aborrecimento, e romper o noivado tinha sido mais fácil do que pensara.
— Peço somente que me deixe vê-la de vez em quando, para que possa confiar em mim
novamente.
Com as mãos nos ombros dela, procurou fazê-la vírar-se para ele, mas Morgana resistiu.
— Eu o perdoo, se é isso o que você quer. Mas, mais do que isso... — Sacudiu a cabeça
negativamente. — Nada mais pode haver entre nós. 0 que havia antes era um acordo. Foi
melhor que tivesse acontecido assim. Poderíamos ter nos casado e descobrir depois que não
era amor, e sim, apenas atração física.
Repentinamente ele sorriu, suas mãos apertando-a ainda mais, consciente de seu poder
sobre ela.
— Está dizendo um amontoado de tolices, minha querida. Pensa que eu não vi o que havia
em seus olhos, assim que me viu? Não acreditei no momento, mas agora, sim. Você está
procurando convencer a si própria. Talvez tenha conseguido, mas a mim, não.
Poderia nesse momento tomá-la nos braços, pois ela acreditava nele. Mas certamente
teria resistido, pois ele jamais deveria amá-la.
— Não sei se você é convencido ou simplesmente cego, Phillip. — Sua simulação de frieza
e zanga era perfeita, ainda que difícil de ser mantida. — 0 que você imaginou ver em meus
olhos não era amor. Eu estava realmente espantada de vê-lo aqui.
— Espantada e contente por me ver. — Novamente tentou abraçá-la, mas parou quando
ela, num movimento brusco, se livrou, mal sabendo o quanto lhe custara tomar essa
determinação,
— Por favor, vá embora. Não tem prépósito continuarmos esta conversa.
Olhou-a aturdido e então virou-se, entrando rapidamente em seu carro.
Morgana viu-o afastar-se sem poder imaginar o que estaria pensando, mas cônscia de que
alguma coisa estranha havia com ele e congratulando-se pela sua habilidade de resistir-lhe.
Teria seu subconsciente notado uma falta de sinceridade nele, e isso a ajudara?
Encaminhou-se com passos rápidos para a casa, mas, lembrando-se das flores, voltou para
apanhá-las.

Capítulo 4

— Morgana, a fada — disse Neli pensativamente razão, esse nome lhe cai bem.
Sem interromper a massagem na perna d mente e sorriu.
— Uma fada que não sabe dizer palavras com um noivado rompido...
— Não se preocupe com isso — disse Neli - acaso soube mais alguma coisa dele?
— Comunicou-se comigo, convidando-me para sair, disse que estava terrivelmente ocupada
— respa um brilho encantador nos olhos. — 0 que é uma mentira, pois quase nada tenho para
fazer.
— Não tem importância. Serei uma paciente exigente e não permitirei que você saia
quando ele a convidar — replicou imediatamente. Depois, encarando-a, perguntou: — Quer
saber por que ele deseja sair com você?
— Se quiser me contar...
— Phillip Layland se aborrece num lugar como Juamasa. Gosta de vida social e não
consegue tê-la aqui. A nata da sociedade, a qual ele julga pertencer, não o aceita, e é
convencido demais para sair com qualquer pessoa. - Captando o olhar incrédulo de Morgana
acrescentou: -Está bem, você não acredita; portanto deixemos assim. Como é? Ainda lastima
muito a sua perda ou já é capaz de falar sobre isso sem sofrer?
— Eu? — Morgana fixava Neli com surpresa. Pensou quepodia haver alguma coisa de
verdade na pergunte. A estranha dor parecia não atingi-la muito, mas talvez fosse porque, em
seu subconsciente Filipe sabia que não poderia durar muito tempo.Talvez quando visse Phillip
novamente, não se sentiria tão magoada.
Sabiamente, Neli deixou-a falar à vontade, e Morgana viu-se descrevendo a pequenina
casa de um subúrbio londrino onde fora tão feliz, até o dia em que, voltando do trabalho,
encontrara seu pai quieto demais na cadeira. Desde então as coisas nunca mais voltaram a ser
as mesmas. Deixou a casa, que era alugada, vendeu os móveis e mudou-se para um quarto de
pensão em Kensigton tentou disfarçar a falta que o pai lhe fazia, atirando-se ao trabalho sem
descanso, preocupando-se com sua carreira e tendo sucesso. Phillip voltara a aparecer em sua
vida: um homem em vez menino que ela adorava a distância, para deixá-la, tempos depois,
novamente insegura e vulnerável.
Não traduziu em palavras este último pensamento, mas a mente Neli o adivinhava, pois
com muito jeito fê-la falar sobre o pai, que costumava chamá-la de Morgana, a Fada, a
Feiticeira. No entanto, a atual homonima da legendária rainha das fadas não podia ser
invocada, com seus fabulosos poderes, para ajudá-la a combater o poderoso anjo da morte que
estava à sua espera.
Conquanto estivesse interessada no que ouvia, Neli só podia dar meia atenção ao que
estava sendo dito. 0 conhecimento de que de trás da testa alva e inteligente de Morgana, algo
estava evoluindo e conduzindo-a para a morte, era tão terrível que tudo o mais parecia sem
importância. Por uma estranha comunhão de sentimente sabia que Morgana pensava na mesma
coisa.
— Continue falando sobre o que quiser — disse meigamemte. Isso às vezes ajuda.
Morgana hesitou.
— Há muito pouco para contar. É uma que não pode ser corrigida, uma coisa que deveria
ter me matado de imediato, mas que retardou sua ação, como uma bomba-relógio — disse,
sorrindo debilmente. — Não sentirei dor alguma, a não ser no fim, e para amenizá-las tenho
uns comprimidos.
A despeito do olhar firme e do sorriso que conseguia manter, voz era desalentada, e Neli
teve que comprimir os lábios duramente para que parassem de tremer, e conter as lágrimas,
que, se tivessem lhe assomado aos olhos, certamente não seriam bera-vindas.
— Filha? Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa!...
Sua voz era um brado amargo e impotente contra o destino, Morgana sacudiu a cabeça,
controlando-se novamente, embora e estivesse muito pálida.
— Não há nada que possa ser feito.
— Não acha que deveria descansar mais? — Neli olhou carrancuda para sua perna, que
ainda lhe restringia um pouco os movimentos. — Com esta estúpida perna, sinto-me mal por
depender tanto de você.
Morgana riu um tanto pensativa.
— A senhora não precisa deitar-se mais cedo por causa dela. Necessita de atenção muito
mais do que eu, e minha saúde não ficará prejudicada por isso.
Neli observou-a, tentando adivinhar o que ia por trás daquela pálida máscara que parecia
rir na face da morte.
— Não consigo entendê-la, minha filha — disse finalmente encarando tudo tão
filosoficamente. - Se fosse comigo, estaria clamando contra o destino cada momento do dia.
— A principio, foi assim. Depois fíz um acordo comigo mesma. Tenho ainda um pouco de
tempo e vou tentar viver normalmente enquanto for possível. — Levantou a cabeça com
determinação e disse com firmeza: — Acho que já ouviu demais sobre meus problemas.
Desculpe se a aborreci, srta. Broughton.
— Se sentir que isso ajuda, procure-me e fale sobre eles quantas vezes quiser — replicou
Neli imediatamente. — Agora, saia já para o jardim, sente-se ao sol e leia seu livro sobre o rei
Artur.
Morgana olhou-a ainda duvidosa.
— Tem certeza de que não posso fazer mais nada pela senhora?
— Nada mesmo. Agora, obedeça — ordenou Neli. — Acontece que sou sua patroa, mocinha!
— Sim, srta. Broughton — disse Morgana, fazendo uma reverência. Pegou seu livro e
desceu.
— Uma vez no jardim, sentou-se confortavelmente numa poltrona e abriu o livro.
Examinou-o cuidadosamente, avaliando-o. Devia ser um exemplar raro e achava curioso que
Filipe tivesse livros em inglês. Como falava bem esse idioma, era provável que lesse tão facil-
mente quanto em português.
Dali a pouco virou a página, mas era difícil se concentrar na leitura. O sol derramava-se
sobre ela deliciosamente quente, entorpecendo-a. Sabia que, se pudesse, adoraria viver em
Juamasa. Pelo pouco que conhecera da ilha, já gostava dela; entretanto Filipe seria a últi ma
pessoa com quem admitiria isso.
Isso levou a pensar em Phillip. Realmente, Filipe e Phillip eram nomes iguais, exceto na
pronúncia. Como teriam sido as coisas se tivesse vindo a Juamasa como noiva de Phillip? Seria
maravilhoso e quase que um paraíso na terra.
Distraída e sonolenta, deixou-se ficar ali um bom empo. Depois, olhando o relógio,
verificou que já era hora de a senhorita descer e descansar no sofá da sala de estar.
Apressou-se, feliz por ter alguma coisa para fazer, pois isso a distraía e impedia que
pensasse,

