Você está na página 1de 87

Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely

Sabrina no. 73

Magia Tropical
“FOREST OF THE NIGHT”

Jane Donnely

Sally eslava contente com a vida que levava numa cidade do interior da Inglaterra, com seu
emprego como repórter num jornal local, e esperava ser feliz em seu casamento com Tim.
No entanto, em apenas um mês ela estava em plena selva amazônica, fazendo parte de uma
expedição arqueológica, como assistente do famoso escritor Adam Burgess. O que
aconteceu para que sua vida mudasse tão radicalmente? Primeiro, uma grande desilusão
amorosa: sua melhor amiga, às escondidas, era amante de Tim. Depois, uma chantagem. E a
própria Sally era a autora dessa chantagem. Culpada, desgostosa, ela se agarrou a Adam.
Mas ele amava outra mulher...

Este Livro faz parte do LivrosFlorzinha,


sem fins lucrativos e de fãs para fãs. A
comercialização deste produto é
estritamente proibida.

Livros Florzinha -1-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
CAPÍTULO I

Megan Somers tinha razão para ser convencida, se quisesse. Examinou-se no


espelho, com aprovação, pela última vez antes de sair para o encontro daquela noite. Era
uma garota que deixava qualquer rapaz orgulhoso de acompanhá-la. Sally Doyle não
tinha dúvida sobre isso. As duas eram amigas de escola e moravam juntas há quatro
meses.
— Estou bem? — perguntou Megan, automaticamente.
— É claro que sim. Está maravilhosa. — Sally deu a resposta de sempre.
Megan sempre fora simpática e linda, até mesmo quando tinha a idade em que as
garotas geralmente ficam desengonçadas e com espinhas. Não tinha uma inteligência
brilhante, agia mais instintivamente, mas nunca deixara de se sair bem em tudo.
Sally a admirava muito e quando Megan arranjou emprego numa importante loja de
modas em Costwold e pediu para ficar algum tempo em seu apartamento, ela não negou
à amiga. Colocaram outra cama no pequeno quarto e foram se arranjando. Durante umas
duas semanas Megan procurou um lugar para morar, mas era tudo caro demais.
Afinal, resolveram continuar juntas. O arranjo era conveniente para ambas. Elas se
davam muito bem, eram como irmãs, e em breve Sally se casaria e deixaria o
apartamento.
Megan tinha um irmão e uma irmã que moravam numa pequena cidade do interior
onde foram criados. Sally era filha única e tinha sido criada pelos tios que já eram de
meia-idade quando a adotaram.
As duas partilhavam tudo, emprestavam coisas uma para a outra. Naquela noite,
por exemplo, Megan estava usando o camafeu de Sally. O encontro era com o gerente da
loja de calçados que ficava perto da loja de modas. Sally o conhecia muito pouco, mas ele
parecia simpático e interessante.
Megan sempre tivera uma penca de admiradores, mas já há algumas semanas ela
andava meio sonhadora e Sally achou que dessa vez talvez a amiga estivesse finalmente
apaixonada.
Era o que tudo indicava, pelo menos. Antes de Alan Foster, Megan
sempre falara de seus namorados e gostava de contar as coisas, mas em relação a
ele se mantinha reservada. Sally respeitava a intimidade da amiga, sem fazer perguntas.
Quando a pessoa está amando de verdade gosta de guardar segredo das coisas
mais íntimas e maravilhosas. Sally sabia disso porque era o que sentia em relação a Tim.
— Acho que já pode considerá-lo seu namorado, agora — disse Sally, com um
sorriso. — Já faz mais de três semanas que vocês estão saindo juntos.
Para sua surpresa Megan corou, coisa que nunca acontecera antes.
— Não precisa me esperar. Não sei a que horas volto — disse Megan.
— Tudo bem. Não vou ficar preocupada. Se você quiser trazer Alan aqui para
tomar um café, depois das dez e meia estarei deitada
e com a porta do quarto fechada.
— Não precisa, a gente vai pra casa dele. Ele mora sozinho num apartamento.
— O que há? Não confia mais em mim? Eu não vou atrapalhar nada — disse Sally,
sorrindo.
— É claro que confio.
A voz da amiga pareceu ligeiramente irritada e Sally pediu desculpas sem saber
por que. Pela primeira vez na vida Megan parecia suscetível e insegura. Devia ser
efeito do amor. Sally já passara por isso também, aquele estágio do namoro em
que não sabia ainda se Tini estava sendo sincero ou não. Tinha tido outros namorados
antes de Tim Rolling, afinal já estava com vinte e dois anos, mas ele era o único
que ela estava levando a sério. Ela o conheceu no dia em que começou a trabalhar

Livros Florzinha -2-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
no Eco de Radchester, um jornal do município com boa tiragem tanto na cidade
como nos vilarejos agrícolas que a circundavam.
Sally escrevia sobre acontecimentos da região e no primeiro dia de trabalho foi
mandada a um vilarejo para fazer a cobertura de uma festa típica em que todos os
participantes usavam roupas da época vitoriana. Tim era um dos fotógrafos do Eco
e, à medida em que ia fotografando, dizia-lhe o tipo de legenda a ser usado. Ela
anotou o nome de todos cuidadosamente, pois cada participante que fosse
retratado ou mencionado no jornal sem dúvida compraria dezenas de exemplares e talvez
até
cópias das fotografias.
Tim era um jovem de tipo pesadão, sobrancelhas espessas e traços fortes mas
agradáveis. Parecia um pouco chateado com o trabalho daquela tarde, embora se
mostrasse
gentil, pedindo às pessoas que sorrissem para as fotos. O dia estava frio e
chuvoso, o que provocou
uma ausência considerável de espectadores. Quando terminaram o serviço
entraram no carro de Tim e ele perguntou:
— Você acha que os tempos antigos eram melhores? Você consegue se imaginar
numa roupa daquelas? Eu acho que seria uma maldade aquela saiona escondendo umas
pernas
bonitas como as suas.
Sally estava com um terninho cor de ferrugem e botas combinando.
— Como é que você sabe se não tenho pernas feias?
— Porque não combinariam com seu rosto, nem com o. resto do corpo.
As pernas dela de fato eram longas e esguias, por isso podia se permitir fazer
piadas sobre elas, tranquilamente. Sally estava um pouco acima da estatura média.
Seu rosto, de traços bem feitos e nariz delicado, tinha algumas sardas. O cabelo
era castanho dourado, jeitoso
e levemente ondulado.
Os olhos eram o que tinha de mais bonito. Eram grandes, castanhos, expressivos,
com cílios longos e espessos. Ela sempre olhava as pessoas de frente, sem barreiras
ou medo de encarar, como se descobrisse em todos um certo atrativo. Embora não
tivesse consciência, era por isso que a maioria das pessoas que se aproximavam ficavam
logo gostando dela.
Tim gostou dela assim que a viu.
— Por acaso você não gosta do modernismo? — perguntou ele enquanto
percorriam a distância entre o vilarejo e a redação do jornal.
— Essa não! Deus me livre. Acho que as coisas melhoraram desde a época
vitoriana. Estou me referindo à permissividade da sociedade, veja bem. Eu sou romântica.
— Eu também sou, que coincidência!
Os colegas testemunharam o início daquele romance. Aceitaram com naturalidade,
pois Sally era uma garota atraente e simpática e Tim um bom rapaz. Os dois eram
bastante populares e independentes. Três meses depois de terem iniciado o namoro Sally
apareceu usando uma aliança de noivado e os cumprimentos que receberam foram
sinceros e calorosos.
Tim levou-a para conhecer a mãe, que morava com o segundo marido em
Edimburgo. A mãe gostou muito dela e aprovou totalmente com alegria a escolha do filho.
— Ela sempre quis ter uma filha — disse Tim a Sally, mais tarde — e achou você
uma garota bonita, educada e sensível.
— É por isso que você vai casar comigo? Ele a beijou lenta e demoradamente.

Livros Florzinha -3-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— vou casar com você porque você é fantástica. Adoro-a nos minimos detalhes.
Sei que você é tudo isso que mamãe disse, mas não é só isso que me excita e me deixa
ligado.
— Ainda bem — disse Sally, sorrindo.
A única coisa que os impedia de casarem imediatamente era não terem ainda onde
morar. Podiam ter alugado um apartamento, mas tanto a mãe de Tim quanto os tios de
Sally acharam besteira ficar pagando aluguel para sempre e resolveram se unir
para darem de presente o valor da entrada para a compra de uma casa. Sally e Tim já
haviam procurado todas as imobiliárias da cidade, pelo menos uma vez por
semana iam ver as casas selecionadas pelos corretores. Até o momento não tinham
encontrado nada que os agradasse. Queriam uma casa que satisfizesse a ambos e não
apresentasse nenhum senão.
Precisava ser um local que não ficasse longe do trabalho, de fácil acesso, talvez
num dos vilarejos da redondeza. Sally, aos poucos, estava comprando as coisas para
a casa e preparando o enxoval. Lia constantemente revista sobre decoração e ia
aos leilões. Os poucos móveis já comprados estavam guardados no porão do prédio da
redação. O sr. Mason, diretor-proprietário do jornal, que gostava de ser camarada
com seus funcionários, cedeu o porão para depósito.
De vez em quando Sally descia até lá para dar uma olhada na mobília e, nessas
ocasiões, ficava sonhando como a arrumaria e como teria seu futuro lar.
Naquela noite, depois que Megan saiu para o encontro, Sally pegou a lista de
propriedades recentemente selecionadas e leu-a de novo. Não parecia haver nada
interessante.
Ela e Tim já haviam examinado as ofertas no serviço, e ele não demonstrou
interesse por nenhuma delas.
Mas ela ficou relendo e pensando que talvez valesse a pena dar uma espiada. No
dia seguinte, depois do expediente, poderia ir sozinha examinar a casa que ela achara
mais aceitável. Tim estava ocupado, trabalhando numa exposição de fotografias
que seria inaugurada na semana seguinte e tinha pouco tempo disponível. Ultimamente
ele era obrigado a ficar até tarde, fazendo horas extras, organizando a lista de
concorrentes e arrumando a galeria.
Sally estava sozinha no apartamento, como nos velhos tempos. Desde que Megan
se mudara para lá, ela raramente ficava sozinha à noite. Ás duas sempre marcavam os
encontros com os namorados no mesmo dia, para poderem ficar juntas em casa,
conversando e fazendo companhia uma à outra, como boas amigas que eram há tanto
tempo.
Sally já ouvira várias pessoas comentarem que só se conhece uma
pessoa depois de se morar com ela, mas é lógico que não era seu caso. Ela e Meg
— era esse o apelido da amiga — se conheciam muito bem e há muitos anos. Desde
quando
estavam no primário. Sally se lembrava bem do dia em que a levaram para casa de
tia Esme e tio Edwin. Era
uma menininha pálida e quieta, fingindo acreditar
que seus pais viriam buscá-la, embora soubesse que não seria assim.
Já nessa época Meg era considerada bonita. Ela morava perto dos tios de Sally e
por isso lhe pediram que fizesse companhia à sobrinha deles da escola para casa.
Sally achou-a tão linda, uma princesa dos contos de fadas. E sentia-se lisonjeada
de ter a atenção de alguém tão importante. A amizade entre elas se estabeleceu
rapidamente como um forte laço.
Elas dividiam as tarefas e os doces que compravam. Quando já eram mocinhas
iam fazer compras juntas, iam ao cinema quando nenhuma delas tinha encontro com
algum

Livros Florzinha -4-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
rapaz, ou simplesmente ficavam em casa assistindo televisão, ouvindo discos ou
lendo.
Quando Megan chegou para morar em sua casa, Sally ficou animadíssima e
comentou o fato com Tim.
— Puxa, estou tão contente! Espero que ela seja feliz aqui. Gostaria de
apresentá-la a uns rapazes bem legais. Quem você sugere, Tim?
— Imagina se ela precisa de ajuda para arranjar alguém!
E realmente não precisou, logo formou sua corte de admiradores. Sempre havia
algum rapaz rondando Megan, esperando a chance de conseguir um encontro.
Sempre saíam em dois casais: Sally e Tim, Megan e o acompanhante do momento.
Mas desde que Meg começara a se encontrar com Alan, não saíram mais juntos. Parece
que
preferia ficar a sós com ele e Sally entendia.
Megan apresentava todos os sintomas de estar amando pela primeira vez.
Chegara até a se tornar insegura e instável. Ela nunca se preocupara tanto com a
aparência
quando saía com outros rapazes. Agora, entretanto, ficava horas diante do espelho,
experimentando penteados e roupas, demorando para decidir o que usar. Sempre fora
calma, alegre e jovial, mas agora seu humor oscilava, com mudanças bruscas,
cheio de altos e baixos. Às vezes estava alegre e segura e de repente ficava deprimida
e mal-humorada.
Megan nunca falava sobre Alan, a menos que Sally perguntasse se haviam se
divertido, onde tinham ido e como estava o namoro. E isso era mais um indício de que
dessa
vez o caso era sério. Sally ficava um pouco preocupada, mas dizia para si mesma
que Megan sabia se cuidar e que se não desse certo com esse não faltariam melhores
pretendentes.

Na primeira vez que Sally viu Alan, dentro da loja, achou que ele tinha boa
aparência, embora não fosse um exemplo de beleza masculina. Mas isso não tinha a
menor
importância, pois Tim também não era bonito e ela o amava.
Um dia tentou conversar com Tim a respeito do namoro da amiga e do estranho
procedimento dela, mas, como todo homem, ficou sem jeito, sem saber o que dizer.
Estavam
num barzinho perto da redação. Ele colocou o copo de novo sobre a mesa e ficou
com ar sombrio e olhar ausente, enquanto Sally dizia que Meg não parecia muito feliz
ultimamente.
— Espero que ele não a esteja tapeando — disse Sally -, porque Meg está levando
á sério. Acho que se ele a deixar ela vai sofrer. Parece que está mesmo apaixonada.
— Mas ela supera e acaba esquecendo — disse Tim, com rispidez.
— Puxa, que jeito de falar! — comentou Sally.
— Se ele a deixar, ela vai ficar muito melhor. — Esvaziou o copo num gole só e
virou-se para ela. — Quer mais um chope?
— Não, obrigada.
Pediu mais um para ele e nesse momento chegaram dois colegas de trabalho que
se uniram a eles e a conversa mudou para assuntos da redação,
Sally e Tim haviam planejado passar o fim de semana na casa dos tios dela. Ela ia
pelo menos uma vez por mês visitá-los e de vez em quando Tim ia junto. Por isso,
quando o telefone tocou Sally imaginou que fosse a tia Esme para confirmar a
visita. Mas não era a tia, era Jim Beale, o diretor de noticiário da redação.
— Oi, Sally! Tim está aí com você?

Livros Florzinha -5-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Não. Ele está no jornal.
— Está? — Jim pareceu surpreso, mas como a seção de fotógrafos ficava no
extremo oposto à redação, ele não podia saber se Tim estava lá ou não. — Tudo bem,
então.
Amanhã a gente se vê. Tchau.
Logo depois telefonou tia Esme e Sally disse a hora que pretendiam chegar,
dependendo do horário de Tim.
— Como vai Megan? Dê lembranças a ela. É tão bom vocês estarem morando
juntas, não é? — comentou a tia.
— É sim, tia. Nós nos damos muito bem e está tudo ótimo por aqui.
É claro que não ia contar que estava preocupada com a amiga que não parecia
muito feliz. Afinal isso era problema de Meg e ela não tinha o direito de comentar o
assunto.
10
Já era quase meia-noite e Sally estava deitada, lendo, quando ouviu Meg chegar.
Depois de alguns minutos ela entrou no quarto.
— Divertiu-se, hoje? — perguntou Sally, como de costume.
— Diverti-me. E por aqui, aconteceu algo interessante?
— Não. Estive olhando a lista de casas e achei que seria bom eu ir ver uma delas
amanhã. Você vai fazer alguma coisa? Será que não dá pra ir comigo?
— Que pena.. . não vai dar.
Foi tudo o que Meg disse, depois pegou a camisola e foi para o banheiro tomar
banho.
No dia seguinte Sally descobriu finalmente, e sem querer, qual era o obstáculo que
atrapalhava o amor entre Alan e Meg. Ele era casado. Mas como não pensara nisso
antes? Puxa vida! Era por isso que Meg estava lutando entre dúvidas e incertezas,
por isso ela não queria falar sobre o homem por quem se apaixonara. Era um amor
proibido, escondido, sem muita esperança de futuro.
Alan não conhecia Sally. Meg nunca o levara ao apartamento nem o apresentara à
amiga.
Na hora do almoço, Sally foi até a loja de Meg para ver se ela iria sair para almoçar.
Sempre comiam juntas numa
lanchonete por ali, mas ultimamente Meg dera de
comer apenas um sanduíche na loja mesmo. Disse que não ia poder sair naquele
dia também pois uma das vendedoras tinha faltado.
Sally saiu sozinha e, ao passar pela loja de Alan, viu um sapato lindo na vitrina.
Parou para olhar melhor. Geralmente os preços ali eram altos, os sapatos eram
todos importados, mas aquele estava barato. Fazia tempo que só comprava coisas
para o enxoval e nada de uso pessoal. Ainda relutou um pouco mas resolveu ceder à
tentação e entrou na loja.
O sapato ficou maravilhoso em seus pés e agora estava indecisa quanto à cor. O
verde-musgo era lindo, mas o preto era mais aproveitável, pois combinava com todas
as cores de roupa. Estava segurando um de cada cor, pensativa, quando Alan se
aproximou querendo ajudá-la.
— Minha esposa levou o preto, porque é bem mais prático e mais útil.
— Sua esposa?! — surpreendeu-se Sally.
Evidentemente ele não fazia segredo de seu estado civil. Mas podia ser que fosse
separado da mulher e até divorciado. Em todo caso, isso explicava os problemas de
Meg.
Naquela noite Sally mostrou os sapatos à amiga. Quando Meg viu o nome da loja
na sacola, franziu a testa e ficou pálida.

Livros Florzinha -6-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Você. . . ahn... — Ela apertava as mãos, nervosa. — Falou com... — Não
conseguia emitir as palavras.
— A esposa dele tem um sapato igual a este — disse Sally, de supetão.
— A esposa dele? — Meg umedeceu os lábios.
— Eles estão juntos, Meg?
— Estão.
— Puxa vida! É... isso acontece. . . Mas por que não me contou?
— Você falou de mim? — perguntou Meg, preocupada.
— Não.
Meg suspirou, aliviada.
— Por que perguntou isso?
— Porque... — Ela continuava com dificuldade de se expressar, mas de repente
explodiu: — Porque não quero que falem de mim. Não quero que ninguém se intrometa
ou
fique me espionando, ou...
— Eu não estava espionando! — disse Sally com veemência, guardando os
sapatos e se dirigindo à cozinha. — Nem me intrometendo.
Entrou na cozinha, encheu a chaleira de água e pôs para ferver. Meg foi atrás dela
e parou na porta. As mãos ainda se contorciam, nervosas.
— Eu sei. Sinto muito ter dito aquilo, Sally.. . É tudo tão horrível! Você é
maravilhosa e eu sou um monstro egoísta.
Só porque o namoro de Sally ia bem e ela era feliz, enquanto Meg estava infeliz
amando um homem casado não significava que Sally era maravilhosa e Megan egoísta!
Significava apenas que Sally tivera mais sorte.
— Deixe de falar bobagens, Meg. Você não é egoísta!
— Ah, sou sim.
Por que ela insistia nisso? Será que Meg estava tentando convencer Alan a
abandonar a esposa? Quando ele se referira à mulher, na loja, falara com afeição, não
como
quem está separado ou não gosta da esposa. Mas estava saindo com Meg e
ficavam muito tempo juntos, Meg estava apaixonada e aquele casamento estava em
perigo.
Se Meg tivesse lhe contado que Alan era casado, elas poderiam ter discutido o
assunto e talvez evitado muita mágoa antes que as coisas tivessem ido longe demais.
Mas Meg estava chateada porque Sally fora à loja e não tinha a menor disposição
para ouvir conselhos, embora estivesse elogiando a amiga e se confessando egoísta.
— Você vai encontrá-lo hoje à noite? — perguntou Sally, em voz baixa.
— vou. — E se afastou, como se não quisesse ouvir nenhuma objeção. -: Só vim
buscar um agasalho e já estou de saída.
12
Um segundo depois ela já havia saído do apartamento e Sally continuou parada ali,
esperando a água ferver. Preparou uma xícara de chá
e sentou-se, remoendo os pensamentos.
O problema de Meg estava se tornando uma coisa comum nos dias de hoje, mas
Sally estava com muita pena dela. Estava muito triste pela amiga, precisava fazer algo.
Contaria a Tim no dia seguinte, quem sabe os dois pudessem fazer alguma coisa
por ela... talvez arranjar alguém que a fizesse esquecer Alan. Eles conheciam muitos
rapazes solteiros que trabalhavam no Eco.
Começaria a levar Meg com eles, quer ela quisesse ou não. Arranjaria um par para
ela e sairiam os quatro como antigamente. Megan era jovem e linda demais para se
consumir daquele jeito, amando um homem casado.

Livros Florzinha -7-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Sally quase se sentia constrangida por estar tão feliz quanto à vida amorosa. Ia se
casar com o homem que amava e estava sendo correspondida. O único problema que
tinham era achar onde morar e economizar algum dinheiro para as reformas da
casa que escolhessem.
Já não sabia mais se ia ver ou não a casa que selecionara. Estava com as chaves,
mas seu ânimo para sair sozinha e entrar numa casa deserta e fria. Se Tim não estivesse
ocupado seria diferente, pois poderiam aproveitar para jantar fora e seria muito
mais agradável ver a propriedade com ele. Se não fosse aquela maldita exposição!
Seria inaugurada no sábado e Tim tinha muito o que fazer até lá.
Acabou decidindo ir sozinha mesmo. Se ficasse ali sem fazer nada, iria pensar no
problema de Meg, ficaria ainda mais deprimida e isso não ia adiantar nada. Saindo,
se distrairia. E quem sabe se a casa não valeria a pena? Tinham visto umas
cinquenta casas desde que começaram a procurar e Tim já estava desanimando. Mas ela
não.
Sabia que acabariam encontrando o que procuravam. Quem sabe esse não seria
seu futuro lar?
O vilarejo não era muito distante da cidade. Era um lugar bonito e ela se encheu de
esperanças. Mas quando viu a casa não teve a reação que esperava. Ela e Tim sempre
diziam que quando achassem o que queriam, o reconhecimento seria como um
estalo. Seria olhar e dizer: é esta! Não aconteceu isso, mas a casa não era má.
Era geminada, de tijolos vermelhos e bem conservada. As cortinas na janela do
vizinho indicavam que depois de arrumada poderia ficar aconchegante.
Ela examinou aposento por aposento, detalhadamente, e de novo desejou que Tim
estivesse a seu lado. Se estivessem juntos, de mãos dadas, sorrindo um para o outro
à medida que exploravam o lugar, a casa poderia parecer bem diferente. Assim,
sozinha, era difícil saber. Talvez sim, talvez não. Era melhor pedir a Tim que voltasse com
ela. Parece que havia possibilidade
de ser essa.
Anotou a disposição dos aposentos e espiou pela janela da cozinha o pequeno
quintal. Depois deixou o carro onde estava e resolveu andar um pouco a pé para
inspecionar o lugarejo.
Estava gostando da vilazinha. Havia uma igreja de estilo normando, castanheiras
enfeitando a rua, áreas gramadas, algumas lojas e uma hospedaria-restaurante instalada
numa construção antiga e simpática. Havia vários carros estacionados em frente.
Engraçado, um deles era um Ford vermelho igualzinho ao de Tim.
Sally se aproximou. Mas era realmente o carro de Tim! O número da chapa era
aquele mesmo. Deveria estar fazendo algum serviço que surgira à última hora. Sem
dúvida
lhe telefonara e não a encontrara em casa. Vai ver até tivera a mesma ideia que ela
e resolvera dar uma espiada na casa quando saísse dali.
Entrou no estabelecimento por uma porta lateral. Havia um corredor e de um lado
ficava o bar, do outro o restaurante. No bar havia uma lareira acesa e muita gente
conversando e rindo. Ela localizou Tim quase imediatamente.
Ele estava em uma mesa, atrás de uma coluna de madeira, de costas para a
entrada, e não viu Sally. Aliás, parecia só ter olhos para a garota que estava a seu lado.
Ela estava com o rosto bem perto do dele, como se trocassem palavras que
ninguém mais deveria ouvir. Seus cabelos eram negros e brilhantes e em torno do
pescoço
ela levava a echarpe que Meg pegara antes de sair de casa.
Os olhos de Sally se fixaram naquela echarpe vermelha, cor de cereja. Sua cabeça
rodava.. . Ficou ali algum tempo sem ser vista, depois se virou e saiu correndo,

Livros Florzinha -8-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
esbarrando em todo mundo. Era como se a atmosfera ali a sufocasse e ela
precisasse urgentemente de ar fresco.
Respirou fundo quando chegou lá fora, mas saiu andando sem direção. Não foi
para onde estava seu carro. Apenas caminhava apressadamente.
Quando viu a igreja diante de si, entrou. Ficou lá parada, sem ação, desejando
estar morta.
Tim e Megan! Megan e Tim! Sentados juntinhos como se fossem amantes. Como
se fossem, não! Eles eram amantes! Vê-los ali naquela intimidade era o mesmo que tê-los
surpreendido nus na cama.
As duas pessoas em quem Sally mais confiava! Se alguém lhe tivesse contado
aquilo, teria rido na cara da pessoa. Megan era como se fosse sua irmã e Tim era o
homem
com quem ia se casar. Ela usava
14
uma aliança de noivado que ele lhe dera e iria prometer viver o resto
da vida a seu lado!
Como é que Tim podia ser tão hipócrita assim? E Megan também, como podia?
Uma traição dessas! Era como se lhe tirassem o chão dos pés, não tinha mais onde se
apoiar.
. . Não havia mais segurança. Ninguém em quem confiar.
Ela se agarrava à grade de ferro da entrada da igreja. Sua cabeça ardia como se
estivesse em brasas. A palavra amantes lhe queimava o cérebro. Amantes, amor.. .
quantas vezes Tim lhe jurara amor! Já perdera a conta das vezes em que dissera
que a amava. E era tudo mentira! Ontem mesmo estavam lendo juntos anúncios de casa
para vender e combinando como seria o lar que partilhariam para sempre. Que
grande mentira! Agora, lá estava ele com Megan, tão próximos um do outro que estavam
quase se beijando. E murmurava coisas no ouvido dela.
Sally olhou as mãos trémulas, que estavam geladas, e afundou-as no bolso do
casaco.
É verdade que Tim não se mostrara muito animado com as casas anunciadas, ela
é quem lera em voz alta, entusiasmada, ele apenas escutara atento e depois dissera que
não havia nada interessante. Já era a segunda semana que dizia isso. Há quanto
tempo será que aquilo vinha acontecendo? E como poderia estar acontecendo se Meg
estava
apaixonada por Alan?
Vai ver que ela estava só pedindo um conselho a Tim. Era um homem sem
preconceitos e talvez Meg se sentisse melhor em falar com cie do que com Sally, que ela
julgava
moralista e antiquada. Quem sabe ela o considerava como um irmão?
É, devia ser isso mesmo! Sem dúvida Meg lhe contaria quando chegasse em casa
e Tim comentaria com ela no dia seguinte. Sally arrependeu-se de ter-se precipitado
num julgamento. Não diria que os vira juntos e nem contaria as coisas horríveis que
chegara á imaginar. Não poderia dizer a eles, as duas pessoas que mais amava
e em quem mais confiava.
E se ela voltasse lá no bar, agora? Entraria, explicaria por que estava ali, diria que
vira o carro de Tim na porta, sorriria com naturalidade para Meg, sem a menor
desconfiança. Se fizesse isso, sem dúvida Tim a receberia com um sorriso, puxaria
uma cadeira para ela perto dele, passaria o braço sobre seus ombros e explicaria:
"Meg está com um problema, está na fossa... e me pediu um conselho" — diria ele.
E ficariam ali, unidos, tentando ajudar Meg. Mas ela não voltou
15

Livros Florzinha -9-


Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
ao bar. Atravessou a rua, passou diante da casa que fora ver, entrou no carro e foi
para casa dirigindo devagar.
Não podia ficar assim arrasada só porque vira Tim e Meg tomando chope num bar
fora da cidade. Devia esperar primeiro uma explicação. Sem dúvida haveria um motivo
razoável. Talvez tivessem se encontrado por acaso. Talvez Tim tivesse ido trabalhar
lá e tivesse encontrado Meg deprimida, por ter brigado com Alan, e então resolveu
levá-la para beber um chope e se reanimar.
Sally ficou sentada na sala esperando ansiosa, mas ninguém chegou, nem
telefonou. Já era tarde e resolveu ir se deitar, estava com uma tremenda dor de cabeça.
Tomou
uma aspirina e afinal adormeceu, mas ouviu quando Meg chegou, movendo-se
sem fazer barulho até se deitar. Sally ficou imaginando se Meg estava dormindo. Como é
que
Meg podia dormir tranquila?
Na manhã seguinte, foi aquela correria. Meg ia tomando uma xícara de Café e
comendo uma torrada ao mesmo tempo em que ia se arrumando apressadamente para o
trabalho.
Sally estava sentada à mesa da-cozinha, fazendo esforço para tomar o café e
percebeu que Meg evitava olhar para ela. Pelo menos, não olhava diretamente. Meg
andava
nervosa e diferente. Afinal não se conteve mais e resolveu perguntar:
— Divertiu-se ontem à noite?
— É, diverti-me sim. Sabe como é. . . — Ela engoliu depressa o último pedaço de
torrada e correu para pegar a bolsa e o casaco.
É. . . Sally sabia muito bem. Vira com seus próprios olhos. Tim, sem dúvida, lhe
contaria tudo quando se encontrassem, mas não o viu durante a manhã toda. Ela
precisou
entrevistar os vencedores de uma loteria e o fotógrafo que a acompanhou não foi
Tim. Chamavase Kenneth Gough. Era um homem de meia-idade, atarracado, que passou
o tempo todo dizendo o que faria com o dinheiro se tivesse sido ele o ganhador.
Ele nem percebeu que Sally estava calada. Ela o deixou falar à vontade, estava
com o pensamento longe. De repente, perguntou por acaso:
— Como vai indo a exposição de fotografia?
— Vai bem.
— Você tem trabalhado muito, lá?
— Fazendo o quê? — perguntou ele, olhando-a com surpresa.
— Registrando as inscrições e fazendo classificações.
— Já está tudo pronto, faz tempo. Não tem tanta coisa assim, um pouco mais de
cem fotos e foram organizadas com antecedência.
Ela não disse mais nada. Ficou pensando que Tim lhe dissera estar
16
ocupado com esse tipo de trabalho todas as noites. E Kenneth continuou contando
seu sonho de ficar milionário.
Talvez na primeira noite ele tivesse dito a verdade, mas depois Tim usara essa
desculpa para as outras vezes, arriscando-se bastante, por sinal, porque ela poderia
já ter comentado com outra pessoa, como fizera agora com Kenneth.
O que Tim inventaria para a próxima semana? Se ele e Meg pretendessem
continuar a enganá-la, não haveria mais a desculpa da exposição. A não ser que os dois
decidissem
abrir o jogo e ela e Tim desfizessem o noivado.
"Desfazer o noivado!" parecia uma frase tão banal e vazia. Não dava a menor ideia
de algo que parte o coração da pessoa. Mas isso iria lhe acontecer. Engoliu sua

Livros Florzinha - 10 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
mágoa e entrevistou os ganhadores da loteria, fazendo as perguntas de costume
ao casal.
— Ah, vai mudar completamente nossas vidas! — disse a esposa do ganhador,
olhando ao redor, na sala simples. — Não é mesmo, paizinho?
— É sim, puxa! — disse o marido, feliz, piscando com a luz do flash.
A vida de Sally também tinha mudado completamente. O que acontecera iria
modificá-la muito. Como deveria reagir? Será que deveria lutar para conservar Tim? Ela o
amava e ele dizia que a amava também. Será que não deveria planejar um modo
de arrancá-lo de Meg?
Escreveu a reportagem, entregou-a na redação e ninguém percebeu seu estado de
espírito. Era sexta-feira, dia de muito trabalho e agitação por ali. O jornal saía
no sábado. Todos estavam ocupados demais para perceber que uma colega estava
pálida e abatida.
Na segunda-feira ela teria uma importante entrevista a fazer e, como não sabia em
que estado estaria até lá, resolveu começar a preparar o roteiro da matéria. Escolheu
as fotos que serviriam para ilustrá-la e selecionou vários recortes de notícias, no
arquivo do jornal.
Seu entrevistado seria Adam Burgess, uma importante personalidade da televisão
e escritor de best-sellers, que vivia viajando pelo mundo. As fotografias mostravam-no
alto, esguio, elegante e aristocrático.
Se ela não estivesse tão desanimada, ficaria ansiosa para conhecêlo
pessoalmente. Admirava o trabalho dele. Gostaria de ter a metade da habilidade que ele
tinha
com as palavras! Escrevia muito bem e era um homem atraente e carismático. Não
era sempre que tinha a oportunidade de entrevistar alguém como ele. Isso era muita
sorte! Teria meia hora para fazê-lo falar sobre sua vida e seus amores.
Ele não concordara em falar da vida privada, mas ela precisaria,
com habilidade, arrancar dele algumas coisas sobre a vida amorosa, pois era
exatamente isso que as leitoras femininas queriam ouvir. Os nomes de várias mulheres
estavam ligados ao dele, embora no momento ele não tivesse namorada firme,
pelo menos aparentemente.
A última que tivera estava agora casada com um magnata do petróleo, portanto
talvez Adam tivesse levado o fora. Sally imaginou-se dizendo a ele: "Os colunistas sociais
tiveram um prato cheio para fofocas quando o senhor e Vanessa Westmorland
romperam o noivado. Como reagiu a isso, sr. Burgess? Aqui nesse recorte dizem que
vocês
dois eram inseparáveis e, pelas fotografias, vejo que ela é tão bonita quanto a uma
amiga minha que vai fugir com meu noivo, assim que eles tiverem coragem de me
contar".
É claro que isso era um absurdo e ela não diria nada. Aliás, precisaria ter muita
cautela quando falasse em Vanessa. Não poderia irritá-lo, do contrário a entrevista
estaria perdida. Este tipo de entrevista era uma novidade, um desafio que seria
excitante se ela estivesse em condições de sentir alguma coisa. Mas era como se
estivesse
anestesiada por dentro.
Quando Tim entrou na sala da redação e parou diante de sua mesa, ela ergueu os
olhos e percebeu que ele também evitava seu olhar, tal como Megan. Tim sorriu fazendo
um trejeito e pegou uma foto de Adam, comentando:
— Esse cara é um malandrão!
— Estava pensando justamente nisso — murmurou Sally.
Ela se alegrou por estar entorpecida, pois do contrário teria agarrado a mão de Tim
e suplicado que ele dissesse que nada tinha mudado entre os dois, que iriam juntos

Livros Florzinha - 11 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
visitar os tios dela no fim de semana, que encontrara Meg por acaso e que ela lhe
pedira conselhos. Ah, se explicasse e dissipasse suas dúvidas! Mas tudo o que ele
disse foi:
— Sally, sinto muito mas amanhã não vai dar mais. . .
— Quer dizer que não vai poder viajar comigo?
— Não. Surgiu um imprevisto.
Tim ficou quieto, esperando que ela fizesse perguntas, mas ali não era o lugar
apropriado. A sala estava cheia de gente e se tivesse perguntado ele teria mentido
certamente,
— Quem sabe no próximo fim de semana dá certo — disse ele.
— Ê. . . quem sabe.
Ele não tinha coragem de falar. Despediu-se apressadamente, dando a desculpa
de muito trabalho e saiu correndo, como se fugisse, tal como Meg fizera. Incrível que
ninguém naquela sala percebesse a expressão de culpa estampada no rosto dele!
À noite, em casa, Sally comentou com Megan:
18
Tim não vai poder ir comigo este fim de semana.
Ah é? — Ela fingiu naturalidade. — Puxa, que pena!
— Você não gostaria de ir comigo?
— Olha. . . não estou com vontade.
— Sabe de uma coisa? Acho que eu também não vou mais. Acho que vou ficar
aqui.
Megan atrapalhou-se.
— Por mim, não. Sabe, eu não vou ficar em casa.
— Vai viajar com Alan?
Sally quase ficou com pena de Megan, que enrubescera e estava desesperada,
sem saber o que dizer.
— Não. Não é com Alan, não. É com uma moça lá da loja.
— Qual delas?
— Você não a conhece.
Isso era absurdo, pois Sally conhecia todas as vendedoras. Sorriu com lábios
apertados.
— Você precisa convidar Alan pra jantar aqui qualquer dia. Tim e eu gostaríamos
muito de conhecê-lo.
— É. . . qualquer dia. . . — gaguejou Megan.
Logo em seguida ela saiu, apressada, sem comer nada. Talvez fosse se encontrar
com Tim ou talvez apenas tivesse saído por não suportar ficar na companhia de Sally,
agora que a pressão estava aumentando.
Sally poderia tê-la forçado a confessar, se insistisse que não havia nenhum Alan.
Fora ela própria quem fornecera essa desculpa a Meg. Uma noite a amiga chegou agitada
e não conversou como sempre fazia. No dia seguinte Sally a viu batendo papo com
Alan e, depois de perguntar quem era, começou a insinuar que havia algo entre
eles.
Para fugir às perguntas Meg admitiu veladamente que sim e Alan tornou-se sua
desculpa, seu escudo. Na verdade ela estava era saindo com Tim, e era com ele que iria
viajar no fim de semana.
Sally queria comprovar isso pessoalmente. Sabia que estava agindo mal. Era
degradante ficar espionando-os. Naquela manhã de sábado ela continuava fria e seguiu o
primeiro impulso.
Por volta de uma hora escondeu-se perto da loja onde Meg trabalhava e ficou
esperando. Ela saiu com a maleta que levara para o serviço de manhã. As duas tinham-se
despedido desejando-se um bom fim de semana. Que ironia!

Livros Florzinha - 12 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Megan dirigiu-se para o estacionamento e Sally atravessou a rua depressa, sem se
deixar ver, e ficou olhando de longe. Depois de alguns instantes viu passar o carro
de Tim, com ele dirigindo e Meg ao lado.
Sally ficou olhando o carro se afastar e deu graças a Deus por não
19
ter visto o momento do encontro, porque, sem dúvida, tinham trocado um beijo e se
olhado com cumplicidade, sorrindo daquela aventura amorosa que era um desafio.
Voltou para o carro que deixara estacionado numa travessa e foi para casa. Estava
precisando de um café e não tinha o menor ânimo de enfrentar sua velha cidadezinha
em companhia dos tios.
O telefone estava tocando quando ela entrou.
— Alo, Sally, é você? Meu Deus, estou tão aflita, estamos esperando você há mais
de duas horas! Estava com medo que tivesse havido algum acidente.
Naturalmente os tios ainda se lembravam do horrível acidente dos pais dela. Ficou
arrependida de não ter telefonado antes.
— Desculpe-, tia. . . é que surgiu um trabalho de última hora.
— Você vem agora, então? Eu fiz um bolo delicioso.
Sentiu que não poderia decepcioná-los, estragando a recepção que tinham
preparado para ela.
— vou só comer alguma coisa e já vou indo, está bem?
Mas Sally não comeu nada, apenas pegou o material sobre a entrevista de
segunda-feira, e, ao fazê-lo, deixou cair uma fotografia de Adam Burgess. Abaixou-
se para
pegá-la e ficou olhando para o homem seguro e altivo ali retratado. Como poderia
enfrentar um homem como aquele no estado em que se encontrava no momento? Ela era
uma simples garota do interior e, sem dúvida, para o gosto dele não devia ser nem
bonita nem inteligente. E ainda por cima acabara de ser feita de boba. Fora crédula
e igênua e tinha sido passada para trás.

CAPÍTULO II

Os tios estavam esperando por ela, olhando da janela, e assim que viram o carro
foram para o jardim recebê-la.
— Ué. . . Tim não veio com você? — foi a primeira pergunta da tia, depois de ter
beijado Sally.
— Não. Ele precisou ficar trabalhando.
— Ah, que pena, você deve estar chateada. Vamos entrar. Entraram na sala cheia
de claridade, com perfume familiar de rosas
arranjadas num vaso sobre a mesa velha e lustrosa.
Tia Esme era vinte anos mais velha do que o pai de Sally, seu único irmão, e desde
que a garota se conhecia por gente lembrava da tia com cabelos grisalhos. Ela
era uma mulher miúda, graciosa, meiga e carinhosa, e tio Edwin era um homem
alto, que conservava certa elegância, míope e muito cortês.
Os dois examinaram Sally, como sempre faziam, procurando sinais de que a vida
longe do lar não estava lhe fazendo bem. E dessa vez, realmente, ela estava abatida.
— Você está muito pálida, minha filha — disse o tio.
De fato, há duas noites que ela não dormia bem, consumida pela preocupação e
mágoa.
— Tenho trabalhado muito — respondeu.

Livros Florzinha - 13 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Então aproveite para descansar bastante, aqui — disse a tia. Tio Edwin insistiu
em carregar a mala até o quarto de Sally,
embora ela fosse mais forte do que ele. Depois desceu e deixou-a sozinha para
que se pusesse à vontade.
Sobre a cama havia um pacote. Era uma toalha de mesa bordada. Mais um
presentinho da tia para completar o enxoval. Mal sabia ela que não haveria mais um lar
onde
Sally pudesse arrumar tudo aquilo!
Deixou o pacote onde estava. Não conseguia nem olhar para ele, quanto mais
pegá-lo. Foi até a janela e espiou o jardim com olhar ausente. O gramado estava perfeito
e bem aparado, os canteiros de flores muito bem cuidados e as roseiras que o tio
cultivava com carinho, cheias de botões.
Lembrava-se de ter ficado parada diante da janela, desse mesmo jeito, muitos anos
atrás quando lhe disseram que seus pais tinham feito uma longa viagem e que ela
passaria as férias com os tios. Quantas vezes a menina de seis anos ficara ali,
imaginando que as férias estavam longas demais e esperando ver surgir o carro dos
pais! A mãe e o pai sorridentes, correndo para ela e abraçando-a, perguntando se
se portara bem.
Naquele momento estava sentindo a mesma coisa, chocada demais para acreditar
no que estava acontecendo. Anestesiada — essa era a única palavra que definia seu
estado
físico e mental. Até os dedos pareciam entorpecidos. Apertou as mãos e era como
se não fossem suas.
— O lanche está pronto! — chamou a tia, ao pé da escada.
Sally tirou o casaco e desceu.
A mesa posta na sala mostrava fartura. O presunto defumado, Sally sabia que era
em homenagem a Tim. Tia Esme tinha preparado as coisas de que seu noivo gostava
para agradá-lo e ser gentil. Sentiu um aperto no coração ao ver tudo aquilo. Ele não
merecia e ela estava completamente sem apetite.
— A toalha de mesa que achei no meu quarto é muito bonita, mas a senhora não
devia ter comprado, tia.
— Ainda bem que você gostou. Fico contente quando encontro alguma coisa bonita
para o seu enxoval. Agora sente-se aqui e vamos tomar lanche. Que pena que Tim não
pôde vir — Esme lamentou, olhando para as comidas que preparará.
As refeições na casa dos tios sempre foram fartas. O tio Edwin tinha sido dono de
uma mercearia onde eram vendidos os melhores frios da cidade e ele se orgulhava
disso. Agora estava aposentado, vendera a mercearia a bom preço, há alguns
anos, garantindo assim uma velhice confortável para o casal. O local fora transformado
num pequeno supermercado e ele sentia saudade cada vez que passava por lá.
Sally tomou chá, esforçando-se para comer alguma coisa, sob o olhar ansioso dos
dois.
— Coma um pedaço desse bolo — disse a tia, cortando uma fatia.
— É o seu predileto desde que era menina, lembra?
— Tem trabalhado muito, então? — perguntou o tio.
— É... acho que um pouco demais até.
Ela sorriu, tentando conversar do jeito que sempre fizera, descontraída e natural.
— Como está Megan? Ela ficou sozinha? — perguntou a tia.
— Muito bem. Ela foi passar o fim de semana na casa de uma colega da loja onde
trabalha.
Imagine o abalo que seria se soubessem que ela viajara com Tim! Sally resolveu
falar sobre seu trabalho. Contou que iria entrevistar Adam Burgess na segunda-feira.
Eles o conheciam da televisão e dos livros que escrevia.

Livros Florzinha - 14 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Terminado o lanche, Sally e a tia tiraram a mesa e depois ela chamou o marido
para lavar a louça. Desde que se aposentara, há cinco anos, ele ajudava a mulher nos
serviços domésticos, embora ela. sempre precisasse pedir. Mas tio Edwin fazia
sem reclamar.
As duas mulheres foram para a sala e, assim que se viu sozinha com a sobrinha,
tia Esme perguntou:
— Está tudo bem com você?
— É claro que sim — respondeu ela, mas ficou hesitante.
A tia não se deixava enganar fácil e afinal era melhor preparar o espírito deles. Tia
Esme gostava de comprar coisas para o enxoval e não era justo enganá-la. Depois
iriam acabar sabendo, mesmo. Sally respirou fundo, criou coragem e resolveu falar.
É que. . . Tim e eu... não sei se vai dar certo... — Ela escolhia as palavras com
cuidado. Não podia contar toda a verdade. Eles já eram velhos e ficariam muito
chocados com uma traição daquelas. Felizmente conseguia aparentar calma. —
Não tenho mais certeza se quero mesmo me casar com Tim.
Ficou esperando a exclamação de surpresa da tia e os argumentos de que Tim era
um bom rapaz e outras coisas desse tipo, mas a tia apenas disse:
— Se você não tem certeza, então não deve mesmo se casar. Sabe, tive outros
namorados antes de seu tio, mas ele foi o único que me fez ter certeza de que eu queria
casar. — Ela deu umas palmadinhas na mão da sobrinha. — Você vai ter esta
mesma certeza quando conhecer o homem certo.
Mas até aquela malfadada quinta-feira, Sally tivera certeza. Achava que ele era o
homem certo. Mas o que fazer agora que descobrira que esse homem certo a traía
com sua melhor amiga? Que os dois eram amantes e iam pasar o fim de semana
juntos?
— Pensei que a senhora gostasse de Tim.
— Ora, mas é claro que gosto dele! Gosto muito, mas não sou eu quem vai casar
com ele.
Sally imaginou Meg e Tim se casando e, estranhamente, não sentiu a dor
lancinante que esperava sentir. Tomara que continuasse assim, com as emoções
anestesiadas,
até o momento em que Tim lhe contasse tudo, para que pudesse reagir com calma
e dizer que o rompimento seria inevitável, pois ela estava em dúvida já há algum tempo.
Se conseguisse isso poderia se sair com dignidade da situação. Naturalmente não
poderia continuar trabalhando com Tim ou morando com Meg, mas deveria se manter
controlada
para ao menos salvar seu orgulho. Sentia-se calma como se estivesse morta
interiormente.
O fim de semana foi repousante. Tia Esme cobriu-a de mimos, como se ela
estivesse doente. Não saiu de casa. Só ficava no jardim, tomando sol e gozando a paz do
ambiente.
E quando se despediu, na segunda-feira de manhã, já estava com a aparência
melhor, como antigamente.
Mas era só a aparência, por dentro ela sofrera uma grande transformação. Sabia
que uma terrível provação a esperava, mas sentia-se capaz de suportá-la, agora.
Ninguém
saberia como ela estava magoada. Não deixaria transparecer.
Na redação, encontrou sobre sua máquina um bilhete da faxineira dizendo que o sr.
Adam Burgess não podia comparecer à entrevista. Estava mal escrito, mas ela entendeu
o recado. Ele devia ter telefonado bem cedo, quando só a faxineira estava lá.
Sally ficou com o bilhete nas mãos e franziu o cenho. E agora Estava contando
com aquilo para preencher seu dia... Naturalmentt iriam encarregá-la de outro serviço.

Livros Florzinha - 15 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
E se a mandassem trabalha com Tim?
Se entrasse no carro dele talvez encontrasse algum vestígio de Meg O perfume
que ela usava era daqueles que ficavam impregnados en tudo o que tocava. Isso seria
insuportável.
Estava relendo o bilhete quando Tim entrou na sala. Ela se sobres saltou, mas
procurou se controlar. Não aguentaria se ele perguntass como tinha sido o fim de
semana.
Mas não perguntou. Continuava evitando olhá-la nos olhos e disse apenas:
— Oi, Sally. Você vai estar em casa hoje à noite?
— Por quê?
— Posso ir lá, às sete horas mais ou menos? Quero conversar com você — disse
ele, abaixando o tom da voz. — Até lá, então acrescentou depressa, sem esperar pela
resposta.
Ele devia estar com medo de que ela perguntasse sobre o que queria falar. Não
podia imaginar que já sabia de tudo. Será que Meg ficaria em casa também, ou será que
já saíra do apartamento? Vai ver que mudara para o de Tim! Quando ficara noiva
ele havia sugerido isso, mas Sally era uma garota à antiga. Fizera questão de esperar
encontrarem um lar e casarem. Agora não teria mais nada.
O chefe de redação olhou da mesa dele para Sally.
— Sally, você não tem a entrevista com Adam?
Ninguém devia ter lido aquele bilhete, ninguém devia estar sabendo do
cancelamento.
— Tenho sim — disse ela, depois de hesitar uns instantes,
— Não vá se atrasar, então. Ele não gosta de esperar. Está marcada para as dez
horas, e se Adam a convidar para almoçar, pode ficar.
Sally deveria escrever um artigo de página inteira sobre ele. Até o subtítulo já
estava pronto: "Amado por uns, odiado por outros. Ninguém pode ignorá-lo".
Resolveu ir até a casa de Adam. Ele morava num bairro afastado e bonito, numa
bela residência que seria fascinante conhecer de perto. É sempre interessante ver como
vivem as pessoas famosas. Se não estivesse em casa, podia ser que houvesse
uma governanta que pudesse conversar com ela, mostrar onde ele trabalhava, ou quem
sabe
um vizinho que gostaria de falar sobre Adam.
Todos esses dados poderiam servir como pano de fundo de sua matéria. Afinal ele
cancelara a entrevista à última hora, sem falar com ela diretamente. Não era nada
impossível que Sally não tivesse recebido recado.
O dia estava liado, o sol brilhava e havia apenas algumas nuvens que percorriam o
céu. Ela conhecia o caminho e os vários lugares onde poderia tomar um café ou almoçar
depois de ter visto Adam, ou se não o encontrasse.
Era possível que tivesse viajado. Nunca demorava muito tempo no mesmo lugar.
Era capaz de estar muito ocupado e ficar chateado com sua presença ali. Mas ela não
ligava para isso. Se conseguisse a entrevista, muito bem; se ele a tratasse mal,
paciência! Ainda continuava naquele estado em que nada afetava.
Seguia o caminho sob o sol radiante, passando por várias alamedas e no trecho
final estacionou o carro e continuou a pé pelo caminhozinho estreito, ladeado por cerca
viva, que terminava diante de um alto portão branco. Estava tudo silencioso por ali.
Havia um bosque de árvores altas e o único som que se ouvia era o canto dos
pássaros. Não havia o menor sinal de pessoas. O portão rangeu quando Sally o
abriu.
A casa era pequena, estilo campestre, com telhas romanas e com venezianas nas
janelas. Assim que pôs os olhos nela, Sally pensou: Essa era a casa que eu estava
procurando!

Livros Florzinha - 16 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Simpatizou imediatamente com a construção e sabia que se estivesse à venda e se
ela ainda estivesse procurando um lar não teria a menor hesitação em comprá-la.
Sentiu uma estranha sensação de sonho ao caminhar pelo gramado deserto.
Chegou à porta de entrada e bateu de leve, relutante, sem querer destruir a paz. Ela não
seria bem-vinda, não estava sendo esperada. Não houve resposta e bateu de
novo, mas parecia não haver ninguém.
Deu de ombros e virou-se. Já esperava por isso, não estava chateada. Começou a
caminhar ao redor da casa, observando as flores que enfeitavam as janelas e o jardim.
Sally parecia ter esquecido o motivo que a levara até ali.
O lugar era tão tranquilo e repousante que ela não tinha a menor vontade de ir
embora. Havia um banco de madeira sob umas árvores, nos fundos, que resolveu sentar-
se.
Sentia-se cansada, pois ultimamente não-dormia bem. Reclinou a cabeça para trás
e ficou observando as nuvens que se moviam lentamente, formando desenhos. Ah, se
pudesse ficar ali o dia todo!
Essa seria a noite da grande revelação. Tim e Megan iriam dizer que sentiam muito
pelo que acontecera mas tinha sido inevitável. Tim diria que não queria mais casar
com ela, Meg se desculparia. . . Sally podia até prever a cena.
Ah, como gostaria de poder ficar ali a noite toda ouvindo o farfalhar das folhas que
a brisa agitava!
De repente percebeu um rosto na janela do segundo andar. Uma mulher abriu a
cortina e ficou olhando para ela por alguns
instantes boquiaberta, depois se afastou,
Sally ergueu-se num sobressalto. En tão havia gente em casa! Mas se fosse a
empregada ou uma secre tária teria aberto a porta, portanto essa mulher devia ser a
namorada
de Adam. Era por isso que ele cancelara a entrevista!
Era melhor voltar à redação, telefonar a Adam e dizer que fora mas não encontrara
ninguém e marcar outro dia para a
entrevista. A garota não sabia se Sally a vira
ou não. E Sally nem tocaria no assunto, seria embaraçoso. Afinal o Eco não era um
jornal vulga de notícias sensacionalistas e seus repórteres não costumavam bis
bilhotar
as janelas alheias.
No caminho de volta parou para tomar um café e ficou imaginand quem seria a
atual namorada de Adam. Não seria nada fácil substitui Vanessa Westmorland. Depois,
sem
querer, reviu a imagem do rosto na janela e comparou-o mentalmente com o da
fotografia que
vira. Repetiu a comparação diversas vezes, até que concluiu que o rosto
na janela era o de Vanessa.
Lembrou-se de ter lido, há uma semana, a notícia da chegada da sra. Lee D.
Ottarbury a Londres para inspecionar as obras da construção do novo lar do casal. O
marido
ficara nos Estados Unidos. Então era isso! Vanessa, apesar de casada, fora se
encontrar com o antigo namorado!
Um encontro de amantes.. . uma traição, como a de Tim e Megan, Será que todos
no mundo eram desleais e hipócritas? Uma súbita raiva invadiu Sally com tamanha
intensidade
que chegou a ficar trémula. Era como se estivesse passando a sensação de
anestesia e ela começasse a sentir as coisas finalmente. Mas não era mágoa ou dor o
que

Livros Florzinha - 17 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
sentia e sim uma imensa raiva.
Raiva de Tim e Megan e. quase ódio de Adam e da amante. Que hipócritas e
cínicos eram esses dois! Vanessa estava casada há apenas três meses e ele era uma
pessoa
admirada e respeitada por milhares de leitores e ouvintes que o julgavam um
homem sério e honesto. Por isso cancelara a entrevista, não queria saber da imprensa
por perto naquela manhã. Ah, mas agora iam ver só! Não iria embora sem falar
com ele!
Deixou quase a metade do café na xícara e correu para o telefone público. Discou
o número e ficou esperando. O telefone tocou diversas vezes, como se não tivesse
ninguém na casa, mas Sally não desligou. Finalmente alguém atendeu. Ela
reconheceu a voz dele.
— Aqui é Sally Doyle, do Eco de Radchester. Tínhamos uma
entrevista marcada para as dez horas, hoje — foi logo dizendo assim que ele disse
alo.
Você não recebeu o recado?
Recebi, mas não acreditei. Resolvi certificar-me pessoalmente.
O senhor deve ter-me ouvido bater na porta.
E você deve ter percebido que eu não atendi — disse ele, em
tom ameno e divertido. — O que significa que não queria ser incomodado.
— Posso mencionar isso no artigo? — perguntou, com voz macia. Agora, por favor,
será que eu poderia falar com a sra. Otterbury?
Ela gostaria de poder ver a cara deles! Será que Vanessa estava ali perto e já
percebera que fora reconhecida? Naturalmente ele iria negar que a garota era Vanessa,
mas não poderia provar. Sally falaria com um repórter que poderia constatar a
veracidade ou não e publicar
o escândalo. Estava morrendo de raiva, nunca em sua vida se sentiria tão furiosa.
— Onde você está? — A voz dele continuava amável.
— Num telefone público em Broad Campden.
— Então é melhor voltar para cá.
— Pois não, sr. Burgess, com todo prazer!
Desta vez só precisou bater uma vez na porta. Ele veio abrir logo. Sally já o vira
tantas vezes no vídeo que não tinha a sensação de estar diante de um estranho.
Adam era alto e magro e seu rosto tinha traços clássicos: o nariz era reto e fino e a
boca de lábios bem-feitos era grandel As feições pareciam entalhadas e, por
trás de enormes óculos de aro prateado, brilhavam os olhos vivos.
Se na televisão aparecia sempre impecavelmente arrumado, ali ele estava com
uma calça velha e uma camisa que mais parecia um paletó de pijama. O cabelo castanho
e liso não fora penteado. Estava bem à vontade.
— Sou Sally Doyle — apresentou-se ela.
— Está sozinha?
— Por quê? Está pensando em me assassinar?
— Entre — disse ele, sem dar atenção à piadinha.
Na verdade, não havia nada de engraçado na situação. Lembrou-se de Tim e
Megan novamente e sentiu-se enojada na presença daquele homem que também era um
hipócrita
e mentiroso. Tim e Megan, Adam e Vanessa. Todos uns falsos!
O ânimo dele estava ligeiramente abatido e estava cabisbaixo. Sally
ficou imaginando se essa era sua postura habitual quando estava longe das telas
de televisão.
Adam conduziu-a pelo saguão de entrada até uma sala com vigas

Livros Florzinha - 18 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
no teto. Diante de uma lareira ampla havia três poltronas grande de espaldar alto.
Sally examinou de relance a sala. Parecia não
haver mais ninguém ali. Depois encaminhou-se
para uma das poltronas.
Ele a observava com um sorriso irónico, sabendo que procurav por Vanessa.
— Sente-se, por favor.
— Não vai dizer que não era Vanessa a moça que eu vi na janela
— disse ela, sem rodeios.
Ele deu de ombros e sentou-se longe dela.
— É claro que não! Sei que não posso provar e isso só serviri para instigar
comentários escandalosos.
— Ela está aqui agora?
— Sem comentários, belezinha. — Ele a perscrutou, depois disse:
— Você tem os olhos bonitos e brilhantes e um narizinho muiu apurado, sabia?
Farejou um belo furo de reportagem, não é?
Só que aquele furo não era do tipo que interessasse ao Eco publicar e, se seus
olhos estavam brilhando, era de raiva. Desejava ardentemente que ele estivesse
preocupado
e Vanessa morta de vergonha de aparecer diante dela.
— Por acaso isso significava que ela vai abandonar o marido?
— Não, não significa.
Ela não se admirou, na verdade já esperava. Não havia nada de honesto naquela
situação dos dois. Era tudo muito sujo. Não tinha a menor intenção de utilizar aquela
história em seu artigo, mas queria fazê-lo sofrer um pouco antes de lhe dizer isso.
Mentiras, traições! Sally olhava para Adam e via Tim. Ah, que vontade de ser
colunista de uma dessas publicações especializadas em fofocas!
— Está bolando como vai escrever o escândalo? — Ele olhou para ela,
semicerrando os olhos. — Mas eu diria que essa não é uma história própria para o Eco.
— Acontece que tenho meus contatos — disse ela com ar de importância, como se
conhecesse os maiores colunistas. — Uma revelação dessas deve valer uma boa
gratificação.
— Quanto?
Ele parecia estar querendo suborná-la. Estava pensando em lhe dar dinheiro, mas
ela poderia usar isso para conseguir uma boa entrevista. Se prometesse não mencionar
o episódio de Vanessa talvez ele concordasse em responder todas as perguntas.
Esse poderia ser o melhor trabalho de sua vida.
— Quanto você sugere? — retrucou ela.
claro que não estava pensando em aceitar dinheiro, mas seria interessante ouvir
quanto ele estava disposto a pagar.
Não sei. Nunca fui chantageado antes. Você considera isso
muito importante?
Um pouquinho. Digamos que poderia ser a sorte grande para ,
mim.
Não quero que isso seja publicado. O que você quer para esquecer o assunto?
Sally queria algumas horas do precioso tempo dele, que lhe fornecessem material
suficiente para escrever um bom artigo. Uma reportagem que melhorasse sua cotação
de jornalista e tornasse fácil arranjar outro emprego quando saísse do Eco. A não
ser que Tim saísse antes. Ela não suportaria continuar trabalhando no mesmo lugar.
Outro emprego... era isso! Adam poderia ajudá-la nesse sentido. Ela era uma boa
profissional, tinha consciência disso e, com uma recomendação dele... ele era respeitado.
É isso mesmo!
— Não seja ambiciosa demais — disse ele.

Livros Florzinha - 19 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Ela percebeu que devia estar deixando transparecer os pensamentos.
— Quero que saiba que não estou interessada em dinheiro. Que tal um emprego?
— Um emprego? — repetiu ele, num tom de surpresa como se ela tivesse dito a
coisa mais absurda. — Para trabalhar comigo?
Ela já ia dizer que não tinha pensado nessa possibilidade, mas mordeu o lábio e
engoliu as palavras. Afinal, se ele lhe oferecesse um emprego seria maravilhoso,
não precisaria inventar desculpas para ninguém. Puxa, quem não gostaria de
trabalhar para Adam Burgess?
Se chegasse em casa com essa novidade poderia enfrentar muito bem o fora de
Tim e ficaria por cima, ninguém precisaria sentir pena dela. Iria inverter totalmente
a situação! Em vez de Tim abandoná-la para ir embora com Megan, ela é quem iria
abandoná-lo para seguir Adam, usufruindo de uma posição de destaque.
Adam a perscrutava, analisando-a.
— O senhor tem assistente? — arriscou ela.
— Não.
— Pois então, eu poderia me encarregar de fazer pesquisas e entrevistas para o
senhor. Sou boa jornalista.
— Foi o que me disse Fred Peake.
Fred era o diretor de redação que conseguira a entrevista. Sally sentiria falta dele e
dos outros colegas
mas não poderia continuar lá.
— Dê-me uma oportunidade de provar isso — insistiu ela.
— É. . . parece que não tenho escolha. Quanto você está ganhan do? E quanto
pretende ganhar?
Ela resolveu não abusar da sorte. Disse quanto ganhava e acres centou:
— Aceito continuar ganhando a mesma quantia. Ele ergueu uma sobrancelha e
ajeitou os óculos.
— Se não é por causa de dinheiro, então por que quer mudar de emprego?
— O senhor leva uma vida muito interessante, coisa que para mim seria novidade.
Até então ela acreditara ser feliz, pensara ter amor e amizade, coisas mais
importantes da vida, mas de repente descobrira que
não tinha nada. Estava só e via-se
obrigada a chantagear esse estranho. Era assustador. Ela sentia que até seu rosto
estava mudando,
como se toda a suavidade o abandonasse.
— Está bem — disse ele, de repente.
— Quando posso começar? Posso sair do Eco no fim do mês.
— Volte aqui na primeira segunda-feira do próximo mês, às dez horas. Qual é o
telefone do jornal?
Sally ficou observando enquanto ele ligava e mandava chamar Fred Peake.
— A srta. Doyle quer que eu fale com você. É que acabo de oferecer-lhe um lugar
de assistente. Ela gostaria de aceitar, mas como é leal ao emprego. . . — Adam olhou-a
com sarcasmo — está preocupada em sair do Eco. Creio que vocês podem se
ajeitar sem ela, não é? — Quando recolocou o fone no gancho virou-se e disse como se
isso
o surpreendesse: — Ê... eles sentem muito perder você.
— O que vou dizer? — ela falou, como se pensasse alto. — Por que você haveria
de me oferecer um emprego?!
— Diga a eles que assim que vi você fiquei doido para roubála. .. — ele falou com
ironia, deixando claro que havia um abismo entre os dois.
Acompanhou-a até a porta e, antes de sair, ela afirmou:
— O senhor não vai se arrepender de ter me dado esse emprego.

Livros Florzinha - 20 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Tenho certeza que não — disse com gentileza e um sorriso irónico. — Mas você
pode se arrepender.
Sally sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e desviou o olhar. Logo depois
Adam fechou a porta e ela atravessou o gramado. Sentia-se viva outra vez, todos os
seus sentidos estavam aguçados e alertas. Tudo estava fantasticamente nítido, as
cores, os perfumes, o som dos pássaros!
Quando chegou ao portão virou-se para trás, para olhar a casa de
que tanto gostara. Ela voltaria ali em breve para trabalhar. Que pena! O lugar era
tão aconchegante, mas entre aquelas paredes para ela só havia antipatia, desconfiança
e antagonismo.
Afinal a presença dela era indesejável. Adam não estava querendo uma assistente,
tentaria se livrar dela sob o menor pretexto. Dependia exclusivamente dela mostrar
a ele que não fizera um mau negócio contratando-a e que faria jus ao dinheiro que
receberia.
A vida particular de Adam não tinha nada a ver com ela. O relacionamento deles
seria estritamente profissional. Não precisava respeitá-lo como homem, bastava o
respeito
que tinha pelo admirável talento de escritor que incontestavelmente ele possuía.
Sally pretendia se dedicar de corpo e alma ao trabalho. Quanto mais trabalhasse,
menos tempo teria para pensar em Tim e Megan.
O telefonema de Adam devia ter deixado Fred surpreso. A essa altura todos no
jornal já deviam estar comentando a novidade. Ficou imaginando se Tim recebera ou não
a notícia. Talvez ele resolvesse nem comentar mais o que iria falar naquela noite, já
que Sally ia embora. Todos poderiam pensar que ele e Sally simplesmente tinham
se separado e depois ninguém estranharia que buscasse consolo em Megan.
Em poucos dias Sally parecia ter adquirido mais cinismo do que durante os vinte e
dois anos de sua vida. Excetuando tia Esme e tio Edwin, não havia mais ninguém
no mundo digno de confiança, embora há apenas alguns dias confiasse em quase
todo o mudo.
Teria que ser forte e agressiva para trabalhar com Adam, agora estava vendo bem
claro. Ninguém mais iria tapeá-la.
Como previra, o telefonema causou um pequeno furor na sala da redação do Eco.
Todos pararam de trabalhar quando Sally entrou e ela se viu cercada de perguntas. Todos
queriam saber o que fizera para conseguir aquilo. Como caíra do céu um empregão
daqueles.
— Conta como isso aconteceu!— pediu Karen, que era do setor de modas e beleza
e estava morrendo de inveja.
Sally sentou-se e começou a explicar:
— Bem. . . nós estávamos conversando, sabe, ele tem uma vida interessantíssima
e eu disse que o invejava por isso. — Umedeceu os lábios, todos a olhavam atentos
e ela esperava conseguir convencê-los.
— Daí ele disse que estava precisando de uma assistente e que Fred tinha falado
bem de mim...
— Quem mandou eu dar com a língua nos dentes! — queixou-se o diretor de
redação.
— ... E então ele me ofereceu o emprego — concluiu, abruptamente.
— Assim, sem mais nem menos? — perguntou Karen.
— É, ora! — Ela corou, sem jeito.
— Foi assim que Gregory Peck conheceu a mulher dele — co mentou Karen. —
Ela foi entrevistá-lo. . .
— Ora, pelo amor de Deus! — Sally corou ainda mais. Retiros o material da bolsa e
colocou sobre a mesa. — Não há nada de

Livros Florzinha - 21 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
péssoal nisso. É apenas uma proposta de
trabalho!
— É claro — disseram alguns.
— Mas Karen fez uma piadinha e todos riram.
— Será que ele a contrataria se você fosse feia como o diabo? E Tim, o que vai
achar disso?
Os dedos de Sally tamborilavam nervosamente sobre os papéis.
— Ninguém contou para ele?
Disseram-lhe que Tim estava na rua a serviço e o diretor de redação resolveu pôr
um ponto final no bate-papo.
— Você vai escrever esse artigo para nós, ainda, não é?
Ela não tinha feito a entrevista, afinal de contas, e não ousava telefonar para Adam
agora, portanto teria que reunir as notícias
e reportagens já publicadas e dar
uma forma nova, sem ter nada di novo para acrescentar.
— Conte no artigo o que se passou com você! Aproveite isso e dê um cunho de
Cinderela moderna — instruiu Fred.
O texto acabou se transformando em literatura de ficção, pois não havia outro
modo de abordar o assunto.
Foi difícil escrevê-lo. Sally descreveu a casa, a sala e o homem, tendo o cuidado
de manter a imagem que ele apresentava na televisão e não dizendo o aspecto real
que tinha naquela manhã. O pior foi ter de inventar a conversa que deveriam ter
tido.
Quando a encontrasse, Adam iria repreendê-la por colocar em sua boca palavras
que ele não disse, mas Sally duvidava que fosse telefonar e reclamar.
O subtítulo não seria mais o que imaginara. Agora seria assim: "Como Adam
Burgess mudou minha vida". E, num certo sentido, tinha mudado mesmo. Ele, Tim e
Megan.
Embora não fosse uma mudança para melhor.
Sally não viu Tim o dia todo e saiu mais cedo do jornal. Aproveitou para ir ao
supermercado comprar alguns mantimentos. Estava sem apetite desde quinta-feira, mas
seria melhor comer alguma coisa para não estar fraca na hora de enfrentar Tim e
Megan. Estava profundamente magoada, mas não conseguia
chorar. Talvez porque ainda
estivesse com muita raiva. Os dois a tinham feito de boba. Deviam achá-la uma
idiota completa! Enganaram-na direitinho!
32
Sally comprou comida só para ela. Se fosse antes teria comprado ara a amiga
também e para o noivo que iria vê-la às sete horas.
mas agora era diferente!
Chegou em casa e Megan não estava, mas as roupas dela ainda estavam no
armário, portanto não devia ter se mudado. Estava comendo na cozinha quando ela
chegou.
— Oi, como vai a família? — O tom de voz era tão normal, que a traição parecia
impossível.
Sally largou os talheres olhou para ela.
-Tia Esme mandou lembranças.
— Ela é um amor!
Megan foi para a sala e Sally ficou observando-a por instantes, depois ergueu-se e
foi atrás dela e, antes que entrasse no quarto, perguntou:
— Vai sair hoje à noite?
.— Não. — Megan estremeceu ligeiramente.