— Esqueci de lhe dizer mais cedo — disse Neli, quando ela entrou no quarto — teremos
uma visita para o chocolate da manhã.
Morgana sorriu.
— Que bom! — Então sorriso morreu e tomoi se quase uma careta. — Não o marquês,
espero.
A srta. Broughton riu.
— Não, não é ele — Lançou um olhar malicioso a Morgana enquanto dizia divertida. — Você
não gosta mesmo dele!
— Ele me irrita, — admitiu francamente. — Basta ele dizer um só palavra e todos correm
a satisfazer-lhe as vontades!
— Você é muito independente! Ele está acostumado a lidar coisas ultrafemininas moças
portuguesas, não se esqueça disso.
— Espero que ele não se esqueça disso — replicou Morgana baixinho, um tanto para si
mesma.
— Talvez se lembre — disse Neli, e Morgana percebeu um tom de crítica em sua voz.
Olhou-a interrogativamente, tentando descobrir qual o verdadeiro significado daquela
critica. Não podia compreender por que o altivo e todo-poderoso senhor de Juamasa se
preocupasse em tentar abalar sua liberdade, sua independência. A não ser que fosse por quer
provar que dominava a ilha toda, até mesmo uma estrangeira com ela. Mas isso revelava um
caráter mesquinho, e reconhecia nada haver de mesquinho nele.
— Então, quem é que vem? — perguntou, achando que chega de pensar em Filipe de Alviro
Rialta.
— A senhora Paquita Acquaras. ,
— Outro membro da elite de Juamasa?
Neli riu alegremente.
— Se você prefere pôr nesses termos... Acquaras têm sido amigos dos Rialta há muitas
gerações. Chegaram aqui quase ao mesmo tempo. Correm rumores pela ilha de que Filipe vai
casar-se com uma sobrinha dela.
— Pois desejo que sejam muito felizes! - Nelí deu uma gargalhada.
— Você está novamente sendo Morgana, a Fada..
— Às vezes eu gostaria de ser realmente. Ele parece ter nas mãos todo o poder desta
ilha!
Neli ria.
— Sei que intimamente você gostaria de medir forças com ele.. Agora saia e vista um de
seus lindos vestidos. Filipe não vem, hoje portanto não há razão para usar esse uniforme.
— Não o uso só para aborrecê-lo — replicou Morgana, recusando- se a admitir que ele
pudesse influenciar qualquer de seus atos, mesmo aqueles que tinham por finalidade
aborrecê-lo.
Quando abriu a porta, o carro vinha entrando pelo jardim e Neli observou:
- Parece que a senhora já está chegando.
Um tanto intrigada, Morgana perguntou
- O que quer dizer extamente “senhora”? Pensei que esse tratamento só fosse dispensado
a mulheres casadas, mas o marquês me chamou assim também.
- E é — explicou Neli —, mas é também um tratamento formal, como "madame".
Morgana balançou a cabeça como quem compreende.
— Achei que o certo fosse me chamar de "senhorita", mas não foi assim que ele falou.
Os olhos de Neli brilharam maliciosos.
— Por acaso ele a tratou de "você"? Isso já é mais íntimo! Significa que vocês
progrediram nos graus de amizade... — concluiu, rindo abertamente.
Morgana lançou-lhe um olhar frio.
— Duvido muito de que apreciasse a honra! — Controlou-se, voltando a ser a Morgana de
sempre, e acrescentou: — Desci para saber o que a senhora quer que eu faça.
— O que quer dizer? — perguntou Neli, sem entender. — Fazer o quê?
— Estou aqui com sua enfermeira — explicou, um pouco sem jeito. — Devo retirar-me
quando a senhora chegar?
— Certamente que não! Você ficará aqui comigo.
— Ela não vai achar estranho?
— Não, não achará. Você será aceita, a menos que não se faça simpática. E isso não creio
que aconteça.
— Espero que não.
Morgana esperou, um pouco nervosa, que Teresa introduzisse a visitante.
A senhora Acquaras era baixinha, bem proporcionada e bonita como quando era mais
jovem. Seus olhos profundos e brilhantes eram vivos e perspicazes. Morgana teve um
pressentimento de que em algumas ocasiões podiam ser perspicazes demais.
Neli a recebeu falando em português, mas depois acrescentou em inglês:
— Desculpe por não me levantar, Paquita. Ainda não readiaquiri o movimento completo de
minha perna,
Morgana reparou que, apesar de ser a senhora abastada e da alta sociedade de Juamasa,
Neli se dirigia a ela pelo nome de batismo, sem maior cerimonia, exatamente como fazia com
Filipe. Imaginou então quanto tempo teria ela levado para quebrar o formalismo da sociedade
portuguesa. Não deveria ter sido uma campanha deliberada. Neli Broughton não era uma
oportunista e nunca o seria. Não se dava com pessoas da alta sociedade por interesse, mas
possuía um encanto natural que a todos cativava, fosse qual fosse a escala social. Em todas
elas tinha verdadeiros amigos, que lhe queriam bem e se preocupavam com ela.
— Ficamos muito tristes, ao saber do acidente. — A senhora falava em inglês, carregado
de sotaque. — Espero que se recupere totalmente.
— Disso tenho certeza! — Neli, sorrindo, estendeu a mão para Morgana, pedindo que esta
se aproximasse. — A enfermeira Carol veio comigo para garantir isso.
Morgana aproximou-se relutante e as apresentações formais forram feitas. Percebeu que
os olhos da senhora a examinavam de alto a baixo e depois pareceu satisfeita.
— É a primeira vez que sai da Inglaterra, srta. Carol? — A senhora estava procurando ser
amável, mas suas maneiras algo distantes lembravam as de Filipe, sem contudo irritá-la.
Respondeu acanhadamente:
— É, sim, senhora.
— Então... — suas feições se iluminaram num largo sorriso —, tenho certeza de que vai
gostar daqui!
Morgana começou a se sentir mais à vontade e devolveu-lhe um de seus maravilhosos
sorrisos.
— O que a leva a pensar assim? — perguntou.
— Você tem jeito de quem aprecia viver nos trópicos. A maioria apenas suporta.
— Espero que possa aproveitar minha estada em Juamasa. — Um arrepio percorreu-lhe a
espinha quando se lembrou, contra sua vontade, do que representava para ela o tempo em
Juamasa.
— A ilha está linda, nesta época — comentou. — Pode-se passear à vontade, e seria bom
que você a visitasse toda. As vezes os temporais e tempestades são tão violentos que ninguém
ousa sair de casa.
0 nome de Felipe não tinha sido mencionado, mas a voz quase musical dela e suas maneiras,
tão parecidas com as deíe, desta vez a irritaram um pouco. Tolice sua, mas achou que a
dedução óbvia devia ser que o marquês era também responsável pelo bom tempo...
— Já teve oportunidade de conhecer o marquês? — perguntou a senhora, trazendo o nome
dele à conversa, o que era inevitável.
— Sim — respondeu simplesmente, sem a menor intenção de acrescentar mais nada à sua
breve resposta. Já era bastante difícil manter o nome dele fora da conversa. Mas essa não
parecia ser a ideia da maioria.
— Filipe esteve aqui duas vezes, para saber de mim e dos meus progressos — disse Neli,
com um visível brilho no olhar, como se estivesse sabendo claramente o que ia pela mente de
sua enfermeira.
Morgana conservou-se imóvel, sem mesmo levantar os olhos, esperando que o assunto
morresse ali, o que, como viu mais tarde, era desejar demais.
— Já viu o palácio? — tornou a senhora. — Há uma ala mourisca que é verdadeiramente
linda e muito interessante.
Morgana fez algumas observações convencionais, informando que vira parte do palácio,
sem contudo traduzir em palavras o restante de seus pensamentos. Não disse que ele se
aborrecera com ela, que provavelmente nunca mais a convidaria para ir até lá e que portanto
não teria oportunidade de conhecer a tal ala mourisca tão famosa e comentada. Não, isso não
lhe importava nem um pouco, apressou-se a afirmar para si mesma.
A senhora não se demorou muito e Morgana surpreendeu-se, ao vê-la levantar-se logo
após o chocolate e as observações sobre o palácio.
— Sinto que minha visita deva ser tão curta, hoje, mas — virou-se para Neli — talvez
permita que sua enfermeira almoce comigo, qualquer dia. Celestina e Marita gostariam de
conhecê-la.
— Tenho a certeza de que Morgana também ficará encantada — respondeu Neli, sorrindo
para a moça.
Morgana assentiu novamente com seu sorriso acanhado, e a senhora saiu, tão digna e
pomposamente quanto havia entrado, mas de certa maneira mais amiga.
Morgana fez um gesto expressivo de quem se relaxa, assim que a viu pelas costas.
— Senti como se estivesse sendo examinada.
Neli lhe dirigiu um olhar pensativo.
— E estava, mas não se preocupe. - Passou com distinção - Agora será apresentada a
Celestina e Marita Acquaras e fará sua entrada na sociedade de Juamasa.
Morgana virou-se rapidamente, com uma expresssão de medo no rosto.
— Não será pior? Meu tempo é tão curto!
Houve uma pausa pesada, carregada de coisas não postas em palavras, mas cheia de
sombrios pensamentos, até que Neli disse calmamente:
— Morgana, lembra-se do voto que vez?
A moça virou-se para Neli com indescritível expressão, como que pedindo desculpas.
— Sim, eu me lembro e não vou quebrá-lo. Mas ás vezes é muito difícil, e não posso
impedir a amargura que me consome, apesar de lutar fortemente contra ela.
Neli engoliu em seco, procurando dãfarcar a pena e a simpatia que sentia pela moça. Por
que tinha que Acontecer? — pensou amargamente. — Nãa haveria alguma coisa que impedisse
essa tragédia? . Seria o destino dono da vida e da morte, delíberadamen te cruel?
— Por que não vai até Lorenzito conhecer a cidade? — sugeriu. — Creio que achará
interessante.
Morgana hesitou, indecisa, não sabendo ae aceitava ou não a proposta.
— Penso que irei, isto é, se a senhora tem certeza de que não precisa mais de mim para
nada.
— Claro que não preciso.
— Sinto-me como se fosse uma horrível impostora — disse, lamentando-se. — Não fiz
praticamente nenhum trabalho, desde que aqui cheguei.
— Você já faz o suficiente cuidando de mim.
Morgana fez um movimento de desânimo.
— E isso não toma quase nada do meu tempo.
- Toma o suficiente. Vá explorar Lorenzito — ordenou. Morgana desistiu. — Deseja alguma
coisa de lá?
— Não, obrigada. Não ande muito nem se canse, neste calor, pois não está habituada a
ele.
Morgana sossegou-a a respeito e saiu para a garagem, onde estava estacionado o carro de
Neli. Somente lá chegando é que reparou que se tinha esquecido de lhe pedir as chaves.
Teresa viu-a voltar da garagem e saiu da cozinha, vindo em sua direção, gesticulando
muito e falando tão depressa, em seu inglês truncado, que Morgana não foi capaz de entender
uma só palavra.
— A senhorita deseja o carro?
Finalmente conseguira se fazer entender, e Morgana lhe disse que sim.
— Quero ir até Lorenzito. Quem tem as chaves?
— A senhorita não deve ir dirigindo. Não é... não é... — descontrolou-se, esquecendo o
inglês e falando rapidamente em português.
— O que quer dizer? — perguntou Morgana divertida, mas ainda sem perceber o que
motivava tão veemente objeção de Teresa.
Esta sacudiu vigorosamente a cabeça e virou-se para o marido como para lhe pedir apoio.
Júlio encaminhou-se para a garagem, mas Morgana o deteve com um gesto imperioso, embora
inconsciente. Detestava privá-lo do prazer que obviamente sentia por usar seu uniforme, mas,
por outro lado, precisava manter sua independência desde o início.
— Talvez as moças portuguesas não dirijam sozinhas, mas sou inglesa e dirigi muitas
vezes o carro de meu pai, lá em casa. — Sorriu, acalmando-os. — Não se preocupem, sei
dirigir.
O desapontamento de Júlio e sua cara triste quase estavam fazendo desistir de
conservar sua independência. Estava quase voltando atrás em sua decisão, quando Teresa
disse desanimadamente:
— Mas senhorita... o marquês...
Toda a fraqueza desapareceu e um perigoso brilho surgiu nos olhos dela, quando
finalmente entendeu o que os preocupava.
— Querem dizer que o marquês deixou instruções para que eu não dirigisse sozinha?
Nem teria sido necessário o vigoroso sacudir de cabeça de Teresa para que Morgana visse
confirmada sua suspeita. O fato é que instruções haviam sido dadas, e isso fazia uma enorme
diferença. Teresa simplesmente seguia ordens e não tivera intenção de provocar nenhum
problema; mas nada poderia firmar mais Morgana em sua decisão anterior. Iria por seus
próprios meios a Lorenzito, nem que fosse a pé.
Era até fácil imaginá-lo, dizendo, em sua voz encantadora, para Teresa e Júlio:
— A senhorita é inglesa, não conhece nossas estradas; assegurem-se de que ela não saia
dirigindo sozinha.
Apertou os lábios duramente e sua latente raiva converteu-se em fúria.
— Então o marquês deu instruções? — perguntou suavemente, e Teresa não reparou no
perigoso brilho de seus olhos. — O marquês, naturalmente, não deve ser desobedecido. —
Então sua fúria extravasou e podia ser percebida até por Teresa e Júlio. — Não sei que
espécie de instruções vocês receberam nem estou particularmente interessada —
acrescentou, com tal deliberação que os dois se assustaram. — Vou dirigir sozinha. As chaves,
por favor.
— Mas, senhorita... — Os protestos de Teresa morreram quando olhou o rosto da moça.
Virou-se então para Júlio e explodiu em palavras contra ele. Houve uma rápida e excitada
discussão entre eles, com muita gesticulação. Depois Júlio estendeu as chaves a Morgana.
Esta as pegou com uma súbita onda de orgulho invadindo-a. Aquela esplêndida peça de metal
em sua mão significava que Filipe não tinha ganho esta luta. Mesmo a distância, a vitória fora
sua, e ela se sentia extraordinariamente feliz com isso.
Cuidadosamente, tirou o carro da garagem e o manobrou, ainda sentindo-se vencedora,
mas começando a tomar consciência da atitude infantil que tivera. Seria muito ruim, pensou,
se, por coincidência, ao sair da estrada que se unia à do palácio, em direção a Lorenzito,
cruzasse com Filipe e ele a visse no deliberado ato de desobediência.
Reconhecer-se um pouco arrependida e culpada por ter desobedecido às ordens dele foi
como derramar combustível na fogueira de sua raiva, e o fato de sentir um pouco de medo
dele não melhorou muito as coisas.
Felizmente, o marquês não cruzou seu caminho e ela chegou à cidade sem problemas. Foi
muito agradável dirigir sozinha pela estrada ladeada de altas árvores, apesar da densa nuvem
de poeira que levantava ao passar. Decidiu explorar a cidade a pé. Estacionou o carro numa
ampla e moderna avenida que devia ser a central. Não se incomodava com os olhares curiosos
que a seguiam, pensando que as pessoas talvez reconhecessem uma estrangeira; não percebia
que o que chamava a atenção era sua linda figura, com seu fresco vestido amarelo, de ampla
saia franzida que rodopiava ao redor de suas pernas esguias e bem feitas.
Estava tremendamente quente, e ela tirou o broche que lhe fechava o decote do vestido,
abrindo-o e sentindo um reconfortante frescor no pescoço. Andou a esmo, achando que o
calor não estava tão desagradável, e somente quando olhou para o relógio foi que reparou
quanto tempo estivera distraída. Já se fazia tarde e, como tinha um longo caminho a
percorrer, tratou de voltar. Foi então que começaram os problemas.
Notou que os arredores não lhe eram muito familiares, mas quando, repentinamente, viu o
mar, teve a certeza de que estava no caminho errado.
Tinha agora que escolher entre duas estradas. Uma mais estreita levava a um labirinto
que por instinto sabia que não a levaria de volta. A outra, maior e mais larga, ia dar numa
pequena baía onde barcos de pesca e iates de recreio estavam ancorados. Ao longe um navio
passava, e Morgana imaginou se ele atracaria em Juamasa ou passaria ao largo.
A pequena baía era uma beleza, e ela não sentia ter-se perdido. Uma larga rua arborizada
parecia convidá-la a seguir, e ela continuou, até descobrir que terminava numa pequena
pracinha onde, num pedestal, se erguia uma estátua de bronze de algum antigo e ilustre
dignitário de Juamasa.
Morgana parou para descansar, apreciando os arredores. O povo e a paisagem colorida
quase a fizeram esquecer o receio de estar perdida que começava a amedrontá-la. Olhar para
a figura de bronze do senhor cujo nome não conseguia ler não a ajudou em nada. Contudo, sua
mão estendida apontava para um emaranhado de ruas que saíam da pracinha. Decidiu não levar
a sério a silenciosa indicação; mesmo porque ele não devia estar acostumado a indicar
caminhos para os que se perdiam nas estradas. Resolveu voltar por onde tinha vindo até
encontrar alguma coisa que reconhecesse, preocupada demais para notar as pessoas que a
cercavam.
Seguiu esperançosa e chegou a um antiquário. Definitivamente, estava perdida, pois não
passara por ali. Começou a achar que nunca mais desataria aquele nó.
Entrou na loja e, no meio de um sem-número de coisas inúteis a seus experientes olhos,
sua atenção foi atraída para um colar. Era extremamente simples, formado por oito discos de
prata, presos por uma corrente também de prata, trabalhada, tendo cada disco uma delicada
inscrição na superfície polida. Desejou o colar imediatamente e tinha o dinheiro para isso. A
única dificuldade era se fazer entender pelo lojista.
De dentro da loja, em vez do idoso vendedor que esperava, veio um jovem muito atraente,
que a olhava com sincera admiração.
Morgana sentiu o sangue subindo-lhe ao rosto, mas a expressão dele era tão natural e
inofensiva que ela não podia ficar aborrecida. Entretanto, toda essa simpatia não ajudou em
nada, quando pretendeu explicar o que queria. Ele a olhava admirado, com um par de grandes e
profundos olhos negros.
Estava quase a ponto de desistir de seu intento, quando, de repente, o sol foi obstruído
por uma figura alta entrando na loja. Por alguma razão lembrou-.se de quando vira Filipe pela
primeira vez. Ele também, ao entrar na Vila Francisca, momentaneamente tapara a luz do sol.
Não havia razão para pensar que fosse Filipe novamente, e, na realidade, isso nem lhe passara
pela cabeça, até que viu a expressão do vendedor modificar-se sensivelmente.
— Senhor marquês!
Instintivamente, Morgana retesou o corpo. Uma voz fria e cortês, que ela começava a
conhecer tão bem, disse alguma coisa em português, e o jovem dono da loja dirigiu-se
imediatamente para a janela. Virou-se lentamente e viu Filipe atrás dela, tão perto que
involuntariamente deu um passo para trás, pois não era agradável tê-lo em tal proximidade.
Como era inevitável, a ironia e a caçoada que começava a associar a ele apareceram em seus
olhos negros e inteligentes, para seu profundo desgosto.
— A senhorita me surpreende, esta é uma parte de Lorenzito onde nunca esperei
encontra-la.
— Por que não?
Morgana tentava fazer com que sua voz parecesse natural e despreocupada, mas estava
aflita e não queria deixar transparecer isso. Ainda mais que se sentia perturbada com a
presença dele, vendo-o examiná-la com os olhos críticos de alto a baixo, pois não estava
usando o costumeiro uniforme e véu. Seu ressentimento cresceu, ao perceber que ele se
encantava com o que via.
— Não pensei que tivesse a coragem de se aventurar sozinha pelo desconhecido. Preciso
reformular minha opinião sobre você.
Morgana deu de ombros, pretendendo desta vez esconder seu aborrecimento.
— Não quis ficar na parte moderna da cidade.
Os brilhantes olhos negros estavam semicerrados, enquanto ele a observava.
— Então decidiu explorar os arredores. Mas cuidado, senhorita; especialmente se vier a
Lorenzito como a austera e irreprovável enfermeira Carol. Pode descobrir coisas que a
assustarão.
Morgana surpreendeu-se com as palavras, dele e reparou no costume iro tom de mofa que
tanto detestava em sua voz; encarou-o duramente.
— O senhor se refere à cidade ou ao povo?
Esse jogo era perigoso; era como fazer guerra em campo inimigo. Sem contudo perder seu
habitual sorriso de caçoada, ele respondeu sem se alterar:
— Talvez a ambos — Virou-se para o jovem português, que voltava com o colar nas mãos,
ficando visivelmente surpreendido. — Você escolheu um enfeite perigoso para uma inglesa
fria usar.
Olhou-o interrogativamente, sua curiosidade era maior do que a firme determinação de
nunca lhe pedir nenhuma informação.
— 0 que é isso?
— Talvez eu não deva dizer-lhe.
"Ele fica aí parado e me olhando como se eu fosse uma mosca presa num papel por um
alfinete", pensou Morgana, mal-humorada.
— Se eu lhe disser, talvez tenha medo de comprá-lo.
Morgana ergueu a cabeça desafíadoramente, cada vez mais irritada pela brincadeira.
— Não creio, senhor. Já fez o possível para me amedrontar, mas não sou supersticiosa.
Desviou os olhos da face sorridente dele, sentindo uma inusitada falta de ar; mas, embora
não quisesse dar o braço a torcer, estava preocupada com o colar, querendo saber o que
significariam as inscrições nos discos, supondo que fosse a Isso que ele se referia. Em todo
caso, pretendia comprá-lo de qualquer maneira. Com sua ajuda, acertou o preço, pagou-o e
desafiadoramente colocou-o no pescoço, deixando os discos caírem na abertura do decote.
Segurando-a firmemente pelo braço, saíram da loja e se dirigiram para o enorme carro
preto que ela tão bem conhecia. A pressão de sua mão fê-la experimentar novamente uma
estranha falta de ar. Aborrecia-se consigo mesma por se deixar afetar tanto pelo seu en-
canto e magnetismo, mesmo quando implicava com ela. Não podia esquecer como era atraente
quando sorria, exatamente como fizera uns minutos atrás.
Não estava sorrindo, agora. Pelo contrário, tinha a testa franzida, o olhar preocupado.
Então ela se lembrou, tardiamente, de sua escapada com o carro.
— Onde está Júlio? — perguntou ele rispidamente. — Por que permitiu que você viesse a
Lorenzito sem acompanhá-la?
Enquanto falava, procurava tanto por. ele quanto pelo carro, e Morgana foi obrigada a
admitir que ambos não se encontravam ali. A expressão de seu rosto fê-la sentir-se como se
tivesse praticado um crime, e descobriu que estava um pouco assustada, embora aparentasse
calma.
Ele não respondeu de imediato, mas seus bem formados lábios se comprimiram, e,
enquanto abria a porta de seu carro, disse:
— Entre, por favor, sim?
Notou imediatamente a mudança de tom na voz dele, um pouco mais amigo, e sentiu-se
como uma criança travessa, enquanto se sentava no banco da frente, como lhe tinha sido
ordenado. Para seu desgosto, obedecera sem reclamar e sentia-se nervosa. Pela primeira vez
pensou que sua atitude de desafio poderia trazer consequências desagradáveis para Júlio.
Foi esse pensamento o que a envergonhou. Afinal, a satisfação por ter desafiado uma
ordem dele era grande, mas não compensava os problemas que o pobre Júlio teria que
enfrentar, quando o marquês o encontrasse. Isso era um assunto que deveria ser esclarecido
sem mais delongas.
— Júlio não é culpado de coisa alguma, senhor — começou a dizer, com certa dificuldade,
enquanto lançava olhares furtivos para o rosto pétreo e sisudo dele. — Eu insisti em vir
sozinha!
— Não tenho dúvidas de que Júlio não é culpado — respondeu friamente. — Tudo indica
que você não respeita os costumes da ilha, srta. Carol; mas, se pretende se demorar aqui por
algum tempo, é melhor que os observe.
— Não costumo precisar de companhia, onde quer que eu deseje ir.
— Acredito que não, mas em Juamasa, por favor, respeite nossos costumes. — E sem
mesmo olhá-la, perguntou: — Já terminou seus afazeres na cidade?
— Sim, senhor. — Mesmo que não os tivesse terminado, resolvera que não admitiria que
ele a levasse para onde quisesse, esperando por ela educadamente para conduzi-la para casa
como uma criança perdida.
Somente quando deixaram a cidade para trás e enveredaram pela estrada cheia de
árvores, foi que ele olhando-a disse:
— Por que conserva seu cabelo escondido? Ele tem uma cor rara e muito bonita.
A observação fora feita no mesmo tom de voz impessoal que usara quando comentara o
fato de ela não gostar dele, e novamente não acreditou no que ouvia. Quando compreendeu o
elogio, uma onda de sangue coloriu-lhe as faces, pois tomava isso quase como um insulto.
— Você se ruborizou? Por acaso é proibido mencionar isso? - Morgana olhou-o de relance
e, vendo-o sorrir encantadoramente, sentiu-se estranhamente encantada por ele.
— O senhor me pegou de surpresa! — Reconheceu que essa observação parecia muito tola,
mas não lhe ocorreu nada melhor. Nunca se podia prever o que o enigmático Filipe faria ou
diria, quando resolvia brincar de gato e rato com ela.
— Então? Não está acostumada a ouvir elogios? O que há com os homens ingleses, não tem
olhos?
— Creio que reparam somente em coisas de maior importância— respondeu finalmente,
sabendo que ele esperava alguma resposta.
— E você não é de maior importância? — A voz dele ainda possuía aquele suave encanto, e,
mesmo sem olhá-lo, Morgana sabia que ele estava sorrindo. — Acho que você mistura um pouco
as coisas mocinha...
Desta vez, não respondeu, mas reconheceu que havia um menor antagonismo entre eles,
mesmo sabendo que se deixara enredar por um cumprimento falso e vazio. Sim, devia ter sido
vazio, pois não era de se esperar que o marquês de Alviro Ríalta achasse realmente alguma
coisa de interessante na simples enfermeira Carol.
Rodaram algum tempo em silêncio. Foi uma surpresa constatar que não pensava em Phillip
há várias horas e precisava descobrir o porquê, pois geralmente ele ocupava sempre seus
pensamentos, e ela tinha que se esforçar para afastá-lo. Por uns tempos o tinha esquecido, e
agora, ao lembrar-se dele novamente, a angústia que costumava sentir parecia ter diminuído
de intensidade. A imagem dele já não era tão viva em sua mente e parecia fadada a se tornar
cada vez mais indistinta. E o que era mais importante é que se esquecera por completo do que
a esperava dali a dois meses. Talvez a explicação estivesse no fato de que, apesar de não
gostar de Filipe, agora se preocupava em descobrir uma nova faceta de seu complexo caráter.
Era bem difícil pensar noutra pessoa, quando em companhia daquela tão irritante mas, ao
mesmo tempo, como era obrigada a admitir, tão encantadora pessoa. Somente por isso, ela se
sentia grata, e enviou-lhe um luminoso sorriso. Por acaso ele a olhava nesse momento e então
perguntou-lhe:
— Seus pensamentos são agradáveis?
— De certo modo, sim.
— Posso saber quais são?
A pergunta foi tão repentina que ela deu uma gostosa risada, e, meio desconfiado, ele quis
saber:
— Eu a divirto?
— Não, eram somente meus pensamentos.
Imaginou, curiosa, qual seria sua reação, se soubesse que ocupava tanto de seus
pensamentos, e como se sentiria com o fato de estar ela condenada a morrer dali a dois
meses. Qual seria? Certamente, nem mesmo um estranho ouviria impassível essa informação e
ele não era um estranho. Perderia aquela irritante fleuma? Talvez suas finas e aristocráticas
mãos apertassem o volante. Poderia até perder, por um instante, o controle do carro, com a
surpresa.
Mas poderia isso realmente afetá-lo? O marquês de Alviro Rialta era tão importante
personagem que a tragédia de Morgan a Carol não devia significar muito para ele. Havia uma
certa dose de amizade entre eles, mas era como entre Neli e ela. Provavelmente ficaria um
tanto chocado qualquer ser humano ficaria; mas de seu altivo afastamento, com certeza, só
lhe transmitiria uma simpatia impessoal. E Phillip? Se soubesse, como se comportaria? Será
que, tomando-a nos braços e apertando-a de encontro a seu coração, como o fazia outrora,
conseguiria convencê-la, entre beijos e abraços, a esquecer todo o tempo passado, a se casar
com ele, ainda que por pouco tempo, fazendo perfeitos seus últimos meses de vida?
Como o amara, um dia! Resolveu reagir. Estaria seu amor por ele se acabando? Seria por
isso que sua imagem já não era tão clara e forte? Podia ser que, sem perceber, já estivesse
adquirindo o perfeito controle de seus pensamentos, ou então estivesse acontecendo o que
Neli previra; seu entusiasmo por ele estava diminuindo.
— Não são tão agradáveis agora?
Novamente a voz de Filipe trouxe-a de volta à realidade, tirando-a dos caóticos
pensamentos e tomando-a de surpresa.
— O que quer dizer?
— Você estava com uma expressão muito grave, srta. Carol. Sente-se desgostosa? Seu
rosto é expressivo e revela claramente quando você está feliz ou não.
— Estava pensando em meu pai. — Morgana disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça,
esperando que ele ficasse convencido, o que era esperar muito.
— E qual o motivo da testa franzida?
— O pensamento de tê-lo perdido.
— Você o amava muito?
— Naturalmente!
— Às vezes há pessoas que não se dão bem com os pais. Morgana sacudiu a cabeça. — Nós
éramos muito felizes, juntos e tudo aconteceu tão rapidamente. Ao voltar para casa, um dia,
encontrei-o sentado, muito quieto, numa cadeira. A princípio pensei que estivesse dormindo. —
Afundou-se no estofamento do carro, percebendo melhor, de repente, com quem estava
falando. Filipe não podia estar interessado em ouvir a história de uma vida de família comum
como a sua. — Desculpe, senhor — disse formalmente —, creio que o estou aborrecendo, pois
deixei meus pensamentos fluírem livremente.
— Exatamente — disse ele com brandura — e esqueceu-se de quem eu sou e de que não
gosta de mim. Mas está enganada; gostaria de ouvir mais sobre sua vida na Inglaterra.
— Vivemos uma vida muito comum e não creio que possa interessá-lo.
— Você não sabe o que me interessa ou não.
Muito bem, pensou Morgana séria. Ele pediu. Então, com deliberada ênfase, descreveu a
pequena casa suburbana onde morava, falou da idosa tia que a criara e que nunca conseguira
compreender por que preferia ler seu livro trepada num galho da velha macieira em vez de
confortavelmente instalada numa poltrona.
Filipe olhou-a sorridente.
— Eu compreendo. Há sempre um espírito de aventura, quando se senta, ainda que
inconfortavelmente, no galho de uma árvore.
— Também algum perigo — acrescentou Morgana. — Nunca fui muito boa nisso. Tudo ia
bem quando eu conseguia me empoleirar sem problemas; mas um dia ou outro eu caía,
estragando minhas roupas, que a pobre tia Ethel tinha que consertar. Devia ter sido mui to
imprudente.
— Um dia eu também lhe mostrarei a árvore de onde costumava cair.
Morgana ouviu sua voz divertida com alguma surpresa. Era difícil imaginar o marquês de
Alviro Rialta como um moleque que subia em árvores e caía delas. Isso o tornava humano, por
mais estranho que parecesse.
— Vou levá-la à Vila Francisca — disse Filipe, depois de algum tempo. — Sinto que não
possa entrar, pois isso me atrasaria para um compromisso. De qualquer forma, Júlio pode ir
comigo ao palácio e arranjarei para que seu carro seja trazido de volta.
— Sinto muito ter causado tantos transtornos — disse ela, admirando-se de seu próprio
tom de voz. Sentia-se envergonhada pelo impensado ato de rebeldia que praticara.
Provavelmente, era por alguma coisa que ele havia dito. Enquanto permanecesse em Juamasa,
seria melhor tentar respeitar os hábitos locais para talvez não dar às pessoas uma impressão
errada a seu respeito, mesmo que isso fosse de encontro a seu espírito de independência.
— Não há transtorno algum.
Sua voz polida e formal fez com que ela o encarasse, mas sua expressão era impenetrável.
Novamente sentiu a irritação e o antagonismo crescendo dentro dela, de tal forma que todo o
seu bom humor desapareceu, quando viu Júlio, ao mesmo tempo orgulhoso e excitado, tomar a
direção do carro para reconduzi-lo ao palácio. 0 fato de um senhor idoso estar tão feliz por
dirigir o carro do marquês deixou-a ainda mais desgostosa. Pensando bem, Filipe era somente
um homem, embora possuísse quintas em Portugal e quase toda Juamasa.
— O que achou da cidade? — perguntou Neli, quando Filipe se foi.
Morgana sorriu, esquecendo sua recente animosidade e respondendo entusiasmada:
— Linda! — Abriu um pouco mais o decote para mostrar o colar, que contrastava com a
pele de seu pescoço. — Não resisti a tentação de comprar isto para mim.
Neli chamou-a para perto e Morgana tirou o colar, estendendo-o para ela e observando-a
com interesse, enquanto Neli o examinava cuidadosamente.
— Você teve sorte — disse, depois de algum tempo. — Acho que isto é uma peça muito
antiga. Deve ter vindo para cá num dos navios, muitos anos atrás. — Então sorriu meio
maliciosamente. — Uma vez que está escrito em árabe, você deve pedir a Felipe que traduza
para você.
Morgana olhou-a surpresa:
— Ele entende árabe?
— Creio que sim, pois tem interesses na Líbia. - Naturalmente que tinha, pensou
resignada. Parecia ter interesses em todas as partes do mundo e, com certeza, devia falar as
respectivas línguas dos países. Era bem dele essa inabalável segurança!
— Como o encontrou em Lorenzito? — perguntou Neli, enquanto lhe devolvia o colar.
— Ele apareceu justamente quando eu estava encontrando dificuldade para conseguir
comprá-lo; resolveu tudo para mim, não sem aproveitar para me ironizar um pouco. — Depois
acrescentou pensativamente: — Quando percebeu que eu estava desacompanhada e que fora
dirigindo sozinha para a cidade, mostrou-se descontente, mas sempre de uma maneira fria e
cortes.
Neli ria divertida.
— Você, decididamente, não gosta dele, não?
— Não tenho culpa! — Sabia que sua voz soava desafíante, mas não pôde conter-se. —
Com sua maneira gentil, ele lhe diz exatamente o que fazer, e a gente acaba concordando com
ele mesmo sem querer. É convencido, arrogante e prepotente.
— Não. Você está enganada a seu respeito. — Neli fez uma pausa enquanto sacudia a
cabeça pensativamente. — Não é arrogância. Seu orgulho é quase inconsciente. Deve lembrar-
se de que sua família é dona da ilha há inúmeras gerações. Quanto a ser prepotente... — riu
abertamente — ... acho-o muito parecido com você. ..
Morgana deu de ombros.
— Bem, realmente isso não importa muito. Não vai afetá-lo o fato de eu gostar ou não
dele.
— Contudo, você gosta de perguntar sobre ele. Garanto a você e ele não é convencido. —
Parou de sacudir a cabeça e Morgana surpreendeu-se, ao ver um toque de simpatia em seus
olhos. — Tanto é assim que ele não acredita que alguém possa amá-lo sem saber quem é ele.
Morgana não entendeu de momento.
— Como assim?
— É simples, minha querida. Filipe está convencido de que, se algum dia o amor entrar em
sua vida, nunca terá a certeza de que não foi poi dinheiro. Muitas mulheres o perseguiram
durante anos, mas ele não tem consciência de seu próprio encanto pessoal.
— Ele é louco! — Fez um gesto de impaciência. — Basta que se olhe num espelho! Ele é o
mais atraente homem que já vi em toda minha vida, e estava acostumada a ver de todos os
tipos, no St. Chistopher. — Reparou no olhar zombeteiro de Neli e corou visivelmente. — Isso
não tem nada a ver com o fato de eu não gostar dele. Nem mesmo seu pior inimigo poderá
negar que ele é atraente.
— Muito honesto de sua parte, minha querida — replicou Neli brandamente, mas ainda com
um esquisito brilho no olhar. — Tente lembrar-se do que eu lhe disse, na próxima vez que ele
for cínico se referindo ao amor. Não é natural que um homem de seu tipo pretenda excluir o
amor de sua vida. Isso explica sua atitude com relação a qualquer espécie de emoção.
— É, creio que sim — concordou Morgana —, mas nunca me pareceu sensível a qualquer
espécie de emoção.
Neli negou novamente:
— Não, minha querida, você se enganou outra vez. Ele é perfeitamente normal, a esse
respeito; talvez, sendo português, sinta mais intensamente o amor. Quase que tenho pena
dele.
— Bem, pois não tenha — disse Morgana, aborrecida —, porque provavelmente sua
costumeira prepotência não dá à moça nem oportunidade de pensar no assunto.
Em todo o caso, pensou, não estava convencida de que Filipe fosse capaz de amar, um dia.
Era capaz, isso sim, de caçoar das emoções das pessoas mais suscetíveis. Pensando assim,
sentiu-se novamente irritada. Resumindo, não gostava dele e não via motivo para mudar de
opinião.

CAPÍTULO 5

Alguns dias depois do episódio de Lorenzito, quando Júlio levara Filipe para o palácio e
depois, acompanhado por um dos motoristas dos Rialta, fora até a cidade buscar seu carro,
Morgana viu-se recordando os anos que passara no St. Christopher.
Isso não era de admirar, pois o correio da manhã lhe trouxera uma carta de Jenny
Marsden. A moça escrevera-lhe com uma frivolidade algo forçada, como se se lembrasse todo
o tempo do que aconteceria à amiga, apesar de nada disso ser mencionado na carta. Contudo
Morgana gostou de recebê-la e assim ficar sabendo das novidades do St. Christopher. A
rotina a que se habituara durante tantos anos lhe parecia agora pertencer a um outro mundo.
Lá, na tropical ilha de Juamasa, os familiares odores do hospital eram substituídos pela
maresia ou pela fragrância das flores que entrava por sua janela.
Deixando a carta de lado e olhando o relógio, viu que já era hora de massagear a perna de
Neli.
Esta lhe perguntou assim que ela entrou no quarto:
— Nunca se esquece da hora? Sempre pontual.
Morgana sacudiu a cabeça negativamente.
— Faz parte do meu treinamento não esquecer. — Como soasse um pouco sério demais,
acrescentou: — Devia ouvir o que a enfermeira-chefe dizia sobre esquecimentos!- Examinou a
perna e disse: — Vai indo muito bem. Creio que logo poderemos começar o novo estágio de
exercícios. Dentro em breve estará andando normalmente.
Enquanto falava, uma leve sombra passou por sua face. Quando isso acontecesse, seu
tempo de vida seria realmente muito curto.
Como naquele dia era esperada na casa da senhora de Acquaras, para o almoço, depois de
deixar Neli confortavelmente instalada num sofá, perto da janela aberta que dava para o
jardim, subiu para tirar o uniforme.
O convite fora feito somente na véspera e Morgana estava um pouco preocupada. Era a
primeira vez que entraria na vida social de Juamasa e, apesar de Neli lhe garantir o sucesso,
sentia-se um tanto insegura.
A casa dos Acquaras era um pouco afastada de Lorenzito, situada -no meio de jardins não
tão pretensiosos como os do palácio. A casa, em si, era maior do que a que ela ocupava com
Neli, mas nem de longe possuía a magnificência do palácio.
Uma empregada uniformizada desceu para abrir a porta do carro e então a própria
senhora apareceu, enquanto Júlio levava o carro para trás da casa. Dentro ela encontrou, pela
primeira vez, Celestina e Marita Acquaras. Morgana viu-se estudando as duas portuguesinhas
detalhadamente, depois das apresentações formais, porque elas eram diferentes de todas as
mocas que já conhecera.
Celestina, a sobrinha, era a mais velha das duas e observou Morgana com indiferença. Era
uma moça bonita, de feições tipicamente portuguesas, incluindo o basto cabelo negro e
ondulado. Suas maneiras eram estudadas e insolentes, mas, estranhamente, Morgana se sentiu
mais divertida que ofendida. Então essa era a moca que deveria casar-se com Filipe!
Formariam um bonito casal.
Virou-se para Marita e, por trée da formalidade de um primeiro encontro, sentiu que ia
gostar dela. Marita era apenas alguns anos mais nova que a prima e nada tinha da sofisticação
da outra. O sorriso que lhe dirigiu era quase o de um moleque travesso.
Também foi apresentada ao sr. Manuel Corestina, um homem magro e moreno,
aparentando uns vinte anos, provavelmente um pouco mais velho do que Marita. Soube depois
que Filipe e o dr. Cari Christen também eram esperados.
Depois de algumas observações sem importância, Marita perguntou:
— Quer entrar em nossa loteria das flores, srta. Carol?
— Não tenho a menor ideia do que seja isso — respondeu Morgana.
— É uma coisa em que toda a moça deve entrar. — A voz dela era alegre. As maneiras
formais pareciam custar-lhe muito manter, — Cada flor significa uma coisa; uma é dança,
outra é um presente ou seja lá o que for, dependendo da flor escolhida.
— Parece interessante — comentou Morgana sorrindo —, mas quem providencia os
presentes?
Marita olhou-a surpresa.
— Filipe naturalmente. Você já o conhece.
Enquanto Morgana confirmava que o conhecia, teve um pensamento ironico.
"Naturalmente, Filipe." Quem mais senão o marquês de Alviro Rialta? O dono de quase toda
Juamasa. O benevolente senhor que escondia uma mão de ferro sob a luva de veludo de seus
presentes.
Percebeu então que Celestina a estava observando com um ar insolente e zombeteiro.
Virou-se para Marita a tempo de ver o olhar envergonhado que esta dirigia ao rapaz moreno
que lhe soma em retribuição, na qualidade de futuro noivo de uma Acquaras,
— Ainda não disse se quer entrar em nossa brincadeira, srta. Carol.
A voz de Celestina era clara, mas Morgana percebeu que o cérebro por trás daqueles
olhos negros era muito ativo. Achava que não se importaria de ter Celestina como inimiga.
— Mas certamente que vai entrar — interrompeu Marita, antes que Morgana pudesse
responder — e talvez ela ganhe a rosa vermelha.
— O que há de tão especial nisso? — quis saber Morgana.
— Por si só já não diz tudo? — perguntou Celestina. — A rosa é o símbolo do amor.
Confere à moca o direito de beijar quem ela quiser.
— E se ela recusar? — Esforçava-se para que sua voz soasse natural e o resultado foi
quase satisfatório.
Foi Manuel quem respondeu, lançando um olhar significativo para Marita:
— Os portugueses nunca recusam beijos, senhorita.
Quase imediatamente Morgana captou a expressão de Celestina. Havia em seus lábios
adoráveis um sorriso satisfeito, que fez Morgana imaginar que ela já tirara a rosa vermelha e
oferecera o presente de seu beijo ao marquês.
Teria Filipe recusado? Era pouco provável. Ele era um homem e Celestina uma moça
encantadora. Teriam seus distantes olhos negros se enternecido ao contato daqueles lábios
excitantes? Reconheceu que um estranho sentimento nascera em seu último. Não era aquele
sentimento de desprazer e implicância que nascia cada vez que ele era mencionado; ao
contrário, era algo bem diferente, que ela não conseguia definir.
''Mas o que me importa isso?", pensou de repente. "Se ele toma Celestina em seus braços
e baixa seu rosto moreno para encontrar seus lábios desejosos..." Morgana sentiu seus nervos
estremecerem ante a espantosa descoberta: importava sim, e muito! Mas não teve tempo de
ae aprofundar no assunto, pois o próprio Filipe entrou na sala e nãoo queria que alguém
desconfiasse do que lhe ia na mente.
As moças receberam-no efusivamente, falando em português. Celestina mais sofisticada e
Marita como sempre exuberante, ignorando os olhares reprovadores da senhora e de Manuel,
mas era claro que não se comportava visando Filipe como futuro marido, como fazia Celestina.
Filipe correspondia aos cumprimentos com seu charme habitual, quando Morgana percebeu
que ele a vira. Considerando as circunstâncias de seu último encontro, estava curiosa para ver
como a cumprimentaria; mas parecia ter esquecido tudo.
Seguiu-se uma conversa descontraída, com Filipe sempre encantador, desta vez sem
ironias nem afastamentos. Morgana observou o comportamento de Celestina. A presença dele
acrescentara a sua exótica beleza um novo encanto, que fazia sobressair ainda mais as linhas
perfeitas de seu rosto. Era uma figura esplêndida, por quem qualquer homem se apaixonaria
facilmente, até mesmo o distante e inacessível Filipe.
Aparentemente estavam esperando o dr. Christen. que ficara retido no hospital. Um
mensageiro trouxera um cartão dele desculpando-se pelo atraso. Um caso urgente exigia sua
atenção e mais tarde telefonaria para falar com a senhora Acquaras.
Depois de reorganizada a mesa com a retirada do lugar do médico, todos se sentaram para
a refeição. Morgana achou a comida diferente mas muito apetitosa, apesar de
constantemente distraída por estar Filipe sentado à sua frente.
Lutava contra a vontade de olhá-lo, quando ouviu a senhora perguntando-lhe:
— Gostou de sua visita a Lorenzito, srta. Carol?
— Muito — assegurou-lhe Morgana, evitando encontrar o olhar de Filipe enquanto falava.
— Soube que foi até lá dirigindo seu carro. Talvez não soubesse de nossos costumes.
Morgana teve um pequeno ímpeto de rebeldia, mas controlou-se e disse simplesmente:
— Já tive conhecimento de alguns deles, senhora. — E, ainda sem olhar para Filipe,
acrescentou: — Fiquei tão receosa, que decidi atendê-los no futuro. Como pôde notar, hoje
Júlio me trouxe.
Houve silêncio um tanto tenso: Morgana delicadamente cortou um pedaço de galinha que
tinha sido temperada com pímenta-doce e açafrão.
Novamente se via travando uma batalha em campo inimigo e esperou calmamente que
Filipe dissesse alguma coisa. Quando finalmente o fez, foi com estudada deliberação.
— Não acredito que você seja uma pessoa que se deixe intimidar — disse ele suavemente;
— para mim é uma surpresa que tenha se decidido a seguir nossos costumes, considerando que
são contrários a sua origem e instrução.
Sua cortesia e encanto eram tão evidentes que Morgana sorriu-lhe agradecida. Tinha
senso de humor esse atordoante Filipe e viera en seu auxílio.
— Quem lhe falou a respeito de nossos costumes? — pergunto Celestina, fixando Filipe.
— Eu — replicou.
— Ah! Mas todas as mulheres lhe obedecem, Filipe — interrompeu Marita, enquanto
Celestina sorria friamente, concordando de maneira fria e sofisticada, irritando
profundamente Morgana.
— Nem todas — disse Filipe, e momentaneamente seus olhos negros fixaram Morgana, que
abaixou a cabeça fingindo examinar o que estava em seu prato.
— Está aproveitando sua estada em Juamasa? — A sra. Acquaras tentava desviar a
conversa, que estava tomando um cunho muito pessoal, e Morgana ficou feliz por poder mudar
o assunto.
— Muito! Apesar de até agora ter conhecido muito pouco da ilha.
— Um passeio de carro pela ilha toda é muito interessante para estrangeiros — continuou
a senhora e novamente Morgana sorriu.
— O marquês ofereceu-se para me levar a passeio e conhecer a ilha toda. — Estava
usando o mesmo tom de voz dele, bem como suas maneiras.
Quase acidentalmente seus olhares se cruzaram, apesar de sua determinação de não olhar
para ele, e ela surpreendeu um ar de satisfação em seu rosto. Desviou os olhos rapidamente,
pois lhe sorria amavelmente, e não pretendia se deixar envolver por seu encanto e irresistível
magnetismo. Não era agradável que fraquejasse daquela maneira e que seu humor pudesse ser
tão inconstante. Queria ter a certeza de que não era como a maioria das mulheres que lançam
sorrisos adoráveis inadvertidamente e que continuava fiel à determinação de ser
independente e invulnerável a seus encantos.
— Ainda não disse se quer ou não entrar na loteria das flores — lembrou Marita. Seu
sotaque era terrível, enquanto se esforçava para pôr as palavras na ordem certa.
— Então já tomou conhecimento da nossa loteria das flores — comentou Filipe; e
novamente viu que ele a observava. Ele devia ser um crítico experiente em tudo, pensou
Morgana. Até no amor, para ir direto ao ponto. A despeito do que lhe dissera. Ele devia saber
da atração que exercia sobre as mulheres. Devia ter consciência do valor de uma insinuante
carícia na voz, de uma suave palavra sussurrada em português e da força meio selvagem de
suas mãos nos ombros de uma mulher. Oh! sim, ele era perturbador... Mas será que nada o
perturbava?
— Sim, eu soube da loteria — respondeu, controlando o rumo que tomavam seus
pensamentos.
Marita sorriu.
— Esperava talvez tirar a rosa vermelha?
— A srta. Carol certamente rezará para que o destino não lhe seja tão cruel — observou
Filipe.
— Seguramente o destino não desperdiçaria seu tempo com uma inglesa como eu —
replicou Morgana.
— Destino é uma maneira de designar acontecimentos inesperados. — Seus olhos fitavam-
na com indisfarcável interesse. — Imagino o que faria se tirasse a rosa vermelha!
— Provavelmente a daria para a moça mais próxima de mim. — Morgana procurava ser
natural, mas continuava sentindo-se como uma mosca na ponta de um alfinete que ele
observava curiosamente.
— Isso não é permitido — disse Celestina, dirigindo-lhe um daqueles olhares frios e
insolentes tão próprios dela. — Ouvimos falar tanto da coragem britânica; talvez na ocasião
encontre alguma dentro da senhorita, não?
Morgana levantou os ombros com a mesma indiferença que se esforçara para mostrar em
sua voz.
— Talvez; você deverá esperar para ver, se houver ocasião?
— Você não gosta de beijos? — perguntou a irrequieta Marita.
— A srta. Carol prefere a fria indiferença inglesa — disse Celestina.
Dissera isso polida e casualmente, mas Morgana sentiu que de alguma maneira ela estava
tentando menosprezá-la.
— Penso que isso depende de quem está se beijando — retrucou. No entanto o que faria
se por uma fantasia da sorte tirasse a rosa vermelha? Phillip fora o único homem a quem
beijara e, mesmo quando noivos, nunca em público. A ideia de beijar outro homem qualquer era
impossível e desejou que o assunto morresse, pois a qualquer instante Filipe diria alguma
coisa.
— Vocês embaraçam a srta. Carol — foi o que ele disse, olhando-a com uma ponta de
ironia. — Beijos, como o amor, são coisas que não se discutem na Inglaterra.
Marita virou-se para ela com o ar mais inocente do mundo e Morgana começou a acreditar
que a expressão da moça não era tão verdadeira; ela devia ser muito alegre e espirituosa, mas
gostava bem de uma situação como aquela.
— Então sobre o que se conversa? — perguntou a jovem Acquaras, como se fosse
impossível haver outro assunto que fosse tão interessante quanto esse.
— Sobre uma variedade de outros assuntos — replicou Morgana - O amor não é a única
coisa do mundo.
— A srta. Carol vai lhe dizer que o amor é um sinal de fraqueza que deve ser controlado e
até mesmo ignorado — informou Filipe. Morgana entendeu plenamente as zombeteiras
inflexões de su voz.
Ainda mais uma vez, surpreendeu o olhar frio e mordaz de Celestina sobre ela.
— Mas as inglesas não têm a menor ideia do que é o amor, Filipe. O amor não pode ser
controlado ou ignorado. Não, nunca serão capazes de amar como nós!
As palavras tinham sido ditas para calculadamente excluir Morgana do círculo, mas foi o
calado Manuel quem interveio desta vez na conversa.
— Talvez aqui em Juamasa a srta. Carol tenha a oportunidade de aprender isso. — Seu
amável e simpático sorriso demonstrava amizade e Morgana percebeu, não sem alguma
surpresa, que ele também não gostava muito de Celestina.
— Quem sabe? — replicou Morgana. — Disseram-me que é uma coisa que vem devagarinho
no primeiro encontro. É uma atração que se torna dia a dia mais forte até queimar tudo por
dentro. — Ao terminar, seu tom de voz era francamente caçoísta. Não era tão difícil lidar
com aquela gente sofisticada, como temera a princípio; era até divertido, ainda que não
estivesse acostumada a cruzar armas com alguém como Celestina. Talvez a razão dé estar se
saindo tão bem fosse porque ali presente não estava ninguém que significasse alguma coisa
para ela.
— Você tem boa memória — disse Filipe quando ela se calou. — Lembra-se também de que
eu disse que essa sua maneira inglesa de amar talvez não fosse suficiente aqui em Juamasa?
— Eu me lembro, senhor — levantou os ombros descuida da mente enquanto acrescentava
— contudo, não estou interessada nesse tipo de emoção.
— Não está interessada e não acredita nele — disse Filipe brandamente —, mas cuidado,
senhorita, não é prudente desafiar o destino abertamente.
Celestina riu e decretou:
— Os ingleses são covardes no que se refere ao amor; não é verdade, Filipe?
— Talvez demonstrem sua coragem casando-se — replicou, provocando francamente
Morgana. — Concorda comigo, senhorita?
Morgana assentiu, determinada a não mostrar que não era ignorante no assunto.
— Nós ingleses somos muito patriotas — defendeu-se, pensando que poderia contornar o
assunto com destreza. — Cumprimos nossas obrigações com a nação.
— Naturalmente — concordou Filipe.— A tradicional obstinação britânica
- Obrigada, senhor — disse polidamente
- Percebe-se que o assunto aborrece a srta. Carol— observou Celestina languidamente. —
Soube que é enfermeira — acrescentou virando-se para Morgana, que no momento achava que
a conversa aborrecia mais a Celestina do que a ela.
— Você é enfermeira? — perguntou Marita antes mesmo que Morgana pudesse responder.
— É uma pena que o dr. Christen esteja atrasado. — Seus olhos eram intrigantes como
Morgana suspeitara anteriormente. — Teria muito o que conversar com ele — concluiu.
Aconteceu de Morgana olhar para Filipe no momento e viu que a ideia não o agradava. Isso lhe
deu a firme determinação de conhecer o dr. Christen assim que fosse possível.
— Gostaria muito de encontrá-lo — disse calmamente e satisfeita com a silenciosa
desaprovação de Filipe.
Depois do almoço, o desejo de encontrar o dr. Christen foi satisfeito mais depressa do
que esperava. Estavam todos na sala, quanto entrou um homem magro e muito louro, olhos
azuis, de estatura mediana. Morgana não precisou ser apresentada para saber de quem se
tratava. Quem mais podia ser senão o dr. Christen. Gostou dele imediatamente, tanto quanto
desgostara de Filipe.
A simpática pronúncia germânica revelava sua origem suíça, mas, quando cumprimentou a
todos, Morgana quase esperou que ele batesse os calcanhares. Ao lhe ser apresentado, ele
disse:
— Ouvi dizer que é enfermeira, srta. Carol.
— Sim, doutor. — Morgana teve a ridícula sensação de que se encontrava novamente de
volta ao St. Christopher, onde era obrigatório o maior respeito das enfermeiras para com os
médicos. Alguma coisa em suas maneiras deve ter demonstrado isso, pois, rindo, o médico
suíço apressou-se em dizer:
— É evidente, mas, por favor, não me trate como um dos médicos do seu hospital londrino.
— Sorrindo, dírigiu-se aos outros: — As enfermeiras dos hospitais de Londres às vezes me
assustam; tão inflexíveis e correias!
Marita riu abertamente e até a senhora Acquaras se permitiu sorrir. Somente Celestina
permaneceu languidamente desinteressada. Morgana não ousou olhar para Filipe. Tivera uns
momentos alegres com Cari Christen e não pretendia deixá-lo estragar tudo com seu cinismo;
faria todo o possível para impedir.
— Em que hospital trabalhava?
— No St. Christopher. — Quando se virou para olhá-lo, percebeu que uma sombra lhe
toldara os belos olhos azuis; alguma coisa muito triste e amarga devia lhe ter vindo à mente.
Foi isso tão rápido que por um segundo pensou que podia ser imaginação sua; mas sua intuição
e vivência lhe garantiam que não.
— Conheço o St. Christopher. — Agora não havia o mais leve traço de tristeza em seus
olhos. — Deve visitar nosso hospital em Lorenzito, srta. Carol.
— Gostaria muitíssimo — disse Morgana instantaneamente. Percebeu que Marita estava
conversando com Manuel e que Filipe não prestava atenção ao que ela e o doutor falavam, pois
dividia seus encantos entre Celestina e a sra. Acquaras.
Inconscientemente, relaxou. O dr. Christen era uma pessoa com quem podia conversar
sem constrangimento ou tensão. Tinham um interesse comum e podiam se tornar amigos.
Morgana, tendo perdido o constrangimento, aproveitou realmente a tarde, apesar de
notar os olhares maliciosos de Marita para ela e o médico e também a aparente indiferença
de Filipe, que não se aproximou mais deles.
Cari levantou-se, desculpando-se por ter de deixá-los, pois não podia se ausentar por
tanto tempo do hospital, e depois que ele se retirou a reunião terminou.
Morgana voltou para a Vila Francisca com Júlio, que parecia ter aproveitado muito o
tempo em mexericos com as criadas dos Acquaras. Quando entrou em casa, Neli a recebeu
com um sorriso de boas-vindas, abandonando o livro que estava lendo.
— Alô! Minha querida! Divertiu-se? ,
— Muito! — Morgana deixou as luvas e a bolsa branca em cima da mesa, antes de se virar
para ela. — Não foi nem um pouco assustador como imaginei.
Neli ajeitou-se um pouco nas almofadas.
— Claro que não; e o que achou das moças Acquaras?
Morgana sorriu involuntariamente.
— Bem, era quase inevitável que eu gostasse de Marita, mas não posso dizer o mesmo de
Celestina — disse um tanto em tom de desafio, preparada para o caso de "Neli contestar sua
opinião.
— Também não a aprecio muito; portanto você pode ser franca. Suponho que ela passou o
tempo todo tentando fisgar Filipe, como de costume.
— Acho que combinam muito bem. — Morgana não se deteve para analisar a pequena
angústia que nasceu dentro dela. — Conheci o dr. Christen.
— E dele você gostou? — perguntou curiosa.
Os lábios de Morgana contraíram-se, para depois se abrirem numa risada.
— A senhora me faz parecer muito convencida e exigente. Não tenho culpa de desgostar
do marquês tanto quanto gostei do dr. Christen. — Fez uma pausa pensativa e com visível
preocupação virou-se para Neli. — O que aconteceu com ele, srta. Broughton?
— Como assim?
— Por que às vezes uma sombra de tristeza lhe passa pelos olhos?
Ele tenta esconder, mas é visível.
— É verdade; você reparou bem. — Calou-se sacudindo a cabeça. — Não sei, Morgana.
Sempre suspeitei de que algo terrível deve ter-lhe acontecido antes de vir para cá.
— Como ele veio parar aqui em Juamasa?
— Filipe o trouxe. Encontraram-se na Suíça.
— Na Suíça!
— Filipe estava lá em férias — abaixou a voz como temendo que alguém pudesse ouvi-la. —
Isto é confidencial; Cari não me pediu reserva, mas creio que não gostaria que se espalhasse
por aí; ele exerceu a medicina em Londres por uns tempos
— Desconfiei disso quando ele disse que conhecia o St. Christopher.
Neli assentiu e continuou.
— Parece que alguma coisa aconteceu em Londres que o fez decidir abandonar a carreira.
Voltou para sua terra e comprou uma pequena casa nas montanhas. Foi onde Filipe o encontrou
e convenceu-o a vir para cá, pondo-o na direção de nosso moderno hospital. Durante muito
tempo permaneceu triste, amargo e reservado. Parecia até em estado de choque.
Gradualmente, foi melhorando, saiu da concha e começou a rir novamente. Entretanto, seja lá
o que for que lhe tenha acontecido, algo amargo ainda está em sua memória, como se pode ver
às vezes.
— Eu sei. Também vi esta tarde. Ele tenta desesperadamente esquecer e ser alegre, mas
sem muito sucesso.
Quando parou de falar estava pensando em Phillip e no seu amor por ele. Se não tivesse
havido o acidente, estaria agora como o dr. Christen: tentando esquecer e ser alegre, mas
sempre sabendo, por mais que mentisse, que tinha perdido o homem que amava.
Alguma coisa vagamente parecida com desprezo por si própria apareceu no seu íntimo.
Tinha uma estranha sensação ao reconhecer a verdade. Sua saudade de Phillip era falsa.
Perdera algo com que estava simplesmente habituada a conviver, mas que na realidade não
tinha muito significado em sua vida, uma vez que o estava esquecendo rapidamente.

Foi mais ou menos uma semana depois que Cari apareceu lá, e reconhecendo o seu sotaque
germânico, entrou na sala a tempo de ouvir Neli dizer
— Entre, Carí. Como vão as coisas no hospital?
— Sem muito trabalho, mas tenho ainda que acompanhar o nosso misterioso caso. Deveria
ter vindo vê-la antes — olhou, sorrindo, para Morgana — contudo, sei que você tem uma
eficiente enfermeira lhe atendendo e por isso não me preocupei.
Morgana devolveu-lhe o sorriso.
— Obrigada, dr. Christen. - Estava usando uniforme, e o olhar dele, desaprovador, caiu no
branco e engomado véu.
— Por favor, me chame de Cari — pediu — ou com esse austero e engomado uniforme você
me assusta...
Morgana riu e Neli olhou-os com visível satisfação. Gostava de ver sua jovem enfermeira
rindo feliz e notou que nessa manhã havia algo de diferente nela.
— Soube que se conheceram em casa da sra. Acquaras — comentou.
— Estivemos juntos por muito pouco tempo — confirmou Cari.
— E ele nem me fez a clássica pergunta: se estou gostando de Juamasa.
— Pois bem, perguntarei agora: está gostando de Juamasa?
— Estou gostando muito — disse Morgana solenemente, enquanto ele se abaixava para
examinar a perna de Neli.
— Está muito bem — comentou sem se levantar. — Vai se demorar ainda algum tempo?
Estavam entrando num terreno de perguntas pessoais, que a presença de outras pessoas
não permitira antes.
— Aproximadamente um mês.
Enquanto falava, Morgana deu-se conta de que o tempo que lhe restava era curto. Não
parecia ter passado tão depressa e agora restava só um mês!
— É uma pena que não possa ficar mais- disse Cari, interrompendo seus pensamentos.
— Tenho que voltar à Inglaterra.
Terminado o exame, ele levantou-se dizendo:
— Não há nada que eu possa fazer aqui sua enfermeira está cuidando muito bem de você.
Por uns momentos conversou à parte com Morgana sobre assuntos concernentes à perna
de Neli e depois desculpou-se:
— Perdão por obrigá-la a ouvir uma discussão técnica a seu respeito.
— Não se incomode — replicou Neli rapidamente —, achei a conversa interessante, apesar
de não ter a mínima ideia do que se tratava. Penso que escreverei um livro sobre o que
acontece em Juamasa.
— Sua história teria um fim feliz? — perguntou Morgana repentina e impensadamente.
Procurou encontrar os olhos da moça, depois sorriu para esconder a tristeza de seu
próprio olhar.
— Sim, minha querida, teria um fim feliz.
— Naturalmente que teria, pois será ficção. — Morgana procurou parecer alegre para
acalmar a idosa senhora.
— Ah! a ficção! — disse Cari amargamente. — Tudo sempre ouro sobre o azul, com um fim
feliz! Não é comum que isso aconteça na realidade. Há tantas coisas que estragam um final
feliz...
Então havia mesmo alguma coisa por trás da tristeza daqueles olhos.
— Não creio que estrague para sempre. — Morgana falava com suavidade. — Talvez por
algum tempo pensemos assim, mas gradualmente somos levados a reconhecer que nem tudo se
perde e que há outras compensações.
— E o que acontece quando se vê que algumas coisas não podem ser alteradas?
— Que conversa mais esquisita e mórbida vocês arranjaram — interrompeu Neli com
determinação. — Recuso-me a permitir que continuem. Cari, mude de assunto!
O médico controlou-se rapidamente:
— Pois não. Há algum tema que lhe interesse em particular?
— No momento gostaria de tomar um chá e como sei que você adquiriu o hábito na
Inglaterra, poderia nos acompanhar.
— Vou ajudar Teresa — ofereceu-se Morgana, — Tenho medo que ela não o faça direito.
Dirigiu-se para a cozinha cantarolando baixinho e de repente surpreendeu-se, pois era
uma modinha portuguesa que ouvira de Teresa. Parecia que a atmosfera portuguesa de
Juamasa começava inconscientemente a contaminá-la, o que de certo muito agradaria ao
aborrecido Filipe.
Teresa deu uma gostosa risada, feliz da vida, e disse algumas palavras em português. Ante
o olhar interrogativo de Morgana, repetiu traduzindo:
— Quando estará de volta? São as primeiras palavras da música, senhorita.
Enquanto punha as xícaras na bandeja, cuidadosamente Morgana as repetiu, sorrindo para
Teresa. Gostaria de aprender algumas palavras da língua, durante sua permanência na ilha,
mas não queria que Filipe soubesse. Isso significaria ceder muito á sua autocrática vontade.
Quando entrou carregando a bandeja, Cari apressou-se em tirá-la de suas mãos e colocá-
la na mesa. Somente quando o viu olhando para sua testa é que percebeu que seu cabelo fugia
sob a touca de enfermeira, que não estava devidamente no lugar. Murmurando uma desculpa,
foi para a outra sala, afim de arranjá-lo, e Teresa trouxe a segunda bandeja.
Ao voltar, Neli balançou a cabeça lamentando.
— Ainda preocupada com seu cabelo? — Virando-se para Cari explicou: — Morgana deve
ter tido uma Górgona como mestra ou enfermeira-chefe, que a ensinou a se preocupar demais
em esconder seu cabelo e colocar direito a touca.
— É uma pena — disse ele amavelmente. — por que o esconde tão severamente sob o véu?
É tão bonito!
Era o segundo homem que lhe dizia a mesma coisa, mas, ao contrário do que acontecera
com Filipe, desta vez não se sentira embaraçada.
— Porque é a única maneira de segurar a touca.
— Não sei por que você teima em usá-la. — Morgana reconheceu nos olhos dela aquele
brilho malicioso tão seu conhecido. — Todas às vezes que Filipe vem aqui você corre para pôr
seu uniforme, pois sabe que ele não gosta de mulheres uniformizadas.
— Não gosta porque isso lhe lembra uma certa independência. Ele não suporta mulheres
independentes. Acho que as prefere bem dependentes e ultrafemininas, usando somente
sedas.
— Por que não gosta do marquês? — perguntou Cari francamente surpreso e não
compreendendo que pudesse haver alguém que desgostasse dele.
— Ah! Que não gosta é óbvio — disse Neli. — Tenho até medo de que lancem faíscas um
contra o outro.
Morgana levantou os ombros.
— Não tenho culpa! Não se pode forçar a situação — protestou. — Algumas vezes quase
cheguei a gostar dele — admitiu com alguma relutância. — Sei que sou a exceção. Todo mundo
parece gostar muito dele.
— É um homem bom e generoso — observou Cari calmamente. — O hospital todo foi
construído graças a sua generosidade. Há ocasiões em que preciso de alguma coisa para o
hospital, mas nem ouso pedir, pois ele já fez tanto! Mas de alguma maneira descobre e... lá
está ela. É estranho como ele consegue descobrir as coisas; quem está no hospital e por que.
Preocupa-se com cada pessoa da ilha e não permite que sofra. — Quedou-se pensativo e
Morgana sentiu que, ele tentava melhorar sua impressão sobre Filipe. — Por exemplo: há
algum tempo, um pescador feriu-se e não queria deixar o trabalha por causa da família. O
marquês descobriu, como não se sabe, e mandou o homem para o hospital, cuidando de sua
família até que se restabelecesse. E há muitos outros exemplos.
— Não estou negando sua generosidade e bondade — disse Morgana, sentindo-se em
desvantagem, e acrescentou: — Mas ele o faz de maneira autocrática!
Cari levantou os ombros aceitando a observação:
— Mas isso faz parte de seu caráter. Ninguém nota ou se preocupa. Além disso, seus
antepassados foram os reis sem coroa desta ilha durante séculos.
Essa era a mais certa definição que já ouvira: os reis sem coroa deJuamasa!
— É evidente que o senhor gosta muito dele — comentou sorrindo.
— Ele foi muito bom para mim — disse simplesmente —, mas não é somente por isso.
Mais tarde, quando finalmente ele se foi e Teresa estava ocupada na cozinha, com um
longo suspiro Neli relaxou-se no sofá.
— Gosto muito de visitas, mas o esforço para parecer brilhante e atenciosa às vezes me
cansa muito.
Morgana sorriu-lhe carinhosamente:
— Não creio que precise se esforçar muito. Sai-se sempre muito bem!
— Não posso me queixar. — Hesitou observando a moça e depois pareceu concentrada em
examinar um anel de brilhante que usava sempre na mão direita; um anel que fora um dia seu
anel de noivado. — Você tem muito mais motivos de queixa do que eu... — hesitou novamente e
depois falou sem olhá-la: — Já... Já começou?
— Se já comecei a sentir dores, é isso o que quer saber? — Morgana terminara a. frase
para ela num tom de voz minto calmo, que a surpreendeu. — Não ainda. Provavelmente ainda
demorará um pouco. — Ficou silenciosa por um tempo como que calculando e acrescentou: —
Um mês, mais ou menos.
— Um mês! — repetiu Neli, arrasada pelo inevitável.
Morgana observava-a, procurando adivinhar, devido a seu estranho comportamento, o que
lhe ia na mente, mas conteve-se e esperou que a outra resolvesse falar.
— Morgana — disse finalmente —, sei que uma das razões de você ter vindo para cá
comigo foi que ninguém saberia da verdade... bem, sobre o acidente... mas não acha que Cari
deveria saber?
— Não há nada que ele possa fazer. Tenho os relatórios que me foram dados no St.
Christopher, mas não vou lhe mostrar a menos que resolva.
— Você pode precisar do seu auxilio quando o fim estiver próximo.
— Então será a ocasião de lhe contar tudo. - Com isso Neli devia ficar mais sossegada.