Livros Florzinha - 22 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Não vai se encontrar com Alan?
— Não. — Ela se esforçava para parecer natural, mas continuava evitando o olhar
de Sally.
— Tim vem aqui, mais tarde.
— Ah é?
Megan estava nervosa, não conseguia mais disfarçar. Devia estar se sentindo
culpada. Talvez tudo tivesse começado como uma brincadeira, um flerte inconsequente,
mas se transformara num caso de amor sério. Por isso Sally não desconfiara de
nada no início. Mas agora não tinha mais pena dela,
assim como não tinha de Adam e Vanessa.
— Você terminou tudo com Alan? — Sally conseguia ser cínica o bastante para
fingir interesse e preocupação.
— Terminei.
— Ah, eu tinha certeza. Você é uma garota legal. Essa é a melhor solução para
todos. Você não seria feliz roubando o homem de outra mulher, não é mesmo?
Sally sorriu e Megan se afastou bruscamente.
— Estou com uma dor de cabeça terrível. vou me deitar um pouco
— murmurou ela.
— Está bem. Eu chamo você quando Tim chegar.
Sally .voltou para a cozinha, imaginando que Meg deveria estar tensa, com medo
da revelação, talvez até mesmo com remorso.
Quando Tim chegou Sally o recebeu com um sorriso. Ele também sorriu e ia beijá-
la como sempre, se ela não tivesse se afastado. Será que desconfiara dessa atitude
de repúdio?
— Que história é essa de emprego novo? Ouvi lá na redação.
— Pois é, que sorte a minha, não?
— Você aceitou?
— Você não aceitaria?
Ele ficou sério e sombrio, como se aquela decisão o tivesse afetado muito. Os
olhos percorriam a sala, furtivamente, como se estivesse procurando alguém.
— Ela está descansando — disse Sally e foi até o quarto. — Meg, Tim está aqui.
Estou certa de que gostaria de vir para a sala agora.
Meg, que estava acordada e vestida, saiu do quarto imediatamente.
— Oi, Meg — disse Tim -, o que você acha desse negócio de Adam convidar Sally
para ser assistente dele?
— Estou sabendo agora. Como é que é isso?
Sally mordeu o lábio. Que mentirosa! É claro que ela já sabia. Tim devia ter
contado logo que soube e os dois deviam ter discutido o assunto juntos e decidido não
mais confessar o segredo. Sally, indo embora, facilitaria as coisas.
Tim contou tudo outra vez e Meg arregalou os olhos como se estivesse surpresa.
— Puxa, que oportunidade maravilhosa!
— Você acha que eu devo aceitar, Meg? Realmente é irresistível.
Sally olhou direto nos olhos de Tim. Ele também estava representando. É claro que
os dois queriam que ela fosse. Tim fingia estar detestando a ideia mas não iria
impedi-la.
— Ê. . . não se pode recriminar você por aceitar — disse ele. Dificilmente terá outra
oportunidade como essa!
Que ironia, pensou Sally. Realmente, oportunidade de chantagear alguém não era
comum.
— Naturalmente vou ter que me afastar daqui e de você.
Sally ainda tinha uma vaga esperança de que Tim lhe pedisse para não ir, ou que
sugerisse antecipar o casamento para antes da viagem. Mas ele apenas disse:

Livros Florzinha - 23 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— É... nosso trabalho é assim mesmo, não é? Jornalistas sempre acabam
viajando.
Sally se afastou, deixando Tim e Meg perto um do outro, e encostou-se na mesa,
segurando na borda com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Depois
sorriu.
— Enquanto eu estiver longe você cuida dele pra mim, não é, Meg?
Megan deu um sorriso amarelo e olhou para Tim como se pedisse socorro. Saliy
virou-se para
ele.
— Sabe que Meg deu o fora em Alan? Não foi uma atitude decente?
— É— esperava isso dela! Pois é, agora vocês dois poderão dar apoio moral um
ao outro, não é?
Os dois estavam cada vez mais constrangidos com aquelas frases ambíguas.
Talvez desconfiassem de que ela sabia de tudo. Tim estava com as mãos enterradas nos
bolsos
e os olhos pestanejando. Meg sorria sem graça.
— É... acho que devo aceitar mesmo — continuou Sally. — Eu seria louca se não
aceitasse; na verdade essa oferta veio em boa hora. Você ultimamente tem estado
indeciso
sobre nosso noivado, não é, Tim? — Ele abriu a boca para falar, mas ela o impediu.
— É claro que sim e eu também. Tenho pensado muito. — Tirou a aliança e colocou-a
sobre a mesa. — Já que vou viajar com Adam é melhor deixar isto aqui.
Tim e Meg assistiam à cena de olhos esbugalhados.
— Você vai com ele mas só para ser assistente, não é? — perguntou Tim.
— É claro. — Sally encolheu os ombros, sorriu e continuou, em tom leviano: —
Mas ele é um homem carismático.. . quem sabe o que pode acontecer? Hoje de manhã,
assim
que nos olhamos... é difícil explicar, mas aconteceu alguma coisa. . . um estalo... —
ela estalou os dedos — sei lá... uma afinidade, uma simpatia instantânea.
Nunca me aconteceu antes. Ah, estou certa de que nos daremos muito bem!
Tim parecia não estar gostando muito daquela conversa, nem Meg. Se os dois
haviam se preocupado em dar a notícia sem magoar Sally, agora estavam se sentindo
rejeitados.
Ela os estava abandonando e não estava dando a menor importância ao fato, como
se eles não significassem nada.
— Afinal, o que é que você queria conversar comigo hoje, Tim? Veio especialmente
para dizer alguma coisa, não foi?
Ele ficou branco e depois de alguns instantes falou:
— Ah, era sobre as férias. . . mas não tem importância.
— Era mesmo? — Sally sorriu com insolência. — Puxa, eu estava certa de que
vocês iam me contar sobre o maravilhoso fim de semana que passaram juntos!
Houve um pesado silêncio. Os dois tinham a culpa estampada no rosto. Depois de
alguns instantes, falaram ao mesmo tempo.
— Como é que... — começou Meg.
— Sally... — disse Tim.
Mas Saily fez com que ambos se calassem, dirigindo-se a Tim que tentava se
desculpar.
— Besteira explicar isso agora, levaria muito tempo e não tem justificativas.
Portanto, com licença, que eu preciso sair.
Ela já havia decidido ir dormir na casa de uma amiga. Assim ficaria longe de Meg e
teria companhia para consolá-la.

Livros Florzinha - 24 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Você quer que eu vá embora? — perguntou Meg. — Posso arrumar as malas
enquanto você não está e procurar um lugar para ficar.
— Faça o que quiser — disse Sally, pegando o casaco -, mas eu só vou ficar aqui
até o fim do mês, depois o lugar é todo seu.
— Ah! Sally! — Meg falou, com voz de choro. — Nós gostamos muito de você.
Sempre foi uma amiga maravilhosa.
— Era o que eu pensava de você — disse com frieza e saiu.
Foi passar a noite com um casal amigo, dono de uma loja de antiguidades no
centro da cidade. Eles moravam no andar de cima do antiquário e tinham três filhos. Dois
meninos, gémeos, de nove anos e uma menina de dez meses.
Sally tinha muito o que contar a eles naquela noite, sobre seu novo emprego e o
rompimefito do noivado. Joannie ficou preocupada quando ouviu a notícia, pois não
sabia o motivo do rompimento e pensou que fosse por causa do emprego.
— Tem certeza de que vale a pena aceitar esse emprego? perguntou Joannie.
Sally respondeu que sim, pois ela e Tim já estavam há algum tempo indecisos
sobre o casamento.
Os colegas de serviço também se surpreenderam com a notícia do rompimento.
Todos acharam que o motivo era o novo emprego. Lógico que Tim não ia gostar de ver a
noiva
viajando o tempo todo e ser passado para trás.
Entretanto, como jornalistas, achavam que Sally tinha razão em aceitar a oferta.
Era uma proposta e tanto para ser recusada. Ah, se eles imaginassem como ela
conseguira
aquele emprego!
O telefone tocou e chamaram Sally.
— Alo, aqui é Sally. -
— Alo, é Vanessa Otterbury quem está falando — disse uma voz gutural e sensual.
— Não fale meu nome, não quero que saibam
que sou eu, só quero saber se você pretende
mesmo levar até o fim essa história. -
— Pretendo sim — respondeu ela depois de se recuperar da sur presa.
— Ah, meu Deus! Então, minha cara, ou você é uma das mulheres
mais corajosas do mundo ou é completamente maluca! Ninguém conhece Adam
melhor do que eu para saber o que ele vai fazer com uma pessoa que tentou chantageá-
lo.
Pobre de você!
E antes que Sally pudesse dizer qualquer coisa Vanessa desligou.

CAPITULO III

Sally ficou paralisada segurando o fone. As palavras de Vanessa lhe trouxeram de


volta à memória Adam parado na porta da casa dele, dizendo-lhe que ela poderia se
arrepender de ter pedido aquele emprego. Ela o chantageara e ele se rendera, sem
discutir. Isso era estranho, porque todos sabiam que Adam Burgess não era homem
de se deixar amedrontar pelos outros.
Adam devia gostar muito de Vanessa para se preocupar tanto com ela, sem ligar
para seu próprio orgulho. Devia desejá-la ardentemente para ter se submetido à vontade
de uma garota frágil como Sally. Vanessa não ia largar do marido milionário, mas
queria ficar com o amante e Adam a queria tanto que aceitara sem vacilar os termos
de Sally.

Livros Florzinha - 25 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Não podia ser amor o que existia entre eles, encoberto por mentiras e transições.
Era só sexo, desejo e egoísmo. Esse era o homem para o qual iria trabalhar! E os
colegas ainda achavam que ela tivera sorte, que seria um privilégio ser assistente
dele. Que ironia!
Sally percebeu que Fred a olhava com ar sério e recolocou o fone no gancho.
— Telefonema particular? — perguntou ele.
— É, desculpe.
— Sally, estava pensando... o que você vai fazer com sua mobília? — perguntou
Karen.
Sally ainda não pensara nisso. com tantas preocupações, nem se lembrara dos
móveis guardados no porão do jornal.
— Se quiser vender, gostaria de comprar a escrivaninha — disse Karen.
— Por que não faz um leilão? — sugeriu Fred com sarcasmo. Até parece que não
tem serviço, pra vocês ficarem aí resolvendo problemas particulares.
— Ah, só uns minutinhos não vão fazer diferença, vão? — disse Karen.
— Dá licença de sairmos por cinco minutos? — pediu Sally.
O diretor da redação encolheu os ombros e elas saíram depressa. Desceram até o
porão e Sally mal podia encarar aqueles móveis que eram parte de seu sonho desfeito.
Karen escolheu uma escrivaninha pequena e antiga que Sally comprara de
Joannie, Nem discutiu o preço, estava louca para sair dali.
— vou tirar isso tudo daqui. vou pedir a Joe e Joannie que mandem buscar e
deixem na loja para vender.
Karen apagou a luz e subiu a escada atrás de Sally.
— Ei, tem certeza de que quer mesmo vender?
— É claro.
— Você desistiu mesmo de casar com Tim? Definitivamente?
— Desisti definitivamente. — Sally sentiu um vazio interior que chegou a doer.
Quando saiu do jornal, à tarde, passou pelo antiquário dos amigos e explicou tudo
a eles, Joannie se surpreendeu com a ideia.
— Mas algumas peças são raras! Vale a pena guardar. . .
— Não quero saber de nada dessas coisas. Daqui em diante vai ser tudo diferente.
— Você encontrou outro homem, Sally? É Adam?
— Eu? Imagine só! Nem por sonho.
Joannie parecia não estar acreditando, mas Sally despediu-se e foi para casa.
Megan chegou na hora do jantar e entrou silenciosa como uma sombra. Fez alguns
comentários sobre o tempo, depois calou-se. Perguntou se ela não ia usar o banheiro
e ficou quase uma hora tomando banho, depois foi direto para a cama.
Sally telefonou para tia Esme e contou que desmanchara o noivado, coisa que a tia
aprovou, depois de a sobrinha ter dito que não tinha mais certeza se queria ou
não se casar. Depois contou que iria trabalhar para Adam Burgess a partir do mês
seguinte.
— Mas que ótimo! Não estou admirada que ele a tenha convidado para trabalhar
com ele, você é tão inteligente! Seu tio vai ficar muito contente quando souber! Ele
é simpático pessoalmente?
-— É um homem inteligente — respondeu ela, apenas.
Sally deu graças a Deus de estar falando por telefone. Estava morta de vergonha
da tia. Se ela soubesse de seu procedimento! Se soubesse que fizera daquele homem
um terrível e perigoso inimigo!
Ocorreu-lhe de repente que Adam poderia faltar com a palavra e dar para trás no
acordo. Não teve mais notícias dele naquela
semana

Livros Florzinha - 26 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
e nem sabia onde ele estava. Cada vez que o telefone tocava ou que chegava
correspondência seu coração acelerava.
Como é que ela ficaria diante dos outros se isso acontecesse? Seria uma
humilhação total, ter que dizer que Adam mudara de ideia e não a queria mais e que Tim
não
iria voltar e reatar o noivado.
Mesmo que ele quisesse, ela não o aceitaria mais. Só rezava com fervor para que
Adam lhe desse o emprego conforme prometera. Depois, o futuro dependeria dela.
A essa altura já não poderia mais fazer publicar o escândalo de Vanessa. Não tinha
mais armas para pressioná-lo. Só se ele temesse que ela começasse a espalhar boatos.
No sábado seu artigo saiu publicado no jornal e na segunda-feira recebevi o
telefonema de uma colunista de um jornal londrino. Confirmou tudo o que escrevera e
afirmou
que iria trabalhar com Adam.
Eles também entrevistaram Adam, pois na quarta-feira saiu publicado um artigo
com citações dele dizendo que não sentira falta de uma assistente até o momento em
que vira Sally, mas alguns minutos de conversa tinham sido o bastante para que se
visse oferecendo a ela o emprego.
Ela era uma garota maravilhosa, dizia ele, bonita, divertida e cordial; uma
companhia agradabilíssima, enfim. Não mencionou suas habilidades profissionais e seu
talento jornalístico, portanto quem lesse isso poderia perfeitamente imaginar que o
encontro deles fora atração à primeira vista e seria o começo de um caso de amor.
E era justamente o que ele queria que pensassem.
Era uma coluna de fofoca sobre gente famosa e o parágrafo sobre ele começava
assim: "É bom saber que Adam Burgess arranjou nova companheira. Ele andava muito
solitário
desde que a ex-namorada Vanessa Otterbury se casou com outro, mas agora há
uma nova garota na vida dele".
Depois de ler aquilo ninguém imaginaria que ele continuava amante de Vanessa.
Sally ficou sem jeito quando lhe mostraram o jornal, assim que entrou na redação.
— É só um emprego! — disse ela, com veemência.
— Tá bom, a gente acredita — disse Karen, sorrindo. — Mas ele disse que nunca
sentira falta de uma assistente até que viu você. Puxa! Você deixou o homem maluco,
hein?
Sally começou a protestar calorosamentte, mas depois percebeu o ridículo da
situação. A verdade era bem diferente. Agora sabia por que ele se rendera tão facilmente.
Era simplesmente porque estava se utilizando dela tanto quanto ela dele!
Vanessa não parecera contente ao telefone. Não devia estar gostando
nem um pouco da ideia de Adam trabalhar com uma mulher. Mas ele devia tê-la
convencido da utilidade de Sally para salvar as aparências.
Pensando nisso Sally parou de se preocupar com o fato de Adam não querer
cumprir o acordo. Afinal ela estava prestando um favor a ele e a Vanessa. Aceitaria o
emprego
mesmo assim, pois também tirava proveito da situação.
Aquele finzinho de mês foi um sacrifício e custou a passar. Nos fins de semana
Sally ia para a casa dos tios, que não se cansavam de fazer perguntas sobre seu novo
patrão. Queriam ouvir tudo sobre ele.
Sally quase não via mais Megan. No último sábado tomaram o café da manhã
juntas antes de partir para a casa dos tios. De lá iria direto para a casa de Adam. Desde
aquela segunda-feira que as duas não se sentavam juntas à mesa. Mas dessa vez
a despedida era para valer. Sally não sabia para que parte do mundo Adam a levaria,
nem quanto tempo ficaria longe.

Livros Florzinha - 27 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Megan tomou o café em silêncio, depois lavou a xícara enquanto criava coragem
para falar.
— Ainda somos amigas, não é? Eu queria que continuássemos a amizade e sei
que Tim também quer.
Como poderia restar ainda alguma amizade depois de Meg e Tim a terem
enganado e magoado tanto? Megan queria se sentir perdoada. Sally poderia ter
respondido com
palavras cruéis e amargas mas não teve coragem. Disse apenas:
— Por que não?
Isso bastou para satisfazê-la e Meg sorriu contente.
— E você está bem, não é? Arranjou esse emprego maravilhoso com esse homem
fantástico! Quer dizer, há males que vêm para bem e foi o que aconteceu com você, não
é?
— É — respondeu, embora estivesse cheia de dúvidas e temores sobre o futuro.
Adam era perigoso. — Até qualquer dia.
— Até, e boa sorte.
— Eu sou uma garota de sorte — disse Sally, com amarga ironia. Mas Megan não
percebeu. Acreditou piamente no que a amiga
disse.
Na segunda-feira de manhã Sally estacionou o carro e caminhou até o portão
branco, atravessando o gramado do jardim cuidado e cheio de-flores. A casa parecia
deserta.
O próprio Adam veio abrir a porta para recebê-la. Ela estava nervosa e disse a
primeira coisa que lhe ocorreu.
— Não há ninguém para abrir a porta para o senhor?
— Agora que está aqui pode fazer isso para mim e, por favor, pare de me chamar
de senhor.
Ele se virou e conduziu-a, em silêncio, até um aposento no fim do corredor. Dessa
vez ela não estava com raiva, estava até meio constrangida porque agira mal, como
uma oportunista sem escrúpulos. Chegou a arrepender-se do que fizera. Teria sido
melhor arranjar um emprego qualquer, honestamente.
O aposento era uma sala de trabalho de paredes amareladas. Havia uma
escrivaninha e uma cadeira. Uma das paredes estava coberta de prateleiras cheias de
livros.
Havia também um móvel de arquivo.
Imaginara que Adam trabalhasse num lugar luxuoso, cercado de conforto.e
elegância. Era o que sugeria a imagem dele na televisão. Mas lá estava o escritório e lá
estava ele, negligentemente vestido, usando calça cinza e camisa esporte, na qual
faltava um botão e com o cabelo tão despenteado quanto da última vez.
— Bem... o que me diz? — perguntou ele,
Sally percebeu então que devia estar demonstrando perplexidade, mas não podia
explicar a Adam o motivo. Ficou sem dizer nada e ele lhe indicou a cadeira atrás da
escrivaninha. Ela se sentou e ele ficou em pé observando-a, o que a fez baixar o
olhar. Mesmo vestido com desalinho, emanava autoridade e-segurança.
— Eu li seu artigo — disse ele.
— O que queria que eu fizesse? Precisava preencher quatro colunas no jornal e
não entrevistei você, afinal, naquele dia — defendeu-se ela.
Ele repetiu o título do artigo e fez um trejeito como se achasse aquilo uma piada de
mau gosto.
— Sabe que Vanessa me telefonou?
— É, ela me disse.

Livros Florzinha - 28 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— E você aproveitou para convencê-la de que comigo por perto poderiam salvar as
aparências e enganar todo mundo. Ou pelo menos o marido dela, não é?
Ela pensou que fosse desconcertá-lo com aquela franqueza rude, mas ele caiu na
gargalhada.
— Só quem não conhece você, espertinha!
Sally se sentiu arrasada. Sabia que não era feia, mas também não era bonita em
comparação a Megan, Tim confirmara isso. E, comparada a Vanessa, nenhum homem a
acharia
bonita. Por alguns instantes sentiu-se perdida, como se fosse a criatura mais
solitária do mundo. Nunca mais reencontraria o amor. Resolveu ignorar o insulto.
— Não me chame de espertinha, meu nome é Sally!
— Pois você é muito perspicaz! Imagine só, vislumbrar um rosto à distância, por
trás da vidraça, e conseguir identificá-lo!
Ela não se achava nem um pouco perspicaz e esperta. Senão teria descoberto a
traição de Tim e Megan! Se não os tivesse encontradu naquele bar, naquela noite, a
confissão
deles a pegaria totalmente desprevenida, seria um choque e ela ficaria arrasada.
— Que se dane o marido de Vanessa, não é? — disse ela, com
raiva.
O rosto dele ficou sombrio e,ela desviou o olhar. Estava lá para
trabalhar, afinal, e não para brigar com ele.
— Tem algo para eu fazer? — perguntou ela.
— Quero que datilografe isto. — Ele apontou para um amontoado de folhas
manuscritas sobre a mesa. — Você sabe escrever à máquina,
não sabe?
— É claro.
— Consegue ler isto?
A página de cima era uma lista de consertos a serem feitos na casa. Ela conseguiu
ler e balançou a cabeça afirmativamente.
— Quero deixar a casa em ordem, dentro de uns três meses. E antes que ela
pegasse a segunda página, ele perguntou: — Você já esteve na Amazónia?
Ela fez que não com a cabeça.
— Pois é para lá que estou indo — ele sorriu com sarcasmo -, e como você é
minha assistente, naturalmente vou querer que me
acompanhe.
— Ah, mas deve ser. . . muito interessante. — Ela estava nervosa.
— Ora, você é uma escritora nata! Que frase brilhante!
Ela havia se preparado para tudo, para enfrentar desconforto e até mesmo perigo.
Mas com essa não contava! Saber de repente que iria para a selva amazônica deixou-a
atordoada. Logo ela, que morria de medo de aranha, por menor que fosse! Só de
imaginar o que viveria naquele ambiente, um intenso temor percorreu-lhe o corpo.
— O que você esperava que eu fosse fazer? Escrever sobre a moda em Paris?
— Isso nem me passaria pela cabeça.
— Que tal seus conhecimentos de geografia?
— Nada bons, principalmente sobre a Amazónia.
Ele pegou um atlas na estante, colocou-o na mesa, e abriu-o na
América do Sul,
— Brasil, Equador, Colômbia, Peru. . . — Ele ia percorrendo o mapa com o dedo, à
medida que falava. — Esse é o rio Putumayo que se une ao rio Amazonas, aqui, e forma
um triângulo com o rio Japurá.
Um triângulo de selva cheia de répteis, crocodilos, cascavéis, sangues— sugas,
insetos e até onças-pintadas.

Livros Florzinha - 29 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
No mapa havia apenas um triângulo verde, sem nomes, mas para ela aquilo
parecia o próprio inferno.
— E aqui, bem no centro — continuou ele, indicando o lugar -, fica a cidade de
Purumaxi.
sally lembrou-se de ter visto um programa na televisão, há uns três anos, em que
Adam contava ter participado de uma expedição que encontrara ruínas de uma cidade
que poderia ter sido o último refúgio dos Incas expulsos do Peru.
— A cidade dos Incas! — exclamou, em tom respeitoso.
Os Incas tinham sido um povo admirável, cheio de esplendor. Um império que
existira há mais de quatrocentos anos, cujas construções eram cobertas de ouro e prata
e enfeitadas de jade.
— Não é uma cidade de ouro — disse ele. — Já não tinham mais ouro quando
construíram Purumaxi para se refugiarem. Alguns homens que foram comigo naquela
expedição
ainda estão lá, trabalhando.
— Você vai se encontrar com eles?
— Nós vamos nos encontrar com eles. Isso se quiser mesmo trabalhar para mim.
Ela sempre vivera uma vida provinciana e acomodada e ele sabia disso. Nunca
fizera um trabalho braçal realmente pesado, como iria aguentar quatro meses numa
selva?
Esse devia ser outro motivo por que ele concordara tão rapidamente com a
chantagem. Já sabia para onde ia e não acreditava que ela tivesse coragem bastante
para
acompanhá-lo. E nem resistência
física.
Mas ela era jovem e saudável e, se conseguisse realizar essa proeza, poderia até
escrever um livro. Além disso, não podia desistir logo no primeiro dia. Não podia
dar a ele esse gosto! E também não podia ficar na cidade e dizer aos outros que
perdera o emprego porque tinha medo de aranhas e insetos!
— Nunca estive numa selva. Quando partiremos? Ele a olhou com insolência por
um longo instante.
— O que você está pensando que vai ser? Uma excursão de férias? Um
piquenique?
— Não.
— Essa viagem pode matar você!
— Não matou seus amigos, matou? Há quanto tempo estão lá?
— Estão lá desde a primeira expedição que descobriu a cidade. Mas acontece que
não são como você. — Ele a olhou com desprezo.
Sally realmente era de constituição delicada. Tinha pele fina e
43

suave que não podia ficar exposta ao sól de verão e ficava marcada com uma
simples picada de pernilongo. Imagina expor-se aos rigores de uma floresta tropical!
Entretanto, ver de perto a última cidade Inca era realmente uma tentação, algo para
ser lembrado o resto da vida. Era uma oportunidade que não se repeteria jamais!
Seria a maior aventura de sua vida!
— Quando partimos? — repetiu ela, com olhos brilhando.
— Pretendo partir no fim da semana que vem. Ir de avião até Quito, depois
atravessar os Andes e seguir pelo rio até a floresta.
— De que vou precisar?
— De um exame psiquiátrico. Você deve estar louca!

Livros Florzinha - 30 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Adam a tratava assim só porque achava que uma mulher não poderia suportar a
viagem nem os quatro meses na cidade perdida na selva. Pois ela lhe mostraria! E
mostraria
a Tim e Meg também. Queria ver a cara deles quando lessem o que estava
fazendo!
Ele deu de ombros, como se tivesse desistido de dissuadi-la da ideia.
— Precisa de passaporte, é claro. E de vacinas contra cólera, tifo e febre amarela.
Tomou nota de tudo o que ele disse.
— Obrigada.
Ele caiu na risada outra vez.
— Não me agradeça, espertinha. Você vai ver para onde vou levá-la. Mas você
merece! Quero vê-la de joelhos, pedindo para voltar.
Parece que ele queria lhe dar uma lição. Mas ela não se importava. Mesmo que
não aguentasse até o fim, já teria material suficiente para escrever uma boa história.
— Sou mais forte do que pareço.
— Tomara que seja mesmo! — sorriu ele.
Adam saiu da sala e ela ficou datilografando na enorme máquina antiga. Resolveu
que seria melhor ir buscar a sua no dia seguinte. Era pequena, portátil e moderna.
Adam voltou mais tarde e estendeu-lhe uma folha de papel.
— Hoje às duas e meia, neste endereço. Procure o dr. John Raymond... ele lhe
aplicará as vacinas.
Ela quis perguntar se ia doer e se dava reação, se não iria se sentir mal depois,
mas engoliu as palavras e perguntou apenas:
— E depois, volto para cá?
— Melhor ir para sua casa. A propósito, onde você mora?
— Em Radchester. Moro num apartamento com outra garota. Não conseguia dizer
"amiga".
— Aqui há um quarto, se achar melhor mudar-se para cá. Acho que seria mais
conveniente. Eu não tenho hora certa para trabalhar.
Seria conveniente também para manter as aparências em relação a Vanessa. Mas
como Sally não queria mais ver Meg, nem se importou com isso.
:— Obrigada. vou pensar no caso. Mora mais alguém aqui?
— Está preocupada com sua reputação?
— Eu não sou uma garota moderninha.
— É, mas sua moral antiga não recrimina chantagem, não é?
— Não pense que me orgulho do que fiz.
— Eu realmente ia precisar de uma secretária este mês, portanto trate de trabalhar.
— Só mais uma coisa. Esta máquina antiga é horrível. Posso trazer a minha
amanhã?
— A sua é elétrica?
— Não. É portátil, mas prefiro a elétrica, lógico.
— Ali no armário tem uma.
Ele foi até lá, trouxe a máquina novinha e ligou-a na tomada.
— Puxa! Por que você usa aquela velharia se tem esta aqui?
— Questão de preferência. Esta é para as secretárias.
E era isso que Sally era agora. Passou o resto da manhã realmente muito ocupada.
Ele precisava terminar uma meia dúzia de artigos antes de viajar. E embora nunca
tivesse trabalhado como secretária, se saiu bem. Usou taquigrafia para anotar o
que Adam ditou e datilografou tudo depois. Ele não se sentava. Ficava andando de
cá para lá enquanto ditava. E ela podia sentir a energia que emanava dele.
Quando o telefone tocou, ele xingou, passou a mão pelo cabelo e foi correndo
atender. Sally aproveitou para descansar um pouco. Era o primeiro intervalo que tinha.

Livros Florzinha - 31 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Em poucos minutos estava de volta e continuou no mesmo ritmo, ditando de onde
parara, como se ela fosse apenas um gravador. Nunca a tratava como pessoa. Nem uma
palavra de atenção ou delicadeza! Era insuportável trabalhar para ele. Não era à
toa que não tinha secretária nem assistente. Quem é que aguentaria aquele tipo
de tratamento por muito tempo?
Talvez ele fosse diferente com os outros. Sally sabia que ele estava determinado a
acabar com ela de um jeito ou de outro. Cada vez gostava menos dele. Chegou a
sentir alívio de ter que sair para tomar as vacinas. À uma hora ela perguntou:
— Não vamos parar para o almoço?
Ele continuou lendo as anotações e disse apenas, ao virar a página: -— Pode se
servir.
— Onde?
— Na cozinha. Vá lá e pegue alguma coisa que possa comer enquanto trabalha.
— Meio difícil comer sem usar as mãos, não acha?
Adam ergueu a cabeça e olhou-a com profundo desagrado. Ela também não
gostava dele, mas não conseguia expressar isso apenas com um oíhar como aquele.
Havia nele
uma violência contida que a deixava gelada.
A cozinha estava longe de ser moderna, mas estava tudo limpo e reluzente, do
chão até o teto.
Abriu a geladeira, que estava abarrotada de comida, e cortou uma fatia de torta,
depois fez um sanduíche de presunto. Voltou para a sala com um prato e um copo de
leite nas mãos e perguntou:
— Você não quer nada?
— Depois eu como.
Sally mal sentou e colocou as coisas na mesa e ele já começou a ditar. Quase não
dava tempo de morder o sanduíche nas rápidas pausas que Adam fazia e várias vezes
ela quase engasgou.
Pensou em pedir que ditasse mais devagar ou que esperasse um pouco, mas não
queria pedir nenhum favor. Não pediria ajuda dele. nem que estivesse se afogando num
rio!
Às duas horas ela fez uma pausa e comentou:
— Se tenho consulta marcada para as duas e meia é melhor ir agora.
— Está bem.
Foi tudo o que disse. Não se despediu e nem olhou para ela. Sally deixou tudo
como estava, apenas pegou a bolsa e saiu.
Estava fervendo de raiva. Nunca detestara alguém tanto assim. Este homem não
tinha uma única característica louvável, excetuando-se o fato de ser um brilhante escritor.
Era mentiroso, mal-educado e grosseiro. Tomara que os outros da expedição não
fossem como ele!
Será que conseguiria chegar até a cidade? Será que aguentaria ficar lá até o fim?
Seria uma experiência fantástica se conseguisse!
O médico aplicou as vacinas contra tifo e cólera, depois recomendou:
— É melhor se resguardar por um ou dois dias. Pode ser que fique com o braço
dolorido, um pouco inchado, e até com íngua. Caso se sinta mal tome isto aqui.
Sally passou pela biblioteca antes de ir para casa e retirou alguns livros sobre os
Incas. Planejava passar o resto do dia lendo sossegadamente.
Estava aninhada no sofá da sala quando Meg entrou. Tim vinha
logo atrás carregando uma sacola de mantimentos. Era uma cena tão doméstica
que Sally sentiu um nó na garganta.
Os dois se surpreenderam ao vê-la. Tim parecia mais sem jeito do que Megan. Meg
estava convencida de que tudo se ajeitara amistosamente.