CAPÍTULO 6

Durante muito tempo, depois do almoço na casa das Acquaras, Morgana nada ouvira sobre
a loteria das flores; mas agora parecia, ser o assunto do dia. Uma febre de excitação crescia
por toda Juamasa e até Teresa falava nisso, lembrando os anos passados em que participara
da loteria. Lorenzito se movimentava alegre com a aproximação da festa.
Um dia Morgana estava na cidade quando viu o conhecido carro preto dos Rialta e
inconscientemente começou a procurar por Filipe. Quando o viu sair de um edifício com
Celestina, sentiu um desagradável sentimento dentro dela e rapidamente caminhou em direção
contrária. Sua cabeça morena estava inclinada para sua bela com panheira, obviamente
ocupado com ela. Foi fácil escapar sem ser vista. Era estranho que Filipe se deixasse envolver,
mas Celeatin tinha uma beleza exótica e ele era afinal de contas um homem, ape sar de seu
alheamento.
Morgana terminou de fazer as compras para Neli e voltou ao cairro, onde Júlio a esperava
não muito distante. Não podia mais ver os dois, mas não era fácil esquecê-los. Filipe se casaria
com Celestina? Isso parecia ser o que a ilha toda esperava e presumivelmente Celestina
também. Mas serviriam bem um para o outro? Na verdade não era de sua conta, mas não podia
deixar de pensar nisso.
Celestina era suficientemente linda para qualquer homem, mes mo para um crítico como
Filipe. Mas o que mais possuía? A descen dência de uma fina e aristocrática família, a
sofisticação, a maneira de saber como agradar a um homem, especialmente a um tão exigen te
como Filipe. Fora isso, que mais restava? Seu instinto lhe dizia que Celestina era volúvel e
geniosa e que se tornaria egoísta quando segura do amor de um homem.
Quando chegou em casa, esperava por ela um convite de Maríta Acquaras para que fosse a
sua festa no dia da loteria das flores.
Mostrou o convite para Neli.
— Importa-se que eu vá?
— Naturalmente que não. Na verdade também recebi um. Você achará divertido — e
maliciosamente acrescentou: — Talvez até pegue a rosa vermelha...
— Tomara que não — retrucou vivamente. — Já fui prevenida dessa possibilidade e
estarão sendo observadas minhas reações.
— Por Filipe?
Morgana levantou os olhos resignadamente.
— Por quem mais poderia ser? Ele se reserva o direito de espicaçar quem bem entender.
— Acho que você brinca com ele, minha querida!
— Por lhe responder à altura? — perguntou indignada. — Que mais poderia fazer? Deixá-
lo sair vencedor?
Neli riu e juntou as mãos num gesto de fingido medo.
— Não me assuste, Morgana, a Fada!
— Que vestido deverei usar na festa? — perguntou Morgana alto para afastar os
incómodos pensamentos que lhe voltavam.
— Um não muito complicado. A festa maior é a do Dia da Comemoração, um mês depois. —
Ante o olhar de incompreensão de Morgana, explicou: — Todos os anos cópias dos primeiros
navios que aqui chegaram partem do porto.
— Com todo mundo vestido a caráter?
— Todo mundo. Vestidos modernos são proibidos no dia da grande festa. — Trouxe
novamente à baila a festa mais próxima, não querendo se estender sobre a outra. — 0
problema, no momento, creio que será resolver o que você usará na Festa das Flores. E se
subíssemos as duas para examinar seu guarda-roupa?
Morgana hesitou por um momento.
— Não gostaria que subisse as escadas inutilmente.
— Você sabe perfeitamente que estou muito melhor.
— Justamente por isso... — interrompeu. — Vou buscá-los para que os examine sem se
mover daí.
Subiu as escadas rapidamente e, abrindo a porta de seu guarda-roupa, ficou
pensativamente contemplando seu conteúdo. O que usaria na festa?
Seus olhos caíram num vestido longo de veludo preto e sorriu tristemente. Aquele era um
vestido que nunca usaria, pois o comprara num repente de entusiasmo. A única vez que o
vestira fora em seu próprio quarto.
Ainda sorrindo o recolocou no lugar. Talvez inconscientemente ela o tivesse achado com
um jeito de roupa de feiticeira e sabia que agora o associaria sempre com o apelido de
Morgana, a Fada, o que tornaria muito mais difícil usá-lo, mesmo que tivesse ocasião para tal.
Teria que se sentir como a original Morgana, a Fada, e a moderna Morgana Carol nunca seria
capaz de simular o imperioso e cruel encantamento da rainha das fadas. O vestido nunca
deveria ser usado. Voltou à tarefa de decidir o que seria melhor para a Festa das Flores e
finalmente desceu com três vestidos no braço, para mostrá-los a Neli. A idosa senhora sorriu
maliciosamente quando ela entrou na sala.
— Você deve ter um guarda-roupa enorme para demorar tanto para escolher três
vestidos.. — Descartou-se de dois deles, sem mesmo olhá-los, apesar de serem bonitos, em
favor do terceiro.
— Este aqui — disse decisivamente, e com tal convicção que Morgana nem ousou discutir.
Tomou-o das mãos dela e, pondo-a à sua frente, examinou-o detidamente. A saia era de
seda verde-esmeralda ampla e franzida e a blusa, de organdi, branca e bordada.
—Sim, acho que este vai bem — disse Morgana finalmente, e decidiu usar um casaquinho
branco mais pesado, também muito bonito, para o caso de sentir frio. Uma linda combinação
de renda, que ainda não tinha usado, ficaria bem, por baixo da blusa transparente de organdi
banco, e um par de sandálias pretas completaria a toalete.
Descobriu que estava esperando com ansiedade pela festa e intimamente imaginou o que
faria se por um acaso ganhasse a famosa; rosa vermelha, que aparentemente era considerada
pelas moças dei Juamasa como o maior dos presentes, quando comparado às outras flores.
Esse era um problema imprevisível e a possibilidade de vir a ganhá-la era muito remota...
O dia da festa amanheceu claro e brilhante, o que parecia ser uma constante em Juamasa
até que o tempo das chuvas chegasse. Aí então o povo se refugiava em suas casas,
abandonando a ilha à fúriaj dos elementos.
Morgana levantou-se cedo, atendeu Neli e deixou-a pronta, antes de tratar de se
arrumar. Quando entrou no vestido verde e branco, cantarolava baixinho e, fechando o zíper,
tratou de dar o laço do decote com muito capricho, pois era muito feminina e o vestido
combinava bem com seu estado de espírito do momento. As mangas, mui alvas, eram franzidas
e curtas. Quando andava, a saia fazia um barulhinho agradável de se ouvir.
Chegaram à cidade pela larga rua onde Morgana parara o carro naquela sua memorável
visita, só que desta vez foi irrepreensívelmente estacionado por Júlio, a quem liberaram até a
hora da volta, e ambas cruzaram a calçada se dirigindo para os jardins do restaurante, onde
se realizaria a festa.
Descani, o mais famoso e exclusivo restaurante de Lorenzito, era um edifício de linhas
mouriscas, com mesas dentro das salas revestidas de mármore e também fora, nos jardins.
Pequenas lâmpadas, de árvore a árvore, eram acesas à tarde. Arranjos de flores enfeitavam
as mesas e por toda a parte plantas exóticas completavam a ornamentação. Os lindos jardins
pareciam resplandecer ao sol tropical e, para finalizar, uma pequena orquestra tocava
suavemente.
Encontraram as Acquaras numa mesa sob um florido jacarandá e, como Neli previra, havia
um sem-número de pessoas desconhecidas. A maioria dos rapazes olhava para Morgana com
admiração. Neli parecia conhecer a todos e, embora fizesse as apresentações, Morgana sabia
que não guardaria os nomes. Pensava nisso quando se viu frente ao dr. Christen.
Este saudou-a no que ela presumia ser um dialeto suíço ou alemão e não resistiu à
tentação de responder:
— Guten Morgen, Cari.
Teve a satisfação de ver o doutor olhá-la admirado.
— Você entende alemão?
— Entendo e falo correntemente, mas não entendi o que você disse.
— Era suíço-alemão.
— É diferente?
— Um pouco. Os suíços entendem os alemães, mas estes não nos entendem. É um pouco
complicado.
— É, parece, mas sei o que quer dizer. — Morgana se viu reparando nas finas mãos do dr.
Christen. Tinha o costume de tentar julgar as pessoas pelas mãos. Estas revelavam muita
coisa sobre a personalidade; exceto as de Filipe. Inclinava-se agora a pensar se não o julgara
erradamente. Paixão e ternura, crueldade e bondade. Isso dificilmente condizia com o que
soubera dele recentemente.
As mãos de Cari eram as de um cirurgião. Seu instinto lhe dizia que ele devia ser um
cirurgião brilhante ev no entanto, enterrado em Juamasa. Por quê? 0 que tentaria ele
esquecer em Juamasa?
— Nunca esteve numa dessas festas antes?
— Não. 0 que acontece nelas?
— Depois do almoço, veremos os barcos de pesca. Há um prémio para aquele que mais
rapidamente der a volta numa bóia da baía e voltar. Isso levará algum tempo, pois veremos
primeiro os barcos e somente muito depois é que o ganhador será festejado. Enquanto isso,
comeremos deliciosas coisas, não muito boas para nosso metabolismo e que não nos deixarão
apetite para o jantar.
— Agora está falando como médico! E ainda me pede que não o trate como um!
— Perdão! Em vez disso devia fazer-lhe a corte em alemão.
— Não fará nada disso. Eu entendo o alemão.
— Tanto melhor!
— Está se deixando afetar pela atmosfera portuguesa! — decretou Morgana e ambos
riram ao mesmo tempo.
Sem saber por que, Morgana sentiu que um calor lhe subia ao rosto, embora nada
houvesse que a embaraçasse. Seria o especulativo e pouco amistoso olhar de Celestina?
— Parece que minha prima tinha razão — disse esta virando-se para Marita. — A
enfermeira e o médico riem, conversam e se divertem juntos.
— Naturalmente — replicou Cari —, uma enfermeira e um médico sempre têm assunto.
— Falavam de coisas técnicas? — perguntou Marita. — Mas isso é péssimo, Cari,
principalmente no dia da festa.
— Na verdade, não era — respondeu Morgana sem intenção de revelar nada, porém. Cari
não foi tão reticente.
— Eu estava tentando namorá-la, mas descobri que ela fala alemão — disse
audaciosamente.
— E isso é ruim? — perguntou um rapaz magro do outro lado da mesa. Morgana tinha uma
ligeira ideia de ter sido apresentada a Renato Aldor. — Eu não gostaria de namorar quem não
me entendesse.
— Mas isso é facilmente remediável. Renato — disse Marita.
— Verdade — concordou Renato. — A senhorita precisa de um professor de português.
Morgana lançou-lhe um olhar preocupado, sem saber se falava sério ou não, quando suas
dúvidas se dissiparam com o comentário de uma mocinha que estava junto dele:
— Devo preveni-la contra meu irmão. Ele é capaz de muito mais do que você chamaria de
brincadeira.
— Já suspeitava disso — disse Morgana, e viu os olhos negros dele se tornarem sérios.
— Uma brincadeira pode ser levada a sério. Quer aprender português, srta. Carol?
Antes que ela pudesse responder, Celestina lançou um langoroso olhar para Renato,
dizendo:
— Acho que você deixa a nossa senhorita um tanto sem ar, Renato, Ela é inglesa e
acostumada a proceder vagarosamente.
— Mas apreciei muito sua gentileza — disse Morgana, levantando a cabeça e com um
brilho de troça no olhar, o que deixou Renato em dúvida. — Mas creio que não posso aceitar,
pois deixarei Juamasa em algumas semanas.
— Que pena — disse Marita. — Mas não pode mudar de ideia e ficar?
— Nada posso fazer. A perna da senhorita Neli já está quase boa e tenho meu antigo
cargo á minha espera, em Londres.
— Num hospital da Inglaterra? — Marita parecia disposta a não desistir sem luta. —
Tenho a certeza de que o dr. Cari precisa de mais enfermeiras no hospital e assim poderia
ficar.
— Você não se dá conta de que a srta. Carol possa gostar mais de sua terra do que de
nossa ilha — observou Celestina e Morgana teve a impressão de que suas palavras eram para
lhe fazer entender que Juamasa não era lugar para ela.
— Não é verdade — replicou, imaginando por que Celestina a tratava com velada
hostilidade. — Ficaria de boa vontade aqui se me fosse possível.
— Então pôr que não? — ofereceu Cari. — Marita tem razão. Precisamos de mais
enfermeiras no hospital.
Uma latejante tristeza abateu-se sobre ela. Em outras circunstancias não hesitaria em
aceitar esse oferecimento. Agora não tinha outra alternativa senão recusar.
— Temo que seja impossível. Agradeço a oferta, mas razões pessoais me obrigam a voltar
para a Inglaterra.
Cari ergueu os ombros dizendo:
— Por enquanto devemos aceitar isso; mas sempre esperando que mude de ideia.
A conversa generalizou-se e Morgana dividiu suas atenções entre Cari e um senhor que
sabia muito pouco de inglês, o que dificultava o entendimento. Depois do almoço, foram pára o
terraço, onde tomaram café, sempre ao som da música e esperaram que o calor ào meio-dia
passasse. A conversa era descontraída e, depois de algum tempo, todos pareciam ter
novamente voltado à vida e se dirigiram para seu carros.
Ao saírem, Cari veio para junto de Morgana e disse:
— Fui destacado para escoltá-la esta tarde, isto é, se não me chamarem do hospital.
Espero que não se importe.
— Absolutamente. Estava esperando que fosse você e não Renato ou algum outro rapaz.
— Se não fosse por isso eu estaria agora sozinho! — Cari lançou-lhe um olhar de
reprovação. — Acho que não conseguiria me acostumar agora.
— Não sei, não! — disse Neli, aparecendo de repente a seu lado: — Você sempre se
arranjou muito bem — acrescentou divertida. — Por que não vem conosco? Há lugar em nosso
carro.
— Obrigado, aceito, mesmo porque sou o único em meu carro. - Com Júlio imponentemente
sentado ao volante, seguiram o carro da sra. Acquaras por uma estrada arborizada e familiar
a Morgana, apesar de agora estar enfeitada com bandeiras e flâmulas, indo dar na pequena
baía. Encontraram-se todos no pavilhão erguido para que as senhoras tivessem onde sentar e
Neli conversava animadamente com a sra. Acquaras, quando Morgana viu Maríta e Manuel
escapando sozinhos. Por acaso, Cari também viu.
— Acho que não têm permissão para saírem por aí a sós.
— No dia da festa sempre se fecha um pouco os olhos. — Fez um gesto indicando a praia
cheia de conchas. — Vamos até lá dar uma olhada e decidir qual será o vencedor?
Morgana concordou e desapercebidamente se afastaram em direção à praia onde uma
multidão já examinava os barcos. Mal se davam conta do contraste que formavam entre aquela
gente morena; ele muito louro e ela com seu cabelo acobreado, em seu vestido verde de
mangas bufantes. Cari observara-a de relance e constatou que ela lhe lembrava as moças de
sua própria terra.
— Acho que só vou falar com você em alemão, enquanto estiver usando esse vestido. — E
assim fez, e Morgana entendeu-o perfeitamente, mas quando respondeu, ele riu divertido,
— Não estava tão mal assim — protestou ela.
— Estava até muito bom. Seu sotaque é bonitinho e não precisa corar. Onde aprendeu a
falar?
— Parte na escola, parte com meu pai e depois com uma enfermeira do St. Christopher.
Na verdade, nem sei por que aprendi.
— Para poder falar comigo — sugeriu, brincando.
— Naturalmente — concordou Morgana, e ambos riram.
— Acho que essa é uma das razões por que gosto de você. — Cari ficou sério. — Seremos
amigos sem maiores preocupações.
— Quer dizer, sem nada de amor entre nós, certo?
— Você se importa de eu dizer isso? Você é muito atraente e um dia encontrará alguém
que a ame. Até lá seremos bons amigos.
— E isso é uma coisa de que gosto em você, também. Senti que: seria assim na primeira
vez que nos vimos.
— Isso é bom. Vamos ver os barcos agora, Liebchen?
Morgana concordou, sentindo-se profundamente feliz. Mas depois de algum tempo pensou
que sua felicidade não estava completa. Faltava algo que não sabia definir. Por fim distraiu-se,
olhando os barcos alinhados na frente deles.
— Creio que o vencedor será este — predisse Cari.
— Não. — Percorreu os barcos e apontou para outro. — O vencedor será aquele ali.
— Aquele? Não creio. Como pode um barco com tal nome vencer? — E apontava para o
nome escrito do lado do barco.
Morgana estudou o nome escrito em português, mas nada adiantou.
— 0 que quer dizer?
— Mais ou menos o equivalente a "sem energia".
— Não importa o nome. Ele vai ganhar. Tem as linhas... linhas... — Estivera falando em
alemão e agora lhe faltava a palavra.
— As linhas do quê? — perguntou Cari. — De uma lesma?
— Não seja tão rude! Ele tem as linhas de... qual é a,palavra para "grande velocidade"?
— Windhund.
— Windhund— repetiu Morgana, caprichando na pronúncia. — E vai voar como o vento.
Este será o vencedor, Cari.
— Não — sacudiu a cabeça, obstinado — será este aqui!
— Bem, vou apostar neste meu Windhund.
— E o que apostamos?
— Meia dúzia de escalpelos!
— Ah! Saia de perto de mim, sua.. . sua enfermeira!
— Pois não, doutor!
Morgana deu um passo para trás, tropeçando em alguém que parara junto deles. Virou-se
com uma desculpa nos lábios, quando deu com Filipe.
— Oh! — Por um momento esqueceu as desculpas, devido à surpresa. — Desculpe, senhor,
não sabia que estava aí.
— Como poderia, se acabo de chegar?
— Chegou bem a tempo, Filipe — disse Cari. — Morgana estava quase me abandonando.
— Por quê? — Filipe voltou a olhá-la, e ela sentiu-se estremecer, diante daquele velado e
enigmático olhar. — Por que queria abandonar nosso bom Cari? Ainda há pouco combinavam tão
bem! Falavam em alemão?
- Cari assentiu. — Fiquei agradavelmente surpreso ao saber que Morgana entende alemão.
— E também tem sorte, meu amigo. Descobri que ela tem um certo antagonismo pelo
português. Não é assim?
— Não, senhor. — replicou ela polidamente — Achei que não valia a pena aprender o
português, porque só tenho mais algumas semanas. Acontece que eu sei um pouco de alemão.
— Estávamos escolhendo o vencedor — aparteou Cari, para mudar de assunto. — Qual
você escolhe?
Filipe olhou os barcos alinhados e decidiu-se por um.
— Meu Windhund! — exclamou Morgana, sem se lembrar de que era o marquês quem
estava a seu lado.
— Windhund? — Filipe oLhou para Cari sem entender.
— Ela insiste em chamá-lo assim. Como pode um barco de pesca ter linhas de alta
velocidade? Vou ganhar a aposta!
— Vai nada! — Morgana disse alegremente, o que surpreendeu
Filipe, que nunca a tinha visto com tal disposição.
— 0 que você saber de navios, seu...seu... suíço subidor de montanhas.
Pela primeira vez Filipe sorriu, contagiado pela alegria.
— Você que agora tem que admitir uma derrota, Cari. Está se rebelando contra o instinto
de um povo que pertence ao mar.
— É, assim parece; ainda mais que você também o escolheu. Um silêncio tenso se seguiu;
um incómodo silêncio para Morgana.
É sabido que os portugueses também dominaram os mares, e de certa forma a unia a
Filipe. Por uns momentos, seus olharei cruzaram, e ela pôde perceber nele um ar de troça.
Aparenteme o mesmo pensamento lhe ocorrera, porém de maneira diferente.
— Parece que, mesmo contra a sua vontade, está unida a Portugal — disse ele, tão
baixinho que só ela ouviu. — Mas não se preocupe a união é coisa do passado.
Estava com a resposta na ponta da língua quando Cari chamou dizendo que os barcos já
iam partir. O de Morgana, bem atrás dos outros e o de Cari adiantado.
— De que vale o instinto agora? — brincou Cari.
— Espere um pouco, meu amigo — respondeu Filipe, embora pergunta fosse dirigida a
Morgana. — Há tempo. Nós navegante sabemos escolher nossos barcos. — Enquanto falava,
olhava para Morgana com um sorriso tão encantador que, sem perceber, ela também sorriu,
enquanto sentia seu coração bater desordenadamente.
Todos os prémios tinham sido providenciados por Filipe. Ela começava a entender a
posição que ele ocupava na ilha e sua grande responsabilidade, da qual se desincumbia tão
bem, 0 conhecimento disso estava nos olhos do povo, que frequentemente deixava de
observar a corrida para olhar para ele. Mesmo agora, com seu cabelo despenteado pelo vento,
seu corpo ereto, vestindo calça brancas e camisa também branca, aberta ao peito, mostrando
sus pele morena, era fácil dizer quem era ele. Ao primeiro olhar, um observador desavisado
poderia pensar tratar-se de um homem moço e moreno que, contrastando com a pele clara de
Cari, assistia à corrida; mas, a um segundo olhar, notaria a energia de seu perfil, o ar distinto
e o indiscutível encanto que o tornava diferente de todos os demais homens.
Consequentemente, todas as mulheres o olhariam duas vezes, atraídas por suas feições
perfeitas. Isso tudo pensava Morgana, olhando-o disfarçadamente e cônscia de que também
se sentia atraída por ele. Voltou a olhar o mar e viu com satisfação que seu barco melhorava
de posição. O vento enfunava suas velas e eie dando a volta na bóia, iniciou o retorno com boa
vantagem sobre os outros.
Involuntariamente bateu palmas, feliz com a vitória.
— Ele vai ganhar!
— Naturalmente! — Aparentemente, ele tinha certeza do final da corrida.
Nesse momento, um rapazinho, rompendo com dificuldade a multidão, chegou perto de
Cari e lhe disse qualquer coisa em português. Este ouviu-o e virou-se para Morgana com um
suspiro resignado:
— Sabia que isto tinha que acontecer. Devo voltar ao hospital imediatamente. Receio ter
que deixá-la aos cuidados de Filipe.
— É um prazer — disse ele.
— Auf Wiedersehen, Froulein.
— Auf Wiedersehen, Herr doctor. — respondeu Morgana. Assim que Cari se foi, depois de
trocar algumas palavras em português com Filipe, este a tomou pelo braço e a conduziu para
onde estava o barco vencedor. 0 contato daquela mão fê-la estremecer e olhar para ele, mas
sua expressão era impenetrável.
— Indubitavelmente, está triste com a partida do doutor, mas eu a levarei de volta para
junto das senhoras dentro em pouco. — Suas palavras indicavam que ele não tinha a menor
intenção de detê-la, e agora Morgana só desejava voltar para perto de Neli.
— Não quero causar problemas — disse polidamente.
— É um prazer, senhorita, — O toque suave de sua mão conduziu-a pela praia até onde
estava um rapaz, queimado pelo sol e todo feliz, recebendo os cumprimentos do povo que o
cercava. Filipe falou-lhe em português e ele ficou visivelmente orgulhoso por ser felicitado
pelo próprio marquês.
Justamente quando Morgana começava a sentir renascer a irritação que sentia sempre
que o via cercado de gente a lhe render homenagens, o jovem pescador disse algumas coisas
olhando para ela e Filipe traduziu:
— João lhe agradece por ter escolhido seu barco como provável vencedor.
Morgana sorriu para o rapaz, sem, contudo, nada dizer, pois não queria que Filipe pudesse
usar desse fato para convencê-la da utilidade de aprender o português. Entretanto, ele
continuava a fitá-la, visivelmente admirado; a tal ponto que ela não ousava olhar para Filipe,
com medo de ver seu ar zombeteiro.
— Parece que João está impressionado com a alvura de sua pele e o vermelho de seu
cabelo; mas não deixe o rapaz mais tonto ainda com seu sorriso, pois ele tem uma namorada
que é muito ciumenta!
Morgana dirigiu-lhe um olhar desgostoso.
— Tenho a certeza de que não se trata disso; em todo caso, meu cabelo não é vermelho!
Ele lhe examinou o cabelo cor de cobre, que brilhava à forte luz do sol, mas não fez
comentários e reconduziu-a para junto de Neli, deixando-a com uma sensação de abandono
que ela não entendia. Aborrecida, Morgana sentou-se perto daquela.
— Não se sente cansada, srta. Broughton?
— Nem um pouco. E você, está se divertindo?
— Muito. 0 pobre Cari foi chamado ao hospital.
— E você foi deixada com Filipe. — Seus olhos brilharam maliciosos. — Imagino por que
voltou tão abatida.
— Não éxatamente abatida. Nunca me sinto tão à vontade com, ele como me sinto com
Cari.
Sua atenção foi despertada por uma maior movimentação nal praia, onde se desenrolavam
várias competições, mas durante todo o tempo, só via Filipe ao lado de Celestina, conversando
com ela animadamente.
Marita aproximou-se com Manuel. Estava linda com seu vestido branco e era evidente que
ele também pensava assim.
— Vamos proceder agora à nossa loteria das flores — disse confidencialmente, abaixando-
se. — Quer vir conosco?
Morgana sentiu-se desfalecer, mas respondeu:
— Adoraria.
Foram para perto da sra. Acquaras, que pareceu satisfeita por que Morgana os
acompanhava. Até alcançarem o pavilhão das flores levou algum tempo, pois além de ser do
outro lado da praia, Marita e Manuel paravam instantemente para falar com conhecidos
apresentá-la. Quando entraram no pavilhão o perfume de milhares de flores era um pouco
sufocante. Havia maços delas por toda parte, bem como cestas cobertas, mas com uma
abertura lateral por onde se devia enfiar a mão para pegar uma flor.
Então, do outro lado do pavilhão, viu Filipe conversando com um senhora que devia ser a
encarregada e desejou que ele ficasse bem longe dela. Contudo, não havia meio de escapar
nem de fazer Marita entender que não queria sortear sua flor sob as vistas de Filipe. Por
enquanto se iludia na esperança de que ele não notasse sua presença.
Marita guiou-os até uma grande cesta coberta, junto à qual se via uma mocinha esperando
para dar o presente relativo a cada flor. Nem Marita, nem Manuel tinham visto Filipe.
— Quer sortear primeiro? — convidou Marita.
— Prefiro observar e ver como deverei fazer.
— Muito bem — concordou Marita.
A atendente guiou sua mão pela abertura da cesta e Marita tirou de lá um hibisco
amarelo. Olhou para Manuel e disse:
— Que pena . Esperava uma rosa .. — Entretanto logo se distraiu, apreciando a linda estola
que ganhara.
— Agora é sua vez! Você deve pegar a primeira flor que seus dedos tocarem.
Antes que pudesse obedecer, todos os Acquaras e ainda Renato e sua irmã estavam junto
deles.
— Chegamos a tempo de ver a srta. Carol escolher sua flor - disse Renato olhando-a
sorridente.
Olhando disfarçadamente para ver se Filipe estava por perto e não o vendo, enfiou a mão
na cesta um pouco mais confiante. Seus dedos tocaram as pétalas e, obedecendo às
instruções de Marita para que tirasse a primeira que tocasse, tirou uma que provocou em toda
a sua volta uma exclamação:
— Uma rosa! — Mesmo em português, essas duas palavras ela entendeu muito bem e ouviu
atrás de si alguém dizer:
— Não tema, senhorita, o mundo não vai se acabar por isso. - Virou-se vagarosamente e
viu Filipe sorrindo maliciosamente e olhando para a rosa que tinha nas mãos enquanto
completava: — Parece que o destino não ouviu suas preces...
— Assim parece — replicou Morgana, tentando parecer natural e imperturbável.
— Vocês só dizem bobagens. Como o destino não atendeu suas preces se ela tirou a rosa?
— perguntou a irrequieta Marita.
— Não se lembra, pequenina, que ela é inglesa?
Marita riu dizendo:
— Mas os ingleses também beijam, não é, Morgana?
— Não em público — afirmou Morgana esperando que isso a salvasse.
— Nem os portugueses — aparteou Manuel, divertido, mas não ofensivamente. — Mas isto
faz parte da festa das flores.
A atendente disse alguma coisa que Marita se apressou em traduzir:
— Um beijo, senhorita. — E virando-se para Renato: — Há muita gente aqui que gostaria
de ter a honra, não é Renato?
0 simpático Renato disse umas palavras em português, o que deixou Morgana em dúvida
sobre qual tivesse sido sua reação. Firmemente, sacudiu a cabeça enquanto afirmava:
— Sinto muito, nada tenho contra ninguém, mas não vou beijar quem quer que seja em
público. — Com essas palavras pretendeu devolver a rosa para a cesta, esperando encerrar o
assunto, mas quando estendeu a mão Filipe a segurou apertando-a ligeiramente e dizendo:
— Onde está a coragem britânica de que tanto se ouve falar? Com um rápido e brusco
movimento tirou sua mão da dele. Seus adoráveis lábios estavam cerrados numa linha firme
que denotava raiva. Então ele pretendia humilhá-la. Mais com a intenção de agredi-lo,
levantou-se na ponta dos pés, pretendendo beijar de leve sua face morena e voltar ao natural
tão depressa quanto possível. Talvez percebendo sua intenção e espantado com a resolução
dela, ele virou um pouco a cabeça e foram os seus lábios que os dela encontraram, em vez da
face.
Morgana atirou a cabeça para trás, cônscia de que estava vermelha e também do
atordoamento de Filipe. Percebeu, quando quis se afastar dele, que suas mãos ladeavam sua
cintura. Presa nessa posição que ela considerava muito íntima, teve tempo de pensar na enor-
midade do que fizera.
— Estou honrado, senhorita — murmurou e soltou-a.
— Todos satisfeitos? — perguntou Morgana. esperando que sua voz não traísse seu
nervosismo.
— Estou desolado — disse Renato comicamente e Morgana começou a conversar com ele,
afastando-se dos outros.
Quando mais tarde Morgana pôde pensar mais friamente no assunto, viu com espanto que
a experiência não tinha sido desagradável. No momento tivera o desejo de fazer alguma coisa
que chocasse a todos, especialmente Filipe de Alviro Rialta. Logo depois deixou Renato e o
resto do grupo. A última coisa que viu quando saía do pavilhão das flores foi Filipe
conversando com Celestina e tão ocupado com ela que certamente já tinha se esquecido dela.
Inconscientemente, ainda que com raiva, suspirou sem saber por qué.
Voltaram ao Descani para jantar e desta vez as lâmpadas estavam acesas. A música era
suave e um cantor de voz aveludada percorria as mesas entoando românticas canções
portuguesas sonhando talvez com alguma senhorita de olhos negros. Embora não entendesse
as palavras, a música era bonita e Morgana sorria quando captou um olhar de Filipe sobre ela.
Visivelmente se divertia com o seu envolvimento pela romântica atmosfera. Depois de uma
exibição de danças típicas, os pares tomaram conta do salão dançando ao som do alegre ritmo.
Morgana perguntou a Neli:
— Se alguém me tirar para dançar, o que faço? Não sei dançar essas músicas.
— Se alguém a convidar, já sabe disso; portanto, não recuse — esclareceu Neli.
Renato foi quem logo apareceu. Era um bom dançarino e como os passos eram simples,
Morgana aprendeu togo e começou a se divertir. Adorava dançar, mas infelizmente Phillip não.
Renato continuava a rodopiar com ela nos braços e falava o tempo todo; mas como era em
português e ela nada entendia, não se incomodou, apesar de o brilho estranho dos olhos dele
sugerir que não devia ser nada de bom.
Voltou a seu lugar rindo sob o olhar aprovador de Neli. Decidira que se divertiria aquela
noite e dançou outras vezes, mas sempre reparando quando alguma beleza morena sorria para
o homem que era quase sinistramente encantador. Novamente voltara para a mesa e sem se
virar sabia que Filipe estava atrás de sua cadeira. Levantou-se meio relutante e não ousou
olhá-lo quando ele a tomou nos braços. Ele dançava bem e seu corpo era flexível, mas ela se
sentia constrangida, pois o epísódio da loteria ainda estava muito vivo em sua memória, não
facilitando as coisas.
Mesmo dançando ele não deixava de ser o marquês de Alviro Rialta e ela se sentia
desconfortável em seu braços. Devia divertir-se e aproveitar enquanto ainda tinha algum
tempo, pois um pensamento sombrio lhe veio à mente: aproveite, pois o tempo é cada vez mais
curto...
Quando percebeu, Filipe a levara de volta à mesa, mas toda a magia da noite se fora.
Estava cansada e nem o sorriso de Neli alegrou-a. Então ouviu uma voz que dizia:
— Preocupada, liebchen?
Viu aqueles olhos azuis a sua frente e nem perguntou quando chegara. Era bastante que
estivesse ali.
— Dance comigo, Cari — pediu com voz débil — dance e me faça esquecer...
Ele não perguntou o que queria esquecer, talvez sabendo que há coisas que não se falam.
Tomou-lhe as mãos, sem uma palavra, e dirigiu seus passos com simpatia e compreensão nos
olhos.
A orquestra iniciou uma valsa vienense.
— Dance, liebchen — murmurou. — Dance e esqueça.
— Você não me perguntou o que quero esquecer.
— Talvez um dia você me conte. Até então, não perguntarei. Sei como são essas coisas.
— Obrigada, Cari.
— Dance, liebchen — disse novamente. — Como pode alguém ficar triste ouvindo uma
música de Viena?
Como uma criança ela obedeceu, transportada pelo ritmo da valsa a outros tempos, até
que nenhum pensamento mais a atormentasse, e nem reparou que os outros pares haviam
parado para observar o homem louro e sua encantadora companheira, que dançavam a valsa
com verdadeiro espírito vienense, numa festa ao ar livre, numa ilha portuguesa.

CAPÍTULO 7

Depois da festa, Lorenzito. retomou seu ritmo habitual. Envergonhada pela covardia que
demonstrara e que quase a fizera sucumbir novamente aos maus pensamentos, Morgana
resolvera não gastar seu tempo em recriminações ou arrependimentos. Neli descansava no
sofá da sala e Morgana a seu lado lia e tentava impedir que Filipe voltasse tão
frequentemente a sua lembrança. O som da aproximação de um carro fez com que ela se
levantasse, e quase simultaneamente como que se esvaísse a esperança de tirá-lo do
pensamento pois era ele quem avançava pelo jardim, com o sol brilhando em seus cabelos.
— Bom dia, senhoras — saudou, quando Teresa o fez entrar.
— Bom dia, Filipe — respondeu Neli. — Toma chocolate conosco? Ele agradeceu e recusou
explicando que tinha um compromisso para o almoço no palácio. Olhou as duas e perguntou a
Neli.
— Tem algum compromisso para daqui a três dias?
Como Neli negasse, olhou para Morgana.
— E você? Nada tem de marcado para esse dia?
— Tenho que cuidar da srta. Broughton, naturalmente; mas fora isso nada de especial.
— Então está bem. — Filipe voltou-se para Neli. — Eu havia me oferecido para levar a
srta. Carol para uma volta na ilha. Espero que também nos acompanhe.
Muito tarde Morgana lembrou-se de refrear sua língua, que havia lhe dado aquela
oportunidade. Se tivesse adivinhado a que viera, talvez tivesse arranjado uma desculpa,
embora privasse Neli de uma distração que ela bem precisava. Ao mesmo tempo sentia-se
feliz por não ter se esquivado ao convite.
— Adorarei ir — aceitou Neli sem hesitação — e sei que Morgana também — acrescentou
alegremente, apesar de saber perfeitamente o que sentia sua enfermeira por aquele homem
encantador.
Aparentemente Filipe também sabia, pois observou:
— Creio que achará interessante, senhorita.
— Como sabe que acharei interessante? — perguntou irritada pela segurança dele.
— Claro que achará. É sempre interessante conhecer uma ilha — replicou calmamente.
Morgana aceitou a derrota, dizendo que teria muito prazer, esforçando-se para que sua
voz não revelasse sua relutância.
— Providenciarei para que goste de sua curta estada aqui, apesar do calor, que deve
cansá-la um pouco.
— Não o acho cansativo. — Morgana gostava de ser sincera com ele e isso deve ter
transparecido, pois Neli lhe sorriu satisfeita.
Não se demorou, nem mencionou o episódio das flores. Aparentemente o assunto estava
esquecido, pensou Morgana, Acompanhou-o até a porta, deixando Neli no sofá.
Antes de ir embora, ele olhou-a e perguntou:
— Então não acha o calor cansativo?
— Nem um pouco. Até gosto dele. A sra. Acquaras disse que eu me acostumaria ao clima
tropical. — Nem bem pronunciara essas palavras, arrependeu-se. Não deveria ter mencionado
pessoas. Daria ensejo a continuar a conversa.
— Talvez seja verdade, apesar de seu jeito muito inglês.
— Não posso impedir que pareça inglesa — havia sido quase rude e pensou que talvez ele
simplesmente se virasse e entrasse no carro; mas em vez disso, um sorriso esquisito abriu-lhe
os lábios.
— Estranho como sempre nos agredimos quando nos encontramos. Você é muito
independente e eu luto contra essa independência.
— Desculpe. Eu fui grosseira. Mas tem que concordar que fui provocada — replicou
decidida a não lhe conceder um ponto de vantagem.
— Ponto ganho! — disse brincalhão. — Não vamos discutir sobre isso. Também, por favor,
me chame pelo nome; a gente se cansa de ouvir sempre o "senhor".
— Tentarei, sen... Filipe. — Morgana estudava suas mãos para disfarçar seu embaraço. Por
que ele não entendia que era difícil chamá-lo pelo nome, uma vez que se mostrava tão altivo e
distante de uma simples mortal como Morgana Carol?
— Compreendo a dificuldade da tarefa — continuou ainda brincando — mas, assistida pela
coragem britânica, sei que chegará a bom termo...
— Pode ser — disse Morgana docilmente.
Ele riu e se despediu, dizendo:
— Adeus, pequena. Vou embora antes que briguemos novamente. Um relutante sorriso
entreabriu-lhe os lábios.
— Adeus, Filipe.
Ele balançou a cabeça:
— Adeus é uma palavra muito definitiva.
— O que devo dizer então?
— Até a vista.
— E o que significa?
— Até que nos encontremos. Você devia aprender o português. - Morgana conteve-se para
não contar que já sabia algumas palavras. Ainda não era a ocasião.
— Então, até à vista, Morgana. E nada de desculpas para não sair comigo daqui a três dias.
Morgana sorriu encantadoramente, respondendo:
— Até à vista, Filipe! — E acenando com a mão morena ele se afastou.
0 sol brilhava em seu cabelo preto e andava com seu característico modo arrogante, mas
isso não a irritava mais. Era parte de sua maneira de ser, parte da carga de responsabilidade
que ele carregava naturalmente. Surpreendeu-se ao descobrir que desejava que os três dias
passassem depressa.
Amanhecera um dia claro e brilhante como sabem ser os dias em Juamasa, que dão alegria
de viver, e Morgana levantara-se de coração leve. Depois do chuveiro, vestiu o uniforme, mas
não pretendia ficar com ele, senão para fazer a massagem em Neli. Como não sabia disso, Neli
admirou-se quando a viu entrar.
— Morgana... você vai usar isso hoje?
Esta olhou-a divertida.
— Filipe não aprovaria, não é?
— Temo que não. — E acrescentou lastimando: — Você agora se diverte aborrecendo-o.
— Não sempre. Só de vez em quando. Ainda penso que ele é muito autocrático; mas da
última vez fizemos uma espécie de armistício.
— Armistício? Como exatamente?
— Combinamos os termos de uma paz armada — disse rindo —, mas ambos sabemos que
pode ser quebrada a qualquer momento.
Neli, em silêncio, tinha uma expressão preocupada.
— Morgana, você tem certeza de que não está se apaixonando por ele?
— Por Filipe? — Um estranho arrepio percorreu-lhe o corpo. — Claro que não! Que ideia
absurda! Ele não é o tipo de homem que eu escolheria para amar. — Por que sentia novamente
aquela nostálgica ternura dentro dela?
— O amor normalmente não permite escolha.
— Eu sei. Também não adiantaria nada tê-lo escolhido. — Esse lera um argumento
irrefutável. — De qualquer maneira, não ousaria me apaixonar pelo senhor de Juamasa.
— Mas ousa responder-lhe.
— Isso é diferente. E não é possível estar apaixonada por ele porque..
— Porque está apaixonada por Phillip Layland — concluiu Neli.
— Não estou.
— Não está? — Neli não acreditava no que ouvia.
— Definitivamente, não. Descobri isso antes da festa. Espantoso, não? Depois de todo
esse tempo. ..
- Isto é uma coisa que me deixa feliz.
— A mim também — admitiu Morgana. — Sinto-me livre, como não me sentia há anos. Vou
me divertir enquanto estiver em Juamasa e isso inclui não deixar Filipe me fazer de boba —
acrescentou fazendo uma careta cómica. — Peço sua permissão para lhe responder todas as
vezes que surgir uma oportunidade.
Neli riu.
— Você não precisa de minha permissão; é por demais independente e temperamental.
Agora corra e vá se vestir bonitinha.
— Especialmente para Filipe?
— Especialmente para Filipe. Ele não a agredirá se não for agredido; nesse caso estariam
quebrando o armistício.
Morgana riu e, depois de aprontar Neli, foi para seu quarto. Vestiu um vestido amarelo-
claro, de seda, com saia pregueada e as sandálias pretas que usara na festa. Olhando-se no
espelho, gostou do que viu. Enquanto escovava seu cabelo, reparou no colar de discos de prata,
que estava em cima da mesa. Rapidamente colocou-o no pescoço, lembrando-se que Filipe
dissera que ela não usaria se soubesse o significado das inscrições nos discos. Quando desceu
as escadas. em nada se parecia com a austera enfermeira uniformizada.
— Por Deus, filha! Você parece um raio de sol! — exclamou Neli, enquanto Morgana ria e
rodopiava, desfazendo as pregas da saia.
— Estou de bom humor hoje!
— Fico contente em saber disso.
Ao ouvir aquela voz, parou repentinamente, confusa por ter sido apanhada se comportando
como uma criança, e, nervosamente arranjando as pregas da. saia, disse:
— Bom dia, senhor. Não sabia que tinha chegado.
— Cheguei neste momento — replicou a fim de sossegá-la.
A manhã decorreu muito bem a partir de então. Havia uma atmosfera de alegria e bem-
estar. Depois de algumas bebidas geladas, saíram de casa, dirigindo-se para o potente carro
preto, que brilhava ao sol. Neli foi instalada atrás, calçada de almofadas para que sua perna
descansasse, e Filipe abriu a porta para que Morgana entrasse no banco da frente. Em outra
ocasião, talvez tivesse aberto a porta sozinha, mas agora tinha um certo prazer em deixar
que Filipe o fizesse.
Quando chegaram à estrada de Lorenzito, Filipe tomou a direção contrária. A estrada
poeirenta subia a montanha, passando pelo meio de árvores que Morgana orgulhosamente
sabia os nomes e os ia mencionando: casuarinas, jacarandás, os ramos espalmados de uma
tamareira... Tudo entremeado de coloridas flores tropicais que faziam da ilha um verdadeiro
paraíso na Terra. No topo da montanha, Filipe parou. A vista era lindíssima, numa profusão de
luz e cores, com as árvores crescendo até a beira do penhasco.
Filipe dirigiu-se a Neli, sorrindo daquele modo tão seu.
— Desculpa-nos por um momento?
— Naturalmente — disse Neli.
Deu a volta do carro abrindo a porta para ela enquanto dizia:
— Esta é uma parte de Juamasa que não pode deixar de conhecer. — Tomou-lhe o braço
para ajudá-la a descer e novamente ela sentiu uma sensação estranha percorrer-lhe o corpo.
Parecia mentira que até bem pouco tempo atrás ela não pudesse suportá-lo.
— Quase se pode ver as pétalas das flores se abrindo sob o calor de Juamasa — disse,
enquanto se encaminhavam para a beira do penhasco.
Imediatamente Morgana se pôs em guarda.
— O que quer dizer, senhor? — Lembrava-se do armistício estabelecido entre eles, mas o
tom de caçoada de sua voz parecia evidenciar que não resistira à tentação de espicaçá-la de
novo.
— A austera enfermeira Carol desapareceu, mas sua sucessora parece ter memória curta.
É tão difícil me chamar de Filipe?
— Não — disse Morgana, escolhendo as palavras. — Esqueci. Quando não se está
acostumado a uma coisa, leva-se tempo para mudar.
— E o que pensa de mim?
Morgana de imediato classificou a pergunta como difícil e até perigosa de responder e
ainda pensava como se sair dessa, quando ele interrompeu: — Não importa. Provavelmente nem
você mesma tenha certeza, minha querida Morgana.
— Há ocasiões em que não se tem certeza de nada.
— É verdade. Terei que me lembrar disso. Você tem nome de feiticeira e talvez planeje
mortes de natureza violenta!
Morgana aceitou a brincadeira e respondeu rindo:
— Muito violentas. Incluindo óleo fervente e polegares torcidos!
— Polegares torcidos! — Olhou para suas bem-cuidadas mãos e Morgana seguiu-lhe o
olhar. Era um crime pensar em polegares torcidos daquelas mãos. Lembrou-se delas em sua
cintura e sentiu-se corar. Virou-se rapidamente interessada nas flores que os cercavam,
esperando que ele não tivesse reparado em sua reação. Não entendia por que queria ser
prisioneira daquelas mãos como no dia da festa das flores. .
Caminhavam em silencio quando ele a segurou pelo braço, fazendo-a parar sob os
frondosos galhos de um jacarandá florido para verem a paisagem. Lá embaixo o sol fazia o
mar brilhar e brancas ondas rebentavam na praia.
— Não está aborrecida por ter seu dia tão arbitrariamente planeio? — Sua voz era suave
e mesmo sem olhá-lo sabia que estava sorrindo. Estava tão perto dela que se sentiu
perturbada; mas não ousava mover-se para não ter que ouvir alguma observação trocista.
Ficou quieta, lutando contra uma estranha palpitação que sentia e depois respondeu que
estava gostando do programa, sem se referir à arbitrariedade dele. Enquanto se afastava
dela lentamente, Morgana percebeu que ele a examinava curioso.
— Alguma coisa a agrada hoje.
Sabia que se referia ao fato de ela não ter se irritado com suas brincadeiras e descobriu
que na verdade era porque estava junto dele, mas não poderia lhe dizer a verdade.
— Talvez me sinta hoje de coração leve — replicou.
— Posso perguntar por que? — Mas antes que ela respondesse, ele levantou a mão
impedindo-a. — Desculpe. É uma questão pessoal.
— Muito pessoal— disse firmemente, virando-se e fazendo com que o sol batesse direta
mente sobre os discos de prata de seu colar.
— Então... continua desafiando o desconhecido..
— Talvez o desconhecido não me assuste.
— E talvez tenha medo de tomar conhecimento. - Novamente se sentia como mosca presa
num alfinete.
— Então diga-me o significado deles. Ele aproximou-se e ela teve de controlar-se para não
dar um passo para trás. O movimento fora leve, mas ele percebera e seus olhos riam
divertidos. Rapidamente, tirou o colar e estendeu-o a ele, que o tomou numa mão, enquanto
com o indicador da outra apontava o primeiro disco.
— Este aqui pede por amor. .. — Fixou-a como que esperando uma resposta.
— Suponho que todos pedem por amor algum dia.
— Mas não é tudo... Este promete retribuir o amor, o terceiro pede por uma paixão que
tenha o calor do sol e a fúria dos elementos.
- O quarto promete retribuição, suponho. - Esforçava-se para parecer natural. — A moça
que o mandou fazer devia ser uma criatura violenta. - Filipe sorriu.
— Mas sabia amar...
— O que diz o outro disco?
— Ainda não tem medo de saber o resto?
— Bem, não podem pedir nada mais perturbador do que já pediram.
— É verdade. — Deixou os discos escorregarem por entre seus dedos até que ficou
segurando só o último. — O quinto pede que o amor dure para sempre, com uma citação do
Alcorão e uma invocação a um velho deus pagão; não devia ser uma boa muçulmana essa moça.
E agora que sabe todos os significados, ainda não tem medo de usá-lo? — perguntou
devolvendo-lhe o colar.
Morgana apanhou-o num gesto de pouco caso.
— Como lhe disse uma vez, senhor, não sou supersticiosa.
— Não é supersticiosa, não tem boa memória... ou é tudo intencional, Morgana, a Fada?
Ouvi-lo chamá-la como seu pai costumava deixou-a sem palavras e com o coração aos pulos.
Filipe tomou seu silêncio como confirmação de sua sugestão.
— Talvez ache que nosso conhecimento é muito curto para que usemos nossos nomes de
batismo. Compreendo sua relutância. — Tomou-a pelo braço e reconduziu-a para o carro. —
Não devemos fazer a senhora esperar mais.
Tornara-se novamente sério e distante. Como poderia ela explicar que a hesitação em
chamá-lo de Filipe era somente devido a seu acanhamento?
Neli não percebeu o ar de tensão que pairava nos dois quando se aproximaram do carro.
— Bem, gostou da vista?
— É lindíssima — respondeu Morgana —, realmente gostei da paisagem. — Parecia abatida
e Neli ficou imaginando que novo problema teria surgido entre os dois. Era mais do que tempo
de cessarem as hostilidades. Assim que Morgana se sentou, uma súbita irritação apareceu e
disse rapidamente: — O único problema foi que eu recebi uma reprimenda pela minha má
memória — e fez uma cara de lamentação para Neli. Não olhou para Filipe enquanto falava,
mas se preparou para a resposta dele. Não queria estragar o dia, que começara tão bem,
levantando novamente uma barreira entoe os dois, especialmente depois de terem feito o
armistício. Consequentemente, quando ele parou um momento antes de dar a partida soube
que era o instante crucial. Se ele recusasse essa abertura de amizade, voltariam ao ponto
inicial de antagonismo. Mas era evi dente que estava surpreso e um maquiavélico sorriso
assomou aos lábios de Morgana quando ele a olhou de relance.
— Desculpe, Morgana. Achei que merecia.
Mal pôde disfarçar a satisfação que tomou conta dela por conseguir essas desculpas, mas
não entendia por que fazia ele tanta questão que ela o chamasse pelo nome de batismo. Talvez
não gostasse de ver suas ordens desobedecidas.
— Como é que você entende o árabe? — perguntou, procurando um assunto que não
causasse atritos,
— Eu tinha uma casa e uma plantação de tâmaras na Argélia — fez um gesto com a mão,
sem contudo tirá-la da direção. — Eu ia raramente lá, mas precisava falar o árabe.
— Não podia usar um intérprete?
— Nunca se entende bem as coisas por meio de um intérprete. - Morgana calou-se
deixando o assunto morrer, pois sabia que ele se referia à sua recusa de aprender o
português.
— Suponho que você tenha finalmente sabido o que querem dizer as inscrições do seu
colar — disse Neli.
Morgana virou-se no assento para poder olhar Neli de frente:
— Aparentemente, por usá-lo, estou desejando um amor e paixão violentos.
— Mas não sendo supersticiosa, não tem medo de usá-lo — comentou Neli.
— E se o fosse, ainda assim o usaria? — perguntou Filipe.
— Acho que se esquece de que temos uma estátua do deus do amor no coração de nossa
capital, Filipe. Agora encontre uma resposta para isso! — Curiosa, esperava sua reação.
— Confesso-me derrotado. Seu sorriso é quase malicioso. Deve-se isso a sua satisfação
de me vencer?
— Isso é um fato que raramente acontece — ponderou.
— É verdade. — Não estava irritado, mas sim divertido. Desceram a montanha e chegaram
ao vale, onde se viam grandes plantações de banana é mamão. Rodaram durante muito tempo e
Morgana achou que ele só pararia quando tivesse alcançado seu objetivo. Em certos lugares
teria gostado de descer e andar a pé, especialmente quando um macaquinho saltou de uma
árvore para outra. Andaram até quase meio-dia, quando finalmente pararam numa encantadora
casinha, do outro lado da ilha.
— Encomendei nosso almoço aqui — disse Filipe e ajudou Neli a sair do carro. Foram
recebidos por um casal de meia-idade que parecia muito feliz e honrado com a visita do
senhor. Nada falavam de inglês e foram muito gentis e amáveis.
Deoois do almoço, voltaram para o carro e Morgana inconscientemente começou a
cantarolar a modinha em português que aprendera com Teresa; admirado, Filipe olhou-a
rapidamente.
— Parece que você aprendeu um pouco de português, mesmo contra sua vontade...
Morgana sorriu.
— Esta canção? Aprendi com Teresa. Você se importa? — perguntou rindo.
— Nem um pouco. — Depois de um breve silêncio, mudou de assunto: — Está lendo a
história de sua xará?
— Sim e estou gostando muito. Cada vez que leio mais alguma coisa sobre ela, imagino por
que meu pai me deu esse nome. Espero não me parecer realmente com ela.
— Não totalmente. . . mas talvez em algumas coisas. Por que ele não lhe deu o nome
completo?
— Quase completo. Meu segundo nome é Fay, que quer dizer fada.
— Já que no dia da festa, os vestidos modernos são proibidos, você deveria ir como
Morgana, a Fada! Não acha, Filipe? — perguntou Neli.
Em vez de falar, devia ter mordido a língua, pensou já arrependida do que dissera. Às
vezes as coisas ruins fugiam de sua memória e esquecera totalmente que talvez Morgana já
tivesse partido nesse dia. Foi de pouca ajuda o sorriso de Morgana, que sacudia a cabeça
duvidosamente. Ambas sabiam que seria impossível que ainda estivesse entre eles no dia da
grande festa.
— A rainha das fadas — disse Morgana pensativamente. — Seria muito bom fazer esse
papel!
— Juamasa ficaria feliz em receber uma rainha inglesa — comentou Filipe, enquanto Neli
procurava não pensar.
Morgana sonhava acordada. Usaria o vestido preto. Facilmente bordaria as amplas mangas
e o decote. O difícil seria o chapéu pontudo e o véu, mas daria um jeito. Filipe naturalmente