Livros Florzinha - 32 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
.— Não imaginei que estivesse aqui — disse ela, com naturalidade.
Achei que Adam iria convidá-la para jantar, para comemorar o
primeiro dia de trabalho!
— Preciso ficar em repouso por um ou dois dias. Acabei de tomar vacinas contra
tifo e cólera. Quinta-feira vou tomar uma contra febre amarela no Posto de Saúde.
— Mostrou os livros. — Porque no sábado que vem, sem ser este, vamos para o
Equador e depois de cruzar as montanhas vamos entrar na selva amazônica, onde foram
encontrados
restos de uma antiga cidade Inca.
Os dois ficaram de olhos esbugalhados, olhando para ela e para os livros.
Megan pegou um dos livros e examinou a capa que retratava uma máscara de
ouro.
— Que romântico! — ela suspirou. — Uma cidade perdida na selva!
— Não é como se vê no cinema! — disse, Tim sério. — Você pode até morrer lá!
— Adam vai tomar conta de você, não é? — disse Meg.
— É claro que sim. Já imaginaram que história isso pode dar, hein? Ver de perto,
viver uns meses na última cidade
Inca!
Megan estava com inveja e Tim provavelmente estava pensando nas fotos
maravilhosas que poderia tirar das coisas que só Sally veria. Era sua pequena vingança,
embora
não eliminasse a dor de vê-los juntos como naquele momento em que entraram
com as compras.
Ainda bem que tinha Adam para descarregar todo seu ódio, pois seria triste demais
odiar as duas pessoas que mais amara. Sentiu que a cabeça começava a doer.
— Quem vai estar lá? — Tim falava com a autoridade de um pai que faz essa
pergunta à filha adolescente que vai a uma festa.
— Alguns membros da expedição, ora. Não sei o nome deles. Amanhã eu
pergunto.
:— Ah, mas que emocionante! — disse Meg. — Mudando de assunto, você já
comeu? É que eu comprei pouca coisa, não sei se dá para três. . .
— Já comi, sim.
De fato ela comera ovos mexidos com torrada e não tinha a menor
intenção de ficar ali vendo Tim e Meg prepararem a refeição e sentar-se à mesa
com eles.
— Preciso escrever umas cartas — disse Sally. — Acho que vou escrevê-las na
cama mesmo. Quero dormir bem cedo. O médico disse que preciso repousar.
Reuniu os livros e foi para o quarto. Sem dúvida era melhor aceitar a oferta de
morar na casa de Adam. Não sabia se conseguiria aguentar isso todas as noites, durante
quase quinze dias.
Escreveu para os tios, com todo o cuidado de demonstrar que estava
entusiasmada e que não havia perigo. Sabia que eles ficariam abismados e assustados
com a ideia
de saber que a sobrinha iria se embrenhar na selva. Terminou dizendo que iria vê-
los antes de partir.
Não havia ninguém para quem pudesse contar a verdade. Precisava fingir para
todos, até para ela própria, que estava eufórica e entusiasmada. Não podia admitir que
estava apavorada.
Ouviu o ruído do carro de Tim quando ele foi embora e concluiu que Meg fora com
ele, pois a casa ficou em silêncio. Pegou os livros e ficou lendo até sentir as
pálpebras pesadas. Depois apagou a luz e adormeceu profundamente.

Livros Florzinha - 33 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Sonhou com palácios cheios de ouro, com florestas assustadoras e com Adam que
a fitava com olhos ameaçadores. Nem ouviu
quando Megan entrou no quarto. Só de manhã,
quando acordou, é que a viu na outra cama.
Era sempre doloroso acordar, porque logo em seguida se lembrava da triste
realidade que não podia mudar: Tim e Megan.
Lembrõu-se dos sonhos que tivera durante a noite e reconheceu que estava morta
de medo. Essa viagem a Purumaxi poderia se transformar num pesadelo real.
Estavam tomando café na cozinha quando Meg perguntou:
— A que horas você vai chegar?
— Eu vou ficar morando na casa de Adam até partirmos.
— Até que é uma boa ideia!
Quando Sally chegou para trabalhar, foi uma mulher de meia-idade quem lhe abriu
a porta. Tinha o cabelo grisalho e crespo e usava um avental lilás.
— bom dia. É Sally Doyle, não? Eu sou a sra. Lovatt.
— bom dia.
Sally não a conhecia mas deduziu que era a empregada que cuidava da casa.
Gostou de conhecê-la, pois parecia uma pessoa simpática.
Adam já estava no escritório e trabalharam no mesmo ritmo da véspera,
ininterruptamente. Na hora do almoço a sra. Lovatt levou
uma bandeja com sanduíches, frutas e café e eles pararam o trabalho por alguns
minutos. Mas mal teve tempo de tomar fôlego e ele já estava ditando novamente.
Durante a tarde chamaram-na ao telefone. Era Fred do Eco que soubera da
novidade por Tim e queria saber se seria possível Sally escrever alguns artigos para eles.
Achou que seria melhor perguntar a Adam, embora não houvesse nenhum contrato
de exclusividade entre eles.
— Pode escrever para quem quiser, se tiver a coragem de ficar lá
— foi a resposta.
No fim do dia não estava se sentindo muito bem. O braço latejava, a cabeça doía e
estava com uma sensação de cansaço. Mas só às seis e meia é que Adam deu por
terminado
o expediente. Ele não se sentou nem por um minuto durante esse tempo todo. De
vez em quando se encostava na escrivaninha, de braços cruzados, e de costas para ela.
Às vezes ia até a janela e ficava olhando a paisagem lá fora. Era um homem
inquieto. Parecia um animal preso na jaula.
Enquanto ele arrumava os papéis sobre a mesa, Sally ficou pensando no tormento
de ir para casa e encontrar Tim e Meg de novo e criou coragem para falar com Adam.
— Você disse que tinha um quarto vazio, aqui, que eu. . . bem. . .
— É lá em cima, em frente à escada.
— Obrigada.
— A sra. Lovatt já foi embora e eu vou sair, a casa é toda sua. Ele saiu da sala e
Sally continuou lá, sem pressa, cobrindo a
máquina de escrever e pondo as coisas em ordem. Depois foi para a cozinha, que
estava limpíssima, e preparou uma xícara de chá, enquanto ouvia o carro de Adam se
afastar.
Quando terminou, foi até seu carro e pegou a mala que trouxera e levou-a para o
quarto que ele lhe indicara. O quarto era claro, arejado e muito limpo. A mobília
era simples, de madeira leve.
A cama estava feita. Ali devia ser o quarto de hóspede. Não fora dessa janela que
vira Vanessa.. . Sally tomou um comprimido, pegou os livros sobre os
Incas e deitou-se.

Livros Florzinha - 34 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Teve pesadelos angustiantes, o pior deles um pouco antes de amanhecer. Sonhou
que estava num palácio em ruínas, todo coberto de vegetação, e estava correndo, fugindo
de algo. Entrou numa sala onde havia um homem sentado num imponente trono,
com uma roupa luxuosa e coberto de jóias. Ele tinha um rosto aterrorizador e ela caiu
de joelhos aos seus pés, gritando.
Acordou sentada na cama, sacudindo a cabeça, e ainda não despertara
49
completamente quando a porta se abriu bruscamente e a luz se acendeu. Ela
pestanejou, atordoada e sem jeito.
Era Adam, que usava um roupão sem nada por baixo. Estava sem óculos e seu
olhar era penetrante e feroz. Examinou o quarto e depois virou-se para ela.
— Que diabo está acontecendo com você?
— Desculpe. . . — gaguejou ela — estava sonhando. . . foi um pesadelo.
— O quê?! Não vai me dizer que tem sempre esses pesadelos! Era evidente que
ele se esforçava para manter a calma.
— Não, não tenho não. É que eu estava lendo sobre os Incas antes de dormir. . .
devo ter me impressionado com alguma coisa... em geral eu durmo bem, sem problemas.
Foi a primeira vez em minha vida que gritei dormindo.
— Se um simples livro causa esse efeito em você... é melhor conversarmos
amanhã cedo.
Estava insinuando que hão iria levá-la. Era só o que faltava, levar para a selva
alguém que gritava por causa de um
sonho!.
— Por favor... ouça...
Mas ele não quis ouvir nada e saiu do quarto.
Ela iria com ele de qualquer jeito! Custasse o que custasse! certo que estava
apavorada, mas precisava ir nessa expedição.
Queria ver de perto a cidade perdida! De manhã falaria com Adam e explicaria que
as vacinas tinham provocado uma reação, deixando-a naquele estado. Ela não era
nervosa,
absolutamente. Diria qualquer coisa para se justificar e abrandá-lo. Só não diria
que o homem que no seu sonho estava sentado no trono e que a amedrontara
tanto era ele.

CAPITULO IV

Pela manhã Sally acordou estranhando o quarto e demorou até lembrar que estava
na casa de Adam mas, pela primeira vez, não se sentiu deprimida ao pensar em Tim e
Meg.
Sua única preocupação naquele momento era convencer Adam de que ela não
seria um estorvo na viagem. Precisava deixar bem claro
que não era nenhuma histérica. Não gritava à toa. Aliás, não gritava nunca. Só
naquela noite, por causa do sonho. . . justamente na hora em que ele ordenara que
lhe arrancassem o coração!
A casa estava em silêncio. Levantou-se e foi até o banheiro. A porta estava fechada
e ela girou o trinco devagar. Não estava trancada e não havia ninguém. Entrou
e lavou-se rapidamente, temendo que Adam quisesse usar o banheiro e o
encontrasse ocupado. Isso poderia deixá-lo de mau humor e ela não queria irritá-lo.

Livros Florzinha - 35 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Sally não sabia a que horas começava o dia nessa casa. Não sabia se a sra. Lovatt
viria e a que horas chegaria. Se tomavam café da manhã ou não. Em todo o caso vestiu-
se,
maquilou-se levemente e desceu.
Quando entrou na cozinha a sra. Lovatt estava diante da pia descascando
legumes. Através da janela via-se lá fora um homem cortando a grama.
— bom dia.
— bom dia. Como deseja seu café?
— Não quero comer nada, obrigada. Só uma xícara de café, por favor! — Não
queria dar trabalho àquela senhora tão gentil. — Adam está por aqui?
A sra. Lovatt fez uma expressão de surpresa, como se estranhasse ela não saber
de Adam. Ela não sabia que Sally dormira no quarto de hóspedes e naturalmente
interpretara
sua presença naquela casa de outro modo. Ninguém explicara nada a ela, afinal.
Sally corou. Não que se ofendesse, mas era desolador todos pensarem que ela
estava tendo um caso de amor com um homem que ela detestava.
— Ele está no escritório — disse a sra. Lovatt, enquanto servia o café.
Sally pegou a xícara e entrou na sala. Adam estava datilografando alguma coisa na
máquina antiga. Assim que a viu entrar ele se ergueu, não por cortesia, mas para
ligar a máquina elétrica e começar o trabalho.
— Desculpe ter incomodado você essa madrugada. . . foram as vacinas. Eu estava
com um pouco de febre, mas agora já estou bem.
Adam a encarou com olhos frios, e ela se sentiu corar ainda mais. Sabia que
estava mesmo parecendo febril e pensou que ele fosse mandá-la tomar o remédio e
descansar
um pouco, mas apenas deu de ombros.
— Quero que datilografe tudo aquilo. Hoje de manhã virá uma equipe de televisão.
— Para quê? — perguntou, sem refletir.
— Para que eu fale sobre os Incas, é claro.
— Ah é. . . por isso que você está de terno e gravata. Faz parte da sua imagem no
vídeo, não é?
— Você já apareceu na televisão alguma vez? — perguntou, ignorando o sarcasmo
dela.
— Eu?! — Ela levantou um pouco o tom da voz — Não. Por quê?
— Se você também vai a Purumaxi vão querer lhe fazer perguntas. Ela ficou
apavorada. Nunca falara em público. E se lhe desse um
pânico e não conseguisse articular uma só palavra?
— O que devo dizer?
— Fale o menos possível.
Ela sentiu a alfinetada. É lógico que ele estava insinuando que a achava burra.
Adam fazia questão de estar sempre insinuando isso, mesmo com um simples olhar ou
um trejeito da boca. Parece que não considerava seu trabalho eficiente nem
mesmo como secretária!
Ele saiu do escritório sem dizer mais nada e ela olhou para a pilha de papéis que a
esperava e suspirou. Ainda bem que não estava com febre. O braço estava um pouco
dolorido e pesado, mas era só isso. A reação não fora forte. Adam estava pensando
que ela pediria para voltar antes de chegar a Purumaxi, mas lhe mostraria que ele
estava redondamente enganado! Iria até o fim!
Estava se tornando mais importante provar isso a Adam do que a Tim e Megan.
Esse era um desafio concreto, uma luta que ela teria que vencer. Precisaria se manter

Livros Florzinha - 36 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
forte, disposta, não se deixar abater por nada! Precisaria usar a cabeça, hão
demonstrar medo e muito menos gritar por qualquer motivo, por mais assustador que
fosse.
Duas horas mais tarde ainda estava datilografando, quando a sra. Lovatt veio dizer
que a equipe da televisão tinha chegado e que o sr. Burgess mandara chamá-la.
A sala de visitas estava cheia de jornalistas e técnicos. Sally parou na porta, meio
sem jeito, e então Adam se aproximou e colocou o braço sobre seus ombros.
— Ah, aqui está minha garota.
Sally normalmente não era tímida e não costumava se encabular diante de
estranhos, mas todos ali estavam pensando que ela era a última conquista de Adam e
não conseguia
relaxar sentindo o braço dele envolvendo-a daquele jeito.
Fizera a gravação no jardim. Ajeitaram as câmeras e os microfones em lugares
estratégicos e Sally e Adam sentaram-se no banco de madeira sob a árvore copada, junto
com o entrevistador.
O repórter fez a introdução, explicando que Adam iria voltar à cidade
perdida na selva amazônica que ele ajudara a descobrir há quatro
anos— Depois começou a entrevista.
Sally prestava atenção no que Adam dizia, para se informar melhor, ficou sabendo
que os membros da expedição que ainda estavam em pururnaxi eram o professor Cari
Wittenburg, um arqueólogo americano de Minnesota; o dr. Manoel Peres, diretor do
Departamento de gstudos Antropológicos da Universidade de Brasília; Lewis Kent,
um arqueólogo independente de Devon;
Abe Rexham, custeado pelo Mu £U Britânico, e Sheila, a esposa dele.
Adam descreveu-os muito bem, com poucas palavras, e pelo tom caloroso era
evidente que eram todos bons amigos.
Sally desejou que Sheila simpatizasse com ela, pois iria precisar de uma amiga
num lugar
como aquele e na situação em que estava.
— E a srta. Sally Doyle vai fazer parte da expedição também, não é? — perguntou
o repórter. — Seu interesse pelos
Incas é antigo.
Sally?
Ela sabia que as câmeras a estavam focalizando e controlou-se, procurando algo
acertado para dizer, mas tudo o que conseguiu foi apenas balbuciar:
— Bem. . . não. É bastante recente.
— Quer dizer que começou a se interessar pelo assunto há pouco tempo? E agora
o que acha?
— É... exatamente.
Não sabia o que dizer, não podia falar que apenas lera superficialmente alguns
livros da biblioteca. Adam tomou a palavra.
— Sally e eu acabamos de nos conhecer. — Ele segurou a mão dela e sorriu. —
Eu a encontrei há pouco tempo e não gostaria de me separar dela tão depressa.
— Ah, então será uma lua-de-mel? — perguntou o repórter, rindo.
— De certa maneira, sim — sorriu Adam.
Sally enrubesceu e ficou perplexa, mas Adam continuou a falar com naturalidade
sobre os
Incas. O repórter esqueceu Sally e ela não o culpava por isso: sua primeira
aparição em público não fora nada brilhante. Sentiu-se até aliviada, só não estava
gostando de Adam continuar segurando sua mão. Ela não podia fazer nada, pois estavam
diante de milhares de telespectadores.
Assim que terminaram a gravação ele largou sua mão e ela se afastou depressa.

Livros Florzinha - 37 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— É. . . ela ainda tem muito serviço a fazer. . . — explicou ele, rindo, ao pessoal da
televisão. — Sally só ficou sabendo que iria comigo há alguns dias.
Ela foi para o escritório, mas estava tão furiosa que não conseguiu trabalhar. Ficou
andando de um lado para outro, preparando o
que iria dizer assim que Adam aparecesse
na porta. Esperou algum tempo e, como não apareceu, resolveu procurá-lo. Ele
estava na sala lendo
jornal.
— Terminou? — perguntou ele sem largar o jornal, apenas erguedo
os olhos.
— Terminou o quê?
— O que estava escrevendo à máquina, ora.
— Não. Não terminei. Quando vai para o ar essa entrevista?
— Hoje ou amanhã.
— Preciso telefonar para casa e explicar o que você disse — falou furiosa. — Não
gosto de ser usada para encobrir seu caso com
Vanessa!
— Por que não explica como conseguiu esse emprego, então? guém acredita que
você esteja profissionalmente à altura dele,
portanto a única explicação que encontram
é sexo. Agora, se preferir pode dizer a eles que foi chantagem...
— Lua-de-mel na selva! Essa é boa! — disse ela, com aspereza.
por entre os dentes.
Ele caiu na gargalhada.
— Lua-de-mel na selva.. . mim Tarzan, você Espertinha — continuou a rir. — Deus
me livre! Não precisa ficar tão nervosa
pois nem depois de três meses isolado em Purumaxi
eu teria coragem querer alguma coisa com você. Não tem o menor perigo!
Sally não achou graça nenhuma. Ficou paralisada, de olhos
arregalados.
— Você é detestável!
— Você também, Espertinha. — Ele ainda ria. — E por isso pode ficar sossegada
comigo. É como se você usasse um cinto de
castidade! Não queria usar o telefone?
Ela não podia falar com a tia na frente dele. Além disso não queria
mais ficar naquela casa.
— Eu telefono da minha casa. vou voltar pra lá, hoje.
Era preferível ver Tim e Meg juntos a dormir sob o mesmo teto que Adam. Durante
a expedição seria diferente, seria mais fácil
suportá-lo. Haveria tanta coisa interessante
que nem prestaria atenção nele. Mas agora era demais. Ele era insuportável!
Assim que chegou no apartamento, telefonou para a tia e contou sobre a
entrevista, dizendo que fora divertido e emocionante, depo acrescentou em tom casual
que o
repórter
fizera uma piadinha dizendo que a viagem seria uma lua-de-mel para ela e Adam.
— Não precisa se preocupar, tia, foi só uma piadinha mesmo. Somos jornalistas e
estamos trabalhando juntos, só isso. Mas não estaremos sozinhos lá, há outros
profissionais
na expedição!
Quando Sally foi para casa no fim de semana os tios já tinham visto o programa na
televisão e lido várias fofocas no jornal, com insinuações maldosas, mas continuavam

Livros Florzinha - 38 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
a acreditar na versão da sobrinha. Aliás eles eram os únicos, exceto, é claro,
Vanessa.
Vanessa foi ao aeroporto para a despedida. Sally achou que era uma indiscrição.
Eles deveriam ter se despedido longe dos outros. Mas era compreensível! com uma
separação
de quatro meses era lógico que quisessem aproveitar todas as oportunidades de,
pelo menos, se verem.
Era a primeira vez que Sally via Vanessa de perto e pôde entender por que os
fotógrafos não lhe davam sossego. Realmente ela era linda, com os cabelos loiríssimos
e a pele dourada de sol fazendo contraste com os dentes alvos e perfeitos.
A imprensa estava presente e vários amigos de Adam, mas não havia ninguém
para se despedir de Sally. Tim e Megan tinham feito, de surpresa, há dois dias, uma
festinha
de despedida no apartamento. Era inacreditável como os dois podiam ser tão
insensíveis, agindo como se nada demais tivesse acontecido! Ela aceitou a festinha,
esforçando-se
para sorrir o tempo todo, mesmo quando Tim começou a tocar violão e cantar as
músicas românticas, como costumava fazer
para ela, antes.
Os convidados tomaram bastante vinho e estavam sentimentais. Só Sally estava
sóbria e fria como uma pedra. Todos a beijaram e abraçaram desejando boa sorte e
dizendo
que sentiriam saudade.
Sally passou a última noite na Inglaterra na casa dos tios, que naquela manhã a
acompanharam até o trem que a levaria a Londres
e despediram-se lá na estação.
Bem que ela gostaria de ter algum amigo perto naquele momento. Essa era a
maior aventura de sua vida e ela estava embarcando solitária. Quando Adam se
aproximou
dela, então, sentiu-se mais só do que nunca.
Respondeu a todas as perguntas que os repórteres lhe fizeram, desta vez estava
mais desembaraçada. E quando os flashes especaram lembrou-se que Tim sempre se
queixava
de que ela não era fotogênica.
Os fotógrafos queriam uma foto de Adam abraçando Sally e Vanessa, mas ele se
recusou terminantemente. Depois pediram para fotografar Vanessa dando um beijo de
despedida
nele e ela atendeu o pedido na hora. Sally ficou pensando o que o marido dela
acharia daquilo.
Vanessa ignorou Sally até o último instante. Só quando já se dirigiam para o portão
de embarque é que ela tocou-a de leve no braço e falou, com voz macia:
— Espero que consiga voltar inteira!
Adam se virou também e o olhar dele e de Vanessa se cruzaram com
cumplicidade, fazendo Sally estremecer. Vanessa era a única ali que sabia que Sally não
estava viajando
com o amante, mas com um inimigo. Será que os dois não tinham planejado uma
vingança contra ela? Qualquer coisa que parecesse um "acidente". . . afinal agira como
uma chantagista.
Assim que se afastaram do grupo que estava no aeroporto Adam passou a ignorar
a presença dela. Só falava mesmo o que era necessário. Sentaram-se lado a lado no
avião

Livros Florzinha - 39 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
e o voo até Nova Iorque durou cinco horas, mas só trocaram uma meia dúzia de
palavras.
Sally desejou poder fazer o mesmo, esquecer que ele existia, mas não conseguia
ignorar aquele corpo esguio a seu lado.
Apesar de tudo a viagem era excitante. Nunca fizera voos longos em aviões
grandes. Seria maravilhoso se estivesse na companhia de alguém com quem pudesse
dividir
a sua euforia. O homem que estava a seu lado já vira o mundo inteiro e não se
entusiasmava mais com uma simples viagem de avião. Além disso, olhava-a como se ela
não existisse.
Fizeram escala em Nova Iorque. No hotel, Adam acompanhou-a até a porta do
quarto, que ficava no trigésimo quarto andar, e despediu-se depois de combinar a horas
em que viria buscá-la na manhã seguinte. Depois se afastou sem nem dizer qual
era o número de seu quarto.
Serviram-lhe uma refeição no quarto. Depois de comer, ela abriu a frasqueira onde
estavam a camisola
e os objetos de toalete e de uso pessoal. Pegou o bloco e escreveu
uma longa carta aos tios. Era bom poder falar com quem a amava de verdade, num
momento em que se sentia tão solitária, naquele aposento luxuoso e inexpressivo
Sally não esperava que Adam a levasse a passear, mas pelo menos podiam ter
jantado juntos antes de ele sair para encontrar os amigos! Conhecia Nova Iorque tão bem
quanto Londres. E ela, de Nova Iorque, só ia conhecer aquele quarto de hotel! Sair
sozinha naquela selva de concreto seria quase um suicídio. Não saberia onde ir.
Teria de ficar aprisionada ali até a manhã seguinte quando seu carcereiro viesse
libertá-la. Dormiu chateada e acordou várias vezes durante a noite, acendendo a
luz para ver as horas. Queria que amanhecesse
logo. E quando, de manhã, ele bateu à sua porta ela quase ficou contente de vê-lo.
Dessa vez estavam voando rumo à capital do Equador, que ficava no alto dos
Andes. Já estavam quase sobrevoando Quito. Ela olhava pela janelinha o magnífico
espetáculo
da cadeia de montanhas com os picos cobertos de neve. De repente o avião entrou
num vácuo e perdeu um pouco de altura, provocando uma sensação desconfortável nos
passageiros. Foi uma coisa rápida e não houve nada sério, num instante tudo
voltou ao normal. Mas Sally ficou apavorada e instintivamente se agarrou no braço de
Adam, como teria feito com qualquer um que estivesse a seu lado. Ficou meio
atordoada e percebeu o que fizera quando ele se desvencilhou dela. Então enrubesceu,
furiosa.
— Não recorra a mim, minha cara — disse ele, com frieza. Ela jurou mentalmente
que jamais faria isso.
O homem que os esperava no aeroporto recebeu Adam como um velho amigo
saudoso. Abraçou-o com animação e os dois trocaram palavras em espanhol. Ela estava
tensa e
deprimida. Ficaria bem contente se pudesse ter uma recepção calorosa também.
Adam apresentou-a um tanto rudemente.
— Esta é Sally Doyle, outra jornalista, e minha assistente se conseguir chegar a
Purumaxi.
— Muito prazer. Manoel Peres às suas ordens — disse, sorrindo com simpatia.
Havia outro homem com ele. Um rapaz mais jovem, de pele bem morena e cabelo
preto. Era Juan Colthec, aluno do dr. Peres, que sorriu para Sally olhando-a com
admiração,
embora ostentasse uma aliança na mão esquerda. Depois de ter sido ignorada por
tantas horas seguidas, Sally teve vontade de beijar os dois por tratarem-na como

Livros Florzinha - 40 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
um ser humano.
— Que lugar bonito! — disse ela.
As montanhas circundavam a região e tinham estranhas colorações.
— São os minerais que causam esse efeito — explicou o dr. Peres.
— Parece cenário de um conto de fadas! — exclamou, maravilhada.
— Espere só até começarmos a subir. Garanto que vai mudar de ideia — comentou
Adam.
O sorriso de Sally esmoreceu. Pensar em cruzar aquela barreira, que parecia
encostar no céu, dissipou todo o encanto da cordilheira.
Juan caminhou a seu lado, enquanto Adam e Manoel conversavam um pouco
distanciados deles. Chegaram a um carro e Manoel
sentou-se ao volante, enquanto Juan abria a porta de trás para ela.
Parecia ser primavera ali. O tempo estava ameno e as ruas e avenidas
por onde passavam estavam cheias de árvores em flor. Passaram várias lojas e
Sally teve vontade de parar em algumas. Havia uma porção de igrejas, de uma beleza
estranha, construídas de pedra com imagens de santos nas fachadas.
As ruas estavam cheias de turistas, carregando pacotes e máquinas fotográficas,
usando roupas coloridas. Esse seria seu último contato com a civilização por vários
meses:
Quando chegou ao hotel, teve vontade de se atirar na cama e dormir. Não queria
nem mesmo comer. De repente sentia um cansaço incrível. Entretanto, trocou de roupa,
maquilou-se e desceu para en contrar os três na sala de jantar. Era um hotel
magnífico, com piscina, cassino e boate, mas tudo o que ela queria depois do jantar
era voltar para o quarto.
A refeição foi agradável, graças a Manoel e Juan. Diante deles Adam era uma
excelente companhia, embora quase nunca falasse diretamente com ela. Não
demonstrava
nem um interesse especial, nem antipatia. Talvez os dois não percebessem o
antagonismo existente entre ela e Adam.
Juan traduziu os nomes dos pratos que estavam no cardápio. Ela escolheu carne
com creme de milho e, para beber, suco de pêssego. Para seu alívio, falaram inglês
durante o jantar.
Estava tudo maravilhoso, a não ser por aquela fadiga que tomava conta dela.
Quando terminaram a refeição, Adam disse ter assuntos a tratar com Manoel.
— Nada que interesse a você — disse ele. — Talvez Juan possa levá-la dar um
passeio pela cidade.
Juan disse que teria muito prazer e a sugestão— de Adam pareceu uma
delicadeza. Mas ela estava desconfiada de que ele percebera sua palidez e abatimento.
Em todo
caso não conseguia nem pensar em sair. Desculpou-se, dizendo:
— Obrigada, mas acho que é melhor eu descansar bastante. Amanhã começa a
parte difícil da viagem, não é?
Eles concordaram e ela correu para o quarto. Começava a sentir um enjoo que
aumentava a cada instante. Não sabia se era da comida, se ainda era reação das
vacinas,
ou efeito retardatário da viagem de avião. O fato é que estava se sentindo mal.
Mas não podia entregar os pontos, por pior que se sentisse! Ela hão queria ser
deixada para trás, antes mesmo de começar.
Estava anoitecendo e a coloração dos picos das cordilheiras começava a mudar.
Ficou diante da janela olhando para elas e concluiu que jamais vira algo tão lindo
e aterrador.
Antes de se deitar fez .algumas anotações em seu diário. Nada de

Livros Florzinha - 41 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
pessoal. Não mencionou como estava se sentindo. Não ia querer se lembrar disso
mais tarde.
De manhã ainda estava com dor de cabeça e se sentindo cansada. Mas não diria
nada a ninguém, nem deixaria que percebessem. Adam era capaz de aproveitar o
pretexto
para mandá-la de volta. Portanto vestiu-se e desceu, cumprimentando os três com
um sorriso e dizendose pronta para partir.
Assim que acabaram de tomar café, saíram para o pátio do hotel, onde uma
caminhonete esperava por eles. As bagagens, provisões e equipamentos já estavam
arrumados
e dessa vez Adam é que se sentou ao volante.
No começo a estrada estava boa, mas depois de algumas horas saíram da via
principal e daí em diante foram aos trancos e barrancos, sacolejando por estradinhas
irregulares.
Eram passagens estreitas, às vezes à beira do abismo, e Sally ia rezando o tempo
todo, mal acomodada na parte de trás da caminhonete. Fazia muito calor, com o sol
batendo em cheio sobre eles. Ela sabia que Adam estava esperando que se
queixasse ou demonstrasse medo, por isso ficava a maior parte do tempo de olhos
fechados
para não ver o caminho.
Quando pararam para comer, ela se esforçou para engolir um pouco de feijão em
lata. Como Adam dissera, aquilo não era nenhuma excursão de férias ou um piquenique.
Não podia atrapalhar os outros com seu mal-estar.
Tinham dito a ela que levasse uma jaqueta acolchoada, calça comprida de tecido
bem grosso, luvas, malha de lã e um gorro que cobrisse as orelhas para usar durante
a noite nas montanhas. com aquele calor que estava fazendo durante o dia parecia
impossível que fosse usar tudo aquilo, mas assim que anoiteceu a temperatura caiu
bruscamente e ela ainda achou pouco todos aqueles agasalhos.
Levaram também barracas de acampamento, mas aquela primeira noite os homens
dormiram ao relento, dentro de sacos de dormir feitos de pele, e Sally ficou na
caminhonete,
também num saco de dormir. Mesmo assim tremeu a noite toda, sentindo-se
gelada.
Quando chegaram a um pequeno e desolado vilarejo nas montannhas,
abandonaram o veículo e arranjaram cavalos e algumas mulas para transportar a
bagagem. Sally lamentou
deixar para trás a caminhonete, pois era um abrigo e um meio de transporte bem
mais cómodo ao que aquele. Desde a infância que ela nunca mais andara a cavalo,
esperava
sair-se bem.
— Você sabe montar? — perguntou Adam.
— Tudo bem. Eu me ajeito.
Os cavalos eram magros e a sela dura e desconfortável. Para afastar o
pensamento das coisas desagradáveis e do medo, ela ficava repetindo mentalmente que
estava
vivendo uma experiência maravilhosa, sem igual.
Mas ficava apavorada cada vez que atravessavam um desfiladeiro ou um rio,
cruzando pontes feitas de tábuas estreitas, cuja única proteção lateral era uma corda.
Sally tremia tanto que não seria de se admirar se alguém notasse.
Agora havia mais dois homens no grupo, que conduziam as mulas. Um deles
também levava o cavalo dela cada vez que aparecia uma dificuldade no caminho e ia
explicando

Livros Florzinha - 42 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
que em algumas montanhas havia pontes ainda mais estreitas do que aquelas e
que elas tinham sido construídas pelos
Incas.
Entre os homens havia uma camaradagem que não a incluía. A maior parte do
tempo conversavam em espanhol, portanto ela não tinha a menor ideia do que estavam
dizendo.
Era como se fosse apenas parte da bagagem. Às vezes Sally se perguntava se
Adam não estava desejando que ela despencasse num daqueles abismos.
Num dado momento viu um condor sobrevoando suas cabeças e Juan explicou
que aquela ave enorme, bem maior do que uma águia, às vezes pousava atrás de uma
das grandes
pedras e quando batia suas possantes asas encurralava as presas na beira dos
precipícios.
Para Sally, Adam parecia tão sinistro e ameaçador quanto o condor. Era só ele se
aproximar um pouco e ela já se sentia inquieta. Mas também nunca se distanciava a
ponto de perdê-lo de vista.
No quarto dia de viagem Sally sentiu de novo a dor de cabeça e a fadiga do
primeiro dia em Quito, só que muito pior. Suas têmporas latejavam cada vez mais forte
e começou a ficar com enjoo. Ia curvada sobre a sela, mais morta do que viva, e
quando pararam para acampar ela desceu do cavalo sentindo que o céu parecia esmagá-
la.
Até então ela sempre ajudara a acender o fogo e preparar a refeição, mas nesta
noite não conseguia fazer o menor esforço. Sen tou-se no chão, encolhida, apertando
a cabeça nas mãos, enquanU eles armavam as barracas e depois aninhou-se na
sua barraca
habitual. Depois de algum tempo Adam foi procurá-la.
— Quer um pouco de sopa? — perguntou ele.
Ouvir falar em comida foi a gota d'água. Ela se ergueu num só bressalto e passou
por ele aos tropeções correndo para não
vomitar diante dele. Sentia um peso no peito
e a cabeça parecia estar sendo comprimida. Pensou que estivesse morrendo e
quando ergueu os olhos o rosto de Adam lhe pareceu diabólico.
— É melhor você se deitar — disse ele.
— O que é que eu tenho — perguntou ela assustada, enquanto ele a conduzia de
volta à barraca.
— Parece que você disse que era mais forte do que aparentava. . . Ela dissera isso
realmente, mas estava muito enganada. Não era
forte coisa nenhuma! Não suportava mais! As montanhas tinham acabado com sua
resistência! Como iria ainda conseguir enfrentar a selva? Se conseguisse
sobreviver até
o dia seguinte, concordaria em voltar para casa.
Queria seu quarto aconchegante e bem-arrumado na casa dos tios... será que iria
vê-los de novo, ou iria morrer ali, sozinha, longe dos que amava? Devia estar louca
quando se meteu nessa aventura que a trouxe para uma barraca de acampamento,
no alto de montanhas desconhecidas, varridas por um vento gelado e uivante, na
companhia
daquele homem que a deixaria morrer. Ele era um inimigo implacável.
Nunca sentira tanta solidão em toda sua vida, nem passara por momentos piores,
fechada naquela barraca minúscula, que o vento balançava, sentindo a cabeça oca e
perdendo o contato com a realidade. Estava com medo de dormir e não acordar
nunca mais. Quando finalmente o sono a venceu, dormiu profundamente sem sonhos.
Quando

Livros Florzinha - 43 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
abriu os olhos, Adam a estava espiando pela abertura da barraca.
Estava viva ainda e, milagrosamente, a dor de cabeça e o enjoo tinham passado.
— Não quer tomar café? — perguntou ele.
— Não!
Ela se sentou e começou a se desvencilhar do saco de dormir, lentamente. Fosse o
que fosse, aquele horrível mal-estar
passara. Pelo menos por enquanto. Devia estar
muito doente, ou talvez seu organismo não fosse tão forte quanto pensara. Sua
maior decepção era não poder continuar.
Já estavam todos quase prontos para continuar a marcha quando Sally saiu. A
manhã estava clara e radiante. Manoel e Juan perguntaram como estava se sentindo e
ela
respondeu que estava melhor. Mas Adam não demonstrou o menor interesse por
seu estado de saúde. Ainda estava muito cansada e deprimida. Nunca chegaria a ver
Purumaxi.
Não tinha forças para chegar lá. Ali terminava sua grande aventura!
Já haviam parado de subir e agora começava a descida. Precisava falar com
Adam. Tinha certeza de que ele estava esperando o que ela iria dizer. Ficaria contente
de mandá-la de volta.
Sally tentava se convencer de que valera a pena aquela viagem.
Mesmo que fosse parar por ali, só aquela experiência já lhe valeria uns bons
artigos. O que faria quando chegasse à Inglaterra? Precisaria primeiro repousar e cuidar
da saúde e depois procurar outro emprego. Suspirou fundo. Já haviam caminhado
quase a manhã toda e pararam para um café.
Adam e Manoel estavam um pouco afastados, arrumando melhor a bagagem sobre
as mulas. Juan estava abaixado, tirando uma pedra que encravara no casco de seu
cavalo.
Quando Sally se proximou ele ergueu os olhos para ela.
— Está triste? — perguntou ele, solidário.
— Um pouco. Acho que estou mais deprimida do que triste.
— É por causa do puna.
— Do quê?
A água da chaleira ferveu e ela despejou na caneca.
— A altitude das montanhas provoca uma reação física e às vezes deixa a pessoa
um pouco deprimida.
— Quer dizer que isso que eu tive ontem é comum?
— É. Pensei que você soubesse.
— Não, não sabia.
— É a pressão atmosférica. Mas não se assuste, todo mundo tem isso enquanto
não se adapta. De vez em quando mesmo quem já está acostumado tem. Até os cavalos
também
têm.
E ela que pensara estar doente! Adam a deixara pensar que estava morrendo. Se
soubesse que era um mal-estar passageiro, que acontecia com todos, não teria ficado
tão apavorada, sentindo-se só e abandonada na sua minúscula barraca.
Aquilo fora uma crueldade. Ele quisera amedrontá-la e conseguira. De repente uma
suspeita passou por sua mente.
— Esse é o único caminho para Purumaxi? É assim que vocês vão para lá
sempre?
— Adam é quem escolheu o caminho. Ele achou que você iria gostar das
montanhas. São tão bonitas!
— São mesmo.