ficaria maravilhoso nas roupas medievais...
Voltaram por um caminho diferente, ladeando um rio que passava por Lorenzito. Uma larga
e moderna ponte estava sendo construída e Morgana olhou-a interessada. Filipe diminuiu a
marcha do carro perguntando:
— Está interessada? Pararemos aqui um pouco.
Lembrou-se, muito tarde porém, que provavelmente era ali que Phillip trabalhava.
Esquecera dele e não estava nem um pouco querendo vê-lo, apesar de sua presença em nada
afetá-la. Mas seria desagradável na presença de Filipe, a quem mencionara uma vez o nome do
homem de quem fora noiva e que esperava ele não se lembrasse. Assim que o carro parou, viu
que Phillip se encaminhava para eles, sorrindo ao reconhecê-la.
— Morgana!
— Alô, Phillip — respondeu, olhando-o com olhos críticos. Parecia mentira que aquele era o
homem por quem se apaixonara um dia.
Filipe observava um e outro.
— Já se conhecem? - Phillip riu.
— Crescemos juntos na Inglaterra.
— Estranho se encontrarem em Juamasa. — Filipe falava em tom normal e Morgana não
podia saber se ele adivinhara alguma coisa.
— É uma surpresa para ambos — replicou Phillip. — Perdemos o contato há muito tempo.
Foi uma agradável surpresa; pelo menos para mim.
Havia uma certa ironia quando o marquês lhe perguntou:
— Foi uma total surpresa para você também?
— Oh! Já nos encontramos antes — aparteou Phillip antes que ela pudesse responder.
Morgana teve a impressão de que aquilo não deveria ter sido dito. Soava como se tivessem se
encontrado clandestinamente. Filipe não aprovaria e ela sentiu-se aborrecida.
— Phillip esteve uma tarde na Vila Francisca para vê-la.
— Não percebeu que estava dando uma explicação; só sentia que devia fazê-lo.
— A senhora estava dormindo e não quis acordá-la.
Phillip desculpou-se.
— Boa tarde, srta. Broughton. Eu deveria tê-la cumprimentado há mais tempo, mas foi a
surpresa de encontrar Morgana de repente.
Neli sorriu, não tão amável como de costume, pois não gostava de Phillip Layland. Mas a
educação a obrigava a aparentar.
— Está tudo bem. Já estou ficando acostumada. Noutro dia Cari e ela se empenharam
numa discussão técnica e também me esqueceram.
— Então já conhece também o dr. Cari? — perguntou dirigindo-se a Morgana.
— Ele aparece frequentemente para observar os progressos da perna da srta. Broughton,
bem como seu estado geral.
— Começo a pensar que estou servindo de desculpa — disse Neli maliciosamente.
— Quem mais faria uso dessa desculpa? Acho que está sendo injusta consigo mesma —
disse Filipe em defesa da velha senhora. Era bem dele, pensou Morgana. Que diferença de
Phillip!
— Obrigada, Filipe, — disse Neli com um divertido brilho nos olhos —, mas neste caso
estaria fazendo uma injustiça para com Morgana...
— Perdão, Morgana. Digamos então que a desculpa usada é baseada em ambas.
— Obrigada, Filipe — replicou Morgana no mesmo tom divertido que Neli usara.
Phillip perguntou delicadamente sobre a saúde de Neli e depois falou sobre assuntos
gerais. Depois de algum tempo, Morgana percebeu que ele estava fazendo tudo para ficar
sozinho com ela. Não desejava isso de maneira nenhuma, pois o que tinha para falar já havia
sido dito no último encontro. Aparentemente, cansado das belezas morenas das portuguesas,
lembrara-se dela. Phillip, apesar dela estar de sobreaviso, parecia determinado a não deixá-la
escapar.
— Gostaria de ver o presente estágio da construção? — perguntou finalmente.
Morgana hesitou, sabendo que o seu interesse pela ponte fora o motivo de Filipe parar.
Lançou um olhar de apelo para Neli, mas como ela não podia sair do carro, não podia contar
com isso. Philip virou-se para o marquês: — Então se nos dá licença... — começou quando Neli
interrompeu:
— Não me importo de ser deixada sozinha, Filipe. Pode ir também, se tiver vontade.
Ficarei olhando os arredores daqui mesmo.
Filipe concordou logo.
— Então se perdoa minha descortesia de abandoná-la, aceito sua oferta — e virando-se
para o outro homem acrescentou: — Há certos detalhes que quero lhe explicar no local,
Layland. Compreendo que tenha assuntos pessoais a conversar com Morgana, mas isso poderá
ser feito em outra ocasião.
— Penso que já falamos muito dos velhos tempos em nosso último encontro— afirmou
Morgana.
— Como sugeriu, senhor, haverá outras ocasiões. — E virando-se para Morgana: — O único
assunto que pretendia era convidá-la para jantar comigo uma noite em Lorenzito. Acho que
não é descortesia falar em sua frente, marquês — acrescentou para Filipe.
— De maneira alguma — disse rapidamente. — Podem marcar seus encontros.
— Não acho que possa decidir agora, Phillip — respondeu Morgana, pensando como se
sairia dessa. — Como sabe, tenho que cuidar da srta. Broughton e, além do mais, estou aqui
como sua enfermeira e não posso deixá-la sozinha.
— Ah! Temos de volta a enfermeira Carol, ainda que sem uniforme — murmurou Filipe.
Phillip concordou dizendo:
— Em Londres sempre tive que lutar para conseguir vé-la, com as horríveis freiras e
enfermeiras-chefe do hospital. Sempre queria estar em casa antes da meia-noite, tal qual
uma Cinderela.
— Só que não havia freiras horríveis e sim regras do hospital — defendeu-se.
Caminharam pela estrutura de ferro da ponte e surpreendeu-se ouvindo Filipe discutindo
detalhes técnicos com o outro homem. Mas, na realidade, nada era de admirar nele, pois não
aprendera o árabe só por causa de suas plantações na Argélia? Era um homem notável e
muitas facetas dele ainda não conhecia. Por uma ou duas vezes viu que Filipe a observava como
se suspeitasse que era do homem a seu lado de quem ela fora noiva um dia. Mas o que importa-
ria ao marquês de Alviro Rialta uma mulher como ela? Reconhecia que era inacreditavelmente
atraente, com seu cabelo negro, suas feições aquilinas e seus olhos verdes como esmeraldas.
Repentinamente levou um choque. Por que pensava nele com tanta frequência? Filipe não se
preocuparia em pensar numa simples Morgana Carol, ainda mais sem saber se ela gostava dele
ou não.
O resto do passeio foi feito numa atmosfera bem diferente. Filipe fechado e distante. Se
Neli notara a mudança, não deu a perceber, falando de variados assuntos. Filipe respondia
amavelmente, mas só se diriga a Morgana quando absolutamente indispensável. Ao chegarem
em casa, Filipe ajudou Neli a descer do carro, instalou-a no sofá, recusou o convite para
jantar e quase imediatamente voltou para o carro. De repente, Morgana deu por falta do colar
e, sem pensar, correu para fora de casa. Ao vê-la, desligou o motor e saiu ao seu encontro.
— É .. é meu colar — explicou quase sem fôlego —, acho que o deixei cair no carro.
— Ah, sim, o colar! — acrescentou sarcasticamente: — Tão poderoso talismã não deve ser
perdido. — Abriu a porta do carro e o encontrou no chão. Tomou-o entre os dedos da mesma
maneira que o tomara há algum tempo e deixou-o cair nas mãos dela, como se lhe custasse
tocá-lo.
— Obrigada, senhor — disse polidamente.
— Guarde-o bem, senhorita. Pode ser que ele ainda lhe seja útil.
— 0 que quer dizer?
— Talvez da próxima vez não tenha que passar o dia em companhia de quem não goste e se
veja recompensada por rever o homem com quem pretendia se casar.
— Oh! — Morgana sabia que estava escarlate, mas não encontrou palavras para dizer o
quanto estava errado.
— Disse que gostaria deste dia. Creio que gostou.
Então ele pensava que ela se sentia feliz por reencontrar Phillip! E que simulara interesse
pela ponte para que ele parasse o carro! Contudo, apesar de sua infelicidade, conseguiu dizer
desafiadoramente:
— Obrigada, senhor. Gostei muito... do dia todo.
— Do dia todo? Não é preciso mentir. Sei que você não gosta de mina e que não havia
razão para terminar o passeio sem ver os progressos da ponte que estamos construindo. .
O tom e a maneira como falou fizeram-na corar de novo.
— Mas eu não estava mentindo... — começou, quando ele a interrompeu levantando a mão.
— Não minta mais. Detesto hipocrisia!
Morgana deu um pequeno grito. Era horrível ser acusada de uma coisa que sempre
abominara...
— E um pouco cedo para felicitações pelo noivado; mas aqui em Juamasa é possível que
reatem o que romperam na Inglaterra.
— Se está se referindo a Phillip, não cabem felicitações. Nenhum dos dois pretende
reatar o que foi rompido.
— Desculpe, srta. Carol — mas não havia desculpas em sua voz — talvez mude de ideia por
ocasião daquele jantar.
— 0 jantar não vai acontecer. Se lhe dá satisfação, senhor, saiba que não gosto muito de
Phillip.
— Não é preciso gostar para amar. Adeus, srta. Carol. É melhor que eu parta antes que a
raiva nos faça dizer coisas más.
Antes mesmo que ela respondesse, ele deu partida no carro e se foi. Quando sumiu de
vista, sentindo lágrimas ardentes lhe rolarem pela face, correu para dentro de casa e foi para
seu quarto, antes que Neli ou Teresa a vissem e perguntassem o que havia de errado.
Sentada na sua cama, chorou, sem mesmo saber por que, até que reagiu, levantou-se,
banhou os olhos com água fria e vestiu um uniforme limpo, como se ele fosse capaz de afastar
seus pensamentos de Filipe. Quando finalmente desceu, Neli olhou-a apreensiva.
— O que há de errado, querida? Você está tão pálida!
— Nada. Eu estou bem obrigada.
— Esteve chorando!
— Não. Meus olhos estão ardendo. Deve ter sido da poeira.
— Não estavam quando chegamos. O que aconteceu? Teve uma nova briga com Filipe?
— Sim... Não... Ele não me fará mais chorar! Eu o detesto! Nunca conheci alguém que
detestasse mais!
— Compreendo. — Sua voz era seca, mas seu olhar ansioso. Estaria Morgana novamente
amando Phillip ou estaria se entregando a um amor mais perigoso? Desistiu de perguntar-lhe,
sabendo de antemão que receberia uma negativa formal e resolveu mudar de assunto. —
Chame Teresa, Morgana. Acho que precisamos de um bom chá.
— Chá. . . remédio para todos os males...
Teresa atendeu e logo depois Morgana resolveu ajudá-la. Não suportaria ficar ali sob o
olhar arguto e perspicaz de Neli. Teresa, distraída, não percebeu sua aflição e conversou o
tempo todo em seu inglês particular. Voltou para a sala carregando a bandeja e olhando pela
janela, viu um carro preto se aproximando. Por um instante pensou que era Filipe voltando por
algum motivo, mas logo viu Marita saindo do carro.
— Parece que temos visitas.
— Quem é? — perguntou Neli, ajeitando-se no sofá.
— Marita Acquaras.
Quando esta entrou na sala era evidente que alguma coisa a preocupava e que dificilmente
se controlava.
— Boa tarde, srta. Broughton.. . e srta. Carol.
Neli respondeu e logo convidou-a a tomar chá com elas. Também notara a aflição de
Marita.
— Muito obrigada — disse sentando-se, e Morgana saiu para buscar uma xícara para ela. O
que poderia afligi-la tanto? Da última vez que a vira estava tão feliz e despreocupada...
Ao voltar, viu. que a moça lbe dirigia um olhar muito infeliz, o que aumentou sua
curiosidade e vontade de ajudá-la. Neli foi direto, ao ponto:
— O que há, Marita?
Aparentemente, Marita não costumava toma-la por confidente e num gesto desesperado,
cruzou fortemente as mãos no colo, como se fosse a pessoa mais infeliz do mundo.
— Estou com um grande problema — disse tremendo.
Neli conteve um sorriso, sabendo como os jovens levam as coisas a sério.
— Vamos — disse animando-a — certamente não é nada de tão grave assim.
Morgana levantou-se:
— Tenho que passar a ferro umas roupas, portanto me desculpem. — Isso daria a Marita a
oportunidade de falar sem que uma pessoa estranha estivesse presente.
- Oh! Não se vá! Só a senhorita pode me ajudar. Morgana sentou-se novamente.
- Como poderei?
— Sabe que brevemente ficarei noiva de Manuel?
Morgana assentiu.
— Calculei que sim. Vocês dois parecem muito apaixonados.
Por um momento a tristeza desapareceu de seus olhos.
— Ah! Sim! E estou tão feliz!
— Então o que há? — perguntou Neli. — Afinal você não veio aqui por problemas de tão
fácil solução. Vamos, diga logo.
— É a respeito de umas cartas. Eu era muito criança e muito boba.
Ainda é muito criança, pensou Morgana e ajudou:
— Está querendo dizer que escreveu cartas para alguém, um tanto comprometedoras?
— Isso mesmo, senhorita. Fui tola e indiscreta. Agora ele exige certos termos antes de
devolvê-las.
— Quem é essa miserável e ignóbil criatura? — perguntou Neli indignada.
Maríta olhou para Morgana dizendo:
— Não gostaria de chamá-lo de miserável e ignóbil, já que sei que é seu amigo.
— Você não o chamou. Fui eu. Mas, por Deus, diga seu nome. Ela se refere a Phillip, não é?
É de PhillipLayland que está falando, não? — disse calmamente.
Marita confirmou:
— Sim, Phillip Layland.
— Conte-nos a história toda desde o começo — sugeriu Neli. — Nada podemos fazer sem
saber qual sua verdadeira posição.
— Fui tola, indiscreta e muito criança. Voltava de umas férias em Portugal e ele havia
chegado à ilha. Gostei dele e comecei a encontrá-lo secretamente. Não era sempre que
conseguia escapar sozinha e por isso às vezes lhe escrevia. Não foram muitas cartas, mas o
que escrevi era indiscreto.
— E agora presumo que esteja fazendo chantagem com essas cartas — disse Neli. — O
que quer ele?
— De mim, nada. É a srta. Carol que ele quer ver.
— Ele quer me ver? E se eu não for?
— Entregará as cartas para a sra. Corestina. Vai me ajudar, não é, srta. Carol?
Morgana concluiu que a sra. Corestina era a mãe de Manuel.
— Vou ajudá-la se puder. Primeiro quero saber o que quer ele de mim.
— O que exatamente lhe disse ele? — perguntou Neli.
— A mim, nada; mas me mandou este bilhete ainda agora e eu vim imediatamente. — Abriu
a bolsa e o entregou a Morgana.
Esta reconheceu a caligrafia dele e depois de inteirar-se do conteúdo passou-o para Neli.
"Pequenina: Como parece que você cedeu aos desejos de sua família, quero lembrá-la de
que possuo certas cartas que seria muito interessante dar para o ingénuo Manuel ler, ou
então, a sua mãe. Sugiro que peça para Morgana Carol que me encontre para discutirmos os
termos do acordo. Como fomos amigos um dia, poderei entregar a ela sob certas condições.
Phillip."
— Bem — comentou Neli —, se ainda tinha algum entusiasmo por esse vilão, creio que isto
põe fim a tudo.
— Estou pensando como a gente pode se enganar tanto com uma pessoa — disse Morgana.
— Você também gostou dele um dia? — perguntou Manta.
— Eu era noiva dele, mas rompemos. Não sei se teria vindo para a ilha se soubesse que ele
estava aqui. Mas parece que foi bom eu ter vindo. — E acrescentou olhando para Neli: —
Tenho uma arma contra ele da qual ele não faz ideia.
— E a usaria contra ele? — perguntou Neli.
— Sim, se ele começar a ditar ordens. Não gostaria de descer ao nível de coisas que ele
está fazendo, mas terei que usar da mesma inescrupulosidade que ele. — Virou-se para
Marita: — Não se aflija, trarei as cartas de volta.
O alívio de Marita era evidente.
— Sabia que me ajudaria! Senti que seríamos amigas, na primeira vez que a vi.
— Agora que já esclarecemos o assunto, creio que precisamos de um novo chá, pois este
esfriou — disse Neli.
— Farei um novo. - Teresa está ocupada com o jantar.
— Janta conosco? — convidou Neli.
— Gostaria muito, mas temos convidados para o jantar e deverei estar presente —
desculpou-se Marita.
Morgana foi para a cozinha fazer novo chá. O que exigiria Phillip em troca das cartas? Por
que lhe pedira que fosse a intermediária? Que diferença entre o homem que conhecera na
Inglaterra e este de agora! Ainda pensava como se pudera enganar tanto a seu respeito,
quando voltou para a sala. Serviu a ambas, depois a si mesma e perguntou:
— Phillip lhe mandou esta carta hoje a tarde?
— Sim, e fiquei surpresa, pois há várias semanas que não tinha notícias dele, e já me
julgava salva, quando chegou a carta.
Morgana compreendeu que ele havia escrito a carta logo depois que ela o deixara. Suas
razões ainda eram obscuras.
— Posso conservar a carta? — perguntou, e Marita devolveu-a. Leu-a uma segunda vez.
Era óbvio que ele se valia da chantagem para forçá-la a encontrá-lo. Mas por que? Certamente
não a amava e o motivo só poderia ser amor-próprio ferido.
— Vou comunicar-lhe que você vai encontrá-lo para reaver as cartas — disse Marita, mas
Morgana discordou.
— Não é preciso. Diga-me onde mora e me comunicarei com ele o mais breve possível.
Marita escreveu o endereço da casa que ele alugava e, bem mais feliz do que quando
chegara, saiu rapidamente, pois a família nada sabia dessa sua escapada. Pelo menos
aprendera a lição. Uma coisa que aparentemente terminaria bem poderia se tornar séria se
viessem a saber da verdade..
- Imagino se devemos ajudá-la assim sem o conhecimento da família — disse Morgana,
suspirando.
— Admito não ser muito correto; contudo evitaremos aborrecimentos e mais tarde
Marita confessará tudo para Manuel, terão uma pequena discussão e não haverá mais sombras
entre os dois.
— Espero que assim seja. Gostei de Manuel. Formam um bonito par.
— Como Filipe e Celestina? — perguntou ironicamente.
Morgana, que se esquecera de Filipe com o problema de Marita, limitou-se a responder:
— Acho que combinam — e começou a juntar as coisas do chá na bandeja. — Creio que vou
ver Phillip logo depois do jantar.
— A essa hora da noite? Isso vai contra todas as regras de Juamasa, você sabe.
— Mas acho que é a melhor hora para vê-lo. Não quero que me vejam e sem ir ao campo
de trabalho não tenho onde mais encontrá-lo. Em todo caso, demorarei muito pouco tempo,
pelo menos, espero.
Neli, apesar de não gostar muito, acabou concordando. Não mais falaram nisso durante o
jantar, apesar de ambas pensarem no assunto constan temente.
Morgana pegou o carro e deixando Júlio protestando veementemente, dirigiu-se para o
endereço que Marita lhe dera. A casa estava completamente às escuras e ninguém atendeu.
Desceu do carro e, indo até a porta, verificou que estava aberta. Entrou, acendeu a luz e tirou
uma folha de um caderninho de notas que trazia sempre consigo e sentou-se para escrever.
"Querido Phillip", começou, "ficarei feliz em aceitar seu, amável convite para jantar. Diga-
me quando lhe convém e arranjarei com a srta. Broughton para estar livre nessa hora."
Assinou e imaginou se ele se daria conta do deliberado sarcasmo das primeiras palavras.
Provavelmente, não. Saiu da casa e fechando a porta desejou que os criados não entendessem
inglês, pois não havia envelope e o bilhete estava exposto. Na volta para casa, não havia
andado muito, quando um carro passou por ela em sentido contrário. Dentro estavam Filipe e a
seu lado seu ex-noivo. Ardentemente desejou que Filipe não a tivesse visto, mas logo depois
pensou que ele nada tinha a ver com isso.
Filipe vira Morgana. Nada disse, mas freiou o carro bruscamente ao chegarem à casa de
Phillip.
— Os papéis estão lá dentro — disse Phillip —, e, se quiser assiná-los, poderei despachá-
los amanhã bem cedo.
Entraram ambos. Filipe parecia muito cansado, mas seus olhos caíram num pedaço de papel
que estava no chão, naturalmente tocado pelo vento. Apanhou-o e depois de correr os olhos
por ele, entregou-o a Phillip dizendo:
— Isto parece ser seu, Layland — e estendeu-lhe a nota de Morgana.
Phillip pegou agradecendo, leu rapidamente, enfiando-o depois no bolso.
— Vou buscar os papéis — disse, e dirigiu-se para o outro quarto visivelmente satisfeito.