Livros Florzinha - 44 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Então era isso! Adam esperava que ela entregasse os pontos ali, antes que fosse
muito difícil para mandá-la de volta! Ela não estava doente e não iria desistir coisa
nenhuma!
— Purumaxi é muito interessante. Você vai ver quando chegarmos
— disse Juan.
Agora tinha certeza de que realmente veria a cidade perdida na selva. Estivera a
ponto de desistir, de se render, mas conseguira superar as dificuldades nas montanhas
e conseguiria o mesmo na selva. Estava readquirindo a segurança e o autocontrole
e reanimou-se.
Até o café parecia ter um aroma melhor, naquele momento. Pegou duas canecas e
foi levar para Adam e Manoel.
— Gostaria de ter uma conversinha com você, por favor — pediu ela a Adam e
Manoel se afastou gentilmente.
Há poucos minutos estava se sentindo cansada e arrasada, mas agora estava
cheia de energia e vitalidade.
— Acabaram de me contar que o que tive é uma reação normal à altitude das
montanhas.
— E daí?
— Você deixou que eu pensasse que estava morrendo.
com aquela roupa amassada, de chapéu e com a barba crescida ele mais parecia
um bandoleiro. Não estava mais usando óculos. O brilho agressivo e inteligente de seus
olhos era bem visível.
— Agora já sabe que não estava morrendo. Mas como será da próxima vez?
— A que distância estamos de Purumaxi?
— Três semanas.
— Eu chegarei la.
— Está começando a parecer que sim. — Deu um sorriso meio enigmático.

CAPITULO V

Das margens do rio a selva se alastrava a perder de vista, escura e sinistra. Às


vezes passavam por árvores cheias de flores coloridas. Bandos de papagaios e araras
cruzavam em revoada. O rio era largo mas sombreado por copas de árvores
gigantescas. Em alguns trechos havia pedras e redemoinhos.
Havia crocodilos e piranhas, peixes que devoravam num minuto a pessoa ou
animal que caísse na água, mas Sally evitava pensar nisso. Estava decidida a chegar a
Purumaxi
e continuou com essa determinação mesmo quando desembarcaram e
continuaram o resto do caminho a pé, embrenhando-se na selva.
Adam não se preocupava em saber se ela queria voltar ou não. Aliás não se
preocupava nem um pouco com Sally. Parecia ter aceito o fato de ela querer ir até o fim.
Ela que se defendesse sozinha! E
63
era o que fazia, embora Juan e Manoel fossem gentis e atenciosos. Sally fez todo o
percurso de barco sem dizer uma palavra.
Quando desembarcaram havia uns homens esperando por eles na margem. Eram
índios da região e conheciam todas as trilhas da floresta. Eram baixos e troncudos, os
cabelos
pretos e lisos cortados com franja sobre a testa. Usavam braceletes enfeitados com
penas de tucano, brincos e colares feitos de sementes coloridas.

Livros Florzinha - 45 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Adam os cumprimentou, tratando-os pelos nomes e eles o receberam com sorrisos
e apertos de mão. Ele parecia saborear cada instante da viagem. Se ela não o detestasse
tanto, seria até capaz de admirar a capacidade de adaptação dele, que parecia
perfeitamente integrado e à vontade naquela natureza selvagem.
Ele era mentiroso e desleal, mas em certos aspectos era realmente extraordinário e
Sally se surpreendeu pensando se não haveria uma possibilidade de paz entre eles.
Talvez quando chegassem em Purumaxi pudessem esquecer o primeiro contato
que tinham tido, e que fora tão desagradável, e começar tudo de novo.
Essa viagem a Purumáxi estava fazendo bem a Sally, que saíra da Inglaterra
sentindo-se diminuída e sem valor algum. Agora estava descobrindo reservas de força e
coragem que nem imaginara ter. Conseguira controlar os nervos e manter a calma
apesar de tudo.
Tinha sido uma tarefa difícil cruzar a cordilheira, embrenhando-se na selva, mas
Sally não podia deixar de reconhecer que tudo aquilo tinha um efeito terapêutico
sobre ela. Se tivesse ido passar uma temporada no campo, numa fazenda, teria
sido tranquilo e teria feito bem para seu corpo mas jamais teria sido tão benéfico para
seu estado de espírito.
Todos sabiam que estavam chegando a Purumáxi, menos Sally, é claro. Ela
percebeu que a selva estava menos densa e pensou que fosse uma clareira como tantas
que já
haviam atravessado, mas de repente alguém comentou:
— Agora estamos perto.
Estavam caminhando sobre um chão pedregoso, numa região em que várias
árvores tinham sido derrubadas quando subitamente ela viu surgir uma muralha. Sentiu a
euforia
de uma criança que descobre uma novidade. Uma explosão de alegria que há
muito tempo não sentia.
Ficou olhando, de olhos arregalados, para aqueles enormes blocos de pedra
cinzenta e depois em redor, à procura de alguém com quem compartilhar seu entusiasmo,
mas
ninguém estava preocupado com ela. Suspirou fundo.
Um pouco mais adiante havia uma entrada larga ladeada por colunas de pedra
esculpidas com desenhos geométricos. A porta da cidade
era de madeira e tinha sido restaurada. Manoel bateu e chamou alguém e
imediatamente a porta se abriu e Sally pôde ver, pela primeira vez, Purumaxi.
Um caminho largo, calçado de pedras lisas, conduzia a um pátio onde se
agrupavam algumas cabanas modernas e pré-fabricadas que faziam contraste com as
construções
incas, um pouco adiante, que eram de pedra e tinham uma aparência de
eternidade. Algumas delas eram enormes, com colunas e degraus, parecendo templos ou
palácios.
Havia outras menores, com terraços na parte de cima.
Havia plantas e flores por toda parte e muitas delas Sally já conhecia pelo nome,
como as orquídeas e a flor-de-lis. A cidade era um jardim resplandecente, com uma
beleza de fazer perder a fala. Quando a expedição chegou ali pela primeira vez,
estava tudo deserto e coberto de mato, mas agora parecia ter renascido, como se fosse
de novo uma cidade povoada e ativa.
Vários homens se aproximaram e receberam Adam com exclamações de alegria e
boas-vindas. Havia uma mulher. Uma moça alta com cabelo escuro até os ombros,
usando uma

Livros Florzinha - 46 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
calça comprida de brim desbotado e uma bata cor-de-rosa, manchada de tinta. Era
Sheila Rexhan, sem dúvida. Ela era pintora. O marido dela, Abe Rexham, era um
linguista,
especializado em idiomas da antiguidade e ela o acompanhava onde quer que
fosse e aproveitava para pintar o que via.
Era tudo o que Sally sabia. O homem de cabelos grisalhos e pele morena bem
bronzeada devia ser Cari Wittenburg, o chefe da expedição que encontrara Purumaxi e
que
ficara vivendo ali. Ou será que o chefe era aquele homem de barba preta que
parecia um pirata?
Juan, que estava ao lado de Sally, explicou a ela quem era quem.
— Aquele é Cari, o que está cumprimentando Adam. O de barba preta é Lewis
Kent.
E Juan foi indicando um por um. Ramon Ovato, um jovem esguio, moreno e bonito,
aluno do dr. Peres. Pelo jeito como Juan falou o nome do rapaz, Sally teve a impressão
de que ele não gostava de Ramon. Depois indicou os Rexham. Sheila estava
abraçando Adam calorosamente e ele deve ter dito algo sobre Sally, pois imediatamente
ela
se afastou dele e veio em sua direção com um sorriso acolhedor.
— Oi, eu sou Sheila. Venha conhecer os outros.
Ouando Sheila chegou com ela, Adam fez as apresentações ao grupo. Ela apertou
a mão de um por um enquanto Adam dizia.
— Sally Doyle, uma jornalista, trabalhando para mim.
Mas teve a impressão de que os amigos dele estavam achando que ela era apenas
um outro caso romântico na vida dele.
Não sabia o que fazer da situação. O braço de Adam sobre seu
ombro dava a impressão de intimidade. Tinha vontade de empurrar o braço dele,
mas não tinha coragem. Se fizesse isso quando estivessem sozinhos ela se afastaria
imediatamente, mas diante dos outros, pareceria indelicadeza. Afinal, estava
acabando de conhecê-los.
Todos pareciam contentes em conhecê-la e a recebiam muito bem. O professor
Wíttenburg disse que ela se sentisse livre para explorar Purumaxi e escrever o que
quisesse.
Sheila disse que achava ótimo ter uma companhia feminina e que Adam era um
amor por ter trazido Sally.
— Quer que lhe mostre o alojamento onde vai dormir? — perguntou Sheila, depois
das apresentações.
— Quero sim, obrigada.
Mas Sheila dissera isso olhando para ela e para Adam, falara para os dois, e foi
indo na frente. Antes que Sally percebesse que ela estava pensando que iam dormir
juntos, Sheila chegou a uma das casas e ficou parada na porta, esperando-os. Era
uma das construções de pedra adaptada para abrigar os membros da expedição e Sheila
levou-os até um pequeno quarto, com vidro na janela. Naturalmente isso não era
obra dos
Incas, mas dos estudiosos que estavam ali, que colocaram o vidro para impedir
a entrada de insetos. Havia ainda um guarda-roupa de plástico e duas camas de
campanha.
— Somos vizinhos — disse Sheila, com voz alegre. — Achei que vocês iriam
preferir ficar alojados aqui em vez de ficar em uma das cabanas ou barracas. É mais
aconchegante.
. e mais isolado — falou e sorriu com malícia.
— Ótimo — disse Adam.

Livros Florzinha - 47 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Ele não ia explicar nada. Sally é quem teria de fazê-lo e estava sem jeito e
constrangida. Ele não se importava com nada e
com ninguém. A barba dele, crescendo
há muitos dias, já estava bem grande, o que aumentava seu ar negligente.
— Acho que você entendeu mal. .. eu sou assistente de Adam, não. .. — disse ela,
nervosa.
— Não minha amante. Nosso relacionamento é complexo e fascinante, mas por
enquanto ainda não. .. — Olhou para as camas e depois para Sally. Ela estava tensa e
quase
nem respirava, como se ele fosse possuí-la.
— Ah, que pena! Vai ver que é por causa da sua barba, Adam. Eu não gosto de
marido com barba. -— Sheila riu.
— É. .. — ele coçou o queixo — vou tirá-la. É que durante a viagem dava muito
trabalho fazer a barba.
— Acho melhor. bom, então quem é que fica com este quarto?
— A moça, naturalmente — disse Adam, fingindo cortesia.
— Obrigada.
Adam se afastou, e os passos dele soaram na escada que conduzia para fora.
— Ah, esse Adam é terrível! Ele sabia que eu ia levar vocês dois para o mesmo
quarto. Podia ter me avisado!
— Você o conhece há muito tempo? — disse Sally, para puxar assunto.
— Desde que ele e Abe encontraram isto aqui.
As duas foram até a janela e dali Sally pôde ter uma visão melhor de Purumaxi.
Uma área bem grande tinha sido limpa, mas a floresta ainda invadia os muros da cidade.
Várias ruas sumiam no emaranhado verde das árvores.
— Ele foi nosso padrinho de casamento — continuou Sheila e estivemos juntos o
ano passado.
Mas Sally estava interessada apenas na cidade, no que via daquela janela. Ficou
imaginando como é que tudo aquilo tinha sido construído, como os
Incas tinham conseguido
transportar aqueles enormes blocos de pedra pelas montanhas e através da selva.
— Não tinham carros nem guindastes. .. — disse Sheila, adivinhando
o pensamento de Sally. — Talvez tivessem alguma força extraterrena, vinda do
espaço.
— Você acredita mesmo nisso?
Não era a primeira vez que ouvia tal hipótese, mas escrever algum artigo com esse
cunho poderia parecer fantasioso.
— Eu sou uma artista, não uma arqueóloga. Posso acreditar no que quiser e, aliás,
ninguém explica como essas pedras vieram parar aqui. — Apontou para o pátio.
— Ei, olha lá, Juan está trazendo suas coisas.
Alguns instantes depois Juan entrou no quarto, com duas malas.
— Sabe, Juan, eu dei um fora. Eles não estão juntos.
Não que Sally fosse uma puritana a ponto de se chocar e ficar constrangida com.
um equívoco daqueles. Se o envolvido na história fosse qualquer outro homem, ela
teria achado graça e feito até alguma piadinha. Mas não se sentia à vontade para
fazer piadas sobre Adam. Era ele que a incomodava, não o mal-entendido em si. Ele
mexia com seus nervos.
— Obrigada — disse ela e Juan foi embora.
Quando ficaram sozinhas, Sally abriu uma das malas e tirou uma blusa.
— Parece que ele ficou contente — disse Sheila e Sally olhou-a interrogativamente.
— Contente de saber que Adam não dorme com você!
— Não sei por quê.

Livros Florzinha - 48 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Não mesmo? — Sheila sorriu com malícia. -Ele deve estar de olho em você, ora!
Sally desejou que não fosse verdade. Juan tinha apenas sido gentil e cordial, como
Manoel, aliás como todos os outros, os homens que conduziam as mulas, os donos
dos cavalos, o homem do barco, os guias. Todos, menos Adam! Não podia
imaginar como Juan pudera pensar que ela e Adam iriam dormir juntos.
— Ele é casado — disse Sheila.
— Adam?
— Não. Juan.
— Ah, eu sei.
— Você se importa com isso? — Sheila abrira o zíper do armário plástico e retirara
uns cabides. — Hoje em dia parece que as mulheres não se incomodam muito com isso,
ao contrário, parece que acham que homens casados são melhores amantes!
— Pode ficar sossegada que eu não sou desse tipo.
Sally sabia que Sheila não fizera a pergunta por insegurança em relação ao próprio
marido. Ela parecia uma mulher feliz e bem casada. De qualquer modo Sally não
tinha a menor intenção de provocar confusões naquela cidade onde só havia
homens.
— Você se dá bem com seu marido? — perguntou Sally.
— Puxa, e como! Nós vivemos um para o outro. Estamos juntos em tudo e para
sempre.
Sally lembrou-se do seu romance e da traição e encarou com ceticismo aquela
afirmação confiante, mas não disse nada. Será que algum dia teria coragem de contar
para alguém o que Tim e Meg tinham feito com ela?
— vou arranjar uma mesa e um banquinho pra você. Tirando a outra cama dali, vai
sobrar espaço... — Sheila fez uma pausa a não ser que prefira deixar a cama aí, sabe
como é.. .
— Prefiro a mesa e o banquinho, por favor. Não pretendo ter companhia neste
quarto.
A refeição principal era às seis da tarde. Eram quase quatro, por isso serviram café,
pão, queijo e manteiga aos recém-chegados. Havia frutas em abundância: laranja,
banana, melão e goiaba. Depois do lanche, Juan resolveu mostrar Purumaxi a
Sally.
Chegaram a uma pirâmide com degraus enormes que conduziam a um patamar
aberto, no topo, cercado de pilares. Entre eles havia uma pedra mais alta, em que estava
esculpido
um sol com rosto, tal como as crianças costumam desenhá-lo. Juan explicou:
— Os raios do sol batem sobre essa pedra ao meio-dia e ela fica dourada como os
altares de ouro que os
Incas costumavam fazer.
Esse era o templo do deus Sol e estava situado no centro de uma imensa praça,
onde os membros da expedição tinham instalado as cabanas pré-fabricadas. Lá de cima
podia-se ver a cidade toda, exceto, é claro, a parte que ainda estava escondida na
selva.
Juan levou Sally para ver o lugar onde ainda estavam derrubando a floresta. Lewis
supervisionava o trabalho de uns vinte homens de uma tribo da região, a mesma a
que pertenciam os guias que tinham ido buscá-los quando deixaram o barco.
Lewis se aproximou e trocaram algumas palavras. Ele disse a Sally que havia um
palácio escondido ali sob a vegetação, mas ela ainda precisaria esperar muito para
ver alguma coisa. Depois de uns minutos, pediu licença e voltou ao trabalho, mas
antes perguntou a Juan pela esposa dele. Era como se quisesse mostrar a Sally que
Juan era casado. Ele, meio sem jeito, respondeu que Dolores estava bem. Sally
nunca lhe fizera perguntas pessoais. Não estava interessada

Livros Florzinha - 49 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
na vida particular dele, mas já que todo mundo estava desconfiando de algo, achou
melhor conversar sobre Dolores. De repente ele podia ter interpretado mal seu
silêncio. Aliás ele estava segurando seu braço
com certa intimidade e talvez isso tivesse chamado a atenção de Lewis.
— Você tem filhos? — perguntou Sally, sorrindo.
— Não.
— E sua mulher não gostaria, então, de ter vindo com você ?Sheila
parece que gosta de acompanhar o marido.
— Não.
Pelo modo como ele respondeu, Sally deduziu que ele não gostava de falar sobre a
mulher, mas contou que se casara quando ainda era muito jovem, em Brasília. Disse
que Dolores era boazinha e que ficara muito orgulhosa de ele ter sido escolhido
para ir na expedição, mas ela preferia ficar em casa. Era uma moça tímida e modesta.
Pelo jeito como falou de Dolores, Sally concluiu que devia se achar muito superior
à esposa. Na primeira oportunidade despediu-se dele e correu para a escada de
pedra que a levava para o quartinho improvisado.
Sheila não perdera tempo. A outra cama já havia sido substituída. Ao lado da janela
estavam a mesa e o banquinho. Era uma mesa pequena e sobre ela havia um lampião
de querosene. Estava ótimo! Mais que depressa Sally tirou da mala seus blocos de
anotações e arrumou-os sobre a mesinha. Ali seria seu escritório. Um lugar
maravilhoso, com vista para a praça de Purumaxi. Pena que aquelas cabanas
estavam estragando a paisagem, mas se fizesse um esforço poderia ignorá-las e
contemplar
apenas o "Templo do Sol".
Começou a escrever as anotações do dia e só parou quando chegou a hora de se
reunir aos outros para a refeição, que essa noite seria especial em homenagem a Adam.
A cabana que servia de refeitório era também uma espécie de clube onde se
reuniam. A mesa estava arrumada como para um banquete e o ambiente era festivo. A
refeição
fora bem preparada e estava apetitosa e colorida. Até vinho foi servido.
Sally estava sentada ao fado de Adam e as homenagens eram para ela também,
mas se sentia excluída. Ele era a figura principal, para quem todos contavam coisas que
tinham acontecido e descobertas que tinham feito durante sua ausência. Ele
também contava coisas, principalmente coisas engraçadas.
Até ela estava rindo. Adam devia ser um excelente conferencista, realmente
prendia a atenção de todos. Ele estava tão à vontade ali, entre amigos! Mas também
ficava
à vontade e natural nas cidades grandes e em ambientes requintados. Ele sabia
viver! Sem querer suspirou, e como isso coincidiu com um momento em que se fez
silêncio,
alguns olharam para ela, como se só então notassem sua presença. Cari
perguntou-lhe o que pretendia escrever durante sua permanência e Sally respondeu que
o Eco de Radchester lhe encomendara alguns artigos.
Eles fingiam estar impressionados, embora fosse óbvio que nenhum deles jamais
ouvira falar daquele jornal. Depois disse que pretendia escrever um romance.
— Sabe, quero aproveitar este lugar como cenário para desenvolver um romance.
— Sally tem uma imaginação fértil — comentou Adam e pela primeira vez olhou
diretamente para ela.
Ele tinha feito a barba e o rosto bonito de linhas clássicas estava de novo à mostra.
Falara dela no mesmo tom com que Juan falara de Dolores: tolerante, paternalista
e de superioridade. Ela teve vontade de chutá-lo por baixo da mesa.

Livros Florzinha - 50 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Nunca escrevi romances, portanto espero que minha imaginação seja realmente
fértil. Como repórter estou acostumada a ater-me apenas aos fatos. — Ela riu. — Eu
entrevistava pessoas famosas antes de começar a trabalhar para Adam. Às vezes
descobria coisas realmente interessantes, mas nem todas podiam ser publicadas. —
Olhou-o
nos olhos, com desafio. — Foi assim que nos conhecemos. O jornal me enviou
para entrevistar Adam.
Agora-já estava ali, ele não podia mandá-la embora, por isso resolveu provocá-lo e
brincar de gato e rato. Ele pegou a mão dela e levou-a até os lábios.
— O resto é segredo! — disse ele.
Todos riram, mas só ela sabia que ele estava quase esmagando sua mão.
Quando a refeição terminou, foram todos para fora, na praça. A noite estava
maravilhosa, o céu azul-escuro e as estrelas brilhavam, nítidas. Sentaram-se nos degraus
e Ramon começou a tocar violão e cantar com uma voz agradável.
Tim tocava violão e cantava músicas românticas para ela, e até na festa de
despedida ele cantara, com Meg sentada ao lado dele e os colegas de trabalho em volta.
E as lembranças do amor que sentira por Tim invadiram a mente de Sally.
Ramon cantava para ela. Muitas vezes não entendia as letras, mas o som delas
era tão doce e terno que sentiu saudade de Tim. Queria estar com ele, ali, queria que
a abraçasse e acariciasse a mão que Adam machucara.
Mas Tim jamais voltaria. O homem que ela amara estava tão distante dela quanto
os antigos habitantes dessa cidade. Conseguira chegar a Purumaxi, mas a solidão viera
com ela.
Esforçou-se para sorrir e aplaudiu quando a música terminou. Pediu outras
músicas e Ramon continuou tocando até que Cari disse:
— Pessoal, desculpe interromper a festinha, mas eu vou indo para a cama.
Sally achou que era o sinal para a hora de recolher. Disse boa-noite para todos e
foi para o quarto. Precisava dormir, estava cansada, mas não conseguia se afastar
da janela. O luar espalhava luz prateada sobre as antigas construções. Ficou
imaginando como seriam há alguns séculos, quem teria olhado daquela janela, quem teria
caminhado naquela praça, lá embaixo.
Ficou ali algum tempo, depois resolveu sair de novo. A janela de Sheila e Abe ainda
estava iluminada. O impulso de caminhar entre as ruínas sob o luar era irresistível
e ela desceu.
Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Não que estivesse fazendo algo perigoso,
afinal a cidade era cercada por uma muralha. Não devia ter animais selvagens, ali,
onde a mata já fora derrubada. Quando muito podia haver cobras. Mas ela tomaria
cuidado.
Estava contente com a calma que a invadira e desfrutava intensamente da magia e
do mistério daquele estranho ambiente. Assim que desceu o último degrau e saiu na
praça percebeu o vulto de um homem que vinha em sua direção. Desejou de todo
o coração que a deixassem dar seu passeio em paz e sozinha.
Quando se aproximou mais viu que era Adam. Melhor que fosse ele e não Juan.
Juan seria um estorvo e ela não queria ofendê-lo.
com Adam, o máximo que poderia acontecer era ele mandar que fosse para a
cama, e não obedeceria.
— Aonde vai? — perguntou ele .
— A lugar nenhum. Só queria caminhar um pouco por aí.
— Por quê?
— Porque nunca estive num lugar como este e não consigo dormir.
— Nem eu. Já estive aqui, mas estava tudo coberto pela floresta. Eles fizeram um
trabalho e tanto depois que eu fui embora!

Livros Florzinha - 51 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Eu nunca vi.. . nunca imaginei que pudesse existir um lugar assim!
— Nem eu.
Caminharam juntos e em silêncio pela rua deserta, até que ela terminou onde
começava a floresta e onde estavam as máquinas usadas para o desmatamento.
Vagalumes
cintilavam aqui e ali, entre as ruínas.
— Eles não tinham nada disso. . . — disse Sally, indicando o equipamento — e
mesmo assim conseguiram construir isto aqui! Fez uma pausa. — Ei, como é que vocês
trazem
essas coisas para cá? E a comida? Vem tudo de helicóptero?
— É.
Ela sentiu que Adam não estava com vontade de falar, ele estava apreciando o
silêncio, mas mesmo assim continuou.
— Nós não viemos de helicóptero porque você queria que eu sofresse
atravessando os Andes e a selva, não é? Estava torcendo para eu ficar pelo caminho.
— Não. Escolhi esse caminho porque eu estava com vontade de atravessar as
montanhas e a selva, não tem nada a ver com você. Você não afeta meus planos.
— Pensei que estivesse querendo me castigar por eu ter insistido para vir. — Ele
estava frio e distante e não olhava para ela. Continuou: — Você não queria que eu
viesse, não é? Quando passei mal por causa da altitude das montanhas, você não
me explicou o que eu tinha. Se não tivesse descoberto o que era, estava disposta a
voltar para casa.
— Mas você não voltou, e está contente de estar aqui.
— É, estou muito contente, . . e lhe agradeço por isso. E. . . só mais uma coisinha,
depois calo a boca. — Ele sorriu e ela se encorajou. — Será que é possível esquecer
como consegui este emprego? Você tem alguma queixa quanto ao meu trabalho?
Prometo me dedicar com tal afinco ao trabalho que você não vai mais saber como se
arranjar
sem mim! Estou muito emocionada de estar aqui.
— Não tenho queixas, só que nunca precisei de assistente — respondeu ele,
secamente. — Quanto a esquecer. . . você está se referindo
a apagar da memória a ameaça que fez de contar ao marido de Vanessa que ela
estava em minha casa? — Ele balançou a cabeça, , olhar implacável. — Você é uma
garota esperta o bastante para saber que isso nunca acontecerá!
Adam não parecia estar magoado, mas jamais a perdoaria por ter usado aquela
arma contra ele. Quando ela falara em esquecer queria dizer perdoar.
— É. . . seria pedir demais. Acho que a primeira impressão é o que vale mesmo.
Ela lançara mão de meios ilícitos para conseguir o emprego, é certo, mas ele e
Vanessa eram ainda mais indignos. Portanto Adam não estava em posição de criticar
ninguém, a não ser que fosse um grande hipócrita.
Voltaram pelo mesmo caminho, andando em silêncio até que chegaram aos
degraus
do "Templo do Sol".
— Este é o melhor lugar para se observar a cidade — disse Adam e começou a
subir.
Sally hesitou um breve instante antes de segui-lo. Quando chegaram ao topo ele
cruzou os braços e se apoiou num dos pilares, olhando para a cidade que o luar iluminava
e que a floresta escondia em grande parte.
— Enquanto estiver aqui vou trabalhar lá, ajudando a desmatar aquele pedaço —
disse ele.
— E seu trabalho de escritor? Não foi por isso que veio?
— Talvez escreva alguma coisa, mas estou aqui em férias, para descansar.

Livros Florzinha - 52 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Em férias?! E vai descansar derrubando árvores?
— Eu sou mais forte do que pareço — disse, sorrindo.
Eram as palavras que ela dissera. Sally olhou para ele e fechou a mão que ele
apertara durante o jantar.
— É, eu percebi. Bem mais forte mesmo — disse ela. Adam fingiu não perceber o
gesto.
— E você também — disse ele.
Será que ele estava pretendendo que ela empunhasse um machado e fosse ajudá-
lo a derrubar árvores?
— Não era bem o que eu estava imaginando que iria fazer como sua assistente,
mas se o programa é esse. . .
Ele sorriu e mudou de assunto.
— Que história é essa de escrever um romance?
— Ah, foi uma ideia que tive. Quem sabe se vivendo aqui entre as ruínas, dormindo
numa casa em que viveram alguns
Incas, eu consiga captar o passado.
— Você pode não gostar.. . com esses cabelos dessa cor eles poderiam chamar
você de Coya Pasca.
— Prefiro esse nome a ser chamada de Espertinha.
— Acho que não. Coya Pasca era a noiva do Sol no sacrifício anual. Você seria
sacrificada nesse altar antes que pudesse
ouvir pronunciar seu nome.
— Você gostaria de ser o sacerdote para poder mandar arrancar meu coração, não
é?
Ela reviu na memória as imagens do pesadelo que tivera;— o rosto orgulhoso e
cruel, as mãos fortes. Ele olhava para ela, para seu peito arfante e o olhar era uma
lâmina penetrante que rasgava seus seios.
Sally afastou-se dele instintivamente, achando que era melhor voltar para casa.
Mas assim que pisou no primeiro degrau, escorregou e gritou sem querer. Num segundo
vislumbrou sua queda até lá embaixo, rolando degrau por degrau, e chegou a sentir
as bordas de pedn ferindo sua carne.
Adam moveu-se com tamanha rapidez que segurou-a no ar, antes que
despencasse. Sally agarrou-se nos ombros dele, segurando na camisa. Ele a envolveu
nos braços e
ela sentiu o corpo rijo e musculoso dele. contra o seu. Os rostos ficaram bem perto.
Por um instante pareceu haver uma fusão total e profunda entre eles. Era como um
momento de amor, como se ele fosse beijá-la e possuí-la. Mas nenhum dos dois fez
um gesto. Assim que se equilibrou ela se afastou e Adam perguntou:
— E será que você tem mesmo um coração?
Sem dúvida estavam continuando a conversa sobre Coya Pasca e o sacrifício ao
deus Sol.
— Se eu tivesse, você seria o último a saber.
— É claro. Cuidado, olhe bem onde pisa — aconselhou ele quando começou a
descer a escada.
O coração de Sally batia descompassado, a ponto de deixá-la atordoada. Escapara
por pouco de morrer! Seus nervos estavam em frangalhos. Quando chegou lá embaixo
e um besouro imenso quase passou sobre seu pé, deu graças a Deus por não
estar na escada, senão o susto a teria feito cair desta vez, porque a custo sufocou um
grito mas não conteve o impulso de sair pulando.
— Calma! Parece assustador, mas é absolutamente inofensivo.
— Como é que eu vou saber? — disse ela trémula, observando o besouro que se
afastava.

Livros Florzinha - 53 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— É, esse é que é o problema. Saber onde está o perigo. — Ele a acompanhou até
os degraus que conduziam a seu quarto.
Está se referindo aos insetos? — perguntou ela.
— A que mais poderia ser?
podia estar se referindo aos homens, pensou Sally. Ele a salvara de um tombo feio,
mas agira instintivamente. Isso não queria dizer que Adam não era perigoso.
— Bem. .. obrigada. Ainda bem que você me segurou e me salvou.
— Não conte muito com isso da próxima vez — ele sorriu.
Mas aquilo não pareceu a Sally uma ameaça e ela subiu a escada sorrindo,
embora o coração ainda palpitasse.
Deitou-se para dormir, mas não conseguia esquecer a estranha sensação do corpo
dele contra o seu. A lembrança da sua proximidade era tão forte nos seus pensamentos
que era como se ele estivesse ali deitado a seu lado.
Era incrível, mas ela, que sentia aversão em ser tocada por ele, sentira um desejo
ardente no breve instante em que ficara nos seus braços. Se Adam tivesse tentado
fazer amor naquele momento, lá no templo do deus Sol, ela teria se entregado sem
resistência.
Sabia que ele era amante de Vanessa, que nada mudara, mas já há algum tempo
não conseguia mais detestá-lo com a mesma força de antes. Chegava até a admirá-lo em
várias ocasiões, às vezes até parecia que gostava dele, e quando se vira nos seus
braços, então, sua última resistência caiu por terra. A aversão se transformou
em desejo. Foi por isso que seu coração bateu descompassado e não de susto por
quase ter caído!
Era bom saber que ainda podia sentir desejo, mesmo não sendo como
complemento de um amor verdadeiro, e embora fosse pelo homem errado e no momento
errado.
Purumaxi era um lugar tão estranho e místico que era fácil se deixar levar pela
fantasia. Mas não com Adam! Ela não tinha a menor chance. Não podia esquecer que
havia Vanessa.
Assim que abriu os olhos, na manhã seguinte, a primeira coisa em que pensou foi
na noite anterior, ela no topo da pirâmide, nos braços de Adam, desejando-o
ardentemente.
Essa manhã não sentia nada por ele, não sentia mais desejo, mas na véspera tinha
sido o homem que mais queria abraçar e acariciar.
Que loucura! Como isso pudera acontecer? É verdade que se sentia grata por ele
tê-la levado a Purumaxi, mas era só. Desejá-lo era ridículo! Afastou os pensamentos
e saiu da cama.
Havia um banheiro lá embaixo que até então tinha sido só de Sheila. Sally vestiu
um roupão de toalha e desceu até lá. Encontrou Abe no
caminho que a cumprimentou sorrindo, de longe. Sally sorriu lambeu e falou:
— Sheila já levantou?
— Está esperando por isso — ele mostrou uma caneca de café senão não acorda!
Sally tomou um banho e voltou para o quarto. Vestiu-se e maqui lou-se levemente
como sempre fazia. Estava de jeans e blusa e
calçava botas. Depois de pronta desceu
para o café da manhã.
Abe estava brincando quando falou da mulher, pois Sheila já estava arrumada e em
plena atividade no refeitório. Era ela quem preparava as refeições. Não era apenas
uma artista. Participava do grupo sendo útil aos componentes da expedição, dava
sua contribuição. Era rápida e eficiente, de modo que dava para trabalhar ali e ainda
sobrava tempo para pintar.
— Posso ajudar? — perguntou Sally.

Livros Florzinha - 54 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Se você quiser.
Mas não havia nada para fazer, pelo menos naquele momento. Estava comendo
ovos mexidos e tomando suco de laranja quando Adam entrou.
-. bom dia. Já está pronta?
Ela engoliu às pressas o café.
— O que vamos fazer?
Ele não respondeu, esperou que ela se erguesse e saíram. Sheila sorriu para os
dois enquanto se afastavam.
Foram até a cabana que era o escritório de Cari. As paredes estavam cobertas de
mapas da cidade dividida em regiões, com marcações das descobertas que tinham sido
feitas. Havia um arquivo com desenhos, traçados, fotografias. Cari mostrava tudo e
respondia às perguntas com entusiasmo.
Em outra cabana, Abe estudava peças de entalhe e cerâmica em que havia
símbolos gravados. Copiava a língua estranha estudando e comparando-a, até conseguir
decifrar.
Ficaram ali mais ou menos meia hora e depois foram encontrar Juan que
comandava um pequeno grupo encarregado das escavações à procura de objetos.
Lewis chefiava o grupo encarregado de limpar a área coberta pela selva e Manoel
trabalhava num pequeno laboratório de química.
Por fim chegaram à cabana de Ramon, onde ficavam os "achados", e foi
justamente ele quem acabou fornecendo um pretexto a Adam.
— Se você tivesse um tempinho disponível, gostaria de pedir que me ajudasse —
disse Ramon a Sally.
— Ela é toda sua! — respondeu Adam, prontamente.
Sally achou que ele podia ter sido mais delicado, mesmo que estivesse
louco para se livrar dela. Ficou sentida. Era por isso, então, que a levara em todos
aqueles lugares! Para ver se achava algo que ela pudesse fazer e que a
mantivesse longe dele. Adam deixou-a lá e saiu.
— Obrigada por me oferecer trabalho — disse Sally, assim que se viu a sós com
Ramon.
— Ora, não há de que. Eu é que tive sorte de ter conseguido ficar com você.
Sally sentiu-se de repente como se fosse o prémio de uma rifa, mas não se deixou
afetar por isso. Conservou o bom humor e ainda fez uma piadinha.
— Espero que a sorte não o abandone, então, e que eu não quebre nada por aqui.
Passou a maior parte do dia lavando peças de cerâmica e colocando-as sobre uma
esteira pára que Ramon as classificasse depois. O trabalho dele era limpá-las, o que
fazia com grande habilidade. As mãos dele, de dedos longos, eram firmes,
elegantes e bem tratadas.
Ficou conversando com Sally e contou-lhe que, além do seu trabalho, interessava-
se muito por carros de corrida e por música. Ela aproveitou para dizer que gostara
muito de ouvi-lo tocar e cantar, na noite anterior. Ele a olhou nos olhos e disse que
tocaria para ela com o maior prazer sempre que pedisse.
— Ah, que maravilha! Obrigada.
Ramon não era casado, portanto Sally achou que poderia fazer amizade com ele
sem incomodar ninguém. Não queria provocar nenhum incidente desagradável. Ela
sempre
fora de temperamento alegre e expansivo e gostava de ter amigos.
Passou um dia verdadeiramente agradável. Ramon era uma pessoa interessante e
gostava de conversar. Ficou sabendo que a mãe dele era americana e o pai um industrial
brasileiro. Ele, Ramon, saíra direto da faculdade e fora para Purumaxi, atraído pela
magia do lugar. Falava com entusiasmo e Sally concordava, encantada. Sentiu
que se daria muito bem com ele. Ramon era simpático e a deixava à vontade.

Livros Florzinha - 55 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Durante a tarde Sheila apareceu lá com um bloco de desenho e perguntou.
— Posso fazer seu retrato?
— Meu?! — perguntou Sally, surpresa, enquanto lavava um pedaço de pedra, onde
estava esculpido um rosto sério que a deixou perturbada.
— É, o seu, sim. Estou aqui para desenhar os objetos que são encontrados, mas
gosto mais dê desenhar pessoas. Por isso quando tenho tempo gosto de desenhar
alguém
e você é um rosto novo aqui.
Já desenhei todos algumas vezes. . . estou até cansada da cara deles.
— Não creio que eu seja um bom modelo para você. . .
Sally lembrou-se de novo de como Tim vivia lhe dizendo que não era fotogênica.
Meg sem dúvida era muito melhor.
— Mas é claro que é! Quem me dera ter esse rosto! Realmente, comparada a
Sheila, Sally era muito mais bonita,
— Por que você não desenha Adam?
— Ele está na selva. Além disso não fica quieto um minuto para que eu possa
desenhá-lo. Mas se você quer um
retrato dele eu dou um jeito de fazer.
— Não é isso! É que eu achei que ele seria melhor modelo do que eu!
— O homem que você deixou na Inglaterra não gostaria de ter um retrato seu? —
perguntou Sheila.
— O único homem que deixei lá é meu tio, que me criou. Talvez ele e minha tia
gostem — riu.
Depois do jantar houve música outra vez, naquela noite, só que dessa vez Ramon
convidou Sally para passear e levou o violão. Caminharam pelas ruínas, por algum tempo,
e Sally sentou-se numa pedra. Ramon começou a tocar violão e cantar, como se
estivesse fazendo serenata para ela.
Na véspera ela se emocionara com as canções românticas porque lhe traziam
lembranças e sentimentos que não tinham nada a ver com o cantor. Mas essa noite era
diferente.
Depois de ter passado o dia em sua companhia, ele já não era um estranho.
Ramon cantava com muito toais intensidade do que Tim, e seus olhos escuros, de
olhar profundo, se enchiam de sentimento, fitando os dela. Sally começou a ficar nervosa,
não sabia o que fazer. Tinha medo de ofendê-lo se interrompesse e pedisse para
voltar, mas achou que a situação estava muito íntima. Afinal, ela acabara de conhecê-lo.
Quando ouviu alguém se aproximar, ficou aliviada.
— Posso fazer companhia? Vocês se incomodam? — perguntou Juan e sentou-se
numa outra pedra.
Ramon lançou-lhe um olhar furioso, mas ele nem ligou. Sally gostou quê ele tivesse
chegado, assim salvara-a da situação embaraçosa,
Ramon acabou a música que estava cantando, pôs o violão no ombro e deu a mão
para ajudar Sally a descer da pedra. Caminharam os três juntos, Sally entre os dois
que disputavam sua atenção.
Assim que chegaram ao acampamento ela tratou de inventar uma desculpa e foi
para o quarto. Realmente havia muito o que escrever sobre aquele dia.
Passaram-se duas semanas quase sem que ela percebesse. Trabalhava com
afinco ajudando Ramon e à noite escrevia suas anotações.
Ramon continuava flertando, mas ela o mantinha à distância, sem encorajá-lo.
Sabia como se defender. Só o amor torna as pessoas vulneráveis e sem defesa, portanto
com ele não havia perigo. Achava agradável ser cortejada e admirada, sentia-se
como uma adolescente, mas era apenas isso. Continuava fria e insensível.

Livros Florzinha - 56 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Naquela tarde estava na horta com Sheila, onde trabalhavam de vez em quando.
Sheila disse-lhe que Ramon era filho de um dos homens mais ricos do Brasil.
— Puxa, o pai dele nada em dinheiro e ele é filho único! Você não está interessada
nele? — perguntou Sheila.
— Ora, ele é jovem demais para mim — Sally riu. — Não pela idade, mas é o jeito
dele. . . a mentalidade. Acho que tanto ele quanto Juan são imaturos.
— Tem alguém que não é. .. Adam.
— Não. .. eu quero alguém que seja o meio termo! Ramon é muito superficial, mas
Adam é profundo demais.
Adam continuava trabalhando na derrubada de árvores e desmatamento. O
trabalho progredia lentamente. Ainda levaria muito tempo para que limpassem a cidade
toda.
Era preciso muito cuidado, para que as árvores ao cair não danificassem nada.
Não podiam usar nem mesmo máquinas pesadas.
Sally, a essa altura, já conhecia Purumaxi tão bem quanto sua própria cidade. Isto
é, a parte que estava exposta, porque não a deixavam ver a parte que ainda estava
coberta pela floresta e onde estavam trabalhando. Sozinha não se atrevia a ir até
lá, embora tivesse muita vontade, e com Ramon ou Juan não seria boa ideia.
Falou com Adam sobre isso. Quase não o via, a não ser na hora das refeições. Se
ela desaparecesse de Purumaxi, provavelmente ele seria o último a saber. Mas uma
tarde foi até o local onde Adam estava trabalhando.
Estava um calor sufocante. A camisa dele estava colada no corpo, molhada de
suor.
— Oi — disse ela.
— Oi — ele disse e não parou de dar machadadas.
— Suas fãs não o reconheceriam assim.
— Nem os seus, aposto.
Ela não disse que não tinha nenhum. Olhou para a estrada que sumia na selva
e perguntou:
— Você já foi adiante deste trecho?
— Já.
— Acha que eu conseguiria ir?
Adam parou de trabalhar por um momento e enxugou o suor do rosto.
— Não invente problemas, Espertinha.
Ele a fez se sentir como uma criança chata. E nem se admiraria se Adam a
mandasse ir brincar noutro lugar.

CAPITULO VI

No fim da quarta semana em Purumaxi, Sally estava trabalhando na equipe de


Juan, nas escavações, diante da ruína de uma enorme construção. Já haviam
desenterrado
várias armas e ossos humanos. Sally estava ajoelhada, trabalhando
cuidadosamente
no pedaço que lhe coubera, e Juan estava falando com ela quando Ramon se
aproximou,
talvez para saber se havia alguma descoberta interessante. Juan pediu licença e foi
ao encontro dele.
Sally continuou seu trabalho, absorvida, e de repente sentiu a mão de alguém
segurar seu ombro. Era Adam. EJa parou o que estava fazendo e ergueu a cabeça,
afastando

Livros Florzinha - 57 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
os cabelos com os dedos sujos de terra.
— Quero que você venha comigo — disse ele.
— Pois não..— Ela se virou para Juan, que ainda conversava com Ramon, e falou,
em tom mais alto: — Eu já volto!
E acompanhou Adam, imaginando o que teria para lhe dizer. Caminharam algum
tempo em silêncio e de repente ele lhe perguntou, em tom calmo:
— Que diabo está acontecendo?
— Acontecendo?! Como assim?
— Não banque a inocentinha comigo. — Ele andava com passos rápidos, como se
estivesse com pressa ou ansioso para chegar a algum lugar. — com qual dos dois você
está
dormindo?
Sally ficou paralisada. Sentiu-se tão ultrajada que ficou sem ação. A pergunta era
tão absurda e inesperada que não tinha como ser respondida. Nem tinha cabimento
mostrar-se indignada.
— Com nenhum deles. E estou pouco ligando se você não acredita. O que houvera
para que ele, de repente, tivesse uma ideia
Absurda daquelas? Adam já a vira com os dois várias vezes, mas nunca em
nenhuma atitude que pudesse fundamentar tal conclusão. Só se tivesse Ouvido por acaso
algum comentário!
Devia ser isso!
— Por que, eles andam dizendo alguma coisa?
Ramon está dizendo a Juan para ele não se esquecer de que
é casado e que não deve trair a mulher. Juan respondeu que a fortuna de Ramon
não lhe dava direitos exclusivos sobre a única mulher disponível em Purumaxi.
— Meu Deus!
Sally sentiu que estava sendo censurada. A rivalidade entre os dois estava se
tornando coisa séria e poderia haver confusão. Teve vontade de matar os dois que
estavam
agindo como crianças. Aquela atitude deles não tinha razão de ser!
— Pelo amor de Deus — continuou Adam -, fique longe deles e comece já! Não
volte para lá. Depois falo com você.
Ele se afastou e Sally ficou parada pensando o que fazer. Não podia perder a
calma e provocar um escândalo, pois isso só iria prejudicá-la e poderia acabar tendo
que ir embora de Purumaxi. Resolveu não voltar ao local das escavações. Não
queria ver nenhum deles, por isso saiu furtivamente e decidiu ir ao alojamento de Sheila.
Precisava de uma amiga para desabafar. Estava furiosa e desnorteada.
Sabia que Sheila estava pintando e quando usava tinta a óleo não ficava ao ar
livre, pois os insetos grudavam na tela. Ficava no estúdio que improvisara ao lado
do quarto de dormir. Sally subiu os degraus e foi para lá, esperando que ninguém a
tivesse visto passar pelo terraço aberto. Parou diante da porta e bateu.
— Posso entrar?
— Claro! Ótimo que você apareceu. Estou com problema para pintar seu nariz.
Agora você pode posar para mim.
Sheila fizera vários esboços do rosto de Sally, que estavam pendurados na parede.
— Senta ali — continuou ela, indicando um baú. Sally sentou-se e Sheila se
aproximou para arrumá-la na posição
certa.
— Para dizer a verdade não vim posar, estou aqui porque preciso conversar com
você. Quero que me dê um conselho e me ajude. Adam acabou de me perguntar se estou

Livros Florzinha - 58 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
dormindo com Juan ou Ramon. Sheila afastou-se da tela e olhou para ela
boquiaberta e Sally acrescentou logo: — Não estou dormindo com nenhum deles, e nem
vou! Não
precisa se espantar. É que Adam ouviu por acaso uma conversa absurda entre
eles.
Sheila parecia ter perdido a voz e Sally continuou, nervosa:
— O que vou fazer? É claro que os dois tentaram alguma coisa, mas eu cortei logo.
Eu os trato como amigos. Isso é ridículo! Agora vão brigar por minha causa e não
tenho nada com nenhum deles.
— É, eles são meio esquentados mesmo. Nunca se deram muito bem, mas até
agora conseguiram conviver pacificamente. Pelo menos têm bom senso. Me conta direito
como
Adam entrou nessa história. O que aconteceu com ele?
— Nada. Os dois não sabem que Adam ouviu a conversa. Ele apenas chegou, me
chamou e fez com que eu saísse de lá e disse para ficar longe deles até poder dar um
jeito
nisso.
— Então pode ficar tranquila que ele dá um jeito, mesmo. Sheila achava que
bastava isso para resolver tudo, mas Sally estava
preocupada com o fato de Adam ter chamado sua atenção.
— Acho que é melhor me afastar deles! — disse Sally furiosa, esquecendo que
estava posando e saindo do lugar. — Se estão pensando que vão para a cama comigo,

porque eu os trato bem, eles vão ver só! Como é que podem estar imaginando uma
coisa dessas? Baseados em quê?
— É... você andou dizendo que o único homem da sua vida era seu tio, que a criou.
Vai ver que eles estão pensando que você está louca para ter uma experiência sexual
ou que está com carência afetiva.
— Ah, então o jogo é esse?! — disse ela, com amargura. Foi até a janela e olhou
para a mão, onde antes havia uma aliança. — Sabe que eu estava noiva? De aliança
e tudo. Desmanchei o noivado um pouco antes de vir para cá.
— Depois que conheceu Adam?
— Não tem nada a ver com ele. — Sally balançou a cabeça. Meu noivo me traiu e
fiquei muito magoada. Não quero mais saber de ninguém. Não confio mais em homem
algum.
— Ah, sinto muito — disse Sheila com sinceridade, percebendo quanto Sally estava
magoada.
— Não tem importância, podia ter sido pior. — Sally sorriu de novo."— Se eu
tivesse que ficar na Inglaterra e continuar a vê-lo. . . ainda bem que pude vir para
cá, bem longe de Tim. Quanto a esses dois bobos, acho melhor manter distância
deles também.
— Pode contar comigo. É só me chamar quando quiser se livrar deles.
Sally voltou a sentar-se no baú e Sheila continuou a fazer o retrato até quase a
hora do jantar. Aí, as duas se separaram para tomar banho e se arrumar e se
encontraram
de novo no refeitório.
Adam chegou mais cedo que de costume. Até então Ramon e Juan
sempre sentavam ao lado de Sally durante as refeições, mas nessa noite Adam
escolheu uma mesa pequena, com duas cadeiras, e chamou-a para ficar com ele.
Quando Juan entrou e a viu, veio em sua direção imediatamente.
— Puxa, fiquei esperando você voltar a tarde toda! Por onde andou?
— Trabalhando para mim — disse Adam, secamente.

Livros Florzinha - 59 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Juan sabia que teoricamente ela era assistente de Adam, mas até então não
trabalhava para ele nem um minuto. Essa era a primeira vez que a requisitava. ; -—
Posso
lhes fazer companhia? — perguntou ele.
— Não — respondeu Adam.
Adam foi direto e até meio rude, mas disse apenas isso. Juan que pensasse o que
quisesse. Ele sorriu e se afastou. Adam e Sally continuaram a comer em silêncio.
Ele não falava nada e ela esperava pacientemente. Talvez preferisse conversar
num lugar que não fosse tão público, afinal o assunto era particular. Entretanto,
só para manter as aparências, Adam começou a falar. — Ouvi dizer que Sheila está
pintando seu
retrato. . — É. Foi com ela que eu passei o resto da tarde de hoje.
Fiquei no seu estúdio. — Sally falava em voz baixa, embora Juan tivesse
se sentado bem longe.
— Ótimo. Isso vai manter você longe de encrencas e fofocas.
— Gostaria que você parasse de me tratar como se eu fosse uma delinquente
juvenil.
— E quem me garante que você não é?! — Ele sorriu.
— Eu! Estou lhe dizendo que não, mas aposto como você foi. Os dois riram e
depois ela mudou de assunto perguntando o que
estavam procurando na floresta. Ele falou que era uma construção semelhante a
um templo, cheio de colunas de pedras onde estavam esculpidas serpentes, o "Palácio
da Serpente", como o chamaram. Adam descreveu a recente descoberta e Sally
ficou imaginando se não poderia ir ver de perto. Precisava conseguir um jeito de visitar
o lugar antes de deixar Purumaxi.
Ramon só chegou quando eles já estavam tomando café.
— Boa noite — ele cumprimentou com reverência e depois virou-se para Sally. —
Sally. . .
Más antes que pudesse dizer alguma coisa, Adam interrompeu.
— Sally vai passear comigo, hoje.
Sally, que segurava a xícara de café, baixou as pálpebras recatadamente. Não
ousara olhar para nenhum deles com medo de rir,
embora não soubesse se por achar graça ou se por pura tensão nervosa. Em
seguida Adam se ergueu.
— Vamos?
Ela se ergueu e o acompanhou. Ainda estava claro lá fora e vários tons de
vermelho e alaranjado tingiam o céu. O pôr-do-sol naquela região era espetacular, a coisa
mais linda que já vira.
Mas desta vez Adam não lhe deixou tempo para admirar o entardecer. Pegou-a
pelo braço e conduziu-a através do acampamento.
— O que você costuma fazer quando sai a passeio com seus admiradores? —
perguntou ele, de repente. — Espero que pelo menos não esteja fazendo a mesma coisa
com os
dois!
Ela afastou a mão dele de seu braço num gesto brusco.
— Que belo conceito você faz de mim, hein?
— Você não respondeu. O que faz?
— Ando, ora.
— Só isso? Anda o tempo todo?
— Às vezes sentamos em algum lugar. Eu disse sentar — enfatizou ela. —
Ficamos sentados e bem-comportados, conversando quase sempre sobre Purumaxi. Já
estão aqui

Livros Florzinha - 60 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
há mais de um ano e sabem muitas coisas. Eles me falam sobre os Incas. Depois
eu vou embora para o meu quarto e escrevo o que me disseram. Isso vai me ajudar a
escrever
os artigos para o Eco e quem sabe, um dia, até um romance.
Eles haviam parado de caminhar e estavam de frente.
— Dito desta maneira está parecendo um curso de especialização! — disse Adam.
— Pois é isso mesmo. Ramon toca violão e canta — continuou ela. — Mas bem
baixinho porque o som geralmente atrai Juan. É só Ramon começar a tocar e o outro
aparece
perguntando se pode fazer companhia.
— Por acaso você não está usando Juan para fazer ciúmes a Ramon?
— É claro que não! disse ela, brava.
— Ramon vai ficar muito rico, sabia? O pai dele tem muito dinheiro.
Adam estava sério e a olhava bem de perto e atentamente. Estava insinuando que
ela era uma interesseira, querendo enciumar Ramon para obrigá-lo a casar com ela.
Mais um insulto! Só que desta vez ela revidou de imediato, com o propósito de feri-
lo.
— Nem todas são como Vanessa.
— Realmente, Vanessa é única.
Ela ficou com mais raiva. O sangue parecia ferver em suas veias. Queria magoá-lo
a todo custo.
84
— Se eu fosse casada, com um homem rico ou pobre, não me atiraria nos braços
de um amante.
— É melhor ficar quietinha — disse Adam, segurando delicadamente o queixo dela
e fazendo-a erguer a cabeça, de leve. — Por favor, nem mais uma palavra.
Mas o tom de voz, não indicava um pedido e sim uma ameaça. Ela nunca sentira
com tanta intensidade a força e o perigo que emanavam dele. O sorriso de Adam a
aterrorizava.
Fechou os olhos para, fugir da figura que a assustava e depois de alguns instantes,
que pareceram uma eternidade, ele se afastou.
— Você pode criar uma encrenca entre Juan e Ramon. Eu a trouxe para cá,
portanto me sinto responsável. O que vamos fazer, hein? Mandá-la de volta?
— Não! — exclamou ela num sobressalto e refreou o impulso de correr para ele. —
Isso não é justo! A culpa não é minha, eu não estou provocando nenhum deles. Não
sabia que estavam pensando isso. Agora, depois dessa, não vou mais a lugar
nenhum com eles. vou dizer para pararem de me perturbar. Sheila disse que posso contar
com ela para me livrar deles. Que coisa! Esses dois. . . parece que nunca viram
mulher! Mas comigo, não! Não têm a menor chance.
— Tomara que eles acreditem. Você é uma mulher provocante, sem saber.
— E eles são dois bobos, convencidos! O que você quer que eu
faça para afastá-los? Que arranque meus dentes da frente?
Ele riu.
— Não, isso seria um pecado. São tão lindos!
— Também, eu sou a única mulher aqui. . . a não ser Sheila,
mas ela tem Abe para tomar conta, se alguém bancar o engraçadinho.
— Pois é. .
— E o que eu vou fazer então,-já que tenho que me defender
sozinha?
— Vem cá. — Ele a pegou pelo braço. — Depressa antes que escureça.
Ela não entendeu o que ele quis dizer com isso, mas resolveu não perguntar. Logo
descobriria o que ele tinha em mente. Talvez quisesse que os outros os vissem juntos

Livros Florzinha - 61 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
assim, ele segurando seu braço. Mas diante dos degraus do templo parou. Ela
percebeu que ele queria subir.
— Ah, eu não me arrisco de novo! Depois daquele dia em que quase caí lá de
cima. . .
— Coragem! E olhe bem onde pisa.
Subiram juntos. Da outra vez, ele foi na frente sem ligar para ela, mas dessa vez a
amparava protetoramente. Quando chegaram ao topo ela olhou para a pedra com o
emblema do Sol e disse:
— Desde que você contou aquela história de Coya Pasca esse lugar para mim
ficou diferente...
— Desculpe-me por isso — disse ele e envolveu-a num abraço. Ele não a estava
beijando, mas de longe parecia uma cena de
amor, contra o fundo dourado do céu ao entardecer.
— Vamos fazer de conta que somos amantes, não é? — disse Sally. — Isso será
mais convincente para afastá-los que a proteção de Sheila. Verão que não estou
disponível.
— Justamente.
O rosto dele estava tão perto do seu que ela sentia a sua respiração; sentia os
lábios dele sobre os seus, embora não a estivesse beijando. Aquilo era uma encenação
e a única reação cabível era rir. Mesmo porque ela estava trémula nos braços dele
e o riso disfarçaria.
— Não sei por que — disse ela -, mas não posso imaginar você como meu protetor.
Era evidente que ele estava apenas protegendo a tranquilidade em Purumaxi,
estava evitarido que houvesse brigas e rivalidades. Ela não podia imaginá-lo protegendo-
a,
amando-a.
— Será que eles vão acreditar? — ela disse.
— Não era o que todos imaginavam quando chegamos aqui? Bem que ela gostaria
que escurecesse logo, que já fosse noite e
que aquele abraço fosse um segredo deles.
— Está parecendo cena de filme musical. Só falta uma orquestra tocando e a gente
começar a dançar, subindo e descendo esses degraus.
— Isso não é do seu tempo — riu Adam.
— É, eu tenho vinte e dois anos, mas costumava ver esses filmes na televisão.
— Bem. . . agora vamos para o seu quarto. Eu divido o meu com Cari.
— Ei, que história é essa de "meu quarto"? Lá você não vai! Ele não respondeu
nada, apenas continuou a
conduzi-la.
— vou sim. A gente acende o lampião e você fica escrevendo, enquanto tiro um
cochilo. Derrubar árvores cansa! Fico lá mais ou menos uma hora, depois vou embora.
— Preferia que a gente se despedisse aqui. . . sabe, sou meio antiquada.
— Mas eu não. O espetáculo ainda não acabou. Depois que eu entrar no seu
quarto, o resto fica por conta da imaginação deles.
E ele acompanhou Sally até o quarto. Já estava escuro. Ela abriu
a porta e entraram juntos. Foi até a mesa acender o lampião. Estava nervosa.
Pegou a caixa de fósforos e riscou com tanta força o primeiro palito que o quebrou.
Quando foi pegar outro, derrubou a caixa no chão e os palitos se espalharam.
Adam pegou alguns e acendeu o lampião. À luz da chama o rosto dele lhe pareceu
bonito e distante.
Talvez alguém os tivesse visto subir, mas todos acabariam sabendo que eles
estavam juntos. Cari e Manoel iam notar a falta de Adam, pois sempre ficava com eles
àquela

Livros Florzinha - 62 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
hora. Iriam sem dúvida imaginar coisas, como Adam dissera. Sally não sabia se era
isso que a estava perturbando, o fato é que seu coração batia descompassado e mal
conseguia encará-lo.
Adam recolheu os palitos e guardou-os de povo na caixa, depois virou-se para
ela. ; — Você vai usar a cama? — perguntou ele.
— Não — respondeu, nervosa. — Não estou cansada, não passei o dia derrubando
árvores. Fiquei o tempo todo sentada, posando. Pode se deitar.
— Obrigado. — Ele tirou as botas e deitou-se de costas com os braços cruzados
sob a cabeça. — O que é aquilo em cima da mesa?
— Ah, são meus cadernos. . . uso para fazer anotações.
Ela pegou um e mostrou, para ele ver que estava todo escrito.
— Puxa, como você escreve! Leia para mim.
— São apenas anotações, como um diário. Comecei em Nova Iorque.
Em todo caso isso ajudaria passar o tempo e seria mais fácil ler do que conversar.
Ela pigarreou e começou a leitura: descrições dos companheiros de viagem no avião,
o voo, o aeroporto, o quarto de hotel.
Havia uma anotação que dizia apenas: "Puna: Reação à altitude das montanhas.
Comum para os não acostumados. Sintomas: cansaço, dor de cabeça e enjoo. No meu
caso,
acompanhada de ligeiro delírio." Ela ia virando as páginas, lendo com voz calma e
impessoal. Pensou que Adam tivesse adormecido, estava de costas para ele, mas quando
fechou o caderno depois das anotações da véspera e virou-se para ele, seus
olhares se cruzaram. Ela baixou os olhos, perturbada.
— Você não perde nada, hein?
Não era verdade. Ela, nem percebera o que estava acontecendo entre Tim e Meg e
fora totalmente por acaso que vira Vanessa na janela, aquele dia. Pensou que ele
estivesse
se referindo a isso de novo, e suspirou fundo.
— Ei, não precisa ficar com essa cara. O que eu disse foi um elogio. Você é boa
repórter.
— Obrigada.
— Vem cá, senta aqui do meu lado — Ele se sentara na cama, com as pernas
esticadas para fora.
Ela obedeceu e ele passou o braço pelos seus ombros, num gesto natural e
espontâneo.
Sem querer ela se aconchegou e se apoiou nele. Já estava com as costas doendo
de ficar mais de uma hora sentada naquele banquinho sem encosto. Suspirou fundo, mas
dessa vez foi por uma sensação de conforto.
— Desculpe estar causando problemas — disse ela -, mas eu só quis ser amável
com eles. Gosto de trabalhar ao lado de pessoas que gostem de mim. — Adam sorriu e
ela
também. — No seu caso eu fiz uma exceção, porque precisava desesperadamente
do emprego. Eu tinha que sair do Eco
o mais longe possível.
Ela falou sem perceber, mas afinal não estava arrependida. Ela já contara a Sheila
e Adam poderia acabar sabendo, mesmo. Ele demonstrou uma certa curiosidade.
— Por quê? Por que tinha que sair com tanta urgência?
— Eu ia me casar com um colega que trabalha no Eco. Daí ele arranjou outra.
— Sempre a velha história!
Estabeleceu-se entre eles uma certa camaradagem e Adam a olhou amavelmente
por um momento. Mas depois deve ter se lembrado de Vanessa, pois seu rosto mudou de
expressão.

Livros Florzinha - 63 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Eu percebi que você usava uma aliança, naquela manhã disse ele.
Tanta coisa acontecera naquela manhã e mesmo assim ele não deixara de notar
um pequeno detalhe como esse!
— Você também não deixa escapar nada — comentou ela.
— Também sou um repórter. Só que achei que você era uma moça ambiciosa que
desistiu do casamento por causa da carreira.
Sally sentiu que ele a compreenderia e teve vontade de contar tudo. Nunca o
sentira tão próximo e acessível, Umedeceu os lábios, pigarreou e resolveu abrir o
coração.
— Naquele fim de semana ele tinha me traído com minha melhor amiga, a garota
que morava comigo no apartamento. Desde criança que
éramos amigas inseparáveis. Eu confiava
cegamente e nem me passou pela cabeça que ela e Tim... só quando os vi juntos.
Adam segurou sua mão, confortando-a em silêncio. — Eles não estavam. . .
fazendo amor, sabe. Estavam apenas sentados num bar, num local afastado. Mas,
você acredita. . . Eu tinha ido lá para ver uma casa. Estávamos procurando
uma casa para ser nosso lar... meu e de Tim, depois que casássemos. Tim disse
que iria trabalhar aquela noite, por isso fui sozinha até o subúrbio. Foi quando vi
o carro dele na porta do bar e resolvi entrar. Pensei que estivesse lá a serviço, mas
assim que entre deparei com os dois juntos. Eles não me viram. Isso foi na.
. . — fez os cálculos mentalmente — na quinta-feira. Depois na segunda eu tinha a
entrevista com você. . .
De repente, toda a perplexidade e a sensação de perda que a invadiram naquele
terrível dia estavam estampados em seus olhos. Sentia-se de novo como a menininha
desprotegida
a quem tinham acabado de dizer que os pais não voltariam nunca mais.
Começou a falar cada vez mais depressa, como se não pudesse conter mais as
emoções que guardara tanto tempo sem partilhar com ninguém.
— No sábado Tim ia viajar comigo para passar o fim de semana na casa de meus
tios, que estavam nos esperando. Mas na última hora disse que não poderia mais ir.
Convidei
Meg e ela disse que já havia a combinado de viajar com uma amiga. Os dois foram
viajar juntos. Eu os vi saindo! Isso já vinha acontecendo há algum tempo. Eles estavam
se encontrando escondido. Ele continuava a dizer que me amava e ela fingia ser
minha amiga. . . e eu nem desconfiava. Nem me passaria pela cabeça uma coisa dessas.
não tinha a menor suspeita! Como fui.boba! — Fez uma pausa e continuou: — Eles
foram espertos e também tiveram sorte. Ninguém nunca os viu, nem desconfiou
de nada. Acho que tive muita sorte de ter acontecido desta maneira, porque se eles
tivessem me contado sem eu estar preparada, teria sido um choque muito grande.
Acho que teria enlou quecido. Tim e Meg. . . imagine! E eu que confiava tanto
neles! Pelo menos deu tempo para me refazer do fato e preparar-me para enfrentá-los.
Naquela manhã, antes de eu sair para entrevistar você, Tim me disse que iria em
casa, à noite, porque precisava conversar comigo. Eu imaginava o que iria me dizer.
. . por isso fiz tudo para conseguir este emprego maravilhoso, assim pude me sair
bem e todos ficaram felizes. Imagine que eles disseram que nunca deixariam de gostar
de mim! O que você me diz?
Ela riu, mas os olhos estavam cheios de lágrimas e finalmente desatou num choro
sentido e abençoado que lavou sua alma. Encostou o rosto no ombro dele, sem nenhum
constrangimento, e deixou as lágrimas correram até se libertar da mágoa.
O corpo dela tremia com os soluços e de vez em quando Adam batia de leve nas
costas dela, como se estivesse consolando uma criança. E quando ergueu o rosto para
ele, Adam pegou um lenço e enxugou suas faces com muita ternura.

Livros Florzinha - 64 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Dês. . . desculpe por esse. . . desabafo. Não contei isso para ninguém... e
quando comecei a falar não pude mais parar.
— Está se sentindo melhor, agora?
— Muito melhor.
— Como é sua família?
Ele nunca perguntara isso antes. Talvez estivesse querendo mudar de assunto
para reanimá-la. Sally começou a falar da tia Esme e do tio Edwin e realmente se
reanimou.
Era bom falar de algo alegre, que só lhe dava felicidade.
Contou a ele como os tios eram maravilhosos, como a tratavam bem e a amavam.
Descreveu a casa deles, falou de sua infância, da morte dos pais; do jardim que o tio
gostava de cultivar depois que vendera a mercearia.
— Ele ficaria fascinado com essas plantas que há por aqui! disse ela. — Eu escrevi
para eles contando.
A correspondência chegava uma vez por mês no helicóptero que trazia provisões. "
— De vez em quando tenho trabalhado na horta com Sheila continuou ela. — Acho
que daqui por diante vou passar mais tempo lá e menos tempo na cabana das
descobertas.
— Acho que é melhor não ir mais à cabana das descobertas disse Adam. — E...
nós precisamos passar mais tempo juntos.
Ela ficou contente. Preferia a companhia de Adam, para conversar, para ensiná-la. .
. para tudo.
— Você me leva para ver o "Palácio da Serpente"? — Ele esboçou um sorriso. —
Por favor, não vá me repreender. . . só queria ver, . .
— Está bem.
— Obrigada! Puxa, muito obrigada — disse ela, eufórica.
— Mas não agora, é claro — disse ele, sorrindo de tanta animação.
— É claro. Quando você quiser. Por falar nisso, que horas são?
— É tarde — disse ele, olhando o relógio de pulso.
Calçou as botas e ergueu-se e, quando estava na porta para sair, ela disse, em tom
alegre:
— Pronto, agora estou seriamente comprometida!
— Não era isso o que queríamos? Boa noite.
Ele sorriu e ela teve vontade de abraçá-lo, de se sentir nos braços dele de novo.
— Boa noite!
Adam se inclinou e beijou-a na testa e depois nos lábios, de leve. Um beijo tão
terno e suave que parecia um sonho. E Sally ficou sem fala, vendo-o partir, com vontade
de chamá-lo e pedir que ficasse com ela.