CAPÍTULO 8

Morgana durante uns dias não soube de Phillip. Não que estivesse ansiosa por encontrá-lo.
Sua pressa era por Marita, que, sendo temperamental, podia se desesperar a qualquer
momento.
Continuava a se admirar de que um dia pudesse ter pensado estar seriamente apaixonada
por ele. Também não podia deixar de compará-lo a Filipe. Este jamais teria a covardia de
escrever uma carta rompendo um noivado. Procuraria a moça e lhe diria pessoalmente. Se ele
um dia amasse seria para sempre. Se ele um dia amasse! Como seria ser amada por ele?
Lembrou-se da primeira impressão que tivera dele. Paixão e ternura, crueldade e vontade.
Nenhuma moça poderia fingir amá-lo; ele descobriria a verdade, forçando-a a amá-lo ou então
a tiraria de sua vida. Quem seria capaz de resistir-lhe se ele lutasse por seu amor?
Levantou-se achando que esses pensamentos eram muito perigosos e decidiu lavar a
cabeça. Isso deveria manté-la ocupada e não daria tempo de pensar em Filipe. Mas depois de a
ter lavado, veio para junto da janela e novamente se viu pensando nele. Aborrecida com a
maneira como se despediram no último encontro, lembrava-se da sua figura altiva e fria bem
como de sua indignação no momento. 0 que tinha ele se ela se encontraria ou não com Phillip?
Ele podia ser o senhor de Juamasa, mas nada tinha a ver com o que faziam seus moradores!
Mas lembrava-se também da tremenda sensação de abandono que a fizera subir correndo
para o quarto e chorar amargamente. Resolveu ler mais um pouco da história de sua xará, mas
até nisso lhe vinha Filipe à mente, pois ele lhe emprestara o livro. Sem dúvida o fizera para
impedi-la de sonhar com Phillip, não por motivos pessoais, mas simplesmente para demonstrar
seu poder. Não sonhara com Phillip e agora não desejava vê-lo. Na verdade encarava a
perspectiva do jantar com extrema relutância e talvez com o mesmo desgosto que vira nos
olhos de Filipe quando este a acusara de ter ido passear com ele só para poder encontrar
Phillip.
Entretanto à tarde chegou uma mensagem de Phillip. Mostrou-a a Neli antes de subir para
se arrumar para sair.
Neli leu alto: "Minha querida Morgana, senti que você está tão ansiosa quanto eu para
voltar aos velhos tempos, ainda mais considerando o que está envolvido. Irei buscá-la às sete
horas da noite."
— Ele está muito seguro de si, não?
— Seguro demais — replicou Morgana. — Acho que depois desta noite ele não causará
mais problemas. Sei que ele não é aceito pela sociedade de Juamasa e que não quer perder o
pouco que lhe resta nesta ilha. Ou ele me devolve as cartas e deixa Marita em paz, ou lhe
contarei sobre a minha próxima morte e sua participação nela e não me importarei se toda a
ilha souber — dissera as últimas palavras firmemente, sem nem um leve tremor na voz.
— É uma arma terrível que você tem — admitiu Neli, esforçando-se para parecer calma.
Se Morgana podia enfrentar a ideia tão serenamente, era sua obrigação engolir suas lágrimas,
pois a última coisa que ela queria era piedade. Viera para Juamasa para escapar à mórbida
curiosidade das pessoas e agora abria mão desse segredo em favor de Marita.
— Admito que significa muito para mim revelar o que aconteceu. Mas meu tempo é curto e
não pretendo deixar que Phillip cause infelicidade a Marita. A que me causou já é suficiente.
Também gosto da sra. Acquaras e o rompimento do noivado de sua filha seria um desgosto
para ela. Manuel e Marita se amam e não vou permitir que Phillip se intrometa.
— Você não tem ideia do que Phillip possa querer?
— Dístração para seu tédio, suponho. Sei que ele não me ama, embora o afirme. Deve
estar pensando que me atirarei em seus braços. É muito convencido.
— Que bom, minha filha! Dê-lhe a conhecer um pouco da agressividade que você tem para
com o pobre Filipe!
Morgana reparou no "pobre Filipe", pensando que ele era bem capaz de cuidar de si
mesmo, e, decidida a tirá-lo do pensamento, continuou:
— Voltando ao assunto, não creio que seja necessário que mais alguém além de Phillip saiba
do acidente, pois creio que ele não é louco de querer que caia no conhecimento geral. — Virou-
se para a porta: — Agora é melhor que me vista, pois não tenho a noite toda para isso. Nunca
pensei que pudesse desprezar tanto uma pessoa como Phillip. Pareço ter me tornado uma
pessoa odiosa.
— Não, minha querida. Sei exatamente como se sente, mas acho que a feriria se lhe
dissesse.
— Nunca poderá ferir-me, srta. Broughton.
— Quando passou o primeiro choque e sua revolta contra o destino, começou a pensar que,
afinal, tudo que aconteceu fora melhor. Não queria viver sem Phillip e seu subconsciente se
defendia. Então viu-o novamente e pensou que ele a amava e que seu amor por ele era maior do
que nunca. Não lhe contando a verdade, você se sentia quase como uma mártir. — Vendo o
olhar surpreso de Morgana, acrescentou: — Não se aborreça, minha filha; eu disse
inconscientemente. Posso estar enganada. Afinal, é tudo dedução minha.
— E agora? Como me sinto?
— Não tem mais as razões para aceitar o que lhe aconteceu. 0 Phillip que conheceu nunca
existiu. Você quer viver novamente,
— Sempre quis viver!
— Sim, mas agora tem consciência de que não vale a pena morrer por alguém como Phillip.
— Pensando bem, ele não teve culpa de meu acidente. Como poderia ele saber que eu me
comportaria de maneira idiota, descendo da calçada quando vinha um carro?
— Ele causou-lhe o choque que a fez agir de maneira impensada. Moralmente, diga você o
que quiser, é culpado. E agora acho que é melhor se arrumar, pois aquela ignóbil criatura pode
aparecer aqui a qualquer momento.
Morgana subiu as escadas pensando no que lhe diria, mas sabendo que na hora suas
palavras sairiam diferentes do que planejasse. Quando abriu o guarda-roupa, por um momento
pensou em se fazer o menos atraente possível. Então pensou na figura de Morgana, a Fada, do
livro que Filipe lhe emprestara e, sorrindo igualzinho a ela, pegou o vestido de veludo preto.
Neli olhou-a admirada, como se fosse uma outra Morgana que estivesse entrando na sala.
O sombrio vestido negro era maravilhosamente bem cortado e ressaltava a figura esguia dela.
Não era mais a austera enfermeira Carol, mas sim a maquiavélica Morgana, a Fada, saída do
livro e possuidora de palavras mágicas, sortilégios e uma inegável beleza.
— Gosta do meu vestido? — perguntou.
— Você parece diferente: cruel.
— Phillip me fez cruel.
— Não mude muito, Morgana. Estas últimas semanas foram difíceis de suportar, mas não
se perca. Tenha fé em Morgana Carol. Não se transforme em Morgana, a Fada!
— Antes eu tivesse agido mais de acordo com meu nome. Ele não me teria tratado como
um cachorrinho que se chama ou manda embora de acordo com o humor.
Neli ponderou que talvez naquela noite Phillip precisasse realmente de uma Morgana, a
Fada. Na verdade, sentiu até um pouco de pena dele, que só conhecia Morgana Carol e que
teria que se defrontar com a outra: cruel, sofisticada e fantasticamente linda. Viu o choque
que ele teve ao entrar na sala e deparar com aquela moça que usava um vestido de veludo
preto de Unhas medievais.
— Está atrasado, Phillip. Tenho certeza de que poderia ter chegado na hora numa ocasião
tão importante. Sei que está tão ansioso quanto eu para discutir o... passado.
— Desculpe, Morgana. Tive um compromisso que me retardou. — Havia em seu rosto uma
surpresa e quase um atordoamento. O que acontecera com a Morgana que ele conhecera? —
Reservei uma mesa no Descani.
— Descani é o melhor restaurante de Juamasa — observou Neli.
— Mas esta é uma ocasião importante, não é, Phillip?
Este lançou-lhe um olhar preocupado. 0 que estava acontecendo? Por que aquela mudança?
Esperara encontrá-la relutante e no entanto ela se mostrava confiante demais. Como se
comportaria? Por fim, resolveu descobrir mais tarde e perguntou:
— Podemos ir agora?
Ela não respondeu e majestosamente inclinou a cabeça e Neli achou que ela mais parecia
uma rainha concedendo favores. Entraram no carro e se dirigiram para Lorenzito quase em
silêncio. Phillip não parecia querer abordar o assunto que era a razão de seu encontro e
Morgana resolvera deixá-lo descansar um pouco. O Descani estava como no dia da festa: com
suas mesas entre as árvores e o cantor de voz aveludada andando por entre as mesas e
cantando canções românticas. Mas esta noite Morgana estava representando Morgana, a
Fada, embora desejasse ser apenas Morgana Carol.
Phillip parecia ter readquirido seu controle e examinava-a com olhos aprovadores.
— Vestido diferente, este que está usando — comentou.
— Sim, também acho — disse friamente. — Mas acontece que eu tenho muitos vestidos,
agora. Gastei todas as minhas economias antes de vir para estas minhas férias.
— Mas você era tão simples! O que a fez mudar?
— Achei que não precisava mais economizar e resolvi fazer destas, férias algo de que me
lembrasse pelo resto da vida. — Sorriu enigmaticamente. — Verdade, estou aqui
profissionalmente, mas tenho tão pouco o que fazer que mais me considero em férias.
— Você é engraçada. Garanto que veio para se divertir.
— Vim e estou gostando muito.
— Sabe? Você mudou muito, Morgana.
— Verdade? Como é observador, Phillip. Uma porção de coisas mudaram também em minha
vida e era inevitável que eu própria mudasse.
— Sim, suponho que sim. — Parecia um pouco envergonhado. Resolutamente encarou-o e
disse: — Muito bem, Phillip. Chega de conversa. Falemos do bilhete que mandou para Marita.
— Não ainda. É cedo..
— Mas tarde o suficiente para falarmos sobre o que precisa ser dito. Não pretendo
prolongar este jantar. Você sabe muito bem que eu relutei em aceitar seu convite lá no campo.
— No entanto, veio.
— Para negociar. Não se iluda, Phillip. Não vim por vontade própria. Agora me diga quais as
condições para me devolver as cartas.
— Nada difícil ou complicado. Marita terá suas cartas de volta quando você me prometer
aceitar todos os meus convites. Ou melhor ainda: devolverei uma carta cada vez que
jantarmos juntos.
— E então você supõe que esse tempo seja suficiente para que eu caia em seus braços
novamente, certo?
Pareceu chocado, mas recompôs-se logo.
— Acho que você é quem vai aceitar minhas condições.
— Suas condições! Que espécie de condições terá você, minha querida Morgana! Tenho as
cartas de Marita, lembre-se!
— Sim, Phillip. Sei disso muito bem e ainda acho que você vai entregá-las e concordar com
tudo o que eu disser.
— Que mais tem a dizer?
— Você me entregará as cartas e não falará disso a ninguém. Também não aborrecerá
mais a Marita nem a mim.
Phillip riu.
— Minha querida tolinha! Por que o faria?
— Porque há uma coisa que você ainda não sabe, Phillip. E mesmo agora reluto em lhe
contar. Antes, escondi porque pensei que o amava. Ridículo, não é? Se você tem algum amor à
sua paz de consciência, não me pergunte o que é, pois garanto que vai se arrepender. Não me
faça contar tudo a você e ao resto da ilha. Concorde com minhas condições, por favor.
— Espera realmente que eu concorde sem saber do que se trata? Nunca ouvi nada mais
absurdo!
— É uma oportunidade em que deve pensar.
— Nem quero pensar.
— Pois muito bem. Lembra-se da carta que me mandou? Pode imaginar como me senti e agi
como uma louca.
— Meu Deus, Morgana! Não me diga que tentou o suicídio!
Ela riu sarcasticamente.
— Claro que não! Não seja tão convencido. Eu devia saber, mesmo inconscientemente, que
você não merecia.
— Não precisa ser tão rude.
— A culpa é sua. Ainda quer que continue?
— Quero! Bem, se não foi isso, então, o que foi?
— Se eu tivesse tentado o suicídio, você não desejaria que o povo da ilha soubesse, não é?
Começo a conhecer os portugueses e sei que são sentimentais e românticos. Toda a simpatia
seria dirigida para mim e você seria repudiado pelo resto do tempo que permanecesse aqui.
— Mas não tentou e também eu poderia negar mesmo que fosse, verdade.
— Mas não pode negar um fato inevitável. Quer ouvir mais? No dia em que recebi sua
carta, fiquei tão chocada que saí para a rua completamente tonta. Houve um acidente. Fui
atropelada por um carro.
— Mas está recuperada. E acho que se engana com o povo da ilha. Ele não admite covardia
como essa tentativa de suicídio.
A dura concha se quebrou e dela saiu uma Morgana Carol verdadeiramente zangada.
— Não acho que tenha sido covardia. Eu estava tonta demais até para pensar na
possibilidade de um suicídio.
— A que leva toda essa conversa? — perguntou impaciente. No íntimo alguma coisa lhe
dizia que seria melhor aceitar seus termos sem saber de mais nada. Por outro lado, não
acreditava tratar-se de nada sério.
— Não me recuperei do acidente. Vou morrer em menos de um mês — disse Morgana
clara e de liberada mente.

Capítulo 9

Pela palidez dele, viu que acreditava no que havia contado.


— O que aconteceu? — A voz dele era quase um murmúrio e a voz do cantor parecia
irreal.
Fez-lhe um relato sem omitir nenhum detalhe.
— Eu lhe pedi para que não me perguntar nada. — Seus olhos o observavam. — Agora
concorda comigo? Não penso que você queira que a ilha toda saiba disso. Como você disse, eles
não admitem covardia e uma tentativa de suicídio não seria compreendida mas o que me
aconteceu conquistará a simpatia deles de todo o coração.
Sim, ele imaginava o que aconteceria. Uma moça rejeitada pelo homem que amava nas
vésperas do casamento já era por si só uma coisa triste. Mas tinha havido o acidente e agora
ela ia morrer. Ela teria toda a simpatia da ilha, pois a população era romântica e senti mental.
Por outro lado, nem podia pensar no que estava acontecendo com Morgana. Sua mente era um
turbilhão e agora só havia uma coisa a fazer.
— Vou levá-la para casa. Receberá as cartas pela manhã. Farei como me pede.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, um homem chegou perto de Phillip e lhe disse
qualquer coisa em português. Este respondeu rapidamente e virou-se para Morgana tentando
comportar-se normalmente.
— Tenho que deixá-la por um momento. Estão me procurando. É alguma coisa com a ponte.
Morgana assentiu indiferente e passou a olhar o jardim e as outras pessoas enquanto ele
saía. Sabia que ele acreditara e imaginava como devia estar se sentindo. Phillip não era
exatamente o tipo do homem que aceitasse uma culpa. Mandaria as cartas, porque sabia que
ela não hesitaria em cumprir sua ameaça. A nova Morgana devia tê-lo impressionado, fazendo
dele um escravo voluntário. Riu da ideia. Ele não era tão ruim. A antiga Morgana saiu da
concha novamente. Reconhecia que Neli estava certa quando afirmara que a aceitação dos
fatos era inconscientemente uma forma mais fácil de suportar o inevitável. No momento, só
via Phillip se afastando e tinha consciência de que em seus lábios brincava um sorriso cruel.
Logo depois levantou-se, pois não podia suportar o som da música e o romantismo do
cantor, cantando as coisas lindas da vida como o amor. Somente quando deu alguns passos na
escuridão das árvores é que se preocupou com seu comportamento, certamente inconveniente
para uma moça desacompanhada.
As sombras cercaram-na, frias e misteriosas, expulsando para fora dali as coisas que
queria esquecer. A grama era macia e ela caminhou por alguns minutos sem se preocupar com
a possibilidade de Phillip voltar e não encontrá-la. O macio tronco de uma árvore tropi cal era
convidativo e ela se apoiou nele, deixando que seu olhar fosse para as estrelas. Pareciam
distantes e a escuridão entre elas fria e vazia. Tão vazia quanto o futuro. Deu um suspiro e só
então se deu conta de que não estava sozinha.
— Por que suspira, senhorita?
A encantadora voz lhe era muito familiar, mas por um momento não se voltou.
— Não responde? Era talvez um suspiro de felicidade. Parece que seu talismã árabe
começa a lhe satisfazer os desejos.
Virou-se para ele com os nervos tensos:
— Creio que não compreendo, senhor.
— Acho que compreende. Parece que toda sua força de vontade não foi suficiente para
recusar um convite para jantar, como tão veementemente me afirmou que não aceitaria.
Morgana apertou as mãos sentindo-as frias e geladas.
— Se isso lhe dá alguma satisfação, senhor, eu não tive escolha.
— Naturalmente. 0 coração não permite escolha.
— E se assim fosse; no que isso lhe diz respeito?
— Me diz respeito somente porque sei que é muito moça, convencida e irresponsável para
escolher o que é melhor para si. Foi esperta demais uma vez para conseguir encontrar esse
homem fraco e dependente. Agora reata suas relações com ele.
— Não reatei nada — disse impensadamente e logo percebeu que isso pareceria
inverossímel, pois ali estava ela jantando com ele.
— E então? Pensei que tivesse mais amor-próprio e..- nunca terminaria o que começara a
dizer, porque a tempestade de emoções dentro dela se tornou uma fúria cega e levantou a
mão desejando alcançar aqueles lábios para que parassem de falar. Mas falhou em seu intento,
pois os dedos finos e fortes dele agarraram sua mão cruelmente, quase fazendo-a gritar.
— Então? — perguntou novamente. — Não aguenta a verdade?
— Posso enfrentar a verdade, que é muito diferente. Você gosta de tirar suas próprias
conclusões. Todos nesta ilha devem fazê-lo acreditar que é infalível. Desde que cheguei que
você tenta dirigir minha vida dizendo me o que fazer. Não admito mais. Você pode ser o rei
sem coroa de Juamasa, mas não serei uma de suas míseras escravas!
— Cale-se!
Ela reconhecia o sinal de perigo no tom de sua voz. Mas tudo lhe acontecera. 0
rompimento de seu noivado, o acidente, a desilusão com Phillip ao reconhecer a total falta de
caráter dele e agora esse homem querendo interferir em sua vida... era demais!
— Não me calo!
Mas calou-se. Reconheceu que tinha ido longe demais. A lua apareceu nesse momento,
filtrando-se por entre as árvores e ela pôde ver seus olhos brilhando raivosos. Sentiu medo
mas, antes que pudesse se mover, as mãos dele seguraram-na firmemente pelos ombros.
Esperava a explosão da fúria dele quando seus lábios desceram até os dela, esmagando-os com
selvageria. Quando finalmente a largou, reclinou-se novamente no tronco da árvore, enquanto
com a mão tampava a boca.
— Vá-se embora — disse finalmente. — Vá-se embora e espero nunca mais vê-lo.
— Esse desejo é mútuo — disse controlado. — Reservei um voo para Portugal para uma
curta visita; agora pretendo ficar lá até que já se tenha ido da ilha. Acho que isso a satisfaz,
senhorita.
— Perfeitamente.
— Então, adeus.
Sem mais uma palavra, girou nos calcanhares e se foi por entre as árvores, saindo de sua
vida para sempre; assim pensou ela. Ele não a queria ver mais, pois ela o fizera perder o
controle. Beijara-a por castigo ou punição e ao vê-la se lembraria disso. Dissera que só
voltaria à ilha depois que ela tivesse partido; mas não podia ele imaginar que espécie de
partida seria a dela. Neli guardaria segredo até o último dia e também nunca saberia que
Morgana Carol cometera o crime final de se apaixonar pelo marquês de Alviro Rialta.
Phillip aparentemente não notou que ela se ausentara. Retornou à mesa logo depois de ela
ter-se sentado. Notou que ela estava diferente, pois Morgana, a Fada, desaparecera e estava
de volta a antiga Morgana, com todo o aeu encanto.
— Quer ficar mais um pouco ou ir embora? — perguntou.
— Gostaria de ir agora.
Sentia-se muito infeliz. Não tinha mais nenhuma ilusão que lhe desse forças para lutar por
alguma coisa. Esse abatimento era real e diferente de tudo que já sentira antes. Nunca o
esqueceria, come se pudesse se casar um dia, só poderia ser com ele. Sempre se lembraria de
seu rosto moreno e de seus olhos profundos e verdes, bem como dos dois beijos: um alegre e
cacoista no festival das flores o outro cheio de emoções violentas. Por que ele a odiava tanto?
verdade que o tratara como nenhuma outra mulher o havia feito mas ele não era convencido, a
despeito de ser atraente e possuir umí grande fortuna. Não havia respostas para essas
perguntas e não havia tempo para pesquisar as respostas. Deu-se conta, então, do pouco
tempo que lhe restava. Em duas semanas não estaria livre da dor de amar Filipe. No entanto
tudo daria para amá-lo e ser amada ele. Para ter o direito de pensar nele, lembrando dos
momentos agrai dáveis e esquecendo as desavenças anteriores.
Mas agora tudo era diferente. Essa ânsia de viver .nada tinha Morgana de há pouco tempo
atrás, mas era um silencioso deseje embora consciente de que as coisas não poderiam ser
diferentes.

CAPÍTULO 10

0 fato de saber Filipe ausente da ilha tornava o sol menos brilhante e o céu menos azul.
Enquanto punha suas coisas em ordem, Morgana pensava como era difícil tomar uma
decisão. Uma coisa era aceitar o que devia acontecer e outra era resolver o que deveria ser
feito. Ouviu Neli chamando-a e desceu para ver o que era.
Obviamente ela queria dizer alguma coisa, mas não encontrava palavras. Conhecendo-a
bem, Morgana percebeu e ajudou perguntando:
— 0 que há?
Mesmo assim ela não se decidia a falar. Era difícil para ela perguntar o que queria.
— Você me disse que queria reservar uma passagem... e desaparecer durante uma noite ..
estive pensando se realmente quer isso.
- Eu evitaria o aborrecimento de um funeral — replicou Morgama
— Mas como se sentiria sabendo que teria que enfrentar o fim sozinha? Fique aqui,
Morgana. Se ainda não quer que ninguém saiba, daremos um jeito. Cari terá que saber,
naturalmente; mas ninguém mais. De qualquer modo, não a deixarei sozinha; se você for, irei
junto,
— Mas por quê? Não está unida a mim; quero dizer, não tem obrigação nenhuma...
— Mas estamos unidas uma à outra... Pelo menos é o que eu penso. Você ficará aqui
enquanto for possível, não é, minha querida?
Morgana sentiu-se confortada por saber que a união entre elas era uma amizade sólida e
profunda.
— Ficarei. Na verdade ainda não providenciei nada. Não sabia o que fazer. Só não queria
ser um transtorno para ninguém.
— Não seja ridícula! - disse Neli, feliz. — Recebeu as cartas de Marita de volta?
— No dia seguinte — confirmou Morgana.
— Você nunca me contou o que aconteceu naquela noite.
— Ele reagiu exatamente como eu imaginei — contou os pontos principais de sua conversa
com ele e disse por fim: — Viemos para casa sem praticamente dizer uma palavra.
Ambas se entregaram aos próprios pensamentos. Morgana pensando em seu amor por
Filipe e Neli, como de costume, desconfiando; de que ela não lhe contara tudo.
— Há alguma coisa mais, não há? Quer falar sobre isso? Suspeitava que fosse algo sobre
Filipe.
— Nada de particular interesse — disse disfarçando. — Fui dar um pequeno passeio pelas
árvores, enquanto Phillip era chamado ao telefone, naturalmente contrariando a todas as
normas portuguesas — concluiu sem mencionar Filipe.
— E Filipe encontrou-a lá?
Morgana levou um susto.
— Como soube?
— E fácil saber quando você fala dele; pelo menos para mim - explicou Neli.
— Quer dizer que fico com o olhar de Morgana, a Fada?
— Não, minha querida. — Neli encarou-a. — Você se apaixonou: por ele, não foi?
Por um momento pareceu que Morgana ia negar, mas depois concordou:
— Sim, idiota que fui e completamente inútil — sorriu — pelo menos ele não sabe!
— O que aconteceu naquela noite?
Morgana por fim contou tudo, com as mãos fortemente entrelaçadas, e terminou dizendo:
— Ambos dissemos coisas horríveis e agora ele vai para Portugal e me odeia.
Para Neli parecia incrível que Filipe tivesse ciúmes de alguém.! Então isso queria dizer que
o invulnerável Filipe estava finalmente apaixonado! Isso seria terrível pois outra vida seria
arruinada. Então ouviu Morgana deu um grito de dor intensa e agarrou a cabeçal com as mãos.
— O que foi? — perguntou Neli não ousando pensar; não podia estar começando tão cedo!
Um gemido foi a resposta, quando uma segunda dor sobrevinha e ela procurava se
controlar. Tensa, esperava pela terceira dor, sabendo que se continuassem nessa intensidade
não poderia mais se controlar. Neli veio rapidamente até ela, segurando-a pelos ombros sem
se incomodar com sua perna que doía,um pouco.
— Onde estão seus comprimidos?
Morgana repetiu as palavras dela com os olhos enevoados, lembrando-se vagamente de que
lhe haviam dado no St. Christopher uns comprimidos. Mas onde estariam? Não conseguia
pensar direito, mas finalmente lembrou-se e Neli correu a buscá-los. Na volta passou pela
cozinha para pegar um copo de água e rapidamente explicou para a atônita Teresa:
— A srta. Carol está com dor de cabeça.
Quando entrou na sala, Morgana estava ainda mais lívida e a dor parecia ter aumentado,
deixando-a quase inconsciente. Ajudou-a a tomar o remédio e ficou ansiosa esperando que
melhorasse. Pouco a pouco as cores foram voltando e ela sorriu debilmente:
— Obrigada, srta. Broughton. Não pensei que começasse assim.
— Como se sente agora? — perguntou Neli com uma estranha umidade nos olhos. Aquela
não era hora para lágrimas!
— Muito melhor. Mas sinto-me muito tonta e não consigo enxergar direito. Fui avisada de
que isso aconteceria.
— Agora não discuta comigo. Vamos procurar Cari, coisa que já deveríamos ter feito. Fui
culpada por me deixar influenciar por você.
— Não! Não quero Cari envolvido. Ele nada pode fazer.
— Vou ordenar que Júlio tire o carro e vamos agora mesmo para o hospital.
Morgana permaneceu deitada, numa semi-inconsciência que lhe parecia estranha, mas que
lhe dava paz. Tudo parecia irreal e seus pensamentos se confundiam. Devia ser o efeito do
comprimido, pois pensou ver Filipe parado na porta. Não podia ser ele. Era somente uma
alucinação de sua mente ou um desejo de seu coração. Ele estava em Portugal e lá ficaria até
que ela se fosse.
— Alô, Filipe — disse para a alucinação. — Voltou muito cedo. Ainda estou aqui; mas não
por muito tempo. Não se preocupe. — Tentou sorrir: — Sei que você não gosta de mim, mas
não vai ter que me aturar por muito tempo. Vou morrer logo.
— Não brinque com essas coisas! — ouviu a alucinação dizer.
— Oh! Não estou brincando — disse sonolenta. — Oh! Alô, Neli. Você voltou? Você não é
uma alucinação, é? Você está realmente aqui. Mas eu vi a alucinação de Filipe. . . Você o vê
também? — Então tudo se misturou. Ouvia vozes ao longe e mergulhou numa escuridão que já
lhe era familiar por ocasião do acidente. Sorriu, inconsciente daquele território onde nada
mais poderia atingi-la.
Ou poderia? Sentiu que alguém a carregava no colo e pensou que poderia ser Filipe. Do seu
mundo enevoado ouvia Neli falando do acidente e suas consequências. De vez em quando, Neli
parava de falar e ela tentava dizer alguma coisa para ajudar, mas via sempre Filipe e seu
rosto estava estranhamente sério.
— Você está diferente, Filipe — disse, enrolando um pouco as palavras. — Está doente?
Percebeu que cuidadosamente ele a colocava no banco do carro e que estava apoiada em Neli.
Depois tudo desapareceu por completo.
Para Neli, que a segurava em seus braços, pareceu uma eternidade até que as paredes
brancas do hospital apareceram e Filipe a carregou para dentro, agora completamente
inconsciente. Cari veio encontrá-los e, em rápidas palavras, Neli contou o que acontecera.
Deu-llhe o vidro de comprimidos.
— Encontrei isto na sua gaveta. E o relatório e as radiografias.
Cari examinou-as, sempre falando em sua língua natal, e, enquanto os a tendentes levavam
Morgana, leu rapidamente o relatório.
— Então? — a voz de Filipe era ríspida.
— Eles tinham razão. Não há esperança alguma.
— Tem que haver!
— Ela sabia há três meses que nada poderia ser feito, Filipe.
— Alguma coisa tem de ser possível!
Cari fez um gesto de desânimo.
— Ordenei novas radiografias, mas duvido que possa lhe dar esperanças. Esperem aqui.
Voltarei assim que tiver notícias.
Pareceu uma nova eternidade o tempo que tiveram que esperar. Neli sentou-se com a
perna inchada e irritada por uma coisa tão sem importância poder afetá-la numa hora
daquelas. Filipe parecia um tigre enjaulado, com os nervos à flor da pele, coisa que não era
própria do senhor de Juamasa, mas se as previsões de Neli estavam certas, ele sofreria ainda
mais, dentro em pouco.
Cari voltou diferente.
— Há uma pequenina chance; mas ela tem que ser operada imediatamente. O único
problema é que não há quem faça essa operação.
— Mas e você? — perguntou Neli imediatamente.
Cari sacudiu a cabeça:
— Eu nunca poderia fazê-la. Seria uma dessas operações... quase uma experiência...
— Você foi capaz de experimentar antes. — Estava sendo cruel e o rosto de Cari
empalideceu mais.
— Não... me faça lembrar disso!
— Se estava pronto para experimentar uma vez, pode fazê-lo novamente.
— Não... não posso, Filipe. É demais para uma só pessoa. Não posso carregar duas mortes
na minha consciência! Ela pode morrer também. — Com as mãos encobria os olhos, mas não
podia deixar de ouvir Filipe.
— Você não errou antes.
— Talvez... mas ela morreu. Filipe, não posso fazê-lo. Sei que falharei. E então terei
vontade de me matar.
— Se há uma pequena chance de salvá-la e você nada fizer, eu me encarregarei de matá-
lo! — Seu olhar era tão feroz que Neli tremeu.
— E se a operação não tiver êxito?
Neli olhava apavorada para ambos. De repente lembrou-se: Morgana lhe falara de um
cirurgião que tentara essa operação antes e que, tendo falhado, desaparecera. Seria um
milagre? Estaria ele ali na sua frente?
— Cari — disse calmamamente. — Não sei muito a respeito dessa outra operação de que
estão falando, mas, se você acha que tem uma dívida, eis a ocasião de pagá-la.
— Eu matei uma vez. Poderia matar novamente.
— Ela morrerá se você não operar. — Foram as palavras calmas de Neli que o fizeram se
decidir.
— Muito bem — disse finalmente — operarei. — Parecia mais calmo agora que a decisão
estava tomada. — Preciso de um remédio muito raro e muito caro— disse, virando-se para
Filipe. — Você o traria do continente para mim? Terá que ir à Universidade de Pesquisas
Médicas. É o único lugar onde pode ser encontrado, pois ainda está em fase de pesquisa.
Talvez tenha dificuldade em obtê-lo. Não gostam de cedê-lo pois há pouco; a menos que você
os convença de que é realmente uma emergência.
— Eu o trarei — declarou, segurando os ombros do médico. — Não se preocupe, Cari. Você
vencerá. Por todos nós, por você mesmo e principalmente por ela, você vencerá. — E saiu
correndo do hospital.
— Como poderá ele chegar a tempo?
— Passará um rádio do palácio e depois voará para o continente, onde provavelmente já o
estarão esperando com tudo pronto.
— Mas você disse que ela deveria ser operada imediatamente — disse Neli.
- Vou operá-la já. É um risco que temos que correr. Se sobreviver à operação, a droga a
salvará. Eu não a tinha da outra vez.
- Mas não se aflija, conheço Filipe. Ele trará o remédio.
Cari deixou-a. Era um outro homem. Não mais temeroso, mas um brilhante cirurgião,
cônscio do seu dever. Para Neli, nada mais restava, se não esperar.
Filipe voltou horas depois, cansado, mas com as drogas que Cari pedira. Entregou-as a uma
enfermeira, que sumiu rápida por uma porta, deixando-o sozinho com Neli.
— Nada de notícias até agora, Filipe. Cari operou ou está operando.
— Não esperou pelo remédio!
— Tinha que ser imediatamente ou não haveria chance alguma. Fale-me de Cari. O que
aconteceu com ele?
— Sua irmã tinha um tumor cerebral que nenhum médico quis operar e ela o convenceu a
tentar. Como ela morreu durante a operação, ele se culpa por isso. Quando o encontrei, vivia
isolado numa casa de montanha, tendo desistido da Medicina.
Então era isso. Cari era o cirurgião de quem o médico do St. Chris-topher falara. Só que
não morrera. Estava ali em Juamasa e para seu próprio bem e de Morgana. Neli rezava para
que tudo desse certo. Salvando uma vida, teria restaurada a confiança em si mesmo e
devolveria ao mundo um brilhante cirurgião.
Filipe retomou seus passos felinos, até que foi interrompido por Cari. Um Cari tão
desfigurado e cansado quanto Filipe, mas triunfante.
— Ela viverá — murmurou. E, pela primeira vez em tanto tempo sorriram um para o outro.