CAPITULO VII

Sally nunca pensara que um dia pudesse associar a figura de Adam à paz de
espírito e solidariedade, mas foi o que aconteceu. Na manhã seguinte, quando acordou,
não
se sentiu nem um pouco chocada ao lembrar tudo o que dissera a ele e nem se
arrependeu ou se envergonhou de ter chorado em seu ombro. A amargura e o
ressentimento
contra Tim e Meg tinham se esvaído de seu coração. E Sally tinha certeza de que
agora podia contar com Adam como um amigo e isso lhe dava alento.

Livros Florzinha - 65 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Ela dormiu bem e acordou alegre e sorridente. Assim que chegou no refeitório
procurou Adam. Ele estava se servindo de café e já havia terminado a refeição.
— bom dia, amor — disse ele, com voz alegre. Ela havia lhe pedido para parar de
chamá-la pejorativamente de Espertinha, mas não esperava por esse tipo de tratamento
e acabou í enrubecendo. Nem tinha coragem de olhar para os lados, com receio de
que alguém tivesse escutado. — Obrigada — murmurou ela, bem perto dele. — Ora,
foi um prazer!
— É o que eles devem estar pensando — disse e sorriu. — Sente-se aí que eu vou
buscar seu café.
Ramon olhava de longe com ar de reprovação e Sally ficou imaginando qual teria
sido o comentário dele com Juan. Enfrentou o olhar com ar de superioridade.
Não voltaria mais à cabana dele. Quando Adam voltou com seu café, trouxe
também uma boa notícia: Cari í estava precisando de uma secretária e ela
deveria começar
naquela manhã mesmo.
O escritório de Cari era a espinha dorsal do trabalho em Puru maxi. Era lá que se
reuniam todos os dados dos diversos setores
para serem arquivados. As peças descobertas iam para as outras seções, mas ali
ficava uma cópia de tudo. Era o lugar ideal para Sally trabalhar.
Num instante aprendeu o serviço e passou a manhã organizando o arquivo e
datilografando algumas cartas.
— Por que não me disseram antes que você era tão eficiente? -. perguntou Cari. —
Puxa, se eu soubesse! Tem tanto serviço e onde iria arranjar uma secretária em
Purumaxi?
Na hora do almoço Sheila foi perguntar a Sally se ela poderia ir posar durante mais
ou menos uma hora. Sally não viu nenhum inconveniente e concordou, mas assim
que entrou no estúdio Sheila começou a fazer perguntas, queria saber tudo. Parece
que o espetáculo da véspera surtira efeito.
— Você e Adam estão firmes? Ou ele está fazendo isso só para afastar Ramon e
Juan?
— É só para afastá-los.
— Ah, que pena!
Sally não disse nada. Adam era perturbador e perigoso e só o fato de pensar nele
como um amante fazia-a tremer por dentro.
Se não tivesse ficado feito boba, quando ele foi se despedir, na noite anterior,
Adam poderia ter ficado em seu quarto a noite toda. Mas como ela estaria se sentindo
nessa manhã, se tivesse acontecido algo? Certamente não conseguiria se portar
com a mesma naturalidade.
Uma coisa era certa. Desde que chegaram a Purumaxi algo estranho estava
acontecendo com Sally. Sentia um desejo enorme de que Adam a tocasse e acariciasse,
sem parar,
até se sentir extasiada.
Mas isso devia ser por estarem ali, em Purumaxi, por influência do lugar. .. só o que
sabia era que bastava ele fazer um gesto e ela se atiraria nos braços dele.
Entretanto o que aconteceria quando fossem embora dali? Será que ele a queria
em seus braços?
— Acho que vocês têm algo em comum — disse Sheila. — Vocês dois sofreram um
golpe duro.
Sally não concordou. Afinal Adam não sofrera rejeição de ninguém. Vanessa estava
na casa dele, ela não o abandonara.
— Você conhece Vanessa? — perguntou Sally, sem querer.

Livros Florzinha - 66 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Conheço. Nós a conhecemos no ano passado, na casa dele. Foi quando ele
decidiu voltar para cá e parece que ela viria junto.
Em sua mente Sally viu a casa de Adam, o pátio com a árvore copada, Sheila, Abe,
Adam e Vanessa sentados na grama, conversando e rindo alegremente. Depois viu a
sala, as poltronas diante da lareira e eles sentados lá planejando a viagem a
Purumaxi. Adam
ia viver pensando em como seriam maravilhosos os dias ali com Vanessa! Devia
estar sofrendo!
— Aliás. . . — Sheila hesitou — eu fiz o retrato dela de memória quando cheguei
aqui.
— Ela é muito bonita — disse Sally, com uma ponta de ressentinto na voz.
— Pensei em dá-lo a Adam — continuou Sheila.
Sem dúvida seria um lindo presente para Adam, o retrato da mulher que ele amava!
— O quadro está aqui?
— Está sim. Não quis mandá-lo para a exposição, é muito pessoal. . .
Sally entendeu o que Sheila queria dizer com isso quando viu o quadro. Ela pintara
Vanessa de frente, com jóias e adornos
Incas, magnífica como uma princesa, e lindíssima,
com os cabelos loiros como se fossem de ouro.
— Coya Pasca. . . — murmurou Sally.
— Você conhece a história da noiva do deus Sol?! É. . . achei que Adam gostaria
da ideia. Agora não sei o que fazer com isso.
— Ele não viu o quadro?
— Não! É claro que não.
— Pois acho que ele gostaria muito. Eles ainda são bons amigos.
— É mesmo? — Sheila olhou-a com ar de interrogação e murmurou: — Bem que
eu estava reconhecendo a letra nos envelopes.
Adam recebera uma pilha dê cartas quando o helicóptero passou por lá. Sem
dúvida Vanessa lhe escrevera e ele respondera. É lógico que gostaria de ficar com aquele
quadro!
— Eu acho que o quadro está maravilhoso. Realmente você tem muito talento.
Sally imediatamente sentiu alívio de não ter feito nada, nem tê-lo chamado para
ficar com ela na noite anterior. Se Adam tivesse feito amor com ela, seria apenas
pelo prazer do momento, não significaria nada mais que isso para ele. Concluiu
que enquanto estivessem ali, poderiam ser bons amigos apenas. E era bom ficar atenta
para que não acontecessem coisas de que pudesse se arrepender depois.
-Quando Adam voltasse para Vanessa tudo o que tivesse acontecido em Purumaxi ficaria
para trás.
Depois do jantar, Sally ficou jogando com Cari no refeitório. Como nem Ramon nem
Juan apareceram para levá-la passear, achou melhor ficar ali do que sair sozinha.
Adam estava lendo um livro e quando o jogo terminou, com a vitória de Cari, ele
ergueu os olhos para Sally.
— Bem, acho que vou para meu quarto — disse ela. — Ainda quero escrever um
pouco antes de dormir.
Disse boa-noite para todos e retirou-se, mas Adam levantou-se e aproximou-se
dela.
— vou trabalhar, Adam, não precisa ficar lá de novo.
— vou levá-la até sua casa.
— Por quê? Acha que alguém pode me agarrar no caminho? -. ela riu.
— Quem sabe...
Adam parou diante dos degraus e ficou vendo-a subir e atravessar o terraço em
direção ao quarto.

Livros Florzinha - 67 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Quando saiu do alcance da vista dele, encostou-se na parede, sem fôlego, como
se tivesse subido correndo. Se ela o tivesse convidado para subir, ele a teria
acompanhado.
E quase fez isso, mesmo, teve que morder os lábios para que as palavras não
saíssem. E agora estava lutando contra o desejo de correr atrás dele e chamá-lo.
Entrou no quarto e acendeu o lampião. Sentou-se à mesa, com a caneta na mão,
diante do diário aberto, mas não sabia
o que escrever.
Quando bateram na porta ela se sobressaltou e se ergueu tão impetuosamente que
o
banquinho caiu. Escancarou a porta, ansiosa, e deu com Ramon. A decepção foi
como
um balde de água fria em seu entusiasmo.
— Gostaria de conversar com você — disse ele. — Mas não agora.
— Por que não? Você está sozinha hoje, não está?
Ela ignorou a insinuação. Ele devia ter ficado observando quando ela entrou
sozinha e Adam foi embora.
— Olha, você está vendo... eu estou trabalhando. Mas Ramon não via mais nada,
olhava fixo para Sally.
— vou lutar para conseguir você.
— Não vai não.
Se Ramon continuasse a importuná-la daquele jeito, ela teria que ir embora com o
primeiro helicóptero que pousasse ali. Não
queria causar mais problemas, era melhor
resolver isso sozinha. Só recorre ria a Adam em último caso. Virou-se para Ramon
e disse, brusca mente:
— Adam ouviu uma conversa entre você e Juan. Vocês estavam falando de mim.
— Ela percebeu que o atingira. — Ele não
gostou nem um pouco. Disse que vocês estavam
me interpretando mal e que era melhor eu me manter afastada. Acho que ele tem
razão.
— Você e ele estão de caso, não é? — Ela encolheu os ombros
sem dizer nada, e ele interpretou como resposta afirmativa. — Mas, veja bem, eu
posso lhe dar muito mais do que ele! Ela riu com desprezo.
— Você deve estar brincando!
— Meu pai... — começou ele, mas Sally completou:
— ... pode comprar tudo o que você quer. Mas não eu. Eu sou um ser humano,
uma jornalista preocupada com minha profissão e não quero absolutamente nada do que
você
possa me oferecer.
E fechou a porta na cara dele. Talvez não precisasse ter sido tão rude e tê-lo
magoado assim, mas é que estava decepcionada de não
ter encontrado Adam quando abriu a porta. Ficou arrependida, mas
logo pensou que Ramon era muito mimado e acostumado a ter tudo
que queria, e uma recusa de vez em quando não lhe faria mal. E
seria bem-feito, para ele parar de fazer comentários maldosos a seu
Respeito.
Odia seguinte era domingo e a rotina se alterava. Em geral os homens iam caçar,
na selva, fora das muralhas de Purumaxi. Passaívam o dia todo longe e só voltavam
ao anoitecer. Sally ficava com Sheila, que por sinal atirava muito bem e sabia
manejar as armas, mas não acompanhava os homens. Das outras vezes Ramon e Juan
também

Livros Florzinha - 68 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
tinham ficado com elas, mas esse dia foi diferente.
Pela primeira vez Adam ficou e Juan, Ramon e Sheila foram caçar com os outros.
Sally não se atrevia a ir pois não sabia manejar a arma ,.e nem queria aprender. Ficou
trabalhando no escritório de Cari. Estava tudo em silêncio, o grupo partira já há
uma meia hora. Sally terminou de datilografar uma folha de papel, e a estava
tirando da máquina, quando de repente sentiu que estava sozinha. Era uma
sensação estranha, agradável e excitante.
Não havia vozes, nem o menor ruído. Olhou pela janela e não viu
ninguém. Todas as cabanas estavam fechadas. Adam devia estar em
algum lugar, pois ela sabia que ele ficara, mas quando foi até a praça
sentiu-se como se a cidade fosse sua, como se a tivesse descoberto
sozinha.
Foi andando pelo caminho que conduzia à área onde estavam derrubando a mata.
Os únicos sons eram o cantar dos pássaros, o zumbido de ínsetos e o ruído produzido
por um grupo de macacos.
Na verdade Sally não queria ficar andando por ali, sozinha. Queria encontrar Adam
e pedir que a levasse para ver o "Palácio da Serpente". Num dado momento olhou
para trás e viu que ele caminhava em sua direção. Parou onde estava e o esperou,
sorrindo.
— Não quer me acompanhar? — perguntou ela.
— Estava indo a algum lugar interessante?
— Estava procurando você. Onde estava?
— No templo. É o melhor lugar para se ver a cidade.
— Você viu mais alguém lá de cima? — perguntou ela. — Não tem mais ninguém
na cidade?
Adam fez que não com a cabeça e ela se sentiu contente por eK ter ficado.
— Sabe, estava fingindo que eu tinha descoberto Purumaxi, sozinha
— disse ela, em tom alegre -, mas acho que prefiro ter companhia: é melhor.
— Sem dúvida.
Sally achou que ele devia estar pensando em Vanessa. Talvez esti vesse
desejando que ela estivesse ali, ao lado dele, naquele momento. Poderiam ficar a sós e
desfrutar
juntos dos encantos de Purumaxi. É claro que preferiria estar com Vanessa!
Estavam chegando perto da área ainda encoberta pela selva. Ela olhou para ele e
disse:
— Você prometeu. . .
— Está bem, considere-se minha convidada.
Ainda havia musgo e fungos sobre as partes da construção que já estavam
expostas. As paredes estavam cobertas de verde e ao redor a vegetação era exuberante.
Não era muito seguro caminhar por ali, por isso eles se mantinham no caminho
estreito que os homens já haviam limpado. Sally tinha a impressão de estar entrando
numa região mal-assombrada. Atrás daquelas paredes e na beira do caminho
estavam os mortos.
Entre as descobertas já feitas não havia sinal de batalhas e não se sabia ainda
como a civilização acabara. Talvez fosse uma epidemia ou algo assim que tivesse
exterminado
todos. Mas os ossos humanos encontrados eram tão poucos, até então, que era
como se a cidade tivesse sido abandonada por seus habitantes. Talvez algumas tribos da
região Tossem descendentes dos antigos habitantes de Purumaxi. E a cidade
vazia, devorada pela selva, ficara esquecida.
A expedição chefiada por Cari, há quatro anos, tivera muito tra balho e fizera várias
investigações até que encontrassem alguém

Livros Florzinha - 69 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
que tivesse visto uma parte da muralha
de Purumaxi. Fora penoso e difícil e a emoção da descoberta devia ter sido grande.
Adam participara de tudo, era lógico que quisesse voltar e trazer Vanessa. Mas
agora quem estava ao lado dele era Sally, e ela se perguntava se ele não a estaria
odiando por isso.
O palácio, tal como o templo, ficava no centro de um pátio qua
murado. Haviam aberto uma picada até lá, mas a copa das árvores ao redor
formava um túnel que mal filtrava os raios de sol.
A parte da cidade que ela conhecia era totalmente diferente. Era uma clareira
aberta, cheia de sol, onde o ar circulava livremente. Ali, não. Tudo era escondido,
sinistro e aterrador. Sally sentiu um arrepio.
Passaram por uma coluna de pedra, esculpida com a figura de uma mulher.
— Um oráculo — explicou Adam.
Sally tremeu, apesar do calor. Quantos segredos essas paredes não esconderiam!
— Você está bem? — perguntou Adam.
— Acho que é o calor... — Ela forçou um sorriso, e acabou admitindo. — É a
sensação estranha que me dá esse lugar. . . parece
que há algo escondido aí dentro. . .
— Só algumas ferramentas — garantiu ele. — Estamos restaurando
as paredes.
— Não estava pensando em animais selvagens, mas nos Incas.
Quando chegaram na entrada do palácio ela parou e ficou olhando
para o topo dos degraus, como se estivesse hipnotizada. Lá dentro
devia estar cheio de cobras. Adam pegou-a pelo braço e ela se deixou
levar lentamente, subiu os degraus e atravessou a entrada formada por
colunas. Viu-se num pátio enorme ainda cheio de mato e musgo e
ficou imaginando o esplendor que deveria existir quando os Incas
viviam ali.
— Era aqui que morava a princesa Inca? — murmurou Sally.
— É, mas não como Sheila a pintou.
Por que falara em princesa e não rei ou imperador? Será que por
estar pensando em Vanessa? Mas então ele também estava. Sheila
Kizera o quadro representando esplendor e riqueza, embora soubesse
que não havia mais ouro quando os Incas construíram Purumaxi.
— O que pretende fazer com o quadro? Dar a Vanessa?
— Talvez.
Adam poderia querer guardá-lo para ficar admirando-o. É certo
que não poderia colocá-lo em lugar visível para não despertar
comentários maldosos, mas poderia guardar só para ele, como um tesouro.
Sally não ousava olhar para Adam.
— O que você disse a Sheila? — perguntou ele. — Ela me deu o quadro.
— Disse que vocês ainda eram amigos.
— E que você viu Vanessa na minha casa naquela manhã? -
Ele falava com suavidade, bem perto dela, mas havia um tom de
ameaça subjacente.
— Não! Não disse!
De repente Sally percebeu que estava sozinha com ele, num lugar perigoso, onde
qualquer coisa que lhe acontecesse poderia parecer
um acidente. Se Adam quisesse
se livrar dela, essa era uma ótima oportu nidade. Ninguém iria ali até o dia
seguinte. E acabar com ela
poderia significar muito para ele e para Vanessa.

Livros Florzinha - 70 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Sentiu o mesmo terror que sentira aquela noite, no pesadelo. A situação era a
mesma. Quando sentiu a mão de Adam tocá-la, ela sivirou e quis gritar, mas a voz não
saiu e sem saber por que começou a correr.
Precisava fugir dele, sair dali, era a reação instintiva de um animal fugindo de seu
perseguidor. Ouviu quando Adam gritou seu nome, mas nada a detinha. Corria às
cegas em pânico, afastando com os braços os galhos e folhas que surgiam no
caminho, até que caiu, sem fôlego, ofegante, tal como no pesadelo.
Sentiu o rosto contra o musgo e gosto de sangue na boca. Ele a alcançou e
ajudou-a a erguer-se, enquanto ela, sentada no chão, o olhava assustada.
— Está tudo bem — disse ele. — É melhor sairmos daqui.
Ela levou a mão aos lábios e depois olhou a ponta dos dedos manchados de
sangue. Adam estava calmo, até sorria, e falou:
— É um lugar horrível, não é?
O "Palácio da Serpente" parecia uma grande tumba verde e era de apavorar
qualquer um. Ele devia estar pensando que fora por isso que ela
fugira.
— Mas não precisa sair assim — disse ele. — É melhor voltarmos pelo mesmo
caminho,
.
Sally não sabia onde estava. Correra sem direção.
— Você não é médium, é? — Ele sorria, tentando fazê-la rir. Pensei que tivesse
visto um
Inca!
Ela balançou a cabeça, negando, e finalmente recuperou a voz e conseguiu falar.
— Eu pensei que você estava com intenção de me matar.
— O quê?! O que você disse?
— Assim você ficaria livre de mim e eu não poderia mais contar a ninguém que vi
Vanessa na sua casa.
— Mas quem meteu esta ideia maluca na sua cabeça?
— Vanessa. No aeroporto, quando se despediu de mim, ela disse: "Espero que
volte inteira", e vocês dois trocaram um olhar. . . e você me olhava tão ferozmente que
achei que seria bem capaz de me matar mesmo.
Mas o rosto dele agora era suave e estava com ar de riso.
— Sua maluca! Seria culpa sua se você não saísse daqui inteira.
Será que não percebe que correr num lugar como este é o mesmo
que correr num campo minado de bombas?
Ela sabia disso, mas naquele momento ficara com tanto medo dele
que nem pensara na possibilidade de pisar num ninho de cobras ou
Kair num fosso escondido entre as ruínas.
— É claro que prefiro que você não saia por aí falando sobre
anessa — disse ele. — Mas se fizesse isso, eu poderia simplesmente dizer que
você estava me difamando, porque estava com raiva de eu tê-la despedido por
incompetência.
Portanto o único mal que poderia causar seria a você mesma. — Ele afagou de
leve, com a
ponta do dedo, o nariz dela. — Não acho que eu me daria ao trabalho
de assassinar você.
E Sally se sentiu a maior tola do mundo. Seus lábios tremiam e a
mão dele acariciava suas faces. Agora que passara o pânico e a tensão,
fela se sentia fraca.
— Puxa, eu queria tanto ver esse palácio e agora estou louca
para sair daqui!

Livros Florzinha - 71 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Adam deu a mão para ajudá-la, mas, assim que tentou levantar-se,
ela caiu de joelhos, pálida e suada.
— Ah, meu Deus. . . desculpe, mas acho que torci o tornozelo. Ah,
Adam, não vá me deixar sozinha aqui!
— Não me tente -: brincou ele, sorrindo.
— Que besteira! Falei por falar. . . é claro que não acredito que
você faça isso. É que estou nervosa. Que lugar para acontecer uma
coisa dessas, puxa!
Ele tirou a bota dela, e Sally cerrou os lábios para não gemer
quando Adam examinou o tornozelo.
— Nada quebrado — disse ele. — Foi uma distorção e está
inchando.
Ele lhe devolveu a bota e pegou-a no colo. O rosto dele ficou bem
tperto do seu e Sally passou o braço por trás do pescoço de Adam.
Em poucos minutos estavam de volta ao caminho e ele foi andando e conversando
com naturalidade, como se não a estivesse carregando. Talvez quisesse distraí-la
para ela não pensar na dor.
Mas não era a dor que a estava incomodando. Seu corpo todo parecia estar em
chamas, sentindo o contato do corpo de Adam. E uma força estranha a atraía para mais
perto dele. Olhava seus lábios, que se moviam enquanto falava, e desejava senti-
los sobre sua boca. Tinha uma vontade irresistível de acariciar a nuca onde sua mão
estava apoiada. Desejou que ele a estivesse carregando para um quarto; para sua
cama; para o amor! A coisa que mais desejava no mundo
era fazer amor com Adam naquele momento. Mas como não era possível, achou
melhor que a pusesse no chão. Preferia a dor de caminhar com o tornozelo machucado
àquele
sofrimento de um desejo não satisfeito. Já estavam na clareira de novo.
— Acho que já pode me pôr no chão. Não seria melhor você ir buscar a bengala de
Lewis? Eu espero aqui.
Adam não hesitou em colocá-la no chão.
— Eu sou muito pesada?
— Não. Foi muito agradável, mas se você não se importa acho melhor arranjarmos
outro meio de transporte.
Ela ficou num pé só, encostada numa árvore, enquanto ele trazia um carrinho de
mão que era a única coisa disponível por ali. Ele a ajudou acomodar-se e depois começou
a empurrar o carrinho.
— Você pensou mesmo que eu fosse liquidar você?
— Bem. . pensei sim.
— E mesmo assim você veio?
— £. . . pois é. Eu não queria perder a oportunidade de conhecer Purumaxi.
Ele empurrava com cuidado, evitando passar em buracos.
— Estou contente que você tenha vindo.
Sally também estava. . . e muito. Ainda tinham dois meses pela frente e naquele
momento lhe pareceu que muita coisa aconteceria nesse tempo.
Ele parou em frente ao refeitório e ela desceu, apoiando-se em seu peito.
Entraram, e depois de se instalarem numa poltrona, os dois examinaram de novo o
tornozelo
inchado e dolorido. Adam colocou compressas frias, enfaixou a perna de Sally e foi
buscar água e desinfetante para limpar os arranhões, e roupa para ela trocar.
Talvez estivesse se sentindo um pouco culpado, por isso cuidava dela com tanta
atenção. Mas Sally teria preferido que ele a beijasse. Adam a beijara na noite anterior

Livros Florzinha - 72 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
depois de saber sobre o caso de Tim e Meg, mas ela estava tão descontrolada que
nem correspondera Se o tivesse beijado de fato, tinha quase certeza de que ficariam
juntos. E hoje, que estavam sozinhos em Purumaxi, ele não a beijava!
Mesmo assim foi um dia maravilhoso. Adam preparou uma refeição e eles
conversaram sobre várias coisas. Ele já estivera em tantos lugares! Já vira tantas coisas!
Sally se viu fazendo perguntas como se estivesse fazendo a entrevista que não
fizera naquele dia que fora o começo de tudo. Sua vida seria muito diferente, agora,
se ela não tivesse ido à casa dele naquela manhã de segundà-feira.
Não perguntou mais sobre Vanessa, é claro. Nem sobre outras
mulheres antes de Vanessa. Também não fez perguntas sobre o futuro. Não queria
nem pensar que ela não faria parte desse futuro. Acabou contando a ele a visita
de Ramon e o que lhe dissera. EAdam disse que iria ter uma conversinha com o
rapaz.
Quando os outros chegaram, logo quiseram saber o que tinha aconKcido com
Sally. Simplificaram o incidente contando apenas que ela
torcera o pé perto do "Palácio
da Serpente".
— Você vai ter que ficar em repouso por uma ou duas semanas — disse Lewis.
O problema era que o quarto dela ficava no topo de uma escada, por isso Sheila
providenciou um quartinho minúsculo numa das cabanas, onde armou a cama de
campanha.
Sally não gostou muito, mas teve que aceitar, não tinha outro remédio. Teria
preferido que Adam se oferecesse para ficar com ela lá em cima, no outro quarto, mas
foi ele mesmo quem sugeriu mudá-la para baixo, num lugar onde posse mais fácil o
acesso.
O tornozelo machucado limitou as atividades de Sally por alguns dias. Ficava o
tempo todo no escritório de Cari. Sheila ia vê-la sempre. Os outros davam uma
passadinha rápida e trocavam algumas palavras, nos intervalos de serviço. Só
Juan e Ramon não apareciam, pois tanto ÉLdam quanto Manoel tinham-nos advertido
para
que deixassem Sally em paz.
Mas o principal era Adam. Nunca conhecera alguém como ele. Tomava conta dela
e a protegia, numa atitude totalmente diferente da
indiferenca inicial. Isto lhe
dava uma maravilhosa sensação de segurança. Ele a levava até o refeitório e
depois costumavam dar um passeio. Sally se apoiava no braço dele e na bengala que
Lewis
lhe lemprestara. Mas era uma relação de amizade.
Adam costumava chamá-la de amor, mas isso não queria dizer nada, era como um
apelido. Ele não fazia nada que demonstrasse o contrário, entretanto ela já se contentava
com a palavra. Aliás eles tinham um jeito todo carinhoso de conversar que até
parecia coisa de namotrados. Mas a relação era platónica. Afinal ele não era tão
amoral quanto Sally imaginara, e devia saber que se quisesse fazer amor, ela
não resistiria.
Adam era sensual naturalmente. Tinha uma aura de virilidade. Talvez não sentisse
atração por Sally, por isso não tentava nada. Talvez só desejasse Vanessa e
se mantinha fiel a ela porque a amava. No dia em que chegou a correspondência,
Sally não suportou ficar perto para vê-lo abrir as cartas que talvez fossem de Vanessa.
Ela recebeu cartas de vários amigos e dos tios. Meg escreveu contando que ia
conhecer a mãe de Tim, mas isso não a deixou tão
magoada quanto o fato de ver Adam ansioso por abrir o envelope da carta de
Vanessa.

Livros Florzinha - 73 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Sally vira pela janela o quadro de Vanessa no quarto dele. Sheila contou que lhe
dera e ele ficara contente. Tinha certeza de que Adam vivia adorando o
retrato.
Purumaxi se tornara um mundo diferente para Sally. A lembrança de Tim não a
magoava mais. Ali, Adam era o homem de sua vida.
Não era amor. Era um misto de atração física, admiração pela inteligência e
coragem dele e uma sensação agradável que a sua companhia lhe dava, além da
segurança
de se sentir cuidada por ele.
Quando saíssem dali as coisas certamente iriam mudar, ela não se iludia. Lá fora
estava o mundo real, Purumaxi era um lugar mágico.
Mas Sally tinha ciúmes do retrato de Vanessa. Era por isso que Adam não ficava
com ela. Às vezes, eles subiam e entravam no quarto
— Sally já voltara para o antigo quarto -, mas apenas conversavam. Ele a ajudava
a esquematizar as anotações que escreveria em forma de reportagens quando fossem
embora.
E isso era ludo; ele não insinuava o menor desejo de fazer amor. Talvez livesse
medo de que Sally se envolvesse demais e que não soubesse
enfrentar a situação. Entrelanto,
ela sabia que não perderia a cabeça, que não podia chegar e dizer que
sentia atração por ele, e que sabia que o relacionamento só duraria enquanto
estivessem em
Purumaxi, mas mesmo assim queria ser sua amante. Sem compromisso e sem
condições. Quando fossem embora simplesmente se separariam sem exigências mútuas,
mas enquanto
estavam ali ela queria ser amada por ele. Sally tentara insinuar, mas Adam não
entendeu as indiretas e ela não teve coragem de ser mais explícita. Tinha medo de
estragar o relacionamento que tinham.
Naquele dia em que a correspondência chegou, Sally ficou o tempo todo remoendo
o que Vanessa poderia ter escrito a Adam, mas à tarde ele entrou no escritório, calmo
e alegre.
À noite Ramon ficou tocando violão e cantando, enquanto ela e Adam passeavam
ouvindo a música ao longe. Falavam sobre as cartas recebidas e de repente Sally não
se conteve.
-— Como vai Vanessa?
— Muito bem, obrigado.
— com saudades de você, não é?
— É o que ela diz.
Ela sentiu um nó na garganta e os olhos inundados de lágrimas. A música a
deixava emocionada.
— Tim também toca violão. . . — Adam apenas olhou para ela e
não disse nada. — Meg me escreveu, ela vai conhecer a mãe de Tim, Eu gostava
da mãe dele. Ela dizia que eu era a filha que queria ter tido.
— Pelo menos ela demonstra ter mais bom gosto do que o filho. — Lá fora parece
um outro mundo — disse ela. — Tudo é tão diferente aqui, até o céu.
— E é mesmo um outro mundo. Só mais três semanas e nós estaremos de volta a
ele.
Se Adam pensou que ela estava com saudades de casa estava muito
enganado. Não queria mais ir embora de Purumaxi.
— Eu vou continuar a trabalhar para você, depois?
— Se você quiser.
— Quero sim.

Livros Florzinha - 74 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Ela desejou que Adam pegasse sua mão e parasse de falar em ir
embora, mas ele apenas disse, como se tratasse de negócios:
— Para onde vai quando formos embora?
— Para a casa de meus tios.
E — Vai precisar de umas férias e eu vou precisar ficar em Nova
Iorque algumas semanas. Telefonarei para você depois.
— vou ficar esperando.
É claro que ele ia ver Vanessa. Ainda bem que Sally não estava
apaixonada por Adam, senão ficaria desesperada.
As últimas semanas passaram voando. Sally não queria admitir que era o fim.
Estava integrada na rotina e se sentia parte do grupo. — Gostaria de poder continuar
lá. Cari brincou com ela perguntando se Adam não queria deixá-la trabalhando com
ele, e Adam respondeu que não.
— Só que eu não poderia pagar nada — disse Cari. — A verba aqui é pequena.
Teria que trabalhar por amor. . . é claro que estou em desvantagem com Adam.
Sheila terminou o retrato de Sally, que ficou muito bonito. Ela conseguiu retratar
uma expressão de felicidade no rosto de Sally que a deixava linda.
— Parece que estou no paraíso.
— E você não está? Você tem sido feliz aqui — disse Sheila.
— É, tenho sim.
— Vai se lembrar de Purumaxi para sempre.
Não adiantava Sally repetir que seu relacionamento com Adam era meramente
platónico, Sheila não queria acreditar nela. O quadro era um presente de despedida, as
duas tinham se tornado muito amigas e Sheila disse que sentiria saudades.
Naquele momento estavam no estúdio e Sally pensou que seria bem mais fácil se
ela tivesse gostado de Ramon em vez de preferir o mais difícil.

CAPITULO VIII

No último dia em Purumaxi houve uma comemoração, como na sua chegada.


Fizeram um jantar especial, com vinhos, e até discurso. Quem falou foi Adam, dizendo
quanto
ele e Sally tinham apreciado aqueles meses trabalhando na companhia de todos.
Cari fez os agradecimentos em nome do grupo e retribuiu os cumprimentos.
— E não demore tanto para voltar de novo. Quatro anos é demais! Esperaremos
você no ano
que e vem, na mesma época — disse Cari.
— E nós voltaremos — respondeu Adam.
Sally ficou imaginando se aquele "nós" incluía ela ou não, mas como foi o que
todos entenderam, sorriu e fingiu acreditar que sim, embora duvidasse.
Todos estavam gentis de modo especial esta noite, até mesmo
Ramon e Juan. Sally tinha certeza de que ia sentir saudades de todos.
Parecia impossível que esta fosse sua última noite em Purumaxi. Ela
se acostumara tanto a subir aqueles degraus entalhados na pedra, a
dormir naquele quarto improvisado!
Quando chegaram ao pé da escada Adam disse boa-noite, como fizera tantas
vezes.
— Você. . . não quer subir? — disse ela, com voz gutural. Nunca dissera isso,
dessa maneira, tão tarde da noite. Só havia

Livros Florzinha - 75 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
uma interpretação para esse convite e ela se arrependeu de ter falado. Fizera uma
tolice. Se ele quisesse passar a última noite com ela, não precisaria ser convidado.
Agora, lá estava Adam sem saber como recusar o convite, sem que Sally se
sentisse rejeitada. E agora? Mas o que fizera? Estava mendigando? Olhou para ele com
um
sorriso triste.
— Estou com medo de voltar. Para mim isso aqui foi uma saída maravilhosa para
meus problemas. Não quero acordar e descobrir que é o amanhã, e que o helicóptero
está
aqui. Por mim, ficaria
conversando a noite toda! Mas você não está com vontade de subir e passar a
noite conversando, não é?
— Você não tem que ter medo — disse ele.
Depois abraçou-a de leve e deu-lhe um beijo rápido e suave. Ela ficou sem fazer
nada, pois já se expusera demais.
— Boa noite — repetiu ele e se foi.
Sally ficou vendo-o se afastar, voltar para a sua cabana e para o retrato de
Vanessa. Teve vontade de rasgar aquela tela. Depois se abaixou e pegou uma pedrinha
do chão, pois queria levar um pedacinho de Purumaxi com ela.
Ouviu ruído de passos e viu Ramon aparecer, mas era tarde demais para subir a
escada. Afinal não havia por que temer falar com ele, que se mostrara gentil e amável
durante o jantar.
— Então é assim que vai ser de hoje em diante, hein?
— O quê?!
Ele devia ter visto a cena, devia tê-la ouvido fazer o convite e Adam recusar e ir
embora.
— Ora, boa noite — disse ela.
Virou-se para subir a escada, mas ele se colocou na sua frente, impedindo a
passagem.
— Ele vai embora amanhã, mas você não precisa ir. Já o perdeu mesmo... E eu
estou louco por você. Fique aqui... e hoje à noite nós podemos. . . você e eu...
Ele a segurou com força, pelos braços, e tentou puxá-la para si, enquanto ela se
debatia, furiosa.
— Ora, saia do meu caminho! Eu não vim para cá à procura de um homem, vim
para trabalhar!
— E agora pretende voltar para escrever reportagens e o livro que a tornarão
famosa?
Ele falava com sarcasmo e petulância. Sally sabia que não tinha chances de
alcançar a fama e nem era o que pretendia, mas falou:
— É justamente o que vou fazer! E agora pare de me aborrecer e me deixe passar.
Ramon saiu da frente e ela subiu, brava mas sem pressa, entrou no quarto e
trancou a porta. Podia ter passado sem essa! Aliás, o fim da noite estava totalmente
estragado!
Ela praticamente se oferecera para Adam e ele recusara!
Apertou com força a pedrinha que pegara do chão e depois olhou para ela. Isso
seria tudo o que lhe restaria de Purumaxi. Ramon tinha razão. Adam estava perdido para
ela. Não havia nada que pudesse fazer para atraí-lo de volta.
Ficou olhando a lágrima que caiu sobre sua mão. Não tinha percebido
que estava chorando. Fechou os olhos com força e engoliu as lágrimas, pois chorar
não resolveria nada.
No dia seguinte foi uma correria desde a hora em que se levantou. Não por causa
da bagagem, que já estava pronta desde a véspera, mas porque queria ver tudo de novo

Livros Florzinha - 76 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
antes de sair de Purumaxi para sempre.
— Pelo amor de Deus, acalme-se — disse Adam, rindo dela.
— vou ter bastante tempo para ficar calma, sentada quietinha, na viagem de volta.
Quando chegou a hora de partir, estava ciente de que seria pouco provável vê-los
de novo. Era uma comunidade bastante unida, com um objetivo comum e Sally se
envolvera
integralmente com o grupo. com relação a Ramon, não guardava rancor e, pelo
jeito, nem ele. pois sorriu para ela quando se despediram.
Sheila foi com eles até Quito, tratar da exposição de seus quadros e passar uns
dias com amigos, mas ficou com Sally no hotel, na última noite antes de embarcarem.
Estavam no mesmo quarto. Sheila já estava deitada lendo uma revista e Sally
resolveu pegar seu caderno para fazer as anotações do dia. Isso já se tornara um hábito.
Talvez continuasse escrevendo um diário, mesmo depois de estar em casa. Abriu a
valise de mão, onde o guardara, e não encontrou o caderno. Tirou tudo do lugar,
examinou
bem, mas não o achou, embora tivesse certeza de tê-lo guardado antes de sair de
Purumaxi. Os outros cadernos, que já estavam preenchidos, ela guardara em uma das
malas. Saiu da cama, imediatamente, abriu a mala e levantou as coisas que
estavam dentro. No fundo havia colocado cinco cadernos cheios de anotações, mas não
havia
nada lá. Abriu a outra mala, talvez tivesse se enganado.
— O que é que você tanto, procura? — disse Sheila.
— Meus cadernos. Eu fiz anotações de cada dia!
— Será que você não os esqueceu? Você precisa deles com urgência, não é?
— Não é possível ter esquecido! São muito importantes para mim. Foi a primeira
coisa que guardei! Coloquei todos nessa mala e o último, que ainda estou escrevendo,
deixei na valise de mão.
— Mas então, onde foram parar? -— Não sei. Não faço ideia!
— Eles seriam de utilidade para alguma outra pessoa?
— De jeito nenhum!
— Então você deve ter esquecido, mesmo. — Sheila riu. — Você estava tão
agitada hoje de manhã, que não seria de estranhar se tivesse
106
esquecido a cabeça! Será que não estão na bagagem de Adam? Por que não
telefona para ele e
pergunta?
— Eu sei que não estão — disse Sally, mas-mesmo assim pegou o telefone e pediu
o número do quarto de Adam. — Por acaso você não viu os meus cadernos?
— Não os vejo desde a semana passada — disse Adam. — Não me diga que você
os esqueceu!
— Eles não estão aqui, mas eu tenho certeza de que os guardei na mala!
— Não é possível, amor. Peça para Sheila providenciar que eles sejam
despachados para você.
— Ele disse se você pode despachá-los para mim — disse Sally, desligando o
telefone.
— claro! — respondeu Sheila.
Sally ficou desolada, mas subitamente exclamou, quase gritando:
— Ramon! Aposto como ele tem algo a ver com isso!
— Mas pra que ele havia de querer seus cadernos?
— É que várias vezes eu praticamente disse a ele que preferia meu trabalho.
Ontem à noite foi falar comigo, me pediu para ficar á e, como eu recusei, começou a falar

Livros Florzinha - 77 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
com sarcasmo do meu trabalho dizendo que eu queria ficar famosa. E aquele
sorriso convencido que me deu na hora da despedida era como se me dissesse: "Ri
melhor
quem ri por último!".
— Ah, isso, seria infantilidade. Ele não é mais criança, não ia entrar no seu quarto e
surrupiar seus cadernos que nem um moleque!
Mas Sally sabia que ele era capaz disso, tinha certeza de que fizera isso, embora
soubesse que ninguém iria acreditar nela. Todos a tinham visto correndo de um lado
para o outro a manhã toda, e achariam normal que tivesse perdido os cadernos em
algum lugar e ninguém iria se preocupar, afinal não continham fórmulas científicas
ou descobertas importantes. Era azar, mas teria sido pior se tivesse perdido o
passaporte. Era o que Sheila estava pensando, e o que todos pensariam.
Sally estava quase certa de que nunca mais veria esses cadernos. Isso iria tornar
bem mais difícil escrever os artigos que pretendia sobre Purumaxi. Mas o que mais
lamentava eram as lembranças que eles continham e que, ela esperava, fossem
preencher sua solidão. Ah! Se Ramon soubesse o mal que lhe fizera! Talvez mais tarde
se arrependesse, ele não era mau, mas então talvez fosse tarde demais.
Devia ter feito uma bela fogueira de suas preciosas anotações.
Na manhã seguinte Adam falou:
— Mas que cabeça a sua, hein? Como foi esquecer uma coisa destas!
Era inútil tentar convencê-lo, ela não podia provar nada, portanto não adiantava
ficar acusando Ramon.
— Agora vou descobrir se minha memória é boa ou não — disse ela, apenas.
Adam deu-lhe um gravador e várias fitas.
— Pode transcrever o que está aqui, se quiser. Isso pode ajudá-la
— disse.
Quando chegou ao aeroporto de Londres tudo o que lhe restava era a voz de Adam
gravada na fita. Ele ficara em Nova Iorque, prometendo lhe telefonar dentro de dez
dias. Ela o veria de novo, mas seria diferente. Pensar que estava indo ao encontro
de Vanessa causava-lhe
uma mágoa insuportável. É verdade que tinha negócios a tratar
em Nova Iorque e era isso o que ela diria a quem perguntasse.
Não havia ninguém esperando por Sally no aeroporto. Nem repórteres, nem
amigos. Ninguém sabia que ela estava chegando. Tudo o que queria era ir para casa.
Quatro horas mais tarde, depois de uma viagem de trem, desceu de um táxi na
porta de casa, exausta. Quando tia Esme a viu, desatou a chorar de alegria. Tio Edwin
pagou o táxi, enquanto a tia a levava para dentro, confessando quanto ficara
preocupada aquele tempo todo, com medo de que algo pudesse acontecer à sobrinha.
-. Ah, deixe-me olhar para você. .. — disse a tia.
— Mas não olhe muito de perto. . . estou um horror!
Ela fora ao cabeleireiro no hotel de Quito, para melhorar um pouco a aparência,
mas mesmo assim o cabelo estava mais claro, por causa do sol, e um pouco ressecado.
A pele também estava precisando de cuidados, pois tomara muito sol. E acima de
tudo estava morta de cansaço. Estava com olheiras e a fadiga da longa viagem era bem
visível.
— Preciso tomar um banho — disse ela.
— E comer alguma coisa também — acrescentou a tia. — Seu quarto está
arrumado.
— Obrigada, tia, agora vou tomar banho, depois vou descansar. Vamos ficar só nós
três, aqui, sossegados.
Mas sua tia fez um bolo e também telefonou pra todo mundo, dizendo que você
chegou — disse o tio, ao ouvir o telefone tocar.

Livros Florzinha - 78 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Ah, hoje não! Diga que mando lembranças mas estou muito cansada. Melhor
deixar para amanhã.
— É, chegou sim — falou o tio, atendendo o telefone -, mas está muito cansada.
Ela liga pra você amanhã. — Desligou e virou-se para Sally. — Era Meg.
Sally estava subindo a escada quando ouviu a voz da tia.
— O que é isso, minha filha? Era o quadro, bem embrulhado.
— É um presente, lembrança de Purumaxi. Não lembra que eu escrevi contando
que Sheila estava pintando meu retrato?
Foi bom ver de novo o seu quarto, com tudo no lugar. Pela janela viu o jardim. Era
outono e as folhas secas começavam a cair das árvores. Só restavam algumas
rosas.
Tirou a roupa eabriu a água quente para encher a banheira. Depois desceu,
vestindo o roupão de toalha sobre a calcinha e o sutiã, e com o cabelo enrolado
numa toalha. Agora estava se sentindo melhor.
— Não vem ninguém aqui hoje, não é? Posso ficar assim? Sally sentou-se para
comer. Não estava com apetite, mas não podia decepcionar a tia que preparara com
carinho aquele lanche. Foi comendo devagarinho, estranhando o sabor das coisas
que não provava há tempo, enquanto os tios a observavam, felizes. Em seguida
foram para a sala de estar. O retrato de Sally estava sobre o consolo da lareira, o
tio providenciaria para pendurá-lo, no dia seguinte.
— Você parece tão feliz! — disse a tia. — De que está sorrindo? — Não sei. Era
assim que Sheila me via.
Havia algo no brilho dos olhos e na expressão da face que davam a impressão de
ela estar olhando para alguém muito querido. De repente Sally teve a impressão
de que era assim que ficava quando olhava para Adam. Sentiu saudades. Não era
só o verão que estava terminando, ela estava sentindo falta do calor da presença
dele. Pensou nele com Vanessa num contato físico que ela não tivera e desejara
ardentemente, e teve vontade de gritar. Começou a falar de Purumaxi para afastar
aquela mágoa. Os dois ouviam, de olhos arregalados, com exclamações de
assombro. Sally falou de Cari e de toda a equipe, mas não entrou em detalhes quanto
a Juan e Ramon, embora a tia fizesse várias perguntas sobre todos. Ela parecia
querer descobrir alguma coisa. Sally acabou até achando graça.
Mais tarde Sally estava no quarto se preparando para deitar, quando a tia entrou e
fechou a porta. — Sabe, Tim pediu para avisar assim que você chegasse.
— A senhora telefonou para Meg?
Tia Esme ficara sabendo o que acontecera entre Tim e Meg en-
enquanto Sally esteve fora.
— É claro que não! Não sei como ela ficou sabendo. — Hesitou por um instante,
depois falou: — Ah, aqueles dois! Isso aconteceu antes de você viajar?
— É, aconteceu. Mas não tem importância, eu já não tinha certeza se gostava de
Tim, eu lhe disse, lembra?
:— E esse Adam, há algo entre vocês?
— Ele é um homem fantástico e nós nos damos muito bem, mas ele tem a vida
dele, os amigos, e tem uma garota por quem é maluco!
Isso fez com que a tia parasse de fazer perguntas e logo depois ela saiu. Sally
ficou sozinha e começou a pensar em Adam. Apesar daquele autocontrole que
demonstrava,
era tão apaixonado por Vanessa que nenhuma outra mulher conseguia apagar a
imagem dela, Lembrou-se de que ele rejeitara seu convite e sentiu uma pontada no peito.
Deitou-se e resolveu ouvir a gravação de Purumaxi. Colocou-a no gravador e ligou.
Era um relatório das informações que Cari dera no primeiro dia e das coisas que
ele mostrara. Depois de alguns instantes Sally desligou.

Livros Florzinha - 79 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Não era o momento certo para ouvir falar de Purumaxi. Estava contente de estar ali
no quarto confortável e aconchegante, mas estava com saudade de lá, e essa gravação
da voz de Adam, embora tratasse de assunto técnico, era tão perturbadora que era
impossível continuar ouvindo.
A conta de Sally no banco aumentara consideravelmente. Nunca tivera um saldo
tão alto. Mas é que Adam, conforme o combinado, deixara ordem para depositarem o
salário
dela mensalmente. E como não gastara nada durante aqueles meses, isso era
natural.
Tio Edwin achou que devia aplicar o dinheiro e a tia era de opinião que devia gastar
com ela própria: comprar um carro novo, roupas ou outra coisa assim. Sally estava
satisfeita com o velho carro mas, sem dúvida, iria comprar algumas roupas novas.
Assim que acabou de tomar o café, resolveu ir até a cidade.
Se fosse algum tempo atrás esperaria até que Meg pudesse acompanhá-la, teria
ido à loja onde a garota trabalhava, teria ido com alguma outra amiga. Agora preferia
ir sozinha. Fez compras e gastou com extravagância. Foi às butiques mais
elegantes e comprou de tudo.
Há muito tempo não comprava nada para si, só para o enxoval. A última coisa tinha
sido aquele par de sapatos que comprara na loja do homem que ela pensara ser o
amante de Meg.
Agora queria se cuidar, não podia demonstrar aos outros que a viagem a Purumaxi
a deixara feia e, quando encontrasse Adam, não queria que ele a julgasse uma mulher
desleixada. Por isso estava renovando o guarda-roupa. Queria estar linda quando o
encontrasse de novo.
Quando chegou em casa com todos aqueles pacotes, tio Edwin disse que ela devia
ter ficado maluca, mas a tia adorou ver o desfile das novidades que Sally fez em seu
quarto.
— Puxa, até parece um enxoval! — disse a tia, maravilhada.
— É, mas não é. Achei que já era tempo de eu ter umas roupas decentes, só isso.
Fiquei um tempão comprando só toalhas, louças e móveis. . . agora chega!
— Você não tem saudades de Tim?
— Não — respondeu ela, prontamente. — Acho que vou telefonar para a redação
do jornal.
Ela não estava com saudades de Tim, estava mais é sentindo falta de Adam e não
podia ficar parada, sem fazer nada. Achou que devia voltar a trabalhar logo, por isso
resolveu telefonar. Mas a tia ficou pensando que era para falar com Tim. Ainda
mais que Sally comprara tantas coisas bonitas. Talvez estivesse pensando em
reconquistá-lo.
— Alo. Sally!? — disse Fred, na redação. — Onde você está, menina?
— Em casa.
— Como é que entrou de mansinho, assim, no país? — Riu ele.
— Ora, eu não sou nenhuma personalidade — disse Sally. — Não havia ninguém
esperando por mim no aeroporto.
— Você voltou sozinha?
— Adam ficou em Nova Iorque tratando de negócios, deve chegar dentro de alguns
dias.
— Tem umas fotos aqui da sua despedida que ficaram ótimas! Por que não vem
até a redação? Assim a gente pode tirar outra foto para provar que você está de volta.
— Está bem, amanhã dou um pulo aí.
Sally ouviu a voz de Karen perguntando quem era e, quando Fred respondeu, ela
quis falar. Quase imediatamente pegou o fone e já foi falando.
— Oi, o que houve por lá? Você se casou ou. ..

Livros Florzinha - 80 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Ou nada!
— Não adianta que você não me engana. vou esperar você aqui e quero ouvir a
história direitinho, viu?
Havia muita coisa para contar a todos sobre Purumaxi, mas nada sobre Adam e
sobre o que Karen estava imaginando. Entretanto Sally sabia que iam continuar achando
que existia algo entre os dois, por-
que ninguém iria acreditar que a relação deles tinha sido simplesmente platónica.
— Você não quer falar com Tim? — perguntou Karen.
— Não, obrigada. Amanhã eu vejo todos vocês.
Sally desligou o telefone e falou para a tia, que estava tirando o pó da sala de
estar:
— vou até Radchester amanhã. Fred quer que eu tire uma foto, para publicar algo
sobre minha chegada.
— Ah, por falar nisso, lembrei de uma coisa.
Tia Esme abriu a gaveta do móvel da sala e trouxe uns recortes de jornal, com
fotos de Adam e Sally no aeroporto de Londres, no dia da partida para Purumaxi.
Sally examinou todos eles, achou que não estava bem nas fotos, leu as legendas e
comentou:
— Parece que foi há tanto tempo!
Naquela noite começou a ouvir as fitas gravadas, sentada diante de uma pequena
escrivaninha, enquanto a tia costurava e o tio lia o jornal. Adam era objetivo para
falar. Não gastava palavras à toa. Não havia descrição ou opiniões pessoais sobre
o grupo de Purumaxi. Só informações precisas. Estava ouvindo o gravador quando
a campainha da porta provocou-lhe um sobressalto.
O telefone tocara o dia inteiro. Meg não ligara mais, mas vários amigos telefonaram
querendo saber notícias e Sally repetiu centenas de vezes as descrições da cidade
perdida na selva. As visitas eram duas amigas, que tinham sido colegas de escola
e ficaram conversando até tarde. Quando foram embora já era hora de dormir.
Sally subiu levando o gravador e as fitas e ficou ouvindo no quarto, enquanto
tomava notas. O primeiro impacto de ouvir a voz de Adam já passara e agora estava
empenhada
apenas em transcrever as informações, como se ouvisse a voz de um estranho.
Antes de dormir, sem saber por que, resolveu ouvir a última gravação. Obedecendo
a um impulso, colocou no gravador a última fita no lado dois. Era sobre o "Palácio
da Serpente". Começava com uma descrição do lugar, falava da descoberta, à
medida que iam abrindo a clareira na selva que o encobria. E de repente ele disse:
"Que pena que você esqueceu seus cadernos!"
Sally espantou-se. Ele devia ter gravado isso no quarto do hotel, em Quito, depois
que ela lhe telefonara. E Adam continuou a falar, dirigindo-se a ela. Sally agarrou
o gravador com as duas mãos, como se tivesse medo de que as palavras
escapassem.
"Não se preocupe muito por causa disso" — continuou ele. — "Eu fiz este relatório
e além disso tenho boa memória. Podemos reconstruir
tudo, dia a dia, se você quiser. Nós dois juntos não deixaremos
escapar nada."
Ela desligou. Precisava parar para pensar naquilo. Pelo que ele
estava dizendo, eles iriam reviver tudo o que acontecera, conversar
sobre tudo, trocar lembranças e isso seria maravilhoso. Ela adoraria.
Ligou de novo o gravador.
"Estarei em casa lá pelo dia sete, se precisar falar comigo é só ir
me procurar, senão eu lhe telefono no dia que combinamos."
Mas isso era fantástico! Teria que esperar bem menos do que imaginara.

Livros Florzinha - 81 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Adam lhe dissera que ficaria algumas semanas nos Estados
Unidos. Ligaria para ele no dia sete.
No dia seguinte vestiu-se com esmero. Quando entrou na redação
todos a admiraram e Karen veio correndo recebê-la com elogios.
— Ah, você precisava ver como eu me vestia em Purumaxi, isso
sim! — brincou Sally. — Isso é um presente que eu me dei. Você
gosta?
-Puxa, se gosto!
Sally estava mais magra, a pele se tornara bronzeada, o cabelo
estava com reflexos luminosos e havia uma aura de esplendor envolvendo-a.
Os outros colegas se aproximaram para ouvir as novidades e admirá-la. Sally havia
escrito um artigo, que seria a introdução da série
a ser publicada, dizendo quem era e onde estivera. Fotografaram-na para ilustrar a
matéria.
Depois foram almoçar todos juntos num restaurante, atrás do prédio da redação,
que costumavam frequentar. Quando já estavam terminando a refeição, Tim entrou
correndo,
temendo ter chegado tarde demais e não encontrar Sally.
Todos ali sabiam da situação deles e um fotógrafo que estava ao lado de Sally
ergueu-se e, sob pretexto de precisar voltar ao trabalho, despediu-se. Tim agradeceu
e sentou-se no lugar dele.
Karen ficou observando. Não acreditava que Tim tivesse chance de reconquistar
Sally, se era o que pretendia. Ele a cumprimentou ansioso e era visível que estava
contendo um impulso de abraçá-la.
— Você está linda! — disse ele. — Como vão as coisas? Me conta o que
aconteceu!
— Aconteceram várias coisas — falou Sally, retraindo-se. — Algumas realmente
surpreendentes.
— Onde está seu patrão?
— Se está se referindo a Adam, está nos Estados Unidos. Estará de volta dentro
de alguns dias.
— Você vai voltar pra casa de seus tios hoje mesmo?
— vou, Onde você queria que eu ficasse? — Ela sorriu. — No meu velho
apartamento, com Meg? Ela ainda está lá?
— Ahn. . . está sim.
Mas não continuaram a falar sobre isso, pois estavam num grupo e a conversa se
tornou geral. Na hora de ir embora, Tim deu um jeito de acompanhar Sally até o carro
dela e assim que ficaram sozinhos ele disse:
— Meg vai ficar chateada de não ter visto você.
— Como vai ela?
— Acho que vai bem.
A afirmação não continha entusiasmo e ela ficou pensando se Meg não estava
feliz. Realmente não havia mais rancor, não havia por que tratar mal Tim e Meg. No fundo
gostava deles.
— Olha, agora preciso ir embora, mas eu telefono à noite, está bem? Dê
lembranças a Meg.
Mas quem telefonou foi Meg, no fim da tarde.
— Nós fizemos uma festinha de despedida, lembra? — disse Meg.
— Por isso Tim e eu estávamos pensando em comemorar sua volta, aqui no
apartamento. O que você acha, Sally? Você vem?
— Se isso a deixa contente, está bem. Que tal na quinta-feira que vem?

Livros Florzinha - 82 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
Adam estaria de volta na terça-feira e Sally pensou em lhe telefonar e dizer que
precisaria ficar em Radchester para uma festa e pedir para dormir na casa dele,
naquele quarto que ele lhe oferecera uma vez. Só de pensar em vê-lo ficou feliz e
voltou para a mesa do jantar tão radiante que a tia reparou.
— Nossa! Quem foi que telefonou para você?
— Meg.
Mais tarde pensou melhor no assunto e resolveu não telefonar para Adam, ainda
mais para pedir uma coisa daquelas. Não seria nada sutil. Até hoje se arrependia de
ter sido oferecida na última noite em Purumaxi, não iria repetir o erro. Ela queria
conquistá-lo, portanto teria de agir com cuidado, não poderia correr assim atrás
dele. Seria melhor esperar que Adam lhe telefonasse. Se ela se atirasse em seus
braços, ele iria desprezá-la.
No jornal de quarta-feira saiu uma foto de Adam chegando ao aeroporto de
Londres, com um pequeno artigo falando sobre Purumaxi. Sally recortou e colocou no
espelho
da penteadeira em seu quarto.
Na quinta-feira chegou ao apartamento de Meg às seis horas, conforme combinara.
Deixou no porta-malas do carro a valise que trouxera para passar a noite. Se Meg
estivesse morando sozinha e a convidasse
114
para dormir lá, talvez aceitasse, senão voltaria para a casa dos tios, fosse a hora
que fosse. Em todo caso, achou melhor não decidir nada definitivamente
e esperar para ver o que acontecia.
Sally tocou a campainha e Meg veio abrir a porta. Estava usando um avental sobre
o terninho de cetim vermelho. Megan recebeu-a com alegria, como se nada tivesse
acontecido.
— Ah, Sally! Como estou contente de você ter voltado! Que bom que você veio!
Sally riu e disse que também estava contente.
Meg estava terminando os preparativos do jantar e, assim que Sally entrou, tirou o
casaco e perguntou:
— Não quer que eu dê uma mãozinha?
Mas Meg olhava com admiração e inveja a elegância com que ela estava vestida.
— Puxa, que roupas lindas! Você nunca se vestiu assim!
— Nunca pude me dar ao luxo, antes — disse Sally alegremente e ia explicar como
se acumularam no banco os salários de cinco meses, mas Meg a interrompeu.
— Quer dizer que está tudo bem, então?
— Não podia estar melhor.
— Puxa, como você tem sorte!
— Você também.
Mas Meg não parecia ter certeza disso. Pegou o casaco e a bolsa de Sally e levou-
os para o quarto. Sally a acompanhou. Ao lado da cama viu os sapatos de Tim e uma
camisa dele pendurada na cadeira.
— Hoje ele vai dormir no sofá da sala — disse Meg.
— Ah, não precisa se incomodar, eu vou voltar para casa de meus tios hoje
mesmo. Gosto de dirigir à noite!
— Ah, de jeito nenhum! — Meg foi até o armário guardar umas roupas de Tim, —
Ele vai querer se trocar quando chegar do serviço
— ela suspirou. — Sabe, acho que não me importaria se ele fosse embora. A mãe
dele não vai com a minha cara. Você recebeu minha carta? Puxa vida, que semana foi
aquela! Tim não pára de falar em você. Acho que você não. . .
Sally balançou a cabeça. Meg estava lhe oferecendo Tim de volta e pelo jeito como
ele se portara, Sally achou que era o que também estava pretendendo. Era o cúmulo

Livros Florzinha - 83 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
do descaramento! Será que esses dois não tinham vergonha na cara? Sally acabou
rindo.
— É, já vi que não — disse Meg, com ar sombrio. — Você gosta de Adam, não é?
— Eu estou apaixonada por ele — respondeu ela, sem refletir.
E só então percebeu que era a primeira vez que dizia isso e que era a mais pura
verdade. O sorriso morreu em seus lábios.
Ela amava Adam para valer. Sentiu uma onda de ternura e saudade, um desejo
enorme de ouvir a voz dele, de sentir o contato dele. Há dois dias que estava em casa,
já poderia ter falado com ele. Adam mesmo dissera que ela poderia procurá-lo se
precisasse. Sally se virou e ficou olhando para o telefone lá na sala.
— Posso dar um telefonema? Não é interurbano.
— É claro.
Sally saiu do quarto, enquanto Meg continuava a arrumar as rou pás, e fechou a
porta. Discou o número, ansiosa. Podia ser que Adam não estivesse, ou que outra pessoa
atendesse. E se fosse Vá nessa? Ficou rezando para que não fosse.
Adam atendeu. Disse alo e o número.
— Oi, é Sally.
— Oi, amor.
Ela sentiu uma moleza no corpo, só de ouvir a voz dele, e sorriu.
— Não está ocupado?
— Não.
— Será que eu poderia ver você?
— Onde você está?
— Em Radchester. Posso ir até aí?
Meg saiu do quarto em tempo de ouvi-la dizer:
— Já estou indo, então. — Desligou o telefone e olhou para Meg. — Sinto muito,
mas eu preciso ir. É Adam. . . trabalho. Quer que eu verifique umas coisas. . . sabe
como é, tenho que ir.
Meg fez um estardalhaço,, ficou chateada e Sally sabia que estava sendo
indelicada, afinal a festa era para ela. Mas não podia ficar. Talvez voltasse mais tarde.
Conversaria um pouco com Adam para amenizar a saudade e depois voltaria.
Talvez até o convidasse para vir junto. Porém naquele momento tudo o que queria era vê-
lo,
ficar sozinha com ele.
Desculpou-se pela milésima vez e saiu. Entrou no carro e dirigiu-se para a casa
dele. Quando chegou e abriu o portão teve a impressão de que ali era seu lar.
Atravessou o gramado cheio de folhas secas do outono. As luzes estavam acesas
no andar de baixo e no de cima. A casa devia estar cheia de gente, Adam não dissera
que estava sozinho. Podia ser que ele também estivesse dando uma festa. Mas
estava tudo muito silencioso.
Por que viera, afinal? Sabia que estava ali porque percebera de
116
repente que não suportaria mais um minuto longe dele, mas não podia
dizer isso a Adam. Precisava apresentar um motivo convincente para
explicar por que fora até lá àquela hora.
Ela bateu e ele abriu a porta imediatamente, antes que Sally tivesse
se preparado para enfrentá-lo.
— Entre, vamos para perto da lareira.
A noite estava fria. Ela o seguiu até a sala sem dizer nada. O fogo
crepitava aconchegantemente.
— O que você quer beber?

Livros Florzinha - 84 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Ahn?! Ah. . . qualquer coisa, o que você quiser. Adam preparou dois uísques, um
com soda.
Sally começou a desabotoar o casaco com dedos trémulos. Adam
pegou-o e colocou-o sobre uma cadeira, depois entregou-lhe o uísque
com soda. Nervosa, segurou o copo e deu alguns goles antes de se sentar.
— Pensei que fosse ficar mais tempo em Nova Iorque. Parece que . entendi você
dizer que passaria umas semanas lá. . . — Não... foi só o tempo de acertar umas
coisinhas.
Ele estava em pé perto da lareira, o copo apoiado no consolo.
O que será que queria dizer com "acertar umas coisinhas"? Será que
terminara tudo? Será que devia lhe perguntar se estava falando de Vanessa? Se
ele viesse sentar-se a seu lado seria bem mais fácil.
Procurou uma desculpa para justificar sua presença ali.
— Sabe, é que terminou tudo entre Tim e Meg. . . queria que você me
aconselhasse. Acha que devo voltar para Tim?
— Não.
— Por que não?
— Porque acho que eu sou mais digno de confiança.
Adam devia estar se referindo ao fato de ser mais seguro ela continuar trabalhando
para ele. Talvez quisesse dizer que uma boa carreira valia mais do que um casamento
arriscado.
— E eu posso confiar em você?
— Você ainda duvida?
Ela sabia que podia contar com ele para ajudá-la, mas não era só isso que
imaginava.
— Até que ponto? — perguntou ela, na expectativa.
— De corpo e alma, amor. Ou de alma e corpo, se preferir. . .
— Você está brincando comigo?
— Não.
Ele não parecia estar brincando, mas Sally não conseguia acreditar. Adam parecia
tímido para falar de amor. Pegou mais lenha e arrumou a lareira.
— E Vanessa? — Sally se encheu de coragem e perguntou, enquanto ele estava
de costas para ela.
— Quem?
Não era possível, ele devia estar querendo divertir-se às suas custas!
— A garota que vi na janela do seu quarto. Aquela do quadro que você pendurou
perto da cama, em Purumaxi...
Ele se virou, esfregando as mãos para limpar a poeira da lenha.
— Não da minha cama, se isso a preocupa. Perto da cama de Cari.
— De Cari?!
— Justamente.
— Mas você ia levar Vanessa para Purumaxi, não ia?
— Eu não me arriscaria a fazê-la atravessar as montanhas e embrenhar-se na
selva! — Ele bebeu uns goles do uísque e recolocou o copo no lugar depois sorriu. —
Você
não. Achei você surpreendente e corajosa desde que a vi pela primeira vez.
Mostrou saber lutar e enfrentar as coisas muito bem! Quando vi seu rosto, no momento
em
que avistamos Purumaxi, tive vontade de abraçá-la e beijá-la! Vanessa nunca teria
aquela expressão!
Se ele a tivesse beijado naquele dia, teria tido a maior surpresa de sua vida,
embora já não o detestasse mais. Agora, entretanto, era o que mais queria. Que Adam

Livros Florzinha - 85 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
a beijasse, que a tocasse.
Lembrou-se de sua euforia quando avistaram a mural-ha de Purumaxi, mas achou
que deveria estar horrorosa.
— Você encontrou Vanessa em Nova Iorque?
— Encontrei. Levei o quadro que Sheila pintou para ela e tivemos uma conversa.
— Está tudo terminado entre você e ela?, — A voz tremia.
— Definitivamente!
— Posso perguntar por quê?
— Pode. — Ele falava tão friamente que parecia estar se referindo a outra pessoa.
— Quando ela surgiu aqui, inesperadamente, na véspera do dia
em que você veio,
era a primeira vez que nos víamos depois de ter se casado. Disse que estava
sentindo minha falta, que o marido tinha
mais dinheiro, mas que eu tinha outras coisas
a meu favor que ele não tinha. . . — Adam sorriu com cinismo. — Ela achou que
poderíamos ter um relacionamento maravilhoso, encontrando-nos sempre, sem que
ninguém
soubesse e sem colocar em risco a posição social que adquirira.
— Mas você jamais aceitaria uma coisa dessas! — disse Sally, indignada. — É
uma situação sórdida!
— Pois é, você me conhece melhor do que ela, amor. Realmente não poderia
aceitar, não é do meu feitio. — E o que aconteceu depois?
— Nada. A não ser ela abrir a cortina daquele quarto, de manhã. Quando Vanessa
chegou já era meia-noite e ficamos conversando um tempão. Eu já havia programado a
viagem a Purumaxi, por isso disse
a ela que aproveitasse minha ausência para decidir com quem queria ficar. — Ele
foi até a escrivaninha e deixou os óculos lá em cima.
— Eu fiz minha escolha enquanto estava em Purumaxi, mudei de ideia, por isso foi
bom saber que ela desistira de mim.
— O que fez você mudar de ideia?
— Você, é claro! Eu me apaixonei por você! Estou amando pela primeira vez em
minha vida. . . e vai ser a única.
— Não estou entendendo. . . Você foi embora naquela última noite em Purumaxi.
Eu queria tanto que ficasse comigo. . . e você sabia.
— Eu sabia que você estava magoada com a traição que lhe fizeram, estava
precisando de apoio e compreensão. Não quis ser precipitado. Queria que se sentisse
segura
comigo, que confiasse em mim. . . Tinha medo que você se arrependesse depois.
Sally estendeu os braços e ele se aproximou, lentamente. Chegou bem perto,
segurou a mão dela e olhou-a nos olhos.
— Eu confio em você! Você podia ter. .. — ela enrubesceu você sabe que podia.
Ele se sentou ao lado dela, sério, falando pausadamente, como se quisesse
controlar a emoção.
— Eu não queria que acontecesse antes de ter certeza de que para você ia
significar tanto quanto para mim, porque quando formos um do outro será para sempre.
Ela ergueu a mão e acariciou o rosto dele, traçando o contorno dos lábios.
— Eu amo você como nunca amei ninguém. Quero ser sua!
— Sally...
Adam a envolveu nos braços e beijou seus lábios com ternura que aos poucos se
transformou em paixão ardente. Ela sentiu as mãos cálidas dele sobre seu corpo e aquela
intimidade lhe dava um prazer tão intenso que chegava a doer. Quanto ansiara por
isso!

Livros Florzinha - 86 -
Magia Tropical (Forest of the night) Janne Donnely
Sabrina no. 73
— Vamos nos casar logo. . . — murmurou ele, entre um beijo e outro.
Ela sorriu olhando-o nos olhos.
— Acho que a tia Esme tem razão, eu comprei um enxoval mesmo. Comprei uma
porção de roupas bonitas porque estava decidida a competir com Vanessa. Eu queria
conquistar você!
— Você está linda! Só que quando sonho com você, a roupa é o de menos. . .
— Ah. . . meu amor. . .
Sally sorriu. Sabia bem que sonho era esse. Ela também sonhava. Agora podiam
realizar o sonho. Era o começo de uma vida nova que prometia ser maravilhosa. Feliz,
abraçou-o com força e sorriu de novo.

FIM

Livros Florzinha - 87 -