CAPÍTULO 11

Morgana voltou vagarosamente da inconsciência. Lentamente percebeu que não sentia mais
dor e começou a investigar. A primeira coisa que percebeu foi que sua cabeça estava
enfaixada. Era estranho e abriu os olhos antes de levantar a mão para certificar-se. Para sua
surpresa, viu Neli e Cari observando-a.
— Alô! — disse admirada de sua voz sair tão fraca.
— Alô, querida — disse Neli.
Morgana de nada se lembrava desde a primeira dor em casa de Neli e imaginava por que
estariam ambos com aquelas caras tão alegres.
— Vocês dois parecem estar muito felizes com a vida.
— Temos razões para estar — disse Cari, e sorriu quando ela levantou a mão também
estranhamente fraca para apalpar as bandagens da cabeça. — Deixe seu penteado em paz —
então a verdade surgiu clara em sua mente.
— Cari! Você me operou!
— Sim, liebchen — disse suavemente. — E você vai viver! Agora, volte a dormir e não se
preocupe.
Morgana queria dizer que não queria dormir, que queria fazer uma porção de perguntas
mas, sem sentir, mergulhou num sono reparador e profundo. Só muito mais tarde é que veio a
saber que delirara durante muito tempo, que estivera entre a vida e a morte, sem reconhecer
ninguém.
Quando reabriu os olhos, viu uma enfermeira moreninha sorrindo para ela e dizendo
alguma coisa em português. Logo depois saiu à procura de Cari e ela voltou a dormir.
Ao acordar pela terceira vez, sentiu-se mais forte.
— Acorde, dorminhoca! — brincou Neli.- Pensamos que iria dormir pelo resto da vida!
— Isso seria falta de consideração, depois de tudo que fizeram por mim. — viu Cari.
— Como está se sentindo? — perguntou ele.
— Muito bem — respondeu. — Ainda não lhe agradeci. Cari.
— Sua vida é agradecimento suficiente para raim, liébchen. Por um momento pensamos que
ia nos escapar.
— Parece um milagre — murmurou.
— É um milagre — disse Neli. — Lembra-se daquele cirurgião de quem lhe falaram no
hospital? Do único que poderia operá-la?
— O que... desapareceu? — Virou-se incrédula para Cari. — Cari! Era você!
— Sim, liébchen — disse calmamente. — 0 covarde que fugiu era eu. Você me deu muito
mais do que eu a você... — e acrescentou, com os olhos brilhando como nunca: — Mas isso é
passado. Ambos temos uma vida inteira pela frente..
Compreendendo que tinha uma vida inteira pela frente, um pensamento ocorreu-lhe:
— Delirei??
— Um pouco. — Cari estava sorrindo e o coração dela bateaforte. Pensou que talvez
tivesse revelado seu amor por Filipe.
— Disse alguma coisa inconveniente?
Desta vez foi Neli quem respondeu:
— Nada de inconveniente, a não ser sua opinião não muito boa sobre um médico do St.
Christopher.
Morgan a sorriu, aliviada.
— Provavelmente o pobre dr. Hengrixley. Nenhuma de nós gostava dele. Aconteceu alguma
coisa de interessante enquanto eu estava inconsciente? Parece que se passaram anos.
— Bem, você perdeu de ver Filipe parecendo um tigre enjaulado. Nosso altivo senhor de
Juamasa desceu de seu pináculo de repente.
— Oh! Meu Deus! Devo ter causado uma tremenda confusão! — Depois, compreendendo o
que Neli dissera, — Quer dizer que Filipe está na ilha? — Sentiu-se invadida por uma estúpida
felicidade, apesar de saber que a situação entre eles não mudara.
— Voltou mais cedo do que se esperava. Você está aqui há três dias — disse Cari.
— Filipe a trouxe para cá quando você quase caiu a seus pés desmaiada — acrescentou
Neli. — Não se lembra? Até achou que ele era uma alucinação e garantiu que ele não estava ali
.
— Não me lembro de nada. Será que eu disse mais alguma coisa muito agressiva?
— Nem uma palavra. Mas teve a coragem de dizer-lhe que estava esquisito e perguntou se
ele estava doente. Isso depois de ter contado que estava para morrer a qualquer momento;
tudo como se fosse uma brincadeira. — Até Cari riu. — Parece que nosso imperturbável Filipe
teve seus alicerces abalados.
Morgan a olhou-a admirada.
— É verdade?
— É — disse Neli secamente.
— Qualquer homem se abalaria com uma notícia dessas, quanto mais Filipe... Mas não se
preocupe. Ele já a desculpou; tanto que quer que você seja transferida para o palácio assim
que possa.
Morgana olhou rapidamente para Neli:
— Por que não posso voltar para casa?
— Por alguma razão Filipe a quer lá — disse evasivamente. — Talvez ache que eu não estou
em condições de cuidar de você, que eu ainda não esteja boa de todo.
— E não está — confirmou Morgana. — Quantos problemas estou causando!
— Bobagem... — cortou Neli. — E não comece a tornar as coisas difíceis. Você terá
sempre uma companhia e por isso não terá tempo de brigar com ele. Tenho certeza de que não
a agredirá; especialmente depois de ter voado até o continente para buscar um remédio de
que você precisava.
Morgana ouviu então o detalhado relato de tudo o que se passara naquela noite. Imaginou
o alto preço que Filipe deveria ter pago pelos medicamentos. Sua relutância em ir para o
palácio desapareceu, mesmo se lembrando das circunstâncias do último encontro, nos jar dins
do Descani. No momento só desejava recompensá-lo, fazendo o que ele queria, sem perguntar
o porquê das coisas.
Cari foi chamado e Neli levantou-se, dizendo que já ia, antes que uma enfermeira viesse
pô-la para fora do quarto.
Nos dias seguintes, Morgana teve muitas visitas, sendo que a primeira foi Marita
Acquaras e sua mãe. Depois, todas as pessoas que conhecera, todas se interessando pelos
seus progressos e demonstrando gostar dela. Não compreendia por que o povo da ilha lhe
queria bem, admitindo-a na sociedade, em que raras pessoas entravam.
Só uma pessoa não vinha vê-la e ela sentia sua ausência. Certamente depois da noite da
operação Filipe deveria ter vindo saber dela, mas parece gue se contentava em ter notícias a
distância. Quando soube que tinha sido chamado urgentemente a Portugal a negócios sentiu
um alívio. Mas, logo depois, soube que Celestina também estava em Portugal e compreendeu.
Era fácil imaginá-los saindo juntos à noite, indo a um teatro ou para algum outro programa. Ela
exoticamente linda e ele com todo seu encanto.
Tentava esquecê-lo, mas tanto seu coração quanto sua mente estavam por demais
ocupados por ele.
0 que faria de sua vida depois da recuperação total? Poderia, se quisesse, ficar na ilha.
Sabia que era uma enfermeira eficiente e provavelmente Cari manteria sua proposta para ela
trabalhar no hospital. Mas poderia viver em Juamasa sabendo Filipe casado com Celestina?
Suportaria vê-los juntos ou imaginá-los no palácio? Era uma decisão que teria que tomar, mais
cedo ou mais tarde.
Para encher o tempo, resolveu aprender o português. Isso agora era absolutamente
necessário, já que resolvera ficar na ilha. Cari se oferecera para ensiná-la, mas observara que
certamente Filipe não apreciaria muito seu sotaque alemão.
Morgana achou graça.
— Ele provavelmente não gostará que eu adquira um segundo sotaque, pois já caçoa do meu
inglês. Ele se orgulha de seu português.
— Ele tem razão.
— Cari — disse seriamente — o que vou fazer quando deixar o hospital?
— Vai para o palácio, naturalmente.
Morgana sacudiu a cabeça.
— Depois disso. Não vou ficar lá para sempre. Não posso imaginar por que Filipe quer que
eu vá para lá.
— Não pode? — Lançou-lhe um olhar estranho e acrescentou, sorrindo: — Talvez seja para
certificar-se de que você o obedece...
— Por princípio eu o desobedeceria. - ari riu divertido.
— Cari, um dia você me ofereceu um trabalho aqui. A oferta ainda está de pé? A srta.
Broughton não precisa mais de mim.
— Vamos deixar isso para quando você deixar o palácio, está bem? — Propôs de modo tão
esquisito que Morgana ficou a imaginar o que estaria ele realmente pensando. — Você pode
decidir fazer outra coisa.
— 0 que mais poderia eu fazer aqui? Ou fico aqui em Juamasa, ou volto para a Inglaterra.
Se ficar aqui, só posso ser enfermeira.
— Naturalmente. — E mudou de assunto, fazendo com que ela pensasse que ele se referia
à enfermagem particular.
Um paciente do hospital que falava inglês se encarregou de ensiná-la. Marita também se
ofereceu, mas falava tão rapidamente que Morgana foi forçada a confessar que não entendia
nada. Contudo a senhora Acquaras, que falava mais pausadamente, ela entendia muito bem.
Numa outra ocasião em que Marita foi visitá-la, Morgana já falava bem melhor o
português.
— Você aprende rápido. Filipe vai ficar satisfeito.
— Ele ainda está em Portugal? - perguntou com cuidado.
— Vai voltar em breve.
— E sua prima Celestina? Também vai voltar logo?
— Não. Seu noivado será anunciado brevemente e logo se casará.
— E voltará à ilha logo depois de casada?
— Não. Por que voltaria?
Então era isso. Celestina estava tirando Filipe de Juamasa. Mas isso era quase um crime!
Filipe amava tanto aquela ilha! Era pane dele, embora possuísse outras propriedades em
Portugal e em outras partes do mundo. Seria ele feliz longe dali? Mas talvez Celestina o
fizesse esquecer a ilha onde nascera.
Reparou que Marita a olhava curiosa.
— Estava imaginando se quando se casar com Filipe ele não quererá morar aqui.
— Com Filipe? Mas não é com ele que vai se casar!
Sentiu um choque! Então não era com Filipe que ela ia se casar!
— Mas eu pensei, quer dizer... todos pareciam esperar que eles se casassem...
— No começo, sim; mas depois tornou-se evidente que ele pensava em se casar com outra
pessoa e ela desistiu.
Isso era verdade, pensou Morgana. Que moça poderia resistir a ele? Surpreendeu-se com
ciúme de uma estranha.
— Filipe está muito apaixonado e toda a ilha está rindo dele, pois durante anos e anos ele
fugiu do amor.
— Então alguém deve estar muito feliz com essa queda! — disse Morgana sorrindo.
— Ele ainda não está noivo. A moça deverá chegar logo ao palácio.
— Espero conhecê-la.
— É possível — disse Marita, com olhos bem inocentes, e Morgana deu um jeito de mudar
de assunto.
Percorreram a familiar estrada de Lorenzito, passando pela Vila Francisca e finalmente
chegaram aos altos portais com o brasão dos Alviro Rialta que Morgana conhecia tão bem,
apesar de ter passado por eles uma só vez. Uma criada de uniforme verde apareceu e abriu os
portões, sempre sorrindo para a srta. Broughton e Morgana. Novamente o carro se
movimentou em direcão ao palácio, com Júlio muito compenetrado da importância da ocasião.
Estava levando as duas senhoritas ao palácio, para serem hóspedes do senhor, que vol tara
poucos dias antes de Portugal.
Morgana sentiu o coração aos pulos quando viu o palácio e seus maravilhosos jardins. Ainda
tinha a fantástica aparência mourisca, mas havia qualquer coisa nele que a cativava.
Entraram no pátio e pararam junto aos largos degraus de mosaico onde estava Filipe, sob
os altos pilares encimados pelo brasão. Cumprimentou-as cortesmente, introduzindo-as na sala
que Morgana já conhecia, com piso de ladrilhos azuis e largas janelas abertas parai um
terraço que dava para os jardins. Morgana imaginava se ele se lembraria da outra ocasião em
que estivera ali e ele caçoara de seu conceito sobre o amor e depois, sabendo-a apreciadora
de livros, lhe emprestara o valioso livro sobre o rei Artur e suas lendas. Quando ele se dirigiu
para o armário e depois despejou o brilhante liquido amarelo num copo de cristal, foi como da
primeira vez, só que agora o conhecia melhor, desta vez o amava e não tinha a horrível
sensação-de que seu tempo era curto, que estava se esvaindo. Sentiu-se feliz por estar junto
dele, só que não queria se lembrar de que ele ia casar com outra mulher.
Filipe perguntou-lhe polidamente sobre sua saúde e ela respondeu da mesma maneira,
pensando como poderia agradecer-lhe pelo que fizera, mas isso era difícil, principalmente com
Neli presente. Logo depois ele insistiu para que ela fosse repousar. Concordou e seguiu uma
criada, subindo a escada turva e suave, indo até seu quarto que era lindo.

O chão era de mármore claro e a vasta cama, situada num degrau mais alto, de forma que,
para se chegar a ela, era preciso subir uns degraus. O resto da mobília era distinta e de muito
bom gosto. Grandes portas davam para um terraço com vista para os jardins. Via-se também
uma piscina cercada de muitas flores.
Saiu da janela e viu que a empregada ainda estava esperando para ver se ela precisava de
alguma coisa. Despediu-a e voltou a olhar a paisagem. Havia tantas flores que resolveu não
ficar no quarto, embora soubesse que estava desobedecendo Filipe e, como uma criança
travessa, fugiu para o convidativo jardim, esperando não encontrá-lo em seu caminho.
Tomou a direção da piscina, quando ouviu um leve ruído. Descobriu que era um gato persa
que dormia preguiçosamente. Como sempre gostara de gatos, falou com ele, mas ele não lhe
deu a menor atenção.
— Ah! Suponho que você só entenda português! — Pegou-o no colo, falando suavemente
com ele em português, quando se deu conta de que não estava sozinha.
— Filipe!
— Então é assim que você descansa! — Usava a mesma língua com que ela falava com o
gato, certo de que ela já sabia o suficiente de português. Morgana colocou o gato
cuidadosamente no chão, cônscia do rubor que lhe subira ao rosto. Quando finalmente se
levantou, cruzou as mãos atrás das costas, pois era a primeira vez que estavam sozinhos
depois do episódio do Descani.
- Não estava com vontade de descansar. Você não se importa que eu venha aqui, não é?
— Nem um pouco, mas você não deve ficar neste sol.
Conduziu-a a um pequeno caramanchão e fez com que ela sentasse. Morgana desejou que
ele se sentasse também, porque, enquanto permanecesse em pé, seu louco coração bateria
descompassado, vendo-o fitá-la com aquela expressão enigmática. Para quebrar o silêncio,
Morgana perguntou a primeira coisa que lhe veio à cabeça:
— Somente hoje voltou de Portugal?
Moveu-se, finalmente, indo apoiar-se numa das colunas que sustentava o teto.
— Sim. Havia negócios para terminar, mas tive que retornar, — Depois de um silêncio,
continuou: — Não vai me perguntar por que voltei?
— Não creio que você ache que eu deva perguntar sobre seus assuntos pessoais —
respondeu, não muito certa sobre que espécie de tempestade estava para desabar sobre sua
cabeça.
— Não, é que você não se interessa. Não ficaria triste se nunca mais visse o homem que a
aborrece tanto .
Então deixou cair a máscara. Sob sua pele bronzeada, percebia-se um súbito calor e seus
olhos revelavam um medo, como se alguma coisa horrível lhe tivesse ocorrido. Suas mãos
seguraram com tal firmeza os braços dela, que estremeceu enquanto ele a atraía para junto
de si.
— Por que não me contou tudo?
Por não entender o que lhe passava pela mente, Morgana queria responder evasivamente.
Ao mesmo tempo, quando viu sua expressão de dor e preocupação, não pôde se controlar e
atirou-se de encontro a ele, passando seus delicados dedos pelos seus negros cabelos.
— Eu não queria que ninguém soubesse o que deixei na Inglaterra ... Somente Neli... —
Parou sem saber mais o que dizer.
— Naturalmente eu tinha o direito de saber! Você teria deixado que eu fosse embora de
Juamasa, para só vir a saber em meu regresso!
— Mas... eu pensei.. eu .. — Como poderia lhe explicar que pensara não significar nada
para ele?
- Não! Você não pensa! Nada significaria para você que ao voltar para Juamasa eu
descobrisse que a moça que eu amo morrera enquanto eu estava fora?
- Mas..você não pode..- murmurou.
- Não? É engraçado , não? Eu que nunca quis nada com o amor de repente me vi
apaixonado e você não gostava de mim. Ria e se divertia quando estava com Cari. Outras vezes
parecia ainda amar o homem que fora seu noivo. Comigo era sempre aquele antagonismo.
Quase fiquei louco imaginando qual dos dois você escolheria. Eu tinha que ir embora...
Ainda a segurava junto dele com firmeza. Simplesmente ela não encontrava palavras para
dizer, atordoada com a realidade, com a concretização de seus sonhos. Mas a voz apaixonada
continuou:
— Mas não pude ficar longe e voltei. Então...
Parou de falar e, pelo seu verde olhar, passou uma sombra de agonia e tristeza ao se
lembrar de como soubera da verdade.
— Não, Filipe! Não fique assim!
0 apelo saiu do fundo de seu coração e no momento seguinte, seus lábios estavam nos dela,
apaixonados e sensuais. Seus braços ao seu redor pareciam cintas de aço. Pareciam nunca
mais querer largá-la. Mesmo quando levantava a cabeça para olhá-lo, ele não relaxava a
pressão. Para Morgana parecia que estava delirando como quando estava no hospital.
Poderia ser esse o altivo Filipe de Alviro Rialta? Poderia esse homem, que lhe murmurava
coisas ao ouvido, ser o poderoso senhor de Juamasa?
— Não pode ser verdade que você me ame...
— É tão difícil acreditar?
E, para provar, beijou-a novamente com selvagem paixão. Quando reencontrou os olhos
dele Morgana teve um choque, pois diziam muito. Revelavam uma suave possessão e ela baixou
os olhos, pois, acanhada, sentiu uma onda de sangue lhe colorindo as faces. Filipe afastou-a um
pouco e perguntou olhando dentro de seus olhos:
— Está convencida agora? Acho que aconteceu no primeiro momento em que a vi, muito
correta e engomada no seu uniforme, impedindo que eu visse Neli.
— Desde então? — Morgana olhava-o incrédula.
Filipe atraiu-a novamente para si, como se não suportasse tê-la longe de seus braços.
— Lembra-se do que eu disse? Que o amor vinha devagarinho no primeiro encontro. Ainda
não a amava naquela ocasião, mas não pude esquecê-la. Naquela mesma noite você já perturbou
o meu sono e depois noites sem conta passei sem dormir, atormentado pelo ciúme, pois Marita
sugeriu que você e Cari... Você nunca o amou, querida?
Morgana sacudiu a cabeça:
— Nunca. Cari e eu desde o início admitimos uma sincera amizade entre nós e isso foi
tudo.
— E esse Phillip? Nunca lastimou seu rompimento?
Que pergunta absurda! Não sabia ele que ocupava o primeiro lugar em seu coração?
Começara a esquecer Phillip no momento em que encontrara Filipe e seu antagonismo por ele
nada mais era do que uma defesa.
Sorriu e passou os dedos por seu negro cabelo como tantas vezes desejara fazer,
sentindo sua força e vigor. Filipe pegou-lhe a mão e beijou-lhe os dedos, olhando-a
carinhosamente,
— Muito antes da festa das flores, eu sabia que não o amava, que tinha sido somente um
entusiasmo.
— Mas ainda antipatizava comigo naquele tempo... Sua voz era seca e Morgana olhou-o
maliciosamente.
— Se eu pudesse o teria estrangulado naquela tarde! Você foi realmente horrível!
— Tinha razões para ser! Não sabe do que o ciúme é capaz! Primeiro você e Cari
conversando felizes em alemão, quando você se recusava a aprender o português. Durante a
corrida de barcos cheguei a pensar que você estivesse gostando um pouco de mim e fiquei
feliz quando Cari, sem querer, nos pôs juntos contra ele. Depois você voltou a me hostilizar
assim que ele se foi.
Morgana tapou-lhe a boca com a mão delicadamente.
— Pensei que estivesse ansioso para se ver livre de mim.
As palavras foram mal escolhidas e ela viu uma sombra em seu olhar enquanto seus braços
a apertavam com mais força.
— Nunca mais diga uma coisa dessas! Quando penso que quase a perdi para sempre...
— Pensei que não ia mais tornar a vê-lo, depois da noite no Descani. Não me importava com
o que pudesse me acontecer. Realmente fui me encontrar com ele, mas não por minha vontade.
Por favor, Filipe, não me pergunte mais nada, pois isso não diz respeito somente a mim.
Filipe sorriu.
— Diz respeito a Marita?
— Como soube? — perguntou admirada.
— Não sabia; mas uma vez avisei Marita de que não devia se encontrar com Phillip.
Sabendo que ele guardaria segredo e que Marita estava segura, contou-lhe exatamente o
que se passara, mas observando-o um pouco apreensiva.
— Ele não a incomodará mais, nem a Marita. Felizmente, já deixou a ilha.
Em sua mente apareceu uma sombra de dúvida ao se lembrar do que Marita lhe dissera no
hospital a respeito de uma moça que deveria chegar em breve e com quem Filipe se casaria.
Contudo, a única coisa que importava na verdade é que estava em seus braços e não tinha a
menor intenção de sair dali.
— Filipe... Marita disse que havia alguém com quem você queria se casar e que toda a ilha
sabia disso. Disse que eu a encontraria aqui no plácio...
Filipe deu uma gostosa risada.
— Eu não duvido que agora todo mundo já saiba...
Morgana tentou deter a chama da dúvida que nascia em seu coração. Devia haver uma
explicação para essa observação de Marita; contudo Filipe parecia tão diferente, sorrindo
para ela maquiavelicamente.
— Marita tem a língua comprida... Venha, há alguém que quero que conheça...
Tomou-lhe a mão e suavemente conduziu-a através dos jardins e, subindo os degraus do
terraço, entraram numa sala que ela não conhecia. Era pequenina e toda forrada de espelhos,
refletindo a imagem de ambos por toda a volta da sala.
— Esta é a garota com quem quero me casar.., — disse Filipe, mostrando as múltiplas
imagens refletidas. — Quando ela está zangada ... ou desafiante... mas sobretudo quando me
ama...
— Não posso acreditar que seja realidade. Por que quer se casar comigo? Sou tão comum.
Não seria melhor que se casasse com alguém de sua posição financeira?
0 antigo ar de troça voltou de repente aos seus olhos:
— É por meu dinheiro que vai se casar comigo? Instintivamente levantou a cabeça
desafiando-o.
— Se é assim que você pensa...
Filipe riu e tomou-a novamente nos braços, beijando-a, embora ela protestasse, rindo e
beijando-a mais. Quando finalmente a soltou, Filipe perguntou divertido:
— Se eu não fosse o marquês de Alviro Rialta, você não teria me hostilizado tanto, não é?
— É verdade.
Ambos se viraram ouvindo a voz de Neli, que estava parada no vão da porta, olhando-os
indulgentemente e se divertindo ao mesmo tempo.
— Eu bati — disse se desculpando — mas parece que não me ouviram. — Neli olhava um e
outro sorrindo feliz. — Ela costumava usar seu uniforme somente para aborrecê-lo, Filipe —
acrescentou sem olhar para Morgana.
Filipe encarou a moça que tinha presa em seus braços:
— Realmente? — E num tom de voz que denunciava claramente que sempre soubera disso,
acrescentou: — Eu nunca desconfiei...
Morgana estava feliz e não podia parar de sorrir ante o ar simpático e compreensivo de
Neli.
— A ilha toda ficará muito feliz, agora que as coisas se aclararam — disse, -
considerando que Morgana tinha vindo para a ilha para morrer e em vez disso encontrara o
amor e a vida.
— Quer dizer que toda a ilha sabia?
— Depois que se atirou para o continente para socorrê-la, Filipe se denunciou. A ilha toda
adorou a história e torceu por você. Agora só falta anunciar o noivado para que fiquem mais
felizes ainda. - Voltou-se para a porta, antes que pudessem impedi-la. — E agora o que eu
tinha vindo dizer não tem importância .. Pode esperar .
Neli rapidamente, fechou a porta atrás de si.
— Querido — começou Morgana, mas parou ao ver aqueles maravilhosos olhos verdes a
fitá-la — ... querido... eu o amo tanto. ..
Filipe, que não estava acostumado a ouvir isso, tomou-a novamente nos braços. Seus dedos
tocaram os discos do colar de prata, que pediam um excitante e perigoso amor. Ele lhe daria
esse amor e sabia que ela o retribuiria.
— Será sempre assim entre nós... — disse suavemente. — Não tem medo de se casar com
um português, minha querida?
— Como poderia ter medo, se o amo tanto? — observou Morgana suavemente e ele
respondeu em português, mostrando que sabia que ela entendia e que o que havia entre os
dois seria duradouro.
O tempo não era mais curto. Seria para sempre e sempre era uma eternidade.

FIM